CASOS FLERTES: SURREALISMO, CONCRETISMO E AS EXPERIMENTAÇÕES FOTOGRÁFICAS DE GERALDO DE BARROS SOBRAS E SEUS ARREMESSOS1 Rosângela Miranda Cherem2, Lúcia Helena Fidelis Bahia3, Sandra Makowiecky4, Ana Carla de Brito5, Iam Campigotto6 Palavras-chave: Geraldo de Barros, Sobras, experimentações fotográficas. Resumo: A pesquisa aborda a produção imagética de Sobras, série fotográfica produzida por Geraldo de Barros com o auxílio da fotógrafa Ana Moraes. A série Sobras relaciona-se com elementos do Surrealismo, tais como: a fotomontagem, a collage, a desconstrução, o fragmento, a coletividade, a inspiração, a memória, o tempo, entre outros. O presente texto possui como ponto de partida a análise imagética das experimentações fotográficas do paulista Geraldo de Barros (1923-1998). O foco dessa análise recai sobre a última da série do artista, intitulada de Sobras. A finalidade deste texto, fragmentado em blocos, é permitir certas articulações relacionando as fotografias de Geraldo de Barros às características surrealistas que se encontram inseridas em cada imagem. Essas características são examinadas por meio dos instrumentos surrealistas apontados no primeiro e no segundo tomo do livro A Aventura Surrealista de Sérgio Lima (1995): o desejo, a collage, a escrita automática, o acaso-objetivo, a beleza, a imagem surrealista, a fotomontagem, a inspiração e a memória. Geraldo de Barros (Chavantes, 1923/ São Paulo, 1998) tornou-se um artista plástico muito referenciado por críticos e pesquisadores, e pouco conhecido pelo público, embora sua vasta produção artística tenha sido marcada pela diversidade dos meios de expressão e por uma expressividade voltada para as massas (BARROS, 2006). Durante seus estudos no ateliê do mestre japonês Yoshiya Takaoka, conheceu o fotógrafo Athaíde de Barros com o qual realizou sua primeira exposição, em 1947, no hall do Teatro Municipal de São Paulo (BARROS, 2006b). A partir dessa exposição, ambos ganharam dinheiro fotografando times de futebol amador que costumavam jogar aos domingos nos terrenos baldios da periferia da cidade (BARROS, 2006b). Barros descobriu as técnicas fotográficas com o auxílio de uma máquina construída por ele conforme instruções de um manual de ofícios. Em 1948, Takaoka, Geraldo de Barros, Athaíde de Barros e outros artistas criaram o Grupo XV em um ateliê no centro da cidade. O estilo de pintura dominante no grupo era de influência expressionista, marcado pela espontaneidade e intuição. Com a influência de Athaíde e das possibilidades artísticas que ele próprio via no registro fotográfico, Geraldo de Barros construiu um pequeno laboratório de 1 Pesquisa vinculada ao Projeto de Pesquisa Imagem-Acontecimento. Uma história das persistências e consistências da arte moderna na atualidade, sob a coordenação da Rosângela Miranda Cherem 2 Orientadora, Professora do Departamento de Artes Visuais- CEART- UDESC, [email protected] 3 Acadêmica do Curso de Bacharelado em Artes Visuais, CEART, UDESC, bolsista de iniciação científica PROBIC/UDESC 4 Professora Participante do Departamento de Artes Visuais, DAV, CEART, UDESC, [email protected] 5 Acadêmica do Curso de Bacharelado em Artes Visuais, CEART, UDESC, bolsista de iniciação científica PROBIC/CNPq 6 Acadêmico do Curso de Licenciatura em Artes Visuais, CEART, UDESC, bolsista de iniciação científica PROBIC/UDESC 1 fotografia no ateliê do Grupo XV, iniciando, assim, sua paixão pela fotografia. Substituiu sua máquina por uma Rolleiflex 1939, a qual permaneceu fiel ao longo de sua vida, e iniciou sua produção percorrendo os lugares onde costumava pousar o cavalete de pintura: a periferia, os bairros próximos à casa de sua mãe, a Estação da Luz (BARROS, 2006b). Na prática, o artista descobriu as possibilidades da fotografia fazendo superposições de imagens das estruturas metálicas da estação, captando um detalhe de parede ou uma sombra interessante encontrada nas ruas dos bairros populares (BARROS, 2006b). Como não pretendia se tornar um fotógrafo comercial, Barros separou-se de Athaíde para iniciar, em 1949, sua produção fotográfica no Foto Cine Clube Bandeirante, na época o principal espaço de São Paulo que reunia amadores da fotografia, e do qual quase foi expulso devido a sua postura inovadora e ao choque de suas pesquisas com as dos integrantes do Bandeirante, que ainda cultivavam a corrente pictórica (BARROS, 2006b). Em 1950, Geraldo de Barros expôs no MASP a série Fotoformas cujo nome provinha de uma relação da fotografia com a gravura, devido suas intervenções (BARROS, 2006b). Neste mesmo ano (1950), o Brasil testemunhou o momento mais sólido da cultura no país (BARROS, 2006b). A repercussão do trabalho o fez ganhar uma bolsa para estudar no exterior, onde se cercou de artistas renomados, como o suíço Max Bill (1908-1994), o alemão Otl Aicher (19221991) e os franceses François Morellet (1926-) e Cartier-Bresson (1908-2004) (BARROS, 2006b). Durantes alguns anos abandonou à prática fotográfica e quando, em 1975, sua filha Fabiana de Barros, ao organizar uma velha caixa, encontrou fotografias produzidas pelo artista entre os anos 40 e 50 (BARROS, 2006b), ele se inspirou e preparou uma série de novas tiragens. Assim, através da fotografia, Geraldo de Barros dedicou-se cada vez mais às suas reflexões mais importantes: as relações do sujeito com a imagem, a psicologia do ato de ver e o social (BARROS, 2006b). A partir de 1988, enfraquecido pelas sucessivas isquemias cerebrais e com a ajuda da fotógrafa Ana Moraes, ele realizou mais de 250 recortes de negativos de fotografia selecionados entre as imagens de viagens e família, os quais originaram sua última série intitulada Sobras (BARROS, 2006b). Essa série possibilitou a Geraldo de Barros inverter o modo de configuração e organização dos dados visuais até então compreendidos pela fotografia da época. Sobras foi o projeto que o manteve estimulado até sua morte, em 17 de abril de 19987. Em outras palavras, após anos de experimentações realizadas através da série Fotoformas – primeira das duas séries fotográficas produzidas por Geraldo de Barros – e mais algum tempo de distanciamento da linguagem fotográfica, o artista teve de encontrar outro recurso para continuar praticando intervenções nas fotografias. A saída encontrada pelo artista foi retornar, não exatamente à prática fotográfica, mas as possibilidades que seu acervo fotográfico poderia agregar à sua prática artística. Assim, com a ajuda da fotógrafa Ana Moraes, Barros interferiu com recortes e colagens em negativos de imagens de férias e viagens com familiares e amigos feitas nas décadas de 40 e 50 (BARROS, 2006b). Como afirmou sua filha Leonora de Barros em entrevista, Barros não podia sair de casa para fotografar, então, com uma assistente, trabalhou com colagens simultâneas de positivo e negativo. Ou seja, até o fim da vida, foi coerente com o experimentalismo8. Pode-se pensar essa última série como uma forma de colecionismo, artifício apresentado em 1962-1968 pelo artista alemão Gerhard Hichter: comenzó a coleccionar las fotografías que formarían su enorme proyecto Atlas (como pode ser observado na Figura 1), en el que imágenes de una narración familiar privada se iban yuxtaponiendo cada vez más con imágenes de la historia alemana pública (FOSTER et al., 2006, p.612): 7 Atualmente, entre 6 de abril a 19 de maio, as obras Fotoforma, São Paulo, 1950, Abstrato, Estação da Luz, São Paulo, 1949, Sem título, São Paulo, 1949 e Fotoforma, Pampulha, Belo Horizonte, 1951, estão sendo expostas na Coleção Itaú Cultural de Fotografia Brasileira, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, com a curadoria de Eder Chiodetto. 