A PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENEM: ANÁLISE
CRÍTICA
Solange Marilene Melchior
SEED/PR
[email protected]
Tamara Cardoso André
UNIOESTE
[email protected]
RESUMO
Analisa os conteúdos de Língua Portuguesa presentes na prova de
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, do Exame Nacional do Ensino Médio
(ENEM), visando verificar se são avaliados conteúdos de ortografia e
gramática. Com base na Pedagogia Histórico-Crítica, parte do pressuposto de
que o ensino da Gramática é importante, por tratar-se de conhecimento
historicamente produzido pela humanidade, sendo instrumento de luta para a
classe trabalhadora e, principalmente, requisito para a própria compreensão de
textos. Verifica as Matrizes de Referência e a Prova do ENEM do ano de 2013,
estabelecendo comparação destes documentos de avaliação em larga escala
com os conteúdos do livro de gramática da língua portuguesa de Cunha e
Cintra (2013), visando investigar se a prova do ENEM avalia conteúdos de
gramática. Seleciona questões da prova de 2013 e conclui que a prova do
ENEM não avalia conteúdos de gramática e aponta para o risco de
empobrecimento curricular.
PALAVRAS-CHAVE: Ensino de Gramática; Avaliação; Currículo.
ABSTRACT
Analyses the contents of Portuguese Language present at the Languages,
Codes and its Technologies Upper Secondadary National Test (ENEM), aiming
to check if ortography and grammar contents are assessed. Based on
Historical-Critical Pedagogy, it starts from the assumption that teaching
grammar is important, because it is knowledge historically produced by
humanity, therefore represents a struggle instrument for the working class and,
above all, a recquisite in itself for understanding texts. Examines the Matrixes of
Reference and the 2013 ENEM Test, establishing comparison between these
documents of large scale assessment and the contents from the portuguese
language grammar book by Cunha and Cintra (2013), aiming to investigate if
the ENEM Test assesses grammar contents. Selects questions from the 2013
Test and concludes that the ENEM Test does not assess grammar contents,
pointing out, finally, to the risk of curricular impoverishment.
KEYWORDS: Grammar Teaching, Assessment, Curriculum.
INTRODUÇÃO
No presente artigo, pretende-se fazer análise crítica da Prova de Língua
Portuguesa do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), visando verificar se
este avalia conteúdos de gramática da língua portuguesa. Para isso, é
realizada comparação entre os conteúdos de língua portuguesa da prova de
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias aplicada no ano de 2013 e os
presentes no livro de gramática de Cunha e Cintra (2013), que traz as normas
da língua portuguesa.
A primeira parte do artigo discute o que é gramática e qual a sua
importância de acordo com vários autores e com a pedagogia histórico-crítica,
referencial adotado como pressuposto.
A segunda parte situa o que é o ENEM. Por fim, faz análise crítica dos
conteúdos do ENEM visando verificar se a gramática é avaliada neste exame.
A pedagogia histórico-crítica é adotada como referencial teórico devido a seu
caráter emancipatório, por tratar-se, este estudo, de um resgate à importância
dos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade, os quais são
instrumentos de luta para as classes trabalhadoras.
A pedagogia histórico-crítica é socialista e parte do pressuposto de que
as classes trabalhadoras necessitam ter acesso aos mesmos conhecimentos
das classes mais abastadas, por estes serem instrumento de luta para a
transformação social.
A pedagogia histórico-crítica é tributária da concepção dialética,
especificamente na versão do materialismo histórico, com fortes afinidades, no
que se refere às suas bases psicológicas, com a psicologia histórico-cultural
fundamentada por Vygotsky. A educação é, nesta perspectiva, entendida como
o ato de produzir direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a
humanidade que é formada histórica e coletivamente pelo conjunto dos
homens.
Segundo Saviani (1999), a educação não transforma a sociedade, mas o
domínio
de
conhecimentos
é
instrumento
de
luta
para
as
classes
trabalhadoras. Assim, é dever da educação o ensino dos conhecimentos
historicamente produzidos pela humanidade.
Saviani (2007) nos diz que a pedagogia histórico-crítica é histórica
porque a educação interfere sobre a sociedade, contribuindo para sua
transformação e é crítica, porque parte da consciência sobre a determinação
exercida pela sociedade na educação.
