DESENVOLVIMENTO DE RODA MICROLIGADA COM NIÓBIO PARA TRANSPORTE HEAVY HAUL Autor: Eng. (MSc) Domingos José Minicucci * Gerente de Desenvolvimento e Produto – MWL Brasil Rodas & Eixos Ltda e-mail: [email protected] Resumo O transporte Heavy Haul vem crescendo no Brasil e no mundo, bem como as cargas por eixo sendo realidade hoje na Austrália o transporte de minério com 42 toneladas por eixo. As tensões geradas no contato roda – trilho com cargas acima de 30 toneladas por eixo são da ordem de 300 – 400 MPa, valores não suportados pelas rodas convencionais AAR (Association of American Railroads) classe C. Neste cenário as rodas microligadas são uma necessidade para este tipo de transporte, cuja principal função é aliar alta dureza, ductilidade e resistência do material ao escoamento para prevenir o “shelling”, que é o principal defeito que ocorre nas rodas submetidas a altas cargas. O desenvolvimento da roda microligada com nióbio é descrita neste trabalho com a obtenção de uma microestrutura bainítica-perlitica que atende todos os requisitos da AAR para classe D. Palavras chaves: roda microligada, nióbio, heavy haul 1. INTRODUÇÃO O transporte “heavy haul” esta crescendo em todo mundo principalmente nos países produtores de minério como a Austrália, África do Sul, Rússia, Suécia, Canadá, Estados Unidos e também no Brasil, onde a carga por eixo passa de 30 toneladas em algumas ferrovias. Na Austrália, berço do transporte heavy haul, a carga por eixo acima de 40 toneladas já é realidade há alguns anos [1]. As tensões envolvidas no contato roda-trilho são muito grandes, agravadas pelo fato da área de contato ser muito reduzida. Estudos mostram que a área de contato roda-trilho para uma carga de 20 toneladas por roda é similar a área de uma moeda de 1 Euro [2], onde a intensidade da tensão atinge 400 MPa calculada pela equação de Hertz, que admite a forma geométrica desta área de contato como uma elipse. Outro fator de importância na operação das rodas ferroviárias é a fadiga que tem dois modos de atuação conforme segue [3]: - Fadiga de contato: este modo de fadiga é oriundo do contato roda-trilho, a cada giro da roda ocorre uma variação cíclica da tensão que caracteriza a fadiga de contato que também esta associada ao desgaste de duas superfícies metálicas em contato (roda e trilho). 2 1 Figura 1: Fadiga de contato [3] - Fadiga térmica: este modo de fadiga tem como origem o sistema de frenagem do vagão por sapata de freio que atua diretamente na pista de rolamento da roda, a cada ciclo de frenagem a roda aquece provocando dilatação, e esfria provocando contração. Este movimento de expansão e contração caracteriza a fadiga térmica. Quanto maior a carga por eixo, maior será a solicitação da peça a fadiga, fato que acarreta defeitos e falhas nas rodas em serviço, desde de um simples “shellig” até um caso grave de fadiga como o “shattered rim”. Figura 2: Roda com shelling O defeito mais comum nas rodas em operação no transporte heavy haul é o shelling, o qual é definido como perda de material devido a ação da fadiga de contato. O shelling tem início próximo a superfície ou na própria superfície caminhando para o interior do aro. As trincas tem ângulo de inclinação de aproximadamente 45⁰ em relação a pista e são nucleadas pelo processo de fadiga de contato [4]. Uma das maneiras de prevenir o shelling nas rodas consiste em usar aços com maior limite de ruptura e escoamento. 