Revista da Fapese, v.3, n. 2, p. 77-80, jul./dez. 2007
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Sistemática Biológica: Sua Influência na
Conservação e Manejo de Flora e Fauna
A
R e s u m o
Alberto Corrêa de Vasconcellos*
temática de conservação e manejo da biota é analisada sob a
ótica da sistemática biológica enfatizando a sua importância
para o entendimento da dinâmica da biodiversidade tanto no
tempo presente quanto no passado distante, ora como podemos
abstrair a partir do registro fossilífero. Os estudos de conservação
da biodiversidade, em alguns casos, não levam em conta os fatores
evolutivos que norteiam a diminuição de um dado grupo biológico
em determinada área, logo, é enfatizado que não apenas faz-se necessário o levantamento numérico dos indivíduos em uma comunidade, mas também buscar um entendimento sobre como esta suposta comunidade tem evoluido ao longo do tempo em termos de
interrelações internas (relativa aos seus próprios constituintes, ex.
suas espécies) e externas (relativo a sua relação com outros grupos
biológicos que compartilham a mesma área geográfica alvo de inte-
resse do estudo inicial). Neste particular é fundamental que primeiro sejam realizados trabalhos de sistemática biológica a fim de se
reconhecer o padrão evolutivo do suposto grupo tido como amea-
çado. Estudos de sistemática biológica poderão demostrar
empiricamente se dado componente da biodiversidade está em
declínio por questões naturais ou por pressões forçosamente cria-
das pela espécie humana. Logo, é sugerido que resultados de estudos sobre conservação e manejo da biodiversidade somente po-
dem ser embasados caso se conheça as relações internas (relações
filogenéticas) dos organismos interessados. É fato que: não podemos “salvar” o que não conhecemos!
PALAVRAS-CHAVE: filogenética; cladismo; Itabaiana, Sergipe.
*
Alberto Corrêa de Vasconcellos é Professor de Biologia do Colégio de
Aplicação da Universidade Federal de Sergipe, Bacharel e Licenciado em
Ciências Biológicas pela Universidade Santa Úrsula (Rio de Janeiro), Mestre
em Geologia (Paleontologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e
PhD em Paleobiologia pela Universidade de Portsmouth (Reino Unido). Email: [email protected]
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Alberto Corrêa de Vasconcellos
1. Introdução
Um dos assuntos mais discutidos atualmente em
todas as esferas do conhecimento tem sido a problemática da conservação biológica. A influência da espécie
humana sobre os ecossistemas tem trazido um
desequilíbrio para a biodiversidade a nível mundial.
Muito embora o tema esteja em grande evidência, o
mesmo nem sempre tem sido abordado de uma maneira clara e objetiva, deixando-se margem para argumentações apaixonadas e que, mesmo contendo um alto
grau de responsabilidade e interesse pela conservação
da biodiversidade, carecem de uma discussão em âmbito científico. A cada instante somos informados sobre medidas governamentais e atuações de grupos
ambientalistas as quais sugerem diretrizes para a conservação de flora e fauna, porém, na grande maioria
dos casos estas ações aparentemente se esquecem de
realizar uma pergunta fundamental: “o que realmente
estamos tentando salvaguardar?” Esta pergunta se manifesta devido ao fato de que poucos estudos são realizados para o reconhecimento formal da biota do planeta, ou seja, estudos de sistemática biológica. O emprego
aqui do termo “sistemática biológica” vai muito alem da
tarefa de nomear formas biológicas, mas vai no sentido
mais profundo da sistemática biológica, o qual é nomear
e relacionar entre si as formas biológicas. Neste sentido
resgatando a história evolutiva do mundo biológico.
Este breve artigo tem como objetivo enfatizar algo
que muitos sistematas tem percebido ao longo dos anos;
a proteção de biota passa intrinsecamente pelo conhecimento amplo da mesma, ou seja, por estudos profundos de sistemática biológica.
2. Sistemática Biológica
A sistemática biológica tem como proposição fornecer um esquema hierárquico de todo o mundo biológico (Amorim 1997). A premissa básica é de que a
natureza apresenta uma ordem, sendo assim todas as
formas biológicas podem ser enquadradas em uma
hierarquia a qual reflita esta ordenação original. Devido à extrema complexidade do mundo biológico, con-
tendo interações tanto com o universo biológico per se
como também com o meio ambiente a sua volta, os
estudos de sistemática baseiam-se em dados provenientes de todos os ramos das ciências biológicas. Podese dizer, assim, que a sistemática biológica faz a síntese de todos os dados biológicos (Minelli 1994).
Desde a aceitação das idéias de Darwin-Wallace sobre
a teoria de seleção natural, e, conseqüentemente a
constatação de que a hierarquia da vida apresenta um
componente evolutivo baseado na suposição de que todos os seres vivos estão conectados por uma
ancestralidade comum, a sistemática biológica não apenas se restringe a resgatar a hierarquia da vida (padrão
evolutivo), mas também resgatar a sua história evolutiva
(processo evolutivo). Neste contexto a sistemática biológica deve ser vista como a disciplina que reúne toda a
informação biológica dispersa pelas várias áreas de atuação das ciências biológicas (Minelli 1994; Amorim 1997).
