FUNDAÇÃO INSTITUTO CAPIXABA DE PESQUISAS EM CONTABILIDADE, ECONOMIA E FINANÇAS – FUCAPE ANGELO ROBERTO FIORIO CUSTODIO ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DE PROFISSIONAIS EM MOBILIDADE INTRANACIONAL: desafios e táticas de ajuste VITÓRIA 2013 ANGELO ROBERTO FIORIO CUSTODIO ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DE PROFISSIONAIS EM MOBILIDADE INTRANACIONAL: desafios e táticas de ajuste Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Administração, linha de pesquisa Finanças, da Fundação Instituto Capixaba de Pesquisa em Contabilidade, Economia e Finanças (FUCAPE), como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Administração – Nível Acadêmico, na área de concentração Estratégia e Gestão de Recursos Humanos. Orientador: Prof. Dr. Bruno Felix Von Borell de Araújo VITÓRIA 2013 FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pelo Setor de Processamento Técnico da Biblioteca da FUCAPE Custódio, Angelo Roberto Fiorio. Adaptação transcultural de profissionais em mobilidade intranacional: desafios e táticas de ajuste. / Angelo Roberto Fiorio Custódio. Vitória: FUCAPE, 2013. 63p. Dissertação – Mestrado. Inclui bibliografia. 1. Mobilidade profissional 2. Adaptação transcultural I.Fundação Instituto Capixaba de Pesquisas em Contabilidade, Economia e Finanças II.Título. ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DE PROFISSIONAIS EM MOBILIDADE INTRANACIONAL: desafios e táticas de ajuste ANGELO ROBERTO FIORIO CUSTODIO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Administração, linha de pesquisa Finanças, da Fundação Instituto Capixaba de Pesquisa em Contabilidade, Economia e Finanças (FUCAPE), como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Administração – Nível Acadêmico, na área de concentração Estratégia e Gestão de Recursos Humanos. Aprovada em 17 de Outubro de 2013 Comissão Examinadora _______________________________________________ PROF. DR. BRUNO FELIX VON BORELL DE ARAÚJO Fundação Instituto Capixaba de Pesquisas em Contabilidade, Economia e Finanças - FUCAPE Orientador _______________________________________________ PROF. DR. FÁBIO MORAES DA COSTA Fundação Instituto Capixaba de Pesquisas em Contabilidade, Economia e Finanças - FUCAPE _______________________________________________ PROFA. DRA. GRAZIELA FORTUNATO Fundação Instituto Capixaba de Pesquisas em Contabilidade, Economia e Finanças - FUCAPE AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, que me deu a vida por duas vezes; minha esposa, amada amiga que me mantém vivo, forte e fiel neste caminho; minha filha, com seus olhos sinceros e coração verdadeiro; minha família, por todo o apoio; meus amigos, meus companheiros de caminhada; à Fucape e a todos os seus colaboradores, em especial aos Professores Doutores Bruno Felix e Arilton Teixeira pela ajuda e compreensão... muito obrigado. LISTA DE TABELAS Tabela 01: Perfil dos participantes da pesquisa ........................................................ 30 Tabela 02: Códigos predominantes nas táticas de ajuste geral - Familia e Filhos .... 34 Tabela 03: Códigos predominantes nas táticas de ajuste geral - Complemento ....... 39 Tabela 04: Códigos predominantes nas táticas de ajuste quanto a interação .......... 42 Tabela 05: Códigos predominantes nas táticas de ajuste quanto ao trabalho .......... 44 RESUMO Esta pesquisa objetivou analisar como os profissionais brasileiros em mobilidade intranacional se adaptam ao novo contexto cultural ao qual são submetidos, analisando seus desafios, a fim de destacar as técnicas de ajuste empregadas pelos indivíduos. O estudo, de caráter qualitativo, foi realizado por meio de entrevistas com 20 profissionais de uma empresa, localizada no Estado do Espírito Santo e que vivenciaram o processo de mobilidade intranacional em suas carreiras. O estudo se encontra alicerçado em termos teóricos na abordagem de Black (1988), que apresenta três dimensões da adaptação transcultural: geral, interação e ao trabalho. Os resultados revelaram que a adaptação geral apresentou a maior incidência de dificuldades, principalmente no quesito adaptação de membros da família, seguida da dimensão adaptação à interação, na qual se destacaram as dificuldades em estabelecer vínculos sociais a despeito da pouca abertura de pessoas locais. Além de revelar os problemas encontrados durante o processo de adaptação transcultural intranacional, o estudo também revelou táticas de ajuste adotadas pelos indivíduos transferidos. O uso da tecnologia para facilitar a comunicação com pessoas chave e a associação social com outros profissionais em mobilidade intranacional para o Espírito Santo se destacaram como principais táticas para superar as dificuldades na dimensão de adaptação geral. Quanto à adaptação à interação, as táticas mais recorrentes foram a aceitação do outro em suas particularidades e a indiferença. Não se identificaram táticas relevantes na dimensão de adaptação ao trabalho. Palavras-Chave: Adaptação. Transcultural. Mobilidade. Profissional. Intranacional. ABSTRACT This research’s objective is to analyze how the Brazilian professionals in intranational mobility have adapted to a new cultural context to which they were submitted, analyzing their challenges, in order to highlight the adaptation techniques each employee applied. The qualitative research was done through interviews with twenty professionals of a same company in Espirito Santo, which underwent the intranational mobility process in their careers. The study is theoretically founded in Black’s (1988) approach, which presents three dimensions of transcultural adaptation: general, interaction and labor. The results reveal that the general adaptation presented greater incidence of difficulty, especially in the subject adaptation of family members, followed by the interaction adaptation in which the difficulty in establishing social bonds was highlighted in spite of the little opening of the local population. Aside from revealing the problems faced during the intranational transcultural adaptation process, the study also revealed the adjustment tactics adopted by the individuals who were transferred. The use of technology to facilitate communications with key people and the social association with other professionals in intranational mobility to Espirito Santo was highlighted as the main tactic to overcome the difficulties in the general adaptation dimension. As per the interaction adaptation, the most recurrent tactics were the acceptance of the others in their particularities and the indifference. No relevant tactics were identified in the adaptation to labor dimension. Key words: Adaptation. Transcultural. Mobilility. Professional. Intranational. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 8 2 REFERENCIAL TEÓRICO..................................................................................... 12 2.1 MOBILIDADE PROFISSIONAL....................................................................... 12 2.2 ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DE PROFISSIONAIS ............................... 15 3 METODOLOGIA .................................................................................................... 25 4 ANÁLISE DOS DADOS ......................................................................................... 29 4.1 CARACTERIZAÇÃO DOS SUJEITOS DA PESQUISA ................................... 29 4.2 ADAPTAÇÃO GERAL ..................................................................................... 31 4.2.1 Família e Filhos ........................................................................................ 31 4.2.2 Clima e Alimentação ................................................................................ 34 4.2.3 Entretenimento, Compras e Trânsito ..................................................... 35 4.3 ADAPTAÇÃO QUANTO À INTERAÇÃO......................................................... 36 4.3.1 Qualidade do Atendimento ..................................................................... 36 4.3.2 Relacionamento Interpessoal ................................................................. 38 4.3.3 Estereótipos e Gírias ............................................................................... 39 4.4 ADAPTAÇÃO AO TRABALHO........................................................................ 41 5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ........................................................................ 43 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 52 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 56 ANEXO I.................................................................................................................... 62 8 Capítulo 1 1 INTRODUÇÃO A economia global, composta por empresas multinacionais, demanda que profissionais sejam transferidos entre países, regiões e consequentemente diferentes culturas (CRAIDE et al., 2011). Esta estratégia é utilizada por empresas de diferentes portes e nacionalidades ao redor do globo. Frequentemente, surgem novas oportunidades, novos negócios e para tanto, expandir exige mover, ou transferir, profissionais entre regiões distintas dentro de um mesmo país, ação denominada Mobilidade Intranacional, ou para o exterior, a Mobilidade Internacional (CRAIDE et al., 2011). Ao inserir-se em uma nova cultura, o indivíduo está sujeito a diversos choques, o que exige resiliência dos envolvidos no processo de mobilidade. Como as disparidades culturais podem ser notadas entre regiões de um mesmo país (CHU, 2011), o que parece ser especialmente aplicável no caso de países com dimensões continentais e grande diversidade cultural, como o Brasil, Estados Unidos da América – EUA e China (CHU, 2011; HAMMER, 2011; PAN, 2011), o estudo da adaptação transcultural de profissionais que vivenciaram o processo de mobilidade intranacional pode revelar um cenário propício para o entendimento das dificuldades de adaptação dos mesmos. Quando profissionais são designados para atuarem em outros ambientes culturais, frequentemente, se deparam com novas situações de vida ou trabalho que podem facilitar ou dificultar o ajuste ao novo contexto. Ao processo de adaptação deste profissional a uma nova cultura, dá-se o nome de Adaptação Transcultural (MACNAB; WORTHLEY, 2012; HARRISON, 2012). Sobre o processo de adaptação 9 transcultural, muitos estudos já foram realizados, majoritariamente no âmbito internacional. Dentre eles podem-se citar os trabalhos clássicos de Black (1988) e Black, Mendenhall e Oddou (1991), que apresentam um modelo teórico que introduz uma perspectiva em três dimensões para a Adaptação Transcultural: Geral, ao Trabalho e à Interação. Mais recentemente, diversos autores têm explorado o tema Adaptação Transcultural na academia mundial sob a perspectiva de Black (1988) (p.e., HAMMER, 2011; PAN, 2011; LECHUGA; FERNANDEZ, 2011; CALIGIURI; TARIQUE, 2012; YOUSSEF; LUTHANS, 2012; TARAS; STEEL; KIRKMAN, 2012, MACNAB; WORTHLEY, 2012 e SPENCER-RODGERS et al., 2012), inclusive no Brasil (CRAIDE et al., 2011; CARVALHO, 2011; ARAÚJO et al, 2011, CRAIDE et al., 2011 e ARAÚJO et al., 2012). Analisando os estudos apresentados sobre adaptação transcultural, é possível verificar que este é um tema contemporâneo