2. RODAS MICROLIGADAS A AAR (Association of American Railroads) em 2011 introduziu na norma de rodas (M107/208) uma nova classe para rodas (classe D) microligadas destinadas especificamente ao transporte heavy haul. Esta nova classe foi criada para atender as crescentes cargas por eixo, não mais suportada pelas rodas classe C em uso para transporte de carga naquela época. As rodas microligadas classe D seguem a mesma composição química das rodas classe C, porém com adição de microligas que visam melhorar as propriedades do material quanto a tenacidade e ao desgaste. Por definição aços microligados são aqueles que possuem no máximo 0,5% em peso de elementos de liga que são fortes formadores de carbonetos (vanádio, titânio ou nióbio) [5]. A tabela 1 mostra as classes das rodas AAR diferenciadas pela dureza em Brinell. Tabela 1: Classes das rodas AAR – Propriedades mecânicas classe D [5] Classe L Dureza (BHN) 197-277 A 255-321 B 302-341 C D 321-363 341-415 Propriedades mecânicas classe D Propriedades Temp. 538 ⁰C ambiente Tensão ruptura >1083 >483 (MPa) Tensão >760 >345 escoamento (MPa) Alongamento (%) >14 >20 Redução área (%) >15 >40 Tenacidade fratura >40 NA (MPa √) Atualmente o melhor material para ferrovias heavy haul são os aços de alto carbono com estrutura completamente perlítica. Com o aumento da demanda e das cargas por eixo nos últimos anos, a comunidade metalúrgica da área ferroviária esta verificando que o emprego da perlita chegou a sua maturação e uma microestrutura diferente deve ser desenvolvida para o futuro do transporte heavy haul [6]. Seguindo esta linha de tendência, esta pesquisa desenvolveu para MWL Brasil um aço microligado para rodas ferroviárias com microestrutura perlíticabainítica com uso de nióbio como microliga. Esta nova liga atendeu todos os requisitos da AAR para rodas classe D. 3. NIÓBIO O Brasil é o maior produtor de nióbio do mundo e também possui a maior reserva mundial na região de Araxá em Minas Gerais. A principal função do nióbio nos aços microligados esta relacionado com o refino da microestrutura que aumenta a resistência mecânica e a tenacidade. Aços com tamanho de grão pequeno possuem maiores valores de tenacidade e resistência mecânica do que os aços de grãos grosseiros. O aumento da resistência à deformação plástica pelo refino de grão é devido ao fato de que o contorno de grão atua como uma barreira para o movimento das discordâncias, isto é, quanto menor for o tamanho de grão e maior for a sua quantidade mais eficiente fica esta barreira [7]. O nióbio atua principalmente no contorno de grão restringindo o seu crescimento e atrasando o processo de recristalização após o forjamento das rodas, fazendo com que a microestrutura da roda fique mais refinada, porém para conseguir um tamanho de grão austenítico pequeno antes da transformação da austenita, é necessária a precipitação de partículas (carbonetos) durante o forjamento e laminação a quente [8]. 4. PROCEDIMENTO EXPERIMEMTAL 4.1 Composição química e tratamento térmico: Para determinar a composição química ideal foi tomado como base a composição química de uma roda classe C respeitando a solubilidade do nióbio na austenita. Uma vez definida a liga para determinar o processo de tratamento térmico, foram elaborados corpos de prova e submetidos ao ensaio de Jominy com várias condições diferentes de processo. O tratamento térmico de rodas ferroviárias compreende austenitização, seguida de têmpera diferencial com água na pista de rolamento da roda e posterior revenimento para alívio das tensões. Figura 3: Têmpera de roda ferroviária (foto cedida pela MWL Brasil) Melhor processo Gráfico 1: Resultados do ensaio Jominy Pelos resultados apontados no gráfico 1, notamos que o processo selecionado foi o que apresentou maior uniformidade de dureza, 43 Rc que corresponde a 398 HB dureza próxima ao máximo da classe D. 4.2 Fragilização da martensita revenida (FMR): A FMR é um fenômeno metalúrgico que ocorre com certos tipos de aço nos quais determinadas faixas de temperatura de revenimento podem provocar fragilização na peça. A literatura associa muitos mecanismos de fratura com a FMR, a qual normalmente é detectada pelo