8 Genialidade Multimídia. Revista E: Sesc SP. São Paulo: nº 134, 2012. 2 1. Gerhard Richter. Atlas: Panel 9, 1962. Recortes y fotografía en blanco y negro: 51,7 x 66,7 cm. Zeitungsfotos Newspaper & Album photos. Para el Atlas, Richter, siguiendo la tradución del ready-made, selecciona imágenes fotográficas encontradas en periódicos y revistas ilustradas, fotografias de reportaje y amateur, pero también utiliza imágenes criadas por el mismo, en ocasiones a partir de su obra pictórica. Así, el Atlas se convierte en una acumulación de gêneros visuales y de imágenes que una estructura de archivo de marco ilimitado permite redistribuir y reorganizar en el interior de una obra que en los primeros paneles obedecia a un valor sentimental vinculado tanto a historias familiares como sociales y políticas. (GUASCH, 2011, p.53) Na série Sobras, Geraldo de Barros exibiu a formação de imagens através da desconstrução. Além disso, o efêmero, o fragmento, o tempo, a memória, o descontínuo, a ação são artifícios presentes em sua última série, como é possível observar na Figura 2. Através da reordenação de elementos e sobreposição de figuras, collages e recortes, o artista criou novos planos e composições, que representam modelos de excesso e ausência de luz, através dos espaços brancos e pretos (BARROS, 2006b). As intervenções eram feitas com imagens simultâneas, que não possuíam regras e não funcionavam como o saber dinâmico do pensamento (BARROS, 2006b). Neste ponto, mais uma vez, depara-se com a tímida tentativa da produção de uma escrita automática através de imagens descontínuas. É necessário ressaltar que em Sobras, Barros não experimentou outras técnicas como ocorreu durante o processo de criação da série Fotoformas. Em seus três últimos anos de produção, o artista se manteve fiel a uma única técnica, a qual consistia na cópia a partir de um negativo recortado e prensado entre duas placas de vidro que resultaria em uma imagem fotográfica (BARROS, 2006b). Essa técnica permitiu que a imagem não fosse pressuposta por uma leitura linear, e sim simultânea. De acordo com Ana Moraes (1999), Sobras, aliás, parece nutrir-se do duplo movimento de recordar e recortar, de avaliar a memória nos seus movimentos mais ternos e prefigurar a separação inevitável trazida pela lâmina do tempo. Geraldo de Barros revolucionou a memória reescrevendo a sua história através da reconstrução de situações vividas, por meio de recortes e sobreposições. Ele produziu um espelhamento de si mesmo através de fragmentos de outros. Em Sobras, o artista acentuou a ideia de memória, pois partindo do pressuposto que a imagem fotográfica já contém um fragmento de memória, ele a reconstituiu pela segunda vez, subvertendo o conceito inicial e obtendo outro traço de memória, que se sustenta pela questão do desejo e do reflexo de si mesmo na obra. A memória funciona como um fragmento de desejo do ser, segundo Ernst Cassirer (LIMA, 1995, p.219), ao desejar, o homem não aceita simplesmente a realidade das coisas, 3 porém, isto sim, as constrói para si mesmo. Aquele que deseja é o mesmo que olha, imagina e se permite perder (LIMA, 1995). Geraldo de Barros apresentou-se como um reflexo dos sentidos do mundo e da memória, seu olhar funcionou como sensação e foi muito além da percepção. Se a percepção é igual ao registro fotográfico, então no âmbito dos sentidos, o cérebro tendo o papel de um espelho, segundo Bergson, deixa passar as imagens que o outro reflete, e o ser funciona como perceber, e o ato de ver ultrapassa a compreensão do ser (LIMA, 1995). Além disso, é o desejo que traz o acaso para a zona da necessidade humana (LIMA, 1995). Como afirmou Sérgio Lima (1995, p.263), em seu livro Aventura Surrealista: O campo da Arte, determinado pela sensação/percepção/representação, refere-se sempre a um todo, a uma multiplicidade-e-simultaneidade não linear, ou seja, a uma experiência plural dos sentidos como um todo e em relação a um todo, um mundo. Ao pensar a imagem como sendo um vazio-imaginado, a memória pode ser percebida como um cheiode-vazio. Portanto, o artista reconstruiu a memória em fotomontagens para preencher esse vazio. Para exemplificar o direcionamento dado ao conceito de vazio, Agamben (2007, p.30) escreveu: Sabe-se que Proust tinha obsessão pela fotografia e procurava por todos os meios ter as fotos das pessoas que amava e admirava. Um dos rapazes por quem estava apaixonado quando tinha 22 anos, Edgar Auber, deu-lhe de presente, a partir de seu insistente pedido, o próprio retrato. No verso da fotografia, escreveu à guisa de dedicatória: [...] Olhe para meu rosto: meu nome é Poderia Ter Sido; me chamo também Não Mais, Tarde Demais, Adeus. A dedicatória certamente é pretensiosa, mas expressa perfeitamente a exigência que anima todas as fotos e capta o real que está sempre no ato de se perder para torná-lo novamente possível. 2. Geraldo de Barros. Sobras (Remains), 1996-1998. Fotografia: cópia a partir do negativo recortado, prensado entre duas placas de vidro. Coleção particular, (BARROS, 2006b). Bom, o trabalho Sobras era feito assim, basicamente: em cima de um pedaço de vidro de 12cm X 9cm, transparente pegávamos negativos antigos em suporte de acetato (os normais de hoje em dia) (normalmente 35mm, mas também utilizamos 120mm), recortávamos e colávamos com uma fita adesiva suíça, que não sei o nome, mas parecida com uma fita isolante (preta - não permitia a passagem da luz). Era mais maleável que a fita isolante normal, permitindo flexibilidade no uso; muitas vezes trabalhamos com o próprio positivo (a ampliação em papel – que 4 respondia diferentemente em relação à transparência e à passagem de luz); em algumas, usávamos nanquim preto também; eu fazia tudo com as mãos, utilizava sempre um estilete, pois a precisão e limpeza não eram importantes, queríamos que o processo aparecesse, não importava deixar tudo limpinho, sem marcas, sem digitais, etc..ele queria que tudo estivesse ali. Obviamente quando foram para o laboratório La Chambre Claire, na Suíça, para ampliar, mexeram em tudo, limparam, etc..tem fotos inclusive que estão de ponta cabeça, mas como a filha assumiu tudo, e eu não pude continuar o trabalho, saiu do jeito dela, que não conhecia o trabalho. Algumas vezes, mais pro final do trabalho, usamos também cartolinas pretas e brancas ocupando espaços na foto. Algumas ampliações que estiveram na Brito Cimino (únicas), tinham isso. E também saímos para fotografar na rua (o convite da exposição, por exemplo, é foto minha). Ainda usávamos cola, aquarela branca, até agulha e linha usei, mas o básico foi sempre positivo ou negativo recortado em cima do vidro (o que produzia um novo negativo); basicamente foi isso. Construindo novas realidades. Trabalhando os espaços visuais de uma nova forma, com sobras de fotografias. (SILVA et al., 2006, p.99) A Fotomontagem 3. Geraldo de Barros. Sobras (Remains), 1996-1998. Fotografia: cópia a partir do