A SEXUALIDADE E A SALA DE AULA
Rosângela Venâncio de Campos*
Sigmar Alves Barbosa**
RESUMO
O objetivo desse artigo é analisar o afloramento hormonal nas crianças a partir da quarta
série do Ciclo I do Ensino Fundamental, a maneira que os professores trabalham a
sexualidade em sala de aula e como os alunos estão sentindo essas transformações e seu
comportando diante do tema.
PALAVRAS-CHAVE
curiosidade, conhecimento, educação e diálogo.
ABSTRACT
The objective of this article is to analyze: the flourishing of hormones in children from
the fourth grade, the first cycle of basic teaching (Ciclo I of the Ensino Fundamental);
the way teachers are dealing with sexuality in the classroom; and how the students are
feeling these transformations and their behavior in the face of sexuality.
KEYWORDS
curiosity, knowledge, education, dialogue
* Formada em Pedagogia pela Faculdade de Educação de Assis - IEDA
** Professor Mestre da Faculdade de Educação de Assis - IEDA
TRANSVERSAL - Revista Anual do IEDA, v.4, n.4, 2006.
Embora a sexualidade tenha evoluído em vários aspectos percebe-se que quando
o assunto é sexualidade há uma rejeição por parte da família, que na maioria das vezes
ignora o que está acontecendo com as crianças. Contudo, sabemos que é algo presente
em toda a vida do indivíduo, porém de maneira diferente. Não compreendem que
ignorando a sexualidade da criança estão lhe transmitindo um conceito, mesmo que seja
negativo.
O correto seria a família ter consciência deste fato na vida da criança e não
ignorá-lo, mas tentar esclarecer as possíveis dúvidas que ela possui desde cedo, porém
sanando essas dúvidas de acordo com a idade, evitando também termos que causam
repressão, pois a criança poderá ter uma visão errada do assunto.
Falar de sexualidade para meninas também se torna algo mais complexo do que
com relação aos meninos, pois as meninas ainda sofrem com uma certa discriminação,
não só partindo da família, mas também da sociedade em geral.
Situações como a repressão da sexualidade infantil e a diferença entre meninos e
meninas nos alertam que a sociedade ainda não está adaptada para esses assuntos.
Entretanto, eles estão presentes em nossa vida cotidiana, então o que fazer diante do
comportamento dessas crianças?
Num primeiro momento a verdade, o diálogo, a paciência, são fatores que
colaboram para que essas crianças sejam mais felizes neste campo de suas vidas. E em
seguida, muito conhecimento sobre o assunto adequando-o à realidade em que vive a
criança.
Não devemos esquecer que esse assunto mal trabalhado no seio familiar acaba
―explodindo‖ na escola, onde a socialização acentua-se com outras crianças como a
troca de bilhetinhos amorosos, palavras escritas nos banheiros da própria escola, etc.
Embora seja difícil, o professor, deve trabalhar o tema de forma natural para que
a criança se sinta à vontade em esclarecer as suas dúvidas, sendo o mais imparcial
possível, permitindo que o aluno faça sua própria reflexão.
Especificamente nas séries finais do ciclo I do Ensino Fundamental, nota-se um
forte despertar hormonal, em que as crianças mais do que nunca querem uma resposta
sobre o assunto, enquanto que pais e educadores, na maioria das vezes, não sabem o que
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fazer. Sendo assim, é essencial uma integração entre pais e professores, para que juntos
busquem uma solução para esta questão. Muitas pessoas que tiveram sua sexualidade
mal trabalhada no passado, hoje estão sofrendo essas conseqüências. Um exemplo disso
é o grande número de adolescentes que iniciam sua vida sexual sem terem nenhuma
estrutura social, psicológica e principalmente a estrutura familiar, e sem um
conhecimento adequado sobre os métodos contraceptivos, engravidam sem ao menos
saberem o que é e como é ser mãe; quanto ao prazer sexual, muitas também o
desconhecem.
Partindo desse contexto, nosso propósito é alertar e colaborar com pais e
professores, tentando conscientizá-los de que a sexualidade infantil não deve ser
ignorada, e que há necessidade de pais e professores manterem contato com pessoas
relacionadas à área da saúde física e mental, realizar estudos sobre o assunto, pesquisar
e, acima de tudo, saber administrar esse tema perante a criança, que sabemos, está
evoluindo precocemente devido também aos meios de comunicação que acabam
despertando na criança essa sexualidade.