na academia, principalmente no âmbito internacional. Porém, verifica-se uma lacuna em compreender este processo entre culturas dentro de um mesmo país. No Brasil, país considerado multicultural (CRAIDE et al, 2011), esse tipo de pesquisa pode ser bastante útil para profissionais e organizações, dado o elevado número de deslocamentos intranacionais de profissionais (CRAIDE et al, 2011). Estudos sobre choques culturais intranacionais não são comuns, principalmente em países em desenvolvimento, como o Brasil. Internacionalmente vê-se em Pan (2011), uma pesquisa similar ao estudar a adaptação de alunos chineses na ilha de Hong-Kong, enquanto, Hammer (2011) avalia o desenvolvimento de competências/sensibilidade cultural majoritariamente em profissionais em intramobilidade nos EUA. 10 Se por um lado países de dimensões continentais, como os EUA e a China, apresentam em suas respectivas literaturas acadêmicas, trabalhos sobre o tema Mobilidade Intranacional, no Brasil nota-se uma lacuna de pesquisa nesse sentido. Uma exceção é o trabalho de Craide et al. (2011) que trata das experiências vivenciadas por quatro profissionais de diferentes Estados brasileiros movidos para o Estado da Bahia. Outra lacuna encontrada na literatura de adaptação transcultural de profissionais se refere ao fato de que esta é estudada predominantemente pela ótica dos desafios, de modo que a maioria destes estudos é de natureza quantitativa. Embora haja uma clara contribuição nessa abordagem dominante, notase uma necessidade por estudos que direcionem o foco não somente para os problemas da adaptação transcultural, como também para as táticas que indivíduos usam para superar tal problema [p.e. CHEN et al. (2009) e PAN (2011)]. Como afirmado por Araújo et al. (2013), nos escassos casos em que a adaptação transcultural é estudada pela perspectiva da solução para os desafios, isso costuma ser feito pelo olhar da organização, e não do indivíduo. Assim estes autores sugerem que novos estudos sejam realizados buscando identificar táticas individuais que migrantes usam para obter sucesso em mobilidades profissionais. De modo a preencher as lacunas encontradas na literatura, apresenta-se o seguinte problema de pesquisa: de que forma profissionais brasileiros em mobilidade intranacional superam os desafios de adaptação transcultural envolvidos em tal processo? Para responder a esta pergunta adota-se o seguinte objetivo para esta pesquisa: analisar como os profissionais brasileiros em mobilidade intranacional se adaptam ao novo contexto cultural ao qual são submetidos. Os objetivos específicos deste trabalho são: (1) compreender os desafios vivenciados por profissionais 11 envolvidos no processo de adaptação transcultural intranacional e (2) identificar as táticas usadas por estes indivíduos para superar tais desafios. Espera-se que esta pesquisa ofereça à academia contribuições teóricas no sentido de ampliar a inserção do conceito de Mobilidade Intranacional no contexto do Brasil, país multicultural e de proporções continentais. Da mesma forma que países como os EUA e China, que estão na vanguarda das pesquisas sobre adaptação transcultural em mobilidades intranacionais. O estudo ainda contribui no sentido de avançar em relação à literatura prévia à medida que atende às sugestões de estudos anteriores com o intuito de explorar as táticas de adaptação transcultural, estendendo o foco dos problemas às soluções. Em termos práticos, espera-se que ofereça aos gestores de Recursos Humanos, bem como àqueles que formatam estratégias de expansão para outras regiões, informações relevantes para a gestão estratégica e planejamento de treinamentos prévios. Esta contribuição pode minimizar o impacto negativo oriundo das dificuldades da adaptação transcultural dos profissionais envolvidos no processo de mobilidade intranacional. Esta pesquisa, de natureza qualitativa, foi realizada a partir de entrevistas com profissionais que passaram por um processo de mobilidade intranacional conduzido por uma empresa brasileira do ramo de mineração. Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo (BARDIN, 2010). 12 Capítulo 2 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 MOBILIDADE PROFISSIONAL As definições de mobilidade e migração são semelhantes, porém migração possui um entendimento mais amplo e genérico, enquanto a mobilidade está ligada ao indivíduo e sua liberdade de movimento. Na pesquisa de Geist e Mcmanus (2012), a migração é entendida pelo órgão americano responsável pelo Censo nos Estados Unidos, como sendo todo e qualquer movimento através das fronteiras entre municípios, onde o indivíduo altera necessariamente seu local de residência. De modo a padronizar o entendimento, neste estudo adota-se o conceito de Mobilidade como sendo todo ato humano de mover-se, o que inclui: a Emigração, quando o indivíduo sai de sua terra natal para outra região ou país; a Imigração, quando um indivíduo chega de outra região e; Migração que compreende este fluxo de ir e vir (KING; SKELDON, 2010; NIEDOMYSL, 2011). Com base neste entendimento, esta pesquisa esta baseada no entendimento de que mobilidade refere-se ao indivíduo e todas as suas movimentações, por iniciativa própria ou incentivada, onde o mesmo se fixa em uma nova residência. O foco do trabalho será a mobilidade interna estimulada por uma organização e exclusivamente no âmbito profissional, que será doravante chamada de Mobilidade Intranacional. Para Craide et al. (2011), a mobilidade, embora um conceito acadêmico recente tem sua origem na necessidade humana de liberdade e do direito de ir e vir, que permite à todos, desde o início dos tempos, mudar-se de acordo com suas 13 demandas e necessidades, o que leva invariavelmente ao encontro com novas culturas e aos choques relativos ao contato entre dois elementos distintos, sejam eles a comunicação, a alimentação, o clima, as relações entre tantos outros exemplos possíveis. Spencer-Rodgers et al. (p. 01, 2012) afirmam que esta é “a natureza do mundo, onde os objetos sociais são vistos como inerentes e contraditórios, fundamentalmente interconectados, e em constante fluxo”. O estudo das migrações é interdisciplinar e compreende as movimentações intranacionais e internacionais, esta última a mais estudada na academia. Para King e Skeldon (2010), entretanto, quantitativamente as movimentações internas são mais importantes, pois são realizadas em números mais expressivos. Estes autores pesquisaram as movimentações internas e externas, bem como o retorno de migrantes no México, inclusive de forma repetitiva, cruzando as informações colhidas com três abordagens, os sistemas utilizados, a integração dos migrantes entre si e a relação entre migração e desenvolvimento. Suas conclusões revelam que, de fato, existe um potencial considerável para integrar o estudo da migração interna e internacional, tanto em nível teórico, quanto empírico. A literatura internacional sobre mobilidade profissional na administração trata geralmente de movimentações internacionais, ou seja, a mobilidade internacional, que pode ser organizacional ou voluntária, como pode ser visto no trabalho de Araújo et al. (2011). Estes tipos de movimentação podem ser verificados também em Craide et al. (2011) em sua afirmação de que a grande maioria dos deslocamentos se dá dentro de um mesmo país, a chamada Mobilidade Intranacional, que também pode ser voluntária ou organizacional. A maior parte dos estudos que tratam as formas de mobilidade intranacional 14 possuem origem em áreas do conhecimento como sociologia e antropologia, e buscam muito mais compreender os efeitos desses movimentos migratórios, para os indivíduos, suas famílias e para o ambiente de destino, raramente dando importância ao contexto organizacional no qual tal mobilidade ocorre. Estudos como estes podem ser verificados em Pero (2009), em sua pesquisa sobre a Mobilidade no Rio de Janeiro, principal cidade turística do Brasil e possui um viés econômico e social. Este mesmo viés macroeconômico está presente em Dewaard et al. (2012), que busca compreender os padrões de migração e seus impactos na Europa. Enquanto Geist e Mcmanus (2012) estudam as diferentes razões, os diferentes resultados e as implicações da migração com base no gênero e na classe social do indivíduo. O entendimento sobre a motivação para a movimentação do indivíduo também é o foco dos estudos de Niedomysl (2011), incluindo na pesquisa considerações relevantes sobre o impacto da distância geográfica envolvida neste processo migratório. Outro fator relevante para o estudo da mobilidade sobre o indivíduo e suas dificuldades em lidar com os choques culturais pode ser visto no trabalho de Borges e Martins (2004), onde os autores propõem uma reflexão teórica sobre o sofrimento psíquico dos trabalhadores da construção civil brasileira. Na pesquisa foram analisados profissionais no Estado do Rio de Janeiro, oriundos de outras regiões do país, principalmente do nordeste brasileiro, e que, mesmo acuados pelas diferenças culturais, idealizam a cultura daqueles que lhe dão emprego, ainda que as condições de trabalho sejam desfavoráveis e até mesmo hostis. As conclusões da pesquisa apontam que o sofrimento gerado pela falta de ajuste a uma nova cultura pode afetar até mesmo a saúde física do indivíduo. 15 Dado o objetivo da pesquisa, de compreender como profissionais que aceitaram designações em outras regiões superam as diversas barreiras presentes na migração, e considerando que grandes empresas estão presentes em diferentes regiões, neste estudo trataremos apenas da Mobilidade Intranacional Organizacional de Profissionais. 2.2 ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DE PROFISSIONAIS Considera-se neste estudo que diferentes regiões, mesmo dentro de uma mesma nação, possuem diferentes culturas (PAN, 2011; CRAIDE et al., 2011), o que provoca um choque de adaptação em indivíduos que aceitem sair de suas terras natais por motivos profissionais. A este processo dá-se o nome de Adaptação Transcultural. A definição do termo Adaptação Transcultural remonta aos estudos sobre expatriados realizados originalmente por Black, Mendenhall e Oddou (1991) e trata do grau de satisfação psicológica do indivíduo à cultura do local onde este foi inserido. Este entendimento é adotado, por exemplo, por Araújo et al. (2011), que complementa a compreensão do fenômeno ao afirmar que o processo de adaptação se encerra quando o sujeito passa a realizar suas tarefas cotidianas normalmente, o que no âmbito internacional se dá, em média, após o período de 02 anos. Quanto ao estudo da adaptação, há muitas pesquisas sobre a adaptação de expatriados internacionais, seu contexto, desafios e dimensões. Para Woods et. al. (2012) e Pinto et. al. (2012), por exemplo, os elementos ambientais e pessoais são de extrema importância para elucidar o construto adaptação, uma vez que ambos influenciam diretamente o processo e impacta o desempenho da gestão dos elementos envolvidos na adaptação transcultural, cujo ponto focal é o indivíduo. 