E NCONTROS POSSÍVE I S
A memória humana
em mídia: da arte em
pedra ao chip
Fred Belcavello
Tradução e texto
H
á alguns meses tenho ensaiado começar um diário. A sensação de deixar se perderem no vento as delícias de passagens cotidianas tem me
atormentado. Até mesmo para o simples registro de dados me pego vacilando, por exemplo, ao encontrar ex-alunos pela rua: “Oi, Fred!”. “E aí,
moça?!” - é o que devolvo, para não errar. Isso se agrava ao lembrar que quando criança construí no meio familiar uma razoável fama de garoto
com “boa memória”. Sabia de cabeça escalações de times de futebol, países e capitais, datas de aniversário de parentes não muito próximos, números de
telefone. Esse tipo de habilidade, porém, já não parece fazer tanto sentido (faz?). Tudo, uma vez armazenado, pode ser encontrado rapidamente numa
pesquisa na internet, em infinitos bancos de dados ou arquivos pessoais digitais. E o que fazer com a nossa memória?
Em passagem pelo Brasil, para vários eventos, a chefe do Departamento de Cultura, Mídia e Indústrias Criativas da King’s College de Londres, Anna Reading, expôs conceitos e pesquisas que fundamentam a discussão acerca da memória na atualidade, em face do contexto digital. Em Juiz de Fora (MG),
no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), conversou com a revista “A3”, em entrevista conduzida por
mim e pela diretora do Mamm, Nícea Nogueira.
- Fred Belcavello: Como as tecnologias digitais
vêm impactando a noção de memória, as práticas e formas de linguagem?
- Anna Reading: Penso que a memória digital
ou o que chamaria de memória “globital”, a
qual está relacionada com a digitalização, as
práticas digitais e a globalização, está alterando
radicalmente a memória humana de diversas
maneiras. Primeiro, em termos das práticas nas
quais estamos envolvidos, que largamente já se
tornaram inconscientes. Assim, por exemplo, se
você esquece o nome de alguém e precisa enviar
um e-mail, você pode acessar seus arquivos
digitais e localizar o nome e o e-mail por meio
de uma pesquisa. E isso não é muito diferente
do processo utilizado para armazenar aquela informação anteriormente. Também significa, em
termos de processos educacionais, uma vez que
há tecnologias digitais e conectividades, não ensinar crianças nas escolas a memorizar grandes
calhamaços de poemas, literatura, ou datas e
acontecimentos históricos. Trata-se muito mais
de “o que fazer com aquela informação” do que
ensinar crianças a decorar, porque a informação
está em todo lugar, e o conhecimento está lá,
em algum lugar da “nuvem”, para ser acessado
por nós. Isso também significa que a linguagem
atual e as metáforas que usamos para descrever
nossas memórias mudaram. Assim, influenciados pelos softwares que usamos, falamos em
“googar” coisas, por exemplo.
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“O ato de performance de certas memórias,
a performance de canções, a leitura de um
livro ‘material’, o aprendizado de um poema,
ainda penso serem cruciais como valores de
humanidade”
- Fred Belcavello: Você se preocupa com os prós
e os contras da memória digital?
- Há grandes benefícios que a memória digital
nos traz. Um deles é a capacidade de mudar as
relações de poder, no sentido de grupos privados
de direitos - minorias - capturarem memórias
que, por algum motivo, tinham se perdido.
Há uma pesquisa que faço, em websites, para
capturar memórias da comunidade romena,
da comunidade cigana na Europa. Trata-se da
maior etnia minoritária, somando 11 milhões de
pessoas, em 21 países europeus. Mas os ciganos
estão em todo lugar, porque foram forçados a
migrar. Assim, há ciganos na Austrália, na América Latina, na América do Norte. E é realmente
interessante perceber como eles podem capturar
em vídeo danças, poemas, elementos de cultura,
histórias... e há passagens horrendas, relacionadas com o holocausto. E essas histórias podem
se conectar de maneiras novas e contribuem
para mudar a autopercepção do povo romeno.
Isso muda sua identidade, de maneira muito
positiva.
- Fred Belcavello: E os contras?
- Acho que os contras estão relacionados a
quanto tempo nós gastamos olhando para telas.