Assim sendo, equilíbrio e bom senso são fatores essenciais para que essas
crianças e adolescentes tenham uma vida mais assertiva neste campo, diferentemente
das crianças do passado que não tinham acesso a essas informações sobre a sua
sexualidade.
I – A SEXUALIDADE E FASE PRÉ-PÚBERE
Quando o assunto é sexualidade, há uma certa restrição sobre o tema, pois a
maioria dos adultos não sabe como ―explicar‖ essa transformação psicológica, física e
social que já aconteceu com eles, e que acontecerá com suas crianças.
O nosso assunto é que, um dia, pais e filhos conversem sobre sexo antes que
ocorra a primeira experiência, ainda que um ou outro conflito se
estabeleça(...).Incorporar a sexualidade e todas as suas formas de
manifestação é coisa que se consegue apenas através da palavra, mas
principalmente da postura e da maneira de aceitar o outro como pessoa
integral. (COSTA,1986, p.13).
Muitas vezes até são ―liberais‖ a respeito desse assunto, dizendo que a sociedade
se modernizou, que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos e deveres, pois no
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passado foram repreendidos com relação à sexualidade e agora com seus filhos querem
ser diferentes para que estes não sofram o que sofreram no passado.
Se nos reportarmos à época em que nós mesmos passamos por estas
transformações, sabemos que não ansiávamos por conselhos, mas sobre tudo
por alguém que simplesmente nos compreendesse e participasse desses
momentos tão marcantes para a vida afora. (COSTA, 1986, p.53).
Todo esse discurso proferido pelos pais é muito maduro e compreensível, porém
nem tudo é realmente praticado; sabe-se que na maioria dos casos a teoria acaba ficando
bem distante da prática e mesmo que os pais tenham plena consciência de como fazem
essas crianças sofrerem, acabam reproduzindo a mesma educação que receberam de
seus pais, ou seja, ignoram ou reprimem algum comportamento tido como sexual da
criança.
As descobertas sexuais, normais em todos os seres humanos não são, porém
aceitas pelos pais. Ao constatar que a criança sente prazer em tocar seu corpo,
o adulto procura desviar a atenção do menino ou da menina, proibindo-os
quando percebe a repetição dessas manifestações. (COSTA, 1994, p.122).
Essa resistência e restrição ao assunto, faz com que os adultos não consigam
perceber que essa sexualidade é algo inato.
A sexualidade infantil se desenvolve desde os primeiros dias de vida e segue
se manifestando de forma diferente em cada momento da infância.
(Parâmetros Curriculares Nacionais, 1997, p. 117).
Quando se fala em sexualidade na infância não nos referimos ao sexo
propriamente dito, mas a algo que dá satisfação à criança, como por exemplo colocar o
dedo na boca, chupar chupeta, etc.
A diferença da sexualidade infantil é apenas que, nesta, a excitação
apresenta-se mais intensa e difusa, portanto, não está necessariamente
localizada nos genitais. Na infância, sua finalidade é diferente, já que se
restringe à manipulação ou estimulação prazerosas; é auto-erótica, já que não
tende a uma relação com o outro. (COSTA,1986, p. 21).
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Por esta razão é tão importante a postura da família e das pessoas que convivem
com a criança, pois o ambiente tende a influenciar a sua maneira de ser.
A sexualidade, assim como a inteligência será construída a partir das
possibilidades individuais e de sua interação com o meio e a cultura.
(Parâmetros Curriculares Nacionais, 1997, p. 117 e 118).
Quando a criança, por exemplo, entra em contato com o seio materno, sugando-o
obtém um certo tipo de satisfação, esta será transformada na sua vida adulta em prazer
completo no ato sexual. Essas primeiras vivências com a mãe levam a criança a sentir
que esse contato lhe faz bem e que irá se modificando no decorrer de sua vida. Para
obter essa satisfação a criança também chupa o dedo da mão, do pé, ou seja também se
satisfaz com alguma parte do corpo. O ânus é outra parte do corpo que dá prazer à
criança, por meio da retenção das fezes.
