FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS 6, 7, 8 de dezembro de 2012 VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS O VI Encontro Internacional de Letras, que acontecerá de 06 a 08 de dezembro de 2012, no campus da UNIOESTE de Foz do Iguaçu, terá como tema A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS. É um evento organizado por uma equipe de professores do colegiado do curso de Letras e acadêmicos do 3º ano, e espera-se um público de aproximadamente 400 participantes, entre acadêmicos e professores, profissionais da área da educação, pesquisadores da área de linguagem da região de Tríplice Fronteira, além de pesquisadores de outras regiões do Brasil. Eixos Temáticos 1) 2) 3) 4) 5) Ensino - Aprendizagem de Língua Estrangeira Tecnologia e Ensino de Língua Estrangeira Ensino – Aprendizagem de Língua Portuguesa Gêneros do Discurso e Ensino Políticas Linguísticas e Formação de Professores em contexto de fronteira 6) Estudos Literários 7) Plurilinguismo/Pluriculturalismo e Interculturalidade 1 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Comissões Comissão organizadora: Ana Maria Kaust Flávio Pereira Ildo Carbonera Secretaria do evento: Andressa Pâmela Schimdt Oliveira Josiane Nava Raíza Brustolin de Oliveira Comissão de Abertura: Diego Damasceno Laura Sanchez Pereira Battistella Liz Basso Antunes de Oliveria Comissão da Coordenação Científica: Flávio Pereira Martha Ribeiro Parahyba José Luiz da Silva Acosta Laura Sanchez Pereira Battistella Comissão de Infraestrutura e Apoio logístico: Ildo Carbonera Ana Maria Kaust Andrieli Lopes Francisco Denize Juliana Reis Cardoso 2 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Herica Valerio Terra Jessica Lopes Boita Comissão de Ensalamento e Monitoria: Nataly Yolanda Capelari dos Santos Olga Viviana Flores Aline Diuliana Ribeiro Resende Andressa Pâmela Schmidt Oliveira Andrieli Lopes Francisco Carlos Xavier Aguero Verdun Clarice de Souza Lima dos Santos Eder Luiz Basquiroto Gerusa Graeff Hoteit Herica Valerio Terra Igor Perrud da Silva Jeane de Souza Castro Jessica Lopes Boita Josiane Nava Josiane Peres dos Santos Marcelo Loof Talasca Mariane Dutra Magnabosco Mayara Zanatta Meyre dos Santos Andrade Raíza Brustolin de Oliveira Thiago Benitez de Melo 3 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Adriana Akemi Tateishi Graziele Burmann Comissão Cultural: Ildo Carbonera Centro Acadêmico de Letras da Unioeste - Campus Foz do Iguaçu – CALU Jean Carlos Rodrigues da Silva Jéssica Ribeiro Franco Liz Basso Antunes de Oliveria Luiza Victória Repanas Comissão de Patrimônio e Recursos: Josiane Nava Raíza Brustolin de Oliveira Mariangela Garcia Lunardelli Comissão de Logística em Informática: Diego Damasceno Eliane Dávilla Savio Comissão de Organização dos Intervalos: Andressa Pâmela Schmidt Oliveira Herica Valerio Terra Mayara Zanatta Mariane Dutra Magnabosco Raíza Brustolin de Oliveira Comissão de Divulgação: Ildo Carbonera 4 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Centro Acadêmico de Letras da Unioeste - Campus Foz do Iguaçu – CALU Andressa Pâmela Schmidt Oliveira Caroline Arenhart de Bastiani Kayanna Pinter Mayara Zanatta Raíza Brustolin de Oliveira Adriana Akemi Tateishi Graziele Burmann 5 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS EIXO TEMÁTICO: ESTUDOS LITERÁRIOS: ARTIGOS 1) A Escolha Humana de Renato Serra 2) A ilusão da morte como libertação em a redoma de vidro, de sylvia plath 3) A Mensagem Revelada no Brasão Português: Os Símbolos Lusitanos Metafóricos De Fernando Pessoa 4) A Religiosidade na Ficção Literária Um Estudo de Avante Soldados para Trás 5) Comparando o Pós-Modernismo: A Respiração Artificial de Quem não se Sente em Liberdade 6) Crítica Política e Falsa Democracia em Ensaio Sobre a Lucidez 7) Dito de Outro Modo: Variações em Torno do Vampiro Ruthven, 1819 – 1820 (Identidades Nacionais & Gênero Literário) 8) Em Liberdade: Graciliano Ramos no Jogo Pós-Moderno 9) Entre a Pomposidade e a Veracidade: Realismo e Romantismo na Obra The Adventures of Huckleberry Finn de Mark Twain 10) Ficção Histórica: A Poética do Descobrimento em El Conquistador (2006) e Crónica Del Descubrimiento (1980) 11) Identidade – Universo Plural 12) Intertextualidade no Cinema e a Poesia de Sylvia Plath 13) Memória e Autoritarismo em “La Excavación” 14) O Conto e Suas Histórias 15) Os Labirintos de Dispersão, de Mário de Sá-Carneiro 16) Resignação e Submissão: As Relações Socio-Culturais em Coetzee 17) Tição Aceso, O Sujeito Pós-Colonial em Jorge Amado 18) A Mulher Brasileira e se Perfil Delineado pela História: Desde Pero Vaz de Caminha ao Brasil Colonial Descrito em Casa-Grande & Senzala 19) A Representação das Personagens Femininas nos Contos Fantásticos Rubianos: Aglaia, Bárbara e Epidólia 20) Imaginário Poético: A Inquietação do Eu na Obra “Balada do Anjo” de Lília A. Pereira da Silva 21) Os Caminhos e Descaminhos da Mulher Intelectual dos Anos 30: Uma Leitura de O Quinze e São Bernardo 22) Ponciá Vicêncio: Um Silêncio que se Rompe, Uma voz que se Ergue 23) Representação e Autoria na Obra de Marcelino Freire: Relações Possíveis entre Literatura de Gênero 24) As Várias Facetas do Mito de Prometeu: A Representação da Insatisfação Humana 25) A Voz do Marginalizado na Obra de J. M. Coetzee, Vida e Época de Michael K. 6 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A ESCOLHA HUMANA DE RENATO SERRA ZAMBONI, F. J. F.1 RESUMO: O crítico Renato Serra emergiu na cena literária italiana num momento crucial da cultura europeia, no início do século XX, tomado pela efervescência vanguardista e pela gestação, no campo político, de acontecimentos como a Segunda Guerra Mundial e a Revolução Russa. A crítica literária italiana oscilava entre a influência declinante do poeta Giosuè Carducci e a ascensão do filósofo e crítico Benedetto Croce. Serra, ainda que se beneficiasse da maior solidez conceitual deste último, elegeu o modelo pessoal e literário de Carducci como um antídoto contra a tendência ao esquematismo e à impessoalidade que viria a dominar cada vez mais a crítica desde então, culminando, mais tarde, na análise “científica” das obras literárias. Ao longo do século XX, não raro os intelectuais se perderam no cumprimento de suas rotinas profissionais, descuidando do cultivo do estilo literário. Desenvolveram uma linguagem especializada e padronizada, compreendida (mas nem sempre lida) apenas no seu círculo imediato, desprovida de interesse para o leitor comum. Se é verdade que o estilo é o homem, a promoção de um tipo de intelectual padronizado conduz as humanidades (e a humanidade) a uma condição sub-humana. É urgente, pois, a revalorização de escritores como Renato Serra, que, além de participar de dos debates culturais mais significativos da contemporaneidade, não se apartaram do cuidadoso cultivo do estilo literário e, consequentemente, da própria condição humana. PALAVRAS-CHAVE: crítica literária, literatura italiana, estilo. O crítico Renato Serra emergiu na cena literária italiana num momento crucial da cultura europeia, no início do século XX, tomado pela efervescência vanguardista e pela gestação, no campo político, de acontecimentos como a Segunda Guerra Mundial e a Revolução Russa. Na Itália, o filósofo e crítico literário Benedetto Croce (1866-1952) surgia como um renovador da crítica e da ensaística literária, com a publicação da sua obra Estética come scienza dell’espressione e linguistica generale (1902), e o poeta Giosuè Carducci (1835-1907) declinava cada vez mais da preferência dos jovens. Carducci havia sido colocado à margem pelo próprio Croce, que lhe imputava a falta de uma "sólida doutrina estética, de uma coerente filosofia da arte”. 1 Doutor em Letras, na área de Literatura e Vida Social. Docente de Língua e Literatura Italiana na Unioeste, Campus de Cascavel. Endereço eletrônico: [email protected] 7 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Mas a figura de Carducci, que, nos anos precedentes, fora algo como um poeta nacional ou um “escritor oficial”, ainda suscitava um bom número de seguidores. Dentre estes últimos estavam autores como Alfredo Panzini (1863-1939) e Renato Serra (18841915). Foi a “conjunção de crítica técnica e de crítica autobiográfica, de sentido da forma e de humanitas” que levou o “primeiro e mais genial dos críticos novos, Renato Serra, na direção do velho Carducci" (BERARDINELLI, 2002, p. 84). Ele, a exemplo do mestre, preferia uma experiência mais pessoal, feita de estudo minucioso e de longa e solitária degustação poética, evitando a dialética de conceitos e fórmulas gerais que predominava nas páginas dos críticos da época. Assim, sua crítica era, ao mesmo tempo, mais pessoal e irregular, mas continha um elemento capaz de faze-la sobreviver ao tempo: a qualidade estética. No ensaio Per un catalogo, Serra (num momento em que Croce é o grande “pai” da crítica italiana) escolhe Carducci como interlocutor, inspirador e “nume protetor”, numa relação que não se podia fundar apenas na razão, mas numa comunhão mais profunda, além (ou aquém) da esfera puramente racional. Carducci é um exemplo moral, alguém cuja atitude diante da vida e da literatura deve ser seguida: "eu me sinto próximo a ele em tudo o que mais me importa, ao ler um livro e ao tolerar a vida". (SERRA, 1990, p. 95). Serra define a devoção apaixonada de Carducci à literatura como “religiosa”, e é neste sentido que ele sente uma comunhão profunda com o poeta, ainda que a sua religião esteja impregnada de heresias como o nacionalismo, o italianismo e o latinismo, estranhas à geração de Serra: Na sua conversação há certos limites, até ciladas, das quais convém precaver-se. Cave leonem! A cada passo descobrem-se templos, estátuas e fronteiras sagradas; um pouco além estão as terras malditas. Mas o seu juízo, mesmo na ira, me investia como um raio de luz, e definia o seu caráter com poucos traços esculturais [...] em 8 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Carducci eu sinto diversa talvez da verdade a forma e os episódios do juízo, mas idêntica e santa a intenção; os seus erros mesmos são gloriosos [...] Todas as coisas que ele afirma verdadeiras são verdadeiras também para mim: se não na letra, certamente no espírito [...] Algo de grande sopra à minha volta, e eu me sinto pleno do nume. O diálogo tornou-se oração. [...] Que me reste o homem da minha raça e da minha religião, a testemunha e o companheiro, com quem será doce viver e morrer (SERRA, 1990, p. 92-95). Mas não é apenas por uma comunhão "religiosa" que Serra se aproxima de Carducci. Ele sentia afinidade pelo que havia de "irracional" na sua atitude, rica "daqueles ódios, entusiasmos e fanatismos, as únicas coisas que permitem que se faça no mundo algo de bom” (SERRA, 1958, v. II, p. 447). A escolha de Carducci, por estes motivos sub e supra racionais, é um atestado da importância e da tendência ao irracional nos princípios intelectuais de Serra. Mas em Carducci o irracional se revelava melhor nas paixões literárias, e quase nada tinham que ver com os sentimentos mais elementares e instintivos do homem2. Carducci é para Serra o justo e imprescindível antídoto a Croce e aos seus discípulos, que faziam críticas em termos de dramas espirituais e fórmulas gerais, de um ponto de vista que ele não considerava o ideal, por não ser o ponto de vista do mestiere, do artista da palavra. "Carducci é sempre o aluno de Florença e de Pisa, que lia os clássicos para aprender com eles a longa lição da arte" (SERRA, 1990, p. 98), e transmitia o senso de uma tradição viva que se renova na religião do estudo literário como vocação. Antes de sua atividade de crítico, como bem viu Berardinelli (2002), está a sua pura devoção aos textos, a religião da leitura, uma fé na sua substância e no seu misterioso poder vital; uma certeza que nos textos poéticos conservou-se algo de substancial e de divino, que não se pode discorrer pela razão: "há no seu modo de entender e julgar (...) um segredo que os outros não têm, que De Sanctis não possui, por exemplo; o segredo dos iniciados" (SERRA, 1990, p. 98). 2 Como notou o próprio Serra em seu artigo intitulado L’amore nella poesia Del Carducci. 9 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A sua poética, que poderia parecer tradicionalista, é, para críticos como Carlo Bo, a primeira e a mais individual das poéticas que inauguram o século XX. A crítica de Serra é substancialmente a autobiografia de um leitor especial, de um leitor eleito, iniciado. Para Berardinelli, em Serra a tradição humanística se aprofunda na zona de sombra na qual se celebram os mistérios do contato autêntico consigo mesmo; assim, Serra poderia ser definido como um dos primeiros críticos "existencialistas". No tempo em que Carducci era vivo e Serra sentia sua presença viva e dominadora, as coisas eram diferentes: como num instinto de autodefesa, Serra procurava manter-se afastado e colocava Carducci num posto secundário entre os seus "gurus". Na medida em que amadurecia, podia reconhecer uma afinidade mais profunda, decantada pelo tempo, totalmente transfigurada e assimilada na solidão da atividade literária de Serra. Ainda que não quisesse confundir-se com os grupos, qual massa informe, ele mantinha um constante diálogo com outros escritores apor meio de cartas (que, pelo seu valor, são parte importante da sua obra). Esse distanciamento dos gurus e dos grupos literários a que Serra não prescinde refletia a necessidade de uma atitude desinteressada ao máximo, de uma independência que garantisse a sua liberdade no presente e no futuro. Saído da Universidade, Serra vê-se subitamente afastado do mundo dos estudos. É um momento de “balanço”, de julgamento do que ele fizera até então, quando começa a se fazer mais presente o “exame de consciência” e o “valor humano” nos seus questionamentos. É como se se perguntasse “qual o valor de tudo o que estudei e vivi? Que proveito real posso tirar dos exercícios literários que fiz?” Era uma época de libertação, na qual ele procura ver o mundo com os próprios olhos. Essa abertura dos horizontes que lhe trazia o auto questionamento e o contato com a literatura modernista levou-o para um mundo em que os imperativos da crítica carducciana e do positivismo se tornavam cada vez mais distantes e menos válidos. A “sensibilidade do novo” suscitou-lhe a necessidade de repensar todo o seu universo literário e, consequentemente, existencial. Concluiu, então, que desconhecia 10 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS muitas vezes os aspectos mais relevantes que despertavam a admiração estética, sem que isso diminuísse em nada o fascínio. Não era apenas enquanto exemplo literário que Carducci inspirava a estima de Serra, mas também como uma defesa contra o mito da “modernização” e do “melhoramento” da literatura pelos jovens vanguardistas. Tempos depois, ele mesmo admitiu que o seu carduccianismo foi uma máscara de autodefesa, uma dissimulação para garantir a sua independência em relação aos companheiros da literatura, que o procuravam cada vez mais no seu isolamento lhe solicitavam o engajamento: "o meu carduccianismo não foi senão uma superstição voluntária, na qual gostava de esconder e cultivar ao mesmo tempo sob a aparência de humildade o meu direito à heresia". (SERRA, 1934, p. 551). Da mesma forma, o distanciamento de Croce, que dominava absoluto a crítica literária italiana, foi, em parte, recusa ao seu modo “impessoal” de fazer crítica, em parte desejo de independência. A influência de Carducci é real, mas ele não foi um discípulo no sentido estrito, e negativo, do termo. Voltou-se aos princípios de Carducci, assimilando-os de maneira pessoal. O seu carducciano tem o mérito de evidenciar traços importantes; mas esses traços são apenas um dos lados da balança. Uma lenta evolução distanciou-o cada vez mais dos hábitos críticos carduccianos, levando-o para um terreno onde o fundamento crítico essencial era o “exame de consciência”, a busca da verdade, o valor último dos esforços humanos. A humilde crítica do mestiere alcançaria dimensões que ultrapassam o “culto das belas, grandes obras”, voltando-se cada vez mais para o homem e o seu interior, colocando as razões mais pessoais, e as preocupações supremas, ao lado da crítica literária. * Renato Serra tem um perfil de intelectual que entrou em declínio a partir da metade do século XX. Os novos escritores foram, pouco a pouco, abandonando as revistas literárias e se integraram nas universidades, o que acabou por alterar profundamente o sentido de sua atividade. 11 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Os intelectuais independentes, que, numa prosa concisa e elegante, faziam a mediação cultural entre os vários setores especializados, entraram virtualmente em extinção. Os novos intelectuais passaram a usar um jargão especializado, frequentemente compreendido apenas no seu próprio círculo profissional. Nada tinham a dizer ao leitor comum e, consequentemente, as novas gerações formadas dentro da universidade não sentiram a necessidade de dominar uma linguagem pública, sendo incapazes de alcançar algum impacto no âmbito maior da cultura (JACOBY, 1990, p. 29). Não apenas o uso de um jargão especializado conduzia à uniformização, como também a própria mecânica interna da vida acadêmica: “diretores e colegas [...] estavam mais interessados no modo como os indivíduos se enquadravam do que no modo como os indivíduos se sobressaíam”, diz Russell Jacoby (1990, p. 28). Igualmente, o complicado ritual de preparação e defesa de teses colocava o intelectual numa rede de relações e submissões às quais era difícil se libertar. Desta forma, pouco os especialistas e acadêmicos substituíram os intelectuais independentes, abdicando de estudos mais abrangentes e ousados em prol de especializações e sub especializações. (JACOBY, 1990) Serra pertencia a uma das últimas gerações de intelectuais independentes que escreviam para ser lidos. Serra, absorvendo o valor humano e literário do modelo carducciano, compreendia a crítica como uma atividade literária, na qual o escritor deveria integrar-se na tradição e desenvolver um estilo pessoal, caso contrário estaria “fora da literatura”. Em sentido oposto foram muitos professores e pesquisadores das Letras, que desistiram de desenvolver um estilo elegante e se aproximaram gradativamente da crítica “científica”. Há de se notar, no entanto, que a análise científica da literatura padece de limitações intrínsecas das mais sérias. Em qualquer caso, a valoração sempre precede a análise: dentro de um corpus literário que já sofreu uma seleção valorativa no meio editorial e na recepção midiática da obra, o estudioso seleciona algumas que lhe chamaram a atenção, e só depois parte para a análise. Seria impossível analisar todas as obras antes de se chegar a uma conclusão sobre o seu valor e, mesmo que fosse 12 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS possível, a análise científica de textos literários nada teria a declarar sobre o valor das obras, uma vez que é possível encontrar os mesmos elementos estruturais em clássicos ou e em obras francamente ruins. Isso significa que a atividade do investigador literário nunca pode prescindir da formação do gosto e do amadurecimento da personalidade do investigador3. Como destaca o filósofo Olavo de Carvalho (2012), nas ciências humanas, em geral, e nos estudos literários, em particular, não podemos nos empenhar no estudo dos fenômenos, aplicando simplesmente um método qualquer a certo conjunto de dados, sem considerar, antes, o seu significado. Todo dado humano é portador de um significado, de uma intencionalidade significativa que remete a complexos de símbolos e associações de ideias. Os símbolos e ideias, por sua vez, não são objetos externos ao pesquisador, mas remetem à mesma linguagem humana e aos conteúdos da psique humana que devem ser revivenciados imaginativamente na busca da sua compreensão. Em outras palavras, o próprio pesquisador é um instrumento, que pode ser mais ou menos eficaz, dependendo do seu domínio da linguagem, da sua capacidade de revivenciar imaginativamente os fenômenos, dos seus conhecimentos literários, históricos e filosóficos, e do seu próprio amadurecimento pessoal. Assim, a formação da personalidade é uma etapa fundamental das pesquisas em ciências humanas. Por isso, desde a antiguidade grega a educação esteve inseparavelmente ligada à formação da personalidade: consistia na busca contínua, e jamais alcançada plenamente, da sabedoria, da virtude ou da santidade. A aquisição desta habilidade é, em geral, negligenciada por ser considerada pré-científica, mas, por ser a base sobre a qual se originam todas as investigações, tem uma consequência profunda em qualquer atividade intelectual. Ela vai propiciar, ao investigador, a capacidade de reconhecer a importância do material selecionado, ou seja, a percepção de que está diante de um fenômeno digno de ser estudado (CARVALHO, 2012). Dois leitores podem diferir em muito na apreensão de significado de uma determinada obra: enquanto o leitor sem experiência pode apreender o significado literal 3 Ver, a propósito, o ensaio Críticos novos, de Otto Maria Carpeaux, presente na coletânea Ensaio reunidos (2005). 13 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS elementar, um leitor com vivência literária pode reconhecer “toda uma constelação enormemente rica e complexa de intenções subentendidas, implicações morais, consequências vislumbradas ou insinuadas, etc.” (CARVALHO, 2012, p. 6). Entretanto, a noção básica segundo a qual a formação adequada da personalidade é uma condição preliminar necessária para o sucesso das investigações foi aos poucos relegada ao esquecimento. O abandono da escrita literária, nos próprios cursos de Letras, em detrimento da produção de artigos científicos, reflete uma perda coletiva da consciência da real importância e da função da literatura na sociedade, especialmente nos dias de hoje, em que a especialização do conhecimento restringe o horizonte de consciência dos indivíduos. Neste sentido, ao debater os “desafios e perspectivas” na “formação do profissional de Letras” é urgente revalorizar escritores como Renato Serra, que, além de participar de dos debates culturais mais significativos da sua época, não se apartaram do cuidadoso cultivo do estilo literário e, consequentemente, da própria condição humana. REFERÊNCIAS BERARDINELLI, A. La forma Del saggio: definizione e attualità di un genere letterario. Venezia: Marsílio, 2002. CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios reunidos. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005. CARVALHO, Olavo. Problemas de método nas ciências humanas.Apostila do Seminário de Filosofia. Disponível em: www.seminariodefilosofia.org. Acesso em 22 ago. 2012. JACOBY, Russell. Os últimos intelectuais. São Paulo: Edusp, 1990. SERRA, R. Epistolario. Org. de L. Ambrosini, G. De Robertis e A. Grilli. Florença: Le Monnier, 1934. _____. Scritti. Org. de G. De Robertis e A. Grilli. Florença: Le Monnier, 1958, 2 vols. _____. Scritti critici. Org. de I. Ciani. Roma: Libreria dello Stato, 1990. 14 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A ILUSÃO DA MORTE COMO LIBERTAÇÃO EM A REDOMA DE VIDRO, DE SYLVIA PLATH Daniela Maria Nazaré da Silva CÂNDIDO4 Sinto-me desterrada numa estrela fria, incapaz de sentir qualquer coisa exceto um terrível atordoamento paralisante. Olho para o mundo quente, telúrico. Para o amontoado de camas de casal, berços de bebê, mesas de jantar, toda a sólida atividade vital desta terra e me sinto distante, presa numa jaula de vidro. (Sylvia Plath) É interessante a maneira como Arthur Schopenhauer descreve a vida. Para ele, todos os seres vivos são apenas fenômenos de uma vontade que nada mais é do que o essencial do universo. Assim como qualquer outro ser, os humanos ficam restritos a essa vontade, que é a coisa em si. Esta quer sempre a vida que, de acordo com o filósofo, não passa de um acidente. “Nascimento e morte, dois acidentes que pertencem igualmente à vida” (2001, p. 289). Se a partir da visão de Shopenhauer a vida é um acidente, entende-se que estar nesse mundo é apenas uma ocasião e ninguém tem muita razão de ser. Viver é somente cumprir “o desejo” de vida da Vontade. Não havendo outra explicação para se passar os dias respirando; o motivo para acordar todos os dias se torna sem sentido. Segundo Schopenhauer, “a vida não admite nenhuma felicidade verdadeira”. Ela é sinônimo de sofrimento e de miséria (2001, p. 339). Tem-se, assim, o intuito de analisar a narrativa de A Redoma de Vidro(1999), de Sylvia Plath aplicando as teorias do filósofo de O mundo como vontade e representação(2001). Apesar de muitas divergências críticas para classificar este trabalho da escritora como um romance autobiográfico e/ou uma autobiografia, estas questões sobre a forma literária usada pela autora, neste artigo, não serão trazidas à tona. É importante destacar que o romance em foco é norte-americano, originalmente denominado The bell jar. Escrito por Sylvia Palth, segundo Ana Cecília Carvalho, em 1961, foi publicado pela primeira vez na Inglaterra com o pseudônimo de Vitoria Lucas 4 UEL – [email protected] 15 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS (2003, p. 32). A autora da obra cujo título foi traduzido em português como A redoma de vidro, suicidou-se em 1963. No romance, a protagonista Esther Greenwood conta sua história no momento em que fazia parte da equipe editorial de uma revista feminina em Nova York. A personagem retrata os fatos que antecederam sua tentativa de suicídio (CARVALHO, 2003, p. 67). Convém explicar que mais do que os acontecimentos precisos da vida de Esther, privilegia-se ressaltar as confissões, os sentimentos, o estado de humor, a visão e postura perante as circunstâncias da vida que a narradora relata ao leitor e, como já foi dito, relacioná-los com as teorias de Arthur Schopenhauer. Consoante com Ana Cecília Carvalho, a personagem Esther de A Redoma de Vidro tem muitos traços em comum com sua autora (2003, p. 68). Levando em conta essas coincidências, analisar-se-ão as questões autobiográficas da narrativa à luz da teoria de Arthur Schopenhauer. O primeiro elemento que permite tal análise é o pessimismo encontrado no enredo construído por Sylvia Plath, cujo sentimento, obviamente, também percorre toda a corrente teórica de Schopenhauer em relação à vida. Esta, para Esther, que será o alvo do presente trabalho, é permeada por tristezas, desânimo e depressão. Uma segunda questão é o próprio título do romance. Conforme o leitor toma conhecimento da vida de Esther, percebe que ela vive como se estivesse sufocada ou aprisionada por algo de que não consegue escapar. Devido à sua insatisfação, angústia e sofrimento, muitas vezes, sem saber qual o motivo de tantas perturbações, a narradorapersonagem tenta se livrar do que lhe causa sufocamento: A redoma de vidro. A partir disso, é possível se fazer a leitura que a vida para Esther é uma redoma que a sufoca e a obriga a permanecer nesse martírio de sofrimento, do qual ela não consegue se livrar. A redoma a aprisiona, embora seja frágil por ser de vidro. É mais ou menos o que é a vida para Shopenhauer. Para ele, o ser humano se encontra numa situação sem remédio. O homem como realização objetiva da vontade, vê-se impossibilitado de escapar dela: “[...] esta situação do homem perdido sem remédio é a própria imagem da nossa impotência para lançar longe de nós a vontade, uma vez que a nossa pessoa é apenas a realização objetiva desta última” (2001, p.343). Uma das estudiosas das obras de Sylvia Plath, Ana Cecília de Carvalho também comenta esse 16 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS aprisionamento vivido por Esther. Para a autora, a personagem se vê aprisionada num cenário de “angústia, indiferença e confusão” (2003, p.68). Por fim, além da forma que a personagem de A redoma de vidro encara a vida, outra questão permite que se faça uma análise da obra relacionando-a com as teorias de Schopenhauer: a existência de elementos autobiográficos. Ana Cecília Carvalho classifica o romance em questão das seguintes formas: “A escrita do eu”, “A poética autobiográfica”, “O discurso da melancolia”, “A poética confessional”, “A poética do suicídio”. Essas caraterizações, bem como a afirmação da autora de que “é impossível deixar de notar a semelhança de algumas dessas passagens sobre o sofrimento emocional e as anotações feitas nos diários de Sylvia Plath. [...] As poucas anotações dos diários [...] dão-nos uma medida do material que será transformado em ficção em The bell jar (2003, p.69)”, permite-nos a possibilidade de considerar a narrativa de Sylvia Plath dentro dos parâmetros estabelecidos por Schopenhauer para definir uma autobiografia. Para o filósofo, numa autobiografia é possível visualizar o homem como ele realmente é. Este quando decide escrever uma autobiografia, segundo Schopenhauer, coloca-se, voluntariamente, a si mesmo no confessionário, dando a possibilidade de se deixar conhecer, expondo ao leitor, o interior humano que será visto mais de perto e individualmente, mas não deixando de universalizar os sentimentos, isto é, demonstrando o que todo e qualquer ser-humano é capaz de sentir: O homem que descreve a sua vida vê-a no seu conjunto de uma só vez; o pormenor parece-lhe pequeno, o próximo afasta-se, o longínquo aproxima-se, as contemplações desaparecem, coloca-se a ele mesmo no confessionário, e isso voluntariamente; aí o espírito de mentira já não o agarra tão facilmente, visto que tem em cada homem a inclinação de dizer a verdade, que ele tem que sempre recalcar para mentir (SCHOPENHAUER, 2001, p. 261). O filósofo ainda compara o historiador com o autor de uma autobiografia. Para ele, enquanto o primeiro caracteriza o ser humano de uma forma mais generalizada, o segundo possibilita o conhecimento do homem num grau maior de profundidade, mais detalhadamente. É possível identificá-lo de uma forma distinta e reconhecê-lo em suas particularidades essenciais: 17 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A relação entre uma biografia e a história deixa-se ver pela comparação seguinte: a história mostra-nos a humanidade, com a natureza nos mostra a paisagem do alto de uma montanha: vemos muitas coisas com um só olhar, vastos espaços, grandes massas; mas nenhum objeto é distinto nem reconhecível nas suas particularidades essenciais; a biografia pelo contrário faz-nos ver o homem como vemos a natureza, quando a estudamos, passando das árvores às plantas, às rochas, aos lagos (SCHOPENHAUER, 2001, p. 261). Na narrativa de Sylvia Plath, a personagem se dispõe a confessar suas particularidades e seus sentimentos mais profundos. Conforme Schopenhauer, “uma biografia fiel mostra-nos numa esfera estreita o modo de agir do homem com todos os seus cambiantes e todas as suas formas, sabedoria, virtude, santidade em alguns, ignorância, baixeza, malvadez, na maioria, e em outros, também, perversidade” (2001, p. 260). Entenda-se fidelidade aqui, como alguém que se propõe a transparecer o que está guardado no mais profundo do ser humano, mesmo que sejam sentimentos considerados negativos e dignos de serem ocultados. No caso de Esther, a personagem demonstra, quando registra uma parte de sua vida, até mesmo o seu lado mais mesquinho. No primeiro capítulo do romance, Esther, a narradora e personagem principal da história se declara com inveja de suas amigas ricas. Conforme sua narrativa, ela provinha de família pobre e desejava ter oportunidades semelhantes às de suas companheiras que desfrutavam de confortos e luxos, que ela, até aquele momento, ainda não havia conhecido: Esse tipo de garotas me irrita. Fico com tanta inveja que perco a fala. Tenho dezenove anos e a única vez que saí da Nova Inglaterra foi para essa viagem a Nova York. Foi minha primeira grande oportunidade, mas lá estava eu, encostada e deixando a chance escorrer como água por entre os dedos (PLATH, 1999, p.10). A partir desse trecho, além do sentimento de inveja, também se pode observar que, embora ela tenha desejado ter novas experiências como viajar para outros lugares, uma vez que Esther narra ser a primeira vez que sai de sua cidade, ela não consegue aproveitar o momento em que tanto sonhou, isto é, estava “deixando a chance escorrer como agua por entre os dedos” (PLATH, 1999, p. 10). 18 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Neste e em muitos outros momentos Esther se demonstra insatisfeita ou mantém uma empolgação apenas passageira. Nesse trecho citado acima, ela admite que havia desejado ter o que ela estava vivendo naquele período, mas depois da conquista, seu ânimo volta ao estado anterior. É mais ou menos dessa forma que Schopenhauer caracteriza os seres humanos. Para ele, somos sujeitos que sofrem por desejar e mesmo depois de conquistado aquilo que almejamos o sofrimento não cessa: “Todo desejo nasce de uma falta, de um estado que não nos satisfaz, portanto é sofrimento, enquanto não é satisfeito. Ora nenhuma satisfação dura, ela é apenas ponto de partida de um novo desejo” (SCHOPENHAUER, 2001, p. 325). Algo muito parecido acontece quando Esther narra os fatos no período em que está trabalhando em Nova York depois de ganhar um concurso para ser escritora de revista de modas. A personagem destaca o quanto ficava “empolgada” com os presentes que recebia, mas sua satisfação era verdadeiramente passageira. Um tempo depois voltava a seu estado “normal”: Percebi que ganhávamos pilhas de presentes porque era boa propaganda para as empresas que os enviavam, mas eu não conseguia disfarçar. Ficava empolgada com todos aqueles brindes que choviam sobre nós. Escondi-os durante muito tempo, mas, depois que me curei, tirei-os do armário e ainda estão pela casa (PLATH, 1999, p. 10). “Ter se curado”, para a personagem, é o mesmo que perder a “empolgação”, em outras palavras, é voltar ao seu estado “normal” ou à condição em que se encontrava antes. Esther também comenta sobre a vida “tediosa” de suas amigas ricas. Embora a rotina destas fosse diferente da sua, pois desfrutavam de passeios de iate, de avião, entre outras coisas, as meninas demonstravam estar insatisfeitas tanto quanto a narradora do romance: Eu achava que essas meninas viviam num grande tédio. Encontrava-as no solário do hotel bocejando, pintando as unhas e tentando manter o bronzeado que conseguiram nas Bermudas, e elas pareciam completamente entediadas. Conversei com uma, que estava cansada de iates, cansada de andar de avião, cansada de esquiar na Suíça no Natal e cansada dos homens no Brasil (PLATH, 1999, p. 10). 19 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS As atitudes das amigas de Esther bem como as dela própria vão de encontro com as afirmações de Shopenhauer sobre a realização de um desejo que, para ele, nada mais é que um “alvo ilusório”. Para a narradora-personagem, não tinha sentido uma vida tediosa para as meninas que desfrutavam de tanto luxo e conforto. No entanto, estas não escapavam do tédio. Esther, por sua vez, criticava as companheiras, mas também não se sentia repleta de alegria e satisfação. Estas faziam parte de momentos rápidos e passageiros de sua vida. Como se pode observar neste caso, o aborrecimento percorre as diferentes classes sociais. É exatamente o que Schopenhauer teoriza: “no homem, nem a alegria nem o humor triste são determinados por circunstâncias exteriores, como a riqueza ou a situação do mundo: isso é mesmo uma situação evidente; vêem-se pelo menos tantos rostos risonhos entre os pobres como entre os ricos” (SCHOPENHAUER, 2001, p. 332). A partir dessas experiências que a narradora compartilha com o leitor, percebese que as diferentes formas de vida não mudam os sentimentos das pessoas em relação a ela. Riqueza e luxo não deixam as conhecidas de Esther mais satisfeitas; esta, por sua vez, não se livra do aborrecimento por conseguir alcançar, gradualmente, seus objetivos. As observações divulgadas pela personagem retratam bem os conceitos de Schopenhauer em relação à vida humana. Para ele, desejar e sofrer são sinônimos e a realização de um desejo traz um alívio passageiro: Entre os desejos e as suas realizações decorre toda a vida humana. O desejo, pela sua natureza, é sofrimento; a satisfação engendra bem depressa a saciedade. O alvo era ilusório, a posse rouba-lhe o seu atrativo; o desejo renasce sob uma forma nova, e com ele a necessidade; senão é o fastio, o vazio, o aborrecimento, inimigos mais violentos ainda que a necessidade (SCHOPENHAUER, 2001, p. 329). Conforme discorrido por Schopenhauer na citação acima, o desejo satisfeito que deixa de ser interessante depois de sua posse dá espaço para um novo anseio. É o que ocorre com Esther que por fazer parte de um mundo diferente, diz-se “impressionada” com a vida de alto padrão de sua amiga Doreen. A narradora-personagem, apesar de ter conquistado o cargo de escritora em uma revista feminina e, devido a isso, ser rodeada de mimos, não se sente completamente realizada. Essa conquista deixou de ser 20 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS interessante e passa a almejar algo que só conhecia por meio das experiências vividas e relatadas por sua amiga: Ela disse que sua faculdade era tão elegante que todas as alunas usavam os livros encapados com o mesmo tecido do vestido; assim, sempre combinavam com a roupa. Esse detalhe me deixou impressionada. Davam a entender que levavam uma vida maravilhosa, de uma decadência requintada que me atraía como um imã [grifo meu] (PLATH, 1999, p. 11). Em alguns momentos da narrativa, a narradora-personagem deposita sua confiança no futuro. Acredita que tomando posse de algo que não tem, sua vida mudará, será mais feliz, mas ao mesmo tempo a ela própria admite que, sua satisfação adquirida após a conquista, é passageira. Isso se reflete quando Esther comenta sobre sua vida amorosa ou suas dificuldades de relacionamento. Ela confessa desejar um homem quando este parece estar distante. A possibilidade de conhecer alguém de perto a faz perder o interesse: “Eu me interessava por um homem que, de longe, parecia ser maravilhoso, mas, assim que ele se aproximava, via que não valia a pena” (PLATH, 1999, p. 92). Da mesma forma, de acordo com as “confissões” sobre o que se passava no interior da personagem, entende-se que desejava uma vida cheia de “substituições de felicidades”, isto é, queria conquistar algo que não tinha, depois de adquirir o que lhe estava faltando e lhe causando sofrimento, o interesse acabaria, portanto, teria que desejar obter algo melhor, e assim sucessivamente. É o que transparece quando Esther, no capítulo sete do romance estudado, descreve como gostaria de viver: Era por isso que eu jamais queria me casar. As últimas coisas que eu queria eram viver em total segurança e ser o arco de onde as flechas são disparadas. Queria sentir emoções e fazer coisas diferentes, me atirar em todas as direções, como as luzes coloridas dos fogos de artifício de Quatro de Julho (PLATH, 1999, p. 92). O casamento para Esther, segundo suas afirmações, seria símbolo de rotina, de estabilidade, pode-se dizer até mesmo de desejo adquirido e satisfeito. Sendo assim, o sofrimento, o tédio e o aborrecimento fariam parte de sua vida. Pode-se interpretar a partir do pensamento da narradora-personagem que o casamento podaria sua 21 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS possibilidade de se “atirar em todas as direções”. Isso talvez signifique que já não poderia mais desafiar a si mesma buscando novas conquistas, sejam elas amorosas sejam em outras áreas. Dentro de um matrimônio teria que suportar viver com uma única pessoa, ainda que esta não mais a atraísse ou mesmo que depois da conquista perdesse o interesse. Além disso, as atividades domésticas diárias não a permitiriam “fazer coisas diferentes”. Percebe-se que Esther está em busca de constantes renovações, ainda que proporcione a ela uma satisfação passageira. Esther, como conhecedora de si mesma, afirma sua busca incessante por novidades que a façam instantaneamente feliz e ao mesmo tempo confessa sua facilidade em perder o interesse por aquilo ou alguém que tanto desejou antes de obter. Essa questão exposta pela narradora-personagem dialoga com a análise que Schopenhauer faz dos indivíduos. Para ele, sofremos quando desejamos algo que ainda não temos, mas após a conquista, a satisfação vem e logo passa. Assim, voltamos ao estado anterior: [...] quando uma felicidade longamente desejada nos é por fim concedida, não nos encontramos, pensando bem, nem sensivelmente melhor nem mais satisfeitos do que antes. É apenas no instante em que nos sucedem que essas grandes mudanças nos tocam com uma força inusitada, até atingir a tristeza profunda ou a alegria explosiva; mas um efeito e outro em breve se dissipam, sendo ambos nascidos de uma ilusão; porque, o que os produzia, não era de modo nenhum um prazer ou uma dor atual, mas a esperança de um futuro verdadeiramente novo sobre o qual antecipamos em pensamento (SCHOPENHAUER, 2001, p. 332). Talvez por Esther se conscientizar de sua facilidade por se desinteressar pelas conquistas anteriormente desejadas, almeja que sua vida seja cheia de surpresas e constantes novidades, para que desta maneira, obtenha instantes de satisfação sem que seu estado paralise a condição “normal” humana discutida por Schopenhauer. Desde os primeiros capítulos de A redoma de vidro é possível observar a constante insatisfação de Esther, talvez até como algo próprio de sua personalidade, levando o leitor a perceber que o estado depressivo da protagonista aumenta gradualmente ao longo da narrativa. No oitavo capítulo, por exemplo, a narradora-personagem relaciona seu estado interior com as situações exteriores. Assim como é muito comum os indivíduos 22 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS associarem suas tristezas e desânimos ao mau tempo, Esther faz o mesmo ao descrever a natureza, o tempo frio e escuro, os pinheiros pesados, à tristeza que se acentuava dentro dela à medida que observava esse cenário: Não sei sobre o que conversamos, mas sei que fui ficando cada vez mais deprimida, à medida que o campo já estava coberto com uma neve espessa foi nos pesando e os pinheiros cerrados vinham do alto das colinas cinzentas até a beira da estrada, de um verde tão escuro que parecia negro, e fui ficando cada vez mais triste (PLATH, 2001, p. 97). Para Schopenhauer relacionamos nosso estado interior às variações do tempo, isto é, um tempo frio nos faz triste, bem como, um dia ensolarado nos deixa alegres e felizes. É muito comum se identificar o “bom” tempo ao bom humor e o “mau” tempo ao mau humor, exatamente como faz a personagem do romance estudado. Há nesse parágrafo uma variedade de adjetivos que se relacionam à depressão que Esther afirma estar sentindo. A neve é espessa, os pinheiros cerrados, as colinas cinzentas, o verde de tão escuro parece negro, tudo muito parecido com seu interior que estava pesado, espesso, escuro, negro e, finalmente como ela mesma afirma, triste. No entanto, os sentimentos presentes em nosso interior, de acordo com Schopenhauer, não têm relação com as situações exteriores. Para o filósofo, muitas vezes, sem razão, somos tomados por uma felicidade que não sabemos de onde vem. Do mesmo modo, tempo cinzento, chuvoso ou ensolarado reflete no nosso estado de ânimo que já se encontra alegre ou triste. De acordo com as considerações do filósofo: [...] as variações que o tempo faz sofrer ao nosso humor alegre ou triste, deveríamos atribuí-las a mudanças não nas circunstâncias exteriores, mas no nosso estado interior. Os nossos acessos de bom humor que ultrapassam o normal, que vão até mesmo à exaltação, manifestam muitas vezes sem causa estranha. Muitas vezes, é verdade, a nossa tristeza é determinada, muito visivelmente, apenas com as nossas relações com o exterior: é aí que está a única causa que nos toca e nos perturba; então imaginamos que bastaria suprimir essa causa, para entrarmos na alegria mais perfeita. Pura ilusão! A quantidade definitiva de dor e de bem estar que nos está reservada é, na nossa hipótese, determinada em cada instante por causas íntimas (SCHOPENHAUER, 1999, p. 332). 