16 Para Black (1988) e Black, Mendenhall e Oddou (1991), a adaptação se dá em três dimensões, entendimento adotado em estudos posteriores (p.e., HAMMER, 2011; PAN, 2011; LECHUGA; FERNANDEZ, 2011; CALIGIURI; TARIQUE, 2012; YOUSSEF; LUTHANS, 2012; TARAS; STEEL; KIRKMAN, 2012, MACNAB; WORTHLEY, 2012 e SPENCER-RODGERS et al., 2012; CRAIDE et al., 2011a; CARVALHO, 2011; ARAÚJO et al, 2011, CRAIDE et al., 2011b e ARAÚJO et al., 2012). Para os autores, as três dimensões compreendem as esferas: Geral, quando a satisfação psicológica do indivíduo ao ambiente, ao clima, a alimentação entre outros; ao Trabalho, que trata da adequação da nova realidade às expectativas, padrões e valores relativos ao ambiente de trabalho e; à Interação social, que trata do conforto psicológico em relação às diferenças de comunicação e estilos interpessoais encontrados na nova cultura. As três dimensões citadas referem-se exclusivamente ao indivíduo, ao profissional em sua dimensão pessoal, e, portanto, concerne às organizações selecionar recursos humanos com um perfil que possa facilitar o processo de adaptação. É o que mostra Caligiuri (2000), em seu estudo ao examinar duas teorias que indicam quais características pessoais devem ser consideradas para uma pessoa suportar o processo de adaptação transcultural: o contato prévio com a cultura destino e a propensão ao aprendizado social. Auxiliar a seleção de recursos humanos considerando personalidades multiculturais e os mecanismos de avaliação de pessoal são o foco do estudo de Zee e Oudenhoven (2000) e Zee e Brinkmann (2004) que apresentam questionários de avaliação; enquanto Brummett et al. (2007) e Ponterotto et al. (2007), avançam pelo aspecto psicológico e demonstram a importância do bem-estar psicológico do 17 indivíduo. Ponterotto et al. (2007) contribui ainda com a afirmação de que o modelo com três dimenções é o que melhor se adapta à análise de personalidades multiculturais. Considerando tais afirmativas pode-se verificar no estudo de Woerkom e Reuver (2009) um avanço no entendimento da relação entre a personalidade multicultural de líderes de alta performance ao gerenciar equipes multinacionais. Ainda neste estudo encontram-se acertivas que suportam a teoria de que a empatia com a cultura, a iniciativa social e a “mente aberta”, ou seja, a propensão à mudança e à adaptação, são os fatores chave para a liderança transformacional. A adaptação subentende a superação de um choque, após o qual a organização espera que o profissional apresente, no mínimo, a mesma performance que este possuia antes da movimentação. O processo de superação ao choque e retorno à forma original é chamado de resiliência, que foi abordado por Carvalho (2011) em seu estudo sobre a relação entre a resiliência e a socialização de funcionários públicos em diferentes contextos culturais, especificamente brasileiros e noruegueses. As pesquisas em socialização organizacional apontam que a adaptação do indivíduo a um novo cargo e a uma nova organização tende a ser um evento estressor e a resiliência, que descreve os processos de superação do estresse e adversidades, poderia auxiliar a compreensão das diferenças nos resultados de socialização entre indivíduos numa mesma organização. [...] Os resultados demonstraram, de modo geral, que a resiliência contribuiu significativamente para explicar os resultados de socialização organizacional, independentemente da nacionalidade e da ocupação (CARVALHO, 2011, p.01). Para Bertsch (2012), “[...] as diferenças culturais são o resultado de variações dadas a diferentes valores”, o que condiz com a opinião de Chen et al., (2009) e sua proposta pela pesquisa sobre adaptação por meio de outras perspectivas, que podem ocorrer em regiões distintas dentro de um mesmo país. 18 No estudo de Hammer (2011), encontram-se revistos os conceitos seminais que compõem o Modelo de Desenvolvimento de Sensibilidade Intercultural – DMIS, quais sejam: negação, defesa, reversão, minimização, aceitação e adaptação. Estes estágios, postos graficamente em sequência condizem com a Curva “U” utilizada por Araújo et al. (2011) e Araújo e Broseghini et al. (2011) para exemplificar as etapas da adaptação de expatriados no Brasil e de seus cônjuges a uma nova cultura. A representação gráfica do processo de adaptação transcultural, composta por um momento negativo, uma curva de aprendizado e posteriormente o retorno ao patamar original, também representa o já conceituado processo de resiliência. Para Pan (2011), este é o conceito básico para a formulação de um modelo que oriente o entendimento sobre o processo de adaptação transcultural. Em sua pesquisa Pan (2011) critica a academia ao estudar apenas fatores estressores e as consequências negativas à saúde mental do migrante. O autor defende que o processo visto por meio da perspectiva psicopatológica da resiliência, deve ser focado nos resultados positivos, que contribuem para a geração de fatores protetores para a manutenção do bem-estar do indivíduo, elementos estes adquiridos durante a curva de aprendizado previsto pela teoria da curva “U”. Tais informações são relevantes para o entendimento do ajuste psicológico no processo de adaptação transcultural, uma vez que é o nível de conforto psicológico o que define a efetiva adaptação (ARAÚJO et al, 2011) . O estudo realizado por Pan (2011) é de suma relevância dadas as suas questões metodológicas, uma vez que a pesquisa foi realizada exclusivamente na China, com 400 estudantes originários do continente chinês que foram recrutados por seis universidades situadas em Hong Kong, uma ilha, denominada Região de 19 Administração Especial - RAE pelo governo do país, mas que permaneceu sob controle Britânico até o ano de 1997. A cidade portuária absorveu muito da cultura ocidental e possui um sistema administrativo diferente, o que contrasta diretamente com a cultura e política do continente chinês. O autor considera este contraste o elemento essencial que permitiu a realização da pesquisa. Questões geográficas, como o clima, também afetam a decisão de uma designação profissional para outra cultura, bem como decisões mais complexas como abertura de um novo mercado ou questões logísticas. Para Linnenluecke et al. (2012), o clima afeta diretamente a adaptação do indivíduo, pois a ocorrência de eventos climáticos afetam o cotidiano e a vida em uma determinada localidade, o que está diretamente ligada às dimensões Geral e quanto a Interação, propostas por Black (1988) e Black, Mendenhall e Oddou (1991). Linnenluecke et al. (2012) apresenta a importância de se considerar a ocorrência de eventos climáticos como furacões, inundações, nevascas, chuvas intensas e alagamentos entre outros, como forma de antecipar problemas na adaptação, melhorando assim a resiliência do indivíduo ao superar o impacto de algo negativo, e que de certa forma já era esperado. Outros autores que consideram os fatores geográficos e suas consequências culturais no mundo corporativo atual são Ho et al. (2011), que analisam o efeito dos fatores socioambientais, como a cultura nacional e o ambiente geográfico, sobre o Desempenho Corporativo e Social da organização, em relação às três dimensões culturais propostas por Hofstede, métrica esta que pode ser verificada também em Kogut (1988) em seu estudo sobre Distância Cultural. Os índices culturais das nações, concebidos originalmente em 1980 por Hofstede, foram reavaliados e 20 melhorados por Taras, Steel e Kirkman (2012), através do processo de meta-analise de 451 estudos empíricos, representando 2000 amostras e compreendendo mais de meio milhão de indivíduos de 49 países e regiões. O estudo de Taras; Steel e Kirkman (2012), e os escores sobre a cultura das nações de Hofstede, demonstram a demanda por um ranking para a distância cultural entre os países, porém o estudo original foi erodido pelas décadas e necessitava ser atualizado, mas ainda mantendo a mesma estrutura clássica, que combina: a Distância do Poder, o Individualismo, a Masculinidade e Fuga da Incerteza. Mesmo atualizando os índices à realidade socioeconômica atual, o estudo falha ao ignorar o Brasil como país e reunir todos os países da América do Sul em um mesmo patamar, sob o mesmo índice. Sobre as características individuais, temos vários estudos complementares, onde se destaca o foco sobre a capacidade do indivíduo em adaptar-se ou estar propenso a vivenciar um processo de adaptação transcultural. O tema foi estudado por vários autores, em destaque Kumar e Rose (2008) que avaliaram a literatura até então e estudaram a relação entre a propensão à mudança, a adaptação transcultural e o desempenho do trabalho. Em adição a este estudo vê-se em Macnab e Worthley, (2012), que a autoiniciativa, como característica individual do profissional, é a chave para o sucesso no desenvolvimento da capacidade de adaptar-se. Quanto ao empreendedorismo, como orientação individual, tem-se por referência a pesquisa de Runyan et al. (2012) que explora este elemento no contexto transcultural, explorando de forma multidimensional este conceito, de modo a mensurar a variância dos construtos. 21 O conhecimento e gerenciamento das habilidades que diferenciam um gestor eficiente, inserido em um contexto multicultural, e sua performance podem ser encontrados na pesquisa de Woods et al. (2012), que avalia o perfil de líderes expatriados e seu desempenho em uma nova cultura. Os autores consideram em sua análise a adaptação em diferentes dimenções e em uma sequência que obedece a teoria da Curva “U”. A afirmativa de que características individuais são relevantes esta presente na pesquisa de Araújo et al. (2012), que trata dos valores pessoais, como antecedentes com efeito positivo sobre o processo de adaptação transcultural de expatriados. “Os resultados apontam que a abertura à mudança está positiva e fortemente associada à adaptação geral e quanto à interação com pessoas locais, mas não com a adaptação quanto ao trabalho” (ARAÚJO et al., 2012). As diferenças culturais são um fator presente no dia-a-dia dos gestores de qualquer organização e necessitam de uma clara compreensão do processo de mobilidade, pois são estas diferenças que irão definir atitudes, comportamentos, funções e comunicação dentro da firma, podendo causar conflitos e afetar os resultados (KAWAR; JORDAN, 2012). Estes autores defendem que uma gestão de sucesso lida com qualquer bagagem cultural, independente de suas orientações. Chen et al. (2009) argumentam que mais importante do que as diferenças entre as culturas são as diferentes perspectivas, que realmente oferecem teorias inovadoras, tanto para a psicologia social quanto para o comportamento organizacional. As conclusões de Chen et al. (2009) são claras ao afirmar que tais perspectivas diversas sobre a cultura também estão presentes na cultura nacional, ou seja, no ambiente intranacional. 