Tecnologias digitais na escola pública: formação continuada de professores com ênfase no exercício de autoria Elmara Pereira de Souza Núcleo de Tecnologia Educacional – NTE 16 Praça Tancredo Neves, 86, 2º piso, sala 22 – Vitória da Conquista – Bahia – Brasil (55) 77 3421-4500 [email protected] RESUMO Esse artigo discute a utilização dos computadores e da rede Internet nas escolas públicas de Vitória da Conquista – Bahia, a partir da visão de um grupo de professores. A investigação teve como objetivo conhecer alguns efeitos da in(ter)venção na escola com a proposta de criar condições de possibilidade de utilização do laboratório de informática no exercício da autoria. Os fundamentos para esta abordagem estão baseados nos pressupostos teóricos de Mikhail Bakhtin, com ênfase no conceito de autoria. Os resultados apontaram para, no contexto dialógico e no exercício de exotopia, a importância do apoio do outro nas discussões, nas produções coletivas, fazendo com que os professores possam reverter um quadro de apatia, de insegurança e de medo do uso das tecnologias digitais, para um quadro de tentativa de mudança, de transformação, de autoria. Termos Gerais Investigação. Palavras-chave compreender em que elas poderão auxiliar no processo ensinoaprendizagem. Fica o desafio para todos nós: como utilizar as tecnologias, os computadores, a rede Internet na escola na direção do favorecimento da construção de novo conhecimento? A investigação aqui relatada tratou da inserção das tecnologias digitais na educação, em especial, o uso dos computadores do laboratório de informática em uma escola pública. O principal objetivo desta pesquisa foi conhecer alguns dos efeitos de uma in(ter)venção1 que teve a proposta de criar condições de possibilidade de uso do laboratório de informática como espaço de exercício de autoria em uma escola pública de Vitória da Conquista - BA. Neste trabalho, baseado na teoria bakhtiniana, autoria é compreendida como toda e qualquer construção feita pelo sujeito, pela qual ele se responsabilize, seja através da linguagem, oral ou escrita, ou da ação, perpassada pelo social, considerando a influência do outro, a palavra do outro como essencial no processo de criação. Informática educativa, tecnologias digitais na educação, produção de sentido e autoria, formação continuada de professores. Este estudo teve a intenção de contribuir com subsídios para as ações de formação continuada de professores para a utilização dos laboratórios de informática nas escolas públicas. 1. INTRODUCÃO O principal pressuposto da pesquisa foi que a exploração das tecnologias digitais na escola, com um grupo de professores, sob o enfoque da multivocalidade, do favorecimento à expressão da diversidade de sentidos, da polifonia (entrecruzamento de muitas vozes), em que cada autor, nas relações, no contexto dialógico, gera novos sentidos na cadeia de sentidos, poderá contribuir na promoção de condições de possibilidade de uso do laboratório de informática. A introdução das tecnologias digitais em nossas vidas está provocando modificações em diversas áreas, como econômica, social, cultural, educacional e também nas intersubjetividades pessoais. A introdução dos computadores na indústria, no comércio, na medicina, nas ciências em geral trouxe transformações imediatas. Na ciência, a computação automatizada permitiu medições e comparações que nunca foram possíveis antes. Na medicina, na indústria, processos repetitivos foram informatizados, minimizando o erro humano e também liberando o trabalho de tarefas “insalubres” do ponto de vista da auto-realização pelo trabalho. Nestas áreas, saltos enormes foram dados. Mas, e na escola? Quais as transformações que percebemos com a inserção das tecnologias digitais, em especial, o computador e a rede Internet? Segundo Sandholtz [9] o papel da tecnologia na educação não é tão óbvio. Precisamos discutir a inserção das tecnologias nas nossas vidas e em especial na educação para podermos A partir da análise das falas dos professores durante as reuniões semanais, as mensagens escritas no Forchat2, questionários individuais, memoriais e construção dos software, compreendidos 1 Utilizo o termo in(ter)venção porque a concepção metodológica de trabalho com os professores supunha espaços de possibilidade de criação/invenção. 