Pensamento do Dia Economistas analisam a Economia, o Brasil e o mundo, mundo, na mídia diária 13 a 17 02 2010 ------------------------------------------------------------------Folha de S.Paulo 17 02 2010 ANTONIO DELFIM NETTO 2010? TEMOS INSISTIDO nestes "sueltos" semanais que, em matéria de crescimento econômico, 2010 está dado. Por uma fatalidade estatística, registraremos um crescimento da ordem de 5% ou 6%. O que se discute é a "qualidade" desse crescimento e a herança que o governo Lula deixará. Será um ano em que as incertezas continuarão: 1) estimativas quase consensuais são de que a economia mundial crescerá em torno de 3% a 3,5% (os EUA próximos de 3,5%, a Eurolândia menos de 2% e os emergentes de 5% a 5,5%). A Comissão Europeia decidiu suportar a Grécia, mas há ainda a possibilidade de um desarranjo no sistema financeiro americano; 2) crescem as preocupações com a bolha imobiliária chinesa e a aceleração da sua taxa de inflação. A irritação causada pela política cambial na China vai acabar impondo a cada país uma política defensiva. Isso poderá ampliar o protecionismo, com graves consequências para o desenvolvimento mundial. A paciência e a leniência do mundo em relação às "artes" chinesas estão se esgotando; 3) os sinais de uma deterioração das contas externas brasileiras são cada vez mais visíveis, mas ela não coloca em risco a nossa solvência. O problema é que, cada vez que se tentou sustentar o crescimento (do consumo, principalmente) à custa da acumulação de deficits em conta corrente, o final não foi feliz; 4) a "filosofia" do presidente Lula -mesmo dando ênfase ao combate à fome e à melhoria dos menos favorecidos pela sorte- sempre foi a do respeito aos pilares da política econômica canônica: metas de inflação executada por um Banco Central operacionalmente autônomo; construção de superavits primários capazes de reduzir monotonicamente a relação dívida pública/PIB; câmbio flutuante com liberdade de movimento de capitais. Foi isso o que permitiu ao país aproveitar-se da expansão do crescimento mundial de 2003 a 2008. Diante da crise mundial, alguns desses cânones foram, justificadamente, quebrados. Parece claro que teria sido preferível dizer isso claramente em relação ao superavit primário de 2009 do que construí-lo com uma contabilidade imaginativa. O resultado final, entretanto, foi bastante razoável: saímos da crise à frente da maioria dos países, mas restou uma dúvida sobre a política fiscal de 2010. O dilema de Lula em 2010 é que o desejo de eleger o seu sucessor não pode ignorar a saída correta que é a redução dos gastos correntes. Precisa fazer o prometido superavit primário de 3,3%. Sem isso, poderemos ter séria volatilidade no câmbio e aumento da inflação no segundo semestre. ANTONIO DELFIM NETTO ------------------------------------0 Estado de S.Paulo 17 02 2009 O Brasil e a globalização no pós-crise Pedro da Motta Veiga O Brasil acelerava sua trajetória de crescimento quando a crise internacional irrompeu, no último trimestre de 2008, interrompendo um círculo virtuoso de crescimento do produto, do investimento e do emprego, reduzindo os fluxos de comércio exterior e de investimentos externos de e para o País. Pouco mais de um ano após a eclosão da crise, a importância global do Brasil parece ter aumentado. Isso se deve certamente ao fato de que, contraposto ao abalo monumental sofrido pelas economias desenvolvidas e por algumas das grandes economias emergentes (Rússia e México), o desempenho brasileiro em 2009 gera a percepção de um upgrading da posição brasileira no cenário internacional. Mas também contribuem para essa percepção de importância aumentada do País no mundo as perspectivas positivas da economia brasileira no pós-crise e alguns movimentos importantes feitos pelo Brasil em diferentes arenas de negociação econômica. Especificamente ao longo de 2009, três evoluções nas posições negociadoras do Brasil merecem destaque: • o compromisso com uma meta voluntária, mas quantificada e monitorável, de redução de emissões de gases de efeito estufa nas negociações de mudança climática; • o deslocamento da prioridade brasileira, no G-20, de temas relacionados ao comércio internacional (crédito para as exportações e protecionismo) para questões relacionadas aos desequilíbrios macroeconômicos internacionais, a partir da Cúpula de Pittsburgh, em setembro; • e a decisão de fornecer crédito ao Fundo Monetário Internacional (FMI), por meio da compra de US$ 10 bilhões em títulos emitidos pelo fundo. Esses três movimentos do Brasil nas arenas de negociação econômica global chamam a atenção, em primeiro lugar, por serem tipicamente "individuais". Ou seja, traduzem iniciativas do Brasil como ator individual e autônomo na cena internacional, distanciandose de movimentos feitos em conjunto com outros países, como os Brics ou os "países em desenvolvimento". A posição brasileira de apoio ao "pacote Lamy" na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), em julho de 2008, já apresentara essa característica: ao assumir explicitamente sua posição, o Brasil se distanciou de posturas de coalizão e de fidelidade retórica a blocos, sejam eles os "países em desenvolvimento" ou o Mercosul. Os dois primeiros movimentos distanciaram o Brasil da posição negociadora chinesa em duas áreas-chave da agenda internacional. No caso da mudança climática, o presidente Lula criticou explicitamente a hipótese de um entendimento bilateral entre China e EUA às vésperas de Copenhague. No caso da agenda do G-20, a China tentou minimizar a importância das questões relacionadas aos desequilíbrios macroeconômicos internacionais e evitar que o tema da avaliação pelo FMI das políticas nacionais de saída de crise ganhasse prioridade, enquanto o Brasil pôs crescente ênfase nessa questão. Em segundo lugar, esses movimentos apontam para um maior envolvimento do Brasil com temas de governança global. Historicamente, na matriz brasileira de formulação de políticas e posições negociadoras, não há tradicionalmente espaço para agendas de governança global. A concessão de crédito ao FMI e a evolução da postura brasileira diante da negociação da mudança climática indicam que há algo de novo aí. Essas considerações nos levam à seguinte questão: as evoluções ocorridas em 2009 prenunciam mudança mais ampla em benefício dos interesses domésticos ofensivos nas negociações internacionais e na direção da integração de objetivos sistêmicos (relacionados à governança global) à agenda brasileira? No cenário pós-crise vigente no Brasil, esse tipo de evolução tende a ganhar novo impulso. Isso não significa que as posições brasileiras nas arenas de negociação econômica global seguirão trajetória linear e definível ex ante. Sua evolução dependerá principalmente das percepções domésticas dos impactos e implicações da "globalização", bem como do ambiente político internacional no pós-crise. Do lado doméstico, há fatores que fortalecem percepções otimistas em relação às oportunidades que se abrem para o Brasil no cenário global. Entre esses fatores se destacam o bom posicionamento brasileiro nos ciclos de investimentos internacionais pós-crise, em que a atratividade da economia brasileira cresce. Além disso, a posição do Brasil como supridor mundial de alimentos e matérias-primas deve se fortalecer e, passados os efeitos da crise, os investimentos externos das empresas brasileiras voltam a crescer. Por outro lado, porém, a competição chinesa afeta a produção de um número crescente de setores industriais no Brasil. Preocupações com a globalização tendem a se concentrar no efeito China e esse efeito deixa de ser um problema de poucos setores industriais para preocupar um grande número de interesses solidamente estabelecidos no Brasil. Portanto, a percepção dos riscos associados à globalização e à interdependência também tende a se intensificar, mas não a ponto de comprometer uma "aposta" brasileira nas oportunidades da crescente integração ao mundo. No que diz respeito ao cenário externo, a viabilidade de evolução da posição brasileira ao longo de trajetória ofensiva e de assunção de responsabilidades globais estará condicionada pela continuidade dos esforços internacionais de cooperação e negociação nas diferentes agendas globais. Na falta desse estímulo e em cenário internacional marcado pela fragmentação e por conflitos econômicos e políticos, é difícil imaginar que as percepções brasileiras da globalização não venham a ser negativamente afetadas. Moral da história: um retrocesso (ou mesmo uma interrupção) no movimento de integração crescente da economia brasileira ao mundo nos próximos anos somente parece plausível se - como ocorreu nos anos 30 do século 20 - o ambiente político em que se dão as relações e negociações econômicas internacionais se deteriorar sob o impacto conjugado das muitas variantes de nacionalismos em circulação hoje no mundo. Pedro da Motta Veiga é diretor do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes) ----------------------------------------- O Estado de S.Paulo 17 02 2010 Editorial Punição de empresa corrupta Ao prever sanções financeiras pesadas a pessoas jurídicas envolvidas em atos de corrupção, o projeto de lei assinado há dias pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva procura atingir a parte mais sensível das empresas corruptas: seu faturamento. O projeto - que prevê até a extinção, pela Justiça, de empresas que pratiquem certos atos contra a administração pública - representa um avanço em relação à legislação em vigor, que prevê punição rigorosa de pessoas físicas envolvidas em corrupção, mas estabelece sanções bem mais brandas para as empresas, que não são impedidas de continuar praticando os atos ilegais. Seria bom para o País se o governo estivesse interessado em aprovar o projeto com presteza, a fim de reduzir, já neste ano, o espaço para práticas de corrupção, como financiamentos ilegais de campanhas e pagamento de propinas a servidores, entre outros. Infelizmente, porém, o projeto não faz parte das prioridades do Palácio do Planalto. Somada à reduzida disposição dos congressistas de tratar de temas um pouco mais complexos em ano de eleição, a falta de empenho do governo deve empurrar a discussão do assunto para o futuro. Mas, como argumentou o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, o projeto "é do interesse de todos os segmentos que querem um país cuja administração pública, em suas relações com o setor privado, obedeça a critérios claros, com regras capazes de garantir o "jogo limpo", necessário à livre concorrência, à sadia competição, que está no cerne do sistema capitalista em que vivemos". Fruto de trabalho conjunto da CGU com o Ministério da Justiça e a Casa Civil, o projeto, com 25 artigos, procura corrigir falhas e lacunas da legislação atual no que se refere à punição de empresas envolvidas em corrupção. As punições previstas na Lei de Licitações restringem-se a atos ilegais praticados durante uma concorrência ou na execução dos contratos, e são brandas. A pena mais pesada é a declaração de inidoneidade da empresa e a aplicação de multas de baixo valor. Também é possível punir empresas com base na lei de improbidade administrativa, mas, para se chegar a isso, é necessário identificar o agente público envolvido na fraude e, então, processar a empresa que tenha se beneficiado do crime. O projeto amplia a lista de atos ilegais passíveis de punição. Entre eles estão o pagamento de propinas, a fraude na licitação pública, a elevação arbitrária de preços, a utilização de "laranjas" para ocultar a identidade dos beneficiários dos atos ilegais e a manipulação dos contratos. As sanções serão rigorosas. Entre as penas previstas na esfera administrativa estão multas, que variarão de 1% a 30% do faturamento bruto (ou de R$ 6 mil a R$ 6 milhões, quando não for possível aferir o faturamento); declaração de inidoneidade, que impedirá a empresa punida de celebrar contratos com o governo, receber subsídios públicos ou obter financiamentos de instituições financeiras públicas; e a reparação integral do dano causado ao erário. O Ministério Público poderá mover ação contra as empresas que praticarem os atos ilegais e as denunciadas estarão sujeitas a sanções como perda de bens, direitos ou valores obtidos por meio de corrupção, suspensão ou interdição parcial de suas atividades e até sua dissolução. A extinção da empresa será determinada quando ficar comprovado que ela foi constituída deliberadamente para facilitar ou promover a prática de atos ilegais. O projeto atende a compromissos