EDUCAÇÃO CORPORATIVA: OS CUSTOS DOS CURSOS A
DISTÂNCIA OFERECIDOS PELA MARINHA DO BRASIL
Luiz Claudio Medeiros Biagiotti*
*Capitão-de-Fragata (T), Chefe do Departamento de Ensino a Distância
RESUMO
A questão dos custos envolvidos com a implementação e o desenvolvimento de
programas de Educação a Distância em uma corporação é bastante importante e
significativa. O principal objetivo em se efetuar um acompanhamento de custo é verificar o
custo x benefício dos programas. Cada corporação, em função de suas características, cria
os seus indicadores e sua sistemática de acompanhamento. No caso da Marinha do Brasil,
por se tratar de uma instituição que não visa fins lucrativos, a preocupação com os custos
envolvidos se dá mais pela necessidade de se verificar a economia de recursos obtida, ao se
comparar o custo oferecido pela modalidade de EAD e efetuar a comparação com o mesmo
curso se oferecido de maneira presencial.
Palavras Chave: Custos, Educação a Distância (EAD), Educação Coorporativa (EC).
1 – INTRODUÇÃO
A Marinha do Brasil é uma das instituições pioneiras no país a utilizar a modalidade
educação à distância.
Seu uso data de dezembro de 1939, ocasião em que a Escola de Guerra Naval
começou a se utilizar de material didático impresso para os militares do posto de CapitãoTenente, que estavam na faixa de antigüidade para cursar um Preparatório de Comando
para Oficiais.
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Um fato importante a se ressaltar, é que a Marinha instituiu esse curso apenas em
dois meses após, a primeira escola de cursos preparatórios por correspondência (o Instituto
Monitor) inicia suas atividades, demonstrando com isso que a Marinha desponta na frente
de diversas corporações, com o que havia de mais moderno.
A utilização do material impresso e o seu envio por correspondência, a chamada
primeira geração do ensino a distância, funcionou a contento, tanto que continua a ser
utilizada nos dias atuais.
Atualmente nos encontramos na terceira geração do ensino a distância, a geração
digital, e a Marinha desde o ano 2000, desenvolve algumas de suas atividades da Educação
Corporativa, por meio de programas de Educação a Distância via web.
A passagem da primeira para terceira do ensino a distância, foi direta, sem que
tivessem sido realizadas algumas ações da chamada segunda geração, a geração analógica,
onde eram desenvolvidas as atividades de EAD, por meio de mídias, como rádio, cassetes,
televisão, etc.
2 – DESENVOLVIMENTO
2.1 – COMO SE DEU A IMPLEMENTAÇÃO
Ao iniciar as atividades de Educação Corporativa pela modalidade da Educação a
Distância, no ano de 1939, a Marinha passou a enviar via correios o material didático
impresso, o qual seria lido pelos alunos, para que posteriormente fossem submetidos a uma
prova.
Tal material tratava-se de publicações elaboradas na própria Marinha, e que eram
restituídas ao final do curso, para serem reaproveitadas na turma seguinte.
Durante sessenta anos os cursos à distância continuaram a ser realizados desta
maneira. Outros modos de Educação Corporativa desenvolvidos foram os cursos e os
treinamentos presenciais realizados nos Centros de Instrução, nos Centros de Adestramento
e nas Escolas de Marinha.
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A partir do ano de 1999, iniciaram-se os esforços no sentido de oferecer cursos a
distância via web. Tal ação era bastante viável, uma vez que o principal fator que encarece
tal iniciativa, a infra-estrutura de rede, já existe na Marinha.
Começou-se a estudar, como que, partindo da infra-estrutura existente, poderia se
implantar um curso via computadores. Nessa ocasião foi feita uma pesquisa junto às
Universidades conveniadas com a Marinha do Brasil, onde foi constatada a necessidade de
se utilizar um software que atuasse como uma sala de aula, ou sala, um ambiente virtual de
aprendizagem, e também a preparação do material adequado, de modo que fosse bastante
atraente e interativo.
