Política Nacional de Humanização (PNH) como Ferramenta de Gestão: uma análise bibliográfica Aluna: Milene Daiana Martins de Souza1 Orientador: Marcos Abílio Bosquetti2 Tutora: Maria Luciana Biondo Silva3 Resumo Abstract Este artigo é uma pesquisa bibliográfica relacionada à Política Nacional de Humanização, vista como uma ferramenta de gestão, e tem como objetivo geral identificar fatores positivos da implantação da Política Nacional de Humanização (PNH) como ferramenta de gestão do SUS, bem como a sua importância para a Estratégia de Saúde da Família. A pesquisa foi feita em periódicos impressos e eletrônicos nas bases de dados do Scientif Eletronic Library Online (SciELO). Foram analisadas publicações de 1994 a 2012, com os descritores: Política Nacional de Humanização; Estratégia de Saúde da Família; Humanização. O assunto deste artigo trata da importância de o Brasil ser um país que busca oferecer um serviço de qualidade à população através de um sistema de saúde que atenda suas necessidades. This paper is a bibliographical review related to National Humanization Policy as a management tool, which had the general objective to identify positive factors of implementation of Nacional Humanization Policy as a management tool of SUS, as for its importance to family healthy strategy. The research was made in printed and electronic journals on Scientific Eletronic Library Online databases (SciELO). It was analyzed publications from 1994 to 2012, with descriptors: National Humanization Policy; Family Health Strategy; Humanization. The subject of this paper concerned with Brazil to be a country that aims to offer a qualified service for the population through a Health Service that served its necessities. Palavras-chave: Política Nacional de Humanização. Estratégia de Saúde da Família. Humanização. 1 Key words: National Humanization Policy. Family Health Strategy. Humanization. Graduada em Enfermagem pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI (2009). E-mail: [email protected]. 2 Doutor em Administração pela Universidade de São Paulo – USP (2009) modalidade sanduíche com estágios na Melbourne University, Austrália (2008) e na McGill University, Canada (2007). E-mail: [email protected]. 3 Graduada em Administração pela Universidade do Vale do Itajaí (2000). Especialização ( Lato Sensu) em Gestão de Pessoas nas Organizações pela Universidade Federal de Santa Catarina (2011). E-mail: [email protected]. Política Nacional de Humanização (PNH) como Ferramenta de Gestão: uma análise bibliográfica 1 Introdução São inúmeras as transformações pelas quais o sistema de saúde no Brasil vem passando nos últimos anos. Pode-se citar como marcos a promulgação da Constituição Federal, em 1988, que deu origem ao Sistema Único de Saúde (SUS), e a 8ª Conferência Nacional de Saúde, a qual também contribuiu para a formulação de princípios e de diretrizes norteadores do sistema. Para modificar e melhorar as condições de saúde da população, muito se tem debatido e realizado. Inicialmente, a Saúde da Família era entendida como uma estratégia de reorientação do modelo assistencial, o qual acompanhou a evolução histórica e a organização do sistema de saúde no Brasil. Em 1994, criou-se o Programa de Saúde da Família (PSF), que tem como objetivo aprimorar o modelo de atenção à saúde, sob a estratégia de reorganização da Atenção Básica do SUS, com o propósito de agilizar de forma efetiva e de descentralizar os serviços, baseado nas reais necessidades da população, fundamentando-se no vínculo e na corresponsabilidade entre os profissionais de saúde e a população, visando à família e ao seu meio (FINKELMAN, 2002). Mais tarde o PSF ganhou nova denominação e passou a ser chamado: Estratégia de Saúde da Família (ESF). Para Brasil (2001), entender a Saúde da Família como estratégia de mudança significa repensar valores e conhecimentos dos participantes do processo de produção social de saúde. No intuito de contribuir para uma melhoria do Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde criou em 2004 a Política Nacional de Humanização da Gestão e da Atenção (PNH), com o objetivo de fortalecer o Sistema Público de Saúde. (BRASIL, 2004a) A PNH