PRÁTICAS DISCURSIVAS DE LEITURA: A CRÍTICA LITERÁRIA COMO UMA
POSSIBILIDADE
DISCURSIVE PRACTICES OF READING: THE LITERARY CRITICISM AS A
POSSIBILITY
Monique Comin Losina
Mestranda em Estudos Linguísticos/bolsista CAPES – Universidade Federal da Fronteira Sul
(UFFS)
RESUMO: Este artigo tem como objetivo refletir teoricamente sobre a noção de prática discursiva de
leitura, na perspectiva da Análise de Discurso, com filiação em Michel Pêcheux, criador da escola
francesa de AD, pensando a crítica literária como um discurso. Nessa relação, aproxima-se o campo da
Crítica Literária ao campo da AD, por meio de conexões entre esses dois campos, com o objetivo de
refletir sobre que deslocamentos produzidos pela abordagem de Pêcheux, explorada também por
outros autores (leitores de Pêcheux), afetam a noção de leitura, enquanto uma prática discursiva filiada
no processo de produção de sentidos. Para isso, faz necessário pensar sobre noções deslocadas pela
AD, constitutiva desse campo teórico, como a noção de sujeito (e sentido) e a de formação ideológica,
materializadas no discurso, na figura da interpelação, o que sem dúvida leva a tecer “leituras” sobre a
noção de língua, texto, história, conforme essas noções encontram-se amarradas no discurso. Este
trabalho pretende apresentar como uma noção de leitura discursiva filia determinados sentidos, que
são produzidos na relação de confronto entre diferentes posições-sujeito inscritas no texto/discurso.
Compreende-se como texto a crítica literária, enquanto uma prática discursiva, e o crítico literário
enquanto uma posição no discurso, a fim de perceber como essa posição-sujeito (se) constitui (em) um
gesto de interpretação, determinado pelo efeito ideológico na materialidade linguística. Com efeito,
propõe-se uma reflexão sobre a crítica literária enquanto discurso do/sobre o literário, e não como
mera reprodução do sentido original de uma obra literária em particular. Nessa perspectiva, pensar o
discurso crítico literário abre espaço para pensar o processo de leitura, reforçando seu aspecto
discursivo, enquanto lugar de constituição e movimento de diferentes gestos de interpretação. Desse
modo, novos sentidos são produzidos ao se pensar o crítico literário como uma posição discursiva de
entremeio, que se constitui na/pela tensão entre diferentes posições discursivas.
PALAVRAS-CHAVE: Prática discursiva de leitura. Crítica literária. Sujeito crítico.
ABSTRACT: This article aims to reflect theoretically about the notion of discursive practice of
reading, from the perspective of Discourse Analysis, with membership of Michel Pêcheux, creator of
the French school of AD, thinking the literary criticism as a speech. In this relationship, is approaching
the field of literary criticism to the field of AD, through the connections between these two fields, with
the aim of reflecting on what offsets produced by approach of Pêcheux, exploited also by other
authors (readers of Pêcheux), affect the notion of reading, while a discursive practice affiliated in the
production process of senses. For this purpose, necessary to think about getting displaced by AD, this
theoretical field constitutive as the notion of subject (and sense) and ideological training, materialized
in the speech, in the figure of the interpellation, which undoubtedly leads to weave "readings" on the
notion of text, language, history, as these notions are tied in the speech. This work aims to present as a
concept of discursive reading garnered certain meanings, which are produced in the relationship of
confrontation between different positions-subject entered in text/speech. It is understandable how the
text literary criticism, while a discursive practice, and the literary critic as a position in the speech, in
order to understand how this subject position (if) is (in) an act of interpretation, determined by the
ideological effect on materiality linguistics. In fact, it proposes a reflection on the literary criticism
while the speech/about literary, and not as a mere reproduction of the original meaning of a literary
work in particular. In this perspective, think of the literary critic speech opens space for thinking about
1
the process of reading, underscoring its discursive aspect, while place of constitution and movement of
different acts of interpretation. Thus, new directions are produced when you think the critic as a
discursive position of inset, which is constituted in/by tension between different discursive positions.
