AVALIAÇÃO DO CONSUMO DE ÁGUA EM
BACIA SANITÁRIA QUANDO DO DESCARTE DE
PAPEL HIGIÊNICO
Fernando Alvares Leite (1); Lúcia Helena de Oliveira (2)
(1) Estudante de Graduação do Departamento de Hidráulica
e Saneamento da EP-USP; [email protected]
(2) Profa. Dra. do Departamento de Engenharia de Construção
Civil e Urbana da EP-USP
Resumo
O objetivo deste trabalho é verificar se o descarte do papel
higiênico por meio de bacia sanitária gera um consumo
maior de água, quando comparado ao descarte por meio de
lixeira. O método utilizado foi a monitoração do uso da
bacia sanitária de um sanitário masculino e de um sanitário
feminino em um edifício de escritório. Os resultados obtidos
permitem concluir que no caso masculino, o papel higiênico
não altera o consumo de água por evento na bacia sanitária
e, no caso feminino, o papel higiênico aumenta o consumo
de água por evento.
Introdução
É freqüente a dúvida sobre o descarte do papel higiênico:
bacia sanitária ou lixeira? Este tema tem sido objeto de
poucos trabalhos e causa discordâncias quanto à maneira
mais adequada para se proceder. As discordâncias se
fundamentam em aspectos sanitários, físico-químicos,
econômicos, sociais e envolve os processos de infecção,
tratamento da água e resíduos sólidos, transporte de esgoto
sanitário e produção do papel higiênico.
É através do argumento de que o papel higiênico é de fácil
decomposição e visando evitar o risco de infecções que
profissionais da saúde são favoráveis ao descarte na bacia
sanitária. No caso do descarte do papel na bacia sanitária é
necessário considerar o sistema de esgoto sanitário, pois ele
varia de cidade para cidade, de país para país, assim como o
tipo de tratamento realizado.
Ashley et al., (1999) [1] estudou a influência do papel
higiênico na bacia sanitária e em todo o processo de
tratamento de esgoto sanitário. Entretanto, o estudo esteve
mais focado na contaminação de água por detritos, na
contaminação de áreas adjacentes à tubulação e na área final
de disposição. A pesquisa realizada na Escócia estimou que
o descarte do papel higiênico pela lixeira traria uma
economia de 6000 libras para uma arrecadação de 2000
pessoas durante um período de análise custo-benefício de 45
anos e sujeito ainda a aumento. Ainda, do ponto de vista
sanitário, não há argumento para rejeitar o descarte em
lixeira, uma vez que representa somente 0,3%, em massa, do
lixo coletado, considerando que todo o descarte seja feito
por meio de lixeira. Como conclusão do estudo, o descarte
do papel higiênico por lixeira foi considerada a atitude mais
sustentável, por ainda conscientizar aos usuários a não
lançarem outros materiais na bacia sanitária como cotonetes
e absorventes.
De forma análoga, a Companhia de Saneamento de São
Paulo – Sabesp (s.d) [2] proíbe o descarte de qualquer
material no esgoto sanitário, o que evita entupimentos e
vazamentos no sistema.
A NBR 15097 (ABNT, 2004) [3] no teste para avaliar o
desempenho relativo à remoção de mídia composta, utiliza
papel kraft e esponjas sintéticas de poliuretano para simular
dejetos sólidos humanos. O papel kraft anti-tarnish é mais
denso e maior que os papéis higiênicos. Assim, se o ensaio
da referida norma recomenda 8 folhas desse material de
19,05 cm por 15,24 cm somadas a 20 esponjas, espera-se
que a bacia sanitária também esteja apta a remover o papel
higiênico em edifícios de escritórios, tendo-se vista que a
maior parte dos usos destinam-se a dejetos líquidos, embora
a referida norma não aborde esta questão.
Desta forma, considerando-se os aspectos mencionados, o
objetivo deste trabalho é avaliar o consumo de água em
bacias sanitárias de um edifício de escritórios por meio de
um estudo comparativo entre duas situações: papel higiênico
descartado em lixeira e papel higiênico descartado em bacia
sanitária.
Materiais e Métodos
Para atingir os objetivos monitorou-se o uso da bacia
sanitária de um sanitário masculino e de um sanitário
feminino. Para tal, foi utilizado um sistema de medição do
consumo de água em tempo real, constituído de um
hidrômetro eletrônico, uma interface de comunicação
serial/M-BUS e um software para pequenas vazões. As
bacias sanitárias foram calibradas antes dos ensaios, quando
foi observado que o volume de descarga depende também da
pressão de acionamento de cada usuário e, em especial para
o volume de descarga de 3 litros.
Na primeira etapa da análise, totalizaram-se 12 dias e,
aproximadamente, 90 horas de monitoramento da bacia
sanitária para cada banheiro, dentro do período de
funcionamento do escritório.
Na segunda etapa da análise, totalizaram-se 11 dias e,
aproximadamente, 85 horas de monitoramento da bacia
sanitária masculina, e 15 dias e, aproximadamente, 120
horas de monitoramento da bacia sanitária feminina, dentro
do período de funcionamento do escritório.
Resultados e discussão
Primeira etapa: lançamento do papel higiênico na lixeira
Através da análise dos dados verificou-se que a distribuição
de freqüências referentes à bacia sanitária feminina é menos
dispersa que a masculina, logo o seu desvio padrão é menor
que a masculina.
Apresentam-se na Tabela 1, os resultados obtidos na
primeira etapa, ou seja, sem lançamento do papel higiênico
na bacia sanitária.