23 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Durante todo o texto de Plath, observa-se que Esther não tem um motivo concreto para se sentir tão insatisfeita e triste, como de fato ela, claramente, afirma estar. Trabalhar numa revista, ser escolhida como uma das melhores alunas de graduação para cumprir esse papel, não a fazia mais feliz. Do mesmo modo, nem ela mesma consegue explicar o motivo de sua tristeza. Apenas observa a “triste” natureza e se identifica com ela. Algo parecido é narrado pela personagem no capítulo treze: “Uma garoa fina começou a cair do céu cinzento e fiquei muito deprimida”. (PLATH, 1999, p. 181). Levando em conta a linearidade do romance, mesmo com todas as digressões feitas pela narradora, afinal ela conta os acontecimentos de um determinado período de sua vida, entende-se que a tristeza e depressão, quase sempre, faziam parte de seu interior. A personagem, algumas vezes, demonstra ter consciência de que nada teria o poder de modificar seu estado interior. Na transcrição de uma conversa com um amigo, o leitor observa que Esther admite que em qualquer lugar que ela fosse não estaria satisfeita: “Eu sou neurótica. Não me sentiria bem na cidade nem no campo” (PLATH, 1999, p. 104). Pode-se afirmar que a vida para a narradora-personagem é repleta de insatisfação. Ela própria tinha consciência de que independente dos acontecimentos em seu cotidiano, não conseguia se apartar do sofrimento. Isso retrata a teoria de Schopenhauer: “o sofrimento não se infiltra em nós vindo de fora, nós trazemos conosco a inesgotável fonte da qual ele sai” (SCHOPENHAUER, 2001, p. 334). Partindo dessas considerações, pode-se pressupor que a personagem tem grande fascínio pela morte. Essa impressão é transmitida ao leitor devido à presença constante desse elemento durante toda a narrativa. No primeiro capítulo, por exemplo, Esther comenta uma notícia que estava presente em todos os jornais de Nova York sobre uma sentença de pena de morte. Logo no parágrafo que abre o livro, a narradora afirma que esse assunto não saía de seus pensamentos: “Aquilo não tinha nada a ver comigo, mas eu não conseguia parar de pensar em como seria ser queimada viva, até os nervos” (PLATH, 1999, p. 7). Esse mesmo assunto é lembrado novamente pela narradora no nono capítulo. Ela pergunta a uma amiga se ela não achava horrível a história dos “Rosenberg” que iam morrer naquele mesmo dia na cadeira elétrica. (PLATH, 1999, p. 112) No entanto, não é 24 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS somente em relação a outras pessoas que Esther se interessa pela morte. Ela também deseja dar fim à sua própria vida. Porém, apenas o leitor toma conhecimento disso, pois a narradora-personagem “confessa” a ideia que de repente permeou em seus pensamentos: “A ideia de que eu podia me matar brotou na minha cabeça, calmamente – como nasce uma árvore ou uma flor” (PLATH, 1999, p. 107). Diante de todas as “confissões” de Esther, o leitor conhece um pouco de sua personalidade sombria e de seu egoísmo. No quinto capítulo, de forma semelhante ao já exposto sobre o primeiro capítulo, a personagem admite a inveja que tem de uma amiga por ter mais posses que ela e por viajar para lugares que ela nunca tinha ido: “Fiquei gelada de inveja. Nunca estive em Yale” [...] (PLATH, 1999, p. 66). Tanto o desejo de morrer, quanto os sentimentos mesquinhos que Esther expõe em seus relatos demonstram seu egoísmo. Tem-se a impressão que ela enxerga apenas a si mesma e seus infortúnios em relação ao mundo. Nesse sentido, torna-se interessante as considerações de Schopenhauer. Para ele, um sujeito com o conhecimento de que a mesma vontade que está em si também está no outro, consegue superar o egoísmo: A vontade que vive e se manifesta em todos os homens é uma só, mas as suas manifestações combatem-se e despedaçam-se mutuamente. Ela aparece mais ou menos enérgica, conforme os indivíduos, mais ou menos acompanhada de razão, mais ou menos temperada pela luz do conhecimento. Enfim, nos seres excepcionais, o conhecimento, purificado e elevado pelo próprio sofrimento, chega a esse grau em que o mundo exterior, o véu de Maya, já não pode enganá-lo, em que vê claro através da forma fenomenal ou princípio de individuação. Então, o egoísmo, consequência deste princípio, desaparece com ele (SCHOPENHAUER, 2001, p. 266). Esther divide com o leitor tudo o que pensa sobre si mesma e sobre a vida de uma maneira geral. No capítulo onze, a morte continua sendo o foco da narrativa. As manchetes de jornal que mais chamam sua atenção são as que se referem à morte e ao suicídio. A reportagem que a personagem transcreve diz respeito a este último tema: “Suicida salvo do parapeito no sétimo andar!” (PLATH, 1999, p. 159). Em uma crítica que faz sobre o jornal a que tinha acesso em sua casa, nota-se que sua preferência é ler os noticiários que divulgam “a realidade” e não os que a oculta: “Em casa, eu só lia o Christian Science Monitor, [...] era um jornal que fazia de conta que não existiam 25 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS suicídios, crimes passionais e quedas de avião” (PLATH, 1999, p. 151). Todos os artigos a que ela se refere estão relacionados à morte. Conforme a personagem conta um pouco mais sobre si, o leitor consegue entender que seu fascínio pela morte tem um significado. Esther estuda o tema que mais a atrai, de certa maneira, para planejar o seu suicídio. Sua primeira tentativa é cortar os pulsos dentro de uma banheira cheia d’agua, exatamente como ela tinha ouvido um filósofo falar que gostaria de morrer: “Quando perguntaram a um velho filósofo romano como gostaria de morrer, ele disse que cortaria as veias durante um banho morno” (PLATH, 1999, p. 162). A narradora-personagem, portanto, tem como característica própria o egoísmo de que fala Schopenhauer. Ela consegue somente enxergar seus próprios sentimentos. Tristeza e mesquinhez fazem parte de seu mundo. Esther vive como se nada mais interessasse além dela mesma. Para Schopenhauer, esse tipo de comportamento nada mais é que uma ilusão: “Pura imaginação que é, a respeito do tempo, o que é a respeito do espaço e daquelas pessoas que imaginam estar no topo da esfera terrestre, estando todas as outras posições por baixo” (SCHOPENHAUER, 2001, p. 295). O filósofo discorre sobre o tempo presente. Para ele, este é o único com o qual deveríamos nos preocupar, pois o passado precedeu a vida e o futuro seria depois da morte. O que deveríamos ter consciência é de que apenas no presente a vontade pode se mostrar. (SCHOPENHAUER, 2001, p. 294). No caso de Esther, sua preocupação está voltada para o futuro, isto é, para um depois da morte. Ainda de acordo com Schopenhauer, cada indivíduo imagina que o presente está ligado à sua própria individualidade e que desaparecendo esta, todo o presente também é eliminado, permanecendo somente passado e futuro. (2001, p. 295) O constante desejo de morrer, que se identifica na personagem que conta a história aqui estudada, reflete muito bem a teoria de Schopenhauer. Esther não teme perder a vida, mas também de nada adianta buscar a morte como forma de libertação. Para Schopenhauer “temer a morte porque ela nos rouba o presente é como se, porque a Terra é redonda, nos felicitássemos por estar justamente em cima, por felicidade, porque em qualquer outra parte nos arriscaríamos a deslizar para baixo” (SHOPENHAUER, 2001, p. 295). No entanto, também não devemos desejar a morte a ponto de cometer 26 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS suicídio, pois de nada adiantaria, uma vez que com a morte do indivíduo, a vontade de viver continua, o que acaba é apenas o fenômeno. Em outros momentos da narrativa, Esther continua sua investigação para decidir que forma escolheria para morrer. No capítulo doze, tenta cortar os pulsos na banheira de sua casa e pensa em fazer o mesmo num quarto de hotel. As duas possibilidades são deixadas de lado por querer evitar que alguém a impeça. No capítulo seguinte, a narradora-personagem conta que intenciona se afogar na praia e tenta se enforcar: “Naquela manhã, tentei me enforcar” (PLATH, 1999, p. 173). Para Esther a vida é um peso. Sua rotina passa a ser a busca pela “melhor” forma de morrer. Mais uma vez, pode-se relacionar A redoma de vidro com o conceito que a personagem tem da vida. Essa associação se torna mais clara quando Esther afirma não querer ficar presa a esta “estúpida carcaça”: “O que eu precisava fazer era atacar de surpresa com qualquer sentido que me restasse, ou ficaria presa naquela estúpida carcaça durante cinquenta anos, sem qualquer sentido” (PLATH, 1999, p. 174). Esther define a vida como algo que a aprisiona. Assim, a personagem acredita que a única saída seria se livrar dessa “carcaça”. Num sentindo figurado, seu objetivo é quebrar a “redoma de vidro”, isto é, dar fim à vida para se encontrar com a morte, de modo que, desta forma, ela estaria liberta. No entanto, para Schopenhauer, a morte não torna ninguém livre. O indivíduo deixa de existir, mas a vontade de viver continua num presente inalterável. O sol não deixa de brilhar, como se fosse um eterno meio dia: [...] aquele a quem o fardo da vida pesa, que amaria sem dúvida a vida e que nela se mantém, mas maldizendo as dores, e que está cansado de aquentar a triste sorte que lhe coube em herança, não pode esperar da morte a sua libertação, não pode libertar-se pelo suicídio: é graças a uma ilusão que o sombrio e frio Orco lhe pareça o porto, o lugar de repouso. A Terra gira, passa da luz às trevas; o indivíduo morre; mas o Sol, esse, brilha como um esplendor ininterrupto, num eterno meio dia. A vontade de viver está ligada à vida: e a forma da vida é o presente sem fim; no entanto, os indivíduos, manifestações da ideia, na região do tempo, aparecem e desaparecem, semelhantes a sonhos instáveis. – O suicídio aparece-nos pois como um ato inútil, insensato[...] (SCHOPENHAUER, 2001, p. 295-296). 27 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Assim como para muitos indivíduos que não possuem o conhecimento de que de a morte não dá acesso à libertação, Esther deposita sua esperança no que, de acordo com as teorias de Schopenhauer, seria um ato insensato e uma ilusão. A personagem consegue apenas enxergar a si mesma e suas próprias “dores”. Por isso, vive tentando morrer. No capítulo treze, conta quando toma comprimidos escondida em um porão para que ninguém a encontrasse e a interrompesse de seu propósito de dar fim à vida: “Enrolei-me na capa preta como se fosse uma suave sombra, abri o vidro de comprimidos e comecei a engoli-los rápido, com goles de água, um a um” (PLATH, 1999, p. 184). Depois de ser “salva” continua pensando da mesma forma, isto é, a redoma é de vidro e não de ferro ou de madeira, e assim por diante. Este fato faz deste elemento algo forte e frágil ao mesmo tempo, levando em conta que um material de vidro pode se quebrar a qualquer momento. O título do romance é mencionado algumas vezes pela personagem. Pelo modo que ela se refere a tal “redoma”, entende-se esta como símbolo da vida que tem o poder de aprisioná-la, mesmo sendo frágil (por isso de vidro), no sentido em que a morte pode interrompê-la. É essa a busca da personagem: a interrupção de algo que com sua fragilidade tem força para sufocá-la. Partindo dessas questões, pode-se verificar no capítulo quinze que o único desejo de Esther era mesmo não estar viva. Por isso, não conseguia ser grata com a Sra. Guinea, a pessoa que se compadeceu de sua situação e patrocinou uma clínica particular para que ela pudesse se recuperar da depressão. Na seguinte afirmação da personagem, é possível se fazer a associação entre a vida e a redoma de vidro que a tornava prisioneira; e mais uma vez, constata-se que os acontecimentos externos não eram responsáveis por seus sentimentos interiores: Eu sabia que devia ser grata à Sra. Guinea, mas não conseguia. Se ela tivesse me dado uma passagem para a Europa, ou um cruzeiro de volta ao mundo, não faria a menor diferença, porque onde quer que eu estivesse – no convés de um navio, na calçada de um café em Paris ou em Bangcoc – estaria dentro da mesma redoma de vidro, asfixiada na minha própria respiração ácida. (PLATH, 1999, p. 202). 28 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Os sentimentos da personagem de A redoma de vidro vão de encontro às teorias de Schopenhauer. A vida, para ele, é sofrimento: “[...] o sofrimento é o fundo de toda vida” (2001, p. 326). Na visão do filósofo, isto significa que não só a existência humana, mas também, os animais, em grau menor, também padecem. Portanto, viver é o mesmo que sofrer. De acordo com as teorias de Schopenhauer, na vida não é possível ser dotado de repleta satisfação. Quando uma aflição é extinta, logo outra vem para substituí-la. O filósofo afirma que “o sofrimento e as mágoas chegam facilmente a um grau em que a morte se nos torna desejável e nos atrai sem resistência.” (2001, p. 328). É o que acontece com a personagem Esther. Por não mais suportar a infelicidade que a atormenta, a insatisfação que a persegue, busca o suicídio de forma incessante. No entanto, como já visto, de nada adianta a prática do suicídio, conforme planeja Esther. Esta age como alguém que enxerga apenas a si mesma, não tendo conhecimento de que ainda que ela desapareça, a vontade de viver continuará e o sol não deixará de brilhar. Schopenhauer ainda afirma: “quando um indivíduo morre, a natureza no seu conjunto não fica mais doente; a vontade também não.” (Schopenhauer, 2001, p. 290) . Para finalizar, devem-se considerar as ideias de Schopenhauer perante a vida que, para ele, não é dotada de felicidades e satisfações. Ao contrário, como o próprio filósofo afirma, ela é um constante sofrimento. Isso pode até nos levar ao desejo de procurar a morte, assim como faz Esther. No entanto, como para o filósofo esta alternativa não nos traz a solução, pressupõe-se que o ser humano está amarrado a essa vontade, que nos faz viver, mas não nos imuniza do sofrimento, nem nos torna livres quando nos encontramos com a morte. Essa concepção dialoga com o título A redoma de vidro tão presente na fala da personagem que conta seus próprios infortúnios. É como se fosse alguém que se vê “obrigada a obedecer” à vontade de que discorre Schopenhauer. Assim, ela se sente aprisionada, nessa vida, que se assemelha a uma redoma de vidro. 29 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Referências Bibliográficas CARVALHO, Ana Cecília de. A poética do suicídio em Sylvia Plath. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003. PLATH, Sylvia. A redoma de vidro. Rio de Janeiro: Record, 1999. SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Trad: M. F. Sá Correia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001. 30 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A MENSAGEM REVELADA NO BRASÃO PORTUGUÊS: OS SÍMBOLOS LUSITANOS METAFÓRICOS DE FERNANDO PESSOA LANGNER, A. E.5 THIMÓTEO, S. G.6 RESUMO: Constituindo-se parte do projeto de pesquisa intitulado “O fil rouge saramaguiano na toalha da literatura portuguesa: as referências (e reverências) de José Saramago”, esta pesquisa detém-se num dos autores mais influentes da Literatura de Portugal (e do próprio José Saramago): Fernando Pessoa. No presente trabalho, analisar-se-á especificamente Mensagem (1934), a obra de cunho épico da Literatura Portuguesa no século XX. O vínculo com a história e o contexto lusitano do século XVI se faz presente constantemente nessa obra poética, trazendo reflexos e refrações de outros textos épicos como Os Lusíadas, de Luís de Camões, porém de forma incontestavelmente “pessoada”. Em observação da primeira parte da obra, intitulada “Brasão”, pode-se estabelecer uma associação do visual do brasão português a referências históricas descritas por Pessoa, divididas em Os campos, Os castelos, As quinas, A coroa e O timbre. Carlos Castro da Silva Carvalho e Cleonice Berardinelli serão base teórica, além de dados históricos ilustrativos para estabelecer a ligação prevista na análise. Palavras-chave: Literatura Portuguesa, Fernando Pessoa, Mensagem, Brasão. Benedictus dominus deus Noster qui dedit nobis Signum7 Tida por muitos críticos literários como sendo o ícone da literatura épica portuguesa do século XX, a obra Mensagem, de Fernando Pessoa, é o berço de gloriosas figuras e distintos símbolos da história portuguesa, sendo este o único livro organizado e publicado pelo autor ainda em vida. Mensagem foi lançada comercialmente em 1° de 5 Acadêmico do Curso de Letras na UFFS – Universidade Federal da Fronteira Sul, campus Realeza (PR), bolsista do PIBID (Programa de Bolsas de Iniciação à Docência – CAPES) e pesquisador voluntário do projeto de pesquisa “O fil-rouge saramaguiano na toalha da literatura portuguesa: referências (e reverências) de José Saramago”. 6 Professor de Teoria Literária e Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Realeza (PR). Coordenador do projeto de pesquisa “O fil-rouge saramaguiano na toalha da literatura portuguesa: referências (e reverências) de José Saramago”. 7 Bendito seja Deus nosso Senhor, que nos deu o Verbo. Epígrafe inicial da obra Mensagem, revelando Portugal como o povo escolhido. 31 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS dezembro de 1934 e, diferentemente da epopeia que é um “poema narrativo que mostra os feitos heroicos de um povo numa perspectiva histórica” (TUTIKIAN, 2006, p. 22), Pessoa constrói a sua narrativa fazendo uso de símbolos e marcos que a história portuguesa dispunha, o que contribuiu para um aspecto artístico-poético “pessoado”. Macedo (1988, p. 31) aborda Mensagem sob a perspectiva da transferência da importância para o predicado, levando em consideração que o primeiro nome pensando por Pessoa para Mensagem seria Portugal. O que Macedo descreve é que o sentido de Mensagem é relativo a Portugal, assim o predicado ganha forma de sujeito para significar o objeto, a mensagem de Portugal: Também a Mensagem pode ser entendida como representando o processo semântico e estilístico de uma substantivação antropomórfica que transforma o predicado da acção (sic) que fora a História portuguesa no sujeito da sua cristalização estática e expectante. E o nome que Pessoa primeiro pensou em dar ao livro era, como se sabe, Portugal – e logo no primeiro poema Portugal é representado como o rosto de uma Europa que jaz posta nos cotovelos. (MACEDO, 1988, p. 31). A respeito da estrutura e forma que concreta a obra, Gonçalves diz que Pessoa fez o uso duma discursividade que não depende da articulação de factos mas da justaposição de um certo número de pensamentosfuncionais, Mensagem convida a uma leitura pontual e reflexiva, conduzindo o leitor do caso particular e ao geral [...] e do implícito ao explicitado. (GONÇALVES, 1990, p. 94). Mesmo contendo características de um texto épico, Mensagem é um texto que permite uma compreensão pontual alcançada pela ordem dos pensamentos, ou seja, existe uma condução entre as abrangências e referências do texto que parte de uma concepção cronológica e temporal. A autora fala que Mensagem é um texto moderno e novo, que encontrou concretude em argumentos vindouros do sebastianismo empregados por Pessoa, estes de vínculo espiritual. Como ressalta: “o que Mensagem encontra no espírito da nova epopeia é a oportunidade de realçar no sebastianismo a força espiritual de um argumento.” (GONÇALVES, 1990, p. 94). 32 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A respeito da padronização de Mensagem, Tutikian avalia Mensagem como um poema fora do padrão épico: Ainda que Mensagem tenha um discurso épico, a estrutura tripartida foge totalmente aos padrões clássicos. Enquanto a estrutura clássica se rege pela uniformidade, Mensagem se constrói através das várias vozes que cantam Portugal e através de poemas das mais variadas formas, números de versos e combinações de rimas. (TUTIKIAN, 2006, p. 26). Tavares (1967) trata a epopeia em verso como “a glosa poética de um tema narrativo, heroico e nacional” (TAVARES, 1967, p. 247) e aponta quatro elementos que a define, representados pela narração figurada e amplificada, a presença do heroísmo exaltado, o tratamento de um assunto nacional, e o maravilhoso, tido pela intervenção dos Deuses. Tavares ainda apresenta a divisão do poema épico proposta por Léon Gautier, que se estabelece em naturais, representadas pelas primitivas, espontâneas e anônimas, que brotaram das lendas e tradições de um povo, e as artificiais, de autoria indiscutível. Berardinelli (1985), ao se referir à obra pessoana, a trata como “um poema épico de tipo especial, ou melhor, um poema épico-lírico contendo uma leve tessitura narrativa”. (BERARDINELLI, 1985, p.120) Especial pelo fato de Pessoa ter empregado toda a história de Portugal, relacionando reis e rainhas, príncipes e infantes, entidades divinas e místicas, seres reais e lendários, assim como os heróis e seus feitos, dentro da sua produção, revelando toda a dualidade do poeta que se estabelece na razão e no misticismo, bem como nacionalista e sebastianista. Contudo, o que constrói a harmonia entre todas essas figuras é o desejo de proclamação de Portugal como uma grande nação. Em termos estruturais, Mensagem está constituída por quarenta e quatro poemas curtos que estão distribuídos em três partes. A primeira é “Brasão”, a qual se proporá uma análise mais adiante, nela está desenhado o passado glorioso de Portugal. Pessoa recria o Brasão português usando como linhas os personagens da história do país e, para cada símbolo do brasão, um personagem é empregado, revelando o senso criativopoético e um conhecimento heráldico de Pessoa. 33 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O segundo período da obra é intitulado “Mar Português”, essa parte apresenta Portugal dos séculos XV e XVI, as navegações e os heróis, bem como os feitos destes durante esse período áureo do país. Na terceira revela-se o sebastianismo de Pessoa com “O Encoberto”, destinada a evocar Dom Sebastião e o V Império, nessa parte Pessoa rompe com o modelo épico e trata da decadência do presente da esperança de um futuro de glória que virá com o retorno do Encoberto: “Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a hora!” (PESSOA, 1934, p. 103-104), o sentido se estabelece pela apresentação do passado exuberante de Portugal no inicio da obra, que revela o sentimento de desconforto quanto à decadência do país do presente. Em sentido completo, temos três partes que representam três tempos relativos, os quais Beradinelli (1985, p. 121) trata como o da “preparação, da realização e da queda e o tempo da espera”. Brasão: Castelos e Quinas Bellum sine bello Guerra sem guerra, é assim que Fernando Pessoa abre, epigrafada, a primeira parte de Mensagem, apresentando o sentimento patriótico para com Portugal e mostrando toda a sua luta para consagrar o país com a glória de uma grande nação, retomando para isso os feitos e conquistas do passado. O título “Brasão” é escolhido para representar essa parte, que descreve os heróis e as pessoas importantes que ajudaram a fundar e construir a história portuguesa. Distribuída em cinco partes, Pessoa divide o Brasão pelos símbolos que o constituem, assim sendo, os campos, a primeira parte, trata de apresentar, poética e resumidamente, os dois campos presentes no brasão, o dos castelos e o das quinas, retratados em dois poemas, ambos com dados sintéticos e reflexivos. Após, os pensamentos de Pessoa transcorrem através da história para criar um brasão metafórico sob o brasão das armas portuguesas, e essas metáforas se embasam na construção de um brasão humano e, ao mesmo tempo, mítico que foi alcançado através da importância dos feitos do povo fundador. Nas outras quatro partes, intituladas Os castelos, As quinas, A coroa e O timbre, Pessoa detalha os símbolos do brasão através de uma interligação com os personagens da história, no entanto, deter-nos-emos, agora, na parte inicial. 34 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O poema que Pessoa utilizou no início d’Os campos, faz referência aos castelos, tema esse que se desenvolve de forma mais completa na sequência organizada pelo poeta. Nesse poema, temos uma introdução ao pensamento patriótico de Pessoa, aqui ele apresenta Portugal como uma das peças mais importantes de todo o continente europeu: PRIMEIRO – O dos castelos A Europa jaz, posta nos cotovelos: De oriente a Ocidente jaz, fitando, E toldam-lhe românticos cabelos Olhos gregos, lembrando. O cotovelo esquerdo é recuado; O direito é em ângulo disposto. Aquele diz Itália onde é pousado; Este diz Inglaterra onde, afastado, A mão sustenta, em que se apóia o rosto. Fita, com olhar esfíngico e fatal, O Ocidente, futuro do passado. O rosto com que fita é Portugal. (PESSOA, 1934, p. 37) Pessoa começa apresentando a Europa e toda a sua imponência “De oriente a Ocidente”, cuja aparência se personifica em um rosto feminino de aparência romanesca e traços gregos “Olhos gregos” e esta repousa sobre os cotovelos a olhar e lembrar. O poeta brinca com as localizações dos países e seus formatos, a Itália, símbolo do cristianismo, torna-se um dos apoios para o cotovelo da mulher, assim como a Inglaterra, representando aqui toda a riqueza da Europa, atua como o apoio para o outro braço, a que sustenta a mão que “apóia o rosto”. Desse rosto parte um “olhar esfíngico e fatal” que está a fitar “o ocidente”, volta a se beneficiar da localização de Portugal para criar uma imagem simbólica de elevação perante as demais nações do continente, pois a cabeça, a parte responsável pelo controle do corpo, essa é Portugal fitando o “futuro do passado”, remetendo às navegações, às conquistas, às Américas que foram descobertas em função da bravura dos heróis da pátria. 35 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Os castelos estão, nesse poema, representando toda a força portuguesa, a imponência, que só é alcançada pelo espirito de bravura e patriota daqueles que doaram tudo de si pela pátria, Pessoa trabalha na ideia gradativa de importância: Europa e, dentro dela, Portugal, e só então apresenta os alicerces do país. Berardinelli (1985, p. 121) trata os castelos como sendo “a ação criadora da nacionalidade, a sua fixação na terra”, castelos como construções físicas e concretas. Descrevendo Os castelos, Pessoa inicia com Ulisses, herói lendário da Odisseia de Homero, e possível fundador de Lisboa (nome que, originalmente, seria Ullisi Pona: “O mito é o nada que é tudo [...] Assim a lenda se escorre/A entrar na realidade,/E a fecundá-la decorre./Em baixo, a vida, metade/De nada, morre” (PESSOA, 1934, p. 41), o mito é apresentado como a energia perene que se confunde com as origens, sendo mais importante que a própria vida. Ulisses carrega consigo a carga mitológica, que dá a Portugal a virtude de possuir uma origem no viés fantástico. Dessa forma a narrativa prossegue com Viriato,“Se a alma que sente e faz conhece / Só porque lembra o que esqueceu,/ Vivemos, raça, porque houvesse Memória em nós do instinto teu.” (PESSOA, 1934, p. 42), este foi o chefe da resistência portuguesa aos romanos no século II a. C., quem sabe também um dos grandes responsáveis pela existência do espírito patriótico e todo o desejo de vitalidade para com as terras lusitanas. Berardinelli (1985, p. 121) trata Viriato como sendo a “préhistória” de Portugal. O poeta segue nomeando cada um dos castelos contidos no brasão, representados por D. Henrique e D. Tareja, D. Afonso Henrique, D. Dinis, D. João o Primeiro e D. Filipa de Lencastre. Percebe-se que Pessoa une os dois últimos em um único castelo, visto que são apenas sete e são escolhidas oito pessoas, a simbologia presente é de que a nação surge forte através de grandes homens, D. João e D. Filipa representam os pais de Portugal, o par gerador. Ainda n’Os campos, Pessoa constrói outro poema para falar d’As quinas, um poema breve que também será aprofundado na sequência, assim como fez com Os castelos. De cunho religioso, o poema expressa toda a divindade na história de Portugal. Segundo Berardinelli (1985, p. 121), o poema é a base para “reflexões conceituosas, em que afirma a fé na glória conseguida à custa de inconformidade, de desgraça.”: 36 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS SEGUNDO – O das quinas Os Deuses vendem quando dão. Compra-se a glória com desgraça. Ai dos felizes, porque são Só o que passa! Baste a quem baste o que lhe basta O bastante de lhe bastar! A vida é breve, a alma é vasta: Ter é tardar. Foi com desgraça e com vileza Que Deus ao Cristo definiu: Assim o opôs à Natureza E filho o ungiu. (PESSOA, 1934, p. 38). As quinas, para Pessoa, representam o milagre, ou, precisamente “o milagre de Ourique” (1139), batalha dos cristãos Portugueses contra os mouros na qual, mesmo em número reduzido, os portugueses saíram vitoriosos e D. Afonso Henriques foi aclamado rei de Portugal pelo seu feito milagroso. Apesar de estar citado entre Os castelos, D. Afonso Henriques foi peça fundamental para houvesse a ideia de milagre na construção d’As quinas. Pessoa inicia o poema fazendo uma retórica a respeito dos feitos dos Deuses, que não manifestam auxilio algum sem que haja algo em troca (“Os Deuses vendem quando dão”), e demonstra sentimento de pena para com os que se contentam com a felicidade ou riqueza que possuem, pois estes ficarão acomodados em suas posses “Ai dos felizes, porque são só o que passa!”. Empregando o verbo bastar repetidas vezes, criando uma cacofonia e um enredamento poético, Pessoa revela mais uma vez o inconformismo com uma situação de comodismo, que se justifica com na sequência “Ter é tardar”, atribuindo à condição de possuir, a possibilidade do conforto com a situação, mas, antes disso, avisa que “a vida é breve, a alma é vasta”, com isso, o poeta tende a afirmar que os portugueses são movidos pela busca de novas conquistas, o que submete às navegações e todo o legado marítimo de Portugal. Ao final do poema, Pessoa apresenta a ideia do sacrifício da felicidade pela salvação, o sofrimento, assim como Cristo que ganhou um corpo frágil e fraco para que 37 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS se fosse exemplo de obediência e espiritualidade. Tutikian (2006, p. 38) diz que “o poema traz a lógica Cristã da salvação pelo sofrimento: Deus concebeu Cristo para ser desgraçado e vil e sagrou-o filho, o portador da graça, mostrando seu caminho espiritual”. As quinas, além de representarem os cinco escudos das armas de Portugal, sinalizam também as chagas desse Cristo, mostrando que, apesar de possuir um império formado por suntuosos castelos, onde um deles é o símbolo mitológico Ulisses, também possui uma vertente espiritual e religiosa. As pessoas que o poeta utiliza para nomear as quinas não chegaram a ser reconhecidos em vida, ou nem chegaram a concretizar seus desejos para com a pátria. Berardinelli diz que “poucos entenderam a sua glória feita menos de agir do que de suportar as penas infligidas pela Providência ou pelo Fado” (BERARDINELLI, 1981, p. 122), e é exatamente isso que encontramos quando olhamos para D. Duarte, rei de Portugal e mártir do dever “Meu dever fez-me, como Deus ao mundo / A regra de ser Rei almou meu ser” revelando o sentimento de um Rei que tinha sua alegria depositada na função de ser rei. D. Fernando está na posição da segunda quina, este morreu refém em Marrocos e é tido como Santo, assim como D. Pedro e D. João, abrangidos pela resignação dos próprios caprichos pela pátria. A última quina está representada por D. Sebastião, aquele que desapareceu após uma luta contra os mouros em Alcácer Quibir (1578) e que perpassa toda a Mensagem, por simbolizar os sonhos de grandeza de Portugal: “Louco sim, louco, porque quis grandeza / Qual a Sorte a não dá”. Pessoa toma a voz de D. Sebastião para dizer que a loucura que ele carregava deve continuar nos portugueses “Minha loucura, outros que me a tomem / Com o que nela ia.” E ainda fala que, sem a loucura, o homem é menos humano, uma forma de “besta”, ou ainda, um “cadáver adiado que procria”, isto é, a vida humana acomodada é a que naturalmente perpetua a espécie e um morto a haver. Assim, Os campos se completam trazendo à tona uma mostra da força e da espiritualidade contida na origem da nação portuguesa. O brasão português do século XV é desenhado por Pessoa como um instrumento de cantar o futuro glorioso que virá, e, diferentemente da épica clássica, não se detém tanto em cantar as glórias do passado, mas na esperança de um futuro glorioso que virá. 38 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Outros elementos são apresentados por Pessoa ainda n’O Brasão, como a coroa e o Timbre, representado pelo grifo, neles são trabalhos outras facetas de Portugal, outras pessoas e virtudes. A coroa homenageia Nun’Álvares Pereira, este que foi canonizado pela santidade e devoção à Deus. O Timbre, representado pelo grifo, foi o substituto da Serpe, facilmente confundida com um dragão, no entanto, Pessoa alterou a figura por uma da mitologia, para que houvesse uma representação mítica da batalha travada entre o homem e o mar, conforme fala Carvalho: Na Mensagem, o grifo representa seguramente a conclusão da luta do homem com o mar, a empresa das descobertas, a reunião do conhecido com o desconhecido, do Ocidente com o Oriente, e a respectiva aniquilação dos lutadores: a perda da independência que logo se seguiu e a perda progressiva do império. E representa ainda seguramente o resultado da operação: a pedra astral, elevada a timbre da nação. (CARVALHO, 1981, p. 31). Apesar de não expormos aqui detalhadamente as referências pessoanas quanto aos dois últimos elementos do Brasão, pode-se constatar que a primeira parte do livro busca traçar uma rota do percurso humano e transumano de Portugal, sendo que, o marco principal de toda essa jornada, fica estabelecido no Mar. Transcorrendo em torno do Brasão, Pessoa criou uma explicação mítica e lógica, utilizando um aspecto moderno para descrever o nascimento de uma nação. 39 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS REFERÊNCIAS: CARVALHO. Carlos Castro da Silva. Aspectos formais do nacionalismo místico de Mensagem. nº 62. Lisboa: Colóquio Letras, 1981. PESSOA, Fernando. TUTIKIAN, Jane (org). Mensagem: obra poética I. Porto Alegre, 2010. MOISÉS, Massaud. O espelho e a esfinge. São Paulo. Círculo do Livro, 1992. BERARDINELLI, Cleonice. "Mensagem". In: Estudos de literatura portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da moeda, 1985. MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 1 ed. São Paulo. Cultrix, 2008. MOISÉS, Carlos Felipe. Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos. 1. ed. São Paulo. Escrituras Editora, 2005. TAVARES, Hênio Último da Cunha. Teoria Literária. 3 ed. Belo Horizonte: Editora Bernardo Álvares S. A., 1967. MACEDO. Helder. A Mensagem e as mensagens de Oliveira Martins e de Junqueiro. In: Colóquio Letras, nº 103. Lisboa, 1988, p.p. 28-39. GONÇALVES, Maria Madalena. Modernismos: uns e outros. In: Significados retóricos de um mito nacional – D. Sebastiaõ n’o Desejado de Nobre e na Mensagem de Pessoa. nº 113-114. Lisboa: Colóquio Letras, 1990. 40 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A RELIGIOSIDADE NA FICÇÃO LITERÁRIA: UM ESTUDO DE AVANTE SOLDADOS: PARA TRÁS PAULA JUNIOR, Celso Garcia8 Resumo: Este estudo busca interpretar em alguns fragmentos do romance Avante soldados para trás, de Deonísio da Silva, a presença da religiosidade na ficção literária e como esta contribui para a identidade das personagens. Para isso, serão feitos alguns apontamentos sobre a religiosidade, notadamente na maneira com que as personagens se comportam em relação a ela. Utilizaremos algumas reflexões sobre religiosidades presentes em Eliade (1992), Gil Filho (2005), Rozendahl (1997); e assuntos afins encontrados em Vanderlinde (2008), Matias (2005) e Cuche (1999). Palavras-chave: Religiosidade; Identidade; Ficção. A construção do espaço sagrado e da soberania O ser humano possui diversas características e singularidades. Um dos principais fatores distintivos de nós em relação a outros seres vivos é a racionalidade, contudo, podemos constatar outro aspecto: a religiosidade, ou seja, a capacidade de crermos em algo superior a nós mesmos. Por ser algo primordialmente humano, a religiosidade é uma característica observada em diversos saberes, independentes de serem disciplinares, científicos ou quaisquer tipos de rótulos postos nos mesmos. Embora o campo teológico se debruce sobre o estudo religioso, podemos ver em eventos históricos a presença da religiosidade, por lidar com acontecimentos humanos em determinadas historicidades e essas historicidades contribuem para a formação da ficção literária que expõe muitas histórias latentes a própria História. Para Eliade, o objetivo primário do historiador das religiões é a compreensão e tornar compreensível aos demais, o comportamento do homo religiosus e seu universo mental. E isso nem sempre é fácil, pois para o mundo moderno, a religião como 8 Acadêmico regular do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Sociedade, Cultura e Fronteiras – Nível de Mestrado, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Endereço eletrônico: [email protected] 41 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS forma de vida e concepção do mundo é confundida com o cristianismo (ELIADE, 1992, p. 133). Embora haja diversos tipos de religiões, a que se notabiliza em grande parte dos países ocidentais, notadamente nos da América do Sul, é a religião cristã católica. Além disso, um dos momentos em que o homem mais se lembra do sagrado é quando a morte é iminente, e isso é constante em uma situação de guerra entre países. Antes de deixar a casa e ser arregimentado, o filho geralmente é abraçado pela mãe que o abençoa e pede ajuda a Deus, Virgem Maria e todos os santos e anjos para proteger seu filho no campo de batalha no desejo dele retornar são e salvo “para a glória do Senhor”. A eclosão de um conflito bélico pode ter vários motivos, contudo um dos que se sobressai é o não respeito da soberania territorial de um país. Para que isso seja elucidado, temos que ter em mente alguns esclarecimentos acerca de soberania. Quando analisamos a história do conceito de soberania, podemos notar que, como defende Jellinek, a soberania é uma concepção política que apenas posteriormente se condensou como noção jurídica. Como observa esse autor, o conceito de soberania não foi descoberto no “gabinete de sábios estranhos ao mundo”, pois deve sua existência à “forças muito poderosas, cujas lutas constituem o conteúdo de séculos inteiros”. Assim, a ideia de soberania é útil e fundamental, pois, aqueles que a teorizam “podem manipular o seu significado para servir a propósito um tanto quanto antagônicos à medida que a estrutura do poder e da autoridade passam por mudanças históricas”. As possíveis revoluções na soberania resultariam dessa forma de revoluções prévias nas ideias dominantes a respeito de justiça e autoridade política (MATIAS, 2005, p. 32). Para que haja a convivência harmônica entre duas nações, principalmente aquelas que são fronteiriças, o respeito à soberania é essencial. Quando estudamos a eclosão de conflitos internacionais, observamos que grande parte deles ocorre pela falta de reconhecimento da soberania do outro, o que pode ser ocasionado por um Estado se considerar superior, seja por dimensões territoriais ou por influência política. Quando 42 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS esse reconhecimento é infringido, a independência de alguns dos envolvidos no conflito ou de todos, se torna uma ficção, conforme nos esclarece o mesmo autor: A igualdade entre os Estados pode ser considerada uma conseqüência lógica do próprio conceito de soberania. Dizer que os Estados são soberanos significa que eles detêm um poder supremo e independente. Assim, todos os Estados haveriam de ter os mesmo direitos e obrigações ao interagirem. Caso não fossem considerados iguais, isso refletiria obrigatoriamente um sistema de subordinação, e tanto sua independência quanto sua autoridade interna seriam uma ficção. A soberania seria, portanto, um poder incondicionado, não subordinado a nenhum outro (Ibidem, p. 36). Observamos que mesmo havendo concordâncias em relação à soberania, quando há um mandatário de uma nação independente que lança mão da força para manter o seu poder, ele busca a concentração e a centralização do mesmo num determinado território. Isso pode ser percebido quando, ao enfocarmos acontecimentos históricos, nos deparamos com personalidades autoritárias que contribuíram para que suas nações viessem a entrar em conflito com outras, como foi o caso do ditador paraguaio Solano Lopéz que também é enfocado na ficção que abordaremos nesse estudo. Estar num território é saber que se está em um local que pode ser concebido como sagrado pelo outro ou por si próprio e esse sentimento de estar em um local sagrado vai além de se estar num território. Isso pode ser observado quando um soldado, numa situação de guerra, faz certos rituais que, mesmo que aquele local não seja o templo de sua religião, a religião vai com ele onde quer que ele esteja, pois, se o templo ou a igreja pode ser materializado, a fé é metafísica, embora o território possa ser considerado tanto sagrado quanto profano. Ao ultrapassar a linha divisória de um Estado que não é o nosso, levamos conosco grande bagagem cultural e a religiosidade está presente na mesma. Se 43 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS falarmos em estar num território desconhecido e em conflitos bélicos motivados por falta de reconhecimento mútuo de soberania, é necessário, também, atentarmos para algumas explicações acerca de fronteira: Fronteira, enfim, é aquilo que cada um representa, criada por aquele que a transpõe diariamente, esporadicamente ou nunca. Refletir na e sobre a fronteira é levar em conta um espaço privilegiado da produção de antagonismos, mas também espaço de laços de solidariedade, de (re)criação de memórias, da afirmação e da negação de identidades, da (re)elaboração de representações, da (re)invenção de lendas e de tradições, do (des)encontro dos homens, dos conflitos e das conquistas materiais (VANDERLINDE In COLOGNESE, 2008, p. 61). São muitas as explicações acerca de fronteira e optamos por esta devido a lembrança que é feita da ideia de identidade e que se notabiliza em situações de conflito. Segundo Eliade, a vida do homo religiosus é vivida de maneira dupla, por haver a existência humana e a trans-humana que está ligada diretamente ao Cosmos e aos deuses. O mesmo teórico defende que a existência do indivíduo, é “aberta” para o mundo, e assim ele nunca está sozinho por viver nele uma parte do Mundo. Essa “abertura” para o Mundo permite ao homem com crenças religiosas conhecer-se conhecendo o Mundo – e esse conhecer é valoroso para ele por ser um conhecimento religioso que se refere ao Ser (ELIADE, 1992, p. 136/137). Ainda referente à religiosidade do ser humano, Gil Filho fundamentado em estudos de Bell (1996), constata que a religião trás segurança a uma cultura sob dois aspectos: a protege contra o demoníaco e proporciona uma noção de continuidade com o passado. Ela oferece uma proteção que inibi os impulsos anárquicos humanos e estabelece as raízes atávicas da vida (GIL FILHO, 2005, p. 127). Juntamente à ideia de religiosidade, é fundamental entendermos também como se dão as representações sociais e para isso, Moscovici (2003) sugere que os fenômenos das representações estão ligados aos processos sociais referentes às 44 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS diferenças no meio social. Com isso, as representações sociais são elaborações coletivas diversificadas no âmbito da modernidade. O teórico enfoca as representações sociais e suas diversas facetas das relações interpessoais do cotidiano, ou seja, a teoria engloba a articulação de afirmações conceituais e explicações originárias do cotidiano. Para ele, além de uma observação ou opinião acerca do mundo, o ato de representar é a expressão de uma internalização da visão de mundo articulada que gera modelos que contribuem para a organização da realidade (Ibidem, p. 125). O poder que a religião representa na maioria da vida das pessoas é notório em espaços considerados sagrados ou profanos. Esses dois componentes são estudados com maestria por Zeny Rosendahl que esquematizou de maneira acessível a existência desses dois tipos de espaços. Segundo ele, a experiência do espaço sagrado é contrária a do profano. Em relação ao último aplica-se interdições aos objetos e coisas que estão vinculadas ao sagrado, numa realidade distinta da realidade sagrada. Assim, há em espaços sagrados, o espaço ao “redor” e “em frente” do espaço sagrado (ROZENDAHL In CASTRO, 1997, p. 122). Como a obra a ser estudada trata de conflito entre dois países que possuem populações majoritariamente cristãs, cabe destacar que: “[...] as formas sagradas na paisagem cristã são as igrejas. A freqüência a um serviço coletivo de culto é extremamente importante no cristianismo, em contraste com outras religiões nas quais há menos necessidade de um lugar santificado para o culto” (Ibidem, p. 128). Dessa maneira, a igreja surge como uma estrutura de representação da fé cristã, contudo, ela não é fator essencial para que a fé cristã seja manifestada, pois através de hábitos o crente manifesta sua religiosidade e isso contribui para a consolidação de sua identidade, que não é imutável e pode adquirir grande dinamicidade. Identidade e conflito em Avante soldados: para trás 45 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O romance Avante soldados: para trás é dividido em duas partes e subdividido em quinze capítulos. A primeira enfoca a marcha e as batalhas da expedição das forças aliadas representadas por um destacamento brasileiro sob o comando do coronel Carlos Moraes Camisão, um dos principais personagens do romance. Já na segunda parte, embora continue se evidenciado a violência da guerra, há uma narrativa mais amena ao descrever a paixão de Camisão por Mercedes, uma militar pertencente ao exército paraguaio. Além das forças paraguaias, o destacamento brasileiro se depara