Psicologia Social Comunitária: Possibilidade de trabalho em Economia Solidária.
CASTANHO, Franciele1
CESARO, Francieli de2
DAL MAGRO, Márcia Luiza Pit3
Instituição: Universidade Comunitária da Região de Chapecó – UNOCHAPECÓ. Incubadora
Tecnológica de Cooperativas Populares – ITCP Unochapecó.
E-mail: [email protected]
Eixo Temático: A produção de conhecimentos nas Incubadoras Universitárias de Economia
Solidária: modelos, teorias e perspectivas analíticas.
Resumo
O presente artigo irá descrever a inserção da Psicologia Social Comunitária em um
Empreendimento Economicamente Solidário, que tem como atividade principal a agricultura
familiar. Tem-se como objetivo contribuir para a atuação do profissional psicólogo na
Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unochapecó (ITCP-Unochapecó), bem
como em contextos da Economia Solidária (ECOSOL). A ITCP-Unochapecó é um programa
de extensão universitária que tem como finalidade promover a inserção na economia formal
de grupos em processo ou já excluídos, a partir da sua organização para o trabalho na lógica
da Economia Solidária. Elaborou-se a intervenção de forma participativa, primeiramente
realizou-se um diagnóstico com as famílias e posteriormente um encontro com todos os
envolvidos, a fim de trabalhar temáticas pertinentes para consolidação da cooperativa.
Constatou-se que a cooperativa de agricultura familiar para os pequenos agricultores nessa
região, tornou-se uma das alternativas para a permanência no meio rural, pois facilita o acesso
dos produtores rurais ao mercado que até então é restrito aos agricultores familiares
estruturado, além de ser uma possibilidade para a (re) significação do trabalho na vida desses
sujeitos.
Palavras-chave: Psicologia Social Comunitária; Economia Solidária; Trabalho
A Psicologia Social Comunitária vem através dos tempos, ganhando espaços para
sua discussão e prática em diversos contextos, no presente trabalho discutiremos a inserção da
Psicologia Social Comunitária em um Empreendimento Economicamente Solidário (EES),
que tem como atividade principal a agricultura familiar.
O EES ao qual se desenvolveu o trabalho faz parte dos empreendimentos
assessorados pela Incubadora tecnológica de Cooperativas Populares da Unochapecó – ITCPUnochapecó. A ITCP-Unochapecó que tem como finalidade promover a inserção na
economia formal de grupos excluídos ou em processo de exclusão social, a partir da sua
organização para o trabalho, através da incubagem e acompanhamento dos mesmos, buscando
garantir sua autonomia, independência e qualidade de vida no trabalho.
A parceria estabelecida com a Unochapecó permite que a ITCP conte com um
quadro de docentes, técnicos e bolsistas de diversas áreas que perpassam o trabalho realizado
pela incubadora, bem como a sua estrutura física. Ainda, este envolvimento ITCPUnochapecó, cumpre com um dos objetivos da universidade, que é articular ensino-pesquisa1
2
3
Graduada em Psicologia pela UNOCHAPECÓ. E-mail: [email protected]
Graduada em Psicologia pela UNOCHAPECÓ. E-mail: [email protected]
Mestre e Doutoranda
[email protected].
em Psicologia
pela
UFSC e
professora
da
UNOCHAPECÓ.
E-mail:
1
extensão. Devido ao seu caráter comunitário, retorna à comunidade um serviço sem fins
lucrativos, além de ter uma missão importante na construção do conhecimento e no
empoderamento da comunidade com vistas à superação das problemáticas demandadas. Além
disso, a ITCP-Unochapecó, conta com recursos provindos de projetos submetidos à
instituições como o Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares
(PRONINC), a Financiadora de Estudos (FINEP) e através da participação em editais,
contribuindo assim, para o desenvolvimento das atividades.
A ITCP-Unochapecó trabalha na perspectiva da ECOSOL com assessoria aos
empreendimentos utilizando uma metodologia de incubação que compreende três grandes
fases, pré-incubação, incubação e pós-incubação. Segundo Arns; Girelli e Putton (2009): a
pré-incubação refere-se a todas as atividades necessárias à identificação das demandas até a
seleção dos empreendimentos a serem incubados, compreendendo o contato com a realidade
dos grupos interessados para realização de diagnóstico participativo, além de estudo de
viabilidade da proposta de empreendimento.
