UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE FACULDADE DE ENFERMAGEM PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SAÚDE E SOCIEDADE COMPORTAMENTO DA MODULAÇÃO AUTONÔMICA DO CORAÇÃO DE JOVENS OBESOS E EUTRÓFICOS SUBMETIDOS A EXERCÍCIO CONTÍNUO E INCREMENTAL GLEIDSON MENDES REBOUÇAS Mossoró – RN 2014 GLEIDSON MENDES REBOUÇAS COMPORTAMENTO DA MODULAÇÃO AUTONÔMICA DO CORAÇÃO DE JOVENS OBESOS E EUTRÓFICOS SUBMETIDOS A EXERCÍCIO CONTÍNUO E INCREMENTAL Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Saúde e Sociedade, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, como requisito final para obtenção do grau de Mestre em Saúde e Sociedade. Orientador: Prof. Dr. Humberto Jefferson de Medeiros Mossoró-RN 2014 Catalogação da Publicação na Fonte. Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Rebouças, Gleidson Mendes. Comportamento da modulação autonômica do coração de jovens obesos e eutróficos submetidos a exercício contínuo e incremental. / Gleidson Mendes Rebouças. – Mossoró, RN, 2014 61 f. Orientador(a): Prof. Dr. Humberto Jefferson de Medeiros Dissertação (Mestrado em Saúde e Sociedade). Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Programa de Pós-Graduação em Saúde e Sociedade. 1. Obesidade - Dissertação. 2. Sistema nervoso autônomo - Dissertação. 3. Frequência cardíaca - Dissertação. I. Medeiros, Humberto Jefferson de. II. Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. III.Título. Bibliotecária: Elaine Paiva de Assunção CRB 15 / 492 UERN/BC CDD 616.398 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE FACULDADE DE EDUCAÇÃO FÍSICA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO FÍSICA A COMISSÃO ABAIXO ASSINADA APROVA A DISSERTAÇÃO INTITULADA COMPORTAMENTO DA MODULAÇÃO AUTONÔMICA DO CORAÇÃO DE JOVENS OBESOS E EUTRÓFICOS SUBMETIDOS A EXERCÍCIO CONTÍNUO E INCREMENTAL Elaborada por GLEIDSON MENDES REBOUÇAS COMO REQUISITO FINAL PARA A OBTENÇÃO DO TÍTULO DE MESTRE EM SAÚDE E SOCIEDADE BANCA EXAMINADORA: Humberto Jefferson de Medeiros (UERN-RN) ____________________ José Carlos Gomes de Carvalho Leitão (UTAD-Portugal) ____________________ João Batista da Silva (UERN-RN) ____________________ Mossoró – RN 2014 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho aos meus pais José Maria Rebouças de Lima e Zilma Mendes Ferreira que são a maior prova de perseverança e luta frente aos desafios da vida, sempre com bom enfrentando-os humor e me encorajando com maestria na busca dos meus objetivos. AGRADECIMENTOS Primeiramente ao meu bom Deus, que sempre esteve comigo nas horas mais sombrias e nas aflições mais profundas; Aos meus pais José Maria Rebouças de Lima e Zilma Mendes Ferreira Lima, por todo o amor e compreensão na minha ausência como único filho, por terem dado o próprio sangue para me assegurar uma educação primorosa. Sou e serei eternamente grato pela maior herança que um filho pode receber de seus pais: hombridade, valores e princípios que fazem ser o que sou hoje; Ao professor Raimundo Rocha da Silva (in memorian) que plantou uma ideia na cabeça de um jovem ginasta e vislumbrou um futuro na Educação Física para um menino pobre e desajeitado com as acrobacias. Que Deus esteja com você se divertindo com suas infinitas histórias; Aos grandes mestres e amigos, Aldo Gondim Fernandes, Deusdedit dos Reis Couto Neto, Antônio de Pádua Lopes, Maria Ione da Silva e José Nunes de Morais pelas sinceras palavras de amizade e cuidado que sempre tiveram por mim desde os primeiros dias de graduação, quando eu era apenas um cearense sem dinheiro para o lanche e de sorriso amarelo no rosto; Aos amigos Thiago Renee Felipe e Nailton Albuquerque (“os caveiras”) companheiros de viagens nas longas madrugadas rumo a Mossoró para cumprirmos nossas obrigações acadêmicas. Apesar de estar na estrada a mais tempo, tenho enorme orgulho de tê-los comigo nessa etapa da vida. Que venha nosso Doutorado e que nossas famílias comunguem nossa parceria; Ao amigo João Carlos (“joquinha”), que se mostrou um amigo sincero e um profissional capacitado no âmbito da Saúde Pública; A Cíntia Aracelli Borges de Souza “cara de fuinha azeda” e a Eunice Borges de Souza por terem feito parte desse sonho que se concretiza hoje, mas se iniciou quando atravessamos o atlântico. Em terras Lusas ficou uma aliança de ouro, mas comigo ficou algo mais precioso, a eterna gratidão por todo o tempo que estivemos juntos; A todos os outros amigos do mestrado em especial Ubilina e Amélia, por tolerarem minhas brincadeiras e se mostrarem pessoas dotadas de uma sensibilidade majestosa; As crianças que se propuseram a participar desse estudo sem sequer entender ao certo a dimensão do seu significado e aos pais pela confiança depositada nesse humilde pesquisador; Aos meus alunos do Grupo de Estudos em Modulação Autonômica do Coração – GEMAC (Polyana, Edmilson, Priscila, Cynthia e Wellington) pela dedicação e empenho neste tema. Aos outros que já passaram pelo grupo, o meu enorme agradecimento; Ao meu orientador, o professor Humberto Jefferson de Medeiros, que nos últimos 12 anos da minha vida dediquei o meu respeito, busquei sempre dar-lhe o máximo de orgulho, como a um pai (“papito”) que foi não só academicamente mas em outras horas muito importantes da minha vida. Não fui o seu melhor aluno mas serei sempre o mais devotado e mais ciumento deles; A Profa. Maria Irany Knackfuss “gringa” ou como deveria dizer “mamusca”. Foi sempre um exemplo de força de trabalho e inspiradora no âmbito da pesquisa além de conselheira para a vida pessoal. Minha carreira na UNI-RN devo à oportunidade que foi dada pela senhora na então FARN, nunca irei esquecer o que fez por mim. A toda a minha família, primos, primas, tios, tias, avós e avôs (in memorian) que mesmo distante torceram sempre para que eu alcançasse os meus objetivos. Essa vitória é de todos vocês! SUMÁRIO Pág. RESUMO XI ABSTRACT XII 1 INTRODUÇÃO 13 1.1 O Problema 13 1.2 Objetivos 16 1.2.1 Objetivo geral 16 1.2..2 Objetivo específico 16 1.3 Justificativa 16 2 REVISÃO DE LITERATURA 18 2.1 Aplicação clínica variabilidade da frequência cardíaca (VFC) e sua 18 interpretação 2.2 Respostas autonômicas decorrentes da obesidade em 27 populações jovens 3 METODOLOGIA 32 3.1 Caracterização da pesquisa 32 3.2 População e Amostra 32 3.2.1 População 32 3.2.2 Amostra 32 3.3 Instrumentos de coleta dos dados 33 3.4 Procedimentos para coleta de dados 35 3.5 Tratamento estatístico 37 4 RESULTADOS 39 5 CONCLUSÕES E SUGESTÕES 52 6 REFERÊNCIAS 53 ANEXOS 61 LISTA DE TABELAS Pág. TABELA 1 Análise descritiva dos dados antropométricos da amostra 39 TABELA 2 Análise descritiva das variáveis dependentes relacionadas ao 40 desempenho não fisiológico no exercício TABELA 3 Componentes de domínio da Frequência para o grupo Eutrofia 41 nas fases do protocolo de execução com apresentação das diferenças nas comparações por medidas repetidas obtidas pela GLM TABELA 4 Valores das componentes de domínio da Frequência para o 42 grupo Obesidade nas fases do protocolo de execução com apresentação das diferenças nas comparações por medidas repetidas obtidas pela GLM. TABELA 5 Valores inferenciais das variáveis de domínio da frequência 46 obtidas pela GLM dentro dos intervalos de confiança de 95% para um erro do tipo I (p < 0,05) considerando o ajuste dos graus de liberdade através do Greenhouse-Geiser TABELA 6 Análise descritiva e inferencial das medidas fisiológicas de 47 intensidade do esforço entre os grupos ao longo das etapas de execução do protocolo de exercício TABELA 7 Análise inferencial (p valor) variáveis em cada momento da 48 execução do protocolo comparada entre os grupos Eutróficos e Obesos TABELA 8 Análise dos postos de Mann-Whitney entre os grupos para a Percepção Subjetiva de Esforço (PSE) 49 LISTA DE FIGURAS Pág. FIGURA 1 Representação gráfica do intervalo R-R em um 18 Representação gráfica dos intervalo R-R e seus tempos 19 eletrocardiograma FIGURA 2 entre os batimentos FIGURA 3 Analogia entre a separação de um feixe de luz alusivamente 22 à separação entre as frequências de um sinal bioelétrico. FIGURA 3a Fragmentação do feixe de luz por um prisma óptico 22 FIGURA 3b Separação entre as frequências de um sinal bioelétrico. b) 22 Decomposição da FC em ondas de intensidades diferentes pela análise espectral (VLF – destaque em vermelho; LF – destaque em azul; HF – destaque em amarelo) FIGURA 4 Ilustração gerada pelo Kubios HRV após uma avaliação 25 realizada em jovem eutrófico na execução de corrida com incremento de carga FIGURA 4a Gráfico de Poincaré 25 FIGURA 4b Valores da medidas de VFC por técnicas não lineares 25 QUADRO 1 Pontos de corte de IMC para idade estabelecidos para 33 adolescentes de 5 a 19 anos FIGURA 5 Children’s OMNI Scale of Perceived Exertion for 35 walking/running FIGURA 6 Resumo de desempenho no protocolo de execução para os grupos Eutrofia e Obesidade LISTA DE ABREVIAÇÕES 50 ApEn Approximate Entropy (Entropia Aproximada) HF High Frequency (Alta Frequência) LF Low Frequency (Baixa Frequência) LF/HF Razão entre LF/HF ms2 Milissegundos ao quadrado n.u. Unidades normalizadas. NN50 Número total de pares de intervalos NN consecutivos que diferem por mais de 50 milissegundos pNN50 Proporção da NN50 RMSSD Raiz quadrada da média dos quadrados das diferenças entre os intervalos RR SampEn Sample Entropy (Entropia da Amostra) SD1 Variabilidade instantânea de batimento a batimento da FC (referente à atividade parassimpática) SD2 Variabilidade contínua de batimento a batimento, ou variabilidade global. SDNN Desvio padrão dos intervalos R-R. VFC Variabilidade da Frequência Cardíaca VLF Very Low Frequency (Frequência Muito Baixa) RESUMO O presente estudo analisou as medidas de Variabilidade da Frequência Cardíaca em 60 jovens sendo 30 obesos (13,8 + 1,5) e 30 eutróficos (13,2 + 1,1) submetidos a exercício contínuo e incremental. O exercício foi realizado em esteira rolante multiprogramável (Inbrasport Super ATL, Porto Alegre, Brasil) e durante a execução os avaliados foram constantemente monitorados por um cardiofrequencímetro da marca Polar RS810cx que consiste de um relógio digital e uma cinta fixada no tórax dos avaliados. Os dados referentes à FC foram enviados diretamente pra um microcomputador para análise através do software Polar Precision Performance. Todas as análises da VFC foram obtidas por meio do programa Kubios HRV Analysis Software 2,0 for Windows (The Biomedical Signaland Medical Imaging Analysis Group, Department of Applied Physics, University of Kuopio, Finlândia. A percepção subjetiva do esforço foi averiguada através da OMNI scalepara corrida e caminhada. Os registros dos intervalos R-R foram editados manualmente através de inspeção visual na tentativa de evitar que artefatos contaminem a análise. Na sequência, os registros foram automaticamente filtrados pelo software. Qualquer intervalo R-R com diferença superior a 20% do intervalo anterior foi automaticamente filtrado. Os resultados apontaram uma diminuição dos valores de variabilidade da frequência cardíaca tanto nas medidas de domínio de tempo (SDNN, RMSSD, pNN50) quanto nas medidas de domínio da frequência (HF, LF, VLF, LF/HF) no grupo Obesidade quando comparado com o grupo Eutrófico. A percepção subjetiva de esforço se relacionou positivamente com a intensidade máxima suportada, evidenciando discrepância apenas entre os grupos quanto ao tempo e intensidade associada a mesma percepção. Podemos concluir que as intensidades de exercício próximas de zonas máximas e submáximas podem alterar precocemente os ajustes autonômicos envolvidos no controle cardíaco de maneira que limite a execução do exercício