assumidos pelo Brasil, que é signatário de três convenções internacionais contra a corrupção, da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Estados Unidos, Itália, Grécia e Chile são países que já contam com legislação que responsabiliza empresas em casos de corrupção, com punições semelhantes às que estão no projeto. Para Hage, não deve haver resistência do empresariado à proposta. "O projeto visa a reduzir o custo que a corrupção gera para as empresas. A boa empresa vai entender que esse projeto quer nivelar a livre concorrência", disse. Eis aí mais uma razão para o governo se empenhar em sua rápida aprovação. -------------------------------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010 O Tea Party O movimento Tea Party ganha força nos Estados Unidos. É mais sério do que se imaginava há algumas semanas e já são nítidas as suas repercussões político-eleitorais. Os americanos que se reúnem e saem às ruas para protestar contra o governo grande e intrusivo, cada vez mais gastador, mostram como é arraigada nos EUA a noção que tributaristas chamam de cidadania fiscal. Os contribuintes americanos têm perfeita consciência de que serão eles, seus filhos ou netos que serão convocados a pagar os pesados déficits orçamentários que elevam continuamente a dívida pública. O Tea Party, porém, corre o risco de vir a ser dominado pelo radicalismo de direita, acentuando a polarização da sociedade americana e abalando a estrutura bipartidária do país. Que a situação fiscal é grave é indiscutível. O déficit fiscal dos EUA deve fechar neste ano em US$ 1,5 trilhão e a dívida pública, em expansão, já alcança US$ 12,357 trilhões. Tendo começado anarquicamente aqui e ali, o movimento Tea Party se espalhou rapidamente pelos EUA em menos de um ano. Como informou a correspondente do Estado em Washington, Patrícia Campos Mello, o grupo é bastante heterogêneo. Reúne desde ativistas anti-impostos e libertários antigoverno, passando por fãs da escritora Ayn Rand (proponente do "egoísmo racional") e do ex-presidente Ronald Reagan, ícone dos conservadores, até radicais contra a imigração, cristãos extremistas e pessoas que acreditam que o presidente Barack Obama nasceu no Quênia. Em comum, o movimento é "contra tudo o que está aí". Como seria de esperar, em discurso na sessão de encerramento da primeira conferência do Tea Party, em Nashville, no último fim de semana, Sarah Palin, ex-candidata a vicepresidente em 2008 na chapa de John McCain, atacou os principais itens do programa de Barack Obama. Para ela, são absolutamente inaceitáveis a reforma do sistema de saúde, socorro a Wall Street, pacotes de estímulo de emprego, controle da poluição industrial (cap and trade) e a decisão de assegurar direitos constitucionais a terroristas, que deveriam ser julgados por tribunais militares como combatentes inimigos. Palin não assumiu formalmente a liderança do Tea Party, mas é hoje sua figura mais expressiva. Desde que renunciou a seu mandato como governadora do Alasca em julho do ano passado, ela vem-se projetando na cena política principalmente por apresentar-se como uma pessoa comum, não intelectualizada, em contraste com o elitismo que, em sua opinião, predomina em Washington. Diferentemente do Tea Party histórico de 1773, precursor da Revolução Americana, o Tea Party do século 21 não é um movimento de desobediência civil, mas eminentemente eleitoral. O ativismo de seus adeptos certamente influiu na vitória de candidatos republicanos aos governos dos Estados de Virgínia e de Nova Jersey e na escolha em janeiro deste ano do republicano Scott Brown em Massachusetts, um Estado tradicionalmente democrata, para suceder o democrata Ted Kennedy no Senado. A vitória de Brown é interpretada por alguns analistas como uma virada à direita do eleitorado. Seja como for, o quadro político americano mudou. O Tea Party pode ser decisivo nas eleições de novembro deste ano, quando estarão em jogo 36 cadeiras no Senado, todas as cadeiras da Câmara dos Representantes, além de governadores de 39 dos 50 Estados. Mas parece excluída a hipótese de o Tea Party se transformar em um terceiro partido ou ter um candidato próprio à Casa Branca em 2012. Ao dividir o eleitorado conservador e independente, um terceiro candidato, com boa penetração no eleitorado, favoreceria os democratas. O mais provável é que o Partido Republicano absorva o Tea Party ou seu ideário básico. O que se nota nos EUA - e não só lá - é uma forte reação contra os efeitos de pacotes de ajuda para reerguer a economia, com infusão maciça de recursos públicos para salvar o sistema financeiro e impedir uma recessão mais profunda. Estas medidas podem ter tido êxito em evitar o pior, mas geraram elevados déficits públicos, ocasionando novos ônus para os cidadãos. Como os níveis de emprego evoluem muito lentamente, está criado o ambiente para movimentos de protesto. O grande mérito das democracias é encaminhálos pela via de eleições livres. -------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010 Lula, o PT e suas heranças: 2002 e 2006 Pedro S. Malan Este artigo foi publicado neste espaço em julho de 2006. É republicado hoje sem nenhuma alteração. Por duas razões: a primeira, porque como na letra do samba de carnavais de outrora, "recordar é viver"; a segunda, muito mais importante, porque o autor acredita que o texto talvez possa reter certo interesse, à luz da insistência do governo atual num confronto plebiscitário, com foco no passado, em vez de um olhar à frente, como, creio eu, seria melhor para o País, onde há tanto por fazer. Portanto, peço ao eventual leitor que adicione, ao título do artigo e onde mais couber, o ano de 2010. "A opinião que tens de tua importância te porá a perder", dizia uma das inscrições nas vigas da biblioteca de Montaigne, cujos Ensaios há séculos encantam seus leitores. O tema da vaidade dos homens lhe era caro. O belo ensaio a ele dedicado começa bem: "Talvez não haja vaidade maior do que sobre ela escrever de forma tão vã." Afinal, sempre vale lembrar o Eclesiastes: vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Não sei bem por quê, estas lembranças por vezes me vêm à mente ao ler os pronunciamentos de nosso presidente, cada vez mais encantado consigo mesmo e com o que considera não só como seu superior entendimento das coisas deste mundo, como sua autoproclamada capacidade de transformá-lo. Em arroubo recente, informou-nos que "só Deus conseguiria consertar em quatro anos o que não foi feito em 500 anos". Ele (Lula), por exemplo, precisaria de oito anos para começar a corrigir erros e omissões seculares e pôr o País no rumo certo, deixando uma extraordinária herança a seu sucessor. Mas falemos antes sobre as heranças, já por eles construídas, com que Lula e o PT chegaram a 2002 - e chegam às eleições de 2006. Em 2002, Lula e o PT tinham uma história de mais de 20 anos e, portanto, uma herança que consigo carregavam. Fazia parte dessa herança a ferrenha oposição ao lançamento do Real em 1994, chamado de "pesadelo", de "estelionato eleitoral" e com duração por eles prevista para poucos meses. Fazia parte dessa herança a oposição às mudanças constitucionais que permitiriam ampliar os investimentos privados em infraestrutura. Fazia parte dessa herança a oposição às privatizações, à redução do número de bancos estaduais e à abertura comercial. Fazia parte dessa herança o plebiscito pela suspensão dos pagamentos das dívidas externa e interna e pelo "rompimento" com o FMI. Fazia parte dessa herança a oposição do PT à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) no Congresso, a tentativa de derrubá-la no STF e a aprovação, em dezembro de 2000, por seu Diretório Nacional, de texto em que o PT declarava sua posição: "A LRF precisa ser radicalmente modificada porque o preço da responsabilidade fiscal não pode ser a irresponsabilidade social." Fazia parte da herança com que o PT e Lula chegaram a 2002 o programa de governo aprovado em dezembro de 2001 pelo seu congresso nacional, a mais alta instância decisória do partido, e que tinha como subtítulo A ruptura necessária com tudo aquilo que ali estava. Essa herança, como é sabido, teve consequências já em 2002. A taxa de câmbio desvalorizou-se em mais de 50% nos seis meses que antecederam a eleição de outubro (de R$ 2,4 em março/abril para R$ 3,7 por dólar em setembro/outubro), o risco País chegou a multiplicar-se por quatro no período, chegando a 2.400 pontos em outubro, e a inflação em 2002 alcançou 12,5%, tendo mais da metade deste aumento sido registrada nos últimos três meses do ano. Como bem notou Armínio Fraga em longa e excelente entrevista ao jornal Valor (23/6), "a economia estava na UTI, mas isto era a consequência de expectativas em relação ao que o próximo governo faria". E havia fundadas razões para essas expectativas. A gradual desconstrução dessa herança foi um processo, timidamente iniciado em fins de junho de 2002 com carta-compromisso do candidato e ainda não concluído, porque há sérias divisões e ambiguidades não resolvidas no PT, no próprio governo e nas forças que o apoiam, como mostra a experiência pós-Palocci, em particular no que diz respeito à forte expansão recente do gasto público. Passados quatro anos, é cada vez mais claro que a gradual desconstrução da herança construída pelo PT para si próprio em 2002 foi facilitada por três ordens de fatores: um contexto internacional extraordinariamente favorável no quadriênio 2003-2006 (só comparável ao quadriênio 1970-1973, afirma estudo recente do FMI); uma política macroeconômica não-petista (nenhuma das "estrelas econômicas" do PT ocupou qualquer posição relevante na área mais sensível da política macroeconômica, graças ao médico Palocci e ao apoio que este recebeu de Lula até o final de 2005); e uma herança não-maldita de inúmeros avanços institucionais e mudanças estruturais que foram de enorme serventia ao novo governo, nos mais variados setores, inclusive os sociais, e aos quais o governo Lula soube dar continuidade, ainda que pretendendo ter inventado a roda - em alguns casos, com desfaçatez e hipocrisia. Entretanto, o contexto internacional, que permitiu que o Brasil reduzisse extraordinariamente a sua vulnerabilidade externa, não será tão favorável nos próximos quatro anos. O ministro Palocci, assim como pessoas-chave de sua equipe, não mais emprestam seu concurso ao governo. E, nos últimos quatro anos, houve poucos avanços institucionais, andamento de processos de reforma e melhoria de contextos regulatórios pelo contrário. O discurso sobre "herança maldita", que marcou o imaginário petista, era não só objetivamente equivocado, como trazia seu prazo de validade estampado no rótulo: afinal, em menos de quatro anos o governo Lula se apresentaria ao eleitorado com sua própria herança. E, em modernas democracias, o que se pode - e deve - esperar de um governo é que entregue a seu sucessor um país um pouco melhor do que recebeu de seu antecessor. Como fez FHC, sem achar que a "verdadeira" História do País começou com ele e sua gestão. Qualquer governo, em qualquer país do mundo, não só tem seus próprios erros e acertos, como também constrói sobre avanços alcançados na vigência de administrações anteriores. O governo Lula não foi, não é e não será exceção a esta regra. Reconhecê-lo, difícil como possa parecer para a vaidade humana, é algo que só beneficiaria a governabilidade futura, qualquer que venha a ser o resultado das urnas de outubro. Pedro S. Malan, economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC E-mail: [email protected] --------------------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010 Gênios matemáticos erram as contas em Wall Street Livro mostra como matemáticos e cientistas da computação quase destruíram o sistema financeiro Renato Cruz A crise financeira que o mercado mundial enfrentou desde 2007 foi causada por modelos matemáticos falhos adotados pelos fundos de investimento, que levaram a uma avaliação irrealista de risco, combinados a níveis insustentáveis de endividamento. Tudo isso não seria possível sem sistemas complexos de computação, que permitiram analisar volumes imensos de dados em tempo real, e fazer apostas automáticas em alta velocidade, baseadas em modelos pré-programados. Pelo menos essa é a visão trazida pelo livro The quants: How a new breed of math whizzes conquered Wall Street and nearly destroyed it (Crown Business). Em português: Os quants: Como uma nova raça de gênios da matemática conquistou Wall Street e quase a destruiu. O livro escrito por Scott Patterson, jornalista do