PANORAMA DO COMPLEXO SOJA
Sérgio Roberto de Paula
Paulo Faveret Filho*
* Respectivamente, assistente técnico e gerente da Gerência Setorial de Estudos de Agroindústria do
BNDES. E-mails: [email protected] e [email protected].
Os autores agradecem as informações fornecidas pela Gerência Setorial de Logística de Carga do BNDES
e pelos produtores Sérgio Pizzato (Sementes Maggi) e Armindo Brugnera, bem como os comentários de
Jaldir Freire Lima e Luciano Velasco (ambos do BNDES), o apoio bibliográfico de Heloiza Miranda e a
assistência de Leonardo Cortes.
Resumo
A importância que a cultura da soja assumiu no cenário agrícola brasileiro ultrapassou os
limites das porteiras das fazendas para influir nas discussões sobre pesquisa tecnológica,
agroindústria, cadeias produtivas e, até, infra-estrutura.
O volume da produção do Brasil e sua condição de segundo maior player mundial no
comércio da soja atraíram para o país as grandes tradings que hoje dominam grande
parte desse comércio no território nacional.
Sendo o principal complexo exportador brasileiro, mesmo sem considerar sua participação
na exportação de carnes, e responsável pela interiorização dos grandes investimentos
agroindustriais, a cultura da soja chegou a um ponto em que a logística, especialmente o
transporte, é crucial para o aumento de sua competitividade.
Neste estudo pretende-se traçar um perfil do complexo agroindustrial da soja no período
atual e apontar as perspectivas, oportunidades e riscos dos seus diversos setores.
____________
Introdução
A cultura da soja confunde-se com o processo de modernização da agricultura brasileira.
Acompanhando sua expansão, um sem-número de novos processos foram se
desenvolvendo, especialmente nas três últimas décadas.
O desenrolar dos acontecimentos em torno do “feijão-chinês” chega a exercer um certo
fascínio sobre aqueles que se debruçam na sua observação. Poucas coisas na agricultura
brasileira ficaram imunes às modificações introduzidas pelo cultivo em larga escala deste
grão.
A conquista do Oeste brasileiro se deu no rastro do “ouro-verde”, que hoje já procura as
fronteiras do Norte para ocupar seu espaço. O processo de mecanização e a introdução
de técnicas modernizantes de plantio, colheita e processamento de grãos têm a soja
como grande indutor.
Novas técnicas de plantio, que objetivam maior conservação do solo e dos mananciais
hídricos, como é o caso do plantio direto, encontram na leguminosa seu grande difusor.
Estruturas de armazenagem, processamento, transporte e exportação foram bastante
ampliadas a partir do significativo aumento da produção e expandiram-se fora das regiões
tradicionais para seguir os passos desta cultura desbravadora.
Vários setores agroindustriais, especialmente na área de carnes, consolidaram-se a partir
de uma oferta firme e abundante de matéria-prima, com qualidade, no mais das vezes,
superior à disponível no comércio mundial.
Cooperativas e traders ampliaram significativamente suas atividades, calcadas na oferta
interna de grãos e na facilidade de comércio desta commodity, tanto no mercado interno
como para exportação.
Pode-se dizer, sem medo de errar, que a expansão da cultura da soja foi a principal
responsável pela introdução do conceito de agronegócio no país, não só pelo volume
físico e financeiro envolvido, mas também pela necessidade da visão empresarial de
administração da atividade por parte dos produtores, fornecedores de insumos,
processadores da matéria-prima e negociantes, de forma a manter e ampliar as
vantagens competitivas da produção.
A interiorização da agricultura em larga escala também é responsável por uma atenção
específica sobre as questões de infra-estrutura, armazenagem, transporte e distribuição,
que determina um aprofundamento no trato das determinantes logísticas envolvidas no
negócio.
A competição acirrada no comércio internacional exige grande dinamismo de todos os
fatores, razão pela qual a pesquisa tecnológica, especialmente agronômica, desenvolveuse no mesmo diapasão, oferecendo novas técnicas e cultivares adequados às regiões, de
diversas especificações (conforme o uso pretendido) e resistentes às doenças.
1
Este estudo pretende traçar um perfil do complexo agroindustrial da soja no período atual
e apontar as perspectivas, oportunidades e riscos dos diversos setores do complexo, com
especial atenção às perspectivas das indústrias esmagadoras e aos novos corredores de
exportação do produto.
Oferta
Produção Mundial
A produção mundial de grãos de soja tem crescido à taxa de 3,7% a.a. nos últimos 10
anos, partindo de 103 milhões de toneladas na safra de 1987/88 e chegando aos 154,7
milhões de toneladas na safra de 1997/98.
A produção, tanto de grãos como de derivados, tem apresentado crescimentos
sucessivos, sendo que os grãos experimentaram oscilações maiores em algumas safras,
especialmente as de 1995 e 1997, enquanto a produção de farelo e óleo mostrou um
crescimento estável.
2
Gráfico 1
Produção Mundial de Soja e Derivados
180
160
6
10 t
140
120
100
80
60
40
20
0
1987/88 1988/89 1989/90 1990/91 1991/92 1992/93 1993/94 1994/95 1995/96 1996/97 1997/98
safras
grãos (produção)
farelo
óleo
Fonte: FNP.
O crescimento do consumo de 1990 a 1997 foi maior que o verificado na produção, o que
determinou um contínuo declínio do estoque mundial em quantidade e em proporção
relativamente à produção total. Este estoque está se recompondo em 1998,
principalmente em função das safras recordes dos Estados Unidos, do Brasil e da
Argentina.
Esta recomposição não recupera a relação proporcional entre produção e estoque final
existente no período anterior a 1991, quando variava de 17% a 20% da produção. O
estoque físico em 1997 retornou ao patamar histórico de 20 milhões de toneladas, porém
representando apenas 13% da produção. Em 1998, o estoque final poderá alcançar 19%
da produção, contribuindo para reduzir mais os preços internacionais.
O maior fluxo de informações no mercado internacional e os volumes crescentes das
bolsas de futuros, minimizando o risco representado pela variação de preços, fazem crer
que os estoques não retomem os volumes proporcionais do início da década em função
de maior facilidade de administração de preços e estoques, além de melhor administração
da logística no escoamento da produção e no comércio internacional.
3
Gráfico 2
Produção Mundial e Estoque Final de Soja
Mil
hõ
es
TO
NE
LA
D
AS
160
140
120
100
80
60
40
20
0
1987/88 1988/89 1989/90 1990/91 1991/92 1992/93 1993/94 1994/95 1995/96 1996/97 1997/98
Safras
Fonte: ABIOVE
Produção (mm ton)
Nível de Estoque (%)
Linear (Produção (mm ton))
Linear (Nível de Estoque
Estados Unidos, Brasil, Argentina e China lideram a produção mundial de soja,
respondendo, na média, por 88% do total produzido. Até à safra de 1988/89 a China era a
terceira maior produtora mundial, posição que passou a alternar com a Argentina a partir
da safra seguinte.
Gráfico 3
SOJA - PRINCIPAIS PAÍSES PRODUTORES
8
97
/9
7
19
19
96
/9
95
/9
6
5
19
94
/9
4
19
93
/9
3
19
92
/9
2
19
91
/9
1
19
90
/9
0
19
19
89
/9
9
/8
88
19
19
87
/8
8
MM TON
80
70
60
50
40
30
20
10
0
SAFRA
EUA
BRASIL
ARGENTINA
CHINA
Fonte: USDA e ABIOVE
Diante da taxa de crescimento da produção mundial, na faixa de 3,6%, o Brasil e a
Argentina, importantes produtores, destacam-se com taxas de crescimento superiores
4
(5,0% e 5,1%, respectivamente). Os Estados Unidos mantêm taxa de crescimento de
3,1% e a China tem crescido menos de 1% ao ano, com comportamento irregular.
Até a safra de 1996/97, a produção de derivados apresentava taxa de crescimento maior
que a produção de grãos (3,1% contra 2,4%), fato revertido pelo aumento significativo da
safra de 1997/98, 18% superior à anterior.
O grão in natura é usado, em sua maior parte, como semente para o plantio da safra
seguinte, e o seu consumo varia de acordo com a expectativa de evolução da cultura e,
portanto, formação de estoques para sementes.
No caso de uso direto para consumo alimentar, embora não estejam disponíveis dados
precisos, sua participação não é significativa no consumo total. O mundo ocidental não
tem o costume de utilizar o grão in natura, sendo mais comum nos países asiáticos.
Produção Brasileira
A produção brasileira de soja alcançou 31,3 milhões de toneladas na safra de 1997/98,
ocupando uma área de 11,4 milhões de hectares com uma produtividade de 2.308 kg/ha.
Na década de 70, observou-se um crescimento médio de 22% ao ano em produção, 17%
em área e 3,6% em produtividade. O crescimentoacelerado resultou da combinação de
preços atrativos no mercado internacional e crédito abundante com juros subsidiados para
a produção nacional.
Tabela 1
Taxas de Crescimento Médio Anual da Produção, Área e Produtividade da Soja no Brasil
(Em %)
PERÍODO
PRODUÇÃO
ÁREA
PRODUTIVIDADE
1970/79
22,0
17,7
3,6
1980/89
3,0
3,1
-0,1
1990/98
8,6
2,1
4,9
Fontes: Abiove, Safras & Mercados e IBGE.
