Ano 1 • Nº 1 • Outubro/2003
8
Cenários
Saeb aprofunda suas análises
15
Entrevista
Maria José Féres, secretária
de Educação Infantil e Fundamental
18
Parcerias
Técnicos empreendedores e suas criações
22
Alunos de informática rompem
limites da escola em Guaraí (TO)
24
Novas Tecnologias
Alunos trocam informações sobre rios
26
Artigo
Américo Bernardes – Informatização nas escolas
27
Teoria e Prática
TV para despertar o gosto de aprender
32
Emoções trabalhadas em sala de aula
34
Português Afiado
Tira-dúvidas para educadores
36
Crédito Automático
CEF oferece financiamento para casa própria
37
Valorização e Formação
O que está em pauta para a
educação de qualidade
28
Comportamento
Prevenção e Saúde
ao alcance da escola
38
Desafios
Respeito à tradição na Educação Indígena
41
Desafios
Brasil combate o analfabetismo
45
Artigo
Osvaldo Russo – Uma escola de todos
46
Entrevista
Antonio Ibañez, secretário
de Educação Média e Tecnológica
50
Debate
Especialistas analisam inserção
social dos alunos especiais
56
Agenda
Notícias do MEC
60
Pelo Mundo
Educação, Ciência e Tecnologia
em debate internacional
Livros
Coleções literárias
na escola pública
54
58
Legislação
Hasteamento da
Bandeira nas escolas
Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva |Ministro da Educação Cristovam Buarque | Coordenadoria de Comunicação Social – Jornalistas
responsáveis Luís Natal Coordenador de Comunicação Social | Joyce Del Frari Chefe da Assessoria de Comunicação Social | Jaqueline Frajmund
Chefe de Marketing e Propaganda | Conselho Editorial Antônio Carlos Queiroz – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Ana Lúcia Galluf – Secretaria de
Ensino Infantil e Fundamental (SEIF), Sandra Branchine – Secretaria de Ensino Médio e Tecnológica (Semtec), Luzinete Marques – Secretaria de Inclusão Social, Samira Jorge –
Secretaria de Educação Especial (SEESP), Luiz Motta – Secretaria de Educação a Distância (SEED), José Marcelino Rezende – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais (INEP), Elizabete Rosa – Secretaria de Comunicação da Presidência da República | Produção Alô Comunicação | Editoras Angélica Torres, Taisa Ferreira | Direção
de Arte Edu Branquinho, Edu Henrique | Editoração Eletrônica Eduardo Krüger | Reportagem Alexandre Marino, Ana Cristina Vilela, Ana Suelly Leite, Cristiano Torres, Dulcídio
Siqueira, Ionice Lorenzoni, Nicolas Bonvakiades, Marcos Magalhães, Rodrigo Farhat, Súsan Faria, Vilany Kehrle | Fotografia Cristiano Mariz | Colaboração Dad Squarisi |
Supervisão Geral Adriano Lopes de Oliveira e Maria Teresa Fernandes | Fotolito e impressão Gráfica Brasil| Endereço para correspondência Esplanada dos Ministérios, Bloco L,
Sala 905 – CEP 70074- 900 – Brasília – Distrito Federal | Fones (61) 410 8484 / 8133. Fax: (61) 410 9195 / 9196 | Sítio www.mec.gov.br | Endereço eletrônico [email protected]
Expediente
PROFESSOR vai receber e publicar, nesta página, a cada edição, as dúvidas, críticas, sugestões, reflexões, e o que mais for de seu interesse formular e encaminhar ao Ministério da Educação. Escolha o meio
de envio de sua preferência no Endereço para Correspondência, ao final do expediente, na página 5.
Neste primeiro número da revista publicamos, com os respectivos esclarecimentos, questões relativas a um
tema recorrente junto ao público – o Fundo de Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) – que nos chegam por telefone, fax, correios e endereço eletrônico.
Como os recursos do Fundef devem ser aplicados?
(estadual e municipal) deve implantar. Assim, os salá-
Os recursos devem ser utilizados da seguinte ma-
rios serão definidos de acordo com a realidade de
neira: 60%, no mínimo, para a remuneração dos pro-
cada um desses governos, ou seja, dependem do nú-
fissionais do magistério em efetivo exercício no Ensi-
mero de profissionais, de alunos, da receita, da jor-
no Fundamental público, e 40%, no máximo, em ou-
nada de trabalho, entre outras variáveis.
tras ações de manutenção e desenvolvimento do Ensino Fundamental público – como, por exemplo,
Onde e como apresentar reclamações e denúncias
capacitação de professores, aquisição de equipamen-
sobre o mau uso de verbas do Fundef?
tos, reforma e melhorias de escolas da rede de ensino e transporte escolar.
Em caso de descumprimento dos dispositivos legais sobre o Fundef, recomenda-se procurar, primeiramente, os membros do Conselho de Acompanha-
Quem são os profissionais do Magistério?
mento e Controle Social do Fundef, para que solici-
Os profissionais do magistério são aqueles que
tem ao responsável, se necessário, a correção das
exercem atividades de docência e aqueles que ofere-
irregularidades praticadas. Na seqüência, procurar os
cem suporte pedagógico a tais atividades, como
representantes do Poder Legislativo local, para que
administração ou direção de escola, planejamento,
estes, pela via da negociação ou adoção de providên-
inspeção, supervisão e orientação educacional.
cias formais, possam buscar a solução com o
professor
governante responsável. Ainda, se necessário, recor-
6
Qual o valor do salário que deve ser pago ao Magistério?
rer ao Ministério Público (Promotor de Justiça), direta-
A legislação do Fundef não estabelece um valor
mente ou com a ajuda e a intermediação do Conse-
mínimo (piso) ou valor máximo (teto) de salário. As
lho do Fundef, formalizando suas denúncias e enca-
escalas salariais deverão integrar o Plano de Carreira
minhando-as, também, ao respectivo Tribunal de Con-
e Remuneração do Magistério que cada governo
tas (do Estado ou dos municípios).
Diálogo aberto
A revista PROFESSOR nasce com a proposta de ser um espaço
de reflexão e debate sobre a escola pública brasileira. Foi pensada
para atender às demandas dos educadores e para ser um instrumento de apoio para quem enfrenta os desafios cotidianos da vida
escolar. É um canal direto de comunicação entre o Ministério da
Educação e você, professor.
O seu lançamento, no dia 15 de outubro, marca o compromisso do MEC com os profissionais da Educação. O objetivo é
trocar idéias, por meio do diálogo aberto e transparente, com o
principal ator da mudança educacional de que o Brasil tanto
precisa. Como afirma o ministro da Educação, Cristovam Buarque,
seremos um bom país quando, ao nascer uma criança, o pai ou a
mãe idealizarem: “Quando crescer, vai ser professor”.
Aqui, todos os meses do ano letivo, você vai encontrar reportagens, entrevistas, notas, artigos e fórum de debates sobre temas
de seu interesse. Vai conhecer as novidades na área educacional,
os projetos e as políticas do MEC e, ainda, compartilhar experiências positivas locais, regionais, nacionais e internacionais.
Nesta primeira edição, os temas centrais são a formação e a
valorização do professor, com a apresentação dos planos, projetos
e ações para seu aperfeiçoamento profissional e a revisão de sua
remuneração. Duas entrevistas, com os secretários da Educação
Infantil e Fundamental e do Ensino Médio, complementam a reflexão sobre o assunto. Também são destaques o debate sobre a
Educação Especial e os desafios do programa Brasil Alfabetizado.
Outra boa notícia é a oferta, feita pela Caixa Econômica Federal, de condições especiais no financiamento da casa própria
aos professores com renda familiar de até 10 salários mínimos.
Os primeiros beneficiados serão os docentes dos 100 municípios
Boa leitura.
professor
do projeto Escola Ideal do MEC.
7
VALORIZAÇÃO E FORMAÇÃO
saber
EM BUSCA DO
professor
Educadores ampliam conhecimentos
para garantir educação de qualidade
8
A cada novo dia, o professor brasi-
de buscar outras fontes de renda
leiro tem encontro marcado com o
muitas vezes sopram no ouvido de
conhecimento. Nas mais populosas
cada profissional a tentação de dei-
ou remotas regiões do País, em sa-
xar a carreira ou de postergar indefi-
las de aula improvisadas ou diante
nidamente a adesão ao movimento
de modernos equipamentos, sozinho
de formação continuada. Mesmo
ou com os colegas, ele tem aposta-
diante de uma realidade às vezes pou-
do na educação como um processo
co generosa, os professores estão dis-
permanente. Com maior ou menor
postos a dar sua contribuição.
apoio dos governos municipal, esta-
“Ao mesmo tempo que enfrenta,
dual e federal, os profissionais de
muitas vezes, uma situação difícil na
educação estão marcando presença
educação, o docente tem demonstra-
em cursos de aperfeiçoamento, gra-
do postura muito positiva na busca de
duação e pós-graduação e procuram
novos cursos para o seu aperfeiçoa-
fazer a sua parte no processo de
mento”, atesta a professora Nilda Gui-
construção de um novo modelo edu-
marães Alves, presidente da Associa-
cacional para o País.
ção Nacional de Pós-Graduação e Pes-
A curva ascendente da participa-
quisa em Educação (Anped). “Há uma
ção dos professores em iniciativas
campanha difamatória dizendo que o
voltadas ao aperfeiçoamento profis-
professor não quer nada, mas o que
sional contrasta, muitas vezes, com
eu me pergunto é por que, diante des-
a imobilidade de seus rendimentos.
sas provocações, ele simplesmente
Os baixos salários e a necessidade
não pega o boné e vai embora”.
9
professor
VALORIZAÇÃO E FORMAÇÃO
Jogo de cintura
diz em tom de brincadeira, ele ainda
afirma que os professores estão em
A baixa remuneração e a falta de
não recebeu nenhum real a mais por
busca de novas oportunidades de aper-
estímulo ao crescimento na profis-
isso. “A grande maioria dos professores
feiçoamento. “A Secretaria de Educa-
são têm colocado boas intenções de
quer se aperfeiçoar, mas a educação
ção precisa ofereçer mais cursos, e o
sobreaviso. Na modesta cidade de
não tem como evoluir sem a valoriza-
que o Ministério da Educação fizer para
Santa Maria, a 35 quilômetros da
ção do profissional”, opina.
melhorar o nosso rendimento em sala
capital do País, um professor de se-
Na Unidade Escolar Fontes de
gundo grau buscou por sua própria
Ibiapina, no Piauí, repete-se um fe-
iniciativa atrair o gosto dos jovens
nômeno cada vez mais comum no
pela Matemática.
País todo: os professores têm que tra-
O MEC está procurando fazer a sua
Com material reciclado, criou tabu-
balhar em uma ou duas outras esco-
parte. A formação continuada do pro-
leiros e peças de xadrez para tornar
las para garantir a manutenção da fa-
fessor é prioridade na pasta e diversos
menos penoso aos alunos o aprendi-
mília. Com um agravante, lembra a
programas vêm sendo desenvolvidos
zado de temas como matrizes. “O xa-
diretora da unidade, professora Fáti-
pelas várias secretarias. Um deles, ain-
drez é um jogo de raciocínio lógico, que
ma Lopes: os salários não passam de
da em gestação, prevê a oferta de cur-
eu uso para tornar a disciplina mais
R$ 240 mensais, acrescidos de
sos superiores a distância e tem como
atrativa”, relata Léo de Faria. A iniciati-
R$ 150 por regência de turma.
fonte de inspiração a Open University –
de aula será bem-vindo”, diz.
Formação continuada
va deu certo, muitos jovens se encan-
“Se o professor fosse valorizado, não
ou Universidade Aberta – da Inglaterra.
taram pela Matemática e o aprendiza-
precisaria agir dessa forma”, pondera
Entre os programas que estão sen-
do tem fluído mais suavemente. O pro-
Fátima, à frente de um estabelecimen-
do aperfeiçoados está a TV Escola, que
fessor é chamado a dar entrevistas e
to com 2.317 alunos dos ensinos fun-
tem levado a 50 mil escolas com mais
se tornou popular na região, mas, como
damental e médio. Mesmo assim, ela
de 100 alunos uma programação de
Diferenças salariais no Brasil
Estudo realizado pelo Instituto
A região com maior variação é o
universitários e apenas 14 mil delega-
Nacional de Estudos e Pesquisas
Nordeste, onde as médias salariais de
dos e 10 mil juízes. O que se observa –
Educacionais (INEP) sobre salári-
diversas profissões chegam a ser de
em especial nas carreiras onde o po-
os das diferentes ocupações nas
sete a até 34 vezes o valor do salário
der público é o maior empregador –
cinco regiões do País mostra que
de um professor da Educação Básica.
é que, quanto maior o número de pro-
o rendimento mensal dos profes-
As regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul
fissionais, menor o salário.
sores de Educação Básica é infe-
apresentam médias salariais maiores
Tornar uma profissão mais atrativa
rior ao de várias outras categori-
do que a média do Brasil, sendo a pri-
requer, entre outros fatores, a possibi-
as, apesar da função estratégica
meira, provavelmente, bastante influ-
lidade de obtenção de bons salários.
da educação para o desenvolvi-
enciada pelo Distrito Federal. As regi-
Há, de fato, correlação entre nível sa-
mento do País (ver tabela ao lado).
ões Norte e Nordeste encontram-se
larial da carreira e demanda nos pro-
abaixo da média nacional.
cessos seletivos para ingresso em cur-
professor
No Brasil, médicos e advogados
10
ganham, em média, quatro vezes o
Outra forma de analisar as diferen-
sos superiores. Nesse aspecto, se é evi-
que recebe um professor das séries
ças é comparar os salários com o nú-
dente que bons salários não bastam
finais do Ensino Fundamental. A pro-
mero de profissionais existentes em
para melhorar a qualidade do ensino,
fissão em destaque é a de juiz, com
cada área. Havia, em 2001, cerca de
sem eles dificilmente a escola conse-
rendimento médio de quase 20 ve-
dois milhões de professores da Educa-
guirá atrair os graduandos mais bem
zes o valor do rendimento médio men-
ção Básica, para 271 mil advogados,
preparados para a atividade docente na
sal do professor da Educação Infantil.
257 mil médicos, 137 mil professores
Educação Básica.
$
qualidade voltada à melhoria do traba-
nuada. O primeiro deles, feito em par-
professores das duas primeiras séries
lho em sala de aula. Até 2006, o Go-
ceria com o Gabinete de Segurança
do Ensino Fundamental das regiões
verno pretende alcançar outras 15 mil
Institucional da Presidência da Repúbli-
Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Por
escolas do mesmo porte, além de uni-
ca, mostrará como é possível fazer pre-
meio de sugestões de práticas peda-
dades com menos de 100 alunos. Tam-
venção do uso de drogas nas escolas.
gógicas simples e criativas, como a ela-
bém se pretende aumentar o número
Outra iniciativa importante é o pro-
boração de histórias em quadrinhos,
de escolas que gravam os programas e
grama de capacitação inicial e conti-
adivinhações e brincadeiras, o programa
organizam as próprias videotecas.
nuada de professores do Ensino Bá-
pretende estimular o professor a compre-
“A TV Escola é um instrumento
sico em Educação Ambiental. Foram
ender a estrutura da língua materna em
fantástico de Educação a Distância.
enviados questionários de avaliação
cursos de seis a sete semanas.
Precisamos estimular sua utilização
da experiência a 200 professores-
A preocupação faz sentido. Segun-
pelos professores e adoção pelos sis-
formadores, que trabalharam na pre-
do levantamento do Sistema Nacio-
temas educacionais”, observa Jean-
paração de outros professores ao lon-
nal de Avaliação da Educação Básica
Claude Frajmund, diretor do programa.
go dos últimos anos. A partir desse
(Saeb), 59% das crianças da quarta
Até 2002, a programação era com-
levantamento serão traçadas diretri-
série – ou 980 mil estudantes em
posta, em 85%, por documentários ad-
zes atualizadas de formação de re-
todo o País – ainda podem ser consi-
quiridos no exterior e em 15%, por pro-
cursos humanos para atuar no setor.
deradas analfabetas. Desse total,
508 mil somente na região Nordes-
gramas nacionais. Segundo Frajmund,
pretende-se aumentar a participação da
Letramento
te. Para alterar o quadro do Ensino
produção brasileira para até 50%, dos
Entre os programas novos, um dos
Fundamental e reduzir o número de
quais a maior parte será de vídeos pe-
destaques é o Praler, criado recente-
alunos que ainda se encontram na ca-
dagógicos e cursos de formação conti-
mente pelo Fundescola e destinado aos
tegoria de “desempenho muito críti-
Rendimento médio mensal por profissão e região – 2001 (em R$ 1,00)
Nº de profissionais
no Brasil
Rendimento médio por regiões geográficas
Brasil
Norte
Nordeste
Sudeste
Sul
1
CentroOeste
Professor de Educação Infantil
201.232
422,78
388,89
232,79
522,44
435,87
749,61
Professor de 1ª a 4ª série
881.623
461,67
443,17
293,18
599,19
552,72
567,38
Professor de 5ª a 8ª série
521.268
599,85
600,99
372,81
792,82
633,92
593,52
Funções adm. de nív. sup. em educ.
139.575
849,16
753,20
549,60
1.092,85
738,27
834,86
Professor de nível médio
348.831
866,23
826,28
628,08
979,16
804,32
872,20
Suboficial das Forças Armadas
517.038
868,73
817,55
723,52
986,19
747,23
910,93
712,65
875,47
Professor pesquisador no ens. sup.
6.448
898,80
215,33
1.150,16
946,56
Agente Administrativo Público
316.761
911,82
661,40
679,31
1.072,50
Administrador de empresas
502.895
1.202,86
986,87
774,85
1.411,18 1.057,85 1.123,93
Técnico em nível superior - público
421.318
1.310,56
1.053,94
794,02
1.586,97 1.308,30 1.876,79
Policial civil
72.743
1.510,64
1.344,46
1.320,40
1.457,90 1.488,02 2.087,23
Oficial das Forças Armadas
89.387
2.091,53
2.129,41
1.674,46
2.250,53 1.949,68 2.321,03
Economista
44.772
2.254,66
1.700,77
2.009,08
2.227,19 1.641,35 3.592,64
Auditor
68.870
2.408,40
3.512,94
1.584,94
2.588,47 1.986,32 3.133,88
Advogado
271.241
2.496,76
3.893,83
2.245,35
2.431,04 2.597,39 2.768,25
Professor de nível superior
136.977
2.565,47
1.800,30
2.252,08
3.086,95 2.122,77 2.190,10
13.973
2.660,52
2.753,91
1.347,25
2.650,73 3.714,45 5.969,61
257.414
2.973,06
4.429,82
2.576,78
2.801,77 3.260,41 4.110,87
10.036
8.320,70
5.905,38
8.038,88
9.018,42 9.750,00 7.331,08
Delegado/Perito
Médico
Juiz
Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de domicílios (PNAD) - 2001. Notas: 1) Valor em R$ de setembro de 2001.
926,14 1.103,37
professor
Tipo de profissionais
11
VALORIZAÇÃO E FORMAÇÃO
co” no sistema de avaliação, o Gover-
trangeiras. O alerta está no levantamen-
elaboram um programa curricular para
no Federal decidiu apoiar, por meio
to realizado pelo Instituto Nacional de
aulas presenciais e a distância, de
do Fundo Nacional de Desenvolvimen-
Estudos e Pesquisas Educacionais
modo a garantir ao professor a
to da Educação (FNDE), projetos
(INEP) a pedido da Secretaria de Ensi-
certificação em nível de especialização.
emergenciais de Estados e municípios
no Médio e Tecnológico (Semtec).
Os cursos que atenderem aos requisi-
destinados a garantir o letramento de
O MEC acompanha esses números
tos necessários serão credenciados pelo
crianças não-alfabetizadas com mais de
com atenção, até porque, com a regu-
MEC e poderão ser contratados pelas
dois anos de escolarização e patroci-
larização do fluxo de alunos no Ensino
secretarias estaduais, com apoio téc-
nar a construção de sistemas estadu-
Fundamental, os estudantes começam
nico e financeiro do Governo Federal.
ais de avaliação da Educação Básica.
a se formar em maior número e pas-
A segunda iniciativa é a criação, pelo
sam a integrar o exército de jovens em
MEC, de seu próprio programa de for-
busca do Ensino Médio.
mação continuada, que poderá ser ado-
As medidas fazem parte do programa Toda Criança Aprendendo, da Secretaria de Educação Infantil e Funda-
Resultado: se, de um lado, o Go-
tado pelas secretarias estaduais, es-
mental, que tem entre suas principais
verno começa a analisar a possibilida-
pecialmente nos casos de unidades da
ações a criação do Exame Nacional de
Federação que não tenham tradição na
Certificação de Professores da Educa-
reciclagem de professores. As duas
ção Básica, realizado anualmente, da
Bolsa Federal de Incentivo à Formação
Continuada e da Rede Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação
Básica. As iniciativas se combinam, de
forma que o professor certificado no Exame Nacional possa receber uma bolsa
federal de incentivo à formação continuada, com duração de cinco anos, cuja
renovação dependerá de nova cer–
tificação. Por sua vez, a rede de pesquisa estimulará estudos de temas
O MEC está
credenciando
programas de
formação
continuada que
atendam às
demandas
estaduais
educadores do Ensino Médio, cuja
criação terá o apoio do Governo e colocará os professores em rede, na
Internet, abrindo espaço para a troca de
experiências e a solução de dúvidas.