busca colocar em prática no cotidiano dos serviços de atenção à saúde os princípios do SUS. Dessa forma, pode-se atribuir à PNH uma estratégia de gestão, já que, no que tange à saúde, fundamentalmente, se deseja mais qualidade de vida, de saúde e menos doenças. A tarefa dos gestores do SUS é proporcionar e facilitar a organização do sistema, para que os problemas possam ser superados e as metas alcançadas. Este artigo se propõe a discutir como intelectuais e pesquisadores da área percebem os fatores positivos da implantação da Política Nacional de Humanização (PNH) como ferramenta de gestão do SUS, bem como a sua importância para a Estratégia de Saúde da Família, respondendo ao ques- 162 Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 Milene Daiana Martins de Souza # Marcos Abílio Bosquetti # Maria Luciana Biondo Silva tionamento levantado para a pesquisa: como intelectuais avaliam a PNH no contexto da gestão do SUS? Definiu-se, então, como objetivo geral, identificar os fatores positivos da implantação da Política Nacional de Humanização (PNH) como ferramenta de gestão do SUS, bem como sua importância para a Estratégia de Saúde da Família (ESF). Para que esse objetivo fosse devidamente alcançado, caracterizaram-se três objetivos específicos: compreender a importância da PNH como evolução do SUS; relacionar a ESF e a PNH como ferramenta de gestão do SUS; e, por último, registrar a percepção de autores sobre a efetividade da Política Nacional de Humanização. 2 O Sistema de Saúde no Brasil Como se sabe, o SUS é o resultado de lutas pela redemocratização da sociedade brasileira que aconteciam em meio a movimentos de resistência à ditadura militar. Em 1948, o direito à saúde foi reconhecido internacionalmente a partir da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas. Já em 1978, foi realizada a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários da Saúde, em que a Declaração de Alma-Ata reafirmou a saúde como um direito universal. (MITRE; ANDRADE; COTTA, 2012) Muitas são as transformações pelas quais o Brasil tem passado em seu sistema de saúde. A promulgação da Constituição Federal em 1988 deu origem ao Sistema Único de Saúde (SUS), e a VIII Conferência Nacional de Saúde contribuiu para a definição de diretrizes e dos princípios norteadores do SUS. Dessa forma, o SUS apresentou proposições definindo a saúde como direito de todos e dever do Estado; a universalidade e equidade do acesso à saúde; a busca da prevenção antes da cura; a visão da integralidade na assistência ao indivíduo; a descentralização do sistema de saúde; a participação complementar dos grupos privados na saúde; a ênfase nas áreas de saúde do trabalhador e na vigilância epidemiológica e sanitária; o incentivo à participação comunitária efetiva; e o financiamento do sistema de saúde brasileiro de maneira tripartite entre União, Estados e Municípios. Contrapondo o modelo biomédico predominante no Brasil, seguem várias propostas, nas quais se destacam ações programáticas de saúde, o aco- Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 163 Política Nacional de Humanização (PNH) como Ferramenta de Gestão: uma análise bibliográfica lhimento, a vigilância em saúde e a promoção de saúde, como estratégias de intervenção que auxiliam na concretização dos princípios e diretrizes do SUS. Para Pasche e Passos (2008, p. 92), “[...] o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma conquista nascida das lutas pela democracia no país que em 1988 ganhou estatuto constitucional.” Assim, em 1990, foi regulamentada a reforma sanitária com a proposição do Sistema Único de Saúde (SUS), através da homologação das Leis Orgânicas da Saúde n. 8.080, de 19 de setembro de 1990, e n. 8.142, de 18 de dezembro de 1990, que vigoram no país. (CORDEIRO, 2004) No decorrer da evolução do Sistema de Saúde no Brasil, o conceito saúde-doença também vem sofrendo mudanças, sendo definido ora como “estado de ausência de doença”, ora como “estado de completo bem-estar físico, mental e social”. No entanto, esse conceito, visto como um componente integrado e dinâmico de condições concretas, teve sua definição mais ampliada na Lei Orgânica de Saúde (LOS) n. 8.080, de 19 de