3. Biodiversidade: Mitos e Realidades
A biodiversidade é composta pelo agregado de formas biológicas inseridas no meio ambiente do planeta
Terra. Devido a grande diversidade presente no mundo
biológico, faz-se necessário um entendimento de quem
são os constituintes formais desta biodiversidade (hierarquia) e como estas formas se interligam entre si (relações filogenéticas). Neste contexto é fundamental que
estratégias de proteção e manejo da biota sejam embasados
em trabalhos formais de sistemática biológica. Não se
pode proteger algo que não é conhecido! Neste contexto
dois pontos devem ser abordados, o “mito” da biota
ameaçada e a realidade da evolução no mundo biológico.
Muito se tem afirmado sobre a extinção de espécies e
como a influência humana estaria atuando nesta questão. Neste contexto deve ficar claro que a biota do planeta tem a sua dinâmica própria, ou seja, historicamente as
espécies passam por momentos de ascensão, estase e
declínio (“taxa evolutiva”). A atuação humana neste caso
pode ser vista sob a (1) ótica teológica ou sob uma (2)
visão geral. No primeiro caso estaríamos dissociados do
mundo biológico, logo estaríamos aptos a nos ver como
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Sistemática biológica
“destruidores” ou “salvadores” do mundo biológico; no
segundo caso a espécie humana seria apenas mais um
componente dentro da cadeia evolutiva, ou seja, seria
provavelmente a espécie mais predadora até hoje conhecida! Neste ponto estudos de sistemática biológica nos
permitiriam aliviar este peso natural da espécie humana.
Ao se delinear os padrões e processos evolutivos, nos
são apresentados um retrato da história evolutiva da biota,
ou seja, seu comportamento ao longo do tempo. Neste
sentido é possível o desenvolvimento de hipóteses as
quais nos permitam evidenciar se uma dada espécie está
fadada a extinção ou não, logo, demostrando se esta pressão para extinção esta relacionada com a espécie humana ou outros elementos bióticos ou abióticos.
4. Aspectos práticos da sistemática biológica
Os atuais estudos de sistemática biológica estão na
sua maioria baseados na metodologia de sistemática
filogenética (Hennig 1968; Wiley 1981; Amorim 1997).
Este método nos permite desenvolver hipóteses sobre
o padrão e processo evolutivo baseados em premissas
científicas (Wiley 1981; Minelli 1994). Neste contexto
tenta-se montar a hierarquia da vida baseado no resgate de suas relações filogenéticas, logo, apenas grupos
monofiléticos (ancestralidade comum comprovada) são
aceitos (Ax 1987; Amorim 1997). Cabe notar, porém,
que a metodologia não é estanque tendo as suas discussões internas sobre como realizar a busca pelos
grupos monofiléticos (Cracraft 1981; Wiley 1981;
Goloboff 1991), muito embora a regra do monofiletismo
seja de aceitação geral. Devido ao fato de não podermos resgatar informações diretas sobre ancestrais, os
caracteres utilizados para basear as hipóteses
filogenéticas, as sinapomorfias (sensu Hennig 1968 e
Wiley 1981) tornam-se as evidências “reais” de que a
evolução biológica ocorreu. O estudo da distribuição
destes caracteres (sinapomorfias), bem como outros
caracteres revelados durante a análise filogenética
(autapomorfias, simplesiomorfias, sensu Hennig 1968
e Wiley 1981) nos permitem entender a taxa evolutiva
de determinado grupo ou grupos biológicos
(Johannesson 2001).
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Em regra geral os estudos de sistemática biológica
nos permitem compreender os padrões de distribuição geográficos e as inter-relações de determinado grupo com o seu meio ambiente (influencia do clima, geografia, etc para que tal espécie habite tal área) (Crisci
2001). Este conhecimento será vital para se entender a
situação real de determinado grupo biológico, permitindo, assim, saber se o mesmo encontra-se em “perigo” eminente ou não.
5. Comentários finais
Um exemplo prático da importância de estudos de
sistemática biológica é o estado atual do conhecimento da biodiversidade no Estado de Sergipe. O Estado
de Sergipe, mesmo sendo o menor estado da federação, apresenta uma distribuição de flora peculiar. Citase para o estado cinco regiões fitogeográficas, sendo
elas a caatinga, mata atlântica, cerrado, restinga e mangue (Porto 1999). Devido a pressões humanas o delineamento destas regiões fitogeográficas tem sido cada
vez mais reduzido (Porto 1999). Devido a falta de estudos aprofundados desta flora em larga escala, muito
da biodiversidade do estado está sendo perdida sem
que antes mesmo seja conhecida. Cabe notar que estas
cinco regiões fitogeográficas abrigam não só uma riqueza vegetal mas, também, uma diversidade animal.
Notadamente o grupo animal mais afetado, no contexto de diminuição da biodiversidade vegetal, é aquele
dos insetos. Diversas ações para proteção da flora de
Sergipe aparentemente têm sido sugeridas, mas poucas delas priorizam a realização de levantamentos sistemáticos generalizados da biodiversidade florística e
fuanística local. A falta destes levantamentos diminui
em muito a eficácia que certas políticas de proteção e
manejo de flora e fauna possa vir a ter no futuro. Não
é suficiente saber que determinados grupos vegetais
nativos estão sendo ameaçados em detrimento de formas “exóticas” (aumento da área cultivada para fruticultura e agricultura, vide Porto 1999), mas faz-se necessário saber qual o real patrimônio em biodiversidade
que o estado possui para que o mesmo possa ser “protegido”.
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