Wall Street Journal, foi lançado no começo do mês nos Estados Unidos. Os "quants" são os gênios da matemática que tomaram conta de Wall Street nos últimos anos. Eles baseiam suas apostas em análises quantitativas (daí seu nome), no lugar de análises fundamentalistas, como as que são feitas, por exemplo, por Warren Buffett, segundo homem mais rico do mundo. Buffett analisa os fundamentos das empresas em que investe, verificando itens como taxa de crescimento, vendas e lucratividade. Na análise quantitativa, as apostas são feitas com base em estatísticas, que alimentam modelos matemáticos complexos, independentes do que cada papel representa fora do mundo financeiro. CULPADOS Os fundos de hedge, liderados pelos "quants" do título do livro, perderam bilhões de dólares a partir de meados de 2007, quando a crise americana das hipotecas atingiu os mercados. Não seria exagero, no entanto, dizer que eles foram os responsáveis pela crise? "Quando bancos e fundos de hedge começaram a quebrar em 2007 e 2008, eles criaram uma contração maciça de crédito por toda a economia global", afirmou Patterson, em entrevista por correio eletrônico. O livro conta a história de investidores como Kenneth Griffin, fundador do fundo de hedge Citadel, em Chicago, que, antes da crise, chegou a pagar US$ 80 milhões por uma pintura de Jasper Johns e fazer sua festa de casamento no Palácio de Versalhes, em Paris. O talento para tecnologia e finanças se manifestou cedo. Quando estava no colegial, Griffin fez trabalhos de programação para a IBM. Antes de completar 18 anos, criou uma empresa de software educacional com um amigo. Logo depois de ingressar em Harvard, criou seu primeiro fundo de investimento, batizado de Convertible Hedge Fund #1, em seu quarto de estudante, depois de levantar US$ 265 mil de amigos e parentes, incluindo a mãe e a avó. Para ter cotações em tempo real, instalou uma antena de satélite no telhado do alojamento, e criou um software para identificar bônus com preços baixos. A tacada de sucesso veio em 1990, quando Griffin, aos 22 anos, criou o fundo Citadel, com capital de US$ 4,6 milhões. No fim de 2007, administrava US$ 20 bilhões em ativos. Ele quase quebrou com a crise. Em um ano, esse montante havia caído para US$ 10,5 bilhões. Segundo Patterson, a culpa dos "quants" na crise do subprime não se resumiu à contração de crédito. A engenharia financeira sofisticada desenvolvida por esses gênios matemáticos permitiu agrupar hipotecas de alto risco em papéis financeiros (derivativos) classificados como grau de investimento, com chances remotas de não serem honrados. Simplificadamente, a ideia por trás disso era que, mesmo se o risco individual de calote de cada hipoteca fosse grande, quando um volume muito grande desses empréstimos era agrupado em um só papel, o risco acabava diluído pois a probabilidade de um grande número de hipotecas deixar de ser pago ao mesmo tempo era remoto. Mas a probabilidade era pequena somente num ambiente econômico estável, em que as pessoas deixam de pagar os empréstimos por motivos pessoais, como perda de emprego ou doença. Num momento de crise, muitas pessoas se tornam inadimplentes ao mesmo tempo, elevando o risco de uma forma que os modelos matemáticos não conseguiam prever. Essa análise de risco falha, que não prevê eventos extremos, foi aplicada a todo tipo de investimento pelos "quants", e a situação foi agravada pela alavancagem. Em linguagem corrente, eles fizeram seus investimentos com dinheiro dos outros. Alguns chegavam a empenhar 30 vezes mais capital do que tinham, por acreditar que o risco era praticamente nulo. Quando o crédito secou com a crise das hipotecas, esses investimentos viraram pó. Como pessoas tão espertas, com doutorado nas melhores faculdades americanas, conseguiram errar tanto? "A resposta mais provável é que, apesar de os "quants" operarem num nível racional, eles não eram invulneráveis a uma emoção humana essencial: a ganância", afirmou Patterson. "Ao colocarem de lado a possibilidade de movimentos abruptos do mercado, eles eram capazes de fazer apostas maiores e usar mais alavancagem. O que pode ser muito lucrativo por um tempo - até o mercado alcançá-los." HISTÓRIA A crise de liquidez que tomou os mercados financeiros a partir de agosto de 2007 foi somente o capítulo mais recente de uma história de como a inovação pode trazer efeitos inesperados. O livro mostra como o mercado acionário americano caiu 23% em um único dia, na chamada "segunda-feira negra", em outubro de 1987, por causa de um contrato quantitativo chamado seguro de carteira. Em 1998, o fundo de hedge Long Term Capital Management (LTCM) quebrou, ameaçando todo o sistema financeiro global. A atuação do LTCM tinha como base a análise quantitativa. Seu conselho diretor incluía Myron Scholes e Robert Merton, ganhadores do prêmio Nobel de Economia de 1997. Na opinião de Patterson, isso indica que crises como essas vão ocorrer de novo. "Isso totalmente pode e possivelmente acontecerá novamente", disse. "Acho que os reguladores precisariam tornar o sistema bem mais transparente. Ainda hoje não sabemos o que se esconde nos balanços de vários bancos." Em inglês, "geek" é uma pessoa obcecada por tecnologia e áreas correlatas. Sobre o papel dos gênios matemáticos na crise, o livro traz um aviso de Warren Buffett: "Cuidado com os "geeks" que criam fórmulas". ---------------------------------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010 ''O veneno passou para o setor público'' Armando Castelar, da Gávea Investimentos, diz que crise da Grécia e países ricos repete o Brasil dos anos 80 - e vai durar Fernando Dantas A crise da dívida externa brasileira nos anos 80 é um bom exemplo do que está acontecendo agora com a Grécia, e que arrisca se alastrar para outros países europeus, como Espanha, Portugal, Irlanda e Itália - podendo afetar até, embora de forma diferente, a Inglaterra e os Estados Unidos. A visão é do economista Armando Castelar, para quem, a exemplo do ocorrido no Brasil do início da década de 80 até meados dos anos 90, os governos daqueles países ricos devem passar por um longo e sofrido período de digestão do pesado endividamento contraído com as chamadas políticas anticíclicas que se seguiram à eclosão da crise financeira global. Para Castelar, apesar de toda a aclamação que se fez do papel do Estado na saída da crise global, os governos não são invulneráveis e os efeitos colaterais das políticas anticíclicas acabam chegando. Agora, ele resume, aqueles países terão a tarefa politicamente inglória de diminuir gastos e aumentar impostos, para produzir superávits primários que reduzam suas enormes dívidas - exatamente como o Brasil fez para superar as "décadas perdidas" e voltar a crescer. Castelar, que trabalha com Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), no Gávea Investimentos, falou com o Estado na quinta-feira: O sr. acha a crise grega e de outros países ricos parecida com o ocorrido no Brasil no início dos anos 80? A experiência brasileira daquela época tem muito a mostrar sobre a dificuldade que terão esses países que aumentaram muito o seu endividamento, como Estados Unidos, Inglaterra, Grécia, Portugal, Espanha e outros. É um problema complicado, com vários desdobramentos pela frente. Como no Brasil do início dos anos 80, é uma situação em que o setor privado estava muito endividado, houve uma mudança drástica na economia, e o setor público assumiu essa dívida que era do setor privado. Isso dá um alívio muito grande no início, o que ficou claro no ano passado naqueles países, porque a crise acabou sendo bem mais suave do que se chegou a projetar, evitando-se todos os cenários catastróficos. Mas agora vem exatamente a digestão desse remédio que foi dado para o setor privado e, digamos, o veneno passou para o setor público. O que a lição do Brasil mostra para esses países? No nosso caso, o País passou mais de 15 anos tentando ver como faria para reduzir o tamanho da dívida e para ter recursos para pagar os juros que incidiam sobre ela. O Brasil tentou com inflação, teve uma série de choques heterodoxos que também embutiam calote na dívida, e só mais à frente fez realmente um esforço forte de ajuste fiscal, elevando o superávit primário. Mesmo assim, demorou anos para criar credibilidade. Então todos esses países terão um problema de endividamento? Vai ocorrer particularmente quando os bancos centrais como o Fed, dos Estados Unidos, o Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu interromperem esses programas de afrouxamento monetário quantitativo e pararem de comprar títulos públicos e os juros longos começarem a subir. As dívidas que estão se avolumando nesse processo vão começar a pagar juros num volume bastante elevado. E vai ser parecido com a situação que o Brasil experimentou desde o início dos anos 80 até 1998, quando finalmente se elevou bastante o superávit primário. E como superar esse tipo de crise? A experiência do Brasil ilustra muito bem que não é uma crise que vai ser superada com rapidez. Há questões políticas importantes envolvidas. O Brasil combinou todo esse problema da dívida com a redemocratização. Houve dificuldade de construir um consenso na sociedade para se elevar a tributação, para se tentar reduzir gastos - esse último ponto, aliás, nunca se conseguiu no Brasil. Repare que, no caso da Grécia, o problema é que o governo prometia reduzir o déficit público de 12,7% para 3% do PIB em três anos. O que obviamente implica um volume de corte de gastos que politicamente é muito complicado de fazer passar. Todos esses países que ficaram com uma dívida muito elevada e terão um pagamento de juros muito alto vão ter de começar, em algum momento, a gerar grandes superávits primários. E não é um problema de um ou dois anos, está-se falando de quatro, cinco anos ou até mais. Como fica a visão sobre o papel do Estado depois dessa segunda etapa da crise? É óbvio que é preciso Estado e que o mercado não funciona da melhor maneira sozinho isso está em qualquer livro-texto de Economia. Agora, com a crise global, houve esse discurso muito forte do fortalecimento do Estado, do Estado salvador e da sua importância na economia. Esse segundo ato da crise, no qual o problema chegou ao Estado, vai mostrar que esses remédios que foram dados tiveram efeitos colaterais. Foram medidas necessárias na situação a que se chegou, mas só se chamou a atenção para o lado bom do aumento do gasto público. Na verdade, tem também um lado muito ruim, e acho que essa é uma lição para o Brasil: sair aumentando o gasto público pode ser muito bom no curto prazo, mas a conta chega algum dia. Qual a chance da crise grega se alastrar para as economias ricas? As agências de rating já vêm alertando que a classificação de triplo A (a mais alta) desses países não vai necessariamente se sustentar na ausência de medidas fiscais de redução de déficit. O déficit nos Estados Unidos é algo que vai permanecer durante muito tempo, mesmo nas projeções mais otimistas, o que significa que a dívida vai crescer. Mas há diferenças importantes. A primeira é que a Grécia tem a peculiaridade de ter falseado as estatísticas. Parte da força com que a crise na Grécia está acontecendo é exatamente porque, de um dia para o outro, o novo governo anunciou que o déficit era praticamente o dobro daquilo que antes se acreditava que fosse. Além disso, Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e Itália, ao contrário de Inglaterra e Estados Unidos, estão na área do euro, e não têm taxa de câmbio para fazer parte do trabalho de ajuste. E como movimentos no câmbio podem ajudar? EUA e Inglaterra, quando o problema chegar lá, podem absorvê-lo em parte pela taxa de câmbio, com um dólar e uma libra mais desvalorizados. Já aqueles países europeus dependem só da política fiscal, já que estão na área do euro. Num ajuste fiscal com desvalorização, que é a receita do FMI, tenta-se transferir a demanda que está no setor público para o exterior. Mas, dentro da área do euro, os países não têm essa alternativa. Eles não têm nem política monetária autônoma, e não podem afrouxá-la para compensar o ajuste. Então a crise fiscal nos países maiores preocupa menos? Bem, por outro lado, países como Grécia e Portugal são pequenos na economia mundial, e particularmente no contexto do setor financeiro. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde acho que não haverá uma crise nem de longe de dimensões semelhantes ao que se tem hoje na Grécia, qualquer turbulência pode ter repercussões globais muito mais fortes. Um problema mais sério nos grandes países ricos, como o chamado "duplo mergulho" - uma nova recessão depois da do ano passado - poderia comprometer o bom desempenho dos emergentes? Os países emergentes estão bem, mas continuam dentro do mundo, e a economia mundial ainda é formada em sua maior parte pelos países ricos. Então é muito difícil de imaginar que, de forma sustentada, os países emergentes consigam crescer rápido enquanto o resto do mundo cresce devagarzinho. Pode ocorrer durante um ano, dois, mas é uma situação que certamente afeta o fluxo de capitais, afeta a capacidade de exportar, afeta a confiança - há uma série de canais pelos quais essa influência se dá, se houver um problema lá fora. Eu acho que o risco de um duplo mergulho existe. Aliás, os governos estão preocupados com isso, e parte dessa resposta da União Europeia à crise na Grécia vem exatamente da preocupação de evitar uma crise de confiança que leve a uma retração mais forte da economia do continente. Mas o Brasil corre o risco de ter uma crise fiscal do tipo que a Grécia está experimentando? Acho que não. Até pelo fato de que a gente viveu isso no passado, tivemos de tomar os remédios e fazer as correções necessárias, o que nos deixou numa posição bem mais confortável. Agora, nos últimos tempos a nossa dívida voltou a subir, de uma maneira relativamente forte, mas estamos longe da situação em que esses países estão, com déficits de até 12% do PIB. Mas a crise mostrou que o remédio do Estado, do gasto nãocontido do Estado, acaba resultando nisso. Acho que é bom para lembrar a gente de que crises fiscais existem e resultam de se gastar mais do que se arrecada. --------------------------------------------------------- O Estado de S.Paulo 14 02 2009 A doença é mais profunda Celso Ming Não se discute mais na Europa se virá ou não um plano de resgate da Grécia. O que se discute é o formato desse plano. Mas, seja ele qual for, será um remedinho para atacar o sintoma e não a doença, que não é só grega. A deterioração das finanças dos países da área do euro (e não apenas a deles) foi agravada com os pacotes fiscais emitidos pelos governos para atacar a crise, mas já vinha antes dela. Tem de ser vista como a crise inerente a uma transição rápida na paisagem econômica e política global. Enquanto havia dinheiro farto e crédito fácil, os países ricos europeus prosperaram com base na política de defesa social (welfare state) e no grande crescimento do comércio e do consumo. O dinheiro fácil foi proporcionado por dois acontecimentos relativamente novos: a disseminação da Tecnologia de Informação e a enorme oferta asiática de manufaturados produzidos a baixíssimo custo de mão de obra. Esses dois fatores derrubaram substancialmente os preços dos produtos industrializados que, por sua vez, afundaram a inflação. Como entenderam que não havia inflação a combater, os grandes bancos centrais despejaram volumes nunca vistos de dinheiro nos mercados e os juros básicos permaneceram por muito tempo próximos do zero. Num primeiro momento, os países europeus puderam tirar enorme proveito da prosperidade global graças às suas exportações de bens de capital e de produtos de alta tecnologia. Mas essa demanda está quase estancada, em consequência da recessão e da tomada dos mercados pelo produto asiático, mais barato e cada vez com mais qualidade. Não é à toa que a China já tomou o lugar da Alemanha como maior exportador do mundo. (Em 2009, exportou US$ 1,2 trilhão enquanto a Alemanha exportou US$ 1,1 trilhão.) As políticas de bem-estar social da Europa dão sinais de esgotamento. Os governos já não conseguem sustentar a distribuição de indenizações do seguro-desemprego, das aposentadorias generosas e dos planos de assistência médica universal. Uma das primeiras providências da Grécia diante da atual crise de pagamentos foi endurecer os planos de aposentadoria. E esse é um procedimento que tende a ser adotado por muitos governos da Europa, dentro e fora da área do euro. Dá para concluir que a rápida inclusão da mão de obra asiática nos mercados globais de produção e consumo são fatores que aceleraram a deterioração das condições fiscais e econômicas dos países centrais, inclusive dos Estados Unidos. O arranjo que sustenta a economia mundial, baseado na simbiose entre Estados Unidos e China, é insustentável a longo prazo. Nem os Estados Unidos poderão continuar expandindo indefinidamente seus enormes rombos (orçamentário e externo) nem a China poderá continuar expandindo indefinidamente suas exportações e reservas internacionais. A economia do planeta está às vésperas de uma nova arrumação cujo formato não está claro. O problema é que esse é um processo que terá inexoráveis consequências geopolíticas. O declínio da hegemonia norte-americana é uma delas; a crise da socialdemocracia europeia parece ser outra; e a ascensão de alguns países emergentes, apenas mais uma. ----------------------------------------------O Estado de S.Paulo 17 02 2010 UE dá ultimato ao governo grego Bloco pode impor reformas profundas se Atenas não provar em 30 dias eficácia de seu plano de reestruturação Jamil Chade A União Europeia (UE) deu 30 dias para que a Grécia prove que seu plano de ajuste pode dar resultados, mas já alertou que vai impor reformas profundas se não ficar satisfeita com os avanços. A UE pôs a economia grega sob tutela. Essa é a primeira vez que isso ocorre desde a criação do euro. Mas, atendendo a um pedido de Atenas, Bruxelas indicou publicamente aos mercados que teria recursos suficientes para resgatar a economia grega. A decisão da UE de praticamente acabar com a soberania grega em termos financeiros foi bem recebida pelo mercado. O euro teve a maior alta em um só dia desde julho, de 1,2%. As bolsas também tiveram resultados positivos. Em Londres, a alta foi de 1,5%, igual à da Alemanha. Em Paris, a alta foi de 1,7%. A Bolsa de Tóquio já abriu em alta de 1,35% nesta quarta-feira. Ontem, ministros de Finanças da UE concluíram dois dias de reuniões onde foi discutida a crise grega. O apoio político condicionado dos europeus aos gregos, na semana passada, foi traduzido em um rígido calendário de exigências. "Se os riscos que ameaçam o cumprimento dos objetivos se materializarem, a Grécia deve anunciar medidas adicionais ainda em março", disse o comissário de Assuntos Econômicos da UE, Olli Rehn. A vigilância forçada ainda prevê que, no dia 15 de maio, a Grécia apresente um novo relatório explicando as medidas que adotou para implementar as reformas. Para os 16 países que formam a zona do euro, medidas adicionais são praticamente inevitáveis. "A Grécia deve entender que os contribuintes da Alemanha, Holanda ou Luxemburgo não estão dispostos a corrigir as falhas do país", indicou o presidente da zona do euro, Jean Claude Juncker. As medidas adicionais foram apresentadas ontem aos gregos: reformas do sistema previdenciário e de saúde; reforma da administração pública; do mercado interno; do clima para investimentos; e o aumento de produtividade e de empregos. Outra proposta é o aumento de imposto sobre valor agregado e mais taxas sobre bens de luxo. A Europa foi tomada por uma turbulência nas últimas semanas diante do déficit público da Grécia de 12,7% e pelo risco de outras economias serem contagiadas. Atenas prometeu reduzir seu déficit em quatro pontos porcentuais em 2010 e atingir a taxa de 3% em 2012. Dados divulgados ontem pelo Bank of America Merril Lynch indicam que administradores de fundos estão retirando suas aplicações da Europa e preferindo investir nos Estados Unidos e na Ásia. Segundo o levantamento, os investidores estão no momento mais pessimista desde março de 2009, no auge da crise. O levantamento também indica que os fundos diminuíram de forma dramática a exposição à Europa diante da percepção de um risco de calote. "Ha uma perda de confiança do mercado com a Europa", afirmou Gary Baker, estrategista do Bank of America. Em janeiro, 74% dos administradores de fundo indicavam que a economia europeia cresceria em 2010. Agora, são apenas 51%. Nesta semana, uma missão de técnicos da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional viajará a Atenas para garantir que as autoridades gregas adotarão as medidas de ajuste ainda esta semana. Entre os ministros, o discurso era claro : a Grécia terá de fazer mais esforços se quiser contar com o apoio da UE. "O programa da Grécia é insuficiente", afirmou o ministro sueco de Finanças, Anders Borg. "A pressão sobre a Grécia aumentou para que pensem até o dia 16 de março sobre o que podem fazer mais", afirmou ministro austríaco de Finanças, Josef Pröll. ----------------------------------Folha de S.Paulo 14 02 2010 RUBENS RICUPERO Dois aniversários Nabuco e Brasília convidam a refletir sobre a degradação entre nós da antiga dignidade da função pública NÃO PARECE haver nada em comum entre os 50 anos de Brasília e o centenário da morte de Joaquim Nabuco. Ambas as datas convidam, no entanto, a refletir sobre a degradação entre nós da antiga dignidade da função pública. Fui dos primeiros voluntários a trabalhar em Brasília, aonde cheguei em 10 de março de 1961. Éramos um punhado de pioneiros unidos pela ilusão de que vivíamos momento único: passado a limpo, o Brasil repartia com alma nova e purificada. No plano cultural, Brasília dava expressão à utopia racional e funcionalista do modernismo. No político, correspondia à refundação do país. Longe das quarteladas da Vila Militar e da agitação das ruas, a alva cidade voltava as costas à corrupção da Corte, simbolizada pela Gaiola de Ouro, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Antes de completar quatro anos, o sonho tinha acabado. O golpe de 1964 inaugurou ditadura que ocupou quase a metade da vida da nova capital. Estava pronta a cena para a invasão de aventureiros rapaces empenhados no saqueio sistemático do planejamento urbanístico. O penúltimo governador esmerou-se na irresponsabilidade de semear favelas monstruosas ao distribuir lotes para comprar votos de miseráveis; o atual é preso por flagrante de atos pornográficos de corrupção explícita que nos devolvem aos tempos de governadores coloniais embarcados acorrentados para Lisboa. Em lugar do Te Deum, a festa dos 50 anos se deveria abrir com um Réquiem pelo assassinado Plano Piloto de Lúcio Costa e Niemeyer. E prosseguir com o sermão de um Vieira redivivo mostrando como a corrupção destrói primeiro a capital, isto é, a cabeça, depois o corpo e a alma da nação. Se a corrupção continuar a ser alentada sob pretexto de governabilidade, se a Justiça se limitar a espasmos de energia, sem acabar com a impunidade, talvez haja ainda menos a comemorar em mais meio século. Brasília confirmará de modo irônico a profecia de Malraux de que seria "a mais bela ruína do século 20". Quando morreu Nabuco, cem anos atrás, Domício da Gama se queixou: "Machado de Assis, Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco fazem falta a meu coração de brasileiro confiado no futuro de uma nação que teve dessas inteligências". Mais que a inteligência, porém, essa trindade inigualada nos deixou o exemplo da austeridade a serviço do interesse público, os dois primeiros como funcionários, o último também como político. Parlamentar incomparável, Nabuco sempre se bateu por ideias, pela Abolição, no início, pela Federação, mais tarde. Jamais foi ministro no Império ou na República, nunca teve poder nem dinheiro. Merece nesta hora de cinismo que se lembre o que dele disse Gilberto Freire na Câmara dos Deputados em 1947: "Um Brasil que tem (...) um político, um parlamentar da grandeza e da atualidade de Nabuco, não deve deixar que essa grandeza seja esquecida, principalmente em época marcada pela desconfiança de que todo político brasileiro seja um politiqueiro, e todo homem público, um mistificador (...). Nabuco é uma das maiores negações dessa lenda negra com que se pretende desprestigiar entre nós a vida pública (...). Os brasileiros de hoje, os moços, os adolescentes, (...) é este o Nabuco que precisam conhecer de perto: o político que foi também um homem de bem. O político que não separou nunca a ação da ética". RUBENS RICUPERO , 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna. ------------------------------- Folha de S.Paulo 17 02 2010 ALEXANDRE SCHWARTSMAN Os 12% de Héracles A Grécia tem necessidade de apertar a política fiscal em meio a forte recessão, desafio digno do 13º trabalho de Héracles DIZIA ARISTÓTELES que a tragédia se caracteriza, entre outras coisas, pela mudança da fortuna do herói, consequência de erro (intencional ou não) cometido