Na década de 80, o crescimento foi de 3% ao ano, tanto de área quanto de produção,
mantendo praticamente a mesma produtividade. Durante o mesmo período, a produção
nos principais estados (Rio Grande do Sul e Paraná) foi muito instável, principalmente em
função de fatores climáticos. O crescimento global foi sustentado pelo constante aumento
de produção, produtividade e área da cultura no cerrado.
A década atual está sendo de crescimento da produtividade, pois o acréscimo de área
situou-se na faixa dos 2,1% ao ano, enquanto a produção apresentou taxa de 8,6%, em
função de um aumento de 4,9% ao ano na produtividade média.
Contribuiu muito para esta performance um maior conhecimento das terras do cerrado,
tanto por parte dos produtores como do sistema de pesquisa, em especial da Embrapa.
Também na região Sul a difusão do resultado das pesquisas, tanto em novas variedades
como em manejo de solo e pragas, foi fator importante para a melhoria de produtividade.
5
Distribuição Regional
Em termos regionais, é significativo o crescimento da produção e da produtividade no
Mato Grosso, que assumiu, na safra de 1995/96, a posição de segundo maior produtor
brasileiro de soja e, em 1996/97, foi detentor da maior produtividade nacional, com 2.730
kg/ha, em média, frente a uma média nacional de 2.406 kg/ha. Tecnologia, terras planas e
regularidade climática explicam a liderança na produtividade e o crescimento da
produção.
Gráfico 4
8.000
7.000
6.000
5.000
pr
4.000
3.000
2.000
1.000
0
go
mt
rs
ms
ba
19
80
/8
19 1
81
/8
19 2
82
/8
19 3
83
/8
19 4
84
/8
19 5
85
/8
19 6
86
/8
19 7
87
/8
19 8
88
/8
19 9
89
/9
19 0
90
/9
19 1
91
/9
19 2
92
/9
19 3
93
/9
19 4
94
/9
19 5
95
/9
19 6
96
/
19 97
97
/9
8*
mil ton
Soja - Evolução da produção nos principais estados
safra
Fonte: ABIOVE, CONAB, IBGE e SAFRAS & MERCADOS
O Rio Grande do Sul, berço da cultura da soja, apresenta grandes variações de produção
e produtividade em razão de flutuações climáticas prejudiciais à cultura na época da
colheita. Em função das frustrações de safra, a área plantada tem diminuído, e nas duas
últimas safras o estado apresentou a mais baixa produtividade entre os produtores do
país. Em 1998 houve uma recuperação da cultura no estado, que voltou a ser o segundo
maior produtor do país, porém com produtividade ainda baixa, na faixa de dois mil kg/ha.
O Paraná, atual maior produtor brasileiro, após um período de estagnação na década de
80, vem apresentando nos anos 90 um vigoroso crescimento, tanto de área como de
produtividade, fruto de investimentos em pesquisa e tecnologia de entidades
governamentais e de cooperativas e institutos privados de pesquisa.
O crescimento da produção baiana é decorrente da implantação e desenvolvimento do
pólo agroindustrial de Barreiras, onde se localiza praticamente toda a produção de soja do
estado, que a partir de 1987 mantém um crescimento médio de 12,7% a.a. nos últimos 10
anos.
O Mato Grosso do Sul, após um período de crescimento da área plantada no final da
década de 80, tem diminuído a área ocupada com a soja, porém a produção se manteve
estável, fruto do aumento da produtividade, que foi de 2.500 kg/ha na safra de 1996/97.
6
O movimento de implantação de novas áreas de cultura se dá quase que em sua
totalidade em regiões de cerrado, seja no Mato Grosso, na Bahia, em Goiás, na região de
Balsas, no Maranhão, e mais recentemente no Piauí.
Os estados do Centro-Oeste, que em 1980 tinham 14% da área brasileira ocupada com
soja, contra 77% da região Sul, em 1998 passaram a 36%, enquanto a região Sul
diminuiu sua área para apenas 48%. Por sua vez, a soja do cerrado, que representava
16% da área total em 1980, passou a ocupar 45% em 1998.
Uma análise das características de produção dos estados brasileiros demonstra o
dinamismo no Mato Grosso, no Paraná, em Goiás e na Bahia, que apresentam
crescimentos constantes, enquanto Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul mostram
variações significativas de produção entre safras, embora estas flutuações se dêem em
torno de um patamar estável.
Assim, a soja tem sido o elemento indutor do desenvolvimento da região do cerrado, não
só ocupando áreas antes improdutivas e avançando sobre regiões de bovinocultura
extensiva, mas também fixando atividades ligadas à produção, comercialização e
industrialização da leguminosa.
Acompanhando seu desenvolvimento, outras culturas têm se expandido
consideravelmente, especialmente na safrinha, nomenclatura ultrapassada nos dias de
hoje, posto que a “safrinha” de milho foi de 4,1 milhões de toneladas em 1997,
representando 11,8% da safra deste cereal e cerca de 5% de toda a safra brasileira de
grãos.
Custos de Produção no Brasil
Nosso levantamento sobre custos de produção demonstrou que, ao contrário do que se
poderia imaginar, não são tão grandes as diferenças entre o cerrado (Rio Verde, em
Goiás, e Itiquira, no Mato Grosso) e o Paraná. Os dados dão conta de custos na faixa de
US$ 9,98 a US$ 10,92 por saca, para uma produtividade de 2.700 kg/ha. A razão principal
é que os custos se compensam: enquanto o Paraná tem custo menores de insumos, no
cerrado o custo de mão-de-obra e remuneração da terra são mais baixos.
O custo do frete no Paraná em 1998 passou a ter o gravame adicional dos pedágios
implantados nas rodovias do estado. Medida excepcional do governo estadual isentou a
safra paranaense do pedágio, gerando uma vantagem sobre a safra de outros estados
que sejam escoadas pelo porto de Paranaguá, o que pode desviar a exportação da safra
desses estados para outros portos.
Uma grande pressão sobre os custos é dada pelo preço do frete (na maioria rodoviário),
que, segundo dados do Sistema de Informações de Fretes para Cargas Agrícolas
(Sifreca), da Esalq/USP, chega a valores superiores a R$ 60 por tonelada (Mato Grosso Paranaguá), representando um aumento de custo, neste caso, superior a 25%. Como
pode ser observado na Tabela 3 (p. 132), o valor do frete acaba sendo imputado ao
produtor, diminuindo, assim, a rentabilidade da cultura.
7
Demanda
Comércio Mundial
As importações mundiais de soja em grãos cresceram 25% entre 1992 e 1998, passando
de 30,4 para 39,3 milhões de toneladas, o que representa uma taxa bastante expressiva,
mas que foi acompanhada de perto pela produção, que cresceu 23%. Sendo assim, a
parcela comercializada internacionalmente da produção manteve-se na faixa de 25%.
A União Européia é a grande importadora, com uma parcela superior a 40%. Sua
participação é declinante, tendo caído de 49% para 40% nesta década, sem que o volume
absoluto tenha se reduzido. O Japão vem a seguir, respondendo por cerca de 14% das
importações mundiais, com ligeira tendência de queda.
A China tornou-se importadora líquida nos anos 90, assumindo cerca de 6% do total
comercializado, como resultado do grande crescimento da demanda interna de carnes.
Taiwan e México têm parcelas semelhantes, em torno de 7%, enquanto o Brasil importa
aproximadamente 3%, especialmente para operações de draw-back na entressafra.
A relação entre produção e exportação, nos principais produtores, exceto a China, não
tem se modificado. Porém, nota-se alteração na composição das exportações nos últimos
cinco anos.
Tabela 2
Índice de Exportação dos Principais Produtores de Soja – Safras de 1993/94 a 1997/98
(Em %)
1993/94 1994/95
1995/96
1996/97
1997/98
MÉDIA
Estados Unidos
42
44
49
48
46
46
Brasil
69
59
71
75
66
68
Argentina
91
85
95
100
89
92
China
14
10
2
2
2
6
Mundo
53
50
57
58
54
54
Fonte: Abiove.
Elaboração: BNDES.
Os Estados Unidos exportam mais grãos que farelo e óleo, tendo aumentado a
participação dos grãos nas exportações do complexo de 74% para 77% nos últimos anos.
Até 1996, os derivados vinham aumentando sua participação nas exportações brasileiras
do complexo, chegando a atingir 80%. Embora não se tenha revertido a posição, em 1997
aumentou significativamente a exportação de grãos, chegando a atingir 40% do total de
exportações do complexo, com previsão de manutenção dessa nova relação em 1998.
Esta mudança deve-se basicamente à desoneração de ICMS na exportação e resulta da
situação anterior de maior tributação dos grãos em relação aos derivados - 13% para
grãos, 11% para o farelo e 8% para o óleo bruto.
8
A Argentina, por sua vez, percorreu o caminho inverso, aumentando a exportação de
derivados: em 1993 representavam 63% e passaram a 90% no biênio 1996/97. O
importante a salientar no caso argentino é que sua produção é praticamente toda
destinada à exportação. Assim, qualquer aumento na safra tem influência no mercado
internacional e concorre diretamente com a produção brasileira. Além do mais, a
estratégia argentina de exportar produto esmagado, fato demonstrado também pela
quantidade de investimentos feitos nos últimos anos na área industrial, indica a intenção
de disputar os mercados onde o Brasil conseguiu se estabelecer melhor.
