1 ECONOMIA SOLIDÁRIA: uma análise da formação de cooperativas com beneficiários do Programa Bolsa Trabalho no Município de Marabá – PA Alanne Barbosa Maciel Universidade Federal do Pará (UFPA) Ana Giselle Ribeiro Cancela Universidade Federal do Pará (UFPA) Ana Maria Pires Mendes Universidade Federal do Pará (UFPA) Bárbara Santos Macêdo Espínola Universidade Federal do Pará (UFPA) Lissany Braga Gonçalves Universidade Federal do Pará (UFPA) RESUMO O presente artigo tem como objetivo discutir a economia solidária como uma forma de promoção da inclusão social de pessoas em situação de desemprego, através da implantação de políticas públicas. Em caso, fazendo uma análise do Programa Bolsa Trabalho implementado pelo Governo do Estado do Pará no município de Marabá. Para tanto, faz-se necessário situar o leitor sobre como chegamos a essa crise no mundo do trabalho que nos levou à atual situação de desemprego e trabalho precário por que passa não apenas nosso país como todo o mundo, e como parcerias entre instituições se faz importante para que as citadas políticas públicas sejam implementadas. Neste contexto, a economia solidária aparece como uma alternativa à falta de emprego enfrentada pela população. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 2 ECONOMIA SOLIDÁRIA: uma análise da formação de cooperativas com beneficiários do Programa Bolsa Trabalho no Município de Marabá – PA Alanne Barbosa Maciel Universidade Federal do Pará (UFPA) Ana Giselle Ribeiro Cancela Universidade Federal do Pará (UFPA) Ana Maria Pires Mendes Universidade Federal do Pará (UFPA) Bárbara Santos Macêdo Espínola Universidade Federal do Pará (UFPA) Lissany Braga Gonçalves Universidade Federal do Pará (UFPA) 1 INTRODUÇÃO A atual crise no mundo do trabalho decorrente das crises econômicas e das inovações tecnológicas é uma das marcantes justificativas aos altos níveis de desemprego, assim como, a redução e precarização dos postos de trabalho, que afetam todas as categorias profissionais. Como resposta à crescente crise, uma importante alternativa de inclusão social via geração de trabalho e renda vem se constituindo. Trata-se da economia solidária, compreendida como um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver, sem explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente. Cooperando, fortalecendo o grupo, cada um pensando no bem de todos e no próprio bem (MTE, 2009). A economia solidária tem como norte a instauração da solidariedade para a construção de empreendimentos coletivos e autogestionários, na perspectiva de melhorar as condições de vida da coletividade. Dessa forma, parte de valores como autonomia, São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 3 democracia, fraternidade, igualdade e solidariedade. Assim, torna-se primordial a promoção das relações sociais de solidariedade e de cooperação e ajuda mútua entre os trabalhadores da economia solidária. Destarte, reportaremos às condições que levaram a utilização dessa nova economia como forma de inserção da mão-de-obra remanescente e a importância da participação do Programa Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e Empreendimentos Solidários – PITCPES, da Universidade Federal do Pará – UFPA, no processo de formação dos beneficiários do Programa Bolsa Trabalho1 do município de Marabá – PA. Esse processo é fruto do convênio entre UFPA e Governo do Estado, no processo de formalização de empreendimento solidário, que estará sendo construído por estes beneficiários, como forma de geração de trabalho e renda, para a melhoria das condições de vida dos mesmos. Em meio a este contexto, percebemos a necessidade de reflexão sobre políticas públicas capazes de dar respostas aos problemas pertinentes à crise do mundo do trabalho, e pela necessidade de um aprofundamento acerca dessa temática, ainda pouco explorada pela academia, bem como trazer esclarecimentos teóricos que poderão contribuir e direcionar essa política pública. 2 ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO POLÍTICA PÚBLICA DE INCLUSÃO SOCIAL Em razão de estarmos vivendo um momento de intensa crise, que se revela de modo mais evidente nas mazelas do desemprego e da exclusão social, percebemos que a mão-de-obra se torna meramente dispensável. Em contrapartida a esse cenário de exclusão, ressurgem principalmente na década de 1980, práticas econômicas associativas que representam uma resposta à crise do trabalho assalariado e à crise social, produzida pela globalização seletiva e excludente. Ações que revelam a emergência da sócia-economia solidária, cujo reconhecimento e promoção tornam-se relevantes para o fortalecimento por parte do Estado através de políticas públicas. Segundo Santos (2006) tanto o termo economia solidária e/ou sócioeconomia solidária, referem-se à maneira solidária e coletiva de gerir a economia. A sócioeconomia solidária é a outra economia que se opõe ferrenhamente à lógica capitalista que tem a competição como base das relações de produção. Deste modo, as diversas formas organizativas, tais como: cooperativas, grupos solidários e associações, particularmente aquelas vinculadas à chamada economia solidária, 1 Bolsa Trabalho é uma política pública de trabalho de investimento em formação profissional, que visa dar oportunidade de acesso ao mundo do trabalho aos jovens paraense de baixa renda. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 4 vêm disseminando cada vez mais possibilidades de sobrevivência das camadas excluídas do mercado formal de trabalho. Segundo Gaiger (2000), a economia solidária estaria apontando para a possibilidade de criação de uma forma social de produção diferente, que convive com a produção capitalista, ou seja, essas formas organizativas são as mais novas opções que os trabalhadores do campo e da cidade buscam para sobreviver. Pois apresentam um cunho democrático em suas decisões em função de todos serem os donos dos empreendimentos, independentemente do número de cotas adquiridas, sendo os empreendimentos uma representação do operariado, reunido para ter posse dos meios de produção, sob o regime de coletivização. Essa coletivização representa um modelo de inclusão econômica que coloca o trabalhador no centro do processo produtivo. É uma forma de trabalho alternativo, criado pelos trabalhadores sob as promessas de uma racionalidade flexível e compatível com os princípios da solidariedade e da democracia. No intuito de buscar prover as necessidades materiais, o sistema cooperativo mostra-se como um instrumento político e econômico, que visa superar a produção eminentemente de subsistência para a melhoria das condições de vida. Seu aspecto político encontra-se voltado para a inserção social de grupos excluídos pela reestruturação produtiva2, já o seu aspecto econômico, consistiu na perspectiva de geração de renda, tendo suas idéias pautadas nas estratégias de sobrevivência de indivíduos que se associam. Esse modelo inclui os trabalhadores que estão perdendo mercado em tempo de reestruturação produtiva, assim como, aqueles que nunca foram inseridos no mercado de trabalho. Segundo Santos & Zart (2006) a organização desses trabalhadores em um empreendimento econômico que lhes garante ocupação e renda, além de propiciar melhoria nas condições materiais de vida, estimula práticas que colaboram para a tomada de consistência dos sujeitos, frente a temas que extrapolam a gestão do empreendimento, levando estes ao exercício da cidadania. Podemos perceber na atualidade avanços nas políticas públicas de geração de trabalho e renda, como mostram alguns dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (2006), os quais mostram que nas décadas de 60 e 70 as políticas públicas estavam muito mais voltadas para a proteção efetiva ao trabalhador desempregado, entretanto recentemente vem se modificando por meio dos empreendimentos econômicos e solidários como forma de inserção dessa mão de obra num mercado de trabalho. De acordo com a mesma pesquisa, a linha de trabalho baseada na Economia Solidária, vem sendo utilizada Implementação de inovações tecnológicas e novas formas de gestão da força de trabalho ocorrida na década de 70. 2 São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 5 desde o ano de 2003, como uma forma promissora de geração de renda, pois visa à constituição de empreendimentos solidários administrados pelos próprios trabalhadores. 3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE GERAÇÃO DE TRABALHO E RENDA: uma parceria entre governo do Estado e universidade FeDERAL DO PARÁ Os dados do IPEA (2006) ressaltam na década de 1980 uma estagnação do chamado emprego formal, o crescimento das taxas de desemprego, além de um aumento dos trabalhos informais, área que acabou por absorver parte da mão-de-obra remanescente das mazelas do desemprego estrutural. Em meio a esta realidade, percebe-se que as juventudes encontram-se como um grupo especialmente vulnerável, haja vista, também serem afetadas por problemas como desemprego e a violência, dentre outros. Desta forma, o Estado tentam garantir uma resposta para o atendimento dos mesmos na forma de políticas públicas (MADEIRA e RODRIGUES, 1998 apud SILVA E SILVA, YAZEBEK, 2008). Destarte, é neste contexto histórico e atual que está envolvida a política de investimento em formação profissional do Governo do Estado do Pará, que visa geração de trabalho e renda por meio do programa Bolsa Trabalho. O referido Programa caracteriza-se por ser uma política pública estadual, de inclusão social e de investimento em qualificação social e profissional, que visa à formação de capital humano de forma a dar oportunidade de acesso ao mundo do trabalho aos jovens paraenses, com a faixa etária entre 18 à 29 anos e com o perfil de baixa renda. Apresentando dentre outras opções, a de estarem participando do eixo de “Incubação de Empreendimentos Econômicos Solidários”, que conta com a parceria PITCPES/UFPA e da Secretaria de Estado de Trabalho, Emprego e Renda – SETER. Assim sendo, o PITCPES é um programa vinculado ao Instituto de Ciências Sociais Aplicadas/ICSA da Universidade Federal do Pará/UFPA, que articula o ensino, pesquisa e extensão por meio de trocas de tecnologias sociais através das diversas áreas do conhecimento com um público específico, que se constituem em empreendimentos solidários, que necessita de formação e assessoria para fortalecer suas ações e sua autogestão. A realização da assessoria da PITCPES ocorre com a transferência de tecnologia social, através da equipe que é composta de 50 pessoas entre professores, técnicos e discentes da graduação e pós-graduação, de diferentes áreas de conhecimento. O mesmo, iniciou no ano de 2000 com uma equipe composta por 5 pessoas entre professores e discentes, ampliando seu quadro à medida que surgiram outros projetos e demandas de acompanhamento, solicitadas pelo próprio público atendido, o que gerou um São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 6 número bem mais expressivo de profissionais/pesquisadores diretamente ligados aos eixos temáticos: trabalho, economia solidária e desenvolvimento local. Atualmente o Programa se organiza internamente através de núcleos, que aglutinam categorias especificas, sendo estes: Núcleo Social (serviço social, sociologia e pedagogia), Núcleo Econômico (economistas), Núcleo de Saúde e Tecnologia (engenheiros de alimentos, de produção, agrônomos, nutricionistas, arquitetos), Núcleo de Gestão (advogados, contadores, administradores). Nessa perspectiva, favorecida pelas atividades exitosas já desenvolvidas pelo PITCPES, realizou-se a parceria com o governo estadual, no ano de 2007, por meio da aprovação do Projeto “Incubação de Empreendimentos Solidários no Estado do Pará”, o qual desafiadoramente propunha como meta a qualificação de 2000 (dois mil) beneficiários, divididos em alguns municípios do Estado, cabendo a formação de 300 jovens em Marabá, visando a constituição de empreendimentos solidários do tipo cooperativas, organizados e gerenciados por esses jovens, oportunizando uma forma diferenciada de acesso ao mercado de trabalho. Ressalta-se, que para a constituição desses empreendimentos foram ministrados uma diversidade de oficinas e cursos específicos, visando à organização social e política, e o aprimoramento profissional desses jovens. O beneficiário do programa Bolsa Trabalho recebe para participar das formações um auxílio financeiro no valor de R$ 70,00 (setenta reais), o que na concepção das autoras se apresenta como uma política inovadora, que consegue articular para além do repasse de um benefício financeiro, uma interlocução com a política de geração de trabalho e renda através da qualificação profissional e da inclusão no mercado de trabalho. 