2 O Forchat é um espaço para discussão, via rede Internet, administrado pelo Lelic (Laboratório de Estudos em Linguagem, Interação e Cognição da UFRGS), que foi disponibilizado para as interações com professores sujeitos desta pesquisa. como exercício de autoria, a pesquisa procurou responder à seguinte pergunta: Quais poderiam ser, na perspectiva de um grupo de professores, alguns dos efeitos de uma in(ter)venção na escola, com o propósito de criar condições de possibilidade de uso do laboratório de informática como espaço para o exercício de autoria? Segundo Teodoro [5], a introdução das tecnologias digitais no contexto educacional pode estar associada a mudanças nos modos como se aprende, a mudanças nas formas de interação entre quem aprende e quem ensina, assim como nos modos de reflexão acerca da natureza do próprio conhecimento, representando uma modificação epistemológica profunda. A partir desta questão principal, outras se apresentaram como questões complementares na pesquisa: Há dificuldades que estariam impedindo o uso do laboratório de informática na escola? Quais? A partir das discussões coletivas, do apoio do outro, o que se modifica na prática destes professores com relação ao uso do laboratório de informática, ou seja, quais as possibilidades vislumbradas pelo grupo para o uso desse espaço durante o período de in(ter)venção? O que fez com que os professores participassem do grupo? O que os afetou? Por que alguns professores desistiram de participar do grupo durante o processo e outros se sentiram atraídos no meio do caminho? Vários estudos têm apontado resultados favoráveis quando a informática é utilizada em situações de ensino-aprendizagem, incluindo também casos de dificuldades cognitivas [2]. A metodologia deste trabalho foi baseada nos pressupostos teórico-epistemológicos bakhtinianos, definindo uma visão de mundo de aproximação e abordagem do campo empírico. Foi utilizada uma abordagem qualitativa do tipo in(ter)venção [3]. Na pesquisa in(ter)venção a situação não é da ordem do previsto, é da ordem do acontecimento e depende do contexto, no sentido de instituição de espaços de intervenção dialógica, apostando no encontro de sentidos; in(ter)venção com sentido de possibilidade de atitude responsiva ativa, da pesquisadora e dos professores sujeitos da pesquisa. 2. EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA Os desafios que estão diante de nós, no que diz respeito à educação, são inúmeros. A educação vive um processo de crise que nos faz pensar e repensar as políticas públicas nesta área, em especial aquelas que se referem à inserção das tecnologias digitais na escola. As tecnologias digitais, cada vez mais, fazem parte, direta ou indiretamente, da realidade de alunos, professores e funcionários da escola. As TIC já estão NA Educação, Na Escola. Pois, também a escola é parte integrante da cultura, da sociedade que está inserida, e o que se passa por dentro da última faz marcas na primeira, independente do fato de ela aceitar, ou resistir, ou combater, ou se render a determinado estado de coisas – neste sentido, aceitar, resistir, combater, incluir, excluir, são marcas que se equivalem, na revelação de um pertencimento a uma cultura, a uma sociedade. [1] A maioria dos educadores concorda que a escola tem novas responsabilidades frente às transformações do mundo atual. Mas é preciso lembrar que as questões relacionadas à inserção das tecnologias digitais na escola não podem ser tratadas isoladamente, fora do contexto sócio-político, assim como da realidade educacional do país. A inserção das tecnologias digitais na escola pode trazer novas possibilidades para o campo do ambiente escolar, tanto em relação ao uso de recursos, como também para os modos de desenvolvimento da capacidade de pensar, criar e participar de uma sociedade que está em construção. Os cursos de formação de professores devem ir além da preocupação com o instrumental, do uso da tecnologia; devem dar suporte para repensar também as concepções no campo educacional. Nos cursos de formação, o professor deve ser levado a descobrir o