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Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
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Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
©2008 – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop)
Publicação coordenada pela Gerência de Apoio ao Desenvolvimento
em Mercados (Gemerc).
SAUS – Setor de Autarquias Sul, Quadra 4, Bloco I
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Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo – Sescoop
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Um país cooperativo
Exemplo de profissionalismo e eficiência, o
cooperativismo de crédito brasileiro vem se
Uma ida ao
passado seu espaço e imconsolidando
e ratificando
portância no Sistema Financeiro Nacional,
além de contribuir para a melhoria da qualidade de vida de mais de 10
milhões de brasileiros. A presente publicação mostra o processo evolutivo
das cooperativas de crédito, por meio de depoimentos de líderes do setor
e representantes de instituições que são referência na economia brasileira. São externadas e compartilhadas nesta obra experiências, análises e
impressões sobre o ambiente nacional de crédito.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Palavra do presidente
Ambiente esse onde o cooperativismo de crédito, por suas características de
formação e sua competência, tem se destacado pelas taxas que pratica no
mercado financeiro, mais competitivas e atraentes. Hoje, no País, o segmento é representado por 1.441 cooperativas, 3,9 mil pontos de atendimento e
um quadro social de 3,6 milhões de associados e 37,3 mil empregados.
Prova desse novo momento vivido pelo cooperativismo de crédito, em que
se percebe um crescimento e um desenvolvimento constantes do segmento, são os avanços normativos e legais que evidenciam ações convergentes
entre o setor, o Banco Central - órgão regulador e o governo federal, no
âmbito do Sistema Financeiro Nacional. Uma das conquistas recentes, que
exemplificam esse momento, é o acesso das cooperativas de crédito ao Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), que se concretizou por meio da Lei 11.524/07.
Outro fato significativo foi a implementação do Programa de Capitalização
de Cooperativas de Crédito (Procapcred), que elevou significativamente o
patrimônio das sociedades cooperativas. Soma-se ainda a ampliação da
área de ação das cooperativas de crédito de livre admissão, a criação da
Confederação Nacional de Auditoria Cooperativa (CNAC), entre outras con-
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SérieDesenvolvimento em Cooperativa
quistas igualmente importantes. Essas conquistas vêm respaldadas por um
trabalho de representação conduzido pela OCB e seu Conselho Especializado de Crédito (Ceco/OCB), e participação direta da Frente Parlamentar
do Cooperativismo (Freencoop).
Por isso, e com imenso orgulho, apresentamos esta publicação, reforçando mais uma vez nossa crença nos valores e princípios do cooperativismo
como a forma mais democrática e justa de desenvolvimento de um povo,
de uma sociedade, de um país – um país cooperativo.
Márcio Lopes de Freitas
Presidente do Sistema OCB
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conselho Nacional
Conselho Fiscal
Presidente
Márcio Lopes de Freitas
Conselheiros indicados pelos ministérios
Conselheiros indicados pelos ministérios
Ministério da Fazenda
Gilson Alceu Bittencourt - titular
Ana Lúcia Carvalho Jardim - suplente
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
José Gerardo Fontelles - titular
Marcio Antonio Portocarrero - suplente
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão
João Batista Ferri de Oliveira - titular
Deuseles Rosa da Silva - suplente
Ministério do Trabalho e Emprego
Ismael Silva Lisboa - titular
Alex Sandro Gonçalves Pereira - suplente
Ministério da Previdência e Assistência Social
João Wellington Pereira - titular
Rose Mary Oliveira - suplente
Conselheiros indicados pela OCB
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
Luiz Carlos Colturato - titular
Alexandre Hertz - suplente
Ministério da Fazenda
Rodrigo Sampaio Marques - titular
Luiz Fernando Alves - suplente
Ministério da Previdência Social
Francisco José Freire Ribeiro - titular
Joseilton Gonçalves dos Santos - suplente
Conselheiros indicados pela OCB
Malaquias Ancelmo de Oliveira - titular
Carlos Fabiano Braga - suplente
Valéria Mendes da Silva - titular
Marta Rodrigues Figueiredo - suplente
Conselheiros representantes dos
empregados em cooperativas
Regiões Norte e Nordeste
Ruiter Luiz Andrade Pádua - titular
Agamenon Leite Coutinho - suplente
Ana Cristina Maia Penido - titular
Francisca Régia Dias Alvino de Moraes - suplente
Região Sudeste
Edivaldo Del Grande - titular
Wagner Guerra da Fonseca - suplente
Presidente
Região Sul
Guntolf Van Kaick - titular
Geci Pungan - suplente
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Márcio Lopes de Freitas
Superintendente
Luís Tadeu Prudente Santos
Região Centro-Oeste
Roberto Marazi - titular
Remy Gorga Neto - suplente
Conselheiros representantes dos
empregados em cooperativas
Raimundo Sérgio Campos - titular
Antonino Falchetti - suplente
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SérieDesenvolvimento em Cooperativa
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
A Frencoop e o cooperativismo de crédito
Odacir Zonta
Legislar para crescer
Arnaldo Jardim
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Desafios para o crescimento do cooperativismo de
crédito na visão do Banco Central do Brasil
Alexandre Tombini
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Estabilidade permite estratégias mais ousadas
Carlos Alberto dos Santos
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DGRV e a experiência internacional para o fortalecimento
do cooperativismo de crédito brasileiro
Matthias Arzbach
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A estrutura do cooperativismo de crédito brasileiro
Evandro Scheid Ninaut
Avanços e conquistas
Sílvio Cezar Giusti de Oliveira
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Ceco e o plano de ação do cooperativismo de crédito
Denise Damian
Gestão profissionalizada nas cooperativas de crédito
Manoel Messias da Silva
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Basiléia e a gestão de riscos como oportunidade para as
cooperativas de crédito
Luiz Gonzaga Viana Lage
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Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Sumário
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SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Governança nas cooperativas de crédito
Alcenor Pagnussatt
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Microcrédito e cooperativismo como forma de
desenvolvimento local e inclusão social
Vanderley Ziger
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A união dos sistemas para criação da Cnac
completa um ano
Alexandre Euzébio Silva
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A internacionalização de negócios e as
cooperativas de crédito
Sigismundo Bialoskorski Neto
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Os desafios do cooperativismo de crédito
Antonio de Azevedo Bomfim
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Educação cooperativista como forma de desenvolvimento
das cooperativas de crédito
Marco Aurélio Borges de Almada Abreu
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Cooperativa de crédito: por que associar-se?
Ênio Meinen
Endereços do Sescoop
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Cooperativismo de crédito e o interesse pela comunidade
Márcio Lopes de Freitas
Cooperativa de crédito: instrumento de organização
econômica da sociedade
Ademar Schardong
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Uma ida ao passado
Odacir Zonta - deputado federal (PP-SC),
presidente da Frente Parlamentar do
Cooperativismo no Congresso Nacional
Os 28 tecelões pioneiros de Rochdale, na
Inglaterra, em 1844, sonharam com uma sociedade que sem objetivo de lucro pudesse defender seus próprios donos e associados; que
eles tivessem um voto, independente do capital subscrito de cada um; e almejaram que
todos fossem alfabetizados, buscando a
educação e valorizando a justiça social.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
A Frencoop e o
cooperativismo de
crédito
Com este forte espírito de sociedade partiram para construir a primeira
cooperativa em todo o mundo, o Armazém Cooperativo de Rochdale, e,
assim, tornaram-se livres e proprietários da própria sociedade, apesar das
inúmeras crises econômicas e financeiras que vivenciaram ao longo dos anos.
E nada abalou significativamente a confiança na doutrina da cooperação, que se espalhou pelos cinco continentes, porque os cooperados souberam trabalhar em harmonia e foram corajosos e vitoriosos diante de
freqüentes obstáculos.
Em 1891, criou-se no Brasil a Associação Cooperativa Internacional da
Companhia Telefônica de Limeira (SP).
E em 1902, a Cooperativa Caixa de Economia e Empréstimos Amstad,
hoje, Cooperativa de Crédito Rural de Nova Petrópolis (RS), a mais antiga
cooperativa em atividade. O sucesso obtido por seus dirigentes e associados motivou a criação de uma série de outras nos municípios vizinhos e
em outras unidades federativas.
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SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Estavam lançadas duas importantes sementes do cooperativismo em
solo fértil em terras brasileiras.
Uma longa caminhada
Numa sociedade em desenvolvimento, os serviços financeiros que
turbinam a economia têm notável importância tanto para pessoas físicas
quanto jurídicas, pois permitem somar pequenas parcelas de poupanças
de muitos em aplicações produtivas com perspectivas de bons horizontes.
E o cooperativismo de crédito no Brasil tem ocupado esse papel de
aglutinador de esforços individuais, apesar de uma série de dificuldades
que se opuseram no passado, muitas ultrapassadas na contemporaneidade.
Em 1943, foi constituída a Caixa de Crédito Cooperativo; em 1951, a
criação do Banco Nacional de Crédito Cooperativo (BNCC); em 1969, pelo
protocolo assinado entre a Aliança Brasileira de Cooperativas (ABCOOP) e a
Unasco (União Nacional de Associações de Cooperativas), nasce a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), já em 1970; em 1971, foi instituída a
Lei nº 5.764, que define a Política Nacional do Cooperativismo; em 1976, implantou-se o 1º Programa Nacional do
Cooperativismo (Pronacoop) – 1976-1979
– com a integração de ações do Incra/
BNCC/Embrater-OCB, quando inúmeros
resultados positivos foram colhidos; e, em
1983, surge a Frente Parlamentar do
Cooperativismo (Frencoop), com o
objetivo de fortalecer o ideal cooperativista
e os projetos de incentivo às cooperativas. Foram seis avanços que marcaram a história do cooperativismo nacional. E outras conquistas vieram, após difíceis entraves.
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Com o apoio da Frencoop, o Banco Central do Brasil, em 1995, permitiu a constituição e o funcionamento de bancos comerciais com a participação exclusiva de cooperativas de crédito.
Em 31 de dezembro de 1996, os dados da
OCB revelaram que existiam 825 cooperativas
de crédito, sendo 346 voltadas para atender a
zona rural.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Em 1988, a Constituição Federal manteve o Sistema Financeiro Nacional com
o objetivo de promover o desenvolvimento equilibrado desta imensa Nação, abrangendo todas as instituições financeiras, inclusive as cooperativas de crédito.
Um grande mérito do cooperativismo advém
do fato de ser um sistema em movimento comunitário, alicerçado na fraternidade e no respeito recíproco. E seu êxito, a
cada dia, depende mais da participação dos sócios e da eficiente administração realizada por seus incansáveis diretores e executivos.
Com o incentivo da Frencoop, em 1998, nasce o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), que tem por objetivo organizar, administrar
e executar o ensino e a formação profissional de associados e de dirigentes das
sociedades cooperativas.
Em 2002, existiam 1.395 cooperativas de crédito, com mais 1,4 milhão
de associados, detendo apenas 1,4% do patrimônio liquido exigível e 1%
do ativo permanente do Sistema Financeiro Nacional.
Em 2007, esse modelo de sociedade solidária, que enaltece a conduta humana e distribui renda de forma eqüitativa, apresentou 1.441 cooperativas de crédito devido a algumas fusões em busca de maior rentabilidade, contando com
3,6 milhões de associados, um aumento de 157% comparado com 2002 e
representando 3% do movimento financeiro nacional.
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SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Uma visão de futuro
Continuam os desafios da globalização da economia e a necessidade de
organização da sociedade por meio de cooperativas visando à defesa da
soberania nacional, a iniciativa privada, a cidadania, a dignidade dos brasileiros, o pluralismo político, a prevalência dos direitos universais, o crescimento econômico e o desenvolvimento social.
Por apresentarem baixo custo operacional, as cooperativas de crédito,
que adotam o planejamento estratégico e que traçam seus macropropósitos
na linha do tempo, desejam continuar participando da alavancagem do
progresso nacional ao oferecerem serviços bancários com juros e taxas
menores que as praticadas por outros agentes financeiros.
Enquanto que a participação das cooperativas de crédito, na atualidade, repito, é de apenas 3% do movimento financeiro nacional, nos EUA, é de 10%; no
Canadá, 15%; na Alemanha, 22%; no Japão, 28%; e na Holanda, 45%.
Ao prestarem serviços de qualidade, como crédito pessoal, seguros, antecipação do Imposto de Renda e 13º salário, débito automático, assessoria
financeira, agilidade, previdência privada, empréstimos, competitividade, operações real time, informações customizadas, dentre outros e, sobretudo,
segurança, elas vêm crescendo e com certeza representarão 10% do movimento financeiro nacional numa expectativa não tão longínqua para não
permanecerem num estágio tão distante como o observado na Europa e na
América do Norte e em alguns países da Ásia, principalmente o Japão.
A Frente Parlamentar do Cooperativismo, contando com o irrestrito
apoio de deputados e de senadores, que unidos no mesmo ideal de realçar
ao sistema cooperativista, recentemente, conseguiu a aprovação do Projeto de Lei Complementar nº 177, de 2004, um importantíssimo instrumento para o crescimento das cooperativas de crédito à luz do art. 192 da
Constituição Federal de 1988, observando as normas do Conselho
Monetário Nacional e as atribuições do Banco Central do Brasil. A Frencoop
ainda tem alguns desafios, que com esforços próprios, estimulada pelo
Sistema OCB/Sescoop e pelos 7,6 milhões de associados de nossas 7.672
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
cooperativas de 13 ramos diferentes poder-se-á sobrepô-los: incrementar
o acesso direto às fontes de recursos oficiais, mormente o FAT, o Funcafé e
outros, além de atendimento direto na linha do Proger e Pronaf, visando à
redução da dependência em relação aos bancos públicos, aprovação da Lei
Geral do Cooperativismo, da sanção do adequado tratamento tributário ao
ato cooperativo praticado pelas sociedades cooperativas; a inclusão delas
no Programa Microcrédito Produtivo Orientado que visa a atender as necessidades de crédito e capital de giro dos microempreendedores; a participação das cooperativas de crédito no Banco Postal, objetivando a oferta
de crédito para trabalhadores na ativa e aposentados com desconto em
folhas de pagamento; arrecadação de tributos federais por cooperativas
de crédito; associação das prefeituras municipais em cooperativas de crédito; adotar o Fundo de Garantia ou do Seguro de Depósitos para assegurar solvência e liquidez, gerando permanente confiança nos sócios e na
comunidade além de evitar liquidações; manter intensa capacitação de seus
quadros funcionais e ampliar os procedimentos internos de fiscalização e auditoria; solicitar das Juntas Comerciais na ocasião do registro das cooperativas a exigência de pré-certificado expedido pelo Sistema OCB; e pleitear a criação da Câmara
do Cooperativismo na Casa
Civil da Previdência da República com a finalidade de
formular e acompanhar a
política pública para esse
importante setor da economia social, tendo em vista
que essa política abrange a
competência de vários ministérios de Estado; dentre
outros propósitos.
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SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Não é sem razão que o Brasil tem centenas de municípios sem agência
bancária e mais de 50% da população sem conta corrente nas instituições
financeiras. E o pior é que muitos recorrem às ações nefastas de agiotas. A
Frencoop apóia as cooperativas de crédito porque acredita que elas são ícones
do Sistema Financeiro Nacional e poderão suprir essas e outras la-cunas, porque
têm competência e credibilidade.
Segundo o estudioso Torkom Saraydarian,
Todas as coisas na Natureza se movem em direção à
cooperação. A Natureza existe por causa da cooperação
da matéria, da energia, do tempo, do espaço, de um
plano e de um propósito. Nada existe no universo que
não seja o resultado da cooperação.
Se as autoridades e as lideranças unirem vontades e
decisões públicas e privadas visando ao desenvolvimento do cooperativismo de crédito,
creio que novos caminhos virtuosos da
cooperação se abrirão para todos do
Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul deste fabuloso País, para
torná-lo uma Nação próspera e socialmente justa.
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Arnaldo Jardim - Deputado federal (PPSSP), representante do Ramo Crédito da Frente
Nacional do Cooperativismo - Frencoop
Legislar para crescer
A aprovação do Projeto de Lei Complementar nº 177/04, que regulamenta o cooperativismo de crédito, foi uma conquista histórica. Enfrentamos
contradições políticas, partidárias e uma grave reação das instituições financeiras que temem o crescimento da fatia do cooperativismo de crédito no
mercado. Orgulho-me de ter sido o autor da emenda substitutiva e de ter
atuado para estabelecer o consenso entre as lideranças da Câmara dos Deputados sobre a importância do tema para toda a sociedade brasileira.
Afinal, um dos principais fatores de crescimento da nossa economia é o
aquecimento do consumo interno, principalmente por meio da ampliação
de linhas de crédito. Entre as várias oportunidades disponíveis no mercado, o cooperativismo de crédito se diferencia, cresce e se consolida.
Em franca expansão, as cooperativas de crédito vêm a cada ano
conquistando mais espaço no mercado financeiro, já representando
3% do Sistema Financeiro. Hoje, existem 1.441 cooperativas de crédito, com cerca de 3,6 milhões de associados, um número que parece
expressivo, mas dilui-se quando observamos o seu potencial, diante
dos mais de 180 milhões de brasileiros, ávidos por juros mais baixos e
melhores condições de pagamento.
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SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Se observarmos a realidade de outros países, percebemos que ainda
existe um longo caminho a percorrer, no sentido de fazer com que esse
tipo de atividade econômica e social continue a ampliar o seu atendimento, desenvolvendo programas de assistência financeira e prestação de serviços aos seus cooperados. Na maioria dos países desenvolvidos que contam com os melhores índices de qualidade de vida, a cultura cooperativista
tem um lugar de destaque.
Na Alemanha, por exemplo, encontramos mais de 15 milhões de pessoas associadas a cooperativas, que respondem por 20% de todo o movimento bancário naquele país. Se atravessarmos a fronteira para a Holanda,
vamos constatar que mais de 90% dos financiamentos rurais são atendidos pelas cooperativas. E na Europa, como um todo, quase metade das
instituições de crédito é composta por cooperativas. Nos EUA, a realidade
é a mesma, existem mais de 150 milhões de pessoas associadas a cooperativas, o que representa 60% da população.