KEYWORDS: Discursive practice of reading. Literary criticism. Critical subject.
1
Introdução
Este trabalho como um gesto de leitura filia-se a outros gestos que constituem a
Análise de Discurso (AD) de linha francesa. Buscamos problematizar o que ler significa do
ponto de vista discursivo. Assim, refletimos como a leitura pela perspectiva discursiva
constitui uma prática que filia determinados sentidos, constituídos na relação de confronto
entre diferentes posições-sujeito inscritas no discurso e materializadas no texto. Com base
nessa noção, compreendemos a materialidade crítica literária como uma prática discursiva, e o
crítico literário como uma posição-sujeito no discurso, que (se) constitui (em) um gesto de
interpretação, determinado pelo efeito ideológico na materialidade linguística.
Como o conceito de leitura é bastante complexo dentro da AD, compreendida como
um gesto de leitura e ao mesmo tempo como um dispositivo de análise (ORLANDI In:
PÊCHEUX, 2012. p. 8), formular um conceito fechado sobre esse tema seria uma contradição
à própria teoria discursiva. É importante compreender a AD não como uma disciplina que
surge no campo epistemológico a partir de um marco zero, mas como uma rede de
formulações em trânsito no movimento que problematiza determinados modos de leitura e de
estabilização de sentidos. Nesse sentido, a AD constitui-se muito mais por questões do que
por respostas no interior de discussões teórica e científica sobre a linguagem.
Nessa relação, este artigo divide-se em subtítulos com o objetivo de refletir sobre a
noção de prática discursiva de leitura como parte do processo de produção de sentidos e de
sujeitos. Para isso, analisamos a noção de sujeito como um efeito-ideológico, com base nas
leituras de Louis Althusser, para em seguida compreendermos, muito introdutoriamente, a
noção de sujeito discursivo formulada por Michel Pêcheux como lugar da e na interpretação.
Sequencialmente propomos uma reflexão sobre a crítica literária como um discurso
do/sobre o literário. Questionamos dizeres que compreendem o discurso crítico como pura
reprodução do sentido original de uma obra literária, e o crítico literário como aquele
responsável por controlar a reprodução desse sentido. Quando pensamos a crítica literária
como um discurso, reforçamos nesse gesto a problematização do processo de leitura.
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Passamos a compreender esse processo como uma prática discursiva, que se constitui
duplamente pelo linguístico e pelo histórico. Nessa prática discursiva podemos observar
constituição e movimento de diferentes gestos de interpretação. Nessa mesma perspectiva,
novos sentidos são produzidos ao se pensar o crítico literário como uma posição discursiva de
entremeio, que se constitui na e pela tensão entre diferentes posições discursivas.
2 Leitura: por uma noção discursiva
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
(Áporo, de Carlos Drummond de Andrade)
Em Discurso e Leitura, Orlandi (2012) problematiza o conceito de legibilidade,
responsável por simplificar e reduzir um processo complexo, a leitura enquanto uma prática
discursiva. Essa prática constitui um processo que não depende exclusivamente do texto ou de
quem o escreve, nem somente dos sentidos atribuídos pelo leitor, que não tem consciência e
controle sobre o modo como está condenado a determinados gestos interpretação, muito
menos sobre efeitos de sentido que se constituem nesses gestos. Se como escreve Paul Henry
(In: ORLANDI, 1993, p. 151) não há como ter uma resposta definitiva ao problema do
sentido, a questão da leitura permanece tão aberta quanto aquela, conforme todo gesto de
leitura encontra-se desde já preso a um sentido.
Para a AD não há como pensar a questão da leitura de forma isolada, sem refletir sobre
a noção de língua, sujeito, história, ideologia como constitutivos no processo de produção de
3
sentidos. Essas noções estão amarradas, materializadas no discurso, de modo que pensar sobre
uma necessariamente leva a pensar sobre outra(s). Nessa relação, segundo Orlandi (2012a, p.