negativo recortado, prensado entre duas placas de vidro. Coleção particular, (BARROS, 2006b). Baseando-se na entrevista de Ana Moraes, é possível refletir sobre um dos pontos que coincide o processo de Geraldo de Barros com os artifícios utilizados pelos surrealistas para realizarem suas obras. As imagens resultantes do processo do artista não se tratam de simples fotografias e negativos, e sim de imagens construídas por meio de conceitos de: fragmento da linguagem fotográfica, de positivo-negativo, tanto da linguagem gráfica quanto fotográfica, de montagem, de collage, de acaso, de jogo e de tempo, todos provenientes do Surrealismo – como pode ser observado na Figura 3. Tratase, então, do inconsciente sobressaindo-se a uma imagem pré-determinada pelo próprio artista, modificando-a com delicadeza e equilíbrio. Ou seja, Geraldo de Barros reconstruiu suas fotografias tentando refazer a realidade segundo seus próprios e mais extremos desejos em lugar de buscar apreender racionalmente a estrutura do real como algo fixo e predeterminado (KRAUSS, 1998, p.132). Pode-se dizer que as fotomontagens produzidas pelo artista representam uma realidade distante. Em todas suas montagens, collages, justaposições, sobreposições, jogos, o que Barros produziu foram não somente fotomontagens, mas também fotografias que beiravam o Surrealismo. Como Argan (1988, p.94) proferiu sobre o processo de fotomontagem: ela consiste em combinar recortes de fotografias, de modo a obter uma imagem que seja, ao mesmo tempo, absurda e absolutamente credível: um trompe-l’oeil que se transforma num trompe-l’esprit. Ao revirar a posição do artista em relação ao seu processo, encontra-se um precedente no álbum de collages e fotomontagens A pintura em pânico, de Jorge de Lima. A fotomontagem é considerada uma 5 forma de manifestação da fotografia surrealista e tem como objetivo extrair força e significado da justaposição de elementos díspares. Ela se apresenta como um recurso através do qual se coloca em prática a máxima de Lautréamont: belo como o encontro casual de um guarda-chuva com uma máquina de costura, sobre uma mesa de dissecação (BRETON, 2001). As obras de Lima possuem uma raiz surrealista em Max Ernst (1891-1976), o qual também construiu um diálogo com o processo criativo de Geraldo de Barros, devido à intensa construção de imagens e a fabricação destas. É importante destacar que, para o conjunto da vanguarda dos anos 20, a fotomontagem era considerada como um meio de fazer com que o sentido penetrasse dentro de uma simples imagem da realidade. Trata-se na maioria das vezes da justaposição de duas fotografias, de uma fotografia e um desenho ou, ainda, de uma fotografia e um texto (KRAUSS, 2002, p.116). Em uma passagem citada por Murilo Mendes para a exposição A pintura em pânico, depara-se com uma leitura que também pode representar o procedimento criativo de Barros: A foto-montagem implica uma desforra, uma vingança contra a restrição de uma ordem de conhecimento. Antecipa o ciclo de metamorfoses em que o homem, por uma operação de síntese da sua inteligência, talvez possa destruir e construir ao mesmo tempo. Além da fotomontagem ser utilizada como um recurso surrealista, ela também foi levada a cabo tanto pelos dadaístas berlinenses quanto pelos construtivistas russos como uma alternativa para escapar às limitações apresentadas pela pintura abstrata das vanguardas históricas, embora a fotomontagem surrealista possuísse suas próprias singularidades (ARGAN, 1992). Do ponto de vista formal, uma característica bastante presente nas fotomontagens produzidas pelos dois grupos é o aspecto planar que quase sempre assumem suas produções, fragmentadas, abusando das linhas de força do plano (sobretudo as diagonais), as fotomontagens construtivistas e dadaístas apresentavam como herança imediata (e talvez não desejada), o esforço da pintura moderna, desde o pós-impressionismo, em romper com a ilusão de tridimensionalidade. Satírica ou apologética, elas sempre buscavam uma decodificação rápida de sua mensagem pelo observador, preferencialmente um indivíduo componente da massa trabalhadora. (CHIARELLI, 2003) Nas montagens dadaístas, havia um extenso número de brancos ou espaçamentos (a duplicação e o espaçamento são manipulações que a fotografia se permite), pois a página branca apresentava-se como um instrumento tanto de aproximação quanto de separação. A página branca era a matriz fluida em cujo seio cada representação se mantém isolada, em estado de exterioridade, em uma sintaxe onde está separada dos outros através do espaçamento. Essa imagem fotográfica espaçada era destituída do sentimento de presença existente na maior parte das fotografias, pois o fato da fotomontagem dadaísta marcar os espaçamentos, destruía a simultaneidade da presença e, com isso, a realidade dilatada pelos vazios e os brancos que constituíam as condições formais anteriores à existência do signo (KRAUSS, 2002). Por outro lado, na fotomontagem surrealista estavam presentes disjunções e deslocamentos dentro de uma cena real e com continuidade de espaço, ela não se encontrava fragmentada como na fotomontagem dadaísta (ARGAN, 1992). O que interessava aos surrealistas na fotomontagem era a unidade sem falha da tiragem fotográfica isenta de qualquer intrusão da página branca (KRAUSS, 2002). El Dadaísmo y el Surrealismo son lãs dos corrientes que señalan el final del arte moderno. Aunque de un modo sólo relativamente consciente, son contemporáneas del último grana salto del movimineto revolcuionario proletário; y el fracaso de este movimiento, que las dejó encerradas en aquel mismo terreno cuya caducidad habían nacido para proclamar, es la razón fundamental de su desmovilización. Aunque históricamente vinculados, el Dadaísmo y el Surrealismo se contraponem [...] El Dadaísmo quiso suprimir el arte sin realizarlo, el Surrealismo realizar el arte sin suprimirlo. (FOSTER et al., 2006, p.393) 6 Geraldo de Barros surgiu, novamente, para romper com essa distinção. Ele mesclou ambas características buscando, assim como os dadaístas e construtivistas russos, a total comunicação com o observador anônimo e, assim como os surrealistas, a própria incomunicabilidade, o desejo sempre manifesto de não dar-se totalmente a ninguém, deixando espaço livre para o que seria preenchido pela teoria gestaltiana do próprio observador. Segundo Rubens Fernandes Junior (BARROS, 2006b, p.23), a natureza poética da obra de Geraldo de Barros nasceu do confronto entre a extrema racionalidade e sua necessidade experimental. Esse confronto encontra-se superficialmente na série Fotoformas, e foi levado a cabo na última série do artista, quando ele mesmo acreditou ter esgotado suas possibilidades de experimentação. O próprio artista afirmou, suas imagens foram concebidas para vibrar e, para isso, elas deveriam permanecer abertas. Geraldo de Barros sempre se manteve fiel à sua ideia de que a foto pertence àquele que a utiliza e não àquele que a realiza (BARROS, 2006a, p.175), embora Tristan Tzara acreditasse que a obra de arte refletia o seu criador. A fotomontagem representa um jogo lúdico do qual Barros nunca se desvencilhou, quebrando e criando seus próprios conceitos sobre a imagem fotográfica. Os desdobramentos de Sobras Geraldo de Barros se manteve fiel a uma única técnica na série Sobras (BARROS, 2006) e talvez, por esse motivo, dedicou-se mais a pensar questões ligadas à poética da imagem e, preocupou-se menos com a visualidade final resultante através do seu processo artístico. É importante apontar as diferenças principais entre o objetivo final obtido nela e o resultado das outras técnicas utilizadas na produção das subséries Vidros e Colagens, provenientes de Sobras. As subséries exibem ramificações um tanto quanto racionais, ao passo que a abrangência da série principal volta-se para um inconsciente coletivo. Ao comparar os processos nota-se que a subsérie Vidros possui o mesmo procedimento da série Sobras, porém ao invés de produzir uma matriz que irá gerar uma tiragem múltipla, Barros transformou esta matriz em uma peça única (BARROS, 2006b). 