Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura
CAMINHOS DE UM PROJETO DE TRADUÇÃO FEMINISTA
Izabel Brandão1,
Ildney Cavalcanti2,
Ana Cecília A. Lima3,
Cláudia de Lima Costa4
O projeto de uma antologia feminista de tradução: à guisa
de apresentação
O projeto “Traduções da cultura: uma antologia interdisciplinar
nas interfaces entre estudos de gênero, feminismos e mulheres” nasceu
durante a reunião do GT A Mulher na Literatura, grupo de trabalho vinculado
à Anpoll - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e
Linguística, no Enanpoll 2010, ocorrido na Universidade Federal de Minas
Gerais, em julho daquele ano.
O GT, que tem um trabalho de mais de duas décadas5 na área de
feminismo e Estudos de Gênero, especialmente voltado para o resgate,
reconhecimento e análise da produção literária e cultural de autoria feminina
e para a representação das mulheres nessas expressões, estabeleceu, como
um de seus projetos durante a presente coordenação, o planejamento, a
composição e a publicação de uma antologia contendo traduções de
estudos acadêmicos que têm causado impacto nas reflexões, teorizações
e pesquisas realizadas, em âmbito nacional, na interface entre a crítica
feminista da cultura e os Estudos de Gênero ao longo de quatro décadas,
dos anos setenta à primeira década do século 21.
1 Ph.D. em Literatura Inglesa e Professora Associada da Universidade Federal de Alagoas
(UFAL); pesquisadora do CNPq e coordenadora do projeto da antologia. [email protected] e
[email protected].
2 Ph.D. em Estudos Ingleses e Professora Associada da UFAL. [email protected]
e [email protected].
3 Doutora em Teoria Literária e Professora Adjunta da UFAL. [email protected] e
[email protected].
4 Ph.D. em Estudos Culturais e Professora Associada da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC) e pesquisadora do CNPq. [email protected] e [email protected].
5 Historiada na publicação Mulher e Literatura – 25 anos: raízes e rumos. Florianópolis: Mulheres,
2010, organizada por Cristina Stevens, atual coordenadora do GT A Mulher na Literatura.
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Tendo essa perspectiva, formou-se a equipe composta por Ildney
Cavalcanti, Ana Cecília A. Lima e Izabel Brandão, da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL), e Cláudia de Lima Costa, da Universidade Federal de
Santa Catarina, que se incorporou posteriormente.6 Submetido ao CNPq,
em edital conjunto com a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres
(SEPM)7, o projeto foi aprovado e recebeu o auxílio financeiro solicitado.
Nas discussões sobre a organização do projeto, entendemos a
necessidade dessa antologia porque as leitoras feministas brasileiras,
formadas e em formação, precisam de um referencial traduzido que perpasse
não só a via do que se produz contemporaneamente na área, mas também
os textos hoje considerados clássicos na história do feminismo e dos Estudos
de Gênero numa perspectiva global. A percepção de textos mediados pela
tradução é relevante no sentido de responder a uma pertinente questão
feita por Costa:
De que modo o conhecimento acadêmico é passado de
um continente a outro? Como as feministas do norte e do
sul, e as do sul global, podem colaborar para uma prática
de tradução que desestabilize narrativas hegemônicas
do outro, de gênero, e do próprio feminismo, visibilizando
as geometrias assimétricas do poder entre o nexus local-
regional-nacional-global? Como podemos desenvolver
cartografias multi-axiais do conhecimento ao longo
de diferentes comunidades feministas em direção à
articulação de feminismos transnacionais?8
Esse questionamento envolve uma problematização acerca da relevância de textos feministas e do alcance destes, não apenas do ponto de vista
de quem lê, mas também, e talvez principalmente, questiona essa produção.
6 Vinculados ao projeto estão os Diretórios de pesquisa: Mare&sal Estudos e Pesquisas
Interdisciplinares e Literatura e Utopia, da UFAL, e Literatura e Memória, da UFSC. Vinculamse também o Núcleo Temático Mulher & Cidadania (NTMC) e o Instituto de Estudos de Gênero
(IEG), das duas universidades mencionadas.
7 Edital 20/2010 do CNPq e SEPM.
8 COSTA, Claudia de Lima. Revista Estudos Feministas in Translation. Projeto apresentado à
Fundação Ford, 2005, p.2.
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Com vistas ao estímulo e fortalecimento da produção de pesquisas e
estudos relacionados aos temas relações de gênero, mulheres e feminismos,
o principal objetivo do projeto desenhou-se em função do mapeamento,
da seleção, da tradução para a língua portuguesa e da publicação de
textos originalmente produzidos em línguas estrangeiras (inglês, francês e
espanhol, especialmente), que reconhecidamente têm oferecido importantes
subsídios e/ou conceitos fundamentais para as reflexões politicamente
orientadas pelos feminismos e voltadas para as questões de gênero em
âmbito nacional.
