Psicologia Social Comunitária: Possibilidade de trabalho em Economia Solidária. CASTANHO, Franciele1 CESARO, Francieli de2 DAL MAGRO, Márcia Luiza Pit3 Instituição: Universidade Comunitária da Região de Chapecó – UNOCHAPECÓ. Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares – ITCP Unochapecó. E-mail: [email protected] Eixo Temático: A produção de conhecimentos nas Incubadoras Universitárias de Economia Solidária: modelos, teorias e perspectivas analíticas. Resumo O presente artigo irá descrever a inserção da Psicologia Social Comunitária em um Empreendimento Economicamente Solidário, que tem como atividade principal a agricultura familiar. Tem-se como objetivo contribuir para a atuação do profissional psicólogo na Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unochapecó (ITCP-Unochapecó), bem como em contextos da Economia Solidária (ECOSOL). A ITCP-Unochapecó é um programa de extensão universitária que tem como finalidade promover a inserção na economia formal de grupos em processo ou já excluídos, a partir da sua organização para o trabalho na lógica da Economia Solidária. Elaborou-se a intervenção de forma participativa, primeiramente realizou-se um diagnóstico com as famílias e posteriormente um encontro com todos os envolvidos, a fim de trabalhar temáticas pertinentes para consolidação da cooperativa. Constatou-se que a cooperativa de agricultura familiar para os pequenos agricultores nessa região, tornou-se uma das alternativas para a permanência no meio rural, pois facilita o acesso dos produtores rurais ao mercado que até então é restrito aos agricultores familiares estruturado, além de ser uma possibilidade para a (re) significação do trabalho na vida desses sujeitos. Palavras-chave: Psicologia Social Comunitária; Economia Solidária; Trabalho A Psicologia Social Comunitária vem através dos tempos, ganhando espaços para sua discussão e prática em diversos contextos, no presente trabalho discutiremos a inserção da Psicologia Social Comunitária em um Empreendimento Economicamente Solidário (EES), que tem como atividade principal a agricultura familiar. O EES ao qual se desenvolveu o trabalho faz parte dos empreendimentos assessorados pela Incubadora tecnológica de Cooperativas Populares da Unochapecó – ITCPUnochapecó. A ITCP-Unochapecó que tem como finalidade promover a inserção na economia formal de grupos excluídos ou em processo de exclusão social, a partir da sua organização para o trabalho, através da incubagem e acompanhamento dos mesmos, buscando garantir sua autonomia, independência e qualidade de vida no trabalho. A parceria estabelecida com a Unochapecó permite que a ITCP conte com um quadro de docentes, técnicos e bolsistas de diversas áreas que perpassam o trabalho realizado pela incubadora, bem como a sua estrutura física. Ainda, este envolvimento ITCPUnochapecó, cumpre com um dos objetivos da universidade, que é articular ensino-pesquisa1 2 3 Graduada em Psicologia pela UNOCHAPECÓ. E-mail: [email protected] Graduada em Psicologia pela UNOCHAPECÓ. E-mail: [email protected] Mestre e Doutoranda [email protected]. em Psicologia pela UFSC e professora da UNOCHAPECÓ. E-mail: 1 extensão. Devido ao seu caráter comunitário, retorna à comunidade um serviço sem fins lucrativos, além de ter uma missão importante na construção do conhecimento e no empoderamento da comunidade com vistas à superação das problemáticas demandadas. Além disso, a ITCP-Unochapecó, conta com recursos provindos de projetos submetidos à instituições como o Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares (PRONINC), a Financiadora de Estudos (FINEP) e através da participação em editais, contribuindo assim, para o desenvolvimento das atividades. A ITCP-Unochapecó trabalha na perspectiva da ECOSOL com assessoria aos empreendimentos utilizando uma metodologia de incubação que compreende três grandes fases, pré-incubação, incubação e pós-incubação. Segundo Arns; Girelli e Putton (2009): a pré-incubação refere-se a todas as atividades necessárias à identificação das demandas até a seleção dos empreendimentos a serem incubados, compreendendo o contato com a realidade dos grupos interessados para realização de diagnóstico participativo, além de estudo de viabilidade da proposta de empreendimento. A segunda fase, de acordo com os mesmos autores, diz respeito ao processo de incubação, que é desenvolvido num período de aproximadamente um a três anos e envolve a elaboração do projeto do