TESTE
EMBALAGENS
A
la. E mesmo a lata de sardinhas
com o sistema “abre fácil” não foi
assim tão fácil: os voluntários relataram desconforto ao manipular
o anel. No caso de embalagens
que exigem o uso de alguma ferramenta própria para a abertura,
como latas sem o anel “abre fácil”
e garrafas de vinho, observou-se
que a qualidade do aparelho utilizado (abridor de latas e saca-rolhas, por exemplo) é determinante
para o sucesso do procedimento.
Veja na tabela às páginas 24 e 25 o
resultado completo do teste.
De acordo com Luciana Pellegrino, diretora executiva da Associação Brasileira de Embalagens
(Abre), a principal função da
embalagem é proteger os produtos do ambiente externo. No caso
de alimentos, isso é ainda mais
importante para evitar contaminação de qualquer espécie. Algumas vezes, a embalagem também
FOTOS IZILDA FRANÇA
SHUTTERSTOCK
tire o primeiro lacre quem
nunca se viu às voltas com
um produto difícil de abrir.
Vidro de palmito e sachê de
ketchup estão entre os exemplos
mais clássicos de embalagens
pouco amigáveis, mas inúmeras
outras presentes no dia a dia dos
consumidores também são um
desafio à força e à paciência. Foi o
que constatou o teste realizado
pelo Idec com diversos tipos de
embalagens, entre alimentos, produtos de limpeza, CDs e DVDs.
Das 20 embalagens testadas,
sete foram classificadas como difíceis, e outras sete como razoavelmente difíceis. Algumas delas,
inclusive, os participantes não
conseguiram abrir. Foi o caso do
vidro com tampa metálica utilizado para acondicionar alimentos
em conserva e compotas, entre
eles o palmito; da garrafa plástica
de vinagre; e da bandeja plástica
transparente que costuma ser
usada para embalar massas frescas e embutidos. Retirar o filme
plástico que envolve as capas de
CDs e DVDs também é uma missão quase impossível sem o uso
de facas ou tesouras.
Houve bastante dificuldade ainda para abrir a embalagem de
adoçante líquido, pois como a
tampa é muito pequena, falta espaço para apoiar os dedos e girá-
Não houve força ou “jeitinho” que desse
conta de destampar o vidro de palmito . Já o
de azeitonas , que tem batoque de borracha
na tampa, foi bem fácil
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Revista do Idec | Maio 2011
Garrafa de
vinagre: se o
lacre quebrar,
só é possível
abrir com
faca, tesoura
ou dentes
O teste
Em abril, o Idec adquiriu dois exemplares de cada um dos 20 produtos selecionados para o teste,
entre alimentos, artigos de higiene e limpeza, CDs
e DVDs. Duas voluntárias testaram o grau de facilidade de abertura das embalagens, simulando
uma utilização habitual.
O objetivo era testar os diferentes tipos de
embalagens disponíveis no mercado, e não marcas específicas, por isso não as divulgamos.
serve de mecanismo de segurança, como o plástico que embala
CDs e DVDs, por exemplo, que
visa impedir que o artigo seja
furtado nas lojas. Mas, para o
Idec, isso não justifica o uso de
embalagens que o consumidor
não consegue abrir.
POR QUE NÃO FACILITAR?
Como o objetivo do teste era
verificar apenas o grau de dificuldade de abertura dos vários tipos
de embalagem, não houve preocupação em identificar e tampouco comparar as marcas dos
produtos avaliados. No entanto,
vale ressaltar que em alguns
casos a facilidade para abrir determinado produto pode variar
conforme o fabricante. É o caso
dos alimentos em conserva embalados a vácuo, por exemplo.
Alguns têm um batoque de borracha na tampa, que ao ser retirado faz com que ela se solte. Já os
que não têm esse sistema são um
perrengue para abrir.
A pergunta que não quer calar
é: se existe solução para alguns
problemas, por que todos os fabricantes não a adotam? A resposta, segundo Luciana Pellegrino, da Abre, está no custo mais
alto dessas alternativas. “O setor
trabalha para que essas facilidades se tornem regra, mas, num
primeiro momento, há custos
para a implementação dos mecanismos que certamente encareRevista do Idec | Maio 2011
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EMBALAGENS
cem o produto”, afirma. “Por isso, o consumidor tem as duas
opções no mercado. Ele pode escolher entre a embalagem mais
fácil e a mais difícil de abrir”, diz.