Os investimentos argentinos em logística têm aumentado sua competitividade, haja vista
que o recente aumento da capacidade de esmagamento, para a produção de farelo e
óleo, foi feito junto aos portos, com visível intenção de esmagar para exportar.
A política das esmagadoras argentinas de localizar as plantas nos portos dará uma
considerável vantagem competitiva em relação ao Brasil. Além disso, o diferencial de
qualidade do farelo brasileiro pode ser reduzido por uma política de incentivos à pesquisa
tecnológica e de adaptação de cultivares que, atualmente, estão amplamente disponíveis.
A demanda mundial por soja e seus derivados tem crescido 3,7% a.a. nos últimos 10
anos, segundo os dados da USDA. Em 1997, todas as projeções apontavam para uma
continuidade deste crescimento, principalmente por conta do aumento da renda nos
países asiáticos. A recente crise asiática, no entanto, colocou em dúvida estas projeções,
uma vez que os efeitos e a duração da recessão naqueles países ainda não foram
efetivamente avaliados.
Existe uma grande incógnita que pode mudar significativamente a situação: a China. Não
tendo sido afetado pela crise, o país mantém níveis vigorosos de crescimento. Com uma
economia ainda fortemente controlada pelo Estado, que dedica especial atenção à
demanda por alimentos e à agricultura, as decisões chinesas e o tamanho de seu
mercado interno podem afetar fortemente a demanda e a oferta internacionais.
À guisa de exemplo, se um chinês comer um frango a mais por ano, aumenta em 1% o
consumo mundial de soja. Para fazer frente a este aumento de consumo, a China
precisaria aumentar em 10% a sua produção ou comprar 3,6% das exportações mundiais.
Isto se o aumento for só de mais um frango/ano/chinês.
O consumo de óleos vegetais cresceu, nos últimos 10 anos, à taxa de 3,1 % a.a. Neste
contexto, a produção de óleo de soja cresceu em linha com o consumo. O óleo de palma
teve crescimento igual ao dobro da taxa de crescimento do consumo de óleos e o óleo de
girassol cresceu à taxa de 3,4% a.a.
O consumo de óleo de palma aumentou substancialmente no período (104%) e
aproximou-se do consumo de óleo de soja. Em 1985 o consumo de óleo de palma
representava 56% do consumo de óleo de soja, passando a ser de 80% em 1997. Apesar
deste crescimento, nota-se que não houve substituição do óleo de soja pelo óleo de
palma, o qual parece substituir o consumo de óleos de coco, algodão e peixe.
9
Gráfico 5
di s t rib ui çã o do c on s um o de ó le os
s a fr a 8 5 /86
c o co
ol iva p ei x e
4 % 3%
7%
s o ja
29 %
a m en do im
6%
al go dã o
7%
c o lz a
1 3%
p al m a
1 7%
gi ras s ol
14 %
F o nte : U S D A
Gráfico 6
distribuição do consumo de óleos
safra 97/98
palma
24%
girassol
12%
colza
15%
soja
29%
Fonte: USDA
peixe
2% oliva
3%
algodão
5%
amendoim
coco
6%
4%
O óleo de palma tem importância regional, não disseminada pelo mundo, e o seu maior
crescimento se dá na China, na Indonésia e na Malásia, que detêm, em conjunto, 35% do
consumo mundial.
O farelo de soja - a farinha protéica mais consumida no mundo, com uma participação de
62% do consumo mundial de farelos - teve um aumento de consumo de 25% no período
1992/97, contra um crescimento de 21% do consumo de farelos em geral.
O consumo do farelo se dá principalmente no arraçoamento de animais, seja para a
produção de carne, leite e ovos ou para animais de competição e estimação. Neste último
caso está a fatia de mercado que mais cresce (pet food) com a fabricação de rações
sofisticadas que, só nos Estados Unidos, movimenta entre US$ 9 bilhões a US$ 10
bilhões anualmente.
10
Brasil
O consumo brasileiro de farelo de soja teve crescimento médio, nos últimos 10 anos, de
6% a.a. e está relacionado com o crescimento da produção de frango e suínos, que são
responsáveis por 67% e 30% do consumo, respectivamente.
As perspectivas de crescimento, da mesma forma, estão relacionadas com o
desempenho da avicultura, principalmente de corte, e da suinocultura.
Pode-se aventar a hipótese, sujeita a investigação aprofundada, de que a demanda
brasileira por carnes, da ordem de 61,7 kg/ano per capita, abrangendo as carnes bovina,
suína, de frango e de peru, que já é superior ao consumo médio da União Européia (em
torno de 60 kg/ano per capita), deverá crescer a taxas mais baixas que as verificadas nos
últimos anos, não configurando um aumento de demanda firme pelo farelo de soja.
É lógico que o consumo per capita apresenta grandes assimetrias se compararmos o
Centro-Sul com o Norte-Nordeste, o que poderia apontar para um aumento na média em
função de melhor distribuição de renda em termos regionais.
A modernização da bovinocultura de corte e de leite deverá ter alguma influência positiva
sobre a demanda interna do farelo. Porém, este movimento, ainda incipiente, deve se dar
de médio a longo prazo.
O consumo interno de óleo de soja cresceu, nos últimos 10 anos, à taxa de 3,4% a.a., e a
tendência é de que não ultrapasse este nível, em virtude do crescimento significativo do
consumo de óleos de canola, girassol e palma. Os dois primeiros competem com o óleo
de soja no consumo doméstico e o óleo de palma, basicamente, na área industrial.
Preços
Os preços no Brasil guardam relação direta com os internacionais e são praticados em
estreita sintonia com a Bolsa de Chicago, o que reflete a grande importância das
exportações como destino da produção (média de 68% entre 1993 e 1997). Trata-se de
um dos produtos com maior exposição internacional, inferior apenas à do suco de laranja
concentrado.
Os preços pagos ao produtor são baseados no preço internacional, descontados os
valores referentes a frete e impostos, que levam ao chamado preço de internalização ou
de paridade.
11
Cascavel
642,50
Tabela 3
Paridade para Exportação x Mercado Interno
SOJA EM GRÃO
FARELO
Passo Fundo
Rondonópolis
Ponta Grossa
642,50
642,50
156,20
1 - Fechamento
Chicagoa
2–
-9,00
-5,00
-9,00
-16,50
Prêmio/Desconto
3 – Conversão
232,77
234,24
232,77
153,99
(US$/Tonelada)
4 – Relação
1,145
1,145
1,145
1,145
Cambial
5 – Receita Bruta
266,41
268,09
266,41
176,24
(R$/Tonelada)
6 - Despesas
ICMS
0,00
0,00
0,00
0,00
Fretes
26,00
19,00
54,00
10,50
Despesas Porto
8,01
8,01
8,01
8,01
PIS
Taxas/Comissões
0,57
0,57
0,57
0,57
Corret. Câmbio
0,50
0,50
0,50
0,33
Cofins
7 – Despesa Total
35,08
28,09
63,08
19,41
8 – Receita
231,32
240,00
203,32
156,83
Líquida
9 – Paridade/60
13,88
14,40
12,20
kg
10 – Mercado
13,80
14,40
11,90
180,00
Interno
11 – Relação %
-0,57
0,69
-2,45
14,77
(10)/(9)
Fonte: Safras & Mercado.
a
Em US$ cents/bushel para soja, US$/tonelada curta para farelo e US$ cents/libra para óleo.
ÓLEO
Ponta Grossa
28,37
1,00
647,49
1,145
741,05
0,00
10,23
11,45
1,14
1,39
24,21
716,84
720,00
0,44
O prêmio é uma variável de ajuste na negociação internacional que leva em conta a
origem e o destino do produto exportado, a qualidade e a oportunidade. A inclusão da
variável de ajuste da negociação internacional nas compras nacionais (que não sejam
para exportação) procura ajustar o preço pago ao produtor com o valor internacional do
produto. Assim, a tendência de preços do produto no mercado interno segue a mesma
verificada do mercado mundial.
Isto posto, na análise de tendências de preços há que se fazer a separação entre o
complexo grão-farelo e o óleo, pois este último têm dinâmica diferenciada. O farelo segue
as mesmas tendências do grão, pois não tem no mercado, como fonte protéica para ração
animal, concorrentes de peso, sendo o preço do grão o determinante para o farelo. Já o
óleo sofre a concorrência dos diversos tipos de óleos vegetais, seja para uso basicamente
doméstico (colza, girassol e oliva) ou misto, como palma, algodão, coco e amendoim.
Desta maneira, seu preço sofre a influência da oferta de outros óleos, além da atividade
industrial do setor de alimentos.
A oferta crescente dos países americanos pressionava para baixo os preços, enquanto a
demanda da Ásia agia em sentido contrário, ao menos até a crise de 1997. Nesse
contexto, a China, enquanto produtora e grande consumidora, tem papel importante no
12
comércio internacional, realçado pela instabilidade do resultado das safras naquele país.
A União Européia é a maior importadora, mas sua demanda é estável e, portanto, tem
pouca influência nas variações de preços.