com adversidades da própria natureza, como o surgimento do cólera que contribui para diminuição do efetivo brasileiro. Não são deixados de lado peculiaridades das tropas brasileiras, pois muitos soldados foram incorporados à força e sem o treinamento adequado para uma guerra da envergadura da que ocorria, além do revanchismo entre alguns de seus componentes, o que pode ter colaborado para a falta de unidade e episódios como o que é narrado no livro, conhecido historicamente como a “Retirada da Laguna”. A opção em enfocar uma situação de frustração das forças brasileiras leva a crer que Silva, buscou com isso, desmistificar a ideia que muitos possuem ao crer que na Guerra do Paraguai, houve apenas vitórias para os aliados, com grande ganho para as nações pertencentes à Tríplice-Aliança. O que percebemos no romance é exatamente o oposto, pois ele induz a entender que, numa situação de guerra, todos os envolvidos perdem, uns mais e outros mais ainda. Nessas linhas gerais, podemos observar a relação constante a que o escritor recorre (história e literatura) para consolidar o enredo fictício. Cabe nesse momento, refletirmos que o romance Avante soldados: para trás, é considerado por suas características, um romance metaficcional histórico. Esse tipo de produção literária nasce de uma autoconsciência do poder da linguagem e sua capacidade de produzir imagens, sendo esse atributo um instrumento essencial na construção de novos padrões identitários, por conceber a heterogeneidade como uma confluência discursiva. Assim, esse tipo de narrativa, consegue ao fazer uma releitura da história, atuar em contraponto ao discurso histórico oficial. O romance Avante soldados: para trás, possuí como principal narrador um sargento que além de combater o inimigo, observa o cotidiano do teatro de guerra. Ele 46 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS pode ser considerado como o narrador majoritário da trama, pois nela há outros narradores, contudo, na parte final do romance acaba assumindo o papel do narrador que relembra o que ocorreu de uma maneira memorialística. Outro componente que pulsa e contribui para a expressividade do romance são pistas fornecidas por ele ao leitor acerca da identidade das personagens. Quando falamos em identidade, temos que levar em consideração que ela nunca é posta e sim contraposta. Se digo que sou brasileiro, minha nacionalidade se contrapõe as demais existentes e logo, se sou brasileiro quero dizer também que não sou paraguaio, argentino ou francês. Dessa maneira ela não se põe isoladamente e sim se contrapõe formada coletivamente, pois para dizer que sou brasileiro é necessário que eu seja reconhecido como tal e esse reconhecimento se dá coletivamente. Um dos principais fatores que geram conflitos entre nações, conforme já vimos, é a falta de reconhecimento de suas soberanias. Ao infligir as fronteiras políticas sem prévia autorização, ocorre o conflito, tal como ocorreu em relação à Guerra do Paraguai. Assim, o conflito gera a reafirmação da identidade por parte daquele que está imerso nele e é uma situação privilegiada para o estudo da identidade. São vários os fatores que contribuem para a solidificação da identidade do ser social, sendo um dos principais a cultura que vivenciamos, contudo há uma distinção entre cultura e identidade, como percebemos com a explicação de Denys Cuche: “A cultura depende em grande parte de processos inconscientes. A identidade remete a uma norma de veiculação, necessariamente consciente, baseada em oposições simbólicas” (CUCHE, 1999, p. 176). Dessa forma, podemos entender a identidade como algo que é construído não de uma maneira inata com o nascimento do indivíduo e sim de maneira nata, pois ela ocorre de maneira consciente. Quando falo que sou brasileiro, tenho consciência que não sou paraguaio, e possuo traços da cultura brasileira que vivencio e assimilo muitas vezes de maneira inconsciente. Segundo Cuche, há tipos diferenciados de identidades que se encontram interligados. Um dos primeiros enaltecidos pelo autor é a identidade cultural, valendo destacar que na década de cinquenta principalmente nos Estados Unidos, havia uma 47 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS abordagem que concebia a identidade cultural como algo imutável e que determinava o comportamento dos indivíduos, posteriormente ultrapassada por concepções mais dinâmicas valorizadoras do conceito relacional. Ao trazer o conceito relacional como um fator importante para se entender a identidade cultural, podemos ver que no romance de Deonísio da Silva há um processo de relações conflituosas em que as identidades dos personagens se redefinem de acordo com as diversas situações vivenciadas pelos mesmos. A construção da religiosidade em Avante soldados: para trás Há várias ocasiões onde percebemos a religião como um componente essencial para a consolidação da identidade de algumas personagens no romance de Silva. Na malha narrativa existem três capítulos que merecem destaque: o de número cinco (O padre na cova das serpentes) o de número oito (O padre telefonista) e o de número onze (O cozinheiro judeu). Em “O padre na cova das serpentes” é narrada a história de um padre chamado de Frei Mariano que pregava numa igreja da Vila Miranda (região do Mato Grosso) e foi sequestrado por soldados paraguaios por ter informações privilegiadas acerca do povoado. Assim, ele poderia agir como informante em favor dos inimigos do exército aliado. Capturado, o religioso foi vítima de torturas e a seguinte passagem ilustra o porquê do capítulo ser assim intitulado: Costurando pedaços de conversas aqui e ali, chegamos à conclusão de que frei Mariano de Bagnaia, a princípio resistindo aos intentos do interrogatório, foi colocado numa cova cheia de serpentes, cujos rabos estavam amarrados a uma distância que tornassem impossível o bote mortal, sem que o padre soubesse disso. No escuro da cova, ele ouvia apenas o sonido dos guizos de cascavéis furiosas que trinavam a sua maldade com a cólera 48 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS própria às serpentes. Lá de cima da cova, soldados treinados faziam-lhe uma pergunta atrás da outra (SILVA, 1992, p. 53). Mesmo sendo uma autoridade religiosa, o refém não ficou isento das técnicas utilizadas no conflito a exemplo da tortura. Entretanto, isso não foi feito de maneira simplista, pois o comandante do destacamento militar paraguaio no local era católico e aquele procedimento colocou-o em uma situação de grande impasse religioso, pois ao mesmo tempo em que devia fazer o seu serviço para não ser castigado por “El Supremo” (apelido dado ao ditador Solano López) o método empregado poderia lhe ocasionar o castigo divino: Tirado dali, depois de revelar algumas coisas importantes, foi conduzido à presença do major Urbieta. Este lhe pediu que não o obrigasse a nova ação como aquela, que o desgostava muitíssimo, sobretudo porque não era praticada contra o inimigo, mas contra um padre de sua mãe-Igreja. Urbieta também era católico, com mãe e avós fervorosas. Quase lhe vieram lágrimas aos olhos, quando fez esse pedido a frei Mariano (Ibidem, p. 53/54). A tradição crista-católica ensina a perseverar em meio às provações como uma maneira de exercitar a fé para nos mostramos como “digno aos olhos do Senhor”. Se assim o fosse, frei Mariano suportaria toda a tortura e morreria em nome de sua fé. Contudo, não foi isso que ocorreu, pois ele mudou de lado e passou a servir o Exército de López: Posteriormente viemos a saber que os paraguaios simularam diversas fugas de freio Mariano e o tiveram como informante durante muito tempo, pois ele, apesar dos vários padecimentos, ficou vulnerável às pregações paraguaias e mudou de lado. Passou a ajudar espontaneamente os Exércitos de López (Ibidem, p. 55). 49 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Esse “espontaneamente” embora nos possa parecer irônico por parte do narrador, atesta que o religioso fez uso de seu livre-arbítrio e dessa forma, decidiu por si próprio a mudança de lado, sugerindo que a identidade, bem como a religiosidade dos representantes coletivos, é algo dinâmico por ser uma construção cotidiana que se molda de acordo com as diversas situações a que o indivíduo se depara. No capítulo intitulado de “O padre telefonista” é narrado o aparecimento em meio ao acampamento dos soldados brasileiros, do padre Landell de Moura, um religioso que mereceu destaque na Imprensa local pela quantidade de inventos que elaborava, o que causou polêmica em relação à posição social ocupada por ele: O espanto era geral. Alguns falavam em ganhar a guerra com essas armas que, no começo da explicação, todos achavam que não serviam para nada. Juvêncio, meio desconfiado ainda, foi-se chegando. Dissimulado, piscou os olhos para os outros e começou elogiando o padre Landell: __ Mas sim, senhor, hein! O que é a ciência! Bem que estamos precisando de invenções. Dizem que nas outras frentes, lá pro sul, estão usando balões para observar o inimigo. Gostaria de saber quem inventou o tal do balão que voa com gente dentro de um balainho, conforme me disseram. __ Foi um colega meu – disse, pressuroso, o padre Landell. __ Colega seu? – perguntou Juvêncio. __ Todo padre é inventor? __ Não é bem assim. Simples coincidência. Um colega de batina, só que português, o Alexandre de Gusmão (Ibidem, p. 107). Neste fragmento observamos que grande parte dos personagens não se limitam aos seus papéis sociais, o que provoca uma redefinição de seus papéis sociais e de suas identidades. Para nos elucidar sobre esses papéis trazemos uma explicação de Gil Filho: 50 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O espectro das convenções sociais, parte intrínseca do universo consensual das representações sociais, indica a sociedade como o mundo das coisas plenas de finalidades, onde o denominador comum é o próprio homem. Existe uma identidade comum ao grupo, livre e, de certo modo, igualitária. Cada um se expressa no campo do aceito, do banal, próprios do cotidiano. No âmbito de regras próprias há a construção de imagens típicas, projeções sociais auto-explicativas, espaços banais, que de modo recorrente integra o indivíduo aos esquemas de sua própria cultura. Todavia, a prática social, neste contexto, invariavelmente revela o mundo de crenças e esquemas mentais convencionais próprios do que é aceito por todos de forma imediata (GIL FILHO, 2005, p. 126). Dessa maneira, observamos que a narrativa polemiza a hierarquização e os papéis sociais apontando que o ser religioso pode ter um raio de ação que extrapola o seu papel social estritamente religioso e o que ele hierarquicamente representa dentro da sociedade. Eliade aponta uma série de correspondências micromacrocósmicas no universo do homo religiosus, como a assimilação do ventre ou da matriz à gruta, dos intestinos aos labirintos, da respiração à tecelagem e assim por diante e essas correspondências antropocósmicas interessam porque podem ser colocada como “cifras” das diversas situações existenciais (ELIADE, 1992, p. 138/139). Essa constatação nos faz enfocar o capítulo número onze da narrativa literária nomeado de “O cozinheiro judeu”. Nessa parte da obra é descrito o personagem Jacó, responsável pela alimentação da tropa brasileira: Jacó tinha sólidos conhecimentos de religião e vasta cultura como todo judeu. Mas sua melhor sabedoria, pelo menos a que melhor aproveitávamos, estava nos bons pratos que preparava, sobretudo no modo de tratar os alimentos. Tomava a carne e a recheava de temperos desconhecidos para nós, deixando-a saborosa, mesmo em condições tão adversas a um bom 51 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS cozinheiro. A guerra destruía tudo, inclusive vasilhames e panelas. Jacó tinha amor à sua arte de bem cozinhar. Depois de dar comida a todos, ainda explicava coisas que desconhecíamos, soldados que éramos (SILVA, 1992, p. 150). Observamos que a religiosidade esmerada é uma forma de caracterizar a identidade do povo judeu, bem como a falta de conhecimento é utilizado na narrativa como uma maneira de identificar um soldado brasileiro comum. Mais adiante, quando é questionado por um dos soldados o que é ser judeu, Jacó responde: __ Vocês querem saber o que é ser judeu – disse, resfolegando em seu sotaque, Jacó. __ É simples definir um dos nossos. O mal e o bem entram e saem pela boca de um judeu sempre com naturalidade. Isto é, somos um povo que se caracteriza por certos costumes muito próprios no que come e no que fala. Damos um enorme valor ao que falamos e ao que comemos. Cuidamos muito dessas duas coisas. Do comer e do falar. A palavra e a bóia. __ Isso faz certo sentido – observou o francês. __ O judeu tem culinária variadíssima, decorrente do aproveitamento que fez das possibilidades alimentícias dos lugares por onde errou em tantos exílios. __ Marcamos também a ausência da comida – disse Jacó. __ Somos um dos poucos povos a fazer jejum por motivos religiosos. No Iom Kipur, dia do perdão, o mais sagrado do ano, ficamos em jejum o dia todo e só comemos no final. No Pessach, a segunda festa, a comida é tão importante que se um desavisado tomar aqueles livros de nossas orações, é capaz de confundir com um cardápio (Ibidem, p. 151/152). Dessa maneira, o alimento para o cozinheiro judeu, tinha um papel importante na tradição religiosa de seu povo e o não respeito a essas tradições poderia ocasionar problemas fisiológicos, havendo com isso, grande correspondência antropocósmica entre a fé do judeu e os alimentos que eram preparados e ingeridos. Sobre essa correspondência, Eliade nos coloca que elas são sempre religiosas, pois o Mundo é sagrado. Para que ela possa ser compreendida, é fundamental se ter em mente que as principais funções fisiológicas são suscetíveis de se converterem em 52 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS sacramentos. Come-se ritualmente, e a alimentação é diversamente valorizada de acordo com as diferentes religiões e culturas. Assim, os alimentos são considerados sagrados, ou um dom da divindade, ou uma oferenda aos deuses do corpo [...] (ELIADE, 1992, p. 139). A correspondência entre o universo e a ação do indivíduo pode ser exemplificada na narrativa, quando Jacó continua a descrever as crenças do povo judeu: Nessa viagem, a carne animal, destinada a sustentar a carne humana, não sendo similar, deveria receber temperos apropriados, salgações, molhos, maciamentos, afagos, misturas, boa embalagem. Porque se tratava de viagem sem volta, a famosa partida sem retorno. __Kosso, Kisso, Kaasso – disse Jacó enigmático. Como ninguém entendesse, explicou: __ Copo, bolso e ira, eu quis dizer. Com isso nossos sábios, sempre ensinando por provérbios, preocupados com a síntese das lições a transmitir aos pósteros, quiseram dizer que nossa troca substancial com o universo é feita através da boca, através do que bebemos, comemos e falamos; pelo bolso, que simboliza os limites de nosso poder ante o mundo; e pela ira, pois é controlando nossas emoções que vivemos melhor (SILVA, 1992, p. 153). A comida possuía segundo o judeu, grande valor e precisava ser tratada de maneira zelosa, havendo trocas de energia entre o ser humano e o universo por intermédio da boca e aquilo que se come, bebe e se fala. Considerações finais A religião, ao lado da racionalidade, é um dos principais fatores que identificam o ser humano perante outros tipos de seres vivos. Através da religiosidade, 53 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS o indivíduo se coloca aberto ao mundo e ao poder divino que é superior a ele. A crença nesse poder, faz com que as pessoas sigam uma determinada religião e a mesma pode se manifestar em determinadas territorialidades sagradas, como é caso de uma igreja, ou dentro de si mesmas, pois assim como a cultura é internalizada pelo indivíduo, a religiosidade que contribui para a bagagem intelectual do representante social, também é internalizada e independente do território em que ele esteja a crença em algo superior está com ele. Contudo, a religiosidade, bem como a identidade das pessoas, é uma construção cotidiana e que se molda de acordo com as diversas situações que são vivenciadas. Dessa maneira, o estudo da religiosidade contribui para o estudo da identidade e obras literárias como é o caso de Avante soldados: para trás, pode nos trazer pistas fundamentais para vermos como se dão os diversos processos constitutivos da identidade do ser humano. Referências bibliográficas: CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: Edusc, 1999. ELIADE, Mircea. 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Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. 54 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS COMPARANDO O PÓS-MODERNISMO: A RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL DE QUEM NÃO SE SENTE EM LIBERDADE Amanda Laís Jacobsen de OLIVEIRA9 Wellington Ricardo FIORUCI10 1 INTRODUÇÃO Com o passar dos anos a sociedade sofre transformações inevitáveis. Ao mesmo tempo as artes, que estão intrinsecamente ligadas ao viver humano, também sofrem alterações, incluindo-se aí, de forma considerável, a literatura. Assim, é importante que voltemos os olhos atentos para o que ocorre na sociedade e nas produções literárias, só dessa forma perceberemos que a literatura atual não é a mesma de cerca de trinta anos atrás. Mas, então, o que mudou? O que permaneceu? Partindo dessas questões, o trabalho aqui apresentado busca fazer uma análise comparativista, inclusa no contexto do Pós-modernismo, a partir de dois romances: Em liberdade, do escritor brasileiro Silviano Santiago, publicado em 1981, e Respiração artificial, do argentino Ricardo Piglia, publicado em 1980. Optou-se pela análise comparada por essa possibilitar aproximar as duas obras, sem privilegiar, no entanto, nenhuma em relação à outra. Ao contrário, enriquece as características das duas, permitindo uma leitura mais completa e edificadora de sentidos. Não só evidencia suas semelhanças, como também ressalta as suas diferenças, visto que o trabalho do comparativista que apenas mostra o que as obras têm em comum acaba perdendo de vista “a determinação da peculiaridade de cada autor ou texto e os procedimentos criativos que caracterizam a interação entre eles” (CARVALHAL, 1998, p. 31). Além disso, o interessante é justamente que “o ‘diálogo’ entre os textos não é um processo tranquilo nem pacífico”, na verdade, surge aí “um local de conflito, que cabe aos estudos comparados investigar numa perspectiva sistemática de leitura intertextual.” (CARVALHAL, 1998, p. 53). Se lermos os textos mencionados a partir dessa perspectiva, percebemos que os dois possuem contribuições e reflexões infindáveis, constituindo-se em um “terreno” 9 UTFPR, Câmpus Pato Branco – [email protected] UTFPR, Câmpus Pato Branco – [email protected] 10 55 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS fértil, que de modo algum é facilitado para o leitor. Com efeito, a imersão no texto de qualquer uma das obras parece seguir problematizando e subvertendo cada vez mais os vários significados com os quais nos defrontamos, de modo que nos vemos presos em um labirinto à espera de decifração. E a literatura comparada serve assim para imbricar os labirintos, permitindo uma ampliação de compreensões, percebendo que aqui a intertextualidade pode ser observada por vários ângulos. 2 PÓS-MODERNISMO Falando em problematização e questionamento chegamos, é claro, à estética Pós-moderna. O Pós-modernismo trata mesmo de agir dentro dos princípios e ideias que deseja questionar, tentando expor o texto por si mesmo, evidenciando não o enredo ou a narrativa, mas sim o próprio processo da escrita, as minúcias da linguagem e da construção do discurso. Tenta formar um leitor que não se deixe levar pelo “labirinto”, que enfrente o texto, não com um olhar inocente, mas com uma criticidade necessária frente à sociedade na qual está inserido. Os escritores pós-modernos sabem “que o mundo mudou de alguma maneira difícil de descrever, mas inconfundível” (LEMERT, 2000, p. 42), e a condição pósmoderna se refere então à dificuldade de sentir e representar esse mundo (SANTOS, 1986). Através disso é que esses escritores tentam mudar a atitude do leitor, pois, como menciona Umberto Eco (1985), é o escritor que planeja o novo, que projeta um leitor diferente, tentando revelá-lo a si mesmo, sendo que o próprio texto quer ser, então, uma experiência de transformação para esse. Nesse caminho, os textos pós-modernos se utilizam de várias ferramentas que estão ao seu alcance, trazendo-nos uma literatura onde “não é para se acreditar no que está sendo dito, não é um retrato da realidade, mas um jogo com a própria literatura, suas formas a serem destruídas, sua história a ser retomada de maneira irônica e alegre” (SANTOS, 1986, p 39). E desconstrução aqui não diz respeito a destruir o discurso, “mas pôr a nu o não-dito por trás do que foi dito, buscar o silenciado (reprimido) sob o que foi falado” (SANTOS, 1986, p. 71). 56 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS No caso “história”, também se refere à “História”, lidando não apenas com o discurso literário em si, mas também com o discurso conhecido como “oficial Histórico”. Neste trabalho, para evidenciar todos esses importantes pontos, destaca-se, em meio a muitos dos instrumentos mencionados, o que Linda Hutcheon chama de “metaficção historiográfica” (1998, p. 141). 3 METAFICÇÃO HISTORIOGRÁFICA Os romances conhecidos como metaficções historiográficas são exemplos do que chamei anteriormente de labirintos textuais. Atualmente, é conhecido o fato de que os limites entre o texto literário e histórico são realmente difíceis de definir. Principalmente observando-se que os dois são igualmente construtos linguísticos, e que: Sem lugar a dúvidas, a disciplina histórica é filão inesgotável para a invenção poética, instituindo-se como uma plataforma de signos sobre a qual a narrativa literária engendra seus vastos mundos. Por outro lado, é indiscutível que as criações ficcionais também servem como testemunhos de épocas para interpretação histórica e que, entre os dois universos, cada qual orientado por suas próprias leis, impõem-se canais de negociação que se abrem ao estabelecimento de múltiplos sentidos. (MILTON, 2012, p 9). Por isso os romances analisados neste trabalho focam no questionamento a respeito dos limites entre esses dois gêneros. Expandindo a discussão mais além, pois, como construtos linguísticos, os dois utilizam-se muitas vezes das mesmas ferramentas para moldar a linguagem. Até que ponto a literatura é ficção e o texto histórico é realidade? É essa uma das muitas questões com as quais o leitor atento irá se deparar. Além disso, se vê frente a discursos que, por si só, põem em dúvida a referência textual, expondo a subjetividade contida, inevitavelmente, em qualquer texto. Mostra, através do uso frequente da metalinguagem, que um discurso está sempre contido em outro discurso. Assim, põe-se à prova nesses romances um jogo textual com a história que “realiza-se de maneira irônica, num jogo metalinguístico que conclama o leitor a participar ativamente como um decifrador de signos” (FIORUCI, 2012, p. 151). 57 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS 4 A RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL DE QUEM NÃO SE SENTE EM LIBERDADE No decorrer do trabalho a escolha dos dois romances se justificará por si própria, através da riqueza de significados possíveis ao compará-los. Os dois são exemplo do que foi citado anteriormente como metaficção historiográfica, e, comparados, mostram como seus autores utilizam magnificamente a linguagem para formar um leitor crítico e atento. Em liberdade, publicado em 1981, merece atenção por inúmeros motivos. Seu autor, Silviano Santiago, é um brasileiro que, além de escritor de ficção é ensaísta, e, ao narrar esse romance, coloca-se no lugar de Graciliano Ramos, em 1937, quando saiu da prisão, onde havia sido preso em função da repressão do Governo de Getúlio Vargas – também conhecido como Estado Novo. Graciliano viveu um período na casa de José Lins do Rego, juntamente com sua mulher, indo, posteriormente, morar em uma pensão, na mesma cidade do Rio de Janeiro. Ali tem um sonho com a morte do escritor Cláudio Manuel da Costa e se convence que essa não se tratou realmente de um suicídio – que é o fato conhecido oficialmente por todos nós –, acreditando que, na verdade, tudo foi forjado, e passa a dedicar-se a escrever um conto (que mais tarde se estende para um romance) para esclarecer todos os acontecimentos. O livro é, então, um “diário” que expressa todas as sensações de Graciliano frente a um Rio de Janeiro desconhecido para ele, mostrando o seu sentimento de deslocamento naquela situação. Para escrever no lugar de Graciliano, Silviano se utiliza de modo exemplar do pastiche, de tal modo que é mesmo possível – para aqueles que conhecem ao menos um pouco da obra do primeiro – identificar características próprias de sua escrita na escrita de Silviano. Respiração artificial, apesar de ter sido publicado em 1980, na mesma época de Em liberdade, está em um contexto diferente, que é a Argentina ditatorial de 1976. O livro é um romance epistolar, que revela as correspondências trocadas entre Emilio Renzi (personagem principal e alter-ego do autor) e seu tio Marcelo Maggi. Esse estava sem contato com a família há anos e começa a se corresponder com Renzi, contando que investiga os documentos de Enrique Ossorio, para tentar, através desses, reconstruir a história da Argentina. Após um tempo, marca um dia para encontrar-se com o 58 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS sobrinho, mas acaba não aparecendo, e quem recebe Renzi é um conhecido de Maggi, Tardewski. Como é possível perceber, as duas narrativas colocam, convivendo paralelamente, personagens e fatos históricos e fictícios. Compondo necessariamente a metaficção historiográfica, onde o fantástico e o realista são misturados. Juntamente com Graciliano, no primeiro livro temos José Lins do Rego, como mencionado anteriormente, e outros personagens históricos que tem contato com ele. E em Respiração artificial Emilio Renzi convive com personagens que na verdade são pessoas que realmente existiram. Assim: [...] a interação do historiográfico com o metaficcional coloca igualmente em evidência a rejeição das pretensões de representação ‘autêntica’ e cópia ‘inautêntica’, e o próprio sentido da originalidade artística é contestado com tanto vigor quanto a transparência da referencialidade histórica. (HUTCHEON, 1998, p. 147). Silviano Santiago inicia esse passeio pela linha tênue que separa a realidade da história na constituição de um romance que se trata de um diário. Pois um diário seria, teoricamente, algo real e não fictício. E o autor brinca com isso ao longo de todo o romance, lançando mão de ferramentas que tentam “enganar” o leitor, mostrando como esse pode ser facilmente levado pela construção do discurso. Primeiramente, no início do livro, justifica a publicação tardia desse, mencionando que o diário parou em suas mãos através de um conhecido seu, e que o próprio autor (Graciliano Ramos) havia exigido que fosse publicado apenas alguns anos após a sua morte. Também, em várias páginas, insere notas de rodapé que fingem “orientar” a leitura, mas na verdade agem completando o jogo literário, “iludindo” o leitor. Como quando no centro da página 18 encontramos as seguintes frases: “Não sou um rato. Não quero ser um rato.*” (SANTIAGO, 1994, p. 18), seguidas apenas de uma nota de rodapé, logo abaixo: *No centro da primeira folha dos originais, em tinta vermelha, estão escritas estas duas frases de Angústia. Foram lançadas no papel possivelmente quando numerava as páginas (coincidência na cor da tinta). Deveriam servir de epígrafe para todo o Diário. (N. do E.) (SANTIAGO, 1994, p. 18). O uso das notas de rodapé é proposital, pelo fato de que essas são geralmente utilizadas em textos tidos como oficiais, como os históricos, por exemplo. Desse modo, o autor mostra que: 59 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Até os documentos são selecionados como uma função de determinado problema ou ponto de vista. Muitas vezes a metaficção historiográfica chama a atenção para esse fato com a utilização das convenções paratextuais da historiografia (especialmente as notas de rodapé) para inserir e também debilitar a autoridade e a objetividade das fontes e das explicações. (HUTCHEON, 1998, p.162). Ricardo Piglia não usa das notas de rodapé, no entanto, abusa de algo que considero igualmente subversivo e perturbador: o romance epistolar. Mostrando que também sabe que “as fronteiras mais radicais que já se ultrapassaram foram aquelas existentes entre a ficção e a não ficção e [...] entre a arte e a vida” (HUTCHEON, 1998, p. 27). Tanto que não só insere as cartas no livro, mas forma-o através delas. De modo que se torna difícil distinguir quem é o remetente e quem é o destinatário, quem está lendo e quem está escrevendo, quando uma carta acaba e começa outra, ou mesmo quando há um diálogo “verdadeiro” no enredo. Ao passo que, em alguns pontos da leitura, enquanto nos pegamos investigando quem é qual sujeito na correspondência, temos a sensação de que o autor não deseja que tenhamos o conhecimento da referência do discurso. Além de expressar esses detalhes através da estrutura do texto, expõe essas ideias através da metalinguagem: A correspondência, no fundo, é um gênero anacrônico, uma espécie de herança tardia do século XVIII: os homens que viviam naquele tempo ainda confiavam na pura verdade das palavras escritas. E nós? Os tempos mudaram, as palavras se perdem com facilidade cada vez maior, podemos vêlas flutuar na água da história, afundar, aparecer outra vez, mescladas aos escolhos que passam nas águas. (PIGLIA, 2010, p. 28) Entretanto, quando problematizam os limites entre ficção e realidade, trazendo a História para o texto, os autores não desejam afirmar que a ficção reflete a realidade e “nem a reproduz. Não pode fazê-lo. Na metaficção historiográfica não há nenhuma pretensão de mimese simplista. Em vez disso, a ficção é apresentada como mais um entre os discursos pelos quais elaboramos nossas versões de realidade” (HUTCHEON, 1998, p. 64). O narrador quer esclarecer então que todo e qualquer discurso é uma construção, uma manipulação da linguagem, e para isso, vai inserir a metalinguagem. O que ocorre quando Graciliano (na realidade Silviano), conta como era seu modo de escrever: “Penso cada frase, pesquiso cada palavra, cada expressão. Leio a frase e releio-a diversas vezes. Procuro o ritmo dela, tento combiná-lo com o ritmo do 60 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS parágrafo e do capítulo. Se não sai boa é porque não posso fazer melhor” (SANTIAGO, 1994, p. 120). Acontece que, assim como Graciliano tentava escrever um romance colocandose no lugar de Cláudio Manuel da Costa, Emilio Renzi – em Respiração artificial – buscava escrever um romance a respeito da vida do tio, Marcelo Maggi, e esse seguia opinando na escrita de Renzi, corrigindo alguns fatos que não estariam corretos de acordo com a “realidade” de sua história, mostrando novamente como um escritor, ou o sujeito do discurso, pode moldar a história de acordo com o que deseja: “Por outro lado, dedicava-se, cada vez com menos entusiasmo, a desmentir ou ajustar alguns dos dados que eu manipulava a respeito de seu passado” (PIGLIA, 2010, p. 21). Se refere no caso ao fato de que, com o passar do tempo, Maggi já não mais realizava tantas “correções” a respeito de sua história. Vê-se, assim, que o “narrador pós-moderno sabe que o ‘real’ e o ‘autêntico’ são construções de linguagem” (SILVIANO, 2002, p. 47). De acordo com Fioruci (2012, p. 145) os romances de Piglia “abrem-nos a discussão sobre a natureza do discurso, problematizando-a, subvertendo-a, fazendo com que voltemos nosso olhar para o próprio fazer poético, para a produção do texto antes que para ele próprio”. E, percebe-se agora, o romance de Silviano também o faz, contudo, de modos diferentes, porém não menos interessantes. Se voltarmos o nosso olhar para a produção do texto em si, notamos que há mais detalhes envolvidos nesse processo do o que os quais são vistos facilmente. Como comentado anteriormente, os textos são resultados de uma construção que merece atenção minuciosa. Pensemos que todo discurso é proferido por algum sujeito, e é esse sujeito (ou sujeitos) que vai elaborar a construção da linguagem. Assim, é inevitável que a sua subjetividade esteja contida em seus textos. E a palavra “inevitável” aqui sugere que essa subjetividade estará presente mesmo quando não for proposital, pois “o que quer que escrevamos transmite sentidos que não estavam ou possivelmente não podiam estar na nossa intenção” (HARVEY, 2011, p. 54). Silviano nos exemplifica a subjetividade nas obras através de uma metáfora, quando conta o fato de que estava escrevendo e uma gota de suor sua caiu no papel: Volto à gota de suor e vejo que derreteu a palavra “proibição”. Um dia, o manuscrito será batido à máquina e o efeito da dissolução da tinta pela 61 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS superfície do papel, deixando a palavra praticamente ilegível, estará perdido. Escreve-se um livro com palavras nítidas. Se todos os gráficos do mundo começassem a suar e a deixar que o suor respingasse pelas páginas impressas! Teríamos uma revolução semelhante à de Gutenberg, só que às avessas: os livros voltavam a trazer de novo a marca do homem que os produz. (...) Se não me engano, esta página é totalmente inútil. Mas vou conservá-la. É a gota de suor deste manuscrito. Não deve desaparecer quando passar a limpo o manuscrito. (SANTIAGO, 1994, p.102). Levanta assim “a questão incômoda (...) do poder ideológico por trás de aspectos estéticos como o da representação” (HUTCHEON, 1998, p. 232). Piglia o faz com a intertextualidade: No fim, eu escrevera um romance com a história, usando o tom de As Palmeiras Selvagens, ou melhor: usando os tons que Faulkner adquire quando traduzido por Borges, com o quê, sem querer, o relato ficou parecendo uma versão mais ou menos paródica de Onetti. (PIGLIA, 2012, p. 12). O autor levanta também a questão da tradução, pois se um autor, ao escrever não consegue evitar que sua subjetividade fique implícita ao texto, também não o faz o tradutor que, ao trazer o texto de uma língua para outra faz escolhas que implicam nos sentidos da obra. Além disso, observemos a citação feita anteriormente (de Respiração Artificial), que diz respeito às correspondências, em: “as palavras se perdem com facilidade cada vez maior, podemos vê-las flutuar na água da história, afundar, aparecer outra vez, mescladas aos escolhos que passam nas águas” (PIGLIA, 2010, p. 28). Tratase também de uma metáfora para esclarecer que, ao longo do tempo, o discurso que é repetido por diferentes sujeitos vai sendo modificado e acrescentado da subjetividade de quem o profere ou escreve. Nesse caminho, chegamos a um ponto importante dos questionamentos pósmodernos: a presença do discurso do outro. Se um texto é repetido ao longo da história, é repetido por sujeitos diferentes que, como mencionado, inevitavelmente acrescentam a sua subjetividade a ele. E é por isso que o pós-modernismo busca, de acordo com Hutcheon (1998), desgastar o velho senso sobre o que significam a história e a referência. Trazendo o discurso do outro para dentro do texto, fica, a certo ponto, difícil identificar quem é a “primeira” referência textual de determinado discurso. 62 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Tomemos Em liberdade, por exemplo. Ao final do livro, temos Graciliano escrevendo no lugar de Cláudio Manuel da Costa, mas ainda devemos lembrar que quem escreve no lugar do próprio Graciliano é Silviano Santiago, construindo sua ficção, através de “fatos históricos”, utilizando ainda o pastiche e alguns instrumentos que facilmente envolvem um leitor desatento, fazendo-o acreditar que o “diário” é real. Desse modo, como identificar o que é real e o que é fictício? Como identificar o que é discurso de Cláudio, Graciliano ou Silviano? Temos o relato de Graciliano (Silviano) quando fala sobre o desejo de escrever sobre a morte de Cláudio: “Tem de haver uma identificação minha com Cláudio, espécie de empatia, que me possibilite escrever a sua vida como se fosse minha, escrever a minha vida como se fosse a sua” (SANTIAGO, 1994, p. 226). Piglia, além de colocar Emilio Renzi tentando escrever a história de Marcelo Maggi, escreve através de recursos que introduzem, claramente, a citação de outros discursos. Não a citação de textos científicos, mas a informal, que comenta o que um outro sujeito disse. Como em: “Com as regras atuais, diz ele, escreve-me Maggi, a coisa não vai para a frente [...]” (PIGLIA, 2010, p. 20). Percebe-se nesse excerto que Emilio Renzi lê a carta escrita por Maggi, e que esse se apodera da fala de outro personagem. Nesse caso temos então em primeiro plano a fala desse outro, a escrita de Maggi e, por fim, a leitura de Renzi. Constituem-se assim no mise em abyme, onde um discurso se encontra em outro. Fica claro então que os escritores “que criam textos ou usam palavras o fazem com base em todos os outros textos e palavras com que depararam, e os leitores lidam com eles do mesmo jeito”, desse modo, a “vida cultura é, pois, vista como uma série de textos em intersecção com outros textos, produzindo mais textos” (HARVEY, 2011, p. 53). Também, já na parte final do livro, durante um dos diálogos de Renzi com Tardewski, surge um comentário sobre os textos de Sócrates: “Mais impiedoso e mais sombrio do que Sócrates, ou pelo menos do que Platão nos fez acreditar que fosse Sócrates.” (PIGLIA, 2010, p. 148). Aqui a caixa de textos – e, portanto, a discussão a respeito da referência – e também, consequentemente, a questão sobre a subjetividade. O que, no caso, é trazido para algo mais óbvio e conhecido da maioria dos leitores: só podemos ler Sócrates através de Platão, então como ter certeza que realmente 63 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS “conhecemos” aquele? Não é possível, pois Platão, ao escrever, inevitavelmente acrescentou a sua subjetividade aos textos. Se qualquer texto sofre influência da subjetividade e, além disso, sempre já é a leitura de um outro texto, isso também ocorre com o discurso histórico. E é com esse fato em mente que o pós-modernismo deseja que façamos as leituras críticas diante das mais diversas informações a que estamos expostos. Destarte, o pós-modernismo de modo algum nega a História, pelo contrário, ela está sempre contida em suas narrativas, resgatada pela experiência ou o discurso dos personagens. No entanto, como afirma Umberto Eco (1985), ele reconhece que o passado deve ser revisitado, mas com ironia, de modo não inocente. Em Respiração artificial Piglia traz essa questão em uma das discussões entre Renzi e Maggi, por correspondência: Efeito, parece-me, não tanto da história propriamente dita, como você insinua, mas antes do exercício da profissão de historiador: dedicado como está a remexer no mistério da vida de outros homens [...], você terminou se parecendo com o objeto investigado. (PIGLIA, 2010, p. 78). Além de vários trechos da obra onde conta e discute a História da Argentina, o autor faz reflexões com referência aos textos históricos e ao historiador. Mostrando que esse também é repleto das implicações contidas nos textos literários, ou de qualquer outro. Carregando a subjetividade de quem o profere, envolvendo o seu leitor, que não pode evitar ser influenciado por ela, a não ser que mantenha o seu olhar crítico e atento. O que consiste no desejo do narrador pós-moderno. Já em Em liberdade, quando Graciliano faz uma pesquisa minuciosa, procurando dados a respeito da Inconfidência Mineira e de Cláudio M. da Costa, também passa a refletir o papel do historiador: Tarefa ingrata a do historiador que se interessa pelos acontecimentos que se passaram durante anos de repressão e de perseguição. Resta-lhe a análise de documentos que nem sempre são dignos de confiança. O historiador é obrigado a contestar a ‘verdade’ do documento, entrando em choque com eruditos que acreditam piamente na letra. (SILVIANO, 1994, p. 237). O excerto sugere que o trabalho do historiador quando deve investigar documentos que se referem à época de repressão é mais árduo ainda do que o de outros tempos, pois, ao escrever, até mesmo um historiador não pode evitar que sua 64 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS subjetividade, o seu ponto de vista, esteja incluso nos “documentos oficiais”. É importante observar que a narrativa está contextualizada na época da repressão exercida pelo Governo de Getúlio Vargas Ditadura Militar brasileira, e é a isso que fazem alusão os “anos de repressão e de perseguição”, a isso e à Inconfidência Mineira – objeto de pesquisa de Graciliano no momento textual. Assim, expõe o fato de que, durantes esses períodos, os textos e documentos considerados oficiais são mesmo manipulados, geralmente por quem detém o poder, para conter o que lhes é útil e interessante, escondendo muitas vezes os fatos que realmente ocorreram. Desse modo, é revelada “a preocupação por parte de quaisquer que sejam as instâncias discursivas pós-modernas em relativizar conceitos e paradigmas, admitindo a possibilidade de todo e qualquer discurso ser provisório e historicamente condicionado” (FIORUCI, 2012, p. 150). Ainda com relação aos períodos de repressão, tratando-se os dois livros das épocas de ditadura dos dois países onde estão contextualizados, é importante notar que a linguagem é também utilizada como “uma prática social, um instrumento para manipulação e controle” (HUTCHEON, 1998, p. 237), assim fica mais claro que devemos tomar atenção aos textos e documentos a que temos acesso, principalmente no que diz respeito a esses períodos. Silviano Santiago aplica o mencionado quando narra, por Graciliano, contando que seus amigos desejavam que escrevesse um romance que discorresse sobre o tempo que passou na prisão, em virtude da repressão do Estado Novo: Seria o documento definitivo contra a caça aos comunistas no Brasil, avançava um; finalmente teríamos o retrato fiel da intolerância política dos poderosos por alguém que a tinha sofrido na própria pele, vislumbrava outro; só assim começaremos a pôr um freio nesses militares [...]. (SANTIAGO, 1994, p. 59) Esse trecho contém não somente a discussão referente aos limites entre realidade e ficção – pois como poderia um romance (sendo fictício) relatar o que ele viveu? – como também a exposição da possibilidade da manipulação das ideologias contidas no texto, juntamente com as subjetividades de quem está proferindo o discurso. Fica claro, assim, que o narrador pós-moderno sabe que “como relato narrativo, a história é inevitavelmente figurativa, alegórica e fictícia; ela é sempre já textualizada, sempre já interpretada” (HUTCHEON, 1998, p. 185). 65 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Por isso, “o pensamento pós-moderno se preocupa menos com os fatos, preferindo deter-se sobre as interpretações destes”, sabendo que também o fato é “uma verdade relativamente interpretada” (FIORUCI, 2012, p. 150). Assim como diz Piglia: Claro; a teoria da relatividade. A presença do observador altera a estrutura do fenômeno observado. Assim, a teoria da relatividade é, como o nome indica, a teoria da ação relativa. Relativa, de relata: narrar. O que narra, o narrador. Narrator, diz Maier, quer dizer: aquele que sabe. (PIGLIA, 2010, p. 103). Por fim, chamo atenção aos títulos dos dois romances, que são igualmente perturbadores. Deixei-os para o final deste trabalho por pensar que, após a caminhada através da leitura das duas obras, torna-se mais rica a interpretação desses. A impressão que nos dão é que seus autores provavelmente concordam plenamente com Umberto Eco quando diz que “um título deve confundir as ideias, nunca discipliná-las” (1985, p. 9). No caso de Em liberdade, a primeira conexão que fazemos é com o fato de que o livro narra a história de Graciliano após ter saído da prisão. No entanto, no decorrer da leitura, percebemos que Graciliano de modo algum se sente livre. Na realidade, percebemos que está cada vez mais reprimido, por uma sociedade e um ambiente ao qual não se encaixa, no qual está exilado. Também se sente um pouco humilhado por ter que morar de favor na casa de José Lins do Rego. Podemos notar isso em vários trechos, nos quais comenta a dificuldade em escrever, não por falta de palavras a transcrever, mas por não “Encontrar uma razão para a necessidade de deixá-las existir no papel e no livro: eis a questão. Fora de mim e para o outro.” (SANTIAGO, 1994, p. 22). Ou quando se questiona muitas vezes: “Será que tudo isso tem a ver com o fato de ter nascido no Nordeste?” e “Serei sempre um perseguido, ou sou eu que só posso aceitar-me na condição de perseguido?” (SANTIAGO, 1994, p. 27). Expressa então, também, a falta de liberdade em relação ao discurso, à construção textual, devido às já mencionadas subjetividade e ideologias inevitáveis. Respiração artificial é uma expressão conturbadora por si só. Mescla um ato que, normalmente, é natural, sem intervenção do homem. Contudo, “artificial” sugere exatamente o contrário. Provavelmente Piglia quer nos causar essa sensação de desconforto, de não conformidade perante o termo. Pois é essa justamente a intenção do pós-modernismo, chamar a atenção para o fato de que “Tudo o que nos rodeia [...] é 66 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS artificial: tem as marcas do homem.” (PIGLIA, 2010, p. 28), incluindo todo tipo de texto e discurso. 