O professor Universitário em tempos adversos – imagens da docência.
Maria do Socorro C. de Lima1
Universidade Federal do Para
Universidade da Amazônia
[email protected]
Resumo
O presente artigo intitulado O professor Universitário em tempos adversos – imagens da
docência insere-se na especialidade da Formação e Carreira Docente na Educação
Superior. Trata-se do resultado de uma investigação ocorrida em duas Universidades
brasileiras, na cidade de Belém, Estado Pará, região norte do país. A questão central que
procurei desenvolvê-lo reside na percepção de que as novas condições que a profissão
acadêmica assumiu, no âmbito das contemporâneas transformações ocorridas no ensino
superior, condicionaram de modo particular uma reconfiguração nas imagens
sociais/profissionais dos professores universitários.
Procuro neste artigo evidenciar a compreensão do professor sobre si, enquanto docente
universitário (imagem de si) e a apreciação do professor sobre o exercício da profissão
acadêmica (imagem da docência).
Foi evidenciado o esforço docente em lutar contra os constrangimentos decorrentes das
reformas políticas que conduziram a uma nova composição na profissão acadêmica,
como uma posição de paralisia e isolamento no trabalho acadêmico.
Palavras-Chave: Ensino Universitário, Docência, Imagem profissional, Carreira
docente.
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Maria do Socorro C. de Lima é professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade
da Amazônia (UNAMA). Investigadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Superior
(GEPES/UFPA). Coordenadora dos Programas de Pesquisa e Extensão da Universidade da Amazônia.
- Introdução – A pessoa e o profissional diante da complexidade do exercício da
profissão acadêmica
A atenção ao professor universitário, no contexto de seu percurso como pessoa e
profissional assinala para a necessidade de olhar o professor como um ser unitário a
partir do pressuposto de que “o mesmo é uma pessoa que se constrói nas relações que
estabelece com os outros que lhe são significativos, com a história social que o permeia
e com sua própria história” (Isaia, 2001 p. 35). Destaca-se, que as transformações
ocorridas ao longo do tempo, contribuem para o conhecimento de ser professor, sua
condição de sujeito e ator do processo educativo superior. Isso implica na necessidade
de que os estudos sobre a docência universitária estejam voltados para a compreensão
da dinâmica dos acontecimentos que contribuem para contextualizar a trajetória de
constituição/construção desse professor, tendo por horizonte a inerente relação percurso
pessoal/profissional. “O professor e a pessoa do professor não podem estar dissociados
sob pena de fragmentar-se a compreensão que dele se possa ter.” (Isaía, 2001, p. 59).
Essa compreensão propicia inferir que o exercício da docência é, em boa parte,
determinado por aquilo que o professor é enquanto pessoa, pela forma como pensa, age,
seu valor, sua vivência, sua personalidade.
A representação de uma profissão é construída para propiciar um referencial de
percepção, compreensão e ação diante das exigências postas pela profissão. Ao
construir uma representação da profissão acadêmica nos resguardamos enquanto grupo
profissional. Criamos uma identidade social para nós mesmos e para o coletivo de
professores universitário, permitindo, desse modo, nos reconhecer como profissionais e
desempenhar as atividades acadêmicas enquanto tal. Em outras palavras, são
construídos imagens e significados da profissão acadêmica para lhe dar concretude.
Essas imagens e significados, enfim, essas representações “[...] são uma forma de
conhecimento socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que
contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social” (Jodelet,
2001. p. 22). Isso quer dizer que as imagens enquanto representações simbólicas não se
formam no vazio e, nesse sentido devem ser consideradas no lugar social em que são
construídas, uma vez que tem por fundamento a pertença social dos sujeitos e suas
relações socialmente localizadas.
