A PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENEM: ANÁLISE CRÍTICA Solange Marilene Melchior SEED/PR [email protected] Tamara Cardoso André UNIOESTE [email protected] RESUMO Analisa os conteúdos de Língua Portuguesa presentes na prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), visando verificar se são avaliados conteúdos de ortografia e gramática. Com base na Pedagogia Histórico-Crítica, parte do pressuposto de que o ensino da Gramática é importante, por tratar-se de conhecimento historicamente produzido pela humanidade, sendo instrumento de luta para a classe trabalhadora e, principalmente, requisito para a própria compreensão de textos. Verifica as Matrizes de Referência e a Prova do ENEM do ano de 2013, estabelecendo comparação destes documentos de avaliação em larga escala com os conteúdos do livro de gramática da língua portuguesa de Cunha e Cintra (2013), visando investigar se a prova do ENEM avalia conteúdos de gramática. Seleciona questões da prova de 2013 e conclui que a prova do ENEM não avalia conteúdos de gramática e aponta para o risco de empobrecimento curricular. PALAVRAS-CHAVE: Ensino de Gramática; Avaliação; Currículo. ABSTRACT Analyses the contents of Portuguese Language present at the Languages, Codes and its Technologies Upper Secondadary National Test (ENEM), aiming to check if ortography and grammar contents are assessed. Based on Historical-Critical Pedagogy, it starts from the assumption that teaching grammar is important, because it is knowledge historically produced by humanity, therefore represents a struggle instrument for the working class and, above all, a recquisite in itself for understanding texts. Examines the Matrixes of Reference and the 2013 ENEM Test, establishing comparison between these documents of large scale assessment and the contents from the portuguese language grammar book by Cunha and Cintra (2013), aiming to investigate if the ENEM Test assesses grammar contents. Selects questions from the 2013 Test and concludes that the ENEM Test does not assess grammar contents, pointing out, finally, to the risk of curricular impoverishment. KEYWORDS: Grammar Teaching, Assessment, Curriculum. INTRODUÇÃO No presente artigo, pretende-se fazer análise crítica da Prova de Língua Portuguesa do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), visando verificar se este avalia conteúdos de gramática da língua portuguesa. Para isso, é realizada comparação entre os conteúdos de língua portuguesa da prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias aplicada no ano de 2013 e os presentes no livro de gramática de Cunha e Cintra (2013), que traz as normas da língua portuguesa. A primeira parte do artigo discute o que é gramática e qual a sua importância de acordo com vários autores e com a pedagogia histórico-crítica, referencial adotado como pressuposto. A segunda parte situa o que é o ENEM. Por fim, faz análise crítica dos conteúdos do ENEM visando verificar se a gramática é avaliada neste exame. A pedagogia histórico-crítica é adotada como referencial teórico devido a seu caráter emancipatório, por tratar-se, este estudo, de um resgate à importância dos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade, os quais são instrumentos de luta para as classes trabalhadoras. A pedagogia histórico-crítica é socialista e parte do pressuposto de que as classes trabalhadoras necessitam ter acesso aos mesmos conhecimentos das classes mais abastadas, por estes serem instrumento de luta para a transformação social. A pedagogia histórico-crítica é tributária da concepção dialética, especificamente na versão do materialismo histórico, com fortes afinidades, no que se refere às suas bases psicológicas, com a psicologia histórico-cultural fundamentada por Vygotsky. A educação é, nesta perspectiva, entendida como o ato de produzir direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é formada histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Segundo Saviani (1999), a educação não transforma a sociedade, mas o domínio de conhecimentos é instrumento de luta para as classes trabalhadoras. Assim, é dever da educação o ensino dos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade. Saviani (2007) nos diz que a pedagogia histórico-crítica é histórica porque a educação interfere sobre a sociedade, contribuindo para sua transformação e é crítica, porque parte da consciência sobre a determinação exercida pela sociedade na educação. A