Mesmo com os valores e princípios mantidos por mais de um século de
tradição, o cooperativismo se renova constantemente, aprimorando suas
atividades, investindo na qualidade dos serviços, na capacitação profissional e na gestão de negócios, inclusive, adotando novos princípios, como o
da responsabilidade social. Por isso, é fundamental que o Legislativo
acompanhe essa evolução e assegure os contornos legais e regulamentares que se fazem a cada dia mais necessários.
Uma das novidades do Projeto
de Lei Complementar nº 177/04 é a
“Na maioria dos países
proibição de constituição de coopedesenvolvidos que contam com os
rativas mistas com departamento
melhores índices de qualidade de
de crédito. Outra se refere à possivida, a cultura cooperativista tem
bilidade de as cooperativas de créum lugar de destaque.”
dito passarem por uma co-gestão
temporária com a respectiva cooperativa central ou confederação de centrais da qual participem. Essa cogestão terá o objetivo de sanar irregularidades ou ocorrerá quando houver
risco para a solidez da própria sociedade cooperativa. As cooperativas cen-
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
O projeto aprovado define ainda que as cooperativas de crédito como
aquelas criadas para prestar serviços financeiros a seus associados, assegurando-lhes acesso aos instrumentos do mercado financeiro. A captação de
recursos e a concessão de créditos e garantias são restritas aos associados.
Para o financiamento das atividades de
seus associados, as cooperativas poderão ter
acesso a recursos oficiais, mas não poderão
ter, em seu quadro social, pessoas jurídicas que possam exercer concorrência com
elas, nem a União, os estados, o Distrito
Federal e os municípios, ou suas
autarquias, fundações e empresas.
“O cooperativismo se renova constantemente, (...) por
isso é fundamental
que o Legislativo
acompanhe essa evolução
e assegure os contornos
legais e regulamentares
que se fazem a cada dia
mais necessários.”
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
trais de crédito serão constituídas pelas cooperativas singulares com o
objetivo de organizar, em maior escala, os serviços prestados aos seus associados. Já as confederações serão constituídas pelas cooperativas centrais para empreendimentos e atividades maiores ainda.
Permite-se ainda às cooperativas de crédito compensarem, por meio de sobras de
exercícios seguintes, as perdas do exercício
terminado. Elas deverão, entretanto, manter-se dentro de limites legais de
patrimônio exigíveis pela legislação.
O Conselho Monetário Nacional (CMN) disciplinará os requisitos prévios
de constituição ou transformação das cooperativas de crédito para o processo de autorização a cargo do Banco Central. O CMN também deverá
normatizar os tipos de atividades a serem desenvolvidas e dos instrumentos financeiros passíveis de utilização; e a criação de fundos garantidores,
inclusive com a vinculação de cooperativas de crédito a esses fundos.
Em meio a todo este processo de regulamentação do cooperativismo de
crédito, destaco o trabalho de aproximação e convencimento do Banco Central (Bacen), órgão regulador das cooperativas de crédito, em que avançamos, e muito, nas relações com o Bacen, que hoje respeita o esforço da
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SérieDesenvolvimento em Cooperativa
auto-regulação das cooperativas, principalmente o seu sistema próprio de
auditoria. Depois de um longo tempo de amadurecimento, inclusive na afinação com o Executivo, conseguimos convergir para a aprovação deste projeto que estabelece as bases de desenvolvimento do ramo, com perspectivas
para um crescimento contínuo do cooperativismo de crédito no País.
Ainda no âmbito da Câmara dos Deputados, também conseguimos
incluir no texto da Medida Provisória nº 410, também aprovada em plenário, emenda que trata de um plano de segurança que seja compatível com
a realidade das cooperativas de crédito. No ano passado, com base na Lei
nº 7.102/1983, a Polícia Federal notificou e multou centenas de cooperativas de crédito. Segundo a OCB, caso as cooperativas de crédito tivessem
que adotar o plano de segurança semelhante aos bancos convencionais,
elas teriam um acréscimo de custos da ordem de R$ 72 milhões ao ano.
O Projeto de Lei Complementar nº 177/04 segue para a aprovação no
Senado, onde estaremos nos mobilizando, e espero contar com o apoio
das principais lideranças nacionais do cooperativismo de crédito, para uma
aprovação rápida e sem sustos.
Também estive com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, para
tratar do Decreto nº 6.386/08, que regulamenta o artigo 45 da Lei nº 8.112/
1990 e dispõe sobre o processamento das consignações em folha de pagamento no âmbito do Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos (Siape). O próprio Presidente Lula, em audiência com os líderes do
cooperativismo de crédito, já havia manifestado o desejo de apoiar o fortalecimento e o desenvolvimento do setor no mercado financeiro, enquanto o
Banco Central reiterou a disposição para que o cooperativismo passe de 3%
de participação no mercado financeiro para no mínimo 10%. Por isso, apresentamos uma sugestão para uma nova redação do decreto citado, no sentido de assegurar o direito de oferecer sem restrições o acesso ao crédito
consignado para as cooperativas de crédito e seus associados.
Além disso, estou engajado em aprovar um projeto de lei para reverter
o processo que inclui a incidência de 0,38% do Imposto sobre Operações
Financeiras (IOF) sobre a movimentação das cooperativas e do setor rural.
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
A Receita Federal fez uma elevação sobre os empréstimos da pessoa física
superior à cobrança da extinta CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Outra preocupação é que as cooperativas também
serão oneradas quando necessitarem adquirir crédito de terceiros.
Por outro lado, aproveito para saudar os resultados do Procapcred (Programa de Capitalização de Cooperativas de Crédito), uma linha específica criada
pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Tratase de um importante avanço para o segmento, pois proporciona o aumento
do patrimônio permitido para que a cooperativa de crédito invista e aumente
ainda mais a sua capacidade de atendimento aos seus associados.
Além disso, vale salientar a grande conquista ao fim do ano passado em
que o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop)
passou a contar com mais 2,5% em recursos a serem recolhidos pelas
cooperativas de crédito sobre a folha de pagamento dos seus empregados
para ser aplicados em capacitação, promoção social e monitoramento da
gestão. Os recursos dessas cooperativas, que conforme legislação anterior
contribuíam para o INSS, a partir do início de 2008, passaram a ser
redirecionados para o Sescoop.
21
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
São muitos os desafios que teremos de enfrentar para consolidar, ainda
mais, o cooperativismo de crédito como uma alternativa real e viável para
o brasileiro acossado pela política de juros das instituições financeiras convencionais, que visam estritamente ao lucro. Esses obstáculos serão superados com muita cooperação e espírito público, em que a OCB e demais
lideranças do setor ajudem na mobilização, participem e colaborem na
elaboração de leis capazes de assegurar o crescimento sustentável desta
atividade social e econômica no País.
Defender o cooperativismo me enche de orgulho. Trata-se de uma organização solidária, multiplicadora de oportunidades, que precisa ter amparo
legal, ou seja, uma legislação clara que amplie sua participação na sociedade
e inclua, mais e mais, brasileiras e brasileiros na atividade produtiva.
22
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Alexandre Tombini - diretor de
norma e organização do Sistema Financeiro
Nacional/Bacen
Desafios para o crescimento do
cooperativismo de crédito na
visão do Banco Central do Brasil
Uma das principais preocupações do Governo é facilitar o acesso a serviços financeiros para todos os brasileiros e, assim, promover sensível redução nos spreads das atividades de intermediação financeira, a partir de
maior concorrência. Nesse contexto, o Conselho Monetário Nacional e o
Banco Central do Brasil (Bacen) regulamentaram diversas ações e instrumentos com vistas à ampliação dos mecanismos facilitadores de acesso
da população ao Sistema Financeiro.
No campo do cooperativismo de crédito, essas ações tiveram início por
meio das Resoluções nos 3.058, de 20 de dezembro de 2002 e 3.106, de 25
de junho de 2003, e que, após aprimoramentos, se encontram ora consolidadas na Resolução nº 3.442, de 27 de fevereiro de 2007. Dentre outros
objetivos, esse arcabouço regulamentar busca promover o fortalecimento
do setor, mediante aprimoramento de dispositivos regulamentares a ele
aplicáveis que, de um lado, ampliou o papel das cooperativas centrais e, de
23
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
outro, permitiu a criação de cooperativas de maior amplitude no quadro
social, alterando o modelo anterior, em que essas instituições só podiam
atender a segmentos específicos da população.
É com essa visão realista que o Bacen acompanha o movimento
cooperativista, participando de eventos no Brasil e no exterior, estudando
diferentes sistemas e tipos de organização, visitando instalações de cooperativas e, principalmente, mantendo aberto canal de comunicação
permanente com representantes do setor. O fundamento básico é elevar a segurança, a credibilidade e a qualidade dos serviços prestados,
para que essas instituições cumpram, de forma eficiente e eficaz, os
anseios da população que pretendem assistir.
Nesse contexto, é possível inferir que, feitos os ajustes regulamentares,
a maturidade do sistema cooperativista atual depende muito mais das próprias ações e de boa gestão do que propriamente do órgão regulador. Depende mais de exercitar o processo, de agir ao invés de reagir, à luz da
visão de futuro requerida. Desafios existem, mas, antes de lamentá-los, cabe
lembrar sua importância como fator
“(...) a maturidade do
indutor de atitudes preventivas em prol
sistema cooperativista
do fortalecimento administrativo e
atual depende muito
operacional, principalmente por parte
mais das próprias ações
e de boa gestão do
das lideranças.
que propriamente do
órgão regulador.”
24
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
A conjunção de planejamento e organização com as expectativas criadas em torno do crescimento do cooperativismo de crédito leva à percepSFN para
ção de que o atual desafio é aumentar sua participação no SFN,
o que agregaríamos três grandes diretrizes: sustentabilidade, transparência e responsabilidade social. A consecução desse objetivo e das diretrizes
nele contidas parte do diagnóstico do momento atual, da eleição dos
desafios e da proposição de ações
de curto, médio e longo prazos, capazes de viabilizar o planejamento.
“(...) o atual desafio
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
O planejamento é a base de tudo e busca substituir a improvisação
pela ciência, a atuação empírica por métodos científicos. Por isso, um de
seus primeiros e importantes pilares é a fixação de objetivos. Porém, temos
também a organização como sinônimo de estabelecer estrutura e forma
capazes de viabilizar o planejamento. Em empresas ou sistemas já existentes, o primeiro passo é diagnosticar o momento atual – onde estamos –
para planejar o futuro – aonde queremos chegar.
é aumentarr sua
participação no SFN, para
o que agregaríamos três
grandes diretrizes:
sustentabilidade,
transparência e
responsabilidade social.”
25
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Diretriz de Sustentabilidade
A diretriz de sustentabilidade é sinônimo de
independência e envolve também condições para
aumentar a competitividade. Isso nos remete ao princípio básico da economia de escala com ações que de
fato respeitem a melhor organização, dentre as quais
me permito citar: capacitação e treinamento; crescimento vertical, via PACs e incorporações nas regiões mais
concorridas; aumento do número de municípios atendidos por unidades físicas – presentes, hoje, em apenas 37% dos municípios brasileiros; convergência ao princípio de
intercooperação, como na área tecnológica; e monitoramento dos custos administrativos a partir da queda do custo de intermediação.
Diretriz de Transparência
Já a diretriz da transparência diz respeito essencialmente ao aprimoramento da governança. Em sintonia com seu papel, o Banco Central
desenvolveu, entre 2007 e 2008, o projeto Governança Cooperativa em
que, a partir de estudos e amplas pesquisas no próprio segmento, fez diagnóstico e traçou diretrizes, consolidadas em cartilha, para o fortalecimento
da governança em cooperativas de crédito no Brasil. Tais diretrizes, apresentadas em seminário de 25 de abril de
2008, com presença representativa das
lideranças do setor, indicam caminhos
para que as cooperativas obtenham êxito
em suas práticas de governança, sem
prejuízo aos princípios e valores
cooperativistas e em sintonia com nossa base legal e regulamentar.
26
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Temos, finalmente, a diretriz
de responsabilidade social
social,
princípio fundamental do Sistema
Cooperativista, diante de seu potencial para soerguer comunidades e levar cidadania a regiões
mais carentes. Não sem propósito, o cooperativismo conta com
benefícios trazidos pela legislação
ordinária e complementar, sob
percepção primária de que, ao
investir em sua comunidade, há retorno para o Estado com geração de
cidadania, emprego e renda. Por isso, todos devem estar vigilantes quanto a esses objetivos, de forma a não permitir o mau uso dos benefícios e,
com ele, o risco de imagem e de retrocesso.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Diretriz de
Responsabilidade Social
A despeito de todos esses princípios e do estímulo normativo a partir de
2003, ainda é perceptível que os resultados estão aquém das expectativas
geradas, embora sejam dignas de destaques algumas tendências, como
aumento dos pontos de atendimento, crescimento dos depósitos e operações de crédito acima da média do sistema bancário tradicional e movimentos de incorporação a partir de 2004.
O diagnóstico do sistema cooperativista atual nos permite reflexões quanto aos desafios de subsistir com competitividade em cenário de
menor custo de intermediação. O que procuro aqui é sinalizar situações de
risco que, a rigor, são de conhecimento do próprio segmento, embora
nem sempre sejam de fácil solução. Entretanto, a partir de seu diagnóstico
– onde estamos – é possível pelo menos refletir sobre para onde queremos
ir, o que envolve a prevenção como contraponto ao labirinto das emergências, quando tudo fica mais difícil.
27
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Faz sentido, portanto, proposição de agenda positiva de curto,
médio e longo prazos que, dentre outros, contemple os seguintes temas:
• ordenamento da ocupação territorial e, com
ele, ampliação do número de municípios atendidos, via, principalmente, unidades locais;
• crescimento vertical via incorporações de cooperativas e projetos e estímulo à estrutura em
três níveis;
• aumento da oferta e da qualidade dos serviços
financeiros, com objetivo de atender às necessidades dos cooperados;
• qualificação de dirigentes e colaboradores e disseminação da cultura cooperativista com os associados, como fonte de estímulo ao uso de seus
serviços e efetiva participação;
• governança que aumente a transparência e
o envolvimento dos dirigentes e conselheiros
com o dia-a-dia da cooperativa;
• compartilhamento de tecnologias e serviços;
• fundo garantidor único – perspectivas para
sua implementação.
28
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Os recentes indicadores sobre o
comportamento dos preços são bastante animadores e reforçam o quadro de estabilidade vivida há anos
pelo Brasil e que pode ser projetado
para um horizonte cada vez maior.
O repique da inflação, que forçou
decisões fortes de política monetária, começa a se desfazer.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Estabilidade permite estratégias
mais ousadas
Pesquisas da Fundação Getúlio
Vargas demonstram, na última de
semana de agosto, retração nos índices de preços, nos principais centros metropolitanos. Esse arrefecimento
pode não se refletir, de imediato, nas decisões do Banco Central, mas já
mostram um cenário de inflação sob controle e jogam luz sobre um novo
ciclo de taxas de juros em queda.
Carlos Alberto dos Santos - diretor de
Administração e Finanças do Sebrae Nacional
Além da inflação, no que se refere ao noticiário recente, é importante
registrar as informações repassadas ao governo e ao mercado pelo presidente do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano
Coutinho. Os investimentos públicos e privados em setores dinâmicos da
economia devem crescer 18% ao ano entre 2008 e 2011.
O total de investimentos entre 2008 e 2011 deve chegar a R$ 2,3 trilhões.
Desses, R$ 1,5 trilhão já estão mapeados de forma confiável. Para efeito de
comparação, os investimentos entre 2004 e 2007 somaram R$ 1,6 trilhão.
Em 2010, a taxa de investimentos (soma de todas as riquezas produzidas
no País,) deve alcançar 21% do Produto Interno Bruto (PIB). E este ano
pode ultrapassar 18%.
29
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
A reflexão sobre esses números é importante porque mostra a relevância do
“O total de investimentos
papel dos que ofertam serviços financeientre 2008 e 2011 deve chegar
ros, principalmente as cooperativas de
a R$2,3 trilhões.”
crédito, num cenário de estabilidade e de
crescimento apoiado em investimentos
crescentes. A expectativa do Banco Central é de que, até 2010, a participação do cooperativismo de crédito no Sistema Financeiro Nacional, em termos de volume de operações, supere 10%.
Atualmente essa participação é de 3%. Ultrapassar o patamar de um
dígito é fundamental para a solidez do segmento, a ampliação contínua do
crédito para micro e pequenas empresas e o estabelecimento de um nível
de concorrência com os bancos que realmente impacte os custos da oferta de serviços financeiros.
A projeção do Banco Central é fundamentada no grande número de
cooperativas de segmentos específicos, como o rural, que se enquadram,
num processo contínuo, ao regime de livre adesão. Além disso, as normas
para a constituição de cooperativas continuam evoluindo em favor do aumento de sua base de associados e clientes, o que dá maior escala às operações de crédito e minimiza riscos.
Aumenta, assim, a importância das cooperativas na canalização de recursos para o setor produtivo, realçando-lhes o papel de indutoras do desenvolvimento socioeconômico. Por trabalharem em estreito relacionamento
com a demanda, podem dar maior velocidade à aplicação dos recursos
disponíveis para investimento. Isso porque têm o diferencial de saber as
necessidades de sua clientela, os associados.
“O principal resultado é a melhoria
da prestação de serviços financeiros
à população em geral.”
30
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Cada vez mais, amplia-se o segmento de clientes, fidelizados ou
“A expectativa do Banco
em potencial, público-alvo tanto de
Central é de que,
até 2010, a participação
bancos como de cooperativas de
do cooperativismo
crédito. Na década de 1990, bancos
de crédito no Sistema
e cooperativas trabalhavam basicaFinanceiro Nacional, em
mente com públicos distintos. As cotermos de volume de
operações, supere 10%.
operativas, por restrições legais, com
Atualmente essa
públicos homogêneos como os de
participação é de 3%.”
produtores rurais, de funcionários públicos e profissionais liberais. E os
bancos tradicionais com as faixas de
empresas mais organizadas e pessoas físicas em geral de renda média e
alta ou de menor renda, desde que assalariados com carteiras assinadas.