e crie uma exposição a possíveis eventos indesejáveis do ponto de vista elétrico do coração. Palavras-Chave: Obesidade, Sistema Nervoso Autônomo e Frequência Cardíaca. ABSTRACT The present study examined the measures of Heart Rate Variability in 60 young boys subdivided into30 obese ( 13.8 + 1.5 ) and 30 normal weight ( 13.2 ± 1.1 ) underwent continuous and incremental exercise. The exercise was performed on a treadmill multiprogrammable (Inbrasport Super ATL, Porto Alegre, Brazil) and during execution the reviews were constantly monitored by a Polar heart rate monitor brand RS810cx consisting of a digital watch and a chest strap set of reviews. The data relating to HR were sent directly to a PC for analysis by Polar Precision Performance software. All analyzes of HRV were obtained through the program Kubios HRV Analysis Software 2.0 for Windows (The Biomedical Signal Analysis and Medical Imaging Group, Department of Applied Physics, University of Kuopio, Finland. Perceived exertion was assessed through OMNI scale for running and walking. Records of RR intervals were edited manually by visual inspection in an attempt to prevent artifacts contaminate the analysis. Subsequently, the records were automatically filtered by software. Any RR interval difference of more than 20 % of previous interval was automatically filtered. Results revealed a decrease of the heart rate variability measures in both the time domain (SDNN, RMSSD, pNN50) and the measurements of the frequency domain (HF, LF, VLF, LF/HF) in obesity group compared with the eutrophic group. Perceived exertion was positively related with maximum switching current, showing only discrepancy between the groups in terms of time and intensity associated with the same perception. We conclude that the intensities near maximal exercise areas and submaximal early can change the settings involved in cardiac autonomic control in order to limit the execution of the exercise and create an exposure to potential adverse events from the point of view of electric heart. Key words: Obesity, Autonomic Nervous System and Heart Rate. 14 I INTRODUÇÃO 1.1 O PROBLEMA Nos últimos anos, pesquisadores de todo o mundo têm demonstrado um interesse crescente pela promoção e detecção de indicadores de saúde da criança e do adolescente (KOCA; BAKARI; OZTUNC, 2013; SOARES-MIRANDA et al., 2012; TASCILAR et al., 2011). Notadamente, a obesidade tem sido apontada como responsável por severas desordens que acometem a população, em grande parte, de ordem cardiovascular e cardiorrespiratória (GRUTTER et al., 2012; NEVES et al., 2012; PASCHOAL; TREVIZAN; SCODELER, 2009). No Brasil, a obesidade tem se tornado um desafio para a saúde pública, uma vez que sua prevalência tem crescido de forma substancial nas três últimas décadas. O novo desenho do perfil nutricional do Brasil aponta para a necessidade de um modelo de atenção básica que incorpore ações de promoção da saúde, prevenção e tratamento da obesidade e de doenças crônicas não transmissíveis (REIS; VASCONCELOS; BARROS, 2011). Nesse contexto, as políticas públicas voltadas para a saúde têm sido de grande importância para a população do país, ainda que apresentem dificuldades em sua plena implementação. Analisando essas ações no seu contexto histórico, percebemos que as políticas públicas no Brasil vêm sendo realizadas por meio de práticas assistencialistas, traduzindo-se em relações que não incorporam o reconhecimento do direito à saúde (TRAVERSO-YÉPEZ, 2007). De acordo com a Constituição Federal de 1988, essas políticas orientam-se pelos Princípios da Universalidade e Equidade no acesso às ações e serviços, e pelas diretrizes de descentralização da gestão, de integralidade do atendimento e de participação da comunidade na organização de um Sistema Único de Saúde no território nacional (OLIVEIRA et al., 2008). Edifica-se um modelo de reorientação da atenção primária à saúde, por meio da Estratégia Saúde da Família que é uma estratégia prioritária que visa atender a indivíduos e à família de forma integral e contínua, baseado na territorialização, desenvolvendo ações de promoção, proteção e recuperação da saúde. 15 A estratégia tem como objetivo reorganizar a prática assistencial, centrada no hospital, com enfoque na família em seu ambiente físico e social. Também pode ser definida como um modelo de atenção que pressupõe o reconhecimento de saúde como um direito expresso na melhoria das condições de vida (MALTA et al., 2009). No tocante à área da saúde, essa melhoria e sua qualificação deve ser traduzida em serviços mais resolutivos, integrais e especialmente humanizados. Para tanto, no fim da última década, foi publicada a portaria que institui os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), que corresponde a uma iniciativa para apoiar as equipes mínimas da Estratégia Saúde da Família. Esses núcleos poderão ser compostos por médicos (ginecologistas, pediatras e psiquiatras), professores de educação física, nutricionistas, acupunturistas, homeopatas, farmacêuticos, assistentes sociais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais (BRASIL, 2008). Impulsionado pelas políticas de intervenção e pelos números nada satisfatórios quanto à obesidade infantil, muitas ações para o seu tratamento têm mostrado efeitos positivos em vários estudos. Sempre centradas em comunidades e no ambiente escolar, apresentam resultados concretos de que a atenção primária representa uma boa ferramenta de intervenção contra a obesidade infantil. Para isso, faz-se necessária a existência de uma equipe de profissionais de saúde treinada e equipada para proporcionar opções de mudança dos hábitos de vida que levem a alterações de comportamento, que passam do individual para o coletivo (OUDE LUTTIKHUIS et al., 2009; SARGENT; PILOTTO; BAUR, 2011). As alterações na composição corporal podem influenciar no desenvolvimento das potencialidades físicas dos jovens que mesmo não tendo a prática desportiva como objetivo central, necessitam de suas capacidades para uma autonomia na busca pelo seu desenvolvimento integral (SHARMA et al., 2011; TONHAJZEROVA et al., 2011). Fisiologicamente, indivíduos com sobrepeso/obesidade apresentam reduções dos volumes e capacidades pulmonares, sobretudo, volume de reserva expiratória e capacidade residual funcional (SOARES-MIRANDA et al., 2012; WINDHAM et al., 2012). Níveis mais altos de obesidade associam-se à diminuição da complacência total do sistema respiratório e aumento da resistência na mecânica respiratória. Dada a descoberta da relação entre o sistema nervoso autônomo e a mortalidade por doenças cardiovasculares, torna-se necessária a realização de estudos acerca do aumento da atividade simpática e da redução da atividade 16 parassimpática, condição marcante que é encontrada em diversas patologias do sistema cardiovascular, podendo ainda estar relacionada a ajustes de natureza neuroendócrinas (DUMAN; DEMIRCI; TANYEL, 2010; LIU et al., 2009; RODRIGUEZCOLON et al., 2009). Desta forma, a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) é um marcador quantitativo da atividade autonômica cardíaca, sendo, talvez, o mais promissor nas duas últimas décadas pelo fato de se tratar de uma técnica não invasiva, de baixo custo e rápida operacionalização. Além disso, o seu uso se torna viável em crianças e adolescentes, uma vez que não apresenta restrições éticas marcantes, por exemplo, como outros exames laboratoriais, (ALTUNCU; BASPINAR; KESKIN, 2012; BANSAL; KHAN; SALHAN, 2009; CHEN et al., 2012; DIETRICH et al., 2010; EVANS et al., 2013). Após sua padronização (BANSAL et al., 2009; MALIK et al., 1996), tornou-se uma ferramenta que tem se mostrado eficiente na análise da função autonômica cardíaca em indivíduos saudáveis, atletas, além de portadores de diversas doenças. São vários os índices que estão diretamente relacionados com a função cardíaca em populações de diversas faixas etárias e que podem ser analisados por profissionais das diversas áreas da saúde dentro de uma política de intervenção, no intuito de detectar o mau funcionamento do sistema nervoso autônomo frente à presença de sobrepeso, especialmente, em jovens, por se tratar da base no atendimento primário à saúde. Estudos apontam que a obesidade na adolescência está associada à disfunção simpatovagal (aumento da atividade simpática frente à atividade parassimpática) cardíaca em repouso (VANDERLEI et al., 2010b;2010c), embora existam poucas informações sobre a resposta autonômica durante o exercício tanto em crianças como em adolescentes. Investigações, nesse contexto, levando-se em consideração algumas configurações morfofisiológicas e comportamentais para uma melhor compreensão do fenômeno, tornam-se viáveis para uma ampla leitura dessa realidade passível de intervenção. (MORAES et al., 2009; OUDE LUTTIKHUIS et al., 2009; REIS et al., 2011; SARGENT et al., 2011). Com base nisso, o problema deste estudo incide em saber como se comporta a variabilidade da frequência cardíaca em jovens com obesidade e eutróficos submetidos a exercício contínuo e com carga incremental. 17 1.2 OBJETIVOS 1.2.1 Objetivo Geral Analisar a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) em adolescentes com obesidade e eutróficos submetidos a exercício contínuo e incremental. 1.2.2 Objetivos Específicos - Identificar os valores da VFC em adolescentes com obesidade e eutróficos durante atividade contínua e incremental; - Comparar os valores da VFC em função dos níveis de peso corporal; - Verificar a resposta autonômica durante a recuperação pós-exercício; - Associar a percepção subjetiva de esforço em cada grupo e o momento de exaustão; 1.3 JUSTIFICATIVA Muitos estudos têm se voltado para crianças e adolescentes apresentando os indicadores associados a determinadas condições, como sobrepeso ou obesidade, (BIRCH; DUNCAN; FRANKLIN, 2012; PASCHOAL, 2012; TASCILAR et al., 2011), transtornos psicológicos (BLOM et al., 2010; TONHAJZEROVA et al., 2011) e outras doenças (EMIN et al., 2012; NEVES et al., 2012). Contudo, pouco se tem investigado o funcionamento autonômico em resposta à atividade física e posteriormente a ela. Uma vez que a atividade física é peça importante dentro das políticas públicas que combatem o acúmulo de peso, o conhecimento das alterações autonômicas já instauradas em determinada população, bem como decorrentes de sua prática, é substancialmente importante como medida de segurança. Ou seja, é uma forma de antecipar possíveis desordens no cenário fisiológico do jovem adolescente, tornando a atividade física proposta como rotina, dentro dessa política de intervenção, uma alternativa mais eficaz e segura. As mudanças nos padrões da VFC, decorrentes de fatores intrínsecos e extrínsecos, fornecem um indicador sensível e antecipado de comprometimentos na saúde. Uma alta variabilidade é sinal de boa adaptação, caracterizando um indivíduo 18 saudável com mecanismos autonômicos eficientes. Inversamente, baixa variabilidade é frequentemente um indicador de adaptação anormal e insuficiente do SNA, o que pode indicar a presença de mau funcionamento fisiológico no indivíduo, necessitando de investigações adicionais de modo a encontrar um diagnóstico específico (VANDERLEI et al., 2009). Acreditamos que essas informações servirão de base não só no contexto da pesquisa, mas também na prática dos profissionais envolvidos no cenário da prescrição de atividades físicas como fator de promoção de saúde não só para jovens com obesidade, assim como também para eutróficos. Por se tratar de uma técnica não invasiva e de fácil operacionalização, o profissional de Educação Física poderá sistematizar as avaliações dos sujeitos inseridos no programa de maneira a proporcionar a todos uma prática segura com base nesse monitoramento. As modificações decorrentes da atividade física ao longo da participação nas atividades, bem como a diminuição de peso corporal, poderão provocar mudanças na autorregularão. Desta forma, podemos ainda extrapolar que as mudanças na intensidade e no volume da proposta de intervenção poderão ser sustentadas por modificações e boa adaptação do sistema nervoso autonômico, caracterizando-se também como um marcador para a prescrição. 