porquê da utilização do computador no ambiente escolar, em que ele pode auxiliar no campo didático-pedagógico, e não apenas apresentar a tecnologia como algo que simplesmente deve aprender para usar com seus alunos. Não importa a professores e alunos apenas aprender a usar os novos meios tecnológicos Na Educação importa muito mais pensar as tecnologias PARA a Educação. Pensar as tecnologias PARA a educação supõe um deslocamento de perspectiva fundamental para operar uma mudança de sentido, ou ao inverso, supõe uma mudança de sentido essencial para operar um deslocamento de perspectiva. [1] São várias as possibilidades de utilização das tecnologias digitais na escola. A utilização da Internet, o desenvolvimento de projetos coletivos e a utilização de ambientes de aprendizagem para a formação continuada dos professores são algumas delas. 3. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS E A PESQUISA A proposta do estudo aqui apresentado foi, a partir do contexto ideológico da enunciação – contexto da escola, de cada professor, do laboratório de informática - perceber os efeitos desta in(ter)venção na escola, o que foi acontecendo reunião após reunião, as pequenas modificações no ritmo da escola, dos professores, da utilização do laboratório, os sentidos que foram sendo produzidos através do diálogo. A intenção era, a partir das vozes dos professores nas reuniões, nos registros no Forchat, no memorial, no questionário, dialogar com elas, tentando compreender os sentidos produzidos. Foram sujeitos da pesquisa quinze professores de uma escola pública de Vitória da Conquista – BA. Durante a pesquisa, o laboratório de informática foi o principal lugar de investigação/observação/atividades/ação. A metodologia de trabalho constituiu-se por reuniões semanais com o grupo de professores no laboratório de informática durante um ano letivo. Foi utilizado o Forchat com o objetivo de proporcionar aos professores um ambiente em que pudessem acontecer as interações síncronas e assíncronas, entre eles (sujeitos da pesquisa) e entre eles e os professores de uma escola pública da cidade de Rio Branco – Acre. Este encontro foi importante para troca de informações sobre as dificuldades encontradas na utilização das tecnologias digitais em regiões diferentes do país. A proposta de trabalho realizada com os professores não tinha somente o objetivo de fazê-los utilizar o laboratório de informática que, até então, era chamado de “elefante branco”. Para além do uso das tecnologias digitais, a experimentação tinha como objetivo que os próprios professores tivessem a possibilidade de uma vivência coletiva em um ambiente telemático de aprendizagem, como estratégia para sentir os limites (pessoais de uso da tecnologia; da própria tecnologia - ligar máquinas, instalar programas, acessar a Internet, etc.; da infraestrutura da escola e das políticas públicas relacionadas às tecnologias). Estes limites se constituem em operadores de um contexto dialógico propício à produção de sentidos porque faz criar enunciados (orais – nas reuniões presenciais - e escritos – no Forchat, nos memoriais), faz falar, faz sofrer. Os enunciados, também, são operadores tanto da produção de sentidos quanto do exercício da autoria, na medida em que falar sobre os limites da tecnologia e do seu uso cria um contexto de negociação de sentidos e, com isso, instauram-se novos sentidos. A partir de um contexto em que todas as vozes do grupo são acolhidas e os sentidos podem ser expressos mediante formulações de enunciados, incentivados na medida em que proporcionam excedente de visão/acabamento e uma atitude responsiva ativa, abre-se espaço de interação para o coletivo, portanto, para o dialogismo, conforme depoimento de uma professora que participou da pesquisa: (RP)3 Quando eu cheguei ao grupo, pensei que seriam dadas orientações técnicas para o uso do laboratório. Mas achei muito interessante a idéia de não trazer receitas prontas, mas de construir juntos baseados na necessidade e realidade da escola, dos professores. Às vezes, quando levamos para a sala de aula tudo pronto também não temos o apoio de todos os alunos. O professor pode aplicar uma técnica maravilhosa, mas muitas vezes