A educação emancipatória revolucionária é aquela que possibilita o
acesso aos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade. Desta
perspectiva se infere que a gramática é um importante instrumento para a
compreensão do mundo, as interações humanas e a luta pela superação da
sociedade capitalista, razão pela qual seu ensino deve ser garantido.
O QUE É GRAMÁTICA?
Nossa sociedade é gráfica, ou seja, baseada na escrita. Sendo assim,
saber ler e escrever é condição primordial para boa parte das interações
humanas.
Antunes (2003) lembra que toda língua possui, para além da gramática,
um léxico variado, que também precisa ser amplamente conhecido, o que
significa dizer que a gramática sozinha nunca foi suficiente para alguém
conseguir ampliar e aperfeiçoar seu desempenho comunicativo. Saber falar e
escrever uma língua supõe aprender a gramática dessa língua. A autora
apresenta os seguintes conceitos para gramática.
1. conjunto de regras que definem o funcionamento da língua;
2. conjunto de normas que regulam o uso da norma culta;
3. estudos
dos
fatos
da
linguagem,
sob
uma
determinada
perspectiva;
4. uma disciplina de estudo;
5. um livro chamado “gramática”.
No conjunto de regras que definem o funcionamento de uma língua, não
se deve considerar apenas o modo de falar e de escrever, mas também toda a
gramática que o aluno adquiriu antes de ingressar na escola, através do
contato com pessoas da família ou comunidade. Assim, cabe à escola a tarefa
de ampliar as capacidades linguísticas dos indivíduos.
Segundo Antunes (2007), também a gramática é um conjunto de normas
que regulam o uso da norma culta. Existem razões históricas e sociais que
determinam o falar social mais aceito, o qual se relaciona com o poder
econômico e político da comunidade que adota esse uso.
Travaglia (2003) faz uma distinção entre gramática prescritiva e
descritiva. Para o autor, um estudo de língua que inclua a gramática descritiva
deve tomar as categorias gramaticais não como um fim em si, mas como um
meio, como suporte básico para reflexões metalinguísticas de maior alcance.
Travaglia concebe ainda que a educação linguística é necessária para
as pessoas viverem bem em uma sociedade. A cultura se veicula por uma
língua, que se configura por meio do trabalho sócio-histórico-ideológico, o qual
estabelece recursos da língua, regularidades a serem usadas para comunicar e
significados e intenções comunicativas.
Geraldi (2005) esclarece as diferentes concepções de linguagem,
destacando a gramática tradicional, o estruturalismo e o interacionismo.
Segundo o autor, na gramática tradicional a linguagem é concebida como uma
expressão de pensamento, ou seja, esta concepção considera que quem não
domina a norma culta, ou quem não se expressa com frequência, pode ser
considerado menos inteligente que os que fazem uso da mesma com
segurança.
No estruturalismo, a língua é entendida como um código, ou seja,
conjunto de signos que, ao se combinarem segundo regras, se tornam
instrumentos de comunicação.
No interacionismo, segundo o autor, a linguagem é considerada uma
forma de interação. Esta corrente corresponde aos estudos linguísticos
chamada Linguística da Enunciação, que se ocupa das situações reais de uso
da escrita.
Na pedagogia histórico-crítica o fundamento principal é a psicologia
histórico-cultural de Vygotsky, autor russo que viveu entre 1896 e 1934 e
buscou fundamentar sua psicologia no materialismo histórico-dialético.
Para Vygotsky (1999), a aprendizagem da língua é importante para o
desenvolvimento da consciência. Cada matéria influi na aprendizagem de outra
e
torna
melhor
a
compreensão
do
mundo,
bem
como
auxilia
no
desenvolvimento da consciência. Ou seja, a aprendizagem dos conteúdos é
algo importante para a melhora da própria cognição humana.
De acordo com Possenti (2012), qualquer que seja a posição do
professor em relação ao ensino de gramática, contra ou a favor, dois aspectos
deveriam ser considerados a sério:
1) Ensinar gramática não é a mesma coisa que ensinar uma língua –
ler e escrever bem são tipos de saberes que não exigem capacidade
de análise explícita no domínio gramatical, e saber gramática não
confere a ninguém a capacidade de ler e de escrever bem.
