Validação de métodos e controlo da qualidade em análise química e microbiológica de águas Controlo interno da qualidade em análise química ENCONTRO DE TÉCNICOS DE LSP INSA – Lisboa, 27 de Maio de 2008 Maria Manuela Manso da Silva Departamento de Saúde Ambiental Conteúdo programático Conceitos gerais: • Controlo interno da qualidade • Qualidade dos resultados definida no DL306/2007 • Precisão, veracidade e exactidão Prática do CIQ: • Fundamentos básicos • Controlo de fontes de erro • Critérios de aceitação Noções de cartas de controlo Exemplos práticos Conjunto de actividades desenvolvidas durante o processo analítico que visam garantir que a qualidade com que os resultados estão a ser produzidos é adequada ao fim a que se destinam Qual é a qualidade pretendida? A definida no DL 306/2007 de 27 de Agosto Características desempenho do método – Anexo IV DL 306 /2007 • As características de desempenho dos métodos utilizados devem no mínimo ser capazes de medir concentrações iguais ao valor paramétrico com a exactidão, a precisão e os limites de detecção especificados. DL 306/2007 Anexo IV Exactidão Precisão Limite de detecção 10 % 10 % Condutividade 250 S/cm 250 S/cm 10 % 250 S/cm 25 % 25 % Oxidabilidade 1,25 mg/L 1,25 mg/L 10 % 0,5 mg/L DL 306/2007 Anexo IV Exactidão Precisão Limite de detecção Nitritos 10 % 0,05 mg/L 10 % 0,05 mg/L 10 % 0,05 mg/L pH 0,2 0,2 ---- Definições anexo IV DL 306/2007 • A exactidão corresponde ao erro sistemático e é igual à diferença entre o valor médio de um grande número de medições repetidas e o valor real • A precisão corresponde ao erro aleatório, que é obtido geralmente a partir do desvio padrão (no interior de cada lote e entre lotes) da dispersão dos resultados em torno da média. Uma precisão aceitável é igual a duas vezes os desvio padrão relativo • (estes termos são definidos de forma mais completa na norma ISO 5725) Decreto Lei 306/2007 Exactidão Precisão Erro sistemático Erro aleatório Exactidão – Grau de concordância entre o resultado da medição e o valor de referência aceite. (ISO 5725-1) • Envolve a combinação da componente aleatória e da componente sistemática do erro, ou da componente “bias”. • Quanto maior a exactidão menor o erro. Exactidão do resultado (ISO 5725-1) Erro sistemático Erro aleatório Exactidão do Resultado (ISO 5725) Veracidade Erro sistemático Precisão Erro aleatório Exactidão é função: • Veracidade – Grau de concordância entre o valor médio obtido de uma longa série de resultados e o valor de referência aceite (ISO-5725-1). • Precisão – Grau de concordância entre resultados independentes obtidos sob condições especificadas (ISO-5725-1). Aumenta veracidade Aumenta a Exactidão Aumenta Precisão Veracidade • Erro sistemático – É a componente do erro que no decurso da obtenção de um conjunto de resultados para a mesma característica, permanece constante ou varia de uma forma previsível. • NOTA: Os erros sistemáticos e as suas causas podem ser conhecidos ou desconhecidos. Veracidade • A veracidade é geralmente expressa como “bias” • O “bias” é a diferença entre a melhor estimativa do resultado do ensaio (média) e o valor de referência aceite Precisão • Erro aleatório (do resultado) – É a componente do erro que no decurso da obtenção de um conjunto de resultados para a mesma característica, varia de uma forma imprevisível. • NOTA: Não é possível corrigir o erro aleatório. Precisão • Depende apenas da distribuição do erro aleatório e não está relacionada com o valor verdadeiro ou especificado. • O desvio padrão é uma medida da precisão. Um maior desvio padrão significa uma maior imprecisão. Exactidão do Resultado (ISO 5725) Veracidade Erro sistemático “Bias” Precisão Erro aleatório “Desvio padrão” Controlo interno da qualidade 1) Baseia-se na inserção de material controlo em cada série de análises 2) Assume-se que o material controlo está sujeito às mesmas fontes de erro que as amostras 3) O sistema analítico atingiu o estado de controlo estatístico – as fontes de erro são estáveis Os resultados do CIQ podem ser interpretados como provindo independentemente e aleatoriamente duma população com média e desvio padrão ESTADO DE CONTROLO ESTATÍSTICO Estado de controlo