Novas Actividades no Espaço Rural Transmontano: das Potencialidades à Concretização de Iniciativas
Vilas Boas, D. <[email protected]>
Cristóvão, A. <[email protected]>
Departamento de Economia e Sociologia
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Apartado 202
5001 Vila Real Codex
Enquadramento
A presente comunicação é uma síntese do Relatório de Estágio sobre o mesmo tema, integrado na execução do
Projecto de Investigação "Declínio Populacional no Espaço Rural Transmontano: estudo das suas causas e
análise do papel das novas actividades, agrárias e não agrárias, na criação de emprego", realizado no âmbito
do programa PRAXIS XXI, na área das Ciências Sociais e Humanas.
A desertificação humana do território interior português é, actualmente, um problema que preocupa todos os
"actores" de desenvolvimento, poder local e central, políticos e investigadores, técnicos e agentes de
terreno, cidadãos em geral, e que tem consequências nefastas para todo o país, pelos desequilíbrios de vária
ordem que origina. Partimos para a realização do estudo, conscientes da amplitude das dinâmicas demográficas
negativas que, nas últimas cinco décadas, têm esvaziado progressivamente o Norte Interior, fragelizando-o
económica, social e politicamente, e tornando todos os seus patrimónios vulneráveis à passagem do tempo.
A necessidade urgente em delinear, apresentar e promover medidas de combate à desertificação humana da
região, levou-nos a encarar as novas actividades como uma hipótese, pelo seu contributo para a criação de
emprego, num contexto de revitalização e aproveitamento sustentado dos recursos locais e regionais.
Objectivos
A realização do nosso trabalho orientou-se para a concretização de dois objectivos essenciais:
(1) diagnosticar e identificar as potencialidades da região, bem como os obstáculos que entravam o seu
aproveitamento, tendo em conta a perspectiva de um conjunto de "actores" institucionais, locais e regionais,
entrevistados; e
(2) analisar os dados recolhidos através da entrevista a 54 casos de iniciativas empresariais e
institucionais, por hipóteses não convencionais ou demonstrando traços de inovação, indicadas pelo conjunto
de "actores" anteriormente mencionado como tendo contributo significativo para a criação de postos de
trabalho. Esta análise procurou:
(a) definir o perfil do entrevistado,
(b) enquadrar sectorialmente as iniciativas,
(c) avaliar o seu grau de correspondência ao conceito de nova actividade;
(d) apresentar o seu impacte sobre aspectos ligados ao emprego e
(e) detectar e apontar necessidades no âmbito do apoio técnico-informativo.
Conclusões
No que concerne às potencialidades, concluímos que são fortes ao nível do turismo, devido, sobretudo, à
riqueza ecológica e à beleza das paisagens da região, cujos expoentes são as vinhas durienses, os vários
parques naturais, as albufeiras, barragens e rios, com destaque para o douro. Trata-se de áreas vocacionadas
para actividades turísticas com perfil inovador, que privilegiam o contacto directo com a natureza, a
paisagem rural e as actividades agrícolas, com crescente procura nos nossos dias.
No entanto, resumir o potencial turístico da área de estudo à questão ambiental é excessivamente redutor.
Também a existência de património histórico e arquitectónico e de aldeias com especificidades gastronómicas e
artesanais, e modos de vida próprios, é um atractivo turístico importante.
Não se pode subestimar o sector agrário e as actividades a ele ligadas, nem ignorar outras potencialidades
menos expressivas ao nível regional, no entanto muito significativas localmente. No domínio agrário,
salientámos os produtos de natureza endógena e autóctone e toda a cadeia de actividades que se prendem com o
seu aproveitamento, transformação, valorização, promoção e comercialização.
Este estudo permitiu-nos concluir que há matéria de qualidade, onde podem ser alicerçadas estratégias de
diversificação da economia rural e promover, desta forma, o aparecimento de novas actividades. Contudo,
pudemos constatar que são ainda muito precárias as condições estruturais e infraestruturais necessárias ao
desenvolvimento e crescimento dessas actividades, de modo a que seja significativa a criação de emprego.
Paralelamente, a falta de recursos humanos, sobretudo qualificados e especializados (consequência do êxodo
populacional que vitima a região), entrava o progresso das actividades, nomeadamente das que pretendem optar
por caminhos inovadores. Se, por um lado, é a falta de emprego que induz a desertificação humana, por outro, é
a própria desertificação que conduz à escassez de mão-de-obra qualificada e, no limite, de iniciativas.
Embora tivéssemos notado este problema em todos os sectores, o nosso estudo indicou que é na área do turismo
(restauração, hotelaria, animais, etc.) que se verificam maiores carências em trabalhadores especializados.
No tocante à criação de emprego, salientamos que, para além do número de postos de trabalho gerados
directamente pelas iniciativas, deve-se ter em conta o emprego indirecto. Apesar dos dados recolhidos não nos
permitirem a sua contabilização, ele tem uma importância inegável, dentro do contexto de fixação de
população. Relativamente à criação de postos de trabalho directos, as iniciativas, por serem de pequena
dimensão, maioritariamente jovens e estarem inseridas num território económica e demograficamente
fragilizado, apresentam uma capacidade baixa a moderada. No entanto, não podemos esquecer que significam a
criação efectiva de auto-emprego e, muitas vezes, de emprego familiar, constituindo assim uma forma de
contrariar a tendência geral de abandono da região.
Concluímos que se mostra realmente importante a criação de parcerias entre instituições, incluindo
estabelecimentos de ensino superior, de maneira a serem criados meios de diagnóstico mais profundo, quer das
potencialidades, quer dos obstáculos ao aproveitamento das mesmas. É fundamental actuar de forma segura e
consentânea com as realidades locais e regionais. Nesta óptica, torna-se prioritário descobrir com
exactidão, os aspectos onde é essencial agir, de forma a evitar o desperdício de meios de apoio humanos e
físicos (incluindo financeiros).
Numa perspectiva de diversificação da economia rural, pensamos que se justifica inteiramente o apoio às novas
actividades e a tudo o que é inovador, com condições de implantação e sustentação. Estes apoios poderiam
resultar, igualmente, de parcerias com entidades que ocupam posições privilegiadas no campo do acesso à
informação e produção de conhecimento, tal como as instituições de ensino superior, bem como das que
desempenham funções de enquadramento técnico e institucional, como as autarquias, os organismos
desconcentrados da administração pública, as associações empresariais e de desenvolvimento.
A região deve dotar-se, basicamente, de estratégias e de mecanismos próprios de apoio à inovação e de
observação/acompanhamento de novas actividades com carácter promissor, em todos os sectores, nomeadamente em
termos de valorização dos recursos endógenos, criação de emprego e fixação de riqueza.
Vista sobre o
Parque Natural do Alvão
Referência: Vilas Boas, D. (1999) . Novas Actividades no Espaço Rural Transmontano:
Uma Oportunidade no Combate à Desertificação Humana . Relatório de Estágio da
Licenciatura em Engenharia Agrícola . DES-UTAD, Vila Real
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