“Não houve, nos últimos anos,
preocupação direta de deixar o professor mais antenado com os novos tempos”, avalia a diretora de Ensino Médio
da Semtec, Marise Nogueira Ramos.
“O professor de Ensino Médio ficou um
cação matemática e científica.
pouco à margem, por causa da priori-
Carência de educadores
professor
futuro próximo, a uma comunidade de
como alfabetização e letramento e edude da adoção de mecanismos emer–
12
possibilidades poderão se conectar, no
dade ao Ensino Fundamental”.
genciais para a formação de novos pro-
A maneira mais correta para se
Problema sério é a carência de
fessores em tempo menor do que os
garantir melhor formação ao profes-
professores. Para atender à deman-
usuais quatro anos da licenciatura, por
sor de Ensino Médio ainda levanta con-
da das turmas de Ensino Médio e de
outro precisa promover a reciclagem dos
trovérsias. Apesar da necessidade
5ª a 8ª série do nível fundamental,
que já se encontram em sala de aula,
apontada pelo Governo do uso de me-
que exigem formação superior em li-
mas necessitam de aperfeiçoarmento.
canismos não presenciais para a
cenciatura, o sistema escolar precisa
Duas iniciativas estão sendo toma-
reciclagem, há especialistas que con-
de mais 250 mil docentes. Só na área
das nesse sentido. A primeira é o
testam a eficácia desse método. “É
de Física faltam 55 mil professores.
credenciamento, pelo MEC, de proje-
complicado ensinar Física, Química
Também é significativa a carência de
tos de formação continuada que aten-
e Biologia a distância”, observa a se-
professores de Química, Matemática
dam às demandas das secretarias es-
cretária da Associação Nacional pela
e Biologia e já começa a faltar pro-
taduais. Identificadas as demandas, as
Formação de Profissionais de Educa-
fessor de Português e de Línguas Es-
universidades envolvidas no programa
ção (Anfope), Helena Freitas.
Resolução 04/97 do Conselho Nacio-
Helena afirma que a real valoriza-
nal de Educação (CNE), que fixa as con-
ção do Magistério precisa ter três ali-
dições para que os bacharéis possam
cerces sólidos: boa formação inicial,
dar aula em suas respectivas áreas. Isto
boa formação continuada e boas con-
quer dizer, por exemplo, que um médi-
dições de trabalho, salário e carreira. A
co poderia ministrar aulas de Ciências
iniciativa que ela considera mais im-
Biológicas e um engenheiro aulas de
portante para valorizar o professor é a
Matemática e Física.
adoção de uma política de formação
A Resolução prevê um total de 540
de professores em nível superior nas
horas de formação específica, das quais
instituições públicas. “Precisamos de
240 seriam voltadas ao estudo e atua-
um investimento grande nas universi-
lização do conteúdo e outras 300 ao
dades para que elas possam respon-
estágio. Especialistas na área sugerem
der a esse desafio”, sustenta.
a ampliação para 880 horas, conside-
A opinião é compartilhada pela pre-
rando o tempo necessário para o pre-
sidente da Associação Nacional de Pós-
paro de material didático e prático. O
Graduação e Pesquisa em Educação,
processo não levaria mais do que um
Nilda Alves, para quem existe um jul-
semestre e meio.
gamento equivocado de que as universidades, por se localizarem nos gran-
Licenciatura
des centros, não teriam capacidade de
Para suprir o déficit de professo-
formar professores que vivem no interior.
res de licenciatura, já foi encaminha-
“Existe um movimento de universida-
do à Casa Civil projeto do PAE (Plano
des públicas em direção ao interior. A
de Apoio Estudantil) que garantirá 30
participação delas na formação de pro-
mil bolsas de estudo. Desse total, 20
fessores de cidades menores é com
mil bolsas serão destinadas às insti-
certeza mais cara do que a certificação,
tuições privadas para licenciaturas em
mas a certificação é um caminho equi-
todas as áreas. As 10 mil restantes
vocado”, atesta.
serão distribuídas entre as instituições
Entre os estudiosos do tema da for-
(Do estudo do INEP sobre
diferenças salariais)
públicas para todos os cursos.
mação e da valorização do professor, a
A seleção terá como critério essen-
necessidade da criação de vínculos
cial a baixa condição econômica do can-
mais estreitos com a universidade pú-
didato. O PAE deve ser votado ainda este
blica parece unanimidade. De acordo
ano pelo Congresso Nacional. “A falta
com a presidente da Anfope, Márcia
de professores no Brasil hoje não será
Ângela Aguiar, as universidades deve-
resolvida de ime-
riam ser “elemento impulsionador” de
diato, porque
um amplo programa de formação de
não conseguire-
mestres em todo o País, que incluiria
mos solucionar,
programas de Educação a Distância.
de uma hora
Nesse sentido, a Secretaria de En-
“Se bons
salários não
bastam para
melhorar a
qualidade do
ensino, sem
eles será
difícil atrair
graduandos bem
preparados
para a atividade
docente do
Ensino Básico”
para outra,
sino Superior (SESu) tem tido um pa-
problemas que
pel importante. Entre as ações imedia-
se arrastam
tas, a SESu se empenha em aplicar a
há anos”,
professor
O papel da universidade
13
afirma o professor Waldemiro Gremski,
diretor do Departamento de Projetos
Especiais de Modernização e Qualificação
do Ensino Superior da SESu.
A SESu também quer incentivar os
cursos noturnos de licenciatura nas
universidades públicas, que respondem
por apenas 15% das formações em licenciatura no País. Também considera
imprescindível a adoção de uma política salarial dividida em vários níveis, com
acréscimos definidos a partir de crité–
Uma proposta
sobre piso
salarial, carreira
do professor
e benefícios
sociais vai ser
discutida com
urgência
dois anos, durante os quais mantêm
encontros presenciais de oito horas
de duração, a cada duas semanas.
Ao final desse período, os professores obtêm diploma de nível médio em
Magistério e, segundo avaliação externa solicitada pela própria secretaria, passam a contribuir de forma mais intensa
para o aperfeiçoamento da educação.
“O curso realmente eleva a qualidade
do ensino, além de aumentar a autoestima dos professores leigos, que tinham vergonha de sua formação e
rios que incluirão avaliação de desempenho e educação continuada. Além
portadores de necessidades espe-
eram também discriminados”, relata
disso, a SESu já encaminhou ao gabi-
ciais, inclusive por meio de programas
Carmen Moreira de Castro Neves, di-
nete do ministro proposta sobre piso
de Educação a Distância. Com recur-
retora do Departamento de Política de
salarial, carreira do professor de Edu-
sos do FNDE, o programa está dispo-
Educação a Distância.
cação Básica, diretrizes de formação
nível para todas as secretarias esta-
docente e benefícios sociais. A propos-
duais e municipais.
O resultado da iniciativa, diz ela, é
que muitos dos professores que obti-
Os mecanismos de formação a dis-
veram o diploma de Ensino Médio de-
tância, que podem tornar mais fácil a
sejam repetir a experiência, agora para
integração educacional dos portado-
alcançar um certificado de nível
Na área de Educação Especial
res de necessidades especiais, tam-
superior. Por isso, o Governo Federal
também existe uma preocupação
bém ajudarão o Governo a extinguir,
já incluiu entre as suas prioridades
crescente com a formação dos pro-
até 2006, a categoria dos professo-
para esses quatro anos, expressas no
fessores. A Secretaria de Educação
res leigos – aqueles que, principal-
Plano Plurianual 2003-06, recursos
Especial criou um programa nacional
mente nas regiões mais pobres do
destinados à formação de todos os
de capacitação de recursos humanos
País, exercem o Magistério sem for-
professores leigos – e não mais ape-
do ensino regular para atuar junto aos
mação adequada. Dos 85 mil profes-
nas os do Norte, Nordeste e Centro-
sores leigos que lecionavam no País,
Oeste, como até agora – e o lança-
em 1998, 27 mil foram atendidos
mento de um programa de gradua-
pelo programa Proformação, da Se-
ção a distância.
ta deve ser discutida com urgência.
Proformação
cretaria de Educação a Distância, e 7
A ousadia da iniciativa, que pode
mil devem se formar até ju-
representar um grande passo na
lho de 2004, depois de
melhoria da qualidade do ensino ofe-
experimentarem
recido no País, deve estar unida, na
um curso de
opinião da diretora, a medidas destinadas a garantir a permanência do
professor em sala de aula. “A formação continuada tem que vir acompanhada da valorização da carreira”, sugere Carmen. “Caso contrário, o pro-
professor
fessor pode deixar o magistério e fa-
14
zer outra coisa na vida”.
CENÁRIOS
reexaminado
O SAEB
Aferição do desempenho
em Leitura e Matemática vai
aprofundar análise de temas
relacionados ao aprendizado
Quem trabalha com educação no
ção do Saeb, de 2001, mostrou que
Brasil já ouviu falar do Saeb, mesmo
na 4ª série do Ensino Fundamental,
que superficialmente. Sigla para Sis-
em Leitura, 22% dos alunos não de-
tema Nacional de Avaliação da Edu-
senvolveram habilidades compatíveis
cação Básica, trata-se de uma aferi-
à série e 37% aprimoraram algumas
ção da qualidade do ensino de Leitu-
competências, mas ainda apresen-
ra e Matemática nas 4ª e 8ª séries do
tam desempenho bem abaixo do
Ensino Fundamental e na 3ª série do
desejado. Isso demonstra que 59%
Ensino Médio. Realizado pelo Institu-
dos estudantes estão nos estágios
to Nacional de Estudos e Pesquisas
“crítico” ou “muito crítico” do apren-
Educacionais Anísio Teixeira (INEP), é
dizado.
aplicado a cada dois anos numa amosda Federação.
Depoimentos
Quem está na sala de aula, lidan-
Paralelamente às provas, alunos,
do diariamente com as carências co-
professores e diretores respondem a
muns à maioria das escolas, não se
um questionário que colhe várias in-
espanta com os resultados. A direto-
formações de contexto, com o ob-
ra da escola Ayrton Senna da Silva,
jetivo de identificar fatores que in-
de Boa Vista (RR), que tem turmas de
fluenciam no aprendizado. São
5ª a 8ª série do Ensino Fundamental,
questões relacionadas, por exemplo,
comenta que os alunos já chegam
à formação dos professores, aos há-
com sérios problemas de leitura e com-
bitos de leitura dos alunos e ao uso
preensão de textos, que deveriam ter
de material didático em sala de aula.
sido sanados nos primeiros anos de
Uma nova leitura da última edi-
escolarização.
professor
tra de escolas de todas as unidades
15
CENÁRIOS
Identificar esse problema e as
levaram o INEP a fazer nova divulga-
parceria com o Saeb nacional na mon-
razões das deficiências, fornecendo
ção dos resultados da edição de 2001,
tagem de seus próprios sistemas,
informações que sejam úteis para
a fim de permitir maior entendimento
principalmente quanto à utilização de
quem está na ponta do processo
da situação atual do ensino no País.
itens de prova e ao suporte técnico
educacional, são atribuições de um
Dessa percepção nasceu uma escala
para o desenvolvimento de meto–
sistema de avaliação, assunto que
com cinco faixas que se inicia no “muito
dologias que propiciam a produção de
mobiliza diferentes opiniões de es-
crítico” e vai até o estágio “avança-
informações comparáveis.
pecialistas e gestores.
do”, estratégia que procura traduzir a
João Filocre, secretário-adjunto de
escala de desempenho em linguagem
Educação de Minas Gerais, afirma que
acessível a todos, principalmente aos
não é possível administrar um siste-
gestores das redes de ensino.
professor
Com o objetivo de aprimorar o instrumento de avaliação, foram reali-
ma educacional sem avaliação. “Pre-
Mesmo que ainda parcialmente
zados quatro encontros regionais.
cisamos ter um tipo de avaliação mais
compreendido, o Saeb tem fornecido
Neles, os gestores das redes, direto-
freqüente, que consiga abranger ou-
elementos para a implantação de polí-
res e professores puderam conhecer
tras séries e disciplinas para poder-
ticas públicas. O diagnóstico realizado
melhor e discutir os resultados do
mos ter informações mais completas
auxiliou, por exemplo, na formulação
Saeb. Em seminário realizado no
de cada escola”.
do Toda Criança Aprendendo, progra-
Recife (PE), que reuniu representan-
O pesquisador Júlio Jacobo, coorde-
ma lançado pela Secretaria de Educa-
tes das Secretarias de Educação dos
nador da Unesco no Nordeste, também
ção Infantil e Fundamental do MEC, em
Estados nordestinos, os presentes
defende a avaliação, mas faz ressalvas
junho, que se apóia em quatro pontos
indicaram, por exemplo, problemas
quanto à forma de divulgação dos re-
básicos: uma política nacional de valo-
como a desarticulação entre Secre-
sultados. “O método de divulgação usa
rização e formação de professores; a
tarias de Educação e o Ministério, a
escalas interpretadas que vão de 200
ampliação do atendimento escolar; o
linguagem técnica dos relatórios e
a 500 pontos. Fica muito difícil saber o
apoio à construção de sistemas estadu-
a não utilização dos resultados para
que fazer se os alunos, ou o Estado, ou
ais de avaliação da Educação Básica; e o
a elaboração de projetos político-
o município, tiveram 250 pontos. Jun-
letramento da população estudantil.
pedagógicos.
to com a avaliação é preciso ter um
A construção dos sistemas esta-
Araújo explica que várias críticas e
leque de respostas que oriente uma
duais de avaliação depende do forta-
sugestões apresentadas nos encon-
ação determinada”, afirma.
lecimento do intercâmbio entre o Mi-
tros regionais estarão contempladas
nistério da Educação e os Estados.
no Saeb 2003, com aplicação previs-
Segundo Carlos Henrique Araújo, di-
ta para novembro próximo. Como pri-
A dificuldade na interpretação dos
retor do Saeb, 11 unidades da Fede-
meiro resultado prático dessa articu-
dados do Saeb foi uma das razões que
ração mantêm atualmente alguma
lação, os Estados do Mato Grosso do
Políticas públicas
16
Críticas e sugestões
Sul e do Acre tomaram a iniciativa de
te de um relatório que fala sobre seus
implantar a avaliação universal nas
próprios alunos. “Quando você fala do
suas rede de ensino.
grupo de alunos da escola, a comunidade escolar recebe aquelas informações de modo muito especial”. Essa é
Manuel Palácios, coordenador do
também uma das metas da diretoria
Sistema Mineiro de Avaliação da Edu-
do Saeb, que projeta para 2005 a apli-
cação Pública (Simave), é um dos de-
cação universal de um sistema de ava-
fensores da idéia de que cada unidade
liação em todas as escolas do País. Isso
da Federação deva desenvolver seu pró-
deverá ser feito em parceria com as
prio sistema de avaliação. “É preciso
Secretarias Estaduais de Educação e
produzir um consenso técnico a respei-
as universidades.
to dos métodos a serem utilizados. Eles
devem permitir comparações e também
Próxima avaliação
o desenvolvimento de instrumentos de
Entre os dias 3 e 7 de novem-
avaliação por parte dos próprios Esta-
bro, as provas do Saeb serão apli-
dos e municípios, de acordo com suas
cadas a uma amostra de cerca de
peculiaridades”, diz.
350 mil estudantes de 7,5 mil es-
A universalização da avaliação é
colas públicas e particulares de to-
defendida pelo secretário-adjunto de
dos os Estados e do Distrito Federal.
Educação de Minas Gerais. Para ele,
A partir deste ano, a avaliação pas-
os professores reconhecem suas difi-
sará a acompanhar o desempenho
culdades quan-
dos alunos que participam do progra-
do estão dian-
ma Bolsa-Escola. Outra novidade diz
respeito ao questionário socioeconômico aplicado a alunos, professores e diretores, que vai
A diretoria do
Saeb projeta
para 2005
a aplicação
universal de um
sistema de
avaliação em
todas as
escolas do País.
Isso deverá ser
feito em
parceria com as
Secretarias
Estaduais de
Educação e as
universidades
incluir questões sobre o problema
da violência.
professor
Universalização
17
ENTREVISTA / MARIA JOSÉ FÉRES
docentes
VALOR AOS
A secretária de Educação Infantil
e Fundamental anuncia: o MEC vai
investir no educador como peça
fundamental na mudança da
qualidade de ensino
Ampliar o atendimento escolar – com a inclusão de crianças de seis anos no
Ensino Fundamental e escolas de tempo integral – e implementar o Sistema
Nacional de Formação Continuada e Certificação. Essas são algumas das medidas anunciadas pela Secretária de Educação Infantil e Fundamental do Ministério da Educação, Maria José Féres, para o combate ao analfabetismo que
atinge quase 60% dos estudantes na Educação Fundamental.
Historiadora, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, a secretária defende a valorização do professor e a criação de um piso salarial
nacional como instrumentos fundamentais para a garantia da qualidade
na escola pública brasileira – propostas que vem discutindo com repreprofessor
sentantes de vários segmentos da educação, entre os quais professores,
18
membros de instituições formadoras e gestores da educação.
Quais os principais
projetos e programas
do atual Governo para
a Educação Infantil
e Fundamental?
O nosso desafio é ir além do Toda
criança na escola, feito pelo governo
anterior – hoje faltam de três a cinco
por cento de crianças no Ensino Fundamental para serem incluídas. E temos as crianças na escola sem aprender, o que é uma inclusão pela metade. Inclusão significa que a criança está
na escola, permanece na escola e
aprende na escola. Então lançamos o
programa Toda criança aprendendo.
Como parte das ações da Secretaria,
vamos implementar a Política Nacional
de Valorização e Formação do Professor, porque entendemos que ele é o
Maria José: “Vamos ampliar para nove anos a duração do Ensino Fundamental”
ator fundamental para qualquer mudan-
Como está a situação da
Educação Fundamental no
País hoje?
Qual a diferença entre
inclusão e matrícula?
perar o tempo perdido. Mas é importante fechar a torneira, senão vamos
Matriculei o aluno na escola, mas
fazer aceleração o resto da vida. Vou al-
se ele não aprende, se não tem aces-
fabetizando as que estão na 4ª série
so ao mundo letrado, aos bens cultu-
agora e, se eu não cuidar da 1ª série,
Temos 59% das crianças na 4ª sé-
rais e ao mundo da escrita, significa que
quando elas chegarem na 4ª vou ter de
rie de escolaridade formal que não
não está, de fato, incluído. É uma in-
novo o mesmo problema. Para isso são
adquiriram as competências básicas
clusão de faz-de-conta. É importante
necessárias políticas estruturantes.
de leitura e letramento para esse ní-
fazer com que as crianças permane-
vel de escolarização. Das que não
çam na escola e aprendam.
lêem nada, o percentual chega a
22,8%. Outras lêem e não identificam informações explícitas no texto.
Esse problema vai se arrastando e,
Que políticas são essas?
A primeira é o Programa Nacional
Como o programa Toda
criança aprendendo pode
colaborar nesse processo?
de Formação e Valorização de Professores, que são os atores fundamentais
para qualquer mudança na qualidade
quando você chega na 8ª série,
O programa procura agir em dire-
do ensino. A segunda busca ampliar
encontra, de novo, o problema do le-
ção à qualidade da educação com po-
para nove anos a duração do Ensino
tramento: as competências não foram
líticas estruturais, sem descartar as
Fundamental, com a inclusão das crian-
adquiridas como deveriam ter sido. O
ações de emergência. A emergência
ças de seis anos, que deve ser univer-
grande desafio desse Governo é ga-
maior é não ignorar que há 59% de
salizada. É preciso alterar diretrizes pe-
rantir qualidade na educação, com
crianças na 4ª série sem saber ler. En-
dagógicas do Ensino Fundamental para
inclusão real e não por matrícula,
tre as ações estão a aceleração de
garantir a inclusão dessas crianças.
como tem dito o ministro Cristovam
aprendizagem e a promoção de cursos
Estamos fazendo um levantamento jun-
Buarque.
para que as crianças comecem a recu-
to aos sistemas estaduais e municipais
professor
ça na qualidade de ensino.
19
ENTREVISTA / MARIA JOSÉ FÉRES
de ensino sobre as possibilidades de
não cumpre 40 horas numa mesma es-
cada um adotar essa medida, e como
cola. Para ele, o piso não valeria. Vale
o MEC poderia contribuir. A Rede Esta-
para um professor que trabalhe numa
dual de Educação de Minas Gerais im-
mesma rede de ensino.
disso, está sendo proposta a amplia-
Qual é o prazo para a
implementação do piso?