19 II REVISAO DA LITERATURA 2.1. APLICAÇÃO CLÍNICA VARIABILIDADE DA FREQUÊNCIA CARDÍACA (VFC) E SUA INTERPRETAÇÃO. É sabido na literatura que a liberação da acetilcolina (ACh) pelos terminais parassimpáticos exerce sua influência na despolarização do nodo sinoatrial e, por apresentar uma velocidade de remoção muito rápida, provoca oscilações na duração dos intervalos R-R (ver figura 1), acarretando variações rítmicas na frequência cardíaca (FC) normal. Inversamente, a noradrenalina, liberada pelos terminais simpáticos, possui uma velocidade de remoção lenta, ocasionando uma variação rítmica na FC, que pode ser observada somente em registros de longo prazo (LOPES et al., 2013). O ritmo real apresenta suaves variações entre os batimentos em função das flutuações na descarga a partir do nodo AS, e em função dos volumes de ejeção, alterados durante a inspiração (diminuições) e expiração (aumentos). Se o ritmo fosse regular, cada complexo QRS deveria cair nestas flechas. Figura 1: Representação gráfica do intervalo R-R em um eletrocardiograma. Adaptado de: (KAMATH; WATANABE; UPTON, 2012). Desta forma, a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC) é determinada pela integração entre a modulação rápida e a lenta (KUNZ et al., 2012; NEVES et al., 2012; NUNAN; SANDERCOCK; BRODIE, 2010; VANDERLEI et al., 2009). Contudo, essas 20 variações na FC são atribuídas, principalmente, às oscilações da atividade parassimpática e, portanto, a amplitude da VFC reflete a atividade vagal sobre o coração ou como outros autores resumem, é uma medida que reflete pequenas alterações entre batimentos cardíacos sucessivos devido ao fato dos intervalos desses batimentos não terem a mesma duração em função da modulação intrínseca do sistema nervoso autonômico (ver figura 2) (BANSAL et al., 2009). A mensuração da VFC é um método que nos permite analisar o controle neural cardíaco durante períodos curtos ou prolongados, em diversas condições fisiológicas (durante o sono, monitoramento de 24 horas, repouso, exercício físico e bloqueio farmacológico) e patológicas (ALTUNCU et al., 2012; EYRE et al., 2013; MICHELS et al., 2013; NUNAN, D. et al., 2009; NUNAN et al., 2010). 0,859 seg 0,793 seg 0,726 seg Figura 2: Representação gráfica dos intervalo R-R e seus tempos entre os batimentos. Adaptado de KHAZAN (2013). Apresentando a vantagem de possibilitar uma avaliação não invasiva e seletiva da função autonômica, além de ser um recurso metodológico de grande simplicidade e fácil aplicação, esse achado passou a ser utilizado nas investigações de diversas populações como: hipertensos, obeso, diabéticos, jovens, atletas, entre outros (GRANT; VAN RENSBURG, 2013; MENDONCA; PEREIRA; FERNHALL, 2013; SARMIENTO et al., 2013). Mediante a análise da curva de VFC durante o exercício físico, é possível identificar um ponto de transição (primeiro limiar de transição fisiológica) associado à intensidade de esforço e à FC, na qual, a influência da atividade parassimpática é reduzida (retirada vagal), denominado de limiar de variabilidade da frequência cardíaca (LiVFC), o qual foi associado aos limiares de lactato (BRUNETTO et al., 21 2008; IELLAMO et al., 2013; PASCHOAL; FONTANA, 2011) e limiares ventilatórios (PASCHOAL; FONTANA, 2011). Não importando a técnica de avaliação, o cálculo da VFC pode ser feito de duas maneiras: métodos não lineares e lineares. A análise da VFC durante exercício apresenta certa dificuldade, uma vez que inúmeros fatores influenciam nos seus resultados, entre estes, aumento da atividade respiratória e do estado não estacionário do organismo. Durante o exercício físico, os intervalos R-R numa série temporal tendem a diminuir devido ao aumento da FC, acarretando um estado não estacionário, o que causa uma interferência nos dados calculados por meio da análise espectral e métodos tradicionais realizados no domínio do tempo. Contudo, os cardiofrequencímetros tornaram-se uma alternativa viável e aceitável para se analisar a modulação autonômica em exercício físico fora de ambiente ambulatorial (NUNAN, D. et al., 2009; NUNAN, D et al., 2009; PIMENTEL et al., 2010; QUINTANA; HEATHERS; KEMP, 2012). Apresentando a vantagem de possibilitar uma avaliação não invasiva e seletiva da função autonômica, além de ser um recurso metodológico de grande simplicidade e fácil aplicação, nos últimos vinte anos, esse achado passou a ser utilizado nas investigações de diversas populações como: hipertensos, obesos, diabéticos, jovens, atletas, entre outros. Há inúmeras maneiras de medir a VFC. Vamos revisar algumas que têm sido mais largamente aplicadas em investigações científicas e as que têm maior probabilidade de serem encontradas em buscas de natureza acadêmica relacionadas à evidencias científicas em saúde (KUNZ et al., 2012; NEVES et al., 2012). Os métodos são subdivididos basicamente em dois grupos: os lineares, que consistem na observação do domínio do tempo e ou domínio da frequência e não lineares que são baseados no comportamento caótico e inerente aos compostos biológicos. Técnicas lineares apresentam medidas que determinam a variabilidade dos intervalos RR ou o tempo entre os intervalos (também referido como o ritmo cardíaco instantâneo) (BIALA et al., 2012). Na lista a seguir, estão vários dos índices encontrados através de análise no domínio do tempo (LOPES et al., 2013; TARVAINEN, M. P. et al., 2013): 1. SDNN (expresso em ms): é o desvio padrão (raiz quadrada da variância) dos intervalos RR ao longo de certo período de tempo. É o método mais simples de realizar e mais comum de medição VFC em investigação. Muitas vezes, é 22 realizada ao longo de um período de 24 horas. No entanto, a utilização clínica de medição SDNN é complicada devido à dependência deste método no intervalo de tempo da gravação. A variação total de VFC aumenta com o tempo de gravação. Portanto, não se pode comparar com precisão o SDNN de dois períodos de diferentes comprimentos e curtas gravações podem ser menos precisas, pois quanto maior for a variância dos intervalos RR, maior a VFC. 2. RMSSD (expresso em ms): é a raiz quadrada da média dos quadrados das diferenças entre os intervalos RR adjacentes. Esta medida é muito usada nas pesquisas de modulação autonômica do coração. 3. NN50 (expresso em unidades): é o número total de pares de intervalos NN consecutivos que diferem por mais de 50 milissegundos. Uma medida relacionada a ela é a pNN50 (expresso em %) que é uma proporção da NN50 obtida pela divisão do número total de intervalos NN. Estas medidas também são usadas com frequência em pesquisas clínicas. As técnicas lineares no domínio da frequência focam nas análises das variações rítmicas que compõem a variabilidade total da FC. A análise do espectro de potência é uma medida no domínio de frequência que utiliza um algoritmo, denominado de Transformada Rápida de Fourier (Fast Fourrier Transform - FFT), para decompor a onda de frequência cardíaca em unidades de intensidade desse fenômeno (ALETTI et al., 2012; SAYLAN et al., 2011). Para entender isso melhor, imagine estar olhando para um feixe de luz branca através de um prisma. Este, separa todas as frequências na onda de luz, permitindolhe ver um arco-íris. Analogamente a este exemplo, o equipamento de análise de biofeedback (software) funciona como um prisma para traduzir o ritmo cardíaco em uma ilustração de diferentes frequências que compõe a FC (JOHNSEN-LIND et al., 2011; TARVAINEN, M. P. et al., 2013). Estas frequências são apresentadas no gráfico de domínio de frequência em três faixas distintas de frequências e são normalmente identificadas usando cores diferentes (veja figura 03). Por se configurar em uma análise que retorna um número menor de índices, as medidas de domínio da frequência têm sido largamente usadas em muitos estudos que objetivaram compreender as mudanças em nível de sistema nervoso autonômico causadas por diversos tipos de agentes modificadores tais como: questões ambientais (PIETERS et al., 2012), alterações fisiopatológicos (MILLAR et al., 2013; SOARES et al., 2013), diferenças sexuais e étnicas (EYRE et al., 2013), atividade física 23 (BJELAKOVIC et al., 2010; KATZ-LEURER et al., 2010; SARMIENTO et al., 2013) e comportamentais (DALUWATTE et al., 2013; TONHAJZEROVA et al., 2011). a) b) Figura 3: Analogia entre a separação de um feixe de luz alusivamente à separação entre as frequências de um sinal bioelétrico. a) Fragmentação do feixe de luz por um prisma óptico; b) Decomposição da FC em ondas de intensidades diferentes pela análise espectral (VLF – destaque em vermelho; LF – destaque em azul; HF – destaque em amarelo). Adaptado de: TARVAINEN, M. P. et al. (2013) e ERNST (2014). A análise espectral de energia mostra a potência relativa de cada componente de frequência do sinal de coração em cada momento no tempo. As três faixas de frequências que são identificados em Hertz, são as seguintes: 1. Alta Frequência (High Frequency - HF): o sinal de alta frequência está na faixa de 0,15-0,4 Hz. Representado em cor amarelo na figura 3b, este componente do sinal da frequência cardíaca reflete influências parassimpáticas respiratórias no coração. 2. Baixa Frequência (Low Frequency - LF): apresenta variação entre 0,05 - 0,15 Hz. Este componente do sinal da frequência cardíaca reflete a função dos barorreceptores (manutenção da pressão sanguínea). 