5 CONCLUSÃO Desse modo, através da leitura desses instigantes romances, percebemos um pouco das ferramentas utilizadas pelo pós-modernismo, com o objetivo de formar um leitor mais crítico e atento. Silviano Santiago o faz trazendo a História brasileira juntamente com um renomado escritor, de maneira irônica, até mesmo sarcástica, jogando com o leitor, não sendo óbvio em momento algum, mostrando a ele que deve tomar cuidado ao imergir no “labirinto”, pois as instruções que recebe podem ser totalmente falsas. Ricardo Piglia traz a História da Argentina, mas como que a reconstrói através das correspondências e dos diálogos entre os personagens principais. Envolvendo o leitor de tal modo que esse pode facilmente se perder em seu labirinto. E o principal é que, muitas vezes, temos a sensação de que o autor não deseja que a investigação do texto revele os caminhos intricados que encontramos. O importante é notar, através da análise comparada dessas duas obras, que “a narrativa pós-moderna funciona como uma confluência de olhares, de palavras, um convite à reflexão, e não uma mera exposição de ideias prontas” (FIORUCI, 2012, p. 155). O que o narrador pós-moderno deseja é desestabilizar o leitor, para que esse perceba que deve ser menos inocente diante do bombardeamento de informações a que estamos diariamente expostos. Formando-o como alguém mais ativo na sociedade. E, para isso, irá provocar reflexões e questionamentos, sem entregar conclusões prontas a ele, permitindo e auxiliando para que construa a si próprio como pensador. Como cita Fioruci (2012, p. 159) “o pensamento pós-moderno quer, acima de tudo, que sejamos mais participativos e menos contemplativos como sujeitos históricos, tomando consciência de nossas expectativas em relação à interpretação da realidade que nos envolve”. 67 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS 6 REFERÊNCIAS CARVALHAL, Tania Franco. Literatura Comparada. 3. ed. São Paulo: Ática, 1998. ECO, Umberto. Pós-escrito a O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. FIORUCI, Wellington Ricardo. O labirinto da escritura: ficção e memória nas poéticas de Ricardo Piglia e Umberto Eco. In: FIORUCI, Wellington Ricardo; FIORUCCI, Rodolfo. (Org.). Vestígios de memória: diálogos entre literatura e história. Curitiba, PR: CRV, 2012. p. 145-160. HARVEY, David. Pós-modernismo. In: HARVEY, David. Condição Pós-moderna. 21. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011. p. 45-67. HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991. LEMERT, Charles. Pós-modernismo não é o que você pensa. São Paulo: Edições Loyola, 2000. MILTON, Heloisa Costa. A literatura lê a história, a história não deixa de ler a literatura. In: FIORUCI, Wellington Ricardo; FIORUCCI, Rodolfo. (Org.). Vestígios de memória: diálogos entre literatura e história. Curitiba, PR: CRV, 2012. p. 9-14. PIGLIA, Ricardo. Respiração artificial. São Paulo: Companhia de Bolso, 2010. SANTIAGO, Silviano. Em liberdade. 4. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. SANTIAGO, S. O narrador pós-moderno. In: SILVIANO SANTIAGO. Nas malhas da letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 44-60. SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1986. 68 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS CRÍTICA POLÍTICA E FALSA DEMOCRACIA EM ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ Nataly Yolanda Capelari dos SANTOS11; Josiele Kaminski Corso OZELAME12 RESUMO: Nosso trabalho visa demonstrar e identificar, mediante uma análise literária da obra Ensaio sobre a lucidez, de que modo o escritor José Saramago, falecido no século XXI, critica explicitamente a organização política das nações (já que não se refere a uma em particular) e seu falso status de democracia. Quanto à metodologia da pesquisa utilizaremos a de caráter bibliográfico e eletrônico e, assumiremos como base teórica principal, as ideias de Antonio Candido (1985), Antoine Compagnon (2001), Leyla Perrone-Moisés (1990). PALAVRAS-CHAVE: José Saramago; Ensaio sobre a lucidez; Crítica política. INTRODUÇÃO José Saramago critica a organização política e as atitudes de repressão tomadas pelos controladores do poder, quando “ameaçados”, de uma forma magistral. Sob a máscara de metáforas, personagens, cidades ilusórias, ironias e sarcasmos o autor retrata uma situação de falsa democracia e critica os sistemas políticos. Segundo Deize Esmeralda Cavalcante Nunes Lima (2008), ele utiliza esses e outros recursos para descrever o que um governo em crise é capaz de fazer para não perder o controle da situação e fazê-la voltar à “normalidade”, chegando a alegar em caso extremo, que o direito ao voto em branco, não é mais democrático. Levando isso em consideração, nosso objetivo principal é fazer uma análise literária da obra Ensaio sobre a lucidez e identificar nela como José Saramago relê a organização política de uma sociedade, sob a égide de uma falsa democracia. Para tanto, faz-se necessário, pesquisas bibliográficas e análise literária acrescidas de fundamentos teóricos diluídos na produção de escrita crítica. Nesse sentido, cabe destacar que ele abrangerá o estudo da construção das personagens e da sociedade numa perspectiva comparatista. Partindo disso, faremos, primeiramente, uma breve síntese da obra em questão. Levaremos em conta, também, o sentido da palavra democracia. Em seguida, descreveremos as relações existentes entre a obra e a sociedade na qual ela é criada. Para finalizar, extrairemos do texto recursos que nos permitam identificar os elementos 11 12 UNIOESTE – [email protected] Orientadora – UNIOESTE - [email protected] 69 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS dos quais José Saramago se utiliza para expressar sua crítica ao sistema político. Assim, voltar-nos-emos para a Literatura Portuguesa, sobretudo no que se circunscreve ao estilo contemporâneo de José Saramago, observando a produção saramaguiana à luz da Teoria da Literatura. ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ: BREVE SÍNTESE José Saramago nasceu no povoado de Azinhaga, nordeste de Lisboa em 16 de Novembro de 1922 e faleceu em 18 de Junho de 2010 nas Ilhas Canárias. Seu nome deveria ser apenas José de Sousa, assim como de seu pai, entretanto, um funcionário do Registro Civil, por iniciativa própria, acrescentou o nome pelo qual a família de seu pai era conhecida: Saramago. Segundo o próprio escritor, (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago...13 Foi crítico político, escritor, tradutor, sociólogo e romancista. Ganhou o Prêmio Camões em 1995 e o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Escreveu diversos livros, sendo o de interesse neste trabalho Ensaio sobre a lucidez, publicado em 2004. A obra gerou muitas polêmicas e foi recebida pela mídia com repúdio, pois segundo esta a narrativa era um “atentado à democracia” e visava destruí-la (irônico, mas este é o mesmo pensamento dos governantes da capital a respeito dos oitenta e três por cento de votos em branco, na narrativa). A imprensa ainda dizia que a obra era uma referência a uma grande abstenção de votos ocorrida em Portugal, anteriormente a sua publicação. Concernente a esse aspecto, José Saramago, afirmou que sua pretensão com Ensaio sobre a lucidez, era abrir os olhos da população atinente à política, para que vigiassem a “democracia” e refletissem se, realmente, esta existia. 13 Texto retirado da Autobiografia de José <http://www.josesaramago.org/>. Acesso em: 29/03/2011. Saramago publicado no site 70 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Em uma entrevista a respeito da obra, realizada por Elias Torres, o repórter compara a obra àquela abstenção de votos ocorridos em Portugal e coloca o pensamento de um sujeito, não nomeado, a respeito dos votos em branco tratados na obra serem “niilismo político”. Saramago assim responde: Afirmar que o voto em branco é um 'niilismo político' é, ao mesmo tempo, umha irresponsabilidade e umha estupidez. É umha irresponsabilidade porque dessa maneira se quer ocultar o significado de contestaçom ao sistema de um voto tam legitimamente democrático como aquele em que tivessem sido expressas opçons partidárias. E é umha estupidez simplesmente porque ofende a inteligência. Essa acusaçom de 'niilismo político' e outras de jaez semelhante só mostram a que alturas chegou o pánico dos comentaristas e da classe política em Portugal. E o obstinado silêncio 'político' que em Espanha tem rodeado o livro fai-me recordar o ditado que di que nom se deve falar da corda em casa do enforcado (SARAMAGO, 2004, s/p). Com relação à obra, a narrativa começa relatando o ocorrido em um dia chuvoso de eleições, onde pouquíssimas pessoas comparecem para votar durante a manhã, deixando o governo preocupado. Mas tudo parece voltar ao normal quando elas aparecem ao fim da tarde para exercer sua cidadania. Entretanto, quando os votos são verificados, constata-se que mais da metade da população votou em branco. O governo vigente, na hipótese de um complô contra o sistema, busca incessantemente o indivíduo (ou grupo) desencadeador dessa manifestação lúcida, já que “diante do desconhecido, há o incômodo e a conseqüente intolerância que leva ao desejo de eliminação deste incômodo” (SILVA, 2006, p.25). Sem nada encontrar, o governo submete a cidade, em primazia, a um estado de sítio. Eles acreditavam que a população, em pouco tempo, se encontraria em caos já que estava sem os recursos básicos promovidos pelo governo; o que não ocorreu, visto que a população, por exemplo, saia às ruas com suas vassouras para limpá-las e se organizavam para manter tudo em sua devida ordem. O governo decide, então, enviar um comissário de polícia para investigar se os acontecimentos dos votos brancos teriam alguma relação com a mulher de um médico, que durante a cegueira branca, ocorrida há quatro anos, foi a única que não cegou. O comissário, um inspetor e um agente partem para a investigação, mas estes, não encontram indícios da relação daqueles com o “atentado à democracia” feito através dos votos em branco. 71 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O comissário pede ao ministro que o retire do caso, e este diz que o retirará quando a situação estiver solucionada e que o comissário deve encontrar provas, mesmo se for preciso criá-las para incriminar a todos os amigos da mulher do médico, e a ela própria. Ele vai à casa da mulher do médico e conta sobre sua missão e os riscos que os sujeitos ali presentes correm já que, mesmo não tendo provas contra eles, o ministro teria afirmado que encontraria formas de culpá-los. O governo, através de um jornal, com a foto dos componentes do grupo que a mulher do médico cuidou quando todos cegaram, culpa o grupo. Agentes são mandados para levar o médico à delegacia para interrogatório. A mulher do médico fica em casa a chorar. O que sucede são três tiros e dois “animais” mortos no chão. DEMOCRACIA – O QUE É AFINAL? Para que possamos discorrer acerca da obra e poder analisá-la de modo claro, faz-se importantíssimo definir o sentido de democracia, para que se compreenda a falsa democracia apontada em Ensaio sobre a lucidez. Conforme o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, democracia significa: democracia: S.f (1671) POL 1 governo em que o povo exerce a soberania 2 sistema político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes por meio de eleições periódicas 3 regime em que há liberdade de associação e de expressão e no qual não existem distinções ou privilégios de classe hereditários ou arbitrários (...) d. representativa POL organização social em que o povo, através de eleições, outorga mandatos a representantes que passarão a exercer a autoridade em seu nome (HOUAISS;VILLAR;FRANCO, 2009, p.612, grifos do original). No Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa a palavra está assim designada: democracia [Do gr. Demokrátia.] S.f. 1. Governo do povo; soberania popular; democratismo. [Cf. vulgocracia.] 2. Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo 72 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade (FERREIRA, 2010, p.653). Em ambos os dicionários, a palavra diz respeito a uma forma de governo onde a população participa e é soberana, elegendo as pessoas que irão representa-las, sem distinções de classes. Nesse caso, em qualquer sistema no qual o povo tenha a liberdade participar direta ou indiretamente na forma de organizar e governar uma sociedade existe a democracia. AS RELAÇÕES ENTRE ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ E A SOCIEDADE As relações entre a obra em análise e a sociedade ocorrem, quase que exclusivamente, mediante a mimèses da sociedade. Isso ocorre porque, a linguagem é o único elemento propriamente real existente em uma narrativa, e um instrumento que não pode nem consegue copiar fielmente a realidade, apenas referir-se a ele inovadora e criativamente. Segundo Leyla Perrone-Moisés, dizer as coisas é aceitar perdê-las, distanciá-las e até mesmo anulá-las. A linguagem não pode substituir o mundo, nem ao menos representa-lo fielmente. Pode apenas evocá-lo, aludir a ele através de um pacto que implica a perda do real concreto (PERRONE-MOISÉS, 1990, p.105). Pronunciar que a literatura imita o real de forma modificada ou que faz referência a ele é a mesma coisa que afirmar que a obra ficcional é mimética à realidade. Contudo, essa ação mimética aqui é adotada de acordo com a terceira releitura de A Poética de Aristóteles, feita por Antoine Compagnon (2001), como uma forma especial e diferenciada de falar sobre o mundo real, mesmo que transformado e inovado, na literatura. Falar em mimèses, nesse sentido, é o mesmo que falar sobre a verossimilhança para nos fazer refletir sobre alguns aspectos sociais da obra. Segundo Antonio Candido (1985), devemos ter consciência de que um trabalho artístico não é uma expressão fiel 73 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS da realidade, já que o real é real somente num dado momento, lugar e horário, e que um segundo passado já muda todo o real anterior. Ainda segundo o crítico, essa descrição do real é deformante justamente para torná-lo mais expressivo, causando no leitor um sentimento de verdade, que o faz acreditar nessa “traição metódica” do trabalho artístico. Entretanto, “a aparência da realidade não renega o seu caráter de aparência. Não se produzirá, na ‘verdadeira ficção’, a decepção da mentira ou da fraude” (CANDIDO 1985, p. 21). Ou seja, na “verdadeira ficção” não existe uma decepção quanto à aparência da realidade na literatura, ela é feita de tal modo que o sentimento de fraude ou mentira não aparece. Por isso, quando lemos o Ensaio sobre a lucidez, encontramos uma sociedade parecida com a nossa, tanto no que condiz à grande influência da mídia, que segundo Flávia Belo Rodrigues da Silva (2006), ao invés de levar informações, as distorce, manipula e molda segundo os interesses de uma elite dominante, governamental. Além disso, a narrativa se desenvolve a partir de um acontecimento político, que são as eleições e os votos em branco, aspectos referenciados à nossa realidade, visto que também nela existem eleições, leis, partidos, governantes e votos em branco. Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembleia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado (...). Cumprimentou primeiro os colegas da mesa que actuariam como escrutinadores, depois os delegados dos partidos e seus respectivos suplentes. Teve o cuidado de usar para todos as mesmas palavras, não deixando transparecer na cara nem no tom de voz quaisquer indícios que permitissem perceber as suas próprias inclinações políticas e ideológicas (SARAMAGO, 2004, p. 11). A questão da democracia, onde a população participa do governo, mediante o voto e os discursos pretensiosos dos políticos também são copiados, porém, modificados, pois não se tem conhecimento de nenhum caso, até o momento, em que mais de oitenta por cento da população tenha votado em branco: e se, com o mais profundo pesar, pronuncio esta palavra, é porque aqueles votos em branco, que vieram desferir um golpe brutal contra a normalidade democrática em que decorria a nossa vida pessoal e colectiva, não caíram das nuvens nem 74 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS subiram das entranhas da terra, estiveram no bolso de oitenta e três em cada cem eleitores desta cidade, os quais, por sua própria, mas não patriótica mão, os depuseram nas urnas (SARAMAGO, 2004, p.37). Nesse excerto, o voto em branco que deveria ser o mais verdadeiro ato de democracia para os representantes do sistema, pois é direito da população e demonstra sua insatisfação e descontentamento perante os governantes; é considerado como um elemento que acabou com a normalidade da vida da capital, um atentado à democracia. O governo vigente, quando afirma que esse ato é um atentado democrático, coloca aos olhos do leitor a questão que é o tema desse trabalho: A democracia realmente existe? Se ela existisse, de fato, porque os personagens no poder, na narrativa diriam que o direito da população era uma destruição à democracia, se estas estavam participando das decisões políticas de uma sociedade? Assim, sob à égide de uma falsa democracia, ou seja, na negação de que tantos votos em branco não poderiam ter saído da cabeça de cada indivíduo, mas ter sido instigado por um grupo subversivo, de que não poderia ser democrático o votar em branco o governo reafirma seu poder de manipulação e de repressão sob um grupo que tenta resistir, mas não obtém êxito: O governo (...) reivindica e assume como sua imperiosa e urgente obrigação apurar até às últimas consequências os anómalos acontecimentos de que fomos, durante a última semana, além de atónitas testemunhas, temerários actores, e se, com o mais profundo pesar, pronuncio esta palavra, é porque aqueles votos em branco, que vieram desferir um golpe brutal contra a normalidade democrática em que decorria a nossa vida pessoal e colectiva, não caíram das nuvens nem subiram das entranhas da terra, estiveram no bolso de oitenta e três em cada cem eleitores desta cidade, os quais, por sua própria, mas não patriótica mão, os depuseram nas urnas (SARAMAGO, 2004, p.37, grifos nossos). Saramago crítica explicitamente a suposta democracia desse governo, não somente desse, mas de vários outros metaforicamente. As palavras escolhidas para descrever a fala do primeiro-ministro, anómalos acontecimentos, normalidade democrática, mas não patriótica mão, revelam que a democracia não existe quando qualquer ato ameaça a hegemonia de um sistema. Até o momento das eleições, todos 75 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS eram cidadãos que iriam votar com alegria e satisfação. Depois de exercerem seus direitos e participarem do governo de sua cidade, são pessoas que se afastam da organização a qual pertencem e provocam acontecimentos bizarros e anormais, que FEREM BRUTALMENTE os sentimentos dos governantes, que acabam com a normalidade democrática, e que agora não são mais patriotas, porque exerceram seu dever. Somente um leitor desatento, despreparado e cego não poderia ver essa magnífica crítica de Saramago. A ironia da qual o escritor se utiliza a todo momento para descrever a fala do primeiro-ministro e de seus companheiros é também uma forma de criticar. O cinismo desses sujeitos ao produzirem seus enunciados, a asquerosidade de sua fala e a revolta que isso causa no leitor é assustador: “O primeiro-ministro reconheceu que a gravidade da situação era extrema, que a pátria havia sido vítima de um infame atentado contra os fundamentos básicos da democracia representativa” (SARAMAGO, 2004, p.41, grifos nossos). A crítica também é realizada sobre a maneira desse governo lidar com a situação que representa riscos para sua hegemonia, colocando uma capital sob vigilância direta, como se a população fosse o inimigo que avança em uma guerra entre a vida e a morte, e é necessário armar-se e se precaver dela: À mesma hora que o primeiro-ministro aparecia na televisão a anunciar o estabelecimento do estado de sítio invocando razões de segurança nacional resultantes da instabilidade política e social ocorrente, consequência, por sua vez, da acção de grupos subversivos organizados que reiteradamente haviam obstaculizado a expressão eleitoral popular, unidades da infantaria e da polícia militarizada, apoiadas por tanques e outros carros de combate, tomavam posições em todas as saídas da capital e ocupavam as estações de caminho-de-ferro (SARAMAGO, 2004, p.68). Situações são criadas pelos governantes para convencer eles próprios e as pessoas de algo que elas mesmas fizeram lucidamente, tentando persuadir uns quantos ignorantes que acreditam na falsidade e hipocrisia dos políticos, como a bomba lançada pelo metrô, não se sabe por quem (mas, o governo sabe, pois ele próprio a implantou). Nas relações entre o primeiro ministro e comissário de polícia, as intenções dos governantes são postas aos olhos dos leitores. A cada diálogo, compreendemos que esses sujeitos são capaz de fazer coisas que julgaríamos praticamente impossíveis para manter sua hegemonia e o controle do povo. Culpar até mesmo uma pessoa que, todas 76 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS as investigações e fatos demonstram ser inocente, para garantir que tudo volte “aos carris de sempre”, à sua normalidade. Normalidade? Será? Pensemos se é realmente normal um ser culpar seu semelhante para garantir-se no poder. Não o é. Talvez comum, mas nunca normal! A banalização das ideias, dos sentimentos e da vida, faznos acreditar que tudo é natural, e nos faz perder a compaixão e o sentimento de solidariedade e amor ao próximo. diga-me, simplesmente (...) se pode afirmar que a mulher do médico tem responsabilidade no movimento organizado para o voto em branco (...) Não, albatroz, não o posso afirmar, Porquê, papagaio-do-mar, Porque nenhum polícia do mundo (...) encontraria o menor indício que lhe permitisse fundamentar uma acusação dessa natureza, Parece ter-se esquecido de que havíamos acordado em que plantaria as provas necessárias (...) Está disposto, à margem das suas convicções pessoais, a afirmar que a mulher do médico é culpada, responda sim ou não, Não senhor ministro, Mediu as consequências do que acaba de dizer, Sim senhor ministro (SARAMAGO, 2004, p.277, grifos nossos). Personagens são manipulados e amedrontados, como o primeiro homem a cegar, o delator que envia a carta estúpida aos governantes, talvez por vingança ou vergonha contra a mulher que foi violentada por um sujeito arrogante para alimentá-lo; a mídia que torna-se a ferramenta principal de transmissão das falácias e charlatanice dos que estão no poder; o profissional que, inicialmente, deixa-se levar pela crença de estar ajudando o seu país, mas que abre os olhos para a sujeira existente no sistema e se revolta, se posiciona contra eles, contudo, como ficou lúcido de seu ato é eliminado por covardes simulados. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em Ensaio sobre a lucidez, José Saramago expõe, quase que em sua totalidade, explicitamente a crítica estupenda que faz aos sistemas políticos que enganam os indivíduos com diversos discursos, mas que atuam de forma ridícula e desrespeitosa. Esses sujeitos que se utilizam da esperança dos cidadãos por uma sociedade onde possam opinar e participar, para atuarem sob uma falsa democracia. 77 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Os governantes são expostos como corruptos, hipócritas, covardes e capazes de tudo para não perder o poder e o cargo. A sociedade é regida por esses indivíduos horríveis que compõem o sistema putrefato que age sob as égides da pressão e do medo para sobreviver e tira proveito dos indivíduos que vivem em conflito com eles próprios e o com os outros. A forma que Saramago critica o sistema político chama a atenção do leitor, que após terminar a leitura da narrativa, sente que aquela sociedade é também a sua, que o sistema e os governantes são muito semelhantes aos seus. Esse mesmo leitor que no fim está perplexo, enojado e revoltado com o que acontece na obra, que reflete sobre a questão da existência da democracia em sua sociedade, o modo como ela está acontecendo. Segundo Alexandre Vincenzo Barone (2005 apud OZELAME, 2010, p.117), mediante a observação do poder que a sociedade contemporânea exerce para controlar a consciência dos seres humanos, e por intermédio de sua literatura esperançosa de um mundo diferente, de uma possível redenção, é que o escritor combate esses poderes. Ou seja, embora Saramago se utilize da criação literária para expor suas indignações, aproveita-a da mesma forma para transmitir uma mensagem de que se a obra de ficção não perdeu de todo sua esperança em um mundo melhor, nós também não deveríamos. REFERÊNCIAS CANDIDO, A. (org.). Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 7ª ed. São Paulo: Nacional, 1985. COMPAGNON, A. O mundo. In: ___. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Tradução de Cleonice Paes Barreto Mourão, Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001. p.97-138. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Coordenação Maria Baird Ferreira, Margarida dos Anjos. 5. ed. – Curitiba: Positivo, 2010. 2272p. 78 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro Salles; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Elaborado pelo Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa S/C Ltda. 1. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. LIMA, D. E. C. N.. Cegueira e Lucidez: os ensaios de Saramago. 2008. 116 p. Dissertação (Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural) – Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana, 2008. OZELAME, J. K. C.. O duplo, a lucidez e a morte: olhares críticos. 2010. 195 p. Tese (Doutorado em Literatura) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão. Florianópolis, 2010. PERRONE-MOISÉS, L. A criação do texto literário. In:___. Flores da escrivaninha: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. P. 100 a 110. SARAMAGO, J. Autobiografia. Fundação José Saramago. Disponível em: <http://www.josesaramago.org> Acesso em: 29-03-2011. ___. Ensaio sobre a lucidez. Lisboa: Editorial Caminho, 2004. ___. José Saramago: a polémica lucidez. nº 84, Tempos Novos, agosto 2004. Entrevista concedida a Elias Torres. Portal Galego da Língua, 22 jun. 2010. Disponível em:<http://www.pglingua.org/noticias/entrevistas/2552-entrevista-de-elias-torres-ajose-saramago>. Acesso em: 15 ago. 2012. SILVA, F. B. R. da. Entre a cegueira e a lucidez: a tentativa de resgate da essência humana nos “ensaios” de José Saramago. 2006. 115 p. Dissertação (Mestrado em Literatura Portuguesa) – Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2006. 79 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS DITO DE OUTRO MODO: VARIAÇÕES EM TORNO DO VAMPIRO RUTHVEN, 1819-1820 (IDENTIDADES NACIONAIS & GÊNERO LITERÁRIO) Bruno BERLENDIS DE CARVALHO14 Foi com prazer que recebi o convite para participar do VI Encontro Internacional de Letras da Unioeste. Estou em pleno processo de redação de minha dissertação de mestrado e tenho aproveitado ocasiões como esta para elaborar melhor alguns aspectos de minha pesquisa, com a vantagem mais do que oportuna de poder submetê-los ao debate e ao crivo de colegas pesquisadores e professores da área. O meu objeto são as condições de constituição de um campo simbólico e narrativo, centrado na temática literária do vampiro. Gostaria de fazer aqui algumas considerações sobre como dois grupos de obras literárias de um período chave para a consolidação do vampiro ficcional representaram o exótico, e também como tal simbologia é contrastada ou fundida à do regional. O recorte me foi sugerido por algo que acreditei depreender dos resumos das duas outras colaborações desta mesa-redonda: as tantas maneiras como a criação literária pode dialogar com o que costumamos de chamar de “realidades” sociais, históricas, geográficas; como representá-las e inventá-las é próprio do fazer literário (a cidade na obra de poetas modernos e contemporâneos; a guerra civil, profundo cadinho de símbolos nacionais...). Uma maneira de nos aproximarmos da temática do vampiro é começar pelo estudo de seus estereótipos. No período de formação destes, há no mínimo dois grupos de obras bastante pertinentes para a pesquisa. A bem dizer, esses agrupamentos não são mutuamente excludentes, porque comportam alguma sobreposição. Tais recortes, portanto, não têm a pretensão de uma unidade estritamente orgânica, mas devem ser considerados apenas como contornos iniciais para ulterior análise e interpretação. O primeiro grupo é formado pelas obras que inauguram a voga do vampiro ficcional, 14 Mestrando do Departamento de Teoria Literéria e Literatura Comparada - FFLCH/USP ([email protected]). 80 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS narrativo e particularmente dramático, ali pelo início dos anos 1820, especialmente no eixo Paris-Londres. O segundo é um grupo de narrativas e peças teatrais que abertamente se apresentam como variações/continuações de uma mesma trama básica: trata-se dos enredos desenvolvidos em torno do vampiro Ruthven (a grafia sofre toda ordem de variantes: Rutwen, Ruthwen etc.), personagem que para o séc. XIX é equiparável ao Dracula do séc. XX. O que veremos é que esse próprio axioma – “uma mesma trama básica” – quase cai por terra, na medida em que as obras que a exploram divergem entre si bem mais do que dá a entender o aparato histórico-crítico a seu respeito. Por propósitos práticos da presente exposição, vou limitar ainda mais o primeiro grupo, quase restringindo-o às obras narrativas e dramáticas que vieram a público nos anos 1819-1820. Com efeito, esse biênio marca irrevogavelmente a entrada em cena do vampiro enquanto um tipo ficcional. Ele adquire novas dimensões para além da especulação erudita, da notícia curiosa, de um ainda tênue vértice aglutinador de imagens poéticas, para ganhar o teatro e a narrativa de ficção; ao mesmo tempo, a cultura de massas. Importando o monstro (e recriando-o). Durante um longo período de formação (seguramente nos sécs. XVII-XVIII), o vampiro, ou algo parecido com ele, foi sempre associado a determinada origem ou distribuição geográfica; de início, notadamente os Bálcãs e o Leste Europeu; à medida que o assunto se insere na tradição dissertativa acadêmica alemã (e em seu mercado editorial), também regiões centro-europeias como a Silésia, a Alemanha e por aí vai. Que tenha havido regiões mais intensamente associadas ao vampirismo não é fortuito. A rigor, em suas origens, trata-se de uma concepção linguisticamente localizável: do ponto de vista da cultura oral, não resta dúvida de que os congêneres de vampiros habitassem o tesouro simbólico de diferentes ambientes eslavos e limítrofes, com certa proeminência em direção ao sul. Mas isso não basta para explicar essa matização étnicogeográfica. É preciso compreendê-la como fruto de uma construção histórica. Trata-se menos de evocar fatos (“o vampiro é crença de tal e tal povo”; ou “no dia 12 de dezembro de 1731...”) do que de perceber como o que determina os fatos é sua 81 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS apresentação e sua recepção, numa palavra, o modo e os processos pelos quais eles são coletivamente construídos. Isto vale também para a literatura. Tomemos o primeiro poema que abertamente se apropria da figura do vampiro para uma elaboração artística: “Der Vampir”, do (bastante obscuro) poeta alemão H. A. Ossenfelder, publicado em 1748 numa revista de divulgação científica: Como a gente do Tisza Crê em letais vampiros Fielmente, feito heiduques.15 O tema do vampirismo, servindo a propósitos estéticos, está aqui explicitamente associado a uma região geográfica, em torno da cidade de Tokay, ao sul dos Cárpatos, que é banhada pelo rio Tisza, um importante tributário do Danúbio. Não parece absurdo afirmar que a provável motivação para essa ambientação é dada pelo próprio contexto em que o poema foi publicado. Com efeito, o poema “ilustra” um dossiê sobre vampirismo que a revista Der Naturforscher (“O pesquisador natural”), de Leipzig, trouxe dividido entre os números de 18 e 25 de maio de 1748. O dossiê é na realidade a retomada, em tradução alemã, de notícias publicadas alhures, e que narram acontecimentos ocorridos justamente onde se produz o famoso vinho de Tokay. É a existência desse tópos literário que dota de sentido o chiste metafórico de Voltaire: Esses vampiros eram uns mortos que saíam à noite de seus cemitérios para vir sugar o sangue dos vivos, fosse à garganta ou no ventre, depois do que eles voltavam a se pôr em suas covas [...] Era na Polônia, na Hungria, na Silésia, na Morávia, na Áustria, na Lorena que os mortos faziam esta bela refeição. Não se ouvia por nada falar de vampiros em Londres, nem mesmo em Paris. Admito que nessas duas cidades houve agiotas, financistas subsidiados 15 Versos 5-7, tradução de Erick Ramalho (in BERLENDIS DE CARVALHO 2010: 45). 82 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS [traitans], gente de negócios que sugavam em pleno dia o sangue do povo, mas não estavam nem um pouco mortos, embora corrompidos.16 A entrée do vampiro ficcional O vampiro contava, desde as décadas iniciais do séc. XVIII, com uma fecunda literatura especulativa e investigativa. Algumas diferentes tradições textuais (relatos de viagem; obras de cunho teológico, médico; burocracia estatal) se ocuparam dessa figura incômoda de morto-vivo, cujas notícias provinham sobretudo de regiões balcânicas e leste-europeias. A partir da segunda metade ou mais propriamente do final desse século, ele vai progressivamente sendo apropriado pela criação literária, comparecendo aqui e ali em obras poéticas. O grande boom é deflagrado pela publicação, a 1º de abril de 1819, do conto “The vampyre – A tale by Lord Byron”, no periódico londrino The New Monthly Magazine. Sucesso estrondoso. Ato contínuo, o conto é repetidamente traduzido e publicado no Continente, e mesmo Goethe chega a creditar ser esta uma das melhores realizações de Byron. A narrativa passa a integrar diversas edições das obras completas deste que era – e ainda é – considerado uma espécie de príncipe da poesia romântica inglesa, até por sua figura pública afeita às polêmicas ruidosas. Coincidência ou não, esse crédito, porém, é mais do que condizente com a data de publicação do conto, o dia dos trouxas: com efeito, ele não foi escrito por Lord Byron. Devemos à falta de escrúpulos do editor e proprietário da revista essa atribuição espúria, que findou com a autodemissão do redator-chefe, em protesto. (Quem escrevera o conto fora John William Polidori, um médico que pertencera ao círculo de amizades do famoso poeta e que se valera, como ponto de partida, de um esboço de narrativa que teria sido rascunhado por Byron numa ocasião em que os dois se encontravam, junto com outros amigos, numa temporada à beira do lago Genebra, poucos anos antes. Com a publicação apócrifa, Byron se apressa em desfazer o equívoco e repudiar publicamente a autoria da obra, sem muito sucesso.) 16 Voltaire, Questions sur l’Encyclopédie, “Vampires”, vol. 6, p. 447. Onde não indicado, as traduções são do palestrante. 83 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O impacto do conto, e de seu vampiro Lord Ruthven, é percebido com presteza. Um intelectual francês muito ativo naqueles anos, Charles Nodier – autor de obras literárias, de crítica, jornalismo, linguística e até entomologia – publica a 1º de julho de 1819 uma resenha à primeira tradução francesa do conto. Nela, o resenhista antevê poder se extrair do vampiro um argumento sob medida para o “teatro dos bulevares”, ou seja, o “novo teatro” de melodrama,17 que estava a reinventar o cânone dramático e gozava de enorme popularidade. Alguns meses depois, a 26 de fevereiro de 1820, é publicado em Paris o romance em dois tomos Lord Ruthwen, ou les vampires – Roman de C. B. publié par l’auteur de Jean Sbogar et de Thérèse Albert. O romance retoma a trama anterior de Polidori e dois de seus personagens principais (o vampiro e o herói frustrado); porém lhe compõe outra trama, numa narrativa encadeada com uma boa dúzia de sub-episódios picarescos. Bem... o “autor de Jean Sbogar” era o próprio Nodier, que protesta no mesmo dia no jornal Le Drapeau blanc, acusando o editor do romance de ter utilizado seu nome enganosamente; o editor se defende – afirmaria possuir como prova o contrato firmado por ambos. Os meses seguintes selariam para sempre o destino do vampiro literário. Estreia em Paris, a 13 de junho do mesmo ano, a retumbante peça anônima que primeiro levou Ruthwen aos palcos (Le vampire, mélodrame en 3 actes avec un prologue; Théâtre de Porte Saint-Martin); como de costume, a peça era completada por seu roteiro impresso, vendido às portas do teatro. Mesmo sendo uma peça anônima, toda Paris sabia quem era o autor por trás daquele sucesso: Charles Nodier.18 A cena teatral parisiense sofre então uma verdadeira avalanche de vampiros. Apenas dois dias depois da estreia do melodrama Le vampire, o Théâtre de Vaudeville ostenta uma comédie-vaudeville homônima, assinada por uma dupla experiente, Scribe & Mélesville. Mais uma semana passada, mais uma peça em cartaz: agora é a vez de Les trois vampires ou Le clair de 17 Cf. Pixerécourt: “Era preciso, portanto, inventar um novo teatro” (“Derradeiras considerações do autor sobre o melodrama” – in PIXERÉCOURT 1843 vol. 4: 493). 18 “Tout le monde à l’époque savait la part prise pour Nodier dans ces œuvres” (PICAT-GUINOISSEAU 1990: 53). E não apenas de maneira oficiosa: os registros de direitos autorais da Société des Auteurs trazem o nome de Nodier como beneficiário dos direitos autorais da peça (ibidem, 54). Mas não se deve esquecer que Nodier, mesmo sendo uma espécie de mestre e líder, não é o único autor da peça, que, no tradicional modelo autoral do teatro dos bulevares, conta com diversos colaboradores. No caso, um célebre autor e ator de vaudeville, Carmouche, e um nobiliárquico amigo de juventude de Nodier, Jouffroy d’Abbans, que era seu colega de redação no Drapeau blanc. 84 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS lune (folie-vaudeville, Théâtre des Variétés, 22 de junho). E segue-se quase uma meia dúzia de outras. Em resumo: apenas em 1820, há em Paris ao menos oito peças teatrais em cartaz que exploram o vampiro até no título. Mas a avalanche não para em Paris: com efeito, a trama da peça é rapidamente exportada, primeiramente para Londres, depois para a Alemanha, a Polônia... Costumase considerar estas peças como traduções daquela capitaneada por Nodier. Ora, isto é tão impreciso quanto afirmar que o melodrama Le vampire seja a mera transposição para os palcos do conto de Polidori. O jogo dos sete erros. O que proponho é uma espécie de jogo: como, primeiramente no interior de cada conjunto acima mencionado, a leitura e interpretação de uma obra interfere na leitura e interpretação das demais obras de seu conjunto. Um exercício “clássico” de literatura comparada, portanto. O fato de começarmos por um número razoavelmente limitado de obras-objeto facilita a tarefa nesse estágio inicial da pesquisa. A presente comunicação não poderá, evidentemente, perfazer de maneira sistemática tal exercício de comparatismo. Atenho-me a alguns pontos notáveis que emergem da leitura de um grupo de obras em torno da personagem Lord Ruthven. Um termo inicial de comparação poderia ser entre a narrativa de Polidori (mantendo no pano de fundo o fragmento de Byron) e o primeiro melodrama dela extraído, cuja realização e publicidade devemos a Charles Nodier. O tratamento a que a “trama básica” do conto é submetida remodela-a por completo. Muito embora apoiandose num mesmo tipo de clímax central que organiza a fábula – a morte do amigo e seu surpreendente ressurgimento pela exposição de seu cadáver aos raios lunares –, os momentos-chave de uma e outra obra procedem de modo muito diverso, a ponto de se poder afirmar que a peça constitui, na prática, outro enredo. O mesmo vale para o caráter das personagens comuns a uma e outra obra. No melodrama do Théâtre de Porte Saint-Martin, Rutwen é de início apresentado como eminentemente virtuoso: “este mortal generoso, modelo de amizade”, descreve o jovem amigo Aubray (I, 4). 85 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Mas, na narrativa que lhe serviu de inspiração, já o primeiro parágrafo é suficiente para dispor seu caráter ambíguo de Ruthven: Em meio às dissipações que acompanham um inverno londrino, compareceu a várias festas da nata da sociedade um nobre mais notável por suas singularidades do que por sua posição social. Observava a diversão ao seu redor como se não pudesse tomar parte dela. Aparentemente, os risos radiantes das beldades só atraíam sua atenção para que ele pudesse, com um olhar, estancá-los e lançar medo naqueles seios em que reinava a inconsequência. Aquelas que sentiam essa sensação de temor reverente não sabiam explicar de onde surgia. Algumas a atribuíam ao olhar de um cinza mortiço que, fixandose no rosto de alguém, parecia não penetrar e num só relance transpassar até os recônditos mecanismos do coração – mas caía como um raio de chumbo sobre as faces que não pudesse atravessar. Suas peculiaridades fizeram com que fosse convidado a todas as casas: todos desejavam vê-lo, e aqueles que estavam acostumados a emoções violentas e agora sentiam a opressão do tédio ficavam satisfeitos por presenciar algo capaz de lhes cativar a atenção.19 Ambiguidade que de resto encontramos também no fragmento byroniano que o teria antecedido20: Eu dava ainda meus primeiros passos na vida, uma vida que começara prematuramente, mas minha intimidade com ele era recente: havíamos estudado nos mesmos colégios e na mesma universidade, mas sua progressão neles precedera a minha e ele já estava profundamente iniciado nos caminhos mundanos, ao passo que eu ainda fazia o meu noviciado. Ainda estudante eu ouvira falar muita coisa tanto de sua vida pregressa quanto da atual; e, embora esses relatos contivessem muitas contradições inconciliáveis, do todo eu lograva inferir que ele não era um ser ordinário, mas alguém que, por mais que ele tentasse passar despercebido, sempre haveria de dar na vista. 19 Polidori, “O vampiro”, trad. Renata Lucia Bottini (in BERLENDIS DE CARVALHO 2010: 113). Não há como saber o quanto Byron poderia ter reescrito tal fragmento para porventura torná-lo mais distante ou mais sutil em relação ao conto de Polidori espuriamente a si atribuído; o quão sincero é o seu protesto frente ao editor quando da publicação desse fragmento, alegadamente desautorizada, no volume Mazzepa, no fim do mês de junho de 1819. 20 86 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Posteriormente cultivei relações com ele e me esforcei por obter sua amizade, mas esta se mostrava inatingível. Das paixões que ele porventura houvesse tido, parecia que algumas estavam extintas e outras concentradas; que os seus sentimentos eram intensos, tive oportunidades suficientes para observar, pois ainda que ele conseguisse controlá-los, não conseguia dissimulá-los de todo. Mesmo assim ele tinha o poder de dar a uma emoção a aparência de outra, de tal sorte que era difícil definir a natureza do que lhe ia no íntimo, e suas expressões faciais podiam variar com tamanha rapidez, ainda que só levemente, que era inútil tentar associá-las às suas motivações. Saltava aos olhos que ele era tomado por alguma inquietação sem cura, mas se esta provinha de ambição, amor, remorso, tristeza – de uma dessas coisas ou de todas elas – ou meramente de um temperamento mórbido inclinado à doença, isso eu não pude descobrir: havia circunstâncias que podiam justificar a alegação de cada uma dessas causas, mas, como já disse, eram, todas elas, tão contraditórias e contraditas que nenhuma poderia ser apontada com precisão. Onde há mistério, supõe-se, via de regra, que também deve haver o mal: não sei por que deva ser assim, mas nele com certeza havia o primeiro, embora eu não pudesse avaliar a extensão do segundo – e no que lhe dizia respeito sentiame relutante em admitir sua existência.21 * Dentre todas as convenções repisadas – heróis nobres e órfãos; tempestade; casamento; olhar extraordinário –, um aspecto notável é a mudança da ambientação. Em Polidori (e já no fragmento de Byron), a ação se dividia entre Inglaterra (o “doméstico”) e Grécia (o “exótico”). Nodier, apaixonado pela Escócia e por tudo o que ela lhe representa, desloca a ação para lá, recobrindo-a de referências. O significativo é que esse novo lugar da ação é literariamente determinado: “Escócia”, “ilha de Staffa” e “gruta de Fingal” são remissões inequívocas aos poemas de Ossian, publicados por James Macpherson a partir da década de 1760 como traduções suas de poemas gaélicos do séc. IV (na realidade, trata-se de falsificações de grande qualidade literária). Não é 21 Byron, “August Darvell (Fragmento de uma novela”, trad. Sergio Pachá (in BERLENDIS DE CARVALHO 2010: 131-132). 