A segunda fase, de acordo com os mesmos autores, diz respeito ao processo de
incubação, que é desenvolvido num período de aproximadamente um a três anos e envolve a
elaboração do projeto do empreendimento, desenvolvimento do trabalho de
assessoria/acompanhamento sobre questões mais específicas, como na área contábil,
econômica, social e jurídica, além da realização de capacitações sobre autogestão, ECOSOL e
assuntos pertinentes conforme a demanda do empreendimento. Esse processo é desenvolvido
na perspectiva da construção da autonomia dos empreendimentos.
Ainda, de acordo com os mesmos autores, quando o empreendimento se percebe
como autônomo e consegue desenvolver as suas atividades de forma independente, inicia a
última fase, denominada de pós-incubação. Nessa fase são realizadas atividades pontuais e
periódicas, conforme as demandas do empreendimento e também com o intuito de avaliar e
acompanhar os resultados do processo de incubação, assim como, o cumprimento da função
social da universidade.
A Cooperativa de Agricultura Familiar encontra-se na etapa de pré-incubação, sendo
assim, a ITCP-Unochapecó realiza encontros com o empreendimento, visando levantar
demandas e dar encaminhamentos para as mesmas, bem como, promover a busca pelo
estabelecimento de parcerias com órgãos públicos e privados para assistência e captação de
recursos financeiros.
A partir da inserção nesse contexto, conhecendo a realidade do empreendimento e a
proposta de trabalho da ITCP-Unochapecó, foi visualizado algumas possibilidades de
intervenção para a Psicologia, dentre elas o trabalho de grupo e sensibilização dos sujeitos
envolvidos, para o processo de constituição e estruturação da cooperativa.
Para a realização de tal trabalho, foi necessário a apropriação do referencial teórico
utilizado na atuação da ITCP-Unochapecó junto aos empreendimentos. Assim, se considera
que a Economia Solidária (ECOSOL), pode ser entendida aqui como um amplo conjunto de
formas não capitalistas de organização do trabalho e da produção, formas alternativas, mais
solidárias de produzir, distribuir bens e serviços materiais e imateriais, maneirais de trabalhar
que visam a integração social dos sujeitos envolvidos (SINGER, 2002).
Concomitante com esta forma de atuação buscou-se entre os referenciais da
psicologia trabalhar com aqueles que estejam implicados com a experiência subjetiva dos
sujeitos, adquirida em seu contexto/meio social, compreendendo sua história na relação com o
sujeito em seu processo. Utilizando para isso, metodologias e mecanismos que possibilitem a
autonomia dos grupos e o fortalecimento das potencialidades individuais de cada membro.
Destaca-se aqui a Psicologia Social e a Psicologia Comunitária (BRANDÃO; BOMFIM,
1999).
2
Cabe aqui contextualizar o local da prática, pois influencia diretamente o modo de
vida dos sujeitos participantes. Sendo assim, o empreendimento buscou a parceria com a
ITCP-Unochapecó no ano de 2008, localiza-se na região do oeste catarinense, que apresenta
características rurais de onde sai boa parte da produção brasileira de suínos e aves, além de
possuir significativa produção de grãos. A atividade leiteira tem se tornado, uma alternativa
econômica importante, especialmente, para agricultores familiares, com baixas condições
sócio-econômicas, a partir disso, a agricultura familiar “[...] tem se apresentado
historicamente como uma forma de organização dos meios de produção e um modo de vida
fundamental para a reprodução social de agricultores familiares” (BADALOTTI, RENK,
FILIPPIN, 2007, p.01).
Com isso, podemos pensar que, uma cooperativa de agricultura familiar para
pequenos agricultores nessa região, torna-se uma das alternativas para a permanência no meio
rural. Ainda, com a criação da cooperativa, tende a facilitar o acesso dos produtores rurais ao
mercado que até então é restrito aos agricultores familiares estruturados tecnicamente e
financeiramente. A partir desse contexto têm-se como objetivo aprofundar os conhecimentos
teórico-prático da Psicologia Social Comunitária, bem como formular, discutir e analisar
instrumentos de intervenção para a atuação do psicólogo no âmbito da Economia Solidária.