não é isso que o aluno quer ou precisa naquele momento. Para Bakhtin o próprio ser do homem significa comunicar. Os tópicos por ele desenvolvidos podem ser agrupados por um conjunto de idéias intitulado “dialogismo”, devido à forte preocupação com o diálogo, que, para ele, não é apenas a interrelação verbal mas: A vida é por sua natureza, dialógica. Viver significa participar em um diálogo: perguntar, prestar atenção, responder, concordar, e assim por diante. Neste diálogo, uma pessoa participa totalmente e ao longo de toda sua vida [5]. A interação verbal é colocada no centro das relações sociais. Segundo Bakhtin [4]: "toda parte verbal de nosso comportamento (quer se trate de linguagem exterior ou interior) não pode, em nenhum caso, ser atribuída a um sujeito individual considerado isoladamente”. Bakhtin, através do conceito de dialogismo, demonstra uma atitude de vida extremamente social. O dialogismo se refere aos diferentes diálogos que existem entre os diferentes discursos de uma comunidade, cultura, sociedade. Estes diferentes diálogos entre diferentes discursos se mostram nas interações do grupo desta pesquisa, apontando para as tensões no encontro de enunciados, bem como, as negociações de sentido que aí se instauram, conforme exemplos a seguir: (RP) Precisamos mesmo começar a usar este laboratório. 3 As abreviaturas RP, FC, ME, QI referem-se às falas retiradas das reuniões presenciais, do forchat, dos memoriais e dos questionários individuais, respectivamente. (RP) Não sei mexer com as máquinas. Durante as análises dos enunciados dos professores foram observadas não só as palavras, mas também os silêncios, os gestos. Tanto pelas vozes como pelo silêncio, estamos cercados pela produção de sentido. Cada fala é única, cada enunciado é diferente do anterior e do posterior, e cria algo novo. Isso faz com que percebamos a singularidade da situação dialógica. Cada depoimento está encharcado de emoções, de experiência de vida que é individual e, ao mesmo tempo, coletiva/social. A interação, relação entre sujeitos, a partir da perspectiva sóciohistórica, foi possibilitada pela linguagem. Para Bakhtin [5], o objeto de estudo das ciências humanas é o homem, ser expressivo e falante. Assim, a palavra, signo ideológico por excelência, é mediadora do processo dialético entre o individual e o social [7]. As reuniões do grupo tornaram-se local privilegiado do diálogo. Segundo Machado [8], o ambiente é a condição sem a qual o diálogo simplesmente não acontece. Este ambiente foi criado para que em cada reunião as interações acontecessem. Bakhtin [5] afirma que qualquer locução dita em voz alta ou escrita é expressão e produto da interação social. E essa interação se dá entre o falante, o ouvinte e o tópico do discurso. O enunciado concreto nasce, vive e morre no processo da interação social entre os participantes do enunciado. Neste sentido, os diálogos, os enunciados produzidos nas reuniões do grupo, no Forchat, nos memoriais e nos questionários, são expressões da interação social entre todos os que participaram do processo da pesquisa. Como discutido por Bakhtin [4][5], a linguagem é constitutiva da própria linguagem à medida que as palavras e as sentenças, unidades lingüísticas abstratas da língua, se inserem em enunciados completos e se recriam em sentidos que traduzem as posturas individuais dos falantes nas situações concretas de comunicação discursiva. Assim, entende-se que os significados dicionarizados de palavras e sentenças são constantemente recriados e traduzidos em sentidos individuais/coletivos pelos interagentes de cada situação de comunicação verbal, constituindo e reconstituindo a linguagem. Esta constante criação/recriação de sentidos pode explicar as transformações operadas em um contexto, fazendo surgir novos contextos dialógicos, novos sentidos, levando à criação de condições de possibilidade a partir de atitudes responsivas ativas. Por outro lado, a linguagem é constitutiva dos próprios sujeitos na medida em que estes interagem com os outros durante as situações de comunicação discursiva, e sua consciência, seu conhecimento do mundo, e em última análise, eles próprios, se completam e se constroem continuamente nas