Nacional de Educação (CNE), e queremos transformá-las em lei. Outro
No máximo, 2005. Outra questão
ponto é a institucionalização do Sis-
até 2010, a consolidação da escola de
é que o piso salarial, atualmente,
tema Nacional de Formação Continua-
tempo integral. Nossa proposta é co-
está ligado ao Fundef. Queremos que
da e Certificação dos Professores. O
meçar nas periferias das regiões me-
ele tenha vinculação com o novo fun-
sistema inclui uma Rede Nacional de
tropolitanas das capitais, onde o risco
Pesquisa e Desenvolvimento da Edu-
social normalmente é maior para
cação Básica, responsável pela pro-
mente expandindo.
Como superar as
desigualdades regionais?
Estamos defendendo a criação de
um piso salarial nacional para começar
a combater essas desigualdades. Os
professores, não importa onde estejam,
têm os mesmos direitos de acesso a
bens culturais, de se informar melhor.
Isso tudo exige remuneração mais adequada. Não posso me conformar com
a história de que a criança que nasceu no Estado X tenha uma educação melhor que a nascida no Estado
“Está sendo
proposta
a ampliação
progressiva
da jornada
escolar e,
até 2010,
a consolidação
da escola
de tempo
integral”
dução de cursos de formação continuada de professores, incluindo instrumentos de Educação a Distância.
Vamos lançar um edital, ainda este ano,
chamando as universidades brasileiras
a concorrerem para a elaboração de
projetos para essa rede de formação
continuada. Ela deve atuar nas áreas
também previstas para certificação do
professor: Educação Infantil, Ensino
Fundamental (quatro primeiros anos),
Língua Portuguesa e Letramento, Matemática, Ciências Humanas, Ciências
da Natureza, Gestão da Educação, Educação Física, Artes e Avaliação Educacional. Nós discutimos e votamos as
Y. Temos que respeitar a diferença,
matrizes de referência do sistema em
mas combater a desigualdade.
encontros regionais que contaram com
do de financiamento que vai atender
Já se sabe de quanto
será o piso salarial?
professor
ra para o Magistério. Já as temos
ção progressiva da jornada escolar e,
crianças e adolescentes, e ir gradativa–
20
As Diretrizes Nacionais de Carreihoje, como resolução do Conselho
plantará os nove anos do Ensino Fundamental a partir do ano que vem. Além
Que outras ações vão
beneficiar os professores?
a participação de 7 mil pessoas.
a toda a Educação Básica. Hoje, o
professor que pode receber em fun-
Como serão os cursos e
quantos docentes podem
ser beneficiados?
Ainda não. Temos uma proposta de
ção do Fundef é só o do Ensino Fun-
projeto de lei que o ministro está enca-
damental e isso cria dificuldades nas
minhando para outras esferas de go-
redes de ensino, porque as prefeitu-
Vamos discutir com as instituições
verno e que vamos discutir com a socie-
ras só podem aumentar o salário des-
formadoras, gestores e os próprios pro-
dade. O que posso dizer é que estamos
ses professores se houver recursos no
fessores. O objetivo é que todos os do-
trabalhando com a idéia de piso salarial
Fundef. A ampliação do Fundef vai ser
centes dos anos iniciais do Ensino Fun-
ligado à jornada de trabalho, que deve
discutida em 2004 e já temos uma
damental tenham acesso. A rede vai
ser de 40 horas na mesma escola. Um
Proposta de Emenda Constitucional
ter um componente de formulação e
professor que trabalhe em duas redes
(PEC) que está sendo encaminhada
de execução. Como o MEC investe no
– municipal e estadual, por exemplo –
pelo ministro.
processo de Certificação Docente, que
é o outro lado do Sistema Nacional de
vados nesse exame receberão um cer-
Formação e Certificação, a contra-
tificado nacional e uma bolsa, que será
partida de Estados e municípios seria a
um incentivo para que continue perma-
execução da formação continuada. O
nentemente em formação.
MEC financia a Rede Nacional e a formulação dos cursos, além da Certificação Docente. Os Estados e municípios executam a Formação Continuada de Professores.
Há proposta para
o valor dessa bolsa?
Temos um critério: não será menos
de 20% da média salarial nacional dos
professores, que está entre R$ 550 e
Os professores vão
precisar da Bolsa Federal
de Incentivo à Formação
Continuada para
participar dos cursos?
Todos têm que ter acesso à formação continuada. A Certificação Docen-
R$ 650. Pode até ser que se amplie
esse valor. Nos encontros regionais solicitou-se a inversão na aplicação: primeiro a Rede Nacional de Formação;
depois a Certificação Docente. Com
isso, temos tempo para discutir melhor
a proposta da bolsa e seu valor.
te é um processo em que estamos investindo para contribuir com a identidade profissional do professor e para,
ao mesmo tempo, trazê-lo para o centro da vida do Estado brasileiro. É um
compromisso do Estado com ele, ao
A imprensa tem dito
que o Exame Nacional
de Certificação Docente
é o Provão do professor.
Isso é verdade?
mesmo tempo em que certifica as com-
Não é verdade, até porque o Provão
petências que ele foi acumulando ao
não tem matriz discutida com ninguém,
longo da carreira. A certificação não é
como fizemos com o Exame Nacional
obrigatória, não é qualificação para dar
em todo o País, e umas 7 mil pessoas
aula, não é a licença. É uma forma de
estiveram envolvidas no processo. Além
comprovar conhecimentos acumulados.
do mais, não se trata apenas de fazer
“A Certificação
Docente vai
contribuir com
a identidade
profissional do
educador e, ao
mesmo tempo,
trazê-lo para o
centro da vida
do Estado
brasileiro”
uma avaliação da formação continuada. Estamos fazendo um processo de
certificação voluntária dos professo-
É o que consta da Portaria do mi-
res. O Exame Nacional é o modus
nistro. Faremos um Exame Nacional de
operandi dessa certificação e não um
Certificação Docente, começando com
instrumento de avaliação do profes-
os professores dos anos iniciais do En-
sor. O trabalho dele tem que ser ava-
sino Fundamental, aberto a todos os
liado pela prefeitura e pelo Estado, pe-
que quiserem participar. Das matrizes
los sistemas estaduais e municipais,
aprovadas para o Sistema Nacional de
porque é lá que eles trabalham. A úni-
Formação e Certificação, uma se refe-
ca coincidência é que se trata de dois
re a conhecimentos e habilidades que
exames. Mas não se pode com-
todo professor deve ter. A outra, a sa-
parar um instrumento com
beres e competências específicos dos
o outro, fora do
professores dos anos iniciais. Os apro-
contexto.
professor
A certificação se
dará por exame?
21
PARCERIAS
humano
POR UM MUNDO MAIS
Prêmio Técnico Empreendedor
estimula criatividade de alunos
da rede federal de Educação
Alessandro Tavares e Paulo Men-
des ou empresas brasileiras.
donça, estudantes, têm 18 anos.
Segundo Franclin Nascimento, as-
Um mora em Sergipe, o outro em
sessor da Secretaria de Educação
Minas Gerais. Apesar da distância,
Média e Tecnológica (Semtec), há
dividem o mesmo sonho: buscar so-
duas razões para que estudantes de
luções para um mundo melhor e
todo o País participem da iniciativa: o
mais humano. Enquanto Paulo quer
desenvolvimento de uma cultura em-
ajudar o Brasil a incluir pessoas da
preendedora nos jovens e o estímulo
terceira idade no mundo digital,
ao potencial criativo do aluno, útil tan-
Alessandro deseja que portadores
to em sala de aula quanto na carreira
de necessidades especiais usem um
profissional.
sistema operacional de computador
professor
comandado por voz.
22
Idoso independente
Alessandro e Paulo poderão tornar
O sonho de Paulo Mendonça da
seus sonhos realidade na segunda edi-
Silva, aluno do curso técnico de
ção do Prêmio Técnico Empreendedor,
Informática do Centro Federal de Edu-
a ser entregue no dia 8 de dezembro,
cação Tecnológica (Cefet) de Bambuí
em Brasília. O concurso, que teve o pra-
(Minas Gerais), nasceu em sua pró-
zo de inscrições encerrado agora em
pria casa. Ele percebeu a dificuldade
outubro, é promovido pelo Ministério da
dos avós de se adaptar às engenhocas
Educação e pelo Serviço Brasileiro de
do mundo digital, como caixas eletrô-
Apoio às Micro e Pequenas Empresas
nicos em bancos, tira-teima de pre-
(Sebrae). O objetivo é estimular e pre-
ços em supermercados e outras.
miar soluções empreendedoras desen-
“Eles ficaram tanto tempo indepen-
volvidas por alunos de cursos técnicos.
dentes, então por que, agora, preci-
Os projetos, além de tecnicamente viá-
sam pedir auxílio em tarefas do
veis, devem contribuir para o desenvol-
dia-a-dia?”, questiona Paulo. Segun-
vimento socioeconômico de comunida-
do a professora Aleandra da Silva Fi-
FOTO: ANDRÉIA LIMA
gueira, orientadora do grupo de Paulo, formado por Denison Viana, Gabriel
Mourão, Marilene Messias e Tiago Araújo, os alunos trabalharão inicialmente com as pessoas da terceira idade
do Centro Mocinhas de Ontem, de
Bambuí. “Eles têm que colocar o plano em prática para poder analisar seu
impacto”, diz a professora.
Depois, será a hora de publicar os
resultados e ajudar a fazer a inclusão
digital de mais pessoas. Como um
sonho puxa outro, ganhando ou não o
prêmio, Paulo e os amigos pretendem
levar o projeto adiante.
Necessidades especiais
Alessandro Tavares Santos estuda
Informática no Cefet de Sergipe. Ele
pretende criar um sistema operacional
comandado por voz para pessoas com
necessidades especiais. Segundo o
estudante, há um programa parecido,
mas usado somente para editar tex-
Paulo (à esquerda) e colegas: projeto para ajudar os da terceira idade a lidar com o mundo virtual
tos e navegar na internet.
Tudo começou quando Alessandro
convênios e parcerias. No portal tam-
dos para concorrer à etapa nacional.
assistia a um jogo de basquete dispu-
bém haverá espaço para divulgar novi-
Premiação — Na etapa regional,
tado por cadeirantes (portadores de
dades da área, como novos equipa-
os autores dos projetos vencedores e
necessidades especiais em cadeiras de
mentos e mobiliário ergonômico.
os professores orientadores receberão
rodas) no pátio da escola. O projeto
Michele conhece a receita para a
certificados de reconhecimento. Equi-
desenvolvido pela instituição para in-
manutenção do sítio na internet. “Virá
pes e instituições vencedoras ganha-
centivar a sociabilização despertou em
de anúncios de empresas, instituições
rão troféus. Na fase nacional, os prê-
Alessandro a disposição de trabalhar
de ensino e sindicatos”, adianta. Seu
mios são de R$ 5 mil para o primeiro
com a inclusão. Ele já procura empre-
grupo será orientado pelo professor
lugar, R$ 4 mil para o segundo, R$ 3
sas que se interessem pela idéia.
Cícero Farias, que trabalha com pre-
mil para o terceiro, R$ 2 mil para o
Michele de Andrade, 20 anos, co-
venção de riscos. Eles querem que o
quarto e R$ 1 mil para o quinto. O
lega de Alessandro, também quer con-
portal seja uma referência para a área
professor orientador do projeto ven-
tribuir com soluções para um mundo
de saúde e segurança do trabalho.
cedor receberá, ainda, uma viagem de
projeto de portal na Internet sobre Saú-
Saiba mais sobre o prêmio
de e Segurança no Trabalho, profissão
Avaliação — A avaliação dos pro-
técnica que escolheu. Nesse espaço
jetos será feita em duas etapas, uma
virtual, segundo ela, empresários e alu-
de âmbito regional e outra nacional.
nos terão informações para desenvol-
Em cada uma das cinco regiões brasi-
ver projetos, conhecer o ofício e firmar
leiras, três projetos serão seleciona-
Mais informações nos portais
www.mec.gov.br e www.sebrae.com.br,
pelo endereço eletrônico
[email protected]
e pelos telefones (61) 410-8815
e 410-9681
professor
estudos, no valor de R$ 4 mil.
melhor. A estudante apresentará um
23
PARCERIAS
JUVENTUDE
protagonista
Estudantes rompem os limites
da escola e encontram soluções
para carências da comunidade
Guaraí é uma cidade de 20 mil ha-
professor
bitantes, a 200 quilômetros de Pal-
24
cidade — Setor Aeroporto, Canaã,
Querência e Setor Pestana.
mas, Tocantins. Como acontece em
A ação da escola começa a se ex-
outros municípios do mesmo porte no
pandir para outros bairros, como o Se-
interior do Brasil, boa parte da popu-
tor Serrinha. Lá, os moradores obtive-
lação espera que os poderes públicos
ram da Prefeitura o fornecimento de
ofereçam melhores condições de vida.
água. “Ninguém pensava que a atuação
O que torna Guaraí diferente é uma
da escola atingisse tal dimensão”,
escola, o Centro de Ensino Médio
disse a professora Iolanda Noleto, coor-
Oquerlina Torres. Ela é tão importante
denadora da área de Ciências Huma-
para a população carente quanto a
nas do Centro Oquerlina Torres.
Prefeitura ou a Câmara de Vereado-
Tudo começou em 2000, no labo-
res. Isso porque os estudantes, rom-
ratório de Informática da escola. Du-
pendo os limites das salas de aula,
rante um curso de capacitação, os
encontraram soluções para problemas
professores elaboraram a primeira
urgentes da população.
versão do projeto Bairros de Guaraí,
A interferência da escola nas ques-
cujo objetivo era levar os estudantes
tões da comunidade favoreceu a cons-
a praticar o que aprendiam nas diver-
trução de quadras de esportes e de
sas disciplinas. Dessa forma, ajuda-
postos de saúde e policiais. Favoreceu
riam a alfabetizar famílias carentes,
também a implantação de iluminação
estudariam a urbanização e a história
pública e a criação de ruas de lazer e
dos bairros. Com os conhecimentos
de programas de aperfeiçoamento pro-
de Matemática e Informática, fariam
fissional em quatro bairros carentes da
um diagnóstico dessa realidade.
FOTOS: ARQUIVO CEM OQUERLINA TORRES
Rua de Lazer:
uma das ações
do projeto
Bairros de
Guaraí, criado
pelos estudantes
no laboratório
de informática
O projeto foi além do imaginado.
poder público”, contou Leila Ramos,
gundo é o Entre Vizinhos, elaborado
Quase todos os 949 alunos matricu-
coordenadora estadual do Programa
pelos alunos para integrar as pessoas
lados se engajaram. Depois de pes-
Nacional de Informática na Educação
da comunidade por meio de reuniões
quisas realizadas nas comunidades,
(ProInfo).
de debate, concursos e atividades para
os estudantes, por meio de planilhas
e gráficos elaborados nos computa-
desenvolver habilidades diversas.
Projetos premiados
Os alunos do terceiro ano passa-
dores, identificaram uma realidade
Entusiasmados com a possibilida-
ram a ter cursos de Informática Bási-
cruel e a necessidade de interferir para
de de ajudar a comunidade, profes-
ca nos 32 computadores da escola,
transformá-la. Passaram, então, a fa-
sores e estudantes passaram a de-
com orientação profissional e artísti-
zer visitas à Prefeitura e à Câmara de
senvolver outras iniciativas. O Centro
ca. “O objetivo do laboratório de infor–
Vereadores para discutir os problemas
de Ensino Oquerlina Torres teve dois
mática é apoiar atividades curri–
e reivindicar soluções.
projetos premiados no concurso
culares, mas os estudantes pretendem
Ao perceber o alcance de sua atua-
Escola Jovem, da Secretaria de Edu-
trazer a comunidade para a escola e
ção, os estudantes partiram para a se-
cação do Tocantins. Com o dinheiro
oferecer conhecimentos úteis no dia-
gunda etapa do projeto. Promoveram
dos prêmios será custeada a implan-
a-dia”, explicou a coordenadora do
campanha de doação de alimentos para
tação dos projetos. O primeiro, desen-
laboratório, Vênes Souza Lopes. “Es-
o Natal, coletaram brinquedos para as
volvido pelos professores, é o Passan-
tou orgulhosa de fazer parte de uma
crianças, organizaram brincadeiras e
do a Bola, que proporciona a crianças
escola voltada para atender à comu-
contaram histórias escritas e editadas
de sete a 12 anos a prática de espor-
nidade e construir um cidadão críti-
por eles próprios, em pequenos livros,
tes em competições interbairros. O se-
co”, afirmou Leila Ramos.
nos computadores da escola. Também
foi desenvolvido o projeto Arte das Mãos,
que ensina trabalhos manuais às mu-
Prefeito de Guaraí recebe
os estudantes que elaboraram
o projeto Bairros de Guaraí
lheres e proporciona o aumento da renda familiar.
“O projeto Bairros de Guaraí mudou a escola e os alunos, que se tornaram protagonistas do movimento
social. De certa forma, mudou até a
bairros passaram a procurar a escola
para reivindicar melhorias junto ao
professor
cidade, já que moradores de outros
25
NOVAS TECNOLOGIAS
virtuais
RIOS
Escolas brasileiras
trocam informações
com o mundo
pelo projeto
internacional
Riverwalk
O Rio Vieira, que banha a cidade
continuamente fazem reflexões sobre
nóstico da situação do rio, o esforço
mineira de Montes Claros, foi esco-
o conhecimento produzido no transcor-
permitiu aos alunos enriquecer os co-
lhido pelos alunos da Escola Estadual
rer do projeto”.
nhecimentos em Português, Geografia, Biologia, História, Artes, Matemá-
Riverwalk, projeto internacional que
A Escola Estadual Benjamin Ver–
Michigan (EUA). Estudantes de todo o
que drena a cidade, doente pela po-
siani, no bairro Alice Maia, funciona
mundo trocam informações e fazem
luição”, explica Mariângela Paes Aze-
em três turnos e atende a estudan-
estudos sobre rios e, em conseqüên-
vedo, coordenadora do projeto na es-
tes de comunidades carentes. São 1,8
cia, meio ambiente e cultura. Além da
cola. Informações e registros escritos
mil alunos, que usam um laboratório
escola mineira, outras dez, de nove
sobre o rio quase não existem. Entre-
com dez computadores, duas impres-
Estados, participam do projeto sob a
tanto, a vontade de mostrar ao mun-
soras e um digitalizador de imagens.
supervisão do jornalista Eduardo
do o desejo de salvá-lo foi maior do
Segundo Eduardo Junqueira, as es-
Junqueira, estudante daquela univer-
que a tendência de desistir. “Após ár-
colas foram escolhidas estrategica-
sidade. O Riverwalk tem o apoio do
duo trabalho, descobrimos que valeu
mente para representar a diversida-
governo do Japão e parceria com o Pro-
a pena enfrentar o desafio”, diz a pro-
de econômica, geográfica e cultural
grama Nacional de Informática na Edu-
fessora. Grande parte dos estudan-
do País. Foram escolhidas também
cação (ProInfo).
tes e professores nem sequer tinha
instituições de Brasília, Manaus, Cam-
No endereço www.riversproject.org
conhecimento de informática quando
po Grande, Jaguaribe (CE) e Tapera
encontram-se informações e relatos
o trabalho começou. Além do diag-
(RS), entre outras.
atualizadas pelos próprios estudantes
e professores. Cabe a eles, ainda, redigir trabalhos e publicá-los na página
do Riverwalk, além de organizar atividades educacionais e viagens de estudo para pesquisas de campo. “A avaliação é constante e integralizadora, porque é dirigida aos alunos e professores”, analisou a professora Maria de
Lourdes
Matos,
do
Núcleo
de
Tecnologia da Secretaria de Educação
professor
tica, Física, Química e Inglês.
“Escolhemos o rio Vieira por ser o
sobre as pesquisas realizadas e
26
Motivação
tem a participação da Universidade de
de Minas Gerais. “Os professores, assim como os alunos, são avaliados e
SIRON FRANCO. CERÂMICAS. CATÁLOGO DE EXPOSIÇÃO. MINC/GDF
Benjamin Versiani para participar do
EDU CARVALHO
ARTIGO / AMÉRICO BERNARDES
Informatização das escolas
e software livre
colas. Isso ocorre no momento em
Informática na Educação (ProInfo)
que o Governo Federal discute a im-
dedica-se ao processo de informa–
plantação e uso de software livre em
tização e formação de pessoal para o
suas várias áreas de atuação.