A estabilidade econômica e as regras mais flexíveis para o cooperativismo
de crédito mudaram essa realidade. Em 2008, os dois mundos, o do
cooperativismo e dos bancos, começam a se sobrepor. Já há uma faixa
considerável de público-alvo às ações desses dois importantes atores do
sistema financeiro. Os bancos começam a enxergar micro e pequenas empresas, pessoas físicas de menor renda e até mesmo empreendedores informais como nichos importantes de negócios. As cooperativas, por sua vez,
em função das regras de livre admissão, já podem trabalhar com um público bastante heterogêneo. O resultado é o acirramento da concorrência,
cujo principal resultado é a melhoria da
prestação de serviços financeiros à população em geral.
Com a maior concorrência, as cooperativas movimentam-se no sentido de construir estratégias que permitam um relacionamento de longo prazo com seus associados. O que pres-
31
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
32
supõe ainda maior foco nas necessidades da clientela, derivado de um sistema avançado de informações que lhes permitam uma atuação segmentada.
As cooperativas precisam, assim, continuar se equipando de recursos
humanos e tecnológicos que estabeleçam uma rotina de procedimentos
capaz de recolher, classificar, analisar e dar suporte a decisões que tenham,
de fato, vínculo com o mercado. O profissionalismo operacional, em seus
mais diversos níveis, é imprescindível porque o cenário para 2015 é de
grande ampliação do público-alvo comum ao dos bancos.
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Mais de cento e quarenta anos de história européia no cooperativismo
de crédito e mais de cem
anos na América Latina
(com seu núcleo inicial no
Brasil!) deixaram para
nós um grande volume
Matthias Arzbach - DGRV São Paulo
de experiências, boas e
más. Deixaram, além disso, uma grande responsabilidade e obrigação: de aprender com a história, aproveitando as vantagens dos diferentes modelos e evitando repetir erros históricos.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
DGRV e a experiência internacional para
o fortalecimento do cooperativismo
de crédito
brasileiro
O Brasil nesse sentido é um bom exemplo: compôs a sua configuração
atual do sistema cooperativo de crédito principalmente a partir dos exitosos
modelos europeus, como o francês, o holandês e o alemão. A boa
estruturação do setor foi talvez a principal razão para o êxito do modelo de
negócio e a abertura do Banco Central (Bacen) frente ao setor, dois fatores
que se condicionam mutuamente.
O Brasil, com isso, se tornou um modelo dentro da América Latina, provas disso são as múltiplas visitas de delegações do exterior, várias delas
auspiciadas pela DGRV, que aspiram conhecer o modelo local. Também, em
alguns sentidos, pode servir como referência para as economias mais maduras como as européias, em que as cooperativas se tornaram participantes
emancipadas no mercado financeiro, mas estão lutando para preservar as
características de cooperativas com todos os valores que as caracterizam.
33
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Quais poderiam ser os pontos que o Brasil deveria ter em vista para poder consolidar
este desenvolvimento positivo, sobretudo
dos últimos dez anos, aproveitando a experiência internacional?
Evitar “canibalismo” dentro do setor. O fenômeno de concorrência entre as cooperativas que observamos em países
como a Colômbia na década dos anos 1990 e que está ganhando novamente mais força (por exemplo, também na
Costa Rica e no Equador) poderia ser também um perigo
para as cooperativas no Brasil no futuro. Coordenação estreita entre os
sistemas, procurando soluções abrangentes como recentemente com a
Confederação Nacional de Auditoria Cooperativa (Cnac) é o caminho certo. Talvez no futuro o setor cooperativo possa trabalhar com um só sistema informático? É uma idéia que hoje seja talvez só um sonho, mas poderia significar ganhos enormes de eficiência e melhorar a posição do setor
frente ao órgão de supervisão (os 1.200 bancos na Alemanha contam somente com duas empresas de serviços de TI/software houses). Isso é só
um exemplo, fundos protetores (também unificados na Alemanha) ou soluções informáticas unificadas para cumprir com exigências do Bacen (exemplo: uma ferramenta para administrar o risco operacional) são outros exemplos neste contexto.
Preparar-se para pressões regulatórias cada vez maiores.
Standards e códigos internacionais (Basiléia II, NIIFs, ISA etc.)
se aproximam às cooperativas no mundo inteiro e já fazem
parte de comunicados do Bacen. Mesmo com certas diferenciações segundo tamanho e complexidade das institui-
34
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Este desafio se torna maior ainda com as estruturas atuais
quanto à governança corporativa: Diretores eleitos dentro
do quadro social da cooperativa, mas sem experiência “bancária”, vão ter cada vez mais dificuldades para poder cumprir com as responsabilidades designadas a eles segundo a
lei. Quem sabe a Diretoria de tempo completo e composta
por profissionais da área vá constituir o futuro das cooperativas, não só no
Brasil. Profissionalização das cooperativas e esforços enormes no treinamento serão necessários em todo caso. Outro desafio será a tomada de
decisões com base em aspectos técnicos e resistir à tentação de dar
importância demais a aspectos pessoais e relacionamentos interpessoais
– que são importantes, mas não devem obscurecer decisões objetivas
(isso é, por certo, um desafio das cooperativas no mundo inteiro, assim
como a profissionalização).
A InserçãoConjuntura
das Cooperativas
e Perspectivas
no Processo
do Cooperativismo
de Produção dedeBiodiesel
Crédito
ções financeiras, a normativa tende a ser cada vez mais homogênea
ou “padrão” para todo o sistema financeiro, tornando-se um desafio
grande para as cooperativas devido ao seu menor tamanho e custo
relativamente maior.
Fusões e incorporações vão tornar-se cada vez mais importantes neste cenário; esses fenômenos devem ser vistos não
só como instrumentos para solucionar situações de insolvência de uma cooperativa, como ferramenta de resgate.
Devem ser avaliadas como ferramentas valiosas para tornar
o setor mais eficiente e para poder resistir melhor às pressões tanto regulatórias como “do mercado”. Na Alemanha, foram importantes para reduzir o número das cooperativas de mais de 12.000 singulares 50 anos atrás para 1.200 de hoje e o número das centrais de 19 para
duas (com possibilidade de fusionarem-se nos próximos anos a uma única
instituição). Cabe mencionar que as fusões não são um objetivo em si e
que podem existir necessidades de criação de cooperativas também em
zonas com virtual ausência de oferta de serviços financeiros.
35
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
A integração das cooperativas de crédito brasileiras cada
vez mais fortes no mercado financeiro com parcelas do setor
subindo lentamente, e chegando a níveis em que as cooperativas constituem uma concorrência para os intermediários
tradicionais, vai levar a maiores pressões para reduzir as vantagens das cooperativas (na área tributária etc.). Ao mesmo tempo a maior integração no mercado financeiro e a pressão regulatória “de fora” vão
tornar a preservação dos valores cooperativos e o atual esquema de
governança mais difícil: vai ser possível gerenciar uma cooperativa com a
estrutura atual de governança daqui a 20 anos? A resposta, como já se
indicou no texto, é sem dúvida “provavelmente não” na maioria dos casos.
E, finalmente, como a cooperativa de crédito vai se diferenciar na sua atuação frente a um banco? Vai sempre ter um
maior enraizamento local, mas em nível de produtos e atendimento ao cliente vamos observar uma convergência para
as características do setor bancário tradicional. Ao mesmo
tempo, há nas cooperativas espaços ainda não utilizados. O microcrédito,
por exemplo, produto típico das cooperativas européias, é um tema até
hoje quase não desenvolvido por muitas cooperativas brasileiras (a diferença de muitos outros países na América Latina). Crédito produtivo foi e é
com certeza importante para os bancos cooperativos europeus e os seus
clientes, as PMEs; foi uma das bases do crescimento paralelo dos bancos e
do setor rural na Alemanha e também na Holanda, onde o Rabobank ainda
hoje tem um forte enraizamento no setor agrário, com um relacionamento
de benefício mútuo e de alta fidelidade entre o Rabobank e os seus clientes.
36
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Ao final, cada país e cada setor cooperativo é um mundo e é regido
pelas suas próprias regras circunstanciais, oportunidades e limitações. Mas
seria um pecado não aproveitar as lições já aprendidas por outros e o legado deixado pelos fundadores do cooperativismo; assim, em agosto deste
ano comemoramos o aniversário de 200 anos do nascimento do alemão
Hermann Schulze-Delitzsch, um dos fundadores do cooperativismo no
mundo. Graças a pessoas como ele a DGRV está até hoje em condições de
colocar à disposição para o setor cooperativo no Brasil a sua experiência na
Alemanha e a experiência acumulada em 20 anos de trabalho na América
Latina. A DGRV foi recebida com os braços abertos no Brasil, o que tornou
nossa tarefa muito mais fácil.
37
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
38
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Evandro Scheid Ninaut –
Gerente de Mercado da OCB
Inseridas no meio econômico financeiro do País desde 1902, as cooperativas de
crédito se apresentam com singular importância para a sociedade brasileira, na
medida em que promovem a aplicação de
recursos privados e públicos, assumindo
os correspondentes riscos em favor da própria comunidade em que se desenvolvem.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
A estrutura do
cooperativismo de
crédito brasileiro
Em seu início, apesar das dificuldades, as cooperativas tiveram grande expansão e importância dentro da realidade de muitas comunidades no País,
entretanto, com o advento da regulamentação, bastante restritiva, imposta na
época pelo governo federal, o desenvolvimento do cooperativismo de crédito
39
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
teve sua ascensão comprometida. No início dos anos 1980, o segmento contava com 430 cooperativas de crédito, em dezembro de 2007 contava com
1.441 cooperativas de crédito distribuídas em praticamente todo o território nacional, com maiores participações no Sudeste e no Sul, além de 2.497
PACs (pontos de atendimento cooperativo) que somados às cooperativas
totalizam 3.938 pontos de atendimento aos cooperados, com 3,6 milhões
de associados, proporcionando 37.266 empregos diretos.
A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) em sua interpretação
divide o cooperativismo de crédito no país em cinco grandes blocos. Três
blocos seriam os sistemas: Sicredi, Sicoob e Unicred e os outros dois seriam as cooperativas de crédito independentes e de economia solidária.
Quanto aos três grandes sistemas pode-se dizer que por muitas vezes eles
convergem suas forças em prol de avanços no segmento, por meio de
ações do Conselho Especializado de Crédito da OCB.
40
40
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
O Sicredi, oriundo da região Sul e que hoje atua em grande parte do
País, foi o primeiro sistema a constituir um banco cooperativo, o Banco
Cooperativo Sicredi, em 1995. A cooperativa de crédito pioneira na América Latina, fundada pelo Padre Theodor Amstad, em 1902, no município
de Nova Petrópolis-RS, faz parte do sistema Sicredi e está em funcionamento até hoje. O Sicredi, em dezembro de 2007, contava com 130 singulares e mais 1.025 PACs.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
O Sicredi
41
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
42
O Sicoob
O Sicoob, bastante atuante em todo o Brasil, é a 7ª rede de atendimento do País com grande número de pontos de atendimento. Em dezembro
de 2007, eram 649 cooperativas singulares mais 1.035 PACs; conta, ainda,
com o banco cooperativo Bancoob, criado em 1996. Os sistemas Sicredi e
Sicoob atuam com diversas linhas de crédito voltadas para o desenvolvimento dos vários setores da economia, tanto no meio urbano como rural.
Dentre as linhas de crédito evidenciam-se os convênios com o BNDES, que
disponibilizam recursos para custeios e investimentos agrícolas (cerca de
R$ 530 milhões nos últimos quatro anos).
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
A Unicred, cooperativas de crédito voltadas para o nicho de profissionais da
saúde, também possui um grande número de pontos de atendimento no País,
atuando praticamente em todo o Brasil, com 133 cooperativas e mais 261 PACs.
Esses três sistemas são compostos pelo que se chama de três níveis, ou seja,
cooperativas singulares, que formam cooperativas centrais, e cooperativas centrais que formam as confederações. Com uma estrutura verticalizada, possuem
todo um arcabouço de regimentos internos que promovem a busca por altos
níveis de segurança, gestão e eficiência, além é claro de toda a regulamentação
imposta pelo Banco Central do Brasil, já que as cooperativas de crédito estão no
rol das instituições financeiras do País e, assim, sujeitas a fiscalização do Bacen.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
A Unicred
43
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
A Ancosol
Dentro do cenário nacional, destaca-se a crescente participação das
cooperativas de crédito de economia solidária, organizadas na Ancosol
(Associação Nacional do Cooperativismo de Crédito da Economia Familiar
e Solidária) e que também está se organizando em confederação. A Ancosol
contava, em dezembro de 2007, com 183 cooperativas e mais 161 PACs.
E as cooperativas independentes, aquelas não filiadas/ligadas a nenhuma
cooperativa central, que totalizavam, em dezembro de 2007, 309 cooperativas distribuídas em várias regiões do território nacional.
Observa-se também a participação da Confebrás (Confederação
Brasileira das Cooperativas de Crédito), com atuação voltada para a difusão do cooperativismo.
44
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Volume de Recursos
Ativos:
R$ 45,0 bilhões
Depósitos:
R$ 19,8 bilhões
Patrimônio Líquido:
R$ 8,4 bilhões
Operações de Crédito:
R$ 18,4 bilhões
Fonte: OCB - junho/2008
45
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
46
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
A história do cooperativismo de crédito no
País teve seu início há mais de 100 anos, por
meio do esforço, experiência e visão do Padre
suíço Theodor Amstad, organizando o
cooperativismo de crédito em pequenas comunidades no interior do Rio Grande do Sul. É sabido que após essa peregrinação e divulgação
dos benefícios desse cooperativismo ele se propagou e gozou de grande crescimento em todo
Sílvio Cezar Giusti de Oliveira –
o País. Entretanto, por muitas vezes, esse cresTécnico de Mercado da OCB
cimento não foi tão bem ordenado e gerido,
ao passo que no regime militar acabou sofrendo grande golpe, tendo tido enormes prejuízos por conta da severa e restrita legislação da época.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Avanços e
conquistas
Com a resistência de algumas cooperativas de crédito e de grandes líderes
cooperativistas respaldados pelo seu quadro social, as cooperativas de crédito no
início dos anos 1980 novamente buscaram o seu espaço e com muito empenho
começaram a reescrever a história do cooperativismo de crédito no País.
“O cooperativismo pode
colaborar em muito para
uma sociedade mais justa e
fraterna, promovendo a
inclusão social, e gerando
qualidade de vida para a
população, reforçando,
assim, o seu papel social e
econômico na construção
de um horizonte melhor
para todos.”
No início dos anos 1990, em
pleno período de reorganização do
cooperativismo de crédito, o segmento sofreu um grande abalo;
repentinamente, de um dia para outro as cooperativas perderam a sua
compensação de documentos que
era realizada pelo Banco Nacional de
Crédito Cooperativo (BNCC), que em
função de reforma administrativa, o
governo daquela época resolveu extinguir o banco.
47
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
E por mais uma vez o
cooperativismo de crédito, mostrou dentre suas
virtudes, a sua tenacidade e capacidade de se impor às dificuldades, e após
uma parceria (por vezes
conturbada na época)
com o Banco do Brasil e
muitas diligências e reuniões com o órgão regulador, o Conselho Monetário Nacional permitiu a
constituição de bancos comerciais controlados por cooperativas de crédito (Resolução nº 2.193/1995), e ali tiveram início as ações para a constituição dos bancos cooperativos, uma das grandes conquistas do
cooperativismo de crédito em sua história.
Outro ponto de grande relevância para o desenvolvimento do cooperativismo
de crédito ocorreu após a Resolução nº 3.106/06 que foi a possibilidade da livre
admissão, ou seja, a partir desse momento as cooperativas poderiam atender os
vários tipos de público, desde o agricultor, passando pelo comerciante ao empresário, enfim permitiu que os benefícios do cooperativismo de crédito atingissem de forma mais ampla a sociedade em geral.
Existem outras tantas conquistas que foram sendo garimpadas uma a
uma com muito esforço e persistência, por parte das lideranças do
cooperativismo de crédito, somadas com a gradativa aproximação e o entendimento do
“(...) o presidente com elevada clareza,
órgão regulador sobre a imdiscernimento e visão escutou os anseios do
segmento e proferiu em bom som que
portância do cooperativismo
“banco é banco e cooperativa é cooperativa”,
de crédito como um mecanistraduzindo nessa frase sua profunda
mo de regulação de mercado,
percepção do relevante papel que as cooalém também da maior conperativas podem prestar para o bem
socioeconômico do País.”
sideração, percepção e apoio
do governo federal para o
atendimento dos pleitos estru-
48
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Destacam-se, ainda, a isenção do pagamento de PIS e Cofins para operações realizadas com base no ato cooperativo (art. 46 da Lei nº 11.196/05
que alterou o art. 30 da Lei nº 11.051/04), a permissão para criação de
pontos de atendimento cooperativo (PACs), a captação de poupança por
meio dos bancos cooperativos, constituição de cooperativas de micro e
pequenos empresários, cooperativas de empregados, ampliação da área
para atuação das cooperativas de livre admissão, acesso a recursos do programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), flexibilização dos planos
de segurança, entre outras conquistas de cunho estrutural que proporcionaram o crescimento do segmento.
Conjunturae ePerspectivas
PerspectivasdodoCooperativismo
CooperativismodedeCrédito
Crédito
Conjuntura
turais do cooperativismo. Prova disso foram as audiências realizadas entre
as lideranças do cooperativismo de crédito e o presidente da República nos
dias 7 de fevereiro de 2007 e 2 de outubro de 2008, nas quais o presidente
com elevada clareza, discernimento e visão escutou os anseios do segmento e proferiu em bom som que “banco é banco e cooperativa é cooperativa”, traduzindo nessa frase sua profunda percepção do relevante papel
que as cooperativas podem prestar para o bem socioeconômico do País.
Outro fator positivo para o desenvolvimento do cooperativismo de crédito foi a criação do Programa de Capitalização de Cooperativas de Crédito
(Procapcred), programa que
oportunizou o aumento do patrimônio
das cooperativas por meio da elevação
das cotas-partes dos associados. Muito em função desse programa o ano
de 2007 foi o período em que as cooperativas mais conseguiram ampliar
seu patrimônio nos últimos dez anos.