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A imagem profissional docente é aqui considerada como um conjunto de
significados pelos quais os professores são conhecidos e através dos quais as pessoas se
lembram e se relacionam com estes. Uma imagem é formada quando se adiciona a
percepção de algo externo a si mesmo, aos conhecimentos, crenças, sentimentos e
sensações. Dessa forma, a imagem seria a realidade assim como é compreendida pelos
indivíduos. Nesse sentido, a coletividade dos professores universitários não tem uma
imagem, mas várias, em função das crenças, valores ou sentimentos, sempre subjetivos,
em que emergem as diferentes associações mentais e do background informativo de
cada pessoa.
Nesse artigo estabeleço algumas aproximações em torno do professor
universitário, na percepção de que as contemporâneas transformações no ensino
superior e na Universidade como instituição, provocam significativas mudanças na
profissão acadêmica, na identidade profissional docente e na sua imagem
socioprofissional. Tomo como referência que a profissão acadêmica, em razão das
transformações que ocorrem na universidade, vem passando por uma expansão de
tarefas e ao mesmo tempo por uma crise crescente com a introdução da pesquisa como
sua principal função.
O texto é parte do resultado uma investigação ocorrida em duas Universidades
brasileiras, na cidade de Belém, Estado Pará, região norte do país. A questão central que
procurei desenvolvê-lo reside na percepção de que as novas condições que a profissão
acadêmica assumiu, no âmbito das contemporâneas transformações ocorridas no ensino
superior, condicionaram de modo particular uma reconfiguração nas imagens
sociais/profissionais dos professores universitários. A interpretação e análise cruzam o
tratamento quantitativo e descritivo-analítico (qualitativo) sobre as respostas de 309
professores a questões fechadas, introduzidas em um questionário aplicado por meio de
correio eletrônico, que buscou evidenciar a compreensão do professor sobre si,
enquanto docente universitário (imagem de si) e a apreciação do professor sobre o
exercício da profissão acadêmica (imagem da docência).
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- Imagens sobre as modificações na carreira e no trabalho cotidiano.
No exercício da profissão acadêmica, os docentes habitualmente desempenham
atividades que contemporaneamente se tornaram rotineiras, que vão desde a ministração
de aulas na graduação e na pós-graduação a manter-se atualizados com os novos
conhecimentos. Nesse sentido a identidade profissional do professor universitário tornase fundamentada no que ele produz, sem considerar os constituintes da sua identidade
pessoal, e, por conseguinte, as mudanças que afetam os docentes, podem gerar perda de
identidade (Mancebo & Franco, 2003).
Diante das modificações que, nos últimos anos, tem ocorrido na carreira e no
trabalho cotidiano do professor universitário, percebo que os professores posicionam-se
de maneira dicotômica em relação as consequências dessas modificações no trabalho
docente, uma vez que, para 60,5% as mudanças no processo acadêmico-científico e na
organização da carreira docente são necessárias ao desenvolvimento de uma nova
concepção do trabalho acadêmico e não implica necessariamente a precarização e
intensificação do trabalho docente. Entretanto, para 56,3% é inegável que esse processo
conduza ao produtivismo acadêmico, à intensificação e precarização do trabalho
docente, o que gera sentimentos pessimistas quanto ao futuro da docência universitária.
Tal fato pode ser compreendido, de um lado, pela via da alienação, em que os
professores negam a si mesmo a condição de trabalhadores, descaracterizando sua
identidade e função social, por outro lado, a supervalorização da individualidade, em
que o docente prioriza suas experiências pessoais e aspectos subjetivos em detrimento
dos aspectos objetivos e coletivos, caracterizando a docência inoperante e adaptada, o
que de certa forma, também conduz à alienação.