34), quando falamos somos afetados por certos sentidos e não outros porque somos “[...]
determinados por nossa relação com a língua e a história, por nossa experiência simbólica e
de mundo, através da ideologia”.
Quase sempre ouvimos relacionado aos discursos sobre a (ou da) educação básica a
ideia de que é necessário “ensinar” a leitura ao aluno. Logo nos primeiros anos do ensino
fundamental, quando a criança começa a se familiarizar com o alfabeto, a escola entende que
é preciso ensinar o aluno a ler e a escrever formalmente, com base na noção de legibilidade.
Nessa visão pedagógica formal, a leitura como alfabetização identifica-se como um processo
que deve ser aprendido; consequentemente, ensinado.
Essa concepção mantém-se nas práticas escolares e orienta os rituais de leitura
realizados em sala de aula. Assim, o professor precisa transformar o aluno em um leitor-autor
autônomo, crítico, capaz de refletir sobre a realidade que o cerca, além de responsável pela
legibilidade do próprio texto. Na prática, o que se exige do aluno pode ser comparado a uma
máquina de produção textual, lógica, capaz de produzir diferentes textos e de interpretá-los,
no sentido de “atribuir sentidos” muitas vezes já determinados sobre o “objeto” texto.
Nessa perspectiva, é preciso “ensinar” o leitor a cavar o texto até atingi-lo em seu
verdadeiro sentido, aquele que traduz a intenção do autor (o que ele quis dizer), entendido
como algo já pronto, completo, que emerge unicamente do texto, e que somente um leitor
“competente” pode encontrá-lo, como o inseto que cava exaustivamente até encontrar a
orquídea, no poema de Drummond. Mas a evidência do sentido verdadeiro, “(oh razão,
mistério)/ presto se desata”, desenterrado como a orquídea do poeta, nada mais é do que uma
ilusão, um efeito da ideologia na materialidade da língua.
Retomamos o que escreve o crítico literário Davi Arrigucci Jr., sobre o poema de
Drummond, pensando-o como a produção de sentidos sobre o próprio trabalho poético, o
trabalho com a linguagem, na relação com a ditadura. Com efeito, o crítico Arrigucci Jr.,
enquanto uma posição sujeito inscrita em uma determinada formação discursiva, realiza um
gesto interpretativo, em que determinados sentidos são filiados, e não outros. Entretanto, o
não dito, embora possível, ressoa pela memória discursiva, dissimulando que o sentido
sempre pode ser outro, mas não qualquer outro. Desse modo, o que uma prática discursiva de
leitura entende por um leitor crítico?
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Antes de responder é preciso compreender o empreendimento da AD como um
questionamento às concepções de leitura que colocam o sujeito como origem de si e
determinação do dizer. Do ponto de vista discursivo, o indivíduo é interpelado em sujeito de
seu discurso pela identificação à formação discursiva que o domina, segundo Orlandi (2010,
p. 10). Nessa mesma perspectiva teórica, o sentido não se identifica com uma forma préestabelecida, una, determinada no/pelo sujeito, conforme não se produz no non-sens,
constituindo-se sempre em “relação a”, escreve Pêcheux (2009, p. 25, 241).
Entretanto, essas duas primeiras “evidências”, a do sujeito e a do sentido, são
necessárias para que os sentidos façam sentido em nossas palavras, o que só é possível pela
identificação/interpelação enquanto sujeitos de nossa prática linguageira. Desse modo, para se
compreender esse processo no qual se constitui sujeito (e sentido), por meio de um tecido de
“evidências”, cujo ponto de encontro impõe uma teoria materialista do discurso, é necessária a
reflexão sobre dois aspectos: o ideológico e o discursivo.