22 Considerando o argumento de Chen et al. (2009), e de acordo com os estudos sobre liderança em um contexto intercultural, como na pesquisa de Wang et al. (2012) e avaliando os aspectos positivos, como defendido por Pan (2011) e Araújo et al. (2013), os autores Youssef e Luthans (2012), avançam pelo entendimento de uma estrutura conceitual de liderança positivista, que vai além das diferenças ou similaridades entre culturas. Os autores avaliam as bases da diversidade, tanto local quanto global, com o objetivo de oferecer aos líderes novas formas de identificar pontos fortes em si mesmos e no ambiente para enfrentar de forma mais eficiente os desafios da gestão em ambientes multiculturais. Outra visão complementar é a necessidade de se repensar a educação em sociedades pluralistas e multiculturais, onde estudantes são expostos a diferentes crenças e tradições, muitas vezes contraditórias, e sem critério (WARNICK, 2012). O mesmo autor defende que a afinidade por uma determinada cultura carece primeiramente do desenvolvimento de senso crítico do indivíduo, este sim inserido na educação prévia, que prepara para uma realidade multicultural. Para Volkema (2012), o choque cultural fica explicito quando se analisa o processo de negociação entre partes com origens em culturas distintas. O autor analisa este comportamento em negociações brasileiras. Esta pesquisa revela a tendência da academia em buscar novas perspectivas (CHEN et al., 2009) para questões que exigem um olhar positivista, inclusive dentro de um mesmo país (YOUSSEF; LUTHANS, 2012), neste caso no Brasil (CARVALHO, 2011). Para o profissional em uma designação fora de sua cultura mãe, uma das possíveis técnicas utilizadas para suportar o processo de adaptação é o agrupamento junto a semelhantes, ou seja, a identificação de semelhanças entre 23 indivíduos que compartilhem afinidades e possam buscar apoio para seus problemas e dificuldades (BEATON et al., 2012). Estes autores, assim como Homan et al. (2012), avaliaram a adaptação de estudantes universitários em outras culturas. Esta mesma técnica é mencionada por Araújo et al. (2011) ao avaliar estrangeiros e sua adaptação à cultura brasileira. Acrescenta-se ao entendimento sobre como lidar com o processo de adaptação a uma nova cultura, a pesquisa de Ward e Kus (2012), que apresentam quatro atitudes ou formas de lidar com o processo de adaptação, quais sejam: integração, assimilação, separação e marginalização, que estão associadas à interação social na nova cultura. Destaca-se que esta pode ser uma das abordagens da dimensão da adaptação quanto à Interação de Black (1988). Outro elemento que afeta diretamente o processo de mobilidade e adaptação é a cooperação, tanto da organização, quanto de sua família para auxiliar o indivíduo a superar as adversidades. Leonard et al. (2012) avaliaram o conceito cooperação numa perspectiva transcultural, em 16 países e concluíram, após reunir 6452 respondentes, que a maioria esmagadora possui uma visão similar sobre este conceito, o que sugere que exista um entendimento universal sobre cooperação. Este conceito condiz com a afirmativa de que migrantes em dificuldades se agrupam em “ilhas” onde diferentes pessoas cooperam entre si e compartilham culturas semelhantes, uma vez que a cultura é socialmente construída por indivíduos (ARAÚJO et al., 2011). Para Spencer-rodgers et al. (2012) isso é um fato, pois traduz a complexidade da cultura observando que os “objetos sociais são vistos como inerentes e contraditórios, fundamentalmente interconectados, e em constante fluxo”. O autor 24 argumenta ainda que as diferenças encontradas são na verdade um fenômeno psicológico de cognição social, ao qual ele chama de estereótipos, que influenciam as relações entre grupos e entre culturas. 25 Capítulo 3 3 METODOLOGIA Com o objetivo de analisar como os profissionais brasileiros em mobilidade intranacional se adaptam ao novo contexto cultural ao qual são submetidos, optouse pela utilização de uma abordagem qualitativa para esta pesquisa. Os dados foram coletados a partir de entrevistas realizadas em uma empresa de mineração instalada no Estado do Espírito Santo e com unidades em várias regiões do país e do mundo. Todos os respondentes foram entrevistados com autorização e apoio da empresa. Os dados coletados foram analisados por meio de análise de conteúdo (BARDIN, 2010). Os aspectos metodológicos são detalhados nos parágrafos a seguir. Foram entrevistados 20 indivíduos, empregados de uma grande mineradora de abrangência nacional, oriundos de diversos estados brasileiros e que vivenciaram o processo de mobilidade intranacional, vindo de suas terras natal para residir e trabalhar no Espírito Santo, mais especificamente, na Região Metropolitana da Grande Vitória. A escolha da empresa se deu pelo fato de que tal organização possui unidades operacionais em diversos estados brasileiros, o que possibilitaria uma maior diversidade de experiências dentre os entrevistados. A conveniência no acesso aos funcionários e ao complexo industrial também se mostrou relevante para a escolha da empresa. A limitação da pesquisa a 20 indivíduos está embasada na orientação metodológica do trabalho de Poirier et al. (1983) e que fora adotada por Araújo et al. 26 (2011), de que um grupo de 20 a 30 entrevistados em geral permite a obtenção de dados suficientes para a realização de uma pesquisa qualitativa. Como após a realização das 20 entrevistas iniciais notou-se que não estavam sendo reveladas novas dificuldades e novas táticas de ajuste, optou-se por interromper a coleta de dados com esse número de participantes. Para o estudo foram selecionados profissionais provenientes de diversas regiões do Brasil, com perfis variados, de modo a cobrir um amplo espectro da realidade de profissionais em mobilidade no país. Inicialmente, a empresa foi contatada pelo autor deste trabalho e o projeto de pesquisa foi apresentado à Gerência de Recursos Humanos e apreciada pela comissão de pesquisas acadêmicas da biblioteca mantida pela empresa. Concedida a autorização para a realização da pesquisa com o corpo de funcionários da empresa, o setor social do Departamento de Recursos Humanos da empresa selecionou cinco profissionais com o perfil solicitado. As entrevistas foram realizadas dentro da própria empresa, em uma unidade situada em Vitória, no Estado do Espírito Santo e foram conduzidas pelo próprio autor deste trabalho. A partir dos cinco primeiros entrevistados, com autorização da empresa em questão, foi solicitado que os entrevistados indicassem outros profissionais que também tenham vivenciado a experiência da mobilidade intranacional de forma a possibilitar novas obtenções de dados. Assim, foi utilizada a técnica de amostragem bola de neve (HECKATHORN, 1997), na qual os sujeitos da pesquisa sugerem outros possíveis participantes, principalmente em suas redes de contatos pessoais. Esta técnica também tem sido adotada em pesquisas com profissionais em mobilidade profissional internacional (ARAÚJO et al., 2012; PELTOKORPI; 27 FROESE, 2009; ARAÚJO et al., 2013). Cabe ressaltar que os entrevistados indicaram outros profissionais que também trabalham na mesma empresa. Desta forma foram realizadas entrevistas presenciais, com duração média de 30 minutos. Um roteiro semiestruturado foi utilizado para as entrevistas. Este foi organizado em quatro grupos básicos de perguntas, a saber: demográficas; quanto a relação à adaptação Geral; à Interação e; ao Trabalho. Destaca-se que estes três últimos representam as três dimensões propostas por Black (1988). O direcionamento das perguntas buscava destacar dois aspectos principais: os problemas decorrentes do processo de ajustar-se a um novo local de moradia e trabalho e as táticas para adaptar-se a esse novo contexto. Apesar dos problemas não serem o foco desta pesquisa, e sim as soluções empregadas pelos profissionais entrevistados, foi importante identificá-los para detectar as soluções relacionadas. Uma das vantagens do uso de um roteiro semiestruturado é a possibilidade de manter a entrevista aberta a outros tópicos não previstos inicialmente nas três dimensões da teoria usada como referência para o estudo. Isso pôde ser verificado na inclusão do questionamento sobre os serviços de saúde e a prática de esportes que não haviam sido previstas, mas que foram mencionadas durante a pesquisa e posteriormente incluídas no roteiro. Todas as entrevistas foram então digitadas e passaram por uma análise de conteúdo temática, conforme sugerido por Bardin (2010). As informações demográficas foram inseridas em uma tabela de forma a melhor possibilitar uma compreensão de seu perfil, enquanto as três dimensões da adaptação (BLACK, 1988) foram dispostas em uma grade de dados e receberam em cada célula trechos das entrevistas, de acordo com seu conteúdo e adequação à dimensão. Em um 28 segundo momento buscou-se identificar a recorrência de significados e seu agrupamento sob cada dimensão, de modo a gerar uma matriz de dados com os trechos colhidos em cada entrevista. Para a apresentação da análise dos resultados encontrados, foram citadas evidências empíricas ilustrativas aos temas de cada grupo. Ao analisar o conteúdo das entrevistas utilizando esta metodologia foram encontrados problemas e as táticas individuais relacionadas para superar as situações. A opção por destacar as táticas de ajuste esta de acordo com a pesquisa de Chen et al. (2009), que defende que a busca por novas perspectivas positivas tem maior potencial para gerar novas teorias. 29 Capítulo 4 4 ANÁLISE DOS DADOS 4.1 CARACTERIZAÇÃO DOS SUJEITOS DA PESQUISA A pesquisa foi realizada em uma empresa do ramo de mineração, que possui várias unidades espalhadas pelo país e que se utiliza da política de mobilidade como forma estratégica de gerir os negócios. Por este motivo, muitos dos entrevistados vivenciaram esta experiência mais de uma vez. Por outro lado, a empresa, com seu porte transnacional, pode ser considerada um catalisador de profissionais em busca de ascensão em suas carreiras, por este motivo outra parcela dos entrevistados teve sua primeira experiência ao sair de seus estados de origem e optaram por aceitar uma designação no Estado do Espírito Santo, região Sudeste do Brasil, em uma das principais unidades da Mineradora e local da pesquisa. A escolha da empresa em questão para sediar a pesquisa, foi fundamentada no histórico de instalação da indústria no Estado do Espírito Santo e em suas características setoriais, que no caso desta pesquisa, favorecem a utilização da Mobilidade como estratégia. A partir da década de 1950 o Brasil passou por um período de desenvolvimento industrial, o que desenvolveu no litoral sudeste do país uma grande infraestrutura voltada para a produção e exportação de produtos, principalmente commodities, produzidos ou extraídos no interior do país. O Espírito Santo recebeu investimentos na indústria de base e em infraestrutura, como portos, estradas e ferrovias e se tornou um local propenso à atração de profissionais de outras regiões em busca de oportunidades de trabalho, principalmente no setor industrial e logístico. 