O que fazer
Siga as instruções para abertura
disponíveis na embalagem (se houver).
●
Não tente abrir embalagens com
dentes, facas e outros instrumentos
●
MUITO ALÉM DA
INCONVENIÊNCIA
Além da inconveniência de não
conseguir usar o produto, as
embalagens difíceis de abrir aumentam o risco de acidentes de
consumo. “Em alguns casos a dificuldade de abertura obriga o
consumidor a utilizar instrumentos cortantes ou pontiagudos, e
isso o expõe ao risco de se machucar”, aponta Silvia Vignola,
assessora do Idec e coordenadora
do teste. O Instituto entende que
cabe ao fornecedor disponibilizar
embalagens que não exponham o
não recomendados pelos fornecedores.
Lata de sardinha: anel “abri fácil” facilita
a abertura, mas ainda não é o ideal
Blisters desafiadores
Teste divulgado em novembro passado pelo Inmetro
apontou a dificuldade para abrir blisters — embalagens
individuais de alimentos, usadas, por exemplo, para
acondicionar manteiga e geleia (aquelas servidas no
café da manhã de hotéis e voos de avião).
Diante do resultado — das 12 embalagens testadas
só duas foram consideradas boas ou muito boas de
acordo com os critérios avaliados —, o Inmetro está se
articulando com a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) para discutir eventual legislação
que trate da qualidade e da segurança das embalagens de alimentos, já que atualmente não existe regulamento que trate do tema.
consumidor aos riscos decorrentes da dificuldade em abrir as
embalagens. “É dever do fornecedor prezar a segurança dos consumidores. E quanto mais informação e mais investimentos,
menor o risco”, enfatiza a advogada Maria Elisa Novais, gerente
jurídica do Idec.
Para quem acha que é exagero
associar dificuldade a falta de segurança, é importante dizer que
as embalagens são responsáveis
por 7,5% dos acidentes de consumo registrados pelo Instituto
Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial
(Inmetro). “[A situação] é preocupante principalmente se considerarmos que 36% [dos acidentes de consumo com embalagens] geraram afastamento do
trabalho e atendimento médico.
Ou seja, são acidentes com consequências graves”, aponta Alfredo Lobo, diretor de qualidade do
órgão. De acordo com ele, a
grande maioria dos acidentes
acontece com embalagens de alimentos, e em geral estão relacionados à sua abertura.
Para piorar, boa parte das embalagens não traz no rótulo nenhum tipo de instrução sobre o
modo correto de abri-las, o que
eleva a probabilidade de manipulação inadequada e, consequentemente, o risco de acidentes. “O
que temos observado é que os
rótulos trazem informações sobre
o produto, mas não sobre o uso
seguro da própria embalagem”,
comenta o diretor do Inmetro.
Segundo Luciana Pellegrino, a
Abre aconselha os fabricantes a
inserirem orientações ao consumidor nas embalagens, de preferência combinando texto explicativo e imagens. “Se isso [o modo
de abrir] não estiver claro, recomendamos que o consumidor faça queixa ao SAC da empresa, até
Os fabricantes de molho de tomate e leite
indicam o uso de tesoura: assim fica fácil!
para demonstrar ao fabricante
que ele deve melhorar a qualidade da informação”, declara.
Reclamar com a empresa sobre
a dificuldade de abrir a embalagem também é a recomendação
de Andréa Sanches, diretora de
programas especiais do ProconSP. “Em vez de ‘dar um jeito’ para
abrir o produto com uma faca ou
tesoura e correr o risco de sofrer
um acidente, o consumidor deve
fazer valer o seu direito e exigir a
qualidade dos produtos”, defende. Um exemplo de que vale a pe-
plo, escolha um de boa qualidade.
● Ao deparar com uma embalagem difícil de abrir, reclame à empresa. E se
não conseguir abri-la, exija a troca.