E isso me preocupa. Muitas vezes me pego com
a TV ligada, iPhone em uma mão, iPad ao colo.
Com quantas telas podemos nos relacionar de
uma só vez?! E penso que isso se estende para
o fato de que devemos, também, lidar com tecnologia analógica. Outro fragmento de pesquisa
que realizo, por exemplo, observa um grupo de
protesto na Malásia que promove campanha
contra uma companhia de mineração. Os manifestantes acreditam que a empresa pode causar
poluição e radiação. Ao longo das negociações,
a companhia permitiu a entrada dos manifestantes no local, mas proibiu que tirassem fotos
- digitais - do relatório que a empresa preparou,
detalhando o que faria com o lixo produzido. O
que os manifestantes fizeram? Usaram lápis e
papel! Era um grupo de 30 pessoas, que permaneceram no local por uma hora, escreveram o
máximo que puderam e, assim, conseguiram os
documentos que precisavam. Então, acho que
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tecnologias digitais podem atuar como fantásticos facilitadores para memórias, particularmente para culturas marginalizadas, mas o ato de
performance de certas memórias, a performance
de canções, a leitura de um livro “material”, o
aprendizado de um poema, ainda penso serem
cruciais como valores de humanidade.
- Nícea Nogueira: Por que a globalização é
fator primordial nas discussões sobre memória
digital?
- Acadêmicos trataram globalização e digitalização como independentes, por um longo período.
E a maneira que considero em minhas pesquisas, particularmente nas relativas a telefones
celulares, concluiu que ambas trabalham juntas.
Assim, tem-se digitalização e globalização como
dinâmicas sinergéticas que estão mudando a
memória humana. “Globital” é a palavra que criei
para descrever isso, juntando “global” e “bit”, a
menor sequência contígua de dados em computação. “Globital” sugere que o processo de acesso às tecnologias digitais, múltiplos telefones,
múltiplos tablets, não é o mesmo para todos no
planeta; “Globital” é para sugerir que se trata de
um processo desigual, experimentado diferentemente por diferentes populações nos estados
nacionais, em termos de classe. Classes sociais
significam acessos sociais, e, possivelmente,
isso vale também para gêneros e etnias.
“Muitas vezes me pego com a
TV ligada, iPhone em uma mão,
iPad no colo. Com quantas telas
podemos nos relacionar de uma
só vez?!
E penso que isso se estende para
o fato de que devemos, também,
lidar com tecnologia analógica”
- Fred Belcavello: Por que você diz que a memória é fluida, polilógica e performativa?
- Por muito tempo, particularmente no que
tange às explanações sociológicas sobre
memórias coletivas, os estudos eram feitos,
frequentemente, dentro do contexto dos estados nacionais e do senso de memória nacional.
E esse senso de memória era amarrado e fixo e,
geralmente, direcionado a um objeto de análise
para o qual poder-se-ia “olhar para” - analisar
um museu particular, por exemplo, em termos
dos seus artefatos e exposições; ou a captura de
histórias de um povo específico. Mas, novamente, esse tipo de pesquisa fixa os objetos. O meu
ponto de vista é o de que a memória não é algo
fixo; ela está sempre mudando. Esta entrevista
[gravada em vídeo], assim que for publicada na
internet, será - espero - “tuitada”, segmentada, reutilizada. E isso, na minha visão, é bom.
Permite-nos escapar dentro da “rede”, de uma
maneira que, anteriormente, seria muito mais
lenta para mudar as “memórias em mídia”.
- Nícea Nogueira: Como você explicaria o conceito de “memória em mídia”?
- Acho que “memória em mídia” é um conceito
muito importante. Trata-se de pensá-lo em
três diferentes formas: uma, em termos do que
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Em passagem pelo Mamm, Anna Reading se encantou com a exposição “Um olhar livre”, do lituano Antanas
Sutkus, um dos maiores fotógrafos da antiga União Soviética
chamaria de orgânico, é o corpo, o corpo humano
em várias formas. E, em seguida, temos o dado,
o dado digital que pode ser dividido em dois: há
o vegetal - papel, livros etc. - e há a memória mineral. A memória mineral, é claro, está presente
nos computares, em forma de silício, ouro, nos
conectores e nas conexões. Esses três diferentes
tipos de memória têm longa história. Eu vivi por
quase dois anos na Austrália, e foi importante
para mim em termos de me encontrar com a
longevidade da “memória em mídia” aborígene.