Importante frisar a criação da
Confederação Nacional de Auditoria
Cooperativa (Cnac), que surgiu da
provocação positiva do órgão regula-
49
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
dor e da maturidade e convergência de ações e interesses dos sistemas cooperativos de crédito do
País, buscando de forma conjunta
maiores qualificação e padronização das auditorias de balanços.
“Certamente, foram muitos os avanços e
conquistas, nem sempre na velocidade
desejada, contudo inegavelmente eles
ocorreram de forma gradativa e
progressiva, permitindo a cada
pequeno avanço crescimento,
desenvolvimento e fortalecimento do
cooperativismo de crédito.”
E sem dúvida alguma, uma
conquista que pode se classificar
como divisora de águas foi o tão sonhado acesso das cooperativas de
crédito ao Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
(Sescoop). Certamente, esse foi um dos avanços históricos do
cooperativismo de crédito, ao passo que desde 1999 lutava para ter acesso
ao Sescoop (o ramo crédito era o único dos 13 ramos que não podia
contribuir e ter acesso ao Sescoop), e agora o segmento poderá receber
recursos para aprofundar e intensificar seus treinamentos de capacitação
para qualificar seu quadro social, dirigentes e colaboradores visando a
melhores condições de gestão e governança.
50
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Certamente, foram muitos os avanços e conquistas, nem sempre na velocidade desejada, contudo inegavelmente eles ocorreram de forma gradativa
e progressiva, permitindo a cada pequeno avanço crescimento, desenvolvimento e fortalecimento do cooperativismo de crédito. Contudo é correto
dizer que ainda existem obstáculos e caminhos a serem superados e percorridos para que o cooperativismo de crédito possa cada vez mais galgar espaço no mercado financeiro nacional e na vida dos brasileiros. Entretanto o
cooperativismo não tem dúvidas de que ainda pode colaborar em muito
para uma sociedade mais justa e fraterna, promovendo a inclusão social,
criando postos de trabalho, oportunizando empreendimentos e gerando qualidade de vida para a população, reforçando, assim, o seu papel social e
econômico na construção de um horizonte melhor para todos.
51
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
52
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Denise Damian - Coordenadora do Conselho Especializado de Crédito da OCB e presidente da Confederação
Unicred do Brasil
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Ceco e o
plano de
ação do
cooperativismo
de crédito
A importância e a influência dos benefícios do cooperativismo de crédito para as comunidades em que estão inseridas têm se tornado cada vez
mais representativas.
Com o objetivo maior de contribuir para o fomento e a longevidade das
nossas singulares em todo o País, estas estão assistidas por meio de diversos
órgãos de representação, cada um com foco em determinado aspecto.
No cotidiano da maior parte das singulares, as centrais estão presentes por
meio da centralização financeira, técnica
e operacional ou, ainda, por meio de
programas de treinamento. Já as confe“A participação de todos
derações norteiam o trabalho e represenos sistemas e a
tam o elo nacional entre as centrais estaunificação das metas
duais das cooperativas de crédito de um
permitem conquistas
que se tornam
mesmo sistema.
verdadeiros marcos
para o cooperativismo
de crédito nacional.”
53
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
“A criação da Cnac foi
considerada um momento
histórico na trajetória das
cooperativas nacionais. ”
Complementando o eficiente suporte proporcionado pelas confederações
e centrais para o crescimento e solidez de suas singulares, a Organização das
Cooperativas Brasileiras (OCB) objetiva a promoção, o fomento e a defesa do
Sistema Cooperativista, em todas as instâncias políticas e institucionais. É de
sua responsabilidade também a preservação e o aprimoramento desse sistema, o incentivo e a orientação das sociedades cooperativas.
Como órgão consultivo, o Conselho Especializado de Crédito da OCB
(Ceco) funciona em nível nacional e tem como objetivo não somente apoiar, mas representar o segmento de crédito cooperativo, conferindo mais
dinâmica, objetividade e eficiência, além de uniformizar as ações da OCB
pertinentes ao crédito, assim como contribuir para a promoção, a integração
e a conquista de objetivos destinados ao desenvolvimento do cooperativismo
de crédito no País.
Cada sistema cooperativo possui suas particularidades. Assim, o Ceco
unifica todos os sistemas e traça metas conjuntas, sempre com objetivo
54
54
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
do fomento e da promoção do cooperativismo de crédito. Atualmente os
participantes do comitê são os sistemas de cooperativas Sicredi, Sicoob e
Unicred, além da Confebrás.
A participação de todos os sistemas e a unificação das metas permitem
conquistas que se tornam verdadeiros marcos para o cooperativismo de
crédito nacional.
Em agosto de 2007, foi criada a Confederação Nacional de Auditoria
Cooperativa (Cnac), demonstrando a unicidade do cooperativismo de crédito nacional. A criação da Cnac foi considerada um momento histórico na
trajetória das cooperativas nacionais.
Os objetivos e metas do Ceco são definidos por meio de reuniões colegiadas
envolvendo todos os participantes do Conselho. Nessas reuniões, os participantes, competentemente assessorados pelos técnicos da OCB e do
Sescoop, traçam seu plano de ação para os próximos anos. Entre outras
ações planejadas para este ano, destacamos as seguintes:
55
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
No Congresso Nacional
• Regulamentação do cooperativismo de crédito brasileiro no âmbito do art. 192 da Constituição Federal;
• Aprovação de projeto de lei que assegure o acesso das
cooperativas de crédito – diretamente ou via bancos cooperativos – a recursos do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT);
• Regulamentação do relacionamento negocial das cooperativas de crédito com as pessoas jurídicas de direito
público interno (art. 164, § 3º da Constituição Federal);
• Regulamentação do art. 146, III, c, da Constituição Federal, assegurando a não-incidência de tributos e contribuições sobre o resultado do ato cooperativo;
• Equiparação legal, para fins tributários, do fundo garantidor das cooperativas de crédito com o fundo garantidor das instituições financeiras tradicionais (FGC);
• Acompanhamento das diferentes iniciativas de interesse das cooperativas de crédito.
56
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
• Ouvidoria das cooperativas de crédito;
• Possibilidade de realização de depósitos financeiros
vinculados à atividade rural;
• Acesso a linhas de crédito de custeio no âmbito do
Pronaf.
• Procapcred – diligenciar pela continuidade do programa e pela redução dos encargos financeiros;
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
No Executivo Federal
• Alteração da Instrução Normativa – SRF nº 333/03 –
eliminando a regra da incidência de Imposto de Renda
sobre o resultado das aplicações financeiras, de
titularidade das cooperativas de crédito, fora das cooperativas centrais (bancos em geral);
• Ampliação do acesso ao mecanismo do desconto/
consignação em folha, em relação aos empréstimos e
outras obrigações assumidos pelos servidores públicos
federais cooperados;
• Autorização para as cooperativas de crédito repassarem/pagarem aos prestadores de serviços recursos do
Sistema Único de Saúde (SUS).
Para este ano, os desafios são muitos, mas o compromisso e a participação
de todos são a garantia de superação, tornando viável uma realidade mais
compatível com as necessidades do cooperativismo de crédito no Brasil.
57
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
As vertentes
da gestão
profissional
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Gestão
profissionalizada
nas cooperativas
de crédito
É inegável que os mais de três miManoel Messias da Silva - Presidente
da Confederação Brasileira das Cooperativas
lhões de brasileiros que se unem em
de Crédito - Confebrás
uma cooperativa de crédito visam a
melhorar suas condições de vida, realizar sonhos, promover a segurança para
sua família e, em alguns casos, também contribuir com a comunidade. A
falta de uma gestão profissional de uma instituição financeira de propriedade coletiva inevitavelmente frustrará os anseios dos cooperados, colaboradores e outros envolvidos à medida que os resultados positivos se
transformam em prejuízos.
Começo ressaltando essa questão por acreditar que os dirigentes
cooperativistas devem ter isso em mente a todo o momento. A cada tomada de decisão devem ter consciência dos reflexos de suas ações não só
na administração interna, mas na sociedade em geral. Mais do que evitar a
exposição do dirigente a eventuais crimes contra o Sistema Financeiro ou à
sua responsabilidade civil, a boa gestão deve preservar a confiança e as
expectativas das pessoas envolvidas com o cooperativismo.
Ao enfatizar que o foco do dirigente – seja ele de singular, central, confederação ou outras entidades cooperativas – deve ser o cooperado, quero alertar
para um perfil de pessoas acostumadas às comodidades oferecidas pelo mercado, conscientes de seus direitos e assediados por nossos concorrentes.
59
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Diante desse cenário, resta apenas aos dirigentes adotarem técnicas de gestão adequadas ao seu negócio. Claro que não há regra ou mágica para vencer o
desafio, mas trago aqui algumas reflexões, na esperança de contribuir com meus
amigos dirigentes e, claro, com a tranqüilidade dos cooperados.
Educação, Formação e Informação
Dizer que políticas eficientes de capacitação de dirigentes, do corpo
técnico e dos cooperados são imprescindíveis para a gestão profissional da
entidade cooperativa é chover no molhado. São incontáveis as vezes que
líderes, técnicos e renomados palestrantes enfatizaram o assunto durante
congressos, palestras, artigos e publicações.
A criação do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
(Sescoop) foi uma grande conquista para o movimento e já vem apresentando os seus frutos. No V Encontro de Pesquisadores Latino-Americanos
de Cooperativismo, realizado em agosto de 2008, pela USP de Ribeirão
Preto, nos deparamos com mais de duzentos trabalhos realizados por estudantes, professores e mestrandos que muito podem contribuir para o
sucesso da gestão cooperativista.
No entanto, o que quero acrescentar diz respeito ao conhecimento que
não necessariamente precisa vir da participação de cursos, mas vem da
informação. São as competências que
podem ser adquiridas por dirigentes e
pelo corpo técnico ao analisarem o ambiente interno e externo.
A aplicação de pesquisas, o uso de
indicadores de gestão e, principalmente,
a análise do banco de dados organizado
e informatizado formam uma base de
60
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Um sistema inteligente de dados, com um repertório de informações
sobre os cooperados, permite a mitigação do risco de crédito, a segmentação
de mercado, a criação de novos negócios, a análise da participação dos
cooperados, enfim, uma infinita possibilidade de melhorias. Ou seja, ele
permite “inovar”, realizar a leitura do mercado e buscar alternativas que
melhor se adaptem, concomitantemente, às necessidades dos cooperados e da instituição.
Outra contribuição para a profissionalização é o domínio das novas
estratégias adotadas pelo mercado, em especial os concorrentes. O mercado é dinâmico e as cooperativas de crédito, inseridas neste contexto,
correm o risco de perder sua competitividade se a administração estiver
apenas baseada nas práticas do passado.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
conhecimento personalizada sobre a cooperativa que facilitará a tomada de
decisão e a adoção de medidas pró-ativas em favor dos negócios.
O consultor Ricardo Coelho, em seu artigo Cooperativismo de Crédito –
2008 – Gestão sem Lacunas, escreve com muita propriedade
Percebo que muitas CC (cooperativas de crédito), suas
centrais e suas confederações não estão necessariamente impregnadas desta realidade, tornando-as desatentas à agressividade do mercado. “Esquivam-se” atrás
do sucesso do passado e de inconsistentes grandes
números brutos, (clientes/sobras/crescimento físico...).
Esquecem de ter como balizadores: a constância e qualidade destes números, a eficácia comercial da CC e o
potencial real de seu mercado.
Como eu disse, esquecem de seus cooperados.
61
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
O uso da informação como ferramenta estratégia de gestão seria ainda
mais vantajoso se pudéssemos ter a integração dessa base de conhecimento, de forma a permitir que o cooperativismo de crédito compartilhe
suas experiências e reconheça as competências inerentes ao negócio. Vejo
que há muitos cases de sucesso espalhados pelo Brasil e no mundo, mas
que se perdem pela falta da disseminação do saber. Ou seja, precisamos
unir com mais eficácia a informação e a educação, para atendermos aos
anseios dos cooperados.
Sucessão de Talentos
A discussão sobre a retenção de talentos é fundamental nos dias de
hoje, porque não há como sobreviver num mercado competitivo com pessoas sem talento em nossa cooperativa. Também não dá para investirmos
em sistemas de educação e informação, e esse conhecimento se perder.
A nossa diferença mercadológica só pode estar em gente talentosa que
faça a diferença todos os dias, imprimindo excelência no nosso atendimento e em nossa filosofia.
A edição 2008 do Guia Você S/A-Exame – Melhores Empresas para
Você Trabalhar, realizada com 220 empresas de todo o País, concluiu que
“Mais do que valorizar um bom ambiente de trabalho, a pesquisa desse
ano mostrou que o sentimento
de orgulho em pertencer à determinada empresa está atrelado a práticas consistentes de
gestão de pessoas”. A informação é de Daniela Diniz, editora
do guia. Como reflexo, as empresas estão sofisticando suas
áreas de Recursos Humanos
com ênfase em aspectos como
investimento em liderança, po-
62
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Não me refiro a talentos somente no universo de funcionários. Eles são
imprescindíveis, sem dúvida. Mas, numa organização feita de pessoas para
pessoas, precisamos estender o conceito para o grupo de conselheiros de
administração, fiscal ou diretoria. E mais, identificar em nosso quadro de
cooperados os talentos que possam efetivamente contribuir com a gestão
democrática e a continuidade da organização.
Minha experiência mostra que o sentimento de orgulho em atuar no
movimento cooperativo é uma constância, seja em nível operacional ou
estratégico. No entanto, além termos de encontrar uma forma adequada
para a política de Recursos Humanos, precisaremos ainda trabalhar no processo consistente de capacitação de novos líderes cooperativistas, se não
quisermos correr o risco de ver nossas raízes se perdendo.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
lítica de carreira e desenvolvimento profissional. Tudo isso com a preocupação de reter talentos.
A ausência de um adequado processo sucessório poderá colocar por
terra todos os esforços de uma gestão profissional à medida que os futuros dirigentes, gerentes e técnicos possam não ter o mesmo respeito às
doutrinas cooperativistas e ao cooperado – que é dono e cliente.
A liderança na gestão profissional
A tarefa de adotar uma gestão profissional é um desafio a qualquer líder. Afinal não somos apenas senhores do nosso destino, mas
somos também senhores do
destino de colaboradores, cooperados, familiares e da própria
cooperativa.
63
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
São necessárias muitas competências para administrar, mas considero
o maior desafio de um líder a missão de manter conselheiros, funcionários,
cooperados e entidades representativas bem afinados e conciliados em
função de um objetivo comum.
Acredito que o verdadeiro líder é aquele que, mesmo não estando presente, seus seguidores continuam a perpetuar seus ensinamentos. Por isso,
precisamos pensar a longo prazo. Talvez a sua liderança possa não apresentar grandes impactos em curto período de tempo, mas ela poderá deixar um legado que extrapole o período de sua gestão.
Há muito tempo, com certeza, os tecelões de Rochdale, Raiffensen
ou Desjardins, não tinham idéia da globalização de seus ensinamentos.
No entanto, as boas práticas se perpetuam e a força da mobilização
das pessoas baseada em propostas coerentes é capaz de mudar uma
comunidade ou um país.
Concluindo, é imperativa para uma gestão profissionalizada a adoção
de um planejamento estratégico de longo prazo, que considere as ferramentas citadas anteriormente e conte com um líder que seja referência
para os seus seguidores. Somente um projeto aprovado de forma transparente, democrática e referendado por todos os envolvidos contribuirá para
o alinhamento das condutas do grupo, a satisfação dos envolvidos e a
continuidade dos negócios.
64
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Luiz Gonzaga Viana Lage - Diretor-presidente
do Sicoob Central Cecremge e representante da Confederação Sicoob Brasil no Ceco
Basiléia e a gestão de riscos
como oportunidade para as
cooperativas de crédito
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
“A implantação de Basiléia I foi
um grande avanço como marco
regulatório em nossas
atividades como cooperativas
de crédito.”
O Acordo de Basiléia I foi introduzido pelo Comitê de Basiléia em 1988
e no Brasil teve início em 1994, pela Resolução nº 2.099 do Banco Central
do Brasil, datada em 17 de agosto de 1994. O objetivo foi estabelecer um
padrão uniforme para apuração do capital regulatório mínimo requerido
aos bancos internacionalmente ativos. Como foi fundamentado com base
em um único pilar (Requerimento Mínimo de Capital), permitiu simplicidade de implementação e de comparação de resultados entre instituições
financeiras. O índice de capitalização adotado no Brasil foi de 11% em
relação aos ativos ponderados ao risco.
Com o intuito de aprimorar o cálculo de capital mínimo requerido e
propiciar maior segurança e confiabilidade ao sistema financeiro internacional, o Acordo de Basiléia II, firmado posteriormente, foi consolidado
sobre três pilares:
• Pilar I (Requerimento de Capital Mínimo);
• Pilar II (Processo de Supervisão e Revisão);
• Pilar III (Disciplina de Mercado e Transparência).
65
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Com o Comunicado nº 12.746, de 9 de dezembro de 2004, a Diretoria Colegiada do Banco Central do Brasil “regulamentou os procedimentos para a implementação da nova estrutura de capital – Basiléia II”, bem como o
cronograma para a implementação, posteriormente ajustado pelo Comunicado nº 16.137, de
27 de setembro de 2007.
66
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
No Pilar I (Requerimento de Capital Mínimo), ele deve suportar os riscos incorridos nas
mo)
atividades das instituições financeiras, e o Basiléia II
introduz a exigência de capital para risco operacional
e aprimora a exigência para o risco de crédito. Cabe
aqui ressaltar a declaração de Inácio Salvatierra, presidente da Federação Latino-Americana de Bancos
(Felaban) em 15 de junho de 2004, em Bogotá: “A
adaptação, e não a adoção, das recomendações
básicas do Basiléia II é o caminho que a América
Latina deve tomar... A implementação prematura
de Basiléia II em nossos países pode causar mais
danos do que benefícios.”
No Pilar II (Processo de Supervisão e Revisão)
visão), as instituições financeiras, por meio de
seus gestores, deverão adotar boas práticas na
gestão de riscos por meio da definição de políticas, controles internos e sistemas de informação,
monitoramento e mensuração, mantendo níveis
de capital compatíveis com seu perfil de risco, que
será avaliado e revisto pelo Banco Central.
