O IMAGINÁRIO DE PROFESSORES SOBRE SER PROFESSOR Douglas Cristiano da Silva RA: 10722200 Valdneis da Silva Carvalho RA: 10722716 Vanessa da Silva Amaral Ra: 10720075 Orientadora: Sueli Gallo-Belluzzo Resumo Este trabalho teve como objetivo investigar psicanaliticamente o imaginário do professor sobre ser professor. Como estratégia de pesquisa foram realizadas entrevistas individuais para abordagem da pessoalidade coletiva, com onze docentes do Ensino Fundamental II municipal de uma cidade do interior do estado de São Paulo. Para tal, utilizou-se como recurso mediador-dialógico o Procedimento de Desenho-Estória com Tema, cabendo a cada professor produzir desenhos e histórias sobre o tema “um professor ou professora nos dias atuais” A partir deste material, analisado à luz do método psicanalítico, foram captados dois campos de sentido afetivo-emocional: “despertar de um sonho” e “um ser especial”. Em seu conjunto esses campos revelaram a angústia e a decepção de um profissional que não se sente valorizado por seus alunos e pela sociedade. Desse modo, compreende-se que além de cursos de formação e reciclagem, esses profissionais necessitam de um espaço de cuidado emocional. Palavras-chaves: imaginário coletivo; formação profissional, ensino 1 THE IMAGINARY OF TEACHERS ABOUT BEING A TEACHER ABSTRACT This work aimed to investigate in a psychoanalytically way the teacher‟s imaginary about being a teacher. As a research strategy interviews were conducted to address the collective personality, with eleven elementary school teachers in a town in the state of Sao Paulo. For this, it was used the Themed Design-Story Procedure as a dialogical-mediator resource, having each teacher to produce drawings and stories about "a today‟s teacher" From this material, viewed in the light of the psychoanalytic method, two fields of affective-emotional sense were captured: "a dream awakening" and "a special being." Taken together these fields revealed the anguish and disappointment of a professional who does not feel valued by their students and society. Thus, it is understood that in addition to training and refresher courses, professionals need a space of emotional care. Keywords: collective imaginary; Professional training, teaching Introdução Este trabalho teve como objetivo a investigação psicanalítica do imaginário coletivo de professores sobre ser professor. Em nosso trabalho como estagiários de psicologia observamos, no ambiente educacional, um profissional perpassando por diversos problemas, seja a má formação profissional, a política educacional, bem como a dificuldade de interação do professor com o aluno, além do desejo de ensinar e de transmitir conhecimento. (...) na relação professor-aluno estão em jogo dois desejos – o desejo de ensinar e o de saber. O professor prepara-se para o previsível considerando o seu desejo. Ao ingressar na sala de aula, se depara com o imprevisível ocorrendo aí o desencontro entre o seu 2 desejo e o do aprendiz. Este desencontro põe em cena a necessidade de considerar o desejo do outro. E é neste momento que entra em cena a angústia. O que eu penso que o outro quer de mim? Essa expectativa é vivida com muita ansiedade, pois por meio do desejo do outro, resgatamos e colocamos em cena o nosso desejo. E não seriam estas algumas das causas pelas quais os professores adoecem ou desistem da profissão? Uma incapacidade de lidar com uma tarefa real de garantir aprendizagem a seus alunos, e a tarefa imaginária de “ensinar sem perdas” como se o ato de educar fosse um caminho de mão única no qual só o desejo e a vontade do professor estivessem em jogo.” (Zibetti, 2004, p. 219-225) O professor ocupa uma determinada posição no espaço social e acontece uma interação entre ele e esse espaço – como esse profissional se sente dentro do contexto educacional, elaborando, cobrando, e ao mesmo tempo, respeitando regras, referindo-se ao mundo educacional socioeconômico e político. Um dos fatores que marca muito a profissão é que o professor se sente constrangido, pois o ambiente de trabalho é marcado por disputas e desavenças, como