suas práticas discursivas e nas dos outros. Ao longo da sua sócio-história, então, o sujeito se constitui à medida que ouve e se apropria de palavras e de discursos de seus pares (pais, amigos, colegas, professores, etc.) tornando-as, em parte, suas próprias palavras. Isso pode explicar as mudanças na produção de sentidos, com ênfase na positividade, alçando os sujeitos à posição de autoria. O exemplo que segue mostra o foco nesta positividade: (FC) Olá professores, como é bom poder estar batendo papo com vocês, sejam bem-vindos ao fórum, espero que nós possamos trocar muitas idéias interessantes, conversar a respeito das nossas angústias de educadores, e também saber um pouco como é a realidade educacional de vocês aí no Acre. Considerando que a linguagem é polissêmica e polifônica, as diversas vozes que se entrecruzaram durante o período da pesquisa revelaram que a autoria é sempre social e coletiva. 3.1 Enunciado Para que sejam analisados os enunciados dos professores, fez-se necessário criar parâmetros para saber onde começava e onde terminava cada enunciado4. Optamos por dividi-los em (1) se for um diálogo entre locutores, os enunciados serão separados por turnos5, ou seja, cada fala de um interlocutor será considerado um enunciado; (2) se for na fala de um mesmo locutor, será dividido quando remeter a discursos/textos diferentes, por exemplo, quando o professor fala: (RP) Eu queria utilizar o laboratório para os meus alunos fazerem pesquisas, mas não tem Internet aqui. Neste caso temos dois enunciados. O primeiro, Eu queria utilizar o laboratório para os meus alunos fazerem pesquisas, remete a um discurso com caráter de positividade, e o segundo, mas não tem Internet aqui, diz respeito a um limite encontrado na escola, portanto, outro discurso, outro contexto, outro enunciado. São os sentidos que operam as transformações do contexto dialógico através das atitudes responsivas ativas. Os vários enunciados foram analisados a partir de três seqüências: (i) o enunciado que se refere aos limites (sentidos como restritores), num caráter mais negativo, podendo levar ao bloqueio, à desistência (R); (ii) o enunciado que tem uma oscilação entre restrição e positividade, que leva a brechas, a rupturas no contexto de sentidos (RN); (iii) o enunciado que tem uma tendência forte à positividade, com mudança de contextos de sentido (P). É importante enfatizar que, nestas três seqüências, não há progresso, linearidade, elas sempre coexistem, uma ou outra podendo preponderar em determinados momentos. No início do processo, em nosso caso, por exemplo, houve um predomínio dos enunciados com caráter mais negativo (R); enunciados que oscilam entre a restrição e a positividade (RN), permearam o processo o tempo todo; já no final do estudo, observou-se uma preponderância na positividade (P). Enunciados sucessivos formam seqüências. Cada seqüência (R), (RN) ou (P) pode ser analisada a partir de limites sentidos pelos professores como restritores, referentes à: (a) dificuldade pessoal do professor; (b) infra-estrutura da escola e/ou políticas públicas; (c) capacitação (NTE); (d) indisciplina dos alunos; (e) tecnologia propriamente dita. 3.2 Sentido Na concepção bakhtiniana, uma elocução pressupõe uma resposta a um “outro” e o significado é construído entre os parceiros. Por isso os enunciados não são nunca idênticos. Mesmo utilizando as mesmas palavras, os parceiros e os contextos podem variar e, por conseqüência, também os sentidos do contexto. Bakhtin [5] distingue significado e sentido. 4 5 Esta metodologia de análise foi construída com base em Axt M. Micro-agenciamentos de enunciação coletiva em comunidades virtuais de aprendizagem 2005. Este termo vem da lingüística, da teoria da conversa, e se refere as vozes do diálogo. Cada enunciado de um diálogo corresponde a um turno. Quando encontra-se no texto a expressão “troca de turno”, remete à troca de enunciados entre os locutores. Chamo sentido ao que é resposta a uma pergunta. O que não responde a nenhuma pergunta carece de sentido. O sentido é potencialmente infinito, mas só se atualiza no contato com outro sentido (o sentido do outro) (...) O sentido não se atualiza sozinho, procede de dois