30 A empresa escolhida é uma grande mineradora do ramo industrial de base, e opera, no Estado do Espírito Santo, suas usinas de beneficiamento, ferrovias e portos para exportação dos produtos. As minas de extração mineral estão localizadas em outras regiões, principalmente no estado de Minas Gerais, e são transportadas por vias férreas até o litoral. Outro ponto relevante é o fato de a sede administrativa da Empresa estar localizada no Estado do Rio de Janeiro, ao sul. A empresa possui ainda inúmeras unidades espalhadas pelo país, com destaque para as unidades de extração, beneficiamento e exportação localizadas na região norte do país, principalmente no Estado do Maranhão. Foram entrevistados 20 profissionais, em sua maioria homens, solteiros, sem filhos e com idade média de 32 anos, vide Tabela 1 para verificar o perfil dos entrevistados na pesquisa.. Esta informação oferece indícios de que o ramo de negócios da empresa em questão, uma indústria de base, atrai essencialmente este perfil de trabalhador. Tabela 01: Perfil dos participantes da pesquisa Idade: (média) 32 anos Sexo: 13 Homens 07 Mulheres Estado Civil: 13 Solteiros 07 Casados 06 Sim 14 Não Filhos: Se Sim, quantos? (média) Originário de onde? Estado de origem: 1,5 Filhos 10 Minas Gerais, 03 Rio de Janeiro, 02 São Paulo, 02 Santa Catarina, 01 Maranhão, 01 Bahia e 01 Paraná Sobre a empresa. Quantos anos de Empresa: (média) 5 anos e 11 meses Quando foi movido(a) para esta região? (média) 2 anos e 5 meses Já havia vivenciado esta experiência antes? 11 Não 09 Sim Fonte: Dados da pesquisa Coincidentemente a quantidade de homens entrevistados é igual ao número de solteiros e a quantidade de mulheres é igual ao número de casados, porém esta 31 não é uma analogia verdadeira, uma vez que a maioria das mulheres entrevistadas, 5 de 7, são solteiras, e apenas 5 dos 13 homens são casados. 4.2 ADAPTAÇÃO GERAL 4.2.1 Família e Filhos O processo de adaptação do profissional é impactado pelo processo de adaptação de seus familiares. Nesta pesquisa verificou-se que a preocupação com a família está presente na vida de todos os entrevistados, porém este elemento estressor é mais latente naqueles que se optaram pela mobilidade acompanhados de seus cônjuges e filhos. Ao analisarmos o perfil dos entrevistados que são casados, vê-se que a média de idade é de 38 anos e estes possuem no máximo dois filhos. Quanto ao cônjuge, verificou-se a preocupação com sua recolocação profissional e seu bem estar após o processo. Uma das coisas que mais impacta... pra mim não, que eu to [sic] trabalhando e eu interajo com todo mundo aqui... minha esposa tá [sic] sofrendo. (Entrevistado 7, homem, casado, 48 anos, Minas Gerais). Algumas desvantagens que eu tenho aqui (Vitória-ES), como por exemplo, o meu marido... a dificuldade do meu marido se recolocar no mercado... de trabalho. [...] é uma cidade mais cara... e meu marido tá sem trabalhar. (Entrevistada 10, Mulher, Casada, 32 anos, Bahia). O quesito família engloba ainda os filhos, que sofrem com a perda das referencias, tanto familiares quanto de amigos, além de impactarem também na rotina e logística diária, uma vez que, enquanto em idade escolar, tendem a necessitar dos pais para o translado entre a casa e a escola. A minha menina (mais nova)... ela já tava [sic] na escolinha, ela não pegou mudança. Meu menino, não, ele teve que se adaptar... pra ele é ruim porque ele perde a referência com os amigos de infância. (Entrevistado 7, 32 homem, casado, 48 anos, Minas Gerais). Minha filha não tem adaptabilidade de horário integral, ela foi de horário integral e não se adaptou, então a vinda (para a escola) seria comigo, mas a volta, com transporte escolar, com transito e tal... (Entrevistada 8, Mulher, casada, 32 anos, Rio de Janeiro). As táticas utilizadas para superar estas dificuldades variam conforme o problema de cada profissional. Em relação à recolocação profissional do cônjuge, por exemplo, esta depende ainda das qualificações do indivíduo e do recebimento ou não de apoio da organização que motivou a mobilidade de sua família. Sobre este ponto nenhum entrevistado relatou programas de auxilio à recolocação de seus cônjuges no mercado de trabalho. Para a entrevistada 10, cujo marido encontra-se desempregado desde a mudança de cidade, há mais de dois anos, a solução, ou compensação por esta condição de vida foi o marido, disponível em horário comercial, assumir grande parte do serviço de casa, inclusive cuidar da filha de 2 anos. Já para a entrevistada 8, também com uma filha pequena optou por uma escola mais próxima de casa, mesmo que esta seja de menor qualidade, de acordo com os seus padrões, com o intuito de resguardá-la do stress do trânsito. Esta se ressente da pouca disponibilidade de escolas em tempo integral. Eu optei em deixar em um lugar mais próximo a minha residência, pra resguardá-la. A oferta aqui é muito pequena, de horário integral então? É mínimo. (Entrevistada 8, Mulher, casada, 32 anos, Rio de Janeiro). Os filhos do entrevistado 7, de maior idade, encontraram na tecnologia dos meios de comunicação as ferramentas necessárias para reduzir as tensões e se manter em contato com seus amigos e familiares em sua cidade natal. Hoje diminui por causa das redes sociais, então eles ficam o dia inteiro lá conversando com os amigos. (SP7, homem, casado, 48 anos, Minas Gerais). A visão de que a adaptação da família é complexa e impacta nos resultados 33 do profissional em mobilidade é percebida pelos próprios entrevistados. Dos sete casados entrevistados, apenas um optou pela mobilidade sozinho, ou seja, sem trazer a família. É mais fácil assim. Meus filhos já estão grandes, o mais velho tem 20, o mais novo 18, já vão pra faculdade lá mesmo, deixa eles lá [...] Como eu sou de Minas (Gerais) visito minha família sempre que possível. (Entrevistado 15, Homem, casado, 47 anos, Minas Gerais). Estas opiniões suportam o argumento de que a adaptação do núcleo familiar impacta na adaptação do profissional, uma vez que este fica visivelmente preocupado com a condição da família durante sua jornada de trabalho. As táticas empregadas para superar estes desafios estão fortemente ligadas a: recolocação do cônjuge no mercado de trabalho; estar em contato durante o dia, principalmente via celular, como forma de monitorar a atividade e a situação dos filhos; bem como utilizar ferramentas de conexão, como a internet e redes sociais, para manter contato com a família e amigos nas regiões de origem, o que foi citado especialmente no caso de filhos adolescentes. Tabela 02: Táticas de ajuste geral – Família e Filhos Desafio Tática Descrição Utilizar a capacidade de deslocar-se regularmente de Viajar regularmente volta a sua cidade natal, principalmente quando a distância é relativamente pequena. Uso de ferramentas de comunicação, como telefone, Dificuldade em facebook, skype, mensagens de texto e e-mail, lidar com a Utilizar a Tecnologia principalmente quando o profissional possui filhos distância da família pequenos ou quando a distância é relativamente grande e não permite viagens regulares. Trazer a família Custear a vinda de familiares e amigos em visitas regularmente regulares Matricular a criança em uma escola de período Cuidar da educação integral, localizada próximo à casa ou ao trabalho, de modo a facilitar a logística diária de translado. Monitorar a movimentação e condição da criança Cuidar da Segurança durante o dia, principalmente quando a criança é Dificuldades com a dos filhos pequena. adaptação dos filhos Ter o auxilio do cônjuge nas tarefas cotidianas e de Ter o auxilio do cônjuge maior valor pessoal, como cuidar da casa, dos filhos e das obrigações fora da empresa. Manter contato Utilizar a tecnologia de comunicação disponível para constante monitorar e se comunicar constantemente com os 34 filhos e cônjuge durante o dia. Fonte: Dados da pesquisa 4.2.2 Clima e Alimentação As maiores dificuldades enfrentadas pelos profissionais entrevistados estão na dimensão da Adaptação Geral, que envolve não só o núcleo familiar, mas também a relação com o meio onde se foi inserido. Seguindo a metodologia proposta, verificou-se que os dados coletados foram muito amplos, pois estão baseados nas experiências individuais vivenciadas no processo. Este fato fez com que aspectos como o clima, por exemplo, que compõe a dimensão Geral da Adaptação, apresenta-se respostas como: Não, nada. (Entrevistada 1, Mulher, Solteira, 29 anos, São Paulo) Foi, porque eu tenho sinusite e rinite... Então eu de uma certa forma estranhei um pouco, porque o clima é diferente de lá. Eu ia direto pro hospital. (Entrevistada 2, Mulher, Solteira, 25 anos, São Luis do Maranhão). Não, quanto ao clima não. Isso é positivo por que lá na nossa região é muito frio. [...] Acho excelente. (Entrevistado 2, Homem, Casado, 29 anos, Minas Gerais). Quanto à adaptação à alimentação, tem-se mais uma vez uma ampla gama de respostas, porém a maioria não teve problemas. Destaca-se, entretanto, a dificuldade de adaptar-se a uma alimentação rica em frutos do mar, o que não é um consenso e foi citado tanto como algo extremamente positivo, quanto negativo. Algo que foi ponteado por 3 respondentes foi a utilização de temperos aos quais os profissionais não conseguiram se adaptar, e que não são comuns na culinária de suas terras natal. Com base nos depoimentos coletados pode-se afirmar que as técnicas de adaptação variam. Nos casos relacionados ao clima, variam de acordo com as preferências individuais sobre o conforto térmico, que pode ter relação com a 35 amplitude de variação da temperatura e umidade entre as cidades natal e destino, bem como em relação à propensão a doenças. Neste último caso aumentou a busca por tratamentos médicos, no caso de pessoas com maior sensibilidade e predisposição a afecções nas vias aéreas. Cada indivíduo, porém deixou claro que a adaptação exigiu a mudança nos hábitos de vida. Desde a forma de se vestir, passando por maiores cuidados com a saúde, até ao incentivo à prática esportiva, que pode ter relação com a localização da empresa pesquisada, ao lado de uma das praias mais movimentadas da região. Quanto à alimentação e a dificuldade de se adaptar aos temperos, a única técnica de ajuste relevante a ser citada foi dada pelo entrevistado 12 e sua relação com o preparo dos frutos do mar na região. Se for pra comer em um restaurante de frutos do mar, eu só como peixe grelhado, que é a única coisa aqui que não vai coentro. (Entrevistado 12, Homem, solteiro, 27 anos, Santa Catarina) 4.2.3 Entretenimento, Compras e Trânsito No quesito entretenimento, ainda dentro da dimensão geral da adaptação, as opiniões foram polarizadas entre: o grupo dos que vieram de grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte e que tinham uma grande oferta de opções de entretenimento e; aqueles que vieram de regiões menores do que a Grande Vitória, no Espírito Santo. Esta mesma tendência nas respostas foi verificada nos quesitos Compras e trânsito Enquanto o grupo originário de grandes centros, reclamou da falta de opções para entretenimento, o outro elogiou as opções disponíveis, principalmente as praias, como opção de lazer gratuito e acessível. 36 Neste quesito, destaca-se a conformidade com as opções disponíveis, porém, aqueles com mais recursos e que por ventura vieram de regiões próximas, como as cidades do Rio de Janeiro e Belo Horizonte, comentaram que a facilidade de ir e vir os possibilita frequentar opções de lazer em suas cidades natal. Da mesma quanto às compras, aqueles que tinham como opção a volta regular para suas regiões de origem efetuavam as compras de itens de maior valor agregado lá, principalmente roupas e acessórios, deixando para o Espírito Santo o consumo apenas de itens básicos e cotidianos, principalmente alimentos. Com relação ao trânsito a polarização das respostas fica evidente e demonstra que as impressões e experiências vividas estão sempre sendo comparadas às vivenciadas em suas regiões de origem. Mudar pra cá resolveu esse problema. Aqui eu chego em casa em 15 minutos. Em São Paulo o normal era gastar 2 horas. (Entrevistada 1, Mulher, solteira, 29 anos, São Paulo) Tudo aqui é muito bem sinalizado. De transito aqui tem a questão dos congestionamentos. Mas aqui, o pior é... eu tive muitas experiências ruins já com o capixaba... com o motorista daqui. O cara cruza na sua frente! Se você não tomar cuidado... eu já tive várias situações dessas e quase eu acidentei. (Entrevistado 15, Homem, Casado, 47 anos, Minas Gerais). Com base nestas respostas pode-se inferir que a proporção da cidade origem em relação a cidade destino influencia na percepção do profissional sobre os valores que este dá a determinados elementos, principalmente os três últimos: entretenimento, compras e trânsito. 