No Pilar III (Disciplina de Mercado e TTransransparência)
parência), as instituições financeiras deverão ser
transparentes na divulgação de informações sobre
seus riscos e práticas de gerenciamento adotadas.
67
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Conforme material disponibilizado pelo Banco Central do Brasil em workshop
sobre o ambiente normativo de Basiléia II para as cooperativas de crédito e
instituições não-bancárias, realizado em agosto de 2008, destacamos:
Como Premissa fundamental é responsabilidade da
Instituição Financeira desenvolver um processo interno de avaliação de capital e manter níveis de capital
compatíveis com seu perfil de risco e ambientes de
controles bem como o Conceito de Proporcionalidade:
As estruturas de gestão de risco devem ser compatíveis com... a natureza das operações, a complexidade
dos produtos e a dimensão da exposição a risco {...}
da Instituição Financeira. Importante! Estruturas e processos de gestão de risco existem para gerir a Instituição Financeira e não apenas para cumprir a norma!
Fica difícil formarmos uma opinião para um assunto tão complexo e
técnico. Entretanto, arriscaremos algumas considerações de cunho estritamente pessoal, embasadas principalmente em nossas experiências.
Reconhecemos que a implantação de Basiléia I foi um grande avanço
como marco regulatório em nossas atividades como cooperativas de crédito, pois nos proporcionou um norte a ser seguido. Transformou-se, então, numa válvula de onde podemos acompanhar mais de perto a nossa
performance como instituição financeira.
68
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Quanto ao Basiléia II, ainda em fase inicial de implementação – são abordagens padronizadas e avançadas cujo tempo e sua adequação às nossas
peculiaridades medirão com mais precisão a sua eficácia como ferramenta
de controle –, virá disciplinar o mercado, notadamente quanto à transparência nas atividades fins e nos registros contábeis na mitigação dos riscos. No
nosso ponto de vista, não devemos nos enganar acreditando que todos os
processos serão, a partir daí, de fácil solução, pois são pensamentos vindos
de fora e muito diferentes do ser brasileiro. Mas ajudará em muito a análise
e a avaliação dos órgãos de supervisão, além de respaldar a administração
das instituições quanto à adequada avaliação de seus riscos.
69
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
70
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
“Governança Corporativa é o
sistema pelo qual as sociedades
são dirigidas e monitoradas,
envolvendo os relacionamentos
entre Acionistas/Cotistas, Conselho de Administração, Diretoria,
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Governança nas
cooperativas
de crédito
Auditoria Independente e Conselho Fiscal. As boas práticas de
governança corporativa têm a
finalidade de aumentar o valor
Alcenor Pagnussatt - Presidente da
Confederação Sicredi
da sociedade, facilitar seu acesso ao capital e contribuir para a
sua perenidade.” (IBGC/2003)
As cooperativas de crédito são sociedades de pessoas, constituídas
com o objetivo de prestar serviços financeiros aos seus associados, na
forma de ajuda mútua e com base nos valores de igualdade, eqüidade,
solidariedade e democracia.
Pela sua natureza societária, os participantes (associados) assumem, ao
mesmo tempo, a condição de proprietários; responsáveis, portanto, pela
direção da cooperativa; e clientes, atuando no relacionamento negocial
mais satisfatório, defendendo seus próprios interesses de aplicadores ou
tomadores de recursos. Assim, podemos dizer que a cooperativa é a extensão dos negócios de associados com necessidades distintas, podendo
surgir daí conflitos de interesses.
71
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Para evitar tais conflitos e alcançar mais facilmente o equilíbrio, é necessário adotar uma
adequada
estrutura
de
governança, em que haja segregação na participação de associados, gestão estratégica, fiscalização e controle e gestão executiva. O funcionamento
harmônico dessas estruturas
acontece quando os atores reconhecem os princípios da
governança corporativa como eqüidade, transparência e participação
permeando as relações entre os interessados.
A participação dos associados nos eventos de prestação de contas e deliberação dos planos estratégicos desenvolve o espírito de pertencimento na
cooperativa e, por conseqüência, o interesse pelo andamento dos negócios.
Essa participação deve acontecer respeitando as características de cada cooperativa. De acordo com o número de associados, pode ser direta (todos
podem participar) ou indireta (por representação). Na participação indireta,
todos os associados devem sentir-se adequadamente representados. As préassembléias, instrumento que facilita mais ampla participação, devem acontecer em cada um dos municípios ou locais com pontos de atendimento e
mobilizar um maior número de associados, fortalecendo a confiança na
cooperativa, condição essencial ao seu desenvolvimento. Adicionalmente ao
estreitamento do relacionamento entre dirigentes, colaboradores e associados, esses eventos servem para divulgação e inserção da cooperativa na
comunidade. Outro aspecto importante nesse modelo de participação são
os critérios para a eleição dos membros dos órgãos da administração e da
fiscalização: as diversas categorias de associados e as regiões devem sentirse incluídas (representadas) na administração da cooperativa, e a eleição prévia por município ou por categoria possibilita a desconcentração desta representação e evita disputas nas assembléias gerais.
72
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
a) orientação geral e estratégica de atuação da
cooperativa;
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Nas sociedades cooperativas há igualdade de direito a voto; todos têm os
mesmos direitos e obrigações. Portanto, não existe a figura do acionistacontrolador. Por essa razão, as melhores práticas em governança de cooperativa
indicam que o Conselho de Administração deve assumir a condição de acionistacontrolador, atuando na representação do quadro social. Suas atribuições devem ser de gestão estratégica da cooperativa. O Banco Central do Brasil recentemente publicou uma cartilha com o título “Governança Cooperativa – Diretrizes
para Boas Práticas de Governança em Cooperativas de Crédito”, recomendando
as seguintes atribuições e responsabilidades para o Conselho de Administração:
b) definição dos objetivos da cooperativa, que deve
considerar, entre outros, aqueles que visem à perenidade dos negócios;
c) acompanhamento do desempenho dos administradores com funções executivas, sendo,
no mínimo, uma vez ao ano, registrado em documento próprio. A avaliação deve ser realizada
com base em objetivos previamente definidos e
de acordo com o planejamento estratégico;
d) definição de critérios claros e transparentes
de remuneração dos executivos, de forma compatível com a capacidade financeira da cooperativa e com a remuneração praticada no mercado para funções semelhantes;
e) definição de mecanismos de entrega, para
todos os administradores, dos conteúdos das
atas de reuniões do Conselho Fiscal, formal e
individualmente.
73
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Alinhado com as recomendações do Banco Central do Brasil é recomendado ao Conselho de Administração:
a) realizar reuniões mensais com a participação
de todos os componentes;
b) analisar mensalmente o desempenho da cooperativa e do Sistema;
c) participar de cursos de formação e
reciclagem promovidos pelo Sistema;
d) participar ativamente nas reuniões de apresentação e deliberação sobre o planejamento
estratégico da cooperativa;
e) participar, como representante da respectiva localidade, nas reuniões de organização do
quadro social e de prestação de contas nos
postos de atendimento;
f) manter bom relacionamento com a Diretoria
Executiva e o Conselho Fiscal.
74
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
g) manter sempre em dia as suas obrigações
de associado da cooperativa;
h) primar pela imagem de competência e seriedade perante os associados;
i) estimular os colaboradores mediante participação periódica em reuniões de planejamento
de atividades;
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Saber cobrar e estimular a Diretoria e determinar as correções apontadas pelo Conselho Fiscal, quando pertinentes;
j) reunir-se periodicamente com o Conselho Fiscal, contador e Auditoria para certificar-se da qualidade dos controles internos.
No que diz respeito à composição do Conselho de Administração, é importante reforçar a necessidade da representação abrangente, considerando
a área de atuação, a diversidade de formações, as experiências e a capacidade dos componentes para compreender o negócio da cooperativa.
A fiscalização da cooperativa
deve ser conduzida sob a liderança
do Conselho Fiscal. Ele é o órgão encarregado de certificar se a gestão
75
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
estratégica e a gestão executiva estão sendo realizadas em conformidade com os objetivos definidos pelos associados. Deve ter total independência em relação ao Conselho de Administração e à Diretoria
Executiva. Assessorado ou não por serviços de auditoria interna ou
externa, deve certificar à Assembléia Geral o fiel cumprimento das obrigações legais e estatutárias, bem como a veracidade das peças contábeis
e dos relatórios de atividades do exercício.
Para concluir, afinal, a composição do modelo de governança de cooperativa, a gestão executiva deve ser composta por profissionais que se
inspirem nas práticas de organizações vencedoras. Devem ser estimuladores
e realizadores de políticas corporativas de controles que atestem a precisão dos demonstrativos contábeis, fornecendo transparência aos Conselhos de Administração e Fiscal, aos associados, aos órgãos externos de
controle e demais interessados na organização.
A adoção de controles internos e externos com um sistema de informações transparente ao quadro social, por meio dos Conselhos de Administração e Fiscal, garante o cumprimento dos objetivos sociais da cooperativa.
76
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
O microcrédito é um tema que tem gerado muito interesse nos últimos
anos e tem sido reconhecido internacionalmente como uma ferramenta
muito eficaz na luta contra a pobreza e pela inclusão social, principalmente
nos países em desenvolvimento. No Brasil e pelo mundo afora, vários seminários, conferências e fóruns debatem a importância do microcrédito
como instrumento de desenvolvimento, sobretudo para camadas da sociedade (rural e urbana) menos favorecidas, com dificuldades de acesso ao
Sistema Financeiro e que não possuem garantias para dar em troca.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Microcrédito e cooperativismo
como forma de desenvolvimento
local e inclusão social
No passado, a prioridade dos agentes financeiros e do governo era direcionar o crédito
para financiar grandes projetos. No cenário
político brasileiro, os debates sobre
microfinanças sempre ficaram relegados
a segundo plano. Por isso, nossa histéria
é recente se for comparada com a de
outros países da América do Sul.
A estruturação da proposta de
microfinanças no Brasil ganhou força nos últimos dez anos, a partir
de uma decisão política do governo federal de desenvolver o setor,
traduzida em medidas con-
Vanderley Ziger - representante
da Ancosol
77
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
cretas como desburocratização para a criação de instituições financeiras,
flexibilização das normas pelo Banco Central, democratização do acesso
ao crédito e formulação de políticas públicas mais clara, sobretudo para a
agricultura familiar com a criação do Pronaf.
Para a próxima década, a tendência mostra-se positiva para a expansão
do microcrédito, não só no Brasil como em nível mundial. Uma das tendências que identificamos é o Crédito para o Desenvolvimento
Desenvolvimento, defendida pelas instituições da sociedade civil e dos movimentos sociais organizados, que orienta a aplicação do crédito para o enfoque voltado ao
desenvolvimento das comunidades e municípios, descentralizado e articulado com parceiros locais e regionais. Uma proposta de crédito capaz de
articular e atender às outras áreas do desenvolvimento humano, como: a
educação, a saúde, o meio ambiente, a qualificação profissional, a habitação, a organização econômica, a produção, a valorização dos aspectos
sociais e culturais, a agroecologia, entre outras.
Além da estratégia política maior, o sucesso do projeto de microfinanças
deve estar associado a uma nova abordagem, na qual a garantia de participação da sociedade organizada na gestão, no controle do processo e nas
decisões, são condições imprescindíveis para fortalecer os espaços de participação e comprometimento dos beneficiários.
Para o Sistema Cresol, o desafio é, cada vez mais, transformar o crédito
rural (microcrédito) num potente instrumento de desenvolvimento. Nossa meta
é construir caminhos de cooperação que consigam articular melhoria na produção dos agricultores, organização social e parcerias, sem esquecer das outras necessidades, tendo em vista o bem-estar das famílias associadas.
Portanto, o microcrédito, articulado aos investimentos que o Sistema
Cresol vem fazendo na geração de conhecimentos e no processo de formação de seus associados, é sem dúvida uma das mais importantes ações
de transformação capaz de provocar uma revolução no desenvolvimento
de regiões predominantemente da agricultura familiar.
No Sistema Cresol, a maior parte dos financiamentos é enquadrada como
78
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Em 2007, a Cresol teve importantes reconhecimentos internacionais. O
rating, feito pela Planet Rating, agência de qualificação especializada em
microfinanças que presta serviços referentes a evolução e qualificação, elevou a nota da Cresol de C+ para B com tendência positiva, o que significa
Bom. A nota significa uma instituição com procedimentos bem desenvolvidos e eficientes, incluindo uma perspectiva de longo prazo.
Com a melhor qualificação do rating, a Cresol também conquistou melhor desempenho na qualificação dada pela The Mix Market
(www.mixmarket.org), site que reúne informações de instituições que atuam
com microfinanças de todo o mundo, chegando à pontuação máxima.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
microcrédito. A política de descentralização e pulverização da carteira tornou a Cresol reconhecida como uma das mais importantes instituições de
microcrédito com interação solidária no País e até fora dele.
Cada vez mais somos reconhecidos internacionalmente como uma cooperativa de crédito que opera microcrédito com um trabalho sério e de interesse
social. Isso é importante para o sistema, pois demonstra o trabalho sério que
as cooperativas singulares, as bases regionais e Central Baser fazem.
Além do reconhecimento internacional, a Cresol vem se tornando referência no Brasil, quando o assunto é cooperativismo com interação solidária. Cada vez mais as cooperativas do Sistema Cresol recebem visitas de
representantes de outros estados do Brasil que se espelham na Cresol para
montar cooperativas com interação solidária em sua região.
O que a Cresol está fazendo no Sul do País está sendo multiplicado para
outras regiões onde não existe ainda um sistema financeiro eficiente, onde
o crédito é difícil para o agricultor familiar. Nesses locais as cooperativas de
crédito surgem como uma importante ferramenta no desenvolvimento
local e no fortalecimento regional, espelhados nas experiências da Cresol.
O Sistema, além de ter uma ação local, com uma dinâmica que desenvolve os pequenos municípios, também é referência para outros ramos do
cooperativismo. Temos também a obrigação de propor políticas públicas
79
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
que possam fortalecer o cooperativismo no Brasil e permitir que cada vez
mais os agricultores familiares, que poucas vezes ou que até nunca tiveram
acesso ao crédito, possam ver no Sistema Cresol e nos sistemas parceiros a
grande oportunidade de permanecer no campo, produzindo alimento.
Todo recurso depositado em uma cooperativa singular da Cresol fica na
cooperativa e vira microcrédito para outros agricultores da área de sua
abrangência que necessitam do dinheiro. Esse processo é avaliado pelos
agentes e pelos técnicos. Todo trabalho é feito para não endividar o agricultor familiar e para dar a ele a oportunidade de se desenvolver na terra,
produzindo e ganhando seu dinheiro.
Esse trabalho é muito importante e dá ao agricultor o apoio necessário
para que ele possa investir o dinheiro da melhor forma possível. Diferente
do sistema financeiro tradicional, com a nossa forma de trabalhar, o agricultor familiar não é apenas um número, mas sim um importante ator na
administração dos recursos e do Sistema Cresol.
Para o Sistema Cresol, continuar aplicando recursos de microcrédito no
financiamento de custeio e investimento na agricultura familiar é mais do
que apenas estimular a produção, é, sobretudo, realizar o sonho de milhares de famílias e resgatar a aptidão e o potencial de regiões esquecidas
pelas políticas públicas há muitos anos.
Além dos elementos políticos e estratégicos que orientam a aplicação
do microcrédito, é fundamental citar alguns fatores que podem contribuir
muito para o sucesso na aplicação dos recursos:
• Melhorias nos sistemas de informação;
• Qualificação de pessoas para atuar no processo de operação do crédito;
• Melhoramento dos instrumentos de gestão das
entidades;
80
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
• Países que possuem legislação bem definida;
• Países que possuem políticas públicas de estímulo
e incentivo;
• Associar o desenvolvimento com a sustentabilidade dos recursos. Para isso, é necessário
melhorar o entorno regulatório (leis). Para a
grande maioria dos países pobres, não existe
marco regulatório. Na maioria dos casos, as medidas são proibitivas;
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
• Necessidade de ser mais eficiente por perceber que os grandes bancos estão entrando na
área do microcrédito;
• Necessidade dos agentes financeiros disporem
de sistemas de informação que possibilitem agilidade e confiança para quem opera microfinanças;
• Identificar os locais mais necessários para a
aplicação do microcrédito;
• Manter as atividades essenciais e crescer;
• O microcrédito deve superar a situação de
vulnerabilidade;
• Possuir uma carteira diversificada de produtos e serviços adaptada à realidade das comunidades.
Práticas como transparência, democracia nas decisões e ética na aplicação e no repasse de crédito são premissas para um cooperativismo forte e
com responsabilidade social. O objetivo das cooperativas Cresol, por meio
da interação solidária, é transformar o crédito e o trabalho na propriedade
rural em meios para libertação humana dentro de um processo de democratização econômica.
81
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
A descentralização das decisões e a criação de cooperativas municipais
proporcionam aos agricultores familiares participação ativa na direção das
cooperativas. Um exemplo disso é o trabalho dos Agentes Comunitários
de Desenvolvimento e Crédito da Cresol, que são agricultores com a função de levar até os demais associados diretamente em suas comunidades
debates sobre temas importantes para o fortalecimento da agricultura familiar, como o desenvolvimento local e o controle social.
Os agentes fomentam, ainda, discussões sobre o papel do crédito como
instrumento para a construção de um sistema de produção sustentável
para as unidades familiares de produção, com a adoção de tecnologias que
possibilitem ao agricultor desenvolver seus projetos sem afetar o equilíbrio
da natureza, melhorando, assim, sua condição de vida no campo.
A Cresol busca o desenvolvimento social dos agricultores familiares e a
elevação da sua auto-estima também por meio do Programa de Habitação
Solidária (Habitasol). O programa tem como objetivo viabilizar às famílias
agricultoras condições de viver no campo com conforto e segurança, o
que reflete na qualidade de vida e no desejo de permanência na propriedade. Com esse projeto, o Sistema Cresol contribui para o desenvolvimento
local sustentável e para o fortalecimento da agricultura familiar.