4. Geraldo de Barros. Sobras (Vidros), 1996-1998. Fotografia: matriz-negativo. Colagem em vidro, 12 x 9 cm. São Paulo, Brasil. Coleção particular, (BARROS, 2006b). Em Vidros (Figura 4), o produto final é um objeto fotográfico que lembra um daguerreótipo - imagem única realizada sobre uma placa de cobre recoberta por uma fina camada de prata, na qual a superfície prateada reluzente mostra, conforme o ângulo do olhar, ora uma imagem negativa, ora uma imagem positiva: é um positivo direto, o qual possibilita a obra de arte ser uma peça única (BARROS, 2006b). 7 Ou seja, o próprio negativo é a matriz constituída por fragmentos de positivos e de negativos, em cores ou em preto e branco que, superpostos, criam uma ilusão de profundidade e tridimensionalidade, provocando nossa percepção (BARROS, 2006a), como mostra a Figura 4. O resultado final da imagem, montada sob a própria base fotográfica, tem por essência a não-reprodutibilidade. Quando Daguerre apresentou em 1850 seu invento perante a Academia das Ciências em Paris, fez uma advertência aos seus auditores: “o Daguerreótipo não é um instrumento que serve simplesmente para desenhar a natureza [...], ele lhe dá o poder de reproduzir-se a si mesma” (KRAUSS, 2002, p.66). Assim, o artista deu início ao processo de dessacralização da matriz ao corromper suas fotografias e o tempo, utilizando a fita adesiva para delimitar irregularmente a imagem. Com isso, Barros retornou a questão da janela apontada como um enquadramento utilizado por diferentes artistas em variadas épocas. É curioso citar que Honoré de Balzac (1799-1850) antecipou a invenção do daguerreótipo através da Teoria dos Espectros, a qual foi explicada por Nadar (Gaspard-Félix Tournachon) em O Fotográfico, de Rosalind Krauss (KRAUSS, 2002, p.24): Ora, segundo Balzac, cada corpo na natureza se compõe de séries de espectros em camada infinitamente superpostas, laminadas em películas infinitesimais em cada um dos sentidos em que a ótica percebe este corpo. Como o homem jamais pode criar – ou seja, constituir algo sólido a partir de uma aparição, do impalpável, ou do nada fazer uma coisa –, cada operação daguerreana vinha então surpreender, destacar e reter ao aplicar-se uma das camadas do corpo visado. De onde se conclui que o dito corpo, a cada nova operação, sofre a perda evidente de um espectro, ou seja, uma parte de sua essência constitutiva. 5. Geraldo de Barros. Sobras (Colagens), 1997. Fotografia: colagem em vidro, 21 x 22,6 cm. São Paulo, Brasil. Coleção particular, (BARROS, 2006b). Em Colagens (Figura 5), Geraldo de Barros levou sua releitura ao extremo, destacando as principais formas construtivistas, recortando-as e colando-as em superfícies brancas ou negras (BARROS, 2006b), embora seja o processo resultante da collage surrealista que se define como um pensamento dinâmico e intercambiável (LIMA, 1995). Na Figura 5, Barros buscou sintetizar as formas consistentes que marcaram sua trajetória concretista. Nesta imagem o artista criou novos planos – um dos elementos principais de sua obra – destacando principalmente as formas (BARROS, 2006b). Como afirmou Rubens Fernandes Junior (BARROS, 2006b, p.35), no livro Sobras: 8 É como se a obra de Geraldo de Barros fosse feita de camadas, fosse uma espécie de palimpsesto das memórias do artista e, à medida em que são retiradas as diferentes camadas, ora mais espessas, ora mais transparentes, compreende-se perfeitamente a relação harmoniosa entre as formas. 6. Geraldo de Barros. Sobras, 1996-1998. Fotografia: cópia a partir do negativo recortado, prensado entre duas placas de vidro. São Paulo, Brasil. Coleção particular, (BARROS, 2006b). Em Sobras (Figura 6), o produto final é um objeto fotográfico produzido através de negativos e positivos, que podem ser multiplicados, recompostos e distorcidos através do fluxo incessante de acontecimentos no tempo. Como é possível apontar na Figura 6, o artista provocou a percepção do observador com uma imagem construída. Assim, o fotógrafo seguiu subvertendo a ordem, direcionando-se na contramão da proposta ancestral da imagem fotográfica (BARROS, 2006b). Na imagem acima, segundo Nakamura9, as composições são geometricamente estruturadas, porém, com um toque de lirismo, bem parecidas com as brincadeiras de recorte e colagem feitas pelas crianças e, assim como elas, Geraldo sempre se manteve receptivo as mais diferentes manifestações e descobertas em qualquer área. Sem medo de ousar e de experimentar, acreditava, sobretudo, na liberdade como norteadora da vida. Na Figura 6, é possível notar a consciência de um ciclo que estava prestes a chegar ao fim, que Barros iniciaria e terminaria sua produção pelos caminhos da fotografia. [...] O artista e/ou poeta é aquele cuja função é ser na passagem, é percorrer a própria corrida do emocionar-se entre a vida e a morte [...] (LIMA, 1995, p.373). De acordo com Rubens Fernandes Junior (BARROS, 2006, p.35), iniciar e encerrar sua obra com a fotografia faz de Geraldo o artista mais raro e singular da arte brasileira. É significativo ressaltar que Geraldo de Barros desenvolveu a série Sobras a partir do conceito de Abfall – conceito introduzido pelo crítico alemão Andreas Müller-Pohle com o sentido de reciclagem ou revitalização da informação – o qual permitia que o artista produzisse a mais pura provocação visual (BARROS, 2006b). No ato de olhar para si e para sua memória, reflexo de seu passado, o fotógrafo criou novas analogias inventadas por meio da imaginação, acentuando as fantasias de recreações e contaminando ideais formais impregnados no processo criativo de Fotoformas. 