3. Frequência Muito Baixa (Very Low Frequency - VLF): Sinal de muito baixa frequência pode variar de zero até 0,04 Hz. Este componente da frequência cardíaca é essencialmente influenciado pelo sistema nervoso simpático (SNS). Além das medidas descritas, encontramos ainda na literatura, a relação LF/HF calculados por alguns tipos de software de biofeedback. Este índice representa a quantidade relativa de energia LF e HF geralmente entendida como uma medida do 24 equilíbrio entre a atividade do sistema nervoso simpático e parassimpático (LOPES et al., 2013). Mesmo sendo comum encontrarmos centenas de pesquisas clínicas com as medidas acima, tendo em vista que a dinâmica dos organismos biológicos é predominantemente complexa, determinados estudos apontam que a análise de dados apenas por intermédio dos métodos lineares de verificação da VFC são menos consistentes, mas ainda assim confiáveis, para representação da atividade autonômica. As técnicas não lineares se baseiam efetivamente no fato de que os fenômenos biológicos de um determinado sistema são altamente irregulares, mas não ocorrem por acaso. Com base nisso, as limitações deste método ocorrem em função da dificuldade na escolha do melhor modelo matemático que represente significativamente o fenômeno. Soma-se a este fato ainda, o desconhecimento do grau de liberdade total das variáveis. Todavia, estes métodos têm sido testados em diferentes populações e sua utilização prática vem ganhando espaço (BIALA et al., 2012; PARAZZINI et al., 2013; SUZUKI et al., 2012). O pilar de suas análises está nas considerações dinâmicas que o organismo vivo enfrenta e, a partir disso, foram propostas teorias como a do caos nos sistemas determinísticos, a concepção organísmica da biologia, a geometria fractal, a teoria da complexidade e os sistemas autopoiéticos concernentes à auto-organização dos processos celulares. Dentre as diversas análises possíveis destacam-se: análise do Plot de Poincaré e análise da Flutuação Depurada. Dentro desse novo enfoque surgem nomes como Georg Cantor, Henri Poincaré, Ludwig Von Bertalanffy, Gaston Julia, Benoit Mandelbrot, Edgar Morin, Humberto Maturana e Francisco Varela, os quais propuseram teorias como o caos nos sistemas determinísticos, a concepção organísmica da biologia, a geometria fractal, a teoria da complexidade e os sistemas autopoiéticos concernentes à autoorganização dos processos celulares. O Plot de Poincaré é um método geométrico, apontado como um dos preferenciais para os estudos relacionados à VFC, porquanto a análise qualitativa do gráfico obtido é de compreensão bastante acessível, configurando um excelente modo de visualização dos padrões dos intervalos RR obtidos. Este método denota uma série temporal dentro de um plano cartesiano, no qual, cada intervalo RR é correlacionado com o intervalo antecedente, definindo um ponto no plot. Sua análise pode ser feita 25 de forma qualitativa ou quantitativa (KUDRYNSKI; STRUMILLO; RUTA, 2011; SCHEGA et al., 2010; VANDERLEI et al., 2010c). A primeira é realizada de modo visual, avaliando a figura formada pelo seu atrator, que é relevante para mostrar o grau de complexidade dos intervalos RR (ver figura 4a). A plotagem de um número suficiente de intervalos RR, em função do intervalo RR precedente, possibilita a criação de alguns padrões característicos, que são mais facilmente reconhecidos e delimitam o comportamento da VFC de forma qualitativa. Em indivíduos saudáveis, em repouso, esses intervalos são bastante irregulares, sobretudo, pela predominância vagal na modulação cardíaca, fazendo com que se visualize uma nuvem de pontos com a forma aproximada de uma elipse. 1. Figura com característica de um cometa, na qual um aumento na dispersão dos intervalos RR batimento a batimento é observado com aumento nos intervalos RR, característica de um plot normal; 2. Figura com característica de um torpedo, com pequena dispersão global batimento a batimento (SD1) e sem aumento da dispersão dos intervalos RR em longo prazo; 3. Figura complexa ou parabólica, na qual duas ou mais extremidades distintas são separadas do corpo principal do plot, com pelo menos três pontos incluídos em cada extremidade. O segundo modo, quantitativo, diz respeito ao cálculo dos desvios-padrão das distâncias dos intervalos R-R, representados pelos pontos SD1 e SD2, os quais refletem, respectivamente, a variabilidade instantânea de batimento a batimento da FC (referente à atividade parassimpática) e a variabilidade contínua de batimento a batimento, ou variabilidade global. A razão SD1/SD2 também é calculada para descrever a relação entre os componentes anteriormente citados, mas nem todos os softwares de análise permitem o seu cálculo. A figura 8b, apresenta a extração de informações pelo Heart Rate Variability Analysis Software – KUBIOS HRV desenvolvido pela University of Eastern Finland e disponibilizado gratuitamente na internet. Também denominada como Detrended Fluctuation Analysis (DFA), a análise das flutuações destendenciadas foi concebida com o intuito de distinguir entre as complexas flutuações intrínsecas ao sistema nervoso no controle dos comandos vitais do organismo, daquelas advindas de meios externos e que, de igual modo, exercem 26 influência sobre a FC. A DFA remove as tendências extrínsecas do sinal, para então efetivar a análise (ECHEVERRIA et al., 2012). Assim, a DFA é empregada para quantificar a presença de propriedade fractal em séries temporais de intervalos R-R, podendo detectar possíveis anormalidades presentes no sujeito investigado, com base na análise dos coeficientes α. a) b) Figura 4 – Ilustração gerada pelo Kubios HRV (JOHNSEN-LIND et al., 2011; TARVAINEN, MIKA P. et al., 2009; TARVAINEN, M. P. et al., 2013) após uma avaliação realizada em jovem eutrófico na execução de corrida com incremento de carga. a) Gráfico de Poincaré; b) Valores da medidas de VFC por técnicas não lineares. Fonte: Banco de dados da pesquisa. O gráfico dessa função apresenta duas regiões distintas de curvas afastadas em um ponto configurando que há um expoente de escala fractal de curto prazo α1, concernente ao período compreendido entre 4 a 11 batimentos, e um expoente de longo prazo α2, referente às flutuações de períodos mais extensos. Na verificação dos resultados obtidos, por intermédio dessa análise, das séries temporais da VFC, denota-se, em síntese, que para indivíduos saudáveis o valor α1 tende a 1 (um) e é maior que o valor de α2 (ver figura 4b). A Entropia Aproximada (ApEn) analisa uma estrutura sequencial de um determinado sinal, medindo a regularidade deste, bem como sua complexidade no domínio do tempo. Esta espécie de entropia retrata a razão de geração de novas informações em um sistema, aplicando-se a séries temporais de dados clínicos curtos e com ruído. Diferentemente da média e desvio padrão que oferecem informações 27 sobre a magnitude do sinal, a ApEn oferece informações de como ele muda em função do tempo (ALETTI et al., 2012; KUNZ et al., 2012; NEVES et al., 2012). O referido método utiliza uma técnica de probabilidade condicional para registrar a estrutura sequencial com que o sinal evolui no tempo, determinando quanto ele pode apresentar de padrões repetidos em sua evolução ao longo do tempo, noutros termos, detecta a padronização do sinal. Assim, é aferida a semelhança com que um dado padrão se mantém nas sequências seguintes dos registros. O grau de complexidade é proporcional ao valor apresentado, desse modo, valores maiores correspondem a maior complexidade ou irregularidade dos dados, ou ainda, maior semelhança de proximidade, que configura regularidade, produz menores valores de ApEn. Seus valores variam de zero a dois. Sinais altamente regulares e previsíveis, denotando uma determinada ordem através do tempo, terão valores próximos a zero. Ao contrário, valores próximos a dois serão verificados em sinais altamente irregulares, randômicos e imprevisíveis através do tempo. No tocante a VFC, a Entropia Aproximada descreve a complexidade do comportamento do intervalo RR e tem fornecido informações importantes a respeito da vulnerabilidade para ocorrência de fibrilação atrial. A Entropia da Amostra (SampEn) é bastante similar a Entropia Aproximada, destacando-se apenas uma pequena diferença computacional entre elas. Aquela fornece uma melhor avaliação de séries temporais, como a apresentada pela VFC, caracterizando uma medida da desordem existente na mencionada série. Como resultado, apresenta valores maiores para sinais cardíacos de indivíduos saudáveis e valores menores para os sinais cardíacos de indivíduos com alguma deficiência cardíaca. O aperfeiçoamento e a avaliação de séries temporais, tornou-se uma ferramenta útil nos estudos da dinâmica cardiovascular sendo até considerado como padrão ouro para marcação de biofeedback do sistema nervoso autonômico. Frequentemente, os estudos que se utilizam da VFC para a mensuração da atividade autonômica, preferem não apresentar em seus resultados, concomitantemente, medidas de técnicas lineares com técnicas não lineares. Desta forma, é frequente constar até mesmo nos títulos dos trabalhos o tipo de análise que foi empregada. Análise Espectral, Índices Geométricos e Correlação Fractal são comuns dentre os trabalhos que optam por técnicas não lineares e já as destacam em seus títulos como forma de diferenciar a grande maioria dos trabalhos que utilizam técnicas lineares (MURALIKRISHNAN et al., 2013; VANDERLEI et al., 2010b;2010c). 28 2.2 RESPOSTAS AUTONÔMICAS DECORRENTES DA OBESIDADE EM POPULAÇÕES JOVENS A obesidade é a base das pandemias do mundo moderno. As principais causas de morte, não só no Brasil, mas também em diversos países do mundo, tem a obesidade como fator de base ou propulsor da causa mortis. Como consequência, estudos preveem que a atual geração de crianças podem vir a ter uma expectativa de vida menor do que seus pais (SARGENT et al., 2011). Em uma revisão sistemática de estudos de coorte, realizada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), foi destacada uma escassez de estudos determinem o risco de mortalidade na idade adulta, em relação ao excesso de peso e obesidade na infância e na adolescência. Diante disto, os pesquisadores mencionaram não haver evidências claras sobre a associação entre o excesso de peso na infância e adolescência, com a obesidade e mortalidade na vida adulta (ADAMI; VASCONCELOS, 2008). Pouco mais de dois anos depois, baseados nos dados do sistema denominado Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL), o qual pretende gerar informações contínuas sobre a frequência e a distribuição dos principais fatores de risco ou proteção para doenças crônicas no país, pesquisadores também da USP encontraram indicadores que apontam para uma incidência da obesidade mais frequente em homens e nos adultos mais jovens (CONDE; BORGES, 2011). Outro aspecto que tem sido objeto de preocupação crescente por pesquisadores de todo o mundo, embora permaneça controversa em relação à obesidade em crianças, é a alteração na modulação autonômica cardíaca. Nesse âmbito, muitos estudiosos têm se esforçado no sentido de apresentar medidas que traduzam essas modificações e a que mais se destaca são as medidas de Variabilidade da Frequência Cardíaca – que é definida como a variabilidade da distância entre os intervalos R-R consecutivos registrados no sinal elétrico do batimento cardíaco e mensurados com auxílio de um eletrocardiograma ou cardiofrequencímetro (QUINTANA et al., 2012; WEIPPERT et al., 2010). A redução do tônus vagal cardíaco está fortemente associada ao aumento do risco de morte por eventos cardiovasculares (MALIK et al., 1996; PIMENTEL et al., 2010). Alguns estudos têm apresentado a ocorrência de uma redução na ação do 29 sistema nervoso parassimpático e aumento da ação do sistema simpático sob o coração em situação de repouso (BRUNETTO et al., 2008). Em estudo realizado em Campinas – SP com 30 crianças de ambos os sexos e com idades entre 9 e 11 anos divididas em dois grupos (15 obesas e 15 não obesas), de acordo com os percentis de IMC (DE ONIS et al., 2007), os autores encontraram um maior tônus simpático cardíaco na posição ortostática para o grupo de crianças obesas (PASCHOAL et al., 2009). Em estudo semelhante, porém, totalizando 133 crianças com idades entre 8 e 13 anos de ambos os sexos e divididas em 2 grupos, foram comparados os índices geométricos através do plot de poincaré. Os menores valores foram encontrados nas crianças obesas apontando para reduções na atividade parassimpática e na variabilidade global, o que segundo os autores, demonstra a necessidade de atenção precoce frente a possibilidade de eventos indesejáveis à saúde por apresentam modificações no sistema nervoso autônomo já que as diminuições foram no índice SD1, que representa o eixo transverso do plot de Poincaré e indica a ação vagal (parassimpática) sobre o nó sinoatrial. (VANDERLEI et al., 2010c). Estes mesmos autores, em outro estudo, com 112 crianças de ambos os sexos e entre 8 e 12 anos de idade foram divididos em dois grupos com base no IMC: obesos e não-obesos. A análise dos índices de LF e HF em ms2 revelou uma redução em ambos os componentes simpático e parassimpático, a redução nos valores de alfa-1 observado nas crianças obesas, em comparação com as crianças não obesas, sugere uma perda precoce da dinâmica fractal da frequência cardíaca e o consequente risco de desenvolvimento de doença cardíaca. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos para o expoente fractal de longo prazo (alfa-2), como também na razão alpha-1/alpha-2, no entanto, estes valores também revelam uma ligeira tendência de redução nas crianças obesas (VANDERLEI et al., 2010b). Pesquisadores da Holanda avaliaram 57 crianças eutróficas entre 10 e 13 anos recrutadas em duas escolas primárias no norte dos Países Baixos. Nenhuma das crianças sofria de doenças cardiovasculares, diabetes mellitus, ou anemia e ao final do estudo foram reportadas diferenças apenas na comparação entre as medidas da posição supina em relação a posição em pé tanto nas medidas de domínio do tempo (SDNN) quanto nas de domínio da frequência (LF, HF). 30 Em uma análise mais voltada para medidas de domínio de tempo, 121 crianças (57 meninos e 64 meninas) foram divididas em dois grupos, obesas e eutróficas, de acordo com o índice massa corporal (IMC) de referência para idade e gênero (COLE et al., 2000). O grupo de obesos foi composto por 56 crianças (25 meninos e 31 meninas) que se submeteram a uma avaliação inicial para participar num programa para o tratamento da obesidade através da atividade física. O grupo eutrófico consistiu de 65 crianças (32 meninos e 33 meninas), aleatoriamente selecionados entre os alunos de uma escola particular. Os resultados apontaram para a diminuição na atividade do sistema nervoso autonômico simpático e parassimpático em crianças obesas. Os índices RMSSD, pNN50, HF e SD1, indicaram que a atividade parassimpática foi menor nas crianças obesas do que nas crianças eutróficas (VANDERLEI et al., 2010a). Os mecanismos pelos quais a disfunção simpatovagal está relacionada à obesidade, não estão esclarecidos e é incerto ainda se esta disfunção é uma consequência da obesidade ou um mecanismo facilitador do seu desenvolvimento. Pesquisadores da Suécia avaliaram 311crianças e adolescentes entre 8 e 16 anos de idade em estágios pré púbere, púbere e pós púbere, de acordo com a auto avaliação da maturação sexual e em estados diferenciados de peso corporal. Os grupos foram divididos em Obesas, Sobrepeso e Magras (lean no original) e revelaram que os adolescentes obesos tiveram redução da sensibilidade barorreflexa cardíaco independentemente da idade e sexo. No entanto, indivíduos com sobrepeso demonstraram valores semelhantes para a sensibilidade barorreflexa quando comparadas com o grupo dos magros. Considerando a influência da puberdade na função autonômica em uma análise multivariada os pesquisadores revelaram ainda que o estado puberal não teve influência significativa sobre as medidas da modulação autonômica. Esta última observação reforça a ideia de que alterações no controle autonômico podem estar mais relacionadas a modificações fisiopatológicas, psicofisiológicas e até morfológicas do que às alterações hormonais decorrentes da maturação sexual (DANGARDT et al., 2011). Em um Hospital dos Estados Unidos, mais precisamente em Stanford, foram avaliados 37 crianças entre 7 e 12 anos divididas em dois grupos (obesos = 19 e não obesos = 18) ambos normotensos. Essa avaliação buscava atestar a hipótese que crianças obesas e normotensas teriam uma atividade autonômica reduzida, quando comparadas com crianças não obesas e também normotensas. O estudo aumentou 31 as implicações clínicas diretas de aparente diminuição de atividade vagal como reguladora barorreflexa em crianças normotensas está apontada para uma forte associação entre o acúmulo de peso, sendo este o principal modificador da função autonômica frente a própria hipertensão arterial (LATCHMAN et al., 2011). Com base nestes achados, as intervenções não farmacológicas precoces, como a perda de peso através de dieta e/ou exercício físico podem ter um impacto mais favorável sobre a modulação autonômica e devem ser recomendadas como medida de atenção primária dentro de qualquer política pública que deseje levar a uma redução da morbidade e possível mortalidade de determinado grupo e, principalmente, jovens adolescentes. Pesquisadores da Turquia em um estudo do tipo caso-controle, investigaram 62 crianças de ambos os sexos divididas em grupo de obesos (n = 32) e não obesos (n = 30) com idade entre 8 e 15 anos para uma avaliação de longa duração (24horas) com ECG. As medidas de domínio de tempo empregadas foram as seguintes: SDNN, SDANN, RMSSD, pNN50. Também foram usadas medidas de domínio da frequência tais como: HF (0,04-0,15 Hz); HF (0,15-0,5 Hz) e Razão LF/HF. Além das medidas de variabilidade, foram também investigadas variáveis hematológicas como a resistência à insulina para associação com a modulação autonômica e, no final, verificaram predomínio simpático nas crianças obesas de forma mais significativa no subgrupo resistente à insulina (TASCILAR et al., 2011). Em Londres, os resultados de uma investigação exploratória com 182 crianças (87 meninos e 95 meninas) entre 6 e 11 anos de idade corroborou com os achados mencionados anteriormente, sugerindo que a VFC sofre redução em crianças com sobrepeso/obesidade. Contudo, os autores mencionam possíveis influências da etnicidade, mas devido ao tamanho da amostra, não tiveram subgrupos divididos em relação a esta variável (BIRCH et al., 2012). Vale ressaltar que outros autores já mencionaram possíveis diferenças nos valores de repouso de grupos raciais variados, tais como caucasianos, afro-americanos, e asiáticos (EYRE et al., 2013; MARTIN et al., 2010). Um estudo recente reabriu a discussão sobre o impacto puberal nas medidas de variabilidade quando se propôs a investigar a modulação autonômica em 84 crianças com obesas e 87 eutróficas (grupo controle), com idades entre 9 e 13 anos em Taiwan. Além das já esperadas diferenças na função autonômica em função do estado nutricional, foram encontradas diferenças significativas entre os valores do 32 grupo de crianças obesas comparando os garotos em estágio pré púbere e púbere nas medidas de HF e LF (CHEN et al., 2012). 33 III METODOLOGIA 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA A pesquisa foi do tipo descritivo exploratória e com delineamento transversal, uma vez que não testamos hipóteses e, sim, averiguamos o comportamento de certos fenômenos em um dado instante de tempo. 3.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA 3.2.1 População No Centro de Apoio ao Controle da Obesidade Jansen Jerfferson Diógenes e Medeiros, na cidade de Mossoró-RN, estão cadastradas uma população de 211 sujeitos em estado de sobrepeso e obesidade de acordo com os percentis de IMC propostos pela organização mundial de saúde (DE ONIS et al., 2007). Em atendimento efetivo e com participação nas atividades propostas pelo local, apenas 32 sujeitos, do total mencionado, são do sexo masculino e apresentam idade igual ou superior a 11 anos de idade e inferior a 16 anos. 3.2.2 Amostra Em atendimento efetivo e com participação nas atividades propostas pelo Centro de Apoio ao Controle da Obesidade Jansen Jerfferson Diógenes e Medeiros, apenas 32 sujeitos, do total acima mencionado, são do sexo masculino e apresentaram os critérios de idade para compor a amostra, ou seja, 11 e 15 anos (inclusive). Com base nas características da população, utilizamos um erro amostral de 5%, um nível de confiança de 95% para um erro do tipo I e chegamos a um valor de 30 sujeitos para compor o Grupo Obesidade. Com o intuito de obtermos estatísticas para grupos pareados, foram recolhidos o mesmo número de jovens (30 sujeitos) da Academia H2 Fitness, localizada também na cidade de Mossoró-RN, seguindo o mesmo critério de idade, mas com classificação de estado nutricional eutrófico. Assim, 34 a amostra incidiu em 60 sujeitos divididos em dois grupos de 30 sujeitos cada de acordo com o estado nutricional (Eutróficos e Obesos). Tem sido recomendado que crianças e adolescentes com IMC para idade entre os percentis 85° e 97° sejam classificados como sobrepeso e os percentis acima deste intervalo sejam classificados com obesidade. Os pontos de corte de acordo com os percentis e escores para aplicação aos valores de peso e estatura, bem como a classificação de diagnóstico nutricional relativo a cada nível estão apresentados no quadro 1. Valores Críticos Diagnóstico Percentil Escore z Nutricional < Percentil 0,1 < Escore-z -3 Magreza acentuada ≥ Percentil 0,1 e < Percentil 3 ≥ Escore-z -3 e < Escore-z -2 Magreza > Percentil 3 e < Percentil 85 ≥ Escore-z -2 e ≤ Escore-z +1 Eutrofia > Percentil 85 e ≤ Percentil 97 ≥ Escore-z +1 e < Escore-z +2 Sobrepeso > Percentil 97 e ≤ Percentil 99,9 ≥ Escore-z +2 e ≤ Escore-z +3 Obesidade > Percentil 99,9 > Escore-z +3 Obesidade grave Quadro 1: Pontos de corte de IMC para idade estabelecidos para adolescentes de 5 a 19 anos. Fonte: (DE ONIS et al., 2007). Resumidamente, a amostra incidiu em 60 sujeitos, subdivididos em 2 grupos: Grupo Obesidade (30 sujeitos) e Grupo Eutrofia (30 sujeitos), de acordo com o estado nutricional. 3.3 INSTRUMENTOS DE COLETA DOS DADOS As informações quanto à prática habitual de atividade física foram obtidas por intermédio do Questionário Internacional de Atividade Física (International Physical Activity Questionnaire - IPAQ) em seu formato curto, versão 8, tendo como referência a última semana (GUEDES; LOPES; GUEDES, 2005). Foi considerado critério de exclusão a inatividade física, conforme o ponto de corte de 300 minutos de atividade física moderada/vigorosa semanal, de acordo com a atual diretriz de atividade física para adolescentes (MORAES et al., 2009). 35 Foi avaliado o peso corporal e a estatura, respectivamente, com uma balança digital (FILIZOLA PL200) com precisão de 50g e um estadiômetro (SANNY) portátil graduado em centímetros. De posse destas medidas, foi obtido o Índice de Massa Corporal (IMC) e, subsequentemente, a avaliação nutricional de acordo com os percentis de IMC. Os perímetros do abdômen e quadril foram avaliados ambos com uma trena de metal flexível (SANNY). O teste progressivo de esforço máximo foi realizado em uma esteira rolante multiprogramável (Inbrasport Super ATL, Porto Alegre, Brasil). Durante a execução da caminhada e corrida os avaliados foram constantemente monitorados por um cardiofrequencímetro da marca Polar RS810cx que consiste de um relógio digital e uma cinta fixada no tórax dos avaliados. Os dados referentes à FC foram enviados diretamente pra um microcomputador para análise através do software Polar Precision Performance. Todas as análises da VFC foram obtidas por meio do programa Kubios HRV Analysis Software 2,0 for Windows (The Biomedical Signal and Medical Imaging Analysis Group, Department of Applied Physics, University of Kuopio, Finlândia) (TARVAINEN, M. P. et al., 2013). A percepção subjetiva do esforço foi averiguada através da OMNI scale para corrida e caminhada que se traduz em um cartaz com imagens e números referentes à Escala de Percepção Subjetiva de Esforço que informa numericamente entre 0 e 10, a sensação que o esforço está causando temporalmente durante a atividade proposta, devido a sua fácil linguagem e identificação, de acordo com as figuras ilustradas, facilitando assim a indicação verbal por parte dos avaliados (Ver figura 05) (ROBERTSON et al., 2001; ROBERTSON et al., 2000; UTTER et al., 2002). Por se tratar de uma escala validada inicialmente para crianças de 6 a 13 anos de idade, 15% de nossa amostra (Grupo Eutrófico = 4 e Grupo Obesidade = 5) apresentou valores de idade superior a 13 anos. Na busca de instrumentos para suplantar esta necessidade, não encontramos escala adequada e especifica para corrida, que pudesse ser aplicada. Trabalhos com adolescentes dessa faixa etária têm preferido utilizar a Escala de Percepção Subjetiva de BORG, que se trata de uma escala que varia entre 6 e 20, sem especificação ilustrativa do esforço tal qual proposto com a OMNI scale (ADAMO; RUTHERFORD; GOLDFIELD, 2010). Dessa forma, acreditamos que a utilização de uma escala proposta para crianças mais jovens (OMNI scale), aplicada com uma amostra parcial e ligeiramente mais velha (9 de 60 sujeitos), não tenha trago prejuízos de interpretação, levando-se 36 em consideração que a escala vigesimal de BORG por vezes teve sua adaptação feita para uma escala decimal no sentido de facilitar a compreensão do executante de determinado esforço, mas sem a preocupação de adição visual do tipo de esforço e relacionamento da percepção com o tipo de exercício, sendo a escala apenas uma representação esquemática e ordinal para a autopercepção. Bastante Cansado Muito cansado Cansado Ficando cansado Pouco cansado Não estou nada cansado Figura 5: Children’s OMNI Scale of Perceived Exertion for walking/running (ROBERTSON et al., 2000). A intensidade do esforço relativo à FC foi calculada utilizando-se a equação; 208 - (0,7 x Idade), pois, recentemente, teve sua validade preditiva testada em crianças e considerada satisfatória (MACHADO; DENADAI, 2011; TANAKA; MONAHAN; SEALS, 2001). 