No ano de 2007, as cooperativas filiadas à Central Cresol Baser realizaram R$ 70 milhões em operações de até R$ 10 mil. Esses recursos
viabilizaram uma série atividades, como pré-custeio agrícola, pequenos
investimentos na propriedade, produção de alimentos orgânicos, atividades
agroecológicas e diversificação na produção agrícola.
Baseados nos princípios do desenvolvimento sustentável e da responsabilidade social, as cooperativas Cresol buscam o fortalecimento dos seus associados por meio da aplicação de um crédito justo, com o objetivo de inserir as
famílias agricultoras na sociedade. Fortalecendo os agricultores familiares e
contribuindo para sua permanência do campo, produzindo alimento através
do microcrédito, a Cresol colabora para a diminuição do êxodo rural, para o
aumento na produção de alimentos, para a descentralização das riquezas produzidas no País e para a preservação do planeta para as futuras gerações.
82
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
A união dos
sistemas para
criação da Cnac
completa um ano
Confederação Nacional
de Auditoria Cooperativa
já realizou 446 auditorias
em cooperativas de crédito
dos sistemas Sicredi,
Sicoob e Unicred.
Alexandre Euzébio Silva - Diretor da
Confederação Nacional de Auditoria Cooperativa
No dia 9 de agosto, a Confederação Nacional de Auditoria Cooperativa
(Cnac) completou um ano de constituição. A entidade foi criada a partir
das exigências da Resolução nº 3.442, do Conselho Monetário Nacional
(CMN), publicada no dia 28 de fevereiro de 2007, e tem o objetivo de promover a prestação de serviços de auditoria independente com a finalidade
de verificar a adequação das demonstrações contábeis e o cumprimento
dos demais aspectos normativos aplicáveis nas cooperativas de crédito. Esse
era um antigo desejo das lideranças do cooperativismo de crédito nacional e
do Banco Central do Brasil, pois visa a ser o alicerce para novos desafios e
evoluções normativas e estruturais para os sistemas de crédito cooperativo.
Participaram da constituição 24 centrais e três confederações pertencentes aos sistemas Sicredi, Sicoob, Unicred e mais a central Federalcred,
que juntos representam mais de 800 cooperativas de crédito singulares no
Brasil. Essas cooperativas formam o universo de auditoria na qual a Cnac
deverá se estruturar para execução de seus serviços. O quadro abaixo apresenta as centrais e confederações filiadas e a distribuição geográfica das
cooperativas de crédito singulares por sistema a que pertencem.
83
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Apesar de constituída no mês de agosto de 2007, somente em 11 de
outubro a Cnac teve aprovado seu registro no Cadastro Nacional de Pessoas
Jurídicas (CNPJ) e pôde finalmente iniciar de forma oficial suas atividades.
Durante quase um ano, foram efetuadas 446 auditorias em cooperativas de
crédito, referente ao exercício de 2007, integrantes de dez centrais filiadas à
Cnac. Para o ano de 2008 já estão contratadas, até o mês de julho, 462
auditorias em singulares pertencentes a 12 cooperativas centrais.
Para atender a essas demandas e com apenas dez meses de atividade, a
Cnac conta com 57 profissionais, distribuídos em três escritórios regionais,
nas cidades de São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Com relação aos beneficiados com a auditoria independente, além dos
gestores, os maiores interessados nas auditorias das demonstrações
contábeis são os usuários externos, que tomam suas decisões de investimentos e acompanham a performance dos gestores por meio dessas demonstrações. No caso das cooperativas de crédito, alguns exemplos de
usuários externos são os cooperados, Banco Central do Brasil, bancos cooperativos, bancos públicos e privados, fornecedores, fundos garantidores,
governo e a sociedade em geral.
84
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Como se pode perceber, a Cnac é a única entidade do cooperativismo
de crédito que congrega mais de um sistema do crédito cooperativo no
Brasil e seus propósitos estratégicos vão além de um simples ganho de
escala em custos para realização de auditoria. O ganho está na qualidade
dos serviços oferecidos, por meio de um padrão único de auditoria, de
forma a propiciar novos avanços para o cooperativismo de crédito, entre
eles a criação e a instituição de um fundo garantidor único de depósitos.
Os valores da confederação são de efetuar seu trabalho com o máximo de
profissionalismo, segurança, qualidade e independência. Para tanto, adota diretrizes
que visam a remunerar seus profissionais conforme o mercado de auditoria, estabelecer programas de capacitação continuada, utilizar as melhores práticas de
auditoria e informatizar seus processos e procedimentos. Além disso, os trabalhos
buscam manter a independência e a neutralidade em seus julgamentos e conclusões. A figura a seguir demonstra o enfoque de auditoria utilizado pela Cnac.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Qualidade, foco da Cnac
85
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
A independência do auditor é fundamental para execução de seu trabalho
e para atingir este objetivo a Cnac tem as seguintes regras definidas:
a) impossibilidade de o auditor ser sócio da
cooperativa auditada;
b) rodízio obrigatório de auditores;
c) não auditar cooperativas cujos seus conselheiros (Cnac) exerçam cargos estatutários ou
função de gerência;
d) vedada a contratação de auditores pelas cooperativas por um período de um ano após o fim dos
trabalhos de auditoria; e
e) não auditar entidades com vínculo societário
direto.
A Cnac e a governança
Além dos aspectos de independência, o próprio estatuto social da Cnac
traz algumas práticas de boa governança corporativa, destacando o rodízio na presidência do Conselho de Administração, a “blindagem” para
atuação plena e imparcial do corpo técnico em relação aos conselheiros
eleitos, requisitos mínimos de contratação dos executivos e critérios de
elegibilidade de conselheiros, sendo limitado a um representante de cada
sistema de crédito cooperativo por meio de suas confederações.
Como entidade de auditoria externa, a Cnac deve promover avanços na
gestão e no processo de governança corporativa das cooperativas de crédito. Dentre esses avanços destacam-se contribuir para obtenção de me-
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Por fim, as atividades da Cnac têm papel importante e fundamental no
aprimoramento do processo de governança corporativa das cooperativas
de crédito. Papel muito bem definido no manual de melhores práticas de
governança corporativa publicado pelo Instituto Brasileiro de Governança
Corporativa (IBGC): “A atividade de auditoria independente é uma das ferramentas que garantem o controle da propriedade (cooperados) sobre a
gestão (dirigentes, conselheiros e executivos)”.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
lhores informações sobre a real situação econômica, patrimonial e financeira das cooperativas, assegurar maior transparência das informações,
aumentar a credibilidade externa, permitir análises e comparações de informações contábeis padronizadas, propiciar a diminuição do custo de
captação de recursos e até quem sabe possibilitar estudo para redução de
limites operacionais e para alocação de capital das cooperativas de crédito.
87
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
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Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Texto especialmente preparado
para a OCB e a apresentação do VI
Workshop Internacional de
Tendências do Cooperativismo
com o tema Internacionalização das
Cooperativas de Crédito.
FEA-RP/USP - Ribeirão Preto
Agosto de 2008.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Sigismundo Bialoskorski Neto - Professor Titular e Vice-Diretor da Faculdade de
Economia, Administração e Contabilidade de
Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo
A internacionalização de
negócios e as cooperativas
de crédito
As razões para a estratégia de internacionalização
O tema das estratégias de internacionalização de negócios das cooperativas de crédito é importante em função de dois fatores. Primeiro a
verificação da estratégia de internacionalização de negócios dos grandes
bancos com a conseqüente diversificação da sua carteira de investimentos, estratégia que não é acompanhada pelas cooperativas de crédito e
seus bancos. Segundo, a percepção da expectativa internacional da possibilidade de investimentos no Brasil em vários setores da economia, em
particular o de agronegócio e bioenergia, concomitante ao fator de que
o Brasil recebe uma nova e promissora classificação de investimento pelas agências internacionais.
Aliado a esses fatores pode-se também verificar de que há liquidez nos
grandes sistemas cooperativos de crédito internacionais que poderia ser
direcionada para investimentos em novos setores e países. Assim, perce
89
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
be-se que há um início de preocupação estratégica internacional, por
parte dos bancos e das cooperativas de crédito, sobre a oportunidade e a
necessidade de internacionalização de negócios cooperativados. Isto é, a percepção de que há uma oportunidade de investimentos em ativos e negócios
rentáveis em países em desenvolvimento.
Assim, os sistemas brasileiros de cooperativas de crédito, principalmente aqueles que atuam nos agronegócios, poderiam se tornar aptos a participar desse processo, não somente recebendo recursos internacionais provenientes dessa liquidez como também em conjunto com as cooperativas
agropecuárias, estabelecendo projetos de investimento em agroenergia e
outras atividades do agronegócio no Brasil.
Deve-se considerar que os bancos cooperativos brasileiros apresentam
solidez necessária para tal empreendimento e poderiam estabelecer parcerias estratégicas com bancos cooperativos internacionais de forma a possibilitar o fluxo de recursos e as alternativas de investimentos no Brasil.
Nesse aspecto não se pode deixar de relevar a importância do agronegócio
brasileiro na pauta de exportação. Perto de 1/3 das exportações é efetuado
por cooperativas agropecuárias exportadoras de soja, café, carnes, açúcar e
outros produtos, e esses negócios necessitam de serviços financeiros no País
e fora do País, que poderiam ser prestados pelos bancos cooperativos e seus
prováveis parceiros internacionais, o que sem dúvida alguma seria um importante serviço e uma receita para os bancos cooperativos.
Ainda, em uma internacionalização de negócios por parte das cooperativas agropecuárias brasileiras, os bancos cooperativos internacionais
podem ser importantes parceiros de investimentos em seus países de
origem, diversificando o portfólio de investimentos e promovendo os
negócios cooperativados de forma eficiente.
Para tanto, há a necessidade de discussões sobre essas possibilidades, bem como sobre o ambiente institucional necessário para que essas
estratégias possam ocorrer. A participação especial do Banco Central
do Brasil nesse processo é de fundamental importância, pois somente
90
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Dessa forma, poderiam ser discutidas oportunidades de investimentos
e de direcionamento da liquidez internacional para aplicação no Brasil por
meio dos sistemas de crédito brasileiros.
Os desafios da internacionalização
Jones e Bialoskorski Neto (2006) argumentam que o sistema cooperativo é formado por associados locais e está ligado a uma rede significativa
de agentes econômicos e sociais, comunitários e locais. Os associados estão ligados a organizações regionais, mas por meio da identidade cooperativa, em nível nacional e internacional.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
com um conjunto sólido de regras institucionais será possível o início
de uma discussão entre os bancos cooperativos e seus prováveis
parceiros internacionais.
Considerando-se as razões para que as cooperativas se internacionalizem, temos de reconhecer que as estratégias e os resultados terão impacto nos atores econômicos em vários níveis e em várias formas. O capital
social e as redes sociais são importantes para definir a eficiência cooperativa e esse tipo de capital só é criado em nível da comunidade, segundo
Faulkner e Rond (2000) e Granovetter
(1985). Assim, a deslocalização da cooperativa é a mais importante dificuldade para o processo de
internacionalização, pois corrobora
contra a manutenção e o incentivo de
crescimento do capital social.
As cooperativas são inicialmente
formadas para possibilitar a inserção ao
mercado financeiro de seus associados,
e possibilitar também a prestação de
serviços a um grupo culturalmente
91
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
homogêneo e localizado em uma área geograficamente delimitada
(CRUZ e BUCCOLA 2004).
O atual estágio de globalização, com a redução de barreiras à circulação
trans-fronteira de capitais, pessoas, idéias, tecnologias e cultura, modifica o
ambiente de negócios em que as cooperativas estão inseridas e colaboram
para o avanço de estratégias de internacionalização (TALLMAN, 2002).
Algumas mudanças importantes devem ser discutidas de forma que as
organizações possam obter os benefícios potenciais derivados dos processos de internacionalização. São esses:
a) A nova dimensão da concorrência entre as empresas e
as organizações, que implicam novas considerações de redução de custos;
b) A consolidação dos negócios que implicam, em nível
internacional, a obtenção de novas e importantes oportunidades únicas para as empresas e organizações;
c) Os esforços em pesquisa e desenvolvimento visando à
inovação tecnológica e de processos, inclusive de gestão, que
são possibilitados somente em tamanho e escala internacional;
d) A existência de grande número de empresas
transnacionais, que se traduz em uma estratégia conhecida e já analisada;
e) As relações internacionais em blocos econômicos, que
possibilitam um novo paradigma para a homogeneização
do ambiente institucional.
92
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
A redução de preços no mercado imposta pelas empresas concorrentes exercerá pressão para que as outras empresas também tenham que
diminuir os seus custos, aumentar a sua eficiência e procurar novos mercados. Baird et al. (1994) estudam e mostram uma relação positiva entre a
taxa de mudança em uma organização em função de seu processo de
internacionalização. Nesse processo sabe-se que em conjunto com o aumento da concorrência é intensa também a tendência para a consolidação
ou a integração vertical e horizontal das organizações.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Essas características remetem a uma situação estratégica conhecida e
um aumento acentuado na competição, devido aos processos de
liberalização, privatização e de sourcing internacional do capital e irão
impactar as cooperativas de forma cada vez mais significativa, segundo
Stanford e Hogeland (2004), Cook (2000) e Clamp (2000).
Jones e Bialoskorski Neto (2006) consideram que os avanços tecnológicos
também irão criar pressão sobre as empresas para essas considerarem a
internacionalização de suas operações, e sua integração no sistema global
que irá representar um desafio, tanto em termos de financiamento como
principalmente no desenvolvimento dos recursos humanos.
As empresas procuram cada
“As cooperativas são inicialmente
vez mais ligações internacionais
formadas para possibilitar a inserção ao
para se manter atualizadas.
mercado financeiro de seus associados,
e possibilitar também a prestação de
serviços a um grupo culturalmente
homogêneo e localizado em uma área
geograficamente delimitada
(CRUZ e BUCCOLA 2004).”
Os mesmos autores discutem que o componente importante é que o atual ambiente empresarial e o aumento nas
relações internacionais fazem
com que os processos de
internacionalização sejam hoje considerados de forma mais usual. Mas no
caso financeiro há um aumento da probabilidade do fluxo de capital ser de
origens não-domésticas, e as empresas são pressionados para adquirir conhecimento e capacidade de lidar no mercado internacional ou de estabelecerem parcerias para essa habilidade.
93
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Há alguns benefícios da internacionalização para as cooperativas de
crédito. O primeiro é que o processo de internacionalização pode prever
ações com economias de escala por meio da conjugação de esforços comuns entre organizações, por meio de contratos, de forma a melhor gerir
os fluxos de capitais e ganhar alternativas de mercado. O segundo é que as
organizações podem desfrutar de uma estratégia internacionalizada, que
lhes oferece vantagens e poder para fazer negócios e desenvolver a sua
reputação também na comunidade empresarial. Em terceiro lugar, no caso
do investimento direto estrangeiro, uma empresa que internacionalize seu
fluxo de capitais pode ganhar vantagem local por estar presente e poder
participar também do mercado estrangeiro.
Mas no caso das cooperativas há também problemas e barreiras a essa
estratégia. Há alguns critérios que as cooperativas devem satisfazer a fim
de serem capazes de competir e participar efetivamente no mercado internacional, que podem ser adaptados à discussão das cooperativas de crédito e o funcionamento dos mercados financeiros.
Primeiro, a confiança e a solidez da organização cooperativa receptora,
de forma a possibilitar o acesso ao capital de poupança internacional em
períodos em que o capital não esteja disponível no país ou local de origem.
Nesse item, a forma adequada de governança corporativa, como
profissionalização e transparência, é importante.
Segundo, a reputação de uma gestão segura de capitais, a custos compatíveis, com qualidade, inovação e experiência em mercados. Além disso,
a apresentação de um conjunto de habilidades relacionadas a negócios
internacionais, incluindo as de caráter cultural, e de know-how técnico.
94
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
De acordo com Errasti et al. (2003), a forma cooperativista de organização, devido a obstáculos de ordem econômica, jurídica, cultural e de
natureza, não permite facilmente organizar as suas atividades no exterior e
também é um obstáculo aos acordos estratégicos visando à criação de
joint venture. As principais preocupações são quanto aos limites geográficos limitados das cooperativas, as contradições de financiamento, de gestão e de diferentes culturas.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Baird (1994) cita a necessidade de se estabelecer sistemas gerenciais de
planejamento e estratégia para os negócios internacionais, pois esses exigem flexibilidade, capacidade de resposta a estímulos de negócios e constante reavaliação de desempenho, metas e métodos. Sem uma gestão
concebida especificamente para formular as políticas da cooperativa em
mercados internacionais, essas podem ter problemas com a viabilidade
dessas estratégias no longo prazo. Muitos observadores têm evidenciado
dúvidas sobre a viabilidade da aplicação da cooperativa em um modelo
empresarial de nível internacional.
O principal desses fatores é que há diferentes domínios espaciais das
cooperativas em comparação com as estratégias propostas, ou seja, enquanto esses são em grande parte locais ou regionais, as estratégias de
uma corporação internacional, de ações globais, apresentam dificuldades
de abordar os seus membros de base regional e simultaneamente para
atender a necessidades e pressões do ambiente global (STANFORD e
HOGELAND 2004; COOK, 2000).
Fairbairn (2002) resume esses problemas argumentando que os membros se
sentem menos associados às organizações que parecem mais remotas ou de
difícil de compreender. Há menos confiança e fidelidade quando a direção da
cooperativa está afastada ou está ativa em muitas linhas de produtos ou regiões.
Jones e Bialoskorski Neto (2006) afirmam que há um desafio nítido de
governança que decorre da internacionalização, pois surgem controvérsias em torno das questões de representação justa em entidades formadas
95
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
por organizações de diversas origens geográficas. Assim, quando grupos
de interesses dentro de uma cooperativa percebem divisões entre os membros, poderá ser difícil obter consenso.
Mesmo em face da globalização da cultura e do aumento da comunicação e da compreensão internacional, ocorrem grandes diferenças culturais entre as cooperativas e isso pode influenciar a forma de gestão cooperativa, mesmo que os seus princípios e valores sejam idênticos. Errasti et
al. (2003) evidenciam as dificuldades com a cultura, os modos de comunicação e hábitos de negócios que podem se caracterizar como desafios de
harmonizar idéias sobre objetivos e planos futuros.