9 Nakamura (online) 9 7. Geraldo de Barros. Sobras, 1996-1998. Fotografia: cópia a partir do negativo recortado, prensado entre duas placas de vidro. São Paulo, Brasil. Coleção particular, (BARROS, 2006b). Em Sobras (Figura 7), o caráter coletivo das experimentações fotográficas subverteu o conceito do gênio individual, aproximando-se novamente de experiências surrealistas. Faz-se necessário apontar um paradoxo: embora o artista tivesse desejado subverter o conceito de gênio individual através do coletivo, a própria memória e seu questionamento representou um sentido individual. Como escreveu Philippe Audoin, na Aventura Surrealista, o surrealismo é antes de tudo uma obra coletiva, ou seja, o ponto de encontro de ideias e de afeições diversas [...] (LIMA, 1995, p.48). Em entrevista com Ana Moraes, ela afirmou que Sobras: São olhares com sentido, com conceito, fruto de duas (eu também me considero autora) cabeças, dois olhares somando linguagens para construção de novas realidades. Acho que o grande barato mesmo, das Sobras, é isso - não precisava se buscar nenhuma linguagem nova ali, o que se buscou foi a parceria de exercer nossos olhares juntos, dentro de uma lógica construtivista, concretista, formadora de nova realidade, pois a realidade atual (em termos fotográficos) já é imensamente conhecida, as imagens estão espalhadas pelo mundo sobre todos os cantos do mundo - as realidades são conhecidas, criamos então, novas realidades, novos pesos visuais, através de volumes, de tons, de texturas, de condução da linguagem visual através de seus elementos construtivos e formadores. (SILVA et al., 2006, p.100) Além de imprimir um caráter coletivo ao processo, Sobras retoma o artifício do jogo através de combinações aleatórias, proposto inicialmente em Fotoformas, retirando sua carga de humor para acentuar a característica de subversão da ordem fotográfica. Ao analisar o processo de construção da série Sobras, é possível relacioná-lo com o jogo surrealista do cadavres exquis (cadáver exquisito), o qual era definido por uma imagem sem propriedade, uma imagem de todos e ao mesmo tempo de ninguém, uma imagem livre. Cadavres exquis era um jogo feito tanto na forma verbal quanto na visual e que surgiu em 1925 na casa de Marcel Duchamp, onde se reuniam André Breton, Yves Tanguy (1900-1955) e Benjamin Péret (1899-1959). Os surrealistas criaram os jogos para exercitar a imaginação e o automatismo, bem como para aflorar, em conjunto, a obra individual dos artistas. Eles funcionavam como um fazer produtivo e, ao mesmo tempo, divertido. Segundo Fabiane Pianowski 10 (2008)10, esses jogos serviam como um instante de autoexploração e autoconhecimento por meio do qual esperavam aumentar seu repertório de ideias e imagens a partir da ativação do inconsciente. O jogo do cadavres exquis representava não somente um contínuo intercâmbio entre o poético e o pictórico, como também funcionava como um artifício de busca para evoluir do conhecido para o desconhecido (PIANOWSKI, 2008). Ele era uma forma inventada de automatismo puro, no qual o eu e o outro se confundiam (PIANOWSKI, 2008). É necessário ressaltar que o Cadáver Exquisito, na década de 30, era uma exposição que se converteu em uma das formas principais de atividade surrealista. Al mismo tiempo, en la medida en que la exposición surrealista proponía un espectador activo, participativo, estaba más cerca en espíritu de aquellos otros experimentos vanguardistas que de cualquier forma tradicional de exposición con sus espectadores pasivos y contemplativos (FOSTER et al., 2006, p.297). O Cadavres-exquis Inicialmente, praticado na forma verbal, o procedimento do cadavres exquis era muito simples: pegava-se uma folha de papel dobrada o número de vezes correspondente ao número de participantes, na qual cada um escrevia o que passava por sua cabeça sem ver o que tinham feito anteriormente seus participantes (PIANOWSKI, 2008). É importante pontuar que havia uma sequência rígida a ser respeitada: substantivo-advérbio/advérvio-verbo-substantivo, com o objetivo de obter o mínimo de coerência no resultado final que seria lido para todos (PIANOWSKI, 2008). Posteriormente, o jogo evolui para a forma visual, a qual utilizou primeiro da técnica do desenho e, em seguida, da collage (PIANOWSKI, 2008). Apesar de apresentar o mesmo funcionamento do verbal, ele possuía particularidades como, por exemplo, o número ideal de participantes era três e a sequência a ser seguida modificou-se para cabeça-tronco-pernas (PIANOWSKI, 2008). Além disso, as cores podiam ser utilizadas, mas se restringiam no decorrer do jogo ao número de cores utilizado pelo primeiro jogador. O desenho devia se prolongar por duas ou três linhas para que o próximo participante pudesse continuá-lo. 8. André Breton. Jaqueline Lamba, Yves Tanguy. Cadavre exquis,1938. Colagem sobre papel: 31 x 21,2 cm. Coleção Particular. 10 Doutoranda em História, Teoria e Crítica de Arte pela Universidade de Barcelona. 11 No caso do cadavres exquis, realizado através da técnica da collage, exemplificado pela Figura 8, o funcionamento se baseava no recorte de imagens de um dicionário ou revista por cada um dos jogadores. As contribuições eram, então, imagens pré-determinadas e seriam escolhidas por cada um dos participantes na medida em que se desenrolava o jogo (PIANOWSKI, 2008). Assim, se construía o cadavre exquis por meio da justaposição de imagens pré-existentes e disponibilizadas pelos artistas, assim como o procedimento realizado em Sobras. Enquanto o jogo pretendia obter formas antropomórficas, as intervenções de Geraldo de Barros tinham como principal função a obtenção de imagens inusitadas. No desenho da collage onde de-formamos a presença transgressora, essa realidade por prazer, instala-se o vício do corpo escandaloso. O corpo que se extravia em si mesmo. Perdido (LIMA, 1995, p.402). Ou seja, o jogo do cadavres exquis se resumia da seguinte maneira: Diferentes jugadores dibujaban diferentes partes de una figura o escribían diferentes partes de una frase, cada uno sin conocer la outra; pero lo cierto es que su distribuición estaba bastante calculada. (FOSTER et al., 2006, p.298) Pode-se pensar, que a collage, assim como a fotografia é a figura daquilo que se perde, proveniente de uma relação com o perdido. Porém, mesmo com todas essas regras, a intervenção do acaso pelos participantes em relação ao que foi desenhado anteriormente era a principal responsável pelo resultado final do jogo, como pode ser percebido, de uma forma mais peculiar, com o que ocorreu no processo de finalização da série de Geraldo de Barros, a qual contou com a participação consensual de dois integrantes, a do próprio artista e de Ana Moraes, e depois foi procedida pelas suas filhas e outros pesquisadores. O jogo do cadavres exquis – conhecido por auto-representações aperceptivas – , assim como muitas imagens produzidas por Barros, utilizavam-se de um artifício para serem construídas: a escrita automática. A obra do artista pela qual o material e a preparação do mesmo já implicavam a priori [...] sobre uma matéria, ou na matéria ou da matéria, que revela “o carnal” do espírito livre (LIMA, 1995, p.311). A atitude de Geraldo de Barros representou que a escrita automática, a todo instante, corre o risco de mudar de conteúdo, de direção, de campo e de modo (BARROS, 2006). Na arte do fotógrafo, a experiência é reveladora do confronto com a realidade se entre-abrindo num entre-vê que rapta (LIMA, 1995, p.329). Mais além do que um monólogo interior – diálogo espontâneo que se dá entre o homem e suas preocupações cotidianas – a escritura automática é mais um diálogo entre um homem consciente e parte misteriosamente perdida de si mesma, a qual, em compensação comunicase em segredo com todo o universo11. É importante pontuar que nas obras de Geraldo de Barros o surgimento de um paradoxo entre o automatismo e a inspiração, sobretudo quando se considera que a maior ênfase da recusa da escritura automática recai na sua mecânica, ou seja, justamente na ausência de inspiração e, no entanto, a sua mecânica não interessa a não ser como meio de revelação do ditado do Desejo (LIMA, 1995). Portanto, o reenvio à questão da inspiração é fundamental. No período contemporâneo, a não ser o Surrealismo, nenhum outro movimento ocupou-se da inspiração como fundamento (LIMA, 1995). O automatismo nos chega pelo entusiasmo da inspiração, representado pelo descobrimento de um continente inexplorado, reintegrando ao pensamento suas zonas submersas (LIMA, 1995). Neste percurso, o artista escolhe e seleciona, expondo-se entre o desejado e o achado, aguardando e guardando um mundo inteiro. 