sentidos que se encontram e entram em contato. Não há um “sentido em si” (...) pois o sentido se situa sempre entre os sentidos, elo de uma cadeia do sentido que é a única suscetível, em seu todo, de ser uma realidade. Já o significado, para o autor, refere-se ao conteúdo dicionarizado da palavra. O enunciado se caracteriza tanto por seu significado (conteúdo dicionarizado) quanto por seu sentido (individual). Quanto ao seu conteúdo, o enunciado compreende um significado dicionarizado das palavras utilizadas e, quanto ao seu sentido, caracteriza-se por uma compreensão que vai muito além da compreensão do significado das palavras, levando em consideração o contexto ideológico. Baseada na teoria bakhtiniana, as reuniões do grupo da pesquisa, foram feitas em um ambiente telemático em que muitas vozes pudessem estar presentes, serem ouvidas e que o diálogo fosse uma constante. Dar a voz, ouvir a voz do outro não é simples. É preciso estar preparado para ouvir diferentes pontos de vista. Segundo Bakhtin, o sentido se dá na própria possibilidade de conversar, de construir conhecimento, de partilhar, e foi nesta perspectiva que o espaço de interação dialógica criado pelo próprio grupo, fez com que, a partir do encontro com outros sentidos, novos sentidos surgissem. 3.3 Autoria Nas leituras das obras de Bakhtin e seguindo a orientação de Todorov [5], percebe-se que o conceito de autoria vai se modificando. Ele inicia colocando o autor como um sujeito diferenciado, a seguir traz a idéia de que o autor constrói e é construído pelos seus próprios personagens, definindo esta relação entre autor-personagem como dialógica. Bakhtin foi um autor que começou, ainda na primeira metade do século XX, a questionar o conceito de autoria como se referindo a um sujeito gênio criador, origem do seu próprio dizer. Nos textos de várias épocas encontrados, em especial, na segunda parte do livro “Estética da Criação Verbal” [5], nota-se uma tendência à compreensão da autoria em sua dimensão coletiva/social. A noção de que não há um único autor, e sim vários, a noção de um texto que não é jamais singular, e sim compartilhado, é bem mais clara nestes escritos. Tudo o que é dito, expresso, situa-se fora da “alma”, fora do locutor, não lhe pertence com exclusividade. Não se pode deixar a palavra para o locutor apenas. O autor (o locutor) tem seus direitos imprescritíveis sobre a palavra, mas também o ouvinte tem seus direitos, e todos aqueles cujas vozes soam na palavra têm seus direitos. [5] A partir das obras de Bakhtin, percebe-se a necessidade de pensar um novo conceito de autoria, coerente com uma concepção dinâmica da linguagem, com o conceito de polifonia e de dialogismo, considerando o sujeito como ser social. A seqüência de enunciados a seguir foi analisada como intuito de perceber a assunção da posição de autoria dos sujeitos participantes do grupo de pesquisa. (ME) Foi um grande desafio e também uma grande alegria levamos as crianças para o laboratório de informática para, no Paint, fazer as ilustrações da história. A experiência de vê-las descobrindo um mundo novo e lúdico foi indescritível e me estimulou a usar esse recurso com mais freqüência. No dia da apresentação, via-se o orgulho estampado no rosto de cada uma e é lógico, no meu também. O trabalho foi muito elogiado e acabou sendo o escolhido para ser enviado a Salvador, para concorrer com o trabalho de outras escolas e, talvez, ser enviado a Brasília como representante do estado da Bahia, evidencia uma forte positividade (P), expressando a assunção da autoria do professor, neste caso, a partir de atualizações do sentido no contexto de realidade (produção de apresentação utilizando Paint e Power Point). Nesta seqüência, os enunciados P se reforçam mutuamente e, à medida que isso acontece, a tônica do contexto de sentidos modifica, passando de negatividade, para sentidos positivos. Para P, os limites continuam, mas deixam de ser restritores, são absorvidos pelos sujeitos. P reforça a mudança, RN reforça o status quo, com brechas para possíveis mudanças. Quando os professores participantes do grupo assumiram desenvolver projetos com os alunos e também desenvolver os seus próprios software, esta decisão