KEHL, Maria Rita. Sobre Ética e Psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras,
2009.
- Introdução – Por que articular ética e psicanálise?
- Antes de mais nada, devemos nos perguntar: O que é ética?
[pedir para a turma falar sobre]
------------------------ Há um livrinho de Álvaro Valls, da Coleção Primeiros Passos, que ajuda a
respondermos essa pergunta. (Valls, Álvaro. O que é ética? Coleção Primeiros
Passos. São Paulo: Editora Brasiliense: 1994).
- Segundo Valls, a ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas
que não são fáceis de responder, quando alguém nos pergunta (7). Ele vai dizer:
“Tradicionalmente ela é entendida como um estudo ou uma reflexão, científica ou
filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações
humanas. Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme aos
costumes considerados corretos [uma vida “ética”]. A ética pode ser o estudo das
ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de
comportamento” (7).
- Ele também vai dizer que é possível fazermos uma divisão didática da ética.
“Didaticamente, costuma-se separar os problemas teóricos da ética em dois
campos: num, os problemas gerais e fundamentais (como liberdade, consciência,
bem, valor, lei e outros); e no segundo, os problema específicos, de aplicação
concreta, como os problemas da ética profissional, da ética política, de ética
sexual, de ética matrimonial, de bioética, etc. É um procedimento didático ou
acadêmico, pois na vida real eles não vêm assim separados” (8).
- A ética está relacionada aos costumes. Mas o autor vai dizer que, nesse caso, há
uma questão a ser levada em conta. Uma questão que é especificamente ética,
segundo ele.
- “Os costumes mudam e o que ontem era considerado errado hoje pode ser
aceito, assim como o que é aceito entre os índios do Xingu pode ser rejeitado em
outros lugares, do mesmo país até. A ética não seria então uma simples listagem
das convenções sociais provisórias? [relativismo cultural] Se fosse assim, o que
seria um comportamento correto, em ética? Não seria nada mais do que um
1
comportamento adequado aos costumes vigentes, e enquanto vigentes, isto é,
enquanto estes costumes tivessem força para coagir moralmente, o que aqui quer
dizer, socialmente” (10).
- Mas, ainda assim, há um complicador:
- “Não são apenas os costumes que variam, mas também os valores que os
acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria
sabedoria, de um povo a outro” (13). Isso faz o autor dizer que:
- “Não seria exagerado dizer que o esforço de teorização no campo da ética se
debate com o problema da variação dos costumes. E os grandes pensadores
éticos sempre buscaram formulações que explicassem, a partir de alguns
princípios mais universais, tanto a igualdade do gênero humano no que há de
mais fundamental, quanto as próprias variações [lembra a questão do paradoxo de
que falava Laraia e outros: a unidade biológica versus a variabilidade cultural
humana]. Uma boa teoria ética deveria atender a pretensão de universalidade,
ainda que simultaneamente capaz de explicar as variações de comportamento,
características das diferentes formações culturais e históricas” (16). [A ética se
pretende universal, e ao mesmo tempo levar em consideração a diversidade...
paradoxo? Problema? Isso é que é interessante!]
- Como articular ética com psicanálise?
[Pedir para a turma falar sobre o que pensam disso]
------------------------------ Maria Rita Kehl começa seu livro dizendo que há duas maneiras de articular
psicanálise e ética. A primeira seria pensarmos em uma ética da psicanálise, no
sentido de ética profissional. Assim como falamos em ética joirnalística, médica ou
antropológica. A segunda, que é a que mais interessa para ela, refere-se às
implicações éticas do advento da psicanálise no Ocidente.
- A psicanálise foi uma prática questionadora dos pressupostos éticos
“tradicionais” (que, a bem da verdade, não se sustentavam mais desde o final do
século XIX). Por isso, a autora vai dizer que “a psicanálise não surgiu como
proposta de uma „nova ética‟ para o mundo moderno” (7). [Não era a proposta
psicanalítica substituir os antigos por novos valores]. Apesar disso, Freud vai ter
um impacto enorme para abalar algumas convicções a respeito das relações
humanas. Por exemplo: a partir dele, foi exigido um repensar dos fundamentos
éticos do laço social, já que havia “determinações inconscientes da ação humana”
(7-8).