Programa
Nacional
uso de novas tecnologias no proces-
A discussão atende a vários obje-
so de ensino-aprendizagem. Iniciado
tivos: livrar-se do pagamento de licen-
em 1997, o programa já instalou
ças sobre softwares proprietários,
53.895 computadores em cerca de
substituindo-os por equivalentes livres
4,6 mil escolas públicas de todo o
de licenças; incentivar a indústria de
País. Contudo, ele não se restringe à
desenvolvimento e produção de
aquisição e instalação de equipamen-
software nacional; garantir indepen-
tos. Tão importante quanto a compra é
dência e autonomia frente aos pro-
a formação de quem vai usar os com-
dutores, pois a utilização de software
putadores. Justamente por isso, o
livre permite o conhecimento do có-
ProInfo já formou 40 mil professores.
digo que constitui o programa do
Um elemento importante do pro-
computador.
grama é o sistema de gestão. Apesar
A questão-chave do programa, nes-
da execução dos recursos ser centra-
se aspecto, é conciliar um modelo de
lizada no Ministério da Educação,
gestão que respeite autonomias es-
equipamentos e processos de forma-
taduais e municipais e, ao mesmo
ção são discutidos e negociados com
tempo, incentive a utilização de
os Estados, num sistema que respei-
softwares livres. Em muitos Estados
ta a autonomia administrativa e pe-
já há iniciativas de maior ou menor
dagógica de Estados e municípios.
alcance visando ao uso desses
Ao assumirmos a direção do
softwares. Contudo, a disseminação
ProInfo, nós o avaliamos, de fato,
pode encontrar resistências. Muitas
como elemento importante para a
vezes, as pessoas sentem-se insegu-
melhoria da Educação no Brasil. As-
ras antes de adotar uma solução que
sim, decidimos não só mantê-lo, mas
ainda não conhecem, em relação à
expandir suas metas. No planejamen-
qual construiu-se até certo mito de
to plurianual foi estabelecida a con-
“coisa de iniciados”. Desmistificar isso
clusão da proposta de informatização
e garantir segurança aos usuários é
do sistema escolar público para
papel da política que desenvolvemos.
2010. Damos, agora, novo passo,
Dessa forma, optamos por utilizar,
com o lançamento do edital para aqui-
como passo para a introdução de
sição de aproximadamente 10 mil
software livre, a distribuição de com-
computadores para cerca de mil es-
putadores com dois sistemas ope–
“Incentivar a produção de
material educativo baseado
em software livre também será
elemento dessa nova ação”
racionais: MSWindows e Linux. Ao
mesmo tempo, desenvolveremos
ações de capacitação que permitam
o suporte e o acompanhamento dessa política. Serão formados cerca de
mil técnicos e professores para os
mais de 300 núcleos de tecnologia
educacional existentes no País.
Criar comunidades locais e regionais de usuários de software livre é
condição necessária para o sucesso
dessa política. Incentivar a produção
de material educativo baseado em
software livre também será elemento
dessa nova ação. Trata-se de caminharmos em direção ao futuro, à expansão de possibilidades de uso e
construção do conhecimento, e de
nos recusarmos a aceitar a postura
de usuários passivos. A adoção de soluções livres abrirá novo espaço de
ação. O que buscamos, em síntese,
é trabalhar com os diversos elementos que permitirão o êxito dessa linha
de ação.
Américo Bernardes
é diretor do ProInfo/MEC
professor
de
O
27
COMPORTAMENTO
cami
VISTA ESTA
professor
Saiba tudo sobre o projeto
de prevenção à saúde, já
iniciado na escola pública
28
Os estudantes não são anjos: têm
(homossexuais e profissionais do sexo),
sexo. Talvez a vida fosse mais simples
aumentou a ocorrência entre os hete-
se eles só descobrissem isso depois de
rossexuais. A proporção de contamina-
adultos, mas hoje a atividade sexual do
ção feminina também cresceu: na fai-
jovem brasileiro começa, em média,
xa etária de 15 a 19 anos, é de duas
aos 14,5 anos. Não importa a posi-
mulheres para cada homem infectado.
ção, conservadora ou não, que as fa-
Nesse contexto de preocupação e
mílias assumam nessa polêmica. O fato
alerta, os ministérios da Saúde e da
é que muitas acabam enfrentando si-
Educação lançaram o projeto Preven-
tuações bastante difíceis com os filhos
ção e Saúde nas Escolas. A proposta con-
adolescentes, como gravidez precoce,
siste, basicamente, em tornar disponível
a disseminação de doenças sexualmen-
em escolas públicas uma quantidade
te transmissíveis (DST) e casos de Aids.
determinada de preservativos masculinos
Os números assustam. Entre 1999
(oito por mês) para alunos entre 15 e 19
e abril de 2003, o Sistema Único de
anos com vida sexual ativa. O objetivo é
Saúde (SUS) registrou 210.946 partos
bem claro: proteger e salvar vidas.
de meninas entre dez e 19 anos. Os
Mas nem todos os alunos de esco-
atendimentos de curetagem por abor-
la pública receberão preservativos. O
to totalizaram 219.834 casos. A ocor-
MEC é enfático ao anunciar que não
rência de Aids entre meninas e meni-
haverá distribuição generalizada nas
nos dos 13 aos 19 anos chegou a
escolas. Somente as que desenvolvem
5.597 casos naquele período.
ações preventivas de DST/Aids e têm
Enquanto diminuiu o índice de con-
um trabalho de formação de professo-
taminação pelo HIV entre os grupos ini-
res na área de sexualidade serão indi–
cialmente mais atingidos pela doença
cadas pelas secretarias estaduais e
professor
sa
São muitas
as ocorrências
de gravidez na
adolescência
e preocupa também
a disseminação
do HIV e outras DST
nessa faixa etária
29
COMPORTAMENTO
Serão entregues 256 mil preservativos a 30 mil alunos,
até dezembro próximo, e 235 milhões de unidades,
por ano, a 2,4 milhões de jovens, até 2006
municipais de Educação e Saúde. Tam-
ção dos jovens ao pedir camisinhas nos
Brasil e no exterior trazem luz sobre a
balcões de farmácias, 79% deles com-
prevenção contra a DST/Aids e a gravi-
praram os preservativos. Outros 4% usa-
dez na adolescência. O professor Edgar
ram material cedido por organizações
O Brasil tem 17,7 milhões de ado-
Hamman, da Universidade de Brasília,
não-governamentais e 2% conseguiram
lescentes entre 15 e 19 anos. A popu-
doutor em Epidemiologia, foi o respon-
as camisinhas por meio do serviço pú-
lação escolar nessa faixa etária é de
sável pela condução de uma delas em
blico de saúde. “Houve relato de pro-
8.931.041 no Ensino Fundamental e
duas escolas públicas do Distrito Fe-
cura nos postos de saúde, mas ali a
5.747.768 no Médio em escolas ur-
deral, com a participação de 412 alu-
distribuição é restrita a participantes de
banas e rurais.
nos com idades entre 13 e 18 anos.
programas de planejamento familiar”,
parte da comunidade.
Atendimento
professor
Mesmo que houvesse alguma inibi-
Pesquisas científicas realizadas no
bém precisa haver concordância por
30
Pesquisas
As metas de atendimento prevêem
Nesse grupo, aproximadamente
a entrega de 256 mil camisinhas a
60% das meninas e meninos admiti-
O professor Hamman afirma que
30 mil alunos até dezembro deste
ram experiências sexuais com penetra-
dar aos jovens o acesso gratuito a pre-
ano, e de 235 milhões de unidades,
ção. A média para as garotas era de
servativos é uma ação de prevenção
por ano, a 2,4 milhões de jovens, até
um parceiro; para os garotos, de três
eficaz. “A experiência brasileira de-
2006.
parceiras. Enquanto 63% declararam o
monstra que foram obtidos bons re-
Os municípios selecionados para
uso de preservativo em relações even-
sultados em outros grupos”, diz. A pro-
o projeto-piloto são Xapuri, Rio Bran-
tuais, nas relações estáveis (namoro),
moção à saúde, explica Hamman, é
co (Acre), São José do Rio Preto, São
a grande maioria, o percentual caiu para
o tipo de ação preventiva que
Paulo (São Paulo) e Curitiba (Paraná),
21%. “Constatamos que essa utiliza-
extrapola o âmbito dos hospitais,
onde o programa foi lançado em 19
ção não era tão regular quanto deveria
como o ensino da escovação dentária
de agosto deste ano.
ser”, afirma Hamman.
correta. Isso pode ser feito em em-
pontua o pesquisador.
presas, associações comunitárias e
pecífico dos adolescentes, os pais se
cado impor uma mentalidade vista por
em qualquer ambiente. “Pelo caráter
deparam com situações que não es-
eles como ultrapassada”, afirma.
de formação do jovem, a escola é o
colheram, mas que são obrigados a
ambiente ideal para ações de promo-
enfrentar.
ção à saúde”, enfatiza o pesquisador.
“A gente se preocupa e se esforça para conversar e orientar bem,
No Rio de Janeiro, a atriz
mas eles dizem que já sabem tudo”,
Alessandra Menezes, 32 anos, é uma
diz Alessandra.”Hoje, a turma não
entre milhões de mães a lidar com a
namora, fica.E nesse ficar, não se
As diferenças de mentalidade em
situação. Ela tem um filho de 14 anos
sabe quem ficou com quem ou até
relação à atividade sexual existem,
que assumiu já ter mantido relações
onde chegaram”, pondera a atriz. Se
com posições firmes de cada lado.
sexuais. “Fazer o quê? Para quem é
a situação não é a que ela conside-
Mas a realidade muitas vezes atro-
da minha geração é muito cedo, mas
ra ideal, uma atitude ela cobra do
pela crenças pessoais. No caso es-
as coisas agora são assim. É compli-
filho: o uso da camisinha.
des e características específicas de
Os professores terão a
obrigação de participar
da educação sexual dos
alunos?
Conflito de gerações
TIRA-DÚVIDAS
Não. Pesquisas nacionais e internacionais comprovam que isso não
ocorre. Ao tornar preservativos masculinos disponíveis nas escolas, pretende-se atender adolescentes sexualmente ativos, e isso está vinculado ao contexto do trabalho de educação em saúde para a construção de vivência saudável da sexualidade.
Os pais serão consultados?
Certamente. É necessário que toda
ação preventiva contemple os diversos
protagonistas. Pais, professores e alunos serão consultados e estabelecerão a estratégia que a escola adotará
na implantação do projeto.
Como os alunos terão
acesso aos preservativos?
cada escola e região.
Quantos preservativos
estarão disponíveis para
cada aluno?
O cálculo estimado de preservativos
tem sido de oito unidades por mês por
adolescente. A distribuição deve contemplar a população sexualmente ativa, o que corresponde, hoje, a 32% dos
adolescentes entre 15 e 17 anos e a
73% com idade superior a 18 anos.
O projeto pode integrar a
grade curricular das
escolas de modo
definitivo e obrigatório?
O currículo é definido pelos sistemas educacionais e pelas unidades escolares a partir da formulação de seus
projetos político-pedagógicos. Não há
poder de gerência externa sobre ele.
A adesão de escolas será feita por
O acesso ao preservativo faz parte
meio das secretarias municipais e es-
de um trabalho amplo, a ser desen-
taduais de Saúde e Educação. As es-
volvido junto às instituições de ensi-
colas selecionadas devem capacitar
no. O sistema de entrega obedecerá
professores e desenvolver trabalhos
a critérios estabelecidos em cada
preventivos em DST/Aids, além de
município e adequados às necessida-
mobilizar a comunidade escolar.
A educação no campo da sexualidade ocorre nos mais diversos cenários. Um deles é a escola. Lá, o professor pode participar de modo direto ou
indireto. Há professores dispostos a
contribuir na prevenção da Aids.
Qual a relação das
escolas com as unidades
de saúde?
As unidades de saúde participarão
do projeto como receptoras e arma–
zenadoras dos preservativos e como auxiliares no monitoramento e na avaliação do processo. É necessário haver
interlocução e trabalho
conjunto das redes
de educação
e saúde.
professor
O projeto não incentiva a
iniciação sexual precoce
dos adolescentes?
31
TEORIA E PRÁTICA
PLUGADOS NA
telinha
Professora de Taguatinga (DF)
usa televisão e cinema para
alfabetizar e motivar alunos
Melhorar a auto-estima dos estu-
mília, preconceito etc. Um dos casos
dantes e valorizar os interesses que eles
que mais chamaram a atenção da tur-
manifestam. Essa é a receita usada pela
ma foi o do garoto Pedrinho, raptado
professora Nadir Oliveira, 42 anos e 20
quando recém-nascido de uma mater-
de profissão, para atrair a atenção da
nidade, em Brasília. Os alunos usaram
turma de aceleração da 3ª e 4ª séries,
as contas de luz que traziam fotos de
formada por crianças semi-analfabetas,
crianças desaparecidas para fazer um
de 11 a 15 anos, da Escola Classe n°
mural e aprender Matemática e Geo-
15, em Taguatinga, cidade-satélite de
grafia do Distrito Federal. Passaram a
Brasília. “Percebi que eles gostam muito
ler jornais e revistas e treinaram orto-
de ver televisão e que, a partir daí, era
grafia escrevendo redações e cartas
possível despertar a vontade de apren-
para Lia, a mãe verdadeira de Pedrinho.
der e a busca pelos sonhos, pois são
professor
crianças em defasagem escolar, que acu-
32
Relacionamentos
mulam fracassos”, conta. O trabalho de
O programa Big Brother Brasil, da
Nadir Oliveira foi recompensado, pois o
Rede Globo, deu o pontapé inicial no
projeto De olho na tela, de sua autoria,
projeto. Percebendo o interesse dos
obteve o Prêmio Incentivo à Educação Fun-
meninos e meninas, Nadir propôs
damental, do Ministério da Educação/Fun-
realizar o Big Brother Sem Preconceito
dação Bunge (leia boxe).
e usou o teatro para discutir temas
Os filmes vistos em sala de aula,
como discriminação e diferença na
assim como programas de televisão a
escola. Ela conta que foi um modo
que as crianças assistem em casa, mo-
de trabalhar problemas de relaciona-
tivam discussões e atividades de clas-
mento entre os colegas, como brigas
se sobre vários temas – violência, fa-
e apelidos maldosos, além de trans-
Competência
reconhecida
mitir noções de respeito e responsa-
fisicamente pequena para atender ao
bilidade. Outros assuntos discutidos
grande número de alunos da comu-
foram a Guerra do Iraque e a impor-
nidade, possui boa infra-estrutura e
tância da paz. Como resultado do tra-
conta com coordenação pedagógica,
balho, os estudantes apresentaram a
sala de vídeo e biblioteca. O emprés-
As 20 professoras que conquis-
peça A Última Flor. O tema atual é o
timo de livros é alternado com apre-
taram o Prêmio Incentivo à Educa-
idoso, por causa da personagem Dó-
sentações teatrais dos alunos e his-
ção Fundamental este ano foram
ris, que maltratava os avós na novela
tórias contadas pelos professores,
homenageadas no Dia do Profes-
Mulheres Apaixonadas, da TV Globo. A
quinzenalmente.
sor, 15 de outubro, no Ministério
turma chegou a visitar um asilo e levou
A leitura é muito estimulada em sala
da Educação, quando receberam
produtos de higiene e agasalhos para
de aula. Toda semana, Nadir conta uma
R$ 5 mil, certificado da Fundação
os idosos. Com o tema, Nadir está dis-
história em sala e os estudantes levam
Bunge, diploma de honra ao méri-
cutindo conteúdos como as fases da
livros para casa. As leituras, no entan-
to, viagem e estadia na Capital
vida (em Ciências) e cidadania.
to, não são cobradas. “Os meninos sem-
Federal, por quatro dias. Além das
Além dessas atividades, há
pre associaram a leitura a uma obriga-
20 vencedoras, entre 1.376 pro-
A Música da Semana – em que, com
ção, a algo desagradável. Meu objetivo
jetos inscritos, três professoras re-
o tema atual, idoso, estão sendo tra-
é que eles tenham prazer lendo, ou
ceberam Menção Honrosa.
balhadas músicas antigas – e o Mu-
seja, que façam da leitura uma diver-
ral da Segunda-Feira (TV Notícias),
são. Por isso não cobro as leituras, nem
onde as crianças produzem textos
em provas, nem em trabalhos”.
As premiadas
Jaqueline Maria de Souza Dias
contando o que aconteceu na esco-
O estímulo à criação de leitores e
(AM); Raquel Sales Caldas de
la, na comunidade, e o que elas vi-
escritores faz parte de um dos três
Santana (BA); Ninfa Emiliana Freire
ram na TV durante o fim de semana.
eixos do projeto pedagógico da escola,
S. Fausto (BA) – Menção Honrosa;
chamado de Qualidade de vida. Os
Cláudia Simone F. Caixeta Gomes
outros dois são: A Retomada de Valores
(DF); Nadir da Trindade Chaves Oli-
Éticos e Morais e O Posicionamento Ético
veira (DF); Eliene Maria Ferreira
em Relação ao Meio Ambiente.
(GO); Eleusa Maria Rodrigues Viana
Leitura como diversão
A Escola Classe n° 15 tem 18 professores e 474 estudantes. Embora
(MG); Maria Rita Lorêdo de Souza
(MG) – Menção Honrosa; Cleide
Maria Ferreira Pereira (MS); Suzi
Gleide Lewandowski de Aquino
(MS); Maria do Socorro Nunes
Francisco (PE); Josefa Rocha de
Abreu Saraiva (PI); Roméa Almeida
Ribeiro (PI) – Menção Honrosa;
Marisete de Souza Lacerda (PR);
Dinamara Padilha da Silva (PR); Ana
Maria Teixeira Costa (RJ); Maria Solange Nogueira de Aquino (RN);
Marilete Bernardi Nunes (RO); Tânia Traub Fries (RS); Ana Regina
Gehlen (RS); Cláudia Salete Mozer
(SC); Edelisía Magalhães Araújo
(SE); Luciana Regina Zaniratto (SP).
professor
Professora Nadir rodeada pelos alunos: “Percebi que eles gostam muito de TV”.
Um dos temas que mais chamaram a atenção da turma foi o caso Pedrinho
33
TEORIA E PRÁTICA
EMOÇÕES EM
sala de aula
Professora trabalha auto-estima de
alunos com a integração dos pais
Crianças tristes, cabisbaixas, que
ção Infantil 2003 (ver boxe).
choravam à toa e detestavam ir à es-
“Depois que passamos a trabalhar
cola. Era esse o retrato da Escola Mu-
as emoções, com a participação dos
nicipal Marcínio Pereira de Castro, em
pais, as crianças ficaram mais alegres
Cruzeiro (SP). A situação começou a mu-
e perderam o medo de expressar seus
dar depois que a professora de Educa-
sentimentos no papel. O trabalho des-
ção Infantil Vera Lúcia Gigliotti colocou
pertou o diálogo e resgatou valores”, co-
em prática o projeto E por falar em
memora a professora. Ela conta que a
saudade..., uma tentativa de resgatar
maioria das crianças da turma do Pré
a auto-estima de alunos com sérios pro-
III, formada por alunos de cinco e seis
blemas familiares. O projeto deu tão
anos, convive com pais separados, de-
certo que a professora Vera Lúcia aca-
sempregados, mães agredidas moral e
bou arrebatando o Prêmio Qua-
fisicamente, alcoolismo e drogas. Pro-
lidade na Educa-
blemas que afetam diretamente o desempenho escolar. Foi para lidar me-
professor
lhor com a situação, que,
34
ARQUIVO EM MARCÍNIO PEREIRA DE CASTRO
depois de um diálogo com a diretora
da escola, Suely Salotti, surgiu o E por
falar em saudade...
O projeto é baseado na história Colcha de retalhos, de Conceil Corrêa da
Silva e Ney Ribeiro Silva. Outro texto,
Descobrindo sentimentos, de Paula
Boulanger Noce, inspirou a escolha do
tema saudade, que aguçou a curiosidade e mexeu com a emoção da
meninada.
Vera Lúcia (de branco): destaque nacional entre os projetos premiados
Saudade-carinhosa, saudade-triste,
a sua história. Vieram fotos, relatos, de-
por exemplo, um distanciamento delas
saudade-alegre, saudade-amor foram
senhos, e assim nasceu Colcha de re-
com um dos alunos, cujo pai está na
os sentimentos trabalhados. Saudade
talhos, na versão da Escola Marcínio
cadeia. Por meio do trabalho, os cole-
da avó que morreu; dos tempos de cri-
de Castro.
gas passaram a entendê-lo e o aco-
ança; de quando os filhos eram bebês.