4 METODOLOGIA DO PROCESSO DE FORMAÇÃO DE COOPERATIVA DOS BENEFICIÁRIOS DO PROGRAMA BOLSA TRABALHO NO MUNICÍPIO DE MARABÁ – PA A cidade de Marabá é um dos principais pólos de desenvolvimento econômico do sudeste paraense, localiza-se a 485 km da capital do Estado e de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2008), possui uma população de 199. 946 habitantes. Caracteriza-se por ser uma região de intensa migração fruto dos atrativos em busca de emprego gerados pelos grandes projetos, que surgiu na Amazônia na década de 1970. Nesse sentido, a população que migra para essa cidade, vinda de outros estados em busca de emprego, não consegue inserir-se no mercado de trabalho, pois além da falta de vagas em decorrência da crise mundial laboral, esse público possui ainda uma baixa qualificação, fato este que dificulta ainda mais o acesso a um emprego. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 7 Neste contexto, Marabá foi contemplada com a implementação do Programa Bolsa Trabalho sob o eixo de Incubação de Empreendimentos solidários, como uma política pública inovadora. O PITCPES iniciou o processo de formação à 300 beneficiários em janeiro de 2008, com a realização de um seminário intitulado “Políticas Públicas de Economia Solidária em Marabá” , o qual teve o intuito de apresentar o programa não apenas aos beneficiários como a toda a sociedade civil de Marabá. Como partes do planejamento das atividades, foram desenvolvidas quatro oficinas: Acolhimento, Organização Social, Linha do tempo I e II. A primeira, tinha por objetivo uma aproximação maior com os beneficiários, a explicação da crise no mundo do trabalho e a apresentação da metodologia de incubação do PITCPES, bem como, a aplicação de questionários socioeconômicos para subsidiarem a pesquisa sobre o perfil dos beneficiários; a segunda, teve por objetivo discutir temáticas relacionadas a mobilização, organização e participação, bem como, constituição de grupos e importância do trabalho coletivo; nas oficinas de Linha do Tempo foram utilizadas a metodologia de construção por meio de desenhos da história de vida de cada beneficiários, com o objetivo de resgatar os processos de trabalho nas suas três gerações familiares (sujeito atual, pais e avós). Posteriormente, as discussões das oficinas sobre a metodologia de trabalho são divididas em duas fases, a primeira tem por objetivo a formação de gestores para empreendimentos solidários e a segunda, formação tecnológica da cadeia produtiva que se originou no processo de acompanhamento. A formação de gestores em empreendimentos solidários é básica para todos os bolsistas e tem o objetivo de dar subsídios necessários para que os jovens beneficiários possam autogerenciar o empreendimento a ser formado. Nesse caso, são ministrados cinco módulos de cursos descritos abaixo: Trabalho, cidadania e meio ambiente objetiva a discussão concernente a origem e as transformações no mundo do trabalho, para que os beneficiários possam entender a conjuntura da crescente falta de emprego, bem como, discutir com os mesmos os conceitos de cidadania e as formas de exercê-la, por fim, articula-se a discussão relacionada ao meio ambiente, formas de conservação, produção de bens que respeitem a sustentabilidade ambiental, vale a pena ressaltar, que essa é uma das bandeiras de luta da economia solidária. Planejamento e Gestão no intuito de abordar conceitos e características de empreendedorismo; ferramentas necessárias para o planejamento, gerenciamento e administração dos empreendimentos que os beneficiários formarâo; diferentes tipos de empreendimentos solidários, como associativismo e cooperativismos, suas características e diferenças; princípios, direitos e deveres dos associados. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 8 Comercialização e mercado visando promover a discussão de questões relacionadas à comercialização dos produtos; planejamento relacionado aos produtos; infraestrutura de comercialização; divulgação (marketing), material necessário; formação de preços tipos de mercados fornecedores, concorrentes e consumidores, etc. Contabilidade de custos e formação de preços, introduzindo conhecimentos com relação a identificação, manuseio e controles financeiros básicos da contabilidade de empreendimentos solidários, conceitos básicos da contabilidade de custos, ainda foram trabalhados: noções gerais de contabilidade de custos, gastos; investimentos, custos, despesas, ponto de equilíbrio, noções de formação de preço, estratégia de preços distintos, estratégia de preços competitivos, estratégia por linha de produto, estratégia de preços psicológicos. Noções de informática proporcionando conhecimento das ferramentas da informática, para a organização e produção de documentos pessoais que o empreendimento possa demandar, bem como, o uso do Excel para facilitar os controles financeiros, estratégias de vendas pela internet, e outros recursos necessários. Sendo assim, após a realização dos cursos supracitados e básicos para a formação de gestores, iniciou-se as formações tecnológicas de acordo com a cadeia produtiva escolhida pelos beneficiários. Deste modo, surgiram cinco possibilidades de cadeias produtivas, a partir do diagnóstico sobre As Cadeias Produtivas Inscritas nas Práticas Sócioeconomicas da Cultura Local, que foram bastante discutidas com os beneficiários, sendo as seguintes: alimentação, turismo, cuidador de idosos, beleza e estética, e serviços gerais. Assim, cada cadeia recebeu formação tecnológica específica, voltada para a potencialização das atividades dentro dos empreendimentos que seriam formados. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O desafio de formar empreendimentos solidários, oriundos de 300 jovens beneficiários da Bolsa Trabalho no município de Marabá, foi uma experiência inovadora e bastante complexa, devido alguns percalços como: o processo de seleção desse beneficiários ter sido realizado pelo SINE com a Coordenação da SETER, sem a participação da Incubadora, o que exigiu uma certa logística de organização aos mesmos, na tentativa de aproxima-los por bairros; a inexperiência e a falta de conhecimento dos jovens sobre as temáticas: trabalho coletivo e economia solidária, a princípio, gerou certa frustração aos mesmos, pois muitos alimentavam a idéia do emprego formal, o que exigiu da equipe intensificação no processo de formação; as condições geográficas de distanciamento do município de Marabá, 700km de Belém, onde estava a sede do Projeto, foi uma das São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 9 maiores dificuldades para a equipe, embora tenha sido criada uma Incubadora em Marabá, para acompanhar esses beneficiários, a mesma ainda estava em processo de formação tanto quanto os beneficiários, o que exigiu acompanhamento de uma coordenação geral que se dividia entre Belém e Marabá, fato que talvez tenha dificultado a dinâmica da metodologia de incubação, sem contudo prejudicar o processo; também a distancia entre os bairros de Marabá, visto que a área geográfica de Marabá se divide em três, (Velha Marabá, Nova Marabá e Cidade Nova), também foi elemento negativo na execução das atividades, dessa forma, para viabilizar o trabalho, a equipe precisou de alocação de carro para ter acesso os bairros onde eram realizadas as atividades. O maior avanço demonstrado pelas equipes, tanto a de Belém como Marabá, foi a percepção de que o trabalho de incubação, exige um trabalho de equipe articulada pelos saberes e pela solidariedade, que se sobre põem as situações diversas geradas por fatores desconhecidos ou que fogem ao planejado, mas que se constituíram em etapas de maturação ao processo de metodologia de incubação. Com relação aos novos cincos empreendimentos solidários que foram formados em Marabá, por um lado, ainda nessa fase, se faz necessário o acompanhamento intenso da Incubadora, no sentido de potencializar suas ações, para que os mesmos possam vir a se auto-gerirem e sustentar no mercado. De outro lado, é importante que os empreendimentos busquem articulação com a comunidade local, estreitem relações com órgãos financiadores de crédito para garantirem infra-estrutura, facilitem a intercooperação com parceiros, pois acreditamos no potencial do trabalho desses grupos que vimos germinar e nascer, mas que ainda necessitam de acompanhamento para poderem tornarem-se auto-sustentáveis. Como também, se faz necessária a participação da gestão municipal nas discussões sobre as dinâmicas produtivas locais, a fim de maturar um projeto para a região na busca de solução para as dificuldades que se estabelecem na realidade do município. O investimento através de fomento aos pequenos produtores torna-se imprescindível aos empreendimentos econômicos solidários neste município. REFERÊNCIA CATTANI, Antônio David (org.). A outra Economia. Porto Alegre, Editora Veraz: 2003. ESPÍNOLA, Bárbara Santos Macêdo; LOPES, Sâmia Cristina Ribeiro. Uma nova perspectiva de ação/intervenção do Serviço Social: análise do processo de incubação na Cooperativa de Agricultura Familiar de Terra Alta – COAFTA. Trabalho de conclusão de curso. Belém, 2006. FIALHO, Nádia. Amazônia e desenvolvimento capitalista: elementos para uma abordagem da “questão social” na região. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006 (Tese de Doutorado). São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 10 GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1991. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Brasil: o estado de uma nação. Disponível em: www.ipea.gov.br. Acesso em 05 jan 2009. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. O que é Economia Solidária. Disponível em: http://www.mte.gov.br/ecosolidaria/ecosolidaria_oque.asp. Acesso em 09 jan 2009. SILVA E SILVA, Maria Ozanira da; YAZBEK, Maria Carmelita (Orgs.) Políticas Públicas de Trabalho e Renda no Brasil Contemporâneo. Cortez Editora, 2008. SINGER, Paul. Economia solidária: um modo de produção e distribuição. In: SINGER, Paul e SOUZA, André Ricardo de (org.). A economia solidária no Brasil: a autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto, 2000. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 11 ECONOMIA SOLIDÁRIA NO ESTADO DO PARÁ: políticas públicas voltadas apenas para a geração de trabalho e renda?1 Alanne Barbosa Maciel2. RESUMO O presente artigo tem como objetivo analisar as políticas públicas voltadas para o movimento de Economia Solidária no Estado do Pará, descrevendo quais medidas vêm sendo adotadas pelo Governo do Estado a fim de atender aos interesses desse segmento da sociedade. Para tanto, faremos um breve histórico sobre o surgimento e ressurgimento da Economia Solidária, destacando quem são seus sujeitos e que princípios os norteiam. Abordaremos ainda o que entendemos como políticas públicas voltadas para o segmento, mencionando o Programa Bolsa Trabalho e outros programas governamentais implementados pelo Pará que podem ter interface com a Economia Solidária. Palavras-chave: economia solidária, políticas públicas, programas de governo. ABSTRACT The present article has as objective to analyze the public politics directed toward the movement of Solidary Economy in the State of Pará, describing which measures they come being adopted for the Government of the State in order to take care of the interests of this segment of the society. For in such a way, we will make a historical briefing on the sprouting of the Solidary Economy, detaching who is its citizens and what principles guide them. We will still approach what we understand as public politics directed toward the segment, mentioning the Program Bolsa Trabalho and other governmental programs implemented by Pará that can have interface with the Solidary Economy. Key-words: solidary economy, public politcs, governmental programs. 1 INTRODUÇÃO 1 Artigo apresentado como requisito para realização de Mesa Coordenada na IV Jornada Internacional de Políticas Públicas 2009, São Luís, MA. 2 Advogada do Programa Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e Empreendimentos Solidários/ICSA/UFPA, discente da Especialização em Economia Solidária na Amazônia do Programa de PósGraduação em Serviço Social/PPGSS da UFPA. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 12 A economia solidária sendo considerada como um movimento social surge a partir de uma demanda de pessoas que é expropriada de seus meios de produção, ainda no século XIX com o cooperativismo operário e as comunas, ambos ligados a Robert Owen, como formas alternativas de geração de trabalho, renda e vida digna aos operários das grandes fábricas que perderam seus postos de trabalho em virtude da Revolução Industrial e da mecanização da mão-de-obra. Tal movimento ganha força ainda naquele século com o surgimento, em 21 de dezembro de 1844, em Rochdale, hoje um bairro de Manchester, na Inglaterra, a Sociedade dos Pioneiros Eqüitativos de Rochdale, onde 28 trabalhadores ingleses, sendo 27 homens e uma mulher, de nome Anee Tweedale, na sua maioria tecelões. Tal sociedade criou um armazém de propriedade comunal onde podiam comprar alimentos de qualidade com baixo custo, e a qual tinha como princípios: 1. Auto-governo democrático; 2. Livre adesão e livre retiro; 3. Neutralidade política e religiosa; 4. Vendas em dinheiro, à vista; 5. Produtos puros e de qualidade; 6. Devolução de excedentes ou sobras aos sócios; 7. Educação contínua; e 8. Constituição de fundos para aumento de capital e investimento na educação dos sócios. A partir daí o cooperativismo se espalhou pelo mundo, e junto com ele os seus ideais de cooperação, igualdade, solidariedade e educação contínua. Entretanto, assim como teve seu auge, apresentou momentos de declínio, uma vez que surgiu em um momento de crise do modo de produção capitalista, e quando o mesmo se recuperou, gerando novos postos de trabalho, muitos dos trabalhadores que estavam nesse contexto de trabalho coletivo e cooperativo voltaram a se submeter ao assalariamento e à exploração do grande capital por conta das dificuldades geradas pela autogestão, sistema diferenciado do modelo anterior de trabalho a que estavam acostumados, no qual recebiam ordens de um patrão e executavam tarefas específicas. Baseados em princípios como igualdade, cooperação, justiça e liberdade, os cooperados de Rochdale abriram caminho para um movimento que logo se espalhou pela Europa e pelo mundo, onde outros homens que também foram expropriados dos meios de produção e em situação de pobreza passaram a perceber que, unindo-se para trabalhar de forma coletiva, ganhariam mais força. Considerado tanto uma filosofia como um modelo socioeconômico, o fato é que o cooperativismo nasceu com valores universais e, dessa forma, traçou seu destino: se expandir em diferentes territórios, não importando a cultura, a língua ou o credo (BRASIL, 2006). Assim, de acordo com Singer (2003) ressurge a economia solidária, no final do século XX, como forma alternativa de trabalho, de combate ao desemprego estrutural e à precarização do trabalho, formando um empreendimento de propriedade coletiva que lhes garanta não apenas ocupação e renda, mas também melhoria nas condições de vida, São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 13 levando os sujeitos que faziam parte deste movimento ao exercício da cidadania, exigindo a criação de políticas públicas que beneficiassem essa parcela da sociedade. 2 POLÍTICAS PÚBLICAS DE ECONOMIA SOLIDÁRIA Os empreendimentos econômicos solidários são definidos por Gaiger (1999 apud EID; GALLO, 2001) como “organizações coletivas de trabalhadores voltados para a geração de trabalho e renda, regidos, idealmente, por princípios de autogestão, democracia, participação, igualitarismo” sob processo de cooperação entre trabalhadores em busca da auto-sustentação e desenvolvimento humano. A economia solidária, nesse contexto, é compreendida ainda a partir de um “conjunto de experiências coletivas de trabalho, produção, comercialização e crédito organizadas por princípios solidários” (Idem). Suas formas de organizações podem ser cooperativas e associações de produtores, empresas autogestionárias, bancos comunitários, clubes de trocas, bancos do povo em meio urbanas e rurais. A economia solidária é considerada um movimento de trabalhadores que, expropriados dos meios de produção, agora fazem parte de formas associativas apresentando em comum a primazia da solidariedade sobre o interesse individual e o ganho material, o que se expressa mediante a socialização dos recursos produtivos e a adoção de critérios igualitários. (LAVILLE; GAIGER, 2009) A Economia Solidária sofreu, até a atualidade, vários momentos de expansão e de declínio levando-se em consideração as crises cíclicas do modo de produção capitalista. Nos momentos de crise do capitalismo, o movimento ganhava mais força, e quando o mesmo se recuperava, alguns trabalhadores deixavam de lado as iniciativas associativas para voltarem aos trabalhos assalariados. Entretanto, podemos observar que nos últimos anos, por conta da precarização do trabalho observado em todo o mundo, as iniciativas de trabalho coletivo vêm aumentando e ganhando força em nosso país, contribuindo para o ressurgimento da economia solidária. A construção de empreendimentos coletivos e autogestionários, na perspectiva de melhorar as condições de vida da coletividade, parte, portanto, de valores como autonomia, democracia, fraternidade, igualdade. Dessa forma, torna-se primordial para a promoção das relações sociais a solidariedade e a cooperação e ajuda mútua entre os trabalhadores. Segundo a Cartilha da Campanha Nacional de Mobilização Social da Secretaria Nacional de Economia Solidária – SENAES, a Economia Solidária possui dez princípios norteadores: São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 14 1. Autogestão. 2. Democracia. 3. Cooperação em vez de forçar a competição. 4. Centralidade do ser humano. 5. Valorização da diversidade. 6. Emancipação. 7. Valorização do saber local, da cultura e da tecnologia popular. 8. Valorização da aprendizagem e da formação permanentes. 9. Justiça social. 10. Cuidado com o Meio Ambiente. Assim, considerando a Economia Solidária como um movimento social que ganha cada vez mais força em âmbito nacional, temos que as pessoas ligadas a esse movimento, por serem cidadãos e reinvidicarem seus direitos, hoje conseguem ter visibilidade e têm conseguido que o Estado adote medidas de modo a apoiar essas iniciativas alternativas de trabalho. Compreendido o surgimento da economia solidária como alternativa de resistência à exclusão dos meios de produção gerados pelo sistema capitalista, faz-se necessário perceber como as políticas públicas são implantadas, de forma a beneficiar essa parte da sociedade. Consideraremos, para fins deste trabalho, como políticas públicas as estratégias governamentais voltadas a determinado assunto ou problema que se quer solucionar, levando em consideração todos os setores da sociedade: social, econômico, fiscal, tributário, saúde, habitação, assistência, educação, meio ambiente.