A REPRESENTAÇÃO DE ATOS VIOLENTOS ESCOLARES SOBRE JOVENS E ADOLESCENTES NO DISCURSO JORNALÍSTICO EM DOURADOS ELIZABETE VELTER BORGES1 Mestranda em Educação – UFGD. MAGDA SARAT2 Profa. Dra. do PPGEdu - UFGD. RESUMO: A pesquisa em andamento pretende fazer um levantamento de dados estatísticos e analítico em dois jornais impressos do município de Dourados, a partir de reportagens que abordam acontecimentos ditos como negativos, envolvendo indivíduos de 12 a 22 anos ocorridos no âmbito escolar, familiar e social. O objetivo da pesquisa é verificar qual o discurso jornalístico discorrido sobre os indivíduos relacionado a temática, violência, agressão, indisciplina, maus tratos, na qual convivem, seja na escola ou na sociedade. A metodologia é do tipo pesquisa documental por meio de fontes e arquivos históricos, estabelecendo um diálogo entre teoria e o empirismo. De acordo com as características dos impressos, será utilizada uma metodologia do tipo qualitativa, contendo técnicas de dados estatísticos e analítico. A relevância desse trabalho se explica pela possibilidade de visibilidade que a mídia permite demonstrar sobre a juventude e a forma como as informações sobre esses indivíduos são veiculadas. Nas pesquisas preliminares, observa-se, que provavelmente, as informações repassadas à sociedade, se apresentam de forma tendenciosa, omitindo informações ou ainda, agravando o acontecimento, de acordo com a ideologia do jornal, agindo de maneira parcial, contra ou a favor. Palavras – chave: jornal – violência escolar – jovens e adolescentes. Contextualização sobre adolescentes e jovens na percepção elisiana Neste primeiro momento, apontamos um pouco da compreensão acerca das fontes que darão embasamento teórico a pesquisa. O Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA - Lei n. 8.069 de 1990, no art. 2º, considera a pessoa até 12 anos incompletos como criança e aquela entre 12 e 18 anos como adolescente. Por esta Lei, a definição de jovem é a partir dos 18 anos de idade. Como se propõe a pesquisar o discurso jornalístico entre indivíduos com faixa etária de 12 a 22 anos, os mesmos serão denominados de adolescente e/ou jovem. Uma vez que, a eles são transmitidos uma visão adultocêntrica, considerando não serem jovens e nem adultos, mas com responsabilidades como se o fossem. 1 Aluna do Programa de Pós Graduação do Mestrado em Educação, da linha de pesquisa “História da Educação, Memória e Sociedade” e também participa do Grupo de Estudos Processo Civilizador e a educação da UFGD – Dourados / MS - [email protected] 2 Profa. Doutora do Programa de Pós Graduação do Mestrado em Educação / UFGD e orientadora da pesquisa – Dourados / MS - [email protected] 1 Na adolescência, vivenciam tensões entre os ditames e proibições sociais, em que os impulsos espontâneos reprimidos se manifestam, pelo conflito advindo de um processo de individualização crescente, que passa a ser visto pelo olhar dos outros, considerados como um processo de civilização. Elias (1994) menciona que, nas vivências da juventude, questionam e promovem sua preparação para assumir o papel de adulto, tanto no profissional quanto no social e familiar, considerando que o indivíduo para chegar a um equilíbrio de autocontrole esperado pela sociedade, ou grupos de pessoas que convivem no meio social, é sem dúvida, tarefa complexa em alguns aspectos, ou singular e diferente em outros dependo do contexto da qual está inserido. No texto “O controle das emoções” de Gebara & Woutears (2009) argumenta-se que por um longo processo de fases pré-humanas, o procedimento evolutivo, referente a aprendizagem, conservou a tendência de crescimento da capacidade de aprender. Uma vez que, o ser humano foi o primeiro e, até onde se sabe o único tipo de ser vivo em que formas inatas de direcionamento de conduta se tornaram subordinadas às formas adquiridas. Por isso, é necessário citar, que os seres humanos, para se orientarem, dependem primeiramente do aprendizado de um fundo social de conhecimentos pré-existentes. Considerando que os seres humanos, não só podem, mas devem aprender de forma a se tornarem totalmente funcionais como humanos. E nessa