Para continuar com a implementação da educação via web, foi necessária a
contratação de uma empresa de consultoria, que além de fornecer o ambiente virtual de
aprendizagem, prepararia o material didático e qualificaria uma equipe da Marinha do
Brasil na realização de tais atividades. Pode-se dizer que essa iniciativa, em termos de
educação a distância via web, foi a mais onerosa até os dias atuais, porém o custo benefício
foi válido, uma vez que a partir desse momento passamos a adquirir as competências
necessárias para desenvolver os próximos cursos.
O resultado dessa iniciativa foi o oferecimento de um curso de Organização &
Métodos, no ano de 2000, para 17 alunos.
No ano seguinte, a equipe que adquiriu competências para atuar no segmento da
Educação a Distância, começou a se aprimorar nos estudos, sendo que alguns foram fazer
curso de Mestrado em Educação a Distância, e outros Especialização em Educação a
Distância. A exceção de um militar, cujo curso, foi feito às expensas da Marinha do Brasil,
os demais realizaram seus cursos por conta própria, devido ao interesse que o assunto
despertou nessas pessoas. A partir de suas formações, estas pessoas passaram a atuar como
multiplicadoras, fazendo isto de forma oficial, por meio da criação de um Curso de
Capacitação para Autores e Tutores em EAD.
A partir da criação deste curso, a formação de todo o pessoal das equipes
multidisciplinares que desenvolvem cursos, foi realizada dentro da própria Marinha do
Brasil, a custo baixo.
Os cursos voltaram a ser oferecidos a partir do ano de 2002, desta feita, dois cursos
foram oferecidos, através do Ambiente Virtual de Aprendizagem e-Proinfo, ambiente
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gratuito, cedido através de um convênio firmado entre o Ministério da Educação e a
Marinha do Brasil.
No ano de 2003, foram oferecidos cinco cursos nessa modalidade, sendo que desta
vez, o ambiente utilizado foi o Teleduc, desenvolvido pela Universidade de Campinas. A
mudança de ambiente virtual deu-se em função da possibilidade do seu servidor ser
instalado fisicamente na Diretoria de Ensino, o que aumentava os requisitos de confiança,
de segurança, de rapidez e de flexibilidade. Tal fato gerou um custo de aquisição de um
microcomputador para servir como servidor dedicado.
Desde então, os cursos vêm aumentando de uma forma exponencial e continuam a
ser oferecidos sem nenhum custo para a marinha, visto que as atualizações de versão são
gratuitas e disponibilizadas pela Universidade de Campinas.
2.2 - O QUADRO ATUAL
Atualmente a Marinha do Brasil possui 36 cursos sendo ofertados na modalidade de
educação a distância, para os seus servidores, e neste ano a previsão é de 1500 alunos
virtuais.
No espectro de cursos, já existem alguns destinados à comunidade dos marítimos,
podendo esses cursos serem realizados via internet..
Os cursos a distância da Marinha do Brasil, são desenvolvidos em oito instituições
distintas, sendo que nessas instituições existem equipes multidisciplinares, que foram
capacitadas por meio do Curso de Capacitação de Autores e Tutores em EAD, e outros
capacitados em Webdesign.
O curso de webdesign é realizado anualmente para cerca de dez servidores, “inhouse”, por meio de uma empresa terceirizada, vencedora do processo de licitação
realizado, onde normalmente, se consegue valores bem abaixo dos praticados no mercado.
Para permitir que os servidores tenham um local de acesso adequado, nos pólos com
grande concentração de militares existem as “Salas de EAD”, que são compartimentos em
local de fácil acesso em uma instituição militar dentro desses pólos, equipados com cerca
de dez micro-computadores, com a finalidade principal de realizar os cursos a distância e
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secundária de inclusão digital. Atualmente existem 8 “Salas de EAD” espalhadas pelo
território Nacional. Cada sala custou em média R$ 25.000,00 para os cofres da Marinha do
Brasil.
É constante a preocupação com a manutenção da capacitação do pessoal envolvido
com o ensino a distância. Para tal é destinada certa quantia em recursos para a realização de
cursos de atualização e para a participação em seminários, congressos, workshops, etc.
2.3 – O QUADRO FUTURO
Analisando a situação presente e tomando como base os questionários de final de
curso recebidos, constata-se que ainda é necessário efetuar algumas ações visando
aprimorar o ensino a distância.