2) Se a escola decidir ensinar uma gramática, por que teria que ensinar
uma ruim, cheia de contradições e de lacunas?
Para o autor, é óbvio que os erros ortográficos devem ser corrigidos,
afinal, a ortografia é definida em lei. Mas há duas questões importantes a
serem consideradas, antes de se falar em correção:
1) Os erros devem ser entendidos, isto é, o “corretor” deve ser capaz
de descobrir as razões pelas quais alguém escreve “táquissi” por
“táxi”,
“rumoaléquissa”
por
“rumo
ao
hexa”,
“tapué”
por
“Tupperware”.
2) Corrigir não pode ser sinônimo de humilhar; deve ser uma ocasião
para estudar, para compreender o estágio do aluno e da própria
língua.
Muitos linguistas empenharam-se nos últimos tempos em demonstrar
que a gramática pode ser deixada em segundo plano no ensino e defenderam
que o importante é o ensino da diversidade de gêneros linguísticos, bem como
os usos sociais e interativos da leitura e da escrita. Nessa esteira, Franchi
(1998) afirma que o dever da escola é o ensino da produção textual e da
compreensão criativa e crítica de textos. O domínio da gramática não se
relaciona com processos de produção e compreensão de textos.
Estaria o ENEM na esteira das correntes que defendem o ensino da
gramática ou não? Esta é a discussão do próximo tópico deste artigo.
A PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENEM
O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é uma prova realizada pelo
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP),
autarquia do Ministério da Educação (MEC), responsável pelas avaliações em
larga escala e utilizada como acesso ao ensino superior em inúmeras
universidades públicas através do Sistema de Seleção Unificada (SISU).
O ENEM é uma avaliação em larga escala. Segundo Freitas (2007), a
introdução da avaliação em larga escala no Brasil ocorre por volta da década
de 1990. Avaliações em larga escala fazem parte de políticas ligadas ao
movimento reformista e são estratégicas para a reorganização profunda dos
princípios e parâmetros de estruturação das políticas sociais de modernização
do país. A avaliação externa, aplicada em larga escala e transformada em
números e gráficos, traz para a comunidade escolar os resultados que,
acessados, podem ser visualizados a qualquer instante. A partir disso, os
testes padronizados vêm alcançando destaque nos debates relacionados à
educação em todo o Brasil.
Freitas (2011) realiza uma crítica às avaliações em larga escala, por
permitirem a publicação dos dados de cada escola, de modo a responsabilizar
os professores pelos resultados nos testes.
Ravitch (2010), ao fazer uma crítica ao sistema avaliativo em larga
escala nos Estados Unidos, aponta que, neste país, os testes passaram a
orientar o currículo. Deste modo, Ravitch questiona: se os professores
passarem a trabalhar a partir das questões das provas, e se as provas forem
fracas, o que poderá questionar este sistema? Ou seja, se as provas cobram
conteúdos mínimos, acabam por gerar um empobrecimento do currículo.
Segundo a autora, Informar resultados de testes ao público não demonstra de
forma alguma a melhoria no ensino, pelo contrário, envergonha a todos, pois
ridiculariza os fragilizados do sistema, quando supõe que padronizações de
habilidades básicas são sinônimos de boa educação.
O ENEM é um instrumento classificatório para as escolas. O alunos
podem utilizar a nota do ENEM para o ingresso na faculdade, em universidades
que aderem ao sistema de seleção via ENEM, ao invés de vestibular. Há outras
universidades, ainda, que utilizam, para o ingresso dos alunos, parte da nota
do ENEM e parte da nota do vestibular.
Trata-se mais de uma verificação do que uma avaliação propriamente
dita, pois, enquanto a avaliação visa melhorar o processo, ou seja, usar os
dados para produzir melhoras no ensino dos alunos avaliados, a verificação
atém-se apenas aos resultados. Os alunos que fazem o ENEM não retornam
para a escola, de modo que a avaliação verifica apenas o produto final da
escolarização, não servindo para melhorar a educação do próprio aluno
avaliado.