3.4 PROCEDIMENTOS PARA A COLETA DOS DADOS Todos os participantes do estudo passaram por uma rotina de avaliação que aconteceu em ambiente reservado, arejado e não climatizado, com o consentimento dos pais e/ou responsáveis, tendo estes, assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). As avaliações foram realizadas sempre no período da manhã, entre às 08h00min e 11h00min, e nenhuma avaliação foi realizada com tempo inferior 37 a 2 horas posterior da última refeição do avaliado, no sentido de evitar redirecionamento do fluxo de sangue. O protocolo de execução incluiu um momento de abordagem dos pais, em que foram repassados novamente os procedimentos referidos no TCLE acerca do teste contínuo e incremental. Em seguida, os avaliados permaneceram em posição supina por um período de 5 minutos para verificação das variáveis dependentes em situação de Repouso. Após esse período, foi dado o início do teste que foi constituído de uma caminhada em esteira rolante sem inclinação e com velocidade inicial de 6km/h. A cada 3 minutos foi acrescido 1km/h de velocidade até que o avaliado atingisse a fadiga auto reportada (exaustão) e exigisse o fim do teste. Durante todo o teste, foi permitido ao avaliado recusar a continuidade do teste puxando espontaneamente um dispositivo de segurança, fixado na cintura que ao ser acionado diminui rapidamente, mas não instantaneamente, a velocidade da esteira ergométrica até a inércia total. Enquanto a exaustão voluntária, não causasse interrupção do teste, os participantes eram encorajados constante e verbalmente a se manterem em exercício pelo maior tempo possível. Para a verificação da percepção subjetiva de esforço, foi postado na frente da esteira rolante um banner contendo a numeração e sua respectiva identificação relativa a percepção subjetiva de esforço (ROBERTSON et al., 2005). Como já reportado, o teste teve duração variável, uma vez que foi interrompido pelo próprio executante ao reportar fadiga. Os intervalos R-R foram continuamente registrados, mesmo tendo finalizado o teste, pois, imediatamente, à desistência voluntária, os sujeitos foram conduzidos novamente à posição supina por mais um período de 5 minutos para o registro das variáveis em situação de recuperação imediata pós-exercício. Os registros dos intervalos R-R foram editados manualmente através de inspeção visual na tentativa de evitar que artefatos contaminem a análise. Na sequência, os registros foram automaticamente filtrados pelo software. Qualquer intervalo R-R com diferença superior a 20% do intervalo anterior foi automaticamente filtrado. Durante toda a execução do protocolo, os sujeitos estiveram com o cardiofrequencímetro de forma que a análise total foi recortada em 4 períodos de 5 minutos através do próprio KUBIOS software conforme descrito abaixo: 38 Repouso = 5 minutos iniciais em posição supina; 5min Iniciais = 5 primeiros minutos de atividade realizada na esteira; 5min Finais = 5 últimos minutos de atividade realizada na esteira, antes da exaustão voluntária; Recuperação = 5 minutos após a interrupção da corrida com o avaliado em posição supina. Durante toda o período de avaliação foi permitido que os sujeitos pudessem beber água que era fornecida com a utilização de garrafas do tipo squeeze. Após a última verificação, os sujeitos foram aconselhados a continuar a hidratação, mas os avaliadores já não mais se responsabilizaram pelo fornecimento de água. O protocolo de execução foi aprovado pelo comitê de ética e pesquisa com seres humanos da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN em atendimento às recomendações da resolução do Conselho Nacional de Saúde resolução nº 466/12 sob o número de parecer: 454.570. 3.5 TRATAMENTO ESTATÍSTICO Os dados foram apresentados utilizando-se da estatística descritiva através de medidas de tendência central (média e mediana) e de dispersão (desvio padrão, mínimo e máximo). Como inferência estatística, utilizamos provas não paramétricas para a verificação da normalidade da amostra e distribuição dos dados, tais como teste de Shapiro Wilk em função do número de sujeitos em cada grupo. Além desses testes, recorremos a medidas de assimetria e curtose, no sentido de uma verificação mais aprofundada de desvios da normalidade. Dada a distribuição paramétrica dos dados, verificamos o efeito simples utilizando a comparação de médias pelo teste t de Student para amostra independentes, no sentido de diferenciar os valores por agrupamento das variáveis. Nas comparações envolvendo variáveis com distribuição assimétrica, utilizamos o teste de Mann-Whitney para amostras independentes. Do mesmo modo, as correlações foram investigadas utilizando o coeficiente de Pearson (paramétrico) e/ou coeficiente de Spearman (não paramétrico). 39 A verificação do efeito da execução da atividade física nas variáveis dependentes dentro dos grupos foi obtido pela Análise de Variância para medidas repetidas (General Linear Models – GLM). Todos os dados foram calculados usando como ferramenta de cálculo o software SPSS 20.0 (Statistical Package for the Social Science, 20.0 Ink Chicago, IL, EUA) mantendo-se o nível de confiança de 95% para um erro do tipo I (p < 0,05). 40 IV RESULTADOS Na tabela 01, estão as características antropométricas que caracteriza cada um dos grupos. Tabela 01: Análise descritiva dos dados antropométricos da amostra. VARIÁVEIS ANTROPOMÉTRICAS ESTADO NUTRICIONAL Valor p Eutróficos Obesos Idade (anos) 13,2 + 1,1 13,8 + 1,5 0,090 Massa Corporal (kg) 43,5 + 2,1 91,5 + 17,0 0,000* Estatura (cm) 154,7 + 2,4 162,2 + 7,8 0,000* Índice de Massa Corporal (k/m2) 18,2 + 1,0 34,8 + 6,7 0,000* Perímetro do Abdômen (cm) 70,1 + 2,0 108,4 + 8,2 0,000* Perímetro do Quadril (cm) 78,7 + 1,6 97,9 + 5,4 0,000* * = Diferenças significativas para um erro do tipo I (p < 0,001). Com exceção da idade, todas as outras variáveis investigadas apresentaram diferenças estatísticas significativas, evidenciando claramente, do ponto de vista morfológico, que os critérios de inclusão para a separação dos grupos foram coerentes. O desempenho dos participantes na execução da atividade física proposta pelo protocolo do estudo revelou diferenças entre os grupos. Todas as variáveis apresentaram diferenças significativas como, por exemplo, o tempo de permanência em atividade. Este, foi superior no grupo Eutrófico, o que nos permitiu uma segmentação para os cálculos da VFC, que não implicou em sobreposição dos tempos para a estratificação dos períodos 5 minutos Iniciais e 5 minutos Finais. O mesmo não ocorreu com o grupo Obesidade, que em função do tempo médio de permanência em atividade (7,0 + 0,9 min), acarretou em sobreposição dos tempos durante a estratificação do intervalo para análise. Sendo assim, o período dos 5 minutos Finais tem um intervalo em comum (50% aproximadamente) com o período dos 5 minutos Iniciais, criando assim, uma intersecção que não implica em falseamento dos resultados ou contaminação do resultado no período. 41 Tabela 2: Análise descritiva das variáveis dependentes relacionadas ao desempenho não fisiológico no exercício. VARIÁVEIS DO PROTOCOLO DE Estado Nutricional Valor p EXECUÇÃO Eutróficos Obesos Duração total do teste (seg.) 955,7 + 166,0 721,2 + 55,7 0,000* Duração total do teste (min.) 15,9 + 2,7 12,0 + 0,9 0,000* Permanência em Atividade (seg.) 655,7 + 166,0 421,2 + 55,7 0,000* Permanência em Atividade (min.) 10,9 + 2,8 7,0 + 0,9 0,000* * = Diferenças significativas para um erro do tipo I (p < 0,001). De acordo com a tabela 03, podemos perceber que os valores da FC do grupo Eutrófico aumentaram substancialmente, mediante o incremento de carga e progressão do teste, chegando a valores médios de 195,3 + 3,2bpm o que corresponde a uma intensidade de 97,3 + 2,6%. O grupo Obesidade, ao final do teste, apresentou valores de FC médios de 165,5 + 6,4bpm, gerando estimativa de 70,4 + 5,9% de intensidade relacionada a FCmáx estimada pela equação de TANAKA et al. (2001). As medidas de domínio de tempo são frequentemente reportadas como mais adequadas para estudos de análises da VFC com longa duração (long term), apesar de diversos estudos com verificações curtas (short term) terem utilizados estas técnicas (BIRCH et al., 2012; FARAH et al., 2013; GAMELIN et al., 2009; MICHELS et al., 2013; TASCILAR et al., 2011). Mesmo assim, optamos por medidas de domínio da frequência como marcador da função autonômica, devido à totalidade de estudos que utilizam essas medidas em investigações de curta duração ser maior. Quanto aos índices da VFC, alguns autores reforçaram a ideia de que o estado nutricional tem implicações na diminuição da variabilidade total, sendo observado em sua sequência de estudos acerca da VFC em crianças com obesidade e eutróficas (VANDERLEI et al., 2010a;2010b;2010c). Em nosso estudo, os dados referentes ao grupo dos Obesos, igualmente aos do grupo Eutrófico, também apresentaram diferenças significativas em todas as variáveis, excetuando-se algumas comparações. 