empreendimento, desenvolvimento do trabalho de assessoria/acompanhamento sobre questões mais específicas, como na área contábil, econômica, social e jurídica, além da realização de capacitações sobre autogestão, ECOSOL e assuntos pertinentes conforme a demanda do empreendimento. Esse processo é desenvolvido na perspectiva da construção da autonomia dos empreendimentos. Ainda, de acordo com os mesmos autores, quando o empreendimento se percebe como autônomo e consegue desenvolver as suas atividades de forma independente, inicia a última fase, denominada de pós-incubação. Nessa fase são realizadas atividades pontuais e periódicas, conforme as demandas do empreendimento e também com o intuito de avaliar e acompanhar os resultados do processo de incubação, assim como, o cumprimento da função social da universidade. A Cooperativa de Agricultura Familiar encontra-se na etapa de pré-incubação, sendo assim, a ITCP-Unochapecó realiza encontros com o empreendimento, visando levantar demandas e dar encaminhamentos para as mesmas, bem como, promover a busca pelo estabelecimento de parcerias com órgãos públicos e privados para assistência e captação de recursos financeiros. A partir da inserção nesse contexto, conhecendo a realidade do empreendimento e a proposta de trabalho da ITCP-Unochapecó, foi visualizado algumas possibilidades de intervenção para a Psicologia, dentre elas o trabalho de grupo e sensibilização dos sujeitos envolvidos, para o processo de constituição e estruturação da cooperativa. Para a realização de tal trabalho, foi necessário a apropriação do referencial teórico utilizado na atuação da ITCP-Unochapecó junto aos empreendimentos. Assim, se considera que a Economia Solidária (ECOSOL), pode ser entendida aqui como um amplo conjunto de formas não capitalistas de organização do trabalho e da produção, formas alternativas, mais solidárias de produzir, distribuir bens e serviços materiais e imateriais, maneirais de trabalhar que visam a integração social dos sujeitos envolvidos (SINGER, 2002). Concomitante com esta forma de atuação buscou-se entre os referenciais da psicologia trabalhar com aqueles que estejam implicados com a experiência subjetiva dos sujeitos, adquirida em seu contexto/meio social, compreendendo sua história na relação com o sujeito em seu processo. Utilizando para isso, metodologias e mecanismos que possibilitem a autonomia dos grupos e o fortalecimento das potencialidades individuais de cada membro. Destaca-se aqui a Psicologia Social e a Psicologia Comunitária (BRANDÃO; BOMFIM, 1999). 2 Cabe aqui contextualizar o local da prática, pois influencia diretamente o modo de vida dos sujeitos participantes. Sendo assim, o empreendimento buscou a parceria com a ITCP-Unochapecó no ano de 2008, localiza-se na região do oeste catarinense, que apresenta características rurais de onde sai boa parte da produção brasileira de suínos e aves, além de possuir significativa produção de grãos. A atividade leiteira tem se tornado, uma alternativa econômica importante, especialmente, para agricultores familiares, com baixas condições sócio-econômicas, a partir disso, a agricultura familiar “[...] tem se apresentado historicamente como uma forma de organização dos meios de produção e um modo de vida fundamental para a reprodução social de agricultores familiares” (BADALOTTI, RENK, FILIPPIN, 2007, p.01). Com isso, podemos pensar que, uma cooperativa de agricultura familiar para pequenos agricultores nessa região, torna-se uma das alternativas para a permanência no meio rural. Ainda, com a criação da cooperativa, tende a facilitar o acesso dos produtores rurais ao mercado que até então é restrito aos agricultores familiares estruturados tecnicamente e financeiramente. A partir desse contexto têm-se como objetivo aprofundar os conhecimentos teórico-prático da Psicologia Social Comunitária, bem como formular, discutir e analisar instrumentos de intervenção para a atuação do psicólogo no âmbito da Economia Solidária. Método Trabalhou-se a partir de numa perspectiva de intervenção psicossocial, que não corresponde a um processo unidirecional que se origina dos interesses do pesquisador, mas objetivou a realização das capacidades dos sujeitos com os quais trabalhamos. Acreditando que os sujeitos envolvidos no processo são autônomos, extremamente capazes de reverter suas dificuldades e modificar suas condições de vida (SARRIERA et al, 2000). Para isso, buscou-se no decorrer da prática promover encontros e