por exemplo: "ciúme"; "inveja"; "fofocas"; "falta de colaboração"; "esconder o jogo"; "resistência dos mais antigos"; "falta de preparo dos mais novos", mas às vezes, também ocorrem atitudes de solidariedade. Entretanto, são apontadas vantagens nessa profissão, como no caso dos concursados que possuem estabilidade no emprego, duas férias por ano, porém, os baixos salários são uma queixa frequente (Penna, 2008): Existe satisfação remuneração e pela profissão, desvalorização no contudo, queixas magistério. da Percebe-se má a necessidade de instrumentalizar estes docentes para atuarem como mediadores no processo de ensino-aprendizagem, buscando coerência nas concepções dos professores e dos alunos, evitando desinteresses, processos de fracasso e evasão escolar. (Oliveira, 2005, p. 227-238) 3 Apesar dos paradigmas negativos relacionados ao papel do professor, essa profissão ainda é considerada de grande importância. Sousa Neto (2005, p. 249-259) expressa sua visão do papel do professor na sociedade atual e futura: Os profissionais da educação tiveram e têm grande responsabilidade sobre os destinos que a sociedade tomou e toma. O centro da insatisfação daqueles que permanecem no ofício passa pelos salários que remuneram mal a profissão, uma profissão em que certo dia se percebeu não salários, mas proventos que se igualavam aos ganhos de desembargadores. E assim, aos salários aviltantes se credita a ideia de que ser professor é uma coisa menor, desqualificada e desqualificante, podendo-se exercer o ofício de qualquer modo, como se ganhar pouco justificasse ao fim e ao cabo o descompromisso e a apatia. Esse olhar depreciativo da profissão proporciona certa desidentificação com o que se faz e gera, não raro, a elaboração de uma identidade negativa. Na desidentificação o processo é de estranhamento, posto que as pessoas ao não se virem no que fazem, não o fazem como sendo coisa sua. Na elaboração de uma identidade negativa gesta-se um auto preconceito vitimador, como se ser professor fosse a última maneira de garantir uma sobrevivência indigna. Essa postura de desidentificação e identidade negativa gera um enorme enfraquecimento da comunidade profissional e, ao mesmo tempo, compromete sobremodo o exercício coletivo da profissão e suas mais justas reivindicações (...). A questão, portanto, está na necessidade de os professores se verem como trabalhadores, e como trabalhadores que têm compromisso com o que fazem (...). Aos que optaram por ser e/ou continuar professores por prazer, a vida na profissão é uma celebração diária, pessoal e coletiva, que transforma cada ato, mesmo nos dias mais difíceis, em uma reafirmação da escolha feita em certa altura da existência. Outro aspecto importante levantado por Basso (1998) é a compreensão do sentido e o significado do trabalho docente. A autonomia que o professor acredita ter ou não, para o exercício da prática pedagógica, leva-o ao 4 comprometimento ou não, quanto à sua conduta profissional. Parece-nos que a relevância desses aspectos pode estar relacionada à cultura escolar (Sampaio & Marim, 2004). Quando as condições econômicas e sociais do trabalho do professor são frágeis e insuficientes e há descaso das políticas públicas educacionais, estas interferem negativamente no trabalho docente. Existe um pequeno descompasso entre o tempo que os professores necessitam para amadurecer uma concepção de ensino apropriada e o tempo que um governo exige ou disponibiliza para implantação de uma política pública educacional que vem ao encontro das reivindicações dessa categoria, para que o indivíduo sinta-se acolhido, respeitado pela sociedade e tenha uma remuneração condizente com sua formação (Ricci, 1998). Vale ressaltar que: As mudanças impostas ao papel do professor pela conjuntura da sociedade contemporânea trouxeram desafios imensos nas relações do âmbito escolar. O professor frágil diante dos imperativos dos rumos da educação atual perdeu seu lugar garantido e sofre o malestar e até mesmo o adoecimento. A falta de reconhecimento mútuo entre: professores e alunos, professores e professores