Método
Trabalhou-se a partir de numa perspectiva de intervenção psicossocial, que não
corresponde a um processo unidirecional que se origina dos interesses do pesquisador, mas
objetivou a realização das capacidades dos sujeitos com os quais trabalhamos. Acreditando
que os sujeitos envolvidos no processo são autônomos, extremamente capazes de reverter suas
dificuldades e modificar suas condições de vida (SARRIERA et al, 2000).
Para isso, buscou-se no decorrer da prática promover encontros e intervenções
participativas, em que houvesse o envolvimento de todos os cooperados, levando em
consideração a prevenção direcionada à educação e promoção de saúde e bem-estar
psicológico dos sujeitos envolvidos no processo. Assim, o trabalho com o EES teve como
base o conhecimento da realidade e a partir disso o planejamento das intervenções de acordo
com as necessidades e realidade do grupo.
Conforme Freitas (1998), a inserção orientada pela necessidade a serem detectadas,
conhecidas e mapeadas as demandas, dificuldades e problemas vividos pela população, para
posteriormente serem levantados os objetivos para o trabalho de intervenção, traz consigo
uma inserção que lida com o domínio das incertezas, sendo elas a incerteza sobre o quê e
como fazer e os objetivos são definidos a posteriori deste processo.
Esta inserção, da qual Freitas (1998) discute, busca delimitar os objetivos dentro de
um processo decisório participativo em que tanto profissional como a comunidade e seus
representantes, estabelecem relações horizontais de discussão, análise e definição sobre as
problemáticas a serem consideradas e as possibilidades de resolução e/ou enfrentamento para
as mesmas (FREITAS, 1998).
Inicialmente a inserção no EES de Agricultura Familiar se deu através do
acompanhamento das atividades já agendadas com a ITCP-Unochapecó, a fim de conhecer o
grupo. Em seguida, apresentou-se a proposta da prática acadêmica para os cooperados e em
conjunto definiu-se como demanda de trabalho a realização de um diagnóstico das famílias
que residiam na região de abrangência da cooperativa. Após a realização do diagnóstico,
planejou-se a realização de encontros com os cooperados para trabalhar temáticas levantadas
pelos mesmos.
Para a realização do diagnóstico das famílias foi elaborado um instrumento de
pesquisa em conjunto com equipe da ITCP-Unochapecó, que possibilitasse caracterizar a
3
realidade dos cooperados e fornecedores dos produtos para a cooperativa, a situação sócioeconômica, características da propriedade e produção, a percepção dos entrevistados acerca da
relação entre o grupo – cooperativa, a proposta de trabalho/funcionamento e sobre o
conhecimento sobre economia solidária.
Aplicou-se esse instrumento com 30 famílias, no período de 14 de outubro a 06 de
novembro de 2008. Estas entrevistas foram realizadas com o proprietário que
espontaneamente se disponibilizasse a responder, tendo casos em que mais de um membro da
propriedade se dispôs a conversar. A partir da análise dos dados obtidos com a aplicação do
instrumento, foi planejado um encontro com o grupo de cooperados.
Antes do encontro, houve um momento de sensibilização das famílias, com objetivo
de mobilizar/sensibilizar os agricultores familiares para a participação no encontro. Para isso,
utilizamos a rádio municipal sendo um importante meio de comunicação que contribuiu para
disseminar o convite.
E por fim, a realização do encontro que aconteceu nas dependências da prefeitura
municipal, que teve como objetivo potencializar as singularidades dos cooperados, bem como,
da comunidade a qual estão inseridos, resgatando as práticas solidárias e proporcionando ao
grupo o diálogo e autoconhecimento.
Resultados e Discussão
Os resultados serão apresentados a partir da análise das entrevistas realizadas, as
quais trouxeram alguns dados quantitativos, como também qualitativos, representados através
das falas dos sujeitos envolvidos. Também serão abordadas aqui as contribuições e limites
encontrados na efetivação do trabalho em grupo.