A nossa proposta foi pensada com base na interdisciplinaridade das
pesquisas realizadas nesta interface, uma vez que o campo de conhecimento
feminista sempre trabalha nas fronteiras das disciplinas, conforme apontam
Schmidt e Costa (2004), o que torna esse trabalho um constante ir e vir
em diálogos, confrontos e renovações do pensar feminista. Nessa proposta
dialógica, é nossa intenção contemplar a intersecção com diversos eixos
que consideramos relevantes para as pesquisas literárias realizadas no
âmbito do GT (e em outras instâncias): classe social, geração, raça, etnia e
sexualidade, bem como questões da ecologia e das mobilidades.
O seu caráter inovador relaciona-se ao preenchimento de uma
lacuna observada no tocante às produções acadêmicas em tradução,
especialmente em se tratando da reunião de um conjunto significativo de
estudos muitas vezes dispersos e produzidos em línguas diferentes. Tal
publicação poderá gerar impacto positivo em vários contextos de pesquisa
em que perspectivas feministas e dos Estudos de Gênero estejam presentes,
tanto nos Estudos Literários como também nas áreas de Ciências Humanas
e Sociais. Uma antologia dessa natureza será especialmente de grande
utilidade para alunos/as desde a graduação, uma vez que conterá textoschave para a sua formação.
Há uma lacuna nos estudos orientados pelo feminismo e pelos
Estudos de Gênero e realizados em âmbito nacional no sentido de que, a
rigor, não existe uma coletânea que apresente uma amostra significativa
de estudos acadêmicos de caráter interdisciplinar para as pesquisas e
reflexões, inicialmente, no âmbito do GT A Mulher na Literatura, mas não
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limitado ao grupo, conforme já exposto.
A proposta de publicação dessa antologia mostra que um olhar mais
focado na recepção e circulação desses estudos no Brasil permite perceber
alguns fatores relevantes. Um deles é a falta de tradução de textos centrais
para a história do feminismo, como por exemplo, a obra Sexual Politics
(1971), de Kate Millett, marco da segunda onda do feminismo anglófono, que
obteve ressonância principalmente nos Programas de Pós-Graduação em
Inglês. Outro exemplo vem da Inglaterra, com o texto Sexual/Textual Politics
(1985), de Toril Moi, obra que, publicada na década de 1980, já oferece uma
visão bastante sintética e crítica de tendências teóricas do feminismo. Um
terceiro ponto a ser considerado diz respeito aos textos já publicados no
Brasil, mas que se encontram dispersos no formato de artigos em periódicos
ou como capítulos de livros, como é o caso de “Tecnologias de Gênero”,
capítulo da obra homônima de Teresa de Lauretis, que circulou através do
Boletim no. 4 do GT A Mulher na Literatura (1992), em tradução de Susana
Funck, depois em capítulo do livro Tendências e Impasses de Heloisa B. de
Hollanda (1994).
O conhecimento mais detalhado sobre a história da produção e
publicação dessas traduções permitirá releituras e sua recontextualização.
O mapeamento dos textos que vêm subsidiando teoricamente as reflexões
produzidas no Brasil permitirá visibilizar questões como: quais são os trânsitos
perceptíveis em se tratando de cartografias teóricas dos vários feminismos
produzidos globalmente? Como se dá a “importação” dessas teorias?
Por exemplo, como tem sido incorporada às discussões nacionais uma
metáfora importante como a ideia de uma subjetividade ciborgue, lançada
por Donna Haraway nos anos 1980?9 Outro viés poderá cobrir a questão da
metáfora política do verde em relação às teorizações ecofeministas nos dois
9 Um dos textos de Haraway sobre esse tema, “A Cyborg Manifesto: science, technology and
socialist-feminism in the late twentieth century” (1985, in HARAWAY, Donna. Simians, Cyborgs,
and Women: the reinvention of nature. London: Free Association Books, 1991), também está
publicado em Tendências e impasses, de Heloisa B. de Hollanda (1994), sob o título em português
“Manifesto para os ciborgues: ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de 80”. Há
ainda uma outra tradução mais recente, publicada no livro Antropologia do ciborgue: as vertigens
do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. P. 35-118, organizado por Tomaz Tadeu. Na
sua tradução, Tadeu modifica o título para “Manifesto Ciborgue: ...”, retirando “para os”.
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hemisférios, com parcas traduções para o português. Em se tratando de
mobilidades transnacionais, vale ressaltar os movimentos diaspóricos, que
também vêm sendo examinados pela crítica feminista recente. E em relação
à subversão das identidades de gênero, os Estudos Queer oferecem ainda
mais outro espaço de teorização com poucos materiais traduzidos.
A partir dessa sucinta exposição, passamos agora a tratar de outras
questões pertinentes ao projeto e à sua execução, além de apresentar o seu
momento atual.