4.3 ADAPTAÇÃO QUANTO À INTERAÇÃO 4.3.1 Qualidade do Atendimento No quesito Serviços, porém, houve consenso. Todos os 20 entrevistados, 37 reclamaram em algum momento da qualidade do atendimento, nos mais variados setores, desde restaurantes até oficinas mecânicas. Aqui eu vivo o TAC todo dia. [...] TAC, significa Típico Atendimento Capixaba. Eu sei exatamente quando o atendente é capixaba e quando não é... É ruim, é lento... sofro até hoje. Eu sofri na imobiliária, pra alugar um apartamento logo que eu cheguei. (Entrevistada 1, Mulher, Solteira, 29 anos, São Paulo). No réveillon, veio um casal de amigos nossos, daí agente foi num restaurante e realmente o tratamento foi muito diferenciado e na hora eu perguntei pra ele (o garçom). Você é capixaba? E ele “não”. Aí eu falei, ah, tá entendi... então assim... é típico. (Entrevistada 8, Mulher, Casada, 32 anos, Rio de Janeiro). Aqui falta cortesia e atenção com os clientes. (Entrevistado 6, Homem, Solteiro, 26 anos, Minas Gerais). A qualidade da mão de obra é baixa. (Entrevistado 7, Homem, Casado, 48 anos, Minas Gerais). Domingo, aqui não abre nada. Nem supermercado. (Entrevistada 10, Mulher, Casada, 32 anos, Bahia). Eu tive problemas com a qualidade do serviço, desde advogados até serviços mais simples. Se for um serviço substituível, busco não voltar mais. (Entrevistado 11, Homem, Casado, 37 anos) Parece que você precisa deles, eles não precisam de você. Principalmente vendedor. Você precisa do serviço, né? Tem coisa que você precisa se sujeitar. (Entrevistado 15, Homem, Casado, 47 anos, Minas Gerais). As técnicas utilizadas, em sua maioria, foram a simples aceitação e mudança de hábitos para lidar com a nova cultura, como no caso dos mercados fechados no fim de semana, como mencionado pelo Entrevistado 15. Porém, em alguns casos, onde o serviço é substituível, como dito pelo Entrevistado 11, o cliente não volta. Como os profissionais em mobilidade tendem a se reunir em grupos informais e partilhar suas dificuldades acontece que muitos estabelecimentos ficam taxados por seus serviços e passam a ser evitados por todos do grupo. Isso foi mencionado, inclusive, sobre o serviço de uma concessionária de automóveis, pelo Entrevistado 9. Tabela 03: Códigos predominantes nas táticas de ajuste geral - Complemento Desafio Problemas de Saúde e relacionados ao Tática de Ajuste Cuidar mais da Saúde Descrição Dar mais atenção aos sinais do corpo e sempre que necessário buscar ajuda médica 38 Clima Praticar esportes colabora para a melhoria da saúde e no processo de interação social Buscar mais informações sobre ingredientes Buscar mais informações antes e modo de preparo pode evitar problemas Alimentação de consumir alimentos em relação à saúde e/ou gostos particulares, regionais como temperos e frutos do mar, por exemplo Buscar informações sobre a agenda local de Avaliar a disponibilidade e eventos e a disponibilidade de opções fixas quantidade como parques, praias e pontos turísticos na região Entretenimento Retornar a sua cidade natal regularmente Viajar regularmente com o objetivo de obter o entretenimento ao qual o profissional esta acostumado. Determinados itens possuem maior valor Avaliar o valor pessoal pessoal e o profissional tende a adquiri-los onde se sente mais a vontade O profissional opta em adquirir na cidade Adquirir itens essenciais destino apenas os itens essenciais Compras A distância determina a frequência de viagens de volta à cidade natal, o que leva o Avaliar a distância entre as profissional a optar por onde comprar os cidades natal e destino itens que este julga como essenciais e de maior valor Identificar junto às pessoas que se tem contato informações sobre a qualidade dos Buscar informações serviços oferecidos por determinadas Qualidade percebida empresas, que passam a ser evitadas nos Serviços Após experiências positivas e/ou negativas Oferecer indicações informar aos colegas sobre a qualidade do serviço recebido e indicar suas preferências Fonte: Dados da pesquisa Praticar esportes 4.3.2 Relacionamento Interpessoal A visão dos profissionais sobre a qualidade dos atendimentos trouxe à tona comentários sobre a cultura local, sobre as pessoas e a dificuldade de manter relações sociais. O capixaba não é muito receptivo, assim, eu to [sic] falando de uma forma geral... em termos de comunidade mesmo, de sociedade. (Entrevistado 15, Homem, Casado, 47 anos, Minas Gerais). O capixaba é muito fechado. (Entrevistado 16, Homem, Solteiro, 32 anos, Minas Gerais). Uma coisa que eu estranhei aqui. As pessoas não vão na [sic] casa dos outros. [...] Eu conto no dedo os capixabas que vão na [sic] minha casa. Todos os outros, e são mais de 20, que frequentam a minha casa, são de São Paulo, Belo horizonte... todos são de fora. (Entrevistada 18, Mulher, Solteira, 36 anos, Rio de Janeiro). Amizades? Foi difícil... o capixaba é muito fechado. (Entrevistada 1, Mulher, Solteira, 29 anos, São Paulo). 39 A dimensão Interação Social foi em grande parte afetada pela percepção geral de uma cultura mais fechada aos que vieram de fora. Dentre todas as percepções desta interação cultural, a opinião do Entrevistado 11 foi a que mais se destacou: Ele (o capixaba) não é tão receptivo num primeiro momento, mas o vínculo que você faz com ele é mais duradouro. (Entrevistado 11, Homem, Casado, 37 anos, Paraná). Com base nas percepções sobre as respostas dos entrevistados, pode-se inferir que a dificuldade de relacionamento ocorre sempre no início do processo, mas tende a melhorar com o passar do tempo, o que demanda paciência e calma dos profissionais em mobilidade para esta região do Brasil. 4.3.3 Estereótipos e Gírias A comunicação não foi um problema. Muitos comentaram a dificuldade de se adaptar às gírias locais, mas para nenhum dos entrevistados, fazer-se entender foi um problema. Nos quesitos estereótipos e gírias houve uma ocorrência de bulling no trabalho. Neste caso tratava-se de uma profissional que viera da Bahia para o Espírito Santo. Em seu setor, sempre que algo dava errado alguém comentava que aquilo fora uma “bahianada”. Outro grupo que comentou os estereótipos de forma negativa foram os sulistas. O pessoal tira muito sarro de gaúcho. Eu não sou gaúcho, eu sou de Santa Catarina, sou catarinense, tipo manezinho de floripa e tal. Mas o povo brinca muito de “Ah, é Gaúcho!” Tudo o que é do sul é Gaúcho. (Entrevistado 12, Homem, Solteiro, 27 anos, Santa Catarina). O pior caso relatado por um entrevistado, em relação ao sotaque, foi vivenciado pelo entrevistado 19, que não conseguia se comunicar de forma clara 40 com nenhuma pessoa da região destino, pois seu sotaque era muito carregado. Seu caso exigiu auxilio médico. O caso de bulling no trabalho foi contornado após uma reunião pública, em grupo para evitar problemas futuros. Isso aconteceu aqui uma vez. Eu chamei todo mundo, conversei, falei que eu não ia permitir aquilo. Foi uma conversa muito aberta, com uma equipe muito bacana. Mas aqui dentro do nosso ambiente de trabalho isso não existe. Fora daqui, claramente eu não percebo, se fazem são bem discretos. (Entrevistada 10, Mulher, Casada, 32 anos, Bahia) A técnica utilizada, pelo entrevistado 12, de Santa Catarina, para se ajustar após as brincadeiras sobre sua região de origem foi entrar na brincadeira. Hoje eu nem ligo e brinco também. (Entrevistado 12, Homem, Solteiro, 27 anos, Santa Catarina). Quanto ao sotaque, em muitos casos relatados pelos entrevistados, este foi considerado algo positivo, pois colabora para “quebrar o gelo” (Entrevistado 8) com o capixaba. Já no caso do entrevistado 19, seu sotaque e sua dicção eram tão prejudicados que seu problema só foi resolvido após tratamento fonoaudiológico. Os códigos que melhor expressam as técnicas de ajuste utilizadas pelos profissionais entrevistados estão na tabela 04, abaixo: Tabela 04: Códigos predominantes nas táticas de ajuste quanto a interação Desafio Comunicação Tática de Ajuste Trabalhar o relacionamento Reunir-se em grupos de semelhantes e ampliar o tempo com os locais de convivência. Corrigir problemas de fala Levar na esportiva Gírias Mudar de perspectiva Levar na esportiva Sotaque Descrição Mudar de perspectiva Preconceito Fonte: Dados da pesquisa Buscar apoio de fonoaudiólogos Estabelecer um limite aceitável para as brincadeiras e comunicar este limite. Respeitando-se o limite estabelecido, as brincadeiras podem ser utilizadas como mecanismo de aproximação Estabelecer um limite aceitável para as brincadeiras e comunicar este limite. Respeitando-se o limite estabelecido, as brincadeiras podem ser utilizadas como mecanismo de aproximação Não deve ser tolerado e a empresa deve ser acionada para uma possível intervenção. 41 4.4 ADAPTAÇÃO AO TRABALHO Quanto à adaptação na dimensão Trabalho, houve poucos desafios, uma vez que toda a pesquisa foi conduzida em um ambiente controlado, ou seja, em uma única empresa. O padrões de desempenho, os valores, as equipes são semelhantes em todas as unidades da Empresa o que favorece à adaptação do profissional em mobilidade. As principais ocorrências de dificuldades estavam ligadas às relações interpessoais, e consequentemente à dimensão Interação Social, principalmente com as equipes compostas por capixabas. Na minha equipe têm mineiros e têm capixabas. Com os mineiros, como parece que a comunicação é mais fácil, então você lida melhor. Agora, os que são, parecem que são capixabas, eu não sei eles... eles têm um... não sei se a cultura, até o jeito de você falar com eles, você tem que saber como você fala, porque talvez você fala de uma forma clara, e talvez o cara ta entendendo que você tá questionando o trabalho que o cara ta fazendo, só que você não ta fazendo isso. Tá da forma correta cumprindo o protocolo. Tratando da mesma forma com um e com outro, e eles entendem diferente. (Entrevistado 2, Homem, Casado, 29 anos, Minas Gerais). Outro ponto marcante é o atendimento às expectativas do trabalhador em mobilidade. No geral, houve atendimento total, mas ao analisar os profissionais mais jovens e solteiros percebeu-se claramente que suas expectativas foram frustradas. Elas foram frustradas, mas não foi pela mudança de cidade ou coisa assim... primeiro se promete uma coisa e se faz outra. E o nosso programa ele foi mal planejado, mal administrado, então se criou uma expectativa e chega aqui e não é bem aquilo que você esperava. [...] Nós éramos 20 trainees, sendo 10 estrangeiros, esses mesmos foram muito frustrados. Os 10 sofreram com certeza muito mais. Totalmente desorganizado. [...] No meu caso eu cai numa área que não tinha nada a ver comigo, sem nenhuma explicação... mas foi valido pra aprender. Fui pra minha segunda rotação... meio forçado, não queria... to aberto a aprender mesmo. Mas aí na minha alocação final, que faz pouco tempo, teve alguns estresse aí... não vou jogar minha carreira fora, meu mestrado [...] Mestrado em logística. Trabalho em logística, mas não numa área que me interesse. Então isso aí foi muito frustrante e agora eu to saindo da Empresa. (Entrevistado 12, Homem, Solteiro, 27 anos). Vê-se, portanto que mesmo se considerando adaptado, a frustração das 42 expectativas foi capaz de minar a satisfação do profissional e motivar seu retorno à sua terra natal. Tabela 05: Códigos predominantes nas táticas de ajuste quanto ao trabalho Desafio Expectativas Relacionamento em Equipe Tática de Ajuste Descrição Buscar informações prévias sobre as reais Lidar com a frustração expectativas do trabalho conversando com superiores e pessoas na região destino Trabalhar a comunicação Ter paciência para ouvir os outros e se apoiar nas interna normas internas da empresa. Fonte: Dados da pesquisa Os entrevistados responderam ainda questionamentos sobre o apoio recebido pela empresa para a adaptação e apenas um, o entrevistado 7, recebeu apoio. Uma visita de reconhecimento antes de aceitar a designação, acompanhado de sua família, auxilio a mudança física, 90 dias em hotel até sua instalação definitiva e o recebimento de um salário extra. Do restante apenas os maiores cargos receberam ao auxilio de hospedagem em hotel e a mudança. 