ensaio de impacto (Charpy) em temperatura ambiente. Observações mostram que o teor de carbono e a temperatura de revenimento tem forte influência na distribuição dos carbonetos na matriz que interferem no comportamento do aço. O mecanismo de fratura depende de interações complexas entre a composição química e o tratamento térmico [9]. A norma AAR não determina a temperatura mínima de revenimento para rodas, e como se trata de um aço de alto carbono, a formação de martensita na pista de rolamento é inevitável. As rodas forjadas são totalmente usinadas, inclusive a pista de rolamento, onde a martensita gerada no processo de têmpera deve ser removida por se tratar de uma microestrutura instável e frágil, porém a garantia de remoção de toda martensita não existe. Outro fato relevante para o estudo da FMR é o fato deste desenvolvimento visar uma microestrutura bainitica-perlítica, onde a separação entre bainita e martensita não é muito clara, fato que pode ocasionar a mistura destas microestruturas perto da superfície da roda acabada. Para determinar a faixa de temperatura para FMR da microliga com nióbio, cortamos a roda em várias secções (amostras) para posteriormente fazermos a têmpera em água de cada amostra separadamente visando a formação de martensita na região do aro, cada amostra foi furada para inserção de termopar com objetivo de monitorar a austenitização e o revenimento. A etapa seguinte contemplou a austenitização de cada amostra em forno mufla, todas as amostras foram austenizadas na mesma temperatura. Em seguida as amostras foram temperadas em água a uma profundidade de 20 mm por 4 minutos, com objetivo de garantir a formação de martensita em toda camada temperada. A figura 4 mostra este procedimento. 5. RESULTADOS A Norma AAR para classe D, determina que 3 rodas fabricadas com a mesma composição química e o mesmo processo de fabricação devem ser ensaiadas e os resultados comparados com a tabela 1. Camada temperada 5.1 Ensaio de tração a frio no aro : A norma AAR especifica que dois corpos de prova de cada roda devem ser ensaiados e parte da superfície de rolamento da roda deve permanecer nas extremidades dos corpos de prova Tabela 2: Resultado dos ensaios de tração a frio Roda Camada temperada Figura 4: Procedimento para austenitização e têmpera das amostras Após a têmpera cada amostra foi revenida em temperaturas diferentes em forno mufla, com monitoramento por termopar respeitando o mesmo tempo de revenimento definido no processo de tratamento térmico das rodas. Na sequência, 10 corpos de prova de impacto foram retirados da camada temperada de cada amostra, para verificar a faixa de FMR do material. A figura 5 mostra o local de extração dos corpos de prova. 897604 897604 897611 897611 897613 897613 Média AAR-D Escoamento (MPa) 844,6 847,1 889,2 869,2 1031,3 885,2 894,43 >760 Resistência (MPa) 1118,4 1131,5 1143,5 1147,8 1228 1139 1151,37 >1083 Alongamento (%) 15,46 14,24 15,82 15,32 15,02 14,46 15,05 >14 Redução área (%) 40,36 38,75 40,64 41,65 39,37 41,5 40,38 >15 5.2 Ensaio de tração a quente: A norma AAR especifica ensaio de tração a quente com corpos de prova retirados do aro da roda na mesma posição do ensaio a frio. A temperatura do ensaio é de 1.000 ⁰F (538 ⁰C). Tabela 3: Resultado dos ensaios de tração a quente Roda 897604 897604 897611 897611 897613 897613 Média AAR Escoamento (MPa) 458 468 512 589 519 544 515 >345 Resistência (MPa) 607 618 617 662 614 628 624,3 >483 Alongamento (%) 23 26 25 22 24 27 24 >20 Redução área (%) 75 75 76 76 76 78 76 >40 5.3 Ensaio de tenacidade a fratura (K1c): A norma AAR indica a posição para o corpo de prova de K1c no aro da roda, devem ser ensaiados no mínimo dois corpos de prova por roda. Figura 5: Localização dos corpos de prova de impacto Tabela 4: Resultado do ensaio de tenacidade a fratura (K1c) Roda 897604 897611 897613 Média AAR CP - A (MPa √) 59,48 61,6 75,03 CP - B (MPa √) 52,42 75,7 70,2 64,74 >40 CP - C (MPa √) 54,56 71,6 62,04 5.4 Mapa de dureza no aro: A dureza no aro da roda deve estar entre 321-415 BHN até 25 mm da pista de rolamento acabada. 