11 Le surréalisme et la peinture, p.92. 12 A Inspiração 9. Geraldo de Barros. Sobras, 1996-1998. Fotografia: cópia a partir do negativo recortado, prensado entre duas placas de vidro. São Paulo, Brasil. Coleção particular, (BARROS, 2006b). Em Sobras, Geraldo de Barros trilhou o mesmo processo artístico de Fotoformas, porém com mais determinação. Ao ressaltar a manifestação da memória, através do inconsciente, o artista libertou-se para criar efeitos espaciais desconcertantes. Segundo Rubens Fernandes Junior (BARROS, 2006b, p.30): Essa estranha mistura de verdade e ficção, esse jogo entre passado e presente, entre realidade e imaginação, entre simulação e aparência, é que potencializa a série Sobras como um elogio à vida e como uma sensível possibilidade de provocar a persistência de um elevado mistério interior. Geraldo de Barros, inventor de olhares desaparecidos, vai a cada imagem que se apresenta traçando uma silenciosa batalha consigo mesmo com a esperança de que ela seja compreendida e eternizada em seus estranhos silêncios. A Figura 9 representa as possibilidades de deslocamento por meio da retirada do material pelo recorte. Esses deslocamentos criam espaços e profundidades que foram analisados por Rubens Fernandes Junior (BARROS, 2006b) como um espaço de reconciliação, o qual reflete a experiência da visão fragmentária e relaciona-se com o espaço tempo da existência humana. Os deslocamentos realizados através da fotomontagem permitem que a fotografia refaça o vazio e recrie a memória, ultrapassando o mundo do silêncio e da imobilidade. A fotografia encanta e, por isso, excita a memória. O silêncio é o corpo fronteiriço ao significado (LIMA, 1995, p.245), pois os grandes silêncios requerem um olhar vasto, mas tornam as fotografias asfixiadas dentro do seu próprio tempo (LIMA, 1995). Por isso, com a fotomontagem e o desejo, é possível traçar caminhos nas imagens fotográficas a fim de libertá-las de sua asfixia. O desejo impulsiona a inspiração que é caracterizada pela memória enquanto resíduo inerte dos tempos e, ambas são vistas por Victor Hugo como a boca da sombra (LIMA, 1995), sendo que a inspiração é o velado da revelação (LIMA, 1995). Como escreveu Octavio Paz (LIMA, 1995, p.454), a inspiração é algo que se dá no homem, que se confunde com seu próprio ser e que somente pode ser explicada pelo e no homem. Tal é o ponto de partida do Primeiro Manifesto. O silêncio e a inspiração são retomados do canto arcaico e retornam, como repetem os surrealistas, pela “boca da sombra”, pois a arte das sombras (da memória) constitui um espaço particular (da imaginação) onde as representações se interagem a partir de uma realidade dada (LIMA, 1995). Na série Sobras é possível refletir que: A utilização de imagens provocadoras, carregadas de todos os detalhes do mundo sensível em sua realidade fotográfica, encontra na collage, graças a sua utilização “interior” ou imaginativa, o suporte ideal para a faculdade de rememorizar uma emoção que nos transporte, que nos emocione. (LIMA, 1995, p.516) 13 A Memória 10. Geraldo de Barros. Sobras, 1996-1998. Fotografia: cópia a partir do negativo recortado, prensado entre duas placas de vidro. São Paulo, Brasil. Coleção particular, (BARROS, 2006b). Na Figura 10, é possível visualizar uma aflita melancolia que corresponde ao embate da produção de subjetividade, em direção ao inconsciente coletivo, com a recusa de submeter à fotografia aos limites da própria linguagem. Há uma tensão entre a imagem fotográfica original e a intervenção plástica, gerando uma nova imagem que é capaz de reconstruir o tempo e a memória. Geraldo de Barros apresentou, desde o início de suas intervenções nas fotografias, um mundo vibrante e aparentemente caótico (BARROS, 2006b). Esse mundo, proveniente de uma memória tanto individual quanto coletiva expressou o ato de precipitar-se a si mesmo, de refletir-se sobre si mesmo. Tudo que foi apreendido da realidade externa está no mesmo lugar que lhe dá a existência diária habitual – apenas um detalhe, que a razão julga desconcertante, é o suficiente para recolocar ou para situar o que é visto num outro plano que o da experiência diária (LIMA, 1995, p.351). De acordo com V. Flusser (LIMA, 1995, p.430), [...] o problema da memória torna-se a questão existencial em si: o homem existe como método de recepção, conservação e emissão de informações. A memória é o lugar onde a experiência se encontra estocada. Segundo Aristóteles (Lima, 1995, p.443), a imagem mental, derivada das impressões sensoriais, compara-se a uma espécie de retrato pintado onde chamaremos de memória o estado de permanência. Em outras palavras, as imagens são consideradas simulacros daquilo que desejamos nos lembrar (LIMA, 1995). Como Octavio Paz (LIMA, 1995, p.405) escreveu, não é a memória que recorda o passado, mas o passado que volta. É o que chamamos de reencarnação das imagens. A encarnação das imagens é uma função de nossa memória que permite que as fotografias que nos rodeiam emitam simulacros em si mesmos aos quais o olhar do espectador fragmenta-os e imprime-os em seu cérebro, guardando-os em seu arquivo visual. É por essa razão que, de todos os sentidos, o da visão é o que mais impressiona (LIMA, 1995). Ela produz o espelhamento da imagem exterior como um fragmento e o configura em uma imagem inesquecível, igualando-se ao imaginário em relação às imagens do real, permitindo a memória reconstituir uma trajetória ou uma história (LIMA, 1995). O homem, perpetuamente expulso, precipitado no tempo e em busca de “outro” tempo – um tempo proibido, inacessível: o agora (LIMA, 1995, p.407). Com isso, o mundo íntimo opõe-se ao real, o mundo do sujeito é a noite. Aristóteles (LIMA, 1995, p.443) afirmou que: 14 [...] a memória pertence a mesma parte da alma que denominamos de imaginação, é um conjunto de imagens mentais recolhidas a partir das impressões sensoriais e acrescidas de um elemento temporal, pois as imagens mentais da memória não derivam da percepção das coisas presentes mas passadas [...]