43 Capítulo 5 5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Uma vez que o objetivo desta pesquisa foi analisar como os profissionais brasileiros em mobilidade intranacional se adaptam ao novo contexto cultural ao qual são submetidos e com base no referencial teórico pesquisado, foi possível traçar um paralelo entre os dados coletados e as opiniões dos teóricos relacionados. Nos tópicos a seguir serão ponteados os elementos citados pelos entrevistados que estão de acordo com a literatura referenciada. Ao analisar o perfil dos entrevistados é possível identificar dois grupos distintos, os que possuem filhos e os que não possuem. Este último grupo composto pela parcela mais jovem e mais numerosa dos entrevistados. Entretanto o termo família foi considerado por todos os participantes, o que revela que este é o principal quesito estressor no profissional em mobilidade. Esta confirmação esta de acordo com o estudo de Araújo et al. (2011) que destaca a importância do cônjuge para a adaptação do profissional em processo de adaptação transcultural. O efeito sobre as famílias, verificado neste estudo, está de acordo com a premissa de Geist e Mcmanus (2012), que define que a movimentação do indivíduo para ser considerada uma mobilidade demanda necessariamente a mudança do local de residência, o que afeta diretamente os laços familiares. Quando a família se refere aos genitores e irmãos, o elemento que mais afeta o indivíduo é a saudade, que é minimizada por dois fatores principais: a possibilidade de se comunicar com relativa facilidade, por meio de dispositivos móveis de comunicação, quais sejam o telefone ou a internet, presentes e 44 acessíveis a todos os entrevistados; e em segundo lugar a possibilidade de viajar regularmente de volta a terra natal, o que é diretamente proporcional à distância entre a Unidade da Mineradora no Estado do Espírito Santo e a cidade onde a família se encontra. Esta constatação vem agregar maior entendimento ao estudo de Niedomysl (2011) que avaliou os impactos da distância geográfica no processo migratório, elemento também citado por Craide et al. (2011). A consistência do elemento distância entre a região origem e destino condiz com as afirmativas de Pan (2011) e Craide et al. (2011), sobre a presença de diferenças culturais internas em países com dimensões continentais. Da mesma forma a afirmativa de que a saudade afeta o processo de adaptação esta de acordo com o estudo de Borges e Martins (2004) sobre o sofrimento psíquico do profissional em processo de adaptação à uma cultura distante da sua. Neste quesito, verificou-se que os entrevistados originários dos estados vizinhos sofrem relativamente menos do que os que vieram de estados mais distantes, como Paraná e Maranhão. Mesmo que a internet permita uma comunicação diária com a família a saudade ainda é o elemento de maior impacto, vide tabela 02. Quando o quesito família envolve a presença de filhos em meio ao processo de adaptação, o profissional sofre ainda mais, uma vez que a preocupação com o bem estar e segurança da criança esta sempre ocupando parte dos pensamentos do indivíduo. Nestes casos verificou-se que o cônjuge é a peça fundamental para a superação das dificuldades, uma vez que este assume a responsabilidade de cuidar da criança durante o horário de expediente. O estudo de Araújo et al (2011) sobre o apoio dado ao cônjuge durante o processo de adaptação corrobora a importância do 45 companheiro durante a mobilidade. Nas pesquisas de Woods et al. (2012) e Pinto et al. (2012), destacam-se a importância dos elementos ambientais e pessoais no processo de adaptação. Neste ponto os dados da pesquisa apontam para a incompatibilidade entre os horários de trabalho e o período em que os filhos permanecem na escola. Enquanto a empresa exige uma disponibilidade de 9 horas, em média, a maioria das escolas na região não oferece o período integral, principalmente para crianças maiores. Isso aumenta o grau de estresse do funcionário e exige ainda mais a participação da família, principalmente o cônjuge. Ao lado da educação dos filhos está a preocupação com a segurança, vide tabela 02, uma vez que a criança precisa se deslocar de casa à escola, seja utilizando o transporte publico ou particular. Em todos os casos, esteja a criança sozinha ou acompanhada, todos os entrevistados se utilizavam de celulares para monitorar constantemente este processo. Este elemento é tão importante que um dos entrevistados optou pela mobilidade sem a família para preservar a rotina dos filhos e do cônjuge. Essa decisão, porém, só foi possível, pois morando no estado vizinho, o profissional pode voltar para casa quase todos os fins de semana. O estudo de Carvalho (2011) fala sobre a resiliência do indivíduo para superar choques e se adaptar. Ao analisar a adaptação dos profissionais entrevistados o elemento mais pessoal e que reflete o amplo aspecto que envolve a adaptação é a saúde. Neste ponto os resultados foram os mais dispersos, predominando a atenção redobrada aos cuidados com a saúde, porém não se pode generalizar nenhum resultado obtido, uma vez que os efeitos sobre a saúde e seus cuidados podem ter 46 várias origens distintas. Variando, desde aspectos climáticos e ambientais, confirmando a pesquisa de Linnenlueck et al. (2012), até o medo de ficar doente longe da família. Alguns relataram que a facilidade de acesso às praias é um incentivo a prática esportiva, mas este não foi um consenso entre os entrevistados, pois tem relação direta com o Estado de origem do indivíduo e se lá havia praias ou não. O aspecto geográfico também é citado como relevante por Ho et al. (2011). O mesmo se deu quanto à adaptação aos alimentos típicos da região, o que mais uma fez reproduz a enorme complexidade da adaptação humana, não sendo possível determinar nenhuma conclusão com os dados coletados, destaca-se apenas o cuidado em saber com antecedência quais os ingredientes utilizados. Outro elemento que impacta diretamente na qualidade de vida do indivíduo e consequentemente em sua adaptação é seu acesso a meios de entretenimento, ou o consumo de meios de entretenimento. Mais uma vez o quesito distância se sobressaiu, pois aqueles que possuem a capacidade de voltar a suas terras natais com facilidade e constância, o fazem para relaxar e consumir produtos culturais, oferecidos em maior quantidade, principalmente nos estados vizinhos do Rio de Janeiro e Minas Gerais. As questões relativas às compras obtiveram respostas semelhantes ao entretenimento, pois ambas obedecem à lógica do consumo e a propensão do indivíduo a manter os hábitos de consumo de sua terra natal. Caso a distância permita, este prefere esperar e comprar os itens de maior valor pessoal em sua cidade de origem, deixando para o local onde reside atualmente o consumo apenas dos itens essenciais. Entretanto, quando se abordou o elemento qualidade no atendimento captado 47 através da percepção do indivíduo quanto a prestação de serviços, presente nos dois itens anteriores, entretenimento e compras, as respostas foram unânimes: o atendimento na região onde estavam alocados durante a pesquisa, ou seja, a região metropolitana da Grade Vitória, no Estado do Espírito Santo, foi considerado ruim. Este item chama a atenção por ter sido enfatizado por todos, mesmo durante outros questionamentos. A principal técnica utilizada foi a mudança de estabelecimentos e a busca por informação, entre os conhecidos, sobre indicações dos melhores estabelecimentos. A tática de ajuste que leva o profissional a mudar de estabelecimento com facilidade esta de acordo com a pesquisa de Craide et al. (2011) e Kumar e Rose (2008) ao avaliarem os efeitos da propensão à mudança no processo de adaptação. Outro elemento chave, encontrado no estudo de Macnab e Worthley (2012) é a autoiniciativa, que leva o individuo a buscar opções e indicações, de modo a resolver o problema. Identificar tais características individuais como importantes para cargos que demandem interação multicultural é foco dos estudos de Zee e Oudenhoven (2000) e Zee e Brinkmann (2004). A própria busca de informação entre os conhecidos, em sua maioria outros profissionais também em mobilidade, demonstra que estes se agrupam entre semelhantes em busca de apoio para superar problemas e dificuldades (BEATON et al., 2012). Já Araújo et al. (2011) chama este agrupamento de “ilhas”, onde diferentes pessoas cooperam entre si e compartilham culturas semelhantes, elemento também encontrado na pesquisa de Craide et al. (2011). Percebe-se pelos dados coletados que o atendimento está intimamente ligado ao relacionamento interpessoal, o que introduz a dimensão quanto a Interação 48 Social. Neste tópico o elemento de transição é a comunicação. A percepção de todos os entrevistados foi que o capixaba, ou seja, os nascidos no Espírito Santo é um povo fechado e não receptivo ao que vem de fora, mas que mantém vínculos duradouros depois de vencida esta etapa. A comunicação em si não foi uma barreira, mas a abertura ao diferente sim, exigindo paciência dos profissionais em mobilidade. Não apenas paciência, mas a empatia com a nova cultura e a “mente aberta”, como defendido por Woerkom e Reuver (2009), são elementos chave para a interação do profissional. No estudo características mais de Caligiuri (2000) encontram-se afirmativas sobre as importantes para o profissional suportar o processo de adaptação, neste caso a propensão ao aprendizado social é o que mais afeta a dimensão quanto à Interação. Ainda avaliando o aspecto comunicação, as gírias regionais e os diferentes sotaques foram os elementos mais lembrados pelos entrevistados. Entretanto as respostas foram