3 Sujeito: efeito ideológico na materialidade da língua
Para se compreender o sujeito na perspectiva discursiva francesa, enquanto uma
posição no discurso, e não um lugar sociológico, algumas noções precisam ser especificadas,
a começar pela noção de ideologia elaborada por Louis Althusser, a partir da qual Pêcheux
opera um deslocamento articulando mais dois campos de saber, a linguística e a psicanálise.
Diferentemente de uma teoria idealista do sujeito, na qual a subjetividade está centrada
na identidade dos seres, na perspectiva materialista, o sujeito é um efeito-ideológico: o
indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia, e “a ideologia existe para/pelo sujeito”
(ALTHUSSER, 1985, p.) simulando a subjetividade como ponto de partida nesse mesmo
sujeito. Materialista no sentido de que a ideologia não se constitui por “ideias”, e sim por
“práticas” (PÊCHEUX, 2009, p. 130) nas quais se constitui o sujeito.
Althusser ilustra a materialidade do processo de interpelação ideológica no
funcionamento da prática banal de interpelar alguém na rua “„ei, você aí‟” (ALTHUSSER,
1985, p. 96), impondo um reconhecimento por parte do “já-sujeito”, que sentindo culpa ou
não sempre se reconhece na interpelação, sendo desde já fisgado, atraído e constituído como
sujeito antes mesmo desse reconhecimento “teatral” esboçado por Althusser.
5
Com efeito, o próprio autor (idem, p. 98) reforça o caráter abstrato do indivíduo,
enquanto “não sujeito” em relação à existência material do sujeito, retomando Freud, para
mostrar que se é “sempre já sujeito” (idem) mesmo antes de nascer, na/pela inscrição nos
rituais ideológicos familiar da espera de um nascimento, como a escolha do nome, das
características desejadas, das preferências, enfim, constituindo-se nessa (e por essa) prática
uma “identidade”, um sujeito único, “insubstituível”. Essa segunda ilustração desmitifica a
primeira, conforme irrompe com uma noção equivocada de sucessão de fatos no processo de
interpelação, desfazendo a noção de ideologia como algo externo ao indivíduo, que semente
depois de “apanhado” por ela, passaria a ser um sujeito.
Pêcheux (2009, p. 123) destaca a contribuição de Althusser para a elaboração de uma
teoria não subjetiva da subjetividade, que designa os processos de imposição/dissimulação
que constituem o sujeito, o primeiro significando para ele o que ele é, e o segundo
dissimulando esse mesmo efeito pela ilusão de origem de si. Nesse ponto, Pêcheux (idem, p.
139) esboça uma conexão entre ideologia/inconsciente conforme ambas enquanto “estruturasfuncionamento” dissimulam sua existência no interior de seu funcionamento, produzindo as já
mencionadas “evidências”.
Partindo da teoria dos aparelhos ideológicos de Estado, Pêcheux (2009, p. 131)
fundamenta a noção de “formação ideológica” enquanto um “complexo com todo
dominante”, responsável pela “reprodução/transformação” das relações de produção, no
interior de uma ininterrupta luta de classes, por meio de “relações de contradiçãodesigualdade-subordinação entre seus „elementos‟”. Por sua vez, a formação ideológica
fundamenta a noção de formação discursiva, constituindo uma “des-individualização” do
sentido/sujeito, conforme Henry (In. ORLANDI, 1993, p. 162), as formações discursivas não
têm realidade no indivíduo, senão como aquilo que determina as posições que o indivíduo
pode/deve ocupar para ser sujeito de seu discurso.
Essa noção é ponto central para se formular a questão do sujeito, que é também a
questão do sentido, no funcionamento da interpelação e identificação. Esses dois processos
são de ordem ideológica e inconsciente, conforme são dissimulados em seu próprio interior,
produzindo um “tecido de evidências subjetivas” (ORLANDI, 1993, p. 139) como resultado
do apagamento do processo de constituição/produção de sujeito/sentido.