Antologia de gênero: vertentes e tendências
Devido à dificuldade inerente a um trabalho de garimpo como o que
se revela a nossa frente, definimos, provisoriamente, uma linha de organização que possa nos guiar, de início, na seleção dos ensaios que poderão compor a Antologia. Então, como uma maneira de podermos visualizar
melhor um possível formato da Antologia, escolhemos algumas vertentes e
tendências teóricas que têm marcado o percurso das discussões feministas
nos últimos 40 anos. Sem necessariamente seguir uma sequência cronológica, pretendemos reunir e colocar em diálogo ensaios que tratem dessas
questões e/ou que estejam inseridos nessas perspectivas de debates:
1. Da mulher ao gênero (abordando questões da identidade e
diferença), cobrindo o período da chamada Segunda Onda do Feminismo,
em que se destacaram textos fundamentais que questionaram no âmbito
da teoria-crítica literária a própria fundamentação e inclinação ideológica
do cânone estabelecido, como Sexual Politics (1970) de Kate Millett. Sexual
Politics é um texto fundamental do feminismo da segunda onda, por tornar
explícito como o discurso cultural consolidado sempre respaldou a subjugação e exploração sistemática das mulheres. E, mais ainda, detalha como o
sistema patriarcal, sua ideologia e preconceitos, está imiscuido na literatura, filosofia, psicologia e na política.
Já nos anos 1980, o influente ensaio “Dancing through the Minefield”, de Annette Kolodny, por exemplo, desestabiliza a noção de cânone
literário, apontando para o seu caráter ficcional, e, assim, para a importân-
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cia de reaprendermos a ler os textos, sob uma ótica feminista. Entretanto,
ensaios como o de Kolodny foram criticados por considerarem como universal a mulher branca de classe média. Esses questionamentos levantados
por mulheres dos movimentos negros e de lésbicas, por exemplo, trouxeram
à luz a importante questão das identidades e das diferenças. Surgem ao
longo do anos 1970, militantes e pensadoras feministas negras e lésbicas
como Audre Lorde, que ressaltam o fato de que há muito mais diferenças do
que aquela entre homem e mulher.
Lorde, assim, distingue a noção de “Outro” (excluídas/os) da noção
de “diferença”, destacando que muitas são as diferenças que nos constituem, mas não são elas que nos separam, e sim a nossa recusa em reconhecê-las. Para Lorde, ainda, o conceito de diferença10 além de identificar
especificidades, elimina o silêncio e a exclusão da alteridade. Dessa forma,
várias outras teóricas, como Trinh Minh-Ha, consideram diferença como
uma estratégia forte para desconstruir o pensamento binário. Minh-Ha também ressalta que “diferença não é alteridade”.11 O conceito de diferença é
fundamental para os estudos de gênero contemporâneos porque permite o
reconhecimento das similaridades nas diferenças, e, dessa forma, possibilita a formação de alianças políticas estratégicas.
2. Do gênero às suas intersecções (enfatizando questões como
raça, diáspora, pós-colonialidade, etc.)
Tendo em vista a nova ênfase em um pensamento relacional, e não
10 Mais recentemente, o conceito de diferença tem levantado algumas questões no que diz
respeito aos efeitos homogeinizantes de alguns discursos sobre diferença e diversidade. Como
alguns teóricoas/as têm observado, a noção de diferença pode recair em uma perigosa armadilha
tautológica, passando a funcionar como “formação de identidade” ao conferir “identidade ao
diferenciado”. A grande preocupação é de se recair em uma forma de “pluralidade igualitária”,
em que as diferenças são niveladas e reduzidas a um estado de fixidez. Ver Kadir in Ávila e
Schneider (orgs.), 2005, p.14-15. As novas concepções de diferença, como as trazidas pelo pósestruturalismo, dissolvem a rígida estrutura binária, hierárquica e excludente, para pensar os
termos em interconexão uns com os outros e não em uma relação de exclusão mútua. Assim,
a diferença deixa de ser “distinção”—o que implica o privilégio de um dos termos—e pode ser
vista de uma forma mais produtiva, como sugere Elizabeth Grosz, como “pura diferença” (ver
SARGISSON, Lucy. Contemporary feminist utopianism. New York: Routledge, 1996 p.74-75).
11 Apud. CRANNY-FRANCIS, Anne et al. Gender studies: terms and debates. New York:
Palgrave Macmillan, 2003, p. 59.
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oposicional e com a desconstrução da relação de poder entre os termos
tradicionalmente opostos, como homem/mulher, não apenas ocorre uma
resignificação dos termos, como se ampliam significativamente as perspectivas e os entrecruzamentos sob os quais podem ser lidos, entendidos,
interpretados. Para os estudos de gênero isso significou o reconhecimento
de que gênero trata-se de apenas mais um dos fatores responsáveis pela
constituição da(s) subjetividade(s); outros fatores devem ser considerados,
como classe, etnia, raça, sexualidade, etc.
Em Gender Trouble (1990)12, Judith Butler desconstrói a lógica de
toda a política feminista, baseada em uma identidade pré-existente, mulher, para a qual busca representação política. Argumenta, a partir da noção
foucaultiana de que “os sistemas jurídicos de poder produzem os sujeitos
os quais, subsequentemente, representam” (p.2), que a categoria mulher
- o sujeito do feminismo - pode ser em si já um produto do próprio sistema
político dentro do qual luta por emancipação. A questão é: se toda representação pressupõe um sujeito, como representar um sujeito que é uma ficção?