Em relação aos dados de identificação dos agricultores familiares participantes,
constatou-se que a idade em média geral das famílias é de 36,26 anos. No que diz respeito à
média geral dos adultos, compreendendo os responsáveis pela propriedade é de 48,19 anos. A
média geral dos filhos é de 16,7 anos. Em cinco propriedades residem juntamente com a
família também idosos com aproximadamente 80 anos. O estado civil dos responsáveis pela
propriedade são 90,32% casados, sendo que os demais são solteiros ou viúvos,
correspondendo 3,22% e 6,45%, respectivamente. Sobre as condições de moradia, todas as
famílias entrevistadas residem em casa própria, construídas de madeira, alvenaria ou mistas e
atendidas com energia elétrica e água encanada. A aquisição destas propriedades se deu na
sua maioria (48,4%) através de herança familiar e 45,16% foram compradas (6.45% na
informaram dos entrevistados não informaram). A maioria dos entrevistados são católicos
(70,96%), 19,35% são evangélicos ou testemunhas de Jeová, e 9,67% dos entrevistados não
informaram sua crença.
Quanto à profissão, a maioria dos entrevistados define sua profissão, como
agricultores, sendo estes 84%. Os demais se identificam como comerciante, cozinheira,
panificador e dona da casa (todos estes respectivos a apenas um entrevistado 4%). A renda
familiar de 51% dos entrevistados provém apenas da profissão informada, ou seja, agricultor.
Entretanto, 36,25% dos entrevistados complementam sua renda com atividades alternativas,
como: vendedora, usina de álcool, fábrica de papel, frigorífico, máquinas agrícolas,
comerciante e benefício previdenciário.
De acordo com a caracterização, organizou-se os resultados obtidos em cinco
grandes categorias, sendo elas: problemas de saúde, processo decisório da mulher, a
participação e implicação nas atividades da cooperativa e conhecimento sobre Economia
Solidária.
No que se refere a categoria (I) Problemas de saúde, percebemos que quando os
participantes foram questionados sobre a presença de algum problema de saúde na família,
4
63% afirmam apresentar algum tipo de problema de saúde, e quando investigada a origem
deste problema, 68% são decorrentes do trabalho. Pode-se apontar que estes problemas de
saúde implicam em todos os casos, a limitação em realizar as atividades relacionadas ao
trabalho, conforme afirma entrevistado: “dificulta, mas devagar vai, tem que trabalhar”.
Com isso, percebe-se que as más condições as quais os agricultores estão expostos
em sua atividade laboral, são desencadeadoras de sofrimento físico e mental, no entanto,
consideramos que o trabalho é a fonte de renda e um importante fator de saúde psíquica, dessa
forma um participante que recebe auxílio doença e está impedido, por orientação médica, de
realizar qualquer esforço físico, relata: “sempre que começo a pensar nessas coisas ruins, eu
saio de casa vou lá no posto, ou lá na Epagri e converso com eles, ou as vezes eles me dão
um remédio”.
Quanto à categoria (II) Processo decisório da mulher foi possível visualizar e
discutir sobre a importância da opinião da mulher nas decisões/escolhas que serão tomadas na
unidade de produção. Das entrevistas realizadas 54% afirmam que a participação da mulher é
importante, 23% afirmam ser pouco importante e também 23% muito importante. Diante dos
dados obtidos, pôde-se observar que os entrevistados eram em alguns casos as próprias
mulheres ou as mesmas estavam presentes, podendo, nesse caso, interferir na validade dos
dados.
Tal fato pode ser relacionado com os aspectos culturais da região colonizada, sendo
que a mulher ocupa o papel importante dentro da casa, porém, quando o assunto é a lavoura,
criação e a sustentação financeira da propriedade, a mesma não apresenta o mesmo valor no
processo decisório. Entretanto, visualizamos, em alguns casos, que a mulher busca
alternativas de sustentar a propriedade, através da venda de produtos para a comunidade, tanto
industrializados quanto aqueles que ela mesma produz.
Ao que se refere à categoria (III) Participação e implicação nas atividades na
cooperativa discutimos os motivos, os benefícios e as dificuldades levantadas pelos
entrevistados em relação à cooperativa.