2
- Ela se pergunta sobre qual foi o papel da psicanálise na desconstrução dos
parâmetros que sustentavam uma ética na tradição pré-moderna. E qual o papel
dela para a criação de novos vetores que orientem uma ética para a modernidade,
para a vida contemporânea (8).
- A autora fala como, hoje em dia, cada vez mais a psicanálise é questionada, em
prol de terapêuticas que visam acabar rapidamente com o sofrimento psíquico.
Terapias medicamentosas, auto-ajuda, novas formas de espiritualidade buscam
eliminar todas as formas de mal-estar e de angústias. O pressuposto é o de que é
possível se libertar de todos os incômodos do inconsciente, a partir de uma visão
do eu soberano, feliz, ajustado às aspirações do individualismo e do narcisismo
(8).
- Assim como a histeria fora o mal do século XX, hoje o grande mal parece ser a
depressão. Ela diz que isso não é à toa: o homem e a mulher modernos querem
se libertar de toda a angústia de viver e também da responsabilidade de arcar com
ela. [Aí entram os medicamentos, para quem a responsabilidade pelo sofrimento é
legada]. Em vez de indagar sobre o sentido da inquietação que o habita, o homem
contemporâneo quer eliminá-la. E isso faz a vida vazia de significado, segundo a
autora (8-9).
- A depressão está ligada à perda do sentido da existência e os sentidos, como os
significados, são sempre construídos em grupo, na vida social, em um contexto
social. Como diz a autora, “dizer que uma vida faz sentido do ponto de vista do
vivente significa que existe a possibilidade de esse sentido ser reconhecido pelo
Outro, ou pelos outros que o rodeiam” (9).
- Então, vemos a importância de entendermos sempre os contextos sócio-culturais
onde se vive, a fim de entendermos o sentido ou significado que as pessoas dão a
suas vidas.
- Mas e quando os sentidos dados pela tradição, pelas religiões, pela transmissão
familiar deixam de... fazer sentido? O que se coloca em seu lugar? O que
conferiria sentido a nossas vidas? (9). Essa questão, segundo Kehl, tem um
fundamento ético. A psicanálise ajudou no processo de enfraquecimento da
convicção de que exista um valor inquestionável, eterno, supremo. Um processo
que lhe era anterior, mas que ela ajudou a construir (10). Diz a autora:
- “Na modernidade, o sentido da vida não é dado por nenhuma verdade
transcendental que preceda a existência individual”. E é ilusório, nós sabemos,
pensar que a criação de um sentido para a existência possa se dar de modo
individual [Vimos como os significados são sempre compartilhados, que não se
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simboliza sozinho, mas em relação com outras pessoas]. Essa é uma tarefa da
cultura. É uma tarefa simbólica – essa produção de discursos sobre o que seja a
vida, ou sobre o que ela deva ser (10).
- Então, ela vai dizer que, no mundo contemporâneo, cada vez mais os discursos
coletivos acerca do sentido da vida têm se esvaziado, ou empobrecido. O mundo
gira cada vez mais em função das razões de mercado [vimos algo disso naquele
texto sobre a televisão e as mídias de massas]. “As razões de mercado se
consomem em si mesmas, produzem seu próprio esgotamento cada vez que são
satisfeitas” [vimos isso naquela discussão sobre a temporalidade acelerada do
mercado, não?] As razões de mercado, em certo sentido, reduzem a vida à
dimensão do circuito da satisfação das necessidades [nesse caso, é importante
termos em mente a crítica de Sahlins à razão prática, instrumental, e a
necessidade de valorizarmos a razão cultural, simbólica] (10-11).