Dentre as ações futuras, podemos citar a continuação da implantação de “Salas de
EAD” em novos pólos de concentração de militares, fora e dentro da sede da Marinha do
Brasil, no Rio de Janeiro.
Pensa-se na implementação de um sistema de vídeo-conferência, o que
consequentemente, gera a necessidade do aumento da largura de banda de
telecomunicações. Estão sendo analisadas diversas soluções, algumas delas, não dedicadas
24 horas por dia, o que torna mais viável o custo de implementação.
Estuda-se também, a aquisição de uma ferramenta de autoria. Esta ferramenta
agilizaria a produção do material dos cursos, uma vez que permite ao conteudista elaborar o
seu próprio material em uma versão mais próxima da versão final, reduzindo sobremaneira
o trabalho do webdesigner. Dessa feita, o investimento realizado na aquisição do software e
suas licenças de uso, em pouco tempo compensa, visto reduzir o investimento feito no
treinamento em webdesigner.
É feito um planejamento de participação dos militares da equipe multidisciplinar em
cursos, congressos, seminários, etc., e reservado recursos para tal finalidade. No corrente
ano, os recursos foram da monta de R$ 4.000,00.
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2.4 – O ENSINO A DISTÂNCIA NA EDUCAÇÃO CORPORATIVA
Segundo RUMBLE (2003), a metodologia de ensino a distância pode igualmente,
ser utilizada por empresas para o tipo de formação que elas mesmas determinam.
Para o empregador, o ensino a distância apresenta as seguintes vantagens:
•
A participação no curso não implica a ausência do funcionário do seu trabalho. Uma
parte da formação pode ser realizada durante o tempo livre. No segundo caso, o
custo da formação recai sobre o próprio empregado;
•
O empregador se libera dos custos de enviar o empregado para os cursos de
formação. Levando-se em conta que as taxas de transporte e de alojamento podem
ser muito altas, isto pode representar uma economia real;
•
O ensino a distância pode resolver problemas, como a hesitação do funcionário em
se ausentar de sua casa para freqüentar cursos de formação;
•
Um número reduzido de professores pode alcançar numerosos estudantes;
•
Os empregadores podem formar mais rapidamente um número muito maior de
funcionários do que seria possível nos cursos tradicionais; e
•
Os empregadores podem formar mão de obra geograficamente dispersa.
Por se tratar de cursos de âmbito interno da Marinha do Brasil, não existe o gasto
com propaganda e marketing, visto que os veículos de comunicação internos de divulgação
de ordens, notícias e periódicos institucionais, se encarregam de disseminar os dados dos
cursos.
2.5 – OS CUSTOS ENVOLVIDOS
A Marinha do Brasil, em se tratando de uma instituição sem fins lucrativos, não se
preocupa com os custos envolvidos com a realização do curso, em termos de lucros, porém,
manifesta a preocupação em saber o custo do curso por aluno para manter o registro e uma
possível cobrança em caso de indenização (DGPM 101), tanto que, para cada curso
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realizado, ao final, é emitida uma Ordem de Serviço contendo o custo do curso por aluno, e
uma planilha de custos do curso.
Um indicador importante é o de economia de recursos, obtido da comparação dos
valores gastos com um curso a distância e o mesmo curso, caso este tenha sido realizado
presencialmente.
Tem sido observado que a economia de recursos é bem superior aos gastos para
elaboração e condução dos cursos. A diferença de valores possibilita o investimento em
novos hardwares, softwares e peopleware (treinamento, especialização, participação em
conclaves, etc.).
Se listados os gastos realizados desde a implementação do ensino a distância na
Marinha, em 1999, até o dia de hoje, constatamos que eles foram pequenos em função dos
benefícios adquiridos. Os principais gastos realizados com a implementação do ensino a
distância via web na Marinha do Brasil foram:
•
Contratação de uma empresa de assessoria para desenhar, preparar material
didático, ceder espaço em ambiente virtual e capacitação da equipe multidisciplinar
da Marinha do Brasil;
•
Aquisição de mobiliários e computadores para os setores que conduzem o ensino a
distância na Marinha do Brasil;
•
Formação em webdesigner para alguns militares;
•
Pró-labore para pessoas de renome na área de estudo, que vieram ministrar palestras
na Diretoria de Ensino da Marinha, visando a conscientização das pessoas da
Marinha do Brasil envolvidas com o assunto;
•
Aquisição de uma bibliografia básica;
•
Participação em conclaves e cursos de atualização; e
•
Aluguel de canal para vídeo conferência.