Quando os participantes foram questionados sobre os motivos que os fizeram
participar, bem como os benefícios que esperam que a cooperativa possa proporcionar,
levantou-se a comercialização de produtos, a ausência de atravessadores, a agregação de valor
em seus produtos, o aumento da produção gerando emprego para os jovens, melhoria da renda
familiar, a industrialização de produtos e a legalização. E quanto às dificuldades, que
percebem na cooperativa apontam a falta de apoio dos governantes, a transição de mandatos
políticos que geram insegurança e instabilidade para a cooperativa, falta de transporte para
arrecadação e entrega dos produtos, têm-se a dificuldade em criar pontos de comercialização e
a falta de entendimento e informação por parte dos agricultores. Ainda, percebemos que
alguns entrevistados afirmaram que não acompanhavam tais discussões da cooperativa,
também outros não desejavam se envolver nas questões, atribuindo à diretoria este
conhecimento, pois acreditam que a cooperativa ainda está em fase inicial de constituição.
Percebemos ainda, que a diretoria mantém o funcionamento/andamento centralizado,
sustentando que os demais cooperados não sintam necessidade de maior implicação no
processo de organização e desenvolvimento da cooperativa.
Quanto à isso, lembramos de Foucault (2004), o qual discute a relação saber e poder,
“saber e poder se implicam mutuamente: não há relação de poder sem constituição de um
campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder.
Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber”
(FOUCAULT, 2004, p. 21). Desta forma, podemos destacar que esta cooperativa ainda tem
vestígios de uma organização hierárquica, em que alguns cooperados desempenham o papel
de poder, e outros, se mantêm em uma posição repressiva, alimentando esta relação.
5
Quanto à categoria (IV) Conhecimento sobre ECOSOL foi possível discutir sobre
o conhecimento e informações que os entrevistados possuem sobre a lógica de produção da
Economia Solidária. Vale ressaltar que a utilização do termo ECOSOL, segundo Lechat
(2004) foi inicialmente conceituado por Singer como aquele que deve ser um outro espaço
livre para a experimentação organizacional, porque só a tentativa e o erro podem revelar as
formas organizacionais que combinam o melhor atendimento do consumidor com a
autorealização do produtor.
A partir dos dados obtidos nas entrevistas verificou-se que, por ser uma cooperativa
da qual se propõem a trabalhar na lógica de ECOSOL, os conceitos básicos sobre este
modelo, ainda não estão esclarecidos entre o grupo. Dessa forma, se pensou em realizar um
encontro que pudesse abordar essa temática. Sendo assim, podemos apontar os dados obtidos
nesse encontro.
No que se refere, aos resultados obtidos através do trabalho com o grupo, pode-se
dizer que, os participantes puderam relacionar, a partir de suas individualidades, a importância
da coletividade para o bom andamento da cooperativa. Também, pôde-se perceber como é a
comunidade a qual os sujeitos estão inseridos, ressaltando como qualidades, a transformação e
qualidade dos produtos produzidos pelos participantes, água potável, a união da família, o
trabalho solidário, a forte presença da igreja, a prática de exercícios físicos através do dia-adia que proporcionam uma melhor qualidade de vida e a natureza nativa. Outro fator
importante é que em nenhum momento dificuldades desta comunidade foram expressas pelos
participantes.
Ainda, percebe-se que muitas trocas foram feitas. Trocas no sentido de experiências,
como por exemplo, como lidar com um fungo na plantação, propriedades de alimentos,
práticas solidárias, diferenças culturais (caboclo x italiano) entre outras. Desta forma,
acredita-se que se atingiram as expectativas deste encontro, sendo que proporcionamos aos
sujeitos o diálogo. A cooperativa surge como uma das alternativas/estratégias de melhoria da
produção com a agregação de valor, aumento da comercialização, bem como estratégias de
grupo de compras.
Em relação às categorias discutidas, percebe-se que as fragilidades encontradas pelo
trabalhador no meio rural, bem como, a sua vulnerabilidade às formas de adoecimento quando
o conteúdo significativo do seu trabalho está fragilizado. Lembramos de Codo (1997) apud
Jacques (2003) que o trabalho é um fator constitutivo do psiquismo e do processo
saúde/doença mental, sendo gerador de significados. Deste modo, o sofrimento psíquico
ocorre “quando e apenas quando, afeta esferas da vida [...] que são significativas, geradoras e
transformadoras de significados” para o sujeito (CODO, 2002 apud JACQUES, 2003, p. 107108).