Esta análise serve basicamente para o grão e o farelo, pois, como já dissemos, a maior
influência sobre o preço do óleo se dá de acordo com a oferta dos outros óleos vegetais
e, mais especificamente nos últimos anos, pela produção de óleo de palma.
Devido à crise da produção de óleo de palma na Malásia, em 1997, os preços do óleo de
soja têm mantido tendência altista em 1998, mesmo quando os preços do farelo e do grão
sofrem quedas em relação a 1997, tendência que ainda poderá ser agravada a partir dos
problemas com a produção de girassol na Argentina e de colza na China, na Índia e na
União Européia.
O preço pago ao produtor, além de determinante da cotação internacional, sofre forte
influência dos custos de armazenagem e frete. Nos Estados Unidos, os produtores
maximizam a lucratividade conjugando a armazenagem na fazenda com o transporte da
safra via ferrovia-hidrovia. Já no Brasil só os grandes produtores dispõem de estrutura de
armazenagem na fazenda, enquanto os pequenos e médios defrontam-se com duas
opções: ou fazem a venda logo após a colheita ou utilizam armazéns de terceiros,
arcando, em ambos os casos, com as despesas de limpeza, secagem e, no segundo
caso, armazenagem.
Passada esta fase, o custo do frete é o fator que mais pesa na determinação do lucro ou
prejuízo do produtor brasileiro. A conjugação de alguns fatores leva a esta situação:
•
quase 60% do transporte de carga no Brasil são feitos por rodovia;
•
por duas décadas o país praticamente não investiu na melhoria de sua malha viária,
que se deteriorou sensivelmente;
•
a produção se interiorizou cada vez mais, ficando dependente da malha viária
decadente;
•
a frota de veículos também envelheceu, gerando mais custos aos seus operadores,
que os repassam ao preço do frete;
•
o mercado de frete não tem transparência suficiente que possibilite ao seu consumidor
um controle sobre os preços; e
•
os outros modais de transporte ainda não oferecem versatilidade e confiabilidade
suficientes para se tornarem alternativas reais ao transporte rodoviário.
Além desses fatores, a questão do frete de retorno força a comercialização durante a
safra, quando os fretes são significativamente mais baratos, em função da concorrência e
da possibilidade de carga de retorno (insumos) para a próxima safra.
Embora pareça paradoxal, a comercialização na safra, quando os preços do produto
estão mais baixos, pode ser melhor do que esperar para que sejam obtidos preços mais
13
altos no segundo semestre, porém com custos de armazenagem e de frete mais altos
também.
Outra questão que também interfere na rentabilidade do produtor e que passa
despercebida na maioria das análises é o nível de juros praticado pelo mercado, o que se
explica pelo fato de que a análise clássica leva em conta, no cálculo dos juros do custeio
da safra, a taxa praticada para o crédito rural, determinado pelo plano de safra nacional.
Porém, sendo a soja uma produção de larga escala, médios e grandes produtores têm
necessidade de custeio superior ao limite fixado pelo Conselho Monetário Nacional e,
para se financiarem, recorrem ao mercado bancário comum, sujeitando-se às taxas de
juros normais, que, nos últimos tempos, têm sido colocadas em patamares bastante
elevados.
Indústria
Processo Industrial
O processo de industrialização da soja inicia-se com o esmagamento e a extração do
óleo. Após passar por processos de secagem, para retirada de umidade, e limpeza, o
grão é quebrado e prensado em pequenas lâminas, que, transformadas em massa, são
lavadas com solvente derivado de petróleo (hexano).
O produto fica impregnado com óleo e posteriormente é feita a separação, por
evaporação, passando ainda por um sistema de retirada de goma (degomagem) para
alcançar o estágio de óleo bruto. A massa restante, após secagem e tostagem, resulta no
farelo. A goma tanto pode ser utilizada para a produção de lecitina de soja quanto ser
adicionada ao farelo.
Este é o método usado por praticamente todas as unidades de esmagamento em
atividade atualmente no Brasil, que nos anos 70 trocou a técnica de prensagem pelo uso
do solvente. Algumas fábricas utilizam um extrusor para aumentar a densidade da massa
e facilitar a extração do óleo. No início do processo industrial pode ser feita a retirada da
casca do grão, resultando num farelo de maior quantidade de proteína (hi-pro).
O destino do óleo é o refino, e o farelo vai para a alimentação animal, diretamente ou
através das misturas feitas pelas fábricas de ração. O aproveitamento médio do grão é de
79% de farelo e 19,8% de óleo bruto.
A operação de esmagamento, a retirada do óleo e seu posterior refino merecem as
maiores atenções quando se fala do complexo soja, seja porque a maior parte do produto
é farelo ou porque a maior parte do óleo destina-se ao consumo doméstico de óleo
refinado e à exportação de óleo bruto.
A cadeia não pára nestes dois produtos. O óleo segue seu caminho, sendo transformado
em vários produtos, dos quais a margarina se coloca em maior destaque, embora outros
subprodutos de uso alimentar e químico façam parte da seqüência de aproveitamento da
soja, conforme apresentado no diagrama a seguir.
14
Capacidade de Esmagamento
A capacidade instalada da indústria esmagadora, em 1997, era da ordem de 118 mil
toneladas/dia. Em tese, seria capaz de processar uma safra de 35,4 milhões de
toneladas, considerando-se o funcionamento em capacidade plena durante 300 dias no
ano, o que pressupõe um fornecimento de matéria-prima firme e constante durante o ano
todo.
Em termos de soja, a realidade não é esta. Embora o volume esmagado tenha crescido
5% ao ano, nos últimos 10 anos, este acréscimo acompanhou a produção nacional. Como
conseqüência, a taxa de processamento permanece, em média, em torno de 76% da
safra brasileira.
O ano de 1997 foi atípico, pois foram industrializados apenas 65% da produção nacional,
taxa mais baixa dos 10 últimos anos. Tal desempenho decorreu do crescimento da
exportação de grãos, fruto da desoneração do ICMS na exportação de produtos primários,
eliminando a vantagem dos derivados sobre os grãos.
Mesmo assim, a posição brasileira no esmagamento mundial permaneceu acima da sua
média dos últimos 10 anos (16,5%). Em termos mundiais, os Estados Unidos vêm
diminuindo sua participação no esmagamento, pois detinha 37% em 1988 e caiu para
33,7% em 1997, enquanto a Argentina aumentou de 6,4% para 10,2% no mesmo período.
Boa parte das esmagadoras funciona com capacidade ociosa acima de 40%, iniciando em
março e parando em setembro, período de escoamento da safra, quando cerca de 79%
de toda a soja esmagada são processados. O restante, processado nos outros meses,
pode originar-se de três situações: soja precoce no mês de fevereiro (4% a 5% do
esmagamento total), drawback e estoques.
O motivo básico para o superdimensionamento das plantas industriais é a concorrência
pela compra da matéria-prima no início da safra e o escoamento a preço equivalente,
compatível com o preço de compra, já que a tendência dos preços é declinante do início
para o meio da safra. Além disso, a maioria das plantas são conversíveis para o
processamento de outras oleaginosas, não demandando maiores modificações de fluxo
para esmagar soja, milho ou girassol.
A indústria do esmagamento da soja é bastante concentrada, tanto em termos de
empresas quanto de localização.