provocam constantes embates no cotidiano do trabalho, que repercute no malestar e no adoecimento do docente. Insatisfeito, frustrado no seu ideal da profissão, o professor se culpa por não conseguir atingir o seu propósito no trabalho. O adoecimento que assola a profissão docente traz marcas que são similares entre diversos países e resultam no absenteísmo docente. Um aspecto dramático da profissão docente que adoece e se ausenta do seu trabalho provocando um mal-estar em toda a comunidade escolar. Porém, o absenteísmo não revela o quadro do adoecimento do professor, que se encontra mascarado e camuflado no presenteísmo docente (Paschoalino, 2008, p. 1-2). Nesse aspecto, “o desejo de autonomia por parte do professor para que ele possa ser um „bom professor‟ traz a indicação de que a escola ainda trabalha com a perspectiva da pedagogia tecnicista, em que o processo educativo está organizado de forma objetiva e operacional, rejeitando a 5 subjetividade de seus membros” (Oliveira, 2005, p. 227-228). Ressalta-se aqui, a importância da autonomia e autoimagem do professor frente ao imaginário de sua profissão, destacando assim, o que ele pensava sobre si mesmo, suas concepções e postura profissional no contexto educacional. Os docentes formam um grupo heterogêneo, quanto à sua identidade. Como diz (Garcia, Hypolito & Vieira, 2005), a gestão da identidade profissional dos docentes é uma tarefa central no governo e na condução do sistema educacional e escolar de uma nação. Definir pelo discurso que categoria é essa, como deve agir, quais suas dificuldades e problemas é produzir uma parcela das condições necessárias à fabricação e à regulação da conduta desse tipo de sujeito. Diante disso podemos pensar que há todo um ambiente simbólico a ser observado para que se possam traçar tais características, levando em conta o imaginário dos professores. Segundo (Garcia, 2009; Hypolito et al.,2003): Na última década, segundo alguns estudos educacionais, os professores têm sido apontados como os grandes responsáveis pelo fracasso do sistema escolar público e pelo insucesso dos alunos. Esse discurso interpelou e vem interpelando os docentes da escola pública dos ensinos fundamental e médio. Diante dessa afirmativa devemos buscar compreender o que está norteando essa identidade e como isso afeta o imaginário do professor, levando para a prática reflexiva todo questionamento sobre sua própria prática. Raymond e Santos (1995) apontam que as crenças são as ideias fundamentais das pessoas a respeito de suas experiências de vida, e afetam diretamente as suas ações, quer se admita conscientemente estas crenças, quer não. Neste cenário, passa-se a privilegiar o professor em sua própria formação, em um processo de ressignificação de saberes iniciais em confronto com sua prática vivenciada a partir de uma reflexão na, e sobre a prática. Quando falamos em prática docente, devemos levar em conta que o cotidiano do professor está em torno de várias ações, sendo inconstantes as situações que vão de encontro à prática. Perrenoud (2001) acrescenta que o 6 trabalho docente acaba seguindo uma rotina que o professor põe em ação de forma relativamente consciente e racional, mas sem precisar avaliar o seu caráter arbitrário; logo, ele nem sempre escolhe ou controla verdadeiramente sua ação. Toda essa situação que norteia as ações e possíveis decisões dentro da sala de aula leva os professores a sofrerem dilemas, rotinas, situações imprevisíveis e, às vezes, incontroláveis. Pacheco (1995) cita que os dilemas são situações problemáticas que se apresentam às pessoas, constituindo-se como objeto de preocupação e de reflexão constantes. Levando-se em conta o poder de reflexão do professor acerca de sua capacidade, e, diante da proposta de investigação do imaginário do professor acerca de ser professor, Mazzeu, (1998) nos mostra que "(...) cada professor, dentro de um determinado grupo, poderá elaborar análises que não elaboraria sozinho e, a partir daí, realizar atividades que promovam e consolidem novos patamares de desenvolvimento intelectual”. Podemos pensar que