1 Coerência.pt N O TÍ C I AS Abril e Maio 2012| Nº16 “É imperativo fazer com que os três pilares do desenvolvimento caminhem juntos” RIO + 20 :: http://www.onu.org.br/rio20/ Readmissão de migrantes: onde está a coerência entre Migrações e Desenvolvimento? O diálogo político entre a União Europeia (UE) e os Países de África, Caraíbas e Pacífico (ACP) tem-se desenrolado no quadro do Acordo de Cotonou, em vigor até 2020. As Migrações têm sido incluídas neste diálogo apenas desde a segunda revisão do acordo, em 2010. Este tema consta do Acordo de Cotonou (art.º 13) que engloba o respeito pelos direitos humanos, a não-discriminação de migrantes residentes e legalizados, as causas dos fluxos migratórios e a migração irregular. A questão da readmissão de imigrantes tem sido uma grande prioridade para a parte europeia, enquanto os ACP têm defendido que este assunto não pode ser debatido de forma isolada, mas antes como uma das peças de vários processos encadeados, como são as migrações. O que é? A readmissão é o acto de um país aceitar a re-entrada de um indivíduo que tenha entrado ou esteja a residir, de forma irregular, num outro país (neste caso, nos países da União Europeia). De acordo com o direito internacional, os países têm a obrigação de readmitir os cidadãos nacionais do seu país. Os acordos de readmissão de migrantes normalmente facilitam o retorno forçado, ou seja, o regresso de um migrante que não queira abandonar voluntariamente o território do país de acolhimento. A UE já assinou acordos de readmissão com 13 países, mas nenhum destes é um país da região ACP (está em curso a conclusão de um acordo deste tipo com Cabo Verde, que deverá ser o primeiro). Qual a posição europeia? O Conselho de Ministros da UE adoptou as Conclusões sobre Readmissão, em Junho de 2011, onde se afirma que a UE deve incorporar as questões da readmissão numa cooperação mais alargada e coerente com os países terceiros. A Comissão Europeia tem tentado ligar os acordos de readmissão a acordos de facilitação de vistos, mas não está em posição de o fazer, porque muitos países europeus não estão dispostos a facilitar a entrada de cidadãos de países em desenvolvimento. De acordo com vários países europeus, a colaboração dos países ACP na readmissão de migrantes é do interesse do próprio migrante, porque acelera o processo de retorno e torna mais curto o período em que o migrante pode ser detido (uma vez que este pode ser detido até 6 meses, de acordo com a Directiva de Retorno, aprovada pela EU em 2008). A UE argumenta também que não pode abrir mais as oportunidades de migração legal para os países ACP, se estes não demonstrarem boa vontade nas questões de segurança e mostrarem garantias de que aceitam o retorno forçado. Esta perspectiva está presente na Comunicação da Comissão Europeia sobre a Abordagem Global para as Migrações (2011), que afirma: "sem controlos fronteiriços que funcionem bem, sem níveis menores de migração irregular e uma política efectiva de retorno, a UE não terá possibilidade de oferecer mais oportunidades para a mobilidade e migração legal". Alguns países europeus defendem mesmo um corte no orçamento europeu da ajuda ao desenvolvimento, se os países ACP continuarem a não cooperar com a UE na questão da readmissão. 2 Coerência.pt N O TÍ C I AS Qual a posição dos ACP? Os países ACP têm expressado disponibilidade para cooperar nesta questão e reconhecem a obrigação de aceitar esse retorno, de acordo com o direito internacional. No entanto, lembram que a UE não tem em devida conta os direitos humanos no tratamento dos migrantes, que adopta uma postura de retaliação e que pretende implementar medidas que são injustas e ineficazes. Ineficaz porque o migrante irregular, se não tiver meios suficientes para assegurar a sua reintegração no seu país, ou se não for apoiado nas suas perspectivas de futuro, acaba por tentar entrar outra vez em território europeu, o mais depressa possível. Os programas de reintegração financiados pela União Europeia são ainda escassos e a ligação entre migrações e desenvolvimento é muitas vezes esquecida. Foto: IMVF. Guiné-Bissau Os ACP afirmam também que a política europeia de gestão das migrações tem muitas insuficiências: os cidadãos que requerem asilo nem sempre são tratados da melhor forma nem são informados dos seus direitos perante a lei; muitas vezes é utilizada força desnecessária no retorno forçado de migrantes, que são tratados como criminosos; e os direitos sociais dos migrantes deviam poder ser transferidos em caso de retorno, correspondendo ao período em que contribuíram para os sistemas fiscais e de segurança social dos países de acolhimento (mesmo estando numa situação irregular). Os países ACP criticam a postura de alguns países europeus, que estabeleceram