intervenções participativas, em que houvesse o envolvimento de todos os cooperados, levando em consideração a prevenção direcionada à educação e promoção de saúde e bem-estar psicológico dos sujeitos envolvidos no processo. Assim, o trabalho com o EES teve como base o conhecimento da realidade e a partir disso o planejamento das intervenções de acordo com as necessidades e realidade do grupo. Conforme Freitas (1998), a inserção orientada pela necessidade a serem detectadas, conhecidas e mapeadas as demandas, dificuldades e problemas vividos pela população, para posteriormente serem levantados os objetivos para o trabalho de intervenção, traz consigo uma inserção que lida com o domínio das incertezas, sendo elas a incerteza sobre o quê e como fazer e os objetivos são definidos a posteriori deste processo. Esta inserção, da qual Freitas (1998) discute, busca delimitar os objetivos dentro de um processo decisório participativo em que tanto profissional como a comunidade e seus representantes, estabelecem relações horizontais de discussão, análise e definição sobre as problemáticas a serem consideradas e as possibilidades de resolução e/ou enfrentamento para as mesmas (FREITAS, 1998). Inicialmente a inserção no EES de Agricultura Familiar se deu através do acompanhamento das atividades já agendadas com a ITCP-Unochapecó, a fim de conhecer o grupo. Em seguida, apresentou-se a proposta da prática acadêmica para os cooperados e em conjunto definiu-se como demanda de trabalho a realização de um diagnóstico das famílias que residiam na região de abrangência da cooperativa. Após a realização do diagnóstico, planejou-se a realização de encontros com os cooperados para trabalhar temáticas levantadas pelos mesmos. Para a realização do diagnóstico das famílias foi elaborado um instrumento de pesquisa em conjunto com equipe da ITCP-Unochapecó, que possibilitasse caracterizar a 3 realidade dos cooperados e fornecedores dos produtos para a cooperativa, a situação sócioeconômica, características da propriedade e produção, a percepção dos entrevistados acerca da relação entre o grupo – cooperativa, a proposta de trabalho/funcionamento e sobre o conhecimento sobre economia solidária. Aplicou-se esse instrumento com 30 famílias, no período de 14 de outubro a 06 de novembro de 2008. Estas entrevistas foram realizadas com o proprietário que espontaneamente se disponibilizasse a responder, tendo casos em que mais de um membro da propriedade se dispôs a conversar. A partir da análise dos dados obtidos com a aplicação do instrumento, foi planejado um encontro com o grupo de cooperados. Antes do encontro, houve um momento de sensibilização das famílias, com objetivo de mobilizar/sensibilizar os agricultores familiares para a participação no encontro. Para isso, utilizamos a rádio municipal sendo um importante meio de comunicação que contribuiu para disseminar o convite. E por fim, a realização do encontro que aconteceu nas dependências da prefeitura municipal, que teve como objetivo potencializar as singularidades dos cooperados, bem como, da comunidade a qual estão inseridos, resgatando as práticas solidárias e proporcionando ao grupo o diálogo e autoconhecimento. Resultados e Discussão Os resultados serão apresentados a partir da análise das entrevistas realizadas, as quais trouxeram alguns dados quantitativos, como também qualitativos, representados através das falas dos sujeitos envolvidos. Também serão abordadas aqui as contribuições e limites encontrados na efetivação do trabalho em grupo. Em relação aos dados de identificação dos agricultores familiares participantes, constatou-se que a idade em média geral das famílias é de 36,26 anos. No que diz respeito à média geral dos adultos, compreendendo os responsáveis pela propriedade é de 48,19 anos. A média geral dos filhos é de 16,7 anos. Em cinco propriedades residem juntamente com a família também idosos com aproximadamente 80 anos. O estado civil dos responsáveis pela propriedade são 90,32% casados, sendo que os demais são solteiros ou viúvos, correspondendo 3,22% e 6,45%, respectivamente. Sobre as condições de moradia, todas as famílias entrevistadas residem em casa própria, construídas de madeira, alvenaria ou mistas e atendidas com energia elétrica e água encanada. A aquisição destas propriedades se deu na sua maioria (48,4%) através de herança familiar e 45,16% foram compradas (6.45% na informaram dos entrevistados não informaram). A maioria dos entrevistados