diante disso as dificuldades podem surgir e devemos tentar conhecer mais de perto os possíveis problemas e conceitos, e é importante tentarmos identificar quais sofrimentos estão sendo criados no imaginário desses professores. É importante destacar que, quando usamos a expressão “possíveis”, não estamos nos referindo às possibilidades, ou seja, à disponibilidade atual de um projeto por realizar ou à série de alternativas reais e imaginárias, é preciso entendê-la como emergência dinâmica e de algo novo. Compreende-se que a prática do docente o leva a constituir a si mesmo como docente, e, em seu imaginário podem aparecer diversas dificuldades. Isso pode determinar como o professor estabelece sua relação com regras e se reconhece diante sua própria prática. Portanto, a preocupação em ressignificar a identidade dos professores passou a ser um desafio. Questões éticas, a globalização e o próprio mundo contemporâneo, estão a cada momento exigindo do trabalhador. Tardif e Lessard (2005) associam esse processo à massificação do ensino que, na América do Norte e nos países europeus, se iniciou após a segunda guerra mundial. Esses autores afirmam que a organização escolar tem sido historicamente concebida, tanto em sua forma como no conteúdo, em estreita relação com os modelos organizacionais do trabalho produtivo e a 7 normatização das condutas que sustentam a racionalização das sociedades modernas. Esses especificidades do autores trabalho sustentam que, docente, esses por desconhecerem mecanismos, longe as de profissionalizarem o ensino, levam à proletarização do trabalho do professor, transformando-o em mero executor de decisões tomadas em outras instâncias. Levando-se em conta esses aspectos e o papel do professor nas escolas, podemos tentar entender que as demandas do mundo contemporâneo nos permitem buscar maiores entendimentos quanto ao saber da representação do docente sobre sua própria identidade profissional hoje. Perrenoud (2001) afirma que a realidade educativa não se transforma apenas pela adoção de boas ideias, mas sim pela mudança das representações, atitudes, valores e da própria identidade dos atores. Considerando o exposto, este estudo teve como objetivo investigar psicanaliticamente o imaginário coletivo de professores sobre ser professor frente aos desafios que este profissional encontra. 1. Metodologia 1.1. Participantes Tratando-se de estudo qualitativo de caráter exploratório, trabalhamos com um grupo constituído por onze professores do Ensino Fundamental ll, de uma escola municipal do interior do estado de São Paulo, com idades entre trinta e sessenta anos, sendo quatro do sexo masculino e sete do sexo feminino. Esta escola atende uma população de baixa renda, oferece cursos de Ensino Fundamental l e ll, e possui cerca de seiscentos alunos. Esses docentes foram tomados como uma única pessoalidade coletiva – “o professor do ensino fundamental”. Os pesquisadores entraram em contato com os quatorze professores do Ensino Fundamental ll dessa escola. Comentaram sobre a pesquisa que estavam realizando, solicitaram a colaboração deles e onze aceitaram. 1.2. Considerações éticas 8 Os participantes foram esclarecidos quanto aos objetivos da pesquisa e aos cuidados éticos a serem tomados em relação ao sigilo de suas identidades. Após compreenderem a proposta e aceitarem participar do trabalho, foi solicitado que assinassem o Termo de Consentimentos Livre e Esclarecido. 1.3. Procedimento 1.3.1 Coleta de Dados Com a finalidade de investigar psicanaliticamente o imaginário coletivo de professores do Ensino Fundamental II utilizamos o enquadre de pesquisa denominado “entrevista individual para abordagem da pessoalidade coletiva” (Ávila, Tachibana & Aiello-Vaisberg, 2008), inspirado na consulta terapêutica de Winnicott (1970/1984). Em suas consultas terapêuticas, Winnicott fazia uso do brincar denominado Jogo do Rabisco (squiggle game) que consiste no seguinte: o analista faz um rabisco a esmo, que pode ser transformado pelo paciente em um desenho. Depois o paciente faz o seu rabisco e o analista o transforma em outro