metas anuais de deportação de migrantes (como a França e a Holanda), e as declarações políticas de vários governos europeus, estimulando sentimentos anti-imigração. Alguns países ACP afirmam-se disponíveis para fazer concessões na questão da readmissão de migrantes, se a UE ceder também em termos de facilitação de vistos e rever os seus procedimentos de asilo. E o futuro? Estas negociações têm sido, em grande medida, um diálogo de surdos. A UE tem tentado discutir cada tema de forma independente, colocando a readmissão num compartimento isolado, sem ter em conta uma abordagem abrangente e coerente. Dessa forma, tem adoptado uma postura de chantagem, pretendendo debater apenas a readmissão, enquanto os vistos ou as remessas dos migrantes são temas abordados apenas de forma superficial ou numa perspectiva de condicionalidade. A Directiva de Retorno, bem como a Directiva do "Cartão Azul" exprimem aquilo que é hoje a política europeia para as migrações: promover apenas a migração altamente qualificada e limitar ao máximo a entrada de cidadãos dos países em desenvolvimento no seu território. Desta forma, parece difícil chegar a um consenso para aprovar uma declaração conjunta sobre Migrações, que efectivamente tenha importância política, no próximo Conselho UE-ACP (em 11-15 de Junho de 2012). Veja Relatório do European Centre for Development Policy Management:Klavert, H. and J. van Seters. 2012. ACP-EU cooperation on readmission: Where does it stand and where to go? (ECDPM Briefing Note 33) aqui Foi recentemente publicado o relatório Immigrant Citizens Survey: assessing needs, evaluating policies and improving capacities, fruto da coordenação da Fundação Rei Balduíno e do Migration Policy Group (MPG), em parceria com diversas entidades europeias. O projeto Immigrant Citizens Survey teve como objetivo geral uma comparação entre diferentes países da União Europeia no que se refere à opinião dos imigrantes acerca das políticas de integração de que são alvo. Leia o estudo aqui 3 Coerência.pt N O TÍ C I AS Dar voz aos desafios do Desenvolvimento Os principais resultados do Coerência.pt foram apresentados dia 8 de maio, à Comissão dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas da Assembleia da República. Na audiência, concedida pela CNE, o IMVF teve a oportunidade de retratar a Coerência das Políticas para o Desenvolvimento em Portugal e na União Europeia. Num cenário de frágil recuperação da crise económica e financeira, com consequências globais para todos os atores do sistema internacional, é imperativo garantir a eficácia e eficiência da Política de Desenvolvimento nacional e europeia. Foto: IMVF, Assembleia da República, 8 de Maio de 2012 Como principal doador de Ajuda Pública ao Desenvolvimento, e tendo em conta orçamentos cada vez mais limitados é fundamental que a UE exorte os seus Estados-Membros a pôr em prática os princípios e os instrumentos da Coerência das Políticas para o Desenvolvimento, envolvendo decisores políticos, sociedade civil e cidadãos. Porque o desenvolvimento é uma Responsabilidade partilhada, todos temos o nosso papel. ”From Policy Incoherence to Fair Politics“ . O presente Manual ”From Policy Incoherence to Fair Politics“ procura contribuir para a erradicação da pobreza, promovendo a Coerência das Políticas para o Desenvolvimento (CPD). Ao longo do Manual são apresentados vários estudos de caso, que permitem a análise e reflexão sobre o impacto que as políticas europeias, no sector da agricultura, comércio, pescas, energia, ambiente, alterações climáticas, entre outras, têm nos países em desenvolvimento. Ao invés de contribuir para um crescimento e desenvolvimento sustentável, muitas destas políticas minam os esforços da Política de Desenvolvimento Comunitária, revelando uma verdadeira incoerência entre políticas. Com este Manual são apresentados exemplos concretos de recomendações que podem ser seguidas para promover a Coerência das Políticas para o Desenvolvimento, e deste modo contribuir para a erradicação da pobreza e promoção de um Desenvolvimento Sustentável à escala mundial. Leia o Manual em : http://issuu.com/imvf/docs/manual Micro Filme Transportes Uma rede de transportes eficiente é um elemento-chave na promoção da competitividade, crescimento económico e desenvolvimento social de qualquer País. Uma boa rede de transportes melhora o acesso e a distribuição de alimentos, o acesso à escola por parte das crianças e professores e o acesso a serviços de saúde. Reforçar a cooperação entre a Europa e os países em desenvolvimento neste sector contribuirá para a implementação de um sistema de transporte mais eficiente permitindo, deste modo, responder aos desafios da pobreza, da degradação ambiental e dos desequilíbrios migratórios. 