educação emancipatória revolucionária é aquela que possibilita o acesso aos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade. Desta perspectiva se infere que a gramática é um importante instrumento para a compreensão do mundo, as interações humanas e a luta pela superação da sociedade capitalista, razão pela qual seu ensino deve ser garantido. O QUE É GRAMÁTICA? Nossa sociedade é gráfica, ou seja, baseada na escrita. Sendo assim, saber ler e escrever é condição primordial para boa parte das interações humanas. Antunes (2003) lembra que toda língua possui, para além da gramática, um léxico variado, que também precisa ser amplamente conhecido, o que significa dizer que a gramática sozinha nunca foi suficiente para alguém conseguir ampliar e aperfeiçoar seu desempenho comunicativo. Saber falar e escrever uma língua supõe aprender a gramática dessa língua. A autora apresenta os seguintes conceitos para gramática. 1. conjunto de regras que definem o funcionamento da língua; 2. conjunto de normas que regulam o uso da norma culta; 3. estudos dos fatos da linguagem, sob uma determinada perspectiva; 4. uma disciplina de estudo; 5. um livro chamado “gramática”. No conjunto de regras que definem o funcionamento de uma língua, não se deve considerar apenas o modo de falar e de escrever, mas também toda a gramática que o aluno adquiriu antes de ingressar na escola, através do contato com pessoas da família ou comunidade. Assim, cabe à escola a tarefa de ampliar as capacidades linguísticas dos indivíduos. Segundo Antunes (2007), também a gramática é um conjunto de normas que regulam o uso da norma culta. Existem razões históricas e sociais que determinam o falar social mais aceito, o qual se relaciona com o poder econômico e político da comunidade que adota esse uso. Travaglia (2003) faz uma distinção entre gramática prescritiva e descritiva. Para o autor, um estudo de língua que inclua a gramática descritiva deve tomar as categorias gramaticais não como um fim em si, mas como um meio, como suporte básico para reflexões metalinguísticas de maior alcance. Travaglia concebe ainda que a educação linguística é necessária para as pessoas viverem bem em uma sociedade. A cultura se veicula por uma língua, que se configura por meio do trabalho sócio-histórico-ideológico, o qual estabelece recursos da língua, regularidades a serem usadas para comunicar e significados e intenções comunicativas. Geraldi (2005) esclarece as diferentes concepções de linguagem, destacando a gramática tradicional, o estruturalismo e o interacionismo. Segundo o autor, na gramática tradicional a linguagem é concebida como uma expressão de pensamento, ou seja, esta concepção considera que quem não domina a norma culta, ou quem não se expressa com frequência, pode ser considerado menos inteligente que os que fazem uso da mesma com segurança. No estruturalismo, a língua é entendida como um código, ou seja, conjunto de signos que, ao se combinarem segundo regras, se tornam instrumentos de comunicação. No interacionismo, segundo o autor, a linguagem é considerada uma forma de interação. Esta corrente corresponde aos estudos linguísticos chamada Linguística da Enunciação, que se ocupa das situações reais de uso da escrita. Na pedagogia histórico-crítica o fundamento principal é a psicologia histórico-cultural de Vygotsky, autor russo que viveu entre 1896 e 1934 e buscou fundamentar sua psicologia no materialismo histórico-dialético. Para Vygotsky (1999), a aprendizagem da língua é importante para o desenvolvimento da consciência. Cada matéria influi na aprendizagem de outra e torna melhor a compreensão do mundo, bem como auxilia no desenvolvimento da consciência. Ou seja, a aprendizagem dos conteúdos é algo importante para a melhora da própria cognição humana. De acordo com Possenti (2012), qualquer que seja a posição do professor em relação ao ensino de gramática, contra ou a favor, dois aspectos deveriam ser considerados a sério: 1) Ensinar gramática não é a mesma coisa que ensinar uma língua – ler e escrever bem são tipos de saberes que não exigem capacidade de análise explícita no domínio gramatical, e saber gramática não confere a ninguém a capacidade de ler e de escrever bem. 2) Se a escola decidir ensinar uma gramática, por que teria que ensinar uma ruim, cheia de contradições e de lacunas? Para o autor, é óbvio que os erros ortográficos devem ser corrigidos, afinal, a ortografia é definida em lei. Mas há duas questões importantes a serem consideradas, antes de se falar em correção: 1) Os erros devem ser entendidos, isto é, o “corretor” deve ser capaz de descobrir as razões pelas quais alguém escreve “táquissi” por “táxi”, “rumoaléquissa” por “rumo ao hexa”, “tapué” por “Tupperware”. 