PANORAMA DO COMPLEXO SOJA Sérgio Roberto de Paula Paulo Faveret Filho* * Respectivamente, assistente técnico e gerente da Gerência Setorial de Estudos de Agroindústria do BNDES. E-mails: [email protected] e [email protected]. Os autores agradecem as informações fornecidas pela Gerência Setorial de Logística de Carga do BNDES e pelos produtores Sérgio Pizzato (Sementes Maggi) e Armindo Brugnera, bem como os comentários de Jaldir Freire Lima e Luciano Velasco (ambos do BNDES), o apoio bibliográfico de Heloiza Miranda e a assistência de Leonardo Cortes. Resumo A importância que a cultura da soja assumiu no cenário agrícola brasileiro ultrapassou os limites das porteiras das fazendas para influir nas discussões sobre pesquisa tecnológica, agroindústria, cadeias produtivas e, até, infra-estrutura. O volume da produção do Brasil e sua condição de segundo maior player mundial no comércio da soja atraíram para o país as grandes tradings que hoje dominam grande parte desse comércio no território nacional. Sendo o principal complexo exportador brasileiro, mesmo sem considerar sua participação na exportação de carnes, e responsável pela interiorização dos grandes investimentos agroindustriais, a cultura da soja chegou a um ponto em que a logística, especialmente o transporte, é crucial para o aumento de sua competitividade. Neste estudo pretende-se traçar um perfil do complexo agroindustrial da soja no período atual e apontar as perspectivas, oportunidades e riscos dos seus diversos setores. ____________ Introdução A cultura da soja confunde-se com o processo de modernização da agricultura brasileira. Acompanhando sua expansão, um sem-número de novos processos foram se desenvolvendo, especialmente nas três últimas décadas. O desenrolar dos acontecimentos em torno do “feijão-chinês” chega a exercer um certo fascínio sobre aqueles que se debruçam na sua observação. Poucas coisas na agricultura brasileira ficaram imunes às modificações introduzidas pelo cultivo em larga escala deste grão. A conquista do Oeste brasileiro se deu no rastro do “ouro-verde”, que hoje já procura as fronteiras do Norte para ocupar seu espaço. O processo de mecanização e a introdução de técnicas modernizantes de plantio, colheita e processamento de grãos têm a soja como grande indutor. Novas técnicas de plantio, que objetivam maior conservação do solo e dos mananciais hídricos, como é o caso do plantio direto, encontram na leguminosa seu grande difusor. Estruturas de armazenagem, processamento, transporte e exportação foram bastante ampliadas a partir do significativo aumento da produção e expandiram-se fora das regiões tradicionais para seguir os passos desta cultura desbravadora. Vários setores agroindustriais, especialmente na área de carnes, consolidaram-se a partir de uma oferta firme e abundante de matéria-prima, com qualidade, no mais das vezes, superior à disponível no comércio mundial. Cooperativas e traders ampliaram significativamente suas atividades, calcadas na oferta interna de grãos e na facilidade de comércio desta commodity, tanto no mercado interno como para exportação. Pode-se dizer, sem medo de errar, que a expansão da cultura da soja foi a principal responsável pela introdução do conceito de agronegócio no país, não só pelo volume físico e financeiro envolvido, mas também pela necessidade da visão empresarial de administração da atividade por parte dos produtores, fornecedores de insumos, processadores da matéria-prima e negociantes, de forma a manter e ampliar as vantagens competitivas da produção. A interiorização da agricultura em larga escala também é responsável por uma atenção específica sobre as questões de infra-estrutura, armazenagem, transporte e distribuição, que determina um aprofundamento no trato das determinantes logísticas envolvidas no negócio. A competição acirrada no comércio internacional exige grande dinamismo de todos os fatores, razão pela qual a pesquisa tecnológica, especialmente agronômica, desenvolveuse no mesmo diapasão, oferecendo novas técnicas e cultivares adequados às regiões, de diversas especificações (conforme o uso pretendido) e resistentes às doenças. 1 Este estudo pretende traçar um perfil do complexo agroindustrial da soja no período atual e apontar as perspectivas, oportunidades e riscos dos diversos setores do complexo, com especial atenção às perspectivas das indústrias esmagadoras e aos novos corredores de exportação do produto. Oferta Produção Mundial A produção mundial de grãos de soja tem crescido à taxa de 3,7% a.a. nos últimos 10 anos, partindo de 103 milhões de toneladas na safra de 1987/88 e chegando aos 154,7 milhões de toneladas na safra de 1997/98. A produção, tanto de grãos como de derivados, tem apresentado crescimentos sucessivos, sendo que os grãos experimentaram oscilações maiores em algumas safras, especialmente as de 1995 e 1997, enquanto a produção de farelo e óleo mostrou um crescimento estável. 2 Gráfico 1 Produção Mundial de Soja e Derivados 180 160 6 10 t 140 120 100 80 60 40 20 0 1987/88 1988/89 1989/90 1990/91 1991/92 1992/93 1993/94 1994/95 1995/96 1996/97 1997/98 safras grãos (produção) farelo óleo Fonte: FNP. O crescimento do consumo de 1990 a 1997 foi maior que o verificado na produção, o que determinou um contínuo declínio do estoque mundial em quantidade e em proporção relativamente à produção total. Este estoque está se recompondo em 1998, principalmente em função das safras recordes dos Estados Unidos, do Brasil e da Argentina. Esta recomposição não recupera a relação proporcional entre produção e estoque final existente no período anterior a 1991, quando variava de 17% a 20% da produção. O estoque físico em 1997 retornou ao patamar histórico de 20 milhões de toneladas, porém representando apenas 13% da produção. Em 1998, o estoque final poderá alcançar 19% da produção, contribuindo para reduzir mais os preços internacionais. O maior fluxo de informações no mercado internacional e os volumes crescentes das bolsas de futuros, minimizando o risco representado pela variação de preços, fazem crer que os estoques não retomem os volumes proporcionais do início da década em função de maior facilidade de administração de preços e estoques, além de melhor administração da logística no escoamento da produção e no comércio internacional. 3 Gráfico 2 Produção Mundial e Estoque Final de Soja Mil hõ es TO NE LA D AS 160 140 120 100 80 60 40 20 0 1987/88 1988/89 1989/90 1990/91 1991/92 1992/93 1993/94 1994/95 1995/96 1996/97 1997/98 Safras Fonte: ABIOVE Produção (mm ton) Nível de Estoque (%) Linear (Produção (mm ton)) Linear (Nível de Estoque Estados Unidos, Brasil, Argentina e China lideram a produção mundial de soja, respondendo, na média, por 88% do total produzido. Até à safra de 1988/89 a China era a terceira maior produtora mundial, posição que passou a alternar com a Argentina a partir da safra seguinte. Gráfico 3 SOJA - PRINCIPAIS PAÍSES PRODUTORES 8 97 /9 7 19 19 96 /9 95 /9 6 5 19 94 /9 4 19 93 /9 3 19 92 /9 2 19 91 /9 1 19 90 /9 0 19 19 89 /9 9 /8 88 19 19 87 /8 8 MM TON 80 70 60 50 40 30 20 10 0 SAFRA EUA BRASIL ARGENTINA CHINA Fonte: USDA e ABIOVE Diante da taxa de crescimento da produção mundial, na faixa de 3,6%, o Brasil e a Argentina, importantes produtores, destacam-se com taxas de crescimento superiores 4 (5,0% e 5,1%, respectivamente). Os Estados Unidos mantêm taxa de crescimento de 3,1% e a China tem crescido menos de 1% ao ano, com comportamento irregular. Até a safra de 1996/97, a produção de derivados apresentava taxa de crescimento maior que a produção de grãos (3,1% contra 2,4%), fato revertido pelo aumento significativo da safra de 1997/98, 18% superior à anterior. O grão in natura é usado, em sua maior parte, como semente para o plantio da safra seguinte, e o seu consumo varia de acordo com a expectativa de evolução da cultura e, portanto, formação de estoques para sementes. No caso de uso direto para consumo alimentar, embora não estejam disponíveis dados precisos, sua participação não é significativa no consumo total. O mundo ocidental não tem o costume de utilizar o grão in natura, sendo mais comum nos países asiáticos. Produção Brasileira A produção brasileira de soja alcançou 31,3 milhões de toneladas na safra de 1997/98, ocupando uma área de 11,4 milhões de hectares com uma produtividade de 2.308 kg/ha. Na década de 70, observou-se um crescimento médio de 22% ao ano em produção, 17% em área e 3,6% em produtividade. O crescimentoacelerado resultou da combinação de preços atrativos no mercado internacional e crédito abundante com juros subsidiados para a produção nacional. Tabela 1 Taxas de Crescimento Médio Anual da Produção, Área e Produtividade da Soja no Brasil (Em %) PERÍODO PRODUÇÃO ÁREA PRODUTIVIDADE 1970/79 22,0 17,7 3,6 1980/89 3,0 3,1 -0,1 1990/98 8,6 2,1 4,9 Fontes: Abiove, Safras & Mercados e IBGE. Na década de 80, o crescimento foi de 3% ao ano, tanto de área quanto de produção, mantendo praticamente a mesma produtividade. Durante o mesmo período, a produção nos principais estados (Rio Grande do Sul e Paraná) foi muito instável, principalmente em função de fatores climáticos. O crescimento global foi sustentado pelo constante aumento de produção, produtividade e área da cultura no cerrado. A década atual está sendo de crescimento da produtividade, pois o acréscimo de área situou-se na faixa dos 2,1% ao ano, enquanto a produção apresentou taxa de 8,6%, em função de um aumento de 4,9% ao ano na produtividade média. Contribuiu muito para esta performance um maior conhecimento das terras do cerrado, tanto por parte dos produtores como do sistema de pesquisa, em especial da Embrapa. Também na região Sul a difusão do resultado das pesquisas, tanto em novas variedades como em manejo de solo e pragas, foi fator importante para a melhoria de produtividade. 5 Distribuição Regional Em termos regionais, é significativo o crescimento da produção e da produtividade no Mato Grosso, que assumiu, na safra de 1995/96, a posição de segundo maior produtor brasileiro de soja e, em 1996/97, foi detentor da maior produtividade nacional, com 2.730 kg/ha, em média, frente a uma média nacional de 2.406 kg/ha. Tecnologia, terras planas e regularidade climática explicam a liderança na produtividade e o crescimento da produção. Gráfico 4 8.000 7.000 6.000 5.000 pr 4.000 3.000 2.000 1.000 0 go mt rs ms ba 19 80 /8 19 1 81 /8 19 2 82 /8 19 3 83 /8 19 4 84 /8 19 5 85 /8 19 6 86 /8 19 7 87 /8 19 8 88 /8 19 9 89 /9 19 0 90 /9 19 1 91 /9 19 2 92 /9 19 3 93 /9 19 4 94 /9 19 5 95 /9 19 6 96 / 19 97 97 /9 8* mil ton Soja - Evolução da produção nos principais estados safra Fonte: ABIOVE, CONAB, IBGE e SAFRAS & MERCADOS O Rio Grande do Sul, berço da cultura da soja, apresenta grandes variações de produção e produtividade em razão de flutuações climáticas prejudiciais à cultura na época da colheita. Em função das frustrações de safra, a área plantada tem diminuído, e nas duas últimas safras o estado apresentou a mais baixa produtividade entre os produtores do país. Em 1998 houve uma recuperação da cultura no estado, que voltou a ser o segundo maior produtor do país, porém com produtividade ainda baixa, na faixa de dois mil kg/ha. O Paraná, atual maior produtor brasileiro, após um período de estagnação na década de 80, vem apresentando nos anos 90 um vigoroso crescimento, tanto de área como de produtividade, fruto de investimentos em pesquisa e tecnologia de entidades governamentais e de cooperativas e institutos privados de pesquisa. O crescimento da produção baiana é decorrente da implantação e desenvolvimento do pólo agroindustrial de Barreiras, onde se localiza praticamente toda a produção de soja do estado, que a partir de 1987 mantém um crescimento médio de 12,7% a.a. nos últimos 10 anos. O Mato Grosso do Sul, após um período de crescimento da área plantada no final da década de 80, tem diminuído a área ocupada com a soja, porém a produção se manteve estável, fruto do aumento da produtividade, que foi de 2.500 kg/ha na safra de 1996/97. 6 O movimento de implantação de novas áreas de cultura se dá quase que em sua totalidade em regiões de cerrado, seja no Mato Grosso, na Bahia, em Goiás, na região de Balsas, no Maranhão, e mais recentemente no Piauí. Os estados do Centro-Oeste, que em 1980 tinham 14% da área brasileira ocupada com soja, contra 77% da região Sul, em 1998 passaram a 36%, enquanto a região Sul diminuiu sua área para apenas 48%. Por sua vez, a soja do cerrado, que representava 16% da área total em 1980, passou a ocupar 45% em 1998. Uma análise das características de produção dos estados brasileiros demonstra o dinamismo no Mato Grosso, no Paraná, em Goiás e na Bahia, que apresentam crescimentos constantes, enquanto Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul mostram variações significativas de produção entre safras, embora estas flutuações se dêem em torno de um patamar estável. Assim, a soja tem sido o elemento indutor do desenvolvimento da região do cerrado, não só ocupando áreas antes improdutivas e avançando sobre regiões de bovinocultura extensiva, mas também fixando atividades ligadas à produção, comercialização e industrialização da leguminosa. Acompanhando seu desenvolvimento, outras culturas têm se expandido consideravelmente, especialmente na safrinha, nomenclatura ultrapassada nos dias de hoje, posto que a “safrinha” de milho foi de 4,1 milhões de toneladas em 1997, representando 11,8% da safra deste cereal e cerca de 5% de toda a safra brasileira de grãos. Custos de Produção no Brasil Nosso levantamento sobre custos de produção demonstrou que, ao contrário do que se poderia imaginar, não são tão grandes as diferenças entre o cerrado (Rio Verde, em Goiás, e Itiquira, no Mato Grosso) e o Paraná. Os dados dão conta de custos na faixa de US$ 9,98 a US$ 10,92 por saca, para uma produtividade de 2.700 kg/ha. A razão principal é que os custos se compensam: enquanto o Paraná tem custo menores de insumos, no cerrado o custo de mão-de-obra e remuneração da terra são mais baixos. O custo do frete no Paraná em 1998 passou a ter o gravame adicional dos pedágios implantados nas rodovias do estado. Medida excepcional do governo estadual isentou a safra paranaense do pedágio, gerando uma vantagem sobre a safra de outros estados que sejam escoadas pelo porto de Paranaguá, o que pode desviar a exportação da safra desses estados para outros portos. Uma grande pressão sobre os custos é dada pelo preço do frete (na maioria rodoviário), que, segundo dados do Sistema de Informações de Fretes para Cargas Agrícolas (Sifreca), da Esalq/USP, chega a valores superiores a R$ 60 por tonelada (Mato Grosso Paranaguá), representando um aumento de custo, neste caso, superior a 25%. Como pode ser observado na Tabela 3 (p. 132), o valor do frete acaba sendo imputado ao produtor, diminuindo, assim, a rentabilidade da cultura. 7 Demanda Comércio Mundial As importações mundiais de soja em grãos cresceram 25% entre 1992 e 1998, passando de 30,4 para 39,3 milhões de toneladas, o que representa uma taxa bastante expressiva, mas que foi acompanhada de perto pela produção, que cresceu 23%. Sendo assim, a parcela comercializada internacionalmente da produção manteve-se na faixa de 25%. A União Européia é a grande importadora, com uma parcela superior a 40%. Sua participação é declinante, tendo caído de 49% para 40% nesta década, sem que o volume absoluto tenha se reduzido. O Japão vem a seguir, respondendo por cerca de 14% das importações mundiais, com ligeira tendência de queda. A China tornou-se importadora líquida nos anos 90, assumindo cerca de 6% do total comercializado, como resultado do grande crescimento da demanda interna de carnes. Taiwan e México têm parcelas semelhantes, em torno de 7%, enquanto o Brasil importa aproximadamente 3%, especialmente para operações de draw-back na entressafra. A relação entre produção e exportação, nos principais produtores, exceto a China, não tem se modificado. Porém, nota-se alteração na composição das exportações nos últimos cinco anos. Tabela 2 Índice de Exportação dos Principais Produtores de Soja – Safras de 1993/94 a 1997/98 (Em %) 1993/94 1994/95 1995/96 1996/97 1997/98 MÉDIA Estados Unidos 42 44 49 48 46 46 Brasil 69 59 71 75 66 68 Argentina 91 85 95 100 89 92 China 14 10 2 2 2 6 Mundo 53 50 57 58 54 54 Fonte: Abiove. Elaboração: BNDES. Os Estados Unidos exportam mais grãos que farelo e óleo, tendo aumentado a participação dos grãos nas exportações do complexo de 74% para 77% nos últimos anos. Até 1996, os derivados vinham aumentando sua participação nas exportações brasileiras do complexo, chegando a atingir 80%. Embora não se tenha revertido a posição, em 1997 aumentou significativamente a exportação de grãos, chegando a atingir 40% do total de exportações do complexo, com previsão de manutenção dessa nova relação em 1998. Esta mudança deve-se basicamente à desoneração de ICMS na exportação e resulta da situação anterior de maior tributação dos grãos em relação aos derivados - 13% para grãos, 11% para o farelo e 8% para o óleo bruto. 8 A Argentina, por sua vez, percorreu o caminho inverso, aumentando a exportação de derivados: em 1993 representavam 63% e passaram a 90% no biênio 1996/97. O importante a salientar no caso argentino é que sua produção é praticamente toda destinada à exportação. Assim, qualquer aumento na safra tem influência no mercado internacional e concorre diretamente com a produção brasileira. Além do mais, a estratégia argentina de exportar produto esmagado, fato demonstrado também pela quantidade de investimentos feitos nos últimos anos na área industrial, indica a intenção de disputar os mercados onde o Brasil conseguiu se estabelecer melhor. Os investimentos argentinos em logística têm aumentado sua competitividade, haja vista que o recente aumento da capacidade de esmagamento, para a produção de farelo e óleo, foi feito junto aos portos, com visível intenção de esmagar para exportar. A política das esmagadoras argentinas de localizar as plantas nos portos dará uma considerável vantagem competitiva em relação ao Brasil. Além disso, o diferencial de qualidade do farelo brasileiro pode ser reduzido por uma política de incentivos à pesquisa tecnológica e de adaptação de cultivares que, atualmente, estão amplamente disponíveis. A demanda mundial por soja e seus derivados tem crescido 3,7% a.a. nos últimos 10 anos, segundo os dados da USDA. Em 1997, todas as projeções apontavam para uma continuidade deste crescimento, principalmente por conta do aumento da renda nos países asiáticos. A recente crise asiática, no entanto, colocou em dúvida estas projeções, uma vez que os efeitos e a duração da recessão naqueles países ainda não foram efetivamente avaliados. Existe uma grande incógnita que pode mudar significativamente a situação: a China. Não tendo sido afetado pela crise, o país mantém níveis vigorosos de crescimento. Com uma economia ainda fortemente controlada pelo Estado, que dedica especial atenção à demanda por alimentos e à agricultura, as decisões chinesas e o tamanho de seu mercado interno podem afetar fortemente a demanda e a oferta internacionais. À guisa de exemplo, se um chinês comer um frango a mais por ano, aumenta em 1% o consumo mundial de soja. Para fazer frente a este aumento de consumo, a China precisaria aumentar em 10% a sua produção ou comprar 3,6% das exportações mundiais. Isto se o aumento for só de mais um frango/ano/chinês. O consumo de óleos vegetais cresceu, nos últimos 10 anos, à taxa de 3,1 % a.a. Neste contexto, a produção de óleo de soja cresceu em linha com o consumo. O óleo de palma teve crescimento igual ao dobro da taxa de crescimento do consumo de óleos e o óleo de girassol cresceu à taxa de 3,4% a.a. O consumo de óleo de palma aumentou substancialmente no período (104%) e aproximou-se do consumo de óleo de soja. Em 1985 o consumo de óleo de palma representava 56% do consumo de óleo de soja, passando a ser de 80% em 1997. Apesar deste crescimento, nota-se que não houve substituição do óleo de soja pelo óleo de palma, o qual parece substituir o consumo de óleos de coco, algodão e peixe. 9 Gráfico 5 di s t rib ui çã o do c on s um o de ó le os s a fr a 8 5 /86 c o co ol iva p ei x e 4 % 3% 7% s o ja 29 % a m en do im 6% al go dã o 7% c o lz a 1 3% p al m a 1 7% gi ras s ol 14 % F o nte : U S D A Gráfico 6 distribuição do consumo de óleos safra 97/98 palma 24% girassol 12% colza 15% soja 29% Fonte: USDA peixe 2% oliva 3% algodão 5% amendoim coco 6% 4% O óleo de palma tem importância regional, não disseminada pelo mundo, e o seu maior crescimento se dá na China, na Indonésia e na Malásia, que detêm, em conjunto, 35% do consumo mundial. O farelo de soja - a farinha protéica mais consumida no mundo, com uma participação de 62% do consumo mundial de farelos - teve um aumento de consumo de 25% no período 1992/97, contra um crescimento de 21% do consumo de farelos em geral. O consumo do farelo se dá principalmente no arraçoamento de animais, seja para a produção de carne, leite e ovos ou para animais de competição e estimação. Neste último caso está a fatia de mercado que mais cresce (pet food) com a fabricação de rações sofisticadas que, só nos Estados Unidos, movimenta entre US$ 9 bilhões a US$ 10 bilhões anualmente. 10 Brasil O consumo brasileiro de farelo de soja teve crescimento médio, nos últimos 10 anos, de 6% a.a. e está relacionado com o crescimento da produção de frango e suínos, que são responsáveis por 67% e 30% do consumo, respectivamente. As perspectivas de crescimento, da mesma forma, estão relacionadas com o desempenho da avicultura, principalmente de corte, e da suinocultura. Pode-se aventar a hipótese, sujeita a investigação aprofundada, de que a demanda brasileira por carnes, da ordem de 61,7 kg/ano per capita, abrangendo as carnes bovina, suína, de frango e de peru, que já é superior ao consumo médio da União Européia (em torno de 60 kg/ano per capita), deverá crescer a taxas mais baixas que as verificadas nos últimos anos, não configurando um aumento de demanda firme pelo farelo de soja. É lógico que o consumo per capita apresenta grandes assimetrias se compararmos o Centro-Sul com o Norte-Nordeste, o que poderia apontar para um aumento na média em função de melhor distribuição de renda em termos regionais. A modernização da bovinocultura de corte e de leite deverá ter alguma influência positiva sobre a demanda interna do farelo. Porém, este movimento, ainda incipiente, deve se dar de médio a longo prazo. O consumo interno de óleo de soja cresceu, nos últimos 10 anos, à taxa de 3,4% a.a., e a tendência é de que não ultrapasse este nível, em virtude do crescimento significativo do consumo de óleos de canola, girassol e palma. Os dois primeiros competem com o óleo de soja no consumo doméstico e o óleo de palma, basicamente, na área industrial. Preços Os preços no Brasil guardam relação direta com os internacionais e são praticados em estreita sintonia com a Bolsa de Chicago, o que reflete a grande importância das exportações como destino da produção (média de 68% entre 1993 e 1997). Trata-se de um dos produtos com maior exposição internacional, inferior apenas à do suco de laranja concentrado. Os preços pagos ao produtor são baseados no preço internacional, descontados os valores referentes a frete e impostos, que levam ao chamado preço de internalização ou de paridade. 11 Cascavel 642,50 Tabela 3 Paridade para Exportação x Mercado Interno SOJA EM GRÃO FARELO Passo Fundo Rondonópolis Ponta Grossa 642,50 642,50 156,20 1 - Fechamento Chicagoa 2– -9,00 -5,00 -9,00 -16,50 Prêmio/Desconto 3 – Conversão 232,77 234,24 232,77 153,99 (US$/Tonelada) 4 – Relação 1,145 1,145 1,145 1,145 Cambial 5 – Receita Bruta 266,41 268,09 266,41 176,24 (R$/Tonelada) 6 - Despesas ICMS 0,00 0,00 0,00 0,00 Fretes 26,00 19,00 54,00 10,50 Despesas Porto 8,01 8,01 8,01 8,01 PIS Taxas/Comissões 0,57 0,57 0,57 0,57 Corret. Câmbio 0,50 0,50 0,50 0,33 Cofins 7 – Despesa Total 35,08 28,09 63,08 19,41 8 – Receita 231,32 240,00 203,32 156,83 Líquida 9 – Paridade/60 13,88 14,40 12,20 kg 10 – Mercado 13,80 14,40 11,90 180,00 Interno 11 – Relação % -0,57 0,69 -2,45 14,77 (10)/(9) Fonte: Safras & Mercado. a Em US$ cents/bushel para soja, US$/tonelada curta para farelo e US$ cents/libra para óleo. ÓLEO Ponta Grossa 28,37 1,00 647,49 1,145 741,05 0,00 10,23 11,45 1,14 1,39 24,21 716,84 720,00 0,44 O prêmio é uma variável de ajuste na negociação internacional que leva em conta a origem e o destino do produto exportado, a qualidade e a oportunidade. A inclusão da variável de ajuste da negociação internacional nas compras nacionais (que não sejam para exportação) procura ajustar o preço pago ao produtor com o valor internacional do produto. Assim, a tendência de preços do produto no mercado interno segue a mesma verificada do mercado mundial. Isto posto, na análise de tendências de preços há que se fazer a separação entre o complexo grão-farelo e o óleo, pois este último têm dinâmica diferenciada. O farelo segue as mesmas tendências do grão, pois não tem no mercado, como fonte protéica para ração animal, concorrentes de peso, sendo o preço do grão o determinante para o farelo. Já o óleo sofre a concorrência dos diversos tipos de óleos vegetais, seja para uso basicamente doméstico (colza, girassol e oliva) ou misto, como palma, algodão, coco e amendoim. Desta maneira, seu preço sofre a influência da oferta de outros óleos, além da atividade industrial do setor de alimentos. A oferta crescente dos países americanos pressionava para baixo os preços, enquanto a demanda da Ásia agia em sentido contrário, ao menos até a crise de 1997. Nesse contexto, a China, enquanto produtora e grande consumidora, tem papel importante no 12 comércio internacional, realçado pela instabilidade do resultado das safras naquele país. A União Européia é a maior importadora, mas sua demanda é estável e, portanto, tem pouca influência nas variações de preços. Esta análise serve basicamente para o grão e o farelo, pois, como já dissemos, a maior influência sobre o preço do óleo se dá de acordo com a oferta dos outros óleos vegetais e, mais especificamente nos últimos anos, pela produção de óleo de palma. Devido à crise da produção de óleo de palma na Malásia, em 1997, os preços do óleo de soja têm mantido tendência altista em 1998, mesmo quando os preços do farelo e do grão sofrem quedas em relação a 1997, tendência que ainda poderá ser agravada a partir dos problemas com a produção de girassol na Argentina e de colza na China, na Índia e na União Européia. O preço pago ao produtor, além de determinante da cotação internacional, sofre forte influência dos custos de armazenagem e frete. Nos Estados Unidos, os produtores maximizam a lucratividade conjugando a armazenagem na fazenda com o transporte da safra via ferrovia-hidrovia. Já no Brasil só os grandes produtores dispõem de estrutura de armazenagem na fazenda, enquanto os pequenos e médios defrontam-se com duas opções: ou fazem a venda logo após a colheita ou utilizam armazéns de terceiros, arcando, em ambos os casos, com as despesas de limpeza, secagem e, no segundo caso, armazenagem. Passada esta fase, o custo do frete é o fator que mais pesa na determinação do lucro ou prejuízo do produtor brasileiro. A conjugação de alguns fatores leva a esta situação: • quase 60% do transporte de carga no Brasil são feitos por rodovia; • por duas décadas o país praticamente não investiu na melhoria de sua malha viária, que se deteriorou sensivelmente; • a produção se interiorizou cada vez mais, ficando dependente da malha viária decadente; • a frota de veículos também envelheceu, gerando mais custos aos seus operadores, que os repassam ao preço do frete; • o mercado de frete não tem transparência suficiente que possibilite ao seu consumidor um controle sobre os preços; e • os outros modais de transporte ainda não oferecem versatilidade e confiabilidade suficientes para se tornarem alternativas reais ao transporte rodoviário. Além desses fatores, a questão do frete de retorno força a comercialização durante a safra, quando os fretes são significativamente mais baratos, em função da concorrência e da possibilidade de carga de retorno (insumos) para a próxima safra. Embora pareça paradoxal, a comercialização na safra, quando os preços do produto estão mais baixos, pode ser melhor do que esperar para que sejam obtidos preços mais 13 altos no segundo semestre, porém com custos de armazenagem e de frete mais altos também. Outra questão que também interfere na rentabilidade do produtor e que passa despercebida na maioria das análises é o nível de juros praticado pelo mercado, o que se explica pelo fato de que a análise clássica leva em conta, no cálculo dos juros do custeio da safra, a taxa praticada para o crédito rural, determinado pelo plano de safra nacional. Porém, sendo a soja uma produção de larga escala, médios e grandes produtores têm necessidade de custeio superior ao limite fixado pelo Conselho Monetário Nacional e, para se financiarem, recorrem ao mercado bancário comum, sujeitando-se às taxas de juros normais, que, nos últimos tempos, têm sido colocadas em patamares bastante elevados. Indústria Processo Industrial O processo de industrialização da soja inicia-se com o esmagamento e a extração do óleo. Após passar por processos de secagem, para retirada de umidade, e limpeza, o grão é quebrado e prensado em pequenas lâminas, que, transformadas em massa, são lavadas com solvente derivado de petróleo (hexano). O produto fica impregnado com óleo e posteriormente é feita a separação, por evaporação, passando ainda por um sistema de retirada de goma (degomagem) para alcançar o estágio de óleo bruto. A massa restante, após secagem e tostagem, resulta no farelo. A goma tanto pode ser utilizada para a produção de lecitina de soja quanto ser adicionada ao farelo. Este é o método usado por praticamente todas as unidades de esmagamento em atividade atualmente no Brasil, que nos anos 70 trocou a técnica de prensagem pelo uso do solvente. Algumas fábricas utilizam um extrusor para aumentar a densidade da massa e facilitar a extração do óleo. No início do processo industrial pode ser feita a retirada da casca do grão, resultando num farelo de maior quantidade de proteína (hi-pro). O destino do óleo é o refino, e o farelo vai para a alimentação animal, diretamente ou através das misturas feitas pelas fábricas de ração. O aproveitamento médio do grão é de 79% de farelo e 19,8% de óleo bruto. A operação de esmagamento, a retirada do óleo e seu posterior refino merecem as maiores atenções quando se fala do complexo soja, seja porque a maior parte do produto é farelo ou porque a maior parte do óleo destina-se ao consumo doméstico de óleo refinado e à exportação de óleo bruto. A cadeia não pára nestes dois produtos. O óleo segue seu caminho, sendo transformado em vários produtos, dos quais a margarina se coloca em maior destaque, embora outros subprodutos de uso alimentar e químico façam parte da seqüência de aproveitamento da soja, conforme apresentado no diagrama a seguir. 14 Capacidade de Esmagamento A capacidade instalada da indústria esmagadora, em 1997, era da ordem de 118 mil toneladas/dia. Em tese, seria capaz de processar uma safra de 35,4 milhões de toneladas, considerando-se o funcionamento em capacidade plena durante 300 dias no ano, o que pressupõe um fornecimento de matéria-prima firme e constante durante o ano todo. Em termos de soja, a realidade não é esta. Embora o volume esmagado tenha crescido 5% ao ano, nos últimos 10 anos, este acréscimo acompanhou a produção nacional. Como conseqüência, a taxa de processamento permanece, em média, em torno de 76% da safra brasileira. O ano de 1997 foi atípico, pois foram industrializados apenas 65% da produção nacional, taxa mais baixa dos 10 últimos anos. Tal desempenho decorreu do crescimento da exportação de grãos, fruto da desoneração do ICMS na exportação de produtos primários, eliminando a vantagem dos derivados sobre os grãos. Mesmo assim, a posição brasileira no esmagamento mundial permaneceu acima da sua média dos últimos 10 anos (16,5%). Em termos mundiais, os Estados Unidos vêm diminuindo sua participação no esmagamento, pois detinha 37% em 1988 e caiu para 33,7% em 1997, enquanto a Argentina aumentou de 6,4% para 10,2% no mesmo período. Boa parte das esmagadoras funciona com capacidade ociosa acima de 40%, iniciando em março e parando em setembro, período de escoamento da safra, quando cerca de 79% de toda a soja esmagada são processados. O restante, processado nos outros meses, pode originar-se de três situações: soja precoce no mês de fevereiro (4% a 5% do esmagamento total), drawback e estoques. O motivo básico para o superdimensionamento das plantas industriais é a concorrência pela compra da matéria-prima no início da safra e o escoamento a preço equivalente, compatível com o preço de compra, já que a tendência dos preços é declinante do início para o meio da safra. Além disso, a maioria das plantas são conversíveis para o processamento de outras oleaginosas, não demandando maiores modificações de fluxo para esmagar soja, milho ou girassol. A indústria do esmagamento da soja é bastante concentrada, tanto em termos de empresas quanto de localização. 15 SOJA PRODUTOS SÓLIDOS PRODUTO INTEGRAL PRODUTOS OLEAGIONOSOS PROTEÍNA CRUA PRODUTOS DE SOJA ÓLEO CRU LEX FARINHA E GRANULADO EMPREGO COMESTÍVEL Ingredientes de padaria USOS INDUSTRIAIS Adesivos Macarrão, Espaguetti Pinho manufaturado Tábua de construção Caixa Bombas para inseticidas Conglomerados Tiras de amianto Laminados especiais Fundo de linóleo Estrutura de tintas Produtos de carne Nutrientes Lingüiça e salsicha especial, Chili c/carne, Pão de carne Escuma de cerveja Fabricação de antibióticos Fabricação de cervejas Alimento de abelha Pão branco, Pão especial, Doces, Bolachas, Roscas, Bolos, Pastéis, empadas, etc Massas alimentícias Cereais USOS COMESTÍVEIS Alimento para forrageamento Para avicultura Para animais domésticos Para peixe Concentrado de proteínas Pronto para comer, Tipo quente USO COMESTÍVEL USOS INDUSTRIAIS Manufatura antibióticos Óleo de cozinha Maioneses Margarina Produtos farmacêuticos Tempero p/salada Óleo p/ salada Pasta p/ sanduíche Gordura vegetal Produtos medicinais Adubos Veículo de Vitaminados Antibióticos Remédios FARELO PARA ALIMENTAÇÃO ANIMAL Alimento para gado Veículo de Vitaminados Antibióticos Drogas Soja esponjada Misturas preparadas Panquecas e Waffles, Extensores ÓLEO REFINADO PROTEÍNA ISOLADA USO COMESTÍVEL USOS INDUSTRIAIS Soja cozida Semente Brotos de soja Alimento p/gado Soja vaporizada Bebidas nutritivas Substituto do leite Aditivo para alimentos Adesivos Alimentação do bebê Para aumentar conteúdo protéico e melhorar o valor nutritivo Revestimento papel Emulsão de água para tintas Concentrados secos, Produtos enlatados Produtos simulados de carne Formador de espuma Confecções Fibra, Lingüiça, Pedaços de carne condimentadas Balas. Extensor para pasta de amêndoas Agente de arejamento para Extintor de incêndio Indústria têxtil Indústria papel Proteína escumada, Malva silvestre, Refrescos e bases p/ guloseimas Fabricação de fibra Bebidas Lã vegetal Fibra de piaçaba Alimentos dietéticos Dietéticos, Analérgicos, Proteínas concentradas, Sopas Leite de soja, Bebidas nutritivas Manteiga de soja Cereal de soja USO TÉCNICO Pão, Balas Mistura de roscas Sobremesas congeladas Farinha de panqueca Gordura de frigideira Crosta de pastel Doces em geral USO COMESTÍVEL Ingredientes p/ calefação Óleo refugado Desinfetantes Isolação elétrica Inseticidas Fundos de linóleo Tecidos oleados Tintas para impressão Revestimentos plastificadores Massa para vidraceiro Sabão Cimento à prova d’água Tábua de construção Derivados de soja Enzimas Proteolíticas Diestéticos Queijo de soja Leite de soja analérgico Molho de soja p/carne USO TÉCNICO Agente emulsificante Agente antiespumante Produtos de padaria Produção de balas Fabricação de escuma Fabricação de álcool Agente ativo de superfície Agente dispersante Revestimento de chocolate Produtos farmacêuticos Fabricação de tintas (pintura) Fabricação de tintas (p/esc) Inseticidas Nutrição Agente umidificante Fabricação de margarina Cosméticos Pigmentos Substituto do leite p/bezerro Metais em pó Têxteis Produtos químicos Agente estabilizador Agente estabilizante Gorduras Emulsões Uso médico Uso doméstico Agente contra salpiqueio Agente anti-derrapante Gasolina ESTERÓIS ÁC. GRAXOS GLICEROL Soja torrada Farinha de soja engordurada Ingredientes p/ balas Ingredientes p/ cereais Ingredientes p/ confeitarias Cereal de soja LECITINA Ingredientes p/balas Ingredientes p/ bolinhos Cobertura p/bolinhos Ingredientes p/ bolachas Cobertura de fundo Café de soja Manteiga de soja e nóz Base para tempero Stegmasterol Tecopherol Sitocterol Hormônios Diesel vegetal 1 Quanto à localização, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo respondem por 66% da capacidade instalada de esmagamento de oleaginosas, sendo que o Paraná, sozinho, detém 30%. Os mesmos três estados respondem por 66% da capacidade instalada de refino e São Paulo sozinho detêm 37% do total. Em termos empresariais, houve mudanças importantes no panorama do setor nos últimos três anos. No esmagamento, aumentou o domínio do setor por parte das trading companies. Empresas de alimentos como Anderson Clayton e Sadia desfizeram-se de suas esmagadoras, transferindo-as a empresas especializadas em commodities, respectivamente Coinbra e ADM. O Grupo Hering foi outro que resolveu se concentrar no seu negócio principal, vendendo a Ceval ao Grupo Bunge y Borg, da Argentina, que disputou esta compra com a Cargill. Anteriormente, através da Santista, o Grupo Bunge y Borg incorporou a Incobrasa, maior esmagadora do Rio Grande do Sul e quarta maior do país, com 5% do mercado nacional. Após adquirir a Ceval, no início de 1998, transferiu para ela toda a área de soja da Santista (aí incluída a Incobrasa), concentrando, então, 25% de toda a capacidade de esmagamento brasileira. Há três anos sua participação era de apenas 6%. Feita a reestruturação, o grupo colocou à venda todo o negócio de alimentos, no intuito de concentrar sua atuação no setor de commodities e aproveitar a escala conseguida, pois a Ceval passou a deter 15% da capacidade mundial de esmagamento de soja. A quantidade de empresas que atuam no setor de esmagamento continuou praticamente a mesma de 1995 a 1997, porém a concentração mudou bastante, como demonstram os Gráficos 7 e 8. Gráfico 7 CAPACIDADE NOMINAL DE ESMAGAMENTO PARTICIPAÇÃO POR EMPRESA -95 Cargill Santista 6% 6% Sadia Incobrasa 5% 5% Gessy Lever 4% Granóleo 4% Bianchini 3% perdigão 3% Ceval 14% Fonte: Abiove Caramuru 3% Outras 47% Gráfico 8 CA P A C IDA D E NO M IN A L DE E S MA G A M E NTO P A RTICIP A ÇÃ O P O R E MP RE S A - 1 99 7 co in b ra 6% A DM 6% Ce val 2 5% c a rgi ll 6% gr an ól eo 4% bi an c hi ni 3% ca ra mu ru 3% co m ove o lve p ar 3% 2% Fo nte : A bi ove o ut ras 4 2% A participação das quatro maiores indústrias esmagadoras subiu de 31% para 43% no período 1995/97, sendo que a participação das tradings, que era de 26%, subiu para 43% da capacidade nominal. Embora a capacidade instalada de esmagamento brasileira tenha aumentado 1,3% no período, passando de 116.275 t/dia para 117.875 t/dia, o potencial das esmagadoras em funcionamento diminuiu de 106.695 t/dia para 103.235 t/dia, em função da paralisação de algumas esmagadoras no Paraná, em São Paulo, no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul, segundo informações da Abiove. Nesse contexto, a participação das quatro maiores indústrias sobe para 46,5%, sendo que, das quatro tradings (Ceval, ADM, Cargill e Coinbra), só a Ceval, a partir da transferência da área de soja da Santista, passou a ser responsável por 28,3%. As cooperativas detêm fatia importante no setor de esmagamento: cerca de 8,4% da capacidade instalada. Não se tem notícia de investimentos na área por parte de cooperativas que ainda não possuem unidade de esmagamento. A concentração do setor reflete o movimento de todo o setor de alimentos, ou seja, da especialização, com ênfase no negócio principal. Assim é que importantes empresas cujo foco não é a commodity soja, mas sim a maior agregação de valor em seus produtos, retiraram-se do esmagamento, concentrando-se nos negócios mais próximos do consumidor, como é o caso da Sadia (carne) e da Gessy Lever (margarinas). Por outro lado, o domínio das grandes tradings internacionais sobre o parque industrial da soja e, conseqüentemente, sobre o comércio exterior do complexo parece determinado pela competição internacional e pela logística da distribuição. Sendo o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos responsáveis por 82% do comércio internacional do complexo soja e as Américas do Sul e do Norte dividindo em partes iguais este mercado, é estratégico o posicionamento destas empresas nos países do Cone Sul. 1 Além disso, a safra sul-americana é complementar à safra norte-americana, ou seja, nos Estados Unidos colhe-se a partir de setembro e o pico da comercialização vai até dezembro, enquanto no Cone Sul a colheita inicia-se em março e a comercialização vai até junho. Em termos de farelo, a comercialização da produção sul-americana vai até a entrada da produção dos Estasdos Unidos. Tamanha complementaridade explica por que as grandes companhias não poderiam deixar de ter forte presença em nosso mercado, o que lhes permite atender ao mercado mundial ao longo do ano todo, com grandes volumes e diluição de custos fixos. Outro fator de concentração é o tamanho das plantas. Na estratificação comumente usada pelo setor, as de menor porte (34 unidades) respondem por 10% da capacidade de esmagamento, enquanto as de maior porte respondem por 50,9% (32 plantas). Tabela 4 Distribuição das Plantas de Esmagamento por Porte TONELADAS/DIA QUANTIDADE CAPACIDADE PARTICIPAÇÃO (%) 0-599 34 11.845 10,0 600-1.499 52 45.980 39,0 Mais de 1.500 32 60.050 50,9 Total 118 117.875 Fonte: Abiove. Excetuando-se a ADM, que comprou suas unidades da Sadia, as três outras líderes do mercado concentram sua produção em grandes plantas. As quatro maiores operam 36 unidades, das quais 14 com capacidade acima de 1.500 t/dia, que, juntas, representam 13,7% da capacidade total instalada no país. Há nítida concentração de quantidade de plantas na região Sul (59,3%), notadamente no Paraná e no Rio Grande do Sul. As unidades na região Centro-Oeste, por serem mais novas, apresentam capacidade média maior: 1.041 t/dia, com 23 unidades, contra 992 t/dia na região Sul, com 70 unidades. Refino A concentração na área do refino de óleos não é muito diferente do que ocorre no setor de esmagamento, embora o número de empresas que trabalham com refino seja menor: 47 refinadoras contra 67 esmagadoras. As quatro maiores refinadoras detêm 46% da capacidade instalada, parcela estável entre 1995 e 1997. As tradings concentram 34,2%, participação menor que no setor de esmagamento, e a Ceval sozinha detém 28,3%. A presença da Sadia no refino explica a redução do domínio das tradings, posto que a empresa só se desfez de suas unidades de esmagamento, permanecendo com as de refino. 2 No refino, as cooperativas participam com 3,8% da capacidade instalada, tendo, portanto, menor peso nesta área do que na de esmagamento. Tal característica provavelmente resulta das dificuldades de acesso das cooperativas ao consumidor final. Novos corredores Na perspectiva de aumento da competitividade da soja brasileira, questão decisiva é o equacionamento da logística de transporte, fator que onera o custo da produção nacional, principalmente a partir das grandes distâncias a serem percorridas das fronteiras agrícolas até os pontos de embarque para exportação. Acrescendo aos exemplos já dados ao longo deste trabalho, para uma mesma distância da região produtora ao porto (1.400 km), o frete no Brasil custa em torno de US$ 50, enquanto o produtor do Mississipi (Estados Unidos) despende somente US$ 6,60, segundo dados da CVRD. Nesse aspecto, desponta como solução a exploração de corredores de transporte, utilizando fórmulas intermodais de transporte, com ênfase no hidroviário e ferroviário em substituição à preponderância do modal rodoviário. Vários dos projetos do Programa Brasil em Ação têm por objetivo reduzir os custos do transporte a granel, destacando-se, entre eles, as hidrovias do Madeira, Tietê–Paraná, Araguaia e São Francisco. A plena operacionalização desses corredores aumentará a competitividade internacional de várias regiões e, em alguns casos, viabilizará a produção. Corredor Noroeste O corredor multimodal de transporte do Noroeste abrange as áreas do norte do Mato Grosso, Rondônia e sul do Amazonas, envolvendo o transporte hidroviário nos rios Madeira e Amazonas, da foz até Itacoatiara, e o transporte rodoviário entre Porto Velho e a Chapada dos Parecis. A longo prazo, também poderá fazer parte do corredor Noroeste a hidrovia projetada a partir do rio Teles, interligando com o rio Tapajós até o Amazonas. O caso da hidrovia do Madeira é um exemplo característico de solução a partir da necessidade de diminuir os custos de transporte da produção: o Grupo Maggi investiu US$ 66,1 milhões na implantação de um sistema multimodal de transporte de soja a partir da sua fazenda em Sapezal, no norte do Mato Grosso, com ligação a um porto em Itacoatiara, no Amazonas. O sistema consiste em transportar a produção, por via rodoviária, de Sapezal até Porto Velho, em Rondônia (900 km), fazendo o transbordo para balsas que descem o rio Madeira até o porto de Itacoatiara, onde o produto é transferido para navios que levarão a carga até Roterdã. Em comparação com a rota tradicional (Paranaguá, no Paraná), o sistema proporciona uma diminuição do percurso em 650 km e do custo por tonelada em 30%. 3 Este corredor serve ao escoamento da produção do norte do Mato Grosso, Rondônia e Amazonas, como é o caso da região de Humaitá. Há notícias de entendimentos do Grupo Maggi também para conduzir uma parte da produção boliviana pelo mesmo sistema. Além do transporte de grãos, a hidrovia também pode viabilizar o abastecimento de insumos aproveitando o retorno das barcaças, conforme já noticiada a intenção do Grupo Maggi de importar fertilizantes de Israel para distribuir na região abrangida pela hidrovia. Ferronorte A Ferronorte envolve a construção de cinco mil km de linhas férreas. A primeira etapa compreende o trecho de Aparecida do Taboado (Mato Grosso do Sul) até Alto Taquari (Mato Grosso), num total de 400 km, e depois até Cuiabá (Mato Grosso), de onde seguirá até Porto Velho (Rondônia) e Santarém (Pará). Desta primeira etapa, os 100 km iniciais já estão prontos, possibilitando a ligação de Inocência (Mato Grosso do Sul) a Aparecida do Taboado, onde se conecta com a rede da Fepasa para, através desta, atingir o porto de Santos (São Paulo), ou interligar-se futuramente ao porto de Sepetiba (Rio de Janeiro). Seu maior entrave era a ponte rodoferroviária sobre o rio Paraná, ligando as cidades de Aparecida do Taboado e Rubinéia (São Paulo). A ponte foi inaugurada em início de junho de 1998, dando início à operacionalização da Ferronorte. O trecho em operação não tem grande influência no escoamento da safra atual, mas, mantido o ritmo de construção, a operadora prevê o funcionamento dos primeiros 400 km até o final de 1998, possibilitando o escoamento da produção da região conhecida como Chapadão dos Gaúchos (cerca de 1,4 milhão de toneladas de grãos) na safra de 1998/99. A perspectiva dos operadores da Ferronorte é de uma economia de 40% no frete entre Chapadão dos Gaúchos e o porto de Santos. Corredor Centro-Norte Este corredor envolve as hidrovias do Tocantins (420 km), Araguaia (1.230 km) e rio das Mortes (580 km), as ferrovias de Carajás (600 km) e Norte-Sul (230 km) e a rodovia Belém-Brasília (1.500 km), além do porto de Ponta da Madeira/Itaqui (Maranhão), servindo às regiões do leste de Mato Grosso, noroeste de Goiás, sudeste do Pará, sul do Maranhão e todo o Estado do Tocantins. A ligação hidroviária pelo rio Araguaia poderia ser feita a partir de Nova Xavantina (Mato Grosso), seguindo o rio das Mortes até o Araguaia (580 km), neste até Xambioá (Tocantins) (1.230 km), fazendo a ligação através de rodovia até Estreito (Maranhão) (180 km) e daí através da ferrovia Norte-Sul, que se liga com a ferrovia de Carajás e aporta em Ponta da Madeira. A ligação através do rio Tocantins partiria de Miracema (Tocantins) até Estreito (420 km), ligando-se então com a ferrovia Norte-Sul para chegar ao porto de Ponta da Madeira. 4 A hidrovia do Araguaia já recebeu alguns investimentos, porém ainda não está operacional. Em Xambioá existe infra-estrutura para transbordo e armazenagem, construída pela Cia. Vale do Rio Doce. A ferrovia Norte-Sul, que está operacional até Imperatriz (Maranhão), não tendo sido construído ainda o trecho de Imperatriz a Estreito, já serve hoje ao escoamento da produção de Balsas (Maranhão). A produção do pólo é transportada por via rodoviária até Imperatriz (600 km), onde é feito o transbordo para a ferrovia, que leva os produtos até o porto de Ponta da Madeira e daí até os portos europeus. A economia no sistema é estimada em US$ 10 por tonelada frente ao sistema rodoviário. Corredor Nordeste O corredor Nordeste é composto pela hidrovia do São Francisco e pelas ligações rodoviárias em torno de Pirapora e de Petrolina, servindo às regiões do cerrado de Minas Gerais, oeste da Bahia, interior de Pernambuco e sul do Piauí. As ligações a partir de Petrolina com os portos de Suape (Pernambuco) e Fortaleza são feitas atualmente por via rodoviária. Há previsão de construção de ramal ferroviário entre Petrolina e Salgueiro, possibilitando a interligação com a malha ferroviária do Nordeste e, por esta, até o porto de Suape. Corredor Centro-Leste Este corredor, que tem área de influência no entorno do Distrito Federal e noroeste de Minas, é formado basicamente pela estrada de ferro Vitória-Minas, com ligação até Pirapora, via ramal ferroviário Belo Horizonte-Pirapora. Hidrovia Tietê-Paraná A hidrovia Tietê-Paraná liga São Simão (Goiás), no rio Paraná, até Pederneiras (São Paulo), no rio Tietê, como também até Itaipu (Paraná), numa extensão de 600 km, e tem influência sobre as regiões sul de Goiás, Triângulo Mineiro e norte de São Paulo, estando pronta e operacional. Problemas Os corredores apresentam vantagens comparativas significativas em relação ao transporte rodoviário, configurando alternativas econômicas interessantes para escoamento da produção. Porém, têm encontrado dificuldades em sua implantação ou operação. 5 As hidrovias do Araguaia e Tocantins têm encontrado entraves com relação à comprovação de não impacto ambiental que resultam em paralisação de obras e até proibição judicial, o que impede a continuação de estudos de viabilidade. Questões operacionais também emperram o uso mais intenso de corredores já em operação, especialmente no que diz respeito a transbordo e armazenagem, que ou são inexistentes ou não têm um fluxo contínuo que dê previsibilidade ao sistema. Por exemplo, alguns produtores de Balsas preferem utilizar a via rodoviária até o porto de Ponta da Madeira pela falta de armazenagem em Imperatriz, o que os obriga a realizar o transbordo direto para a ferrovia, implicando estar na hora em que o comboio receberá a carga ou esperar com a carga no caminhão. Isso acontece apesar da existência de um armazém da Conab, inativo, em condições de fazer a armazenagem e transferir a carga direto para a ferrovia. A hidrovia Tietê–Paraná encontra problemas tanto de constância na oferta de balsas para transporte como de falta de operadores de transbordo, enquanto na Ferronorte a parceria com a Fepasa, fundamental para sua plena operacionalização, ainda não está concretizada. Com empecilhos desta ordem, o tempo gasto no transporte da mercadoria não tem a previsibilidade que o sistema rodoviário oferece, fato que parece orientar a opção de muitos operadores em continuar utilizando o modal rodoviário. 6 Financiamentos do BNDES Desembolsos Os desembolsos do BNDES para a cadeia da soja devem ser analisados à luz de suas políticas operacionais: o apoio às atividades “dentro da porteira” é destinado à abertura de área, máquinas e implementos, armazenagem e, a partir de 1997, à aplicação de calcário. O Banco não financia custeio. As máquinas, implementos e calcário financiados podem ser usados para diversas culturas, razão pela qual fica imprecisa a identificação dos desembolsos desses itens com a cultura da soja. A comparação das vendas de máquinas agrícolas no mercado interno e os desembolsos da FINAME para o setor indica forte participação dos financiamentos do BNDES na mecanização agrícola brasileira, principalmente a partir de 1992, quando foi aberto o financiamento à pessoa física pelo FINAME Agrícola. Gráfico 9 Vendas de M áquinas Agrícolas (m ercado interno)e desem bolsos Finam e Agrícola:1990-1997 (1992=100) 350 300 250 200 150 100 50 0 1990 1991 1992 1993 VendasMáquinas 1994 1995 1996 1997 Financiam.Finame Os desembolsos do BNDES para as indústrias do complexo soja têm pequena participação no total destinado à agroindústria e apresentam tendência de decréscimo em termos absolutos. A participação caiu de 9,4% em 1990 para apenas 0,3% em 1997. Em 1995 houve recuperação dos desembolsos para o setor, 107% superiores aos do ano anterior e 38% maiores que os realizados em 1990, porém seguiram-se novas quedas em 1996 e 1997. O refino teve participação preponderante até 1995, representando mais de 90% dos desembolsos para o setor industrial do complexo soja. A partir de então, cresce a participação relativa do segmento de óleo bruto, que em 1997 absorveu 60% dos recursos. 7 Tabela 5 Desembolsos do BNDES para Processamento de Soja – 1990/97 (Em US$ Mil) 1990 1991 1992 1993 Refino de Óleo Vegetal 32.355 8.612 16.593 3.188 Produção de Óleo Vegetal 246 257 22 Preparo de Margarinas, 264 Gorduras e Óleos Total 32.601 8.869 16.593 3.474 Agroindústria 345.338 492.286 769.757 880.048 Participação % 9,4 1,8 2,2 0,4 1994 21.272 446 - 1995 41.870 2.551 586 1996 9.557 2.248 768 1997 2.175 4.414 797 21.718 1.616.862 1,3 45.007 1.887.110 2,4 12.573 1.583.690 0,8 7.386 2.530.925 0,3 Nota: Agroindústria = agropecuária, indústria de alimentos e bebidas e indústria do fumo. O volume de desembolsos parece acompanhar o tipo de investimento realizado. Até 1995 houve investimentos em novas unidades e no aumento de capacidade das existentes, mas após aquele ano não ocorreram desembolsos para implantação de novas unidades industriais, aumento de capacidade das plantas ou dos sistemas de armazenagem de grãos. Os investimentos concentram-se em máquinas e equipamentos, cuja participação absorveu 95% dos recursos em 1996/97, contra uma média de 46% no período 1990/95, o que parece sugerir predominância do esforço de modernização e/ou mera reposição de ativos existentes. Os investimentos fixos em 1996 e 1997 destinaram-se sobretudo a tratamento de efluentes e construção de câmara fria, enquanto as máquinas e equipamentos que foram objeto de financiamento tinham por finalidade, em boa parte, a modernização dos sistemas de recepção de grãos, fluxos do produto e máquinas para embalagens. Praticamente todas as operações foram indiretas, ou seja, através de agentes financeiros. Os desembolsos concentram-se nas regiões Sul e Centro-Oeste, onde está localizada a maior parte das indústrias. Para ambas as regiões foram destinados 85% de todos os recursos alocados ao setor, sendo que a região Centro-Oeste ficou com 43% e a região Sul com 41%. A participação do BNDES nos investimentos do setor de processamento de soja reflete o estado das artes do segmento, onde empresas, no seu atual processo de reorganização, priorizam investimentos em fluxos, processos e logística, em detrimento dos investimentos em expansão. No setor de infra-estrutura, o BNDES vêm apoiando investimentos nos corredores de exportação da hidrovia Tietê-Paraná, rio Madeira e Tocantins-Araguaia, tendo desembolsado R$ 25,3 milhões em 1996, R$ 23 milhões em 1997 e R$ 4,2 milhões até julho de 1998. Em agosto de 1998 foi aprovado financiamento no valor de R$ 22,2 milhões para construção de mais 25 balsas, na segunda etapa de exploração da hidrovia do Madeira. Convênio Embrapa 8 A fim de identificar novas fronteiras agrícolas, aptas ao cultivo de grãos, especialmente soja, o BNDES firmou convênio com a Embrapa em julho de 1997. O trabalho, apresentado em março de 1998, analisou as regiões de cerrados nos Estados de Roraima, Amazonas e Pará, em termos de solo, clima, infra-estrutura e condições ambientais, sob o ponto de vista da tecnologia hoje existente, especialmente na questão do conhecimento dos solos. Foram identificados 1,4 milhão de hectares tecnicamente disponíveis para o plantio de grãos nas regiões estudadas em Roraima, tendo sido recomendadas tecnologias agrícolas que propi ciem o desenvolvimento sustentado, especialmente nas regiões de solos mais frágeis, como o latossolo amarelo. O estudo apontou o Estado do Pará como tendo a maior área potencial para a produção de grãos de sequeiro. Destacam-se os municípios da região do Araguaia, com área disponível próxima a 2,8 milhões de hectares, dentro de um total de 3,8 milhões no estado. Grande parte da área é composta de pastagens degradadas, o que exige a definição de programas de recuperação, que envolvam sistemas de produção integrada pecuária-lavoura. Na região de Humaitá e Lábrea (Amazonas) foram identificados somente 19 mil hectares aptos à produção de grãos de sequeiro, dada a predominância de plintossolos, que oferecem sérias limitações de drenagem, de penetração de raízes e de mecanização. Embora nesta região já exista plantio de soja, o estudo apontadificuldades de manejo de solo que poderão prejudicar as plantações. Em todas as regiões há importantes limitações de infra-estrutura de transporte, que dificultam tanto a chegada de insumos quanto o escoamento da produção. A viabilização das áreas irá também requerer investimentos em armazenagem, assistência técnica e extensão rural, bem como programas de treinamento, capacitação e profissionalização de mão-de-obra rural. Adicionalmente, a regularização da posse da terra é uma precondição para a ocupação ordenada das áreas aptas à agricultura. Tecnologia Perdas Na perspectiva do potencial de aumento da produção, uma questão fundamental a ser aprimorada é a diminuição das perdas na colheita. Estudos do Centro Nacional de Pesquisa da Soja (CNPSo) da Embrapa, em Londrina, estimam que, na colheita no Paraná, seja perdida cerca de 1,73 saca por hectare e que, nos outros estados, este número chegue a 2,2 sacas por hectare. Estas estimativas levam à impressionante cifra de 1,6 milhão de toneladas perdidas na colheita, o que significa 5% da produção prevista para 1998. A Embrapa já vem desenvolvendo trabalho, com a participação da Emater, a fim de orientar os agricultores em termos de manutenção prévia de colheitadeiras e capacitação de operadores, através de cursos técnicos, reuniões e dias de campo. 9 O índice técnico aceitável, segundo o padrão dos Estados Unidos, é de 1% de perdas na colheita, o que significaria uma diminuição de perdas da ordem de 1,2 milhão de toneladas. Sementes Transgênicas Das novas tecnologias aplicadas ao cultivo da soja, é importante que se ressalte o esforço que tem sido feito pelos segmentos que trabalham com biotecnologia, no sentido de criar novos cultivares com características diferenciadas. Estas novas variedades desenvolvidas pela biotecnologia trazem em si um novo conceito de pesquisa, a da mutação genética, onde genes da planta original são modificados a fim de se obter maior rendimento, por exemplo, na extração de óleo, ou maior resistência a doenças. Das chamadas variedades transgênicas, destaca-se o cultivar da Monsanto, geneticamente modificado para resistir ao herbicida da empresa, possibilitando que a aplicação do produto possa ser feita sem prejuízo da cultura. Grandes polêmicas têm sido travadas sobre os limites da manipulação genética e seus efeitos sobre o biossistema, tanto pelos ambientalistas como também por técnicos e estudiosos da agricultura. A polêmica principal, por parte dos ambientalistas urbanos, é a conseqüência que a modificação genética pode trazer na alimentação humana, principalmente em relação à saúde. Os técnicos argumentam que ainda não está devidamente provado que a resistência a herbicidas não será expandida para o ambiente, tornando outras plantas, inclusive as invasoras, resistentes também. Um dos resultados da polêmica é a proibição de entrada da soja transgênica no mercado europeu, que quer aprofundar os estudos sobre os impactos que a manipulação genética pode trazer na alimentação humana. Discute-se, ainda, a rotulação de produtos que utilizem insumos modificados geneticamente, de forma que o consumidor possa ter informação sobre o conteúdo do alimento que está comprando. No Brasil, a definição está a cargo da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBIO), que tem permitido alguns experimentos de pesquisa com a soja geneticamente modificada, mas ainda não deu o salvo-conduto para a produção em larga escala. Em 1997 foi permitida a importação de soja transgênica para uso da indústria de esmagamento, para operação de drawback. A liberação do plantio destes tipos de sementes pode ter um impacto positivo nos custos de produção, com diminuição do uso de herbicidas, mas, por outro lado, pode trazer problemas nas operações de exportação para países com fortes vigílias ambientalistas, notadamente os europeus. Doenças 10 O plantio em larga escala da soja trouxe renda ao agricultor e progresso às áreas de cultura, mas também tem provocado alguns problemas na área de fitossanidade. Na medida em que as plantações se expandem, multiplicam-se as doenças que infestam a cultura, diminuindo a produtividade agrícola e a fertilidade do solo. Uma das maiores causas apontadas pelos especialistas é o plantio sucessivo em mesmas áreas, facilitando a ação dos agentes infectantes. O nematóide do cisto, por exemplo, um verme de solo que se hospeda no sistema radicular da soja e pode reduzir em até 60% sua produtividade, dissemina-se pelo vento, que o carrega de uma plantação a outra, após o revolvimento do solo. Este microorganismo apareceu há cerca de 10 anos no Mato Grosso do Sul e já se espalha no norte e noroeste do Paraná. Seu combate se dá pelo uso de variedades resistentes, rotação de culturas e plantio direto, sendo que este último diminui a propagação do verme no ar, já que o solo não é revolvido nesta técnica. Nos Estados Unidos, onde a infestação é bastante intensa, os agricultores são obrigados a cultivar 50% da área com milho ou outra cultura alternativa, a fim de interromper o ciclo de propagação da doença e diminuir os prejuízos financeiros. Plantio Direto A cultura da soja, que foi responsável pela difusão do pacote tecnológico dito moderno para a agricultura brasileira na década de 70, também pode ser responsabilizada pela atual evolução da tecnologia de plantio e manejo de solo. Preocupados com os custos de mecanização, uso de insumos e degradação do solo com as sucessivas safras a campo aberto, pesquisadores e agricultores uniram-se na busca de novas técnicas de plantio e manejo. A partir dos campos do Paraná foi testada a técnica do plantio direto, que hoje, segundo os seus mais fervorosos adeptos, já é utilizada em cerca de 10 milhões de hectares no Brasil. Simplificadamente, ela consiste em plantar, sem utilização das operações usuais de gradagem e aração, sobre os restos de uma cultura anterior, que fazem a cobertura do solo, evitando o seu ressecamento e a evaporação de nutrientes. Nas pesquisas e testes, foram estudadas culturas que melhor poderiam fazer a proteção do solo, inclusive com incorporação de nutrientes. Existem também experiências de plantio direto sobre pastagens nativas ou diretamente sobre pastos degradados, indicando o sistema como uma possibilidade de consórcio na produção de grãos e recuperação de pastos. A maioria dos estudos apontam significativas vantagens do sistema de plantio direto sobre a palha em comparação com o sistema convencional. Além da diminuição dos custos de mecanização, a dispensa de operações de gradagem e aração traz vantagens como a não compactação do solo em virtude de menor trânsito de tratores pesados. Com a manutenção da palha sobre o solo e a conseqüente criação de condições para desenvolvimento e manutenção da fauna microbiana, as pesquisas constataram maior 11 aeração do solo e melhor distribuição dos nutrientes, o que tem como resultado menor necessidade de adubação e calagem. Outra observação importante, que tanto pode ser considerada na área ambiental como na questão econômica, é que, com cobertura, o solo fica menos suscetível a perdas por carregamento pelas chuvas que provocam lixiviação (perda de nutrientes) e assoreamento dos rios. Observações de pesquisa chegam a detectar perdas de 18,4 toneladas/hectare/ano de solo no plantio convencional, contra 0,14 tonelada/hectare/ano no plantio direto sobre a palha. Obviamente, nem tudo é perfeito. O sistema só é plenamente utilizável em terrenos já razoavelmente estruturados, e as pesquisas e experimentos ainda procuram meios de diminuir determinadas infestações de pragas que a atividade microbiana potencializa. De qualquer forma, o sistema tem-se mostrado vantajoso sobre o convencional, tanto em termos ambientais, como de produtividade e retorno econômico. Agricultura de Precisão Outra tecnologia que surge no Brasil é a da agricultura de precisão. Um consórcio formado pela Algar, Monsanto, Manah, Case, DD & E, Integris CTBC e Engeset coloca à disposição dos agricultores a tecnologia do gerenciamento por satélite (GPS), que permite que, enquanto as máquinas realizam as operações de colheita, todos os dados sejam transmitidos por satélite, facilitando a análise de produção e produtividade de cada área, especificamente. Neste sistema, um aparelho, que transmite os dados para o satélite que os transfere para um sistema de análise, é acoplado às máquinas. Este monitoramento permite identificar as necessidades de correção de cada metro quadrado de terreno, otimizando, assim, a aplicação de insumos. Conclusões O “feijão-chinês” tornou-se de fato o produto agrícola mais importante do Brasil, suplantando a cultura do café. Mais do que isso, implantou o conceito de agronegócio no país, viabilizou a existência de outros setores, a montante e a jusante da produção agrícola e até da industrial, e proporcionou discussões vigorosas sobre a importância da logística (de transporte, armazenagem, distribuição, embarque, meio ambiente etc.) em todo o complexo agroindustrial. O volume alcançado pela produção brasileira e sua importância na economia do país e no cenário mundial tornam irreversível a consolidação das ações em torno do complexo soja. Dada a característica de commodity, a necessidade de constantes reduções de custo e economias de escala obriga as iniciativas pública e privada a adotar posturas de contínuo aperfeiçoamento de todos os fatores que envolvem a atividade. 12 As safras recordes de 1997 e 1998 e a proposta do Ministério da Agricultura de elevar a produção de grãos brasileira para 100 milhões de toneladas a curtíssimo prazo, e para isso disponibilizar crédito, fornecem mais um impulso aos diversos agentes que atuam ao longo desta cadeia produtiva. Assim é que o setor, que andou um tanto acomodado no início da década de 90, parece ter iniciado um terceiro ciclo de expansão e tecnificação. Indícios desta nova etapa são: o desembarque das grandes produtoras de semente e de pesquisa privada no mercado brasileiro; a maior agressividade no lançamento e nas vendas de máquinas agrícolas; a retomada de investimentos em novas plantas de esmagamento e na ampliação da capacidade instalada; a implantação de novos pólos agroindustriais; e a aceleração dos investimentos em logística, tanto pelas empresas que atuam no setor quanto pelo setor de transporte, através de corredores de exportação e ferrovias. As terras disponíveis para sua expansão são as do interior, longe dos portos. Se assim não for, estaremos falando de um processo de substituição de outras culturas, o que seria danoso à economia agrícola do país. Destarte, para que a soja nacional aumente sua competitividade, é fundamental que governo, produtores e indústria atuem fortemente no equacionamento dos nós básicos do negócio e atuem estrategicamente em relação ao transporte da produção e dos insumos. A combinação dos modais de transporte, principalmente quando envolvem hidrovias, é novidade no país. Ainda faltam investimentos e, principalmente, mudança de cultura. As questões ligadas à previsibilidade, versatilidade e confiabilidade das soluções intermodais de transporte precisam ser solucionadas a curto prazo, para dar segurança a produtores, transformadores e demandantes da soja, e assim sustentar o vigor com que a produção se expande. O Brasil é competitivo na produção e industrialização da soja, porém a ocorrência de supersafras seguidas nos principais produtores e a crise que se instalou em países que influenciam substancialmente a demanda resultam numa forte queda nos preços internacionais. Neste ambiente, onde a competição deve se acirrar via preços, a administração dos custos será o fator fundamental para a sobrevivência de produtores e industriais. Além disso, a lucratividade do produtor tem que ser assegurada, sob pena de reversão do processo de expansão. A logística, especialmente o transporte, é crucial para o aumento da competitividade da soja e da economia agrícola brasileira. Referências Bibliográficas ABIOVE. Estatísticas do complexo soja, 1995 e 1997. 13 CAIXETA FILHO, J. Vicente, MARQUES, Roberta W. da Costa. Ferronorte e transporte de grãos. Revista Preços Agrícolas, n. 140, p. 12-17, jun. 1998. CERVI, Émerson Urizzi. Plantio direto. A Granja, p. 45-47, mar. 1998. CVRD. Diagnóstico do corredor de exportação norte. 1993. FARINA, Elizabeth, et alii. Competitividade do sistema agroindustrial da soja. São Paulo, nov. 1997, mimeo. HASSE, Geraldo. O Brasil da soja. Porto Alegre: Ceval Alimentos, 1996. LAZZARINI, Sergio, FAVERET FILHO, Paulo. Financiando um novo corredor de exportação. PENSA 97. LICIO, A., CORBUCCI, R. A Agricultura e os corredores de transporte multimodais. Revista de Política Agrícola, p. 22-36, abr./jun. 1996. ORICOLLI, Silvio. Prejuízos na colheita atingem R$ 789 milhões. Gazeta Mercantil, jul. 1997. 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