4 Coerência.pt N O TÍ C I AS Coerência.pt: como evitar a "Tragédia dos Comuns" no Sector Europeu das Pescas? A Política Europeia de Pescas é atualmente um dos assuntos mais importantes na agenda da Coerência das Políticas para o Desenvolvimento (CPD) dada a sua influência sobre os países em desenvolvimento. Com impacto direto na vida de mais de 150 milhões de pessoas, as políticas ao nível da pesca envolvem a sustentabilidade dos stocks de peixe, mas também na vivência diária de milhares de pessoas pertencentes às comunidades piscatórias, onde por vezes encontramos situações de extrema fragilidade económica e social. Consciente dos desafios que se colocam ao sector europeu das pescas, o Eurodeputado João Ferreira - Vicepresidente do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde e membro do Comité das Pescas – reuniu no passado dia 25 de maio com a equipa do IMVF responsável pelo projeto Coerência.pt. O objetivo final é a elaboração de um parecer sobre a Coerência das Políticas para o Desenvolvimento no sector das Pescas, que o Eurodeputado irá em breve apresentar à Comissão respetiva. A União Europeia tem procurado ter uma voz forte e ativa na promoção de uma Política de Pescas que seja mais justa e sustentável. A reforma da Política Europeia das Pescas poderá ser um passo firme na promoção e defesa de uma Política de Pescas Coerente e alinhada aos objetivos de desenvolvimento. Mas para tal é fundamental aumentar as sinergias entre ações e políticas nas áreas da Pesca, Comércio, Ambiente, Inovação e Pesquisa entre outras, ou seja, é imperativo reforçar a Coerência das Políticas para o Desenvolvimento de forma a dar voz às aspirações dos países em desenvolvimento para que estes consigam reformular o seu setor de pescas de forma sustentada e sustentável, permitindo-lhes assim assegurar a sua segurança e soberania alimentar. São três os eixos fundamentais que a CPD procura abordar em matérias de pescas: 1: A sustentabilidade dos stocks do pescado e o seu impacto no dia-a-dia das comunidades piscatórias nos países em desenvolvimento; 2: A Coerência entre os Acordos de Parceria no Domínio das Pesca e os objetivos da Cooperação para o Desenvolvimento nos países parceiros, e o impacto das compensações financeiras sobre o direito de pesca pagas aos países parceiros; 3: Desenvolver um sistema regional de monitorização e governação de recursos marinhos. Na Comunicação da Comissão relativa à dimensão externa da política comum das pescas, a CPD é abordada com uma questão incontornável. A Comissão destaca igualmente a necessidade de se melhorarem as informações e pareceis científicos, bem como a condução de auditorias científicas. O respeito pelos Direitos Humanos está também salvaguardado como condição essencial para a celebração e renovação de acordos de pesca. Já a proposta de regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho relativo à política comum das pescas destaca a necessidade de se especificarem os objetivos da Política Comum das Pescas (PCP) ; o reforço da coerência entre as iniciativas estratégicas do âmbito da PCP; a preservação dos recursos biológicos marinhos; reformar a política comum de mercado entre outras. Foto: IMVF, Guiné-Bissau Os dados estão lançados. Cabe agora à UE incorporar medidas inovadoras e sustentáveis na Reforma da Política Europeia de Pescas. Mas para isso é necessário uma verdadeira vontade política capaz de impedir a Tragédia dos Comuns (dilema que decorre da situação em que múltiplos indivíduos, atuando de forma independente e racional em função dos seus interesses próprios acabam por destruir, em última análise, um recurso partilhado limitado, mesmo quando já ficou claro que a longo prazo ninguém beneficiará com essa destruição) e conduzir a um sector de Pescas Sustentável e coerente com os objetivos e valores da UE. Este é o momento de agir. 5 Coerência.pt N O TÍ C I AS A União Europeia tem de implementar uma visão estratégica comum O exame que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) efectuou à cooperação para o desenvolvimento da União Europeia (UE) revela que as reformas recentes nas instituições europeias podem, potencialmente, melhorar o impacto das políticas europeias nos países em desenvolvimento. Mas também alerta para a necessidade de clarificar e adaptar as responsabilidades internas relativamente à ajuda ao desenvolvimento, para que possam ser exploradas sinergias entre as várias áreas. Uma das principais conclusões da OCDE é que alguns Estados-Membros da UE não estão a fazer o suficiente para implementarem os compromissos de Coerência das Políticas para o Desenvolvimento (CPD). A CPD foi considerada pela UE como um dos pilares essenciais para promover a redução da pobreza e é preciso que os países europeus, numa altura de