RUMBLE (2003) considera custo total o seguinte:
CT = F + (DC/A) + MC + VE
Onde: CT é o custo total, F o custo fixo (de infra-estrutura), C o número de cursos,
D o custo médio de elaboração de um curso, M o custo anual para manter o curso em
funcionamento, A o número de duração de um curso, V o custo variável por aluno e E o
número de alunos.
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De fato, os custos de elaboração de um curso são amortizados durante a duração do
mesmo. A amortização dos custos fixos de elaboração de um curso pode então ser
diminuída se for aumentada a duração de um curso.
Ao inserirmos na equação os parâmetros conforme a nossa realidade, chegaremos a
um custo baixo, haja vista que o custo de elaboração tende a zero, pois o pessoal envolvido
na elaboração do material e na tutoria, é da instituição (militares ou servidores civis), e,
portanto, já possui seu salário mensal computado em outra rubrica da instituição.
Por sua vez o custo de funcionamento do sistema é quase nulo, visto possuir um
servidor dedicado, funcionando diariamente durante o ano todo. Esse servidor localiza-se
no Centro de Processamento de Dados da Diretoria de Ensino da Marinha, e é monitorado
pelo próprio pessoal daquele setor.
Sendo a preparação do material, tutoria e administração do sistema realizada pelo
pessoal da Marinha, a contratação extra-Marinha do Brasil inexiste. Tal fato colabora para
manter o baixo custo de um curso.
Como fatores de economia são computados os gastos com diárias e passagens dos militares
e servidores civis fora da sede, em relação ao Rio de Janeiro, local onde estão situados os
Centros de Instrução, Adestramento e Escolas, o custo de uma sala de aula presencial, a
alimentação fornecida durante o período de realização do curso e despesas com
publicações.
3 – CONCLUSÃO
Cada instituição estabelece os critérios próprios para efetuar o controle dos custos
com a sua educação corporativa. Existem instituições que possuem um setor específico para
tal finalidade, e consequentemente recursos destinados para a condução das atividades, e
outras instituições na qual a educação corporativa está ligada diretamente ao setor de
recursos humanos, nesse caso, o enfoque dado é bastante diferente do aqui abordado.
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A Marinha do Brasil, a estrutura é descentralizada, havendo um órgão normativo e
controlador, inclusive dos recursos financeiros – Diretoria de Ensino da Marinha – e órgãos
de execução, que são os diversos Centros de Instrução, Centros de Adestramento e Escolas.
Existe uma norma interna da Marinha (DGPM-101) que possui um capítulo
específico voltado para custos e indenizações de cursos e estágios. Como se pode ver é feito
o levantamento dos custos dos cursos, porém, no caso dos cursos realizados a distância, o
objetivo maior de tê-los, é o de verificar a economia de recursos obtida, e ainda verificar
que essa economia consegue custear todos os gastos necessários com a educação a
distância.
Tal fato faz-nos constatar que a educação a distância, não só traz os benefícios de
possibilitar a educação continuada, como também, é econômica para a instituição. Portanto,
a medida adotada na marinha do Brasil com relação a redução dos custos, e a manutenção
da oferta dos cursos e a realização dos cursos com qualidade foi acertada e tem trazido
frutos positivos à instituição.
Referências Bibliográficas:
BRASIL. Marinha do Brasil. Diretoria Geral do Pessoal da Marinha. DGPM-101. 5ª ver.
De 21/08/2006. Normas para Cursos e Estágios do Sistema de Ensino Naval. Rio de
Janeiro, 2006.
RUMBLE, G. A Gestão dos Sistemas de Ensino a Distância. Brasília: Editora
Universidade de Brasília: UNESCO, 2003.
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os custos dos cursos a distância oferecidos pela marinha do brasil