Em caso de acidente de consumo, notifique o Inmetro. Você po-
●
de fazer isso por meio do site do Idec
<http://bit.ly/cuMkHf>.
Se houver necessidade de utilizar
serviços médicos em decorrência do acidente, solicite laudo do profissional
e comprovantes dos gastos. Esses
documentos são importantes para exigir
o ressarcimento dos prejuízos.
●
S
e por um lado o consumidor
enfrenta dificuldade para
abrir uma série de embalagens, por outro, o acesso a produtos perigosos, como água sanitária, desinfetantes e medicamen-
tos, em geral, é muito fácil. Nesses
casos, a facilidade é um problema,
pois aumenta o risco de acidentes
com crianças. Dados do Sistema
Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) apontam
FÁCIL
Embalagem
Vidro com tampa
metálica com garras e lacre
Garrafa plástica
transparente, com tampa
plástica e lacre tipo fita
Bandeja plástica transparente
Embalagem de papelão
e filme plástico
Filme plástico utilizado como lacre
Lata
Garrafa de vidro com
rolha e lacre plástico
Produtos
Conservas e compotas,
por exemplo, palmito
Vinagre
Massas frescas e embutidos
Utensílios domésticos, como
abridores de latas, entre outros
CDs e DVDs
Sardinha e atum
Vinho
Embalagem
Lata com anel “abre fácil”
Embalagem plástica
com lacre externo e
bico conta-gotas
Pacote tipo “topo circular” com
tampa plástica e lacre plástico
Garrafa plástica com tampa plástica e lacre de papel aluminizado
Pote plástico rígido transparente
com lacre e tampa
Pacote tipo “brik”
Sachê
exige pouca
força e o uso
das mãos
Produtos
Sardinha e atum
Adoçante líquido
Leite pasteurizado
Leite pasteurizado, suco de
frutas, iogurte e bebida láctea
Produtos a granel
Leite longa vida
e achocolatado
Molhos
MÉDIO
demanda força
ee/ou a utilização
do instrumento
recomendado
pelo fabricante
Embalagem
Caixa tipo “topo
erguido” com conjunto
de tampa plástica e lacre
Garrafa plástica com tampa
e lacre plástico
Garrafa plástica com tampa
plástica e lacre externo
Copo plástico com lacre
de alumínio
Garrafa de vidro com tampa
metálica serrilhada
Copo de vidro com tampa metálica e batoque de borracha
Produtos
Suco de fruta
Refrigerante e água
Isotônico
Iogurte, água e temperos
Azeite e bebidas
SHUTTERSTOCK/MONTAGEM IDEC
DIFÍCIL
na pôr a boca no trombone aconteceu em 2005, quando o Procon-SP recebeu queixa de um consumidor que havia se machucado ao
manusear o anel “abre fácil” da
lata de atum da marca Gomes da
Costa, e alertou para a falta de
informação sobre como utilizar o
sistema. A partir da intervenção
do Procon, a empresa passou a
colocar a instrução na embalagem.
Em casos de acidente de consumo com embalagens, também
é muito importante registrar
queixa no site do Inmetro.
Produtos perigosos, acesso fácil
Resultado do teste
exige muita força
e o uso de
instrumentos
não indicados
pelo fabricante
No caso de produto que demande
instrumento específico para abri-lo, como garrafa de vinho, por exem-
●
que os medicamentos e os produtos sanitários de uso doméstico
são a primeira e a segunda causa
de intoxicação, respectivamente.
Luciana Pellegrino alega que
não há nenhuma legislação que
obrigue os fabricantes a adotarem tampas e lacres mais seguros
para esse tipo de produto, e considera suficiente o alerta no rótulo, obrigatório por lei, de que ele
deve ser mantido fora do alcance
de crianças. “Cabe ao consumidor seguir a recomendação do
cuidado no acondicionamento”,
diz. Andrea Sanches discorda.
“De fato, não existe legislação específica, mas é dever de todo
fornecedor evitar danos ao consumidor. E se está ao alcance
dele promover mais segurança,
não faz sentido transferir a responsabilidade ao usuário.”
Produtos a vácuo (patês,
conservas e requeijão)
Revista do Idec | Maio 2011
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