87 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS este o lugar de tratar do assunto, mas não se pode frisar em demasia o profundo impacto que a publicação dos poemas de Ossian causaram na cena pré-romântica europeia, reformulando e revigorando as vertentes primitivistas e nacionalistas já em curso na estética do XVIII. Nodier, ao transferir a ação da Grécia para a Escócia, serve-se de um novo molde de exotismo, agora descaradamente literário e menos preocupado com a verossimilhança. * Tanto o conto de Polidori como o melodrama de Nodier, Carmouche & Jouffroy se valem do procedimento de replicação, pelo qual expectativa e tensão se reforçam no leitor/espectador: a repetida situação de ataque à vítima. No conto, a primeira vítima morta é Ianthe, a graciosa moça grega por quem o jovem Aubrey (foco que conduz a narrativa) nutre um amor inconfesso; a segunda vítima, uma jovem de Roma; a terceira será a irmã do mocinho, miss Aubrey. Já o melodrama parisiense se vale de “replicações” originais. No prólogo, a heroína, Malvina, está desacordada no interior de uma gruta sombria. Dois espíritos celestes velam por ela e previnem o ataque de um vampiro. O primeiro ato é ambientado no castelo de Staffa, numa ilha da costa escocesa. É de manhã e Malvina foi encontrada em perfeita saúde, mas abalada por um sonho estranho. Ela irá se casar em breve com o irmão do falecido grande amigo de seu irmão Aubray. Este lhe narra o episódio da morte de seu caro companheiro Rutwen (dono do castelo em frente, do outro lado do braço de mar), numa ocasião em que juntos viajavam pela Grécia. A peça põe em cena duas vítimas potenciais (não chegam a sucumbir porque o vampiro é surpreendido antes de consumar o ataque). Ambas são noivas e os ataques se dão momentos antes da cerimônia de casamento. A primeira presa em vista é Lovette, criada do castelo; a segunda é Malvina, irmã de Aubray, cujo noivo, o conde de Marsden, não é ninguém senão Rutwen ressuscitado. Antes disso, nas primeiras cenas, uma conversa entre os criados do castelo nos informara, em analepse (flashback), da morte terrível e misteriosa, cem anos antes da ação presente, da “mais bela e rica herdeira da Escócia”, encontrada exangue naquela mesma gruta soturna. 88 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Essa lógica da replicação, do espelhamento, estrutura toda a peça. Em seus recursos localizados, as analepses terminam por criar, no receptor do texto, a capacidade potencial de prever o que acontecerá no decurso da ação, ou seja, promovem no público a antecipação do enredo. Se nos permitirmos certa liberdade associativa, podemos daí extrapolar uma analogia: a lógica da replicação que organiza a tal “trama básica” também preside o emergir de suas retomadas em traduções e adaptações, em plágios e paródias. Então é o próprio núcleo narrativo-dramático, seus elementos de base, que será replicado inúmeras vezes nos palcos de tantas cidades europeias naqueles anos. Só que – como antecipei – esta não é uma simples reprodução mecânica; cada nova versão da trama revela escolhas (a permanência de certos elementos encontrados em obras anteriores; o descartar de outros) e incorpora novos coloridos. O Le vampire inglês. Disso encontramos exemplos muito eloquentes na dita “tradução” inglesa da peça de Nodier, que estreou nos palcos londrinos a 9 agosto de 1820. 22 Basta uma primeira leitura para constatar que essa versão, a cargo de James Robertson Planché, de tradução tem é muito pouco. Planché renomeia e redistribui as personagens; enfatiza acentos cômicos nos diálogos de um grupo de serviçais; encampa de corpo inteiro o recurso a canções entremeadas aos diálogos, sobrepondo à chave melodramática algo do espírito do vaudeville. O inglês Planché (1796 - 1880) é conhecido por seu libretto para Oberon (1826), ópera de Carl Maria von Weber, e por uma profusão de peças e operetas. Também publicou coletâneas de traduções para contos de fadas franceses (madames d’Aulnoy e 22 The vampire; or, the bride of the isles [Planché 1986], English Opera House (“Lyceum”); remontagens em 1821 e 1829 (cf. Stuart 1994: 73). 89 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Prince de Beaumont, Perrault etc.), tendo levado algumas delas ao palco.23 Planché “extravaganciou” ainda mitos clássicos24; fez, enfim, carreira na transposição. No caso de The Bride of the Isles, um produtor teatral londrino lhe encomenda uma adaptação do melodrama da Porte Saint-Martin, o qual já dera provas de um durável sucesso comercial. James R. Planché aceita a encomenda, mas quer mudar a ambientação, da Escócia para um lugar que tenha mais a ver com vampiros, no exemplo mais à mão, a Hungria. Condição rapidamente solapada pelo produtor do espetáculo25: O Sr. Samuel James Arnold, o proprietário e administrador [do teatro], deu-me em mãos, para que eu o adaptasse, um melodrama francês, intitulado Le Vampire, cuja ambientação se localizava, com a imprudência de costume dos dramaturgos franceses, na Escócia, onde [tal] superstição jamais existira. Procurei em vão induzir o Sr. Arnold a que me permitisse mudá-la para algum lugar do Leste Europeu. Ele estava decidido quanto à música e aos figurinos escoceses – estes, por sinal, havia-os em estoque –, riu diante de meus escrúpulos, garantiu-me que o público jamais notaria ou daria a mínima para isso – e, naquele tempo, com certeza não ligariam mesmo – e então não havia nada a fazer senão me arranjar como podia em relação a isso.26 23 O Gato de Botas, o Barba Azul, a Bela Adormecida, a Bela e a Fera e outras (v. The Extravaganzas of J. R. Planché 1825-1871 [Planché 1879]). 24 P. ex.: Prometeu e Pandora; Orfeu e Eurídice; Vênus e Adônis; Telêmaco; ou a ilha de Calipso; Os pássaros de Aristófanes... (ibidem.) Devo o neologismo aos titulos de tantos e tantos espetáculos de Planché: assim batizou dezenas de adaptações de tramas tradicionais para os palcos populares (cf. nota anterior). 25 Planché só conseguirá ambientar o argumento no lugar de sua escolha anos mais tarde, quando for novamente solicitado a verter para o inglês a ópera O vampiro, de Heinrich Marschner, obra ainda inspirada naquele mesmo esquema básico de Polidori, Nodier etc. 26 Planché, Recollections and Reflections – A professional Autobiography. (Planché 1901: 26-27). Anos depois, Planché poderá seguir suas próprias concepções: “No verão de 1829 tive a oportunidade de tratar o argumento de ‘The Vampire’ de acordo com minhas próprias ideias a respeito de sua propriedade. O melodrama francês havia sido transformado numa ópera para os palcos alemães, tendo a música sido composta por Marschner” (ibidem, p.104). 90 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Para nossa interpretação, importa menos que a tal ambientação na Escócia se deva a uma causa extraliterária (a imposição do produtor, reforçada pelo figurino já à disposição), uma motivação tão desavergonhadamente material; importa sim examinar como e mediante quais procedimentos Planché soube realizá-lo com maestria, apropriando-se sem falsos escrúpulos daquela trama que acabava de cruzar pela segunda vez o Canal da Mancha. No melodrama de Nodier, a Escócia guardava, além do exótico (para o público francês), uma aura de homenagem, de identidade artística e literária, a remissão ao universo poético disparado pelos poemas ossiânicos de Macpherson. Isso podia fazer algum sentido em Paris, mas não a um público britânico de teatro popular. Qual a solução de Planché? Ora, o que lá era exótico, cá ele transforma em dialetal: na dicção das falas dos serviçais, na caracterização de um imaginário tipificado sobre a Escócia, nação britânica há tanto submetida ao domínio inglês. Esforço evidenciado também nas mais de canções “re-extravaganciadas”, cujas melodias escocesas tinham sido e seriam objeto de uma arraigada construção de identidade nacional: quase todas as melodias das canções da peça de Planché provêm de coletâneas de “canções escocesas típicas”27 – mas esse é um “típico” que, assim como outros símbolos nacionais, é em parte uma tradição sabidamente inventada ou no mínimo revisitada (sugestivamente: um dos mais profícuos e reconhecidos autores de “melodias nacionais” da Escócia é um italiano que por lá viveu28). O estrangeiro está aqui. Em alguma medida, o que aconteceu no arco de algumas décadas entre os sécs. XVIII-XIX, e especificamente no arco daquelas obras literárias aqui focadas, foi 27 Cf. THOMSON, William. Orpheus Caledonius: Or, a collection of Scots songs. Set to musick by W. Thomson. 2 vols. Londres: edição do autor [Leicester-Fields], 1733; JOHNSON, James & BURNS, Robert. The Scots musical museum; consisting of upwards of six hundred songs, with proper basses for the pianoforte. Stenhouse, W. (ed.), 6 vols. Edinburgh, Londres: Blackwood, 1839-1853 (edição original publicada entre 1787 e 1803); GRAHAM, George Farquhar. The songs of Scotland, adapted to their appropriate melodies, arranged with pianoforte accompaniments by G. F. Graham, T. M. Mudie, J. T. Surenne, H. E. Dibdin, Finlay Dun &c. 2 vols. Edinburgh: Wood, 1848. 28 David Rizzio, valete da rainha Maria de Escócia (apud Graham 1853 vol. 2: 35n; 43n; 45n; 51n; 61n). 91 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS terminar de trazer o vampiro para casa, para a metrópole. A pergunta pelo lugar – seja o da ação como da alusão – pode motivar leituras interessantes das narrativas e peças de teatro que tematizam o vampiro no início da década de 1820. Quanto à pertença (e estranheza) ao lugar, aparentam pôr em movimento lógicas semelhantes, mas apontando para significações diferentes. Não se deve esquecer, de outra parte, que no pensamento e nas literaturas desse período, o “doméstico” é tão ideologicamente carregado quanto o “estrangeiro”. São afinal os anos que verão nascer a disciplina do folclore, por exemplo. Uma concepção do “local” bem diferente da do vaudeville: PRIMEIRA CENA. Sr. e Sra. GOBETOUT, sentados no banco de jardim. Sra. GOBETOUT, jogando um livro que tem às mãos. Ah ! meu Deus! que livro assustador! É de dar calafrios! M. GOBETOUT. A senhora também, Sra. Gobetout? Acho que podem existir vampiros. Sra. GOBETOUT. Pode crer! Senhor Gobetout, eu não penso muito diferente do senhor. Mas ainda assim, que seres sempre cheios de surpresas! ÁRIA: Dit’s-moi, n’allez-vous pas l’dimanche [“Diz-me, não vais no domingo”]. Os vampiros não habitam senão Rochedos e florestas Ao sexo não fazem a guerra Quando Febo lança seus dardos. Assim que o dia os importuna, Eles o consagram ao sono; E só se deleitam ao luar... 92 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Sr. GOBETOUT. Como lagartos ao sol. (bis.) Sra. GOBETOUT. Ainda bem que não se veem vampiros na França. Sr. GOBETOUT. Como assim, não se veem deles na França!... ao contrário, se veem, sim. Li no Journal de Paris que apareceu um na Porte Saint-Martin; de modo que nada impede que ele venha até Pantin: só precisa subir o faubourg. Sra. GOBETOUT. Só faltava... mas, e à barreira?! Sr. GOBETOUT. À barreira... a senhora acha que vampiros se divertem em tirar passaportes? Nos tempos que exigiam passes de segurança, eu ficaria mais tranquilo.29 O pai, ignaro dos namoros de suas filhas (cujos amados serão maquiados sob tais pretensos espectros), sabe pelo jornal que um vampiro tem sido visto circular em tal bairro de Paris. Pantin, a localidade onde se passa a peça, é (era) um subúrbio no mesmo quartel parisiense, distante poucas milhas da Porte Sant-Martin. A notícia do jornal é recentíssima, de ontem: a repercussão, na mídia de quarta-feira, da estreia do melodrama na noite de terça. Parte da graça está no retrato desta cena local, o assunto do dia; parte do sucesso em realizá-lo deve-se ao escracho e a um procedimento metadiscursivo (falar, dentro da peça, sobre a cena teatral dos bulevares de Paris). Além disso, o que motiva o diálogo inicial – e, por sua vez, a inocente confusão que é o mote da peça – é um livro, um discurso que chegou às mãos de madame Gobetout (algo como “Sra. Engole-Tudo”, no sentido derivado da credulidade) como 29 Brazier et alii, Les trois vampires ou Le Clair de lune (Os três vampiros ou O luar), p. 3. 93 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS um produto da indústria cultural; e isso é representado dentro de outro produto de consumo cultural, o vaudeville ali encenado. * Como se sabe, o Romantismo francês e seus prolongamentos exploraram elementos regionais e exóticos até onde puderam. Dando um salto em nosso recorte cronológico, um pouco mais à frente, em 1851, temos nova versão da peça protagonizada por Lord Ruthwen. Trata-se agora do Le vampire a cargo de Alexandre Dumas e Auguste Maquet. A ação foi estendida para 5 atos e 10 cenários. Também os papéis cresceram em número: há bem duas dezenas de personagens com falas, sem contar figurantes. Os adjuvantes sobrenaturais, que na peça de Nodier se limitavam aos anjos do matrimônio e da lua, agora incluem Melusina (a fada que protagonizou tantas criações literárias na Baixa Idade Média: parentesco “bretão” invocado pelo herói Gilbert [II,2]) e uma “mulher-espectro” (a goule das Noites árabes na “tradução” de Galand). Em Dumas, vemos uma força que leva as codificações do exótico e do nacional quase à exaustão: a ação é distribuída entre a Espanha, a Bretanha (região da França) e a Circássia (no Cáucaso). No primeiro ato, a cortina se abre diante das portas de uma venda espanhola; um cigano canta e toca bandolim, acompanhado de castanholas. Todos dançam ou circulam animadamente pela rua; a gente se faz mostrar às janelas e portas das casas. É uma espécie de idílio exótico estereotipado. “Estamos no país de Sancho, no reino dos provérbios, e, como o senhor sabe, as viagens formam a juventude”, admite o herói Gilbert.30 Também podemos ler essa Espanha e em geral o sul da Europa como ambientação privilegiada da gothick novel.31 Esboça-se em seguida certo caráter, publicizado como francês: GILBERT. A senhora é valente, madame, e bem apreciaríamos tê-la entre nós; bastariam os charmes de sua companhia, pode acreditar... Que dizia mesmo o hospedeiro 30 31 II, 2 (Dumas 1865: 424). Cf. The monk, de Mathew Lewis (1796); Manuscrit trouvé à Saragosse, de Jan Potocki (1794-1810). 94 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS sobre maus encontros no Tormenar? A mim está parecendo que o encontro não é nada mau. JUANA. Ah! senhor, eis o espírito de sua nação se fazendo à frente. O senhor acaba de falar numa linguagem que compreendo melhor, e, para que continue a tratar-me assim, não preciso mais do que dizer uma palavra, disso estou certa.32 Mas o tal tipo, que começou a ser-nos apresentado como o conhecido galanteador francês, daí se distancia, ou melhor, se especifica: não se diz francês, mas bretão: JUANA Cavaleiro, o senhor é francês e homem de berço? GILBERT Chamo-me Gilbert de Tiffauges, sou bretão e homem de honra, madame.33 A isso se segue uma exposição econômica do suprassumo da simbólica bretã: GILBERT [...] Em nossa terra, não há camponês que não tenha o seu lutin, que bagunça as crinas de seus cavalos ou o carretel de linho de sua filha; não temos um moleiro que não tenha seus follets, dançando sobre os pântanos e os charcos; nem um pescador que não tenha a sua dama das águas, que lhe prediz a tormenta e o tempo bom, dizendo-lhe quanto ele pode se aventurar no mar ou quando deve retornar ao porto. PRIMEIRO VIAJANTE E o senhor, o que tem no castelo de Tiffauges? lutin, follet ou dama das águas? 32 33 Ibidem, I, 7, pp. 416-417. I, 7 (Dumas 1865: 416). 95 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS GILBERT Eu, o que tenho é a tapeçaria da fada.34 A tapeçaria é uma declarada menção à fada Melusina (tipo que protagoniza diversos poemas e narrativas em latim e vernáculo grosseiramente a partir do séc. XII; chegou a ser objeto de uma encomenda literária para “fundar” a linhagem de um clã da nobreza francesa do séc. XV: existe uma famosa tapeçaria representando Melusina com sua prole fantástica). * Sem concluir, reticencio o quanto tais espelhamentos identitários forasteiros, os nacionais e postuladamente arcaicos, no jogo de representações da literatura europeia do séc. XIX prestaram-se à estetização, a seu aparente emprego de modo a alcançar um efeito; seguramente assim num grupo significativo de obras que se aproximam ou dialogam com a temática do vampiro. E faço-o novamente por dois pontos: PRIMEIRO VIAJANTE Com efeito, cada país possui a sua superstição. Veja, por exemplo, viajei pelo Épiro,35 eu; muito bem, as lendas mudam junto com o caráter dos habitantes, com o aspecto do país. Lá, já não é a fada protetora, o follet inofensivo, o lutin zombeteiro, nada disso! É a goule terrível, nociva, mortal; a mulher-espectro, revestindo-se sob aparência da beleza, das formas da juventude, para melhor dissuadir seus ardis, atraindo para junto de si sobretudo os moços mais bonitos, os mais frescos, de quem bebem o sangue deliciando-se!36 34 II, 2 (Dumas 1865: 426). Região histórica localizada na costa oeste da Península Balcânica. 36 Dumas, op. cit., II, 2, p. 427. 35 96 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Bibliografia de referência. BERLENDIS DE CARVALHO, Bruno (org.). Caninos – Antologia do vampiro literário. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2010. BERNARD-GRIFFITHS, Simone & SGARD, Jean (orgs.). Mélodrames et romans noirs, 1750-1890. Toulouse: P. U. du Mirail, 2000. BRAZIER, Nicholas et alii. Les trois vampires ou Le clair de lune. Paris: Barba, 1820. BYRON, George Gordon. “A Fragment” in: Mazeppa: A Poem. Londres: Murray, 1819, pp. 59-69. DUMAS, Alexandre. “Le vampire” in: Théâtre complet de Alex. Dumas. Paris: Michel Lévy, 1865, vol. 11, pp. 399-535. LIMAT-LITTELIER, Nathalie & MIGUET-OLLAGNIER, Marie (orgs.). L’intertextualité. Besançon: P. U. Franche-Comté, 1998. 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The Extravaganzas of J. R. Planché 1825-1871. Dillon Croker, T. F.; Tucker, Stephen (eds.). Londres: Samuel French, 1879, vols. I e II. POLIDORI, John William. Extract of a letter from Geneva, with anecdotes of Lord Byron, etc. – The vampyre: A Tale, by Lord Byron. in: The New Monthly Magazine, vol. XI nº 63 (1º de abril de 1819), pp. 193-206. SCRIBE, E. & MÉLESVILLE (pseudônimo de DUVERYER, Anne H. J.). Le vampire – comédie-vaudeville en un acte. In: Œuvres complètes de Eugène Scribe. Paris: Dentu: 1876, vol. 6. VOLTAIRE (Arrouet Le Jeune). Questions sur l’Encyclopédie, par des amateurs. Genebra: s/n, 1775, vol. 6º. 98 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS EM LIBERDADE: GRACILIANO RAMOS NO JOGO PÓS-MODERNO Thiana Nunes CELLA37 Wellington Ricardo FIORUCI38 O romance Em Liberdade, escrito pelo mineiro Silvino Santiago, insere em seu enredo, como personagem central, o escritor alagoano Graciliano Ramos. Publicado em 1981, o livro destaca-se dentro da chamada ficção pós-moderna brasileira. Assim, o presente artigo busca realizar uma leitura analítica de alguns pontos estimados à dita literatura pós-moderna. A ficção ou a literatura pós-moderna é caracterizada por seu vasto campo de abordagens, por sua fragmentação e por questionar os discursos oficiais, de forma a rever o conceito das metanarrativas. Linda Hutcheon denomina essa nova forma narrativa como metaficção historiográfica. Como já se deduz da própria denominação, é uma metanarrativa: um discurso que faz uso frequente de metalinguagem, e na qual a historiografia está presente. Assim, é a literatura falando sobre a literatura, trazendo, simultaneamente, para dentro do texto o relato da história, isto é, do discurso historiográfico. Ao mesmo tempo em que faz isso, a metaficção historiográfica ou a ficção pós-moderna alça algumas questões, tais como: [...] questões como as da forma narrativa, da intertextualidade, das estratégias de representação, da função da linguagem, da relação entre o fato histórico e o acontecimento empírico, e, em geral, as consequências epistemológicas do ato de tornar problemático aquilo que antes era aceito pela historiografia – e pela literatura – como uma certeza. (HUTCHEON, 1991, p.14). Cabe ressaltar que o Pós-modernismo é uma linguagem muito recente historicamente, e por isso suscita muitos debates e discussões. De acordo com Jameson, 37 Acadêmica do Curso de Letras da UTFPR-Pato Branco, e-mail: [email protected] Professor de teoria literária e orientador de PIBIC na UTFPR-Pato Branco, e-mail: [email protected] 38 99 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS o pós-moderno "é mais bem compreendido como um sintoma na nossa sociedade e em sua cultura como um todo [...]" (JAMESON, 2006, p. 92). Em outras palavras, o pósmoderno é mais bem entendido como um movimento social, que ao mesmo tempo produz efeitos em outras áreas, como no campo político e econômico, e na produção cultural e literária. Além disso, podemos afirmar que o Pós-modernismo, assim como suas produções, é um movimento contraditório, crítico, fragmentado, questionador e subversivo. Nas palavras de Harvey, o pós-moderno "privilegia 'a heterogeneidade e a diferença como forças libertadoras na redefinição do discurso cultura'" (HARVEY, 2012, p. 19, grifo do autor). Ainda afirma que "A fragmentação, a indeterminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais ou (para usar um termo favorito) 'totalizantes' são o marco do pensamento pós-moderno" (HARVEY, 2012, p. 19, grifo do autor). Dito isso, o romance Em liberdade apresenta-se como uma metaficção historiográfica que se passa em 1937, no Rio de Janeiro, período em que a ditadura getulista vigorava no Brasil. Neste, temos o personagem literário e político Graciliano Ramos que, após permanecer quase um ano encarcerado (como preso político), revelanos como foram seus primeiros dias, suas primeiras experiências de liberdade em uma nova, moderna e hostil cidade, completamente diferente de sua terra, Alagoas. O livro é escrito na forma de um diário, instrumento pelo qual Graciliano Ramos nos conta detalhes do seu novo cotidiano, bem como suas angústias, seus temores. No entanto, Em liberdade pode ser percebido tanto como este diário, ou seja, como uma biografia de Graciliano Ramos, ou ainda, como uma autobiografia “mascarada” do autor Silviano Santiago. Além disso, podemos entendê-lo como um ensaio ou simplesmente como uma ficção muito bem elaborada. E é essa pluralidade de sentidos, devido aos jogos literários, que torna a obra duplamente pós-moderna. Quando afirmo que podemos encarar a obra como uma autobiografia mascarada, é necessário lembrar que ela foi publicada em 1981 e escrita durante a vigência da ditadura militar brasileira, período em que os meios de comunicação estavam sob forte 100 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS repressão. Desta forma, como afirma Santiago “ao dar fala ao outro, acaba também por dar fala a si, só que de maneira indireta” (SANTIAGO, 2002, p.50). O romance flutua entre o tempo histórico e o ficcional, uma característica dos chamados romances pós-modernos, pois “considera-se que a historiografia e a ficção dividem o mesmo ato de refiguração ou remodelamento de nossa experiência de tempo por meio de configurações da trama” (HUTCHEON, 1991, p.135). Deste modo, a metaficção historiográfica mostra que “a ficção é historicamente condicionada e a história é discursivamente estruturada” (HUTCHEON, 1991, p.158), o que nos leva a alegar que a história e a literatura, ou a ficção, estão intrinsecamente relacionadas. Podemos perceber esse fluxo entre o tempo histórico e o ficcional no seguinte excerto: Como esquecer o Rio entrevisto no curto passeio pelo tintureiro da Ordem Política e Social, quando fomos transferidos do Pavilhão dos Primários para a Ilha Grande. As paredes do carro eram crivadas de furos redondos, as luzes da rua entravam-me por eles, corriam em dança louca e punham traços vivos e inconstantes nas figuras ao meu redor (SANTIAGO, 1981, p.33) Nesse trecho, a inserção de referentes históricos contribui para a impressão de verossimilhança e reafirma o conhecimento da história através da linguagem literária. Desta forma, como afirma Hutcheon, o pós-moderno age de forma simultânea, pois “reinsere os contextos históricos como sendo significantes, e até determinantes, mas, ao fazê-lo, problematiza toda a noção de conhecimento histórico.” (HUTCHEON, 1991, p.122). Como também em: "Agora, em liberdade, tento avivar as antigas lembranças de jovem pelas ruas do Rio. Fracasso. O Botafogo é tão diferente do Rio que conheci em 1914. Rua da Lapa, nº 1. Foi meu primeiro endereço" (SANTIAGO,1981, p. 33). Também podemos observar esse jogo entre o histórico e o ficcional revelando subjetividade e ideologia, como neste pequeno excerto: 101 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS São os meus amigos (e agora “companheiros de luta”) que querem agigantar o meu valor com o intuito de tornar-me líder, bandeira a arregimentar pessoas insatisfeitas com a perseguição aos comunistas, orientada pelos militares fascistas desde a revolução de 35. (SANTIAGO, 1981, p. 56, grifo do autor). Deve-se ressaltar que tal retorno ao histórico nunca é nostálgico, ingênuo, neutro, mas sim crítico, analítico, questionador, e utiliza o pastiche e a paródia para alcançar seus objetivos. Como Hutcheon afirma: “Não é um retorno nostálgico; é uma reavaliação crítica, um diálogo irônico com o passado da arte e da sociedade, a ressurreição de um vocabulário de formas arquitetônicas criticamente compartilhado.” (HUTCHEON, 1991, p.20). Do mesmo modo, também não é uma forma de fugir do presente. Destarte, temos um romance histórico que utiliza: [...] o passado como cenografia, como pretexto, construção fabulística, para dar livre curso a imaginação. Portanto, nem sequer é necessário que o romance se desenvolva no passado, basta que não se desenvolva aqui e agora e não fale do aqui e do agora, nem mesmo por alegoria. (ECO, 1985, p.62). Exemplo deste recontar irônico, que parodia e critica as verdades da história, é um momento do romance em que Graciliano Ramos relata um sonho que teve com Cláudio Manuel da Costa e reinventa como os fatos acerca de sua morte ocorreram, aproximando-os com a morte de Wladmir Herzog, em 1975, durante a Ditadura Militar, como vemos no fragmento a seguir: [...] onde conta que Cláudio se enforcou. [...] Acrescenta que foi encontrado “pendente de uma cinta”, com os pés em cima de uma “prateleira de cedro”. E conclui com este raciocínio lapidar, pela “extravagância” da versão do suicídio: “O introdorso escuro dos degraus de pedra nua não dava para as ataduras da 102 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS cinta, nem para se ter o corpo em pé, quanto mais pendurado”. (SANTIAGO, 1981, p.237, grifos do autor). Cabe relembrar que o romance, por ter sido escrito durante a vigência da ditadura Militar no Brasil, e por trazer essa alusão ao assassinato de Wladimir Herzog, que foi perseguido, preso e torturado até a morte pelos militares, caracteriza-se como crítica e denúncia social do respectivo período. Assim sendo, no pós-moderno “o texto escuta as ‘vozes’ da história e não mais as re-presenta como uma unidade, mas como jogo de confrontações” (CARVALHAL, 1998, p.48). Desta forma: [...] a metaficção historiográfica se aproveita das verdades e das mentiras do registro histórico. [...] certos detalhes históricos conhecidos são deliberadamente falsificados para ressaltar as possíveis falhas mnemônicas da história registrada e o constante potencial para o erro proposital ou inadvertido. (HUTCHEON, 1991, p.152). Além da questão dos referentes, a obra possui acentuada intertextualidade, muito recorrente na literatura pós-moderna, herança da geração pregressa, a moderna. Como conferimos em: "O contato diário com Apporelly foi bom: estava o casmurro romancista de Angústia transformando-se em 'chargista' de mão cheia, capaz de captar com sorriso os paradoxos da prisão e da liberdade" (SANTIAGO, 1981, p. 41, grifo do autor). Para Julia Kristeva, autora do termo, a intertextualidade designa “o processo de produtividade do texto literário” (Apud CARVALHAL, 1998, p.50), pois, para ela “todo texto é absorção e transformação de outro texto” (Apud CARVALHAL, 1998, p.50). E desta forma, “É apenas como parte de discursos anteriores que qualquer texto obtém sentido e importância.” (HUTCHEON, 1991, p.166). Contudo, a intertextualidade na literatura pós-moderna “é uma manifestação formal de um desejo de reduzir a distância entre o passado e o presente do leitor e 103 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS também de um desejo de reescrever o passado dentro de um novo contexto.” (HUTCHEON, 1991, p. 157). Para tanto deve se ter em mente “a natureza discursiva de todas as referências - literárias e historiográficas.” (HUTCHEON, 1991, p.158). Ou seja, a noção de que só conhecemos o passado através de textos históricos e literários. Com isso, as relações de intertextualidades passam a ser entendidas como um “procedimento natural e contínuo de reescritas dos textos.” (CARVALHAL, 1998, p. 51). E o processo de escrita é tido como “resultante também de um processo de leitura de um corpus literário anterior. O texto, portanto, é absorção e réplica a outro texto (ou vários textos).” (CARVALHAL, 1998, p. 50, grifo da autora). No texto de Silviano Santiago a maioria dos personagens são oriundos do universo da literatura, do círculo literário do autor: o próprio Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Mário de Andrade, Jorge Amado, entre outros que povoam o romance. Ao mesmo tempo, há a citação de autores e obras notáveis da história, como em: De tempos em tempos, não podia impedir que me viesse à mente uma passagem das Cartas Persas, de Montesquieu, que li em já não sei qual antologia de páginas célebres da literatura francesa. [...] Por coincidência ou não, a mesma antologia trazia o célebre capítulo de Ensaios, em que Montaigne fala dos canibais brasileiros que assombram, no século XVI, a sociedade de Rouen. (SANTIAGO, 1981, p.55, grifos do autor). Bem como há a inserção de fragmentos literários: "Os corpos bronzeados dançavam em direção ao mar. "Quand tu vas balayant l'air de ta jupe large / Tu fais semblant d'un beau bateau qui prend le Large"" (SANTIAGO, 1981, p. 36, grifo do autor), com a inserção do fragmento poético de Charles Baudelaire em Le Beau Navire. Desta forma, temos a metanarrativa “duplicada em sua inserção de intertextos históricos e literários” (HUTCHEON, 1991, p.168). Esses dois primeiros pontos abordados: o histórico e o ficcional, e a intertextualidade, reafirmam as palavras de 104 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Umberto Eco quando diz que “os livros falam sempre de outros livros e toda história conta uma história já contada.” (ECO, 1985, p.20). Para Jair Ferreira dos Santos, na literatura pós-moderna “a fragmentação da narrativa é total, podendo-se misturar os narradores: em geral não sabemos quem está falando.” (SANTOS, 1986, p.40). Assim, “na ficção os narradores passam a ser perturbadoramente múltiplos e difíceis de localizar ou deliberadamente provisórios e limitados.” (HUTCHEON, 1991, p.29), como percebemos no seguinte excerto de Em liberdade: Aguça-se o desejo. O moribundo envolve o corpo sensual da morte e quer beijá-la. Ela evita o beijo a todo o custo. Retira o rosto, chega a negar o corpo oferecido. O desejo é mais forte. Adquire-se uma força suprema. Aproximam-se os lábios. Pavor! Gosto e odor de latrinas e esgotos fedorentos. Caem-se todos os disfarces e volta a ser a megera de antes. Busquei todas as forças que podiam subsistir no meu corpo e lutei para voar. Arrepiava caminho. (SANTIAGO, 1981, p.64). Afora a fragmentação do foco narrativo, há a fragmentação dos personagens, a fragmentação da história, e o uso de fragmentos intertextuais. Toda a linguagem pósmoderna é fragmentada. Tais estratégias são usadas para mostrar que o fragmento representa o todo. O que nos leva, usando as palavras de Jameson, a “leituras múltiplas” (JAMESON, 2004, p.239), como uma “superposição de malhas” (JAMESON, 2004, p.237) de leituras. Com efeito, a continuidade se dá “no ‘vestígio’ do fragmento”, e o “efeito disso é o questionamento de todas as ilusões de sistemas fixos de representação” (HARVEY, 2012, p.55, grifo do autor). Podemos incluir que autores como Jameson e Harvey, principalmente o primeiro, possuem uma concepção de pós-moderno mais voltada para os campos político, econômico e social. Trabalhando com a questão do capitalismo tardio e seus efeitos na sociedade. No entanto, apesar de suas concepções um tanto negativas sobre o pósmoderno, eles também escreveram sobre a literatura e a arquitetura pós-modernas. 105 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Ainda, a própria ficção dialoga com o leitor, explicitando muitas vezes seu processo construtivo, sendo assim autorreflexiva, pois fala da sua construção, bem ao gosto metaficcional. Assim, o que ela faz é “restabelecer o significado por meio de sua auto-reflexividade metaficcional em relação à função e ao processo de geração de sentido” (HUTCHEON, 1991, p. 193), como em: As construções linguísticas não se organizam de maneira racional na cabeça; saem frases com o ímpeto d uma rajada de vento, causando mais transtorno que harmonia. Se transcrevo o que sai – mero escriba de mim mesmo –, eu compreendo. Mas quem mais? Fico pensando em como deitar no papel, não as frases que brotam como capim depois da chuva, mas o que está passando ela minha cabeça desde ontem, como um sapateiro pesponta uma sola para que o sapato possa ser usado por uma outra pessoa. (SANTIAGO, 1981, p.23). Na obra, essa autorreflexividade é o vestígio e a valorização do happening (acontecimento) e da performance (desempenho). As quais são formas de intervenções, formas de construção da linguagem, escolhas que o artista faz para chamar a atenção do leitor para o acontecimento narrado e para a maneira como é retratado. O romance também traz explicitamente a questão dos ex-cêntricos, ou seja, a questão dos marginalizados, que não ocupam um lugar central na sociedade. Questões relacionadas aos movimentos sociais como o das mulheres, dos negros, dos homossexuais, questões ferrenhas da década de 60 e muito polêmicas no movimento pós-moderno. Como podemos conferir no seguinte excerto de Em liberdade: O Malho – sigo as palavras da própria revista – fez um plebiscito para saber que cinco mulheres de letras, no país, estão à altura de receber a láurea da Imortalidade. O problema é antigo – a Academia só aceita homens; o problema é justo – por 106 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS que não aceitar mulheres; o problema é bem colocado – o concurso é de âmbito nacional. Incomoda-me menos esse concurso. Vejo nele uma maneira de forçar a porta masculina da ABL com a ajuda da opinião pública. O acadêmico Ataulpho de Paiva, atual presidente da ABL, que se cuide. Será pisado por saltos altos. (SANTIAGO, 1991, p. 152, grifo do autor). Como afirma Hutcheon, essa descentralização, essa busca pelos excluídos, é uma forma de “afirmação da identidade por meio da diferença e da especificidade” (HUTCHEON, 1991, p.88), e ainda, a contestação à centralização, inclusive da cultura, pode ocorrer através da “valorização do periférico e do local” (HUTCHEON, 1991, p. 89). Podemos perceber também essa valorização do marginal, no caso, a valorização da mulher, nas ocasiões em que Graciliano Ramos se espanta com a capacidade decisiva da mulher, com sua força e ideologia. Como em: Heloisa é do tipo gregário. Por isso, deu-se tão bem por terra cariocas. Fez contatos. Aproximou-se das pessoas. Tornou-as interessadas pelo meu caso. Conseguiu convencê-las da injustiça que estava sendo cometida. Se não fosse por ela, ainda estaria por detrás das grades. É voz unânime. Para isso, teve de envolver-se politicamente com pessoas e com grupos. Sobrevive, economicamente, muito bem no Rio. Heloísa tem, hoje, mais compromissos políticos do que eu. Não deixa de ser paradoxal. Um intrigante paradoxo para quem nos conheceu há apenas onze meses, em Maceió (SANTIAGO, 1981, p. 112). Outra característica especial da obra Em liberdade são as manobras literárias como estratégia de verossimilhança, predominantemente apresentados como paratextos. Assim temos, os títulos dos capítulos “1°. de fevereiro (segunda-feira)” (SANTIAGO, 1981, p. 132), e a utilização de notas de rodapé. Por exemplo, quando Graciliano está contando-nos sobre a revista O Malho, temos: “A revista diz que houve farta 107 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS distribuição de presentes e víveres a oitocentos pobres,* numa promoção no Núcleo de Botafogo da AIB.” (SANTIAGO, 1981, p80) e como nota de rodapé temos: *Graciliano puxa uma seta e escreve no verso da página anterior (manuscrito): Tenho ainda de analisar o problema da crença do brasileiro na sorte, enquanto mecanismo para aquisição de fortuna própria. Pergunto-me se existe outro país onde a loteria atrai tanto os habitantes entra tanto nas expressões de linguagem do dia-a-dia. (SANTIAGO, 1981, p.80) E ainda, a abertura do livro como se faz frequentemente em diários: 1937 Rio de Janeiro Residência do romancista José Lins do Rego Rua Alfredo Chaves - Largo dos Leões (SANTIAGO, 1981, p. 19) Desta forma, podemos comprovar que “o narrador pós-moderno sabe que o ‘real’ e o ‘autêntico’ são construções de linguagem” (SANTIAGO, 2002, p.47, grifos do autor), ou seja, que a ‘realidade’ é construída através da linguagem, como afirma Silviano Santiago, que além de ficcionista também é teórico literário e ensaísta. Na literatura ficcional pós-moderna também vemos que “são comuns as construções em abismo: uma história dentro de outra que está dentro de outra... sem fim.” (SANTOS, 1986, p.40). Tal construção está presente de forma singular na obra Em liberdade, pois a história é um suposto diário de Graciliano Ramos, escrito por Silviano Santiago, que nos conta como foram seus dias depois da prisão. Silviano Santiago é leitor de Graciliano Ramos, o que nos leva a crer que conhece a obra 108 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Memórias do cárcere (1953), onde o próprio Graciliano conta como foram os meses de prisão. Graciliano Ramos por sua vez era leitor de Antonio Gramsci, autor de Cadernos do cárcere (1948 a 1951), obra a que é possível inferir que Graciliano Ramos teve acesso. Da mesma, Gramsci era também um leitor, que por sua vez tinha suas próprias influências, e assim consecutivamente. Essa estratégia é conhecida como Mise en abyme, termo cunhado pelo literato francês André Gide, ao discorrer a respeito das narrativas que contêm outras narrativas dentro de si, tanto no nível do enunciado como no nível da enunciação. Este tipo de construção em abismo resgata textos passados, e os reconstroem ou os re-apresenta, geralmente de forma crítica e questionadora, bem ao gosto do pós-moderno. Assim, pode-se concluir que, na literatura pós-moderna, questões sobre a realidade e a verdade, o conhecimento histórico e a referência, a subjetividade, a narratividade, as ideologias, as relações políticas e de poder, entre outras questões, são problematizadas. Com essas observações, procurou-se fazer uma análise do romance Em Liberdade, por um viés de leitura identificada com as características da metaficção historiográfica ou da ficção pós-moderna. Assim, o romance apresenta diversas características e problematizações do referido objeto de estudo. REFERÊNCIAS CARVALHAL, T. F. Literatura Comparada. 3ª ed . São Paulo: Ática, 1998. (Série princípios). ECO, U. Pós-escrito a O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Trad. de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. 22a ed. São Paulo: Edições Loyola, 2012. HUTCHEON, L. Poética do Pós Modernismo: História, Teoria, Ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991. JAMESON F. A virada cultural: reflexões sobre o pós-modernismo. Trad. Carolina Araujo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. JAMESON, F. Espaço e Imagem: Teoria do Pós-moderno e outros ensaios. Trad. de Ana Lúcia Almeida Gazolla. 3ª ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2004. SANTIAGO S. “O narrador pós-moderno”, In: SANTIAGO S. Nas malhas da Letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 44- 60. SANTIAGO S. Em Liberdade. 4ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1981. SANTOS J. F. O que é pós-moderno? São Paulo: Brasiliense, 1986. (Coleção Primeiros Passos). 109 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Entre a pomposidade e a veracidade: Realismo e Romantismo na obra The adventures of Huckleberry Finn de Mark Twain CIRICO, Mayara Elisa de Lima ROSSI, Heloyse POLIDÓRIO, Valdomiro RESUMO: Mark Twain em The adventures of Huckleberry Finn constrói uma narrativa com atmosfera juvenil, tendo uma criança como protagonista, porém sua obra se apresenta muito sensível a todos os fatos e aspectos culturais de sua época e de sua região. Uma aventura que segue o fluxo de um dos principais personagens da obra, o próprio Mississipi, que assim como um rio, tem suas agitações e suas calmarias. A narrativa também oscila entre o Realismo e o Romantismo, mostrando que a vida muitas vezes se encontra à deriva desse enorme rio que é a existência. Esse estudo volta-se, então, o olhar aos enunciados subjetivos do texto, à harmonia da obra e às críticas ao ser humano. Será também posto em embate as figuras dos personagens Huck Finn e Tom Sawyer, servindo como ilustração para caracterizar os períodos literários presentes na obra. PALAVRAS-CHAVE: As aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain, Mississipi, Realismo e Romantismo. INTRODUÇÃO “The adventures of Huckleberry Finn” é um dos romances mais famosos de Mark Twain, pseudônimo de Samuel Clemens. De acordo com Ernest Hemingway, “toda literatura americana moderna se origina de Huckleberry Finn. Não havia mais nada antes. Não houve nada tão bom desde então”39 A obra foi lançada em 1884 e pertence ao realismo americano, mas carrega muitas características do romantismo e trechos compostos por sátira e humor, formando uma narrativa ora dramática, ora cômica. Retrata minuciosamente a cultura dos povos que moravam à margem do rio Mississipi, segundo mais longo rio dos Estados Unidos. O rio exerce um papel fundamental no romance, é um dos personagens principais. É quem embala as aventuras vividas por Huck, o narrador, e quem o leva para os povoados. A todo o momento o rio se faz presente na história e é sempre referido como 39 Esta referência está presente na contracapa do livro TWAIN, Mark. As aventuras de Huckleberry Finn. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2011. 110 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS tranquilo e caudaloso. É onde Huck e Jim encontram calmaria, paz, ao contrário da terra, onde encontram confusões. Huck e Jim descem o rio em direção aos estados escravagistas do sul das grandes fazendas de algodão. A vida dos senhores de escravos dessa região era relativamente modesta, mas formavam uma aristocracia segundo os moldes clássicos. De acordo com Florival Cáceres, “as cidades do sul eram modestíssimas, porque a economia doméstica provia a necessidade dos moradores dos grandes latifúndios. A indústria era praticamente inexistente” (1992, p. 118). Em meio a várias publicações da época que relatavam enredos amorosos e uma descrição romantizada do lugar em que elas se desenrolavam, Mark Twain foi um dos únicos que não falhou quanto à escrita regionalista. Paralelamente a essas histórias de amor, encontravam-se as denúncias de injustiça social, que acabavam por desinteressar os leitores sedentos por obras românticas. O autor de Huckleberry Finn conseguiu trabalhar com tamanha destreza, que uniu as críticas com a aventura de uma criança. Em um de seus anúncios, o escritor fala que a sua narrativa é: a story which details some passages in the life of an ignorant village boy, Huck Finn, son of the town drunkard… He has run away from his persecuting good widow who wishes to make a nice, truth-telling, respectable boy of him; and with him a slave… has also escaped. They have found a fragment of a lumber raft, and are floating down the river by night, and hiding in the willows by day (BLAIR, 1952, p. 387). Neste presente trabalho, o livro “As aventuras de Huckleberry Finn” será analisado a partir do período literário que ele pertence (Realismo) e também pelas suas características do Romantismo. Além disso, serão observados alguns traços da cultura americana da época, a escravidão, a crença religiosa, a linguagem típica, o amadurecimento forçado do personagem Huck, comparando-o com seu amigo Tom Sawyer, e também o humor que é marcante nesta obra. Para tanto, será utilizado o aporte teórico de Robert E. Spiller e Carolina Nabuco. 