no passado, por meio da qual o herói trágico e a audiência obtêm uma revelação acerca da natureza humana (ou da vontade dos deuses). Não me escapa a ironia (outra palavra grega) de essa definição encampar de forma tão completa os desenvolvimentos recentes na eurolândia. A Grécia passa por uma mudança de fortuna, resultado de erros passados, e, como na tragédia, a queda traz uma revelação sobre a natureza da crise. O problema se manifesta como um aumento considerável dos prêmios de risco associados à dívida helênica. Enquanto escrevo este artigo, o custo de proteção contra um possível calote grego gira em torno de 350 pontos-base (3,5% ao ano para o prazo de cinco anos), vindo de valores ao redor de 100-150 pontos na segunda metade de 2009. Em comparação, o prêmio de risco no caso do Brasil para o mesmo prazo é próximo a 140 pontos, enquanto o argentino é de 1.100 pontos. Esses preços sugerem que mercados consideram haver uma probabilidade razoável de um default grego nos próximos cinco anos. A razão para tal desempenho parece clara. Enquanto outros países da eurolândia fizeram um esforço para reduzir o endividamento do setor público (a dívida média da região atingiu 66% do PIB no final de 2007), a Grécia entrou na crise com uma dívida próxima a 100% do PIB, ou seja, praticamente sem espaço fiscal para incorrer em novos deficit. Apesar disso, em 2009 o deficit público alcançou 12% do PIB, valor não apenas elevado mas, principalmente, muito superior ao divulgado originalmente pelas autoridades gregas (3,7% do PIB), levando o próprio governo a admitir que, em primeiro lugar, o país sofre de um "deficit de credibilidade". Em razão do descaso fiscal anterior, a Grécia enfrenta agora a necessidade de apertar sua política fiscal em meio a forte recessão, sofrendo ainda com o aumento do custo de capital associado à elevação do risco-país no contexto de uma taxa fixa de câmbio. Em outras palavras, o país está condenado a uma política fiscal pró-cíclica, por conta da falta de cuidado anterior. Nem no Hades, onde Tântalo passa fome e sede em meio à água e iguarias e Sísifo empurra continuamente sua pedra morro acima, seria possível imaginar punição mais rigorosa. Reduzir o deficit nessas condições seria um desafio digno do 13º trabalho de Héracles. Que o diga a Argentina, que, sob circunstâncias semelhantes, em 2001, tentou heroicamente ajustar suas contas, embora sua dívida fosse, a bem da verdade, consideravelmente menor do que a grega. Por outro lado, nossos vizinhos não faziam parte de um clube exclusivo, disposto, aparentemente, a financiar o país nesse período delicado, desde que os gregos se comprometam com um pacote duríssimo de austeridade fiscal. E, após a catarse, o que se revela para a audiência? Acima de tudo que países ganham e perdem facilmente os favores do mercado. Quando a fortuna muda, não falta quem aponte os diversos erros cometidos nos anos de felicidade como motivo para a tragédia recente. Descuidos fiscais e truques contábeis, que parecem modestos nos anos de felicidade, têm o mau hábito de voltar para nos assombrar quando a maré vira, fato que não deveria ser esquecido em nenhum momento por nenhum gestor de política econômica, mas frequentemente é. À luz disso, só nos resta concluir, como Ésquilo: "Não considere um homem feliz até que morra". Os antigos helenos sabiam das coisas. ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 47, é economista-chefe do Grupo Santander Brasil, doutor em economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central. -----------------------------------Folha de S.Paulo 15 02 2010 LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA Especulação contra o euro Esse ataque especulativo é mais uma comprovação da necessidade de regulação cerrada de bancos e fundos OS MERCADOS financeiros são incorrigíveis. Agora a especulação se dirige contra o euro, ou, mais especificamente, dirige-se contra a Grécia, para depois atacar Portugal e, em seguida, a Espanha -os países mais frágeis da zona do euro. O preço dos "credit default swaps" visando proteger os credores contra uma possível quebra da Grécia aumentou do índice 120 em outubro para 419 no dia 9. Quem compra esses instrumentos a um preço tão elevado aposta na quebra do país, o que transformará esse alto preço em grande lucro -uma aposta com forte componente autorrealizador. Quanto mais se aposta, mais dificuldade tem o país de se refinanciar e maior é a possibilidade de quebra. Não creio, porém, que os especuladores ganharão desta vez. É verdade que o euro tem um ponto fraco: faltam à União Europeia, de um lado, uma autoridade federal para cobrar maior responsabilidade fiscal e maior transparência dos governos, e, de outro, mais recursos para vir em seu socorro se se veem em dificuldade. Entretanto, embora a Comissão Europeia não conte com esses recursos, os governos europeus e seus ministros da Finanças contam. O governo conservador grego derrotado nas últimas eleições foi irresponsável no plano fiscal e no plano cambial; endividou o Estado e o país. O deficit público foi a 12,7%, e o deficit em conta-corrente, a 14% do PIB. E o governo mentiu em relação aos números. O novo primeiro-ministro, George Papandreou, porém, é economista keynesiano competente e prudente que já está tomando uma série de medidas de ordem fiscal. E a União Europeia vai certamente dar o apoio necessário à Grécia. A alternativa seria a Grécia pedir apoio do FMI, mas não creio que os europeus concordarão com isso. A Grécia é um país que já está bem inserido na zona do euro -e o apoio do FMI a ela representaria um apoio à zona do euro, algo que os grandes países da região não admitirão. Essa alternativa foi adotada para os países do Leste Europeu, mas esses são países recém-chegados à União Europeia. O grande aumento de capital que o Fundo aprovou foi justificado pela necessidade de salvar esses países, cujos deficit -o público e principalmente o deficit em conta-corrente- haviam subido de forma irresponsável; na verdade, foi aprovado para salvar os grandes bancos ocidentais que de forma igualmente irresponsável emprestaram para empresas daqueles países com o apoio do FMI porque estariam "crescendo com poupança externa". A União Europeia foi duramente atingida pela crise financeira global, porque alguns dos seus grandes bancos acompanharam a onda de especulação baseada em "inovações financeiras", e em parte porque as exportações de seus países sofreram com a crise. O endividamento das famílias, porém, não foi tão grande como nos EUA, e apenas na Espanha houve uma bolha imobiliária. A zona como um todo não apresentava nem os deficit públicos e em conta-corrente apresentados pelos EUA. Na crise, depois de uma breve depreciação em relação ao dólar, o euro voltou a se apreciar, indicando o maior equilíbrio da economia europeia. Por tudo isso, estou seguro de que os especuladores acabarão perdendo essa parada. Mas esse ataque especulativo é mais uma comprovação da necessidade de regulação cerrada dos bancos e dos "hedge funds". Criar dinheiro é uma capacidade inerente ao sistema financeiro porque ele cria crédito e financia o desenvolvimento econômico, mas dinheiro é um bem público poderoso e perigoso que as sociedades democráticas precisam manter sob controle. LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Globalização e Competição". -------------------------------------------Folha de S.Paulo 14 02 2010 VINICIUS TORRES FREIRE Lula investiu mais que FHC? Investimento federal foi equivalente e influenciado por normas que moldam e engessam o Orçamento A CAMPANHA para presidente deste ano será plebiscitária, Lula versus FHC, porque o petismo-lulismo assim o quer. Mesmo que ainda recuse o engajamento no combate, o tucanismo já foi obrigado a bater-se no campo escolhido pelo adversário. Será ainda mais difícil evitá-lo adiante, com ânimos mais extremados. Se o eleitor vai tomar sua decisão nesses termos, nenhum adulto sensato pode dizê-lo agora. Ainda mais difícil é julgar governos pela mera contraposição crua de números, sem considerar contextos e história. Que dirá estimar o desempenho de futuros governantes pelo que fizeram expresidentes. Decerto, o histórico da atuação de partidos, grupos políticos e suas alianças sociais é relevante para imaginar um novo governo dessas coalizões. Sob esse aspecto, o temor tucano das comparações, com a exceção de FHC, implica uma desconsideração de política, partidos e alianças sociais, as quais também dão contornos a um governo. Isso posto, indicadores econômicos e sociais de um período podem refletir decisões tomadas faz tempo, talvez em outro governo; talvez em outros países. São influenciados pela política e pela economia internacionais. Relevante ainda é a inércia institucional. Arranjos legais herdados e consolidados por acordos ou embates políticos influenciam a evolução de indicadores que parecem apenas fruto da decisão pontual de um ou outro governante. Um exemplo: o investimento do governo em "obras" (sua contribuição à formação da capacidade produtiva e da infraestrutura). Dados retirados de um estudo do economista Sérgio Gobetti, do Ipea, revelam que, na média, o investimento como proporção do PIB foi na prática igual nos anos FHC e Lula (vide gráfico), mesmo se consideradas as estatais. A diferença maior está em 2009, ano de PIB zero e ativismo maior do governo. Num trabalho inovador de 2006, Gobetti revelou distorções das estatísticas de investimento (devidas a problemas técnicos: nada de irregular). Agora, Gobetti publica série bem arrumada de dados sobre investimento -não trata da polêmica política, ressalte-se. Num outro estudo, José Roberto Afonso e Gabriel Junqueira notam ainda que a maior parte do investimento é de Estados e municípios. Os pesquisadores especificam o que se intuía: o investimento tem sido maior ou menor a depender do corte de gastos necessário para colocar as contas públicas em ordem. Investiu-se menos sob FHC 2 e Lula 1, tempos de crise e ajuste fiscal (crises em parte importadas). Por quê? O Orçamento federal é engessado, com gastos obrigatórios em saúde e educação, por exemplo. Ou em despesas como salários e aposentadorias de servidores, além do INSS, todas politicamente sensíveis. Leis e "pactos" políticos colocam a despesa num trilho algo previsível. Contexto, história e inércia importam. [email protected] ------------------------------Folha de S.Paulo 17 02 2010 Crise global fortalece Brasil e ensina o que evitar nas finanças DA SUCURSAL DE BRASÍLIA Ao mesmo tempo em que governo e setor privado relacionaram os pontos que precisam trabalhar para tornar o Brasil a referência financeira da América Latina, também listaram os que querem evitar. Entre eles, estão: tornar o país um paraíso fiscal, uma zona franca para produtos bancários e financeiros, ter livre conversibilidade total da moeda, criar uma superexposição financeira da economia e uma sociedade excessivamente alavancada. A lição, de acordo com relato à Folha de integrantes das discussões sobre o novo projeto, veio de exemplos internacionais como Estados Unidos, Islândia e Reino Unido, que estiveram no centro da crise financeira recente. A avaliação é que, em vez de atrapalhar, a reviravolta pela qual o mundo vem passando desde o final de 2008 pode ajudar o projeto brasileiro. Primeiro porque ele já nasceu com exemplos de sobra do que não se deve fazer. Depois, avalia-se que, como saiu relativamente bem dessa crise e o sistema bancário está fortalecido, o Brasil tem "um bom cartão de visitas". Acredita-se que o interesse de investidores no país tende a crescer, o que é uma vantagem em relação à concorrência de outros centros regionais. Além disso, considera-se que alguns passos isolados já foram dados pelo governo e pelo setor privado na direção de tornar o mercado brasileiro um centro distribuidor de produtos e serviços financeiros. Um deles foi a autorização dada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), no final do ano passado, para os fundos de pensão aplicarem uma parcela maior dos seus ativos no exterior. O percentual subiu de 3% para 10%. Além disso, a criação do DDA (Débito Direto Autorizado) -sistema montado pelos bancos que substitui a emissão de boletos de cobrança impressos por pagamentos eletrônicostambém é considerada iniciativa em linha com o projeto e que poderá ajudar na ideia de facilitar o pagamento de contas de estrangeiros aqui no país. Internacionalização Na semana passada, a BM&FBovespa aumentou sua presença internacional, elevando a participação que tinha na Bolsa de Chicago, a