perspectiva, podemos questionar se os jovens e/ou adolescentes de fato podem ser considerados como seres humanos funcionais, dotados de conhecimentos pré-fixados, prontos para desempenharem papéis ou funções na sociedade em que as configurações existentes no convívio das relações de poder social lhes exigem indiretamente? Os autores também destacam quanto a hipótese do tempo certo e maneira adequada para aprender, apontando reflexões em ter o desejo para desempenhar essa função, considerando que as sociedades humanas podem modificar-se sem que as características biológicas que as formam sejam alteradas. Pois, os seres humanos não somente podem, mas devem desenvolver-se para tornarem-se plenamente humanos, para que o aprendizado possa desempenhar um papel importante no componente sentimental das emoções. Podendo assim, relacionar essa reflexão com o desejo de aprender dos grupos de adolescentes constituídos no interior da escola, dentro das salas de aulas, ou mesmo na sociedade, nos bairros ou em ruas. Na obra “A Sociedade dos Indivíduos”, Elias argumenta: “devemos também considerar que, nas sociedades situadas nesse estágio, a adaptação dos jovens a suas funções adultas costumam acontecer de um modo que reforça particularmente essas tensões e cisões na personalidade”. (1994, p. 104). E é exatamente nessa fase da vida que os adolescentes estão vivenciando as tensões entre os ditames e proibições sociais, internalizados como autocontrole e é nesta fase que os impulsos espontâneos reprimidos se manifestam. Refere-se ao conflito advindo por meio de um processo de individualização crescente, que passa a ser visto pelo olhar dos outros, considerados como adultos, de um processo de civilização. Nesse contexto o autor ressalta que as atribuições impostas aos jovens como sendo pessoas adultas, são: Quanto mais complexa e abrangente é a continência, quanto mais intenso e multifacetado é, numa sociedade, o controle dos instintos exigidos pelo correto desempenho dos papéis e funções adultas, maior se torna a divergência entre o comportamento dos adultos e o das crianças. A remodelação do indivíduo durante o crescimento, o processo civilizador 2 individual em cujo decurso ele se desloca do ponto de partida do comportamento infantil, que é o mesmo em toda parte, para se aproximar mais ou menos do padrão de civilização atingido por sua sociedade, torna-se mais difícil e demorado. Prolonga-se o lapso de tempo necessário para preparar os jovens para os papéis e funções mais complexos dos adultos. (ELIAS, 1994, p. 104) Os adolescentes, como se pode verificar na citação acima, representados pela palavra “jovens”, provavelmente lhes é exigido do mesmo padrões de comportamentos pré-fixados e já determinados por um padrão social pré-estabelecido, que o conduza a ter o autocontrole de seus sentimentos, emoções, razões, vontades, desejos e superação em relação ao convívio com o outro nos diversos grupos sociais distintos. No artigo “O papel da família e da escola no processo contemporâneo de socialização primária: uma reflexão sociológica sobre representações e expectativas institucionais” Santos (2009), argumenta sobre as mudanças que a família vem sofrendo mediante o contexto social, econômico e político que tem desestruturado a família por si só, bem como, as próprias mudanças na sociedade que acabam influenciando nas relações de obrigações advindas da família que não são realizadas. Elias (1994, p. 120) retoma essa questão abordada anteriormente, argumentando que “Desde a infância, o indivíduo é treinado para desenvolver um grau bastante elevado de autocontrole e independência pessoal. [...] O autocontrole do indivíduo, por conseguinte, é dirigido para ele não sair da linha, ser como todos os demais, conformarse.” O autor também cita que para o indivíduo conseguir chegar a um equilíbrio esperado pela sociedade, ou seja, grupos de pessoas que convivem no meio social é sem dúvida, tarefa complexa para conseguir aproximar-se ao equilíbrio exato entre ser como os demais, em alguns aspectos, ou ser singular e diferente deles em outros. Considerando que, o primeiro grupo social onde o indivíduo desde criança está inserido