2) Corrigir não pode ser sinônimo de humilhar; deve ser uma ocasião para estudar, para compreender o estágio do aluno e da própria língua. Muitos linguistas empenharam-se nos últimos tempos em demonstrar que a gramática pode ser deixada em segundo plano no ensino e defenderam que o importante é o ensino da diversidade de gêneros linguísticos, bem como os usos sociais e interativos da leitura e da escrita. Nessa esteira, Franchi (1998) afirma que o dever da escola é o ensino da produção textual e da compreensão criativa e crítica de textos. O domínio da gramática não se relaciona com processos de produção e compreensão de textos. Estaria o ENEM na esteira das correntes que defendem o ensino da gramática ou não? Esta é a discussão do próximo tópico deste artigo. A PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENEM O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é uma prova realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), autarquia do Ministério da Educação (MEC), responsável pelas avaliações em larga escala e utilizada como acesso ao ensino superior em inúmeras universidades públicas através do Sistema de Seleção Unificada (SISU). O ENEM é uma avaliação em larga escala. Segundo Freitas (2007), a introdução da avaliação em larga escala no Brasil ocorre por volta da década de 1990. Avaliações em larga escala fazem parte de políticas ligadas ao movimento reformista e são estratégicas para a reorganização profunda dos princípios e parâmetros de estruturação das políticas sociais de modernização do país. A avaliação externa, aplicada em larga escala e transformada em números e gráficos, traz para a comunidade escolar os resultados que, acessados, podem ser visualizados a qualquer instante. A partir disso, os testes padronizados vêm alcançando destaque nos debates relacionados à educação em todo o Brasil. Freitas (2011) realiza uma crítica às avaliações em larga escala, por permitirem a publicação dos dados de cada escola, de modo a responsabilizar os professores pelos resultados nos testes. Ravitch (2010), ao fazer uma crítica ao sistema avaliativo em larga escala nos Estados Unidos, aponta que, neste país, os testes passaram a orientar o currículo. Deste modo, Ravitch questiona: se os professores passarem a trabalhar a partir das questões das provas, e se as provas forem fracas, o que poderá questionar este sistema? Ou seja, se as provas cobram conteúdos mínimos, acabam por gerar um empobrecimento do currículo. Segundo a autora, Informar resultados de testes ao público não demonstra de forma alguma a melhoria no ensino, pelo contrário, envergonha a todos, pois ridiculariza os fragilizados do sistema, quando supõe que padronizações de habilidades básicas são sinônimos de boa educação. O ENEM é um instrumento classificatório para as escolas. O alunos podem utilizar a nota do ENEM para o ingresso na faculdade, em universidades que aderem ao sistema de seleção via ENEM, ao invés de vestibular. Há outras universidades, ainda, que utilizam, para o ingresso dos alunos, parte da nota do ENEM e parte da nota do vestibular. Trata-se mais de uma verificação do que uma avaliação propriamente dita, pois, enquanto a avaliação visa melhorar o processo, ou seja, usar os dados para produzir melhoras no ensino dos alunos avaliados, a verificação atém-se apenas aos resultados. Os alunos que fazem o ENEM não retornam para a escola, de modo que a avaliação verifica apenas o produto final da escolarização, não servindo para melhorar a educação do próprio aluno avaliado. A prova é o maior exame do país e o segundo maior do mundo. Conta hoje mais de 7 (sete) milhões de inscritos, segundo o site do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)1. Também é possível obter bolsa de estudos nas universidades privadas por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni). Além disso, desde 2009, o exame serve também para certificação de conclusão de ensino médio em cursos de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O exame é realizado durante dois dias, uma vez por ano. Contém 180 (cento e oitenta) questões, todas objetivas, envolvendo quatro grandes áreas do conhecimento e uma redação argumentativa. O