1 mm da pista (bainita) Figura 6: mapa de dureza do aro da roda 5.5 Microestrutura: A microestrutura na pista de rolamento da roda acabada não deve ter martensita, apenas bainita e perlita. As microgarfias a seguir feitas em MEV mostram a estrutura bainítica e perlítica obtida ao longo do aro da roda desde a superfície da pista acabada até 25 mm de profundidade. 5 mm da pista (bainita) 10 mm da pista (bainita/perlita) 5.6 Tamanho de grão austenítico: O tamanho de grão austenítico não é solicitado pela norma AAR, porém é interessante conhecer para comprovar o refinamento da estrutura. 15 mm da pista (perlita) Figura 7: Tamanho de grão austenítico Conforme figura 7 o tamanho de grão da estrutura é correspondente ao grau 9 da ASTM E112, comprovando se tratar de uma estrutura muito refinada. 20 mm da pista (perlita) 25 mm da pista (perlita) 5.7 Fragilização da martensita revenida (FMR): A FMR também não é solicitada pela norma AAR, porém pelos motivos apontados no item 4.2 foi determinada a temperatura de revenimento correspondente a faixa de fragilização desta liga. Figura 8: Gráfico da FMR para liga de nióbio Os resultados dos ensaios de Charpy mostram que a liga em estudo apresenta FMR entre as temperaturas de 280 ⁰C e 360 ⁰C, isto significa que o revenimento das rodas deverá ser feito fora desta faixa de temperatura. A temperatura escolhida para revenimento foi de 500 ⁰C muito superior a faixa de fragilização garantindo uma operação segura da roda no caso de haver alma martensita remanescente na pista da roda. 6. CONCLUSÕES - A nova liga com nióbio para rodas AAR classe D atendeu todas as especificações da norma para este produto. - O nióbio mostrou ser eficiente com refinador de grão, segurando e retardando seu crescimento durante a recristalização. - A microestrutura fina formada de bainita e perlita apresentou alta dureza aliada com tenacidade, fato que torna este tipo de liga ideal para aplicação em rodas ferroviárias. - A distinção entre martensita e bainita neste material levou em consideração a orientação aleatória dos carbonetos precipitados durante a têmpera na martensita, enquanto na bainita os carbonetos são menos alongados e alinhados em ângulo de 55⁰ a 60⁰. - O estudo da faixa de FMR possibilitou determinar uma temperatura segura para o revenimento das rodas. 7. AGRADECIMENTOS MWL Brasil Rodas & Eixos Ltda, UNICAMP (Prof. Dr. Paulo R. Mei), CBMM (Companhia Brasileira de Metais e Metalurgia). 8. REFERÊNCIAS [1] A. Hemsworth, I. Orgekh, Development of 42 tonne axle load heavy haul wheel, IHHA, Perth, Austrália, Junho 2015. [2] M. Diener, A. Ghidini, Reliability and safety in railway products, Luchini RS, 118 páginas, 2010. [3] D.J.Minicucci, Rodas e eixos ferroviáriosconceitos básicos, MWL Brasil, 146 páginas, 2011. [4] D. Stone, Na interpretative literature review of wheel shelling – ASME Transportation division technical conference, Chicago, 2008. [5] American Association of Railroads, AAR M107/208 – Section G, 2013. [6] J. Hornaday, What kind of rail materials will survive in heavy haul service? – The journal of wheel rail interaction, USA, 2014. [7] W.D.Callister, D.G. Rethwisch, Ciência e engenharia de materiais – uma introdução, LTC, 2013. [8] S.T.Fonseca, Efeito de adições de vanádio e molibdênio na estrutura e propriedades de rodas ferroviárias, Tese de doutorado, UNICAMP, 2014. [9] F.Z.Ebrahimi, G. Krauss, Mechanics of tempered martensite embrittlement in medium carbon steels, Acta Metallurgy, vol 32, número 10, pp 1767-1777, 1984.