Em relação às implicações dessas mudanças na prática cotidiana do trabalho
docente, houve um equilíbrio no percentual de resposta. Um percentual de 52,2 dos
docentes reconhece a existência de modificações, mas acreditam que as mesmas não
alteram de forma substancial a prática docente, pois a maioria dos professores continua
ministrando aulas na graduação e não se envolvem com pesquisa, pós-graduação e nem
com a produtividade exigida no meio acadêmico, no entanto, 48,9% não concordam
com essa situação. Para um percentual de 51,1% dos inquiridos essas mudanças, como
um fenômeno da globalização, têm afetado o trabalho docente e sua autonomia. A
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conjuntura atual aponta para gradativa redução salarial, para aumento na relação
professor/aluno e ampliação das exigências de produção no campo da pesquisa e pósgraduação e perda de autonomia, em que pese um percentual de 48,9 % discordarem
dessa tendência.
- O professor universitário – da imagem social a auto-imagem docente.
Os professores universitários, no exercício da profissão acadêmica, constroem
interpretações decorrentes das representações que possuem do exercício da sua
profissão, e são também confrontados com uma pluralidade de expectativas, de imagens
e de papéis. Tomando como referência este cenário, os inquiridos assinalaram seu grau
de identificação com algumas das representações sobre a imagem da docência e da
condição pessoal e profissional do professor universitário. Contudo, ao considerar que
as representações são passíveis de mudança, uma vez que se ancoram nas crenças e
valores culturalmente difundidos (Moscovici, 2003;1988), cruzei os dados com o tempo
de exercício da docência no ensino superior.
A imagem do ensino e da pesquisa como dimensões centrais do trabalho
acadêmico tem alta identificação para a maioria dos inquiridos, sendo mais significativa
para os docentes com 11 a 20 anos na docência e, de baixa identificação, para os
professores com mais de 20 anos na carreira. O percentual de 100% dos docentes com
06 a 10 anos na carreira não aceita a imagem da centralidade do ensino e da pesquisa.
Os dados apontam nesse sentido para uma divergência de opinião entre os docentes
inquiridos sobre as funções do trabalho acadêmico. Enquanto alguns acolhem as
atividades de ensino, pesquisa e extensão como ações próprias de sua prática
profissional, há os que rejeitam as atividades de pesquisa e nomeadamente a de
extensão. Por conseguinte, o distanciamento entre as três funções pode gerar uma
fragmentação da identidade do professor universitário. Uma dissociação entre ser
professor e ser pesquisador.
Os professores percebem que a prática acadêmica na universidade baseia-se na
transmissão do conhecimento, centrada em um modelo reprodutivista. Esta imagem
obteve alta identificação, encontrando-se os que consideraram essa identificação na
faixa de 11 a 20 anos de docência. Os professores no final de carreira, acima dos 30
anos de docência, também consideraram significativa esta imagem da docência. Esses
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dados refletem o cenário da ênfase do processo de ensino em detrimento do processo de
aprendizagem, bem como na forte tradição disciplinar que marca a identidade docente
dos professores universitários, e que igualmente é proveniente da área específica de
conhecimento dos docentes.
Há identificação em relação à representação de que a maior parte dos professores
que vem atuando nas universidades não possui formação pedagógica, para atuar no
campo da docência, valendo-se do conhecimento específico como o principal esteio no
trabalho acadêmico. Os dados são indicadores da preponderância da formação de
origem na condução do trabalho acadêmico e da prática pedagógica fundamentada na
experiência de vários anos de docência.
Os professores inquiridos não se identificam com a imagem do trabalho
acadêmico exercido em condições inadequadas. Essa imagem foi considerada de média
ou nenhuma identificação para os professores, sendo que um percentual de 39,7 dos que
a consideraram sem nenhuma identificação tem em média 11 a 20 anos de docência no
ensino superior. Estes foram dados que de certa maneira me surpreenderam, uma vez
que a história da docência universitária no Brasil é de constantes reivindicações e lutas
por
melhores
condições
para
o
desenvolvimento
da
profissão
acadêmica.
Nomeadamente nas últimas décadas as alterações são visíveis no contexto das
Universidades, em que é observada no cotidiano do trabalho acadêmico a contradição
entre precarização das condições de trabalho e as exigências de produtividade.