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4 Sujeito insubstituível: o lugar da/na interpretação
Ao retomar o ditado popular “ninguém é insubstituível”, acrescenta-se, exceto do
ponto de vista da interpretação. Conforme visto, a razão de um ser “insubstituível” é um efeito
ideológico que apaga o modo de interpelação/identificação do sujeito, produzindo-o enquanto
uma evidência. Contudo, o sujeito só pode ser insubstituível do lugar da/na interpretação, ou
melhor, da posição que ocupa numa determinada formação discursiva, e não outra, conforme
as condições de produção do discurso, mesmo que sejam as mesmas palavras, os mesmos
sujeitos, essas mesmas palavras, esses mesmos sujeitos significam de modo singular.
Para se compreender isso, necessita-se entender o modo de constituição/produção de
sujeitos/sentidos como histórico, e não como algo pré-existente. Assim, no processo de
significação, segundo Orlandi (2007, p.13) “o lugar mesmo do movimento é o lugar da
estabilização e vice-versa”. É em relação à língua que sujeito discursivo estabelece um
processo de constituição mútua, como escreve Ferreira (2003, p. 192), “constituindo-se e a
constituindo-a no seio de acontecimentos histórico-sociais”.
Nessa relação constitutiva pelo simbólico e pela ideologia, o sujeito discursivo é
aquele que está condenado a interpretar, e para isso assume um lugar da/na interpretação,
enquanto relação de sujeitos e sentidos: “o sujeito é sujeito à interpretação e sujeito da
interpretação”. Nessa perspectiva, o gesto da interpretação é sempre um gesto singular,
portanto, insubstituível desse ponto de vista.
Como sujeitos, portanto, interpretamos o tempo todo, mas quase sempre não temos
consciência dos sentidos que são produzidos nesses gestos interpretativos. Do ponto de vista
discursivo, pelo efeito ideológico, segundo Orlandi (2007, p. 28), o sentido e o sujeito
funcionam “como se eles já estivem sempre lá”.
Se o funcionamento ideológico designa “o que é e o que deve ser”, escreve Pêcheux
(2009, p. 146-7), uma formação discursiva enquanto projeção no discurso de uma formação
ideológica, um complexo de ideologias com dominante, “determina o que pode e deve ser
dito”.
Desse modo, o trabalho da ideologia projeta-se na interpretação de sentido em certa
direção, o sentido, assim, é dado pela formação ideológica, que não remete a uma ideologia
(ou à ideologia dominante), mas a um conglomerado de ideologias, não homogêneo,
inacabado, incompleto, constituído pela contradição, por diferentes “regiões” de sentido.
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5 O crítico literário: posição discursiva de entremeio
Livros e prostitutas: ambos têm aquela espécie de homens que vivem
deles e os maltratam. No caso dos livros, os críticos.
(Walter Benjamin)
Para Angel Rama (2008, p. 69), “a função crítica é inerente a todo ser humano, que
nunca deixa de exercê-la, o que não impediu o aparecimento de certos indivíduos
especializados”. Quando Rama mobiliza o termo “função” a duas práticas críticas distintas,
uma banal e outra especializada, os sentidos que ali se filiam estabelecem uma relação
essencial da prática crítica, que pode ser pensada em dois aspectos: 1) como constitutiva do
ser social, enquanto ser inscrito em relações sociais, constituindo-se nessas e constituindo-as.
2) como constitutiva de um discurso científico, a crítica literária enquanto discurso autorizado
sobre o literário, feita por um sujeito “especializado”, inscrito em uma prática discursiva.
Diferentemente do leitor comum, o crítico literário ultrapassa a experiência estética
para efetuar um trabalho minucioso e seletivo em relação à determinada obra. Para Rama
(2008, p. 69),
[...] o crítico se define como um comunicador, alguém que se encontra numa relação
direta com o público ao qual se dirige, dentro de um limitado tempo presente. Ele
atua nesse tempo, sua mensagem produz um efeito sobre um leitor concreto.