desenho, construindo paulatinamente um caminho de comunicação. Através deste brincar, Winnicott tinha por objetivo facilitar a comunicação emocional profunda com o seu paciente e favorecer o estabelecimento de um espaço potencial, como parte dos procedimentos necessários para uma intervenção terapêutica. Em nosso enquadre também fazemos uso de um “brincar”, recorrendo ao uso do Procedimento Desenho-Estória com Tema (Aiello-Vaisberg, 1999), que, desde uma perspectiva epistemológica intersubjetiva, deve ser compreendido como recurso mediador capaz de facilitar a comunicação, incluindo dimensões emocionais inconscientes. O Procedimento DesenhoEstória com Tema consistiu em solicitar a cada participante que desenhasse uma professora ou um professor nos dias atuais e a seguir inventasse uma história sobre a figura desenhada, escrevendo-a no verso da mesma folha. Como material, utilizamos folhas de papel sulfite branco, lápis de cor, giz de cera, lápis preto, borracha, canetas azuis. O material de pesquisa que 9 examinamos constituiu-se pelo conjunto de onze desenhos-estórias, que se articularam a onze histórias, que foram redigidas pelos professores. As entrevistas foram realizadas individualmente, no local de trabalho dos professores, de acordo com sua disponibilidade. Após as entrevistas, elaboramos narrativas do acontecer clínico (Aiello-Vaisberg & Machado, 2005, Gallo-Belluzzo, 2011), que incluem tanto associações e interpretações que cada desenho-estória provocou durante o encontro, tal como foi vivenciado pelos pesquisadores. 1.3.2. Análise dos Dados Entre as diversas linhas teóricas que orientam a psicologia, a psicanálise tem se mostrado uma forma coerente de investigação da subjetividade coletiva, na medida em que seu método propicia acesso às complexidades emocionais e existenciais da dramática humana (Aiello-Vaisberg, 2004; Bleger, 1963). As produções dos professores foram abordadas com base no uso do método psicanalítico. Os professores foram convidados a se expressarem segundo a regra fundamental da psicanálise – associação livre de ideias – usando como canal de comunicação o Procedimento Desenho-Estória com Tema, enquanto o pesquisador manteve a atitude de atenção receptiva equiflutuante. Num momento seguinte, o pesquisador elaborou a narrativa, associando livremente, valendo-se da memória do encontro vivido com o professor ou professora. Os desenhos e histórias produzidos foram considerados pelo grupo de pesquisadores e a professora orientadora, em estado de atenção equiflutuante. Nosso objetivo não foi captar o “verdadeiro significado” do que foi dito, mas dialogar, impressionar-nos com o que cada produção comunica (Corbett, 2009). Buscamos, deste modo, identificar os campos de sentido afetivoemocional, a partir dos quais os desenhos-estórias emergem, ao serem contemplados por olhares psicanalíticos. Seguimos os passos recomendados por Herrmann (1979/1991) que distingue três fases do processo metodológico: “deixar que surja”, “tomar em consideração” e “completar o desenho”. “Deixar 10 que surja” compreende, do nosso ponto de vista, tanto a produção dos desenhos e histórias, a partir da atividade imaginativa dos professores, no encontro com o tema proposto, como também as nossas próprias associações, frutos de nossa atividade imaginativa, diante do material produzido pelos participantes da pesquisa. “Tomar em consideração” tem relação como o momento em que nossa atenção se vê capturada e precisamos estar completamente abertos para receber o que possa surgir. Quanto ao terceiro momento, optamos pela expressão “criar/encontrar campos de sentido afetivoemocional” (Corbett, 2009; Gallo-Belluzzo, 2011), pois não pretendemos completar o desenho feito pelos professores com um sentido que estava latente, mas dialogar com o material por eles produzido, dando-lhe novo sentido. Ao propor a identificação dos campos de sentido afetivo-emocional, estamos alinhados a Bleger (1963/1984) que propões que o conceito de conduta deve ocupar um lugar central numa psicanálise verdadeiramente concreta e próxima do acontecer humano. Considera que o fenômeno humano acontece sempre como emergente do que denominamos campos de conduta. Campo é definido por Bleger como recorte, no espaço e no tempo, da situação total, incluindo as pessoas envolvidas. O campo psicológico designa o ambiente vivencial não consciente onde transcorre a experiência de indivíduos e coletivos. Articulando as contribuições de Bleger (1963/1984) e Herrmann (1979/1991) Aiello-Vaisberg (2004) propõe a denominação “campos psicológicos relativos” às condutas emergentes, ou “campos de sentido afetivoemocional”, que utilizamos neste trabalho. 