Como traço mais destacado dessa prática sexual, salientamos que a pulsão
não está dirigida à outra pessoa; satisfaz-se no próprio corpo é auto-erótica,
para dize-lo com a feliz denominação introduzida por Hvelock [1910].
(FREUD, p.170).
Nesse caso, estimula-se a mucosa e a criança sente prazer, do mesmo modo que
sugava o seio da mãe, quando ligava o prazer com a fome. Contudo com o passar do
tempo isso vai desvinculando-se, pois já não se alimenta apenas do leite materno, mas
também de outros alimentos que necessitam da mastigação e não mais do sugar.
Por volta dos três aos seis anos de idade, começa despertar na criança uma
grande curiosidade em saber de tudo que acontece a sua volta.
Ao mesmo tempo em que a vida sexual da criança chegar a sua primeira
florescência, entre aos três aos cinco anos, também se inicia nela a atividade
que se inscreve na pulsão de saber ou de investigar.
(FREUD, 1910, p.183).
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A criança começa a exibir-se diante das pessoas, principalmente as partes
genitais, tanto sua como de outras pessoas. Querem saber como os bebês nascem, como
as mamães engravidam e sempre desconfiadas não aceitam qualquer resposta absurda
dos adultos, porém na maioria das vezes não questionam a resposta obtida.
Com toda essa curiosidade que a criança tem nesta fase, o diálogo deve estar
sempre presente, pois a família não obterá êxito omitindo, mentindo ou reprimindo-os.
Eles aceitam tudo isso tranqüilamente, mas os pais têm muito medo de falar
as coisas claramente para os filhos. Tem receio de traumatizá-los. Acredite:
enganar ou escamotear traumatiza muito mais do que falar nítida e
claramente, numa linguagem que eles possam compreender. (TIBA, 1994,
p.26).
A criança é extremamente perceptiva, nota tudo o que acontece a sua volta e
sabe quando o adulto está mentindo para ela pois observa tudo, embora muitas vezes
calada. É necessário, então, que se explique à criança de maneira a não confundi-la, sem
rodeios e estórias fantasiosas, dizendo apenas a verdade simples e objetiva, prestando
atenção, assim, na questão que a criança coloca, jamais respondendo além do que ela
questiona.
Quando se responde a uma pergunta infantil, será sempre interessante saber
quanto e até que ponto a criança está informada. Evitará isso, que os pais
fiquem explicando à criança assunto que já conhece, e fornecendo
explicações elementares e ridículas quando a criança está muito mais bem
informada do que os pais. (MIELNIK, 1975, p.105).
Nessa fase, as crianças descobrem que meninos e meninas são diferentes
anatomicamente e que sentem excitações mecânicas.
[...] a existência dessas situações prazerosas produzidas por certos tipos de
agitação mecânica do corpo, é confirmada pelo fato de as crianças gostarem
tanto das brincadeiras de movimento passivo, como serem balançadas e
jogadas para o alto, e de pedirem incessantemente que sejam repetidas.
(FREUD, 1910, p.190).
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Fatos como este demonstram o motivo das crianças serem tão adeptas a
brincadeiras deste tipo. Mas é certo que não se deve praticar essas brincadeiras
demasiadamente, pois poderá despertar na criança uma sexualidade precoce e afetar a
sua personalidade no futuro.
Alinha-se ao fato, ainda não compreendido, de que a conjugação do susto
com a agitação mecânica produz a grave neurose traumática histeriforme.
Podemos ao menos supor que essas influências que numa intensidade ínfima
transforma-se em fontes de excitação sexual, em medida excessiva, uma
profunda desordem no mecanismo ou na química sexual. (FREUD, 1910,
p.19).
Entretanto, caso o adulto note algum comportamento da criança tido como
sexual, como a manipulação dos genitais, não há necessidade de repressão, impedindo-a
agressivamente, tampouco julgar o ato como impuro ou imoral. Com isso a criança
perceberá que aquele ato não é para ser repetido, mas por outro lado ela ficará
extremamente curiosa sobre o assunto, querendo saber o motivo de tamanha repreensão.
E muitas vezes continuará exercendo o ―ato tido como sexual,‖ porém sem que ninguém
saiba.