Há exemplar de arte em pedra na Austrália de
50 mil anos e foi constantemente escoriado
por todo esse tempo. Aquilo é “memória em
mídia”, é o senso de primeira “memória em
mídia”. Existem seres humanos fazendo arte em
pedra, canções, danças. E, atualmente, temos
diferentes formas de “memória em mídia”, que
são imagens em iPads, websites, bem como na
grande mídia tradicional, como jornais, livros,
televisão etc. Eu incluiria, ainda, em termos
de elementos da “memória em mídia”, como
elementos materiais, espaços e edifícios. Uma
das coisas que me marcaram no meu curtíssimo tempo aqui no Brasil é o significado da
arquitetura. Existem edifícios realmente belos,
alguns estupendos arquitetos brasileiros com
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esse senso de um edifício como um espaço de
memória por um longo tempo que está por vir.
São os espaços pelos quais nos movemos que
realmente importam. Eles também são “memória em mídia”.
“Onde estão aqueles
espaços de memória
autorreflexivas que
acreditávamos serem
privados? Onde
poderemos externar os
pensamentos privados
que não diríamos a
ninguém mais?”
-
Fred Belcavello: O que é “memobilia” e quão
importantes são os telefones celulares para a
memória digital?
- Os celulares são realmente importantes para
a memória digital, para a memória humana,
atualmente. A grande diferença é que pode-
mos colocá-los no bolso, na bolsa, eles vivem
conosco. E, sejamos francos, quando não os
temos conosco nos sentimos ansiosos! Eu fiz
um estudo com alunos da London Southbank
University - instituto no qual trabalhava na
época - que disseram que quando não tinham
os celulares consigo sentiam-se nus, solitários,
ansiosos, e poucos deles, curiosamente, apontaram se sentirem livres. Portanto, esse é o tipo
de sentimento misto que temos com nossos
celulares. Entretanto, eles são uma “prótese de
memória vestível” e carregam memórias tão
mundanas quanto “lembre-se de trazer pão”,
que pedimos aos nossos companheiros no caminho de casa por meio de mensagem de texto,
e isso permanece lá por muito tempo, assim
como “eu te amo” e muitas outras mensagens,
misturadas, todas juntas. E há as imagens que
temos nos celulares. É interessante perceber
como as pessoas compartilham imagens de
suas famílias nos locais de trabalho, porque as
imagens estão nos seus celulares. Não faríamos
isso há 20 anos. Não levaríamos nosso álbum de
família para o trabalho, mas, rapidamente, compartilhamos imagens nos nossos celulares. Essa
tecnologia provê um tipo de espaço protegido
que faz com que não haja problema em mostrar
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o celular. Portanto, ele é muito importante. E o
que também mudou é a conectividade. O fato de
que mais espaços, atualmente, sejam pontos de
conexão, cobertos por rede wi-fi, significa que,
rapidamente, podemos publicar em redes sociais
as imagens que capturamos, acessar arquivos
de informação etc. Assim o que se tem são as
“memobilias” - representadas, por exemplo, por
jovens fotografando “selfies” (imagens de si
mesmo), trocando-as ao longo do dia infinitamente, publicando-as, preocupando-se com
essas imagens. E há, ainda, o que eu chamaria
de “wemobilia”, aquelas memórias que podemos
ter em situações coletivas.
“Há condições materiais
inerentes à nuvem para
as quais o usuário do
sistema também precisa
ser alertado”
No Brasil, poderia ser o carnaval: você tira fotos
do carnaval e compartilha; poderia ser o futebol.
Mas temos, ainda, “wemobilia” no caso de
imagens que testemunham atrocidades. Quando
ocorreram os atentados a bomba em Londres
em 2005, a primeira coisa que muitas pessoas
fizeram foi pegar o celular e tirar fotos, porque
os jornalistas não estavam nos locais atingidos,
ainda. Vemos mais e mais na dinâmica das grandes empresas de notícias o uso de imagens de
telefones celulares que, por sua vez, tem prazo
de validade muito curto. A pesquisa que fiz
sobre esse evento mostra que as imagens dos
atentados a bomba em Londres desapareceram
cinco anos depois. Portanto, elas não permanecem, e o que se tem no lugar são memoriais físicos para as atrocidades e mortes, túmulos, que
continuam importantes. Todavia, os celulares
são, ainda, os reis em termos de serem capazes
de, instantaneamente, capturar memórias de
eventos e compartilhá-las.