(OLIVEIRA, 2005) Políticas são atos oriundos das relações de força na sociedade, materializados sob diversas formas. São denominadas públicas quando essas ações são comandadas por agentes estatais e destinadas a alterar as relações sociais existentes, como manifestações das relações de forças sociais refletidas nas instituições estatais e que atuam sobre campos institucionais diversos em função do interesse público, destinando-se a alterar as relações sociais estabelecidas. (DERANI (2002) apud OLIVEIRA, 2005) Kapron; Fialho (2003), entretanto, afirmam que quanto maior for o controle da sociedade sobre a criação e a execução das políticas públicas e quanto maior for seu campo de atuação e maiores os seus resultados, mais forte será o seu caráter público. Portanto, não basta que os Estados criem as políticas públicas voltadas para determinados segmentos da sociedade, para que as mesmas sejam consideradas efetivas, faz-se necessária, em nossa opinião, a participação popular a quando de sua criação e no desenvolvimento das ações dessas políticas a fim de concretizar a participação e o controle São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 15 social sobre as ações estatais já que serão os maiores beneficiados com essa atuação do Estado. A Secretaria Nacional de Economia Solidária – SENAES, órgão governamental vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego do Governo Federal, surgiu em 2003 a partir de uma grande articulação de entidades do movimento de economia solidária, posto que reinvidicação antiga do movimento. A SENAES tem como objetivo desenvolver as políticas voltadas para a economia solidária em estreita colaboração com o movimento da sociedade civil, majoritariamente organizada no Fórum Brasileiro de Economia Solidária. Singer (2009) afirma que a maioria das políticas da SENAES se destina a apoiar e ampliar ações que já haviam sido tentadas ou ao menos esboçadas anteriormente por movimentos sociais ou Organizações Não Governamentais (ONGs) ligadas à economia solidária. Para o mencionado autor, a política mais importante para institucionalizar a economia solidária no governo federal é sem dúvida a formação em economia solidária. Praticamente desde a sua criação a SENAES começou a oferecer cursos de economia solidária a servidores do governo federal, não apenas em Brasília, mas também nos órgãos situados nos Estados da Federação, a fim de contribuir para que os mesmos pudessem ampliar a construção de políticas públicas locais de economia solidária, levando em consideração as especificidades de cada Estado e/ou região. Outras políticas importantes da SENAES mencionadas pelo autor são o mapeamento da economia solidária em todo o território nacional e a implementação do programa Brasil Local, que visa o desenvolvimento endógeno de comunidades pobres mediante a ação de agentes de desenvolvimento solidário, os quais são membros das comunidades, escolhidos por elas para se dedicarem integralmente à organização de empreendimentos solidários visando a melhora, a diversificação e a ampliação da economia local. Singer (Idem) ainda destaca a importância do Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares (Proninc), o qual apóia as ações das incubadoras de empreendimentos solidários e cooperativas populares nas universidades brasileiras de forma a incubar pessoas de baixa renda que se associam criando fontes coletivas de trabalho e renda, seguindo os princípios da economia solidária. Ainda em âmbito federal, Singer (2009) cita outras políticas de fomento da SENAES, conforme vejamos: a) o apoio e o acompanhamento de empresas recuperadas mediante convênios com a Associação Nacional de trabalhadores e Empresas de Autogestão (Anteag) e a União e Solidariedade das Cooperativas e Empreendimentos de Economia Social do Brasil (Unisol Brasil); b) apoio a redes e cadeias produtivas formadas por EESs, que são essenciais à sobrevivência e ao progresso de tais empreendimentos; c) apoio a atividades comerciais dos EESs, que em geral têm muita dificuldade em acessar mercados para os seus produtos; São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 16 d) apoio às finanças solidárias e em particular às que atendem produtores de baixa renda com fornecimento de microcrédito; e) criação de Centros Públicos de Economia Solidária, que podem ser estratégicos para a difusão da economia solidária em aglomerações urbanas. Para Schiochet (2009), as políticas de economia solidária são definidas como as que geram trabalho e renda. Entretanto, podemos realmente dizer que estas políticas limitam-se a gerar trabalho e renda? Seriam estes os únicos fins do movimento de economia solidária? As políticas públicas de economia solidária no Estado do Pará têm surgido como forma de enfrentamento às reivindicações do movimento em âmbito estadual, as quais, de acordo com a plataforma do Fórum Paraense de Economia Solidária, está dividida em 8 eixos: Marco Legal e Organização Social, Comunicação e Divulgação, Políticas Públicas da Área de Finanças, Políticas Públicas da Área de Redes de Produção, Articulação, Educação e Formação, Rede de Produção, Comercialização e Consumo, Democratização do Conhecimento e da Tecnologia. Na visão de Miranda (2009), alguns desafios são citados pelos atores sociais da economia solidária como fundamentais para a consolidação da economia solidária em toda sua extensão territorial, como por exemplo, criar estratégias efetivas de participação dos empreendimentos solidários, a partir de apoio financeiro e logístico de órgãos, entidades de fomento, ou gestores públicos, uma vez que a extensa distância entre os municípios inviabiliza a participação em eventos na capital e dificulta a articulação e integração entre os empreendimentos do interior do Estado. A mesma autora sugere que essas estratégias podem ser concretizadas a partir da sensibilização dos gestores públicos para o fomento e difusão da economia solidária no Estado, viabilizando a implementação de fóris regionais e locais, a fim de divulgar e fomentar a economia solidária no Estado do Pará, a partir das regiões. Como as distâncias no Estado são muito grandes, a regionalização na formulação das políticas públicas seria mais eficaz em atender aos interesses do movimento. Concordamos com Praxedes (2009), quando a mesma destaca a importância das políticas públicas para a economia solidária não serem setorizadas dentro dos entes estatais, mas sim transversais, articulando instrumentos das várias áreas do governo e do Estado (educação, saúde, meio ambiente, trabalho, habitação, desenvolvimento econômico, saúde, tecnologia, crédito e financiamento, entre outras), para criar um contexto efetivamente propulsor da emancipação e da sustentabilidade. A mesma autora afirma que tanto no processo de construção quanto na implementação de uma política pública de qualquer natureza, e em particular de economia solidária, deve-se buscar uma ação integrada, complementar e descentralizada (de recursos São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 17 e ações) entre os entes da federação, evitando sobreposição de iniciativas e fragmentação de recursos, primando pela participação e o controle social. 3 O PROGRAMA BOLSA TRABALHO COMO POLÍTICA PÚBLICA DE GERAÇÃO DE TRABALHO E RENDA E SUA INTERFACE COM OUTROS PROGRAMAS IMPLEMENTADOS PELO GOVERNO DO ESTADO DO PARÁ O Governo do Estado do Pará tem implementado alguns programas3 que entendemos terem interface com os empreendimentos solidários, dentre os quais o que mais se destacou foi o Programa Bolsa Trabalho, uma política de inclusão social e investimento em qualificação profissional para jovens paraenses de baixa renda, entre 18 e 29 anos de idade, os quais recebem uma bolsa auxílio temporária no valor de R$ 70,00 (setenta reais) mensais. O programa possui três linhas de desenvolvimento: 1. A intermediação de mãode-obra para o emprego formal; 2. Desenvolvimento de atividade empreendedora de pequeno porte individual; e 3. Desenvolvimento de atividade empreendedora de pequeno porte coletiva. Como dito anteriormente, dentro do citado programa, há uma linha visando a constituição de empreendimentos coletivos solidários, seja na forma de cooperativas ou de associações, organizados e gerenciados por esses jovens, oportunizando uma forma diferenciada de acesso ao mercado de trabalho. Para realizar a qualificação para este tipo de trabalho coletivo, o Governo do Estado do Pará se uniu a incubadoras de empreendimentos solidários, as quais foram contratadas como executoras do programa a fim de que os participantes dos empreendimentos participassem de oficinas e cursos específicos, visando à organização social e política, e o aprimoramento profissional desses jovens. Entretanto, não basta apenas que tais jovens recebam cursos de aprimoramento profissional tem que haver outros tipos de incentivos que viabilizem não apenas o empreendimento economicamente visto, mas sim a evolução de todos os sujeitos participantes desse processo enquanto seres humanos, cidadãos portadores de direitos e mais conscientes destes e de seus deveres para com a sociedade. Daí mencionarmos a importância da integração dessa política pública de geração de trabalho e renda para sujeitos da economia solidária com outros programas governamentais como os que passaremos a citar. 3 Os programas citados no trabalho foram retirados do site do Governo do Estado do Pará, acessado no sítio http://www.pa.gov.br/, acessado em 28 de junho de 2009. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 18 3.1 Criação de distritos industriais O Governo do Pará possui como estratégia para potencializar os investimentos na economia do Estado, o investimento em cinco distritos industriais em seus principais pólos de desenvolvimento: recuperando os Distritos Industriais de Icoaraci e Ananindeua, e implantando os distritos de Barcarena, Santarém e Marabá. Fomentando a produtividade do Estado, a implementação dos Distritos Industriais estaria contribuindo com a economia solidária na medida em que cooperativas fossem estimuladas a produzir nos mesmos, de acordo com os interesses regionais. As cooperativas do Programa Bolsa Trabalho poderiam ficar responsáveis pela gerência de grandes indústrias, recebendo incentivos e garantindo sua viabilidade econômica, sustentabilidade ambiental e inclusão social, com a criação de novos postos de trabalho. 3.2 Mova Pará e Pró-Jovem O Mova Pará é um movimento de alfabetização de jovens e adultos que visa minimizar o analfabetismo no Estado do Pará por meio de ações que promovam a oportunidade de acesso à educação. Os adultos e jovens que passam pelo Mova são incluídos na modalidade Educação de Jovens e Adultos – EJA, que consiste em estimular adultos e jovens a partir dos 15 anos para dar continuidade aos seus estudos. De acordo com o site do Governo do Pará, desde que foi lançado em 2008, o Mova alfabetizou 52 mil jovens que faziam parte da estimativa de 600 mil analfabetos existentes no Estado do Pará. Em 2009, é meta que mais 180 mil pessoas sejam alfabetizadas, e que em 2010 o índice de analfabetismo estadual seja reduzido em 50%. O programa Pró-Jovem do Governo do Pará tem como objetivo fornecer formação de ensino fundamental a estudantes que não concluíram este nível de escolaridade. Tal programa possui suas vertentes Pró-Jovem Campo e Pró-Jovem Urbano. O Pró-Jovem Campo é voltado para jovens agricultores na faixa etária de 18 a 29 anos, que receberão qualificação social e profissional em agricultura familiar. A duração do curso é de dois anos, com direito à bolsa bimensal de R$ 100,00 (cem reais) por aluno. O Pró-Jovem Urbano é voltado também para jovens de 18 a 29 anos os quais receberão a educação fundamental e ainda formação profissional e cidadã com direito também há uma bolsa de R$ 100,00 (cem reais) por aluno, durante 18 meses. Nesta vertente há ainda a previsão de atendimento há cerca de 300 jovens, entre 18 e 29 anos, que estejam presos em casas penais da Grande Belém. Sendo a educação contínua um dos princípios basilares da economia solidária e do cooperativismo, temos que os mencionados programas fazem interface com os São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 19 interesses da economia solidária, uma vez que muitos dos jovens participantes do Programa Bolsa Trabalho, principalmente os beneficiários do interior do Estado não tiveram ou tiveram pouco acesso à educação básica e de nível médio. 