Acreditamos que os empreendimentos solidários são uma estratégia que desempenha
um importante papel de apoio à autonomia e reeducação dos trabalhadores, visando uma
transformação gradual da economia para formas alternativas de consumo não capitalistas.
Para isso, julga-se necessário pensar a criação de redes de consumo solidário, visando à
consolidação destes empreendimentos frente ao sistema capitalista, proporcionando a
expansão desta lógica ao atingir novos consumidores.
Contudo, é necessário sermos críticos frente a esta lógica de produção solidária, pois
percebemos que há um paradoxo quando nos referimos ao cooperativismo como uma
alternativa de superação ao capitalismo, pois até que ponto as práticas cooperativas estão de
fato conseguindo transformar ou promover pequenas modificações ao modelo do qual se
impõem? Acreditamos que através da prática e da leitura realizada até o momento, estes
empreendimentos não se implicam totalmente com a lógica da ES, pois parecem buscar no
primeiro momento, esta alternativa como uma inserção no mercado de trabalho, através dos
meios de comercialização de seus produtos.
6
Considerações Finais
Podemos apontar que o vínculo estabelecido entre ITCP-Unochapecó e
empreendimento possibilitou o envolvimento com a comunidade e seus aspectos culturais,
percebeu-se que diferentes trocas de conhecimento foram construídas entre equipe e
cooperados.
Conhecer as singularidades de cada sujeito implicado neste grupo é fundamental
para a realização de trabalhos com a cooperativa. É como pensar na lógica do cuidado
humanizante, do qual se compreende como a “valorização dos diferentes sujeitos implicados
no processo de produção de saúde. Os valores [...] são a autonomia e o protagonismo dos
sujeitos, a co-responsabilidade entre eles, os vínculos solidários e a participação coletiva no
processo de gestão”. (BRASIL, 2007, p. 07).
Acredita-se que os empreendimentos solidários são uma estratégia que
desempenham um importante papel de apoio à autonomia e reeducação dos trabalhadores,
visando uma transformação gradual da economia para formas alternativas de consumo não
capitalistas. Para isso, julga-se necessário pensar a criação de redes de consumo solidário,
visando à consolidação destes empreendimentos frente ao sistema capitalista, proporcionando
a expansão desta lógica ao atingir novos consumidores.
Percebe-se também, o quanto é importante ressaltar as pequenas modificações que
acontecem no que diz respeito à ressignificação da forma de trabalhar, na autonomia do
sujeito, da possibilidade de desempenhar uma atividade que lhe desperte interesse e condições
mais humanizantes de trabalho. Além disso, existe possibilidade dos trabalhadores imbricados
neste processo apreenderem novas formas de trabalho, a partir do histórico acumulado por
eles. Diante desta forma de se trabalhar, refletimos sobre a atuação do psicólogo neste campo,
a qual necessita sempre estar voltada para a prevenção e promoção de saúde para o
trabalhador. Realizando práticas que possibilitem uma metodologia participativa, a qual prevê
o referencial teórico da Psicologia Social Comunitária. Assim, procura-se valorizar cada
sujeito pelo seu saber, permitindo que o mesmo tenha voz ativa e efetiva dentro do
empreendimento. Para isso o psicólogo deve potencializar o grupo para que ele tenha
autonomia de decisão e ação.
A promoção de saúde entendida aqui como a plasticidade de arriscar, de criar novas
normas para conseguir estabilizar-se e enfrentar as condições da vida impostas pelo ambiente,
portanto, que o sujeito consiga viver a vida em seu sentimento máximo de potência
(PAULON 1999). Ainda sobre a promoção de saúde Silva et al (2005), traz uma concepção
ampla do processo saúde-doença incluindo a qualidade de vida, saúde, solidariedade,
equidade, democracia, cidadania, desenvolvimento, participação, entre outros como um
conjunto ligado diretamente à promoção de saúde, indo além, da ausência de doença.
Procurar realizar práticas psicológicas que venham ao encontro desta prevenção e
promoção da saúde faz com que as formações em Psicologia busquem o reconhecimento da
subjetividade no trabalho, bem como, o significado que os sujeitos dão às determinadas
situações e a maneira como “cada um reage a partir da sua história de vida, de seus valores,
das suas crenças, das suas experiências e das suas representações sobre a atividade
desenvolvida” (CREPOP, 2008, p.28).