a participar e conviver, é a família, sendo os demos grupos constituídos pelo convívio social da Igreja, Escola, amigos, dentre outros. E “de um modo ou de outro, a tentativa de atingir esse equilíbrio traz consigo tensões características” (ELIAS, 1994, p. 121) que podem ser representadas por tensões com características próprias dos adolescentes ou mesmo do grupo de adolescentes nesse período da fase humana. Assim, os adolescentes chegam à escola com dificuldades ou com tensões que nem sempre se referem ao processo de ensino e aprendizagem, mas sim, com problemas sociais, afetivos ou até mesmo familiares e o professor, além do dever que possui relacionado às práticas pedagógicas mediante o processo de ensino dos conteúdos, precisa antes de tudo, ensinar maneiras de civilizações e autocontrole que são funções para ser exercido principalmente pelas famílias, e com isso, o profissional acaba não tendo condições em abarcar esta especificidade de adolescentes que estão atualmente nas escolas, em salas de aulas, cursando o Ensino Médio, por exemplo. Sobre a questão da socialização entre família e escola, Santos (2009, p. 156) afirma que se: [...] busca refletir sobre esse contexto de mudanças e discutir a hipótese de que um dos principais aspectos da confusão de papéis sociais entre escola e família está no descompasso entre modelos institucionais idealizados e vivenciados nas representações e perspectivas dos sujeitos envolvidos. Nessa perspectiva, Norbert Elias (1994, p. 104) menciona: à medida que as profissões do adulto se tornam mais e mais especializadas e complexas, os jovens de setores cada vez mais amplos da população passam 3 por uma preparação indireta em institutos especiais deste ou daquele tipo, em vez da preparação direta que antes prevalecia. Pois as configurações sociais foram mudando com o tempo, bem como, as funções de cada papel dos indivíduos na sociedade foram se alterando, uma vez que, a família devido as necessidades do trabalho, geralmente não tem condições de acompanhar a educação dos filhos desde o nascimento até a idade escolar para o Ensino Fundamental, e acaba delegando funções à escola de padrões determinados de comportamentos e autocontrole das situações vivenciadas conforme modelos sociais fixados, que até então, cabiam somente aos pais. Argumentando assim, a desfuncionalização das famílias, descrito no texto “A civilização dos pais” escrito por Norbert Elias, sendo o título, temática do próprio texto, uma vez que, a criança basicamente é civilizada pelos pais porque não possui auto controle, porém, o aumento do poder da criança está direcionado com as condutas sociais , proporcionando ao leitor uma reflexão de como compreender a relação entre pais e filhos em diferentes contextos, considerando que a relação de pais e filhos não é a igual com a relação de aluno e professor, pois na primeira relação há uma dominação entre pessoas que mandam e outras que obedecem, porém, com as diversas transformações na sociedade, não são estáveis, essas relações também mudando de configurações onde os adolescentes quando não querem ou não aceitam cumprir regras ou normas e condutas previamente estabelecidas por um grupo superior, acabam manifestando suas opiniões através de rebeldias ou atitudes contrárias ao préestabelecidos. O autor também argumenta que na vida social desse grupo etário, ou seja, os adolescentes “é comum desenvolverem-se aptidões e interesses aos quais as funções adultas, dentro dessa estrutura, não dão margem alguma; são formas de comportamento e inclinações que os adultos têm que cercear ou reprimir” (ELIAS, 1994, p. 105). Pois com o aumento das configurações sociais, a trajetória do indivíduo para se tornar uma pessoa autoconfiante com autonomia e equilíbrio, é um processo longo e complicado. Nesse contexto, Kaplan (2006, p. 16) argumenta que: Igualmente, los adolescentes y jóvenes hoy se ven limitados objetivamente en la fabricación de uma representación simbólica sobre su futuro. La falta de proyección a futuro atraviesa a todos los alunos, aunque diferencialmente, según sea el origen social de pertinência. En la socialización primaria los ninõs van aprendiendo