Para identificar sentimentos, os alu-
lheram melhor”, revela Vera Lúcia.
e
nos leram e dramatizaram outras his-
E por falar em saudades foi desen-
interagiram com os pais, chamados a
tórias infantis, além de assistirem a
volvido entre abril e junho deste ano e
participar do projeto. Depois que o livro
vídeos, como A Bela e a Fera. “As
beneficiou 60 crianças. A intenção agora
foi lido em casa, com a família, os pais
crianças descobriram que todo mun-
é expandir a iniciativa para outras es-
enviaram um pedacinho de pano com
do sofre, e não apenas elas. Havia,
colas do município.
alunos
se
interessaram
Experiências vitoriosas
O Prêmio Qualidade na Educa-
Educação, Cristovam Buarque. As es-
ce Mara de Lima Freitas (ES);
ção Infantil é uma parceria entre o
colas e as Secretarias de Educação do
Adriane de Fátima Felipe Rosa (GO);
MEC, a Fundação Orsa e a União
município serão contempladas com
Lisiane de Jesus Carneiro Piancó
Nacional dos Dirigentes Municipais
estatuetas. A Secretaria de Educação
(MA); Stefânia Padilha Costa (MG);
de Educação (Undime). Instituído
Municipal de Cruzeiro – de onde saiu o
Cristina Pires Dias Lins (MS); Juliethe
em 1999, o Prêmio objetiva esti-
projeto E por falar em saudade..., da
Aparecida Miranda Riva (MT); Maria
mular e valorizar práticas educativas
professora Vera Lúcia Gigliotti dos Reis
do Socorro Cezar da Silva (PA); Nadja
vitoriosas e de qualidade, que pos-
– receberá materiais pedagógicos, brin-
dos Santos Araújo (PB); Ana Lúcia
sam servir de referência a outros pro-
quedos, livros, instrumentos musicais, dis-
Hilário dos Santos (PE); Sandra Re-
fissionais. Nelas, o professor é o
cos, TV, vídeo e computador.
gina Araújo de Souza (PI); Maria
principal agente no processo de
Estes são os ganhadores do Prêmio
Aparecida Duarte (PR); Maria Cristina
melhoria da qualidade do ensino. O
Qualidade na Educação Infantil 2003:
Rodrigues Silva Moreira (RJ); Evanir
Prêmio também é um incentivo para
Maria da Conceição Pinheiro de Oli-
de Oliveira Pinheiro (RN); José Gil-
Estados e municípios investirem na
veira Pedrosa (AC); Alda Martins San-
berto Senger (RO); Isis Maia Malvas
Educação Infantil.
tos Bispo (AL); Cristiane Nascimento
(RR); Carla Seelig Soares Ribeiro
Cada Estado teve um ganhador,
(AM); Maria Saliana de Siqueira Batis-
(RS); Andréia Roncáglio (SC); Elisa-
com direito a R$ 3.000,00, certifi-
ta (AP); Cecília Maria Mourão Carvalho
bete Teles Souza Santos (SE); Vera
cado e kit pedagógico, entregues no
(BA); Vanny Bezerra de Araújo (CE);
Lúcia Carvalho Gigliotti dos Reis (SP);
dia 16 de outubro pelo ministro da
Francinéia F. Gomes Soares (DF); Dul-
Flaviana Rodrigues Silva (TO).
professor
Os
35
PORTUGUÊS AFIADO
Dad Squarisi
A frase do mês
“Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.”
Macete
Quer que seu aluno perca o
medo de escrever? É fácil como
andar pra frente. Peça a ele que
escreva todos os dias uma página.
Pode ser sobre qualquer assunto: a
aula de segunda-feira, um comentário sobre um capítulo da novela, a
partida de futebol, a paquera do fim
de semana, a discussão com o pai.
Depois, não recolha o texto.
Nem peça para lê-lo. Mande-o jogar a obra no lixo. Em um mês, a
cabeça e as mãos do garoto ficam desinibidas. O medo? Fará
companhia aos papéis descartados. Já vai tarde.
Monteiro Lobato
Feminismo lingüístico
A discussão corria solta. O tema: o nome da revista do MEC.
Chamá-la Professor não seria sinal de machismo? Por que não
Professor e Professora? Alguém lembrou o slogan do Governo –
“Brasil de todos”. Não deveria ser Brasil de todos e todas?
A história começou com o movimento feminista. Nos anos 60, as
mulheres foram à luta. Queriam os mesmos direitos dos homens.
Abusaram dos trajes masculinos. Desfilaram barrigas grávidas. Queimaram sutiãs em praça pública. E chegaram lá.
Depois, partiram pra outras. O alvo foi a língua. “O português é
machista”, decretaram elas. Ao englobar os gêneros, a palavra fica
no masculino. “Dia do Professor” homenageia mestres e mestras.
“Meus filhos” inclui filhos e filhas. “É injusto”, disseram.
Os políticos, de olho no voto delas, entraram na onda. “Brasileiros e brasileiras”, saudava José Sarney. “Meus amigos e minhas amigas”, dizia Fernando Henrique. “Companheiros e companheiras”, cumprimenta Lula. Há pouco, João Paulo Cunha decidiu: “Doravante, a Câmara dos Deputados será Câmara dos
Deputados e das Deputadas”.
Ser professor é ser artista.
O mestre não só tem de ensinar conteúdos. Tem, sobretudo,
de motivar a garotada, prenderlhe a atenção. Um dos recursos
é harmonizar o corpo com as
palavras. Ao falar, a gente se
comunica por inteiro. A expressão do rosto, os gestos, o olhar,
a respiração, a voz, a maneira de
vestir-se – tudo conta. Segundo
pesquisa da Universidade de
Stanford, o corpo responde por
45% da mensagem; o tom da voz,
professor
20%; as palavras, 35%.
36
Fernandes dirige-se às “pessoas e pessôos”. Luiz Fernando Veríssimo
fala em “povo e pova”. Alguém sugeriu
distinguir “humanidade e mulhe–
ridade”. Em suma: a coisa passou a
cheirar a Odorico Paraguassu.
A língua é machista? Nada mais
injusto. A coitada nem marca o masculino. O o de menino não caracteriza o sexo. É a vogal temática da palavra.
Opõe-se ao a de menina. O a, sim,
denuncia o feminino. O mesmo ocorre com professor, mestre & Cia. A
gente diz que pertencem ao gênero
masculino porque se opõem às formas professora e mestra.
Em suma: a língua não está nem
aí pro masculino. Só marca o feminino.
EDU CARVALHO
Tudo fala
A diferença de gênero virou obsessão. Reações não faltaram. Millôr
CRÉDITO AUTOMÁTICO
PROFESSORES COM
casa própria
Condições
Silva anunciou no Dia do Professor,
A aprovação do financiamento pela
15 de Outubro, condições especiais
Caixa será praticamente automática
nos programas de financiamento da
para professores das redes federal,
casa própria para os educadores da
estadual e municipal. A análise da ins-
rede pública de ensino. Os minis-
tituição financeira se limitará a verifi-
tros
Cristovam
car o percentual de comprometimen-
Buarque, e das Cidades, Olívio Dutra,
to de renda, mediante apresentação
assinaram protocolo de intenções
do comprovante de pagamento e a
formalizando a parceira, durante so-
pesquisa cadastral. Não será exigida
lenidade em homenagem aos do-
apresentação de perfil ou comporta-
centes no Palácio do Planalto.
mento em operações de crédito. Es-
Educação,
O benefício será implantado por
sas condições serão destinadas aos
efetivos no cargo há mais de três anos,
meio de convênio entre a Caixa Eco-
professores que tenham renda fa-
não tenham propriedade ou imóvel em
nômica Federal (CEF) e as prefeitu-
miliar de até dez salários mínimos.
qualquer localidade do País nem se-
ras ou os Estados, quando os edu-
Com os recursos, os professores
jam beneficiários de outro tipo de fi-
cadores pertencerem à rede esta-
podem adquirir imóvel, arrendar ou
nanciamento imobiliário e, ainda, pos-
dual de ensino. O programa simpli-
reformar unidades habitacionais. Os
suam dependentes ou agregados.
fica as exigências para concessão de
critérios limitam as concessões de cré-
crédito e, ainda, viabiliza o débito
dito a educadores públicos que sejam
das prestações como desconto na
folha de pagamento.
O protocolo, elaborado pelo Ministério das Cidades, prevê que es-
Mais informações no endereço eletrônico
www.cidades.gov.br
Municípios selecionados no âmbito
do Programa Escola Ideal
sas condições especiais sejam
Estado
Município
implementadas, inicialmente, nos
Acre
Assis Brasil, Brasiléia, Epitaciolândia e Xapuri
Ceará
Aratuba, Ibicuitinga, Jati e Icapuí
Goiás
Cabeceira, Corumbá de Goiás, Mimoso e Vila Boa
Maranhão
Cajapió, Santana e Feira Nova
Basta o prefeito formalizar um con-
Mato Grosso do Sul
Corguinho, Douradina e Tacuru
vênio com a CEF. Como contra–
Paraíba
Coxixola, Curral de Cima, São Mamede e Teixeira
Piauí
Acauã, Bela Vista do Piauí, Cajueiro da Praia, Caxingo,
100 municípios do Projeto Escola
Ideal do MEC (ver tabela). No entanto, nada impede que qualquer
outro município
adote o sistema.
partida das prefeituras e dos Estados, o programa estabelece a disposição de áreas ou infra-estrutura
para a construção de moradias.
Guaribas, Paes Landim, Pimenteira, Santa Filomena,
São João do Piauí e Valença do Piauí
professor
da
EDU CARVALHO
O presidente Luiz Inácio Lula da
37
DESAFIOS
RESPEITO ÀS
tradições
Povos Timbira querem formar
sociedade autêntica, educada por
professores de suas comunidades
Creuza Prunkwyj Krahô é professo-
selho Estadual de Educação.
ra da escola indígena da aldeia Krahô,
O estabelecimento de uma pro-
no Tocantins. Sua filha mais velha,
posta curricular diferenciada, que res-
Letícia, estuda na Escola Timbira do
peite a cultura e a tradição dos índi-
Centro de Ensino e Pesquisa Pinxyj
os, é um dos grandes desafios da
Himpèjxà, em Carolina (Maranhão).
Educação Escolar Indígena no Brasil,
Creuza, que nunca estudou com pro-
assim como a formação de professo-
fessores de outras etnias, foi alfabe-
res como Creuza e Sabino, perfeita-
tizada pelo marido, Sabino Koyame,
mente identificados com suas comu-
que também aprendeu a ler e a es-
nidades e habilitados para passar à
crever com os professores da aldeia.
frente seus conhecimentos.
professor
Ambos lecionam para cerca de 30 alu-
38
nos dos dois primeiros ciclos da esco-
Etnia De acordo com o Centro de En-
la, que faz parte de um projeto de
sino e Pesquisa de Carolina, os Timbira
ensino desenvolvido especificamente
são, hoje, cerca de oito mil índios, em
para os povos Timbira, respeitadas
seis povos espalhados pelo Maranhão
suas tradições, cultura e língua.
e Tocantins, entre os quais os Krahô.
Os professores indígenas formados
Em terras indígenas, contam com 38
pelo Centro de Ensino e Pesquisa de
escolas, que fazem parte do modelo
Carolina fazem, posteriormente, o cur-
proposto pelo Centro Timbira, vincu-
so de formação da Gerência de Desen-
lado à Associação Vyty-Cati dos Povos
volvimento Humano do Maranhão. Já
Timbira do Maranhão e do Tocantins.
se formaram 146 professores de nível
Letícia Jonkàkwy, filha de Creuza e
médio, de acordo com proposta de
Sabino, representa a terceira geração
magistério indígena aprovada pelo Con-
formada pelo programa de Educação
FOTOS: ARQUIVO CENTRO DE ENSINO E PESQUISA/MA
A proposta curricular da Escola
Timbira aguarda aprovação
pelo Conselho Estadual de
Educação do Maranhão
Os Timbira são,
hoje, cerca de oito
mil índios, em seis
povos espalhados
pelo Maranhão e
Tocantins, entre
os quais os Krahô
do Centro de Trabalho Indigenista (CTI),
são atua ainda no Comissão Nacional
Gesteira, coordenador-geral de Educa-
organização não-governamental que
de Professores Indígenas do Ministé-
ção Escolar Indígena do Ministério. Ele
há 20 anos atua entre os Timbira. A
rio da Educação e no Conselho de Edu-
esclarece que a proposta é respeitar e
experiência inovadora desenvolvida
cação Indígena do Tocantins, com um
apoiar o magistério indígena, que deve
pelo Centro de Carolina, no qual es-
representante em cada entidade.
ter autonomia para definir o próprio pro-
tudam 60 jovens indicados por professores que atuam nas aldeias, é
cesso educacional, como determina a
Críticos e conscientes
Constituição. Para isso, os diversos po-
“Meus alunos são crianças mehin
vos contam com a assessoria técnica
(índios) e estão aprendendo leitura
do Ministério da Educação. As secreta-
dos brancos, mas sabem cantar nos-
rias estaduais exercem o papel
A proposta curricular definida pela
sos cantos, sabem da festa do ritual
institucional de normatizar os projetos
Escola Timbira, que leva em conside-
e todas as coisas que a gente faz aqui
pedagógicos.
ração o universo cultural indígena, foi
na aldeia — tecer esteira, mocó de
A proposta formulada pelo Centro
encaminhada à Gerência de Desen-
palha, fazer uma caçada e pescar”,
Timbira prevê a formação de índios
volvimento Humano do Maranhão e
afirma Creuza.
com visão crítica e melhor conheci-
considerada modelo.
Legalização
aguarda aprovação pelo Conselho Es-
Essa é a linha da política de
tadual de Educação. O procedimento
Educação Escolar Indíge-
é estabelecido em lei. De acordo com
na do MEC, expli-
a super–visora de Educação Escolar In-
ca
Kle–ber
mento do que ocorre ao seu redor, sem perder as
raízes da própria cultura.
dígena da Secretaria, Kátia Núbia
Ferreira Correa, não há prazo definido
para a emissão do parecer.
O antropólogo Luís Augusto Nascimento, que integra a equipe do CTI
em Carolina, explica que a proposta
curricular é elaborada com a participação de técnicos da Fundação Nacional do Índio (Funai), de educadores
do CTI e, especialmente, da Comisma a principal articuladora da política
educacional para seu povo. A comis-
professor
são de Professores Timbira, essa últi-
39
DESAFIOS
“Esses índios serão os futuros pro-
pelos professores das aldeias, partici-
fessores de suas comunidades”, ex-
pam da fase mais avançada do Ensino
São 250 horas de aula em Caroli-
plica Kleber Gesteira. “São pessoas de
Fundamental na Escola de Carolina. Lá,
na e 750 nas aldeias, a cada etapa
formação complexa porque são lide-
o estudante desenvolve o curso de for-
de aprendizagem. Em um ano, o es-
ranças, mas não devem entrar em
ma modular. Participa de atividades
tudante deve cumprir três etapas. Para
conflito com as lideranças tradicionais.
alternadamente na cidade, durante um
a conclusão do Ensino Fundamental,
Devem ter capacidade de pesquisa e
mês, e na aldeia, nos três meses se-
devem ser cumpridas 7,2 mil horas. A
ser gerenciadores de conflitos.”
guintes. Nas chamadas aulas presen–
equipe do CTI, integrada por profes-
Segundo o antropólogo Augusto
ciais, em Carolina, são realizadas ativi-
sores indígenas, educadores e antro-
Nascimento, a Escola Timbira propõe
dades como elaboração de mapas, re-
pólogos, entende que, no futuro, com
que os índios dominem a língua por-
dação, leitura de documentos impor-
a evolução do preparo dos professo-
tuguesa para compreender documen-
tantes para os Timbira, visitas moni–
res, essas etapas serão cumpridas nas
tos e para entender a discussão polí-
toradas, passeios recreativos e estudo
próprias aldeias.
tica, os projetos de desenvolvimento,
dos rituais.
o sistema monetário e as técnicas de
tureza e qualidade de vida.
O Centro de Trabalho Indigenista
conta com financiamento da institui-
comunicação e, ao mesmo tempo,
Aulas presenciais Nos três meses
ção norueguesa Rain Forest. Sua par-
aprofundar os estudos de suas
seguintes, o aluno volta para a aldeia,
ticipação no orçamento do Centro de
próprias tradições.
onde participa de atividades inter–
Ensino e Pesquisa Timbira é de apro-
Assim, estudam Matemática ele-
disciplinares e faz pesquisas previamen-
ximadamente 40% do total. O Estado
mentar, voltada para questões funcio-
te determinadas – as aulas não-
entra com 50% para alimentação e
nais, compreensão de textos, geogra-
presenciais. Uma equipe de antropólo-
fornecimento de material para as es-
fia regional, história dos povos indíge-
gos, matemáticos e historiadores circula
colas. A Funai, com os 10% restantes
nas e os segredos das ervas medici-
pelas aldeias para orientar o aluno nas
para transporte dos estudantes. O MEC
nais. O currículo também respeita o
pesquisas. São desenvolvidos temas
contribui com material didático, ela-
calendário de rituais indígenas, como
como meio ambiente, relação com os
borado no idioma indígena coerente
os períodos de festas, caças e outros
brancos, relação entre sociedade e na-
com o seu universo cultural.
eventos tradicionais.
Entre a aldeia e a cidade
De acordo com a proposta do Centro de Ensino e Pesquisa de Carolina,
os dois primeiros ciclos do ensino regular indígena, equivalentes à primeira parte da Educação Fundamental,
são ministrados nas aldeias. Em Carolina, os alunos cumprem os dois ciclos mais avançados. Mas alguns ainda procuram fazer o antigo ginásio nas
cidades mais próximas. Isso implica
aprendizado deficiente, repetência e
evasão, em função da inadequação
professor
do modelo à realidade indígena.
40
Atualmente, 60 jovens, considerados alunos adiantados e indicados
Os alunos Timbira têm 250 horas/aula em Carolina e 750 horas/aula nas aldeias, a cada etapa
DESAFIOS / BRASIL ALFABETIZADO
Dignidade
NA PONTA DO LÁPIS
Programa Brasil Alfabetizado é criado
para abolir o analfabetismo no País
Acabar com o analfabetismo no Bra-
que se envergonham de dizer que não
sil. Garantir a todos os brasileiros o di-
lêem e não escrevem, o Governo tra-
reto de aprender a ler e escrever. Gerar
balha com uma estimativa de 20 mi-
emprego e renda. Fazer com que, até
lhões de jovens e adultos que não ti-
2006, 20 milhões de jovens e adultos
veram a oportunidade de freqüentar
tenham uma nova perspectiva de vida.
uma sala de aula.
Essas são propostas do programa
São pessoas que não sabem se-
Brasil Alfabetizado, lançado em setem-
quer desvendar placas e endereços ou
bro deste ano pelo Governo Federal. É
simplesmente identificar o que vêem
uma ação conjunta entre o Ministério
escrito nos ônibus que tomam todos
da Educação, Estados, municípios, or-
os dias para ir ao trabalho ou voltar
ganizações não-governamentais, em-
para casa. Histórias de jovens de 15
presas, associações e a sociedade civil
anos em diante e de adultos que vão
para riscar o analfabetismo da história
poder resgatar sonhos, projetos, iden-
do País. Até agora, o programa colocou
tidade e respeito por meio da leitura
56 mil alfabetizadores e mais de um
e da escrita.
Gente como dona Edileusa Valdi–
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
vino da Silva, 61 anos, mãe de 12
do Oiapoque ao Chuí, o Brasil tem,
filhos, moradora de Toledo, no
segundo o Censo Demográfico de
Paraná. Ela é toda felicidade porque,
2000, do IBGE, 16.294.889 analfa-
em pouco tempo, não vai mais preci-
betos. Levando-se em consideração
sar “colocar o dedão na tinta” na hora
o aumento populacional que ocorreu
de assinar o nome. Quando trabalha-
de lá para cá, e a omissão daqueles
va na roça com o pai, em Alagoas,
revista do professor
professor
milhão de alunos em sala de aula.
41
DESAFIOS / BRASIL ALFABETIZADO
onde nasceu e cresceu, escutava sem-
economia a girar. Geram emprego e de-
sor, dentro da estimativa de três mi-
pre: “Menina-mulher não devia estu-
senvolvimento.
lhões de alfabetizados, em 2003, vai
dar”. Assim, a vida passou. Casou-se
O que o Governo Federal espera com
ensinar cerca de 50 mil alunos até
aos 15 anos. Vieram os filhos, os 34
o programa, portanto, é bem mais que
dezembro, o que pode gerar 50 mil
netos e os cinco bisnetos.
ensinar a ler e a escrever. “Há uma
novos negócios e, conseqüentemen-
A oportunidade de mudar a história
dinamização da economia pela base
te, 100 mil novos empregos diretos.
apareceu com o Brasil Alfabetizado.
social. Basta lembrar que, segundo da-
No final, um giro de R$ 900 milhões
“Eu tinha muita vontade de aprender,
dos do Ipea, assim que uma pessoa
por ano no mercado.
estou com dificuldades de formar as
acaba de ser alfabetizada seu ganho
No Recife, Genilson Antônio da Sil-
palavras, mas mesmo assim sei que
aumenta em 41%”, garante o secretá-
va, solteiro, 27 anos, aguarda ansio-
vou conseguir”, diz, confiante e rindo
rio nacional de Erradicação do Analfa-
so a conclusão do curso para que
de tanto gosto. E o que dona Edileusa
betismo, João Luiz Homem de Carva-
possa conseguir emprego. Antes, tra-
vai poder fazer com a leitura e a escrita, além de assinar o nome? “Vou
poder andar na cidade, ler as placas
e os nomes dos ônibus”, planeja. E
não é só isso. Todos os filhos são alfabetizados, mas ela ainda quer poder ajudar os netos que estão na escola. Estudar com eles.