Estratégias de internacionalização de
cooperativas de crédito
Os negócios internacionais no âmbito do mercado financeiro geralmente podem tomar algumas formas:
a) a captação de capitais no exterior, ou por
meio da emissão de títulos ou por meio de
atração de capital;
b) o investimento no estrangeiro, ou por meio
da compra de títulos ou por meio de investimentos diretos;
c) de estratégias contratuais na formação de
novos negócios, isto é, alianças estratégicas
como joint ventures ou holdings.
96
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
As cooperativas muitas vezes ficam impedidas de optar por uma
estratégia em função das razões expostas anteriormente. Assim, os
bancos cooperativos, que assumem a forma empresarial privada
e não cooperativa, podem escolher
algumas estratégias baseadas em
uma internacionalização dos negócios, não somente no processo de
atração de capitais de investimento, como na emissão de títulos, como
até em uma internacionalização da
estrutura organizacional prevendo-se o investimento direto.
Essas estratégias deverão ser escolhidas em função de um número de
fatores, tais como características dos mercados de capitais, possibilidades
de investimento, e de objetivos de longo prazo.
Como essa discussão explora o estabelecimento de estratégias de
internacionalização relacionadas às cooperativas, algumas providências podem ser tomadas domesticamente, como oferecer operações de câmbio e
financeiras para as atividades de exportação das cooperativas agropecuárias,
e outras em nível internacional, como envolver as cooperativas e os bancos
cooperativos internacionais nesse processo. Essas providências podem ser
um início de formação de experiência em internacionalização.
A segunda, e importante, é o preparo para receber recurso para investimento específico no Brasil. As cooperativas são organizações únicas, que
conhecem profundamente os mercados agropecuários brasileiros, bem
como as suas oportunidades, e, portanto, podem atrair e gerenciar capital
de investimento internacional originado da poupança das próprias cooperativas de crédito internacionais. Esse caminho pode ser trilhado por meio
da emissão de títulos ou por meio do estabelecimento de organizações
responsáveis por gerir investimentos estrangeiros no Brasil.
97
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Uma joint venture poderia oferecer o necessário controle e monitoramento
por todas as partes e coordenar essas ações, em articulação com as cooperativas agropecuárias. Portanto, o aspecto da forma de internacionalização
pode variar e depender das necessidades das partes interessadas.
De qualquer maneira, para cada uma dessas opções somente um ambiente institucional legal, sólido e lúcido poderia incentivar esse processo,
que mudaria o escopo de atuação e discussão do cooperativismo brasileiro.
O objetivo é exatamente esse, provocar uma discussão que propiciará
nos próximos anos uma possível nova posição das cooperativas de crédito
brasileiras e seus bancos no cenário internacional.
98
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
BAIRD, I. S. et al. “The Choice of International Strategies by Small
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100
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Transformando realidades
no Brasil
Márcio Lopes de Freitas Presidente do Sistema OCB
O cooperativismo, em sua essência, tem por
objetivo proporcionar melhores condições financeiras, econômicas e sociais àqueles que dele
fazem parte. Conduzido com transparência e
boa governança, se mostra muito eficiente no
que se dispõe a alcançar.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Cooperativismo de
crédito e o interesse
pela comunidade
Nesse contexto, estão as cooperativas de crédito, exemplos de gestão e
eficiência para o setor. O fato de estarem inseridas no mercado financeiro
nacional no qual a velocidade das mudanças é extremamente dinâmica, as
exigências de regulamentações são constantes e cada dia mais complexas,
e a disputa de mercado, altamente competitiva, faz com que apenas àqueles
com excelência consigam se manter.
Mesmo inseridas em um mercado por vezes traduzido como o “âmago do capitalismo
selvagem”, as cooperativas de crédito permanecem atentas às exigências desse cenário, mas
sempre focadas em seus objetivos maiores, de
atender seu quadro social na busca por melhores produtos e serviços financeiros.
Além de buscarem a melhor relação entre
os juros a serem pagos pelos associados (operações de crédito) e aos associados (aplicações
• A cada 100 contratos
de operações de
empréstimos, em média
56 são de valores
até R$ 3.000,00.
• Presente em mais de 30%
dos municípios brasileiros.
• Mais de 10 milhões
de brasileiros beneficiados.
101
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
financeiras), e proporcionar o menor custo de manutenção de conta, também distribuem no final do período sobras aos cooperados.
Nesse sentido, de reduzir custos para os tomadores, maximizar a rentabilidade para os poupadores e ainda auferir sobras no final do período,
matemática que exige profissionalismo e alta competência na administração dos recursos e gestão dos processos, as cooperativas de crédito tomam para si um papel de fundamental impacto nas localidades onde atuam,
conferindo melhores condições financeiras a seus associados.
Ilustrando essa afirmação, a Organização das Cooperativas Brasileiras
(OCB) calcula que, se não existissem cooperativas de crédito no Brasil e
seus associados tivessem de buscar empréstimos em instituições financeiras convencionais, pagariam um valor de R$ 154 milhões de juros a mais
por mês. Em um ano, teriam pago um montante de mais de R$ 1,84
bilhão. Percebe-se em exemplos como esse a realidade mais benéfica que a
cooperativa proporciona.
Como as cooperativas de crédito
geraram um diferencial de renda para os
associados de R$ 154 milhões no mês,
estima-se 1,84 bilhões no ano.
Esses recursos deverão gerar investimentos
e consumo, com a circulação de
mercadorias no comércio local.
Portanto, o cooperativismo irá gerar
adicionalmente, por meio do pagamento
de impostos pelo associado, uma
contribuição aos governos estaduais e
federal em torno de R$ 47 milhões
no mês e R$ 561 milhões no ano.
Fonte: OCB - junho/2006
102
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Mas quando a cooperativa de crédito transforma vidas? A resposta é
simples. Quando segue os valores do cooperativismo e seus princípios.
Mais ainda, quando tem uma atuação focada
no 7º princípio, norteador das ações do
setor, o interesse pela comunidade, a
responsabilidade social.
Muitos são os exemplos. Podemos
citar aquele associado que mora em
uma cidade distante dos grandes
centros e que tem como instituição financeira em sua cidade a cooperativa
de crédito. Ou ainda aquela família que,
por meio da cooperativa, consegue
finalmente reformar ou construir o seu
lar, a sua casa. Ou também aquele associado que não está inserido no mercado
formal e por vezes, em função do excesso
de exigências burocráticas ou até mesmo
desinteresse dos grandes bancos, tem na
cooperativa de crédito o seu grande parceiro
para fazer crescer o seu negócio e prover sua
família com dignidade e orgulho.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Além de conferir um ambiente mais próspero no campo das finanças, o cooperativismo de crédito transforma vidas, realidade intrínseca
em sua origem. Afinal, as cooperativas foram, são e sempre serão sociedades de pessoas e não de capital.
E os municípios e comunidades? A cooperativa de crédito beneficia um grande grupo e,
conseqüentemente, a região onde está inserida,
elevando a capacidade de produção e riqueza
de uma comunidade ou de um município. Desencadeia-se dessa forma um processo de evolução socioeconômico e cultural que propaga
103
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
um ambiente propício para uma sociedade mais justa e fraterna.
Enfim, são milhares as situações de êxito e mudanças substanciais decorrentes da atuação das cooperativas de crédito, conferindo melhor qualidade de vida a seu quadro social e também às comunidades onde estão
presentes. Nesse contexto, estão ações e projetos sociais desenvolvidos pelo
segmento por todo o País.
Cooperativas de crédito realizam atividades, ações e projeto sociais
voltados para o desenvolvimento e crescimento pessoal, focando na educação, na preservação ambiental, na prática do esporte, na capacitação e
formação, na saúde e na cultura. São organizações de pessoas que investem e apostam em atividades voltadas para a formação, em prol de um
país mais cooperativo e uma sociedade melhor para todos.
Por fim, é fato que o cooperativismo de crédito exerce um papel essencial transformando a vida de mais de 3,6 milhões de associados e, por
conseqüência, melhorando a realidade do nosso País. Mas também é fato
sua capacidade para ampliar o alcance desses benefícios e transformar
consideravelmente a vida de muito mais brasileiros.
104
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Ademar Schardong - Diretorpresidente do Banco Sicredi
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Cooperativa
de crédito:
instrumento
de organização
econômica da
sociedade
Institucionalmente, as cooperativas de crédito distinguem-se dos bancos comerciais, especialmente, nos seguintes aspectos:
a) são sociedades de pessoas, e não de capital, em que o poder de decisão está na efetiva
participação dos sócios, e não na detenção de
cotas do capital social da instituição;
b) seu objeto é a captação e a administração
das poupanças, empréstimos às atividades e
prestação de serviços aos cooperados, independentemente da idéia de, como pessoa jurídica,
obter vantagens para si, em detrimento do resultado ao sócio, este investido da dupla qualidade: de associado e cliente das operações e dos
serviços cooperativos;
105
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
d) os resultados são distribuídos entre os sócios, propor-cionalmente ao volume de operações que realizaram durante o exercício;
e) as relações obrigacionais entre sócio e cooperativas não se confundem com a de fornecedor e consumidor, pois estas são caracterizadas como atos cooperativos, com tratamento próprio na legislação cooperativista;
f) sobre o resultado não incide Imposto de
Renda e Contribuição Social, em face da tributação se dar na pessoa física do associado.
Não obstante, a concentração do sistema bancário e o atendimento
eletrônico, estandardizado, impõem às cooperativas de crédito o desafio
de se organizarem em grandes redes de atendimento, por meio da
integração horizontal, assim como concentrar em instituições especializadas
(organizações de segundo e terceiro graus) a prestação de serviços comuns e as áreas especializadas nos mercados financeiro e de capital.
Assim estruturadas, com produtos e serviços competitivos e eficazes,
detentoras de diferenciais competitivos próprios do tipo societário, as cooperativas de crédito, organizadas em Sistemas de Crédito Cooperativo,
apresentam-se como instituições financeiras que atuarão como instrumento de organização econômica da sociedade e, por esta condição, encontram tratamento privilegiado na legislação pátria, especialmente nas normas de direito cooperativo.
Feitas estas considerações de cunho institucional, penso que o
Cooperativismo de Crédito no Brasil, após ser recepcionado pela Constituição Federal de 1988, recebe hoje tratamento adequado pelas autoridades
106
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
O potencial de desenvolvimento das cooperativas de crédito no mercado
financeiro é expressivo, pois, nos países de economias consolidadas, elas detêm
cerca de 20% de participação no mercado, enquanto que, no Brasil, o conjunto
das mais de 1.500 cooperativas representa cerca de 3% do mercado financeiro
brasileiro, no que pese o expressivo desenvolvimento dos últimos anos.
Portanto, os principais desafios das cooperativas de crédito brasileiras,
para atingirem níveis de participação mais expressivos, não mais residem
na ceara institucional, mas, sim, na capacidade dos seus administradores
de acompanhamento das tendências do mercado financeiro na formação
de redes integradas, compartilhamento de estruturas para redução de custos, gestão do empreendimento cooperativo (patrimônio formado pelos
diferenciais competitivos próprios e exclusivos das sociedades cooperativas), compartilhamento de canais de distribuição e profissionalização dos
processos de gestão e administração. Condição que pode ser alcançada a
partir da decisão própria de associados, conselheiros, dirigentes e colaboradores, não necessitando de gestões institucionais para tanto.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
monetárias e a velocidade do seu desenvolvimento está diretamente relacionada à capacidade das suas lideranças em difundir, em todos os segmentos econômicos, os conceitos claros e objetivos sobre a natureza e a
característica dessas instituições.
107
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
108
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Antonio de Azevedo Bomfim – Diretorpresidente do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob)
A elevação dos juros básicos
neste semestre deverá provocar
mais à frente a desaceleração dos
negócios e diminuir o ritmo de expansão do crédito. Enquanto a
economia global sofre os impactos do aumento nos preços das
commodities e do barril de petróleo, o cooperativismo de crédito
brasileiro apresenta trajetória de
crescimento, especialmente no
fomento à atividade agropecuária.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Os desafios do
cooperativismo
de crédito
Segundo Relatório de Crédito do Banco Central, divulgado em agosto,
as operações de crédito rural por meio de cooperativas cresceram 45,1%
nos últimos 12 meses encerrados em junho. A performance dos bancos
OPERAÇÕES DE CRÉDITO RURAL
POR MEIO DE COOPERATIVAS
45,1%
Junho/2008
Últimos 12 meses
109
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
de varejo nesse quesito acumulou alta
de 24,5% no mesmo período.
Como a cultura do cooperativismo
de crédito valoriza a ação coletiva, a
união, a inclusão em detrimento do individualismo, essas entidades aumentam
a oferta de produtos e serviços financeiros para a população e promovem a
melhoria da sua qualidade de vida.
Atualmente, existem no país no segmento do cooperativismo de crédito,
segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), mais de 3,6 milhões de associados nas 27 unidades da
Federação e, segundo o Bacen, 1.441
cooperativas, que representam 3.938
pontos de atendimento. Considerando
que a participação do segmento no Sistema Financeiro Nacional cresceu de
0,7% em 1997 para 3% em 2007, a perspectiva é de avanços a passos largos.
Para fazer uma comparação, a participação no mercado (depósitos) fica
entre 45% e 39% em países como França e Holanda, de acordo com informações da Confederação Alemã de Cooperativas (DGRV). É sinal de que o
Brasil precisa conquistar mais espaço, divulgando o perfil humano do
associativismo e o compromisso das entidades com o bem-estar coletivo.
Os participantes dessa engrenagem têm total consciência do significado
do cooperativismo. Entendem que não são os lucros os únicos fatores que
dão as diretrizes aos negócios.
As cooperativas de crédito seguem tendência inversa das instituições
financeiras tradicionais. Fazem a aplicação dos recursos captados nas regiões onde atuam, criando empregos e renda nessas localidades, enquanto os bancos de varejo não têm essa preocupação e terminam estimulando o desenvolvimento concentrado dos grandes centros urbanos.
110
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Não são poucas as vantagens de ser cooperado. Os próprios associados
estão à frente das decisões e são responsáveis, ainda que indiretamente,
por planejar e controlar o negócio de perto. As estratégias são decididas de
forma democrática nas assembléias. Os clientes de bancos de varejo não
desfrutam desse benefício, tampouco têm poder decisório. O controle
acionário das instituições financeiras não é aberto a todas as pessoas, como
as sociedades cooperativas.
Conjuntura
Conjuntura ee Perspectivas
Perspectivas do
do Cooperativismo
Cooperativismo dede Crédito
Crédito
Por operar, tradicionalmente, com menores custos, as cooperativas podem oferecer tarifas e taxas em níveis altamente competitivos. Têm vocação natural de incentivar o empreendedorismo e a inclusão social,
precificando produtos e serviços, como empréstimos pessoais, financiamento de bens duráveis, poupança, cartões de crédito, seguros, sem
enfatizar o lucro. As sobras que auferem ao longo do exercício voltam para
os associados, donos e clientes do próprio negócio.
O cooperativismo de crédito atua na economia brasileira como indutor
do desenvolvimento social e da inserção financeira. Para tornar as cooperativas mais competitivas, foram criados os bancos cooperativos, regidos
pela lei das sociedades anônimas, para
atuar como agentes legitimados de
fomento a esse sistema.
“Por operar, tradicionalmente,
Por serem as cooperativas as
com menores custos,
acionistas controladoras desses banas cooperativas podem
cos, as diretrizes destes são
oferecer tarifas e taxas em
construídas de acordo com a realidaníveis altamente competitivos.”
de e as necessidades regionais. Além
de oferecer amplo portfólio, elas podem, ainda, atuar por meio de correspondentes bancários, atendendo o
público até então desprovido de serviços financeiros e ampliando a
capilaridade para pequenas cidades. Beneficiam, também, as populações
com baixo índice de desenvolvimento humano (IDH).
111
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
As vantagens que proporcionam à comunidade de associados ultrapassam os resultados econômico-financeiros e as vantagens individuais. É por
isso que esse inovador modelo de gestão é o “lado humano do capitalismo”.
A despeito do progresso já alcançado, o cooperativismo de crédito tem
muitos desafios. O aumento da participação no Sistema Financeiro Nacional, de forma sustentada e socialmente justa, depende de um planejamento
estratégico eficaz para o sistema. Essa ação perpassa pela evolução da
legislação, principalmente no que se refere aos limites circunstanciais estabelecidos em normativos sobre as cooperativas de livre admissão.
Nesse sentido, tramita no Senado Federal o Projeto de Lei Complementar nº 177/04, que trata do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo Brasileiro. A proposta disciplina as operações e as relações entre os agentes que
compõem esse sistema, resguardando os princípios cooperativistas.
112
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
O panorama que se desenha está estruturado nos avanços
tecnológicos, que permitem, hoje, que as cooperativas atuem como uma
ampla e moderna rede de atendimento. Para alcançar todas essas metas,
é necessário investimentos em escala, tecnologia de ponta e boas práticas de governança, sem deixar de lado o controle dos custos e as ações
de estímulo à produtividade.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Além de regras adequadas, as cooperativas devem primar pela capacitação
e desenvolvimento de seus funcionários e dirigentes. Assim, estarão preparados para exercer funções em um cenário de crescimento e profissionalização.
113
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
114
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Educação cooperativista como
forma de desenvolvimento das
cooperativas
de crédito
Não faz muito tempo, em
visita a um importante país da
América do Sul, comecei a ficar incomodado com pequenas práticas como fumar em
Marco Aurélio Borges de Almada Abreu ambientes fechados, jogar lixo
Superintendente da Confederação Sicoob
no chão e parar o carro em
cima da faixa de pedestre.
Voltando no tempo, lembrei-me de minha adolescência. Quando trabalhava como office boy, eu convivia com essas práticas com tamanha naturalidade a ponto de não as perceber. Foi aí que me dei conta de que nós, no
Brasil, avançamos no processo de mudança de pequenos hábitos, até então, muito arraigados. Essa simples constatação é um indicador de que a
educação pode produzir mudanças para melhor em nossas vidas e, por
que não dizer, em nossa sociedade.