y naturalizando ciertos modos de ver e imaginar el mundo en relación con sus condicionamientos materiales y simbólicos de vida. Assim, Elias explica também que nesse processo aumentam as exigências feitas ao autocontrole pelas várias configurações sociais, sejam elas familiares, escolares ou outras. Outros fatores que impedem a assimilação dos jovens na sociedade adulta são o alongamento e a forma especial assumida pelo período que transcorre entre a infância e a idade adulta social. Isso também aumenta a probabilidade de a pessoa em questão não conseguir atingir um equilíbrio adequado entre as inclinações pessoais, o autocontrole e os deveres sociais. (ELIAS, 1994, p. 105). As alterações ou inclinações pessoais do indivíduo mencionadas acima, podem ser justificadas pelos comportamentos produzidos pelos grupos de adolescentes no 4 âmbito escolar, ou seja, nas próprias salas de aulas, pois em muitos casos, são considerados como indivíduos que produzem comportamentos que não estão alinhados ao que se espera socialmente, sendo que, depende da percepção que são vistos, compreendidos ou analisados dentro de uma conduta social distinta. Segundo Norbert Elias (1994, p. 104-105): Trata-se de rapazes e moças, adolescentes, jovens inexperientes ou seja lá que nome recebam – não mais crianças, mas ainda não homens e mulheres. Eles levam uma vida social distinta, tendo uma “cultura jovem” – um mundo próprio, que diverge marcantemente do dos adultos. E, embora o prolongamento e o caráter indireto de sua preparação, causados pela constante expansão do conhecimento, possam facilitar sua assimilação na vida social adulta, frequentemente a tornam mais difícil em termos emocionais. Assim, com base nas divergências e autocontrole dos termos emocionais relacionados aos adolescentes, Gebara & Woutears (2009, p. 45) explica quanto a reorientação na forma pela qual se aborda o problema das emoções humanas, relacionado também a representação do controle das ações mediante um processo socializador que nos impõe estruturas específicas na maneira de se manifestar perante a sociedade. No caso dos seres humanos, os impulsos emocionais inatos estão sempre relacionados com a capacidade pessoal adquirida de auto regulação, mais especificamente com um controle das emoções apreendidas, resultando em equilíbrios que vão sendo adquiridos ao longo do grau de desenvolvimento do ser humano, isto é, do próprio indivíduo ou o adolescente. Para contribuir com esse estudo, busca-se respaldo teórico em Marc Bloch, visando refletir sobre o contexto da linha de pesquisa “História da educação, memória e sociedade”, pois o autor no livro “O ofício do historiador”, menciona que o foco é dar visibilidade da história para todos de uma forma geral, partindo da interrogação “Para que serve a história?”; e justamente na reflexão dessa resposta, percebe-se a necessidade de relatar e argumentar sobre o ofício do historiador e suas finalidades e funções. Segundo o provérbio árabe citado por Bloch (2001, p. 7) “os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais” e sendo assim, a história não refere-se a ciência do passado, mas destaca a importância do presente para a compreensão do passado. Com relação a isso, é necessário apontar questões históricas sejam do âmbito social ou mesmo escolar, para obter uma melhor percepção de como os grupos de adolescentes são constituídos e formados atualmente no interior da sala de aula visando as afinidades, perspectivas, interesses e poderes subjetivos entre eles. Quanto a composição ou concepção de grupos, Norbert Elias (2000, p. 37) cita no livro “Os Estabelecidos e os Outsiders” que: os grupos ligados entre si sob a forma de uma configuração de estabelecidos – outsiders são compostos de seres humanos individuais. O problema é saber como e por que os indivíduos percebem uns aos outros como pertencentes a um mesmo grupo e se incluem mutuamente dentro das fronteiras grupais que estabelecem ao dizer “nós”, enquanto, ao mesmo tempo, excluem outros seres humanos a quem percebem como pertencentes a outro grupo e a quem se referem coletivamente como “eles”. Os grupos mencionados acima podem ser visualizados