setembro de 1990, sendo definido como: A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País. (BRASIL, 1990 apud OLIVEIRA; GRABOIS; MENDES, 2009, p. 29) Tendo passado por etapas importantes, o SUS vem se solidificando e buscando meios para atender às demandas de cada região. Para isso, vem criando novas políticas e programas. Em 2006, a criação do Pacto pela Saúde vem propor um conjunto de reformas institucionais do SUS, em que acontece a pactuação das três esferas de gestão de governo: União, Estados e Municípios, estabelecendo metas e compromissos para cada ente da federação, com o objetivo de propor a melhoria dos serviços ofertados à população e a garantia de que todos tenham acesso a eles. Nessa proposta, está contido o Pacto pela Vida, o Pacto em Defesa do SUS e o Pacto de Gestão do SUS. O Pacto pela Vida reforça no SUS o movimento da gestão pública por resultados e estabelece um conjunto de compromissos sanitários considerados prioritários, que são pactuados de forma tripartite. Esses compromissos podem ter suas prioridades agregadas conforme a realidade de cada região. 164 Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 Milene Daiana Martins de Souza # Marcos Abílio Bosquetti # Maria Luciana Biondo Silva O Pacto em Defesa do SUS expressa os compromissos entre gestores do SUS articulando ações que visem qualificar e assegurar o SUS como política pública. Já o Pacto de Gestão do SUS valoriza a relação solidária entre gestores, definindo as diretrizes e responsabilidades e contribuindo para o fortalecimento da gestão. (BRASIL, 2009) Para Pasche, Passos e Hennington (2011), a construção do SUS teria como uma de suas consequências o aperfeiçoamento de nossa própria experiência como sociedade, então, mais justa e solidária a partir da defesa de valores como a democracia direta, o controle social, a universalização de direitos e humanização do cuidado, ampliando ainda a visão de saúde para além da assistência com a incorporação da promoção e prevenção e reconhecendo o cidadão não como simples cliente, paciente ou usuário, mas como sujeito. 2.1 A Estratégia de Saúde da Família Com o impeachment de Collor, o governo Itamar Franco elaborou, ao final de 1993, a primeira proposta do Programa Saúde da Família, tentando dar forma para a Atenção Básica, considerada a “porta de entrada do SUS”, entendendo que, enquanto não se resolvesse esta instância, a demanda existente procuraria sempre os serviços dependentes de hospital, utilizando uma tecnologia pesada e medicamentos. (DA ROS, 2000 apud BRASIL, 2010) Na ocasião, o então ministro Henrique Santillo relembrou o nome sugerido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para iniciar um programa de saúde comunitária, que foi chamado de Programa de Saúde da Família (PSF). Também é importante mencionar que o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), antecessor do PSF, também foi lançado para configurar no cenário nacional como um potencial integrador da política pública governamental. (BRASIL, 2010) De acordo com a proposta do Ministério da Saúde, o PSF “[...] é um modelo de assistência à saúde que vai desenvolver ações de promoção e proteção à saúde do indivíduo, da família e da comunidade, no nível de atenção primária.” (BRASIL, 1994, p. 71) Para Brasil (2000), o Programa de Saúde da Família (PSF) tem o objetivo de contribuir para a reorientação do modelo assistencial a partir da Atenção Básica, em conformidade com os princípios do SUS, objetivando uma nova dinâmica de atuação nas unidades básicas de saúde, com a definição de responsabilidades entre os serviços de saúde e a população. O seu objetivo é Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 165 Política Nacional de Humanização (PNH) como Ferramenta de Gestão: uma análise bibliográfica consolidar e reestruturar as práticas de atenção à saúde em consonância com o preconizado - universalidade, equidade e integralidade - pelo SUS. Começa, então, em 1994, o governo de Fernando Henrique Cardoso, que inicialmente investe pouco em políticas de saúde. A forma de financiamento do PSF ainda não estava definida, tampouco a formação dos recursos humanos para este novo trabalho. Somente em 