custo da inscrição é de 35,00 reais, sendo gratuita para alunos de escola pública. O “maior” vestibular do país, como vem sendo apelidado, usa como sistema de correção a Teoria da Resposta ao Item (TRI) que, segundo o INEP, permite a comparação dos desempenhos dos candidatos, independente do ano que o candidato fez a prova. A TRI é um modelo estatístico usado na avaliação de habilidades e conhecimentos, que estima a probabilidade de o candidato acertar uma questão, ou seja, se ele acertar poucas respostas “fáceis” ele terá menos chances de acertar as mais difíceis. O ENEM se centra na avaliação de desempenho por competências. Ou seja, os requisitos que são cobrados na prova, os quais são discriminados nas Matrizes de Referência do ENEM, não são conteúdos, mas sim competências. Além disso, a prova não é chamada de prova de Língua Portuguesa, mas sim de “Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias”, nome que agrupa as competências em língua estrangeira, linguagem corporal, linguagem artística e 1 Diponível em: portal.inep.gov.br/web/Enem/sobre-o-enem. Acesso em 12 de Novembro de 2013. emprego de tecnologias da informação e comunicação, juntamente com língua portuguesa. Cada competência é desmembrada em habilidades a serem cobradas na prova. Por exemplo, para a competência da Área 1, que é a aplicação de tecnologias na vida cotidiana, são discriminadas 4 (quatro) habilidades, dentre as quais: identificar diferentes linguagens, relacionar informações, aplicar as diferentes linguagens para resolução de problemas. São discriminadas 9 (nove) competências nas Matrizes de Referência, sendo que a ênfase, no que se refere à língua portuguesa, recai sobre o tratamento de informação de diferentes gêneros textuais. O próximo tópico analisa a Prova do ENEM de Linguagem, Códigos e suas Tecnologias do ano de 2013, enfocando os conteúdos de língua portuguesa, estabelecendo uma comparação entre os conteúdos avaliados no ENEM e os conteúdos da gramática da língua portuguesa, intitulada Nova Gramática do Português Contemporâneo, de acordo com a nova ortografia. ANÁLISE DA PROVA DO ENEM DE LÍNGUA PORTUGUESA Já vimos que o ensino de gramática não é consensual, ou seja, há autores que defendem ser mais importante a escola trabalhar a interação social e a linguagem do que as normas da língua portuguesa. No entanto, a gramática se refere às normas e regras que normatizam, que estabelecem regras sobre o bem falar e o bem escrever. Para fazer a comparação entre a prova do ENEM e a gramática, foi consultada a gramática de língua portuguesa de Cunha e Cintra (2013), intitulada Nova Gramática do português contemporâneo, de acordo com a nova ortografia. A prova de língua portuguesa do ENEM traz muitas questões de interpretação de textos. Trabalha na perspectiva de Bakhtin acerca dos gêneros linguísticos. Para Bakhtin (1992), gêneros são as formas de comunicação sócio ideológicas que apresentam estruturas mais ou menos estáveis em cada contexto ou período histórico. Por exemplo, falamos de um modo mais formal quando estamos em um enterro, e mais informal quando estamos em uma festa de amigos íntimos. Alguns gêneros são mais estáveis, como, por exemplo, as instruções militares. Os gêneros aludem tanto a textos escritos como às formas de comunicação verbal. Nos conteúdos da prova do ENEM, valoriza-se a caracterização específica, as formas mais estáveis, de diferentes textos, como, por exemplo: notícia, história em quadrinhos, reportagem. Acerca dos gêneros, Marcuschi (2010) considera que as diferenças entre fala e escrita devem ser entendidas no quadro das práticas comunicativas e dos gêneros textuais. Há casos, como, por exemplo, os textos na área jurídica, em que há uma grande distância entre fala e escrita, mas, em outros, a distância entre oralidade e escrita é menor. A fala apresenta características que diferenciam identidades, o que não ocorre com a escrita. Ou seja, a oralidade apresenta marcas de regionalismo e determinados grupos sociais. Superar a dicotomia entre fala e escrita significa observar suas diferenças na perspectiva do uso, e não do sistema. Desse modo, faz-se importante verificar se o aluno consegue transitar da fala para a escrita preservando as diferenças de gêneros. Há gêneros textuais mais contextualizados, ou seja, mais fáceis de compreender de acordo com o contexto, por exemplo, a história em quadrinhos. Outros gêneros, mais distantes da fala cotidiana, não são facilmente compreendidos pelo contexto, por exemplo, os textos científicos, que exigem do leitor uma série de conhecimentos prévios e utilizam jargões e palavras menos utilizados na fala cotidiana. Nesta pesquisa, parte-se da hipótese de que o conhecimento de gramática é importante para a compreensão de gêneros mais distantes da fala, ou seja, mais descontextualizados. Foi, aqui, considerado como conteúdo de gramática, o que se pôde observar na gramática da norma culta sistematizada por Cunha e Cintra. Comparando os conteúdos da Nova Gramática do português contemporâneo, de acordo com a nova ortografia com a prova do ENEM, foi possível chegar a algumas conclusões. 