Resultado de políticas públicas econômica, educacionais e de ciência e tecnologia que
compreendem a subordinação da produção do conhecimento e dos processos de
formação aos interesses mercantis.
A imagem de uma carreira profissional acadêmica afetada pela condição
econômica e social dos professores obteve alta identificação para 64,4% dos
professores, principalmente para os docentes entre 11 e 20 na carreira acadêmica. Os
dados são indicadores da situação da carreira acadêmica. A imagem da docência que se
expressa com a crise financeira, é resultante de um conjunto de transformações sociais,
políticas e econômicas que vem afetando a categoria docente e, de modo relevante esse
quadro é agravado por uma política educacional que impõe um intenso controle da
carreira acadêmica, um novo ethos do trabalho acadêmico pautado no individualismo,
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na dissociação dos interesses coletivos e na concorrência competitiva e na competência
individual.
Assim, o que vemos no ensino superior brasileiro é insuficiência e, em alguns
aspectos a ausência: de um plano de carreira consolidado, da isonomia salarial, com
diferenças salariais movimentadas por uma produtividade que deixa de lado parâmetros
da qualidade acadêmica; de gratificações não-incorporadas ao salário e à aposentadoria.
Esse quadro de precarização além de impulsionar a competitividade entre os docentes,
conforme assinalei anteriormente, e provoca igualmente a procura de formas de
complementação salarial, por meio de parcerias, consultorias, projetos financiados, etc.
Consequências típicas da adoção de políticas neoliberais.
Não houve variação significativa, se considero o tempo de docência, quanto à
imagem de que nos dias atuais são frágeis as condições de existência social, econômica
e intelectual dos docentes universitários. Contudo, se observo os percentuais integrais,
evidencia-se que 40,1% dos inquiridos assinalam que têm média identificação com esta
imagem e que para 28,8% a identificam é alta. Um percentual de 26,5 tem baixa
identificação, o que me conduz a compreender que concordam parcialmente com essa
imagem dos profissionais do ensino universitário. Essa parcialidade pode ser justificada
por uma rejeição ao crescente processo de precarização, por meio do achatamento
salarial e da vulnerabilidade da condição da profissão acadêmica. O problema salarial
dos professores universitários associa-se a atratividade da carreira acadêmica e a
permanência nela. Não é invulgar que bons professores universitários abandonem a
docência em favor de outras áreas profissionais.
A valorização docente centrada no ensino na pós-graduação, compreendendo
que dessa atividade faz parte orientação de dissertações e teses, foi considerada por
40,1% dos docentes com média identificação e de alta identificação para 36,9% dos
inquiridos, esses percentuais estão concentrados nos docentes que tem entre 11 a 20
anos. O envolvimento do corpo de docentes titulados com a pós-graduação, em
detrimento da graduação, é uma realidade assente nas Universidades. A própria
manutenção dos cursos de pós-graduação stricto sensu depende em grande parte da
titulação docente e da produção acadêmicas dos professores, o que contribui para a
cultura da performatividade ou da excelência (Sguissardi, 2008).
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A imagem de que os professores têm um nível econômico baixo ocasionado pela
redução real do poder aquisitivo dos salários, mas, por outro lado um nível social
elevado ligado ao conhecimento, não obteve identificação por parte dos inquiridos. Se
somar os percentuais de baixa e de nenhuma identificação ultrapassa 50%,
representativo dos docentes que têm entre 11 a 20 anos. Novamente observo de um lado
a contraditória rejeição da real proletarização da docência universitária e, por outro,
tendo a inferir que os docentes têm a identidade da docência fortemente atrelada ao
status do trabalhador intelectual.