maior plataforma de negócios de commodities e derivativos do mundo. Com a operação, o Brasil deverá ganhar em tecnologia, poderá trazer mais investidores ao país e levar o dinheiro de brasileiros a outras praças e competirá em preços com grandes centros financeiros como Nova York. Paralelamente, será dada continuidade aos eventos do Best, uma iniciativa da BM&FBovespa com entidades que representam os bancos (Febraban) e o mercado financeiro e de capitais (Anbima) para promover o Brasil no exterior. Desde a sua criação, em 2004, já foram realizados mais de 12 seminários nos principais centros financeiros do mundo. Neste ano, estão programados eventos na Europa, com participação de representantes do Banco Central, e nos EUA, com o Tesouro Nacional. ------------------------------------ Folha de S.Paulo 16 02 2010 Dilma faz defesa de Estado presente e tocador de obras Ministra explica em livro editado pelo PT o que chama de bem-estar social à moda brasileira "O grande desafio é ainda superar o peso dos 25 anos de estagnação da economia e das políticas sociais", diz a pré-candidata na entrevista MARTA SALOMON DA SUCURSAL DE BRASÍLIA Em entrevista editada em livro que será lançado no congresso petista, de quinta a sábado, a pré-candidata ao Planalto Dilma Rousseff defendeu a presença mais forte do Estado na economia, não só para induzir investimentos mas também para tocar obras. "O Estado terá, inexoravelmente, de reforçar seu segmento executor", disse a ministra ao apresentar proposta que chamou de "bem-estar social à moda brasileira". A presença mais forte do Estado na economia será necessária, defende Dilma, para universalizar serviços de saneamento, melhorar a segurança pública, ampliar o número de unidades de atendimento na saúde e a oferta de habitação a partir de 2011. Mais de quarta parte da população (26,6%) ainda não dispõe de serviços de esgoto, de acordo com os dados oficiais mais recentes. "Muitos diziam que só havia um jeito de as pessoas melhorarem a sua situação, era através do mercado. E que, se acreditássemos nisso, todos seríamos salvos", observou a ministra da Casa Civil, defendendo a concessão de incentivos à atividade econômica nos últimos anos. "O grande desafio é ainda superar o peso dos 25 anos de estagnação da economia e das políticas sociais. Nós vamos fazer, sabemos como fazer, aprendemos o caminho no governo Lula", diz a pré-candidata. Lula e a ministra já tinham defendido, em eventos públicos, um Estado mais forte. No início do mês, durante inauguração da primeira fábrica de chips da América Latina, o presidente disse que "o fracasso do sistema financeiro internacional fez ressurgir o Estado como único capaz de salvar a economia da crise". Dilma seguiu o raciocínio: "Achamos que o Estado tem de ter uma presença clara na economia". Durante a entrevista, Dilma Rousseff concordou com o coordenador do seu futuro programa de governo e vice-presidente do PT sobre o que Marco Aurélio Garcia chamou de "retraimento do pensamento crítico", com o avanço de uma "subintelectualidade de direita". Garcia defendeu a valorização da produção cultural "submersa" pela indústria cultural. Dilma acenou com o plano que pretende universalizar o serviço de acesso à internet por banda larga para ampliar os canais de comunicação. "Estamos vivendo um momento culturalmente explosivo. Precisamos colaborar com essa explosão", afirma a ministra no trecho final da entrevista, que ocupa parte do livro "Brasil, Entre o Passado e o Futuro", organizado pelo cientista político Emir Sader e por Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Lula. Jorge Mattoso, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, afastado após a quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa, participou da entrevista. ------------------------------- ECONOMIA & OUTRAS NOTÍCIAS Folha de S.Paulo 17 02 2010 TENDÊNCIAS/DEBATES Preconceito contra o agronegócio CESÁRIO RAMALHO DA SILVA Setores atrasados do governo querem emplacar ideais pseudossocialistas que já foram desacreditados no século passado O PROGRAMA Nacional de Direitos Humanos proposto pelo governo federal deveria preservar a sigla PNDH, mas trocar a descrição. Pelo seu conteúdo autoritário, anacrônico e ideológico, deveria chamar-se Programa Nacional de Discriminação Humana. O documento, que já sofreu uma saraivada de críticas de parcelas distintas da sociedade, ameaça o direito de propriedade, a legitimidade de instituições, a liberdade de imprensa e o pluralismo religioso, só para destacar alguns pontos. É um risco à democracia. Mesmo sendo apenas um conjunto paradoxal de propostas, sem valor legal e chance de vingar no Congresso, o programa mostra que ideias originais (revolucionárias, por sinal) de segmentos radicais do partido do governo não estavam sepultadas. O item relativo ao direito de propriedade é tão absurdo que nos faz imaginar das duas uma: ou o seu idealizador é imune a constrangimentos, por acreditar que uma ideia ridícula dessas encontraria abrigo na sociedade, ou é presunçoso ao extremo ao entender que conseguirá convencer o país a caminhar pela estrada da insensatez. Sábio, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, tachou o PNDH de preconceituoso. Ao defender audiências públicas como primeira instância para ocorrências de invasão de propriedades, sejam rurais, sejam urbanas, o PNDH instantaneamente divide a posse do imóvel entre proprietário e invasor. Enterra o Judiciário como genuíno agente de decisão da questão e consequentemente ignora a lei vigente. Dá as costas para a Constituição Federal. Sem poder contar imediatamente com o recurso do pedido de reintegração de posse ao Judiciário, o proprietário seria obrigado a ter que sentar à mesa com quem invadiu seu imóvel para negociar o que já é seu. Uma incoerência, que não passa de mais uma tentativa ideológica de aniquilação do frágil direito de propriedade. A concretização dessa situação irracional aumentaria a insegurança jurídica, podendo retrair investimentos nacionais e sobretudo internacionais. O documento ventila ainda a adoção de novas tecnologias, como biotecnologia e nanotecnologia, e a aprovação de licenciamentos ambientais ao crivo de comissões sindicais, ONGs e movimentos políticos disfarçados de sociais, entre outros, que não têm qualquer conhecimento para esse tipo de decisão. O PNDH vai de encontro à ação do próprio presidente Lula, que defende a condução dos trabalhos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), com base no conhecimento técnico-científico. Para a Sociedade Rural Brasileira, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, mentor do ataque institucional ao agronegócio presente no PNDH, quer debelar o setor que mais vem contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Eficiente, o agro brasileiro gera emprego e renda, produz comida segura e barata, exporta alimentos, fibras e energia para mais de uma centena de países, garantindo bilhões de dólares em reservas cambiais à nação -um colchão de recursos, aliás, que deu forças para o Brasil atravessar a recente crise mundial. Mesmo assim, o ministro Cassel insiste no dogma que tudo que vem da agricultura comercial é negativo e que somente a agricultura familiar merece elogios. A SRB discorda totalmente disso na sua história de 90 anos. O agro é um só. O produto rural brasileiro é um só, seja do pequeno, seja do médio, seja do grande produtor. Todos formam e têm seu papel, segundo suas características regionais e perfil de produção. Pensar de forma diferente é negar o direito do pequeno almejar crescer e tornar-se grande, como constantemente ressalta o presidente Lula. Ao apoiar a criação de entraves para a reintegração de posse, o ministro Cassel estimula a violência. Mais do que destruir o agro e o processo contínuo de transferência de benefícios socioeconômicos do setor para a sociedade, segmentos atrasados do governo querem emplacar na agenda pública ideais e vontades pseudossocialistas que já foram desacreditados no século passado. Crer que um Estado "todo poderoso" é sinônimo de melhores dias é regredir na história. O capitalismo não é perfeito, vide a recente crise financeira. Todavia, até o momento, é o modelo que melhor possibilita a busca pela independência socioeconômica a qualquer pessoa. O que cabe questionar agora é se esse tipo de pensamento contaminaria as políticas públicas de uma eventual continuidade dessa administração. Queremos ser a Venezuela ou o Chile? Chegará a hora de escolher. CESÁRIO RAMALHO DA SILVA , 65, é presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e diretor do Departamento de Agronegócio da Fiesp. ----------------------------------------------Folha de S.Paulo 14 02 2010 Mão de obra qualificada é novo gargalo Em 2009, 1,7 milhão de vagas oferecidas nas agências públicas de emprego não foram preenchidas, índice recorde Engenheiros e nutricionistas estão entre as ocupações com maior sobra de vagas; baixo nível de escolaridade está entre as explicações JULIANNA SOFIA DA SUCURSAL DE BRASÍLIA A escassez de mão de obra qualificada levou o Brasil a bater recorde de sobra de vagas no mercado de trabalho formal em 2009. Dados obtidos pela Folha sobre o desempenho do Sine -rede pública de agências de emprego- mostram que 1,661 milhão de postos de trabalho oferecidos pelas empresas no ano passado não foram preenchidos por esse sistema. Apesar do estrago causado pela crise global na geração de empregos formais em 2009 (pior saldo anual desde 2003), a oferta de vagas nas agências do Sine foi a maior da década: 2,7 milhões. A taxa de preenchimento de empregos apurada pelo Sine ficou em 39%, ante 42% em 2008 e 48% em 2007. Esse indicador considera a relação entre o número de vagas disponíveis na rede e o total de pessoas que conseguiram colocação no mercado por meio do sistema público. Em 2008, o excedente de vagas atingiu 1,458 milhão. O principal motivo para o não preenchimento dos postos é a falta de qualificação da mão de obra, o que compreende baixo nível de escolaridade, carência de preparo técnico e pouca experiência. Apesar da sobra de vagas pelo sistema Sine, a taxa de desemprego no ano passado ficou em 8,9%, segundo dados do IBGE -percentual pouco acima dos 7,9% registrados em 2008. A tendência é que a situação se agrave neste ano, quando são esperados aumento da atividade econômica e maior oferta de emprego. A dificuldade de as empresas encontrarem trabalhadores qualificados já é considerada um gargalo comparável à falta de infraestrutura/logística e à elevada carga tributária. Ranking O excedente de postos de trabalho captado pelo Sine ocorreu tanto em profissões de nível superior quanto em atividades com menor escolaridade, mas que necessitam de conhecimento técnico. Ranking elaborado pelo Ministério do Trabalho a pedido da Folha revela que entre as ocupações com maior sobra de vagas estão engenheiros civil e mecânico, nutricionista e farmacêutico. Também faltaram auxiliares de linha de produção, pedreiros e operadores de telemarketing. Nas estatísticas oficiais, ainda aparecem eletricistas, torneiros mecânicos e funções ligadas ao setor naval. "Isso mostra o aquecimento da economia, que fez com que fossem geradas tantas vagas em 2009. Mas também traz uma decepção: o Brasil não tem mão de obra qualificada suficiente", disse o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. "Intensificamos os programas de qualificação, mas não dá para tapar o sol com a peneira. Não é possível atender à demanda." Segundo ele, o governo federal investiu no ano passado R$ 600 milhões no conjunto de programas de qualificação profissional. Para 2010, a previsão é de R$ 800 milhões. Para o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, entre os trabalhadores com nível superior, a falta de profissionais com especialização foi mais crítica. "A taxa de preenchimento para nível superior foi de apenas 22%. Para o grupo com menor escolaridade, o índice foi de 39,2%." Construção civil Para o economista, não causou surpresa a sobra de vagas nos principais setores listados no ranking, pois estaria relacionada à retomada da economia. "Engenheiro e pedreiro são profissões ligadas à construção civil. O setor cresceu muito nos últimos anos e houve avanço na formalização. Já o fraco desempenho do setor até 2003 desencorajou a formação de profissionais. Formar um engenheiro leva algum tempo." A falta de pessoal qualificado nas carreiras mais técnicas também pode ser associada a outros fatores, na opinião do presidente do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), Simon