42 Em sua maioria, não encontramos diferenças significativas entre os momentos de Repouso e Recuperação, indicando, possivelmente, que os sujeitos tiveram uma boa capacidade de recuperação autonômica pós-teste no tempo de 5min. De um modo geral, o andamento do exercício gerou diminuição na variabilidade total e em função dos valores de HF relativos aos 5 minutos finais terem sido próximos de zero, acreditamos que os sujeitos apresentaram ou estiveram muito próximos de retirada vagal em momentos próximos da exaustão causada pela intensidade do exercício. Tabela 3: Componentes de domínio da Frequência para o grupo Eutrofia nas fases do protocolo de execução com apresentação das diferenças nas comparações por medidas repetidas obtidas pela GLM. Evolução do Protocolo de Execução MEDIDAS DE DOMÍNIO DA FREQUÊNCIA 5 min Iniciais 5 min Finais Recuperação 71,5 + 2,4 ψ 158,0 + 1,9 195,3 + 3,2 163,4 + 4,8 VLF (ms2) 25,5 + 9,4 π 317,1 + 95,6 48,3 + 24,0 31,7 + 28,2 LF (ms2) 779,6 + 111,2 Ω 34,6 + 6,8 1,0 + 0,1 749,2 + 124,7 1297,3 + 322,5 Ω 10,9 + 3,9 0,6 + 0,5 1266,9 + 251,2 Total (ms ) 387,2 + 104,6 € 374,6 + 125,5 47,8 + 26,3 379,2 + 68,6 LF/HF (ms2) 0,6 + 0,2 Ω 4,7 + 1,2 1,4 + 0,1 0,7 + 0,4 LF (n.u.) 32,8 + 2,2 ψ 79,4 + 4,1 58,6 + 0,8 33,2 + 2,0 HF (n.u.) 48,1 + 2,3 Ω 21,1 + 4,0 41,4 + 0,9 48,9 + 3,4 74,5 + 2,4 ψ 180,9 + 6,5 205,8 + 3,5 104,4 + 3,5 Média da FC no Repouso Período (bpm) 2 HF (ms ) 2 FC no fim do período (bpm) VLF (Frequência de Muito Baixa); LF (Frequência Baixa); HF (Frequência Alta); LF/HF (Razão entre Baixa Frequência e Frequência Alta); ms2 (milissegundos ao quadrado) e n.u. (unidades normalizadas). Ψ = diferenças significativas para todas as comparações (p < 0,05); π = diferenças significativas para todas as comparações exceto entre o Repouso x Recuperação e 5 Minutos Finais x Recuperação (p < 0,05); Ω = diferenças significativas para todas as comparações exceto entre Repouso x Recuperação (p < 0,05); € = diferenças significativas apenas nas comparações envolvendo os 5min Finais (p < 0,05). Em ambos os grupos, o tempo de 5 minutos pareceu suficiente para os ajustes autonômicos após um exercício até a exaustão se configurar novamente semelhante aos de repouso. Mesmo assim, o grupo Eutrófico apresentou valores maiores e mais próximos aos de Repouso em decorrência da Recuperação quando comparado com 43 o grupo Obesidade. Vale salientar que durante todo o período de descanso, os avaliados estiveram sentados. Em um estudo recente, com 24 crianças, sendo 12 saudáveis e 12 com fibrose cística que realizaram o teste de caminhada de 6 minutos (TC6), os autores encontraram valores de variabilidade no grupo de pacientes do que no grupo controle e em ambos os casos aos valores foram diminuídos em função da atividade física. Ao final do protocolo de teste, a amostra foi avaliada novamente e foi verificada uma resposta autonômica em ambos os grupos no sentido de diminuir a VFC em direção aos valores iniciais, considerada pelos autores como satisfatória, mas ainda não equiparada aos valores de repouso (FLORENCIO et al., 2013). Tabela 4: Valores das componentes de domínio da Frequência para o grupo Obesidade nas fases do protocolo de execução com apresentação das diferenças nas comparações por medidas repetidas obtidas pela GLM. Evolução do Protocolo de Execução MEDIDAS DE DOMÍNIO DA FREQUÊNCIA Repouso 5 min Iniciais FC no Período (bpm) 87,2 + 1,6 ψ 149,1 + 3,8 VLF (ms2) 208,7 + 20,7 γ 5 min Finais 165,5 + 6,4 307,0 + 71,2 207,7 + 98,8 Recuperação 128,3 + 8,8 209,7 + 17,8 2 4,2 + 1,5 Ω 8,9 + 3,5 1,4 + 0,5 5,0 + 3,8 2 1,6 + 0,5 Ω 1,0 + 0,0 0,5 + 0,5 1,8 + 1,1 LF (ms ) HF (ms ) Total (ms2) 213,2 + 28,2 Ɐ 293,6 + 67,5 235,9 + 112,4 216,1 + 24,1 LF/HF (ms ) 2,9 + 1,7 Ω 9,4 + 3,6 2,0 + 1,0 3,0 + 0,9 LF (n.u.) 54,9 + 7,3 ψ 88,3 + 4,0 73,7 + 5,3 56,2 + 4,8 HF (n.u.) 71,7 + 1,5 Ω 9,9 + 3,6 23,0 + 6,0 70,0 + 7,3 FC no fim do período (bpm) 90,2 + 1,6 ψ 173,9 + 6,2 181,8 + 5,9 97,6 + 2,3 2 VLF (Frequência de Muito Baixa); LF (Frequência Baixa); HF (Frequência Alta); LF/HF (Razão entre Baixa Frequência e Frequência Alta); ms2 (milissegundos ao quadrado) e n.u. (unidades normalizadas). Ψ = diferenças significativas para todas as comparações (P < 0,05); γ = diferenças significativas para todas as comparações exceto entre Repouso x 5min Finais; Repouso x Recuperação e 5min Finais x Recuperação (P < 0,05); Ω = diferenças significativas para todas as comparações exceto entre Repouso x Recuperação (P < 0,05); Ɐ = diferença significativa apenas entre Repouso x 5min Iniciais e 5min Iniciais x 5min Finais (P < 0,05). Se observarmos que os valores de modulação autonômica associada à atividade parassimpática diminuíram mais cedo e mais incisivamente em nossa amostra de jovens obesos induzidos por esforços que os levaram à exaustão, 44 podemos especular que, possivelmente, intensidades mais baixas possam estar associadas a uma menor exposição dos sujeitos com sobrepeso a problemas autonômicos. No que tange ao balanço global através da razão LF/HF, percebemos um aumento exponencial durante os 5 minutos Iniciais, seguida de uma diminuição nos 5 minutos que antecederam a fadiga e novamente uma diminuição no período de Recuperação (que não apresentou diferença significativa comparada com o Repouso). Resultados semelhantes foram observados em um trabalho realizado por pesquisadores espanhóis que avaliaram a modulação autonômica em função de treinamento de alta intensidade de ciclistas de 18,0 + 3,0 anos. Os autores relataram que os valores da razão LF/HF aumentou rapidamente no início e depois diminuiu progressivamente até valores mínimos (SARMIENTO et al., 2013). Pesquisadores de Taiwan, investigaram medidas de variabilidade em 171 crianças de ambos os sexos sendo 84 em estado de obesidade e 87 com peso normal, todas com idades entre 9 e 13 anos, e verificaram que o grupo com excesso de peso corporal apresentou os menores valores para LF, HF e Força Total quando comparados com o grupo controle e menor engajamento em programas de atividade física. As variáveis foram apresentadas em unidades logarítmicas, e portanto, não convenientes de serem comparadas com nossos resultados numéricos (CHEN et al., 2012). Na Inglaterra, 182 crianças (87 meninos e 95meninas) com idades entre 6 e 11 anos foram mensuradas em posição supina, por período de 15 minutos, mas com estratificação de 5 para efeitos de análise da VFC. Os autores encontraram menos valores para os Obesos (HF = 36,1 + 14,4; LF = 34,9 + 12,2; LF/HF = 1,3 + 1,3), quando comparados com o Eutróficos (HF = 42,1 + 17,3; LF = 32,1 + 12,1; LF/HF = 1,3 + 1,8) (BIRCH et al., 2012). Estes últimos se assemelham aos nossos resultados exceto pela razão LH/HF que foi substancialmente maior que os nossos quando comparamos com nossas medidas de repouso. Em um estudo transversal com 74 adolescentes obesos (47 meninas e 27 meninos) do programa multidisciplinar para tratamento da obesidade em adolescentes da Universidade de Pernambuco, classificados como obesos igualmente ao nosso estudo, por apresentarem índice de massa corporal maior ou igual que o percentil 95 para idade e gênero e com idades entre 13 e 18 anos, normotensos, os valores de HF (26,0 + 10), LF (74,0 + 10,0) e LF/HF (3,4 + 1,7) foram apresentados em unidades 45 normatizadas. Igualmente aos nossos resultados, a razão LF/HF ficou fora dos padrões de normalidade que é entre 1 e 2. Contudo, os valores de HF e LF, isoladamente, apresentaram uma condição inversa quando comparado com nossos resultados (FARAH et al., 2013). Os autores sugerem ainda que a diminuição de atividade parassimpática está mais associada com a obesidade central do que com a obesidade geral, em que levaram em consideração as medidas de circunferência da cintura e o índice de massa corporal, respectivamente, para essa caracterização da obesidade. Pesquisadores da Turquia, investigaram amostra de obesos (n= 66) e não obesos (n = 40) e igualmente aos nossos resultados encontraram maiores valores de FC de repouso nos indivíduos obesos (valor p = 0,001) (ALTUNCU et al., 2012). A discrepância ocorreu na força total (obesos = 1847 + 893; não obesos = 2077 + 1012ms2) que em ambos os casos foi bem superior do que os nossos resultados, apesar de manter a tendência de menores valores para os obesos; VLF (obesos = 1040 ± 314 ms2; não obesos = 1107 ± 454 ms2) e a razão LF/HF (obesos = 3.8 ± 2,3; não obesos = 2.3 ± 0,9) novamente bem superior aos nossos resultados. Adiante, os valores de LF (obesos = 40,68 ± 13.4 nu; não obesos = 39,9 ± 12,6 nu) e HF (obesos = 16,02 ± 12.90 nu; não obesos = 21,5 ± 13,6 nu) foram mais próximos aos nossos resultados. Em ambos os casos (Eutróficos e Obesos) pudemos observar que HF (ms 2) como também HF (n.u) apresentou diminuição caracterizando menor poder de sinalização parassimpática no controle da frequência em função da progressão no exercício. No grupo Eutrófico, verificamos em HF (n.u.), um ligeiro aumento entre os 5 minutos Iniciais e os 5 minutos Finais, denotando um retorno de atividade vagal mesmo em situação de esforço extenuante. Dessa forma, a queda inicial a partir do Repouso para os 5 minutos Iniciais pode ser atribuído a atividade barorreflexa em função da mudança de posição e redistribuição de fluxo sanguíneo para a atividade física desempenhada. No grupo Obesidade, os valores são ainda menores e tendem a diminuir em decorrência do exercício, sendo, novamente, aumentado em função da Recuperação. Em HF (n.u.), a amostra de obesos apresentou ligeiro aumento entre os 5 minutos Iniciais e os 5 minutos Finais e valores de Recuperação que não apresentaram diferenças significativas em relação aos de Repouso. Vale salientar que os valores de Repouso estiveram bem abaixo em relação ao grupo Eutrófico. 46 Os valores de LF (ms2 e n.u) também apresentaram semelhanças quanto à tendência de aumento nos dois grupos. Sendo um componente que evidencia tanto atividade simpática, quanto parassimpática. Frequentemente, os seus aumentos têm sido explicados como um aumento da atividade simpática frente à atividade vagal. Dessa forma, justifica-se nos dois grupos o seu aumento devido ao aumento dos batimentos cardíacos e ajustes cardiovasculares típicos e inerentes à posição e à execução do exercício (PASCHOAL et al., 2009). Todas as variáveis sofreram mudanças significativas e as estimativas de explicação do fenômeno através dos valores de variância explicada foram altos para o grupo Eutrófico e baixos em sua maioria para o Grupo Obesidade como pode ser visto na variável Força Total (ms2) teve uma explicação de apenas 22% como efeito do exercício físico. Acreditamos que as mudanças tenham ocorrido, portanto, por uma influência maior do estado nutricional como efeito limitante para o exercício e atenuante para aumento de atividade simpática (FARAH et al., 2013). Uma vez que as hipóteses de normalidade, homogeneidade da variância e esfericidade foram satisfeitas, os resultados mostraram ser improvável que as diferenças entre as condições tenham se originado somente em virtude de um erro amostral. Uma estimativa do tamanho do efeito (η2 parcial) para cada variável está representada na tabela 05 para o grupo dos Eutróficos e Obesos. A tabela 5 nos faz perceber o quão fortemente afetado pelo exercício foi a modulação autonômica, contudo, em estudo muito recente os domínios da qualidade de vida foram analisados em 160 crianças e adolescentes (72 do sexo masculino e 88 do sexo feminino), com idades entre 8 e 18 anos e correlacionada ao padrão da VFC no domínio da frequência. Associações menores, mas significativas, foram reveladas apenas no que diz respeito ao domínio "autonomia". Os autores concluíram que apesar de inclinação para que exista uma correlação entre os parâmetros da VFC e a Qualidade de Vida, os processos fisiológicos associados do sistema nervoso autonômico e revelados pela VFC não são capazes de representar características que têm um relacionamento com aspectos psicossociais como a Qualidade de Vida (SEIFERT et al., 2014). Tabela 5: Valores inferenciais das variáveis de domínio da frequência obtidas pela GLM dentro dos intervalos de confiança de 95% para um erro do tipo I (p < 0,05) considerando o ajuste dos graus de liberdade através do Greenhouse-Geiser. 