Essa definição de crítico, segundo Rama, apresenta a crítica como um serviço público,
comparado a outros aspectos da vida social como o transporte público, a educação, etc.
Conforme Castro Rocha, Rama refere-se à crítica jornalística, ao destacar a linguagem clara e
objetiva dos meios de comunicação, acessível ao leitor comum, não especializado, e a
imagem do crítico como um comunicador entre a obra, enquanto objeto cultural, e o leitor
concreto. Há nessa definição dois aspectos importantes: a imagem do sujeito do ponto de vista
empírico; o efeito de transparência da linguagem, enquanto instrumento de comunicação.
Esses aspectos ganham força quando Rama propõe a crítica como um serviço público,
socialmente útil, e o crítico como aquele que deve assumir um compromisso com “a
competência e a honestidade”, sem atender a interesses do mercado editorial, o que significa
que sua prática de linguagem sobre o literário deve ser neutra, fiel à obra original. Porém, se
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há efeitos ideológicos em todos os discursos, inclusive nos discursos científicos
(ALTHUSSER, 1985, p. 94), como é possível assumir uma posição neutra no discurso sendo
esse (e por esse) o lugar onde o crítico como posição discursiva significa e se significa para o
leitor?
Essa “função” pública como responsabilidade do sujeito crítico literário tem a ver com
o próprio movimento de constituição da posição discursiva ocupada pelo crítico, enquanto um
movimento tenso entre outras posições discursivas como a de autor e a de leitor.
Considerando-se que a leitura é sempre produzida em determinadas condições de produção, o
crítico literário também representa “uma posição na rede de filiação de sentidos que vão se
constituindo historicamente” (ORLANDI, 2007, p. 15), definindo-se num processo
permanente entre identidade/alteridade, no jogo simbólico (imaginário) em que disputam
diferentes posições discursivas.
Assim, o crítico se constitui como “mesmo e o diferente simultaneamente”
(ORLANDI, 1996, p. 189), na mediação entre o autor e o leitor. Esse movimento tem um
caráter duplo: a) o crítico se constitui na/pela “função-autor” enquanto uma “função da noção
de sujeito” (ORLANDI, 2010, p. 23-4), conforme se representa na origem do dizer,
produzindo um texto enquanto unidade significativa, a crítica literária. Nesse sentido,
compreende-se uma “função pública” assumida pelo crítico, como aquele que assume um
papel social e que se responsabiliza pelo que diz/escreve em relação a uma determinada obra
literária.
Por outro lado: b) enquanto leitor de uma determinada obra literária, o crítico literário
é um efeito de interpretação, conforme seu “gesto” se constitui pela incompletude do
simbólico, em relação à memória discursiva, por meio de um movimento conflituoso
com/entre outros “gestos” filiados na textualidade/discursivade constitutivas do texto/discurso
literário.
Nesse processo de produção de sentidos/conhecimentos, segundo Maria José
Rodrigues Faria Coracini (2002, p. 16) “o dizer é inevitavelmente afetado pelo já-dito e se
abre sempre para uma pluralidade de sentidos, que por não se produzirem jamais nas mesmas
circunstâncias, são ao mesmo tempo, sempre e inevitavelmente novos”. Assim, como uma
posição discursiva, o sujeito crítico não é o detentor do sentido da crítica literária (discurso),
mas um elemento que faz parte das condições de produção desse discurso (a memória
discursiva, a situação e os sujeitos). Desse modo, não há como manter “fidelidade” a uma
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obra (literária) “original” conforme essa “originalidade” é uma ficção do ponto de vista
discursivo, conforme o caráter de evidência do sentido/autor resulta de um processo de
identificação/interpelação do sujeito pela ideologia e pelo inconsciente.