1) Dentre as questões da prova do ENEM, todas as 180 foram construídas a partir da perspectiva da interpretação de textos. Não há nenhuma questão que envolva exercício gramatical, como, por exemplo, a identificação de tipos de sujeitos. 2) As únicas questões que envolvem conteúdos de gramática presentes na prova podem ser resolvidas pelo aluno com pistas no contexto da questão, sem que haja o domínio do conteúdo gramatical avaliado, como nos exemplos das questões abaixo: Na questão 119, a conjunção “mas” cria no leitor a expectativa do que pode acontecer no final: dessa forma, colabora para o humor do texto, respondendo, assim, o que foi perguntado no enunciado da questão. Na charge ainda é possível observar que, o sentido da palavra “mãe” contribui para o efeito de sentido esperado. QUESTÃO 100 Secretaria de Cultura EDITAL NOTIFICAÇÃO – Síntese da resolução publicada no Diário Oficial da Cidade, 29/07/2011 – página 41 – 511ª Reunião Ordinária, em 21/06/2011. Resolução nº 08/2011 – TOMBAMENTO dos imóveis da Rua Augusta, nº349 e nº353, esquina com a Rua Marquês de Paranaguá, nº315, nº327 e nº329 (Setor 010, Quadra 026, Lotes 0016-2 e 00170-0), bairro da Consolação, Subprefeitura da Sé, conforme o processo administrativo nº1991-0.005.365-1. Folha de S. Paulo, 5 ago. 2011 (adaptado). Um leitor interessado nas decisões governamentais escreve uma carta para o jornal que publicou o edital, concordando com a resolução sintetizada no Edital da Secretaria de Cultura. Uma frase adequada para expressar sua concordância é: A) Que sábia iniciativa! Os prédios em péssimo estado de conservação devem ser derrubados. B) Até que enfim! Os edifícios localizados nesse trecho descaracterizam o conjunto arquitetônico da Rua Augusta. C) Parabéns! O poder público precisa mostrar sua força como guardiões das tradições dos moradores locais. D) Justa decisão! O governo dá mais um passo rumo à eliminação do problema da falta de moradias populares. E) Congratulações! O patrimônio histórico da cidade merece todo empenho para ser preservado. Para responder a questão 100, é necessário apenas conhecer o significado da palavra “TOMBAMENTO”, termo utilizado para caracterizar um determinado imóvel que ficará sob a proteção, conservação e guarda do Estado. Um patrimônio histórico da cidade, usado com frequência pela mídia. Trata-se, portanto, não de uma questão de gramática, mas sim relativa ao léxico. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nas questões escolhidas, em que estão presentes conteúdos gramaticais, percebe-se a facilidade de se identificar as respostas no próprio enunciado, demonstrando a minimização dos avaliados na prova. O ENEM não avalia Sintaxe, Morfologia ou Fonética. A maioria dos conteúdos são: 1. Figuras de linguagem; 2. Identificação de características de gêneros textuais; 3. Variação linguística; 4. Funções da linguagem. Grande parte da prova, que é toda de interpretação textual, pode ser respondida por meio da análise atenta do próprio enunciado. Em outros casos, a resolução da questão parte de informações que o aluno adquire na mídia diariamente ou, até mesmo, em situações práticas do cotidiano. Embora a compreensão de mensagens seja importante no processo comunicativo, faz-se necessário que os linguistas revejam o papel da gramática para a comunicação. Este trabalho suscita uma questão que não poderá ser respondida nos limites dos objetivos propostos: qual a importância da gramática para a compreensão clara de mensagens? Dificuldades dos alunos em compreensão de textos e mensagens não poderiam estar associadas à ausência de ensino sistematizado de gramática, morfologia e fonologia? O conhecimento mais distante da vida cotidiana, sendo desvalorizado nas avaliações, pode levar ao abandono, na escola, dos conhecimentos mais