estatístico (ECE) 99,7 % 95% -3 -2 +2 +3 Num estado de controlo estatístico apenas cerca de 0,3% dos resultados caiem fora do intervalo ± 3 Se os resultados do CIQ estiverem fora deste intervalo estão fora de controlo. O sistema começa a portar-se de uma maneira desconhecida O que significa que há um erro anormal a afectar os resultados Validação dos resultados de uma série de amostras está dependente da aceitação da qualidade dos resultados do CIQ Se os resultados do CIQ estiverem FC, parar as análises, identificar as causas e corrigir Fontes de erro controladas no CIQ • Contaminações • Erros sistemáticos anormais que afectam a calibração • Erros que ocorrem na fase de preparação da amostra • Interferências de matriz • Perícia do operador Controlo de contaminações • Reagentes • Solventes / água • Material utilizado (deficiente lavagem, contaminação ambiental) Brancos de reagentes (Um branco por série de amostras) Controlo de erros sistemáticos na curva de calibração diária • 4 padrões + 1 branco (se aplicável) • critérios de aceitação da linearidade: (visualização / coeficiente de correlação 0,995) • Critérios de aceitação para o declive e ordenada na origem: (Intervalo de confiança a 95% - histórico) Controlo de erros sistemáticos na curva de calibração periódica • Demonstrar previamente a estabilidade das curvas de calibração (histórico de pelo menos 5 curvas) • Utilização de dois padrões de verificação (independentes dos de calibração) nos extremos da curva. Aceitação dos resultados com base em CA previamente definidos (10 em 10 amostras) Controlo de erros que ocorrem na fase de preparação da amostra Ataque / destilação / extracção Doseamento Padrão controlo - independente do padrão de calibração, que acompanha todo o processo analítico, desde a fase préanalítica (10 em 10 amostras) Controlo de Interferências de matriz • Ensaios de recuperação (no mínimo 1 por série de amostras, ou de vinte em vinte amostras) • Avaliação da recuperação do analíto adicionado à amostra: = − × Controlo de Interferências de matriz • Preparar a amostra fortificada de forma independente da dos padrões de calibração (a partir de soluções “Stock” diferentes) • Preferencialmente testar uma concentração igual à do padrão controlo para separar o efeito de matriz do desempenho do laboratório Controlo da repetibilidade e precisão intermédia • Duplicados de amostra (avaliam a perícia do operador) (20 em 20 amostras) • Padrões controlo (10 em 10 amostras) CONTROLO Critério de aceitação Branco Inferior ao Limite detecção Declive Intervalo aceitação 95% (Média ± 2 x desvio padrão) Coeficiente de regressão Superior ou igual a 0,995 Padrão verificação Média ± 3 Desvio padrão (dados de validação) CONTROLO Padrão controlo Ensaios recuperação Duplicados amostra Precisão do padrão controlo Critério de aceitação Média ± 3 Desvio padrão (dados de validação) 80 % R % 120 % (estudar para conhecer os valores típicos) Carta de amplitudes / amplitudes relativas (duplicados) Carta de amplitudes ou de amplitudes móveis Cartas de controlo • Utilizadas como ferramenta no CIQ, permitem visualizar a disposição relativa dos resultados no tempo, determinar facilmente valores Fora Controlo (FC) e tendências • Cartas de controlo empírico (cartas de aceitação) – usadas no início, quando há poucos dados sobre os valores dos parâmetros que caracterizam o sistema analítico (Ex: Valor alvo ± 10 %) Cartas de controlo estatístico Cartas de Shewhart (Guia Relacre 9) Assume-se: • Distribuição normal dos resultados • Fontes de variação estáveis (ECE) Tipos: - Médias e indivíduos - Amplitudes e amplitudes móveis Cartas de controlo de Shewart (Guia Relacre 9 e ISO 8258) • As cartas de controlo de médias e indivíduos avaliam essencialmente desvios em relação ao valor médio e tendências • As cartas de controlo de amplitudes e amplitudes móveis permitem visualizar dispersões anormais Cartas de controlo de Shewhart (Guia Relacre 9 e ISO 8258) • Podem ser de parâmetros conhecidos e utiliza-se a média e o desvio padrão na sua construção • Podem ser de parâmetros desconhecidos, utilizam a média e a amplitude, como media da dispersão Carta de indivíduos • Parâmetros conhecidos Xm + 3s Xm + 2s