A prova é o maior exame do país e o segundo maior do mundo. Conta
hoje mais de 7 (sete) milhões de inscritos, segundo o site do Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)1. Também é
possível obter bolsa de estudos nas universidades privadas por meio do
Programa Universidade para Todos (ProUni). Além disso, desde 2009, o
exame serve também para certificação de conclusão de ensino médio em
cursos de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O exame é realizado durante dois dias, uma vez por ano. Contém 180
(cento e oitenta) questões, todas objetivas, envolvendo quatro grandes áreas
do conhecimento e uma redação argumentativa. O custo da inscrição é de
35,00 reais, sendo gratuita para alunos de escola pública.
O “maior” vestibular do país, como vem sendo apelidado, usa como
sistema de correção a Teoria da Resposta ao Item (TRI) que, segundo o INEP,
permite a comparação dos desempenhos dos candidatos, independente do ano
que o candidato fez a prova.
A TRI é um modelo estatístico usado na avaliação de habilidades e
conhecimentos, que estima a probabilidade de o candidato acertar uma
questão, ou seja, se ele acertar poucas respostas “fáceis” ele terá menos
chances de acertar as mais difíceis.
O ENEM se centra na avaliação de desempenho por competências. Ou
seja, os requisitos que são cobrados na prova, os quais são discriminados nas
Matrizes de Referência do ENEM, não são conteúdos, mas sim competências.
Além disso, a prova não é chamada de prova de Língua Portuguesa, mas sim
de “Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias”, nome que agrupa as
competências em língua estrangeira, linguagem corporal, linguagem artística e
1
Diponível em: portal.inep.gov.br/web/Enem/sobre-o-enem. Acesso em 12 de Novembro de 2013.
emprego de tecnologias da informação e comunicação, juntamente com língua
portuguesa. Cada competência é desmembrada em habilidades a serem
cobradas na prova. Por exemplo, para a competência da Área 1, que é a
aplicação de tecnologias na vida cotidiana, são discriminadas 4 (quatro)
habilidades, dentre as quais: identificar diferentes linguagens, relacionar
informações, aplicar as diferentes linguagens para resolução de problemas.
São discriminadas 9 (nove) competências nas Matrizes de Referência, sendo
que a ênfase, no que se refere à língua portuguesa, recai sobre o tratamento
de informação de diferentes gêneros textuais.
O próximo tópico analisa a Prova do ENEM de Linguagem, Códigos e
suas Tecnologias do ano de 2013, enfocando os conteúdos de língua
portuguesa, estabelecendo uma comparação entre os conteúdos avaliados no
ENEM e os conteúdos da gramática da língua portuguesa, intitulada Nova
Gramática do Português Contemporâneo, de acordo com a nova ortografia.
ANÁLISE DA PROVA DO ENEM DE LÍNGUA PORTUGUESA
Já vimos que o ensino de gramática não é consensual, ou seja, há
autores que defendem ser mais importante a escola trabalhar a interação social
e a linguagem do que as normas da língua portuguesa. No entanto, a
gramática se refere às normas e regras que normatizam, que estabelecem
regras sobre o bem falar e o bem escrever.
Para fazer a comparação entre a prova do ENEM e a gramática, foi
consultada a gramática de língua portuguesa de Cunha e Cintra (2013),
intitulada Nova Gramática do português contemporâneo, de acordo com a nova
ortografia.
A prova de língua portuguesa do ENEM traz muitas questões de
interpretação de textos. Trabalha na perspectiva de Bakhtin acerca dos
gêneros linguísticos. Para Bakhtin (1992), gêneros são as formas de
comunicação sócio ideológicas que apresentam estruturas mais ou menos
estáveis em cada contexto ou período histórico. Por exemplo, falamos de um
modo mais formal quando estamos em um enterro, e mais informal quando
estamos em uma festa de amigos íntimos. Alguns gêneros são mais estáveis,
como, por exemplo, as instruções militares. Os gêneros aludem tanto a textos
escritos como às formas de comunicação verbal. Nos conteúdos da prova do
ENEM, valoriza-se a caracterização específica, as formas mais estáveis, de
diferentes textos, como, por exemplo: notícia, história em quadrinhos,
reportagem.