na própria escola, pois desde o início do ano letivo, uns se inclinam com os outros numa esfera de socialização, 5 de interdependência sejam por afinidades, vínculos afetivos ou mesmo por parentescos ou relações de poder previamente fixadas entre os seres humanos que vivem em uma mesma sociedade. Na p. 143 do mesmo livro, o autor aponta que: como muitos outros adolescentes das sociedades em que há um período prolongado de escolarização e adolescência, sua autoestima era sumamente vulnerável e instável. Tal como os outros, eles se sentiam inseguros de seu valor, sua função e seu papel na sociedade. Considerando que os adolescentes por estarem vivenciando um período de transição em suas vidas, sentem-se inseguros e com dificuldades para estabelecerem vínculos individuais sólidos, bem como, incertezas do que os outros pensam referente a eles e o pensar sobre si mesmos. Nesse contexto, como afirma Elias (1994, p.152) “talvez seja útil acrescentar que o conceito de identidade humana está relacionado com um processo.” O contexto histórico relatado por meio dos documentos, monumentos, relatos e experiências de pessoas que vivenciaram anos anteriores sobre determinado assunto, contribuem para constituir o campo da História da Educação, como memória de uma sociedade com características do tempo presente, precisando ser contextualizada, analisada em suas diversas percepções de grupos, sejam professores, crianças ou adolescentes. Assim, Jacques Le Goff menciona que o historiador não pode ser um sedentário, um burocrata da história, deve ser sim, um andarilho fiel a seu dever de exploração e de aventura pelas vastas histórias do mundo. Outro texto referente a “Documento / monumento” que é um dos capítulos da obra “História e memória”, Le Goff, relata sobre os materiais da memória coletiva e da história, quanto ao triunfo do documento à revolução documental e a crítica dos documentos direcionados aos fatores: documentos/monumentos. Neste texto, também é possível verificar que o autor teve a preocupação de fazer um relato histórico de documento, considerado como escolha do historiador e monumento, herança do passado, ambos caracterizados materiais da memória. Na primeira e segunda parte do texto, abordam assuntos referentes aos contextos históricos e significância dos termos latinos das palavras documentos e monumentos no decorrer dos séculos. E para tanto, a herança do passado sempre é renovada com novas concepções de sociedade, e estas se constituem com novas configurações da evolução do homem. Jacques Le Goff destaca que o monumento tem características de direcionar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas como uma memória coletiva da própria sociedade, considerando estar em constante transformação, visto que, as percepções de família, convívio social, escola, culturas, dentre outras questões vão mudando, alterando, evoluindo se transformando. O que vivenciava ontem, não é a mesma coisa do tempo presente e com certeza no amanhã também será diferente, pois o próprio conhecimento, a ciência, a globalização e as evoluções estão em um processo constante de mudança, enquanto que os documentos são fatos históricos registrados como notícia histórica em forma de texto. Segundo Le Goff, com o período medieval, pode-se acrescentar a função do historiador, este por sua vez, precisa repensar a noção de documento, considerando que o mesmo não é inofensivo, mas sim [...] “uma montagem, consciente ou inconsciente da história, da época, da sociedade que o produziram [...]” (1990, p. 547). Desta forma, o que poderá fazer a diferença entre documento e monumento referem-se a seleção crítica em que o historiador deverá operar, seguindo os vestígios e detrimento, de modo quantitativo e em série, verificando as condições de produção, uma 6 vez que, todo documento é ao mesmo tempo verdadeiro e falso, conforme os modos de produção e distribuição, pois segundo o autor o documento também é um instrumento de poder de uma determinada época da sociedade. A autora Loiva Otero Felix, no livro “História e Memória: a problemática da pesquisa” argumenta sobre a importância do contexto histórico da palavra história e