2. Resultados Foram captados dois campos de sentido afetivo-emocional, entendidos como os determinantes lógico-emocionais que regem as condutas, vale dizer, como o conjunto de pressuposições afetivo-emocionais que, no presente caso, subjaz a conduta das produções imaginativas dos professores captadas: “despertar de um sonho” e “um ser especial”. 11 O campo afetivo-emocional que identificamos como “despertar de um sonho” organiza-se pela crença de que os professores escolhem esta profissão, porque ela foi muito valorizada no passado. Eles relatam que quando eram crianças o professor era respeitado e admirado, os alunos tinham interesse nas aulas. Porém, ao se tornarem docentes encontraram outra realidade, sendo que eles precisam administrar conflitos em sala de aula, são desrespeitados, os alunos não têm interesse nas aulas. Os professores estão decepcionados com as condições atuais de trabalho, para as quais não se sentem preparados para enfrentar. Eles se sentem como se despertassem de um sonho bom, para enfrentar uma realidade de sofrimento e dificuldades. Para ilustrar, apresentamos trechos de algumas histórias escritas pelos professores: (...) “havia um tempo em que o professor era respeitado e idolatrado. (...) então resta sonhar com um passado nem tão distante.” “O professor vive momentos de conflitos em sala de aula. Cabe, portanto a nós o papel de relevarmos as situações. Porém nem sempre o professor está preparado psicologicamente para enfrentar esta realidade”. “O professor ainda é sonhador, ele sonha com o dia em que as coisas serão como no passado, havia respeito entre os alunos, as crianças tinham sede do saber (...)” “Lembro-me dos saudosos tempos em que educar era um ofício. Valores como o respeito e a valorização sucumbiram junto com a modernidade. O vocabulário culto e respeitoso deu lugar às gírias (...). Onde irá parar a boa escola de antigamente? Onde irá parar o respeito??? Saudades...” Esse campo apresenta um cenário em que os professores sentem que estão voltados para uma realidade diferente daquela que sonhavam. As produções que se encontram nesse campo afetivo-emocional expressam o conflito que o professor vivencia entre seu sonho de ser professor e a realidade que é encontrada em suas atividades profissionais diárias, gerando um perigo que é norteado pela insatisfação, desilusão e a falta de perspectiva diante sua realidade de ser professor. Portanto: 12 Esses perigos que o sujeito acusa ou vivencia não constituem outra coisa que uma modalidade de conduta na área do mundo externo. Esses perigos podem ser reais, mas – ao mesmo tempo – são sempre projetados, no sentido de que, para que o sujeito acuse um objeto perigoso no mundo externo, tem sempre que haver existido uma projeção prévia, posto que um objeto perigoso real não é vivenciado ou acusado como tal enquanto não coincida uma projeção prévia de um objeto interno perigoso. (BLEGER, 1963, p. 147-148). Também é possível que esse profissional possa projetar, “no sentido propriamente psicanalítico, a operação pela qual o indivíduo expulsa de si e localiza no outro, pessoa ou coisa, qualidades, sentimentos, desejos e mesmo „objetos‟ que ele desdenha ou recusa em si”, como sonhos, desilusões, falta de perspectivas, insatisfações (Laplanche & Pontalis, 1988, p. 478). O campo psicológico-vivencial que denominamos “um ser especial” organiza-se pela crença de que o professor é um profissional muito importante, que transforma as pessoas, prepara-as para a vida. Ele é considerado um profissional