15
SOJA
PRODUTOS
SÓLIDOS
PRODUTO
INTEGRAL
PRODUTOS
OLEAGIONOSOS
PROTEÍNA
CRUA
PRODUTOS
DE SOJA
ÓLEO
CRU
LEX
FARINHA E
GRANULADO
EMPREGO
COMESTÍVEL
Ingredientes de
padaria
USOS
INDUSTRIAIS
Adesivos
Macarrão, Espaguetti
Pinho manufaturado
Tábua de construção
Caixa
Bombas para inseticidas
Conglomerados
Tiras de amianto
Laminados especiais
Fundo de linóleo
Estrutura de tintas
Produtos de carne
Nutrientes
Lingüiça e salsicha
especial, Chili c/carne, Pão
de carne
Escuma de cerveja
Fabricação de antibióticos
Fabricação de cervejas
Alimento de abelha
Pão branco, Pão especial,
Doces, Bolachas, Roscas,
Bolos, Pastéis, empadas,
etc
Massas alimentícias
Cereais
USOS
COMESTÍVEIS
Alimento para
forrageamento
Para avicultura
Para animais domésticos
Para peixe
Concentrado de proteínas
Pronto para comer, Tipo
quente
USO
COMESTÍVEL
USOS
INDUSTRIAIS
Manufatura antibióticos
Óleo de cozinha
Maioneses
Margarina
Produtos farmacêuticos
Tempero p/salada
Óleo p/ salada
Pasta p/ sanduíche
Gordura vegetal
Produtos medicinais
Adubos
Veículo de
Vitaminados
Antibióticos
Remédios
FARELO PARA
ALIMENTAÇÃO ANIMAL
Alimento para gado
Veículo de
Vitaminados
Antibióticos
Drogas
Soja
esponjada
Misturas preparadas
Panquecas e Waffles,
Extensores
ÓLEO
REFINADO
PROTEÍNA
ISOLADA
USO
COMESTÍVEL
USOS
INDUSTRIAIS
Soja cozida
Semente
Brotos de soja
Alimento p/gado
Soja vaporizada
Bebidas nutritivas
Substituto do leite
Aditivo para alimentos
Adesivos
Alimentação do bebê
Para aumentar conteúdo protéico e
melhorar o valor nutritivo
Revestimento papel
Emulsão de água para tintas
Concentrados secos,
Produtos enlatados
Produtos simulados de carne
Formador de espuma
Confecções
Fibra, Lingüiça, Pedaços de carne
condimentadas
Balas. Extensor para pasta
de amêndoas
Agente de arejamento para
Extintor de incêndio
Indústria têxtil
Indústria papel
Proteína escumada, Malva silvestre,
Refrescos e bases p/ guloseimas
Fabricação de fibra
Bebidas
Lã vegetal
Fibra de piaçaba
Alimentos dietéticos
Dietéticos, Analérgicos,
Proteínas concentradas,
Sopas
Leite de soja, Bebidas nutritivas
Manteiga de soja
Cereal de soja
USO
TÉCNICO
Pão, Balas
Mistura de roscas
Sobremesas congeladas
Farinha de panqueca
Gordura de frigideira
Crosta de pastel
Doces em geral
USO
COMESTÍVEL
Ingredientes p/ calefação
Óleo refugado
Desinfetantes
Isolação elétrica
Inseticidas
Fundos de linóleo
Tecidos oleados
Tintas para impressão
Revestimentos
plastificadores
Massa para vidraceiro
Sabão
Cimento à prova d’água
Tábua de construção
Derivados de soja
Enzimas
Proteolíticas
Diestéticos
Queijo de soja
Leite de soja
analérgico
Molho de soja p/carne
USO
TÉCNICO
Agente emulsificante
Agente antiespumante
Produtos de padaria
Produção de balas
Fabricação de escuma
Fabricação de álcool
Agente ativo de
superfície
Agente dispersante
Revestimento de chocolate
Produtos farmacêuticos
Fabricação de tintas (pintura)
Fabricação de tintas (p/esc)
Inseticidas
Nutrição
Agente umidificante
Fabricação de margarina
Cosméticos
Pigmentos
Substituto do leite p/bezerro
Metais em pó
Têxteis
Produtos químicos
Agente estabilizador
Agente estabilizante
Gorduras
Emulsões
Uso médico
Uso doméstico
Agente contra
salpiqueio
Agente anti-derrapante
Gasolina
ESTERÓIS
ÁC. GRAXOS
GLICEROL
Soja torrada
Farinha de soja engordurada
Ingredientes p/ balas
Ingredientes p/ cereais
Ingredientes p/
confeitarias
Cereal de soja
LECITINA
Ingredientes p/balas
Ingredientes p/ bolinhos
Cobertura p/bolinhos
Ingredientes p/ bolachas
Cobertura de fundo
Café de soja
Manteiga de soja e nóz
Base para tempero
Stegmasterol
Tecopherol
Sitocterol
Hormônios
Diesel vegetal
1
Quanto à localização, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo respondem por 66% da
capacidade instalada de esmagamento de oleaginosas, sendo que o Paraná, sozinho,
detém 30%. Os mesmos três estados respondem por 66% da capacidade instalada de
refino e São Paulo sozinho detêm 37% do total.
Em termos empresariais, houve mudanças importantes no panorama do setor nos últimos
três anos. No esmagamento, aumentou o domínio do setor por parte das trading
companies. Empresas de alimentos como Anderson Clayton e Sadia desfizeram-se de
suas esmagadoras, transferindo-as a empresas especializadas em commodities,
respectivamente Coinbra e ADM. O Grupo Hering foi outro que resolveu se concentrar no
seu negócio principal, vendendo a Ceval ao Grupo Bunge y Borg, da Argentina, que
disputou esta compra com a Cargill.
Anteriormente, através da Santista, o Grupo Bunge y Borg incorporou a Incobrasa, maior
esmagadora do Rio Grande do Sul e quarta maior do país, com 5% do mercado nacional.
Após adquirir a Ceval, no início de 1998, transferiu para ela toda a área de soja da
Santista (aí incluída a Incobrasa), concentrando, então, 25% de toda a capacidade de
esmagamento brasileira. Há três anos sua participação era de apenas 6%.
Feita a reestruturação, o grupo colocou à venda todo o negócio de alimentos, no intuito de
concentrar sua atuação no setor de commodities e aproveitar a escala conseguida, pois a
Ceval passou a deter 15% da capacidade mundial de esmagamento de soja.
A quantidade de empresas que atuam no setor de esmagamento continuou praticamente
a mesma de 1995 a 1997, porém a concentração mudou bastante, como demonstram os
Gráficos 7 e 8.
Gráfico 7
CAPACIDADE NOMINAL DE ESMAGAMENTO
PARTICIPAÇÃO POR EMPRESA -95
Cargill
Santista 6%
6%
Sadia Incobrasa
5%
5% Gessy Lever
4%
Granóleo
4% Bianchini
3%
perdigão
3%
Ceval
14%
Fonte: Abiove
Caramuru
3%
Outras
47%
Gráfico 8
CA P A C IDA D E NO M IN A L DE E S MA G A M E NTO
P A RTICIP A ÇÃ O P O R E MP RE S A - 1 99 7
co in b ra
6%
A DM
6%
Ce val
2 5%
c a rgi ll
6%
gr an ól eo
4%
bi an c hi ni
3%
ca ra mu ru
3%
co m ove
o lve p ar
3%
2%
Fo nte : A bi ove
o ut ras
4 2%
A participação das quatro maiores indústrias esmagadoras subiu de 31% para 43% no
período 1995/97, sendo que a participação das tradings, que era de 26%, subiu para 43%
da capacidade nominal.
Embora a capacidade instalada de esmagamento brasileira tenha aumentado 1,3% no
período, passando de 116.275 t/dia para 117.875 t/dia, o potencial das esmagadoras em
funcionamento diminuiu de 106.695 t/dia para 103.235 t/dia, em função da paralisação de
algumas esmagadoras no Paraná, em São Paulo, no Rio Grande do Sul e no Mato
Grosso do Sul, segundo informações da Abiove.
Nesse contexto, a participação das quatro maiores indústrias sobe para 46,5%, sendo
que, das quatro tradings (Ceval, ADM, Cargill e Coinbra), só a Ceval, a partir da
transferência da área de soja da Santista, passou a ser responsável por 28,3%.
As cooperativas detêm fatia importante no setor de esmagamento: cerca de 8,4% da
capacidade instalada. Não se tem notícia de investimentos na área por parte de
cooperativas que ainda não possuem unidade de esmagamento.
A concentração do setor reflete o movimento de todo o setor de alimentos, ou seja, da
especialização, com ênfase no negócio principal. Assim é que importantes empresas cujo
foco não é a commodity soja, mas sim a maior agregação de valor em seus produtos,
retiraram-se do esmagamento, concentrando-se nos negócios mais próximos do
consumidor, como é o caso da Sadia (carne) e da Gessy Lever (margarinas).
Por outro lado, o domínio das grandes tradings internacionais sobre o parque industrial da
soja e, conseqüentemente, sobre o comércio exterior do complexo parece determinado
pela competição internacional e pela logística da distribuição.
Sendo o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos responsáveis por 82% do comércio
internacional do complexo soja e as Américas do Sul e do Norte dividindo em partes
iguais este mercado, é estratégico o posicionamento destas empresas nos países do
Cone Sul.
1
Além disso, a safra sul-americana é complementar à safra norte-americana, ou seja, nos
Estados Unidos colhe-se a partir de setembro e o pico da comercialização vai até
dezembro, enquanto no Cone Sul a colheita inicia-se em março e a comercialização vai
até junho. Em termos de farelo, a comercialização da produção sul-americana vai até a
entrada da produção dos Estasdos Unidos. Tamanha complementaridade explica por que
as grandes companhias não poderiam deixar de ter forte presença em nosso mercado, o
que lhes permite atender ao mercado mundial ao longo do ano todo, com grandes
volumes e diluição de custos fixos.
Outro fator de concentração é o tamanho das plantas. Na estratificação comumente
usada pelo setor, as de menor porte (34 unidades) respondem por 10% da capacidade de
esmagamento, enquanto as de maior porte respondem por 50,9% (32 plantas).
Tabela 4
Distribuição das Plantas de Esmagamento por Porte
TONELADAS/DIA
QUANTIDADE
CAPACIDADE
PARTICIPAÇÃO (%)
0-599
34
11.845
10,0
600-1.499
52
45.980
39,0
Mais de 1.500
32
60.050
50,9
Total
118
117.875
Fonte: Abiove.
Excetuando-se a ADM, que comprou suas unidades da Sadia, as três outras líderes do
mercado concentram sua produção em grandes plantas. As quatro maiores operam 36
unidades, das quais 14 com capacidade acima de 1.500 t/dia, que, juntas, representam
13,7% da capacidade total instalada no país.
Há nítida concentração de quantidade de plantas na região Sul (59,3%), notadamente no
Paraná e no Rio Grande do Sul. As unidades na região Centro-Oeste, por serem mais
novas, apresentam capacidade média maior: 1.041 t/dia, com 23 unidades, contra 992
t/dia na região Sul, com 70 unidades.
Refino
A concentração na área do refino de óleos não é muito diferente do que ocorre no setor
de esmagamento, embora o número de empresas que trabalham com refino seja menor:
47 refinadoras contra 67 esmagadoras.