. A imagem evoca a memória de uma vivência, torna-se a sombra de um fascínio (LIMA, 1995). A memória é compreendida também como um tempo composto de momentos imóveis, presenças permanentes em si mesmas, e não entendida como sucessão de fluxo e escoamento (LIMA, 1995). Ela é preenchida por imagens que provocaram uma identidade, uma sensibilidade e um reflexo. Por isso, o tempo da memória e da imagem é circular, assim como o tempo do mito. Na imagem, o tempo é circular, mágico e operacional de simultaneidades [...] Aquilo que é ocultado, no texto é desocultado, ou revelado, pela imagem do conhecimento mágico [...] pelas sensações, como um saber outro e diverso da lógica racionalista (LIMA, 1995, p.488). Como a história não retorna, não é circular, não ressurge, Geraldo de Barros a reconstruiu a partir de suas imagens fotográficas. Dois aspectos contribuíram para essa reconstrução através da fotografia: o aprisionamento do instantâneo e a possibilidade de impressão e manipulação das imagens. Como afirmou Sérgio Lima (1995, p.506): A fotografia é a retenção da memória ótica e/ou visual deste instante em que o corpo ou esta configuração do gesto se dá como fato, como revelação singular e múltipla (imagem), como incidência de luz única e de registro particular. A fotografia não parte de um genérico, mas de um particular: o instante de um momento. Podendo conservá-lo ou não. Dessa forma, a fotografia torna-se um simulacro em si mesma. Enquanto imagem, ela guarda a lembrança – memória sensível – das coisas, como se fosse escritos. De acordo com Frances A. Yates, a finalidade da memória é realizar uma visão unificante no interior, no íntimo do homem, único lugar onde ela pode se dar, pois as imagens interiores (mentais) das coisas são mais próximas da realidade do que as próprias coisas do mundo exterior (LIMA, 1995). É importante ressaltar que tanto os surrealistas quanto Geraldo de Barros acreditavam que a técnica reduzia a memória. A memória visual olha para como quem olha para o impossível (LIMA, 1995, p.509). Portanto, quando os antigos desenhavam uma figura, não era a figura que olhavam, mas aquilo que estavam projetando (deles) nessa figura: fisicamente eles viam essa figura como uma sombra, a silhueta recortada pela luz da sua ausência (LIMA, 1995, p.510). Assim, a fotografia é idealizada como a permanência do registro de uma ausência que encantou (LIMA, 1995). A imagem fotográfica é uma impressão que, refletindo-se na memória de quem a observa, provoca/causa uma emoção idêntica, pois sua realidade plástica é idêntica à da sua fonte ou matriz. A arte da memória, que é arte/artifício de, por meio de imagens análogas e/ou “imagens agentes” (condutoras), suscitarmos a representação a lembrança de uma cena ou fato visto ou imaginado, compreende pois tanto o registro direto (a fotografia) como o registro interpretado (o desenho, a pintura) e, em ambos, inclui a figura humana. (LIMA, 1995, p.511) Assim, a fotografia, o registro sensível, enquanto memória de um gesto ou rastro de uma vivência, não deixa de ser também gesto simbólico (LIMA, 1995). A arte da memória é como que uma escritura interior (LIMA, 1995, p.515). A memória é considerada um veículo por meio do qual experiências e experimentações podem atingir um mesmo sentido de presença expressiva e de importância (KRAUSS, 1998). Geraldo de Barros, assim como Rosalind Krauss escreveu sobre a obra Caçaníqueis Médici de Joseph Cornell (1903-1972), se apodera do veículo surrealista da temporalidade e utiliza-o para explorar não o sonho, mas o acesso ao passado alcançado pela memória (KRAUSS, 1998, p.157). Na série Sobras, o ato do fazer a fotomontagem pode ser comparado a um trecho em que 15 Rosalind Krauss (2002) explica o fato de André Breton, assim como a maioria dos surrealistas, ser um noctâmbulo, ou seja, passear de noite para poder reivindicar a cidade à sua maneira 12: Breton também condiciona a existência de uma espécie de flecha de duas direções, que aponta ao mesmo tempo para frente e para trás, para o passado e para o futuro, pois a constelação dos espaços reais e dos eventos ocorridos que se esboçou no decorrer deste périplo noturno designa o próprio Breton como sujeito, como campo de associação que pode lhes fornecer sentido. Em outras palavras, a noção de tempo como vínculo fortuito de fragmentos associativos, para Breton, se deve ao espaço do pensamento e do inconsciente, como também igualmente, ao espaço exterior, à realidade convulsionada pelo estatuto de índice dentro de um processo contínuo de referência (KRAUSS, 2002). Geraldo de Barros: um Orfeu entre o Concretismo e o Surrealismo A intervenção no negativo é a característica mais evidente na produção fotográfica de Geraldo de Barros, pois permitiu ao artista recriar o mundo, trasbordando experiências como montagem, collage e fragmentação de imagens. As intervenções ocorriam na etapa da ampliação, depois da matriz fotográfica passar por processos químicos e se transformar em negativos para posterior ampliação da fotografia (BARROS, 2006). A imagem capturada originalmente ganha novas características e coloca o espectador a par da realidade pensada por ele no momento da captura da imagem ou ainda no contato com o negativo dentro do laboratório fotográfico, fato que ocorre tanto nos trabalhos apresentados na série Fotoformas quanto na série Sobras (SILVA et al., 2006). O ato de intervir no negativo evidencia o momento da inspiração enquanto arriscar-se ao incerto, ou seja, representa uma inversão da razão através da impaciência e do desejo, artifícios indispensáveis à arte. Os momentos de entregar-se e de arriscar-se são os pontos de partida para entender o aniquilamento. As sensações nada mais são que a consciência desse momento, pois a arte procura sempre a destruição, a negação de si mesma e, somente assim, ela culmina por fundar-se, garantindo sua eternidade (BLANCHOT, 1987). As artes em geral se concretizam através de uma ambiguidade, que tem por característica fazer as coisas desaparecerem e, ao mesmo tempo, revelar a presença desse desaparecimento, como ocorre no ato fotográfico. O erro e o acaso que Geraldo de Barros acreditou residir na criação fotográfica consistem na impaciência e no desejo de esgotar o infinito, de pôr um termo ao interminável, de revelar sua aparição. A impaciência é a falta de quem quer subtrair-se a ausência de tempo, ou seja, ela é o caminho de quem procura dominar essa ausência de tempo fazendo dela outro tempo, medido de outra forma, assim como, o fotógrafo retornou as próprias fotografias antigas e remontou-as de outra maneira, instigando uma nova forma de possibilidade de ser através da obra fotográfica (BLANCHOT, 1987). Na literatura, a marca do autor está unicamente na singularidade de sua ausência (AGAMBEN, 2007, p.55), que o permite desaparecer. Barros, ao final de sua vida, tentou reconstruir seu caminho através do seu passado, arriscando-se a sua própria desaparição. Por esse motivo, o mito de Orfeu sobre a Descida aos Infernos se aproxima da questão da experimentação fotográfica em Geraldo de Barros. O mito da Descida aos Infernos consiste na descida de Orfeu à terra das sombras em busca de sua esposa Eurídice. Eurídice era uma ninfa que, certo dia, caminhando pelas margens de um rio, se viu subitamente perseguida por um agricultor, chamado Aristeu, que a queria violar. Preocupada em escapar de seu perseguidor, a ninfa não percebeu uma serpente escondida nas ervas que a picou e lhe trouxe, assim, a morte. Orfeu revoltado com a morte prematura de Eurídice, e não conseguindo suavizar sua dor com o canto, resolveu empreender uma perigosa descida ao mundo subterrâneo, a fim de recuperar sua esposa. Embora fosse mortal, Orfeu entrou facilmente nas moradas infernais, comovendo com seu canto todos aqueles que o ouviam enquanto persistia na busca de sua amada. Inclusive os próprios deuses do Inferno, Hades e Perséfone, se deixaram comover pelo seu canto e 12 É claro que, ao comparar Geraldo de Barros com André Breton, estou me referindo ao fato de ambos serem capazes de perceber o seu entorno e registrá-lo de uma maneira subjetiva. 