Acerca dos gêneros, Marcuschi (2010) considera que as diferenças
entre fala e escrita devem ser entendidas no quadro das práticas comunicativas
e dos gêneros textuais. Há casos, como, por exemplo, os textos na área
jurídica, em que há uma grande distância entre fala e escrita, mas, em outros, a
distância entre oralidade e escrita é menor. A fala apresenta características que
diferenciam identidades, o que não ocorre com a escrita. Ou seja, a oralidade
apresenta marcas de regionalismo e determinados grupos sociais.
Superar a dicotomia entre fala e escrita significa observar suas
diferenças na perspectiva do uso, e não do sistema. Desse modo, faz-se
importante verificar se o aluno consegue transitar da fala para a escrita
preservando
as
diferenças
de
gêneros.
Há
gêneros
textuais
mais
contextualizados, ou seja, mais fáceis de compreender de acordo com o
contexto, por exemplo, a história em quadrinhos.
Outros gêneros, mais distantes da fala cotidiana, não são facilmente
compreendidos pelo contexto, por exemplo, os textos científicos, que exigem
do leitor uma série de conhecimentos prévios e utilizam jargões e palavras
menos utilizados na fala cotidiana.
Nesta pesquisa, parte-se da hipótese de que o conhecimento de
gramática é importante para a compreensão de gêneros mais distantes da fala,
ou seja, mais descontextualizados. Foi, aqui, considerado como conteúdo de
gramática, o que se pôde observar na gramática da norma culta sistematizada
por Cunha e Cintra. Comparando os conteúdos da Nova Gramática do
português contemporâneo, de acordo com a nova ortografia com a prova do
ENEM, foi possível chegar a algumas conclusões.
1) Dentre as questões da prova do ENEM, todas as 180
foram
construídas a partir da perspectiva da interpretação de textos. Não
há nenhuma questão que envolva exercício gramatical, como, por
exemplo, a identificação de tipos de sujeitos.
2) As únicas questões que envolvem conteúdos de gramática
presentes na prova podem ser resolvidas pelo aluno com pistas no
contexto da questão, sem que haja o domínio do conteúdo
gramatical avaliado, como nos exemplos das questões abaixo:
Na questão 119, a conjunção “mas” cria no leitor a expectativa do que
pode acontecer no final: dessa forma, colabora para o humor do texto,
respondendo, assim, o que foi perguntado no enunciado da questão.
Na charge ainda é possível observar que, o sentido da palavra “mãe”
contribui para o efeito de sentido esperado.
QUESTÃO 100
Secretaria de Cultura
EDITAL
NOTIFICAÇÃO – Síntese da resolução publicada no Diário Oficial da
Cidade, 29/07/2011 – página 41 – 511ª Reunião Ordinária, em 21/06/2011.
Resolução nº 08/2011 – TOMBAMENTO dos imóveis da Rua Augusta,
nº349 e nº353, esquina com a Rua Marquês de Paranaguá, nº315, nº327 e
nº329 (Setor 010, Quadra 026, Lotes 0016-2 e 00170-0), bairro da Consolação,
Subprefeitura da Sé, conforme o processo administrativo nº1991-0.005.365-1.
Folha de S. Paulo, 5 ago. 2011 (adaptado).
Um leitor interessado nas decisões governamentais escreve uma carta
para o jornal que publicou o edital, concordando com a resolução sintetizada no
Edital da Secretaria de Cultura. Uma frase adequada para expressar sua
concordância é:
A) Que sábia iniciativa! Os prédios em péssimo estado de conservação
devem ser derrubados.
B) Até que enfim! Os edifícios localizados nesse trecho descaracterizam
o conjunto arquitetônico da Rua Augusta.
C) Parabéns! O poder público precisa mostrar sua força como guardiões
das tradições dos moradores locais.
D) Justa decisão! O governo dá mais um passo rumo à eliminação do
problema da falta de moradias populares.
E) Congratulações! O patrimônio histórico da cidade merece todo
empenho para ser preservado.
Para responder a questão 100, é necessário apenas conhecer o
significado da palavra “TOMBAMENTO”, termo utilizado para caracterizar um
determinado imóvel que ficará sob a proteção, conservação e guarda do
Estado. Um patrimônio histórico da cidade, usado com frequência pela mídia.