- Segundo Kehl, o mercado lança a ilusão de que os desejos possam ser
satisfeitos, quando, em psicanálise, o objeto do desejo é inexistente, perdido
desde sempre, cuja busca lança o sujeito numa repetição infindável. E é nessa
busca, pela satisfação do desejo, que vez por outra se dão atos de criação
humanos (11). As razões de mercado, para ela, achatam a esfera subjetiva,
reduzindo-a a um plano de pura fruição, depurado de qualquer questão “maior”
(estética ou existencial, cultural). Nesse contexto, a psicanálise, para além de uma
função terapêutica, ocupa o lugar de uma filosofia da existência, preenchendo
vazios de discurso – que são intoleráveis para o sujeito [depressão] (11). Isso faz
da psicanálise uma visão de mundo? [Ela ocupa o vazio deixado pela perda das
tradições?] Ela diz que não.
- Ela cita Elizabeth Roudinesco, que aponta para o fato de que a psicanálise vem,
cada vez mais, se estabelecendo como uma referência para toda a sociedade
(11). Há uma espécie de vulgata psicanalítica, na mídia, por exemplo, que tentam
fazer dela uma relação do homem com o Bem. E então Kehl se pergunta qual o
sentido de pedir justamente à psicanálise a “salvação”, ou seja, o
restabelecimento de critérios seguros para uma ética cobntemporânea. E também
se questiona qual a responsabilidade da própria psicanálise e dos psicanalistas
para que se tenha construído essa imagem dela (12). E diz que há um paradoxo
aí: quanto mais a psicanálise é chamada a dar respostas éticas para os dilemas
contemporâneos, mais é questionada como prática terapêutica – por sua relativa
“lentidão”, pela idéia de implicar o sujeito no desvendamento do enigma de seu
sintoma e [o que nos interessa aqui] pela concepção, fundamental para a
psicanálise, do conflito como elemento constitutivo de todos os atos
humanos (12).
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[Vimos como, nas ciências sociais em geral e na antropologia em particular, hoje
em dia se pensa a vida social mais a partir da idéia de conflito do que de
estabilidade. São perspectivas que pretendem pensar as mudanças, e não as
permanências culturais; e que pensam a cultura (e as identidades, que são
culturalmente ordenadas) como processo, em constante mutação – não fixa, não
regular. Isso que Kehl está falando sobre a psicanálise tem muito a ver com isso]
- Duas vertentes da crise ética contemporânea.
- Segundo Kehl, há uma crise ética em curso no mundo. Ela tem uma origem e
uma história. Não surgiu há pouco. Mas hoje produz efeitos alarmantes, segundo
ela. E a sociedade busca encontrar respostas para ela (12-13).
- Ela vai dizer que essa crise tem duas vertentes principais, que chama de
reconhecimento da lei e de desmoralização do código. Vamos entender melhor o
que ela diz.
- Quanto ela fala em crise ligada ao reconhecimento da lei, não está aludindo às
leis da constituição, mas àquela que segundo ela (e de acordo com o saber
psicanalítico) é a única lei universal que funda nossa condição de seres de cultura:
aquela que impõe uma renúncia ao excesso de gozo, presente em todas as
sociedades humanas na forma da interdição do incesto. Essa é uma lei que não
está escrita em lugar algum. Mas que se impõe aos agrupamentos humanos. Sua
origem não tem uma história ou uma autoria. É uma origem mítica (13). O
pressuposto da psicanálise é o de que essa lei se transmite pela cultura e se
inscreve no inconsciente. E a inscrição subjetiva dessa lei se dá por meio da
linguagem.
[Dá para pensar em algumas pontes, talvez. A idéia do contrato social, como
falamos em aula, pressupõe que o sujeito abra mão de uma parcela de sua
liberdade e autonomia ao todo social; a noção de cultura como aprendizado
também pensa a linguagem como essencial para a existência ou concepção de
qualquer coisa – nada existe “antes” da linguagem, antes de entrar em discurso –
as coisas só podem ser concebidas por meio da linguagem]
- Segundo Kehl, é justamente na liberdade, na autonomia individual e na
valorização narcísica do indivíduo que as sociedades modernas vão encontrar
seus grandes ideais, pilares de modos de vida orientados para o gozo e para o
consumo. E cada geração se constitui rompendo as “tradições” das anteriores
(13). Essa crise do recinhecimento da lei, então, tem a ver com a dificuldade de
reconhecimento de uma dívida simbólica para com os outros [o sujeito se crê
autônomo]. Essa crise teria se agravado no final do século XX. O imperativo da
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renúncia ao gozo [ou à liberdade total], que sustentava essa lei que colocava a
necessidade dessa renúncia para que se viva em sociedade, cada vez mais perde
sua sustentação na cultura, segundo Kehl (14). A lógica capitalista, do capital,
depende de um mercado movido por um apelo não à renúncia, mas ao próprio
gozo [lembremos da idéia que ela trouxe acima, de que o mercado pressupõe a
satisfação imediata e completa do desejo; ou lembremos da idéia da
temporalidade acelerada do mercado]. E a questão é que, para a psicanálise, o
pleno gozo é tão impossível de se realizar quanto a renúncia completa de
qualquer forma de gozo (14).
- Quando afirma que hoje se vive o imperativo do gozo, isso não quer dizer que
estejamos libertos da lei que nos impõe uma certa renúncia. O que o apelo
contemporâneo ao gozo faz é dificultar nosso reconhecimento da lei. Nos
propomos um gozo impossível como ideal a ser atingido. É diferente da sociedade
vitoriana, quando o gozo era um “mal a ser evitado”. [É como se ela estivesse
dizendo que o mundo contemporâneo, ao invés de estar marcado por uma sanção
ao gozo, ou à liberdade plena, como era o caso do mundo social do século XIX, o
que se tem é uma profusão discursiva acerca do gozo, e da necessidade de gozar
– o mundo contemporâneo não proíbe o gozo, mas coloca como patamar a ser
alcançado algo impossível: a satisfação plena do gozo. Podemos pensar em
outros exemplos: o eu dizer dos ideais de beleza propagados pela mídia? São
possíveis de ser alcançados, quando nem mesmo os/as modelos são da maneira
como nos é mostrada?] Segundo Kehl, esse apelo ao gozo produz mais angústia
do que o próprio gozo, mais violência do que fruição. Segundo ela, existe uma
relação entre a violência contemporânea e essa produção exacerbada a respeito
do gozo (15).
- Quanto à outra vertente da crise, a autora vai dizer que concerne à
desmoralização do código que regeu a vida burguesa por pelo menos dois
séculos, submetendo as outras classes sociais aos valores e ideais burgueses.
Ela diz que uma nova classe emergente está deslocando a burguesia tradicional
de suas posições de poder, tanto no que se refere à acumulação de riquezas,
quanto ao poder de ditar normas (16).
- Freud, na segunda metade do século XIX, já lamentava a rigidez dos costumes
burgueses e seu efeito na produção de sofrimento neurótico. Os conservadores
têm razão, segundo a autora, de acusar a psicanálise pela desmoralização do
modo de vida burguês. A psicanálise ajudou a revelar o preço que se pagava pelo
controle excessivo dos impulsos que as sociedades do século XVIII impunham a
seus membros. A eficácia desse controle exigia um silenciamento a tudo que
fosse “proibido”. A psicanálise rompeu esse silêncio e, assim, contribuiu para
6
desmoralizar uma série de tabus e restrições [por exemplo, sexuais]. Tabus e
restrições que caracterizavam o modo de vida burguês (16-17).
- Desde pelo menos a década de 1960, hordas adolescentes e jovens colocam a
rebeldia como seu maior valor. E então Kehl conta uma anedota, uma cena
exemplar do que está chamando de desmoralização do código burguês. É a cena
do museu, da página 17. Esse exemplo é para mostrar que os códigos burgueses
não entraram em colapso por força de conquistas antiburguesas, mas por ter
entrado em contradição com os próprios termos do individualismo que sustenta os
sujeitos nas sociedades de mercado (18).
- O estabelecimento do código burguês tem sua história. Desde o século XVIII,
criaram-se dispositivos para ensinar as pessoas maneiras “corretas” de comportarse, como nos museus [pensemos em Norbert Elias e em seu processo civilizador
– e como ele diz que, nos séculos XVIII e XIX, códigos de conduta civilizada que
durante séculos haviam sido objeto de dispositivos sociais, passam a ser
introjetados e como o sujeito burguês os tem como naturalizados]. Ao contrário da
idéia de “Lei”, a noção de “código” tem sempre uma origem social, histórica e
cultural. Quando se chega ao ponto de questionar os “porquês”, é porque a
sustentação simbólica (inconsciente) do código já se esfacelou. Exemplar para
pensar nesse processo, segundo Kehl, é o surgimento de uma nova formação
social – os “jovens” – a partir dos anos 1960. Uma categoria produzida, em parte
pela indústria cultural e que se coloca como “rebelde” aos códigos sociais
[pensemos no Selvagem da Motocicleta, em James Dean, em Elvis Presley ou nos
Beatles, por exemplo].
- Voltando ao exemplo do museu, o apelo ao código não ecoou no rapaz. Ele só
cedeu ao apelo ao “ponha-se no meu lugar”, quando o guarda disse que se ele
não saísse dali, perderia seu emprego (19). Um apelo à identificação, e não ao
código. Um recurso pessoal e sentimental, que não se sustenta como código, não
consegue “ficar no seu lugar” (19-20).
- Então ela diz que o amor não pode sustentar a Lei, e nem o código. O “Amarás a
teu próximo como a ti mesmo”, uma ética cristã fundada no amor, é um apelo
problemático quando se trata de pensar na vida em sociedade (20). O semelhante
desestabiliza o eu. O próximo só pode se tornar uma fonte de aprendizado, de
experiências compartilhadas, se agüentamos o tranco da desestabilização que ele
nos provoca [Podemos aqui pensar na discussão sobre etnocentrismo e
relativismo cultural que fizemos em sala. Só o reconhecimento da diferença
cultural, e da validade de outras formas de existência social, pode abrir para a
possibilidade do relativismo – e não da aniquilação da diferença].
7
- Freud já criticava, no mal-estar na civilização, essa idéia de legislar sobre um
afeto. Se o próximo fosse um objeto possível de meu amor, se fosse realmente
idêntico a mim, esse amor precisaria ser estabelecido por uma Lei? Esse apelo a
amar ao próximo, e tanto quanto a mim, para Freud não leva em consideração a
existência do mal em mim (ou do gozo em mim, segundo Lacan) (20-21). Lacan
vai dizer que o amor ao próximo pode ser cruel se incondicional – amar para
submeter, tornar posse, objeto de gozo. Amar ao estranho como a si mesmo anula
a possibilidade da alteridade, segundo Lacan.
- O próximo, para a Psicanálise, é também aquele sobre o qual se pode projetar
tudo aquilo que se recusa em si mesmo, como o mal. Essa identificação fraterna
entre semelhantes se dá sempre pela segregação de outros, um pouco mais
distantes, que passam a portar a marca da diferença intolerável. “Todas as formas
de racismo, intolerância étnica, religiosa ou nacional fundam-se na tentativa de
fazer do semelhante um igual, ao preço de fazer do diferente um absoluto
estranho” (21-22).
[Essa discussão também é feita pela Antropologia, quando coloca que os
processos de constituição de identidades sociais (raciais, sexuais, de gênero,
etárias) frequentemente se dão a partir da criação de grupos que são colocados
ás margens, que só são inteligíveis socialmente pela idéia da abjeção].
- O que Kehl está dizendo é que, para a Psicanálise, o mandato cristão não se
sustenta como princípio norteador de uma ética para a modernidade. Nas
sociedades modernas, segundo ela, cada ser humano convive diariamente com
um número enorme de estranhos, pelos quais não sente amor, muito menos um
que seja imposto por Lei. O que se poderia esperar é que um imperativo social,
uma Lei, produzisse laços de respeito e tolerância. Mas eles não se sustentam no
afeto, ou no amor, e sim na Razão (22).
- Não apenas nossa sociedade se baseia na desmoralização dos códigos
tradicionais, mas também num outro processo que Kehl vai salientar, que diz
respeito à redução da subjetividade à dimensão da imagem. Uma sociedade na
qual o laço social é quase exclusivamente mediado pela mídia eletrônica. Então
ela traz um exemplo de um seqüestro de ônibus no Rio de Janeiro, em 1999 (24).
O olhar dos telespectadores, ela vai dizer, teve o efeito de transformar o incidente
em espetáculo televisivo e acabou conduzindo a um final trágico (25).
- Existir por meio da imagem torna insuportável qualquer forma de exclusão – se
não sou visto, não sou (não existo). E diante disso, qualquer forma de alteridade
torna-se ameaçadora. A “fama” é o substituto da cidadania na cultura do
8
narcisismo e da imagem. Ela diz que o espaço público atual é largamente ocupado
por formações imaginárias, como a mídia televisiva por exemplo. Fala da
cobertura televisiva do ataque de 11 de setembro de 2001 ao WTC e ao
Pentágono. As imagens era repetidas à exaustão, predispondo uma opinião
pública favorável à guerra contra o Afeganistão (25-26). “A cena da queda das
torres gêmeas foi transmitida exaustivamente pela televisão do mundo todo,
evocando o imaginário dos filmes de horror do cinema hollywoodiano” (26).
- O que Khel quer mostrar é como a linguagem televisiva predomina na
organização das informações a que temos acesso. Somos poupados da
necessidade depensar, ela diz. A linguagem televisiva nos infantiliza a todos, pois
o impacto das imagens produz a falsa certeza de que as coisas “são como são” [é
como se responde a uma criança].
- Esse tratamento espetacular das notícias favorece a violência, para ela. E
convoca a atos de efeito igualmente espetaculares, que mobilizam os afetos e
dispensam o pensamento racional. E ela já havia dito que é impossível fundar uma
ética em afetos, sejam eles “bons” ou “maus” (27).
- As duas versões da psicanálise para os leigos.
- Kehl se questiona, voltando ao problema do início, como a psicanálise pode
responder ao apelo por uma ética contemporânea se ela é uma prática da dúvida,
e não da certeza. [Em certo sentido, a Antropologia também – baseia-se na dúvida
e no questionamento constante – problemas que levem a outros problemas].
- Uma das vertentes pelas quais a psicanálise foi absorvida depois de mais de um
século de existência é a que se apelidou de “Freud explica”. A outra é mais
analítica (28).
- A versão mais solicitada é a primeira, por ser apaziguadora. O que se pede à
psicanálise é uma justificativa para o mal. Não era isso o que Freud pretendia, diz
Kehl. O que ele pretendia era abalar a moral vitoriana burguesa do século XIX,
apontando o sofrimento que ela trazia. Ele dizia que, do ponto de vista do
inconsciente, o mal não existe e a moral não importa. Mas isso não nos autorizava
a nos tornarmos imorais, mas apenas mais tolerantes às “falhas” alheias e um
pouco mais humildes em relação a nossas qualidades.
[Dá para pensar numa espécie de relativismo aqui também; à maneira do
relativismo cultural que estudamos].
- Segundo Kehl, o que se faz hoje é aceitar facilmente esse “terreno pantanoso”
que é o inconsciente e, ainda por cima, justificar nossas falas de caráter com
9
supostas evidências “freudianas”. Ela diz: “Uma leitura canalha da descoberta
psicanalítica diria que, se o inconsciente existe, tudo é permitido. Exemplo disso é
o cinema hollywoodiano: a evidência do inconsciente só é convocada para
justificar o crime, a crueldade, a perversão. É interessante observar o fascínio que
personagens psicopatas, como o canibal Hannibal do filme O silêncio dos
inocentes, por exemplo, produzem sobre o público. O inconsciente é admitido em
Hollywood quase como um privilégio de alguns poucos, aos quais é permitido todo
o gozo, todo o mal. O personagem psicopata, cada vez mais freqüente no cinema
de massa, produz simultaneamente fascínio, por seu aparente acesso privilegiado
ao gozo, e rancor, pela mesma razão” (29).