Butler coloca que mulher não é uma categoria inclusiva e exaustiva, visto
que gênero “nem sempre é constituído coerentemente ou consistentemente
em contextos históricos diferentes”, além de não poder ser considerado fora
de seus entrecruzamentos com raça, classe, etnia, sexualidade, etc. (p.5).
Entretanto, acredita que não se trata de simplesmente refutar uma política
de representação, mas sim de formular, dentro dessa estrutura, uma crítica
às categorias de identidade produzidas e naturalizadas pelos discursos do
poder. E é nessa inserção do feminismo nos termos de uma política cultural
mais abrangente - o que tem se chamado de pós-feminismo13 - que Butler
espera estar a possibilidade de se pensar um novo sujeito do feminismo—
multifacetado, mais amplo, mais complexo e instável.
12 BUTLER, Judith. Gender trouble: feminism and the subversion of identity. New York:
Routledge, 1990.
13 Um termo controverso, pós-feminismo costumava ser associado ao “anti-feminismo”. Hoje,
entretanto, é compreendido como o ponto de encontro teórico entre o feminismo e movimentos
anti-fundamentalistas como o pós-modernismo, o pós-estruturalismo e o pós-colonialismo.
(ver BROOKS, Ann. Postfeminisms: feminism, cultural theory and cultural forms. London and
New York: Routledge, 1997).
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Algumas teóricas como Chris Weedon (1997)14, por exemplo, argumentam que apesar de algumas mulheres possuírem interesses e problemas em comum, isso não significa que essas semelhanças sejam universais. De fato, essas semelhanças são marcadas por uma série de diferenças—muitas até conflitantes. Portanto, para uma crítica social feminista
pós-moderna, não existe um sujeito da história; as noções essencialistas de
mulher e de uma identidade de gênero feminina são substituídas por noções
de identidades múltiplas e complexas, onde gênero passa a ser mais um
aspecto, juntamente com classe, raça, etnia, idade, e orientação sexual.15
Falar em feminismo, nos dias de hoje, na verdade, significa falar em práticas
diversas; significa falar em feminismos.
3. Desfazendo o gênero e a emergência dos sujeitos queer (buscando novas configurações do sujeito: os sujeitos não normativos, os
transgêneros, etc.)
A chamada teoria queer surge no início dos anos 1990 exatamente
como fruto dessa visão mais abrangente e mais móvel, menos cristalizada,
da noção de diferença. O termo, usado primeiramente por Teresa de Lauretis, é a reapropriação da gíria que se referia de forma pejorativa a homossexuais, e , por isso mesmo, marcada pela violência homofóbica.
Apesar de ter suas origens relacionadas aos movimentos de Gays
e Lésbicas, queer marca um rompimento importante com suas políticas liberacionistas, baseadas predominantemente em categorias identitárias fixas e definidas. Queer, de fato, surge no meio a discussões, tanto dentro
como fora da academia, sobre as identidades gays e lésbicas, suscitadas,
em grande parte, pela forma como o pós-estruturalismo põe em xeque as
próprias concepções de identidade, além de trazer novas perspectivas sob
as quais podemos compreender as intricadas relações de poder.16 Em outras
palavras, como aponta Annamarie Jagose (1996), enquanto modelo intelectual, queer não nasce apenas a partir das teorias e políticas gays e lésbicas,
14 WEEDON, Chris. Feminist practice and poststructuralist theory (1987). Oxford: Basil
Blackwell, 1997.
15 16 Ver WEEDON, 1997, p. 178.
Ver JAGOSE, Annamarie. Queer Theory: an introduction. New York: NYUP, 1996.
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mas é o fruto também de conhecimentos e formas de pensamento específicas do final do século XX.
Judith Butler é, sem dúvida, uma das teóricas que muda o rumo das
discussões sobre identidades de gênero e sexualidades. Contrariando a noção estabelecida de que o sistema sexo/gênero determina não apenas o
sexo dos corpos, mas os tipos de desejo que eles podem ter, Butler, na sua
crítica, desassocia sexo/gênero de desejo sexual. Ao apontar que gênero é
performativo, ou seja, efeitos de verdade e substância produzidos por uma
repetição estilizada de atos, Butler conclui que sexo não é o seu contraponto na natureza, mas já, em si, uma construção cultural. Segue-se que
categorias como heterossexualidade e homossexualidade tratam-se igualmente de ficções culturais de identidades fixas e estáveis. Baseando-se no
pensamento de Foucault, Butler aponta para o importante fato de que as
repetições tanto podem funcionar como reiteração de normas, como podem
revelar a instabilidade inerente aos modelos normativos de gênero e sexualidade, dando margem a repetições subversivas. Assim, as identidades são
sempre ambíguas e mutáveis.
Queer, de fato, tornou-se um termo abrangente que abriga uma série de auto-identificações sexuais culturalmente marginais, e passou também a carregar o potencial de formar coalizões entre um sem-número de
subjetividades e sexualidades. De forma geral, entra no escopo das teorias
queer todas aquelas formas de comportamento que contradizem as categorias binárias de gênero, e que expressam as inconsistências e incoerências
nas relações supostamente estáveis entre sexo biológico (cromossômico),
gênero e desejo sexual. Em suma, Queer enfoca as descontinuidades entre
sexo, gênero e desejo, e inclui no seu campo de análise, além de lésbicas e
gays, travestis, hermafroditas, transexuais (pré, pós-operatórios e não operados/as), e toda a sorte de ambiguidade de gênero.