As quatro maiores refinadoras detêm 46% da capacidade instalada, parcela estável entre
1995 e 1997. As tradings concentram 34,2%, participação menor que no setor de
esmagamento, e a Ceval sozinha detém 28,3%.
A presença da Sadia no refino explica a redução do domínio das tradings, posto que a
empresa só se desfez de suas unidades de esmagamento, permanecendo com as de
refino.
2
No refino, as cooperativas participam com 3,8% da capacidade instalada, tendo, portanto,
menor peso nesta área do que na de esmagamento. Tal característica provavelmente
resulta das dificuldades de acesso das cooperativas ao consumidor final.
Novos corredores
Na perspectiva de aumento da competitividade da soja brasileira, questão decisiva é o
equacionamento da logística de transporte, fator que onera o custo da produção nacional,
principalmente a partir das grandes distâncias a serem percorridas das fronteiras
agrícolas até os pontos de embarque para exportação.
Acrescendo aos exemplos já dados ao longo deste trabalho, para uma mesma distância
da região produtora ao porto (1.400 km), o frete no Brasil custa em torno de US$ 50,
enquanto o produtor do Mississipi (Estados Unidos) despende somente US$ 6,60,
segundo dados da CVRD.
Nesse aspecto, desponta como solução a exploração de corredores de transporte,
utilizando fórmulas intermodais de transporte, com ênfase no hidroviário e ferroviário em
substituição à preponderância do modal rodoviário. Vários dos projetos do Programa
Brasil em Ação têm por objetivo reduzir os custos do transporte a granel, destacando-se,
entre eles, as hidrovias do Madeira, Tietê–Paraná, Araguaia e São Francisco. A plena
operacionalização desses corredores aumentará a competitividade internacional de várias
regiões e, em alguns casos, viabilizará a produção.
Corredor Noroeste
O corredor multimodal de transporte do Noroeste abrange as áreas do norte do Mato
Grosso, Rondônia e sul do Amazonas, envolvendo o transporte hidroviário nos rios
Madeira e Amazonas, da foz até Itacoatiara, e o transporte rodoviário entre Porto Velho e
a Chapada dos Parecis. A longo prazo, também poderá fazer parte do corredor Noroeste
a hidrovia projetada a partir do rio Teles, interligando com o rio Tapajós até o Amazonas.
O caso da hidrovia do Madeira é um exemplo característico de solução a partir da
necessidade de diminuir os custos de transporte da produção: o Grupo Maggi investiu
US$ 66,1 milhões na implantação de um sistema multimodal de transporte de soja a partir
da sua fazenda em Sapezal, no norte do Mato Grosso, com ligação a um porto em
Itacoatiara, no Amazonas. O sistema consiste em transportar a produção, por via
rodoviária, de Sapezal até Porto Velho, em Rondônia (900 km), fazendo o transbordo para
balsas que descem o rio Madeira até o porto de Itacoatiara, onde o produto é transferido
para navios que levarão a carga até Roterdã.
Em comparação com a rota tradicional (Paranaguá, no Paraná), o sistema proporciona
uma diminuição do percurso em 650 km e do custo por tonelada em 30%.
3
Este corredor serve ao escoamento da produção do norte do Mato Grosso, Rondônia e
Amazonas, como é o caso da região de Humaitá. Há notícias de entendimentos do Grupo
Maggi também para conduzir uma parte da produção boliviana pelo mesmo sistema.
Além do transporte de grãos, a hidrovia também pode viabilizar o abastecimento de
insumos aproveitando o retorno das barcaças, conforme já noticiada a intenção do Grupo
Maggi de importar fertilizantes de Israel para distribuir na região abrangida pela hidrovia.
Ferronorte
A Ferronorte envolve a construção de cinco mil km de linhas férreas. A primeira etapa
compreende o trecho de Aparecida do Taboado (Mato Grosso do Sul) até Alto Taquari
(Mato Grosso), num total de 400 km, e depois até Cuiabá (Mato Grosso), de onde seguirá
até Porto Velho (Rondônia) e Santarém (Pará).
Desta primeira etapa, os 100 km iniciais já estão prontos, possibilitando a ligação de
Inocência (Mato Grosso do Sul) a Aparecida do Taboado, onde se conecta com a rede da
Fepasa para, através desta, atingir o porto de Santos (São Paulo), ou interligar-se
futuramente ao porto de Sepetiba (Rio de Janeiro).
Seu maior entrave era a ponte rodoferroviária sobre o rio Paraná, ligando as cidades de
Aparecida do Taboado e Rubinéia (São Paulo). A ponte foi inaugurada em início de junho
de 1998, dando início à operacionalização da Ferronorte.
O trecho em operação não tem grande influência no escoamento da safra atual, mas,
mantido o ritmo de construção, a operadora prevê o funcionamento dos primeiros 400 km
até o final de 1998, possibilitando o escoamento da produção da região conhecida como
Chapadão dos Gaúchos (cerca de 1,4 milhão de toneladas de grãos) na safra de 1998/99.
A perspectiva dos operadores da Ferronorte é de uma economia de 40% no frete entre
Chapadão dos Gaúchos e o porto de Santos.
Corredor Centro-Norte
Este corredor envolve as hidrovias do Tocantins (420 km), Araguaia (1.230 km) e rio das
Mortes (580 km), as ferrovias de Carajás (600 km) e Norte-Sul (230 km) e a rodovia
Belém-Brasília (1.500 km), além do porto de Ponta da Madeira/Itaqui (Maranhão),
servindo às regiões do leste de Mato Grosso, noroeste de Goiás, sudeste do Pará, sul do
Maranhão e todo o Estado do Tocantins.
A ligação hidroviária pelo rio Araguaia poderia ser feita a partir de Nova Xavantina (Mato
Grosso), seguindo o rio das Mortes até o Araguaia (580 km), neste até Xambioá
(Tocantins) (1.230 km), fazendo a ligação através de rodovia até Estreito (Maranhão) (180
km) e daí através da ferrovia Norte-Sul, que se liga com a ferrovia de Carajás e aporta em
Ponta da Madeira.
A ligação através do rio Tocantins partiria de Miracema (Tocantins) até Estreito (420 km),
ligando-se então com a ferrovia Norte-Sul para chegar ao porto de Ponta da Madeira.
4
A hidrovia do Araguaia já recebeu alguns investimentos, porém ainda não está
operacional. Em Xambioá existe infra-estrutura para transbordo e armazenagem,
construída pela Cia. Vale do Rio Doce.
A ferrovia Norte-Sul, que está operacional até Imperatriz (Maranhão), não tendo sido
construído ainda o trecho de Imperatriz a Estreito, já serve hoje ao escoamento da
produção de Balsas (Maranhão). A produção do pólo é transportada por via rodoviária até
Imperatriz (600 km), onde é feito o transbordo para a ferrovia, que leva os produtos até o
porto de Ponta da Madeira e daí até os portos europeus.
A economia no sistema é estimada em US$ 10 por tonelada frente ao sistema rodoviário.
Corredor Nordeste
O corredor Nordeste é composto pela hidrovia do São Francisco e pelas ligações
rodoviárias em torno de Pirapora e de Petrolina, servindo às regiões do cerrado de Minas
Gerais, oeste da Bahia, interior de Pernambuco e sul do Piauí.
As ligações a partir de Petrolina com os portos de Suape (Pernambuco) e Fortaleza são
feitas atualmente por via rodoviária.
Há previsão de construção de ramal ferroviário entre Petrolina e Salgueiro, possibilitando
a interligação com a malha ferroviária do Nordeste e, por esta, até o porto de Suape.
Corredor Centro-Leste
Este corredor, que tem área de influência no entorno do Distrito Federal e noroeste de
Minas, é formado basicamente pela estrada de ferro Vitória-Minas, com ligação até
Pirapora, via ramal ferroviário Belo Horizonte-Pirapora.
Hidrovia Tietê-Paraná
A hidrovia Tietê-Paraná liga São Simão (Goiás), no rio Paraná, até Pederneiras (São
Paulo), no rio Tietê, como também até Itaipu (Paraná), numa extensão de 600 km, e tem
influência sobre as regiões sul de Goiás, Triângulo Mineiro e norte de São Paulo, estando
pronta e operacional.
Problemas
Os corredores apresentam vantagens comparativas significativas em relação ao
transporte rodoviário, configurando
alternativas econômicas interessantes para
escoamento da produção. Porém, têm encontrado dificuldades em sua implantação ou
operação.
5
As hidrovias do Araguaia e Tocantins têm encontrado entraves com relação à
comprovação de não impacto ambiental que resultam em paralisação de obras e até
proibição judicial, o que impede a continuação de estudos de viabilidade.
Questões operacionais também emperram o uso mais intenso de corredores já em
operação, especialmente no que diz respeito a transbordo e armazenagem, que ou são
inexistentes ou não têm um fluxo contínuo que dê previsibilidade ao sistema. Por
exemplo, alguns produtores de Balsas preferem utilizar a via rodoviária até o porto de
Ponta da Madeira pela falta de armazenagem em Imperatriz, o que os obriga a realizar o
transbordo direto para a ferrovia, implicando estar na hora em que o comboio receberá a
carga ou esperar com a carga no caminhão. Isso acontece apesar da existência de um
armazém da Conab, inativo, em condições de fazer a armazenagem e transferir a carga
direto para a ferrovia.