de muito valor, comparado a um rei, ele faz a diferença na vida das pessoas. Nessa linha, ser professor é lutar por ideais que só ele consegue atingir. Eles podem mudar o contexto de toda a sociedade. Convidamos aos leitores a observarem alguns trechos de histórias escritas pelos professores: (...) “Ser professor é algo nobre e nossa Fé em que um dia, ou um momento a flor do saber irá desabrochar nessas crianças que de nós precisam e aí nosso papel será cumprido. Professor sim, com muita honra e orgulho! Batalhador! Sempre!” “(...) O professor no centro da história, mas não como dono do conhecimento, mas sim como um orientador”. “A tarefa do professor é espetacular, é incrível, entretanto imperceptível e sutil. Seu dia a dia é cheio de desejos, incertezas e muito esforço(...) “Todas as profissões são importantes, porém o professor destaca-se por esculpir mentes e corações para atuarem nas profissões”. 13 “(...) professores situam-se num ambiente que a prioridade são as relações, então creio que somos únicos, como o Sol, astro rei que brilha intensamente”. “Nós professores lutamos diariamente, sozinhos, não solitários, mas sozinhos como o Sol”. Esse campo apresenta um cenário em que os professores se apresentam como profissionais muito valorizados, sendo idealizada a figura do professor. É possível observar que ao se sentir desvalorizado o professor reage apresentando-se como um ser único e idealizado. O professor se encontra com uma estrutura depressiva, sendo que “o característico da conduta de estrutura depressiva é seu aparecimento quando se perdeu ou destruiu um objeto querido tanto como quando se corre o risco de perdê-lo ou destruí-lo” (Bleger, 1963, p.147-148). Com isso, quando se sentem rejeitados e não valorizados se deprimem. 3. Discussão / Conclusão Observamos que o imaginário dos professores pode ser influenciado pelos desafios que eles encontram em sua profissão. Reagem de acordo com estruturas identificadas como depressivas no campo “Despertar de um sonho”, ou hipomaníaca, no campo “Um ser especial”. Consolidando os dois campos num campo geral, é possível identificar o imaginário do professor, como um profissional que expressa um sentimento de não se sentir valorizado e reconhecido, seja pelos alunos ou pela sociedade. Podemos dizer que esse profissional está diante de uma ruptura entre a profissão e o significado para ele e a visão da sociedade, pois além de passar por diversos problemas, seja por má formação profissional, política educacional, bem como a dificuldade de interação do professor com o aluno, ele também se vê ameaçado pelas inovações e tecnologias, através das quais se podem adquirir o conhecimento que antes era transmitido somente por ele. 14 Observou-se, na literatura pesquisada, que os professores têm sido apontados como os grandes responsáveis pelo fracasso do sistema escolar público e pelo insucesso dos alunos (Garcia, 2004; Hypolito et al.,2003). O professor enfrenta um conflito entre o significado da sua profissão, baseada em sua experiência durante a infância, e a visão atual. Porém, a mesma sociedade que aponta o professor como culpado pelo fracasso escolar, impõe uma rotina de mecanismos, com a perspectiva da pedagogia tecnicista, na qual o processo educativo está organizado de forma objetiva e operacional, rejeitando a subjetividade de seus membros e longe de profissionalizarem o ensino, transformam o professor em mero executor de decisões tomadas em outras instâncias. Assim, valorizar o professor no sentido de que ele possa ter autonomia é favorecer que a sociedade, bem como o sistema educacional venham a ter um ensino com qualidade e satisfação. Para tanto, (Zibetti 2004, p. 219-225) aponta que: Para a importância da formação cada vez mais qualitativa de nossos professores, é direito destes profissionais conhecer mais sobre o desenvolvimento e a aprendizagem dos seres humanos com os quais trabalham para que possam desenvolver sua tarefa de forma mais satisfatória e, portanto, menos angustiante, uma vez que a maior preocupação dos que ensinam é garantir aprendizagens. Conforme observado