Assim, no processo de constituição/produção de sujeitos, por meio de um gesto de
interpretação, sempre direcionado em determinada direção (ideológica) e regulado por
condições de produção do discurso, o crítico literário pode ser compreendido como uma
posição discursiva de entremeio. Nesse processo, determinados sentidos são formulados,
atualizados, trabalhados numa prática de leitura discursiva, mas pela ideologia e pelo
inconsciente esse mesmo processo naturaliza-se, produzindo um apagamento de modulações,
contradições e confrontos entre posições discursivas, simuladas num tecido de “evidências”
de autoria (ilusão de unidade discursiva), originalidade (sentido anterior) e discurso neutro
(transparência da linguagem).
6 A crítica literária como uma possibilidade
Feitas essas considerações, podemos retomar uma noção discursiva de leitura,
pensando a crítica literária como um processo de mediação, entendido como uma relação
constitutiva, como ação transformadora, de diferentes posições sujeito em jogo, o leitor, o
autor o crítico em constante movimento, alternância, constituindo-se uma(s) em relação à
outra(s).
Quando se propõe a crítica literária enquanto um discurso sobre do/sobre literário, em
sua materialidade linguística e ideológica, a linguagem perde a referência puramente
“comunicativa”, para assumir um caráter constitutivo permanente “do que se diz e do que já
foi dito” (p. 185). Paralelamente, o texto crítico, enquanto materialidade discursiva, não mais
assume o sentido de “objeto”, numa prática discursiva de leitura, que não se define pela
relação/interação sujeito/objeto, e sim pela relação/confronto sujeito/sujeito(s). Nesse ponto
de vista, a crítica literária não se identifica por uma “função referencial”, como a de expor (ou
impor) a “realidade” (da obra literária) ao leitor, do mesmo modo que a literatura não assume
caráter de “retrato” do mundo real. Essas relações não são diretas, linguagem e pensamento,
pensamento e realidade, são sempre relações opacas, contraditórias, sujeitas ao equívoco,
conforme há um real da história que nos escapa; falta que nos condena constantemente a
interpretar, enquanto prática simbólica.
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Desse modo, a crítica literária como prática discursiva de leitura não é uma superfície
plana na qual os sentidos são depositados pelo crítico. Paralelamente, o crítico literário não é
uma realidade anterior à materialidade do texto (sujeito físico, profissional, com família,
formação universitária...), mas uma posição que se constitui mutuamente no movimento
discursivo, entre paráfrase e polissemia, filiação e deslocamento de sentidos. Como qualquer
outro texto, a crítica literária constitui-se de modo heterogêneo, em relação a outros textos
(textualidade) e a outros discursos (discursividade). Pensar a crítica literária, seja como faz
Castro Rocha, descrevendo o contexto amplo do discurso crítico no sistema literário
brasileiro, ou ainda, pensar o contexto imediato da situação da crítica literária na
contemporaneidade, afetada pelos meios audiovisuais e digitais, só prova que todo discurso é
marcado por condições de produção específicas, que determinam o modo de relação/produção
de sentidos.
Nessa relação, o sentido não está no texto em si, em sua linearidade, impresso nas
palavras, mas em sua textualidade em relação à sua historicidade (e discursividade), no modo
como os sentidos se constituem, segundo Orlandi (2010, p. 22), pelo discurso, pela rede de
sentidos da memória discursiva, materializados no gesto de interpretação, como se sabe, vai
além da intenção do dizer, das palavras, da possibilidade de encerramento. O contrário
também não funciona, ou seja, pensar o leitor como única fonte do sentido, e o texto apenas
para confirmar hipóteses desse.
A questão é compreender como o texto crítico literário se constitui num discurso, qual
seu funcionamento em relação às formações discursivas que o domina. Nesse funcionamento,
inserem-se os sujeitos produtores de sentidos, ou seja, o autor e o leitor, como sujeitos
historicamente determinados, isto é, a materialidade dos lugares e posições que dispõem a
vida dos sujeitos. (ORLANDI, 2010, p. 20). Considerando-se que a “matéria significante –
e/ou sua percepção afeta o gesto da interpretação, dá uma forma a ele”. (ORLANDI, 2007, p.