A auto-imagem docente é apreendida em múltiplos espaços e tempos, em
múltiplas vivências, como resultado das condições psicológicas e sociais que afetam a
docência no sentido de que cada professor reconhece o que o identifica com o
magistério e como ocorreu esse processo de identificação. Portanto, esse processo
pressupõe considerar a existência da intersecção entre o processo biográfico e o
processo relacional. Dito de outro modo, a identidade contém em si uma dimensão
individual, relacionada com as ideias, concepções e representações que construímos
sobre nós mesmos, e uma dimensão coletiva, referente aos papéis sociais que
desempenhamos em cada um dos grupos que pertencemos (Dubar, 1997). Destacam
Juan Mosquera e Claus Dieter Stobäus (2006, p. 84) que a auto-imagem é uma espécie
de organização própria de cada pessoa, composta de uma parte mais real e de outra mais
subjetiva
Os docentes apresentam média e baixa identificação com a imagem pública do
professor universitário compreendida como a figura do trabalhador assalariado. Foram
poucos que assinalaram não ter nenhuma identificação com essa imagem. A parcela
mais representativa destes respondentes tem entre 11 e 20 anos de docência no ensino
superior, o que me conduz a inferir sobre a percepção idealizada ou distanciada da real
situação em que sendo concebido como um trabalhador assalariado, sua inserção no
mercado de trabalho compreende uma relação de compra e venda de sua força de
trabalho com organismos empregadores quer estatal ou privados.
No que concerne à representação, de que a baixa qualidade do ensino
universitário é decorrente da prática docente de maus profissionais, comportamento
próprio de quem não tem que prestar contas sobre o seu trabalho, os docentes
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inquiridos, na sua maioria, apresentaram média e baixa identificação com esta imagem.
Já uma parcela significativa assinalou não ter nenhuma identificação, estando os
respondentes entre os 11 e 30 anos de docência. Um percentual mínimo dos inquiridos
tem alta identificação com essa imagem, sendo eles docentes com mais de 11 e menos
de 20 anos de docência. Os dados apontam para uma situação complexa uma vez que
vários indicadores concorrem quando se discute a qualidade do ensino superior. No
entanto a posição de não concordância com essa imagem já é um indicador da
preocupação docente com a qualidade do ensino e da formação dos profissionais.
A imagem de que o prestígio do professor universitário alicerça-se, basicamente,
nas atividades de pesquisa, incluindo as publicações e participações com trabalho
acadêmico em eventos, está presente não só na sociedade de modo geral, mas também
de forma acentuada no ambiente acadêmico. A maioria dos professores inquiridos tem
identificação média com essa imagem, e poucos, nenhuma identificação, sendo o tempo
de docência bastante diversificados. Entretanto, somente 9,1% dos professores com
tempo de docência de mais de 30 anos assinalaram não se identificar com essa imagem.
Essa constatação assinala a existência junto aos docentes, da aceitação dessa
representação da docência e que o ensino na graduação acontece como decorrência das
demais atividades. Há o deslocamento das atividades de ensino para as de pesquisa. É
como se houvesse uma linha divisória entre os professores que se dedicam ao ensino na
graduação e os que fazem pesquisa e, por conseguinte atuam na pós-graduação. Ao
primeiro grupo a visibilidade, o prestígio, ao segundo o anonimato da sala de aula.
Ter muitos títulos acadêmicos confere ao professor uma boa imagem
profissional, mas não dá garantia alguma de boa atuação em sala de aula. A respeito
desta imagem, os docentes têm média (48,2%) e alta (35,6%) identificação. Os com
média e alta identificação tem na sua maioria 11 a 20 anos de docência, os com baixa e
nenhuma também estão nessa faixa de tempo de docência. Há diversificação nos
percentuais, o que me leva a inferir que a busca de titulação, por parte dos docentes,
pode, de certa maneira, estar relacionada com a diferenciação que pode proporcionar em
relação à concorrência interna institucional, mas também pode dispor-se a busca de
novos conhecimentos, como condição fundamental para sua capacitação.