Emprego e renda
O Brasil Alfabetizado, que atua por
meio de parcerias, prevê a alfabetização básica entre seis e oito meses
de aula e está em andamento em
quase 1,8 mil municípios brasileiros.
balhava de segurança à noite e dor-
Foram liberados
R$ 94 milhões
para 40 convênios,
e esses recursos
geram emprego e
desenvolvimento,
além de
financiarem a
alfabetização
sabia nada; agora já estou juntando
as letras e sei assinar meu nome. Até
para procurar emprego é preciso saber ler, quanto mais para conseguir
uma vaga”, avalia ele, que sonha em
fazer Educação Física.
Portas abertas
Todo mundo sabe – e o MEC também – que ninguém passa a ler e a
escrever fluentemente em seis ou
oitos meses. João Luiz Homem de
convênios entre o MEC, governos es-
lho. Para ele, com a inclusão no mun-
é para se colocar o adulto numa
taduais e municipais, ONG, empresas,
do pela escrita e a leitura cria-se a de-
condição de continuidade. “O Brasil
associações e entidades civis em todo
cência, amplia-se a visão e aumenta-
Alfabetizado é o primeiro degrau de
o País. O MEC repassa recursos para
se a eficiência. “O vendedor de pipo-
um processo de aprendizado. O alu-
a capacitação dos alfabetizadores
cas, por exemplo, pode fazer uma pla-
no tem que sair sabendo, no míni-
que, em sala de aula, recebem
ca para seu negócio, criar um diferen-
mo, escrever, ler e interpretar um bi-
R$ 15/mês por aluno.
cial, colocar alguém para ajudar”, afir-
lhete, por exemplo”, esclarece.
Para esses 40 convênios, o MEC li-
ma o secretário.
O importante é despertar nas pessoas a vontade de não parar mais. E
berou R$ 94 milhões. O dinheiro chega
revista do professor
professor
Hoje, aposta na educação. “Eu não
Carvalho deixa claro que esse tempo
Até o momento, foram fechados 40
42
mia de dia. Por isso, não estudou.
às instituições depois que seus proje-
Mercado Melhorando as possibilida-
não tem a idade para começar a
tos são avaliados e aprovados pelo Fun-
des de ganho, gera-se emprego. O
aprender. Por isso, o programa dá for-
do Nacional de Desenvolvimento da
cálculo é o seguinte: o montante li-
ça inclusive aos idosos. O secretário
Educação (FNDE) e pela Secretaria Ex-
berado para este ano (R$ 94 milhões)
lembra que, em se tratando da mu-
traordinária de Erradicação do Analfa-
representa uma média de 56 mil pes-
lher idosa, há uma recompensa mui-
betismo (SEEA). Além de financiar a al-
soas ganhando R$ 300 (cálculo mé-
to grande, porque, em geral, ela quer
fabetização, esses recursos ajudam a
dio por alfabetizador). Cada profes-
disseminar para filhos, netos e até vi-
43
revista do professor
professor
zinhos o que aprendeu, criando um
mos nos fazendo aos poucos, na prá-
ciclo. “Quando a mãe não é analfa-
tica social de que tomamos parte”.
beta, a tendência é que seus filhos
também não sejam”, observa.
Aos 65 anos, dona Maria Nazaré
Alfa-Inclusão: o aluno
contextualizado
da Silva concluiu seu curso de alfabeti-
O MEC estuda a possibilidade de
zação no clube de idosos que freqüen-
implantar o Alfa-Inclusão, programa
ta em Natal (RN). Mãe de dez filhos e
que também trabalharia com a alfa-
avó de 22 netos, todos alfabetizados,
betização, levando para a sala de aula
ela, que não pôde estudar porque vi-
o mundo e a vida do aluno, no con-
via no interior, quer ver toda a família
texto em que vive: sua profissão, con-
lendo e escrevendo muito bem.
dição de higiene, moradia.
“Incentivo a todos e se puder aju-
Para o secretário João Luiz Ho-
dar...”, sonha. Maria Nazaré não só
mem de Carvalho, essa capacitação
melhorou a leitura, pois “lia gaguejan-
especial propõe ensinar itens como
do”, como também fez amizades. “Ar-
agregar valores ao trabalho, entender
rumei colegas e agora participo até do
o porquê da pobreza, enriquecer a ali-
Boi de Reis”, conta, orgulhosa.
mentação e como se organizar para
Dona Maria foi uma das 5.067
melhorar os ganhos e a condição de
pessoas alfabetizadas em 210 turmas
vida. “Seria o ensino contextualizado”,
nos primeiros meses de atuação do
acrescenta. A idéia, diz o secretário,
programa em Natal – uma parceria
embute a proposta de esticar a teo-
com a Prefeitura Municipal da capital
ria de Paulo Freire, segundo a qual o
potiguar, segundo informa a coorde-
analfabeto não sabe ler a palavra es-
nadora do Programa Geração Cidadã/
crita, mas sabe ler o mundo.
Brasil Alfabetizado, Sandra Borba.
Agora, mais cinco mil alunos estão em
sala de aula com o propósito de construir um novo futuro.
Recife Também em Recife, a meta é
ensinar 10 mil pessoas este ano, por
intermédio de convênio firmado com
o MEC. Leila Loureiro, coordenadora
de Educação de Jovens e Adultos da
Secretaria Municipal de Educação de
Recife, conta que o atendimento da
rede municipal era de 14 mil estudantes. Assim, de passo em pas-
revista do professor
professor
so, de escola em escola, de
44
letra em letra, o Brasil vai
construindo uma nação de cidadãos. Como escreveu o mestre Paulo Freire, “ninguém nasce feito, va-
Informações – 0800-616161
[email protected]
www.mec.gov.br/alfabetiza
Ministério da Educação
Esplanada dos Ministérios,
Bloco L, Sala 704.
Brasília (DF). CEP: 70047-900
O Alfa-Inclusão
quer ensinar o
alfabetizando a
agregar valores
ao trabalho,
entender o
porquê da
pobreza,
enriquecer a
alimentação
e se organizar
para melhorar
ganhos e a
condição de vida
ARTIGO / OSVALDO RUSSO
de todos
As mudanças pelas quais passa o
de 50% são mulheres e, entre as
Brasil têm colocado na ordem do dia
mulheres analfabetas, mais de 63%
a reflexão sobre o papel da educação
são negras. Após séculos de igualda-
na transformação da realidade brasi-
de racial formal, não exterminamos a
leira. Presenciamos pela primeira vez
educação da escravidão. Mesmo com
no País um governo que tem como
a mulher ocupando um papel social
principal meta minimizar os efeitos de
mais importante, não exterminamos
séculos de injustiça social, resquícios
as desigualdades de gênero.
“A pouca atenção
historicamente
dispensada à
educação
impediu
a conformação
de um processo
educacional
capaz de destruir
a barreira entre
pobres e ricos”
de um passado escravista, cuja aboli-
Uma educação que assuma a
ção manteve os escravos sem terra e
acepção plena da palavra, contrapon-
seus filhos sem escola. A esses se
do-se à qualquer forma de exclusão
juntaram, ao longo da história, uma
passa pela implementação de políti-
legião de brancos pobres, aumentan-
cas públicas estruturantes. E é nesse
capacitação, a Secrie passa a ter uma
do ainda mais as desigualdades e as
caminho por um processo educacio-
atuação efetiva na garantia do acesso,
injustiças sociais.
nal capaz de cicatrizar a divisão social
da permanência e do sucesso escolar
A pouca atenção historicamente dis-
brasileira que o Ministério da Educa-
de crianças e adolescentes em situa-
pensada à educação impediu a confor-
ção reconhece a sua missão. Nesse
ções de desigualdade, pobreza e
mação de um processo educacional
sentido, o Governo transformou a Se-
vulnerabilidade social, bem como na
capaz de destruir a barreira entre po-
cretaria do Programa de Bolsa-Escola
oferta de oportunidades educacionais
bres e ricos. Vivemos, hoje, em um país
do MEC em Secretaria da Inclusão
aos jovens e adultos nessas condições.
em que os 10% mais ricos da popula-
Educacional (Secrie), à qual novos pro-
No entanto, não se desconstrói um
ção apropriam-se de aproximadamen-
gramas foram agregados. Com isso, o
histórico de injustiça social em quatro
te 50% da renda. Essa desigualdade
Ministério abre caminhos para ampli-
anos. Por isso, precisamos sensibili-
se expressa na educação formal: o dé-
ar a sua atuação, assumindo um pa-
zar e mobilizar toda a sociedade –
cimo mais rico da população apresen-
pel pró-ativo na promoção de uma
Governo, iniciativa privada e ONG – na
ta a média de 10,7 anos de estudo; já
educação de qualidade para todos.
construção das mudanças que não são
os 10% mais pobres não atingem, em
média, quatro anos de estudo.
Com o controle mais rigoroso da fre-
apenas econômicas e sociais, mas
qüência escolar dos beneficiários do
também culturais. Criar uma rede em
Mas a questão da desigualdade e
Bolsa-Escola – que passam a integrar
prol de uma educação capaz de levar
da exclusão social não é só econômi-
o Bolsa Família, resultante da unifica-
a todos os instrumentos para comple-
ca, é também sociocultural. No Bra-
ção de diferentes programas sociais do
tar a “abolição” e garantir o acesso à
sil, das cerca de 15 milhões de pes-
Governo – e a implementação de ações
cidadania. Educação como um meca-
soas com mais de 15 anos, que não
educativas complementares, de com-
nismo de transformação e de inclu-
sabem ler e escrever, 65% são negras
bate à evasão escolar, de superação
são social. Para tenhamos uma esco-
ou pardas e somente 3% da popula-
das desigualdades, de incentivo à per-
la para todos, de todos.
ção negra conclui o Ensino Médio.
manência e promoção dos alunos do
Entre os analfabetos brasileiros, mais
Ensino Médio e do programa de
Osvaldo Russo, estatístico, é Secretário de
Inclusão Educacional do Ministério da Educação
professor
Uma escola
45
ENTREVISTA / ANTONIO IBAÑEZ
Incentivos
BEM-VINDOS
A Coordenação de Aperfeiçoamento
dos Professores de Ensino Médio
e Profissional vai conceder bolsas
de estudo e pesquisa aos docentes
Um sonho – o de garantir Educação Básica para todos – move o secretário de Educação Média e Tecnológica e também professor na Universidade de Brasília, Antonio Ibañez. PhD em Engenharia Mecânica pela
Universidade de Birminghan (Reino Unido), o secretário pontua, nesta
entrevista, as ações da Semtec voltadas para garantir o acesso dos jovens
ao Ensino Médio e Profissional. Destaca também a importância da formação dos professores e discorre sobre os desafios com que se depara o
Governo, a fim de certificar 65 milhões de trabalhadores com mais de 18
anos que não cursaram a Educação Média – nível que, a partir de 2004,
será obrigatório no País. Segundo ele, o alvo das políticas públicas da
Semtec é o desenvolvimento do País. “É do aumento do número de alunos
professor
no Ensino Médio,Técnico e Universitário e da qualidade dos cursos que
46
surgirão mais e melhores pesquisadores e cientistas”, diz o secretário.
Em janeiro, quando assumiu,
como o senhor encontrou a
Secretaria de Educação
Média e Tecnológica?
Encontrei uma secretaria em transição para a extinção, apoiada em três
Então a reforma só
aconteceu no papel?
Foram feitas as Diretrizes Curri–
culares da Educação Média e os
Parâmetros Curriculares, mas, na prática, pouco aconteceu.
programas: o de Expansão da Educação Profissional (Proep), o de Expansão do Ensino Médio (Promed) e o Pro-
Quais são as políticas
para o Ensino Médio?
jeto Alvorada. Só que programas têm
Estamos implementando a LDB de
tempo determinado; eles acabam. E a
fato. A partir de 2004, o Ensino Médio
base da Secretaria era essa. Nosso pri-
será obrigatório, gradativamente. Para
meiro trabalho foi formular políticas
aqueles alunos em idade regular ou
públicas para o Ensino Médio e Tecno–
com uma pequena defasagem, o Ensi-
lógico, sem esquecer o dia-a-dia, man-
no Médio será obrigatório em 2004.
tendo os programas em funcionamen-
Quem concluir a 8ª série do Ensino Fun-
to e corrigindo problemas como a falta
damental, em 2003, com até 16 anos,
de gestão democrática nos centros fe-
será obrigado a se matricular na 1ª sé-
derais de educação tecnológica e nas
rie do Ensino Médio, em 2004; em
escolas agrotécnicas. Não foi possível
2005, na 2ª série; e em 2006, na 3ª.
fazer uma reestruturação como quería–
Fizemos um levantamento, Estado por
mos, porque tivemos que cortar cargos
Estado, e deu para perceber que os
comissionados e porque a secretaria ti-
concluintes com 16 anos são em nú-
nha consultores, mas não quadros, que
mero pequeno, o que dá para garantir
são as pessoas que vão continuar o tra-
vaga no próximo ano. Essa política visa
balho. Mesmo com essas dificuldades,
a estancar o problema da defasagem
hoje temos uma feição do que queremos.
na saída do Ensino Médio.
O que motivou a formulação
de políticas públicas na
Secretaria?
E os mais velhos, com 18, 19
anos, não serão atendidos?
As Diretrizes Curriculares da Edu-
Partimos de dois seminários. Um da
cação de Jovens e Adultos dizem que
Educação Média, com 600 participan-
é possível ter um modelo pedagógi-
tes, aconteceu no final de maio e início
co adequado para a Educação de
de junho. Reunimos a representação
Jovens e Adultos, com carga horá-
dos Estados, dos professores, dos sin-
ria diferente do
“A formação
inicial de
professores
é o grande
gargalo da
educação
pública.
Não dá para
pensar em
implementar
políticas sem
professores”
Ibañez: “Está
aberto edital
para inscrição
de projetos que
serão avaliados
e oferecidos aos
Estados, para
a formação de
professores do
Ensino Médio”
dicatos e das redes públicas e privadas. Ainda em junho realizamos o seminário da Educação Profissional, com
900 convidados. Verificamos que os
professores estavam muito inseguros
em relação à reforma do Ensino Médio, que foi realizada no governo antelhar mais essas reformas.
professor
rior. Por isso, a necessidade de traba-
47
ENTREVISTA / ANTÔNIO IBAÑEZ
Ensino Médio regular. Hoje são 65 mi-
que eles, com recursos do Promed,
de Matemática e Português em feve-
lhões de trabalhadores com mais de
possam fazer a formação de professo-
reiro de 2005. Esses dois livros terão
18 anos sem Ensino Médio. Temos um
res do Ensino Médio.
todos os conteúdos que o aluno vai estudar da 1ª à 3ª série do Ensino Médio.
dado importante: 80% dos alunos que
onde a repetência chega a quase 50%
A exemplo da Capes, que
financia a formação pósuniversidade, o Ensino Médio
também terá um apoio?
e a evasão é acima de 15%. É um pú-
O Ministério da Educação vai criar a
blico que trabalha, estuda em escolas
Coordenação de Aperfeiçoamento dos
de periferia, está à procura de empre-
Professores de Ensino Médio e Profis-
estão na escola, estão na escola pública; destes, 60% no ensino noturno, que
é onde ocorrem os grandes fracassos,
atende a esse jovem e ao adulto. Temos
que construir um modelo que leve em
conta a experiência, aliada a uma Educação Profissional motivadora, que permita
ao aluno sair do Ensino Médio com expectativa de encontrar um emprego.
O senhor diz que são mais de
65 milhões de adultos acima
de 18 anos sem o Ensino
Médio. O Governo vai oferecer formação a eles?
Estamos fazendo um levantamento
dos modelos pedagógicos que existem
A Educação Profissional é algo tão
sério, mas tão sério, que não pode ser
go, faz bicos, está na informalidade.
Então, esse modelo de 2.400 horas não
Hoje a Educação Profissional
está amparada no Decreto
2.208/97, mas o senhor
defende uma legislação
específica. Por que?
“Sem um piso
salarial,
teremos
dificuldade de
motivar os
professores,
embora a fonte
de motivação
não seja só de
cunho salarial”
para a Educação de Jovens e Adultos
tratada num simples decreto. Tem que
haver uma legislação que fale na Educação Profissional da mesma forma que
existe para o itinerário da universidade.
O estudante precisa saber, ainda no Ensino Fundamental, que ele pode escolher o Ensino Técnico, o Técnico Superior, profissionalizar-se e ainda cursar
uma universidade tecnológica. Hoje,
para ingressar no Ensino Técnico, o aluno tem que ter certificado de conclusão do Ensino Médio. Nós estamos mudando isso na regulamentação dos artigos 35 e 36 da LDB, que tratam do
Ensino Profissional, para permitir que
as escolas que quiserem possam ofe-
junto ao Sistema S (Senai, Sesi, Senar
sional (Capemp), que vai incentivar, com
recer a parte tecnológica desde o início
e Senac), centrais sindicais, ONG, sis-
bolsas de estudo e pesquisa, o apri-
do Ensino Médio. Dessa forma, com
temas públicos, para definir modelos
moramento do professor de Ensino
quatro anos de estudo, o aluno sai com
adequados de Educação Média e Pro-
Médio e Profissional. A Coordenação
dois certificados. Mas se ele não qui-
fissional para os adultos. Vamos ver o
terá um conselho técnico-científico que
ser o diploma de técnico em manuten-
que cada parceiro pode fazer e definir
vai definir as políticas. A montagem
ção, por exemplo, ele tem quatro
quanto tempo vai ser necessário para
desse projeto está sendo feita com as
anos dedicados às disciplinas de cu-
certificar 65 milhões de trabalhadores
sociedades de Física, Química, Mate-
nho científico que vão prepará-lo me-
nos próximos 15 anos.
mática, Biologia e com a Sociedade
lhor para a universidade.
Brasileira para o Progresso da Ciência,
Quem vai fazer a formação
continuada de professores?
Sim. Já estamos trabalhando a
formatação de dois projetos-piloto den-
qualidade do Ministério. Esses projetos serão oferecidos aos Estados para
Vamos começar a distribuir os livros
secretários estaduais de Educação, com
ção de projetos que serão avaliados e
os escolhidos receberão um selo de
professor
Isso vai funcionar em 2004?
Junto com o Ensino Médio
obrigatório vem o livro didático. Com quais livros o programa começa?
A Secretaria abriu edital para inscri-
48
entre outras entidades afins.
tro dessa regulamentação, um no
Paraná e outro no Espírito Santo. Ao
mesmo tempo, vamos discutir com os
os diretores dos Cefets e escolas
verificar a demanda. Precisamos de 55
muito menos sobre a fonte para o fi-
agrotécnicas, com os sindicatos e com
mil professores de Física para atender
nanciamento, e essa é a causa do afas-
os deputados, pois algumas mudanças
da 5ª à 8ª série da Educação Funda-
tamento do Estado das políticas públi-
serão feitas via Congresso.
mental e todo o Ensino Médio. Mas
cas para a Educação Profissional.
precisamos também de professores de
Para tornar o Ensino Médio
mais atraente, reduzir a
evasão e a repetência, que
projetos a Semtec pretende
desenvolver?
Química, Matemática, Biologia e já começa a faltar professor de Português e
de línguas estrangeiras. Olha o quadro
que encontramos: nos últimos 11 anos,
as universidades federais, estaduais,
O Programa de trabalho da
Semtec vai além de oferecer
Educação Média,
Tecnológica, de Jovens e
Adultos. Seria um programa
que prepara uma base para
o desenvolvimento?
Estamos interessados em oferecer
municipais e particulares, todas, forma-
uma escola mais agradável aos estu-
ram 7.700 professores, então, a defa-
dantes, com uma participação deles
sagem é muito grande. Sabemos que
Quando se pensa num modelo de
cada vez maior. Um projeto muito inte-
em quatro anos vai ser impossível fazer
desenvolvimento para o Brasil, pensa-
ressante, patrocinado pela Semtec e
isso, mas vamos deixar equacionado e
se em exportações, duplicar o que te-
pela Secretaria de Educação a Distân-
definido em quanto tempo poderemos
mos hoje. Por exemplo: a Coréia expor-
cia, está começando agora em 70 es-
resolver. O incrível é que, nos últimos oito
ta US$ 100 bilhões por ano, a Malásia
colas de três Estados (Mato Grosso,
anos, o Governo Federal não mexeu uma
chega perto disso. O Brasil exporta tal-
Mato Grosso do Sul e Goiás). É a edu-
palha para melhorar esta situação.
vez a metade, mas, para exportar mais,
precisa agregar tecnologia, não apenas
cação através do rádio. Vamos qualificar os professores e os alunos, e de-
E as dificuldades?
vender matéria-prima. Para chegar a
pois a Semtec vai financiar a monta-
Uma delas é a financeira, mas não
isso, precisamos trabalhar toda a ca-
gem de uma rádio dentro da escola,
é a única. Essa não é uma questão só
deia produtiva, desde a pesquisa, for-
onde os alunos e os professores vão pro-
da Secretaria, mas do Ministério todo.
mar engenheiros, técnicos, construir
duzir programas, musicais, teatro, rotei-
Estamos trabalhando a transformação
projetos de qualidade. Precisamos, por-
ros, entrevistas, o que eles quiserem criar
do Fundef em um fundo da Educação
tanto, de um projeto nacional que inte-
para aprender mais e melhor. Há outros
Básica capaz de financiar a Educação
gre todo o Governo, as universidades.
programas que estão sendo desenvolvi-
Infantil, Fundamental, Média e a de
Quando se pensa em desenvolvimen-
dos nos Estados para a juventude, como
Jovens e Adultos. Nessa transformação,
to, tem-se que agregar conhecimentos,
é o caso do programa Protagonismo Ju-
o principal aporte de recursos tem que
formar pesquisadores, professores,
venil de Pernambuco, que seria interes-
vir da União. Para iniciar, seriam ne-
técnicos, aumentar a
sante levar para outros Estados.
cessários R$ 4,5 bilhões, além dos re-
base de alunos do
cursos já garantidos no Fundef, mas isso
Ensino Médio,
pode ser negociado. Se tivermos, por
Profissional e
exemplo, R$ 1,5 bilhão, vamos come-
Universitário.