crise, se lembrem que esta é uma prioridade política para a Europa como um todo. Para isso, é preciso um envolvimento sistemático e de alto-nível, no Conselho, no Parlamento Europeu, na Comissão Europeia e no SEAE. Por exemplo, o novo Relator para a CPD, criado recentemente pelo Parlamento Europeu, pode identificar incoerências nas políticas europeias e assegurar que os efeitos da legislação europeia nos países em desenvolvimento são devidamente tidos em consideração no processo legislativo. A Agenda para a Mudança, aprovada pela Comissão Europeia e pelos países europeus, pode ser uma visão comum da cooperação para o desenvolvimento, uma vez que reflecte as próprias orientações e prioridades dos Estados Membros. Este documento mantém como prioridade a redução da pobreza (que é o objectivo principal da cooperação europeia para o desenvolvimento), através da boa governação e do crescimento inclusivo. Mas, para que estas prioridades sejam efectivamente implementadas, têm de ser a Para melhorar a coerência, a OCDE recomenda base para os programas e regulamentos incluídos no quadro também que sejam simplificados procedimentos e que as delegações da UE nos países em financeiro de 2014-2020, agora em discussão. desenvolvimento tenham um poder de decisão O sistema legal e institucional europeu tem uma grande cada vez mais reforçado. A ajuda ao complexidade, pelo que é essencial assegurar uma maior desenvolvimento da UE está hoje espalhada pelos coesão entre as instituições europeias e os Estados-membros, vários cantos do Mundo e existe uma rede de 136 sob pena de a acção europeia para o desenvolvimento global delegações europeias, que agregam várias ser fragmentada, incoerente e com poucos reflexos positivos competências das instituições e dos países europeus. na melhoria das condições de vida das populações mais Estas delegações têm actualmente competências na desfavorecidas. Apesar de ter sido assinado, em Janeiro de área da CPD, mas o seu papel na monitorização dos 2012, um acordo entre a Comissão Europeia e o Serviço compromissos europeus está ainda subvalorizado. Europeu de Acção Externa (SEAE) sobre a divisão de trabalho e de competências, a verdade é que o papel de cada Ver as principais conclusões do exame da OCDE em interveniente está ainda por definir. A contribuição que o www.oecd.org/dac/peerreviews/eu SEAE pode dar para a agenda do desenvolvimento depende da sua capacidade de agregar muitos instrumentos de Ver o Relatório completo em influência: desde instrumentos políticos e económicos, até http://www.oecd.org/dataoecd/61/46/50155818.pdf instrumentos de gestão de crises, que são particularmente importantes em Estados Frágeis. EU Member States on the Road Towards more PCD Nesta publicação é fornecida ao leitor, uma visão geral sobre os últimos desenvolvimentos em matéria de Coerência das Políticas para o Desenvolvimento, em Portugal, República Checa, Holanda e Estónia. Que tipos de mecanismos institucionais têm estes países? Qual a importância que os seus parlamentos nacionais atribuem ao tema? Estão os parlamentares nacionais empenhados na divulgação e execução da CPD? Qual o papel da sociedade civil? Estas são algumas das questões que poderá aprofundar Leia a publicação em : http://issuu.com/imvf/docs/toolscoerencia_final ao longo desta publicação. 6 Coerência.pt N O TÍ C I AS O PODER DAS IMAGENS PODE CONSTITUIR UM ALICERCE PARA O REFORÇO DA COERÊNCIA DAS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO. A REALIDADE ESPELHADA PELAS FOTOGRAFIAS PROMOVE UMA POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO QUE SE QUER JUSTA, COERENTE, EFICIENTE E EFICAZ A Exposição Digital o Desafio do Desenvolvimento encontra-se disponível em http://coerenciapt.jalbum.net/Coerencia/ Leituras de Verão The Future of Development Cooperation: from Aid to Policy Coherence for Development? Niels Keijzer, ECDPM , April 2012 Relatório Europeu para o Desenvolvimento Enfrentar a escassez Gestão da água, da energia e do solo para um crescimento inclusivo e sustentável Policy Coherence for Development: Five Challenges Irish Studies in International Affairs, Vol. 21 (2010), 207–223. Africa Human Development Report 2012 Towards a Food Secure Future Clipping CPD Powered by: www.newssearch.pt FICHA TÉCNICA Coordenador Nacional :: IMVF :: http://www.imvf.org Parceiro: EVF | Glopolis | PtP | Plataforma das ONG Cabo-Verdianas Co-Financiamento :: Comissão Europeia Apoio:: Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento Esta publicação foi produzida com o apoio da União Europeia . O seu conteúdo é da exclusiva responsabilidade do IMVF e não pode, em caso algum, ser tomado como a expressão das posições da União Europeia PORQUE O DESENVOLVIMENTO É UMA RESPONSABILIDADE. QUAL VAI SER O SEU PAPEL?