1996, criaram-se os Polos de Capacitação, Formação e Educação Permanente para o pessoal do PSF e houve uma proposta de ampliação dos recursos aos municípios que se comprometessem com o programa. Com isso, rapidamente, começaram a se multiplicar equipes por todo o Brasil, com as premissas do SUS como base, acrescidas dos princípios da Atenção Básica e da Saúde da Família. Algumas dessas características são: trabalho com promoção da saúde, acolhimento, visitas domiciliares, trabalho em equipes multidisciplinares, educação em saúde, alta resolutividade. Assim, tem início a expansão do SUS rumo à universalidade e à equidade. (BRASIL, 2010) Com o objetivo de aperfeiçoar o vínculo entre o profissional da Saúde da Família e os usuários do SUS, foi criada em 2003 a Política Nacional de Humanização (PNH), que traz, como elemento em sua proposta de humanização, o acolhimento do usuário da saúde. 2.2 Política Nacional de Humanização (PNH) No início de 2003, o Ministério da Saúde (MS) decidiu fazer uma aposta na “humanização” como re-encantamento do SUS. Ainda que timidamente, este tema já se anunciava desde a 11ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 2000, que tinha como título “Acesso, qualidade e humanização da atenção à saúde com controle social.”(PASCHE; PASSOS, 2008, p. 92) Para Andrade (2007), a humanização em saúde está voltada para as práticas concretas comprometidas com a produção de saúde e com os sujeitos, de tal modo que atender melhor o usuário se dá em sintonia com melhores condições de trabalho e de participação dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde. Esse voltar-se para as experiências concretas considera o humano em sua capacidade criadora e singular inseparável dos movimentos coletivos que o constituem. 166 Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 Milene Daiana Martins de Souza # Marcos Abílio Bosquetti # Maria Luciana Biondo Silva Assim, confirmando o acima aludido, o Ministério da Saúde declara que, orientada pelos princípios da transversalidade e da indissociabilidade entre atenção e gestão, a humanização se expressa, a partir de 2003, como Política Nacional de Humanização (PNH). A PNH é, portanto, uma política do SUS. Também chamada de HumanizaSUS, ela se compromete com a construção de uma nova relação, seja entre as demais políticas e programas de saúde, seja entre as instâncias de efetuação do Sistema Único de Saúde (SUS) ou entre os diferentes atores que constituem o processo de trabalho em saúde. O aumento do grau de comunicação em cada grupo, e entre os grupos (princípio da transversalidade), e o aumento do grau de democracia institucional por meio de processos de cogestão da produção de saúde e do grau de corresponsabilidade no cuidado são decisivos para a mudança que se pretende em relação à Política Nacional de Humanização. (BRASIL, 2004a) Para Santos Filho e Barros (2007), a Política Nacional de Humanização (PNH) propõe transformações em duas vertentes: nas formas de produzir e prestar serviços à população (eixo da atenção) e nas relações sociais, que envolvem gestores e trabalhadores no cotidiano da organização e condução de serviços (eixo da gestão). A PNH traz conceitos e dispositivos que visam à reorganização dos processos de trabalho em saúde. O autor afirma ainda que a gestão dos serviços e a atenção em saúde são vistos de maneira indissociável, valorizando trabalhadores e usuários. O eixo da gestão busca a implementação de instâncias participativas de decisão e de horizontalização das “linhas de mando”, o que valoriza o trabalho em equipe e democratiza os processos decisórios, com corresponsabilização de gestores, trabalhadores e usuários. No eixo da atenção, a PNH reforça princípios do SUS, de acessibilidade e integralidade, avançando para o que se tem definido como “clínica ampliada”, capaz de acolher e lidar melhor com as necessidades dos sujeitos. (SANTOS FILHO; BARROS, 2007) Os valores norteadores da PNH são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a corresponsabilidade e o estabelecimento de vínculos solidários, assim como a construção de redes de cooperação e participação coletiva no processo de gestão. (BRASIL, 2004a) Assim, a Política Nacional de Humanização se intensifica e aposta na humanização das práticas de gestão e de atenção, nos modos de gerir e nos modos de cuidar. Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 167 Política Nacional de Humanização (PNH) como Ferramenta de Gestão: uma análise bibliográfica 3 Metodologia Para Leopardi (2002, p. 163), “[...] metodologia é a arte de dirigir o espírito na investigação da verdade, por meio do estudo dos métodos, técnicas e procedimentos capazes de possibilitar o alcance dos objetivos.” Esta pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, resultado das avaliações das publicações no período de 1994 a 2012, e utiliza como descritores: Política Nacional de Humanização; Estratégia de Saúde da Família; e Humanização. A seleção do material ocorreu nos meses de outubro a novembro de 2012, e os artigos científicos foram selecionados em periódicos impressos e em consulta eletrônica nas bases de dados do Scientif Eletronic Library Online (SciELO). Inicialmente, a busca de dados a partir dos descritores resultou em 27 artigos cujos resumos foram lidos e analisados. Desses 27 artigos, foram excluídos aqueles que não atendiam aos objetivos do estudo. Assim, a análise dos dados foi feita a partir de 10 artigos científicos, os quais abordaram o tema “Política Nacional de Humanização”. Após a identificação do material, procedeu-se à sua leitura e a seu fichamento, sendo os dados agrupados por semelhança e as categorias deste estudo construídas. 4 Análise e Resultados Para atender ao objetivo proposto de identificar os fatores positivos da implantação da Política Nacional de Humanização (PNH) como ferramenta de gestão do SUS, bem como sua importância para a Estratégia de Saúde da Família (ESF), foi realizada a busca de artigos científicos que auxiliassem na construção dessa pesquisa. Apesar de se ter avançado em muitas áreas na saúde, identifica-se ainda a necessidade de fortalecimento do vínculo entre profissionais da saúde e usuários, um atendimento mais próximo do preconizado pelo SUS em seus princípios. Pasche (2009) define a Política de Humanização do SUS como uma aposta ético-política para o seu aprimoramento, com a proposta de unir os sujeitos, qualificando as práticas e serviços de saúde em defesa da vida e melhorando a experiência de viver em sociedade. O autor aponta ainda que é 168 Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 Milene Daiana Martins de Souza # Marcos Abílio Bosquetti # Maria Luciana Biondo Silva necessário compreender o sentido da política pública de saúde para construir um SUS inclusivo e resolutivo. Para Benevides e Passos (2005), a humanização do SUS indica mudanças nas práticas de atenção e gestão, cuja aposta é nos sujeitos, na qual a transformação deles forma coletivos para que as práticas de saúde sejam alteradas. A PNH afirma-se como política pública porque dialoga e tensiona para traduzir os princípios do SUS em “como fazer” as práticas de atenção e de gestão, assim como estimular as trocas solidárias entre gestores, trabalhadores e usuários na produção de saúde. (PEDROSO; VIEIRA, 2009) Para efetivar a aposta que o SUS faz na universalidade do acesso, na integralidade do cuidado e na equidade das ofertas em saúde, é necessário que haja trabalhadores e usuários protagonistas e corresponsáveis. Por isso, quando se fala da “Humanização do SUS”, fala-se também de um processo de subjetivação que se efetiva com a alteração dos modelos de atenção e de gestão em saúde, isto é, novos sujeitos implicados em novas práticas de saúde. Pensar a saúde como experiência de criação de si e de modos de viver é tomar a vida em seu movimento de produção de normas. (BENEVIDES; PASSOS, 2005) Para Souza e Ferreira (2010), embora o processo de trabalho em alguns setores proporcione constantes desgastes e envolva fatores que constituem obstáculos para a oferta da assistência humanizada, percebe-se que trabalhadores criam estratégias para atender às necessidades dos usuários e também desenvolvem ações que facilitem suas práticas. A produção de cuidado humanizado ainda é um desafio, sendo numerosos as dificuldades e os obstáculos encontrados pelos profissionais em seu processo de