foi ao encontro dos objetivos da pesquisa, pois possibilitaria o exercício da autoria não só nas discussões (expressão de sentidos), mas também na construção dos seus próprios programas e projetos (atualização do sentido nos contextos de realidade). No exemplo a seguir mostra mais uma vez a assunção da autoria pelo sujeito. (ME) Outro momento muito prazeroso para mim foi quando consegui criar um exercício no Everest e, melhor ainda, quando meus alunos do Ensino Médio o executaram e pude ver que funcionou como um reforço para a aprendizagem que havíamos alcançado nas outras aulas. Nessa seqüência é evidenciada a posição de assunção da autoria na atualização do sentido no contexto de realidade. A partir do conceito de autoria utilizado neste estudo, como sendo toda e qualquer construção feita pelo sujeito, pela qual se responsabilize, seja através da linguagem oral ou escrita, ou da ação, considerando a influência do outro como essencial no processo de criação, a professora, ao expressar a satisfação por ter criado o seu próprio software e em especial por ter acompanhado os seus alunos utilizando esta ferramenta, afirma a sua autoria tanto através da linguagem escrita (expressa no memorial), quanto da ação (construção do software). Nesse estudo, observa-se que a partir da análise das seqüências de enunciados dos professores, que a autoria é sempre coletiva/social e pode ser percebida através da expressão de sentidos (linguagem) e também pela atualização nos contextos de realidade (ação). 3.4 Exotopia Bakhtin [5] considera que uma vida encontra um sentido e, com isso, se torna um ingrediente possível da construção estética, somente se é vista do exterior, como um todo e a sua vida deve fazer parte do horizonte de alguma outra pessoa. Segundo o autor, somente um outro pode me dar acabamento, assim como só eu (como outro) posso dar acabamento a um outro, a este princípio ele chama de exotopia. o princípio da exotopia, é, em última instância, uma visão de mundo que tem conseqüências teóricas inescapáveis. Ele pode ser entendido, de fato, como o princípio dialógico bakhtiniano, que, a partir do conceito de signo e de significação - o conceito de linguagem substancialmente revolucionário de Bakhtin, fora do qual todos os seus outros conceitos parece que se reduzem a uma lista de novas definições estruturais - a partir daí abrange toda a atividade da cultura humana, ou, para usar uma expressão que lhe era cara, o 'acontecimento aberto da vida'. [10] A exotopia pode ser percebido de duas formas: (1) eu só posso me ver pelo olhar do outro, este outro é que me dá acabamento, e (2) relacionado ao que Bakhtin [5] chama de autor-contemplador, ou seja, o princípio da exterioridade, do estranhamento, da distância para contemplar. Neste sentido, Bakhtin fala que vemos no espelho apenas um reflexo do nosso exterior e não a nós mesmos, os meus olhos olham olhos alheios, vejo a mim mesmo com olhos de um outro. O conceito de exotopia, apresentado por Bakhtin [5], ao enfocar um posicionamento de estranhamento do indivíduo diante de outras culturas e de outras realidades, permitiu-nos analisar a oportunidade provocada pela formação do grupo nesta pesquisa, de uma posição de exotopia, na medida em que (1) os professores se distanciaram dos sentidos em circulação (queixas, isolamento, impotência diante das dificuldades), produzindo novos sentidos pelo encontro dialógico com colegas, autores, textos e criando condição de possibilidade de mudança, de transformação da realidade; (2) os professores tiveram a oportunidade de se encontrar com colegas de áreas diferentes, também distinto do que acontece no seu dia-a-dia. Na cultura, a exotopia é o instrumento mais poderoso da compreensão. Esta condição de exotopia foi percebida em vários momentos do processo da pesquisa, e, em especial, durante a escrita do memorial e do questionário, já que o objetivo destes instrumentos era olhar (de fora, em outro tempo, em outro espaço) o que havia acontecido no período em que o grupo se reuniu, o que os havia afetado, as oportunidades de uso do laboratório, os pontos negativos e positivos das reuniões do grupo, o processo. 