Para nós, cooperativistas, não restam dúvidas sobre os benefícios que o
cooperativismo, bem executado, pode trazer para nosso desenvolvimento
pessoal e como sociedade. Porém, nos deparamos sistematicamente com
práticas culturais e comportamentais que dificultam, e muito, a evolução
saudável do nosso movimento. A sensação que tenho é que somos naturalmente desconfiados, colocamos nossos interesses individuais acima dos
interesses coletivos, o que, entre outros atributos culturais, dificulta o pro-
115
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
cesso de colaboração. Neste caso, o
que fazer? A minha resposta é que
precisamos aprender a aprender e,
tendo aprendido como se aprende,
precisamos ensinar a todos como
aprender. Nesse sentido considero
muito importante o pensamento de
Carl Rogers quando ele observa: “O
homem instruído é aquele que aprendeu a aprender; a se adaptar para
mudar, de modo que o processo da
procura do conhecimento proporcione uma base para a segurança.”
“Precisamos aprender a
aprender e, (...) com os
programas de
capacitação presenciais
ministrados pelo
Sescoop, estamos nos
preparando para oferecer
informações de
qualidade por meio
de ferramentas de
educação a distância.”
No caso do cooperativismo de crédito, temos festejado muitas conquistas. Nossa participação no mercado de intermediação financeira saiu de 0,3%
na década de 1980 para cerca de 3% na atualidade. Ao mesmo tempo em
que festejamos, no nosso íntimo sabemos que o muito que conquistamos
ainda é pouco e que podemos ir bem mais longe. Para isso, no entanto,
precisamos mudar de patamar. Não se trata de uma mudança institucional
apenas, trata-se de uma mudança pessoal e coletiva. O cooperativismo é
feito essencialmente por pessoas. Essa mudança, desejável e esperada, só
vai ocorrer quando nós, eu e você, mudarmos de patamar.
116
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Nesse sentido o cooperativismo de crédito está criando instrumentos
para facilitar a vida de quem quer aprender continuadamente. Adicionalmente aos programas de capacitação presenciais ministrados pelas cooperativas centrais e pelo Sescoop, estamos nos preparando para oferecer aos
nossos cooperados, dirigentes e colaboradores informações de qualidade
por meio de ferramentas de educação a distância (EAD). Paralelamente,
estamos preparando uma estrutura de certificação profissional, por meio
da qual pretendemos avaliar a qualidade do aprendizado, sobretudo dos
nossos colaboradores. Nesse processo estamos catalogando quais são os
conhecimentos doutrinários e técnicos fundamentais para o bom andamento de uma cooperativa de crédito, inclusive, levando em consideração
as exigências normativas. Na seqüência estamos propondo a regulamentação de um conjunto de certificações fundamentais para garantir o adequado funcionamento de uma cooperativa singular. Vamos começar oferecendo certificação nas áreas de prevenção a lavagem de dinheiro, ouvidoria,
controle interno, consultor de investimentos e analista de crédito. Em todo
o processo, o tema transversal é a cooperação e o cooperativismo. Todo o
processo está sendo concebido e construído, pela Confederação, de maneira a combater as práticas antigas que impedem nosso desenvolvimento
e a estimular práticas novas e salutares para o nosso desenvolvimento como
sistema, dentro de nosso segmento de atuação.
Assim, espero que daqui a pouco tempo, em alguma viagem de estudos do cooperativismo a algum país vizinho ou mesmo a um país distante,
possamos identificar práticas locais inconcebíveis e lembrar, sem nenhuma saudade, que elas um dia foram comuns para nós e, então, teremos o
sentimento de que progredimos pela força propulsora da educação.
117
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
118
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Tanto se fala que o cooperativismo é uma alternativa solidária para a constituição de uma vida melhor para milhões de pessoas. Mas o que liga, de fato,
o cooperativismo a uma vida mais digna, mais justa, a um mundo melhor?
O cooperativismo, por definição, reúne valores e práticas que o vinculam a uma existência sustentável. Como movimento socioeconômico
que visa ao bem-estar social cultiva, em essência, a democracia, a solidariedade, a independência e a autonomia. Trata-se, por assim dizer, de uma
verdadeira filosofia de vida.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Cooperativa de crédito:
por que associar-se?
As pessoas são a referência no cooperativismo, que tem no capital apenas o respaldo operacional. As individualidades cedem espaço para a construção conjunta da prosperidade, independentemente de origem, cor ou
credo de qualquer ordem. Os ganhos, obtidos com equilíbrio e isonomia
pelo trabalho coletivo, são de todos.
Tais vantagens, todavia, considerando a dupla
condição de associado (dono) e usuário, não se
confundem com lucro, resultado próprio de
empreendimentos cujo capital prepondera e
está a serviço de poucas pessoas. As pessoas
cooperam para satisfazer necessidades
econômicas recíprocas, em diferentes campos, a preço justo e à luz de outros diferentes preceitos éticos.
Ênio Meinen - Vice-presidente
de políticas corporativas da Confederação
Sicredi
119
119
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Por sua inserção comunitária, de onde emergem, as cooperativas
estão naturalmente vocacionadas para fazer o bem nos locais em que
estão estabelecidas. Há uma preocupação de gerar progresso conforme a aptidão das populações e de acordo com o potencial econômico
da região cooperativada.
Pelas mesmas razões, as cooperativas lideram inúmeras iniciativas de
caráter sociocultural. Aliás, é difícil imaginar que um evento cultural, um
encontro esportivo, uma mobilização para arrecadar fundos com propósitos humanitários não tenham envolvimento dos associados, dirigentes e
colaboradores de alguma cooperativa. O apoio jamais se limita à simples
entrega de fundos financeiros. Na maioria das vezes, a própria organização é confiada aos representantes das cooperativas.
A manifestação cooperativa pode assumir diferentes formas operacionais.
A mutualidade, com efeito, envolve, como três grandes áreas de atuação,
desde atividades de produção e comercialização até o oferecimento de itens
para consumo e prestação de serviços nas mais diversas áreas profissionais,
inclusive no setor financeiro, em que se insere o cooperativismo de crédito.
“O cooperativismo, por
definição, reúne valores e
práticas que o vinculam a uma
existência sustentável.
Como movimento
socioeconômico que visa ao
bem-estar social cultiva, em
essência, a democracia,
a solidariedade, a independência
e a autonomia. Trata-se, por
assim dizer, de uma verdadeira
filosofia de vida.”
Nesse particular, a primeira pergunta que surge é: por que uma
cooperativa de crédito, e não o
banco convencional?
Bem, muitas são as razões que podem motivar alguém a fazer parte de
uma cooperativa de crédito. Há os argumentos comuns ao cooperativismo
em geral, já essencialmente aqui lembradas, e as próprias do segmento.
No que diz respeito a argumentos específicos voltados para o ramo,
poderíamos iniciar lembrando que
nas cooperativas de crédito, diversamente do que ocorre nos bancos, o
120
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
É daí que se pode afirmar que há mais flexibilidade e justiça no relacionamento negocial entre a cooperativa e seu associado. Há mais participação
por parte de quem é o principal interessado. Como corolário, os produtos
e serviços têm de atender à exata expectativa do usuário-dono, alinhar-se à
sua vocação e às suas possibilidades econômico-profissionais, e o
dimensionamento dos excedentes (lucro, no caso dos bancos) não pode
extravasar o limite da necessidade de reinvestimentos (para a solidez e o
crescimento) da própria organização. Se passasse disso, teria de haver devolução para quem contribuiu, o que não tem o menor sentido! Nesse
ponto aparece, com toda a nitidez, a singularidade societária, representada pelo “ato cooperativo”.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
destinatário das soluções é o próprio dono do empreendimento, o associado, enquanto que nestes a relação se estabelece com simples clientes.
É aqui, possivelmente, reside a essência da distinção. Com efeito, é muito diferente o grau de preocupação, em satisfazer propósitos, de atender
a demandas, numa relação da instituição com o usuário que é ao mesmo
tempo dono do negócio (associado) do que num relacionamento
descompromissado da empresa com mero cliente, que é apenas um terceiro. No caso das cooperativas de crédito, a desatenção com a expectativa do usuário gera conseqüências imediatas com os administradores e
toda a equipe, enquanto que, usualmente, nas relações financeiras tradicionais, a inconformidade de um cliente não passa do simples registro.
121
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
É por isso – pela adequabilidade e suficiência – que se identifica uma
agregação de renda na “contramão”. Não há a perspectiva do lucro
(que, aliás, é afastado por definição legal). Quem ganha não é quem
detém o capital (visão da empresa), mas quem se vale das soluções
concebidas em formato mutualista. E ainda falando em “ganhos”, é preciso sempre levar em conta os hipotéticos custos (e as hipotéticas receitas),
caso o associado tivesse de valer-se das soluções convencionais de mercado.
Vem dessa reflexão o firme propósito da autoridade normativa no sentido de estimular o desenvolvimento do setor, cujos empreendimentos,
além geridos pela própria sociedade em seu próprio benefício, geram repercussão positiva no disciplinamento do mercado.
É certo falar-se, portanto, que os benefícios do cooperativismo de crédito ultrapassam, em muito, aos 3% do PIB financeiro do País. Seguramente, entre todas as instituições financeiras, pode-se sentenciar que as (boas)
cooperativas constituem-se em referência no conjunto de fatores que combinam atenção aos propósitos dos usuários, participação destes na gestão (aspecto da maior relevância),
envolvimento com as diferentes comunidades e
públicos de interesse, precificação e outros aspectos relevantes da atividade de
intermediação bancária. É dizer que
uma é a realidade com a presença –
em notável progressão – das co-
122
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Em tal cenário, portanto, é que se situam os grandes apelos para o incremento do quadro de beneficiários do cooperativismo de crédito brasileiro.
Estamos ainda no início de nossa jornada. Contudo, a persistir a opção pelo
cooperativismo de crédito sadio (gerido com seriedade e competência) e
empresarial (que propicia retorno econômico aos cooperados), especialmente
o concebido em bases sistêmicas, com modelo de governança consistente e
alinhado com as melhores práticas, estaremos ostentando representação
bem mais significativa no campo da intermediação financeira em nosso País,
melhorando, por conseguinte, a vida de mais e mais cidadãos e empreendedores brasileiros, secundando caminhada exitosa do cooperativismo de crédito europeu, asiático e norte-americano.
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
operativas de crédito; bem outra, no entanto, seria com a sua ausência.
Ganham, assim, não apenas os associa-dos, mas também os clientes. Ganha, enfim, a sociedade.
123
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
124
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Serviço Nacional de Aprendizagem
do Cooperativismo – Sescoop
Unidade Nacional
Setor de Autarquias Sul, Quadra 04, Bloco I
Edifício Casa do Cooperativismo
70070-936 - Brasília - DF
Fone: (61) 3325-5500 / Fax: (61) 3325-8383
[email protected] / www.brasilcooperativo.coop.br
Região Centro-Oeste
Distrito Federal – Sescoop-DF
SEPS 712/912 - W/4 Sul, Bloco F
70390-125 - Brasília - DF
Fone: (61) 3345-3036 / 3345-0483 / 3345-6925 / Fax: (61) 3245-3121
[email protected] / www.dfcooperativo.coop.br
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Endereços do Sescoop
Goiás – Sescoop-GO
Avenida Dep. Jamel Cecílio, 3427 - Jd. Goiás
74810-100 - Goiânia - GO
Fone/Fax: (62) 3240-8900 / 3240-8902
[email protected] / www.sescoopgo.org.br
Mato Grosso – Sescoop-MT
Rua 2, Quadra 4, Lote 3, Setor A - Centro Político Administrativo (CPA)
78049-050 - Cuiabá - MT
Fone: (65) 3648-2400 / Fax: (65) 3644-2306
[email protected] / www.ocbmt.coop.br
Mato Grosso do Sul – Sescoop-MS
Rua Ceará, 2245 - Vila Célia
79022-390 - Campo Grande - MS
Fone: (67) 3326-0171 / Fax: (67) 3326-6280
[email protected] / www.ocbms.org.br
Região Norte
Acre – Sescoop-AC
Rua Chile, 213 - Habitasa
69900-340 - Rio Branco - AC
Fone/Fax: (68) 3223-6487
[email protected] / www.portalamazonia.coop.br
Amazonas – Sescoop-AM
Avenida Carvalho Leal, 1154 - Cachoeirinha
69065-000 - Manaus - AM
Fone/Fax: (92) 3631-8518 / 3631-8471 / 3611-2226
[email protected] / www.portalamazonia.coop.br
125
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Amapá – Sescoop-AP
Rua Jovino de Noá, 1770, 3º andar
68606-000 - Macapá - AP
Fone/Fax: (96) 3223-0110
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Pará – Sescoop-PA
Travessa Angustura, 3255 - Marco
66093-040 - Belém - PA
Fone: (91) 3226-5280 / 3226-5307 / 3226-4140 / Fax: (91) 3226-5014
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Rondônia – Sescoop-RO
Avenida Rafael Vaz e Silva, 2646 - Liberdade
78904-120 - Porto Velho - RO
Fone/Fax: (69) 3229-2866
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Roraima – Sescoop-RR
Avenida Major Williams, 1018 - São Francisco
69301-110 - Boa Vista - RR
Fone: (95) 3623-2912 / 3623-2312 / Fax: (95) 3623-0978
[email protected] / www.portalamazonia.coop.br
Tocantins – Sescoop-TO
Avenida JK, 110 Norte, Lote 16, 1º Piso, Salas 1/6
77006-130 - Palmas - TO
Fone/Fax: (63) 3215-3291 / 3215-4115 / 3215-4079 / 3215-4837
[email protected] / [email protected]
www.portalamazonia.coop.br
Região Nordeste
Alagoas –Sescoop-AL
Avenida Governador Lamenha Filho, 1880 - Feitosa
57043-000 - Maceió - AL
Fone/Fax: (82) 2122-9494 / 2122-9458 / 2122-9456
[email protected] / www.ocb-al.coop.br
Bahia – Sescoop-BA
Rua Boulevard Suisso, 129, 1°andar - Jardim Baiano - Nazaré
40050-330 - Salvador - BA
Fone: (71) 3321-1369 / Fax: (71) 3322-0145
[email protected] / www.oceb.org.br
Ceará – Sescoop-CE
Rua Ildefonso Albano, 1585, salas 2/4 - Aldeota
60115-000 - Fortaleza - CE
Fone/Fax: (85) 3535-3670 / 3535-3650
[email protected] / www.ocbce.coop.br
126
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
Paraíba – Sescoop-PB
Avenida Coremas, 498 - Centro
58013-430 - João Pessoa - PB
Fone: (83) 3221-0911 / 3221-6753 / 3222-6268 / Fax: (83) 3222-3660
[email protected] / [email protected]
Pernambuco – Sescoop-PE
Rua Manuel Joaquim de Almeida, 165 - Iputinga
50670-370 - Recife - PE
Fone: (81) 3271-2672 / 3271-1478 / Fax: (81) 3271-4142
[email protected] / [email protected] / www.sescoop-pe.org.br
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
Maranhão – Sescoop-MA
Rua do Alecrim, 415 - Ed. Palácio dos Esportes - 3º andar, salas 310/312/314
65010-040 - São Luís - MA
Fone/Fax: (98) 3222-8092 / 3221-5156
[email protected]
Piauí – Sescoop-PI
Rua Alto Longá, s/nº - Ed. Cidapi - Água Mineral
64006-140 - Teresina - PI
Fone: (86) 3225-3034 / 3225-4444 / Fax: (86) 3225-4443
[email protected] / www.piauicooperativo.coop.br
Rio Grande do Norte – Sescoop-RN
Avenida Jerônimo Câmara, 2994 - Nazaré
59060-300 - Natal - RN
Fone/Fax: (84) 3605-2531 / 3605-2532 / 3205-6669
[email protected] / www.sescooprn.org.br
Sergipe – Sescoop-SE
Avenida Augusto Franco, 1328, 1° andar - Siqueira Campos
49075-100 - Aracaju - SE
Fone/Fax: (79) 3259-1134 / (79) 3259-2752
[email protected]
Região Sudeste
Espírito Santo – Sescoop-ES
Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, 2501 - Bento Ferreira
29050-625 - Vitória - ES
Fone/Fax: (27) 2125-3200 / 2125-3202 / 2125-2105
[email protected] / www.ocbes.coop.br
Minas Gerais – Sescoop-MG
Rua Ceará, 771 - Funcionários
30150-311 - Belo Horizonte - MG
Fone/Fax: (31) 3025-7100
[email protected] / www.ocemg.org.br
127
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
Rio de Janeiro – Sescoop-RJ
Avenida Presidente Vargas, 583 - Sala 1204
20071-003 - Rio de Janeiro - RJ
Fone: (21) 2232-0133 / 2232-0344 / Fax: (21) 2232-0133
[email protected] / www.ocbrj.coop.br
São Paulo – Sescoop-SP
Rua Treze de Maio, 1376 - Bela Vista
01327-002 - São Paulo - SP
Fone: (11) 3146-6200 / Fax: (11) 3146-6202
[email protected] / www.portaldocooperativismo.org.br
Região Sul
Paraná – Sescoop-PR
Avenida Cândido de Abreu, 501 - Centro Cívico
80530-000 - Curitiba - PR
Fone: (41) 3200-1100 / 3200-1195 / Fax: (41) 3200-1199
[email protected] / [email protected] / www.ocepar.org.br
Rio Grande do Sul – Sescoop-RS
Rua Félix da Cunha, 12 - Bairro Floresta
90570-000 - Porto Alegre - RS
Fone/Fax: (51) 3323-0000
[email protected] / [email protected] / www.ocergs.com.br
Santa Catarina – Sescoop-SC
Rua Vidal Ramos, 224 - Ed. Jaime Linhares - Mezanino - Caixa Postal 31
88010-320 - Florianópolis - SC
Fone: (48) 3878-8800 / Fax: (48) 3224-8794
[email protected] / www.ocesc.org.br
128
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo
129
Conjuntura e Perspectivas do Cooperativismo de Crédito
SérieDesenvolvimento em Cooperativa
130
Sescoop – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo