O CAVALO COMO OBJETO TRANSICIONAL NO ATENDIMENTO COM CRIANÇAS EM EQUOTERAPIA Renata Maria de Lima1 William Rios Bramchartt2 Carla Adriana da Silva Villwock3 Resumo: O Presente artigo tem como finalidade identificar o cavalo como objeto transicional com crianças em equoterapia. Os Sujeitos desta pesquisa qualitativa e descritiva são crianças com idade entre dois e seis anos, acompanhadas por atendimento em centro de equoterapia da região de Porto Alegre. Como objetivos específicos deste trabalho buscamos compreender dentro dos princípios básicos da equoterapia, a interação da criança com o cavalo, e a psicodinâmica do desenvolvimento psicossexual infantil, identificando a importância do cavalo como objeto transicional para a criança. As técnicas utilizadas para a coleta de dados foram: observação participante durante as sessões e entrevista com pais e/ou cuidadores. Verificou-se que o cavalo exerce função significativa nas fantasias da criança, o animal não faz rejeições ou qualquer tipo de exclusão de praticante, isto facilita que a criança crie vínculos afetivos com o animal. Esse processo afetivo faz com que o cavalo realize a função de mediador entre o mundo interno da criança e seu mundo externo, função empregada pelo objeto transicional. Palavra chave: objeto transicional – equoterapia – cavalo – criança 1 Introdução A equoterapia é um método terapêutico que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar nas áreas da saúde, educação e equitação. A prática da Equoterapia facilita a habilitação ou reabilitação motora, proporciona a interação entre o praticante e o animal, o que permite trabalhar aspectos como a afetividade, autoconfiança, as dificuldades de aprendizagem e melhor socialização além dos aspectos psicomotores. De acordo com a Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-BRASIL) é um método terapêutico e educacional, reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina em junho de 1997, na qual indica a Equoterapia como método terapêutico para portadores de paralisia cerebral, acidentes vasculares cerebrais (AVC), traumas craneo-encefálico, 1 Autora do Trabalho 2 Autor do Trabalho 3 Orientadora do Trabalho 4 Síndrome de Down, Síndrome de West, dependência química, coordenação motora, distúrbios visuais, auditivos e da fala, estresse entre outros. Segundo a doutrina da ANDE-BRASIL são quatro os programas básicos, a saber:Hipoterapia; Educação/Reeducação e Pré-esportivo. • Hipoterapia, primeiro programa da Equoterapia, usado geralmente por praticantes com comprometimento físico ou mental maior, ou até mesmo alguém que não saiba ou não queira conduzir o cavalo. Necessita de um auxiliar-guia, para conduzir o cavalo. Na maioria dos casos, também de dois terapeutas ou um terapeuta e um auxiliar - lateral, um de cada lado do cavalo, para mantê-lo montado, dando-lhe segurança. • Educação/Reeducação,neste programa, o praticante começa a exercer alguma atuação sobre o cavalo e conduzi-lo, dependendo em menor grau do auxiliarguia e do auxiliar - lateral ou terapeuta. O profissional de equitação passa a atuar como um instrutor, ensinando os primeiros passos na condução do cavalo, sendo este utilizado como auxiliar no ensino de portadores de necessidades educacionais, ou na recuperação de pessoas com algum tipo de lesão ou doença degenerativa. • Pré-esportivo, o praticante tem boas condições para atuar e conduzir o cavalo, embora não pratique equitação, mas já está com uma boa autonomia na condução deste, podendo participar de pequenos exercícios específicos de hipismo. A ação do profissional de equitação é mais intensa, já que o objetivo a ser alcançado nesse programa é que o praticante conduza de forma independente o cavalo, necessitando, contudo, da orientação dos profissionais das áreas de saúde e educação, já que possíveis dificuldades e conflitos ainda podem, e provavelmente estão presentes. O praticante exerce maior influência sobre o cavalo. 5 Segundo SEVERO (2010) a equoterapia é uma atividade que exige a participação do corpo inteiro, contribuindo, assim, para o desenvolvimento da força, tônus muscular, flexibilidade, relaxamento, conscientização do próprio corpo e aperfeiçoamento da coordenação motora e do equilíbrio. A interação com o cavalo, incluindo os primeiros contatos, tais como, o ato de montar, alimentar e higiene do animal, desenvolve novas formas de socialização, conscientização corporal, autoconfiança e auto-estima. No atendimento em equoterapia, é possível observar o cavalo como objeto transicional nas diferentes fases do desenvolvimento psicossexual. RAMOS (2007) diz que a criança utiliza do cavalo como transição dos impulsos inconscientes à realidade. O cavalo passa a ser um objeto de amor e prazer, exclusivo da criança. Pensando neste novo método de “terapia”, o presente projeto de pesquisa se propõe a investigar a relação entre a criança e o cavalo, buscando compreender o papel do animal como objeto transicional. Autores como, RAMOS (2007) e BALTIERI (2003),abordam esse tema, na visão lúdica, tendo o cavalo como um grande motivador terapêutico. O paciente se desenvolve através de suas vivências com o objeto lúdico transicional, o cavalo, e os fenômenos transicionais ocorridos neste ambiente diferenciado. Segundo WINNICOTT (2008) o objeto transicional representa a primeira posse “não-ego” da criança, têm um caráter de intermediação entre o seu mundo interno e externo. Em Winnicott (2008) o conceito de objeto ou fenômeno transicional recebe três usos diferentes: um processo evolutivo, como etapa do desenvolvimento; vinculada às angústias de separação e às defesas contra elas; a representação de um espaço dentro da mente do indivíduo. Ele propõe ainda que em determinadas condições, o fenômeno ou objeto transicional pode ter uma evolução patológica, ou associar-se a certas condições anormais. O objeto transicional é algo que não está definitivamente nem dentro nem fora da criança, servirá para que o sujeito possa experimentar seus próprios limites mentais em relação ao externo e ao interno. BLEICHMAR (1992) diz que o objeto transicional está situado em uma zona intermediária, na qual a criança se exercita na experimentação com objetos. Para explicar a constituição do objeto transicional, Winnicott remonta ao primeiro vínculo da criança com o mundo externo, a relação com o seio materno. No 6 princípio, a criança tem uma ilusão de onipotência, vivenciando o seio como sendo parte do seu próprio corpo. Mas, uma vez alcançada esta onipotência ilusória, a mãe deve idealmente, ir desiludindo a criança, pouco a pouco, fazendo com que o bebê adquira a noção de que o seio é uma “possessão”, no sentido de um objeto, mas que não é ele (“pertence-me, mas não sou eu”).como parte de si mesma. O objetotransicional ocupa um lugar que Winnicott chama de ilusão. Ao contrário do seio, que não está disponível constantemente, o objeto transicional é conservado pela criança. Ela é quem decide a distância entre ela e tal objeto. Como os fenômenos transacionais “representam” a mãe é essencial que ela seja vivenciada como um objeto bom. BLEICHMAR (1992) relata que, quando dentro da criança, o objeto materno está danificado, é pouco provável que ela recorra, de maneira constante, a um fenômeno transicional. Winnicott aponta algumas características que são comuns aos objetos transicionais: a criança afirma uma série de direitos sobre o objeto; o objeto é afetuosamente ninado e excitadamente amado e mutilado; deve sobreviver ao ódio, ao amor, e à agressão. É muito importante que o objeto sobreviva à agressão possibilitando à criança neutralizá-la, dando-lhe, posteriormente, um fim construtivo, ao notar que esta não destrói os objetos. RAMOS (2007) diz que sendo a equoterapia uma terapia lúdica, tem-se a possibilidade de explorar o cavalo como um objeto transicional e levar o praticante através do brincar a desenvolver-se com plenitude. Segundo BALTIERI (2003) o cavalo como motivador terapêutico minimiza as dificuldades da criança e potencializa suas habilidades desde o primeiro contato. RAMOS (2007) salienta que o cavalo tem diversas características citadas por Winnicott como próprias de um objeto transicional, tais como textura (a maciez de seu pêlo), calor e vitalidade, e que se referem ao primeiro objeto relacional de um ser humano, o seio. RAMOS (2007) descreve que a utilização do cavalo como objeto transicional pode ser eficaz tanto para praticantes com grave comprometimento físico e mental, pois, enriquece as experiências sensoriais, motoras, afetivas e cognitivas através do brincar, como também para praticantes menos comprometidos, e que podem vir a controlar de forma independente um cavalo, pois passam de uma situação de um controle imaginário até uma efetiva ação de domínio de um, passando pelos diversos 7 programas de Equoterapia, a hipoterapia, a educação/reeducação, o pré-esportivo e o hipismo adaptado. 2 Materiais e Métodos A escolha da amostra,foi fundamentada no objetivo central do projeto que significa salientar a relação que a criança estabelece com o cavalo na equoterapia. Segundo RAMOS (2007) A criança utiliza do cavalo como transição dos impulsos inconscientes à realidade. O cavalo passa a ser um objeto de amor e prazer, exclusivo da criança. A exclusão de outras amostras se faz necessário devido o estudo de patologias, síndromes e demais transtornos, não sendo interesse de estudo deste projeto. Inicialmente o número de sujeitos era de 5 (cinco) crianças de ambos os sexos, entre 02 (dois) a 06 (seis) anos de idade que apresentavam comportamento esperado a sua etapa do desenvolvimento. No entanto, ao decorrer das observações foram sendo encontradas resistência do local para coleta de dados, tais como: não autorização das entrevistas gravadas, limitação referente à escolha da amostra, dificuldades na comunicação com a responsável do local e restrição por parte da administração do local ao contato com pais e/ou cuidadores. Watson (1971) apud Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti, Rosely Antunes de Souza e Dalton Francisco (S/D), define a resistência como “todas as forças que contribuem para a estabilidade nos sistemas da personalidade ou social. Em uma organização, a resistência é a oposição ou ocultação de apoio para planos específicos ou ideias. (STEINBURG,1992;COGHLAN,1993)apud Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti, Rosely Antunes de Souza e Dalton Francisco (S/D). Desta forma ao invés das cinco (05) crianças foram observadas quatro (4) crianças. Ainda compuseram a amostra os pais ou responsáveis das crianças que foram observadas. O objetivo correspondia à um número máximo de 05 (cinco) casais/responsáveis, o que no entanto não ocorreu devido a resistência por parte dos pais e/ou cuidadores. A palavra resistência é definida no dicionário como um ato de resistir; uma habilidade ou poder de não ser afetado ou prejudicado por alguma coisa; a força que um corpo exerce contra o movimento de outro corpo, oposição ou reação a 8 uma força opressora. (PARKER; STAHEL, 1998)apud Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti, Rosely Antunes de Souza e Dalton Francisco (S/D). No ponto de vista de Watson (1971) e Zaltman e Ducan (1977)apud Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti (S/D), Rosely Antunes de Souza e Dalton Francisco a resistência pode ser causada por agentes de mudança e pode ser justificável em casos em que a mudança pode ser nociva aos indivíduos ou a um grupo (COGHLAN, 1993)apud Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti, Rosely Antunes de Souza e Dalton Francisco (S/D). É válido lembrar que cada mudança envolve alguma forma de perda e permite o avanço de alguma coisa que é familiar (COGHLAN, 1993)apud Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti, Rosely Antunes de Souza e Dalton Francisco (S/D) . Watson (1982)apud Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti, Rosely Antunes de Souza e Dalton Francisco (S/D),sugere que o que é freqüentemente rotulado como resistência é, de fato, somente relutância, desobediência ,e, segundo ele, deve ser vista como uma coisa negativa e irracional. A resistência é vista como uma reação natural e normal à mudança (COGHLAN, 1993) apud Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti, Rosely Antunes de Souza e Dalton Francisco (S/D). Na situação da pesquisa fica demonstrada a resistência encontrada no âmbito familiar, sendo que inicialmente a proposta era entrevistar os pais das crianças que foram observadas, mas aceitaram participar da pesquisa somente dois (2) pais. Essa pesquisa utilizou como procedimento de coleta de dados uma entrevista semi-estruturada especificamente elaborada para este estudo, que foi realizada individualmente com pais/cuidadores (anexo A). Para CERVO & BERVIAN (1996), a entrevista não é uma simples conversa, é um diálogo direcionado para um objetivo definido: “recolher, através do interrogatório do informante, dados para a pesquisa”. E deve ainda respeitar alguns critérios: o planejamento da entrevista deve ser cuidadosamente realizado, conforme os objetivos da pesquisa; obter sempre que possível alguns dados acerca do entrevistado; marcar com antecedência o local e horário da entrevista; criar um ambiente adequado, pois uma postura discreta pode favorecer a obtenção dos dados e por último, escolher o sujeito a ser entrevistado considerando a sua familiaridade com o tema da pesquisa. Quanto à primeira amostra, foi realizada uma observação participante dos sujeitos e uma descrição sobre a observação. 9 Segundo PROENZA (2008), apud MAY (2001), observação participante, significa o processo no qual um investigador estabelece um relacionamento multilateral e de prazo relativamente longo com uma associação humana na sua situação natural com o propósito de desenvolver um entendimento científico daquele grupo. Os pais e/ou cuidadores dos sujeitos que participaram da amostra foram contatados e convidados a participarem da pesquisa, mediante ao consentimento para a realização das entrevistas. A partir do aceite dos pais e/ou cuidadores, foi marcado o dia, hora e local das entrevistas, de forma individual. Para os responsáveis, foi entregue o termo de consentimento livre e esclarecido, para participação dos sujeitos na pesquisa, juntamente com a proposta da entrevista semi-estruturada. 3 Apresentação e Discussão dos Resultados Em relação às crianças, foi realizada uma observação desde a sua chegada ao centro de equoterapia, durante o atendimento e a despedida, identificando os vínculos afetivos e o processo transferencial com o animal. Foram assim identificadas: “P” cinco (5) anos de idade, filho mais velho de uma família composta por quatro (4) pessoas, pai, mãe e um irmão de onze (11) meses, frequenta à equoterapia há dois (2) anos e sete (7) meses, o pai foi entrevistado e será identificado como “D”.; “J” é filha única, tem quatro (4) anos de idade e frequenta a equoterapia há um (1) ano e um (1) mês, o pai foi entrevistado e será identificado como “B”; “A” tem cinco (5) anos de idade e é a filha mais nova de uma família composta por quatro (4) pessoas, pai, mãe e uma irmã de onze (11) anos de idade, ela frequenta a equoterapia faz um (1) ano e quatro (4) meses; “L” tem quatro (4) anos de idade e é filha única, frequenta a equoterapia há seis (6) meses. As observações foram transcritas logo após os atendimentos. No entendimento sobre objeto transacional se faz necessário algumas considerações que auxiliam a explicação deste fenômeno no contexto da Equoterapia. O praticante desde o primeiro contato com o animal, o tem como um objeto fantasiado, talvez pelo seu tamanho, outra hora pela sua cor ou até mesmo pelos seus gestos corporais (RAMOS, 2007). 10 O cavalo como objeto carregado de fantasias projetadas pelo praticante, faz o papel de intermediário entre o mundo interno do praticante e as confrontações do mundo externo. Segundo NETO (2007) o desenvolvimento do eu e do não – eu é um processo de maturação que não possui fronteiras rígidas, ou seja, cada sujeito cria seu mundo e é criado pelo mesmo num jogo imaginário. NETO (2007) relata também que, a criança quando inicia a transicionalidade, isto é, deixa de viver a ilusão da onipotência e passa para o espaço transicional na qual a dependência é relativa, a criança elege um objeto na qual parece estar aderida, chamada de objeto transicional. NETO (2007) conclui dizendo que Winnicott chama a atenção não para o objeto, mas sim para o uso que a criança faz desse objeto. De acordo com os dados obtidos na pesquisa, ocorreram categorias que possibilitam a compreensão de como o processo trancisional ocorre na equoterapia, sendo elas: Relação do praticante com o cavalo; relação do praticante com a equipe e relação do praticante com a família. 4 Relação do praticante com o Cavalo Essa categoria apresenta uma discussão referente à relação do praticante com o seu cavalo, observada durante a sessão de equoterapia, colaborando com essa categoria, segue informações obtidas pelas entrevistas realizadas com os pais. Na observação realizada com “P”, tais pontos foram de grande importância para um olhar sobre seus prováveis conflitos internos e sua relação com seus objetos. Em um determinado momento durante o atendimento na equoterapia, “P” manifesta comportamento agressivo com o cavalo verbalizando palavras como: “vamos, anda está devagar” e “o cavalo tem que me obedecer”. Sua relação com o cavalo fica restrita ao controle, na qual “P” diz que o cavalo não sabe fazer nada que ele manda. De acordo com o pai de “P”, até o início ano de dois mil e onze (2011), “P” era filho único, mas ao final do ano a mãe de “P” teve outro filho. Segundo o Pai de “P” , durante a gestação da mãe, “P” adorava a ideia de ter um irmão. Quando o irmão nasceu, o comportamento de “P” mudou, ficou afastado do irmão e não queria que o mesmo fica-se perto dele ou dos pais. Durante a sessão, conforme observado, “P” em nenhum momento manifestou afago com o animal, alguma atitude de carinho ou até mesmo um olhar direcionado ao 11 cavalo. Todos os exercícios que “P” fazia, eram realizados de maneira sádica e dominadora sobre o cavalo. Possivelmente “P” esta projetando no cavalo seus impulsos agressivos, relacionando o cavalo com a figura do irmão. Segundo DESSEN (1997) a mudança na família com o nascimento do segundo filho, modifica a estrutura dessa família, tais como, tarefas e relações familiares. Refere, ainda que, o primogênito tem que se ajustar a nova situação, podendo manifestar momentos de superioridade em relação ao irmão, sinalizar momentos na qual também se vê como um bebê com os pais ou demonstra controle a situação agredindo o irmão. Para WINNICOTT (1983) as relações transferências estão em pontos profundos no desenvolvimento emocional do sujeito com seu objeto. Segundo RAMOS (2007) na equoterapia o cavalo como objeto transicional recebe os impulsos projetados pelo praticante. NETO (2007) diz que o objeto transicional ora será tratado com muito amor e ora será tratada com muito ódio, por isso deve ser consistente. Segundo GONÇALVES (2003) o objeto transicional mostra-se firmemente em momento de trânsito, realidade versus impulsos. No caso de “P”, o uso de defesas psíquicas na tentativa de diminuir a angustia sofrida pelo ego é rebaixada na presença do objeto, neste caso o cavalo, na qual “P” não precisa sublimar sua agressividade e rivalidade com o irmão. Conclui-se que “P” está vivendo um momento de crise. Com a presença do irmão as relações familiares e seus papeis estão no campo da reestruturação. As projeções de “P” ao cavalo é o ponto identificador para a intervenção na tentativa de auxiliá-lo neste momento importante. Um ponto que possibilita o praticante se aproximar do cavalo, projetando nele suas fantasias são as atividades lúdicas (RAMOS, 2007). Durante a Sessão, “A” pede para ficar na posição de princesa (o praticante fica montado de lado no cavalo). Após alguns minutos retoma a posição de montaria clássica e sem a intervenção do terapeuta. “A” abraça o cavalo e fica abraçando-o por alguns segundos. Bleichmar (1992) diz que o objeto transicional está situado em uma zona intermediária, na qual a criança se exercita na experimentação com objetos. Na visão da equoterapia, RAMOS (2007), diz que a relação de um praticante com o seu cavalo dá-se na ordem do imaginário, onde esse animal passa a ser dotado de poderes e atitudes mágicas, entre o mundo interno e o externo. 12 Segundo RAMOS (2007), o cavalo como objeto transicional, reside no campo do brincar, permitindo que a criança fantasie situações na qual a mesma é dotada de um poder imaginário e simbólico qual a fonte. GONÇALVES (2003) diz que os objetos se constituem e trafegam na sede legítima do brincar e do viver autêntico. Esta tem importância enquanto área que intermédia e faz borda entre o dentro e o fora, portanto, enquanto brinca na transicionalidade, a criança repousa da árdua e incessante tarefa de ter que discriminar as realidades interna e externa. De fato, o cavalo como objeto transicional proporciona para o praticante a liberdade da fantasia e propicia que aos poucos, ela possa aceitar cada vez mais a realidade externa. Quando estamos falando em separações ou em situações novas e desconhecidas a criança experimenta angústia, medo e desamparo, o objeto transicional serve como um suporte, um apoio, para a criança. Em outra observação, o praticante “J” demonstra desejo e fantasias com o cavalo podendo estar associado à etapa de seu desenvolvimento edípico. Durante a sessão, “J” diz que “gostaria de montar como princesa”, montar em posição lateral no cavalo , logo uma das terapeutas tentou auxiliá-la, mas “J” recusou e voltou sua atenção ao outro terapeuta, neste caso terapeuta homem, e disse que agora ela estava bonita e poderia entrar na floresta, e terminou dizendo: “o cavalo me protege do lobo mal” [sic]. No caso de “J” sentimentos de amor e ódio, o medo da perda do objeto de amor primário e a angustia de castração são pontos que confrontam sua onipotência, ou afirmam seu processo de identificação sexual. Segundo EIZIRIK (2007) durante a etapa do Complexo de Édipo, a criança tem impulsos sexuais com relação ao genitor do sexo oposto e descarta aquele genitor do mesmo sexo. Quando afirmamos que o objeto transicional, no conceito winnicotiano, intermedia o mundo interno da criança com o seu mundo externo, estamos dizendo que esse objeto supre as angustias que a criança ainda não consegue resolver, por esse motivo, o objeto deve ser escolhido pela criança e não induzido, deve estar presente e nunca perdido. No dia de sua sessão, “L” chegou dez (10) minutos antes do seu horário. O seu cavalo não estava pronto e nem se encontrava no local de saída. “L” demonstrava muita ansiedade, por várias vezes, subiu e desceu os degraus da rampa de saída. Quando o cavalo apareceu, “L” logo subiu na rampa esquecendo-se de colocar os equipamentos de segurança. Enquanto outro terapeuta colocava os equipamentos de 13 segurança em “L”, a mesma olhava para o seu cavalo e apreçava o terapeuta alegando que o cavalo estava chegando. GONÇALVES (2003) dizia que objeto transicional é único e insubstituível, perdê-lo antes que a criança tenha podido dispensá-lo pode ser desastroso. Resultará não em perda do objeto, mas do “eu” e do sentido da existência. Na ausência de seu objeto, o praticante sente-se ausente e/ou incompleto. Ocorre que a própria criança vai dar sinais de que pode se separar do objeto transicional, que então sim poderá ser dispensado sem dor, pois o objeto se tornou sem significado para ela. De acordo com WINNICOT apud Gonçalves (1994), os objetos transicionais, quando se esgotam, não são alvo de repressão ou esquecidos, apenas relegados ao limbo. A separação não implicará em perda e isolamento, podendo o desenvolvimento, avançar às etapas de transição. Os objetos transicionais e à importância que eles cheguem a um bom termo, evoluem, e dão lugar aos fenômenos transicionais que nunca cessam, que se deslocam para os interesses culturais, atividades artísticas e experiências religiosas. No caso de “L” o objeto transicional é figura viva e angustiantemente inseparável. O cavalo está carregado de fantasias que não podem ser perdidas ou alteradas. 5 Relação do Praticante com a Equipe Esta categoria corresponde à identificação do praticante com a equipe, possibilitando a compreensão dos fenômenos trancisionais que surgem na sessão de equoterapia. Durante uma das observações realizadas, identificamos a praticante “J” , vivenciando a conflita edípica. Tal momento é observado quando “J”, diz: “quero ser princesa” (sic), (posição que o praticante fica montado de lado no cavalo), direcionando o seu pedido de uma forma sedutora ao terapeuta homem; quando a terapeuta mulher tenta auxiliar a menina na troca de posição, “J” recusa auxilio, olhando para terapeuta demonstrando superioridade. Segundo, SOIFER (1992), é muito comum nesta idade o sentimento de desvalorização em relação à mulher devido a castração. “J” manifesta desvalor pela figura da terapeuta mulher, possivelmente motivado pela hostilidade que possui com 14 sua mãe, devido a acusação da mesma não ter provido-a do pênis, segundo a autora anteriormente citada. Ainda sobre a conflita edípica, na observação de “J”, foi possível identificar o comportamento agressivo da menina com a aproximação da terapeuta com o seu pai. Na hora da despedida a menina agarra com firmeza o pescoço do seu pai, ignorando a presença da terapeuta se negando em dar tchau, apesar da insistência do pai, “J”, continua calada com o olhar agressivo. A menina toma o seu pai com objeto de amor. A mãe converte-se então no objeto de ciúme. A menina transformou-se em mulher SOIFER (1992). De acordo com os demais sujeitos observados não foram encontrados manifestações significativas com a equipe para essa categoria. 6 Relação do Praticante com a Família Esta categoria corresponde à relação do praticante com a família. Segundo Soifer (1983), a criança necessita do seu grupo familiar para seu desenvolvimento. Sendo assim, a família transmite a educação através dos cuidados físicos, alimentação, sono, locomoção, higiene, entre outros. Também é importante a capacidade de se relacionar no ambiente familiar, no qual a criança aprende a lidar e a elaborar os sentimentos de inveja, ciúme, narcísicos e, de contrapeso, aprende a desenvolver amor, respeito, solidariedade, características de gênero, para assim poder lidar com sentimentos anteriormente citados. Desse modo, a família não só auxilia nos aspectos internos, como também nos externos, ou seja, nas relações sociais: com os parentes, amigos e com os seres humanos de um modo geral. Para que num futuro ela possa se inserir nas relações de trabalho, e até mesmo nos relacionamentos de ordem afetiva, escolher parceiros, facilitando o desenvolvimento biopsicossocial. Sendo assim, podemos observar o comportamento de “A” , quando estava chegando perto de sua mãe com o cavalo, inicialmente tentou chamar a sua atenção , quando isso aconteceu, a menina, grita e pede para a mãe não se aproximar, mesmo com os elogios da mãe, “A” ignora e permanece com o olhar de agressividade para mãe.Para FREUD (1924), a fase do complexo de Édipo, as crianças apresentam um conflito interior e grande parte inconsciente, é o desejo de possuir o elemento do sexo 15 oposto e simultaneamente, a vontade de eliminar o rival do mesmo sexo, porque experimenta sentimentos ambivalentes de amor e ódio. Através da observação de “J”, podemos analisar a relação de filha com o pai. Na entrevista, “B” relata que somente ele pode trazer a menina, porque a menina pede e ele não se importa, sente prazer em acompanhar as atividades da filha. Na observação verifica-se que “J”, na presença do pai, se comporta de maneira infantilizada, cedendo aos “mimos” do mesmo. Segundo FREUD (1924), a criança vai desenvolver uma relação mais profunda com o pai (admirando-o cada vez mais). A ausência do órgão sexual masculino é ressentido como um abandono que ela procura negar, compensar ou reparar. Deste modo, a atração pelo pai é a oportunidade ideal para se vingar da mãe que a abandonou. De acordo com os demais sujeitos observados não foram encontrados manifestações significativas com a equipe para essa categoria. 7 Considerações Finais O presente artigo teve como finalidade identificar se dentro do atendimento em equoterapia seria possível identificar o cavalo como objeto transicional, se o animal poderia exercer a função de objeto mediador entre as fantasias internas da criança e a realidade que esta inserida. A análise realizada através da observação participante possibilitou a identificação sobre a importância que a figura do cavalo exerce para a criança, que além dos ganhos motores, o cavalo intervém entre a realidade e as fantasias da criança, que possibilita solucionar, aliviar, compreender e reorganizar seu desenvolvimento psicodinâmico. O cavalo na equoterapia aceita a criança sem rejeições e possibilita o espaço para que a mesma possa relacionar-se com o animal do seu jeito e no seu momento. As emoções e as sensações que a criança projeta no cavalo, configuram a mesma projeção referente a um objeto transicional, que devido às alterações de humor da criança, o objeto deve suportar momentos de agressividade, ou seja, o objeto ora será amado e ora será odiado. O cavalo como objeto transicional auxilia a criança no seu desenvolvimento, ajuda que a mesma sustente uma realidade interna que se amplia e evolui e a auxilia a diferenciá-la do mundo que não é o eu. 16 Ao concluir à colocação de Winnicott sobre a importância do objeto transicional para criança, salientado que sem o objeto a criança fica presa na onipotência e ao seu desenvolver utilizará de recursos primitivos para as resoluções de suas angustias e ansiedades, tornando-se um sujeito frustrado em suas relações objetais. 8 Referências Bibliográficas FREUD, Sigmund. A Dissolução do Complexo de Édipo – 1924. Obras Completas.Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago. 1976. Resistência uma ferramenta útil na mudança organizacional. Disponível em: http://www.aedb.br/seget/artigo08/263_Artigo_Resistencia_a_mudanca_SEGET.pdf. Acesso em 01 de junho de 2012. SOIFER, R. Psicodinamismos da Criança com a Família. Petrópolis: Vozes, 1983. SOIFER,R. Psiquiatria Infantil Operativa. 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