- Fred Belcavello: Nesse contexto, o que acontece com os limites entre a memória pública e
a memória individual?
- Essa é uma área mais problemática em face da
conectividade. Acho interessante, por exemplo,
que muitos pais optem por colocar imagens de
seus filhos no Facebook. Eu tenho dois filhos e a
política na nossa família é de que não publicamos fotos deles, porque eles não podem consentir. Quando eles completarem 18 anos, poderão
consentir. Fora isso é caso a caso.
Uma biografia on-line, sobre à qual crianças não
têm controle algum, é muito diferente de ter
um álbum de família, no qual há imagens das
nossas crianças compartilhadas por familiares.
Outra mudança interessante se dá pelos blogs
e o deslocamento de um diário privado para a
escrita para terceiros, o que significa sempre
estar em diálogo com outro. Isso pode ser bom,
e também mau. Onde estão aqueles espaços
de memória autorreflexivas que acreditávamos
serem privados? Onde poderemos externar
os pensamentos privados que não diríamos a
ninguém mais? Assim, penso que há grandes
deslocamentos em termos do privado e do público que ainda estão por chegar a uma definição.
Não sabemos ainda o impacto para nós, como
seres humanos.
riais. Frequentemente, as empresas estão em
tensão com comunidades locais, já que muitas
se instalam em cidades pequenas, porque os
terrenos são mais baratos, e, então, isso muda o
ambiente. Dessa forma, há condições materiais
inerentes à nuvem para as quais o usuário do
sistema também precisa ser alertado.
- Fred Belcavello: Quais as implicações da
adoção do sistema de nuvem como o principal modelo de arquivamento de informação
digital?
- O sistema de nuvem é interessante, em certa
maneira, até mesmo a metáfora por si só: é vaporoso! Sugere que não está em lugar nenhum,
que a memória não está alojada em lugar nenhum, e que não precisamos nos preocupar com
isso. Entretanto, nós nos preocupamos, porque
não sabemos onde estão. E o fato que importa
é que a nuvem não é uma nuvem. A nuvem é
uma fábrica. A nuvem é feita de vastas fábricas,
habitualmente em zonas rurais, porque são necessárias grandes extensões de terra para armazenar essa informação. Alguns sites, Google, por
exemplo, são tão grandes em termos de área,
que dão aos empregados bicicletas para que eles
possam circular. E a nuvem também consome
muita energia elétrica e outros recursos mate-
- Nícea Nogueira: Qual seria seu conselho para
um museu como esse, o Mamm, para preservar
em mídia digital sua coleção de literatura e
arte?
- Durante meu curto período na Austrália,
fiquei impressionada com o que o Governo fez
em termos do desenvolvimento do sistema
chamado “Trove”. Ele digitaliza objetos de uma
maneira particular que permite acessá-los a
partir de diferentes arquivos locais, permite que
as plataformas estejam conectadas. O grande
problema para a informação digital é, primeiro,
a longevidade. Frequentemente, digitalizamos
materiais sem o senso de como vamos realimentá-los no futuro, porque eles vão requerer
realimentação no futuro. O outro problema são
as conexões entre os recursos. Assim, a melhor
maneira é fazer parte de um sistema que não
tenha apenas as coleções do seu museu, mas de
todos os museus pelo Brasil afora.
“A linguagem atual e as
metáforas que usamos
para descrever nossas
memórias mudaram.
Assim, influenciados
pelos softwares que
usamos, falamos em
‘googar’ coisas, por
exemplo”
MAIS
Anna Reading
http://www.kcl.ac.uk/artshums/depts/cmci/people/academic/reading/index.aspx
http://annareadingarchive.com/
Confira a entrevista na íntegra: www.youtube.com/tvufjf
Confira a exposição “Um olhar livre”, do fotógrafo lituano Antanas Sutkus: http://www.museudeartemurilomendes.com.br/exposicoes/antanas/antanas.html
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