111 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS REALISMO E ROMANTISMO O final do século XIX ainda trazia resquícios fortes do Romantismo e tendia demasiadamente para escritas rebuscadas. Em parte isso acontecia, porque os norteamericanos ainda tentavam provar que poderiam escrever tão elegantemente quanto os ingleses. Devido ao início da urbanização e a proliferação das grandes indústrias, os sistemas de comunicação e os meios de transações, de acordos internacionais, sofreram grandes evoluções. O novo sistema ferroviário intercontinental, inaugurado em 1869 e o telégrafo transcontinental, são exemplos de que os negócios prosperaram rapidamente após a guerra civil. A indústria passou a ter acesso ao mercado, e os constantes imigrantes que ingressavam no país conseguiam trabalho. Esses imigrantes, e claro muitos nativos, acabavam por integrar uma massa de pessoas que serviam de mão-deobra barata, os proletários. Em 1860, a maioria dos americanos vivia em uma sociedade agrícola, em pequenas terras de produtividade ou pequenos povoados. Porém, em cerca de cinquenta anos a metade da população passa a se concentrar nas áreas urbanas. A intenção literária passa a ser aquela que descreve a realidade, que se baseia na fala americana vigorosa, coloquial, que capta as gírias, o espírito iconoclasta, ou seja, descrever com exatidão o que outros indicavam com frases vagas e eloquentes. A introdução do Realismo requereu certa coragem dos escritores, pois estes deveriam enfrentar o monstro do puritanismo. No entanto, o público se interessou pelo novo método que a crítica enaltecia. Conforme o Realismo ia invadindo o espaço literário, o estilo foi abandonando o rebuscamento, a exteriorização verbal, a idealização, os vocábulos sem utilidade. As metáforas passaram a ser sutis, deixando de aparecer como engodo. No romance de Twain, “The adventures of Huckleberry Finn”, é possível perceber a presença do Realismo, pelo fato de falar a verdade, transcender antigas convenções e mostrar que o meio define o homem. A obra se inicia com Huck sobre os cuidados da viúva Douglas, indo ao colégio, sendo catequizado, aprendendo as leis que regem uma sociedade. Porém, ao ser raptado pelo próprio pai, indo morar em meio ao mato, onde passava muito tempo 112 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS sozinho, Huck começa a se acostumar com esse modo de vida. E passa a repensar sobre os estudos, não tendo mais vontade de voltar à escola. Passa a gostar de viver nesse meio, se adaptando a esse tipo de vida e se parecendo com o seu pai, como é possível notar na passagem: It was kind of lazy and jolly, laying comfortable all day, smoking and fishing, and no books nor study. Two months or more run along, and my clothes go to be all rags and dirt, and I didn`t see how I’d ever got to like it so well at the window’s, where you had to wash, and eat on a plate, and comb up, and go to bed and get up regular, and be forever bothering over a book, and have old Miss Watson pecking at you all the time. (TWAIN, 2008, p. 35-6) Ainda é claramente explícito o Realismo com traços naturalistas, quando o pai de Huck é recolhido pelo juiz Thatcher para curar sua bebedeira e sair das ruas para virar um homem de bem. Entretanto, altas horas da noite, de um dos primeiros dias de hospedagem na casa do juiz, o pai de Huck foge pela janela indo ao primeiro bar que encontra, dando o paletó novo em troca de meia garrafa de rum. Destaca-se nessa parte a condição inegável e imutável do ser. A predestinação a cumprir determinado caminho. Ele já teve sua formação nesse meio, portanto, depois de acomodado a mudança se torna quase impossível. Como Huck ainda era uma criança, adulto em formação, a cada parada que ele fazia em povoados diferentes em meio a sua aventura no rio, ele acostumava-se com o estilo de vida a que tinha contato. Como por exemplo, na casa dos Grangerford, em que Huck fala: “It was a mighty nice family, and a mighty Nice house, tôo. I hadn’t seen no house out in the country before that was so Nice and had so much style” (TWAIN, 2008, p. 129). Ele, então passa a gostar de viver ali, aquele passa a ser seu estilo de vida e só é interrompido devido à briga das famílias Granderford e Shepherdson. Em cada passagem de Huck pelos vilarejos, é forte a presença dos aspectos culturais. Na casa dos Grangerford observa-se a presença marcante da religião, pois a família toda vai à missa e quando retornam, passam o resto do dia falando sobre o sermão feito pelo padre. Além disso, na casa dessa família nota-se a rixa existente entre os Grangerford e os Shepherdson. Os membros das duas famílias mal sabiam o porquê da disputa entre eles, mas faziam de tudo para matarem seus “rivais”, era uma briga que vinha de outras gerações. Esse fato pode ser considerado uma crítica de Twain, pois as 113 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS famílias eram muito religiosas, mas ao mesmo tempo vingativas, matando sem pudor algum, chegando até a frequentar a igreja com as armas. É como se fossem pertencentes a uma religião cristã, mas tivessem atitudes de pagãos gregos, aqueles que vingavam-se com as próprias mãos. Durante os primeiros cinquenta anos após a independência dos Estados Unidos, o número de imigrantes subiu constantemente, chegando a passar de quatro para dezessete milhões de pessoas. Também devido a esse fator a língua que falavam os norte-americanos, já não era a mesma, diferenciava-se do britânico em expressões idiomáticas, pronúncia e vocabulário. O idioma adquiriu tantas características novas que passou a ser definido, com justificativa, como sendo norte-americano. Mark Twain se apropria dessa diferença linguística e dá ao coloquialismo do diálogo completa naturalidade e autenticidade. O escravo Jim faz-se real devido o seu falar meio “caipira”, pois é visto que morava em região rural, sustentada pela vida agrária e não possuía escolaridade alguma. Essa coloquialidade é percebida no trecho: “Well, I’uz gwyne to spen’it, but I had a dream, en de dream tole me to give it to a nigger name’ Balum-Balum’s Ass dey call him for short; he’s one er dem chuckleheads, you know. But he’s lucky, dey say, en I see I warn’t lucky” (TWAIN, 2008, p. 61). Tanto seu jeito de falar, quanto a sua inocência em revelar no que acredita e na maneira como vê o mundo, fazem dele um dos personagens mais vivo e realista da obra. Por outro lado, o personagem Huck também tem o seu dialeto, caracterizado a partir da região em que morava. No entanto, este se distancia do falar do negro pelo fato de que Huck, inicialmente, foi criado por uma família, sendo alfabetizado e frequentador da escola. Em relação ao Realismo incidindo nos Estados Unidos, Nabuco (2000) afirma que: “Não havia da parte dos críticos construtivos, senão aplauso para os ficcionistas que fugissem do romantismo e relegassem a inspiração poética ao fundo invisível” (p. 151). Ou seja, apesar das grandes mudanças provocarem muito “rebuliço” no povo da época, este se interessou pela nova escrita, pois procuravam a verdade, seja ela boa ou não. Por outro lado, contrapondo-se ao realismo e por vez, amenizando-o, aparece a presença de características do Romantismo, como por exemplo, na idealização que Huck faz de Mary Jane. Ele a vê como a heroína perfeita, a mulher provedora do bem, e pode ser observado em: “You may say what you want to, but in my opinion she had 114 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS more sand in her than any girl I ever see; in my opinion she was Just full of sand. [...] I hain’t ever seen her since, but reckon I’vê thought of her a many and a many a million times” (TWAIN, 2008, p. 243). Mary Jane aparece na obra como se fosse uma protagonista dos grandes clássicos do Romantismo, apresentando todas as características idealizadoras, no entanto, ela desaparece assim como surge, de repente. Talvez seja essa a intenção do autor, mostrar que a vida também muda, assim como na ficção. Que nunca obedece regras. Essa pode ser a grande magia nessa obra de Twain, pois ao mesmo tempo que ele pondera entre o Realismo e o Romantismo, ele mostra a vida com seus altos e baixos, como realmente é, como sendo “real” e portanto, justificadamente pertencente ao Realismo. Spiller (1961) em sua obra sobre o literato americano expõe que: ao reconhecer, em 1871, que os fatos da vida norte-americana não correspondiam ao ideal do homem democrático, [...] Esta discrepância entre a realidade e o ideal constituiu a força criadora de uma sociedade livre, pois lhe dá a dinâmica da mudança. Só quando o ideal do indivíduo livre se torna demasiado identificado com determinada fase do desenvolvimento econômico e político do país é que a estrutura democrática se enrijece, cede e desmorona (p. 154) Por essa razão os Estados Unidos passam por inúmeras crises, uma delas é o fato de haver uma separação geográfica entre o Leste e o Oeste. Pois, à medida que a civilização da República litorânea se expandia rio adentro, pelo interior do continente e levava consigo o espírito animador de novas perspectivas e explorações, a região Leste, por outro lado, preferia não emigrar para o Oeste e se voltava com toda a força para a cultura da Europa, tentando fortalecer ainda mais os laços tradicionais com o Velho Mundo, desenvolvendo assim um espírito conservador e aristocrático que se refletiu num estilo literário polido e sentimental. A obra em questão apresenta também oscilações entre o drama, puxando o tom da narrativa bem para baixo, e o humor, fazendo com que o drama seja subitamente substituído pelo cômico. Mark Twain possui um dom nato ao que se refere à comicidade, pois seu poder inventivo espanta. Ele procura as melhores maneiras de ofender as situações mais naturais. Um belo exemplo para ilustrar o humor ilógico e desproporcional da obra, bem como a ruptura com o dramático, é o trecho em que Huck e Jim conversam sobre a possibilidade de chuva. Jim explica à Huck algumas de suas 115 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS crenças, como por exemplo: “Jim said bees wouldn’t Sting idiots; but I didn’t believe that, because I had tried them lots of times myself, and they wouldn’t sting me.” (TWAIN, 2008, p. 59). Porém, antes dessa parte, Jim estava contando sobre como fugira e como ficara o dia todo sem comer, sendo obrigado a pular no rio para ir buscar comida nas embarcações e como era perigoso para ele, sendo negro. Essa narração dramática é desconcertada com a inserção do cômico. Huck e Jim vivem momentos dramáticos e também engraçados a bordo de sua jangada. Todas as vezes que Huck vai a um vilarejo, Jim fica escondido dentro da embarcação, como era um escravo, a qualquer momento poderia ser capturado e vendido ou devolvido para sua antiga “dona”, Miss Watson. TOM SAWYER VS. HUCKLEBERRY FINN Os dois personagens, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, que dão ação a história podem ser comparados as escolas literárias presentes na obra de Mark Twain. Cada um deles possui características que acabam por ilustrar tais escolas. A obra tem início com o personagem de Huckleberry Finn infantil, imaturo, receoso como toda criança de sua idade. No entanto, conforme o decorrer na narrativa ele sofre um amadurecimento forçado, pois é obrigado a se virar sozinho e descobrir meios para sobreviver. Após a fuga da casa de seu pai, Huck se vê em uma situação complicada. Ele achava que ao fugir ia viver em paz, sozinho, sem aborrecimentos, pensamento esse de criança que não pesa as consequências. Tanto que nas primeiras páginas as brincadeiras dos meninos se davam com a inocência de garotos que fantasiam aventuras. Huck e Tom queriam se infiltrar em uma realidade do faz-de-conta dos livros de heróis. Ambos construíam planos de espiões, planos para capturar ladrões ou jóias e tesouros roubados, brincadeiras essas que envolviam armas e sangue imaginários. Suas posturas de heróis eram romantizadas. Os Estados Unidos, nessa época, era em parte uma fronteira em constante mudança, pois era habitada por muitos imigrantes que falavam diversos idiomas e cujo estilo de vida era estranho e rude. Portanto, o herói romântico de uma narrativa americana poderia explorar terras selvagens como os caçadores de pele de James Cooper, ou encontrar o demônio durante uma caminhada pela floresta, como escreve 116 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Hawthorne. O americano democrático teve que “inventar” um estilo próprio e sendo assim, criar novas formas e narrativas de em clima de sonho e divagação. Para Huck essa idealização é desconstruída quando ele se depara a uma situação de apuro, é cativo de seu pai e para tanto deve tomar uma atitude. E faz isso de maneira muito eficaz planejando meticulosamente sua fuga. Ou seja, vive realmente uma de suas brincadeiras. Huckleberry finge a própria morte na casa de seu pai em meio ao mato. Criando um plano muito bem “arquitetado”, ele mata um porco e se utiliza de seu sangue para forjar um assassinato. Após a fuga, Huck por se ver sozinho e tendo que se manter sem ajuda ou orientação de algum adulto, levava em consideração no começo de sua “aventura” com Jim, o que aprendera com os mais velhos. É possível perceber a transmissão de valores para os mais novos, como pode ser afirmado no trecho “Pap always said it warn’t no harm to borrow things if you was meaning to pay them back some time” (TWAIN, 2008, p. 85). Entretanto, conforme os dias vão passando, Huck necessita fazer escolhas sozinho e então, começa a enxergar o mundo com seus próprios olhos e segundo suas concepções. Não mais obedece ao que lhe fora transmitido, Huck começa a refletir sobre a verdadeira moral, por exemplo, quando divaga sobre a questão de denunciar ou não o negro Jim. É perceptível que ele pondera as situações para tirar uma conclusão, nem que esta exija seguir como bem lhe parecesse, como é o caso em: Then I thought a minute, and says to myself, hold on; s’pose you’d a done right and give Jim up, would you felt better than what you do now? No, says, I, what’s the use you learning to do right when it’s troublesome to do right and ain’t no trouble to do wrong, and the wages is just the same? I was stuck. (TWAIN, 2008, p. 118) Neste momento da narrativa, vê-se que Huck tem grande afeto com o negro Jim, mas mesmo assim carrega valores transmitidos pela cultura escravagista, uma visão preconceituosa de que o negro servia apenas para ser escravo e por isso, acredita que não está tomando a atitude correta e deve denunciá-lo. Huck encontra-se em um dilema entre a escravidão e a amizade, e já não sabe mais se deveria ajudar o negro a fugir. No entanto, acaba seguindo a amizade, começa a refletir e reconhece que Jim é um amigo importante e que o ajuda muito nas mais diversas situações. 117 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O personagem de Huckleberry Finn faz reviver aquela criança que questiona tudo, que fala a verdade por inocência, que vê defeitos na maneira egoísta de viver dos adultos. Mark Twain através de Huck faz da voz do personagem a sua ao criticar o ser humano e seus imensuráveis defeitos. À Huck pode-se remeter o Realismo, tendo em vista que as situações por que passava eram cruéis e brutais como a vida real, aproximando-se da verdade, retratando a vida cotidiana. Ele se questiona sobre as “imbecilidades” que os homens criam e a cultura que os mesmos obedecem. Como um adulto em miniatura, ele mostra-se muito maturo ao dar conselhos a Mary Jane e querer reclamar justiça, indo contra os charlatões que poderiam beneficiá-lo. Por outro lado, Tom Sawyer apresenta-se como o oposto de Huck, pois possui uma visão infantil dos fatos da vida. No começo da obra é notável perceber que os dois amigos encontram-se em patamar de maturidade equiparáveis. Porém, com o decorrer da narrativa, Huck assume uma postura mais adulta, o estilo de vida por que se depara lhe exige uma maturidade quase que forçosa. Ao passo que Tom, que fica na sua cidade, na sua casa, na sua vida, estagna na sua idealização romanesca da vida e, de seus heróis desbravadores. Pode-se relacionar esse pensamento como uma crítica ao Romantismo, que o paralisa na sua época e ele acaba por não ver o mundo em acelerado avanço. Enquanto Huckleberry estava lutando pela sua sobrevivência e se deparando com acontecimentos que lhe obrigavam a planejar uma maneira eficaz para passar os dias, Tom vivia sua vida burguesa, sem ter que se preocupar com seu sustento, apenas tendo preocupações de criança da idade. Faltava-lhe vivência, estas que ele procurava nos livros, nos grandes romances dos heróis idealizados. É interessante notar uma passagem na obra de Twain que relaciona as duas visões de mundo dos meninos: o plano de fuga para soltar Jim da fazenda dos Phelps. Huck que já havia passado por muitas dificuldades, pensa sempre nos planos mais eficientes, nos mais simples e rápidos, porém com um objetivo. Enquanto Tom Sawyer não pensa no objetivo em si, mas na maestria do plano, na sua perfeição. A enorme diferença entre os dois amigos está explicita na passagem em que Huck expõe seu plano de fuga para Tom: 118 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS My plan is this,” I says. “We can easy find out if it’s Jim in there. Then get up my canoe to-morrow night, and fetch my raft over from the island. Then the first dark night that comes steal the key out of the old man’s britches after he goes to bed, and shove off down the river on the reft with Jim, hi ding daytimes and running nights, the way me and Jim used to do before. Wouldn’t that plan work? WORK? Why, cert’nly it work, like rats a-fighting. But it’s too blame’ simple; there ain’t nothing TO it. What’s the good of a plan that ain’t no more trouble than that? It’s as mild as goose-milk. Why, Huck, it wouldn’t make no more talk than breaking into a soap factory? (TWAIN, 2008 p. 296). Pode-se perceber que nesse momento o que Huck mais quer é salvar seu amigo Jim, fazendo com que ele consiga escapar para poder adquirir sua liberdade e poder juntar-se a sua família, portanto Huck pensa mais na finalidade do plano, na simplicidade, na realidade de poder concretizá-lo. Ao contrário de Tom, que fantasia uma aventura em cima de um fato real, para assim poder colocar um de seus sonhos literários em ação. Não se preocupa, com o negro (tanto que no final da obra é esclarecido que Jim já era um negro alforriado devido à morte de sua senhora, a velha Miss Watson, fato esse que Tom já conhecia), preocupa-se com a pomposidade do plano, com sua complicação, pois assim seria digno de um clássico romântico. Os dois brincam de resgate e pode ser notada a ficção dentro da ficção. Jim foi preso pela família Phelps, mas começou a sofrer muito mais com as “invenções” de Tom Sawyer, este que chegou até a colocar aranhas e ratos no cativeiro do negro para dificultar as coisas e criar um cenário mais “sofrido”, típico dos livros de heróis românticos que costumava ler. O absurdo é tamanho que a certa altura da narrativa, Jim solta sua corrente, sai de seu cativeiro para poder ajudar os “peraltas” em seu próprio resgate, voltando logo em seguida e prendendo suas correntes junto à cama. Ele carrega uma pedra para dentro de seu quartinho sujo, serviço que somente uma pessoa forte como o negro conseguiria fazer, para que assim possa gravar nela suas lamentações. Esse trecho apresenta uma ironia tamanha para com o Romantismo, mostrando que a importância maior não é para a finalidade de uma ação e sim com o requinte dos meios para realizá-la. 119 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS CONSIDERAÇÕES FINAIS Em “The adventures of Huckleberry Finn” Mark Twain apresenta uma narrativa ora romântica, ora realista. As duas escolas literárias podem ser identificadas a partir das aventuras vividas pelo personagem Huckleberry Finn a bordo de uma jangada, seguindo o fluxo do rio Mississipi, juntamente com o negro Jim. Além disso, os dois estilos literários também são observados na comparação entre dois personagens da história. No início do romance, Huck é apenas uma criança inocente, mas ao longo da história amadurece devido à necessidade de sobrevivência. O personagem passa a viver de forma mais realista, tendo muitas responsabilidades e enfrentando aventuras muito dramáticas e cruéis, bem características da vida real. Em contrapartida ao estilo realista do personagem Huckleberry Finn, o seu amigo Tom Swayer não teve o mesmo amadurecimento, seu comportamento ainda é muito infantil. Enquanto Huck lutava pela sua sobrevivência, tendo de enfrentar muitos perigos, Tom continuava tendo sua vida burguesa, vivia sua infância sem muitas preocupações, lendo livros e idealizando heróis. A diferença entre esses dois personagens e entre as duas escolas literárias (Romantismo e Realismos) é bem destacada nos capítulos finais do romance, em que os dois tramam um plano para salvar o negro Jim. Huck, que agia de maneira mais racional, pensava em como libertar o negro de forma rápida e eficaz, tendo planos reais e possíveis. Porém, Tom, inspirado em seus heróis dos livros, se preocupava muito mais com a pomposidade do plano, levando mais em consideração a estética do que a funcionalidade das coisas. Sendo, por isso, considerado um personagem mais voltado ao Romantismo. BIBLIOGRAFIA BLAIR, Walter. The United States in Literature. Atlanta: America reads, 1968. CÁCERES, Florival. História da América. 2 ed. São Paulo: Moderna, 1992. NABUCO, Carolina. Retrato dos Estados Unidos à luz de sua literatura. 2 ed. Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 2000. SPILLER, Robert E.. O cliclo da literatura norte-americana. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961. TWAIN, Mark. The adventures of Huclekerry Finn. New York: Charles L. Webster and Company, 2008. 120 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS FICÇÃO HISTÓRICA: A POÉTICA DO DESCOBRIMENTO EM EL CONQUISTADOR (2006) E CRÓNICA DEL DESCUBRIMIENTO (1980) KLOCK, Ana Maria. 40 FLECK, Gilmei Francisco.41 INTRODUÇÃO A necessidade de reinventar o olhar sobre o passado e sobre os acontecimentos históricos que caracterizam o universo latinoamericano, autores e teóricos buscam no romance histórico a possibilidade de mostrar e de construir uma outra história, uma história que não pôde ser contada ou que foi perdida. Nesse sentido, o romance histórico contribui para que as lacunas da história possam ser preenchidas com a imaginação do que poderia ter sido ou, talvez, de como foi. A reconstrução, feita através da união entre a história oficial e ficção, resulta nesse gênero que reconstrói, a partir de antigos documentos e outras fontes históricas, e ainda problematiza questões tão delicadas que envolvem a memória e a identidade de um povo. Para ilustrar a maneira como esse passado fictício é construído, exploraremos nesse artigo dois romances históricos, Crónica del Descubrimiento (1980), do escritor uruguaio Alejandro Paternain e El Conquistador (2006), do escritor argentino Federico Andahazi. A temática central das duas obras é a reprodução do “descobrimento” da Europa pelos autóctones americanos, explorando o olhar deles sobre o Velho Mundo. A INTENÇÃO QUE MOVE O DISCURSO HISTÓRICO E O LITERÁRIO Em razão de uma série de transformações significativas que passaram a ocorrer no final do século XIX e que tiveram grande impacto na organização das sociedades, o 40 Acadêmica do 3º Ano do curso de Letras Português/Inglês da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE/Cascavel. [email protected] 41 Professor Adjunto da UNIOESTE/Cascavel nas áreas de Literatura e Cultura Hispânicas. Doutor em Letras pela UNESP/Assis. Vice-líder do grupo de pesquisa “Confluências da Ficção, História e Memória na Literatura”. Coordenador do PELCA: Programa de Ensino de Literatura e Cultura. [email protected] 121 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS mesmo se viu refletido nas ciências humanas. O alastramento do conhecimento para áreas que até então estavam obscurecidas pela ignorância, permitiu com que o homem pudesse se aprofundar cientificamente em questões até então discutidas exclusivamente no plano religioso, utópico, privado, campos limitados em que imperava ideias equivocadas e deterministas. Com efeito, tais transformações atingiram diretamente o modo de ver a história e, concomitantemente, a literatura também pode sentir seus efeitos Fue al fundo de la subjetividad, vivió hasta el absurdo el mito prometeico del autor como omnipotente y caprichoso dios del fuego que se ha robado, exploró una compleja arquitectura de relaciones ficticias y reales apenas si se vislumbraba a finales del siglo XIX, intentó con mayor o menor fortuna una inmensa variedad de combinaciones estilísticas, incluidas utopías literarias fallidas por el estilo del nouveau roman con su actitud filo-lingüística y filoestructuralista, se alió las más diversas posiciones filosóficas, asumió el punto de vista del loco, del retrasado mental y del antisocial, y a estas alturas se halla en un territorio de decantaciones, ambiguo pero fecundo, audaz pero riguroso, que ha dado en llamarse el Postmodernismo. (HOYOS, 1997, p.125-126) Independentemente de tais modificações, que gradualmente foram acontecendo, a relação entre história e literatura se manteve a mesma. Hoyos (1997) mostra que no Renascimento, contexto que, segundo o autor, foi de mutua antipatia entre as duas áreas, o romancista via o historiador como um rato de biblioteca, um praticante da prosa seca e estática, um estudioso sem calor humano, sem imaginação e sem sentido de humor. Já o romancista era visto pelo historiador como um fabulador mentiroso, absorto e carente de rigor. O mútuo desprezo mantido entre as duas áreas só pôde ser superado na medida em que a história deixou de ser tão limitada, tornando-se mais cientifica e mais preocupada com o fazer histórico, transformação que ocorreu graças à literatura que passou a se apropriar do discurso histórico para relaborar o passado, bem como recuperá-lo. Os elementos que aproximam e afastam o discurso histórico e o discurso ficcional, podem ser analisados sob a perspectiva da intenção que move cada um, mesmo sabendo que os limites entre o histórico e o narrativo, entre o real e o fictício, entre a verdade e o verossímil podem variar de acordo com a perspectiva adotada. 122 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A intenção com que uma obra foi escrita define ou que ela virá a ser e como ela figurará para o público. O texto literário, segundo Ainsa (1997), apesar de ser um recompilado de fatos passados, precisa de maior coerência, exige um diálogo mais fechado, autorreferencial, nutrindo-se da ambiguidade, da conotação textual e da intertextualidade literária, apropriando-se também da literatura já produzida e de textos históricos, políticos e paródicos. O resultado disso são obras plurisemicas e convincentes, com caráter de real e verdadeiro, mimético. Aparentemente, o discurso histórico apresenta maior abertura e se liga a outros textos e referências históricas por meio de uma linguagem denotativa e tecnicamente uniforme. Pensando especificamente em cada caso, o discurso histórico preza pela objetividade. O historiador, para registrar, usa a terceira pessoa e a escrita no passado, criando um afastamento entre aquele que relata e aquilo que é relatado, além de anular toda relação subjetiva que pode ser demonstrada. Para relatar, goza da liberdade de escolher, selecionar, organizar, simplificar e explicar e a intenção que o move é a de ser auto-exigente, pois configura-se como uma autoridade sobre aquilo que diz. Contudo, o relato não está livre de equívocos ou emissões, o que o torna um testemunho visto e analisado por um ângulo e que se supõe haverem outros. Na ficção, o discurso ficcional é plurisemico e equívoco apesar de tentar ser persuasivo e convincente, buscando produzir um efeito de realidade em que se destaca com o uso de recursos como a mimese e o monólogo interior. Ainda que as diferenças que afastam a história e a literatura e o modo como tomam o passado, elas se aproximam quando reconhecem a multiplicidade de causas e variações para os acontecimentos. Com isso, Ainsa (1997) mostra que essa característica aproxima a história com a ficção, pois ambas compartilham diversos pontos de vista, permitem a confrontação de opiniões e ideias, dúvidas e certezas. Após tantos anos de uma amizade pouco amistosa, a literatura e a história atualmente andam juntas para recuperar o passado e reconstituir aquilo que poderia ter sido. Essa reaproximação mostra a preocupação de resgatar um espaço próprio antes ocupado pelo discurso do outro. 123 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS ROMANCE HISTÓRICO – MIMESE DA REALIDADE Mas como recorrer aos textos antigos? Como se apropriar desse material tomando-o como suporte para repensar a realidade latino-americana? […] las Crónicas de Indias en la génesis de la memoria y de la literatura americana. Los Cronistas al acercarse a un objeto nuevo y desconocido hicieran del conocimiento directo e inmediato la fuente del nuevo saber histórico, basado, como en la antigüedad, en la observación y en la identidad del ”ver” con el “saber”. “Los ojos son descubridores” – se dijo metafóricamente – aunque al no poder imitar nada conocido, los cronistas se vieron obligados a comparaciones hiperbólicas o fantasiosas y a recuperar olvidados mitos o, simplemente, a ‘inventar’ retóricamente la nueva realidad. (aaaa, 0000, p. 00) Dentre os diversos relatos produzidos no período da conquista, o que antecede e se destaca dentre todos – por sua importância como documento histórico e literário – é o diário de Bordo de Colombo. Mesmo com a existência de documentos posteriores e que também relatam a aproximação com os povos americanos, os escritos de Colombo são sempre os mais revisitados, discutidos e criticados por ser único em importância, já que se trata do primeiro relato entre o encontro do homem europeu com o americano. Por esse motivo, é a fonte principal dos escritores que buscam problematizar o inicio da colonização, a destruição de civilizações e a formação de um novo povo originário da mestiçagem e da hibridização. Analisando toda a carga de importância que tanto a literatura como a história apresentam, pensar no caso da América Latina, essa importância ganha outro significado. Em um continente, cuja história foi sucessivamente reescrita sob diversos pontos de vista tornando-a imparcial, a literatura se encarrega por “criar” um passado ou de conferir uma identidade outrora perdida. A cultura também é beneficiada, pois vê na literatura a possibilidade de recriar o passado perdido e de imaginar um contexto não registrado na história. Com efeito, o discurso torna-se mais profundo e subjetivo, exigindo do escritor ir além dos personagens clássicos da história, abordando também aqueles esquecidos nos relatos e nas crônicas. O romancista contribui para desconstruir mitos, símbolos e a historiografia oficial, questionamento enriquecido principalmente 124 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS quando feito através do romance histórico, êxito que, por vezes, não é alcançado por outros gêneros. A partir do modelo scottiano, as características do romance histórico foram sendo desenvolvidas em solo americano e adaptadas à realidade aqui encontrada, fato que se justifica pelo uso diferenciado do material histórico e pela formação histórica em si, tornando as obras como modelo para a metrópole e força de expressão para os artistas. CRÓNICA DEL DESCUBRIMIENTO – A RECONSTRUÇÃO DO PASSADO Crónica del Descubrimiento (1980), do escritor, professor e jornalista uruguaio Alejandro Paternain, é um romance cuja temática central é a poética do descobrimento. O romancista recria o período colocando o autóctone americano como o “descobridor” da Europa, não sem empregar a ironia e a paródia para ilustrar a apropriação do discurso do colonizador pelo colonizado. Em El Conquistador (2006), do escritor argentino Federico Andahazi, a narrativa se aproxima muito da de Paternain porque também retrata a poética do descobrimento vista sob o olhar do colonizado. Apesar de trabalharem com o mesmo objeto, o protagonista de El Conquistador é o retrato de Cristóvão Colombo. O autor se aproxima muito da biografia de Colombo para criar o personagem Quetza. Em Crónica del Descubrimiento, Colombo não é retratado em apenas um personagem. Ele se divide para dar origem à vários personagens que carregam alguma característica da sua personalidade. Mesmo cada obra tendo suas peculiaridades, os autores buscam chamar a atenção do leitor para imaginar outra realidade, indagar o que poderia ter acontecido se um evento ou outro tivesse ocorrido de outra maneira e de como isso teria afetado a história e o futuro de uma civilização. Observando alguns trechos das obras – tendo em vista a complexidade de relacionar aqui todos os elementos – faremos uma breve analise de como cada autor constrói uma visão diferente sobre o passado, embora tais textos se liguem pela polifonia e pela intertextualidade ao abordarem a mesma temática. Crónica del Descubrimiento começa com a seguinte declaração: 125 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Yo, cronista de la tribu de los mitones por la gracia de Tebiché, que reina entre los espíritus buenos, comienzo la crónica puntual de este viaje. La mañana es fresca, como corresponde a la temporada invernal, pero el sol calienta lo suficiente y nadie tiene que echarse encima la pesada piel de venado. Las aguas de la bahía se muestran mansas, luce el cerro verdes intensos y sopla una brisa ligera. Las tres piraguas están ya listas, y los remeros, empuñando sus remos, aguardan la orden de Yasubiré el navegante. (1980, p.9) Estas primeiras palavras antecedem a partida das três naus Linboy, Niboy e Conboy, tripuladas por poucos homens movidos pelo interesse de alastrar relações econômicas, comerciais, além de conquistar novas terras, mesmo que tal empreitada seja vista negativamente como “aventura o cosa de locos”. No trecho, nos chama a atenção o posicionamento do cronista, como integrante da comitiva e como aquele que registrará todos os momentos da jornada, ele tem consciência da sua importância como àquele que deixará registrada a empreitada. Novamente a posição do cronista é destacada quando Semancó, representante do Gran Cacique, dirige-se à ele dizendo: “Recuerde, cronista, para aso lho llevamos, para que recuerde. Las generaciones venideras se admirarán del viaje del guerrero Semancó y del navegante Yasubiré”. A jornada que se inicia segue paralela à história oficial. Assim que as embarcações zarpam da costa, acompanhadas por poucas pessoas que provavelmente desconheciam a grande importância da viagem, uma mulher aparece para abençoar os navegantes. A narrativa se remete a partida de Cristóvão Colombo do porto de Palos na Espanha, em 1492, também acompanhado pelas três embarcações Pinta, Nina e Santa Maria, em que representava os reis de Castela, Isabel e Fernando de Aragão, e ainda abençoado pela Igreja. A mesma façanha e os mesmo objetivos se repetirão na história ficcional: […] Los jefes, sobre todo Yasubiré el navegante, han de querer arribar cuanto antes al nuevo mundo que buscan, impacientes por conquistar para Tebiché, para el Gran Cacique y para sus glorias individuales, tierras, tribus, riquezas y mujeres. […] Semancó sueña con territorios donde repetir sus proezas, hundir cráneos enemigos a macanazos, y hallar la forma de duplicar el número de mujeres, a los efectos de tener esposas de media estación. (1980, p. 11-12) 126 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Encontrar novos meios para o comércio e a navegação com o intuito de enriquecimento, poder e domínio são os objetivos óbvios manifestados pelo líder da viagem, contudo são outros os elementos que mais chamam a atenção do cronista. Para ele, o fato de poder conhecer outras paisagens, povos, culturas e costumes já se mostram como um ponto positivo mesmo correndo o risco de enfrentar perigos desconhecidos e de não poder mais retornar à sua terra. Mesmo estando encarregado de apenas registrar os fatos que envolvem diretamente a comitiva, o cronista secretamente expressa os seus anseios, a sua vontade de também experimentar o novo. O cronista, representando um dos traços da personalidade de Colombo, está ligado à ele pela sua função de registrar o cotidiano da travessia, mesmo tendo uma posição diferente. Semancó, o líder, deixa clara a ideia de que o registro servirá como documento para que as gerações vindouras possam conhecer os feitos de seus antepassados. O diário de Colombo, embora tenha servido também como registro, tinha uma função mais urgente, permitir com que os reis soubessem dos avanços da viagem e dos acontecimentos atrelados a ela. O trecho é significativo quando pensamos que, o relato de Colombo feito durante as quatro viagens realizadas ao continente americano, contribui para influenciar o imaginário europeu sobre a nova terra “descoberta”, levando-os a acreditar que se tratava do Paraíso Terrenal onde tudo era possível ser realizado. Como parte de sua obrigação, o cronista registra todos os integrantes que compunham a tripulação, permitindo assim com que o leitor conheça, por meio dele e da sua visão, quem são e quais são as características de cada personagem. Embora sejam personagens distintos com funções diferentes dentro da obra, é possível fazer uma relação da representação de cada um com Cristóvão Colombo. Siendo cronista oficial, ocupo um lugar de privilegio em la ‘Linboy’. En ella, además de Semancó, El jefe de armas, y de Yasubiré, cabeza de la expedición, viaja el gran Machí, la máxima autoridad hechicera, el único entrecano de la tribu de los mitones, el respetado Mañamedí, muy flaco y muy alto. (1980, p. 10) Cada personagem representa um aspecto das ambições carregadas por Colombo: Semancó, representando a belicosidade; Yasubiré, o arquiteto da viagem; e Mañamedí, 127 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS marcando a presença do religioso. Dos três personagens, Yasubiré é o que mais se assemelha à Colombo. O cronista, que afirma que é sua obrigação “saberlo todo y a no olvidar de nada”, declara que: Yasubiré no tiene sangre mitona. Hay quienes dicen que nació en tierras donde no canta el sabiá, hay quienes sostienen que es mestizo, producto del cruzamiento de sangres durante las últimas guerras que azotaron los territorios de los galerones. Basta observalo con un mínimo de atención para comprobar que sus rasgos no son los de un mitón auténtico. Su piel denuncia un color blancuzco infrecuente; sus pómulos están algo hundidos; sus ojos son casi redondos, cosa que atribuyo a sus incesantes veladas sobre los cueros pintados; y desde que lo conozco jamás le vis gastar atuendos jerárquicos, ni cubrirse con piel de venado o de pantera. (1980, p. 12-13) Como característica do romance histórico, o autor se apropria do material histórico e o adapta para construir outra representação dos fatos contextualizando-os no ambiente em que se desenrola a narrativa. Analisando o trecho, vemos que o narrador molda a figura de Colombo, no caso, Yasubiré, com as características dos povos autóctones, ressaltando elementos que lhe são estranhos, assim temos que a descrição física e a dúvida em torno da origem de Yasubiré suscitam a curiosidade e o interesse para descobrir essa figura tão enigmática. O mesmo se repete com a biografia de Colombo, em que vários teóricos não conseguem determinar ao certo a sua origem, fato que a principio quase prejudicou Colombo em levar seus planos adiantes. Na obra, a empreitada é encarada como loucura e não há o questionamento da origem de Yasubiré, fato contrário que ocorreu com Colombo, em que desconfiavam de sua origem judia. Contudo, da mesma maneira que a rainha Isabel intercedeu por Colombo, a favorita do Gran Cacique faz o mesmo por Yasubiré: “no creo que […] esté loco”. (1980, p. 13). Com isso bastou para que dessem o apoio para a viagem. Vemos o mesmo quando a Rainha Isabel apoiou Colombo, quando todos desacreditaram dele. Outro paralelo que o autor faz com a história oficial é a origem dos remadores: Queda sólo hablar de los remeros. Son treinta en la piragua capitana y veinte en cada una de las dos embarcaciones restantes. Me detendría aquí, esperaría a la mañana, no me gustaría seguir adelante. Pero como cronista me debo a la verdad, aunque sea algo triste. Los remeros no son mitones. Han sufrido un destino desdichado, provienen de la castigada tribu de los galerones, antes 128 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS tan belicosa, hoy venida a menos y sometida por nuestro Gran Cacique, a quien Tebiché guarde. Dijo Mañamedí, el hechicero: “Los galerones pagan ahora por su soberbia. Merecen ser esclavos.” (1980, p. 11) Os tripulantes que pertenciam às três naus sob o comando de Colombo, eram bandidos, ladrões, estupradores, uma classe de homens que, para não serem confinados em prisões imundas, aproveitavam a oportunidade oferecida para ingressar em uma embarcação, sujeitos a passar por perigos desconhecidos ao invés de morrer na prisão. Na obra, os remadores são prisioneiros de guerra, um povo que antes tivera dignidade, mas que agora são tratados como escravos. Na ficção, a tripulação de Yasubiré, apesar da condição em que estão, também são considerados sujeitos inferiores. EL CONQUISTADOR – UMA OUTRA VERSÃO El Conquistador (2006), do escritor argentino Federico Andahazi, é uma narrativa muito próxima a de Paternain porque também retrata a poética do descobrimento, oferecendo ao leitor a chance de indagar-se se a história latinoamericana poderia ter sido diferente se os acontecimentos passados tivessem tomado outro rumo. O ponto central que se destaca nessa obra é a visão do protagonista, o asteca Quetza, sobre o Novo Mundo “descoberto”: Europa. A descrição dos autóctones sobre o homem branco - registros raríssimos feitos após as invasões - é feita pelo protagonista que transmite ao leitor suas impressões acerca dos desconhecidos. Além da Europa, os personagens também conhecem o oriente, região que de alguma forma participará direta ou indiretamente com o “descobrimento” da América. Nessa obra, nos ateremos em Quetza para explorar a maneira como o autor reune no herói todas as características que resumem as realizações cientificas, os avanços do conhecimento e os acontecimentos históricos que ocorreram no início da Idade Moderna em todo o Velho Mundo. No primeiro capítulo de El Conquistador, o narrador caracteriza o personagem como: 129 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Estableció con exactitud el ciclo de rotación de la Tierra en torno del Sol y trazó las más precisas cartas celestes antes que Copérnico. Fue el primero en concebir el mapa del mundo adelantándose a Toscanelli. Los gobernantes buscaron su consejo sabio, pero, cuando su opinión contradijo los dogmas del poder, tuvo que retractarse por la fuerza, tal como lo haría Galileo Galilei dos siglos más tarde. Imaginó templos, palacios y hasta el trazado de ciudades enteras durante el esplendor del Imperio. […] Varios años antes que Leonardo da Vinci, imaginó artefactos que en su época resultaban absurdos e irrealizables; pero el tiempo habría de darle la razón. Adelantándose a Cristóbal Colón, supo que la Tierra era una esfera ye que, navegando por Oriente, podía llegarse a Occidente y viceversa. […] Comprobó que el Nuevo Mundo era una tierra arrasada por las guerras, el oscurantismo, las matanzas y las luchas por la supremacía entre las diferentes culturas que lo habitaban. Vio que los monarcas eran tan despóticos como los de su proprio continente y que los pueblos estaban tan sometidos como el suyo. (ANDAHAZI, 2006, p. 11-12) No trecho percebemos que todas as realizações do homem do século XV se resumem nesse personagem. O desenvolvimento de várias áreas do conhecimento permitiram com que os limites fossem ultrapassados tornando inevitável alastrar as fronteiras. O narrador, além de exaltar a capacidade de Quetza, também alega que “su nombre debió haber fulgurado por los siglos de los siglos. Pero apenas si fue recogido por unas pocas crónicas y luego pasó al olvido.” (2003, p. 13). O trecho é uma crítica em relação à falta de registros que falam sobre o passado latinoamericano. Com a chegada dos espanhois, muito das construções e dos registros antigos marcados na pedra foram destruídos e junto também foi a história. As únicas fontes históricas da época que os pesquisadores têm disponível para reconstruir o passado, ou algo próximo, foram deixadas pelos conquistadores e estão carregadas por visões equivocadas da cultura e do comportamento do outro. Os registros feitos pelos próprios nativos contam com pelo menos cem anos após a colonização e também estão marcadas por um olhar distante da realidade prejudicando o trabalho do historiador. Nesse ponto, destaca-se o papel do romancista em poder criar um passado, explorando a visão do autóctone sobre o colonizador. Finalizando o primeiro capítulo da obra, o narrador completa: 130 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Lo que siegue es la crónica de los tiempos en que el mundo tuve la oportunidad única de ser otro. Entonces, quizá no hubiesen reinado la iniquidad, la saña, la humillación y el exterminio. O tal vez sólo se hubiesen invertido los papeles entre vencedores y vencidos. Pero eso ya no tiene importancia. A menos que las profecías de Quetza, el descubridor de Europa, todavía tengan vigencia y aquella guerra, que muchos creen perteneciente al pasado, aún no haya concluido. (ANDAHAZI, 2006, p. 13) O narrador é claro quando diz que a obra será uma crônica de como poderia ter sido o passado. De fato o autor consegue se apropriar de um passado e sobre ele criar uma possibilidade inimaginável para a história. Também, sugere a conquista dos vencidos sobre os vencedores, é a América que “descobre” a Europa e que se assusta com a barbárie daquele povo tão estranho e sem modos. Por fim, declara que a guerra entre os dois lados ainda não está terminada. Se pensarmos a influência que por tantos séculos a Europa exerceu sobre a América, a luta da qual o narrador fala é a de se desvencilhar das marcas deixadas pela cultura dominante e hegemônica. Não devemos negar todas as contribuições culturais trazidas do Velho Mundo, mas devemos considerar a herança deixada por tantas culturas que foram subtraídas em razão de serem consideradas inferiores ou sem importância. Cabe aqui realizar um ritual antropofágico, empregando a paródia e a carnavalização. Na terceira parte da obra, Diario de Viaje de Quetza – Cartas a Ixaya, o autor estrutura o capítulo como um diário, marcando os dias de acordo a representação do calendário asteca. Nesse diário, Quetza registra suas aventuras desde a saída do porto de Tenochtitlan até o momento em que avista terra novamente, quando então interrompe a narrativa. Nesse meio, vários acontecimentos marcando a travessia. O primeiro a destacar refere-se à origem dos companheiros que formavam a tripulação: “la mitad de mis compañeros de viaje son Buenos huastecas y, la otra mitad, malos mexicas”. Em razão da inimizade que havia entre os dois grupos, um representando os povos vencedores e o outro os vencidos, havia um grande risco de a empreitada dar errada. O trecho se assemelha ao de Crónica del Descubrimiento. Nas duas obras, os autores realçam a origem dos marinheiros com uma descrição negativa em que nos dois casos são prisioneiros de guerra. Se tomarmos como exemplo a história, a tripulação de Colombo era formada por ladrões, desocupados, assassinos, uma classe que também não era bem vista pela sociedade em geral. 