A hidrovia Tietê–Paraná encontra problemas tanto de constância na oferta de balsas para
transporte como de falta de operadores de transbordo, enquanto na Ferronorte a parceria
com a Fepasa, fundamental para sua plena operacionalização, ainda não está
concretizada.
Com empecilhos desta ordem, o tempo gasto no transporte da mercadoria não tem a
previsibilidade que o sistema rodoviário oferece, fato que parece orientar a opção de
muitos operadores em continuar utilizando o modal rodoviário.
6
Financiamentos do BNDES
Desembolsos
Os desembolsos do BNDES para a cadeia da soja devem ser analisados à luz de suas
políticas operacionais: o apoio às atividades “dentro da porteira” é destinado à abertura de
área, máquinas e implementos, armazenagem e, a partir de 1997, à aplicação de calcário.
O Banco não financia custeio.
As máquinas, implementos e calcário financiados podem ser usados para diversas
culturas, razão pela qual fica imprecisa a identificação dos desembolsos desses itens com
a cultura da soja.
A comparação das vendas de máquinas agrícolas no mercado interno e os desembolsos
da FINAME para o setor indica forte participação dos financiamentos do BNDES na
mecanização agrícola brasileira, principalmente a partir de 1992, quando foi aberto o
financiamento à pessoa física pelo FINAME Agrícola.
Gráfico 9
Vendas de M áquinas Agrícolas (m ercado interno)e
desem bolsos Finam e Agrícola:1990-1997 (1992=100)
350
300
250
200
150
100
50
0
1990
1991
1992
1993
VendasMáquinas
1994
1995
1996
1997
Financiam.Finame
Os desembolsos do BNDES para as indústrias do complexo soja têm pequena
participação no total destinado à agroindústria e apresentam tendência de decréscimo em
termos absolutos. A participação caiu de 9,4% em 1990 para apenas 0,3% em 1997. Em
1995 houve recuperação dos desembolsos para o setor, 107% superiores aos do ano
anterior e 38% maiores que os realizados em 1990, porém seguiram-se novas quedas em
1996 e 1997.
O refino teve participação preponderante até 1995, representando mais de 90% dos
desembolsos para o setor industrial do complexo soja. A partir de então, cresce a
participação relativa do segmento de óleo bruto, que em 1997 absorveu 60% dos
recursos.
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Tabela 5
Desembolsos do BNDES para Processamento de Soja – 1990/97
(Em US$ Mil)
1990
1991
1992
1993
Refino de Óleo Vegetal
32.355
8.612
16.593
3.188
Produção de Óleo Vegetal
246
257
22
Preparo de Margarinas,
264
Gorduras e Óleos
Total
32.601
8.869
16.593
3.474
Agroindústria
345.338 492.286 769.757 880.048
Participação %
9,4
1,8
2,2
0,4
1994
21.272
446
-
1995
41.870
2.551
586
1996
9.557
2.248
768
1997
2.175
4.414
797
21.718
1.616.862
1,3
45.007
1.887.110
2,4
12.573
1.583.690
0,8
7.386
2.530.925
0,3
Nota: Agroindústria = agropecuária, indústria de alimentos e bebidas e indústria do fumo.
O volume de desembolsos parece acompanhar o tipo de investimento realizado. Até 1995
houve investimentos em novas unidades e no aumento de capacidade das existentes,
mas após aquele ano não ocorreram desembolsos para implantação de novas unidades
industriais, aumento de capacidade das plantas ou dos sistemas de armazenagem de
grãos. Os investimentos concentram-se em máquinas e equipamentos, cuja participação
absorveu 95% dos recursos em 1996/97, contra uma média de 46% no período 1990/95,
o que parece sugerir predominância do esforço de modernização e/ou mera reposição de
ativos existentes.
Os investimentos fixos em 1996 e 1997 destinaram-se sobretudo a tratamento de
efluentes e construção de câmara fria, enquanto as máquinas e equipamentos que foram
objeto de financiamento tinham por finalidade, em boa parte, a modernização dos
sistemas de recepção de grãos, fluxos do produto e máquinas para embalagens.
Praticamente todas as operações foram indiretas, ou seja, através de agentes financeiros.
Os desembolsos concentram-se nas regiões Sul e Centro-Oeste, onde está localizada a
maior parte das indústrias. Para ambas as regiões foram destinados 85% de todos os
recursos alocados ao setor, sendo que a região Centro-Oeste ficou com 43% e a região
Sul com 41%.
A participação do BNDES nos investimentos do setor de processamento de soja reflete o
estado das artes do segmento, onde empresas, no seu atual processo de reorganização,
priorizam investimentos em fluxos, processos e logística, em detrimento dos
investimentos em expansão.
No setor de infra-estrutura, o BNDES vêm apoiando investimentos nos corredores de
exportação da hidrovia Tietê-Paraná, rio Madeira e Tocantins-Araguaia, tendo
desembolsado R$ 25,3 milhões em 1996, R$ 23 milhões em 1997 e R$ 4,2 milhões até
julho de 1998.
Em agosto de 1998 foi aprovado financiamento no valor de R$ 22,2 milhões para
construção de mais 25 balsas, na segunda etapa de exploração da hidrovia do Madeira.
Convênio Embrapa
8
A fim de identificar novas fronteiras agrícolas, aptas ao cultivo de grãos, especialmente
soja, o BNDES firmou convênio com a Embrapa em julho de 1997. O trabalho,
apresentado em março de 1998, analisou as regiões de cerrados nos Estados de
Roraima, Amazonas e Pará, em termos de solo, clima, infra-estrutura e condições
ambientais, sob o ponto de vista da tecnologia hoje existente, especialmente na questão
do conhecimento dos solos.
Foram identificados 1,4 milhão de hectares tecnicamente disponíveis para o plantio de
grãos nas regiões estudadas em Roraima, tendo sido recomendadas tecnologias
agrícolas que propi ciem o desenvolvimento sustentado, especialmente nas regiões de
solos mais frágeis, como o latossolo amarelo.
O estudo apontou o Estado do Pará como tendo a maior área potencial para a produção
de grãos de sequeiro. Destacam-se os municípios da região do Araguaia, com área
disponível próxima a 2,8 milhões de hectares, dentro de um total de 3,8 milhões no
estado. Grande parte da área é composta de pastagens degradadas, o que exige a
definição de programas de recuperação, que envolvam sistemas de produção integrada
pecuária-lavoura.
Na região de Humaitá e Lábrea (Amazonas) foram identificados somente 19 mil hectares
aptos à produção de grãos de sequeiro, dada a predominância de plintossolos, que
oferecem sérias limitações de drenagem, de penetração de raízes e de mecanização.
Embora nesta região já exista plantio de soja, o estudo apontadificuldades de manejo de
solo que poderão prejudicar as plantações.
Em todas as regiões há importantes limitações de infra-estrutura de transporte, que
dificultam tanto a chegada de insumos quanto o escoamento da produção. A viabilização
das áreas irá também requerer investimentos em armazenagem, assistência técnica e
extensão rural, bem como programas de treinamento, capacitação e profissionalização de
mão-de-obra rural. Adicionalmente, a regularização da posse da terra é uma precondição
para a ocupação ordenada das áreas aptas à agricultura.
Tecnologia
Perdas
Na perspectiva do potencial de aumento da produção, uma questão fundamental a ser
aprimorada é a diminuição das perdas na colheita.
Estudos do Centro Nacional de Pesquisa da Soja (CNPSo) da Embrapa, em Londrina,
estimam que, na colheita no Paraná, seja perdida cerca de 1,73 saca por hectare e que,
nos outros estados, este número chegue a 2,2 sacas por hectare. Estas estimativas levam
à impressionante cifra de 1,6 milhão de toneladas perdidas na colheita, o que significa 5%
da produção prevista para 1998.
A Embrapa já vem desenvolvendo trabalho, com a participação da Emater, a fim de
orientar os agricultores em termos de manutenção prévia de colheitadeiras e capacitação
de operadores, através de cursos técnicos, reuniões e dias de campo.
9
O índice técnico aceitável, segundo o padrão dos Estados Unidos, é de 1% de perdas na
colheita, o que significaria uma diminuição de perdas da ordem de 1,2 milhão de
toneladas.
Sementes Transgênicas
Das novas tecnologias aplicadas ao cultivo da soja, é importante que se ressalte o esforço
que tem sido feito pelos segmentos que trabalham com biotecnologia, no sentido de criar
novos cultivares com características diferenciadas.
Estas novas variedades desenvolvidas pela biotecnologia trazem em si um novo conceito
de pesquisa, a da mutação genética, onde genes da planta original são modificados a fim
de se obter maior rendimento, por exemplo, na extração de óleo, ou maior resistência a
doenças.
Das chamadas variedades transgênicas, destaca-se o cultivar da Monsanto,
geneticamente modificado para resistir ao herbicida da empresa, possibilitando que a
aplicação do produto possa ser feita sem prejuízo da cultura.