16 cederam ao pedido de libertação de Eurídice. Porém, uma condição lhe foi imposta: Orfeu nunca deveria olhar para trás, na direção de sua esposa, enquanto não abandonasse o mundo das trevas. O sucesso de Orfeu foi passageiro, quando chegava já são e salvo com Eurídice à superfície da terra, não resistiu ao seu desejo de olhar para trás, com o intuito de certificar-se se realmente a esposa o seguia. Assim, o pacto foi quebrado e a ninfa regressou, definitivamente, ao mundo das sombras, morrendo, então, pela segunda vez. É importante lembrar que, se Orfeu quer trazer de volta Eurídice à superfície da terra, ele não deve voltar-se para a contemplar, enquanto atravessa o mundo subterrâneo. Orfeu, como se sabe, não conseguiu respeitar esta lei e, pela mesma tentação, o poeta não está menos inclinado a infringir (LIMA, 1995, p.318). Geraldo de Barros, assim como Orfeu, também aprisiona o tempo, faz da realidade imagem e contemplação, não resiste à sua tentação. A morte de Eurídice provocada pelo olhar de Orfeu é o que inicia a reflexão e proximidade do mito ao instante do surgimento da obra de arte. Primeiramente, quando Orfeu desce em busca de sua amada, a arte torna-se a potência pela qual a noite se abre, ou seja, torna-se o momento em que tudo desapareceu, restando o silêncio, o repouso e a noite como intimidade acolhedora. Do ponto de vista de Orfeu, Eurídice é o extremo que a arte pode atingir, o desejo, a morte, a noite. Ela é o instante em que a essência da noite aproxima-se como a outra noite. Na noite, encontra-se a morte, atinge-se o esquecimento. Mas essa outra noite é a morte que não se encontra, é o esquecimento que se esquece, que é no seio do esquecimento, a lembrança sem repouso (BLANCHOT, 1987, p.164). Em um segundo momento, quando ocorre a morte da ninfa pela segunda vez e esta é provocada por uma decisão de Orfeu, surge, então, o conceito de outra noite e o momento da traição. A outra noite pensada enquanto o momento de criação, no qual o invisível se torna o que não se pode deixar de ver, ou seja, o incessante que se faz ver, e aquilo que corresponde aos recortes fotográficos de Geraldo de Barros. O olhar de Orfeu significa o momento extremo da liberdade, libertando o sagrado contido na obra e demonstrando o sentido da experiência: a essência da noite, sob o seu olhar, revela-se como não-essencial. Tudo está em jogo na decisão do olhar, assim como ocorre no fazer fotográfico. A fotografia, enquanto obra de arte e esta enquanto causadora da morte de um objeto para sua recriação enquanto imagem e fragmento, dialoga com a escolha do olhar de Orfeu para Eurídice, que a tornou eterna e essencial enquanto imagem e literatura. Portanto, a imagem não é apenas um não ser, mas sim uma outra possibilidade do ser, uma reconstrução do ser, o processo de Sobras. A fotografia evoca o mito através da aparição de uma ausência, ela vai substituí-la. O processo do olhar e do instante da escolha se concretiza com a petrificação do tempo. A fotografia funciona como a fadiga, tornando-se um processo infinito de um fim que nunca chega, infinito porque incluso. Ela está aprisionada em um entretempo da essência da criação. [...] Assim como acontece nas fotografias em que nos olha o rosto remoto e bem próximo de uma desconhecida, algo naquela infâmia exige o próprio nome, testemunha de si para além de qualquer expressão e de qualquer memória (AGAMBEN, 2007, p.58). A obra de Orfeu consiste basicamente em trazer sua amada de volta para o dia – a noite é considerada uma continuação do próprio dia – e dar-lhe, então, rosto e realidade. Ele queria captar a essência de Eurídice e para isso se tornar possível, era necessário seu desaparecimento, pois a profundidade não se entrega frontalmente, apenas se revela dissimulando-se na obra. Sua obra dá lugar ao estranhamento, ao obscurecimento, à sombra pois, ao olhar para Eurídice, Orfeu passa a enxergar sua própria ausência e, talvez esta, fosse a única imagem necessária. Para realizá-la, é preciso um ponto que coincida com a sua realização e seu desaparecimento. O lugar que ficou vazio é o que torna possível a imaginação, por isso, Orfeu não pode ter sido a não ser no instante de seu desaparecimento (AGAMBEN, 2007, p.72). Orfeu quer vê-la, não quando ela está visível, mas quando está invisível, e não como a intimidade de uma vida familiar mas como estranheza do que exclui toda a intimidade, não para fazê-la viver mas ter viva nela a plenitude de sua morte (BLANCHOT, 1987, p.172). Assim, Orfeu fez da ausência da visão o ponto culminante de seu olhar. 17 A questão do arriscar-se através do olhar de Orfeu, apontando a impaciência e o desejo como seu artifício, atribui à lembrança desse olhar a um regresso nostálgico à incerteza da origem, pois é na obra que o olhar desejado se perde, sendo que é somente nesse olhar que ela pode superar-se, unir-se a sua origem e consagrar-se na impossibilidade. Orfeu nunca deixou de estar voltado para Eurídice, ele viu-a invisível, tocou-lhe intacta em sua ausência de sombra e, se não tivesse olhado para trás, não a teria traído e, portanto, ele não estaria ausente e nem menos morto que ela. Se Geraldo de Barros não tivesse acreditado ter esgotado suas experimentações fotográficas, não teria consagrado sua obra final perante a ausência do arriscar-se, pois seu desejo e impaciência caminhavam lado a lado até que, de um contato mais profundo, surgisse a imagem sensível. Com isso, ambos não teriam sido postos a prova da impaciência, ao desejo de esgotar o infinito, de pôr um termo ao interminável, de sustentar seu erro. Orfeu fez de Eurídice um outro ser, não mais aquele que convivia em sua alteridade, mas aquele que se tornou eterno na essência da sua morte. Segundo Blanchot (1987, p.173), a impaciência de Orfeu também é, portanto, um movimento correto: nela começa o que virá a ser a sua própria paixão, sua mais alta paciência, sua morada infinita na morte. Portanto, a inspiração foi a ruína de Orfeu. Seu olhar e sua impaciência o condenaram a perda completa, não somente dele próprio, mas da essência da própria noite. No olhar, a obra estava perdida. Da inspiração pressentiu-se o fracasso, e Eurídice, duas vezes perdida, demonstrou a insignificância e o vazio da noite em face do fracasso e da insignificância, fazendo Orfeu voltar-se por um movimento irresistível, como se renunciar à derrota fosse mais grave do que renunciar ao êxito e, como se aquilo que se chama insignificante, o não-essencial, o erro pudesse, a quem lhe aceita o risco e se entrega sem reservas, revelar-se como a fonte de toda autenticidade (BLANCHOT, 1987). A arte procura sempre a destruição e se concretiza por meio de uma ambiguidade que tem por característica fazer as coisas desaparecerem e, ao mesmo tempo, revelar a presença desse desaparecimento, como ocorre no ato fotográfico e no processo artístico de Geraldo de Barros. 18 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Livros: - AGAMBEN, Giorgio. Profanações. Tradução: Selvino José Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007. - ARGAN, Giulio Carlo. Arte e Crítica de Arte. Lisboa: Estampa, 1988. - ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. 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