4. Novas topografias
A partir do fenômeno da globalização e dos crescentes deslocamentos diaspóricos dos sujeitos através das múltiplas fronteiras, a questão
do lugar se tornou crucial para a crítica feminista, principalmente em sua
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vertente pós-colonial. Com a abertura de espaços cada vez mais transnacionais, resultado dos itinerários complexos do capital, é preciso analisar
como lugares (no sentido amplo do termo, isto é, como lugar físico, psíquico
e libidinal) e geografias se entrecruzam na configuração dos novos sujeitos
feministas transnacionais, criando espaços de confrontação, ambivalência
e resistência.
Adrienne Rich (1986)17 foi certamente uma das pioneiras na análise
da importância do lugar na teorização feminista, seguidas por outras feministas preocupadas com a questão pós-colonial, tais como Gayatri Spivak,
Chandra Mohanty, Biddy Martin, Linda Alcoff, Inderpal Grewal e Caren Kaplan, para citar apenas algumas. Enfatizando, segundo Homi Bhabha, a
articulação entre lugar e enunciação (location/locution), o feminismo transnacional, como uma nova ‘contra-topografia’, enfatiza as especificidades
da imbricação entre o lugar/texto e seu con/texto mais amplo, ao mesmo
tempo em que articula as conexões entre várias lutas feministas através
de espaços e de “hegemonias dispersas”,18 desenvolvendo o que Ella Shohat (2002)19 chama de “redes relacionais” (webs of relationality): mapear as
conexões entre espaços e sujeitos distintos para tornar visíveis os processos semelhantes que os permeiam. À medida que essas interseções são
traçadas, incluindo todas suas especificidades materiais, torna-se possível
também injetar novas mobilidades à crítica feminista, deslocando-a de seus
pilares tradicionais no estado e na nação rumo ao desafio do cruzar fronteiras em termos materiais, discursivos e performativos.
Nesse tipo de “world”-traveling20 da crítica feminista, é preciso também ressaltar a importância da prática tradutória. O conceito de tradução –
em sua acepção ampla, calcada em um paradigma ontológico, não apenas
linguístico – se tornou central para a teoria cultural. A virada tradutória, por
17 RICH, Adrienne. Notes Towards a Politics of Location. Blood, Bread, and Poetry: selected
prose 1979-85. New York: Norton, 1986.
18 GREWAL, Inderpal; KAPLAN, Caren. Scattered Hegemonies: postmodernity and transnational
feminist practices. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1994.
19 SHOHAT, Ella. Area Studies, Gender Studies, and the Cartographies of Knowledge. Social
Text 72 (Volume 20, Number 3), Fall 2002, p. 67-78.
20 LUGONES, Maria. Playfulness, “World”-Traveling, and Loving Perception. Hypatia, n. 2, v.
2, 1987, p. 3-19.
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assim dizer, mostra que a tradução excede o processo linguístico de transferências de significados de uma linguagem para outra e busca abarcar o
próprio ato de enunciação – quando falamos estamos sempre já engajadas
na tradução, tanto para nós mesmas/os quanto para a/o outra/o. Se falar
já implica traduzir e se a tradução é um processo de abertura à/ao outra/o,
podemos dizer que seu contexto é de hospitalidade. Nele, a identidade e a
alteridade se misturam, tornando o ato tradutório um processo de deslocamento. Na tradução, há a obrigação moral de nos desenraizarmos, de vivermos, mesmo que temporariamente, sem teto para que a/o outra/o possa
habitar, também provisoriamente, nossos lugares. Traduzir significa ir e vir,
estar no entre-lugar, enfim, existir sempre des-locada. Este ir e vir também
inclui discursos e práticas feministas, que viajam através de lugares e direcionalidades diversos para se tornarem paradigmas interpretativos para ler/
escrever sobre classe, gênero, raça, sexualidade, migração e a circulação
de textos e identidades. A noção de tradução é invocada figurativamente
para salientar como essas viagens estão imersas politicamente nas questões mais amplas da globalização e pressupõem trocas através de diferentes localidades.
Corajosamente traficando teorias feministas através de fronteiras
geopolíticas e outras, feministas latino-americanas e latinas residindo nos
Estados Unidos, por exemplo, desenvolvem uma política de tradução que se
utiliza de conhecimentos produzidos pelos feminismos latinos, de cor, póscoloniais no norte das Américas para iluminar análises de teorias, práticas,
culturas e políticas no sul e vice-versa. A prática do “world”-traveling (ou do
cosmopolitismo transversal) evidencia como a tradução transcultural é indispensável, em termos políticos e teóricos, para a formação de alianças feministas pós-coloniais/pós-ocidentais ancoradas em identificações parciais.