Ao impedir ou repreender as manifestações da sexualidade na criança, é
comum que os pais transmitam mensagens de conotação negativa relacionada
à moral, tais como: feio, sujo, vergonhoso, e tantas outras coisas. Nesse caso,
a criança, frente à necessidade de experimentar sua sexualidade, procurará
satisfazer-se mesmo que às escondidas, porém introjetando todas as
conotações negativas. Isso pode causar-lhe distúrbios de ordem sexual na
adolescência e na vida adulta. (COSTA, 1986, p.25).
Neste momento, a postura da família perante a situação é fundamental, pois não
se pode ignorar tal situação. Todavia não é necessário repreensão.
Bom senso e equilíbrio, portanto, são as grandes armas para lidar com a
sexualidade das crianças ainda dentro desse grande útero que é a família.
(TIBA, 1994, p.27).
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A família, na maioria das vezes, por desconhecer o assunto sexualidade na
infância, acaba julgando as crianças como pervertidas, ou que possuem algum distúrbio,
uma doença ou algo parecido. No entanto é sabido que para a criança o ato de
manipulação dos genitais ou o exibicionismo é tido como normal.
As crianças bem pequenas não se preocupam muito com a sexualidade. Elas
estão na fase de socialização elementar e querem apenas se conhecer. (TIBA,
1994, p.24).
Dos sete aos doze anos, aproximadamente, a sexualidade da criança começa a
acentuar-se de maneira mais profunda e real. As crianças que antes eram separadas na
hora das brincadeiras de acordo com o sexo, agora procuram o sexo oposto.
Esse antagonismo dos sexos da meninice é substituído na puberdade pelo
interesse de um sexo pelo outro, surgindo os namoricos, as ―tiradas de linha‖
e entre uns e outros as paixonites. (MIELNIK,1975, p.93).
Seria de suma importância que, começando pela família, houvesse uma
conscientização de que a sexualidade infantil existe e deve ser trabalhada, para que
assim a criança se torne um adolescente e futuramente um adulto com menos
dificuldades neste campo de sua vida. Assim, a família e a escola têm por obrigação
observar atentamente o comportamento da criança e tentar ajudá-las nas diferentes
fases de sua vida.
O que se constata, entretanto, é número assustador de adultos infelizes.
Muitos deles não receberam orientação adequada na adolescência e, portanto,
tiveram seu desenvolvimento emocional bloqueado. (COSTA, 1986, p.8).
Devemos nos ater, também, à diferenciação que os adultos fazem com relação a
meninos e meninas, pois os meninos na maioria das vezes podem tudo, ter várias
namoradas, não ter horário para chegar em casa; tudo isso é considerado pelos adultos
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como normal. Contudo, quando se refere à garota o assunto se torna um tanto
complicado e preocupante perante a visão dos adultos, alegando que as garotas devem
seguir algumas regras para não ficarem mal faladas perante a sociedade.
Na adolescência quando a sexualidade começa a se manifestar de forma mais
explícita, essas diferenças se acentuam. A mulher tem menos liberdade do
que o homem para demonstrar suas necessidades e seu
prazer.
Namorar,
chegar tarde da noite em casa são atitudes controladas rigorosamente pela
família. O homem ao contrário pode gozar sua liberdade sem grande
vigilância. Há inclusive, uma certa pressão para que ele inicie sua vida sexual
o mais cedo possível como se possibilitasse, por si só, um amadurecimento
psicológico e social. (COSTA, 1994, p.111).
Sendo assim, meninos e meninas percebem desde muito cedo que são diferentes
não só anatomicamente, mas também perante a família e a sociedade, pois os meninos
ficam nus quando crianças, o que é considerado normal. Entretanto, as meninas são
tolhidas desde cedo, primeiramente pela família e em seguida pela sociedade.
Dificilmente vemos fotografias de uma menina fazendo xixi. Obviamente
existem diferença na postura dos pais, que tratam diversamente meninos e
meninas. (TIBA, 1994, p.24).
Embora a sociedade tenha evoluído muito nesse e em vários outros aspectos, a
repressão com relação ao sexo feminino ainda está presente em muitas famílias. E o que
fazer perante situações tão delicadas de abordar como a diferenciação entre meninos e
meninas e a sexualidade precoce, presente cada vez mais cedo na vida dos adolescentes?
O apoio da família é fundamental, de maneira que a criança e o adolescente sintam-se
seguros no seio familiar e não amedrontados como acontece em muitos casos.