mais uma vez muito dispersas, variando desde aspectos muito positivos, como a quebra de barreiras até casos de bulling no ambiente de trabalho. Estes relatos estão de acordo com a pesquisa de Borges e Martins (2004) sobre o sofrimento psíquico que trabalhadores migrantes podem sofrer ao migrar para regiões com culturas distintas das de sua terra natal. Lógica embasada nos estudos de Pan (2011) e Craide et al. (2011) ao afirmar que há diferenças culturais em países com dimensões continentais, como no caso do Brasil. Pode-se considerar que a motivação pessoal que leva o indivíduo a tratar o outro de forma preconceituosa apenas por sua origem, mesmo no âmbito intranacional, é um caso que merece uma atenção especial. Todavia este aspecto foi 49 detectado nas entrevistas e o profissional pode se posicionar de quatro formas diferentes integração, assimilação, separação e marginalização (WARD; KUS, 2012). As técnicas utilizadas pelos entrevistados para lidar com os desafios que envolvem as gírias e o sotaque foram: levar na esportiva e tentar usar o diferente como elemento para quebra de barreiras entre as pessoas, ou seja, mudar de perspectiva, ou seja, Assimilação e Integração como afirmaram Ward e Kus (2012). As experiências vividas pelos entrevistados, confirmam as diferenças culturais brasileiras e condizem com a afirmativa de Bertsch (2012) que “as diferenças culturais são o resultado de variações dadas a diferentes valores”. Outros elementos presentes na dimensão quanto à Interação não apresentaram dados relevantes para serem considerados barreiras à adaptação e por este motivo não destacaram técnicas de ajuste. O processo de interação, baseado na comunicação, é complexo e causa efeitos negativos na adaptação, entretanto a capacidade de superação do indivíduo, ou como afirma Pan (2011) a psicopatologia da resiliência, deve destacar os aspectos positivos, que introduzem elementos protetores do bem estar da pessoa e a permite recuperar a normalidade na execução de suas atividades, e atingir a efetiva adaptação, como afirma Araújo et al. (2011). Em relação à terceira dimensão, a adaptação ao Trabalho, não houve relatos de barreiras consideráveis. Pode-se conjecturar que este fato ocorreu dado a limitação básica da pesquisa, a entrevista de profissionais de uma única empresa, e que mantém os mesmos padrões de trabalho em todas as unidades. A mobilidade é motivada (NIEDOMYSL, 2011), e uma das motivações possíveis pode ser a geração de expectativas de melhores salários ou ascensão 50 profissional. Contudo, houve relatos de frustrações quanto às expectativas geradas pela Mobilidade. Isso pode ser entendido quando se avalia que muitas vezes o profissional não recebe informações suficientes sobre a realidade cotidiana fora da empresa, na cidade onde este será instalado. Da mesma forma que a falta de informação pode frustrar ela também pode surpreender, como no caso do trânsito da região metropolitana. Para quem veio de cidades pequenas, um caos, para quem veio de cidades grandes, um benefício. A frustração com relação a satisfação psicológica do indivíduo é o que caracteriza a não adaptação (BLACK, MENDENHALL, ODDOU, 1991) e pode ser considerada a causa primária para os casos de retorno ou abandono do emprego. Para Craide et al. (2011) “falta amparo da empresa que os contratou, [...] visto que, [...] simples ações [...] e informações previas teriam sido importantes, neste momento de interculturalidade intranacional”. Em relação aos desafios encontrados nas expectativas profissionais, o elemento mais citado foi a conversa com os superiores, em busca de informações e entendimento. O relacionamento em equipe, também citado, nesta dimensão, também exigiu conversas e informação, mas como trata da interação entre pessoas, dimensão já citada, o código paciência se repetiu, como pode ser visto na tabela 05. Há a possibilidade de a não detecção de barreiras consideráveis na dimensão da adaptação quanto ao trabalho vá além da mera padronização da cultura interna da empresa nas diversas unidades espalhadas pelo país. A unidade de informação proposta pela política interna da empresa pode atrair profissionais sem perfil multicultural, ou seja, sem abertura à mudança. De acordo com Araújo et al. (2012) “a abertura à mudança está positiva e fortemente associada à adaptação geral e 51 quanto à interação com pessoas locais, mas não com a adaptação quanto ao trabalho”, exatamente as dimensões que apresentaram maiores problemas nesta pesquisa. Uma oportunidade de desenvolver profissionais mais abertos à mudança pode estar na proposta de Warnick (2012) ao defender a reavaliação da educação em sociedades pluralistas e multiculturais, como a brasileira. 52 Capítulo 6 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta pesquisa teve por objetivo analisar como os profissionais brasileiros em mobilidade intranacional se adaptam ao novo contexto cultural ao qual são submetidos e; quais táticas foram empregadas no processo. Informação relevante para as empresas que precisem minimizar problemas futuros com seus profissionais em mobilidade. As principais considerações sobre a questão de pesquisa giram em torno da Adaptação Geral e Quanto a Interação, que apresentaram as maiores preocupações aos entrevistados, especialmente quanto à família e aos filhos e processo de interação social fora da empresa. Quanto à família e filhos as táticas que se destacam dependem do acesso aos meios de comunicação e a capacidade de voltar regularmente à terra natal. Paralelamente, a Adaptação quanto a Interação apresentou restrições no âmbito do relacionamento com os nativos regionais e peculiaridades da comunicação, como sotaque e gírias. Como tática, dar tempo para que os capixabas se abram aos de fora foi o destaque, bem como o agrupamento dos migrantes em “ilhas” auxilia no compartilhamento das dificuldades. Dentro da empresa o apoio de reuniões e conversas com a equipe de trabalho foi a solução para os problemas de relacionamento e bulling ao profissional em mobilidade. O estudo foi realizado em uma grande empresa de mineração, instalada no Estado do Espírito Santo e os entrevistados foram profissionais que vieram de outros estados para trabalhar nesta região. Estes elementos representam uma limitação à pesquisa e ao mesmo tempo uma sugestão de pesquisa futura. Da mesma forma, 53 sugere-se que a realização de uma pesquisa quantitativa complementar que vise quantificar o impacto dos construtos propostos sobre a adaptação do indivíduo. A pesquisa apresenta algumas limitações e consequentemente considerações. A primeira delas foi a realização apenas com o fluxo de profissionais para uma zona metropolitana. Os dados da pesquisa indicam que o processo de mobilidade quando ocorre em direção à áreas menos povoadas pode apresentar outros tipos de problemas e exigir outras táticas não mencionadas. Sugere-se portanto que este estudo avance nesta direção, de compreender quais são as demandas do processo de adaptação para destinos menos urbanizados. Em segundo lugar a pesquisa se caráter qualitativo não pode concluir as causas e efeitos de cada tática em relação aos problemas relacionados. Sugere-se portanto que novas pesquisas, especialmente quantitativas, revelem informações numéricas sobre o peso de cada tática no processo de superação da adaptação. Em terceiro lugar a utilização de apenas uma empresa limitou a percepção de problemas na dimensão Trabalho. Sabe-se, porém que muitos profissionais optam pela mobilidade para aproveitar novas oportunidades de trabalho e consequentemente mudando de instituição. Sugere-se que novas pesquisas possam avaliar o processo de adaptação intranacional independente da empresa. Em quarto lugar, a localização geográfica da pesquisa e o fluxo apenas de chegada de profissionais ao Estado do Espírito Santo, limita as conclusões apenas aos casos estudados. Porém, fica a sugestão de replicar este estudo variando as direções da mobilidade, variando origens e destinos, de modo a verificar a influência do porte das cidades de origem em relação ao destino, um questionamento identificado nos dados coletados, mas que não faz parte do objetivo desta pesquisa. 54 Aos profissionais da área de Gestão Estratégica de Recursos Humanos fica destacado que as dimensões de adaptação Geral, principalmente em relação à família e filhos, seguida pela dimensão que trata da Interação Social, são os elementos que mais precisam ser considerados durante o processo de mobilidade. Sugestões práticas de aplicação do conhecimento produzido indicam que as empresas devem avaliar junto ao profissional aspectos pessoais antes do processo de fato ocorrer e se for o caso preparar, não só a pessoa, mas também a família. Neste ponto de preparação cabe à empresa coletar dados mais realistas da vida fora da empresa na cidade destino e apresentar de forma clara e objetiva as possíveis barreiras que o profissional irá enfrentar. A empresa deve estar ciente do peso da bagagem familiar sobre o processo de mobilidade e considerar o investimento necessário para uma possível realocação profissional, por exemplo do cônjuge. Ainda tratando da preparação, a interação social, na cidade destino deve ser acompanhada por profissionais da empresa, principalmente no quesito comunicação, que foi um dos elementos mais citados durante a realização da pesquisa. Oferecer ao profissional em mobilidade apoio psicológico e fonoaudiológico pode reduzir a probabilidade de problemas futuros ao profissional. Por fim, a pesquisa demonstrou que a mobilidade intranacional é um elemento comum às empresas e aos profissionais, mas que carece de compreensão dos gestores para a real dimensão do processo e suas implicações, principalmente na vida pessoal do indivíduo. A empresa atual como um catalisador que estimula a mobilidade e precisa considerar as consequências da movimentação estratégica de pessoas dentro de um mesmo país, principalmente se este apresenta grandes 55 dimensões e consequentemente diferenças culturais, como o Brasil. O profissional dificilmente é solitário e portanto encontra dificuldades em lidar com a distância da família e dos filhos. Dada sua natureza social o homem busca companhia e estimular o contato saudável com novas culturas dentro da empresa pode favorecer o processo de adaptação dos profissionais que chegaram, quanto para aqueles que um dia podem vivenciar a mobilidade. 56 REFERÊNCIAS ARAÚJO, B. F. V. B. DE; TEIXEIRA, M. L. M.; CRUZ, P. B. DA; MALINI, E. 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Quantos anos de Vale: 8 Quando foi movido(a) para esta região? 9 Já havia vivenciado esta experiência antes? 10 Se Sim, comente: Avaliação da Adaptação Dimensões e subcategorias Clima Alimentação Compras Disponibilidade de Entretenimento Disponibilidade de Serviços 1 Geral Segurança Habitação Transporte / Locomoção Sistema Educacional Condições Gerais de Vida Amizades Família Saúde Esporte Desafios Soluções 63 Comunicação 2 Interação Estilos interpessoais Sotaque Hábitos Crenças Estereótipos Padrões de desempenho 3 Trabalho Expectativas Valores relativos ao trabalho Superiores Subordinados Equipe de trabalho Apoio dado à adaptação Tempo para Adaptação Completa Obs.: Perguntar em linhas gerais se existe algo mais a citar.