[E aqui reside o interesse em assistirmos ao filme].
- Essa versão “Freud explica” também é apaziguadora, segundo Kehl, porque
produz uma ilusão de estabilidade – a psicanálise tomada como um saber
absoluto sobre a verdade do homem. Uma das razões do sofrimento do homem
moderno é justamente a falta de qualquer estabilidade do ser [E daí a importância
de tomarmos as identidades sociais como processos, e não como algo dado,
acabado. E também de tomarmos a cultura como algo assim, para pensarmos em
fluxo social, em mudanças sociais, e não em estabilidades]. Essa versão
apaziguadora também pressupõe que a “cura psicanalítica”, a saúde mental, tenha
a ver com ausência de conflitos, com “paz interior”. Isso é um equívoco. Kehl, vai
dizer que a psicanálise pensa não pensa o ser humano como um ser de natureza
e sim como um ser de linguagem, criador de significados e valores [e nesse
sentido se aproxima muito da Antropologia, como vimos no curso]. De acordo com
essa abordagem, qualquer valor já perde o predicado de “supremo” [ou mesmo
de “universal”]. Em segundo lugar, o inconsciente desconhece o bem e o mal. Não
se funda ética com base em razões inconscientes [porque o inconsciente não
pressupõe razão!]
- O sujeito da psicanálise é responsabilizado pelo seu inconsciente.
Responsabilidade que é difícil de assumir – como nos responsabilizarmos por
aquilo que é estranho em nós, age em nós e como o qual não queremos nos
identificar? No entanto, diz Kehl, eticamente é preferível que o sujeito arque com
as conseqüências dos efeitos do seu inconsciente, fazendo deles o início de uma
investigação sobre seus desejos, ao invés de permitir que tais efeitos se
manifestem na forma de um sintoma. Ou a permitir a saída mais grave, e mais
corriqueira, que é a de o sujeito tentar se desembaraçar de seu inconsciente por
meio de atos de intolerância, que projetam no outro aquilo que o eu não quer
admitir em si mesmo [o “ódio” ao diferente, as “sócio-fobias”, nesse caso, seria a
recusa em aceitar essa diferença em si, ou em lidar com ela de maneira racional]
10
(32). A violência é a saída típica de quem não quer assumir as condições de seu
próprio conflitom segundo Kehl.
- A segunda versão do que a psicanálise tem a dizer a respeito das questões
éticas é propriamente analítica. A psicanálise deixa de aparecer como
apaziguadora. Não busca “naturezas humanas” e nem o bem supremo – parte do
princípio de que o homem moderno é vazio de ser enquanto essência. Trata-se,
então, de entender as condições sociais que estão produzindo a crise ética atual.
De analisar criticamente essas condições [Nesse caso, se pensa a partir dos
conflitos e não se tenta evitá-los, como quando vimos a respeito das críticas ao
funcionalismo cultural]. Por isso Kehl vai dizer que a psicanálise não faria sentido
num contexto pré-moderno, tradicional. A psicanálise é um fenômeno moderno,
urbano, próprio de sociedades laicas, republicanas, democráticas, não patriarcais
(34-35). A dúvida sistemática, e não as certezas absolutas, é que regem a análise
psicanalítica (36). Por isso, Kehl vai dizer que a cura, em psicanálise, consiste
antes na possibilidade de o sujeito identificar-se com seu sintoma, adquirindo certa
mobilidade criativa em relação a ele (37).
- Kehl termina dizendo que a psicanálise está longe de ser uma teoria “do
indivíduo”. É uma teoria das relações que se estabelecem entre sujeitos que se
acreditam individuais. Ela nasce das condições dadas pelo individualismo
moderno, mas é crítica dele [Daí a importância, para o psicólogo e a psicóloga, de
entender um pouco sobre sociologia e antropologia – pois são ciências que se
interrogam sobre os fundamentos da vida simbólica, cultural e social, e estes são
indispensáveis para que se compreenda a análise e a crítica psicanalítica. E era
isso que esse curso pretendia lhes oferecer] (38).
11
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Kehl - Sobre Ética e Psicanálise