Schwartzman. "Pode ser que as vagas estejam sendo oferecidas em Pernambuco e os engenheiros estejam em Minas Gerais, por exemplo. Pode haver um problema de falta de informação recíproca e de localização", diz. --------------------------------------Folha de S.Paulo 14 02 2010 Serviços preveem melhor ano da história COLABORAÇÃO PARA A FOLHA Com 67% de participação no PIB (Produto Interno Bruto), o setor de serviços prevê para 2010 seu melhor ano da história, com expansão de ao menos 10% em relação ao ano passado, puxada especialmente pela indústria da construção civil. As obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e os investimentos em infraestrutura para a Copa de 2014 deverão ser neste ano o principal motor do setor terciário, de acordo com Paulo Lofreta, presidente da Cebrasse (Central Brasileira do Setor de Serviços), que representa as empresas desse segmento. Isso porque a indústria da construção terceiriza uma série de serviços, como os de refeição coletiva para os funcionários e de limpeza e segurança para as obras. "Neste ano, o nosso setor vai girar na órbita da indústria e dos investimentos do governo, mas, quando os projetos estiverem concluídos, aí será a parte de entretenimento e recepção que terá um dinamismo." Conforme levantamento da Cebrasse, segmentos diversos apontam crescimento vigoroso no ano. As empresas de asseio e conservação vislumbram alta entre 5% e 7% no faturamento. Já o setor de cartões de benefício prevê avanço de 10%, impulsionado por um maior número de contratações esperadas na construção civil. Com a entrada de mais trabalhadores formais no mercado, crescem as operações de cartões de vale (alimentação, refeição, transporte e combustível). Empresas da área de segurança privada estimam crescimento médio de 4%. "As construtoras terceirizam muitos serviços. Essa vai ser a mola do nosso crescimento." De acordo com Lofreta, a expectativa é que o setor contrate entre 2010 e 2011 mais 1 milhão de trabalhadores. Hoje, são 13 milhões. "A demanda está muito aquecida. Também os serviços ligados ao turismo, como hospedagem e lavanderia, devem ter dinamismo maior." Segundo ele, o principal gargalo é a falta de mão de obra qualificada. "Temos pouco tempo para treinar muita gente." Para Julio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica, o setor de serviços levou vantagem sobre a indústria durante a crise e funcionou como um colchão para a economia quando a turbulência cresceu. ------------------------------------O Estado de S.Paulo 14 02 2010 Eleições na democracia esvaziada Gaudêncio Torquato Dilma Rousseff foi escolhida candidata à Presidência por Lula porque o PT vivia um momento de "vazio". Essa foi a explicação do então ministro da Justiça para mostrar como essa candidatura emergiu como fator de composição dentro de um partido fragilizado e de alas divididas na onda do mensalão. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu vazão à expressão usada por Tarso Genro ao dizer que o perfil da chefe da Casa Civil carece de atributos de liderança. Por trás da explanação de um e da espinafração de outro reside uma particularidade da vida política contemporânea: um processo de esvaziamento. Os requisitos clássicos dos quadros políticos - experiência, liderança, capacidade de mobilizar as massas - nem sempre são considerados para efeito de escolha de candidatos. E as causas estão na própria crise que assola o sistema político, cuja feição assim se apresenta: partidos de identidades esgarçadas, representações apartadas da sociedade, Parlamentos com menos disposição para legislar; oposições frágeis e com discurso opaco e eleitores desmotivados. Verdade é que desde a queda do Muro de Berlim o jogo político se tornou menos contrastado. Os atores políticos reúnem-se num grande centro, onde se opera a clonagem das semelhanças. O próprio conceito de democracia perde o antigo escopo, abrigando novos elementos. No século 19, por exemplo, o sufrágio era instrumento da democracia atomizada: os átomos eram conquistados um a um por candidatos com discursos distintos. Hoje a escolha se processa dentro de coletividades de pensamento homogêneo e por contendores bastante assemelhados. O processo atomizado de ontem é substituído por mecanismos impostos por uma democracia concebida e desenvolvida por uma teia de organizações intermediárias (sindicatos, associações, movimentos e mesmo alianças passageiras). Estes constituem os novos polos de poder, dentro dos quais os atores, alguns sem nunca se terem submetido ao crivo do eleitor, se abrigam para disputar campanhas majoritárias de envergadura. Sob a malha de interesses circunstanciais, composições artificiais e conceitos frágeis, os caminhantes de uma jornada eleitoral nem sempre são os mais treinados ou conhecem os percalços da política. Ingressam na arena a fórceps, são pinçados do bolso do colete pelos donos do poder ou mesmo dão um jeito de pular do Polo Norte para a Linha do Equador sem ao menos saberem a distância da rota. O "vazio" oceânico na política abriga não só a ministra Dilma, mas outras figuras. Veja-se o caso do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, cuja pretensão de ser candidato ao governo de São Paulo pelo PSB o deixaria na risível situação de ter de optar pela cartilha da indústria, que representa, ou pelo socialismo partidário, que defende, por exemplo, a redução da jornada semanal de trabalho. Como se pode aduzir, os perfis já não privilegiam parâmetros que, no antigo sistema, mediam os potenciais de cada qual. Agora, na nova ordem - nomeada de organodemocracia por Roger-Gérard Schwartzenberg -, os contendores passam a representar menos o que pensam e mais o conjunto de interesses e a prática de grupos, siglas amorfas e alianças que os abrigam. Se os ideários fenecem, os adversários tornam-se mais próximos. O mimetismo é ainda mais acentuado por conta de costumes que impregnam a agenda cotidiana de nossa política: o gosto pela improvisação, a flexibilidade para mudar de lado ("o jeitinho brasileiro", a infidelidade), a tendência ao exagero, a lei da maior vantagem e o usufruto do patrimônio público. Ora, sob essa leitura, a comparação entre os ciclos FHC e Lula terá mais firulas que diferenças no plano semântico. Dados a mais alcançados pelo ciclo lulista só foram possíveis em decorrência da base assentada pelo antecessor. E, quanto a rumos, as diferenças se darão na esfera do estilo. Quem acha que o País, com inflação domada, juros baixos, braços assistenciais fortes, tem de mudar a rota? No campo político, os arranjos - seja para a oposição, seja para a situação - deverão continuar a partir da aliança com o PMDB. O assistencialismo, simbolizado por programas de redistribuição de renda, será mantido por Dilma e ajustado pelo candidato da oposição. As grandes pilastras do edifício Brasil, portanto, serão as mesmas. Haverá, claro, pontuação sobre os perfis. Em relação à candidata governista, percebe-se grande interesse em afastá-la do leito do pragmatismo, frequentado por Lula, para banhá-la nas águas ideológicas. Há núcleos comprometidos com a bolorenta cartilha do Estado controlador de tudo. Lula, porém, será o mestre de cerimônias dessa liturgia. E terá o poder para conter o ímpeto de radicais. Até porque imagina Dilma como a locomotiva a puxar o trem que construiu ao longo de oito anos. Não sendo petista histórica, teria condições de encarnar o pragmatismo lulista. Já do lado das oposições, o País poderá ver um candidato mais experiente e de perfil consagrado. Ocorre que a bagagem pessoal de José Serra, nos termos acima descritos, não terá mais o peso de outrora, canibalizado que será por paisagem mais abúlica e menos contrastante. A ressaca geral da política - intensificada por escândalos - abate os entes políticos, físicos e jurídicos. O desafio do governador será o de mobilizar a atenção do eleitorado para as diferenças entre ele e a adversária. Esse tipo de apelo, porém, não gera impacto nas margens eleitorais, funcionando mais como elemento de atração de segmentos racionais, sediados no meio da pirâmide social. Ademais, nos últimos tempos gigantescos laços foram jogados para todos os lados por mãos adestradas na arte da mistificação das massas. Tanto o perfil de Serra tecnocrático. Tal imagem terão chances de mostrar prossegue: o fator pessoal quanto o de Dilma se enquadram no território do estilo será fatalmente percebida pela comunidade política. Ambos suas qualidades, capacidades e até deficiências. A indagação prevalecerá sobre a moldura? Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação ---------------------------- O Estado de S.Paulo 14 02 2010 Elitizaram o samba Jovens de classe média encabeçam as músicas do carnaval Valéria França Músicos natos, Ideval Anselmo, de 70 anos, e Zelão, de 60, cresceram nas rodas de samba e aprenderam a compor do mesmo jeito que as crianças a falar. As letras surgiam na cabeça e mais tarde naturalmente acabavam consagradas na Avenida São João, no centro de São Paulo, antigo palco dos desfiles paulistanos. Ideval escreveu 22 músicas, oito em parceria com Zelão, entre elas, Narainã, de 1977, que ganhou como o melhor samba-enredo, pela Camisa Verde e Branco, a penúltima escola a desfilar hoje no Grupo de Acesso no sambódromo do Anhembi, na zona norte. "Era fácil colocar um samba na avenida. Bastava levar sua música gravada numa fita cassete para a comissão julgadora", diz Ideval, metalúrgico aposentado, pai de sete filhos, considerado um dos maiores campeões de sambas-enredo de São Paulo. "A concorrência era pequena", conta Zelão, funcionário público, pai de dois filhos, que mora no Limão, zona norte. O esquema mudou. As escolas transformaram o processo de seleção do samba-enredo numa disputa acirrada, com até 40 concorrentes. Se Ideval chegava na escola com muito samba no pé, uma fita cassete gravada na mão e nenhum dinheiro no bolso, hoje a nova geração de sambistas desembarca nas escolas com disposição de investir alto. "É preciso ter em média R$ 10 mil só para mostrar a música, que pode ou não virar tema da escola", diz o arquiteto Aquiles da Vila, de 33 anos, um dos quatro autores do sambaenredo Cacau: Um Grão Precioso que Virou Chocolate e Sem Dúvida Se Transformou no Melhor Presente!, que a Rosas de Ouro mostrou na madrugada de ontem no Anhembi. Aquiles representa bem a nova leva de compositores, formada por profissionais liberais, de classe média, que encaram o samba como mais um hobby, e não como razão de vida. Pai de dois filhos, casado com uma pedagoga, o compositor do samba-enredo da Rosas de Ouro começou escrevendo para a X-9 Paulistana, meio sem querer. "Em 2001, fui nas eliminatórias para apoiar dois amigos compositores." E isso quer dizer torcer na quadra pelos irmãos gêmeos, Fábio Mattos, publicitário, e Fabrício, advogado, de 33 anos. "Eu me animei com a história e no ano seguinte viramos parceiros de letra." Aquiles ficou sete anos concorrendo na X-9 e ganhou apenas em 2007, quando pela primeira vez uma de suas composições entrou no sambódromo. E, para chegar lá, aprendeu que é fundamental conquistar a comissão julgadora. "No ano passado, nas finais da Rosas, para vender o peixe, distribui 5 mil folhetos, mil bexigas e a mesma quantidade de CDs. Ainda contratei o Fred Viana (intérprete da Tucuruvi)." Aquiles e seus parceiros fizeram dez apresentações que foram verdadeiros shows nas seletivas. Ideval estava entre os compositores concorrentes de Aquiles, mas foi eliminado na terceira apresentação. Ele levou um CD, com o registro do samba, e 2 mil filipetas com a letra. "Não tinha condições. Eu teria de levar uma torcida da favela, dois ônibus cheios e pagar o ingresso para todos", reclama. O custo não é a única queixa dos veteranos. "Hoje, os carnavalescos dão muito palpite nas letras. Falei uma vez para o Joãosinho Trinta que se ele entendia tanto de samba deveria escrever música", diz Zelão. "Algumas palavras têm de estar na letra e não adianta querer escrever a mesma coisa de outro jeito. Não pode. Só que a letra fica ruim, difícil de cantar e de lembrar." Seguir as instruções do carnavalesco faz parte das regras das escolas. "Os compositores não podem viajar muito", diz Emerson Nunes, diretor de Comunicação da Leandro de Itaquera. "Como o investimento é alto, aconselhamos que as letras sejam escritas por um colegiado de sambistas." O samba-enredo da Leandro de Itaquera, que se apresentou no começo da madrugada de ontem, foi escrito por 20 compositores. "É impossível reunir tanta gente para escrever um samba", diz Zelão. "Alguns