12), é possível pensar a crítica literária, enquanto materialidade simbólica, com um modo
particular de funcionamento, que afeta os modos de aproximação/produção de leitura, não
somente enquanto objeto material (livro impresso, digital, publicação em jorna) ou como
reprodutora do sentido de uma obra original.
7 Considerações finais
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Uma prática discursiva de leitura não leva o nome “prática” à toa, conforme
compreende a linguagem em seu movimento, o discurso, constituindo e transformando
sentidos e sujeitos. Nessa concepção de leitura, o sujeito constitui-se numa posição discursiva,
por meio de um gesto de interpretação, na interpelação/identificação (ideológica e
inconsciente) a uma formação discursiva que o domina.
Nessa perspectiva, uma noção discursiva desestabiliza os modos de leitura assentados
num sentido único, num detentor/produtor desse sentido figurado na imagem do autor, do
leitor ou do crítico. Encarregar o texto como determinante do sentido no processo de leitura é
validar apenas a posição do autor, é considerar apenas um gesto de leitura, apagando a
historicidade na qual os sentidos se constituem. Posição essa que só tem sua razão em relação
às outras posições discursivas.
Segundo Orlandi (2007, p. 138), “não há sentido que não esteja sujeito à
interpretação”, mesmo num discurso científico. Desse modo, analisar a crítica literária como
uma prática discursiva de leitura coloca à mostra a opacidade da linguagem e o trabalho social
da leitura: “quem tem e quem não tem direito à interpretação, que textos são interpretáveis e
quais não são”.
Ponto de vista que pode ser pensado em relação: a) ao aspecto crítico inerente ao
sujeito discursivo, conforme o leitor constitui-se também ocupando uma posição crítica na
produção de sentidos, confrontando-se à posição do autor e a outras posições filiadas no
discurso; produzindo enquanto “evidência” um julgamento particular, mesmo quando não
socializado, sobre determinada obra, quanto à crítica como um discurso científico, autorizado
e especializado, que atribui à “função-crítico” (no sentido de “função-autor”) uma
responsabilidade social.
Pensar a crítica literária como o espaço de constituição de sentidos/sujeitos reforça a
caráter ideológico de todo discurso (e sujeito), inclusive os discursos e/ou autores que se
dizem “neutros”, conforme se constituem por condições de produção determinadas. Nessa
perspectiva, a crítica literária como prática discursiva de leitura não é um espaço neutro, em
que a linguagem como meio de comunicação faz a ponte entre um leitor e uma obra/autor
original, pelo contrário, é território permanente de conflitos de diferentes posições sujeito
determinadas historicamente. Com efeito, a linguagem aqui não é uma simples ponte entre
12
sujeito e realidade, mas uma mediação constitutiva do sujeito/realidade enquanto “processo de
instauração de sentidos”.
Nesse sentido, considerando-se a incompletude do simbólico e a existência de um real
da língua que marca “a impossibilidade de se dizer tudo” (GADET; PÊCHEUX, 2003, p. 32),
este artigo se coloca, parafraseando Orlandi (2012, p. 110), como um “produto na circulação
do saber” e como “parte de um processo”. Desse modo, propõe-se como um possível
caminho: (a) continuidade de uma reflexão por uma noção discursiva de leitura; (b) o
entendimento do crítico literário como uma posição discursiva de entremeio – constituído
na/pela tensão entre as posições de autor e leitor e (c) o estudo do funcionamento da crítica
literária, compreendida como uma possibilidade de prática discursiva, como um modo menos
ingênuo de pensar a leitura.
REFERÊNCIAS
ALTHUSSER, L. Aparelhos Ideológicos de Estado. Nota sobre os aparelhos ideológicos de
estado (AIE). Tradução de Walter josé Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. 2. ed.
Rio de janeiro: Edições Graal, 1985.
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PRÁTICAS DISCURSIVAS DE LEITURA: A CRÍTICA LITERÁRIA