clássicos? Duarte critica a ausência de conhecimentos clássicos na escola, denunciando a concepção pragmática subjacente às novas tendências educacionais. (...) está sendo desenvolvida uma mentalidade altamente pragmática centrada apenas no hoje, no aqui e no agora, criando-se uma aversão ao “clássico”, no saber socialmente produzido, uma aversão ao estudo do clássico, uma valorização do banal, valorização do fácil, do que não exige questionamento, raciocínio (...) (DUARTE, 2004, p. 68). Apenas com uma leitura atenta e associações é possível responder às questões da prova do ENEM, demonstrando que não há a necessidade de conhecimentos sistematizados de gramática para realizar a prova. Entre os linguistas mais destacados, as posições quanto ao ensino de língua na escola variam. No entanto, parece clara a necessidade da gramática quando nos deparamos com textos mais elaborados e precisamos entender a ordem das coisas, ou seja, com textos mais distantes do falar cotidiano dos alunos. O trecho abaixo reproduz um excerto do conto de Clarice Lispector (1998, p.19): (....) No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia- lhe estranha como uma doença de vida (....). A autora faz uso recorrente, no conto, do tempo verbal pretérito maisque-perfeito. Emprega-se o pretérito mais-que-perfeito para assinalar um fato passado em relação a outro também no passado (o passado do passado, algo que aconteceu antes de outro fato também passado). O pretérito mais-queperfeito aparece nas formas simples e composta, sendo que a primeira costuma aparecer em discursos mais formais e a segunda, na fala coloquial. Um aluno que não domina verbos compreenderia o texto da autora? Muitos textos científicos ou literários são escritos conforme construções gramaticais não usuais e que, portanto, por não fazerem parte da fala cotidiana, podem soar aos ouvintes ou leitores como idioma estrangeiro. Seria o contexto suficiente para o entendimento de enunciados distantes da fala cotidiana? Este trabalho finaliza com uma conclusão e uma dúvida. A conclusão é que o ENEM não focaliza a gramática e a divisão disciplinar. A dúvida é: seria o conhecimento gramatical importante para a compreensão de textos, enunciados e para a própria competência comunicativa? Mais pesquisas precisam ser feitas para tratar das relações entre compreensão de textos, ensino da gramática e provas de avaliação em larga escala. REFERÊNCIAS ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro e interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003. ANTUNES, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola Editorial, 2007. BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes,1992. CUNHA, Celso. CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo, de acordo com a nova ortografia. Editora LEXIKON, 2013. DUARTE, Newton. Vigotski e o “Aprender a aprender”: Crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. São Paulo: Autores Associados, 2004. ENEM, Caderno Amarelo: Prova Códigos, Linguagens e suas Tecnologias. Inep, 2013. FRANCHI, Eglê. E as crianças eram difíceis... A redação na escola. São Paulo: Martins Fontes, 1998. FREITAS, Dirce Nei Teixeira de. A avaliação da educação básica no Brasil: dimensão normativa, pedagógica e educativa. Campinas: São Paulo: Autores Associados, 2007. FREITAS, Luiz Carlos de. Responsabilização, meritocracia e privatização: conseguiremos escapar ao neotecnicismo? III Simpósio de Educação brasileira 322 promovido pelo CEDES no Simpósio PNE: Diretrizes para avaliação e regulação da educação, fev. 2011. Disponível em:. Acesso em: 16/08/2011. GERALDI, João Wanderley. Concepção de linguagem e ensino de português. In __________. O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 2005, pp.39-46. LISPECTOR, Clarice. Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.19. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita. Atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2010. POSSENTI, Sírio. Redundantemente. Blog do Sírio, 2012. RAVITCH. D. The death and life of the great American School System. New York: Basic Books, 2010. SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. São Paulo :Autores Associados, 1999. SAVIANI, Dermeval. História das idéias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2007 TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática: ensino plural. São Paulo: Cortez, 2003. VYGOTSKI. L.S. Obras escogidas II. Pensamiento y lenguaje. Madrid: Visor, 1999.