Linha central Xm Xm – 2s Xm – 3s Carta de indivíduos –parâmetros conhecidos •Limite superior controlo (LSC) - Xm + 3s •Limite superior de aviso (LSA) - Xm + 2s •Limite inferior de aviso (LIA) - Xm - 2s •Limite inferior de controlo (LIC)- Xm - 3s Usar como valores para s o si determinado durante a validação / usar valores obtidos no CIQ Titulação - Cloretos Controlo Frequência Critério aceitação Branco Diário Duplicados 20 em 20 Carta duplicados Padrão 25mg/L Início e de 10 em 10 VA ± 10% Carta indivíduos Aferição AgNO3 com NaCl 0,1M Sempre que se prepara novo titulante Título entre 0,095 e 0,105 M (± 5%) Ensaio recuperação Semanalmente 90 – 110 % 0,140 mL (LD) E.A.M - Ferro Controlo Frequência Critério aceitação Branco Diário Declive Semestral Coef. correlação Semestral Duplicados 20 em 20 Carta duplicados Padrão verificação 0,1 mg/L Padrão verificação 2 mg/L Ensaio recuperação Início e de 10 em 10 Início e de 10 em 10 VA ± 10% Carta indivíduos VA ± 10% Carta indivíduos Semanalmente 90 – 110 % 0,02 mg/L (LD) Média ± 2s 0,999 Potenciometria - pH Controlo Frequência Declive (pH 4, 7 e 9) Mínimo - mensal Critério aceitação 0,96 Decl. 6,792 pH(as) 6,989 pH (assimétrico) Mínimo - mensal Tampão cal. pH 4 Diária (início) VA ± 0,04 Tampão cal. pH 9 Diária (início) VA ± 0,04 Tampão cont. pH 8 10 em 10 VA ± 0,04 Tampão cont. pH 2 Tampão cont. pH 12 Duplicados Para amostras pH < 4 Para amostras pH > 9 10 em 10 1,20 VA ± 0,04 VA ± 0,04 Amplitude 0,09 Cálculo do CA para pH (as) Data 28-06-2006 03-07-2006 17-07-2006 24-07-2006 02-08-2006 07-08-2006 16-08-2006 21-08-2006 28-08-2006 pH (as) 6.871 6.870 6.864 6.888 6.888 6.888 6.945 6.958 6.939 Data pH (as) 04-09-2006 6.929 11-09-2006 6.908 18-09-2006 6.887 25-09-2006 6.862 26-09-2006 6.857 27-10-2006 6.845 13-11-2006 6.866 17-11-2006 6.872 Média 6.890 Desvio pad. 0.034 t crítico 99% 2.92 Média – 3s 6.792 Média + 3s 6.989 Resultados (mg/L Fe) Carta Aceitação - Ferros padrão 0,1 mg/L (+/- 10%) 0.12 0.10 0.08 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 Número do ensaio Resultados (mg/L Fe) Carta Aceitação - Ferros padrão 2,0 mg/L (+/- 10 %) 2.3 2.2 2.1 2.0 1.9 1.8 1.7 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 Número do ensaio Exemplo de carta de duplicados Amplitude relativa Carta de Duplicados condutividade 0.05 LSC 0.0457 LSA 0.0351 0.04 0.03 0.0139 0.02 0.01 0 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 Nº Ensaios Sr (%) 1,23 Exemplo do uso de cartas de duplicados para cálculo do Sr R= x1 − x 2 = x1 + x 2 2 Amplitude relativa = Média das amplitudes relativas × × Desvio padrão da repetibilidade Actualização dos limites da carta de duplicados Carta de duplicados(2ª) Condutividade Amplitude relativa 0.025 0.02 LSC 0.0233 LSA 0.0179 0.015 0.0071 0.01 0.005 0 1 3 5 7 9 11 13 15 Nº Ensaios 17 19 21 23 25 Sr (%) 0,62 INCERTEZA Parâmetro associado ao resultado de uma medição que caracteriza a dispersão de valores que se pode razoavelmente atribuir à mensuranda Valor convencionalmente verdadeiro - MRC Valor Laboratório Utilização dos dados do CIQ no cálculo da incerteza = = + = × Bibliografia • Guia Relacre 3 – “Validação de resultados em laboratórios químicos • Guia Relacre 9 – “Alguns exemplos de cartas de controlo em laboratórios de análise química” • OGC002 “Guia para a acreditação de laboratórios químicos”, IPAC • ISO 5725-1:1994 “Accuracy (trueness and precision) of measurement methods and results” – Part 1: General principles and definitions • ISO 8258: 1991 “Shewhart control charts” • Thompson, M.; Wood, R. (1995) “Harmonized Guidelines for internal quality control in analytical chemistry laboratories” , Technical Report IUPAC, Pure & Appl. Chem, Vol. 67, No. 4, pp. 649-666 Bibliografia • Analytical Methods Committee (1995) “Internal Quality Control of Analytical Data” Analyst, vol. 120, pp. 29-34 • Analytical Methods Committee (2003), “Terminology – the key to understanding analytical science, Part 1: Accuracy, precision and uncertainty”, Amc technical brief nº 13 (www.rsc.org/lap/rsccom/amc/amc_index.htm) • CITAC / EURACHEM GUIDE (2002) “Guide to Quality in Analytical Chemistry, An Aid to Accreditation” • Standart Methods Capítulo 1020 “Quality Assurance”