çar o Fundeb com isso. É necessário
Do aumento da
A formação inicial de professores é
incluir nesse fundo o piso salarial do
base é que vão
o grande gargalo da educação pública.
professor. Sem ele teremos dificulda-
surgir mais e
Não dá para pensar em implementar
de para motivar os professores, embo-
melhores
políticas sem professores. Criamos um
ra a fonte de motivação não seja só de
cientistas.
grupo de trabalho com a SEED e com a
cunho salarial. Também para a Educa-
SESu para buscar alternativas e reali-
ção Profissional não há nenhuma res-
zamos um levantamento nacional para
ponsabilidade sobre quem financia e
Faltam muitos professores
no Ensino Médio. Como isso
será resolvido?
Ibañez: “Olha o quadro que encontramos: nos últimos
11 anos, as universidades federais, estaduais,
municipais e particulares, todas, formaram 7.700
professores. Então, a defasagem é muito grande”
DEBATE
SOLIDARIEDADE ENTRE
diferentes
professor
Especialistas analisam a inclusão dos
alunos com necessidades especiais
50
As pessoas com necessidades es-
coordenadora nacional de educação
peciais vêm, gradativamente, ganhan-
da Federação Nacional das Associa-
do espaço no contexto social brasilei-
ções de Pais e Amigos de Excepcio-
ro. Os avanços são lentos, mas signi-
nais (Apaes) e diretora pedagógica do
ficativos: rampas que começam a sur-
Centro de Educação Especial Girassol/
gir onde antes havia escadas, ônibus
Apae-MS. Marlene de Oliveira Gotti é
com acesso especial, iniciativas de
assessora técnica da Secretaria de
profissionalização e inserção no mer-
Educação Especial do Ministério da
cado de trabalho, sinalizações em
Educação e Erenice Soares de Carva-
braille em elevadores e outros locais
lho é professora da Universidade Ca-
públicos etc. Mas o passo mais im-
tólica de Brasília.
portante dado nos últimos anos foi o
É delas a lição: a Educação Es-
entendimento do que vem a ser a Edu-
pecial redefine seu papel na edu-
cação Especial após a LDB e as Dire-
cação; oferece o atendimento edu-
trizes Nacionais para essa modalida-
cacional especializado; visa a aten-
de de ensino na Educação Básica.
der as necessidades educacionais
Para discutir o processo de implan-
dos alunos para torná-los produti-
tação da Educação Especial no País,
vos e integrados; e propicia a troca
foram convidadas três especialistas no
de experiências entre colegas, pais,
assunto. Fabiana Soares de Oliveira é
educadores e comunidade.
Fabiana Oliveira – Estamos nos
a questão psicológica: como essa pes-
especializado. Até então, nós mes-
perguntando há muitos anos: o que é
soa vai se conduzir na vida social e na
mos, da educação, confundíamos es-
Educação Especial? A quem se desti-
vida educacional? Essas duas raízes
sas ações. O aluno ia para a escola e
na? Seria outro sistema educacional
confundiam as ações da Educação Es-
tinha, no mesmo horário, ações de
ou parte integrante da educação ge-
pecial com as ações da saúde.
saúde e da educação simultaneamen-
e Bases?
Fabiana Oliveira – A construção social dessa pauta de acesso ao aprendi-
te. Se ele tem direito a 20 horas/aula
semanais, mas sai da sala para atendimentos da área da saúde, acaba
Erenice Carvalho – É uma moda-
zado é um trabalho de desconstrução
lidade de educação escolar, certamen-
da ligação entre o não aprender e a
te, mas sem exclusividade, e tem
deficiência. O que cai na questão de
conotação muito abrangente: vai de
que ele não aprende porque tem defi-
uma concepção muito abstrata até
ciência e, para aprender, precisa pas-
questões como equipamentos, presta-
sar primeiro pela fisioterapia, pela
ção de serviços, apoio, se necessário,
fonoaudiologia, com muito mais inten-
Fabiana Oliveira – Esse aluno com
e manejo curricular.
sidade. E o professor? Se der só quin-
deficiência tem o direito de cumprir a
ze ou vinte minutos de aula está tudo
mesma carga horária que os demais
bem? Ora, isso precisa acabar.
estudantes. É necessário um tempo
Marlene Gotti – A Constituição de
1988 deixou claro que pessoas com
tendo carga horária menor que a dos
outros alunos. Ele não aprendeu porque tem deficiência? Não! Não aprendeu porque não lhe dei a carga horária
a que tinha direito.
para as ações da Educação Especial
deficiências têm direito a atendimento
Marlene Gotti – É isso mesmo.
educacional especializado, e a LDB
Esse aluno precisa de um atendimen-
definiu que a Educação Especial é uma
to na área da saúde e da psicologia,
modalidade de educação escolar que
mas também de atendimentos edu-
Marlene Gotti – Para esclarecer o
oferece o atendimento educacional es-
cacionais. O aluno com deficiência
que a LDB traz no capítulo 5 sobre Edu-
pecializado previsto na Constituição.
tem direito de ser atendido pelo sis-
cação Especial, o CNE publicou as di-
Agora, esse atendimento educacional
tema de saúde, mas isso não deve ser
retrizes para a Educação Especial na
especializado precisa ser visto na se-
confundido com o di-
Educação Básica, que é formada pela
guinte ótica: o aluno portador de defi-
reito que ele tem à
ciência tem uma situação biológica que
educação e ao ser-
dia. O aluno com necessidades es-
pode refletir em sua situação edu–
viço educacional
peciais tem o direito de passar por
acontecerem, conforme rege a legislação educacional.
Educação Infantil, Fundamental e Mé-
cacional, interferindo na sua aprendi-
todas essas etapas, assim como
zagem. Por outro
pela Educação Superior. E a Reso-
lado, há
lução nº 2,
professor
ral, conforme dito na Lei de Diretrizes
51
DEBATE
numa perspectiva de homogeneidade, do
de 2001, traçou diretrizes para o sis-
mude a cultura do País. O processo
que pensar na diversidade, que é muito
tema educacional brasileiro organi-
de inclusão exige refinamento cultu-
mais desafiadora e complexa. Na forma-
zar o atendimento a esse aluno e
ral, sobretudo. É uma responsabili-
ção continuada, voltada a professores já
para o papel de apoio do educador
dade de todos. Como estamos refle-
formados, mas indevidamente prepara-
especial.
tindo sobre a diferença? Isso não pode
dos, deve-se viabilizar informações sobre
ser demarcado no tempo.
a construção do novo paradigma, ou os
Fabiana Oliveira – Além da função da Educação Especial, que está
ali na retaguarda, a escola regular tem
a obrigação de prever e de prover os
serviços de apoio.
Marlene Gotti – A Resolução 02/
2001 define a Educação Especial
como um conjunto de recursos colocado à disposição do aluno para que
ele possa ter acesso a todo o processo de ensino. Esse conjunto de
serviços vai se distinguir conforme a
etapa em que o estudante estiver e
deve ocorrer preferencialmente na
rede regular de ensino. Todas as escolas têm que matricular alunos com
ou sem necessidade especial. Matriculado o aluno, a escola tem que,
imediatamente, estar organizada
para atendê-lo. Essa organização não
é na área da saúde, mas na área da
educação. Dentro ou fora da classe
comum, o aluno com deficiência continua tendo o direito ao atendimento
educacional especializado. A função
da Educação Especial não é substituir a escolaridade promovida pela
escola regular comum. Seu papel é
apoiar o aluno.
Erenice Carvalho – Começamos
com medidas legais, mudança de
atitudes, distribuição de recursos, persistência e diálogo. É
um processo cultural, também,
e não só de providência governamental. Não se pode exiprofessor
gir do MEC ou de um sis-
52
tema de ensino que,
num passe de mágica,
ERENICE CARVALHO
Marlene Gotti – A inserção é, na
professores vão estar sempre aquém do
verdade, social. O aluno com neces-
que temos conseguido construir em ter-
sidades educacionais especiais é
mos de compreensão de educação.
muito discriminado. No passado, era
muito comum nem se olhar para uma
pessoa com deficiência, porque era
“feio” fazer isso. Havia ainda a cultura da piedade, e é essa cultura que
estamos tentando alterar. Essa pessoa precisa ser vista por todos como
ser humano, com direitos como qualquer cidadão. A legislação hoje já busca mostrar isso. Para mudar a antiga
concepção, a partir da LDB, passamos a utilizar a nomenclatura necessidades educacionais de alunos. Porque não é função da escola ofertar
Marlene Gotti – A instituição de Ensino Superior tem que construir seu projeto pedagógico, ter um corpo docente
capaz de formar adequadamente professores na perspectiva de uma escola inclusiva na fase da formação inicial. Isso
ainda está iniciando. A legislação prevê
que a prática de ensino aconteça desde
o começo do curso, para que não ocorra
como antigamente, quando era dada somente no último semestre e o aluno saía
sem saber nada sobre necessidades educacionais especiais de alunos.
os serviços clínicos da área da saúde
Erenice Carvalho – É preciso lembrar
relativos à deficiência do aluno, mas
também do professor especialista. Pre-
verificar qual é a necessidade educa-
cisamos dar um novo dimensionamento
cional que ele tem. O aluno cego, por
a seu trabalho, porque antigamente ele
exemplo, precisa de material em
atuava em uma escola especializada.
braille, o surdo precisa de Libras.
Hoje, ele está orientando o professor da
Erenice Carvalho – Na formação
inicial o professor precisa ter clareza
de que existe uma diversidade de alunos e que é preciso uma reflexão
sobre a educação nesse contexto.
Isso por muito tempo não foi feito e
ainda não acontece em todas as instituições de Ensino Superior,
porque as disciplinas, ou
classe comum e compartilhando seu
ensinamento com a equipe pedagógica
de uma escola regular. Não temos que
colocar regras, mas acompanhar o movimento da educação que
estamos fazendo, e ir
redimensionando os papéis
desses profissionais.
Fabiana Oliveira
não são obrigatórias, ou
– Na perspectiva
contemplam parcialmente
do Direito, a esco-
a questão da diferença. É
la deverá dar a
muito mais fácil discu-
esse aluno espe-
tir sobre o
aluno
cial apoio para
FABIANA OLIVEIRA
chegar à universidade e ao mercado de trabalho. Hoje, essa educação não deve se
estão envolvidos – e não estou falan-
possibilitar o aprendizado. Quem de-
processar somente sob o ponto de vista
do aqui só de pais de alunos com ne-
termina que o menino precisa apren-
do professor. Toda a comunidade escolar
cessidades especiais. No caso da sur-
der a ler em um ano? Quem vai de-
tem que se envolver no projeto político-
dez, por exemplo, os pais devem par-
terminar o tempo é o potencial do
pedagógico da escola, para que promova
ticipar até da aprendizagem da língua
aluno. Currículo não é só o conteú-
o sucesso do aluno, da Educação Infantil
que seus filhos vão desenvolver: Se
do, é toda uma movimentação da es-
à Superior, sempre com a mesma
não sabem a língua de sinais que o
cola, que precisa ser aberta, flexível.
conotação. Esse processo já começou.
filho fala, como vão participar da vida
dele? E o professor deve atuar tanto
da Educação Profissional. Assim como todo
com os pais quanto com o colegui-
jovem tem direito a passar pela Educação
nha, porque há muitas formas de der-
Básica e outras modalidades de educação
rubar os mitos que acompanham a
escolar, tem também o direito à Educação
pessoa com deficiência. Depende de
Profissional – que é outra modalidade, que
como o professor conduz o processo
a Apae, uma mantenedora, também ofer-
pedagógico. Na primeira vez em que
ta. O aluno com deficiência tem direito de
colocamos crianças surdas na escola
se qualificar profissionalmente para ser
da 113 Sul, em Brasília, a primeira
uma pessoa produtiva na sociedade.
providência foi contar para os colegas
Fabiana Oliveira – É um trabalho de
mudança de cultura muito profunda, pois
as famílias dessas pessoas também foram espectadores desse processo, de ouvir dizer que não, que seu filho tem um
déficit intelectual e ele precisa de uma es-
que criança surda é absolutamente
normal e que fala uma outra língua,
desconhecida dos professores. Todos
aprenderam a língua de sinais para
brincar com os professores. Ou seja,
o estar juntos é excelente para todos.
cola especial. No passado, isso significava
Fabiana Oliveira – Importante
que ele iria precisar da Apae a vida toda,
lembrar: acesso ao ensino, flexi–
por exemplo. A visão era direcionada para
bilização, saber lidar com a questão
dentro da escola especial. Hoje trabalha-
do tempo e como avaliar a po–
mos para modificar essa visão, invertendo
tencialidade sem aquela intenção de
a perspectiva da escola especial para fora.
derrubar o aluno.
Erenice Carvalho – E se assim
não for, o aluno não terá suas necessidades especiais atendidas e, em
relação à nota, dança. O que deve
ser avaliado é o que o aluno aprendeu, de forma qualitativa.
Marlene Gotti – A função da escola especial era a de atender a todas as crianças com deficiência, mas
hoje estamos enxergando com maior
clareza que a finalidade da educação é a de promover a inclusão social. O que faz com que a escola especial modifique também suas funções
ao realizar atendimento educacional especializado, com o objetivo de dar condições ao aluno de viver na sociedade,
e não na escola. Um exemplo dessa
mudança é que está sendo estudada
pelo ministro da Educação a possibilidade de se criar Faculdades Integradas
de Educação Bilingüe: Libras/Língua Portuguesa, no Instituto Nacional de Edu-
Tentamos derrubar as barreiras para que
Marlene Gotti – O aluno com ne-
cação dos Surdos do Rio de Janeiro.
se enxergue o aluno com déficit intelectual
cessidades especiais tem o direito ao
Tais faculdades permitirão aos surdos
com competências e condições de partici-
currículo estabelecido pela LDB. Há
e aos ouvintes que querem ser profes-
par da vida produtiva do País. Essa é uma
uma base nacional comum – Portu-
sores aprenderem duas línguas e a
mudança interna, que passa, primeiramen-
guês, Matemática etc – e todos
te, pelas cerca de 1,8 mil Apaes do Brasil.
os alunos têm o direito de ter
Depois pela família e pela sociedade.
acesso a ela. Para tanto, po-
Marlene Gotti – Sem a família, não
dem ser necessários ajustes
há como promover uma boa educa-
curriculares. Se o aluno de-
ção. Prova disso são as crianças
que se evadem e que repetem
séries quando os pais não
manda mais tempo para
aprender, a escola
pode flexibilizar sua
organização para
MARLENE GOTTI
utilizá-las em suas classes.
Fabiana Oliveira – A escola especial tem que
acompanhar todo esse processo de inclusão escolar e social. Nossa
defesa não é acabar com elas, mas
modificá-las.
professor
Marlene Gotti – Precisamos lembrar
53
LIVROS
o mundo
A AVENTURA DE LER
Coleções do PNBE fazem
do estudante da rede pública
um leitor privilegiado
Um porrete em forma de remo cha-
Afinal, para além do prazer da fanta-
mado puratigñ (porantim) é o maior
sia, a leitura amplia a cultura das pes-
símbolo cultural dos índios Sateré-
soas, abre seus horizontes para no-
Maué, que vivem na Área Indígena
vas viagens, virtuais e concretas, e as
Andirá-Marau, região do Rio Tapajós,
torna mais aptas para lutar pela vida.
na divisa do Amazonas com o Pará.
Eles acreditam que o porantim foi resgatado de demônios, que o utilizavam
A história do porantim, relatada
para matar inimigos. Inscrições dese-
pelo índio Yaguarê Yamã, 28 anos, faz
nhadas em cada lado do instrumento
parte de uma das dez coleções do
– um, representando o bem, o outro,
PNBE destinadas à 4ª série. Cada
o mal – contam a história mítica des-
uma dessas coleções tem cinco livros
ses índios, também conhecidos como
e seis gêneros – contos, poesias, no-
os primeiros a cultivar as sementes do
velas, narrativas da tradição popular
guaraná.
brasileira, peças de teatro e clássicos
professor
Porantim é, portanto, arma, remo
54
Coleções da 4ª série
da literatura universal.
e memória. Poderia perfeitamente
Assim, a criançada poderá passar
servir também de símbolo para o Pro-
o próximo ano letivo na companhia
grama Nacional Biblioteca na Escola
de personagens como o Pequeno
(PNBE), executado pelo Fundo Nacio-
Príncipe, Tom Sawyer, o Barão de
nal de Desenvolvimento da Educação
Münchhausen, os gregos Cupido,
(FNDE) que, este ano, distribuirá quase
Psiquê, Eco e Narciso ou os brasilei-
38 milhões de livros de literatura para
ros Boitatá, a Mãe-d’água, Tainá e o
mais de oito milhões de alunos das
Boto. Os alunos poderão também se
4ª e 8ª séries da rede pública do En-
divertir recitando poemas de clássicos
sino Fundamental e para as classes
como Casimiro de Abreu, Cecília
da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Meireles e Carlos Drummond de
Andrade, ou de moderníssimos como
Paulo Leminski, Arnaldo Antunes e
Millôr Fernandes. E ainda se emocionar com as histórias de Lygia Fagundes
Telles, Carlos Heitor Cony e Moacyr
Scliar ou com as peças da carioca
Sylvia Orthof, dos cearenses Ronaldo
Correia de Brito e Assis Lima ou do
paulista Walcyr Carrasco.
Para a 8ª série
Dez coleções também estarão à
disposição do pessoal da 8ª série. Os
A criançada poderá passar o próximo ano letivo na companhia de personagens como O Pequeno
Príncipe, Tom Sawyer, os gregos Cupido e Psiquê e os brasileiros Boitatá e O Boto
alunos poderão levar para casa e fazer trabalhos em sala de aula. As co-
fletir, com Paulo Freire, que “a leitura do
na Guerra dos Farrapos e nas bata-
leções contêm uma antologia poética
mundo precede a leitura da palavra” e
lhas pela unificação da Itália, por isso
brasileira, uma antologia de crônicas
que a leitura boa é aquela que conduz ao
mesmo denominada “heroína de dois
e contos do Brasil, uma novela ou ro-
mundo que nos interessa viver. O texto A
mundos”.
mance brasileiro ou estrangeiro, e uma
importância do ato de ler, do grande edu-
identidade cultural do Brasil (Roberto
peça teatral nacional ou estrangeira.
cador pernambucano, integra uma das
da Matta), sobre a saúde pública
Será interessante observar a reação
quatro coleções do PNBE destinadas a
(Moacyr Scliar) e sobre a violência
esse grupo.
na periferia das grandes cidades
do na pele de Gregor Samsa, o perso-
Dessa coleção fazem parte leitu-
nagem de Franz Kafka, de A Metamor-
ras de Domingos Pellegrini, Machado
Nas coleções destacam-se alguns
fose, que certa manhã acorda transfor-
de Assis, Olavo Bilac e Rubem Alves;
cordéis (ABC do lavrador e outros
mado em inseto. Ou tendo pesadelos
poemas de autores românticos brasi-
cantos, de Silvio Romero, e Dicioná-
na couraça de João Paulo, quase um
leiros, como Fagundes Varela e Cas-
rio dos Sonhos, de J. Borges) e ainda
caranguejo, lutando contra a fome nos
tro Alves; a carta de Pero Vaz de Ca-
Lisístrata, peça do grego Aristófanes
manguezais do Recife, na novela de
minha, relatando a chegada de Cabral
(5º século antes de Cristo). A obra re-
Josué de Castro. Lições também po-
às costas da Bahia; as proezas de
gistra uma greve de sexo deflagrada
derão ser tiradas da alegria de uma me-
João Grilo, em versos de cordel de João
pelas mulheres dos soldados das ci-
nina fazendo o papel de Titânia, a rai-
Ferreira Lima (trata-se do mesmo per-
dades inimigas Atenas e Esparta, para
nha das fadas do Sonho de uma Noite
sonagem imortalizado no Auto da
impedir a carnificina.
de Verão, de William Shakespeare, ou
Compadecida, de Ariano Suassuana);
No processo do conhecimento, as
de seus próprios devaneios diante da
e ainda a peça O burguês fidalgo, do
pessoas não apenas apreendem os
Receita de Mulher, de Vinícius de
clássico francês Molière, cujo impa–
dados já existentes no mundo, mas
Moraes. Ou, ainda, da agonia que sen-
gável personagem, Monsieur Jourdain,
constroem novos dados e até novas
tiria se fosse Rosa, a nordestina obri-
cultiva os hábitos da nobreza em de-
realidades. Isso é ainda mais verda-
gada a acompanhar o marido Zé-do-
cadência no século 17.
deiro no âmbito da literatura, univer-
Burro, na jornada de O Pagador de Promessas, de Dias Gomes.