memória denominado ensaio, como resultado das experiências vividas e compartilhadas com alunos em sala de aula nas pesquisas orientadas na linha de História. O objetivo da autora é oferecer subsídios para uma reflexão que possa direcionar a percepção dos possíveis nexos, direcionados a ideias e conceitos na escolha de objetos, na identificação, análise e interpretação dos fatos e seus contextos conjunturais e/ou estruturais, propondo assim, um diálogo com o leitor tanto para a crítica como também a compreensão do fazer-história visando trocas de conhecimento. A autora visou proporcionar subsídios para uma reflexão acerca dos fatos e interpretações em seus contextos conjunturais e/ou estruturais, questionando-se sobre o que é pesquisar e por que pesquisar. Esses questionamentos são fundamentais para o objeto da pesquisa, ou seja, sobre o que e para que, estamos direcionando o estudo sobre os discursos jornalísticos relacionados ao contexto da violência escolar no município de Dourados em dois jornais impressos dos últimos dez anos. Na perspectiva do contexto da temática proposta, convém questionar o conceito teórico da palavra adolescência ou a qual período da fase humana se refere. Silvia Di Segni Obiols argumenta, que: El estudio de las culturas originarias, tal como fuera desarrollado entre otros autores, la adolescencia era un momento representado por un ritual de passo de una etapa de la vida a otra en la cual se acede a la sexualidad activa, se adquieren responsabilidades y poder dentro de la tribu. En los casos en los que hay un ritual, la adolescencia casi no existe, es sólo un momento de passaje y las etapas importantes son la puberdade, que marca el fin de la infância, y la etapa adulta posterior. (2008, p. 80) Assim, a adolescência é um período da vida do ser humano, que pode ser denominado como uma passagem da infância para a vida adulta, estando em constantes transformações, inovações, inquietudes, inseguranças, medos, desejos, anseios, porque está vivenciando fases diferentes em sua vida, bem como, se descobrindo fisicamente, biologicamente, socialmente e psicologicamente. Elias afirma que “os aspectos biológicos, psicológicos e sociológicos desse desenvolvimento são objeto de disciplinas diferentes, que trabalham independentemente”. (1994, p. 153). Nesse sentido, o autor também argumenta no livro O Processo Civilizador: formação do Estado e Civilização – Volume II, que: O impacto da opinião interna do grupo em cada um de seus membros tem a função e o caráter de consciência da própria pessoa na medida em que a autoimagem e a autoestima de um indivíduo estão ligadas ao que os outros membros do grupo pensam dele. Apesar de variável e elástica, a ligação entre a auto regulação de sua conduta e seus sentimentos com a opinião normativa interna deste ou daquele. (2000, p. 21) E é nessas vivências próprias da juventude, que o mesmo está inserido em processos que questionam e promovem sua preparação para assumir o papel de adulto, tanto no profissional quanto no social e no familiar. No entanto, considerando leituras preliminares, pode-se perceber que aos jovens e adolescentes são atribuídas percepções 7 adultocêntricas na qual se espera dele uma responsabilidade maior do que está preparado para assumir e, de forma recorrente, vivem os conflitos inerentes a sua faixa etária, não sendo tratados como adolescentes, jovens ou adultos, ficando provavelmente com uma identidade oculta. A metodologia se enquadra em pesquisa documental por meio de fontes e arquivos históricos, estabelecendo um diálogo permanente entre teoria e o empirismo. De acordo com as características do objeto de estudo, utilizando a metodologia do tipo qualitativa, contendo técnicas de dados estatísticos e analítico. De acordo com Rodrigues (2010, p. 311): o uso de jornais e revista como fonte de pesquisa historiográfica teve seu prestígio validado há mais tempo na preferência dos pesquisadores da História. No caso da História da Educação muitos têm se dedicado ao estudo dos impressos que circulam na comunidade [...]