Grandes polêmicas têm sido travadas sobre os limites da manipulação genética e seus
efeitos sobre o biossistema, tanto pelos ambientalistas como também por técnicos e
estudiosos da agricultura. A polêmica principal, por parte dos ambientalistas urbanos, é a
conseqüência que a modificação genética pode trazer na alimentação humana,
principalmente em relação à saúde. Os técnicos argumentam que ainda não está
devidamente provado que a resistência a herbicidas não será expandida para o ambiente,
tornando outras plantas, inclusive as invasoras, resistentes também.
Um dos resultados da polêmica é a proibição de entrada da soja transgênica no mercado
europeu, que quer aprofundar os estudos sobre os impactos que a manipulação genética
pode trazer na alimentação humana.
Discute-se, ainda, a rotulação de produtos que utilizem insumos modificados
geneticamente, de forma que o consumidor possa ter informação sobre o conteúdo do
alimento que está comprando.
No Brasil, a definição está a cargo da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança
(CTNBIO), que tem permitido alguns experimentos de pesquisa com a soja geneticamente
modificada, mas ainda não deu o salvo-conduto para a produção em larga escala.
Em 1997 foi permitida a importação de soja transgênica para uso da indústria de
esmagamento, para operação de drawback.
A liberação do plantio destes tipos de sementes pode ter um impacto positivo nos custos
de produção, com diminuição do uso de herbicidas, mas, por outro lado, pode trazer
problemas nas operações de exportação para países com fortes vigílias ambientalistas,
notadamente os europeus.
Doenças
10
O plantio em larga escala da soja trouxe renda ao agricultor e progresso às áreas de
cultura, mas também tem provocado alguns problemas na área de fitossanidade. Na
medida em que as plantações se expandem, multiplicam-se as doenças que infestam a
cultura, diminuindo a produtividade agrícola e a fertilidade do solo.
Uma das maiores causas apontadas pelos especialistas é o plantio sucessivo em
mesmas áreas, facilitando a ação dos agentes infectantes. O nematóide do cisto, por
exemplo, um verme de solo que se hospeda no sistema radicular da soja e pode reduzir
em até 60% sua produtividade, dissemina-se pelo vento, que o carrega de uma plantação
a outra, após o revolvimento do solo.
Este microorganismo apareceu há cerca de 10 anos no Mato Grosso do Sul e já se
espalha no norte e noroeste do Paraná. Seu combate se dá pelo uso de variedades
resistentes, rotação de culturas e plantio direto, sendo que este último diminui a
propagação do verme no ar, já que o solo não é revolvido nesta técnica.
Nos Estados Unidos, onde a infestação é bastante intensa, os agricultores são obrigados
a cultivar 50% da área com milho ou outra cultura alternativa, a fim de interromper o ciclo
de propagação da doença e diminuir os prejuízos financeiros.
Plantio Direto
A cultura da soja, que foi responsável pela difusão do pacote tecnológico dito moderno
para a agricultura brasileira na década de 70, também pode ser responsabilizada pela
atual evolução da tecnologia de plantio e manejo de solo.
Preocupados com os custos de mecanização, uso de insumos e degradação do solo com
as sucessivas safras a campo aberto, pesquisadores e agricultores uniram-se na busca
de novas técnicas de plantio e manejo.
A partir dos campos do Paraná foi testada a técnica do plantio direto, que hoje, segundo
os seus mais fervorosos adeptos, já é utilizada em cerca de 10 milhões de hectares no
Brasil. Simplificadamente, ela consiste em plantar, sem utilização das operações usuais
de gradagem e aração, sobre os restos de uma cultura anterior, que fazem a cobertura do
solo, evitando o seu ressecamento e a evaporação de nutrientes.
Nas pesquisas e testes, foram estudadas culturas que melhor poderiam fazer a proteção
do solo, inclusive com incorporação de nutrientes. Existem também experiências de
plantio direto sobre pastagens nativas ou diretamente sobre pastos degradados,
indicando o sistema como uma possibilidade de consórcio na produção de grãos e
recuperação de pastos.
A maioria dos estudos apontam significativas vantagens do sistema de plantio direto
sobre a palha em comparação com o sistema convencional. Além da diminuição dos
custos de mecanização, a dispensa de operações de gradagem e aração traz vantagens
como a não compactação do solo em virtude de menor trânsito de tratores pesados. Com
a manutenção da palha sobre o solo e a conseqüente criação de condições para
desenvolvimento e manutenção da fauna microbiana, as pesquisas constataram maior
11
aeração do solo e melhor distribuição dos nutrientes, o que tem como resultado menor
necessidade de adubação e calagem.
Outra observação importante, que tanto pode ser considerada na área ambiental como na
questão econômica, é que, com cobertura, o solo fica menos suscetível a perdas por
carregamento pelas chuvas que provocam lixiviação (perda de nutrientes) e
assoreamento dos rios. Observações de pesquisa chegam a detectar perdas de 18,4
toneladas/hectare/ano de solo no plantio convencional, contra 0,14 tonelada/hectare/ano
no plantio direto sobre a palha.
Obviamente, nem tudo é perfeito. O sistema só é plenamente utilizável em terrenos já
razoavelmente estruturados, e as pesquisas e experimentos ainda procuram meios de
diminuir determinadas infestações de pragas que a atividade microbiana potencializa.
De qualquer forma, o sistema tem-se mostrado vantajoso sobre o convencional, tanto em
termos ambientais, como de produtividade e retorno econômico.
Agricultura de Precisão
Outra tecnologia que surge no Brasil é a da agricultura de precisão.
Um consórcio formado pela Algar, Monsanto, Manah, Case, DD & E, Integris CTBC e
Engeset coloca à disposição dos agricultores a tecnologia do gerenciamento por satélite
(GPS), que permite que, enquanto as máquinas realizam as operações de colheita, todos
os dados sejam transmitidos por satélite, facilitando a análise de produção e produtividade
de cada área, especificamente.
Neste sistema, um aparelho, que transmite os dados para o satélite que os transfere para
um sistema de análise, é acoplado às máquinas. Este monitoramento permite identificar
as necessidades de correção de cada metro quadrado de terreno, otimizando, assim, a
aplicação de insumos.
Conclusões
O “feijão-chinês” tornou-se de fato o produto agrícola mais importante do Brasil,
suplantando a cultura do café. Mais do que isso, implantou o conceito de agronegócio no
país, viabilizou a existência de outros setores, a montante e a jusante da produção
agrícola e até da industrial, e proporcionou discussões vigorosas sobre a importância da
logística (de transporte, armazenagem, distribuição, embarque, meio ambiente etc.) em
todo o complexo agroindustrial.
O volume alcançado pela produção brasileira e sua importância na economia do país e no
cenário mundial tornam irreversível a consolidação das ações em torno do complexo soja.
Dada a característica de commodity, a necessidade de constantes reduções de custo e
economias de escala obriga as iniciativas pública e privada a adotar posturas de contínuo
aperfeiçoamento de todos os fatores que envolvem a atividade.
12
As safras recordes de 1997 e 1998 e a proposta do Ministério da Agricultura de elevar a
produção de grãos brasileira para 100 milhões de toneladas a curtíssimo prazo, e para
isso disponibilizar crédito, fornecem mais um impulso aos diversos agentes que atuam ao
longo desta cadeia produtiva.
Assim é que o setor, que andou um tanto acomodado no início da década de 90, parece
ter iniciado um terceiro ciclo de expansão e tecnificação. Indícios desta nova etapa são: o
desembarque das grandes produtoras de semente e de pesquisa privada no mercado
brasileiro; a maior agressividade no lançamento e nas vendas de máquinas agrícolas; a
retomada de investimentos em novas plantas de esmagamento e na ampliação da
capacidade instalada; a implantação de novos pólos agroindustriais; e a aceleração dos
investimentos em logística, tanto pelas empresas que atuam no setor quanto pelo setor de
transporte, através de corredores de exportação e ferrovias.
As terras disponíveis para sua expansão são as do interior, longe dos portos. Se assim
não for, estaremos falando de um processo de substituição de outras culturas, o que seria
danoso à economia agrícola do país. Destarte, para que a soja nacional aumente sua
competitividade, é fundamental que governo, produtores e indústria atuem fortemente no
equacionamento dos nós básicos do negócio e atuem estrategicamente em relação ao
transporte da produção e dos insumos.
A combinação dos modais de transporte, principalmente quando envolvem hidrovias, é
novidade no país. Ainda faltam investimentos e, principalmente, mudança de cultura.
As questões ligadas à previsibilidade, versatilidade e confiabilidade das soluções
intermodais de transporte precisam ser solucionadas a curto prazo, para dar segurança a
produtores, transformadores e demandantes da soja, e assim sustentar o vigor com que a
produção se expande.
O Brasil é competitivo na produção e industrialização da soja, porém a ocorrência de
supersafras seguidas nos principais produtores e a crise que se instalou em países que
influenciam substancialmente a demanda resultam numa forte queda nos preços
internacionais.
Neste ambiente, onde a competição deve se acirrar via preços, a administração dos
custos será o fator fundamental para a sobrevivência de produtores e industriais. Além
disso, a lucratividade do produtor tem que ser assegurada, sob pena de reversão do
processo de expansão.
A logística, especialmente o transporte, é crucial para o aumento da competitividade da
soja e da economia agrícola brasileira.
Referências Bibliográficas
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SINDICATO e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná.
SOYATECH. 1998 soya bluebook plus. Soyatech Inc.
14
15
Download

Panorama do Complexo da Soja