A imagem dos professores universitários com bom nível cultural, e de que
estimulam os alunos a apreciarem a literatura clássica, a música erudita e as artes,
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obteve média identificação para 55,3% dos inquiridos e apenas 8,7% consideraram alta
a identificação com essa imagem. Para 20,1% a identificação com essa imagem foi
baixa e 15,9% não há nenhuma identificação. Os docentes com 11 a 20 anos de
docência foram os que mais assinalaram nenhuma identificação com essa imagem. Para
Kathryn Woodward (2004) a identidade profissional docente vive momento conflituoso
ocasionado por mudanças e cobranças oriundas dos setores sociais do mundo
contemporâneo. A formação contínua é uma necessidade imprescindível uma vez que
proporciona o aperfeiçoamento profissional teórico e prático e dela deve fazer parte o
desenvolvimento de uma cultura geral mais ampla para além do exercício profissional.
Nesse sentido, também se faz necessário na competência profissional do professor
atitudes promotoras da apreciação da cultura geral, que transcenda o domínio de
habilidades e técnicas.
- Imagens conclusivas.
No âmbito geral, posso inferir, ao analisar o grau de identificação dos docentes
inquiridos com as imagens da docência, que o tempo de atuação no magistério no
ensino superior interfere no processo de identificação do docente com as imagens
sociais da profissão acadêmica, quer seja uma imagem positiva ou não. Os docentes
com 11 a 20 anos de docência foram os que mais se posicionaram frente às assertivas
com graus de identificação alta ou média. Esta constatação vai ao encontro de uma das
fases instituídas por Michael Huberman (1992), uma vez que de acordo com o
construto, os professores são caracterizados pelo elevado grau de motivação,
dinamismo, empenho com as questões e são os que mais assumem responsabilidades
administrativas por ambição pessoal e correm atrás de prestígio acadêmico.
De modo geral, a imagem que os docentes têm de si mesmos, enquanto
acadêmicos e da profissão acadêmica revelam-se um pouco estereotipada, baseada em
falsas idealizações e até certo ponto mais próxima de uma visão romântica da profissão,
embora, por vezes poucos visíveis, as imagens e representações sobre a docência
estejam enraizadas nas experiências de cada um e relaciona-se a um conjunto de
significados, a diferentes associações mentais que consolidam uma imagem – a do bom
professor. A essa imagem agregam-se as qualidades profissionais e pessoais que elevam
o docente a esse patamar e que podem servir de referência para a prática docente.
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A análise, igualmente, me conduz a compreender que a imagem de elevado
status social e cultural que os professores universitários gozavam, ainda há poucos anos,
continua presente no imaginário social, contudo sob outra ótica, a imagem pública do
professor universitário também é compreendida como a figura do trabalhador
assalariado, com remuneração não satisfatória, assim como não adequada ao nível
acadêmico dos professores.
A análise dos dados revelados permite-me verificar os professores têm percursos
distintos, assinalados por acontecimentos próprios. Todavia, em que pese a influência
da trajetória particular de cada um, nota-se, claramente, que os contornos assumidos no
Ensino Superior na contemporaneidade, afeta a maneira como os docentes exercem a
profissão acadêmica e implica novos princípios estruturadores na sua identidade
profissional.
Portanto, as modificações que vêm ocorrendo no sistema de Ensino Superior, em
diversas partes do mundo, são inseparáveis das mudanças no universo do trabalho e do
emprego, e podem repercutir nos processos de configurações identitária docente,
processo denominado por Claude Dubar (2005), de crise da modernidade, porque para o
autor, a mudanças de normas, de modelos, suscitam uma desestabilização das
referências, dos sistemas simbólicos anteriores e instaura uma situação de crise que
afeta os processos de subjetivação. A “crise de identidades” manifesta-se de diferentes
modos, entre eles “no desconforto diante das transformações, na confusão das
categorias que servem para se definir e para definir os outros (...).” (Dubar, 2005 p.
XXV).
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