são católicos (70,96%), 19,35% são evangélicos ou testemunhas de Jeová, e 9,67% dos entrevistados não informaram sua crença. Quanto à profissão, a maioria dos entrevistados define sua profissão, como agricultores, sendo estes 84%. Os demais se identificam como comerciante, cozinheira, panificador e dona da casa (todos estes respectivos a apenas um entrevistado 4%). A renda familiar de 51% dos entrevistados provém apenas da profissão informada, ou seja, agricultor. Entretanto, 36,25% dos entrevistados complementam sua renda com atividades alternativas, como: vendedora, usina de álcool, fábrica de papel, frigorífico, máquinas agrícolas, comerciante e benefício previdenciário. De acordo com a caracterização, organizou-se os resultados obtidos em cinco grandes categorias, sendo elas: problemas de saúde, processo decisório da mulher, a participação e implicação nas atividades da cooperativa e conhecimento sobre Economia Solidária. No que se refere a categoria (I) Problemas de saúde, percebemos que quando os participantes foram questionados sobre a presença de algum problema de saúde na família, 4 63% afirmam apresentar algum tipo de problema de saúde, e quando investigada a origem deste problema, 68% são decorrentes do trabalho. Pode-se apontar que estes problemas de saúde implicam em todos os casos, a limitação em realizar as atividades relacionadas ao trabalho, conforme afirma entrevistado: “dificulta, mas devagar vai, tem que trabalhar”. Com isso, percebe-se que as más condições as quais os agricultores estão expostos em sua atividade laboral, são desencadeadoras de sofrimento físico e mental, no entanto, consideramos que o trabalho é a fonte de renda e um importante fator de saúde psíquica, dessa forma um participante que recebe auxílio doença e está impedido, por orientação médica, de realizar qualquer esforço físico, relata: “sempre que começo a pensar nessas coisas ruins, eu saio de casa vou lá no posto, ou lá na Epagri e converso com eles, ou as vezes eles me dão um remédio”. Quanto à categoria (II) Processo decisório da mulher foi possível visualizar e discutir sobre a importância da opinião da mulher nas decisões/escolhas que serão tomadas na unidade de produção. Das entrevistas realizadas 54% afirmam que a participação da mulher é importante, 23% afirmam ser pouco importante e também 23% muito importante. Diante dos dados obtidos, pôde-se observar que os entrevistados eram em alguns casos as próprias mulheres ou as mesmas estavam presentes, podendo, nesse caso, interferir na validade dos dados. Tal fato pode ser relacionado com os aspectos culturais da região colonizada, sendo que a mulher ocupa o papel importante dentro da casa, porém, quando o assunto é a lavoura, criação e a sustentação financeira da propriedade, a mesma não apresenta o mesmo valor no processo decisório. Entretanto, visualizamos, em alguns casos, que a mulher busca alternativas de sustentar a propriedade, através da venda de produtos para a comunidade, tanto industrializados quanto aqueles que ela mesma produz. Ao que se refere à categoria (III) Participação e implicação nas atividades na cooperativa discutimos os motivos, os benefícios e as dificuldades levantadas pelos entrevistados em relação à cooperativa. Quando os participantes foram questionados sobre os motivos que os fizeram participar, bem como os benefícios que esperam que a cooperativa possa proporcionar, levantou-se a comercialização de produtos, a ausência de atravessadores, a agregação de valor em seus produtos, o aumento da produção gerando emprego para os jovens, melhoria da renda familiar, a industrialização de produtos e a legalização. E quanto às dificuldades, que percebem na cooperativa apontam a falta de apoio dos governantes, a transição de mandatos políticos que geram insegurança e instabilidade para a cooperativa, falta de transporte para arrecadação e entrega dos produtos, têm-se a dificuldade em criar pontos de comercialização e a falta de entendimento e informação por parte dos agricultores. Ainda, percebemos que alguns entrevistados afirmaram que não acompanhavam tais discussões da cooperativa, também outros não desejavam se envolver nas questões, atribuindo à diretoria este conhecimento, pois acreditam que a cooperativa ainda está em fase inicial de constituição. Percebemos ainda, que a diretoria mantém o funcionamento/andamento centralizado, sustentando que os demais cooperados não sintam necessidade de maior implicação no processo de organização e desenvolvimento da cooperativa. Quanto à isso, lembramos de Foucault (2004), o qual discute a relação saber e poder, “saber e poder se implicam mutuamente: não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber” (FOUCAULT, 2004, p. 21). Desta forma, podemos destacar que esta cooperativa ainda tem vestígios de uma organização hierárquica, em que alguns cooperados desempenham o papel de poder, e outros, se mantêm em uma posição repressiva, alimentando esta relação. 