. Nesse contexto, Capelato (1988) apud Rodrigues (2010) problematiza a relação entre a História e a impressa, registrando a importância do uso do Jornal como fonte para a historiografia. Considerando que o estudo de caso, pode ser uma técnica de pesquisa singular, mas que tenha um valor em si mesmo, podendo partir de um caso bem delimitado, constituído de uma unidade dentro de um sistema maior, que conforme relata Ludke e Andre (1986), buscam retratar a realidade de forma completa e profunda, usando variedade de fontes e informação por meio da utilização de uma linguagem em uma forma mais acessível do que as outras pesquisas. Optou-se pela escolha da pesquisa de Estudo de Caso Comparativo, considerando a singularidade da temática, que se refere a análise do discurso jornalístico referente a percepção de violência com jovens e adolescentes de 12 a 22 anos no município de Dourados. Segundo Ludke e André (1986, p. 21), o desenvolvimento de um estudo de caso caracteriza-se “em três fases, sendo uma primeira aberta ou exploratória, a segunda mais sistemática em termos de coleta de dados e a terceira consistindo na análise e intepretação sistemática dos dados e na elaboração do relatório”. Assim, a fase exploratória do estudo de caso, começa com um plano sem estruturação, que vai se delineando claramente à medida que o estudo se desenvolve; e a pesquisa, segue mais ou menos o mesmo padrão para que os processos sejam descritos integralmente, oferecendo elementos para uma melhor compreensão do discurso jornalístico nos dois periódicos com relação a representação de atos violentos em ambiente escolar, envolvendo jovens e adolescentes. A delimitação do estudo consiste de uma forma mais sistemática por meio da coleta de dados, considerando os elementos chave e os contornos aproximados do problema, buscando assim, informações, através de instrumentos estruturados que se referem ao planejamento da pesquisa. Baseando-se na perspectiva de que o estudo de caso possui um potencial significativo na área educacional, é que se argumenta sobre a importância para com esse tipo de pesquisa, isso porque Ludke e Andre (1986, p. 17) mencionam que “o interesse, incide naquilo que tem de único, de particular, mesmo que posteriormente venham a ficarem evidentes certas semelhanças com outros casos. Quando queremos estudar algo singular, que tenha um valor em si mesmo devemos escolher o estudo de caso”. O pesquisador também precisa ter a atenção para a seleção de aspectos relevantes durante as pesquisas realizadas nos jornais selecionados, considerando que as 8 reflexões sobre o tamanho, formato, capa, tipo de letra e localização das notícias expostas nos periódicos impressos, serão de fundamental importância, visando obter os propósitos do estudo proposto com relação aos objetivos da pesquisa e também para obter uma compreensão aprofundada sobre o assunto. Na primeira etapa, será realizada pesquisa documental, por meio de um arquivo tematizado organizado pela pesquisadora, a partir das notícias relevantes ao objeto da pesquisa, publicadas em dois jornais locais: O Progresso e Diário MS em função das manchetes e conteúdos publicados. O recorte temporal da pesquisa será delineado conforme os dados que estarão sendo coletados e também devido a necessidade do estudo em questão. As temáticas centrais utilizadas como categorias para a pesquisa serão: violência escolar, violência juvenil, agressão com ou entre jovens, violência juvenil e escola, violência, mau trato escolar, dentre outras. A segunda etapa refere-se ao processamento das informações levantadas por meio de análise dos documentos pesquisados, que serão os conteúdos das reportagens com as perspectivas teóricas de Norbert Elias, dentre outros autores, a fim de estudar e quantificar os materiais selecionados da comunicação humana. Nesse contexto, o trabalho do historiador da educação que escolhe como fonte de pesquisa, o jornal como periódico impresso, que são produzidos tanto na versão impressa como Online no município de Dourados, apresenta a possibilidade de formular perguntas que direcionem outros caminhos para o que em pesquisa pode-se denominar de problematização, em que o procedimento historiográfico, pode ser significativo aos diálogos necessários de uma escrita da história da educação e cultura escolar que pretende contribuir aos debates pertinentes a esse campo da pesquisa, bem como, a percepção de que se tem acerca dos discursos jornalísticos ideológicos relacionados à violência escolar dos jovens / adolescentes. REFERÊNCIAS: AMADO, J. & FERREIRA, M. (Orgs.) Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996. BARBETTA, P. A. Estatística aplicada às ciências sociais. 7 ed. Florianópolis: UFSC, 2011. BLOCH, Marc. Apologia da história ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. BRASIL, MEC. Lei n. 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente). Brasília: MEC, 1990. BRASIL, MEC. PARECER CNE/CEB Nº: 5/2011. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Aprovado em 04/05/2011. Brasília: MEC, 2011 ELIAS, N. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. 9 ELIAS, N. O processo civilizador: uma história dos costumes. Volume I. Trad. Da versão inglesa Ruy Jungmann. Revisão: Renato Janine Ribeiro. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. ELIAS, N. O processo civilizador: formação do Estado e Civilização. Volume II. Trad. Da versão inglesa Ruy Jungmann. Revisão: Renato Janine Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1993. ELIAS, N. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. ELIAS, N. & SCOTSON, J. L. Os estabelecidos e os Outsiders: Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. ELIAS, N. Envolvimento e alienação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. ELIAS, N. Sobre os seres humanos e suas emoções: um ensaio sob a perspectiva da sociologia dos processos. IN: GEBARA, A.; WOUTERS, C. (Orgs.). O controle das emoções. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2009. p. 19-46. FARIA FILHO, L. M. de (et. All.) A cultura escolar como categoria de análise e como campo de investigação na história da educação brasileira. Revista Educação e Pesquisa. São Paulo, v. 30, n. 1, p. 139-159, jn./abr. de 2004. FELIX, L. O. História e memória: a problemática da pesquisa. Passo Fundo: Ediupf, 1998. 104 p. FREITAS, M. C. de. Educação Brasileira: dilemas republicanos nas entrelinhas de seus manifestos. IN: Maria Stephanou; Maria Helena Camara Bastos (Orgs.). Histórias e memórias da educação no Brasil. Vol. III: Século XX. Petrópolis: Vozes, 2005. GEBARA, A. Conversas sobre Norbert Elias: depoimentos para uma história do pensamento sociológico. Piracicaba: Biscalchin Editor, 2005. GOETTERT, J. D.; SARAT, M. (Orgs.) Tempos e espaços civilizadores: diálogos com Norbert Elias. Dourados: Editora da UFGD, 2009. HILSDORF, M. L. S. A Escola Brasileira no Império. São Paulo: Thomson Learning, 2002. KAPLAN, C. V. (Dir.) Violência escolar bajo sospecha. Buenos Aires: Miño Dávila. 2006. KAPLAN, C. V.; ORCE, V. (Coords.) Poder, prácticas sociales y proceso civilizador: los usos de Norbert Elias. Buenos Aires: Centro de Publicaciones Educativas y Material Didáctico, 2009. LE GOFF, J. 1924. Documento / Monumento. IN: LE GOFF, J. História e memória. Tradução Bernardo Leitão. [et al.] – Campinas: UNICAMP, 1990. (Coleção Repertórios). p. 462-476. 10 LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986. OBIOLS, G. & OBIOLS, S. D. S. Adolescencia, posmodernidad y escuela. Buenos Aires: Centro de Publicaciones Educativas y Material Didáctico, 2008. RICHARDSON, R. J. e Col. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3 ed. São Paulo: Atlas, 2009. RODRIGUES, Elaine. A imprensa pedagógica como fonte, tema e objeto para a História da Educação. IN: COSTA, C. J.; et. al. Fontes e métodos em História da Educação. Dourados, MS: Ed. UFGD, 2010. p. 311-326. SANTOS, R.. O papel da família e da escola no processo contemporâneo de socialização primária: uma reflexão sociológica sobre representações e expectativas institucionais. IN: GOETTERT, J. D.; SARAT, M. (Orgs.) Tempos e espaços civilizadores: diálogos com Norbert Elias. Dourados: Ed. UFGD, 2009. p. 155-176. STEPHANOU, M. & BASTOS, M. H. C. Histórias e Memórias da Educação no Brasil. (Vol. I, II e III). Petrópolis: Vozes, 2005. VEIGA, G. C. & F., T. N. História e Historiografia da Educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. 11