na pesquisa, o professor se vê numa posição inferior, com muitas dificuldades, anseios, angústias e medos, frente a uma profissão que cada vez mais vem perdendo seu status e prestígio diante da sociedade. O professor que antes se sentia como um ser especial, sonhando com uma profissão de respeito e até, idolatrado pela sociedade, hoje se vê responsabilizado pelo fracasso escolar. Portanto, foi observado neste trabalho, que no ambiente educacional tem-se um profissional se defrontando com diversos problemas, seja a má formação profissional, a política educacional, bem como a dificuldade de interação do professor com o aluno. 15 A partir dos campos de sentido afetivo-emocional criados/encontrados neste trabalho, observamos que no imaginário coletivo dos professores, o ambiente de ensino é concebido como um lugar de angústias e decepções. Este imaginário apreendido nos aproxima do conceito winnicottiano de ambiente suficientemente bom. De acordo com Winnicott (1949/1982), o ambiente suficientemente bom é aquele que possui condições físicas e psicológicas favoráveis, atendendo adequadamente às necessidades deste. Do ponto de vista do indivíduo, seria basicamente um ambiente confiável. Winnicott concebia a mãe como responsável pelo ambiente suficientemente bom do recém-nascido, denominando-a de mãe suficientemente boa. ambiente escolar, seria o professor quem ofereceria um No ambiente suficientemente bom aos seus alunos. Mas quem poderia proporcionar estas condições ao professor? Esta questão remete-nos ao conceito winnicottiano de holding, ou sustentação emocional. De acordo com Winnicott (1979/1983), para que a mãe possa ser suficientemente boa é necessário o holding. Da mesma forma faz-se igualmente necessário o holding para que os professores possam ser suficientemente bons para com os seus alunos. Considerando a necessidade de os professores serem sustentados emocionalmente para que possam eles próprios sustentar o processo de educar crianças e adolescentes, vemos o quão insuficiente é a concepção, tão discutida nos mais diversos meios de comunicação, de que, aos professores falta uma melhor formação teórico-técnica. É óbvio que, ao afirmarmos ser necessário sustentar emocionalmente os professores, não estamos combatendo que lhes sejam fornecidos oportunidades de um aprimoramento teórico-técnico, mas discordamos da concepção de que bastaria oferecer esses cursos. Sugerimos a criação de espaços nas instituições de ensino que possibilitem aos professores entrar em contato com os sentimentos diversos envolvidos no processo de exercer sua profissão, ou seja, ensinar. Sugerimos um espaço que ofereça holding aos professores, tendo a oportunidade de serem sustentados emocionalmente, “tornando-se cuidadores que se sentem eles próprios cuidados” (Ávila, Tachibana & Aiello-Vaisberg, 2008, p. 162). 16 Como exemplos dessa proposta de trabalho, temos o desenvolvido junto a estudantes de Psicologia acerca do paciente psiquiátrico (Aiello-Vaisberg, 1999), em relação ao primeiro atendimento clínico (Ribeiro, 2008; GalloBelluzzo, 2011). Apontamos como limitação deste estudo o fato de ter um caráter local e, por seu caráter qualitativo não se prestar a generalizações, na medida em que não teve como proposta testar ou verificar hipóteses. Porém, acreditamos que traz contribuições à produção de um conhecimento que pode provocar ressonâncias e iluminar outras pesquisas relativas ao exercício da profissão de professor. Vale ressaltar que não encontramos muitos estudos que abordam cuidados emocionais com o professor. Referências: AIELLO-VAISBERG, T. M. J. Encontro com a loucura: transicionalidade e ensino de psicopatologia. Tese de Livre Docência, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 1999. AIELLO-VAISBERG, T. M. J. Ser e fazer: enquadres diferenciados na clínica winnicottiana. São Paulo: Ideias e Letras, 2004. AIELLO-VAISBERG, T. M. J. & MACHADO, M. C. Narrativas: o gesto do sonhador brincante. In Trabalhos do IV Encontro Latino Americano dos Estados Gerais da Psicanálise. 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