5 Quanto à categoria (IV) Conhecimento sobre ECOSOL foi possível discutir sobre o conhecimento e informações que os entrevistados possuem sobre a lógica de produção da Economia Solidária. Vale ressaltar que a utilização do termo ECOSOL, segundo Lechat (2004) foi inicialmente conceituado por Singer como aquele que deve ser um outro espaço livre para a experimentação organizacional, porque só a tentativa e o erro podem revelar as formas organizacionais que combinam o melhor atendimento do consumidor com a autorealização do produtor. A partir dos dados obtidos nas entrevistas verificou-se que, por ser uma cooperativa da qual se propõem a trabalhar na lógica de ECOSOL, os conceitos básicos sobre este modelo, ainda não estão esclarecidos entre o grupo. Dessa forma, se pensou em realizar um encontro que pudesse abordar essa temática. Sendo assim, podemos apontar os dados obtidos nesse encontro. No que se refere, aos resultados obtidos através do trabalho com o grupo, pode-se dizer que, os participantes puderam relacionar, a partir de suas individualidades, a importância da coletividade para o bom andamento da cooperativa. Também, pôde-se perceber como é a comunidade a qual os sujeitos estão inseridos, ressaltando como qualidades, a transformação e qualidade dos produtos produzidos pelos participantes, água potável, a união da família, o trabalho solidário, a forte presença da igreja, a prática de exercícios físicos através do dia-adia que proporcionam uma melhor qualidade de vida e a natureza nativa. Outro fator importante é que em nenhum momento dificuldades desta comunidade foram expressas pelos participantes. Ainda, percebe-se que muitas trocas foram feitas. Trocas no sentido de experiências, como por exemplo, como lidar com um fungo na plantação, propriedades de alimentos, práticas solidárias, diferenças culturais (caboclo x italiano) entre outras. Desta forma, acredita-se que se atingiram as expectativas deste encontro, sendo que proporcionamos aos sujeitos o diálogo. A cooperativa surge como uma das alternativas/estratégias de melhoria da produção com a agregação de valor, aumento da comercialização, bem como estratégias de grupo de compras. Em relação às categorias discutidas, percebe-se que as fragilidades encontradas pelo trabalhador no meio rural, bem como, a sua vulnerabilidade às formas de adoecimento quando o conteúdo significativo do seu trabalho está fragilizado. Lembramos de Codo (1997) apud Jacques (2003) que o trabalho é um fator constitutivo do psiquismo e do processo saúde/doença mental, sendo gerador de significados. Deste modo, o sofrimento psíquico ocorre “quando e apenas quando, afeta esferas da vida [...] que são significativas, geradoras e transformadoras de significados” para o sujeito (CODO, 2002 apud JACQUES, 2003, p. 107108). Acreditamos que os empreendimentos solidários são uma estratégia que desempenha um importante papel de apoio à autonomia e reeducação dos trabalhadores, visando uma transformação gradual da economia para formas alternativas de consumo não capitalistas. Para isso, julga-se necessário pensar a criação de redes de consumo solidário, visando à consolidação destes empreendimentos frente ao sistema capitalista, proporcionando a expansão desta lógica ao atingir novos consumidores. Contudo, é necessário sermos críticos frente a esta lógica de produção solidária, pois percebemos que há um paradoxo quando nos referimos ao cooperativismo como uma alternativa de superação ao capitalismo, pois até que ponto as práticas cooperativas estão de fato conseguindo transformar ou promover pequenas modificações ao modelo do qual se impõem? Acreditamos que através da prática e da leitura realizada até o momento, estes empreendimentos não se implicam totalmente com a lógica da ES, pois parecem buscar no primeiro momento, esta alternativa como uma inserção no mercado de trabalho, através dos meios de comercialização de seus produtos. 