3.3 Kits escolares O kit escolar distribuído pelo Governo do Pará neste ano de 2009 contendo duas camisas da escola, uma agenda e uma mochila foram, segundo informações do site do Governo, confeccionadas por cooperativas de costureiras das localidades onde se situam escolas, tendo contado com a participação de cooperativas que participam do Programa Bolsa Trabalho. Tal iniciativa contribuiu para a geração de trabalho e renda à população, bem como incentivou a educação em nosso Estado. 3.4 Campo Cidadão O programa Campo Cidadão tem como objetivo o desenvolvimento rural de caráter socioambiental, direcionado para os produtores familiares, buscando melhorar os benefícios sociais e econômicos do meio rural, a partir de práticas produtivas sustentáveis. A meta é beneficiar 120 mil famílias em quatro anos de governo. O Campo Cidadão tem a intenção de integrar o setor público e a sociedade civil de forma a garantir a segurança alimentar, elevar as capacidades locais de competitividade econômica, assegurar a adequação ambiental da produção familiar e melhorar a qualidade de vida dos produtores familiares, ribeirinhos, pescadores artesanais, quilombolas, extrativistas e populações tradicionais. A economia solidária tem como princípio o cuidado com o meio ambiente, dessa forma, o programa Campo Cidadão seria uma forma de incentivar os empreendedores solidários em manterem seu compromisso com a sustentabilidade ambiental, gerando ainda segurança alimentar e concatenando o saber popular local com as novas técnicas de manejo ambiental de forma a promover a melhoria da qualidade de vida desses sujeitos. Em nossa opinião, todos os programas citados, embora estejam vinculados a secretarias diferentes dentro do Governo do Estado do Pará, podem ser implementados de forma a favorecer os empreendimentos solidários, como os provenientes do processo de incubação do Programa Bolsa Trabalho uma vez que este programa não tem apenas uma conotação urbana, mas também rural. Entretanto, não há dados na atualidade que demonstrem a efetividade desses programas, seus resultados e sua contribuição para com a sociedade paraense. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 20 4 CONCLUSÃO A economia solidária, movimento social baseado em valores como igualdade, solidariedade, autogestão, justiça social e cooperação, surge como uma alternativa de geração de trabalho, renda e condições dignas de vida à pessoas consideradas vulneráveis socialmente por encontrarem-se em situação de precarização laboral. Tal movimento aparece como proposta de igualdade de condições entre os sujeitos que compõem a coletividade da associação, eliminando hierarquias, apoiando práticas democráticas, onde as diferenças sejam respeitadas e possam se manifestar sem que tal ação gere desigualdades, onde todos num mesmo espaço podem exercitar a cidadania. As políticas públicas propostas para a economia solidária são, em sua grande maioria, voltadas para a geração de trabalho e renda, entretanto, devem agir em diversas áreas da sociedade. Tanto a SENAES, em âmbito federal, quanto a DECOSOL, em âmbito estadual, assim como outras estruturas governamentais de economia solidária, devem agir de forma integrada com os diversos setores do governo a fim de promover ações integradas e não independentes, que não se comuniquem ou se sobreponham umas às outras. Entendemos que para que as políticas públicas de economia solidária ultrapassem as esferas de partidos e de gestões governamentais, a fim de virarem verdadeiros direitos deste segmento da sociedade e deveres do Estado, devem ser garantidas legalmente, contando com a participação de seus sujeitos, cidadãos, não apenas na criação dessas ações de seu interesse, mas ainda no controle das mesmas, em sua avaliação e acompanhamento. Só assim poderemos garantir que tenham continuidade e não fiquem à mercê de serem inviabilizadas sempre que mudarem os governantes. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. 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ECONOMIA SOLIDÁRIA NO ESTADO DO PARÁ: atores, tramas e desafios. 2009. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2009. PRAXEDES, Sandra Faé. Políticas públicas de economia solidária: novas práticas, novas metodologias. Boletim Mercado de Trabalho. IPEA, n. 39, maio de 2009, p. 57-62. SINGER, Paul. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006. SINGER, Paul. Políticas públicas da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego. Boletim Mercado de Trabalho. IPEA, n. 39, maio de 2009, p. 43-48. LAVILLE, Jean-Louis; GAIGER. Luiz Inácio. Economia solidária. In CATANI, Antonio David et al (Orgs.). Dicionário Internacional de Economia Solidária. Coimbra: Edições Almedina, 2009. p. 162-168. SCHIOCHET, Walmor. Políticas Públicas. In CATANI, Antonio David et al (Orgs.). Dicionário Internacional de Economia Solidária. 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Palavras-chave: educação popular, empreendimentos populares solidários, inclusão social. 1 INTRODUÇÃO Este artigo surge a partir de nossas reflexões enquanto educadora junto aos trabalhadores de empreendimentos solidários, no Estado do Pará, mas especificamente no Município de Marabá, sob o ponto de vista da sociologia da educação. Desenvolvemos nossas ações pedagógicas através do Programa Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e Empreendimentos Solidários – PITCPES, da Universidade Federal do Pará. Este Programa tem por objetivo a formação técnico-científica, de alunos de graduação e pós-graduação, assim como, de trabalhadores e gestores de empreendimentos vinculados a economia solidária. A articulação entre ensino pesquisa e extensão tem por finalidade a consolidação de um eixo de estudos e pesquisas deste Programa, voltada para área do trabalho, economia solidária e desenvolvimento regional e local, tendo como linha de intervenção do processo pedagógico a educação popular, apoiadas na pesquisa-ação. As ações desenvolvidas pelo PITCPES direcionadas aos empreendimentos ocorrem tanto da área urbana quanto na área rural, mas para efeito deste artigo daremos ênfase às ações voltadas para o Município de Marabá. 1 Tema apresentado na mesa ECONOMIA SOLIDÁRIA: uma análise da formação de cooperativas com beneficiários do Programa Bolsa Trabalho no Município de Marabá – PA, na IV JORNADA INTERNACIONAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS. São Luis.Ma. 2 Assistente Social da Universidade Federal do Pará. Mestre em Sociologia pela UFPA. Doutoranda de la Universidade de la Empresa. Montevideo-Uy. [email protected] São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 23 Trabalhamos com base nos princípio e valores da economia solidária, ou seja, ajuda mútua, responsabilidade, democracia, igualdade, eqüidade e solidariedade, sendo, portanto, vislumbrado uma “outra economia” que permite articular diversos elos da cadeia produtiva, a partir de tais valores, e ainda, valorizando o consumo solidário com a produção e a comercialização de modo dinâmico em nível local e regional. Nossa proposta de intervenção junto a esses jovens de Marabá é contribuir com a organização, formação e fortalecimentos dos mesmos em grupos de produção visão a constituição dos mesmos em empreendimentos solidários autogestionários. 2 O PROCESSO METODOLOGICO No âmbito de estudos sobre empreendimentos populares de economia solidária, explicitar como ocorrer o processo pedagógico é tarefa importante no esforço metodológico para apreender a dinâmica e performance da organização social e política desses trabalhadores. A Disponibilização de tecnologia social no âmbito da gestão, formação e inovação para os empreendimentos populares solidários, ocorre através do processo pedagógico com os mesmos, realizados pela equipe técnica (professores, pesquisadores, bolsistas de graduação e pós-graduação e técnicos contratados) das diversas áreas do conhecimento: econômica, contábil, direito, serviço social, engenharia de alimentos e nutrição do Programa Incubadora da UFPA. No caso específico com jovens que nunca tiveram experiências em trabalho coletivo, a formação é minuciosamente planejada, dividida em formações básicas (desde mobilização, construção e organização dos grupos) e de cursos específicos. As atividades específicas se voltam para a organização, produção e comercialização, com a finalidade da transferência de conhecimento para o aprimoramento da gestão, melhoria do processo produtivo e da comercialização da produção dos empreendimentos. O objetivo aqui é demonstra o funcionamento dos empreendimentos, levando em consideração às normas e procedimentos administrativo-financeiros, e contábil, geridos pelos trabalhadores de forma autônoma. O processo de incubação, desenvolvido pelo PITCPES tem como dinâmica didático-pedagogico praticas mais participativa e libertadora, ou seja, segue o viés contrahegemônico da educação formal. A intenção é fazer a articulação entre o saber acadêmico com o saber popular, tendo como perspectiva o processo pedagógico, onde ambos, equipe da Incubadora e trabalhadores, são possuidores de saber, saberes diferentes. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 24 A interlocução entre equipe técnica e os jovens ocorre através do diálogo, que se desenvolve nas diversas fases do processo pedagógico, aonde se vai estabelecendo a relação de confiança e respeito mútuo (FREIRE, 1987). Considerando que, no acompanhamento contínuo vai se estabelecendo um relacionamento profissional, que possibilita observar e problematizar junto com esses trabalhadores a realidade concreta de cada empreendimento, e a partir de suas particularidades, se propõe ações em conjunto. Entendemos que a construção do conhecimento deve ser feita sempre no percurso do caminho que vai e vem dos indivíduos para o grupo, ou seja, as mudanças vividas pelos indivíduos refletem a imagem de si que eles constroem na experiência coletiva e, ao mesmo tempo, é a partir da contribuição de cada indivíduo que a imagem do grupo vai sendo construída, na negociação de valores e princípios. Esse processo de construção é facilitado pelos instrumentos e técnicas metodológicas da pesquisa qualitativa, através de observações, entrevistas, utilização de dinâmicas de grupos e sócio-drama. Em Marabá, o PITCPES desenvolveu o processo de formação à 300 beneficiários, em janeiro de 2008 a abril de 2009, teve inicio com a realização de um seminário intitulado “Políticas Públicas de Economia Solidária em Marabá” , o qual teve o intuito de apresentar o programa não apenas aos beneficiários como a toda a sociedade civil de Marabá. Como partes do planejamento das atividades básicas, foram desenvolvidas quatro oficinas: Acolhimento, Organização Social, Linha do tempo I e II. A primeira tinha por objetivo uma aproximação maior com os beneficiários, a explicação da crise no mundo do trabalho e a apresentação da metodologia de incubação do PITCPES, bem como, a aplicação de questionários socioeconômicos para subsidiarem a pesquisa sobre o perfil dos beneficiários; a segunda, teve por objetivo discutir temáticas relacionadas a mobilização, organização e participação, bem como, constituição de grupos e importância do trabalho coletivo; nas oficinas de Linha do Tempo foram utilizadas a metodologia de construção por meio de desenhos da história de vida de cada beneficiários, com o objetivo de resgatar os processos de trabalho nas suas três gerações familiares (sujeito atual, pais e avós). Posteriormente, as discussões das oficinas sobre a metodologia de trabalho é dividida em duas fases, a primeira tem por objetivo a formação de gestores para empreendimentos solidários e a segunda, formação tecnológica da cadeia produtiva que se originou no processo de acompanhamento. A formação de gestores em empreendimentos solidários é básica para todos os bolsistas e tem o objetivo de dar subsídios necessários para que os jovens beneficiários possam autogerenciar o empreendimento a ser formado. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 25 Ainda na primeira etapa do processo pedagógico, são ministrados cinco módulos de cursos descritos abaixo: Trabalho, cidadania e meio ambiente objetiva a discussão concernente a origem e as transformações no mundo do trabalho, para que os beneficiários possam entender a conjuntura da crescente falta de emprego, bem como, discutir com os mesmos os conceitos de cidadania e as formas de exercê-la, por fim, articula-se a discussão relacionada ao meio ambiente, forma de conservação, produção de bens que respeitem a sustentabilidade ambiental, vale a pena ressaltar, que essa é uma das bandeiras de luta da economia solidária. Planejamento e Gestão no intuito de abordar conceitos e características de empreendedorismo; ferramentas necessárias para o planejamento, gerenciamento e administração dos empreendimentos que os beneficiários formarão futuramente; diferentes tipos de empreendimentos solidários, como associativismo e cooperativismos, suas características e diferenças; princípios, direitos e deveres dos associados. Comercialização e mercado visando promover a discussão de questões relacionadas produção à comercialização dos produtos; planejamento relacionado aos produtos; infra-estrutura de comercialização; divulgação (marketing), material necessário; formação de preços tipos de mercados fornecedores, concorrentes e consumidores, etc. Contabilidade de custos e formação de preços, introduzindo conhecimentos com relação a identificação, manuseio e controles financeiros básicos da contabilidade de empreendimentos solidários, conceitos básicos da contabilidade de custos, ainda foram trabalhados: noções gerais de contabilidade de custos, gastos; investimentos, custos, despesas, ponto de equilíbrio, noções de formação de preço, estratégia de preços distintos, estratégia de preços competitivos, estratégia por linha de produto, estratégia de preços psicológicos. Noções de informática proporcionando conhecimento das ferramentas da informática, para a organização e produção de documentos jurídicos que o empreendimento possa demandar, bem como, o uso do Excel para facilitar os controles financeiros, estratégias de vendas pela internet, e outros recursos necessários. Com a finalização da primeira etapa do processo pedagógico, prosseguiu-se com as formações tecnológicas de acordo com a cadeia produtiva escolhida pelos beneficiários, nesse caso, aconteceram os cursos voltados para cadeia de alimentação, estética e beleza e cuidador de idoso. Além das capacitações, como parte do processo pedagógico, foram realizadas reuniões ampliadas tendo em vista o engajamento dos participantes ao Programa. Em seguida, buscamos traçar o perfil de cada grupo, a partir da coleta de dados via questionários, entrevistas e conversas informais, bem como, procuramos detectar os pontos São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 26 fracos e fortes, e as principais necessidades de cada um, para serem dirimidas no processo. O perfil que procuramos traçar faz parte do plano de ação. Esses dados são trabalhados nas reuniões semanais pelas equipes de trabalho, no aprofundamento das literaturas a respeito do processo pedagógico de empreendimentos populares solidários, na realização do diagnóstico e cursos implementados. Como era o esperado, esses jovens não possuem experiência em trabalho coletivo, mas que aos poucos vão se percebendo enquanto sujeitos coletivos pertencentes a realidades em comum, com anseios, com desenhos de perspectivas de trabalho. As cadeias produtivas que foram construindo por eles, estão voltadas para três modalidades de produção e serviços, (alimentação, estética, cuidador de idoso), embora demonstrem entusiasmo, ao mesmo tempo, mostram preocupações e inseguranças em relação à gestão de seus empreendimentos, isto porque, não consegue assimilar, de modo técnico, a dinâmica do mercado, embora tenham flexibilidade para adaptações. Contudo, observamos que há uma precarização muito forte nesses empreendimentos, visto que só a formação em si não é suficiente para garanti-los no mercado, é de interesse da Incubadora continuar acampando esses empreendimentos que se formaram, visando fortalecer a organização social, política e produtiva dos mesmos, para que possam conseguir sua autogestão. De modo geral, constatamos que o processo de organização social e política, e auto-gestão de empreendimentos solidários no Estado, é complexo. Primeiro, porque as condições desses empreendimentos no Estado do Pará refletem a problemática que caracteriza a crise do trabalho no país. Há precariedade de condições materiais, sendo grandes as necessidades de infra-estrutura; o treinamento técnico é fragmentado e sem um prosseguimento continuo. Dessa forma, a profissionalização é um dos problemas identificados na gestão dos empreendimentos solidários. A informalidade ou espontaneidade nos processos de trabalho os tornam vulneráveis. Isto os leva a não disponibilizarem e nem acessam investimentos (públicos e/ou privados), tanto no que se refere aos processos produtivos quanto às demandas de marketing e comercialização. Esses trabalhadores têm noção de que é necessário melhorar a qualidade de seus produtos, a fim de garantir inserção no mercado. Eles identificam alguns fatores que levam à baixa inserção nesse mercado, os quais decorrem em grande medida dos aspectos relativos a insumos e matérias-primas, mão-de-obra e nível de produção, mas, contudo precisam de maturidade organizacional para transformar essa situação. Procuramos compreender e interpretar os dados com os quais dialogamos, ressignificando-os através do debate com os trabalhadores, mas temos que respeitar o tempo de maturar de cada grupo, há o momento do despertar e amadurecer para cada um, São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 27 para que sejam eles os agentes de transformação de sua própria realidade (FREIRE, 2008). 4 CONSIDERAÇÕES O aprendizado com a troca de saberes tem sido fundamental para a formulação de novas hipóteses acerca do trabalho e da organização social e política dos empreendimentos com os quais trabalhamos. Esse tipo de aprendizagem exige açãoreflexão-ação na dinâmica do processo sócio-produtivo dos trabalhadores, principalmente, quando se tem como meta o trabalho coletivo. Apoiamos-nos na pesquisa-ação, tento em vista a participação direta da equipe e trabalhadores no processo de construção de alternativas e soluções aos problemas demandados. Neste contexto, a educação popular como transferência de tecnologia social, torna-se necessária em todo o processo. O diálogo dos trabalhadores com a equipe tem possibilitado a interlocução entre conhecimento tácito e conhecimento técnico, possibilitando a reavaliação de procedimentos metodológicos utilizados pela equipe, gerando novas habilidades aos grupos e qualificando os estudos realizados no âmbito da extensão, diferentemente da educação tradicional que se apropriação de forma indevida de conhecimentos produzidos pelos trabalhadores, sem gerar resultados concretos para os grupos. Contudo, o processo pedagógico de formação de empreendimentos em Marabá, é uma experiência inovadora para equipe do PITCPES, a medida que esse trabalho foi realizado anteriormente somente na grande Belém e alguns municípios do Baixo Tocantins. Em termos logísticos, temos encontrado muitas dificuldades, dada as condições de distanciamento das áreas geográficas em Marabá. O distanciamento, o isolamento de alguns grupos em relação às áreas centrais de acesso até o local de produção, e as áreas de riscos, se constitui é grande empecilhos para o trabalho da equipe. A viabilidade do trabalho depende da suplementação de recursos para o aluguel de carro para que a equipe possa ter acesso os empreendimentos em seus locais de produção. A falta de participação e o não compromisso são também alguns dos obstáculos que a equipe tem procurado administrar com os mesmos. As atividades de acompanhamento, orientações técnicas, cursos e oficinas são entendidas como processo pedagógico. Outra coisa que vale a pena ressaltar é falta de uma gestão compartilhada entre as municipalidades, tal ausência leva ao funcionamento de ações fragmentadas, que não respondem ao processo real de circulação dos empreendimentos ente os municípios. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 28 Em suma, temos o desfio de romper com metodologias tradicionais, visto que, essas práticas educativas alienam os sujeitos, buscamos uma educação que transforme num tecido sócio-político e cultural e popular, uma “educação libertadora”. REFERÊNCIAS DURKHEIM, Emile. Educación y Sociologia. Península. Barcelona.1996 EID, Farid. Metodologia de Incubação de Empreendimento de Economia Solidária. In: Educação e Sócio – Economia Solidária: paradigmas de conhecimento e de sociedade. Serie Sociedade Solidária. Ano I vol.I.Cáceres:Unemat Ed. 2004. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessário â pratica educativa. São Paulo: Paz e Terra. 2008. FREIRE, Paulo. 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São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 29 A IMPORTÂNCIA DO ASSISTENTE SOCIAL NO PROCESSO NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DE COOPERATIVAS NO MUNICÍPIO DE MARABÁ-PA Lissany Braga Gonçalves1 RESUMO Esta pesquisa tem o intuito de disseminar experiências de outros campos de inserção do Assistente Social, especificamente na formação e acompanhamento de inovadoras organizações sócioprodutivas que surgem como alternativas ao enfrentamento da crise do assalariamento nas ultimas décadas do século passado, em que a presença desse profissional torna-se importante por diversos fatores, dentre eles a garantia de direitos. O cenário desse estudo foi em Marabá-Pa e baseou-se na metodologia de incubação que tem fundamentações na pesquisa-ação e educação popular. Como resultado observou-se a importância de estratégias de economia solidária, bem como desse profissional em outros campos de atuação. Palavras chaves: Assistente social, organizações sócio-produtivas, economia solidária. ABSTRACT This research has the purpose of disseminating experiences from other fields of integration of the social worker, specifically in innovative training and monitoring of the socio-productive to emerge as alternatives to addressing the crisis of an employee in the last decades of the last century, in which the presence of a trader it is important for several factors, among them the guarantee of rights. The scenario of this study was Marabá-Pa and based on the methodology of incubation has grounds in action research and popular education. As a result there was the importance of strategies for the solidarity economy, and that work in other fields of activity. Keywords: social worker, the socio-productive, solidarity economy. 