II – A SEXUALIDADE E A ESCOLA
O período em que se acentua a sexualidade na criança é um momento pelo qual
esta passa por profundas transformações, tanto físicas quanto psíquicas e sua afetividade
está em destaque.
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Evidentemente a maturação do instinto sexual é marcada por desequilíbrios
momentâneos, que dão um colorido afetivo muito característico a todo esse
último período da evolução psíquica. (PIAGET, 2002, p.57).
E essa sexualidade é que vem preocupando educadores desde a metade do século
XVIII, aproximadamente.
Embora pouco se saiba sobre a história da ―entrada‖ da sexualidade na
escola, alguns estudiosos apontam que, na França, a partir da segunda metade
do século XVIII, a chamada educação sexual começou a preocupar os
educadores, coincidindo com o desenvolvimento de noções relativas à
repressão das manifestações da sexualidade infantil. (SAYÃO, 1997, p.107).
Constatamos, assim, que séculos atrás a sexualidade já era considerada pela a
escola, como um problema, e em pleno século XXI este assunto ainda é mal resolvido
em nossa sociedade.
Sabemos que a sexualidade é um tema difícil de se trabalhar, pois está
extremamente
ligado
aos
campos
emocional,
religioso,
político,
ideológico,
profissional, ético e outros.
Porém, é certo que é no período escolar que essa sexualidade se aflora, pois além
de passarem muito tempo juntos, seus corpos e mentes estão em profundo
desenvolvimento.
A fase escolar da vida psico-sexual infantil abrange o período de tempo
compreendido entre 6 e 12 anos de idade aproximadamente. É uma idade
delicada, difícil, especialmente peculiar pelas manifestações físicas, psíquicas
e sociais que a criança experimenta durante seu período de crescimento.
(MIELNIK, 1975, p.60).
A maioria dos professores aborda este tema como se a sexualidade tivesse um
período para se destacar (puberdade) e outro para se ocultar (velhice) e na verdade
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podemos constatar que a sexualidade inicia-se desde o nascimento, no aleitamento
materno até a morte do indivíduo.
A concepção geral é que está ausente na infância, que se manifesta por
ocasião da puberdade em relação ao processo de chegada da maturidade, e se
revela nas manifestações de uma atração irresistível exercida por um sexo
sobre o outro. (SOUZA, 1997, p.12).
Sendo assim, devemos abordar o tema, não como um assunto diferente dos
outros, mas como algo natural, que faz parte de sua vida.
A atividade sexual não é feia, nem bonita. Ela é apenas natural, como são
naturais o sono, a fome, a sede, a respiração e os batimentos cardíacos.
(MIELNIK, 1975, p.40).
O educador deve propor aos alunos uma reflexão, ajudando-os a compreender a
sua própria sexualidade. Entretanto, espera-se que os educadores sejam o mais neutro
possível deixando o aluno livre para que tire suas próprias conclusões a respeito do
assunto.
Analisando especificamente as séries finais do ciclo I do Ensino Fundamental,
percebeu-se que é nesse período que o despertar hormonal é mais latente. Inicia-se,
então, a fase pré-púbere e com ela o reinício de uma fase muito conturbada e difícil para
os educadores, pais e principalmente para as crianças, pois é um período em que estão
vivendo profunda transformação em seu físico, os pêlos começam a surgir, os seios
aparecem nas meninas; e quanto ao seu psicológico, ora se sentem como crianças, ora se
sentem como adolescentes.
Em sala de aula surgem as famosas brincadeiras sobre sexualidade, em que
meninos e meninas percebem bem rápido as mudanças que estão acontecendo neles e no
sexo oposto.
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Bilhetes e desenhos de conteúdo sexual, que circulam por debaixo das
carteiras escolares, de mão em mão até que sejam apreendidas pelos
professores. São feitos toscamente, às vezes até cômicos ou exageradamente
fantasiosos. (MIELNIK, 1975, p.74).
Os banheiros escolares retratam que essas crianças estão vivendo um período
tumultuado, pois neles encontram-se desenhos e palavras escritas tidas pelos adultos
como obscenos, mas que na realidade são uma das maneiras dessas crianças se
expressarem, sem, no entanto serem descobertas e repreendidas. Esse exemplo nos
mostra que a sexualidade está realmente se acentuando e ganhando um grande espaço
na vida das crianças-adolescentes.