Jovens e adultos leitores
(Fernando Pedrosa e outros).
so da fantasia por excelência. As coBiografias As outras três coleções des-
leções do PNBE, como o porantim dos
tinadas ao EJA incluem biografias de
Sateré-Maué, são instrumentos e gui-
brasileiros ilustres, como o mestre da
as para que os estudantes do Ensino
Com mais experiência de vida, os es-
música popular Pixinguinha e a
Fundamental participem dessa aventura
tudantes do Fazendo Escola poderão re-
catarinense Anita Garibaldi, que lutou
que é ler o mundo e as letras.
professor
de um garoto de 14 anos se imaginan-
Trazem ensaios sobre a
55
AGENDA
Tradução em Libras
Um software inédito no mundo para facilitar o aprendizado dos alunos com necessidades auditivas está sendo
criado pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), com apoio de uma equipe de
lingüistas da Universidade Estadual de Pernambuco (UPE). O programa traduzirá textos para a Língua Brasileira de
Sinais (Libras). Palavras ou frases digitadas em Português aparecerão, na tela do computador, na forma de imagens
(sinais da Libras). O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação apoiará financeiramente o programa. Reso-
Encontro ambiental
Vamos cuidar do Brasil é o tema da Conferência Nacional do Meio Ambiente que
será realizada em Brasília, de 28 a 30
de novembro, para debater com a sociedade questões de qualidade de vida
e de sustentabilidade socioambiental.
Eventos preparatórios à conferência serão promovidos em várias capitais brasileiras, entre outubro e novembro. A
agenda está no portal www.mma.gov.br,
do Ministério do Meio Ambiente, que
prepara o grande encontro e tem o apoio
do MEC. Em setembro, escolas públicas e privadas de todo o País realizaram a Conferência Nacional Infanto-Juvenil do Meio Ambiente. A cartilha Passo a
Passo da Conferência encontra-se nos Núcleos de Educação Ambiental (NEA) do Ibama e nas comissões organizadoras.
Proteção à criança
Os professores vão ter acesso, em breve, ao Guia Escolar – Identificação de Sinais de Abuso e Exploração Sexual em
Crianças e Adolescentes, lançado pelo MEC, por meio da Secretaria de Inclusão Educacional, e pela Secretaria
Especial dos Direitos Humanos, ligada à Presidência da República, no dia 23 de setembro, em Brasília. O Guia
Escolar está dividido em três partes: a maneira como a escola pode participar no processo; a notificação dos casos;
e a rede de proteção à criança e ao adolescente.
Com tiragem inicial de três mil exemplares, a publicação está sendo entregue a todas as secretarias estaduais de
professor
Educação e em locais com alto índice de violência. Sua versão em cd-rom estará também na página eletrônica
56
www.mec.gov.br. Em dezembro o Guia será apresentado e discutido em uma série de cinco programas da TV Escola.
SIRON FRANCO. CERÂMICAS. CATÁLOGO DE EXPOSIÇÃO. MINC/GDF
lução nesse sentido foi publicada no DOU no último dia 8 de setembro.
Multiplicadores da Inclusão
A Secretaria de Inclusão Educacional (Secrie) está capacitando gestores municipais para formar a Rede de Agentes
de Inclusão – Movimento Nacional para Superação das
Desigualdades pela Educação – em todo o País. Iniciado
em setembro, o curso prossegue até 27 de novembro. A
meta é formar mais de 23 mil gestores nos 27 Estados.
Na primeira fase, presencial, deverão ser formados 1.400
multiplicadores. Na segunda etapa, o curso atenderá mais
22 mil pessoas, por meio de teleconferência. O objetivo
geral do projeto é consolidar uma Rede de Gestão dos
programas da Secrie, formado por gestores municipais dos
programas, educadores, parceiros estaduais e promotores
de ações educativas complementares. Informações nos
telefones 61-410-6156/6090/6027 e endereço eletrô-
As escolas pela Internet
O usuário de informações educacionais dispõe hoje de
duas importantes ferramentas de pesquisa: o
Edudatabrasil (www.edudatabrasil.inep.gov.br),lançado
em maio, e o Databrasilescola, disponível desde setembro, no endereço www.dataescolabrasil.inep.gov.br.
Nesse novo sistema, o usuário pode conhecer o número e rendimento dos alunos matriculados e funções
docentes para cada nível de ensino da escola; suas
instalações e infra-estrutura; os equipamentos eletrônicos de suporte pedagógico disponíveis; e a participação nos programas do MEC, como Transporte Escolar
e TV Escola. O Databrasilescola possui ainda um espaço para que as escolas divulguem a realização e participação em projetos de interesse da coletividade.
nico [email protected].
Salário-Educação à mão
Os valores da arrecadação bruta e da distribuição do salário-educação encontram-se atualizados, mensalmente, na
página eletrônica www.fnde.gov.br. Os interessados podem obter informações sobre os números referentes à distribuição do recolhimento da contribuição social, junto à autarquia, por Estado e por região, bem como o valor que foi
repassado para cada Estado. O salário-educação é uma contribuição social prevista na Constituição, que serve
como fonte adicional de recursos do Ensino Fundamental público. Dois terços dos recursos são repassados mensalmente às Secretarias de Educação dos Estados e do Distrito Federal e o restante dos recursos (um terço) é aplicado
em programas administrados pelo FNDE, como o Dinheiro Direto na Escola, o Livro Didático, Biblioteca da Escola e
Alimentação Escolar.
Pela igualdade racial
O Ministério da Educação e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da
Igualdade Racial (Seppir) criaram um grupo interministerial para, até dezembro próximo, propor políticas públicas de acesso e permanência de estudantes negros nas universidades públicas federais. O grupo vai estabelecer e
aperfeiçoar mecanismos de promoção da igualdade na formação acadêmica
de negros e de brancos, assim como levantar dados sobre as desigualdades
educacionais. Outra tarefa é ouvir dirigentes de entidades de ensino públicas
nais para colher subsídios que possam enriquecer a proposta.
professor
e privadas, especialistas, juristas e representantes de organismos internacio-
57
LEGISLAÇÃO
alta
CIVISMO EM
professor
A volta da hora cívica nas
escolas resgata respeito
pelos símbolos nacionais
58
Na Escola Municipal Mansões
a professora. Ela acrescenta que a
Coimbra, em Águas Lindas de Goiás
população dos países como Estados
(GO), cantar o hino e hastear a ban-
Unidos, França e Argentina transpi-
deira nacional já é uma realidade.
ram patriotismo. “E isso vem desde
Pelo menos uma vez por semana,
pequeno, na escola”, completa.
300 alunos do Ensino Fundamental
A professora Mirian Chaves Car-
participam do momento cívico. “Mui-
neiro, 48 anos, da Fundação Peninah,
tas crianças e mesmo adultos não
de Santa Efigênia, em Belo Horizonte
têm o devido respeito pela bandeira
(MG), é outra entusiasta da hora cívi-
e sequer sabem cantar o nosso belo
ca nas escolas. “Houve época em que
hino. Isso tem que mudar”, decreta
usar roupa com a figura da bandeira
Maria Helena Lobo, 47 anos, pro-
era considerado crime. Hoje é moti-
fessora de Artes, Educação Física,
vo de orgulho durante a Copa do
Ensino Religioso e Inglês.
Mundo, mas, por que só durante a
A escola do interior de Goiás é
Copa?”, indaga. Mirian entende que
um bom exemplo de que a noção
é preciso hastear a bandeira e can-
de civismo pode ser passada para o
tar o hino não apenas nos minutos
aluno de maneira agradável e diver-
que antecedem partidas de futebol
tida. “Mesmo sem ser obrigatório,
e outros eventos.
fazemos questão de ensinar aos
Essas motivações levaram o Go-
meninos os valores cívicos. Afinal de
verno Federal a editar o Decreto
contas, não é só na Copa do Mundo
4.835/2003, orientando as escolas
que devemos ser patriotas”, atesta
do País a hastearem a bandeira,
História da Bandeira
pelo menos uma vez por semana. A
proposição sugere ainda que a solenidade seja de forma espontânea,
sem a determinação de medidas
punitivas para as instituições que
não aderirem. “Quando as pessoas
são convocadas e motivadas, participam”, disse o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, no
dia 7 de setembro, data da solenidade de assinatura do decreto.
“Quem não se emociona quan-
Quando surgiu
A Bandeira do Brasil foi adotada
pelo decreto no 4 de 19 de novemmin Constant, membro do Governo
Provisório.
Responsáveis
pela criação
A idéia deve-se ao professor
das, por exemplo, se canta o hino
Raimundo Teixeira Mendes, presiden-
diante da bandeira nacional? No
te do Apostolado Positivista do Brasil.
meu tempo de estudante, hastear
Com ele colaboraram o Dr. Miguel Le-
a bandeira era uma honra, era mo-
mos e o professor Manuel Pereira
tivo de orgulho para a gente. Acho
Reis, catedrático de Astronomia da
muito legal continuar a se cultivar esta
Escola Politécnica. O desenho foi exe-
postura cívica”, lembra a professora
cutado pelo pintor Décio Vilares.
Vânia Almeida de Abreu, 50 anos, da
As cores
Ribeiro do Paranoá (DF).
1889.
As estrelas
bro de 1889, preparado por Benja-
do, num evento como as Olimpía-
Escola de Ensino Fundamental Darcy
minutos) do dia 15 de novembro de
O verde e amarelo estão associados
à casa real de Bragança, da qual fazia parte o imperador D. Pedro I, e à
casa real dos Habsburg, à qual pertencia a imperatriz D. Leopoldina.
Círculo interno azul
Corresponde a uma imagem da esfera celeste, inclinada segundo a latitude da cidade do Rio de Janeiro
às 12 horas siderais (8 horas e 30
Cada estrela representa um Estado da Federação e todas as estrelas
têm 5 pontas. Elas aparecem em cinco
dimensões: primeira, segunda, terceira, quarta e quinta grandezas. Não
correspondem diretamente às magnitudes astronômicas, mas estão relacionadas com elas. Quanto maior a
magnitude da estrela, maior é o seu
tamanho na bandeira.
A faixa branca
Embora alguns digam que representa
a eclíptica, ou o equador celeste ou
o zodíaco, na verdade a faixa branca é apenas um lugar para a inscrição do lema “Ordem e Progresso”.
Não tem qualquer relação com definições astronômicas.
O lema
Ordem e Progresso
É atribuído ao filósofo positivista
francês Augusto Comte, que tinha
vários seguidores no Brasil, entre
eles o professor Teixeira Mendes.
O Hino Nacional
sentações públicas de D. Pedro II.
1822 para comemorar a abdicação
Apenas em 1909 recebeu a letra de
de D. Pedro I, por Francisco Manoel
Joaquim Osório Duque Estrada, que,
da Silva, com letra que saudava a
após algumas modificações, foi ofi-
nossa emancipação política de Por-
cializada em 1922, às vésperas da
tugal. Adotado como Hino do Impé-
comemoração do Centenário da In-
rio, foi, durante muitos anos, exe-
dependência.
cutado sem letra em todas as apreprofessor
Receita de Lula
às escolas:
motivação e
espontaneidade
Sua música foi composta em
59
PELO MUNDO
lições
CONTEMPORÂNEAS
Seminário internacional
mostra que educação é a chave
do progresso socioeconômico
Quem ainda tinha dúvidas de que é
ção, Liderança e Políticas Públicas da
investindo em educação que os povos
Universidade Tun Abdul Razak, da
conseguem dar o salto de qualidade
Malásia, Ibeahim Ahma Bajunid, para
para as suas sociedades, pôde tira-las
mostrar a amplitude do sistema edu-
no seminário internacional Educação,
cacional do seu país. Colonizada por
Ciência e Tecnologia como Estratégias
Portugal, Holanda, Inglaterra e Japão,
de Desenvolvimento, em Brasília. O
a Malásia teve que lidar com a diversi-
seminário foi promovido, em setembro
dade de culturas, línguas, costumes e
passado, pela Unesco, com o apoio dos
economias desses povos para construir
ministérios da Educação e da Ciência e
a sua unidade.
Tecnologia. Durante dois dias, represen-
Há 40 anos, o país saiu do ciclo agrí-
tantes de vários países relataram suas
cola, onde a borracha natural era um
experiências realizadas nas últimas dé-
dos principais produtos de exportação,
cadas e provaram que foi a decisão
e partiu para a economia industrial. A
política de investir em educação que
educação foi a plataforma que o país
os colocaram em destaque, quando se
usou para dar os saltos de um ciclo para
trata de desenvolvimento econômico e
outro e que hoje é o alicerce para uma
social. Malásia, Espanha, Irlanda e
sociedade pós-industrial onde os servi-
Coréia foram alguns dos países que
ços do conhecimento são cada vez mais
deram lições ao mundo.
exigidos, segundo Bajunid. Isso se materializou na decisão política de aplicar
professor
Alicerce para a Malásia
60
25% do orçamento em educação.
“Passeamos pelos jardins do mun-
Três foram as decisões que deram
do recolhendo as práticas de cada
sustento ao programa: toda a família
povo”, diz o professor de Administra-
precisa ter em casa um computador e
EDU CARVALHO
saber operá-lo; a educação deve ocorrer pela vida toda; o papel do professor
deve ser enaltecido e ele deve receber
o mesmo salário do servidor público.
No decorrer da implantação do processo, que já dura cerca de 40 anos, o
Governo conseguiu reverter a situação
da educação. Há 30 anos, relata
Bajunid, por falta de universidades, 100
mil alunos da Malásia migravam para
estudar em outros países, a um custo
de US$ 1 bilhão por ano ao governo.
Hoje, 55 mil estudantes estrangeiros
procuram as boas universidades da
Malásia para estudar, trazendo recursos para os cofres do país.
Mas esses avanços, diz Ibrahim
Bajunid, não são suficientes. A Malásia
trabalha para melhorar seu sistema
educacional e quer atingir 60% da formação de sua mão-de-obra em Ciência para dominar os conhecimentos os
manidades, para construir a cidadania
partidos políticos e os sindicatos, que
do, investiu em qualidade, promoven-
que é necessária e bem-vinda.
deu impulso às reformas na educação.
do a revisão dos currículos e a forma-
Foi o pacto que permitiu multiplicar por
ção continuada dos professores. Hoje,
dois o orçamento da educação públi-
os professores espanhóis do Ensino
ca, entre 1977 e 1980, e registrar na
Básico têm horários reduzidos, mas
Acesso, eqüidade e qualidade cons-
história do país decisões como a dos
dedicação exclusiva. Os do Ensino Fun-
tituem a base do sistema educacional
trabalhadores que abriram mão de re-
damental trabalham 25 horas sema-
espanhol construído nos últimos 25
ceber aumentos salariais para garantir
nais e os do Ensino Médio, de 18 a 20
anos, relata o professor de Teoria e His-
a quota da educação no orçamento do
horas semanais, o que lhes garante
tória da Educação na Universidade Na-
Estado. Para o professor Alejandro
qualidade de vida e desejo de perma-
cional de Educação a Distância da
Tiana, o que tornou viável o avanço foi
necer no Magistério, diz Tiana. A for-
Espanha, Alejandro Tiana.
a importância atribuída à educação
mação permanente é outro atrativo da
como política pública, pelo governo e
carreira. Quanto maior a formação,
pela sociedade.
maior o salário.
Política pública
na Espanha
A reforma da educação, que hoje
garante acesso ao Ensino Médio a
79,5% dos jovens entre 15 e 19 anos,
A democratização da Espanha, a
Sem incentivar a competição entre
começou nos anos 70, durante o pro-
partir de 1975, ampliou o ensino em
escolas e professores, a Espanha criou
cesso de abertura, ainda sob o governo
mais dois anos. De 1982 a 1996, sob
a cultura da avaliação e introduziu ins-
de Francisco Franco. Depois da morte
o governo socialista, a Espanha tornou
trumentos democráticos de gestão,
do ditador, em 1975, as forças demo-
obrigatórios o Ensino Fundamental, dos
dentre eles a eleição direta dos direto-
cráticas construíram o Pacto de
seis aos 16 anos, e a Educação Infan-
res. “Na Espanha, a educação é uma
Moncloa, celebrado entre o governo, os
til, a partir dos três anos. Nesse perío-
responsabilidade compartilhada que
professor
básicos da tecnologia e 40% em Hu-
61
atingiu níveis importantes, mas que pre-
de subvenções da União Européia e cli-
cisa continuar se aprimorando”, obser-
ma propício a investimentos; o idioma
Durante o período de colonialismo
va o professor.
do país (inglês) e a falta de barreiras
japonês, de 1910 a 1945, as opor-
culturais; a abertura comercial e os
tunidades educacionais para o povo
parceiros sociais; as instituições legais
coreano foram restritas. Com a liber-
O ministro de Estado para Assuntos
e a estabilidade política; e, ainda, os
tação, o povo passou a experimentar
Europeus, Richard Roche, conta que a
agrupamentos industriais e o investi-
oportunidade de educação.
educação e, principalmente, o ingres-
mento nos recursos humanos.
Ensino gratuito na Irlanda
de reforma nacional.
A expansão quantitativa foi a ca-
so da Irlanda na Comunidade Européia,
“As gerações trabalharam ardua-
racterística mais marcante no de-
em 1972, tiveram papel de destaque
mente para que as transformações
senvolvimento educacional da Coréia
na reconstrução da economia do país,
ocorressem e, nas últimas décadas,
nos últimos 50 anos, segundo Yun-
de perfil inexpressivo até o final da dé-
aprendemos muito sobre nós mes-
Cha. O número de escolas, de pro-
cada de 1980.
mos. Descobrimos em que áreas éra-
fessores e alunos dobrou, drastica-
mos importantes e em quais outras,
mente, em todos os níveis escola-
insignificantes”.
res. No Ensino Médio, as matrícu-
A educação, segundo Roche, é vis-
TEREZA SOBREIRA. ACS/MEC
ta como uma espécie de cimento para
las aumentaram de 26,4% para
94%. O mais extraordinário aconteceu na Educação Superior, segundo
relata Yun-Cha. De 19 instituições
de ensino, em 1945, o país chegou
a 1.261, em 2001; o número de
alunos matriculados aumentou de
7.819 (em 45) para 3,55 milhões
(em 2001), atingindo uma das taxas mais elevadas do mundo.
Apesar de declarar-se “deslumbrado” com alguns indicadores educacionais do seu país, Yun Cha diz que,
Representantes dos países convidados provaram que a educação os colocou em destaque
para a maioria dos coreanos, o significado da educação formal está em
professor
o desdobramento dos outros fatores.
62
Conselho de um coreano
seus valores instrumentais: a educa-
Seu desenvolvimento teve início em
Nos últimos 50 anos, a Coréia mu-
ção é, para eles, simplesmente um
meados dos anos 60, quando o então
dou de uma sociedade rural pobre ar-
meio de ascensão social e de riqueza
ministro da pasta decidiu pela
rasada pela guerra para uma socie-
material, estando ausente a perspec-
gratuidade do Ensino Secundário. Fo-
dade moderna, de rápida industriali-
tiva humanitária.
ram criadas oito escolas politécnicas em
zação, com uma economia dinâmica.
Ele ressaltou que a expansão edu-
áreas rurais. Em seguida, deu-se o ingres-
No campo da educação, a expansão
cacional impulsionada pela cobiça hu-
so da Irlanda na comunidade européia,
não foi menos notável.
mana não tem capacidade de trans-
passo, segundo ele, considerado funda-
O professor de Educação da Uni-
formar o mundo em um lugar melhor
mental, “pois a instituição tem sido muito
versidade de Hanyang, em Seul, Yun-
para se viver. “Nossa sociedade pre-
generosa com os países membros”.
Kyung Cha, conta que, influenciada
cisa de seres humanos, e generosos,
A mudança na economia irlandesa
pelo confucionismo, a educação for-
que exercitem a compaixão, e não de
começou a ocorrer, de fato, a partir dos
mal na Coréia teve início no século IV.
pessoas egoístas e competitivas. Não
últimos 30 anos, por influência da
A educação moderna surgiu no final
desejo que o Brasil repita certos er-
interação de fatores como: a entrada
do século 19, dentro do movimento
ros adotados por nós”, desabafa.
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Ano 1 • Nº 1 • Outubro/2003