47 Eutróficos MEDIDAS DE DOMÍNIO Estimativa do Obesos Estimativa do DA FREQUÊNCIA sig. VLF (ms2) 0,00 0,88 0,00 0,38 LF (ms2) 0,00 0,97 0,00 0,57 0,00 0,94 0,00 0,46 Total (ms ) 0,00 0,78 0,03 0,22 LF/HF (ms2) 0,00 0,91 0,00 0,74 LF (n.u.) 0,00 0,97 0,00 0,98 HF (n.u.) 0,00 0,97 0,00 0,98 2 HF (ms ) 2 Tamanho do efeito sig. Tamanho do efeito VLF (Frequência de Muito Baixa); LF (Frequência Baixa); HF (Frequência Alta); LF/HF (Razão entre Baixa Frequência e Frequência Alta); ms2 (milissegundos ao quadrado) e n.u. (unidades normalizadas). Na tabela 06, podemos observar os valores de FC relativos a cada momento de verificação, tanto em valor médio por período, como em valor absoluto ao final do período. Foram encontradas diferenças significativas em todos os valores através do teste t de student para amostra pareadas. Em geral, os valores de FC foram maiores no grupo Obeso que no grupo Eutrófico, todavia, os aumentos foram maiores no grupo Eutrófico. Em estudo realizado com jovens da Tunísia, com idades entre 12 e 14 anos, todos obesos e divididos em dois grupos (controle e exercício), os autores propuseram atividade física de característica aeróbia com intensidades de 70 a 85% da FC máxima por um período de 4 meses e 4 sessões semanais de 60 minutos, no intuito de promover melhoras nos níveis de obesidade. Os autores encontraram durante a testagem da capacidade aeróbia valores de FC máxima bem abaixo do valor hipotético de acordo com a idade. O grupo treinamento apresentou valores ligeiramente mais baixos de FC máxima (179,9 ± 11,4 e 175,3 ± 7,9) que o grupo controle (181,3 ± 8,3 e 180,9 ± 8,1), porém, houve diferenças significativas nas comparações intragrupos. Houve também uma redução da circunferência do abdômen, sugerindo diminuição da massa gorda, mas os autores não encontraram diferenças satisfatórias entre o grupo controle e o grupo experimental no que tange a potência máxima (REGAIEG et al., 2013). 48 Tabela 6: Análise descritiva e inferencial das medidas fisiológicas de intensidade do esforço entre os grupos ao longo das etapas de execução do protocolo de exercício. Verificação durante o Repouso VARIÁVEIS RELACIONADAS À INTENSIDADE DO ESFORÇO Eutróficos Obesos Valor p Média do Período (bpm) 71,5 + 2,4 87,2 + 1,6 0,000* Valor Absoluto no fim do período (bpm) 74,5 + 2,4 90,2 + 1,6 0,000* Intensidade Estimada do Esforço (%) _ _ _ Verificação durante os 5 minutos Iniciais Eutróficos Obesos Valor p Média do Período (bpm) 158,0 + 1,9 149,1 + 3,8 0,000* Valor Absoluto no fim do período (bpm) 180,9 + 6,5 173,9 + 6,2 0,000* Intensidade Estimada do Esforço (%) 69,9 + 1,8 55,7 + 3,3 0,000* Verificação durante os 5 minutos Finais Eutróficos Obesos Valor p Média do Período (bpm) 195,3 + 3,2 165,5 + 6,4 0,000* Valor Absoluto no fim do período (bpm) 205,8 + 3,5 181,8 + 5,9 0,000* Intensidade Estimada do Esforço (%) 97,3 + 2,6 70,4 + 5,9 0,000* Verificação durante o período de Recuperação Eutróficos Obesos Valor p Média do Período (bpm) 163,4 + 4,8 128,3 + 8,8 0,000* Valor Absoluto no fim do período (bpm) 104,4 + 3,5 97,6 + 2,3 0,000* Intensidade Estimada do Esforço (%) 72,2 + 3,9 37,0 + 8,0 0,000* * = Diferenças significativas para um erro do tipo I (p < 0,001). Acreditamos que a prescrição por zonas de intensidades para populações jovens e com índices de obesidade devam considerar que os valores abaixo das zonas máximas, já pode se configurar em uma atividade extremamente extenuante e que pode gerar disautonomia precoce. 49 A tabela 07 dá início as análises em função dos níveis de peso corporal em um determinado momento do protocolo. Como podemos observar, já no repouso os grupos apresentam diferenças significantes em todas as variáveis de domínio da frequência. Estes resultados corroboram com diversos estudos que afirmam ser o excesso de peso, um redutor da variabilidade total e consequentemente diminuição de atividade parassimpática e aumento do tônus simpático (CHEN et al., 2012; DANGARDT et al., 2011; FARAH et al., 2013; LATCHMAN et al., 2011; PASCHOAL, 2012; PASCHOAL; FONTANA, 2011; PASCHOAL et al., 2009; TASCILAR et al., 2011; VANDERLEI et al., 2010a). Tabela 7: Análise inferencial (p valor) variáveis em cada momento da execução do protocolo comparada entre os grupos Eutróficos e Obesos. MEDIDAS DE DOMÍNIO DA FREQUÊNCIA Repouso 5 min 5 min Iniciais Finais Recuperação VLF (ms2) 0,000* 0,645 0,000* 0,000* LF (ms2) 0,000* 0,000* 0,000* 0,000* HF (ms2) 0,000* 0,000* 0,441 0,000* Total (ms2) 0,000* 0,003** 0,000* 0,000* LF/HF (ms2) 0,000* 0,000* 0,004** 0,000* LF (n.u.) 0,000* 0,000* 0,000* 0,000* HF (n.u.) 0,000* 0,000* 0,000* 0,000* VLF (Frequência de Muito Baixa); LF (Frequência Baixa); HF (Frequência Alta); LF/HF (Razão entre Baixa Frequência e Frequência Alta); ms2 (milissegundos ao quadrado) e n.u. (unidades normalizadas). * = Diferenças significativas para um erro do tipo I (p < 0,001). ** = Diferenças significativas para um erro do tipo I (p < 0,05). Não foram encontradas diferenças significativas apenas na VLF que está relacionada com a atividade simpática e, segundo alguns autores, também pode estar relacionada com o sistema renina-angiotensina aldosterona e respostas inflamatórias (LOPES et al., 2013; VANDERLEI et al., 2009). Tendo a obesidade como um causador de resposta inflamatória, podemos especular que os valores de VLF, sempre mais altos para os obesos em praticamente todas as situações, possam estar relacionados com processo inflamatórios (HAENSEL et al., 2008). 50 Ressaltamos que as análises dos 5 minutos Iniciais e 5 minutos Finais foram realizadas com os sujeitos na posição bípede (durante a execução na esteira), mas de acordo com alguns autores que pesquisaram diferenças nas medidas de modulação autonômica em 30 crianças (15 eutróficas e 15 obesas) com idades entre 9 e 11 anos, em função da posição supina e bípede, a variabilidade da frequência cardíaca, tanto na posição supina quanto na posição bípede, não mostrou alterações autonômicas cardíacas em decorrência da obesidade infantil, sugerindo que, na faixa etária e no grau de obesidade estudados, a modulação autonômica cardíaca não sofre influências da posição de verificação (ANCONA et al., 2009). A PSE traduz a sensação/percepção que o executante está sentindo em determinado instante de tempo e as inferências realizadas mostraram que a percepção subjetiva do esforço não apresentou diferenças nos momentos de repouso e nem nos 5 minutos finais, já que, neste momento, está implícito que se encerrou por incapacidade do avaliado continuar e, portanto, entendido pelo mesmo como o maior valor para atribuição do esforço. Contudo, em relação aos 5 minutos iniciais de atividade os avaliados do grupo Obesos atribuíram maiores valores (mediana = 7) para a PSE do que o grupo Eutrófico (mediana = 4). O valor da probabilidade associada de 0,000, mostra ser improvável que estes resultados tenham ocorrido por erro amostral. Assim, os primeiros minutos foram incisivamente mais extenuantes na percepção dos garotos com Obesos, quando comparado com a percepção dos garotos Eutróficos. Tabela 8: Análise dos postos de Mann-Whitney entre os grupos para a Percepção Subjetiva de Esforço (PSE). MOMENTOS DE Teste de Independência PSE U de Mann-Whitney Sig. VERIFICAÇÃO Eutróficos Obesos Repouso 0 [0; 0] 0 [0; 0] U = 450,0; ɀ = 0,000 n.s. 5 minutos iniciais 4 [4; 5] 7 [5; 9] U = 21,0; ɀ = -6,501 0,000* 5 minutos finais 10 [10; 10] 10 [10; 10] U = 450,0; ɀ = 0,00 n.s. Recuperação 0 [0; 0] 3 [2; 3] U = 0,0; ɀ = -7,244 0,000* n.s. = Não apresentou diferença significativa; * = Diferenças significativas para um erro do tipo I (p < 0,001). 51 Observando a figura 06, podemos ter uma ideia do relacionamento da FC com outras variáveis independentes projetando no momento do teste. Somente a amostra de Eutróficos chegou aos valores máximos de intensidade estimada durante o exercício e incidentemente no momento de exaustão. O grupo obesidade não conseguiu chegar nos valores máximos estimados de intensidade, mas reportou uma sensação subjetiva de exaustão com FC abaixo disso. FIGURA 6: Resumo de desempenho no protocolo de execução para os grupos Eutrofia e Obesidade. Percebe-se já no primeiro estágio que o grupo Obeso, sente o exercício mais atenuante e desconfortante a julgar pelo valor 7 na escala, ainda que os valores de frequência cardíaca não apontem para intensidades muito altas. Concomitante a isso, o grupo não ative o estado estável que poderia mantê-los em atividade por um tempo maior e dessa forma, já no segundo incremento de carga, os sujeitos entram em fadiga e solicitam o final do treino. Intensidades muito altas de treinamento foram investigadas do ponto de vista inflamatório e, recentemente, em um estudo com adultos jovens (22 + 2), revelaram que após 2 semanas, alguns marcadores inflamatórios como interleucina (IL) -6, IL-8, IL-10, fator de necrose tumoral-α, aumentaram ao passo que as concentrações de 52 interferon-γ e IL-1β não sofreram alterações com uma sessão aguda. Ao final de duas semanas de treinamento, não foram mais reportados aumentos desses marcadores em função de sessão aguda reforçando a ideia de que o Treinamento Intervalado de Alta Intensidade pode ser uma atividade segura e efetiva na diminuição dos níveis de sobrepeso do indivíduo obeso que reconhecidamente já possui níveis circulantes mais elevados de marcadores inflamatórios decorrentes da obesidade (ZWETSLOOT et al., 2014). Todavia, observando em nosso estudo a PSE e fazendo um paralelo com o tempo de permanência em atividade por parte do grupo Obeso, acreditamos que essa estratégia não consiga se estabelecer nos primeiros contatos com o paciente, devido ao possível desconforto e brevidade que o treino traria. Além de poder afetar o gasto energético total da atividade, temos que considerar que do ponto de vista autonômico, a intensidade o agente mais propiciador de diminuição da variabilidade da frequência cardíaca tendo-se esta configuração se acentuado em indivíduos obesos. 53 CONCLUSÃO E SUGESTÕES Os valores de variabilidade da frequência cardíaca sofreram alterações semelhantes em função da execução de atividade física contínua e incremental em ambos os grupos (Eutróficos e Obesos), caracterizando assim, a atividade física como um modificador do controle autonômico no coração. Apesar destas semelhanças, os obesos tiveram os menores valores, ou seja, maior redução da variabilidade acarretando maior exposição autonômica numa menor carga de trabalho. Durante a recuperação, a resposta autonômica não apresentou grandes diferenças, quando comparados com os valores iniciais intragrupos, mas, quando comparados intergrupos, os obesos apresentaram ligeira diminuição de variabilidade, sugerindo melhor recuperação nos jovens eutróficos por unidade de tempo. A percepção subjetiva de esforço associou-se positivamente em ambos os grupos ao ponto máximo da intensidade atingida pelos grupos, mas, quando comparadas pela mesma unidade de tempo, os valores são sempre mais altos para os obesos quando comparados com os Eutróficos, denotando uma maior sensação de esforço por parte desse grupo e refletindo em menor tempo de execução do exercício. Assim, temos motivos para acreditar que estimativas de intensidade de trabalho próximos dos valores máximos ou submáximos, quando aplicados a crianças com níveis de obesidade podem não se refletir numa zona aceitável e exequível, considerando um nível de segurança fisiológica para permanência em atividade e capacidade do sujeito de permanecer na mesma. Desta forma, sugerimos que além da estimativa das zonas de trabalho, sejam avaliados também antes da prescrição, a condição de controle autonômico durante o trabalho, a fim de conhecer as alterações que indiquem possíveis desajustes no controle da bomba cardíaca. 54 VI REFERENCIAS ADAMI, F.; VASCONCELOS, F. D. A. G. D. Childhood and adolescent obesity and adult mortality: a systematic review of cohort studies. Cad Saude Publica, v. 24 Suppl 4, p. s558-68, 2008. ADAMO, K. B.; RUTHERFORD, J. A.; GOLDFIELD, G. S. Effects of interactive video game cycling on overweight and obese adolescent health. 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