trabalho. As questões da gestão dos recursos humanos e do espaço físico são descritas como um fator que constitui uma grande barreira no cuidado humanizado e na aplicação de conceitos trazidos pela PNH. Benevides e Passos (2005) dizem que, ao se falar da humanização do SUS, remete-se ao processo de subjetivação que se efetiva com a alteração dos modelos de atenção e de gestão em saúde, isto é, novos sujeitos implicados em novas práticas de saúde. Pensar a saúde como experiência de criação de si e de modos de viver é tomar a vida em seu movimento de produção de normas, e não de assujeitamento a elas. Para o autor, o plano público é aquele construído a partir das experiências de cada homem. Então, huma- Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 169 Política Nacional de Humanização (PNH) como Ferramenta de Gestão: uma análise bibliográfica nizar as práticas de atenção e gestão em saúde é, para a PNH, considerar a humanidade como força coletiva que impulsiona e direciona o movimento das políticas públicas. Já Pasche, Passos e Hennington (2011) definem a trajetória da Política Nacional de Humanização como “emergencial”, uma vez que a política pública foi construída para enfrentar e superar os desafios enunciados pela sociedade brasileira quanto à qualidade e à dignidade no cuidado em saúde, assim como redesenhar e articular iniciativas de humanização do SUS e enfrentar problemas no campo da gestão e da organização do trabalho em saúde. Na visão de Hennington (2008, p. 556), A Política Nacional de Humanização (PNH), proposta pelo Ministério da Saúde em 2003, pretende ter caráter transversal, perpassando todos os níveis de atenção à saúde. A humanização é entendida como uma transformação cultural da atenção aos usuários e da gestão de processos de trabalho. O diferencial dessa política reside também na preocupação com a capacitação e o desenvolvimento dos trabalhadores do setor saúde, proporcionando condições adequadas para a execução das atividades laborativas e para que os que cuidam possam ter suas necessidades satisfeitas. Ainda para Hennington (2008), a PNH pretende reorientar as práticas em saúde numa perspectiva de transversalidade. A partir da democratização das relações de trabalho e da valorização dos trabalhadores da saúde, preconizou-se a construção de redes cooperativas, solidárias e comprometidas com a produção de saúde, estimulando assim o protagonismo e autonomia de sujeitos, bem como sua corresponsabilidade nos processos de gestão e atenção. Dessa forma, o modelo coletivo de produção de saúde e de sujeitos e a cogestão se tornam conceitos norteadores da PNH como política pública. Segundo Silva, Chernicharo e Ferreira (2011, p. 307), “Na PNH há participação de todos os sujeitos atuantes nos processos de saúde: gestores, trabalhadores de saúde e usuários.” As autoras dizem ainda que: A Política Nacional de Humanização alude a princípios políticos abrangentes e afasta qualquer possibilidade de que haja práticas pessoalizadas, no sentido de que a humanização responda pelas individualidades implicadas no cuidado. Como uma política, 170 Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 Milene Daiana Martins de Souza # Marcos Abílio Bosquetti # Maria Luciana Biondo Silva tem diretrizes e estratégias para implantação, nas quais os profissionais e clientes são elementos-chave, mas não que de suas personalidades dependam as orientações das ações mais ou menos humanizadas e humanizantes. Em princípio, todos os profissionais podem integrar as práticas segundo as diretrizes da PNH. (SILVA; CHERNICHARO; FERREIRA, 2011, p. 312) Concordando com o aludido anteriormente, Souza e Mendes (2009) dizem que a PNH nasce como radicalização da aposta na humanização. Seu documento-base assume, entre outras diretrizes, que a humanização deve ser vista como política que transversaliza todo sistema: das rotinas nos serviços às instâncias e estratégias de gestão, criando operações capazes de fomentar trocas solidárias, em redes multiprofissionais e interdisciplinares, em que gestores, profissionais e usuários entendem-se em processos humanizados de produção dos serviços, utilizando novas formas de pensar e cuidar a saúde, assim