1 INTRODUÇÃO As mudanças que vem ocorrendo na sociedade exigem uma leitura teóricometodológica crítica dos assistentes sociais, para que possa haver intervenções de maneira qualificada na sua prática. Nesse contexto de alterações, como afirma Iamamoto (2008) novas possibilidades de trabalhos se apresentam para esse profissional e necessitam ser 1 Assistente Social, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Pará (PPGSS/UFPA). Técnica do Programa Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e Empreendimentos Solidários/ICSA/UFPA. E-mail: [email protected] São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 30 apropriadas, decifradas e desenvolvidas, há que se apreender a realidade vivenciada, a conjuntura em que essa realidade está inserida para não ocorrerem conclusões equivocadas de que as novas práticas demandadas para este são na verdade “deprofissionalizações da categoria”. Nessa perspectiva, esse estudo apresenta em linhas gerais o debate sobre o surgimento de um novo campo de inserção para os assistentes sociais, visando garantia de direitos por meio da inclusão social de pessoas excluídas, do então, decadente emprego assalariado através de geração de trabalho e renda. Contudo, objetivando além da inserção produtiva, a efetivação de participação cidadã que permita a decisão democrática e atogestionária do espaço de trabalho, assim como, da formulação e implementação de políticas públicas que atendam suas necessidades e garantam a sustentabilidade das gerações futuras. Deste modo, iniciaremos esse artigo contextualizando as transformações decorrentes no mundo do trabalho no final do século passado, no intuito de resgatar o surgimento da economia solidária como impulsionador de novas organizações produtivas e ainda como um movimento social de resistência frente às mazelas do capitalismo. No item seguinte, será enfatizada a experiência da criação da incubadora de Marabá- PA, por meio do desenvolvimento de uma política de governo, tomando por base a metodologia de incubação e a transferência de tecnologia social. Por fim, apresentaremos a importância do assistente social na economia solidária, visando à construção e o fortalecimento de uma sociedade justa e igualitária. Para esse fim, demonstraremos com a experiência em Marabá quais os instrumentais teóricometodologicos do serviço social foram utilizados no desenvolvimento do trabalho, assim como a contribuição desse profissional para o êxito das ações nesse município. 2 NO CONTEXTO DAS TRANSFORMAÇÕES NO MUNDO DO TRABALHO: a economia solidária como alternativa ao capitalismo. O final do século passado foi marcado por grandes transformações em diversas esferas da sociedade, ficando mais perceptível essas mudanças por volta de 1980, período de desequilíbrios macroeconômicos, financeiros e de produtividade que se espalharam por toda a economia internacional. Como conseqüência vivenciou-se nesse período uma estagnação econômica além dos altos índices inflacionários, destacando-se ainda modificações no capital e no caráter produtivo atribuído as mutações no paradigma tecnológico que passou a ser adotado de “Terceira Revolução Industrial”. Para Barbosa e Ramos (2003) esse processo de reestruturação do capital implicou em muitas perdas para o trabalhador, entre elas a de postos de trabalho causando São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 31 assim o desemprego em massa. Mota (2000) acrescenta ainda que a reestruturação produtiva caracteriza-se tanto por mudanças nos processos técnicos de trabalho nas empresas, como também pela abertura de capital, privatização de empresas estatais, terceirização, demissões e aumento da produtividade, redefinindo assim, o processo de produção das mercadorias. Essas alterações acarretaram no aumento do desemprego e da informalidade precarizando as relações trabalho. Diante dessa realidade, almejando a superação das desigualdades sociais e o conseqüentemente o combate à exclusão social, parte da massa afetada diretamente pela crise do trabalho, buscou alternativas por meio de novas formas de organização coletiva. Nesse sentido, Mota (2000) afirma que as demandas geradas por tais transformações foram responsáveis pela formação de cooperativas de trabalho e até o planejamento e estruturação de pequenos negócios que pertencem ao próprio trabalhador. É nessa perspectiva que surgiu a economia solidária, como um novo movimento de resistência frente ao capitalismo, baseada em experiências e princípios do cooperativismo já existentes no século XIX, entretanto atenta a outras formas de organizações que não apenas aquelas do período da revolução industrial, outras questões como a ambiental e de gênero, raça e etnia que não tão exploradas no referido período. Assim, segundo Mance (2008) nas ultimas décadas milhões de pessoas começaram a inventar e reinventar novas e antigas formas de organizar-se em atividades de consumo, comercialização, produção, financiamento, desenvolvimento tecnológico, buscando alternativas para seus problemas e construção de uma sociedade mais justa e sustentável. Portanto, ao mesmo tempo em que os trabalhadores sofreram e/ou sofrem com a falta de emprego surgem novas formas de gestão, de ocupação de geração de renda, e assim formulam-se novas teorias e práticas de alternativas de produção, trabalho e renda como conseqüências da crise do desenvolvimento capitalista. Assim, a economia solidária torna-se um movimento em rede que busca de alteração do quadro social relacionado ao desemprego estrutural. Para Bertucci e Silva (1998) em meio ao modelo de desenvolvimento depredador, desigual, explorador e gerador de miséria que opta pelo crescimento econômico e acumulação de riquezas, a economia solidária apresenta-se como uma forma de produção alternativa ao sistema capitalista; criada por aqueles que estão à margem do mercado de trabalho formal, resgatando valores de cooperação, ajuda mútua, respeito à diversidade, princípios de autogestão, democracia, desconcentração de poder e da riqueza, e a busca do desenvolvimento sustentável. Nessa ótica, na economia solidária tem-se como um dos princípios mais importante a autogestão, ou seja, a prática do exercício da democracia, oportunizando igualdade de direitos e deveres sobre os empreendimentos solidários, onde cada um tem São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 32 voz e vez, e ainda para que essa se dê, a massa dos trabalhadores deve ser tanto proprietária quanto gestora dos novos estabelecimentos, situando-se, portanto, para além da propriedade privada capitalista e dos mecanismos burocráticos de controle. Essa prática autogestionária permite que os trabalhadores superem suas limitações tornando-se gestores do seu próprio negócio, sendo assim apresenta-se como uma forma eficiente de tornar empresas solidárias em empreendimentos economicamente produtivos. Sob essa perspectiva, diferentemente da economia capitalista, que visa à acumulação/lucro através da relação patrão x empregado, caracterizado pela competitividade/individualista, com projeto de desenvolvimento monopolista predatório do meio ambiente e das pessoas, com políticas excludentes e compensatórias, e com uma rede de competição e exploração monopolista. A economia solidária promove não somente o desenvolvimento econômico, mas também qualidade de vida das pessoas e seus descendentes, à medida que se preocupa com o desenvolvimento sustentável, a conservação dos recursos disponíveis para as gerações futuras, o fortalecimento de Redes2 e de suas representações e principalmente a valorização do homem enquanto sujeito e finalidade das atividades econômicas. Para transformação da economia solidária em políticas públicas3 é preciso mobilização dos sujeitos que fazem parte desse movimento, principalmente dos empreendimentos populares e solidários, para que assim possam ser conquistados espaços nas decisões públicas. Vale ressaltar que o movimento teve suas dimensões ampliadas nas duas últimas décadas à medida que compilaram diversos outros segmentos já existentes, mas organizados (agricultores familiares, indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais sem terra, trabalhadores cooperativados etc). Destarte, pode-se afirmar que os trabalhadores se unem em busca de um objetivo comum, ou seja, de uma “urgente definição de um projeto político inserido numa estratégia de longo prazo que busque uma nova economia para o desenvolvimento brasileiro” (LISBOA, 2006, p.65). Resultados desse processo de mobilização foram criados o Fórum Brasileiro de Economia Solidária/FBES e a Secretaria Nacional de Economia Solidária/SENAES, frutos da articulação desse movimento social, além de diversas outras políticas de governo nos Estados. Desta forma, Silva et all (2008) destaca que a economia solidária vem crescendo tanto com o apoio governamental quanto de agentes externos, estes últimos são caracterizados por diversas instituições dentre as quais, destacam-se as Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCP), formadas por professores e técnicos de 2 3 Para Castells (1999, p. 566) Rede é um conjunto de nós interconectados. Nó é um ponto no qual uma curva se entrecorta. Mais detalhes vide Castells:A Sociedade em Redes – A era da informação: economia, sociedade e cultura; v. 1. São Paulo: Paz e Terra, 1999. Segundo Bertucci & Silva (1998) políticas públicas são um conjunto de decisões e ações relativas a locação de bens, recursos e serviços, resultante do processamento de demandas em que a posição dos atores é definida de acordo com seus interesses. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 33 universidades públicas. Assim, a UFPA é uma das universidades que desenvolve o Programa Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e Empreendimentos Solidários (PITCPES/UFPA) articulando ensino, pesquisa e extensão, voltado para a transferência de tecnologia social aos empreendimentos solidários na área urbana e rural do Estado do Pará. 3 INCUBAÇÃO DE INCUBADORAS: o processo de implantação da incubadora de cooperativas em Marabá-PA. O PITCPES que iniciou suas ações como um projeto de extensão em 2001, desenvolveu ao longo dessa trajetória, diversos outros projetos de incubação aos empreendimentos solidários tornando-se posteriormente um Programa que tem suas pesquisas centralizadas no trabalho e desenvolvimento da Amazônia, além do fortalecimento da organização social. Suas ações de extensão são realizadas principalmente na região metropolitana de Belém e Baixo Amazonas. Entretanto, no ano de 2006 teve uma abrangência em alguns Estados da Região Norte executando um projeto que teve como uma das metas a incubação de incubadoras por meio de transferência da metodologia de incubação, na perspectiva de disseminar a economia solidária, formando nas Universidades4 possibilidades de responder as demandas de organizações sócioprodutivas. No ano de 2007, outro desafio foi proposto ao PITCPES, com a aprovação do projeto “Incubação de Empreendimentos Solidários no Estado do Pará” desenvolvido em parceria com o governo do Estado do Pará por meio da Secretaria de Trabalho Emprego e Renda/SETER. Cujo objetivo era “promover a transferência de tecnologia social através da incubação de empreendimentos solidários, em articulação com políticas públicas do governo do Estado do Pará, visando à geração de trabalho e renda, a inclusão social e a promoção do desenvolvimento justo e solidário” (PROJETO, 2007), cujas metas eram desde a mobilização de 2000 jovens do Programa Bolsa Trabalho5 até a formação de empreendimentos solidários, ressaltando também como uma das metas a formação de uma incubadora universitária no Campus de Marabá. 4 As universidades que passaram pelo processo de formação para criação de novas incubadoras foram: Universidade Federal Rural da Amazônia-UFRA/PA, Universidade Federal do Acre-(UFAC), Universidade Federal de Roraima (UFRR), Universidade Federal De Rondônia (Unir). 5 Uma política de governo que visa a inclusão social e investimento em qualificação profissional para jovens paraenses de baixa renda, entre 18 e 29 anos de idade, os quais recebem uma bolsa auxílio temporária no valor de R$ 70,00 (setenta reais) mensais, para realizarem qualificação profissional visando acesso desses jovens ao mercado de trabalho, seja de forma individual familiar ou coletiva, sendo somente esta ultima forma acompanhada pelo PITCPES. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 34 Em janeiro de 2008 profissionais do PITCPES se deslocaram a esse município no intuito de aproximação com os técnicos, professores e alunos do Campus Universitário, na perspectiva de formação de uma equipe local, além da organização e realização do seminário “Políticas Públicas de Economia Solidária no estado do Pará” de forma a apresentar aos 300 bolsistas, referente à meta desse município, e a sociedade marabaense as ações que seriam desenvolvidas por meio desse projeto. Deste modo, após um processo de seleção pública foi formada uma equipe local composta por uma coordenação de pesquisa (pedagoga), três técnicos (engenheiro agrônomo, assistente social e economista) e cinco bolsistas (das áreas de direito, pedagogia, ciências sociais, agronomia e sistema de informação). Sendo que, a assistente social juntamente com a coordenadora técnica, também profissional dessa área, ambas, faziam parte do PITCPES, tendo sido cedidas apenas para o desenvolvimento das metas no referido município. A implantação da Incubadora em Marabá se deu através de transferência de tecnologia social entre equipe do PITCPES e equipe local, bem como debates e troca sobre a metodologia de incubação por meio das atividades formativas que eram realizadas por técnicos de Belém em parceria com a equipe do município. Entretanto, segundo Eid (2002) há diferentes métodos de incubação os quais são adequados para os diferentes tipos de empreendimentos de economia solidária, sendo, portanto necessária uma formação própria de metodologia adequada a responder as especificidades da localidade. Visando criar subsídios para a realização das atividades, autogestão dos processos de formação dos beneficiários, da construção de metodologia própria e qualificação profissional da equipe, esta participou de um seminário de formação em Economia Solidária e metodologia de Incubação, que aconteceu em Belém em março de 2008, além de outras oficinas e debates que contribuíram para a apreensão dessa metodologia. No início de fevereiro de 2009 foi aprovada uma resolução na câmara de extensão da UFPA aprovando o projeto “Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e Empreendimentos Solidários do Sul e Sudeste do Pará/ITES”, tornando concretizada a meta da criação da Incubadora de Marabá. 4 O ASSISTENTE SOCIAL E SUA PRÁTICA NA FORMAÇÃO DE COOPERATIVAS COM BENEFICIÁRIOS DO PROGRAMA BOLSA TRABALHO EM MARABÁ-PA O desenvolvimento do Programa Bolsa Trabalho visa à emancipação dos beneficiários, à medida que não se restringe apenas a transferência de renda, mas articula essa garantia de direito à alternativa de uma qualidade de vida antes inexistente. Para além São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 35 da inserção apenas econômica, o objetivo é que por meio da economia solidária seja possível fomentar a cidadania participativa aproximando os integrantes desses empreendimentos em questões políticas e críticas que regem a sociedade por meio de debates e discussões, possibilitando que os mesmos possam democraticamente realizar a transformação social, quiçá para um novo modo de produção baseado em outros valores. Nessa perspectiva, o compromisso ético-político dos profissionais de Serviço Social consiste na ampliação e consolidação da cidadania. Esta é considerada tarefa primordial de toda a sociedade com vistas à garantia dos direitos civis, sociais e políticos das classes trabalhadoras, e revela-se como um dos princípios fundamentais a serem operacionalizados pela profissão (Código de Ética dos Assistentes Sociais, 1993). Um dos princípios fundamentais também dessa profissão é o posicionamento a favor igualdade e da eqüidade social, visando um projeto social, vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação e exploração de classe, etnia e gênero (Código de Ética dos Assistentes Sociais, 1993). Assim o assistente social torna-se importante profissional a contribuir com a expansão da economia solidária, por visar os mesmos princípios de emancipação, igualdade e construção de uma nova sociedade. Segundo Iamamoto (2008) “Os assistentes sociais trabalham com a questão social nas mais variadas expressões quotidianas, tais como os indivíduos as experimentam no trabalho, na família, na área habitacional, na saúde, na assistência social pública etc.” (p. 28) É nessa conjuntura de expressão da questão social que os empreendimentos de economia solidária estão inseridos à medida que se apresentam enquanto alternativas as manifestações da questão social como o desemprego, a exclusão e a precariedade das condições de trabalho. A experiência do Assistente Social na formação de cooperativas em Marabá visou à consolidação dos princípios supracitados para a inclusão social e a garantia de direitos dos beneficiários do Programa Bolsa Trabalho, além do fortalecimento da economia solidária enquanto viabilizadora do alcance a tais princípios. Nesse sentido, não temos o intuito de esgotar os diversos tipos de instrumentais teórico-metodológicos utilizados por esse profissional, mas destacaremos alguns desses empregados no desenvolvimento das atividades no referido município. O foco central da área social junto aos empreendimentos de economia solidária é o fortalecimento da organização social dos sujeitos dentro dos empreendimentos sócioprodutivos. Nesse sentido, intervir nessa organização significa necessariamente compreender que a conjuntura atual, exige “um profissional qualificado, que reforce e amplie sua competência crítica; não só executivo, mas que pensa, analisa, pesquisa e decifra a realidade” (IAMAMOTO, 2008, p. 49), à medida que ele precisará ter esses atributos para São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 36 elaborar com qualidade seus diagnósticos e planejamentos para o acompanhamento dos empreendimentos. O Assistente Social é um profissional que está na linha de frente dos problemas sociais, cara a cara com os usuários, e que utiliza instrumentos de coletas de dados ligados a abordagens mais qualitativas. Em Marabá, foram utilizados instrumentais de entrevistas para traçar o perfil socioeconômico dos beneficiários, reuniões para tratar de assuntos diversos dentro do processo de formação, visitas domiciliares com intuito de acompanhamento do número de faltas nas formações, bem como outras situações adversas que surgiam ao longo do processo. A produção dos relatórios era mensal garantindo a sistematização das ações realizadas e a oportunidade de repensar a prática das ações por meio das avaliações destes. Ressalta-se principalmente que dentro do processo de formação das cooperativas em Marabá foram ministrados cursos e oficinas por esses profissionais relacionados à organização social; trabalho, cidadania e meio ambiente, englobando ainda diversas dinâmicas de grupo e vídeos que facilitaram a compreensão dos ministrados. Assim, Assistente Social vem buscando muitas formas de acompanhamento sistemático das mudanças societárias e que, nesse processo, vem revelando um grande potencial criativo. Isto ficou evidenciado na diversidade de instrumentos utilizados em Marabá, bem como a importância de cada um desses instrumentos para a conquista de um projeto societário diferente, pautado em outros valores que não os capitalistas. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esse estudo torna-se importante para iniciar o debate sobre novas inserções de trabalho do Assistente Social, junto a novas organizações sócio-produtivas, à medida que é um movimento que vem ganhando força nos últimos anos decorrentes das transformações no mundo do trabalho. O debate aqui travado não tem a pretensão de esgotar a temática trabalhada, mas de abrir possibilidades para ampliação de estudos e sistematizações relacionados a outros campos de atuação do Assistente Social. A economia solidária apresenta-se ainda em processo de construção, sendo esse trabalho apenas um instrumento concretizador desse processo, abrindo outras possibilidades de construção a partir de dados apresentados nesse estudo. O assistente social pode, além de promover reflexões acerca da economia solidária, objetivando o processo de conscientização dos trabalhadores, contribuir para o fortalecimento destes empreendimentos e de autonomia dos trabalhadores nas atividades que realizam; promover articulações com as políticas sociais públicas, visando à cidadania destes sujeitos; proporcionar esclarecimento aos trabalhadores sobre a importância da São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 37 igualdade nas relações com as atividades que desenvolvem e incentivar a participação dos sujeitos nas cooperativas e/ou associações, objetivando a autogestão dos empreendimentos coletivos. Realça-se, assim, a contribuição do trabalho profissional do Serviço Social dentro desse contexto da economia solidária. REFERÊNCIAS BARBOSA, M. J. & RAMOS, M. H. R. Globalização, novas relações econômicas e impactos em cidades brasileiras. In: RAMOS, M. H. R. (Org.). Metamorfoses Sociais e Políticas Urbanas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. 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