Finalmente, a noção de translocalidade possibilita, por sua vez, a
articulação da colonialidade do poder/gênero em várias escalas (locais, nacionais, regionais, globais) com diferentes posições de sujeito (de gênero,
sexual, etno-racial, de classe, etc.) constitutivas das identidades. Como
argumenta Butler (2004),21 “it is only through existing in the mode of transla21 BUTLER, Judith. Undoing gender. New York: Routledge, 2004.
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tion, constant translation, that we stand a chance of producing a multicultural understanding of women or, indeed, of society” (p. 228).22
5. Feminismo e a volta da materialidade (partindo de um novo olhar
feminista sobre a questão da materialidade e do sujeito pós-humano).
Em Bodies that matter (1993)23, Butler propõe um retorno à noção de
matéria, “não enquanto um local ou superfície, mas enquanto um processo
de materialização que se estabiliza ao longo do tempo para produzir o efeito
de limite, fixidez e superfície, que denominamos matéria” (p. 9-10). Para Butler, o fato de a matéria ser sempre materializada deve ser visto em termos
dos efeitos produtivos do poder regulador. Consequentemente, a questão
não se trata mais de como gênero se constitui a partir de certas interpretações do sexo, mas “através de quais normas reguladoras o sexo em si é
materializado” (p.10).
Nos últimos anos, entretanto, a visão construtivista de Butler e outras tem recebido inúmeras críticas de feministas que consideram que a
necessidade de se contrapor a uma noção biologista e naturalista que explicava e justificava, com base na natureza, a discriminação, opressão e desigualdade entre os sexos, levou a um construtivismo radical. Dessa forma,
acreditam que a visão do corpo enquanto entidade biológica, fisiológica,
neurológica, passou a ser considerada reducionista em face à construção
sócio-cultural dos corpos. Butler é criticada exatamente por desnaturalizar
sexo, ao considerá-lo um construto discursivo e performativo. Então, a proposta desse novo materialismo feminista24 seria a de analisar a presença
dos corpos no tempo e no espaço e suas práticas sociais, sem, entretanto,
desconsiderar as dimensões biológicas na formação das subjetividades —
mas também sem recair em um naturalismo essencialista. O debate continua quando as chamadas construtivistas respondem à acusação de “bio22 “É somente através da existência no modo da tradução, da constante tradução, que
teremos alguma chance de produzir um entendimento multicultural das mulheres ou, de fato,
da sociedade”.
23 Butler, Judith. Bodies that matter: on the discursive limits of “sex”. New York: Routledge,
1993.
24 ROSSINI, Manuela. “To the Dogs: companion speciesism and the new feminist materialism”.
Disponível em: http://intertheory.org/rossini. Acesso em 5/9/2011 às 23:43.
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fobia”, argumentando que não negam o fator biológico, mas adotam uma
conceitualização em que a biologia e o social são sistemas separados, que,
de alguma forma, interagem.25
Além disso, há também as questões trazidas por um campo de
estudo que vem ganhando espaço na última década, que é o chamado
pós-humanismo, em que as diferenças entre o humano e o não humano,
estabelecidas por Descartes, são apagadas. Como muitos/as afirmam, o
pós-humano é o ponto de convergência de questões prementes trazidas
pelos estudos de gênero, pós-estruturalismo, materialismo cultural e pósmodernismo. Ou seja, o pós-humanismo representa a tentativa se repensar
o humano e seu lugar no mundo, em face de sua relação com as novas
tecnologias e os avanços nas áreas da física e da biologia.
Algumas controvérsias são levantadas quando N. Katherine
Hayles , por exemplo, diferencia um pós-humanismo “popular”, baseado em
alguns pressupostos como, 1. a vida não depende de um ser corporificado
em um “substrato biológico” (a informação sobrepuja a materialidade); 2.
o corpo humano seria equivalente a uma prótese, podendo ser expandido
e substituído infinitamente, enfatizando, assim, a possibilidade de o corpo
humano ser sempre “melhorado” e remodulado; de um pós-humanismo
crítico, que oferece uma perspectiva mais “sóbria”, menos eufórica, da era
digital, cibernética e protética e de suas relações com o corpo.
26
Algumas autoras representativas dessas vertentes
possivelmente terão ensaios incluídos na antologia são:
e
que
Kate Millett, Adrienne Rich, Mary Daly, Shulamith Firestone,
Catherine McKinnon , Sandra Gilbert e Susan Gubar, Elaine Showalter,
Audre Lorde, Anette Kolodny, Toril Moi, Hélène Cixous, Luce Irigaray, Julia
25 Apesar de suas críticas ao construtivismo de Butler, Rossini reconhece que, em Bodies
that matter, Butler oferece uma contribuição importante à discussão sobre a matéria dentro dos
debates feministas, e também traz novas perspectivas sob as quais entendermos as relações
entre matéria e discurso.
26 HAYLES, N. Katherine. How we became posthuman: virtual bodies in cybernetics, literature
and informatics. Chicago & London: The University of Chicago Press, 1999.
Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura
Kristeva, Monique Wittig, Teresa de Lauretis, Joan Scott, Mary Russo, Gloria
Anzaldúa, Gaiatry Spivak, Dianna Fuss, Nelly Richard, Cherie Moraga, Linda
Nicholson, Jana Sawicki, Judith Butler, Karen Barad, N. Katherine Hayles,
Jack Halberstam, Trihn Minh-ha, Susan Hekman, Doreen Massey, Beatriz
Preciado, Avtar Brah , Rita Felski e Dionne Brand.
Mapeando os feminismos: a escolha dos textos
Uma das etapas metodológicas cruciais para projeto é o mapeamento e levantamento bibliográfico dos estudos sobre feminismo e gênero
para a composição da antologia. Antes de apresentarmos os princípios e
procedimentos desta etapa, atualmente em andamento, que culminará com
a elaboração da lista de autoras/es e textos que integrarão a publicação
final, cabe uma brevíssima reflexão sobre os elementos centrais que compõem o título e orientam o projeto: tradução, antologia, feminismos/gênero/
mulheres. Derivada do latim do latim traduco, o étimo tradução comporta vários sentidos, dentre os quais salientamos os mais relevantes para o
nosso trabalho: “1. conduzir para o outro lado, fazer passar; [...] 4. elevar,
promover; [...] 8. traduzir, verter (FARIA, 1991).27 Conforme já explicitado na
proposta inicial, “uma das fronteiras que permanecem como um desafio da
contemporaneidade, um paradoxo que persiste apesar das aproximações
espaciais e temporais promovidas pelas novas tecnologias e seus usos e
desdobramentos num mundo globalizado, é a fronteira linguística (AUGÉ,
2010)”28. O “fazer passar para o outro lado”, sugerido no sentido primeiro do
termo e materializado pela tarefa da tradução, resulta numa possibilidade
de travessia desta persistente e paradoxal fronteira lembrada por Augé e vivenciada por todas nós, um dos fatores motivadores da proposta. O trânsito
implícito na ideia de tradução é relevante também no sentido, já comentado
acima, da apropriação e do tráfico de teorias que subjazem às práticas feministas. Um outro termo que nos guia é antologia, derivado do termo grego
anthologia, composto pelos vocábulos anthos (flor) e legein (colher)29, cujo
27 Cf. FARIA, Ernesto. Dicionário Escolar latino-português. Rio de Janeiro: MEC, 1991.
29 Cf. CHANTRELL, Glynnis ed. The Oxford Dictionary of Word Histories. Oxford: OUP, 2004.
28 BRANDÃO, Izabel et al. Projeto “Traduções da cultura: uma antologia interdisciplinar nas
interfaces entre estudos de gênero, feminismos e mulheres”. Maceió e Florianópolis: CNPq,
2010, p. 6.
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uso remete a uma atividade que também remonta à antiguidade grega e
simbolicamente realça o valor das “flores- textos”, “colhidas” de diversas
autoras/es, algumas/ns das/os quais já foram referenciadas/os acima. Ao
reunirmos um dado corpus, no sentido contemporâneo da atividade acadêmica de selecionar e (re)editar textos, estamos certamente contribuindo
para a construção de um “jardim textual” específico, com os desejos de visibilidade e elevação deste conjunto e com todas as implicações de cunho
político, ideológico e utópico implícitos em tal “colheita”. Finalmente, o terreno fértil, e ao mesmo minado, de significações possíveis evocadas pelos
termos feminismos, gênero e mulheres vem oferecendo a rica e controversa
arena para debates infindáveis e enriquecedores (realizados em eventos
como este). Nesta arena, ao tempo em que refletimos criticamente sobre
as possibilidades e limites de cada significante, posicionando-nos historicamente a favor ou contra seu uso, compartilhamos, junto com Robyn Warhol e
Diane Herndl, um certo norte consensual que nos une na diversidade: As/os
críticas/os feministas geralmente concordam que a opressão das mulheres
é um fato da vida, que o gênero deixa traços nos textos literários e na história literária, e que a crítica literária feminista exerce papel importante na
luta para eliminar a opressão [das mulheres] no mundo fora dos textos.30
Temos, assim, como um dos princípios norteadores do projeto, a
ideia da coletividade, que vem perpassando as ações feministas, tanto das
militâncias quanto das práticas acadêmicas, perceptível em formulações
como os slogans históricos do feminismo militante: o “sisterhood is powerful” que ecoava nos anos 60 e 70; ou como teorizações que reformulam tal
princípio, como a expressão “women in the integrated circuit”, ou seja, mulheres no circuito integrado.31
Feitas essas considerações, passamos à descrição do mapeamento
dos artigos/capítulos sobre feminismo a serem traduzidos ou de tradução já
existente no Brasil, conforme a proposta em projeto e também observando
os passos já iniciados. De acordo com o projeto, esta etapa
30 WARHOL, R.; HERNDL, D. Feminisms – an anthology of literary theory and criticism. New
Brunswick: Rutgers U.P., 1993, p. x.
31 Cf. HARAWAY, 1985, p. 147.
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implicará o levantamento bibliográfico cobrindo as
quatro décadas propostas e observando os periódicos
especializados, as coletâneas de artigos/capítulos já
em circulação e as indicações de pesquisadoras/es nas
áreas em foco. As fontes impressas e virtuais oferecerão
o subsídio necessário para este passo da pesquisa, que
será norteado, também, pela elaboração de uma lista
inicial de autoras através de consulta às/aos integrantes
do GT A Mulher na Literatura.32
Estas reflexões, ainda que incipientes em relação ao percurso planejado, e observando o intervalo de tempo (1970-2010) e os espaços (os
periódicos especializados; as coletâneas de artigos/capítulos organizadas
por pesquisadoras/es da área dos Estudos de Gênero; e as pesquisas individuais desenvolvidas em âmbito nacional) propostos como delimitações metodológicas, e já indicados acima, nos permitem considerar alguns pontos
relevantes. Um deles diz respeito à história, no universo textual em foco, de
traduções já existentes em português, uma vez que objetivamos não apenas oferecer traduções “originais”, mas também reler e reeditar traduções
já existentes e anteriores ao projeto, que circulam no Brasil (como é o caso,
por exemplo, do já referido clássico de Donna Haraway). O mapeamento já
iniciado envolve o levantamento e aquisição de um número considerável de
antologias e readers na área. Dentre essas publicações, salientamos, pelo
impacto histórico (no caso da primeira) e pela representatividade da coletânea (no caso das duas últimas): Showalter ed. 1985, nos anos 1980; Warhol
& Herndl, nos anos 1990; e Gilbert & Gubar, mais recentemente. De modo
geral, acessando os conteúdos de algumas das dezenas de publicações
já identificadas até o momento, salientamos as formas de recorte em vertentes específicas (como, por exemplo, feminismos anglófonos ou franceses); de organização em blocos temáticos e/ou ordem cronológica; de trato
editorial, ao incluir o texto na íntegra (antologias) ou fragmentos escolhidos (readers); de inserção de comentários críticos sobre os textos teóricos
e de sua (re)contextualização; de incorporação de formas de organização
32 BRANDÃO, Izabel et al. Projeto “Traduções da cultura: uma antologia interdisciplinar nas
interfaces entre estudos de gênero, feminismos e mulheres”. Maceió e Florianópolis: CNPq,
2010, p. 8.
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interna alternativas à principal, delineada no sumário de abertura. Em se
tratando da busca em periódicos científicos, o levantamento das traduções
já existentes de artigos e capítulos de impacto para os estudos feministas
cobrirá inicialmente os Cadernos Pagu, a Revista Estudos Feministas e a Revista Labrys. Esse duplo direcionamento resultará na listagem dos textos
mais recorrentes, e os resultados serão analisados em comparação aos de
um terceiro levantamento, originado das consultas às/aos pesquisadoras/
res vinculadas/os ao GT A Mulher na Literatura, da Anpoll. Em andamento,
esta consulta conta com feedback de treze integrantes do GT, que indicaram
estudos de trinta e duas críticas.33 As recorrências até o momento são: Annette Kolodny, “Dancing through the minefield: some observations on the
theory, practice and politics of a feminist literary criticism” (1980); Hélène
Cixous, “Le rire de la Méduse” (1975); Judith Butler, “Gender regulations”
(2004); e Toril Moi, “What is a woman?” (1999).
Trata-se, reiteramos, dos resultados iniciais, havendo ainda muito
território a ser explorado neste nosso “contra-cânone acadêmico-feminista”
o que, por sua vez, suscita um aprofundamento cada vez maior nas reflexões
e atitudes referentes ao nosso empreendimento em conjunto. Isso ficou ainda
mais evidente com a experiência do debate durante a realização da mesa
redonda deste Seminário, que contou com a participação importante de
colegas pesquisadoras/es que, além de complementarem e fundamentarem
suas indicações, abriram novas rotas para questionamentos em torno de
assuntos relativos ao formato da publicação (impressa e/ou virtual); à
inserção de um índice onomástico ao final; a um possível desdobramento do
projeto no sentido de publicar o resultado em volumes (dado o amplo escopo
do material pesquisado), ou mesmo de criar um site para disponibilização
dos resultados em constante atualização; à consideração de originais
produzidos em línguas além da inglesa, francesa e espanhola. Nossa tarefa
apenas começou – e muito bem.
33 Alicia Ostriker, Anissa Benzakour-Chami, Annamarie Jagose, Anne-Marie Devreux, Annette
Kolodny, bell hooks, Catherine Belsey, Chandra Mohanty, Diana Fuss, Donna Haraway, Elaine
Showalter, Gayatri Chakravorty Spivak, Hélène Cixous, Rosemary Hennessy, Jana Sawicki, Jane
Gallop, Judith Butler, Julia Kristeva Laura Mulvey, Linda Garber, Mae Gwendolyn Henderson,
Marianne Hirsch, Mary Russo, Nancy Miller, Paulina Palmer, Rachel Blau duPlessis, Rosi Braidotti,
Sandra Gilbert, Shoshana Felman, Susan Gubar, Susan Stanford Friedman, Toril Moi.
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Bibliografia
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