Nesse contexto pais e professores deveriam trabalhar juntos, trocando
experiências, dialogando freqüentemente sobre a vida dessas crianças, para que juntos
cheguem a um ponto comum de como ajudá-las a passarem por essa etapa da vida com
menos dificuldade.
O professor partilha com os pais a educação sexual da criança. Os pais são
ativos no ambiente familiar, professor na escola. De encontros e conversas
com os pais, freqüentemente o professor poderá auxiliar o desenvolvimento
sadio sexual da criança. (MIELNIK, 1975, p.71).
Esta dificuldade que as crianças estão vivenciando, com certeza, a maioria dos
adultos também vivenciou, pois muitas vezes não tiveram da família, tampouco da
escola essa preocupação que estamos tendo agora em colaborar para que a vida dessas
crianças- adolescentes seja mais equilibrada do que foi a vida desses adultos no passado,
em que algumas vezes o autoritarismo dos pais, mitos, crenças e valores prevaleciam
em lugar da razão.
Dando ênfase aos educadores, estes terão que ir além de conhecimento, preparo,
informações atuais. Terão que, acima de tudo, saber administrar essas informações
diante das questões sexuais levantadas pelos alunos.
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Os pais, professores e responsáveis pela criança em idade escolar devem estar
esclarecidas a respeito de suas atividades sexuais nessa fase de seu
desenvolvimento psico-sexual. (MIELNIK, 1975, p.75).
O professor deve ser bem claro e objetivo, não ultrapassando o que o aluno
questionou para que assim não confunda e não desperte nele uma malícia que talvez não
tenha.
Assim de acordo com Conn, deveremos levar na devida consideração: a idade
infantil; os termos técnicos ou nebulosos; a socialização, isto é a companhia
de outras crianças que já possam ter fornecido outras explicações; e
finalmente o grau de sensibilidade ou malícia, próprios de cada criança.
(MIELNIK, 1975, p.157).
Embora o termo ―sexo‖ esteja presente cada vez mais precocemente no cotidiano
infanto-juvenil, percebe-se que ainda há resistência por parte dos responsáveis e
professores em aceitar essa sexualidade precoce, pois acreditam que ela irá despertar
somente na adolescência. Mas sabemos que essa sexualidade está tão presente em suas
vidas, que nos deparamos com fatos que não são os livros que nos dizem, mas estão
sendo vivenciadas em nossa sociedade, como por exemplo, um aumento significativo de
adolescentes grávidas. Então, pergunta-se: O que estas sabem sobre os métodos
contraceptivos e até mesmo o que é e como é sentir prazer numa relação sexual?
Provavelmente não sabem muito.
Como podemos colaborar para que haja uma mudança nesses dados?
Num primeiro momento, seria a família a responsável por esta educação,
contudo sabemos que muitas não possuem informações e não estão estruturadas para tal
tarefa. Sendo assim, os educadores possuem um papel de extrema importância na
colaboração da formação sexual dessas crianças-adolescentes, apoiando-as, trabalhando
a sexualidade em sala de aula da maneira mais natural e esclarecedora possível,
respondendo as suas dúvidas sempre que forem solicitadas. Muitas vezes se essas
dúvidas não forem sanadas irão à procura de outros meios de informações, meios estes
que muitas vezes deturpam a realidade: como a famosa jogada do garoto de ―gozar fora‖
durante a relação sexual, para que a garota não engravide; quando na realidade sabemos
TRANSVERSAL - Revista Anual do IEDA, v.4, n.4, 2006.
que esse risco existe e não deveria ser usado como método contraceptivo: ou até mesmo
―certas posições‖ que segundo eles, são consideradas seguras.
Não ocorre risco de gravidez se ela não se movimentar nem atingir o
orgasmo na relação sexual. (TIBA, 1986, p.104).
Ou até mesmo a garota ter engravidado sem ao menos ter tido uma relação
sexual de fato.
Os espermatozóides possuem a capacidade de nadar em meio líquidos e
deslocando para o interior da vagina. Existem casos de garotas virgens
grávidas porque os rapazes gozaram na ―portinha,‖ perto da entrada
da
vagina. (Fala garoto, fala garota, 1997, p.21).