entram só com o dinheiro e não com o talento", explica Raphael Pinópolis Neto, de 29 anos, músico profissional, que estudou 16 anos em conservatório, e é veladamente um dos compositores mais recorrentes no carnaval paulistano. A primeira escola de Neto foi a Mocidade Alegre, onde começou tocando cavaquinho, em 1997. Cinco anos depois, virou compositor de samba-enredo e passou a escrever para outras escolas com pseudônimo. "Vale a pena, mesmo que não ganhe o melhor samba-enredo. Se somar a arrecadação dos direitos autorais, e outros itens, fatura-se cerca de R$ 40 mil por música." Em 2005, Neto passou para a Império de Casa Verde, e ali ficou quase como se tivesse um cargo vitalício. "O presidente da escola extinguiu a eliminatória. No ano passado, fui ameaçado de morte." Neto achou melhor ficar de fora desta vez. Hoje, o "hitmaker" Ideval comemora 40 anos de samba com um show na Casa de Francisca (Rua José Maria Lisboa, 190; 3052-0547, às 22h), no Paraíso, zona sul, sem ter construído patrimônio com o samba. "A minha verdadeira alegria era ver o povo cantando minha música. Isso me bastava." --------------------------Folha de S.Paulo 17 02 2010 FERNANDO DE BARROS E SILVA Meirelles na manga SÃO PAULO - Eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás em 2002, Henrique Meirelles trocou o Congresso pelo convite inesperado de Lula para ser presidente do Banco Central no governo petista. Então debutante na política, ele vinha de uma trajetória exitosa no mercado financeiro, tendo chegado nos anos 90 ao topo da hierarquia executiva do Bank of Boston. O tucano de Anápolis com perfil conservador e carreira de banqueiro internacional foi, com Antonio Palocci, o fiador da ortodoxia econômica e uma arma de Lula para aplacar a desconfiança do mercado. Para muitos companheiros, Meirelles era uma espécie de "alien" a ser extirpado do organismo do poder. Com seu jeitão de ET no meio da petelândia, ele sobreviveu e se tornou um dos esteios do lulismo. José Dirceu, Palocci, Luiz Gushiken, muita gente dançou na cúpula do PT e no primeiro escalão do governo. Meirelles é o único quadro de elite a permanecer onde estava desde 1º de janeiro de 2003. O presidente do BC está no PMDB desde setembro passado. E disse a Lula há poucos dias que num eventual governo Dilma Rousseff gostaria de continuar "colaborando" na "esfera federal". Sua pretensão, como está claro, seria concorrer na condição de vice-presidente. Na disputa interna do PMDB, Meirelles hoje é o franco azarão. O partido, que o vê como forasteiro, armou seu jogo em torno de Michel Temer. O deputado, no entanto, não inspira confiança ao PT nem tem a simpatia de Lula. O fato é que, no círculo lulista, Meirelles começa a ser visto seriamente como coadjuvante útil a uma presidenciável que militou na luta armada. A guerrilheira e o banqueiro -parece até sessão da tarde. O vice que patrocinou a estabilidade daria uma espécie de sinal ao mercado contra a retórica esquerdosa e a inclinação estatizante da candidata. Talvez Meirelles represente para a campanha de Dilma o que a Carta ao Povo Brasileiro representou para Lula em 2002. ---------------------------Folha de S.Paulo 15 02 2010 Folhainvest Alugar ações é alternativa para lucrar também na baixa Mercado de aluguel de ações bate recorde em janeiro, com R$ 30,7 bi em negócios Sistema permite ceder papéis temporariamente a outros investidores, mediante juros, sem perder direitos como o recebimento de dividendos FABRICIO VIEIRA DA REPORTAGEM LOCAL O aluguel de ações tem vivido um momento de forte aquecimento. Em janeiro, essa alternativa de ganhos oferecida aos acionistas atingiu a marca inédita de R$ 30,69 bilhões em volume transacionado. Foram 65.515 operações desse tipo no mês -cifra 21,9% superior à do mesmo período de 2009. Muito investidor não sabe, mas o proprietário de uma ação pode colocá-la para ser locada, da mesma forma que ocorre com um imóvel ocioso. Ao ter sua ação alugada por outro investidor, o proprietário recebe em troca uma taxa de juros, que varia de acordo com a disponibilidade e o interesse pelo papel que tem a oferecer. Levantamento da CBLC (Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia) mostra que a pessoa física é o segmento de investidor que mais disponibiliza suas ações para locação, com 34,9% do total em janeiro. Em segundo lugar estão os fundos, com 32,4% do total. No jargão do mercado, quem oferece suas ações é chamado de doador. E quem empresta os papéis é o tomador. Em tese, qualquer um pode alugar suas ações independentemente de quantos papéis possui. Todavia, alertam os analistas, quantidades muito pequenas de papéis dificultam o encontro de interessados. "O melhor caminho para oferecer suas ações para aluguel é procurar a corretora com a qual costuma trabalhar e avisar da disponibilidade dos papéis. A corretora pode acabar por juntar os lotes de diferentes pequenos investidores e colocá-los, de forma mais fácil, no mercado para locação", aconselha Márcia Dessen, consultora de investimentos da BMI (Brazilian Management Institute). Depois que a corretora é informada da disponibilidade do papel para ser alugado, entra em contato com a CBLC, que faz a intermediação entre as partes interessadas. Espécie de vitrine, o banco de títulos da CBLC serve para que os interessados tenham acesso aos papéis ofertados e às taxas cobradas para a realização de cada operação de aluguel. Quem aluga suas ações mantém seus direitos de acionista. Além de seguir como proprietário do papel, continua tendo acesso a dividendos e outros proventos. O único inconveniente é a perda de liquidez. Isso ocorre porque enquanto a ação estiver alugada seu proprietário não pode vendê-la. Dessa forma, a operação costuma ser indicada apenas para quem planeja manter suas ações por longo tempo. "Poucos investidores conhecem o aluguel de ações. Ainda falta informação para muita gente que aplica na Bolsa", afirma Márcia Dessen. Ganhos com aluguel podem bater Selic Ações menos negociadas, como Redecard, chegam a render mais de 12% ao ano quando locadas; como taxa é fixa, não há surpresas Principal inconveniente é não poder vender as ações enquanto estiverem sendo alugadas e se arriscar a ver a cotação cair após o negócio DA REPORTAGEM LOCAL As taxas que os investidores recebem ao alugar suas ações variam bastante. Tudo depende do papel que tem para oferecer e do interesse dos tomadores. Algumas ações dão retorno pouco atrativos; já outras pagam mais que a taxa básica Selic, que está em 8,75% anuais. Normalmente, os papéis mais negociados apresentam taxas menores. A ação preferencial do Bradesco é uma das que menos paga, tendo rendido nas últimas semanas 0,35% ao ano para seus doadores. Já Redecard ON oferecia taxa de 12,6% ao ano. Ou seja, quem colocou uma ação da Redecard para locação lucrou mais do que quem investiu em um fundo DI ou em um título público que acompanhe a Selic. Especialmente nesse período de Bolsa de Valores em ritmo muito mais fraco e menos animador que o vivenciado em 2009, entrar em uma operação de aluguel pode acabar por se mostrar vantajoso. Como se trata de uma remuneração de renda fixa, o aluguel de ações não implica em risco de prejuízos. O único inconveniente é o investidor alugar uma ação que valia R$ 50 e quando a recebe de volta, alguns meses depois, ver que ela está sendo negociada em pregão a R$ 35. Nesse exemplo, se o investidor vendesse a ação assim que essa fosse devolvida pelo tomador, receberia 30% a menos do que se tivesse se desfeito dela antes de a locar. As ações mais alugadas e procuradas estão entre as que costumam ter maior liquidez na BM&FBovespa. Entre os dias 21 de janeiro e 11 de fevereiro, os papéis mais contratados foram Vale PNA, Petrobras PN, Gerdau PN, Itaú Unibanco PN e Banco do Brasil ON. Os maiores tomadores de papéis alugados são os fundos e os estrangeiros. Esses investidores alugam as ações dos doadores para realizar operações em segmentos mais sofisticados do mercado, como o de opções, ou simplesmente para tentar lucrar com diferenças de preços. Um investidor poderia, em tese, alugar uma ação da Petrobras por R$ 50. No mesmo dia, venderia esse papel no pregão por esse preço e esperaria seu valor cair. Se isso ocorre e a ação atinge, por exemplo, R$ 40, recompra a mesma quantidade que havia vendido, devolve para o doador e lucra com a diferença entre os preços. Taxas elevadas As taxas pagas pelos tomadores variam também de acordo com as expectativas e momentos vividos pelas ações. Por um papel da Telebrás, que tem sido alvo de forte especulação há algum tempo na Bolsa, chegou-se a pagar nas últimas semanas uma taxa de locação de 43,18%. Mas esse é um caso de exceção. Dificilmente paga-se muito mais que a Selic em uma operação de aluguel de ações. "Muitos investidores não conhecem nem ao certo como funcionam os dividendos, imagina o mercado de aluguel de ações. Conversar com as corretoras, informar-se e pensar seriamente em alugar as ações é um importante passo para entender que o mercado é mais do que só comprar e vender papéis", diz o professor e educador financeiro Mauro Calil. (FABRICIO VIEIRA) -----------------------Folha de S.Paulo 17 02 2010 salgado Copa no Brasil custa mais que o dobro da africana Gasto previsto no Mundial-14 é R$ 9,5 bilhões maior do que o da África do Sul Estimativa de despesas do Ministério do Esporte para o torneio tem transporte e estádios, mas ainda não inclui itens como segurança RODRIGO MATTOS DA REPORTAGEM LOCAL A quatro anos e meio de seu início, a Copa do Mundo do Brasil-2014 já tem previsão de gastos 120% maior que o investido na África do Sul-2010. Ou seja, o evento brasileiro tende a custar mais que o dobro do africano. Detalhe: o Mundial no território nacional tem estimativa de custo incompleta, enquanto o torneio deste ano está próximo da conta definitiva. No início de fevereiro, o governo federal divulgou uma primeira lista de projetos para a Copa-2014. Incluiu 59 obras, sendo 12 delas em estádios. O custo total previsto é de R$ 17,52 bilhões, incluindo verba federal, estadual e privada. Desse valor, são R$ 5,343 bilhões para construção e reforma de arenas. O restante é para transporte e obras nos entornos das praças esportivas. A Copa da África do Sul tem gasto total previsto de 33 bilhões de rands (R$ 7,968 bilhões), montante informado à Folha pela porta-voz do Tesouro Nacional sul-africano, Thoraya Pandy. "Esse valor inclui infraestrutura, estádios, comunicação, segurança e desenvolvimento esportivo", explicou. O investimento em arenas foi de 13 bilhões de rands (R$ 3,1 bilhões) e, em transporte, atingiu 14 bilhões de rands (R$ 3,38 bilhões). "Acho que esse valor é muito maior. Tenho convicção de que é maior que isso", afirmou o ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., a respeito das cifras sul-africanas. Há dinheiro para reforma de aeroportos que não entra na conta da África do Sul. Mas o Brasil também não incluiu o setor aéreo em suas obras. Ressalve-se que o Mundial brasileiro tem número maior de sedes do que a África do Sul: são 12 contra 9. Também terá mais arenas: 12 contra 10. Proporcionalmente, isso justificaria aumento de um terço no investimento total e de um quinto em estádios. A diferença, porém, é de R$ 9,5 bilhões. E há tendência de alta. Os custos de estádios, únicos que tinham estimativa feita no projeto da CBF, já mais do que dobraram em relação a 2007. Mais: ainda não houve previsão sobre os gastos com segurança, tecnologia e infraestrutura esportiva, como CTs. Em comum, Brasil e África do Sul tem onipresença estatal para bancar as obras. Um total de 94% dos custos dos estádios será de responsabilidade dos governos federal e estadual, segundo documentos do Ministério do Esporte. O restante será pago pelos clubes - Atlético-PR, São Paulo e Internacional, donos de arenas. Estados, clubes e União assinaram termo em que foi estabelecida a fatia de cada um. Todos os gastos em infraestrutura estarão na conta dos governos, sendo dois terços deles financiados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Na África, a presença estatal é mais forte, já que o governo federal bancou quase tudo. Houve, em menor porte, aportes privados e de municípios. Também em comum, Brasil e África do Sul têm renda per capita próxima, em torno de US$ 10 mil (R$ 18,7 mil). O país africano tem desigualdade social um pouco maior, o que é indicativo de mão de obra mais barata. O eventual custo menor com salários dificilmente cobriria a diferença de mais de R$ 2 bilhões entre as obras de estádios no Brasil e na África do Sul.