como de enfrentar seus agravos. De modo mais abrangente, a percepção de Mori e Oliveira (2009) sobre a PNH é a de que ela, como política de saúde que objetiva o fortalecimento e a efetivação do SUS, se compromete com a qualificação desse sistema de saúde pública, no qual um novo jeito de produzir saúde implica a produção dos sujeitos envolvidos (gestores, trabalhadores e usuários), ofertando dispositivos, ou seja, modos de fazer, formando apoiadores institucionais e, por meio destes, construindo, junto com as equipes, outro formato do trabalho em saúde. Ainda para Mori e Oliveira (2009), com o desafio de articular as demais políticas e programas, a PNH realiza vários movimentos, como o Prêmio HumanizaSUS David Capistrano, o Seminário Nacional HumanizaSUS e o Coletivo HumanizaSUS-MS, considerados estratégicos para a divulgação da PNH, contando com a participação efetiva dos trabalhadores e gestores do SUS na realização de tais movimentos. 5 Considerações Finais A Política Nacional de Humanização (PNH), formulada e lançada pelo Ministério da Saúde em 2003 e apresentada ao Conselho Nacional de Saúde (CNS) em 2004, protagonizou propostas de mudança dos modelos de gestão Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 171 Política Nacional de Humanização (PNH) como Ferramenta de Gestão: uma análise bibliográfica e de atenção no cotidiano dos serviços de saúde, propondo-os indissociáveis. Portanto, essa política assume o desafio de ressignificar o termo humanização. Pode-se dizer que, para grande parte dos autores consultados, a Política Nacional de Humanização da Gestão e da Atenção (PNH) é uma estratégia de fortalecimento do Sistema Público de Saúde, cujo propósito é contribuir para a melhoria da qualidade da atenção e da gestão da saúde no Brasil, por meio do fortalecimento da humanização como política transversal de rede e afirmando a indissociabilidade do modelo de atenção e de gestão. Muito tem sido feito nos últimos anos no sentido de se modificar as condições de saúde da população, tendo-se a ESF como um marco importante, com o desafio de levar saúde a milhares de brasileiros, visando substituir o modelo tradicional de saúde baseado na valorização do hospital e da doença por um novo modelo que prioriza a prevenção e a promoção da saúde, com a participação popular. Nesse contexto, a PNH como política pública, portanto processual, se constrói a partir de experiências cotidianas, dos processos de trabalho em curso nos serviços de saúde, afirmando-se nas práticas concretas dos trabalhadores, usuários e gestores que compõem o SUS. Verificou-se ainda que apenas um pequeno percentual de textos pesquisados correlacionava a Política Nacional de Humanização à ESF, fato que também requer atenção, diante da base que a estratégia explana da construção de vínculos entre os profissionais de saúde e usuários, bem como na corresponsabilização com a resolução dos problemas de saúde da comunidade. Mesmo com todas as dificuldades de implementação, a PNH tem avançado internamente na cogestão, mesmo porque seu objetivo maior é apoiar a disseminação e implantação de um novo modo de gerir a rede SUS. A reflexão mais profunda a ser considerada através da pesquisa realizada foi a constatação do objetivo comum que corresponde à produção de novas atitudes por parte de trabalhadores, de gestores e usuários, superando problemas e desafios do cotidiano de cada um. Enfim, com a produção deste artigo, espera-se ter contribuído para a produção científica e incentivado novas pesquisas voltadas à humanização na atenção à saúde; e espera-se também que sirva de subsídio para a avaliação, reordenação e efetiva implementação da PNH nas unidades de saúde. 172 Coleção Gestão da Saúde Pública – Volume 8 Milene Daiana Martins de Souza # Marcos Abílio Bosquetti # Maria Luciana Biondo Silva Referências ANDRADE, J. T. de (Coord.). Em busca do humano: avaliação do humaniza SUS em ações municipais de saúde em Fortaleza. Observatório de Recursos Humanos em Saúde. Núcleo de Pesquisa em Educação e Saúde Coletiva – UECE. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará – UFC, 2007. BENEVIDES, R.; PASSOS, E. 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