Tabela 1 – Resultados obtidos na primeira etapa da pesquisa
Dados da primeira etapa
Masculino Feminino
Média do consumo por evento
(L/evento)
6,2
7,1
Desvio padrão (L/evento)
3,4
2,7
Duração média do evento
(s/evento)
59
82
Número de eventos
107
75
Consumo total da bacia
sanitária (L)
660,9
532,1
Assim, mesmo que a média do consumo de água por evento
para a bacia sanitária feminina seja maior que a masculina,
pela diferença de dispersão de dados, nada se pode afirmar
sem um teste de hipóteses (H), denominado t (t de Student),
conforme descrito a seguir:
H0: µ 1 = µ 2 (expressa a igualdade das médias dos eventos)
H 1: µ 1 < µ 2
t calculado =
(x 1 − x 2 )
2
1
2
2
S
S
+
n1 n 2
=
(x 1 − x 2 )
S12 S 22
+
n1 n 2
tcrítico ,α = φn1 + n2 − 2 (valor tabelado)
Onde:
1, 2: referem-se aos dados masculinos e femininos,
respectivamente;
µ: média da população;
x: média da amostra;
S: desvio padrão da amostra;
n: número de elementos da amostra.
Pode-se rejeitar Ho e aceitar H1, se: tcalculado < -tcrítico, α, onde
α representa o nível de desconfiança. Caso contrário, diz-se
que não se dispõe de evidências suficientes para rejeitar Ho.
Como o tcalculado < -tcrítico, α, ou seja: -1,99 < -(-1,65) = 1,65,
pode-se aceitar que o consumo de água por evento seja
maior para a bacia sanitária feminina. Sendo o consumo de
água por evento maior, é natural que a duração média do
evento também seja maior, mesmo para um conjunto menor
de eventos.
É importante ressaltar que o escritório possui mais usuários
masculinos, o que explica um maior número de eventos
coletados para esse grupo e a menor média de consumo de
água por evento.
Segunda etapa: lançamento do papel higiênico na bacia
sanitária
Apresentam-se na Tabela 2 os resultados obtidos na segunda
etapa da pesquisa, ou seja, com o lançamento do papel
higiênico na bacia sanitária.
Tabela 2 – Resultados obtidos na segunda etapa da pesquisa
Dados da segunda etapa
Masculino Feminino
Média do consumo por evento
5,1
7,9
(L/evento)
2,0
3,8
Desvio padrão (L/evento)
Duração
média
do
evento
52
87
(s/evento)
80
122
Número de eventos
Consumo total da bacia
403,6
964,5
sanitária (L)
Através da análise dos dados percebe-se que a média de
consumo de água por evento da bacia sanitária feminina é
maior que a masculina, assim como sua dispersão,
caracterizada pelo desvio padrão. Entretanto, devido às
dispersões, para confirmar se o consumo por evento da bacia
sanitária feminina é maior que a masculina, recorre-se
novamente ao teste de hipóteses.
Como o tcalculado < -tcrítico, α,, ou seja: -7,01 < -(-1,65) = 1,65, o
consumo de água por evento é maior para a bacia feminina.
Sendo o consumo de água por evento maior, é natural que a
duração média do evento também seja maior. Observa-se
que em função dos dados referentes à bacia sanitária
masculina apresentarem menor dispersão, optou-se por
coletar mais dados referentes à bacia sanitária feminina com
o intuito de diminuir a dispersão e definir melhor o
comportamento desses dados.
Comparando-se as duas etapas tem-se para o caso
masculino: tcalculado > -tcrítico, α, ou seja: 2,83 > -(-1,65) = 1,65.
Assim, considera-se que o consumo de água por evento para
a bacia sanitária masculina não é afetado pelo descarte de
papel higiênico por meio da bacia sanitária.
Para o caso feminino, tem-se: tcalculado < -tcrítico, α, ou seja:
-1,76 < -(-1,65) = 1,65, o que permite aceitar que o descarte
de papel higiênico por meio de bacia sanitária feminina
aumenta o consumo de água por evento.
Conclusões
Na primeira etapa da pesquisa confirmou-se, por meio de
um teste de hipóteses, que o consumo médio de água na
bacia sanitária feminina é maior que na masculina.
Na segunda etapa da pesquisa confirmou-se também, por
meio de um teste de hipóteses, que o consumo médio de
água na bacia sanitária feminina é maior que na masculina.
Comparando-se o consumo de água nas formas de descarte
do papel higiênico, pode-se concluir que no caso masculino
o papel higiênico não altera o consumo de água por evento
na bacia sanitária e no caso feminino o papel higiênico
aumenta o consumo de água por evento na bacia sanitária.
Essa diferença nos resultados das bacias sanitárias supõe-se
que seja devido à diferença de hábitos quanto ao uso de
papel higiênico entre usuários masculinos e femininos.
Devido às diferenças anatômicas, as mulheres usam mais
papel higiênico que homens. Desta forma, a utilização
sistemática de uma maior quantidade de papel higiênico
potencializa o aumento do consumo de água na bacia
sanitária, como foi observado.
Referências Bibliográficas
[1] ASHLEY, R.M.; HENDRY, S.; SOUTER, N.;
BLACKWOOD, D. ; MOIR, J.; DUNKERLEY J. Domestic
sanitary waste disposal via the WC – unsustainable. In:
CIB W62 INTERNATIONAL SYMPOSIUM, 27., Sept.
1999, Edinburgh, Scotland. Proceedings... Edinburgh,
Scotland, 1999, 12 p.
[2] COMPANHIA DE SANEAMENTO BÁSICO DO
ESTADO DE SÃO PAULO – Sabesp. Página oficial da
concessionária. Disponível em: http://www.sabesp.com.br.
Acesso em 10 de fevereiro de 2008.
[3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS
TÉCNICAS (ABNT). NBR 15097: Aparelho sanitário de
material cerâmico – Requisitos e métodos de ensaio. Rio de
Janeiro, 2004.
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