Não devemos esquecer, também, das Doenças Sexualmente Transmissíveis
(DSTs) e principalmente da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS); pois a
cada ano aumenta o número de casos de pessoas contaminadas pelo vírus Human
Immunodeficiency Vírus (HIV- Vírus da Imunodeficiência Humana), o vírus com RNA
pertencente ao subgrupo dos lentivírus, da família do retrovírus, responsável pela AIDS.
A maioria dos professores específicos da área das ciências biológicas mostra
apenas como funciona o aparelho reprodutor masculino e feminino.
Assim as informações puramente orgânicas, adquiridas nas aulas de biologia,
por exemplo, dizem sempre respeito ao corpo de um sujeito teórico, objeto de
estudo das ciências; anônimo portanto: que não vive, não tem história, não
deseja, não fala, não sofre, nem vive a angústia de crescer. (MIELNIK,1975,
p.100).
A maioria dos livros didáticos não foca o que também é importante, como a
relação sexual em si, sobre o prazer feminino e masculino, etc.
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Quando a mulher fica muito excitada, ocorrem contrações rítmicas na entrada
da vagina, no homem são na base do pênis. Lembre-se que o importante para
que ambos atinjam o orgasmo é estar entregue à relação, curtindo todos os
momentos e carícias que ocorrem antes e depois da relação sexual.‖ (Fala
garoto, fala garota, 1997, p.21).
Essa postura deve ser mudada pelos educadores, pois não conseguiremos formar
cidadãos críticos e conscientes se continuarmos a omitir estas informações tão
importantes para suas vidas. Se não for na escola estas informações virão por outros
caminhos como revistas, pessoas mal informadas. Sendo assim, é melhor que a criança
aprenda na escola, de maneira correta. Todavia sabemos que além de preparo, o
educador precisa ter muito cuidado em transmitir essas informações para o aluno, pois
querendo ou não irá influenciá-lo, mesmo sem perceber passará seus valores e crenças.
Por esse motivo, deve estar relativamente bem nesse campo de sua vida, para assim não
influenciá-lo de modo negativo.
E toda essa influência também repercute na esfera sexual. A criança depende
do professor não só nos ensinamentos que este lhe transmite, como também
na formação de sua personalidade. Não podemos jamais permitir que
professores frustrados em suas vidas sexuais, desiludidos ou indiferentes,
consigam transmitir falsas impressões às crianças. (MIELNIK, 1975, p.71).
Não podemos esquecer também, que os alunos já trazem de casa idéias, valores e
crenças, tidas como corretas pela família. Em meio a esse contexto, o educador, na
realidade, não irá educá-los, pois a família já fez isso, corretamente ou não, desde o
nascimento da criança; não podemos, ainda, ignorar o fato de que algumas crianças vêm
de lares totalmente desestruturados que moram em vários ―lares‖ (casa da avó, do tio,
etc...). Sendo assim, o que poderá ser feito é orientá-lo, esclarecer as dúvidas, jamais
porém interferir na educação que lhe foi dada pela família.
Consideremos ―educação sexual‖ a educação dada pelos pais à criança, numa
idade em que a mesma absorve instintivamente atitudes gestos e idéias,
incorporando-as ao seu arsenal de padrões psíquicos. Essas atitudes, gestos,
vivências e idéias, preconceitos e superstições serão utilizados correta ou
incorretamente, na tentativa de ajustamento psicosexual emocional de
adolescente e mais tarde do adulto também. Denominamos de ―orientação
TRANSVERSAL - Revista Anual do IEDA, v.4, n.4, 2006.
sexual‖ os esclarecimentos, noções e orientações dados deliberadamente à
criança por outras pessoas, além de seus pais.‖ (MIELNIK, 1975, p.19 e 20).
Sendo assim, poderemos contribuir para a formação de um indivíduo consciente
capaz de decidir o que é ou não o melhor para si, pois o seu psicológico estará bem
estruturado e este não será dominado pelos meios como a televisão, as crendices
populares, etc.
Educação e orientação devem colaborar o alvo desejado no preparo sexual da
criança escolar e o de conseguirmos que o indivíduo obtenha um
desenvolvimento psicosexual normal, atingindo a maturidade com um bom
ajustamento sexual. (MIELNIK 1975, p.23).