A partir disto, compreende-se que nos EES há possibilidades de promoção de saúde
para os trabalhadores, pois visam igualdade, propriedade coletiva, liberdade individual,
autogestão e a valorização do saber coletivo. A relação com o objeto produzido pelo trabalho
torna-se afetiva diminuindo o estranhamento, ou melhor, reduz o afastamento do homem de
sua essência humana e possibilitam aos sujeitos envolvidos alternativas de transformação e
melhoria da sua qualidade de vida.
7
Referências Bibliográficas
ANTROPOLOGIA ECONÓMICA Y ECOLÓGICA. BADALOTTI, Rosana Maria; RENK,
Arlene; FILIPPIM, Eliane Salete et al. Reprodução social da agricultura familiar e
juventude rural no oeste catarinense. Porto Alegre, 2007.
ARNS, Carlos Eduardo; GIRELLI, Scheila e PUTON, Ana Maria Pereira. Algumas reflexões
acerca da metodologia de incubação da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares –
ITCP-Unochapecó. Artigo não publicado. ITCP-Unochapecó, Chapecó, 2009.
BRANDÃO, Israel Rocha; BOMFIM, Zulmira Áurea Cruz (org.). Os Jardins da Psicologia
Comunitária: escritos sobre a trajetória de um modelo teórico-vivencial. Fortaleza: PróReitoria de Extensão da UFC/ABRAPSO, 1999.
BRASIL. Clínica Ampliada, equipe de referência e projeto terapêutico singular.
MS/SAS/ Núcleo da Política Nacional de Humanização. Brasília: MS, 2007.
CENTRO DE REFERÊNCIA TÉCNICA EM PSICOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS –
CREPOP. Saúde do Trabalhador no âmbito da Saúde Pública: referências para atuação
do(a) psicólogo(a). Conselho Federal de Psicologia (CFP), Brasília: CFP, 2008.
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São
Paulo: Cortez, 1992.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2004.
FREITAS, Maria de Fátima Quintal de. Inserção na comunidade e análise de necessidades:
reflexões sobre a prática do psicólogo. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 11, n. 1, Porto
Alegre, 1998.
INCUBADORA TECNOLÓGICA DE COOPERATIVAS POPULARES: ITCP-Unochapecó,
2008, Chapecó. [Programa de Extensão]. Chapecó: 2008. 1 folder.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍTICA. [Site]. 2007. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br. Acesso em: 03 set. 2007.
JACQUES, Maria da Graça Corrêa. Abordagens teórico-metodológicas em saúde/doença
mental & trabalho. Psicologia e Sociedade, n. 15, p. 97-116, 2003.
LECHAT, N. M. P. Trajetórias intelectuais e o campo da Economia Solidária no
8
Brasil. [Tese de Doutorado em Ciências Sociais]. Campinas, SP: Unicamp; Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, 2004.
NAVARRO, Vera Lucia. PADILHA, Valquíria. Dilemas do trabalho no capitalismo
contemporâneo. Psicologia e Sociedade, n. 19, ed. especial 1, p. 14-20, 2007.
PAULON, Simone Mainieri. À Saúde (de quem quer inteiro e não pela metade...). Jornal
Universo Psi, ano2, número 13, Porto Alegre, 1999.
SARRIERA, J. C. SILVA, M. A. da. PIZZINATTO, A. ZAGO, C. MEIRA, P. Intervenção
psicossocial e algumas questões éticas e técnicas. In: SARRIERA, Jorge Castellá (Coord).
Psicologia Comunitária: estudos atuais. Porto Alegre: Sulina, 2000.
SILVA, Maria Regina Santos da; LUNARDI, Valéria Lerch; LUNARDI FILHO, Wilson
Danilo. Resiliência e promoção de saúde. Texto contexto - Enfermagem, vol.14, p.95-102,
2005. Disponível em: <http://www.scielosp.org/scielo.php. Acesso em: 10 set. 2007.
SINGER, Paul. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo,
2002.
SINGER, Paul; SOUZA, André Ricardo de. A Economia Solidária no Brasil: a autogestão
como resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto, 2000.
9
Download

GT1 - Psicologia Social comunitaria possibilidade de