Trata-se, portanto, não de uma questão de gramática, mas sim relativa ao
léxico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nas
questões
escolhidas,
em
que
estão
presentes
conteúdos
gramaticais, percebe-se a facilidade de se identificar as respostas no próprio
enunciado, demonstrando a minimização dos avaliados na prova.
O ENEM não avalia Sintaxe, Morfologia ou Fonética. A maioria dos
conteúdos são:
1. Figuras de linguagem;
2. Identificação de características de gêneros textuais;
3. Variação linguística;
4. Funções da linguagem.
Grande parte da prova, que é toda de interpretação textual, pode ser
respondida por meio da análise atenta do próprio enunciado. Em outros casos,
a resolução da questão parte de informações que o aluno adquire na mídia
diariamente ou, até mesmo, em situações práticas do cotidiano.
Embora a compreensão de mensagens seja importante no processo
comunicativo, faz-se necessário que os linguistas revejam o papel da gramática
para a comunicação. Este trabalho suscita uma questão que não poderá ser
respondida nos limites dos objetivos propostos: qual a importância da
gramática para a compreensão clara de mensagens? Dificuldades dos alunos
em compreensão de textos e mensagens não poderiam estar associadas à
ausência de ensino sistematizado de gramática, morfologia e fonologia? O
conhecimento mais distante da vida cotidiana, sendo desvalorizado nas
avaliações, pode levar ao abandono, na escola, dos conhecimentos mais
clássicos? Duarte critica a ausência de conhecimentos clássicos na escola,
denunciando a concepção pragmática subjacente às novas tendências
educacionais.
(...) está sendo desenvolvida uma mentalidade altamente pragmática
centrada apenas no hoje, no aqui e no agora, criando-se uma
aversão ao “clássico”, no saber socialmente produzido, uma aversão
ao estudo do clássico, uma valorização do banal, valorização do fácil,
do que não exige questionamento, raciocínio (...) (DUARTE, 2004, p.
68).
Apenas com uma leitura atenta e associações é possível responder às
questões da prova do ENEM, demonstrando que não há a necessidade de
conhecimentos sistematizados de gramática para realizar a prova. Entre os
linguistas mais destacados, as posições quanto ao ensino de língua na escola
variam. No entanto, parece clara a necessidade da gramática quando nos
deparamos com textos mais elaborados e precisamos entender a ordem das
coisas, ou seja, com textos mais distantes do falar cotidiano dos alunos.
O trecho abaixo reproduz um excerto do conto de Clarice Lispector
(1998, p.19):
(....) No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme
das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos
tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele
caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era
um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros.
Sua juventude anterior parecia- lhe estranha como uma doença de
vida (....).
A autora faz uso recorrente, no conto, do tempo verbal pretérito maisque-perfeito. Emprega-se o pretérito mais-que-perfeito para assinalar um fato
passado em relação a outro também no passado (o passado do passado, algo
que aconteceu antes de outro fato também passado). O pretérito mais-queperfeito aparece nas formas simples e composta, sendo que a primeira
costuma aparecer em discursos mais formais e a segunda, na fala coloquial.
Um aluno que não domina verbos compreenderia o texto da autora?
Muitos textos científicos ou literários são escritos conforme construções
gramaticais não usuais e que, portanto, por não fazerem parte da fala
cotidiana, podem soar aos ouvintes ou leitores como idioma estrangeiro. Seria
o contexto suficiente para o entendimento de enunciados distantes da fala
cotidiana?
Este trabalho finaliza com uma conclusão e uma dúvida. A conclusão é
que o ENEM não focaliza a gramática e a divisão disciplinar. A dúvida é: seria o
conhecimento
gramatical
importante
para
a
compreensão
de
textos,
enunciados e para a própria competência comunicativa? Mais pesquisas
precisam ser feitas para tratar das relações entre compreensão de textos,
ensino da gramática e provas de avaliação em larga escala.
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Parábola Editorial, 2003.
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conseguiremos escapar ao neotecnicismo? III Simpósio de Educação brasileira
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VYGOTSKI. L.S. Obras escogidas II. Pensamiento y lenguaje. Madrid: Visor,
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A Prova de Língua Portuguesa do Enem: Análise Crítica