Para auferir verdade à nossa concepção sobre o assunto, foi realizada uma
pesquisa de campo em que foram coletados dados em escolas com realidades
econômicas bem diferenciadas.
CONCLUSÃO
Por meio da pesquisa de campo que realizamos na instituição-escola do centro
da cidade e na instituição-escola de bairro, com professores e alunos da 4ª série do ciclo
I do Ensino Fundamental, pode-se constatar na primeira instituição que, apesar dos
professores terem uma vasta experiência no que se refere ao tempo de magistério, não
estão preparados de fato para trabalhar o tema sexualidade em sala de aula. No entanto,
ao responderem o questionário aplicado, alegaram estarem capacitados para tanto.
Enquanto que na segunda instituição, embora um professor tenha admitido que
não se considera capaz de trabalhar o tema em sala de aula, mostrou-se aberto a
sugestões. No entanto, ao responderem o questionário aplicado, alegaram estarem
capacitados para tanto. De uma maneira geral a sexualidade está sendo trabalhada na
instituição, porém os alunos ainda almejam algo mais, pois disseram que gostariam de
TRANSVERSAL - Revista Anual do IEDA, v.4, n.4, 2006.
uma orientação feita por pessoas especializadas no assunto; isto ocorreu nas duas
instituições com 88% dos alunos fazendo tal solicitação.
De maneira geral, o resultado das questões aplicadas para ambas as instituições
mostra uma certa semelhança nas respostas. Os professores e alunos da escola de bairro
pareceram mais certos do que respondiam, não houve contradições nas respostas
obtidas, ao contrário dos alunos e professores da escola do centro da cidade, em que os
alunos se contradiziam nas respostas quando, por exemplo, 64% das crianças disseram
que os pais não falam sobre sexo com eles, no entanto, em uma outra questão 61%
dessas crianças disseram tirar suas dúvidas sobre sexo com os pais. Quanto às
professores, um deles pareceu um tanto alheio ao comportamento dos alunos nesse
sentido, quando relatou em uma das questões que não percebe nenhuma mudança na
criança relacionada à sexualidade. Há contradição quanto à freqüência de abordagem do
tema em sala de aula, pois 50% deles disseram abordá-lo de vez em quando, e os outros
50% abordam sempre, e nenhum deles o faz cotidianamente.
Nota-se, ainda, a diferença de idade dos professores da primeira instituição, que
são educadores com longa experiência no magistério, mostrando-se muito tradicionais e
auto-suficientes, ao contrário os da segunda instituição, cujos educadores, embora
jovens, estão tentando fazer um bom trabalho com essas crianças a respeito da
sexualidade.
A partir da pesquisa de campo realizada nas duas instituições e as leituras
bibliográficas, constatou-se que a sexualidade está cada vez mais presente
precocemente na vida das crianças, mesmo que muitos educadores não queiram aceitar
esse fato e também que alguns estão preparados outros não. Mas o que é importante
realmente é que as crianças almejam saber sobre o assunto mais detalhadamente e, com
isso, os educadores, querendo ou não, terão que buscar um preparo maior para atender
essas crianças.
Verifica-se, então, a necessidade de uma atuação séria e comprometida sobre o
tema, em que especialistas na área da sexualidade humana possam desenvolver cursos
de capacitação para os professores das redes estaduais e municipais e, ao mesmo tempo,
também estejam atuando no sentido de uma orientação sexual comprometida voltada
para os alunos da faixa etária analisada.
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REFERÊNCIAS
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práticas. São Paulo: Summus, 1997.
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Sul: L&PM, 1996.
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MIELNIK, Isaac. A criança na escola: Higiene mental da criança escolar. São Paulo:
Edart, 1975.
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Paulo: Edart, 1975.
. Seu filho e os problemas do sexo. São Paulo: Edart, 1975.
PIAGET, Jean. Seis estudos de psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
Programa Nacional de Coordenação e Prevenção das Doenças Sexualmente
Transmissíveis, Fala garota, garoto! São Paulo: Café Stúdio, 1997.
TIBA, Içami. Adolescência: o despertar do sexo – Um guia para entender o
desenvolvimento sexual e afetivo das novas gerações. São Paulo: Gente, 1994.
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