4. CONCLUSÕES A realização deste estudo significou conhecer algumas formas de utilização do laboratório de informática como espaço de exercício de autoria, a partir da interação dialógica, do apoio do outro, da produção de novos sentidos, do encontro com outros sentidos, desconstruindo a idéia do “elefante branco” que existia na escola. As discussões teóricas aqui trazidas apontam a linguagem, como instrumento essencial através do qual o indivíduo constitui-se como um sujeito histórico e cultural. Através dela, vários sentidos são colocados em disputa. A resposta à questão da pesquisa – quais alguns dos efeitos de uma in(ter)venção na escola com a proposta de criar condições de possibilidade de uso do laboratório de informática como espaço de exercício de autoria. – foi sendo visualizada na medida em que os enunciados dos professores foram sendo analisados. A análise das seqüências de enunciados apontou que, no início do processo da pesquisa, os limites (pessoais de uso da tecnologia, da própria tecnologia, da infra-estrutura da escola e das políticas públicas) eram vistos, de uma forma mais intensa, como restritores (R), e isso provocou bloqueio em alguns participantes e desistência de outros. Na medida em que as interações foram acontecendo no grupo, notamos certa preponderância dos enunciados (RN) que oscilavam entre a restrição e a positividade, abrindo, portanto, brechas para novos sentidos do contexto. No final da pesquisa percebemos uma predominância dos enunciados (P) com forte tendência à positividade, com mudança de contexto. Passando a trabalhar com a realidade de limites como restrição/restritores, o acompanhamento das interações dialógicas no contexto das reuniões do grupo mostrou, processualmente, as direções tomadas pelo próprio grupo. O espaço dialógico criado pelos participantes, em que as subjetividades puderam aparecer, fez com que, através do embate dos sentidos, novos sentidos fossem produzidos, emergindo possibilidades de uso do laboratório de informática na escola. A análise dos dados nos mostrou que os professores, quando apoiados por um coletivo no contexto dialógico e no exercício da exotopia, podem reverter um quadro de apatia, de insegurança, de medo de uso das tecnologias, para um quadro de tentativa de mudanças, de transformação. E o que até então era limite percebido como restritor, passa a operar como eixo dialógico favorável à produção de outros sentidos que acabam por mudar o contexto. Confirmamos, assim, o pressuposto de que a exploração das tecnologias digitais sob o enfoque da multivocalidade, do favorecimento à expressão da diversidade de sentidos, da polifonia, do apoio do outro, poderá contribuir na promoção de condições de possibilidade de utilização destas tecnologias na escola. 5. REFERÊNCIAS [1] Axt, M. 2000. Tecnologia na educação, tecnologia para a educação – um texto em construção. In Revista Informática na educação: teoria & prática, Porto Alegre, UFRGS, p 9 e 10. [2] Axt, M.; Fagundes, L. C. 1996. Educação à distância via Internet: buscando indicadores de qualidade para avaliação. In Moraes, V. (Org.) Melhoria do ensino e capacitação docente. Porto Alegre. Editora da Universidade/UFRGS. [3] Axt, M. e Kreutz, J. R.2003. Sala de aula em rede: de quando a autoria se (dês)dobra em in(ter)venção. 2002. In: T.G.Fonseca e P.G.KIST.(orgs). Cartografias e Devires. P.Alegre, UFRGS. [4] Bakhtin, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 1979. São Paulo: Hucitec, p 182. [5] Bakhtin, M. 2000. Estética da Criação Verbal. São Paulo, Martinz Fontes, p 350 e 384. [6] Cattani, A. 2001. Recursos informáticos e telemático como suporte para formação e qualificação de trabalhadores da construção civil. 235 p. Tese de doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. [7] Jobim e Souza, S e Kramer, S (orgs.). Histórias de Professores. Leitura, Escrita e Pesquisa em Educação. São Paulo, Editora Ática, 2003. [8] Machado, I. 1997. Gêneros discursivos. In BRAIT, B. (org). Bakhtin - Conceitos-chave. São Paulo, Contexto, 2005. [9] Sandholtz, J. H; Ringtaff, C; Dwyer, D. Ensinando com Tecnologia, criando salas de aula centradas nos alunos. Porto Alegre, Artes Médicas. [10] Tezza, C. 2001. 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