6 Considerações Finais Podemos apontar que o vínculo estabelecido entre ITCP-Unochapecó e empreendimento possibilitou o envolvimento com a comunidade e seus aspectos culturais, percebeu-se que diferentes trocas de conhecimento foram construídas entre equipe e cooperados. Conhecer as singularidades de cada sujeito implicado neste grupo é fundamental para a realização de trabalhos com a cooperativa. É como pensar na lógica do cuidado humanizante, do qual se compreende como a “valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde. Os valores [...] são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a co-responsabilidade entre eles, os vínculos solidários e a participação coletiva no processo de gestão”. (BRASIL, 2007, p. 07). Acredita-se que os empreendimentos solidários são uma estratégia que desempenham um importante papel de apoio à autonomia e reeducação dos trabalhadores, visando uma transformação gradual da economia para formas alternativas de consumo não capitalistas. Para isso, julga-se necessário pensar a criação de redes de consumo solidário, visando à consolidação destes empreendimentos frente ao sistema capitalista, proporcionando a expansão desta lógica ao atingir novos consumidores. Percebe-se também, o quanto é importante ressaltar as pequenas modificações que acontecem no que diz respeito à ressignificação da forma de trabalhar, na autonomia do sujeito, da possibilidade de desempenhar uma atividade que lhe desperte interesse e condições mais humanizantes de trabalho. Além disso, existe possibilidade dos trabalhadores imbricados neste processo apreenderem novas formas de trabalho, a partir do histórico acumulado por eles. Diante desta forma de se trabalhar, refletimos sobre a atuação do psicólogo neste campo, a qual necessita sempre estar voltada para a prevenção e promoção de saúde para o trabalhador. Realizando práticas que possibilitem uma metodologia participativa, a qual prevê o referencial teórico da Psicologia Social Comunitária. Assim, procura-se valorizar cada sujeito pelo seu saber, permitindo que o mesmo tenha voz ativa e efetiva dentro do empreendimento. Para isso o psicólogo deve potencializar o grupo para que ele tenha autonomia de decisão e ação. A promoção de saúde entendida aqui como a plasticidade de arriscar, de criar novas normas para conseguir estabilizar-se e enfrentar as condições da vida impostas pelo ambiente, portanto, que o sujeito consiga viver a vida em seu sentimento máximo de potência (PAULON 1999). Ainda sobre a promoção de saúde Silva et al (2005), traz uma concepção ampla do processo saúde-doença incluindo a qualidade de vida, saúde, solidariedade, equidade, democracia, cidadania, desenvolvimento, participação, entre outros como um conjunto ligado diretamente à promoção de saúde, indo além, da ausência de doença. Procurar realizar práticas psicológicas que venham ao encontro desta prevenção e promoção da saúde faz com que as formações em Psicologia busquem o reconhecimento da subjetividade no trabalho, bem como, o significado que os sujeitos dão às determinadas situações e a maneira como “cada um reage a partir da sua história de vida, de seus valores, das suas crenças, das suas experiências e das suas representações sobre a atividade desenvolvida” (CREPOP, 2008, p.28). A partir disto, compreende-se que nos EES há possibilidades de promoção de saúde para os trabalhadores, pois visam igualdade, propriedade coletiva, liberdade individual, autogestão e a valorização do saber coletivo. A relação com o objeto produzido pelo trabalho torna-se afetiva diminuindo o estranhamento, ou melhor, reduz o afastamento do homem de sua essência humana e possibilitam aos sujeitos envolvidos alternativas de transformação e melhoria da sua qualidade de vida. 7 Referências Bibliográficas ANTROPOLOGIA ECONÓMICA Y ECOLÓGICA. BADALOTTI, Rosana Maria; RENK, Arlene; FILIPPIM, Eliane Salete et al. Reprodução social da agricultura familiar e juventude rural no oeste catarinense. Porto Alegre, 2007. ARNS, Carlos Eduardo; GIRELLI, Scheila e PUTON, Ana Maria Pereira. Algumas reflexões acerca da metodologia de incubação da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares – ITCP-Unochapecó. Artigo não publicado. ITCP-Unochapecó, Chapecó, 2009. BRANDÃO, Israel Rocha; BOMFIM, Zulmira Áurea Cruz (org.). Os Jardins da Psicologia Comunitária: escritos sobre a trajetória de um modelo teórico-vivencial. Fortaleza: PróReitoria de Extensão da UFC/ABRAPSO, 1999. BRASIL. 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