131 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Quanto à travessia e a chegada ao Oriente, tomaremos o diário de bordo de Colombo, em que o almirante também registra de forma muito detalhada os acontecimentos da viagem. Aqui, podemos nos deter um pouco para salientar a importância do diário de bordo, obra que serve como material de orientação para muitos escritores que buscam recriar o contexto do descobrimento da América. O diário, além de ser um registro histórico que marca um determinado acontecimento na história da humanidade, também possui outras representações de tamanha importância. Para Milton (1992), […] é a expressão de um agir ditado por um sonho e uma ideologia, que abrange um programa econômico e seu correlato imediato, o projeto religioso. Predominantemente narrado na forma, ele se vale também da modalidade descritiva para, no conjunto dessas duas técnicas, resultar uma peça argumentativa eloqüente, necessária à concretização de ambições pessoais (Colombo) e coletivas (Estado espanhol). (MILTON, 1992, p.175) O efeito que esse capítulo causa dentro do conjunto da obra, reforça a aproximação da imagem de Quetza com Cristóvão Colombo. Ambos são movidos por interesses pessoais, em desvendar aquilo que está além dos seus limites, e interesses coletivos, defendendo a expansão da sua nação e na aquisição de mais riquezas. No diário de Colombo, também observamos que a tripulação mostra-se descontente e ameaçam um motim por acreditarem que estavam perdidos e fadados a morte. Contudo, os problemas são contornados com a promessa de muitas riquezas e com a chance de melhorarem de vida. Navegou para oés-sudoeste. Percorreram, a dez milhas por hora e às vezes doze e até sete, e entre dia e noite, cinqüenta e nove léguas. Contou apenas quarenta e quatro para a tripulação. Aqui os marinheiros já não agüentavam mais; queixavam-se da longa viagem9. O Almirante, porém, incentivou-os o quanto pôde, dandolhes boa esperança das vantagens que poderiam obter. E acrescentou que não adiantava se queixarem, pois que ele tinha vindo para as Índias e que assim haveria de prosseguir até encontrá-las com a ajuda segura de Nosso Senhor. (COLOMBO, 1998, p. 44) Da mesma maneira que os historiadores não conseguem entrar em um consenso quanto aos detalhes da história de vida de Colombo, o autor se utiliza dessas incertezas 132 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS para construir a história do protagonista, apresentando alguns pontos obscuros quanto a sua origem. Isso é feito através das descrições físicas do personagem, como também do sentimento que o domina quanto ao seu real local de origem/pertencimento. A importância de se reparar no aspecto físico do nosso protagonista e suas características gerais, nos leva a refletir sobre a origem do povo latino-americano, assentada na miscigenação de diferentes povos e culturas e que constituiu a gênese e o nosso multiculturalismo. No último capítulo da obra, quando a tripulação de Quetza finalmente desembarca em solo desconhecido, a paródia do discurso do colonizador se faz mais forte na fala e nas concepções dos desbravadores. A apropriação desse discurso se traduz no preconceito e no desconhecimento que os recém-chegados constroem em relação à cultura, aos modos, as tradições e a religião do outro, assim como fizeram os primeiros europeus quando chegaram a América. Observamos nessa parte, que o autor acentua profundamente a oposição entre América e Europa quando reveste, fazendo a inversão das falas, o nativo americano com as ideias outrora pertencentes ao colonizador. Los nativos de estas tierras son gentes muy cobardes que escapan ante nuestra sola presencia. Nunca pensé que podríamos entrar sin encontrar resistencia alguna. Tan temerosos son, que aún no me imagino cómo establecer contacto con ellos. No bien nos ven, huyen como liebres? (ANDAHAZI, 2006, p. 163) Ao contrario do que Colombo registrou no diário, os nativos americanos não se mostraram arredios com a chegada dos estranhos. Do contrário, segundo a descrição no diário o acompanharam por muito tempo fornecendo-lhes comida e água. Quetza toma os brancos também como passivos e fáceis de serem conquistados, porém nota-se que o tom empregado é diferente. Ele vê aquele povo tão estranho como covardes e de difícil comunicação beirando até mesmo o desprezo por aquela gente, diferente da visão de Colombo, idealizada. Para opor as belezas descritas no diário, o narrador concede a voz ao protagonista para descrever o europeu de uma forma bastante sarcástica: 133 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS La primera impresión que se formó Quetza de los nativos estaba signada por el contraste con su propia gente. “La mayoría de los aborígenes presenta una piel de color tan pálido, que se diría que estuviesen gravemente enfermos”, anotó. […] Pero lo que más llamó la atención de Quetza eran los atavíos que usaban. “Hay un elemento realmente sorprendente en la forma de vestir de esos aborígenes: a pesar de que en este momento de año hace un calor agobiante, todos andan cubiertos de pies a cabeza. Nadie exhibe una sola parte de su cuerpo. U no sólo las partes pudendas; las mujeres andan con los pechos tapados, se cubren y hasta los brazos. Las hay, incluso, que llevan una túnica que les oculta desde el rostro hasta la punta de los pies. Los trajes de los hombres tiene muchas y muy complejas piezas. En general estos nativos huelen muy mal y no tienen la costumbre del baño diario; de hecho, me atrevería a afirmar que algunos no se han bañado jamás. De modo que, si se suma la falta de higiene al exceso de ropa y la abundancia de secreción, el resultante es un hedor que invade cada rincón de la ciudad”. (ANDAHAZI, 2006, p.70) A obra também explora os equívocos cometidos pelos espanhois quando tentavam interpretar a fala e as estruturas dos autóctones. Tais equívocos, que para nós parecem cômicos, são vistos em vários trechos do diário. Quetza também comete o mesmo erro quando confunde um convento com uma casa de prostituição: Las mancebías, o puterías, como las llamada el pueblo, estaban regidas por un “padre” y supervisadas por la autoridad eclesiástica. Debían cumplir con una reglamentación semejante a la que regía en Tenochtitlan. Las prostitutas tenían que residir y ejercer exclusivamente en la Mancebía y sólo podían acudir a hela hombres solteros. Estaba prohibido establecer tabernas y jugar juegos de azar dentro de la putería. Las pupilas no podían trabajar los días de fiestas de guardar. El “padre” podía contratar un hombre armado para que vigilase la puerta. (ANDAHAZI, 2006, p.188) Esses trechos são pequenos fragmentos que mostram a reconstrução de uma época passada e que buscam recuperar aquilo que foi perdido e esquecido. Por meio da representação dos hábitos, das tradições, dos costumes o escritor nos leva para outra realidade onde nos mostra uma possibilidade de imaginar como teria sido se a história tivesse tomado outro rumo. A seleção dos personagens históricos para compor a narrativa ficcional também é outra tentativa de questionar a história oficial, rebaixandoos a ponto de não mostrá-los como um personagem de mármore, mas explorando seus sentimentos e as suas intenções. 134 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS AINSA, Fernando. Invención literaria y ‘reconstrucción’ histórica en la nueva narrativa latinoamericana. In: KOHUT, Karl (ed.). La invención del pasado – La novela histórica en el marco de la posmodernidad. Madrid: Vervuert, 1997. ANDAHAZI, Fernando. El Conquistador. Buenos Aires: Planeta, 2006. 288 p. COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América. Trad. Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 1998. FLECK, Gilmei Francisco. 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Uruguay, 1980. 135 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS IDENTIDADE - UNIVERSO PLURAL OZELAME, Josiele Kaminski Corso42 O tema da existência de pessoas/personagens idênticas quer seja nos sinais, nas cicatrizes, nas rugas, na voz e até mesmo no corte de cabelo, não é novidade. Certamente, existem pessoas parecidas, como os sósias, que são tão semelhantes e que vivem, muitas vezes, ganhando a vida a imitar os outros. Mas, duas pessoas exatamente iguais seria completamente impossível na vida real, pois embora sejam parecidas fisicamente, sempre há diferenças que garantem a originalidade do ser. Sempre se encontra uma pinta que um tem e o outro não, o cabelo repartido diferente, aquele centímetro a mais ou a menos de altura. Acontece que, geralmente, duas pessoas iguais se prendem às diferenças, às suas particularidades como forma de preservar a individualidade. São essas diferenças que mantêm o lugar de cada um no mundo mas é, antes de tudo, a personalidade de cada um que faz a diferença. É nessa perspectiva que José Saramago escreve seu romance O homem duplicado (2002), “criando personagens (baseados ou não na realidade histórica) que apresentam dramas verossímeis, pois são comuns a todas as pessoas” (CALBUCCI, 1999, p. 101). O questionamento sobre quem somos, sobre nossa identidade, acontece por meio do jogo dialético que nunca se conclui: os acasos propostos por Saramago suplantam as fronteiras entre a vida, o plano ficcional e o real. O romance é repleto de enigmas, principalmente ao abordar a questão identitária da personagem Tertuliano Máximo Afonso, que aparenta metamorfosear-se. Esta personagem está inserida em uma melancólica angústia que projeta em seu íntimo a visibilidade de já ser outro, “Sente-se diferente, como se não mais fosse o mesmo” (SARAMAGO, 2002, p. 69). Este trecho nos transporta ao universo pessoano, ao semiheterônimo Bernardo Soares que diz “Busco-me e não me encontro” (PESSOA, 1999, p. 153). Saramago propõe situações que podem acontecer no mundo real, mas apresentadas sob uma ótica irreal, sobre o signo do imponderável, do interregno, do talvez. 42 UNIOESTE/Foz do Iguaçu E-mail: [email protected] 136 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Nesse sentido Seixo (1999) afirma que o discurso do cotidiano, de impossibilidades possíveis, está marcado em O Homem Duplicado, em que o subjetivo do escritor e das personagens faz com que possamos compreender seu texto não como uma afirmação psicologista, mas sim, como falas comuns e conflituosas de uma sociedade desordenada. Neste enredo, as ações das personagens são contadas em um universo de uma imensa cidade que não é identificada, na qual vivem milhões de habitantes. Poderíamos dizer que é uma espécie de digressão em torno da identidade e do conhecimento de muitos lugares que se tornam nenhum em particular. Assim, em meio à multidão, não há identidades/particularidades, somente uma massa uniforme. Com frequência, o tema da identidade é abordado, seja nas artes, na música, no cinema ou na literatura. Segundo Maria da Graça Jacques (1998), este é um assunto que está diretamente ligado ao nosso cotidiano, pois, muitas vezes, nos perguntamos quem somos, levando-nos ao questionamento de Shakespeare, em Hamlet, “Ser ou não ser, eis a questão” e, essa pergunta reporta-nos ao tema da identidade. Mas o emprego popular desse termo tem causado dificuldades, pois nos diversos campos do conhecimento a identidade possui diferentes concepções, variando ao longo dos tempos, acompanhando as relevâncias da individualidade e expressões do eu nos mais distintos períodos históricos. O conceito de identidade é bastante variado, pois muitos autores empregam distintas referências, geralmente relacionadas à imagem. Isso nos alerta para as diversas maneiras de interpretação, em que é necessário assimilar as dimensões contraditórias, avessas ao pensamento lógico-formal, individual e social, estabilidade e transformação, igualdade e diferença, unicidade e pluralidade subjetividade e objetividade. Assim, ela não é unívoca, mas se organiza num processo de construção, cuja compreensão nos remete às mais diversas dicotomias citadas. Jacques autentica nossas afirmações ao se referir ao termo identidade da seguinte forma: A identidade pode ser representada pelo nome, pelo pronome eu ou por outras predicações como aquelas referentes ao papel social. No entanto, a representação de si através da qual é possível apreender a identidade é sempre representação de um objeto ausente (o si mesmo). Sob este ponto de vista, a 137 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS identidade refere-se a um conjunto de representações que responde a pergunta ‘quem és’ (JACQUES, 1998, p. 161). A temática da dupla identidade, conforme avança o enredo romanesco, pode ser lida como um mutável mosaico – ou ainda um calidoscópio, que assume diferentes forma de combinação. A ausência de si, que pode ser lida pela inscrição de perdas/faltas nomeadas de maneiras diversas que apontam para uma busca por vezes incessante, como na locação dos trinta e seis filmes para encontrar o nome do seu duplo. No entanto, ao assistir o filme, Tertuliano pôs a correr rapidamente para o fim a já conhecida fita de Quem porfia mata caça, travou-a onde lhe interessava, na tal lista dos secundários e, com a imagem parada, copiou para uma folha de papel o nome dos homens [...] (SARAMAGO, 2002, p. 55). A fragmentação da personagem, a dúvida de saber quem ela é instaura um contínuo movimento em que múltiplas vozes ecoam e entrecruzam entre si, confundindo e contrapondo-se: ela está a se transvestir em outra, a dividir-se, a duplicar-se, mesmo sem perceber isso. A mudança personalística observa-se num diálogo com os colegas de trabalho que servem de testemunhas, conforme segue b Aqui o nosso colega é pouco apreciador de cinema, aparteou o de Matemática para os outros, Nunca afirmei redondamente que não gosto, o que disse e repito é que o cinema não faz parte dos meus afectos culturais, prefiro os livros (SARAMAGO, 2002, p. 144). Portanto, se não são os filmes a sua paixão, por que, afinal, Tertuliano Máximo Afonso desperdiça tanto tempo com eles? O que ocorre é que Tertuliano vem sofrendo intrínsecas mudanças, não físicas, mas psicológicas. O indivíduo que é visto como um produto gerado pelo processo da cultura e da história deve ser percebido também como um ser intencional e criativo, que pode transformar seu próprio processo cultural. Luiz Bonin afirma que o indivíduo histórico-social, que é também um ser biológico, se constitui através da rede de inter-relações sociais. Cada indivíduo pode ser considerado como um nó em uma extensa rede de inter-relações em movimento. O ser humano desenvolve, através dessas relações, um ‘eu’ ou pessoa (self), isto é, um autocontrole ‘egóico’, que é um aspecto do ‘eu’ no qual o indivíduo se contra pela auto-instrução falada, de acordo 138 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS com sua auto-imagem ou imagem de si próprio (BONIN,1998, p. 59). O desequilíbrio de Tertuliano aparece no início da trama, de uma maneira que não há um clímax estruturador, pois desde o princípio o desconcerto é marcante. Saramago apresenta as personagens com identidades perturbadas, pois é por meio do contato e do confronto que elas conseguirão atingir um estado de equilíbrio existencial. Assemelham-se às características e aspectos uma das outras, tentam plagiar-se figurativamente. Isso se comprova quando a personagem de Tertuliano busca um pincel e desenha adereços no espelho sobre a sua imagem buscou um marcador preto e agora, outra vez diante do espelho, desenha sobre a sua própria imagem, por cima do lábio superior e rente a ele, um bigode igualzinho ao do empregado da recepção, fino, delgado, de galã (SARAMAGO, 2002, p. 35). O plural constrói o singular, pois o processo do duplo, da identidade, apesar de resultar em personagens cada vez mais aprimoradas, apresenta sujeitos cientes das suas individualidades, de seus limites e dos limites das outro. Saramago vai de encontro ao pensamento filosófico de Clément Rosset em que a estrutura: não recusar, perceber o real, mas desdobrá-lo. O fracasso: reconhecer tarde demais no duplo protetor o próprio real do qual se pensava estar protegido. Esta é a maldição da esquiva: reenviar pelo subterfúgio de uma duplicação fantasmática, ao indesejável ponto de partida, o real (ROSSET, 1998, p. 105). Tertuliano se insere neste mundo a partir da convivência social, da participação do sofrimento, da angústia na qual tenta estabelecer margens entre si, o outro e o mundo. Portanto, algumas vezes é difícil determinar a linha que separa a realidade (no sentido de noção ficcional) e ilusão. O romance poderia ser enquadrado num enigma que envolve a humanidade, incomodando-a, no qual já não sabemos ao certo quem somos ou quem/ou o que podemos ser. E é este não-saber que atormenta cada vez mais a personagem principal. 139 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O Senso Comum43, personagem que no romance atua como mediadora da razão, adverte Tertuliano Máximo Afonso quando ele se encontra em momentos cruciais de dúvida, ou quando está a avançar na sua busca/especulações pelo outro. As tomadas no romance que evocam o Senso Comum são envolvidas em diálogo interno, quando o fluxo de consciência questiona suas próprias atitudes, ou num dizer mais rotineiro, o peso de consciência de Tertuliano Máximo Afonso que serve para rever, analisar, arrepender-se da/na situação em que está envolvido. O Senso Comum é o alerta, o caminho para a volta, para o retrocesso, para o regresso ao ponto de partida, como explicita no diálogo abaixo, o diálogo mental entre eles O senso comum, perdoa-me que to diga, é conservador, aventuro-me mesmo a afirmar que é reaccionário, Essas cartas acusatórias sempre chegam, mais cedo ou mais tarde toda a gente as escreve e toda a gente as recebe, Então será certo, se são assim, tantos os que têm estado de acordo em escrevê-las e os que não têm outra alternativa que recebê-las, a não ser escrevê-las também, Deverias saber que estar de acordo nem sempre significa compartilhar uma razão, o mais de costume é reunirem-se pessoas a sombra de uma opinião como se ela fosse um guarda chuva. Tertuliano Máximo Afonso abriu a boca para responder, se a expressão abriu a boca é permitida tratando-se de um diálogo todo ele silencioso, todo ele mental, como foi o caso deste, mas o senso comum já ali não estava, tinha se retirado sem ruído (SARAMAGO, 2002, p. 58-59). O escritor compõe um diálogo interior para a personagem, no qual o Senso Comum, que sabe e conhece as pretensões de Tertuliano, não deixa de ser o seu outro eu (subconsciente). A partir dessa conversa, o narrador propõe que a busca pelo outro/sósia é irracional e o Senso Comum culpa Tertuliano Máximo Afonso da distante realidade em que está inserido, entretanto a personagem acredita ser inocente. O Senso Comum age no romance como um adversário dos pensamentos menos racionais e justos, vai contra os planos maquiavélicos do herói, desaprovando-o, sempre a dar-lhe conselhos, os quais, geralmente, são ignorados e raramente ouvidos, como na passagem que segue: “Continuo a pensar que deverias acabar com esta maldita história de sósias, gémeos, duplicados” e Tertuliano Máximo Afonso responde: “Talvez devesse, mas não consigo, é mais forte que eu” (SARAMAGO 2002, p. 121). 43 A maiúscula justifica-se pela personificação do senso comum 140 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Para ele, a vontade de per(seguir) seu duplo (e porque não, seu eu) é algo que independe da sua vontade. A força estranha desse mito faz com que a busca se torne aspecto primordial, acima de qualquer outra tarefa: afazeres da escola, relacionamento amoroso e familiar. Podemos dizer que o Senso Comum funciona como um alerta, quase um vidente/oráculo que tenta adivinhar o futuro, sugerindo inúmeras hipóteses das supostas tragédias que podem acontecer se Tertuliano continuar a obsessiva busca pelo seu sósia. Ele alerta para uma situação caótica ao dizer “Imagina agora que quando estiveres a olhar as janelas te aparece a uma delas a mulher do actor, enfim, falemos com respeito, a esposa desse António Claro, e te perguntas por que não sobes” (SARAMAGO, 2002, p. 155). O mundo real toma Tertuliano Máximo Afonso por inteiro nas passagens em que aparece o Senso Comum e faz com que a razão lembre de que coisas terríveis podem acontecer. Ambos, Tertuliano e António Claro (seu sósia/duplicado no romance) são reflexos um do outro, mas não como um simples espelhamento. Isso porque quando nos olhamos nos espelhos, vemos a nós mesmos, assim veremos um outro que é como nós, porém muito que isso: um outro de carne e osso como uma inevitável ameaça à existência. O Senso Comum lança uma suposta hipótese do que aconteceria se ao encontrarem-se os dois ficam a olhar-se iguais a dois cãezinhos de porcelana, cada um como reflexo do outro, mas um reflexo diferente, pois este, ao contrário do que faz o espelho, mostraria o esquerdo onde está o esquerdo e o direito onde está o direito, tu como reagirias se tal acontecesse (SARAMAGO, 2002, p. 156). A crença do espelho varia muito de país para país, de cultura para cultura. Segundo Rank (1939), na Prússia Oriental, as superstições estão ligadas à perda do reflexo se mirarmos à meia-noite num espelho, com o reflexo perdido, consequentemente, perdemos também nossa alma, não evitando a morte. Já no Brasil e na Alemanha, quebrar um espelho quer dizer sete anos de infelicidade (azar). Em algumas crendices populares, acredita-se que as almas dos mortos ficam presas e poderão tornar-se visíveis através dos espelhos. Já o reflexo na água (aqui água como 141 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS espelho) pode revelar a própria personalidade como afirma Rank: “ama a si mesmo, porém, contra esse amor exclusivo manifesta-se uma revolta sob a forma de medo e repugnância ao próprio reflexo (RANK, 1939, p. 127). Como um grande adivinho, o Senso Comum também pode ser comparado à Cassandra, que tinha o dom da profecia, prevendo o futuro acontecimento. Segundo uma das versões sobre a história de Cassandra é que ela teria recebido esse dom de Apolo, que atraído por sua beleza, comprometeu-se a ensinar Cassandra a prever o futuro, sob a condição de que ela se entregasse a ele. Ela aceitou a proposta, ele cumpriu a sua promessa; mas Cassandra fugiu. Não podendo Apolo retirar-lhe o dom da profecia, tornou-o inócuo, ou seja, ela poderia profetizar, mas ninguém mais acreditaria nela. Tertuliano Máximo Afonso não fornece muita credibilidade às previsões do Senso Comum, aspecto similar às previsões de Cassandra. Tertuliano Máximo Afonso e o Senso Comum seriam uma dupla binômia, opostos refletidos em um só ser: razão e emoção, bem e mal, força e fraqueza, certeza e dúvida, real e irreal, ordem e desordem, racional e irracional. Saramago re-significa o Senso Comum em seu romance. Aceitar os acontecimentos históricos como de costume, seguindo as orientações do Senso Comum é achar que a vida seria apenas um caminho, com bifurcações, problemas e emboscadas. Algo que nos daria êxito, carreira, família e um final se tudo ocorresse perfeitamente. Mas, para Bourdieu em seus estudos sobre o senso comum afirma que “essa vida como uma história organizada transcorre, segundo uma ordem cronológica que também é uma ordem lógica” (BOURDIEU, 1996, p. 184). A personagem imaginária, Senso Comum, que chama a atenção de Tertuliano Máximo Afonso para que siga a sua vida de maneira ordenada e inteligível, é elevada ao status de possuir um discurso inteligente e diferenciado, não sendo classificado como uma voz que defende a mesmice, fazendo questionamentos e observações, mostrando o caminho e não o impondo. Esses aspectos que encontramos no romance de José Saramago, ou seja, a multiplicidade dos significados, que permitem ao leitor uma leitura múltipla, dá-se a partir de inovações/transformações ocorridas no século XIX, quando “as personagens dos romances começam a representar diferentes ‘vozes’ não unificadas por uma verdade englobante, de ordem ideológica (a ‘filosofia do autor’) ou de ordem psicológica (a ‘personalidade do autor’)” (PERRONE-MOISÉS, 1978, p. 58). 142 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Saramago abandona a estrutura linear do romance não como se a existência fosse completa de sentidos e, sim, dá vários sentidos para significação e direção. Talvez escrever tudo dentro dos parâmetros até hoje explorados, ou quem sabe extrapolados, seria “conformar-se com uma ilusão retórica” (SARAMAGO, 2002, p. 185), com acontecimentos que não mais surpreenderiam com o significado e a direção. A questão da identidade, para ele, vai muito além dos limites da criação literária e invade o espaço padronizado do conhecimento, fazendo que nos transportemos para o universo do enredo, identificando-nos com os seres de papel que o escritor criou, conquistando o leitor por meio da experiência suprema. Portanto, percebemos que a temática do duplo, o fenômeno da defrontação de um indivíduo com um outro igual a ele, desencadeia uma série de angústias, sendo a crise de identidade a que mais se destaca nesse aspecto. A fragmentação da personagem, a dúvida de saber quem ela é, gera um movimento que constrói um calidoscópio de vozes, que ecoam e entrecruzam entre si, confundindo e contrapondo-se. Esses aspectos acarretam na personagem a possibilidade de uma mudança personalística, de tornar-se outro. Conforme o romance avança, percebemos que a personagem vai perdendo a sua identidade, identificando-se/igualando-se ao seu outro. As mudanças de personalidade fazem com que a personagem passe a agir como um mero indivíduo social nulo, que se esquece de ser alguém, que é muitos e nenhum ao mesmo tempo, mas que, não é mais o que já foi. A crise identitária no romance de Saramago refere-se a um deslocamento de ordem psíquica, em que é impossível para a personagem continuar vivendo em um mundo em que exista uma pessoa igual a ela. Portanto, esses fatos provocam uma desordem no interior do ser, que pode se manifestar das mais diversas maneiras. 143 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS REFERÊNCIAS BONIN, Luiz Fernando Rolim. Indivíduo, Cultura e Sociedade. In.: JACQUES, Maria da Graça et al. Psicologia social contemporânea. Petrópolis, Vozes, 1998. BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica In.: FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína. (Orgs.) Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996. CALBUCCI, Eduardo. Saramago: um roteiro para os romances. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999. JACQUES, Maria da Graça. Identidade. In.: Psicologia Social Contemporânea. Petrópolis, Vozes, 1998. RANK, Otto. O duplo. Rio de Janeiro: Coeditora Brasílica, 1939. ROSSET, Clèment. O real e seu duplo, ensaio sobre a ilusão. 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CARVALHO, Taísa¹44 SILVA, Acir Dias (Orientador) RESUMO: Além de proporcionar estudos comparados, o uso da literatura vinculada com outras artes, como o cinema, a música e a pintura, é também um memorial, no qual o pesquisador faz um resgate da história e apresenta uma nova reflexão, oportunizando assim novos horizontes de conhecimento. A partir dos conceitos de adaptação de Robert Stam, Intertextualidade de Genette e apoio teórico de Bakhtin e outros, torna-se possível pensar na prática intertextual. O artigo mostra a analisa o uso da poesia de Sylvia Plath como meio de adaptação e intertextualidade no cinema. Com as obras fílmicas Sylvia, Paixão além das palavras de Christine Jeffs e um poema de Sylvia Plath sem título, utilizado no filme. PALAVRAS- CHAVES: Adaptação, cinema e poesia. ABSTRACT: Besides using comparative studies, the use of literature with other arts such as cinema, music and painting, is also a memorial, in which the researcher makes a rescue of history, and a new reflection, thus providing opportunities for new horizons of knowledge. The concepts of adaptation of Robert Stam, Intertextuality by Genette and theory support of Bakhtin and others, it becomes possible to think of intertextual practice. The article aims at analysing the use of the poetry by Sylvia Plath as a means of adaptation and intertextuality in the film. The film is “Sylvia, passion beyond words by Christine Jeffs and poem by Sylvia Plath untitled, used in the film. KEYWORDS: Adaptation, film, poetry. INTRODUÇÃO A literatura é uma expressão que reflete a sociedade, possibilitando a recreação da realidade, do mundo e dos sonhos. Ela coopera para com os leitores na interpretação e a moldar convicções, ideais e até a própria vivência. Para Candido (1985) a literatura 1 Mestranda em Letras, na linha de pesquisa Linguagem Literária e Interpretações Sociais: Estudos Comparados, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE/ Campus de Cascavel; Especialista em Literaturas Inglesa e Norte-Americana pela União Pan-Americana de Ensino – UNIPAN; pós-graduanda em Língua de Sinais Brasileira e Educação Especial na Faculdade Eficaz em Maringá – PR; Graduada em Letras Port./Ing. pela Universidade Paranaense – UNIPAR/Campus de Cascavel; Docente efetiva da disciplina de Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE/ Campus de Toledo; Membro do Grupo de Pesquisa Educação, Cultura e Cidadania e também Membro do Programa Institucional de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais – PEE na UNIOESTE/ Campus de Toledo. E-mail: [email protected] ou [email protected] 145 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS é, pois um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre leitores, e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a e deformando-a. Além de proporcionar estudos comparados, o uso da literatura vinculada com outras artes, como o cinema, a música e a pintura, é também um memorial, no qual o pesquisador faz um resgate da história e apresenta uma nova reflexão, oportunizando assim novos horizontes de conhecimento. Através de estudos e práticas diversas da perspectiva construíram-se os estudos sobre a arte da memória. Primeiramente, a pintura com a sublimação de tornar presente o ausente e muito mais, tal como tornar à vida àqueles que por muito tempo se encontram morto. O que para a pintura é chamado “janela” passa a ser a “tela do cinema”, local onde são colocadas imagens e locais em movimento, por onde o espectador, em observação ativa, vê passar o mundo. A perspectiva do olhar, o reflexo do ponto de vista na arte torna-se a expressão enquanto político e que se altera a cada momento. Ao olhar para o outro faço projeções, estereótipos ou modalidades. O olho se torna a janela do pensamento. Na arte, o glamoroso é poder brincar em seguir de absoluto a história, se achar que deve ou se preferir, alternando a cronologia e apresentando o depois como prova. E como afirma Almeida (1999), assistir a um filme é estar envolvido num processo de recriação da memória. Santo Agostinho (Confissões X) refere-se à memória como sendo o lugar onde o sujeito se encontra a si mesmo e se recorda das ações que fez, do seu tempo, do lugar e até dos sentimentos que dominavam ao praticá-las. E nesse lugar também estão todos os conhecimentos aprendidos ou pela experiência própria ou pela crença. Nesse sentido é pertinente a definição de Bakhtin de “expressão artística”: é uma “construção híbrida” que mistura a palavra de uma pessoa com a de outra. E, porque o filme (cinema) é o elemento que torna mais visível uma tal colaboração e mistura. Justo nele isso se aplica mais facilmente. O cinema propicia a reinvenção da memória: quando o expectador recebe as novas imagens acontece com ele à tomada de posição para o rearranjo, para o processo de reinvenção com as imagens já armazenadas na memória. Yates (2007), explica que há dois tipos de memória, uma natural e outra artificial. Natural é aquela inserida em nossas mentes, que nasce ao mesmo tempo que o pensamos, a artificial é aquela que é reforçada e consolidada pelo treinamento. 146 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Diante disso, temos a intenção nesse artigo de discutirmos sobre a adaptação como prática textual, nos baseando nas críticas convencionais que dizem frequentemente que o cinema, de alguma forma, fez um desserviço à literatura, nos utilizaremos da obra fílmica “Sylvia, Paixão além das Palavras” de Christine Jeffs e um poema sem título, da Sylvia Plath que dá inicio ao filme. Entretanto, antes da análise propriamente dita faz-se necessário um breve relato sobre o que é adaptação, intertextualidade e a vida de Sylvia Plath. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A teoria e a análise literária têm relacionamento direto ou indireto com a intertextualidade, ou nos termos atuais, da América Latina a “antropofagia”, com a noção de significado de Gates até a ansiedade da influência de Bloom, sendo relevante para o cinema e a adaptação. Robert Stam no texto “Teoria e Práticas da adaptação” apresenta o termo utilizado por Genette, a transtextualidade, referindo-se a tudo aquilo que coloca um texto em relação com outros textos, seja essa relação manifesta ou secreta. Genette nomeia cinco tipos de relações transtextuais, todos dentro dos estudos da teoria e análise da adaptação. A intertextualidade ou efeito de co-presença de dois textos; a paratextualidade ou a relação, dentro da totalidade de uma obra literária, entre o próprio texto e seu paratexto; a metatextualidade, ou a relação crítica entre um texto e outro, seja quando o texto comentado é citado explicitamente ou quando é evocado silenciosamente; arquitextualidade ou as taxonomias genéricas sugeridas ou refutadas pelos títulos e subtítulos de um texto e por último a hipertextualidade se refere à relação entre um texto que Genette chama de hipertexto, com um texto anterior ou hipotexto, que o primeiro transforma, modifica, elabora ou estende, esse talvez seja o mais relevante para a adaptação. Com um amplo arquivo de conceitos e termos para dar conta das transformações da mídia, a teoria da adaptação tem a sua disposição os seguintes termos como: adaptação enquanto leitura, re-escrita, crítica, tradução, transmutação, metamorfose, 147 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS recriação, transvocalização, significação, performance, dialogização, canabalização, reimaginação, encarnação ou ressurreição. Conforme Stam (2006), a adaptação é vista como uma espécie de purgação. O romance, em nome da legitimidade para a audiência das massas, “é purificado” das ambiguidades morais, interrupções narrativas e meditações reflexivas. A corrente estética dominante é compatível nesse caso com um tipo de censura. No filme “Sylvia, Paixão além das palavras”, segundo Arlindo Correa (2004), a herdeira de Sylvia Plath, Frieda proibiu o uso completo das obras da mãe e pai. A adaptação, nesse sentido, é um trabalho de reacentuação, diz Stam (2006), uma obra que é fonte passa por novas lentes e discursos e é reinterpretada. Assim como acontecera na obra fílmica de Sylvia Plath, o autor se utilizou dos poemas de Plath para de uma forma crescente ir apresentando fatos biográficos que foram reinterpretados através da sua lente. Antes de apresentarmos a análise do poema e do filme, acreditamos ser importante estabelecer alguns fatos sobre Sylvia Plath. VIDA DA SYLVIA. Sylvia Plath nasceu em 27 de Outubro de 1932. Era filha de uma família de classe média na cidade de Jamaica Plain, em Massachusetts. Sensível e inteligente, ela era extremamente popular na escola, onde obteve sempre notas excelentes, chegando a ganhar alguns prêmios literários. Durante o tempo em que permaneceu na universidade, escreveu cerca de 400 poemas. Porém por detrás desta aparência de perfeição escondia uma profunda angústia e sofrimento, os quais foram originários pela morte do pai, quando Plath tinha provavelmente nove anos de idade. No percurso de sua vida, Plath tentara suicídio por três vezes e descreveria essas experiências em seus poemas e também em seu romance “A Redoma de vidro” publicado em 1963, e como podemos observar no trecho do poema “Lady Lazarus” “... Tentei outra vez, a cada dez anos, eu tramo tudo...”. Ela passou por um momento de recuperação com tratamentos de eletrochoques e sessões de psicoterapia, o romance autobiográfico descreve seus momentos vividos neste período “The Bell Jar”. Plath 148 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS graduou-se com louvor e conseguiu uma nova bolsa para estudar em Cambridge, na Inglaterra. Nesse lugar, foi onde conheceu e logo se casou com Ted Hughes, também poeta. A sua vida sentimental, de início, era toda glamorosa. Entretanto sua vida profissional estava de mal a pior, pois não conseguia se sentir inspirada para escrever, mesmo com o apoio de seu marido, o qual fez várias tentativas para ver se Sylvia se inspirava e com resultado negativo para todas elas. (Cena do filme em que ele a leva pra passear no rio.). Conforme o tempo ia se passando Sylvia já não escrevia, trabalhava como professora e cuidava do lar. O seu casamento fora marcado pelas infidelidades de Ted, o que para Sylvia era tenebroso controlar. Enquanto Sylvia estava casada sua identidade profissional ficara adormecida, anulada diante a situação. Com a separação Sylvia a resgata e volta à ativa. Sylvia voltou para Londres e a trabalhar intensamente, cuidando de seus filhos e produzindo poemas. Em 11 de fevereiro de 1963, Sylvia cometeu suicídio inalando gás de cozinha, após ter deixado o café da manhã para seus filhos no quarto e tê-lo lacrado para que o gás não entrasse. Dois anos depois de sua morte uma coletânea de seus últimos poemas fora publicado, e em 1986 o livro Collected Poems, foi publicado por Ted Hughes. Em seus escritos, Plath utilizava uma linguagem figurativa e imagens fortes para reforçar o tema de seus poemas, especialmente o de suicídio e morte. Como pode ser exemplificado no poema “Pursuit” que quer dizer “perseguição”, no trecho “Ther is a panther stalks me down: one day I’ll have my death of him” que significa “Há uma pantera me esperando de tocaia: algum dia vou morrer graças a ela”. Este poema Sylvia fez logo após conhecer Ted e em língua inglesa, se formos observar a pantera é feminino e ela diz que a morte será graças a ele (him) que em todas as traduções encontradas dizem ela, porque pantera é feminino. Isso só fora possível observar graças ao filme. ANÁLISE DO FILME E DO POEMA THE TREE OF LIFE. O trecho inicial do poema: “Às vezes eu sonho com uma árvore, a árvore é a minha vida...”. (Sometimes I dream of a tree, And the tree is my life...). Então vamos ao 149 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS filme, inicia com a cena em que Sylvia aparece deitada de olhos fechados e o poema vai sendo recitado por ela. Logo aparece à imagem de uma árvore grande e cheia de galhos, folhas e ao desenvolver do filme essa imagem da árvore vai acompanhado a personagem Sylvia, a diretora se utiliza dessa simbologia que vamos observar a sua raiz no poema. Analisaremos essas cenas e em que relação tem com o poema. A próxima cena, aparece Sylvia pedalando, indo para a Universidade com muita pressa para conseguir a revista, na qual sairia uma crítica sobre sua poesia. A crítica sobre seu poema fora terrível, e Sylvia queria saber o porquê a trataram daquela forma, então fora a festa de divulgação da revista, na qual conheceu Ted Hughes. Vamos acompanhar a conversa de Sylvia com Tom o qual vendia a revista: Sylvia: “Tom onde estão as revistas?” Tom: “A gráfica não liberou ainda.” Sylvia: “Não saiu nenhuma crítica, não é?” Tom: “Saiu uma crítica sobre seu trabalho sim... Está em “Poesias” página 11.” Sylvia: “Essencialmente comercial, forma poética burguesa e explicitamente ambiciosa.” Em seguida, desde que Sylvia começou a se relacionar com Ted, começou a tomar conta de tudo que era dele, como uma secretária, enviou um livro dele para concorrer a um prêmio, o mesmo ganhou sem que Ted Hughes soubesse como. Então os dois se casaram e foram para os Estados Unidos da América, onde Sylvia fora trabalhar de professora na universidade enquanto a carreira de Ted ia se estabilizando. Sylvia deixa de lado sua vida profissional para fazer com que a de Ted se concretize definitivamente. Como podemos perceber na conversa de Sylvia com a mãe dela. Sylvia: “o que você acha? Mãe de Sylvia: “ainda está muito líquida.” Sylvia: “estou falando sobre o Ted.” Mãe de Sylvia: “Ele é muito...” Sylvia: “O que?” Mãe de Sylvia: “Eu não sei... é diferente.” Sylvia: Por que não fica satisfeita por mim?” Mãe de Sylvia: Como ele vai sustentar você?” Sylvia: Eu não quero ser sustentada... ele será um grande poeta...ganhou um prêmio de poesia, sendo que o juiz foi WH Auden. Mãe de Sylvia: “é mesmo?” Sylvia: “Eu tenho dinheiro guardado.” Mãe de Sylvia: “e quando acabá-lo?” Sylvia: “Mãe arrumei um emprego de professora e também posso vender histórias para essas revistas bobas, não faz mal. 150 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O trecho do poema dela se referindo ao marido: “...Um ramo é o homem com quem vou me casar e as folhas, meus filhos...”(One branch is the man I shall marry And the leaves are my children.). Depois de idealizar ser a sra. Hughes, Sylvia se casou e teve dois filhos com Ted Hughes. O próximo fragmento do poema é em relação a sua vida profissional: “... Outro ramo é meu futuro como escritora, E cada folha é um poema...” (Another branch is my future as a writer And each leaf is a poem.). Para comparar com esse fragmento escolhemos a cena do filme no qual Sylvia está verificando alguns erros de impressão dos textos de Ted Hughes e o mesmo está atendendo ao seu grande amigo e crítico literário Alvarez, enquanto Ted buscou uma xícara de café Sylvia aproveitou para falar de seus escritos. Sylvia: “Olá, deve ser o Sr. Alvarez?” Alvarez:“ Sou e você deve ser a Sra. Hughes?! Sylvia: “Night Shift.” “Night Shift” foi um poema que publicou no “Observer”.” Alvarez: “Ah sim, era um bela um belo poema!” Sylvia: “ Eu sei, fui eu quem escrevi.” Alvarez: “Você é a Sylvia Plath?! Sylvia: “sim” Alvarez: “Escreveu mais algum poema?” Sylvia: “sim, na verdade tenho num livro de poema que logo será publicado “The colossus”.” Alvarez: “Eu adoraria ler.” Sylvia: “Seria uma honra.” Continuando com mais um fragmento: “... Outro ramo é uma brilhante carreira acadêmica, Mas enquanto fico sentada / tentando escolher, As folhas começam a ficar marrons e cair...”, (Another branch is a glittering academic career. Butas I sit there, trying to choose, The leaves begin to turn brown and blow away). Para confrontarmos com o poema ficamos com a cena em que Sylvia descobre a primeira traição de Ted. Sylvia: “Meu Deus você me fez de idiota, datilografando seus poemas, perdendo meu tempo lecionando em vez de ficar escrevendo, para me satisfazer com sua glória refletida, eu deveria ganhar uma medalha por serviços prestados à poesia angloamericana.” Ted: “Para ganhar uma maldita medalha você tem que escrever poesia.” Sylvia: “Mas eu não tenho tempo, tenho? Porque fico nesta casa enquanto você transa com minhas alunas.” Para decidir a cena que melhor fosse dar compreensão com o último fragmento, “... Até a árvore ficar completamente nua.” (Until the tree is absolutely bare.). Dentre tantas ficamos com a cena em que no meio de uma crise, depois de ter se separado de 151 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Ted, já na Inglaterra novamente, Sylvia vai até o visinho que morava no andar de baixo do apartamento dela, e pede ajuda. Entretanto, faço aqui um parêntese para descrever a cena desse último verso do poema, que aparece logo que Sylvia pede a Ted para sair da sua casa em Devon, no interior, e ela também vai embora desse lugar, mas no caminho aparecem árvores totalmente secas, ela pára, sai do carro e vai até o uma praia, fazia muito frio, fora um dos invernos mais rigorosos na Inglaterra, e fica ali olhando para a água agitada e de repente se volta para o carro ouvindo o choro dos filhos, volta imediatamente para eles. Voltando para a transcrição da fala. Vizinho: “Você está bem? Entre. Sente-se.” Sylvia: “Eu vou morrer, vou morrer logo e quem vai cuidar dos meus filhinhos!” Vizinho: “Não entendo, o que quer dizer com vou morrer? Você está doente? Ficou doente?” Sylvia: “Não, não estou doente.” Vizinho: “Vou chamar um médico então.” Sylvia: “Não, não chame um médico, você sabe o que eles fazem com você, eles amarram e ai vem aquele monte de centelhas.” Na obra fílmica ainda passam mais algumas cenas até o final deste, cenas em que Sylvia pede ajuda aos seus médicos, não obtendo resultado, tentativa de voltar com Ted e sem resultado também, pois o mesmo preferiu a Assia que estava grávida a ela. Diante dessa situação a cena do suicídio, o encontro dos filhos de Sylvia, o corpo dela sendo levado para um carro de necrotério envolvido por uma manta vermelho sangue, com ênfase nas árvores secas novamente e a última imagem do filme e a árvore florida novamente. CONSIDERAÇÕES FINAIS Numa primeira impressão, o estudo da adaptação é desprezado dentro da teoria e análise cinematográfica, mas também pode ser visto como algo central e importante. Stam (2006) deixa claro que embora o estudo da adaptação frequentemente assuma que os textos-fontes são literários, as adaptações também podem ter fontes sub-literárias ou para-literárias. Filmes históricos adaptam textos históricos. Filmes biográficos adaptam textos biográficos sobre figuras históricas famosas. Nesse caso, obras literárias como os poemas de Sylvia, reunidos e publicados em livros com prefácios escritos por ela, pós morte as publicações eram feitas por Ted Hughes até 1998. De lá para cá as publicações 152 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS ficaram ligadas aos herdeiros, e de 2009 até o dia de hoje somente por Frieda, a filha mais velha de Sylvia Plath e Ted Hughes, pois Nicholas Hughes aos 47 anos se enforcou na casa dele no Alasca. Além disso, o filme se utiliza da intertextualidade, referencias conhecidas anteriores ao filme, como Shakespeare com seu Romeu e Julieta e Chaucer com a Esposa de Bath, citados por Ted Hughes e Sylvia Plath. Mas as adaptações, de certa forma, tornam manifesto o que é verdade para todas as obras de arte diz Stam (2006), todas são de alguma forma derivada, os estudos das adaptações, nesse sentido causam um grande impacto na compreensão dos filmes. Podemos ainda falar em adaptações mal feitas ou bem feitas, mas orientados por noções rudimentares e em análises que sempre levam em consideração lacuna entre meios e materiais de expressão bem diferentes. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Milton José. Arte da Memória. Ed. Autores Associados – Campinas, SP, 1999; BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000 CANDIDO, Antonio [ et al ]. A Persopnagem de Ficção. Perspectiva, SP, 2007; COSSON, Rildon. A Contaminação como Estratégia Comparatista. Editora UNB, 2001. GONÇALVES, Marcos Augusto. A Ideia e a Lira. Folha de São Paulo, 20/05/2012. GUIMARÃES, Áurea Maria. In 23 Reunião Anual ANPED, Caxambú – SP: DP&A, 2000; MOISES, Leyla Perrone. A Literatura Exigente. Folha de São Paulo, 25/03/2012. OROZ, Silvia. Melodrama – O Cinema de Lágrimas da América Latina. 2ª Ed. Ver. E ampl. RJ: Funarte, 1999. Plath, Sylvia. Ariel. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lens de Macedo, Campinas, SP: Verus Editora, 2007; RAMOS, Fernão Pessoa. Teoria Contemporânea Do Cinema – Pós-estruturalismo e filosofia analítica. Vol. I, Editora Senac: SP, 2005; 153 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS REYES, Josmar de Oliveira. O filme como leitor do texto literário: reflexões teóricas. Anais do IX Seminário Nacional de Literatura Histórica e Memória-Literatura do Cinema e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no Cinema. SP; 2009; STAM, Robert. A Literatura através do Cinema – Realismo, magia e a arte da adaptação. Tradução de Marie-Anne Kremer e Gláucia Renate Gonçalves; Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. ____________. Bakhtin da Teoria Literária à Cultura de Massa. Tradução de Heloísa Jahn, Editora Ática,1992; _____________. Teoria e Prática da Adaptação: da Fidelidade à intertextualidade. Ilha do Desterro, n° 51, Florianópolis – SC; 2006; YATES, Frances Amelia. A Arte da Memória. Tradução de Flávia Bancher, Campinas, SP, Editora UNICAMP, 2007; http://conexoesintersemioticas.blogspot.com.br/2008/10/o-que-traduointersemitica_17.html acesso em 31/03/2012 http://www.arlindo-correia.com/041004.html acesso em 09/06/2012 Obra Fílmica: Sylvia, Paixão além das Palavras de Christine Jeffs – Inglaterra, 2003. Biografia e drama. 154 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS MEMÓRIA E AUTORITARISMO EM “LA EXCAVACIÓN” Paulo Alves Pereira Júnior45 Resumo: Conhecido por suas obras que apresentam uma evolução estilística onde ocorre a fusão do espanhol e guarani e por pertencer ao “boom” latinoamericano (movimento literário que teve início nas décadas de 1960 e 1970, onde se destacam elementos políticos e sociais, devido ao contexto histórico da América Latina na época), Augusto Roa Bastos (1917 – 2005) também escreveu contos e romances com estruturas onde se percebem elementos políticos e sociais relacionados com a política paraguaia do século XX (Guerra do Chaco, Revolução Civil de 1947 e Regime Militar de Stroessner). Roa Bastos ficou exilado por décadas e só regressou ao país em 1989, com o fim do regime stronista. O presente trabalho relaciona o conto "La excavación", pertencente à obra El trueno entre las hojas (1953), com a posição política de Roa Bastos e a denuncia ao autoritarismo e as estruturas politicas no Paraguai. Palavras – Chave: História – Literatura – Paraguai. Introdução: Augusto Roa Bastos nasceu em 17 de junho de 1917. Contista, novelista e poeta, marcou profundamente a literatura paraguaia e, devido ao seu trabalho, foi reconhecido mundialmente pelo seu estilo literário ao receber o Prêmio Miguel de Cervantes, maior reconhecimento para a literatura de língua espanhola, no ano de 1989. Autodidata, abandonou os estudos e começou a compor sonetos e poemas inspirado por Lope de Vega. Sua primeira obra é um livro de poemas intitulado El naranjal ardiente (1949). Logo após, escreve El trueno entre las hojas (1953) e mais tarde Yo, el Supremo (1974) , conhecido por ser sua obra-prima. Também escreveu El Baldio (1966) , Moriciencia (1969) , La vigília del almirante (1992) e El fiscal (1993). Com apenas 15 anos, participou da Guerra do Chaco (1932-1935), conflito que aparecerá em muitas de suas obras. Com a Guerra Civil de 1947, é exilado na 45 Acadêmico de história pela Universidade Federal da Integração Latino – Americana (UNILA). E-mail: [email protected] 155 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Argentina. Na década de 1970, com o início do regime militar argentino (1976-1983), parte para a França. Retorna em 1989, após o fim do regime stronista (1954 - 1989). Morreu no ano de 2005, deixando uma vasta obra. A análise do conto “La excavación” segue as estruturas metodológicas de Antonio Candido, existentes no ensaio “Crítica e sociologia”, da sua obra Literatura e Sociedade (1965), na qual propõe uma “(...) interpretação dialeticamente íntegra” (1973, p.4), onde elementos externos (políticos, sociais, históricos) são incorporados na estrutura interna, criando uma fusão de texto e contexto. Os elementos biográficos do autor só são utilizados quando sejam realmente indispensáveis para esclarecer lacunas interpretativas. Além disso, serão utilizados os conceitos de tempo e espaço propostos por Anatol Rosenfeld em seu ensaio “Reflexões sobre o romance moderno”, de sua obra Texto/contexto I (1969), onde lembra que os “(...) romances mais famosos do nosso século procuram assinalar não só tematicamente e sim na própria estrutura essa 'discrepância entre o tempo no relógio e o tempo na mente' (...)” (1996, p. 82). A Guerra do Chaco e a Revolução Civil de 1947 A Guerra do Chaco (1932 – 1935) foi um conflito armado entre Paraguai e Bolívia pelo controle da região do Chaco Boreal, onde supostamente havia petróleo. O Chaco Boreal, região entre a Cordilheira dos Andes e o Rio Paraguai, pertencia à Bolívia durante o Vice - Reinado do Rio da Prata. Com a independência do Paraguai e da Bolívia, a região manteve-se em litígio. Desde o final do século XIX até o começo do XX, foram feitas quatro tentativas de acordos limítrofes, porém rejeitados pelos dois países. (2010, p. 235 – 236). Bolívia visava, através da ocupação da região do Chaco, o acesso ao Oceano Atlântico via Rio Paraguai. É interessante destacar que a Bolívia perdeu seu acesso ao Oceano Pacífico para o Chile na Guerra do Pacífico (conflito bélico onde Chile enfrentou Bolívia e Peru, ocorrido entre 1879 e 1883, motivado, principalmente, pela posse de uma área inabitada no norte do deserto do Atacama rica em minérios). 156 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Em 1932, Bolivianos invadiram o território paraguaio, fazendo com que o país guarani declarasse guerra à Bolívia. A disputa pela região do Chaco atendia aos interesses da companhia estadunidense Standard Oil, que atuava na Bolívia (2000, p. 26). Além da possível existência de petróleo, o objetivo do controle da região do Chaco Boreal era permitir o acesso ao oceano Atlântico, através do Rio Paraguai. O Paraguai, com um então governo liberal, saiu vitorioso, mas o descontentamento popular aumentou, culminando no golpe de Estado do recém-formado Partido Febrerista. O conflito criou no Paraguai uma conjuntura revolucionária que teve como objetivo mobilizar todas as correntes contrárias ao governo liberal (2000, p. 27). Logo após a guerra, a situação política do Paraguai torna-se caótica. O Partido Liberal perde a popularidade e, no ano de 1937, o coronel Rafael Franco (veterano da Guerra do Chaco) dá um golpe de Estado. Assim, o Partido Febrerista assume o poder no país. O Partido Revolucionário Febrerista surgiu decorrente ao Movimento Febrerista, que defendia temas como a reforma agrária e a industrialização no Paraguai. Encerrando com mais de trinta anos de domínio do Partido Liberal, os febreristas ficaram no poder por dezoito meses, quando os liberais deram um golpe militar, retomando ao poder até 1940 (SILVA, 2006, p. 43). No lugar de Franco, assumiu o general José Félix Estigarribia (após ganhar as eleições, no ano de 1939, como candidato único), que propõe grandes medidas econômicas e sociais para o Paraguai. Estigarribia morre em um acidente de avião em 1940, dando uma nova etapa na vida política do país. Higinio Morínigo assumiu em 1940, logo após a morte de Estigarribia. Logo no início de seu governo, Morínigo deu ordem de prisão a todos os colaboradores liberais de Estigarribia. A base do seu regime se manteve através da ordem, da disciplina e da hierarquia. Em seu governo, Morínigo deixou de lado os grandes partidos, onde adotou uma política personalista. Também radicalizou o Partido Colorado, criando um grupo chamado Guión Rojo, que tinha como característica o nacionalismo exacerbado e o alto corporativismo, inspirados no Fascismo (1997, p. 1091 – 1094). Além disso, Morínigo suspendeu a constituição e proibiu os partidos políticos, assim vários movimentos sociais pediam a sua deposição. No ano de 1946, após o fim da Segunda Guerra, adotou 157 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS medidas como a liberdade de expressão, o retorno dos exilados políticos e a formação de um governo de coalizão (Partido Colorado e Partido Liberal). O governo de Morínigo se aliou ao Partido Colorado (e seu grupo paramilitar Guión Rojo) para uma tentativa de golpe de Estado em 1946. Em 1947, o Partido Febrerista forma uma coalizão com o Partido Liberal e o Partido Comunista Paraguaio contra Morínigo. Os febreristas, ao atacarem uma delegacia e um colégio militar, dão início à Guerra Civil. Com mais homens e armamentos, Moríngio e os colorados saíram vitoriosos. O Partido Colorado tomou o poder, dando um golpe de Estado, assumindo o general colorado Manuel Frutos. Augusto Roa Bastos: Política e Literatura Diante da falta de liberdade de expressão logo após a Revolução de 1947 e com a ascensão do Partido Colorado ao poder, Augusto Roa Bastos se exilia na Argentina onde se dedica a escrever obras com estruturas políticas e sociais. Dois trabalhos conhecidos que seguem essas estruturas são o conto “La excavación”, publicado no livro El trueno entre las hojas, de 1953, e o romance Yo, el Supremo, publicado em 1974. O conto denuncia as torturas e condições dos prisioneiros políticos no Paraguai durante a Guerra Civil de 1947 e o romance revela os horrores do regime militar de Alfredo Stroessner ao evidenciar a ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia (1814 – 1940). Entretanto, a posição de Roa Bastos contra o stronismo é refutável. Logo após Stroessner dar um golpe de Estado (tirando do poder o colorado Federico Chavez) em 1954, Roa Bastos publica um poema no jornal El País, de Assunção, no dia 20 de agosto, dedicado ao encontro de Stroessner e Juan Perón (presidente da Argentina). No poema intitulado Eternamente Hermanos, Roa Bastos exalta a figura do general Stroessner. Stroessner y Perón sellan su abrazo con la emoción creadora de los hombres que vencen el destino y hacen en la historia a golpes de verdades vivientes como himno de los hombres. 158 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Venid y ved, pueblos del mundo, como el peso de la espada es justiciero cuando se yergue en defensa de la paz y su eje de diamante busca lo vertical de la esperanza! En sus hombros soldados en sus pueblos de paz, en su destino común de patrias enlazadas, Paraguay y Argentina están unidos de corazón a corazón, hermanos para siempre, eternamente… (2008, p. 129). Roa Bastos partiu para o exílio após a Revolução de 1947, e continuou exiliado durante o stronismo por suas críticas contrárias ao regime. O escritor, como diversos intelectuais de sua época, viu na ascensão de Stroessner uma possível abertura política e uma nova forma de governo que acabaria com a instabilidade política do país. (2011, p. 468 – 469). Vale lembrar que Stroessner dava para seu governo um ar democrático. Com o passar do tempo, os paraguaios (e o resto do mundo) viram que o governo de Stroessner era uma sangrenta ditadura. Em Yo, el Supremo, Roa Bastos, em um determinado trecho, destaca a Guerra do Chaco e a Revolução de 1947. Fica claro nesse trecho a experiência pessoal do autor e a sua visão sobre o futuro político de seu país. A guerra com a Bolívia estourou no Chaco. Começou a mobilização que levou à frente de combate até os anões. Para nós a guerra era um festejo contínuo. Que durasse toda a vida. (...) Nas vésperas do Êxodo que começou em março de 1947, fui visitar Raimundo. Não lhe sobravam já senão pele e ossos. (...) Escarrou uma bola de sangue na parede. Com voz de anão continuou: - Vai chover pelo menos outro século de má sorte sobre este país. Isto se sente no ar. Vai morrer muita gente. Muita vai embora para não voltar mais, o que é pior do que morrer (1977, p. 179 – 180). Quando Roa Bastos, na figura de Raimundo, diz que morrerão várias pessoas e que muitos paraguaios irão embora, está evidenciando os acontecimentos que ocorreram após a ascensão do Partido Colorado ao poder. Torturas, perseguições e exílios se tornaram frequentes nessa época. A partir desse, e de outros exemplos que aparecem em romances e contos do escritor paraguaio, fica nítida a estrutura política existente nas obras de Augusto Roa Bastos. Memória e autoritarismo em “La excavación” 159 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Perucho Rodi, veterano da Guerra do Chaco, é um dos prisioneiros políticos do período da Revolução Civil de 1947. Junto com outros 70 prisioneiros, Rodi divide uma cela minúscula e insalubre chamada 4-Valle'i (em guarani: Pequeno Vale), onde ele e os presos eram torturados. Entre tanto, habían fallecido, por diversas causas, no del todo apacibles, diecisiete de los ochenta y nueve presos políticos que se hallaban amontonados en esa inhóspita celda, antro, retrete, ergástula pestilente, donde en tiempos de calma no habían entrado nunca más de ocho o diez presos comunes. De los diecisiete presos que habían tenido la estúpida ocurrencia de morirse, a nueve se habían llevado distintas enfermedades contraídas antes o después de la prisión; a cuatro, los apremios urgentes de la cámara de torturas; a dos, la rauda ventosa de la tisis galopante. Otros dos se habían suicidado abriéndose las venas, uno con la púa de la hebilla del cinto; el otro, con el plato, cuyo borde afiló en la pared, y que ahora servía de herramienta para la apertura del túnel (1997, p.77). A prática da tortura, utilizada pelos governos autoritários, é basicamente a eliminação da liberdade individual. A obra Brasil: nunca mais, ao denunciar a utilização da tortura durante o regime militar brasileiro (1964-1985), coloca que a tortura integrou o sistema repressivo criado pelo Estado Nacional, com a intenção de reprimir os direitos e as liberdades das pessoas contrarias ao regime vigente, como parte essencial da manutenção no poder do grupo dominante (1985, p. 290). Assim como no Brasil, o Estado paraguaio durante o governo de Morínigo (e os seguintes) utilizava da tortura como parte essencial da repressão contra os presos políticos. O protagonista do conto participa de duas guerras. A primeira é a Guerra do Chaco: “Recordó aquella otra mina subterránea en la Guerra do Chaco” (1997, p. 79). A segunda é a guerra civil de 1947: “La guerra civil había concluido seis meses atrás” (1997, p.77). Diante dessa situação insustentável e inspirado em um projeto seu durante a guerra contra os bolivianos, Perucho decide cavar um túnel até o rio. Passam-se quatro meses de escavação. Enquanto Rodi escava uma parte do túnel, ocorre um desmoronamento. Ele fica soterrado na passagem e, lentamente, perde seus sinais vitais. Rodi, morrendo de asfixia, começa a delirar. Preso e perdendo a vida 160 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS lentamente, ele lembra os acontecimentos do passado, quando era oficial da Guerra do Chaco (criando um plano temporal), questionando sua participação no conflito. “La tortura se iba trasformando en una inexplicable delicia. Empezó a recordar” (1997, p. 79). Rosenfeld lembra que “ (...) espaço e tempo, formas relativas da nossa consciência, mas sempre manipuladas como se fossem absolutas, são por assim dizer denunciadas como relativas e subjetivas” (1997, p. 81). Ao recordar do passado, Rodi lembra do túnel que cavou no Chaco, “Aquel túnel del Chaco y este túnel que él mismo había sugerido cavar en el suelo la cárcel, que él personalmente había empezado a cavar (…)” (1997, p. 80), e de suas experiências como soldado, ao mesmo tempo em que morria: “Recordó, un segundo antes del ataque, la visión de los enemigos sumidos en el tranquilo sueño del que no despertarían. Recordó haber elegido a sus víctimas, abarcándolas con el girar aún silencioso de su ametralladora” (1997, p.80). O silêncio durante o conflito, quando o protagonista assassinava os inimigos com sua metralhadora em silêncio, aparece como uma recordação apenas de imagens. O som é totalmente omitido, pois o silêncio facilitaria a compreensão dos fatos vividos. Perucho, ao lembrar desse episódio, evidencia a imagem de um soldado que “ se retorcía en el remolino de'una pesadilla” (1997, p.80), aqui aparece a imagem de um redemoinho do pesadelo, o que significa que a imagem do soldado sendo morto constantemente voltava a ser lembrado pelo protagonista. A memória, como define Jacques Le Goff, tem a função de “salvar o passado para servir ao presente e ao futuro” (p. 471), ou seja, ao recordar os fatos do passado , Rodi estaria se libertando da sua experiência no conflito, com o propósito de questionar suas atitudes durante a guerra e procurar morrer com a consciência "leve". No fragmento “(...) este túnel y aquél eran el mismo túnel (...)” (1997, p.80), podemos observar o desdobramento temporal com a fusão dos níveis temporais proposto por Rosenfeld. O protagonista lembra que o motivo da Guerra do Chaco foi por conta dos interesses estrangeiros, principalmente da empresa perolífera norteamericana Standard Oil que perfurava em solo boliviano. Y así sucedía porque era preciso que gente americana siguiese muriendo, matándose, para que ciertas cosas se expresaran correctamente en términos de 161 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS estadística y mercado, de trueques y expoliaciones correctas, con cifras y números exactos, en boletines de la rapiña internacional (1997, p. 79). Totalmente desorientado, Rodi começa a atacar seus amigos (realidade ou devaneio?). Vale lembrar que muitos estudiosos levantam que os paraguaios viam os bolivianos como povos amigos, apesar das desavenças entre eles, por conta da situação política, econômica e social dos dois países serem semelhantes. No final do conflito no Chaco, bolivianos e paraguaios se abraçaram. Nesse trecho, os amigos podem ser tanto os presos políticos da cela quanto os soldados bolivianos. Al franquear el límite secreto, las reconoció en un brusco resplandor y se estremeció: esas ochenta y nueve caras vivas y terribles de sus víctimas eran (y seguirán siéndolo en un fogonazo fotográfico infinito) las de sus compañeros de prisión. Incluso los diecisiete muertos, a los cuales se había agregado uno más. Se soñó entre esos muertos. Soñó que soñaba en un túnel. Se vio retorcerse en una pesadilla, soñando que cavaba, que luchaba, que mataba. Recordó nítidamente el soldado enemigo a quien había abatido con su ametralladora, mientras se retorcía en una pesadilla. Soñó que aquel soldado enemigo lo abatía ahora a él con su ametralladora, tan exactamente parecido a él mismo que se hubiera dicho que era su hermano mellizo (1997, p.81). A questão da duplicação, do espelho e do infinito aparece no seguinte fragmento “Soño que soñaba (...)”, representando um eterno retorno a um labirinto, estrutura presente nas obras de Borges. O túnel representa, segundo o Dicionário de símbolos, O acesso de comunicação, escuro e coberto, subterrânea ou supraterrestre que conduz, através da completa escuridão, uma superfície de claridade a outra. Também pode ser interpretado como uma via de passagem em rituais de iniciação. Entretanto, o significado que mais se aproxima do enredo do conto é que o túnel é a morada de fantasmas, da angústia, do medo e da espera inquieta. (1999, p. 915 - 916). Ou seja, preso em um túnel, Perucho estaria revivendo fantasmas do passado, ao lembrar seus feitos na Guerra do Chaco, aliados a uma espera inquieta pela morte, ao perder seus sinais vitais. O túnel também pode ser aproximado com a figura da caverna, que representa a morte (2004, p.48- 49). A estrutura do duplo aparece no seguinte fragmento do trecho 162 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS acima: “(...) tan exactamente parecido a él mismo que se hubiera dicho que era su Hermano mellizo”. Clément Rosset em sua obra O Real e seu Duplo: Ensaio sobre a Ilusão (1984), onde discute a questão do duplo e da ilusão, mostra os desdobramentos da personalidade dos indivíduos. O real estaria em outro local e essa busca iria de encontro ao duplo, manifestado muitas vezes em diversos elementos, como o espelho, a marionete ou até mesmo em uma projeção idêntica a sua, já que a sua imagem é uma fuga. Esses desdobramentos ocorrem muitas vezes com o medo da morte. Ao se deparar com a morte, o “eu” projeta no “outro” a sua própria imagem, numa forma de salvação. Através dessa questão levantada por Rosset, Perucho ao se deparar com a morte, projeta sua própria imagem nos inimigos, levantando a hipóteses de serem gêmeos (outro símbolo que representa o duplo). Rodi não consegue resistir e morre. Seu sonho pela liberdade acaba juntamente com o plano dos outros presos. “El sueño de Perucho Rodi quedó sepultado en esa grieta como un diamante negro que iba a alumbrar aún otra noche” (1997, p.81). Por conta do desmoronamento, os policiais descobrem o plano de fuga dos prisioneiros e elaboram um plano para eliminar os prisioneiros da cela, tendo como justificativa a tentativa de fuga. Na noite seguinte, os policiais abrem as grades e deixam os prisioneiros fugirem. Ao saírem de suas celas, os oficiais metralham os presos. A versão oficial é de que os presos foram fuzilados pela tentativa de fuga e que somente Rodi conseguiu escapar. Os repórteres são trazidos para relatar os acontecimentos e concordam com a versão oficial. Vale lembrar que, nesse período a imprensa era manipulada pelo governo (essa situação não mudou muito, porém durante os regimes autoritários era muito forte). Al día siguiente, la ciudad se enteró solamente de que unos cuantos presos habían sido liquidados en el momento en que pretendían evadirse por un túnel. El comunicado pudo mentir con la verdad. Existía un testimonio irrefutable: el túnel; los periodistas fueron invitados a examinarlo. Quedaron satisfechos al ver el boquete de entrada en la celda. La evidencia anulaba algunos detalles insignificantes: la inexistente salida que nadie pidió ver, las manchas de sangre aún frescas en la callejuela abandonada (1997, p.81). 163 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Entretanto, as tentantivas de fuga de outros presos continuaram: “Poco después el agujero fue cegado con piedras y la celda 4 (Valle-í) volvió a quedar abarrotada” (1997, p.82). Ou seja, o túnel planejando por Rodi e a morte de seus companheiros de cela não conseguiram repreender os outros presos, que tentavam fugir. Rodi pode ser simbolizado pelas inúmeras vítimas do regime de Morínigo. O desejo de liberdade dos presos (inclusive a de Perucho) é evidenciado no seguinte trecho: “Por allí venía el olor puro de la libertad, un soplo fresco y brilhante entre los excrementos” (1997, p.78). Em meio à situação insalubre em que viviam os prisioneiros, o protagonista, ao olhar para os excrementos, vê a liberdade. O odor se transforma em um aroma puro, fresco da liberdade. Outra característica que se destaca no conto é a questão do espaço/tempo. Em diversos momentos, Rodi não sabe se está no passado ou no presente e, por diversas vezes, confunde os dois espaços temporais. Perto de morrer, totalmente desorientado, Rodi “ Soñó que soñaba en un túnel. (…) soñando que cavaba, que luchaba, que mataba” (1997, p.81). O protagonista não sabe distinguir o passado do presente, ele cavava (presente), lutava (passado), matava (passado ou presente?). Rosenfeld destaca que A eliminação do espaço, ou da ilusão do espaço, parece corresponder no romance a da sucessão temporal. A cronologia, a continuidade temporal foram abaladas, “os relógios foram destruídos”. (...) começam a desfazer a ordem cronológica, fundindo passado, presente e futuro (1996, p.80). Ou seja, a estrutura cronológica em “La excavación” se desfaz, fundindo o passado com o presente. Roa Bastos, ao estabelecer esse movimento circular da história, justificando atitudes do passado no presente, estabelece que a história seja cíclica (vale lembrar que ele denuncia o governo Stroessner através das mesmas atitudes adotadas por Francia em seu governo no romance Yo, el Supremo). Sobre isso, Rosenfeld diz que o (...) “tempo mítico” que, longe de ser linear e progressivo (como é o tempo judaico-cristão), é circular, voltando sobre si mesmo. O tempo linear, cronológico, se apaga como mera aparência no eterno retorno das mesmas 164 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS situações e estruturas coletivas. Na dimensão mítica, passado, presente e futuro se identificam: as personagens são, por assim dizer, abertas para o passado que é presente que é futuro que é presente que é passado - abertas não são para o passado individual e sim o da humanidade (...) (1996, p.89 – 90). As estruturas políticas de 1947 são as mesmas do Paraguai na época da Guerra do Chaco (década de 1930), pois, segundo Roa Bastos, não foram modificadas. Quanto ao significado do túnel, este representaria a estrutura política do Paraguai. Ao escavarem o túnel, os presos estariam criando brechas no sistema e procurando uma saída para os problemas existentes. O túnel, no conto, simboliza a desigual estrutura política e social que beneficia a sucessão de regimes autoritários, logo a ação de cavar outro túnel (feita por Perucho e seus companheiros) significa procurar brechas para desestabilizar a estrutura dominante e promover mudanças significativas (PACHECO, 2006, p. 58 – 59). O desmoronamento seria a intervenção de forças estrangeiras que dificultariam a desestabilização social dos governos e auxiliariam estes a repreender sua população. Considerações Finais: Como já dito anteriormente, Roa Bastos aborda em suas obras elementos sociais e políticos, principalmente o autoritarismo e a instabilidade política do Paraguai no século XX. É interessante ressaltar que o escritor viveu diretamente esses momentos históricos, tendo participado da Guerra do Chaco, da Revolução de 1947 e presenciado toda a ditadura stronista. Antonio Candido, em seu outro ensaio “A literatura e a vida social”, coloca que existe uma relação inextricável entre a obra, o autor e o público e que na medida em que as artes são um sistema simbólico da comunicação inter-humana, esta implica em uma tríada indissolúvel, onde o público dá um sentido verossímil à obra, já o escritor é o intermediário entre sua obra e o público (1973, p. 38-39). Assim, através dessas análises apresentadas por Candido, a situação política e social de uma época influencia na elaboração de uma obra literária. O conto “La excavación” denuncia as injustiças dos governos autoritários que governavam o país e instável estrutura política e social da época. Vale lembrar que 165 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS durante o período liberal (1904 – 1940) não havia democracia. Todos os governos começavam e acabavam decorrentes de golpes militares. Com a ascensão do Partido Colorado, essa situação não mudou. Roa Bastos, como citado anteriormente, apresenta uma história cíclica dos fatos, onde não há mudanças nas estruturas. Adotando esse viés de interpretação, houve mudanças significativas nas estruturas políticas do Paraguai desde a Revolução de 1947? O Paraguai só foi conhecer uma democracia plena no ano de 1993, depois de quatro anos da queda de Alfredo Stroessner, apesar da historiografia destacar a participação política da população nas décadas anteriores. Entretanto, a situação política do país parece não ter mudado muito. Em 2012, acusado de não cumprir suas promessas, Fernando Lugo sofreu um golpe parlamentário, onde assumiu seu vice, Federico Franco, do Partido Liberal. Se os regimes autoritários acabaram, onde está a democracia? Referências Bibliográficas: ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Editora Nacional, 1973. CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Tradução: Vera da Costa e Silva et. al. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. CROCETTI, Sandra (org). Nueva Historia del Paraguay. Tomo VI. Asunción: Editorial Hispana S.R.L., 1997. LE GOFF, Jacques. História e memória. 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Asunción: 2010. 167 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O CONTO E SUAS HISTÓRIAS NAVA, Josiane 46- (UNIOESTE) PARAHYBA, Martha R47. – (UNIOESTE) O objeto de estudo dessa comunicação oral é o conto contemporâneo brasileiro. Fruto de um trabalho de Iniciação Científica Voluntária (ICV) em desenvolvimento e que pretende identificar as características do conto na obra de Dalton Trevisan. O surgimento do conto deu-se por volta de 4.OOO a.C. e a finalidade era repassar as morais vigentes na época e “contar estórias” durante as refeições (GOTLIB 1987). Quanto ao conto contemporâneo (BOSI, 1975) é o gênero que abarca a temática do romance em busca do texto sintético e relações entre significados, gêneros e tons, ou seja, ele pode assumir formas variadas, não fixas. A narrativa curta nunca conta somente uma história, ou seja, há necessidade de prestar bastante atenção nas entrelinhas para que a segunda história presente no conto se revele (PIGLIA, 1994). O conto (GOTLIB, 1987) compartilha de características de outros gêneros como fábula e parábola, como economia de estilo e resumo de proposição temática, além disto, conforme Raul Castagnino, não há delimitação precisa entre a ficção e a realidade nesta narrativa. E, aqui, pretende-se pontuar algumas das principais características do gênero e tentar responder às seguintes questões: Quando surgiu a narrativa curta?; qual era/é a finalidade do conto?; e quantas histórias um conto narra? Para responder a tais questões, serão examinados os estudos dos autores indicados: Gotlib (1987), Bosi (1975) e Piglia (1994). Palavra-chave: Conto contemporâneo, literatura brasileira, ficção. O Surgimento do conto e sua função na antiguidade A história do conto não tem uma data precisa, sabe-se apenas que desde o surgimento da sociedade as pessoas se reúnem para conversar e contar histórias. Sendo assim, o que existe são desconfianças, segundo Nádia Gotlib (1987) de que as mais antigas narrativas curtas de que se tem notícias são os contos egípcios cujo surgimento data de, aproximadamente, 4.000 anos antes de Cristo. A princípio, os contos eram utilizados para transmitir mitos de algumas tribos; morais religiosas e também para o repasse de informações entre sacerdotes e seus discípulos, segundo Gotlib (1987). Consoante a estas ideias, Maria (1984) afirma: 46 Aluna do Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Campus de Foz do Iguaçu. [[email protected]].PICV 47 Docente do Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Campus de Foz do Iguaçu. 168 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O conto popular cristalizava-se na tradição oral dos povos, atuando como veículo de transmissão de ensinamentos morais, valores éticos ou concepções de mundo, sendo fortalecido na memória de consecutivas gerações, a cada noite, a cada serão, espécie de legado passando de pais a filhos. (MARIA, 1984, p. 12). As histórias que permeavam a narrativa, na antiguidade, tratavam de assuntos ligados à ingenuidade, sobressaindo-se o conto maravilhoso, que para André Jolles, consiste em narrar histórias com tempo e espaço indeterminados, um exemplo é a expressão “era uma vez”, e personagens indeterminadas historicamente. Percebemos, portanto, que o conto durante muito tempo, através da modalidade oral, foi o veículo de informações sobre assuntos importantes e triviais, na sociedade antiga, e segundo Maria (1984) delimitar a quantas funções o conto se prestava naquela sociedade é uma tarefa desgastante. No entanto, a partir do século XIV este gênero transita para a modalidade escrita também, e segundo Gotlib (1987) o desencadeamento para isso, partiu da publicação da coletânea de contos Decameron, de Boccacio, pois, a obra rompeu com o moralismo didático da época (1350). Através disto, novas exigências são feitas a quem desejasse contar histórias, sendo assim, conforme Gotlib (1987), “O contador procura elaboração artística sem perder, contudo, o tom da narrativa oral. E conserva o recurso das estórias de moldura: são todas unidas pelo fato de serem contadas por alguém a alguém”. Assim, surgem as principais diferenças entre o contador de histórias e contista: A voz do contador, seja oral ou seja escrita, sempre pode interferir no seu discurso. Há todo um repertório no modo de contar e nos detalhes do modo como se conta – entonação de voz, gestos, olhares, ou mesmo algumas palavras e sugestões – que é passível de ser elaborado pelo contador, neste trabalho de conquistar e manter a atenção do seu auditório. (GOTLIB, 1987, p. 13). Portanto, são nos detalhes da criação que está presente a principal diferença entre o contador de histórias e o contista, pois, qualquer mudança de ordem estética, ao narrar uma história, segundo Gotlib (1987) altera a narrativa enquanto conjunto. 169 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Outro acontecimento importante para a história do conto ocorreu no século XIX, pois, houve um aumento de interesse por pesquisas de assuntos populares e folclóricos, segundo Gotlib (1987), e a possibilidade de publicação desses trabalhos aumentou devido à expansão da mídia. A partir dessas transições entre modalidade oral e escrita e a expansão da imprensa houve mudanças na função sóciocomunicativa do conto. O Conto na atualidade Devido à necessidade humana de comunicar-se, nas sociedades primitivas, o conto enquanto gênero oral era a principal fonte de transmissão de conhecimento. Conforme a sociedade evoluía novas necessidades acompanharam essa narrativa. Segundo Maria (1984) devido à evolução tecnológica, a tradição oral vigente desde os primórdios, perdeu espaço e foi substituída pela televisão: [...] nas noites atuais, a “corrida” das pessoas para o encontro marcado com as novelas de televisão que propiciam a milhares de pessoas, das mais diversas idades, esta pequena incursãozinha no reino da fantasia. (MARIA, 1984, p. 14). Portanto, a mesma autora acredita que, devido à rotina cansativa de trabalho da maioria da população, estas reservam nenhum tempo a conversa, pois estão fatigadas e, fazem uso da T.V. para manter-se informadas e ao mesmo tempo, como forma de lazer e descanso. Ainda assim, o conto sobreviveu a essa nova realidade tecnológica, e segundo Bosi (1975) “O conto cumpre a seu modo o destino da ficção contemporânea. Posto entre as exigências da narração realista, os apelos da fantasia e as seduções do jogo verbal, ele tem assumido formas de surpreendente variedade”. O autor afirma ainda, que o conto não só comporta os temas presentes em um romance, quanto desafia os princípios que regem a escrita atual. Portanto, vários elementos que compõe a estrutura dessa narrativa contribuem para a variedade de formas do conto. Outras características do Conto 170 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Conforme já dito, o conto não possui forma fixa, e isto é possível através dos elementos que o compõem: tamanho; objetivo; renovação e enfoque diferenciados, definidos pelo autor, pois, segundo Mário de Andrade o conto é aquilo que o autor estabelecer como tal. Primeiramente, é interessante definir o tamanho da narrativa, e segundo Maria (1984): Em princípio, o conto se caracteriza por ser uma narrativa curta, um texto em prosa que dá o seu recado em reduzido número de páginas ou linhas. Mas não seria um simplicionismo defini-lo apenas pelo tamanho? Não é bem isto. Ocorre, porém, que a forma conto apresenta como sua maior qualidade o fator concisão. Concisão e brevidade. Assim o dado quantitativo é mera decorrência do aspecto qualitativo do texto. Curto porque denso. (MARIA, 1984, p. 23). A condição de narrativa compacta e dotada de grande significância é apresentada também, segundo Edgar Allan Poe, em Gotlib (1987) que expõe o fator efeito que a narrativa provoca no leitor como mais importante que o tamanho da mesma. No entanto, Gotlib (1987) afirma que é imprescindível a “leitura de uma só assentada”, pois para atingir o “efeito único” desejado por Poe, há a necessidade de fusão entre ambas características acima. Dando continuidade a proposta, Bosi (1975) relata que “a invenção do contista se faz pelo achamento (invenire = achar, inventar) de uma situação que atraia, mediante um ou mais pontos de vista, espaço e tempo, personagens e trama”. Portanto, ele acredita que é fundamental a escolha do tema para atingir o objetivo proposto por Poe, e também postula a não inocência ou aleatoriedade dos escritores no momento de escolha da temática, afinal, todos os elementos presentes no texto/discurso do escritor caminham para a construção de um mesmo efeito. A Questão, portanto, é definir o tema e partir daí ser capaz de (re) inventar, perceber detalhes que, normalmente, não são notados pelas pessoas, assim Bosi (1975) define literariamente o que faz o contista: [...] o contista explora no discurso ficcional uma hora intensa e aguda de percepção. Esta, acicatada pelo demônio da visão, não 171 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS cessa de perscrutar situações narráveis na massa aparentemente amorfa do real. (BOSI, 1975, p. 9). Portanto, situações simples e cotidianas como: problemas familiares; exploração humana; humilhação de uma classe social perante outra, entre outros, são exemplos de temas que, poderiam ser transformados em crônicas, afinal para o já mencionado autor: “Aquém da tensão, o conto não passa de crônica eivada de convenções, exemplo da conversa ou da desconversa média, lugar-comum mais ou menos gratuito. Ou ainda, requentado maneirismo”. Assim, o que determina o conto como tal é a capacidade que o escritor tem de abstrair minúcias de uma situação real e provocar no leitor o efeito da tensão, de forma que o mesmo consiga realizar uma leitura em tempo reduzido, mas com muita informação. Consoante Bosi (1975) Ricardo Piglia afirma em “Teses sobre o Conto” que “um conto sempre conta duas histórias”. E dessa forma “a arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da historia 1”. Portanto, a habilidade é característica primordial para quem escreve contos, pois, além de narrar uma história explícita deve construir uma segunda história, que será descoberta, apenas, por leitores atentos, afinal a base dessa construção histórica dupla é a forma como o escritor expõe os elementos de ligação entre ambas, segundo Piglia, e ele expõe, ainda, como olhar o segredo que um conto encerra: O conto é uma narrativa que encerra uma história secreta. Não se trata de um sentido oculto que depende da interpretação: o enigma não é senão uma história que se conta de um modo enigmático. A estratégia da narrativa está posta a serviço dessa narrativa cifrada. Como contar uma história enquanto se está contando outra? Essa pergunta sintetiza os problemas técnicos do conto. Segunda tese: a história secreta é a chave da forma do conto e suas variantes. Conforme as exposições feitas, percebemos que Machado de Assis estava correto quando afirmou que apesar da aparentemente escrever contos era fácil, mas, na realidade não o era. E, partindo desse pressuposto, Gotlib (1987) afirma: Antes, havia um modo de narrar que considerava o mundo como um todo e conseguia representá-lo. Depois, perde-se este ponto de vista fixo; e passa-se a duvidar do poder de representação da palavra: cada 172 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS um representa parcialmente uma parte do mundo que, às vezes, é uma minúscula parte de uma realidade só dele. (GOTLIB, 1987, p. 30). É de fundamental importância observar o ambiente ao seu redor e considerar as divergências de opinião quanto ao que observa e reproduz, pois, escritores, críticos e leitores percebem a vida e o que nela acontece de forma divergente. Esta situação acontece, dentro da própria teoria do conto, segundo a mesma Gotlib (1987), quando o assunto é o “momento especial” da narrativa curta: Para alguns, é necessário que algo aconteça no conto - nele precisa haver ação. Nesta linha, o conto é o que traduz uma mudança, de caráter moral, de atitudes ou de destino das personagens, e que provoca uma realização do leitor, através destas mudanças: é a teoria de Theodore A. Stroud. Para outros, deve acontecer algo num tempo passado, que é, desta forma, dominado pelo narrador – é o que pensa Mário A. Lancelotti. Mas, para outros, o que o conto mostra é justamente a ausência de mudança e de crise. (GOTLIB, 1987, p. 50). Conforme exposto, nessa citação de Nádia Gotlib, o conto permite várias formas de apresentação, pois cada indivíduo preconiza um elemento, uma característica do conto. Ainda, sobre as características do conto, destaca-se a epifania que, conforme James Joyce, é uma espécie de objetivo do conto, devido ao seu caráter representativo quanto ao mundo real. Sendo a epifania, segundo Gotlib (1987): [...]um dos quesitos de beleza. O primeiro seria o da integridade, quando se percebe a coisa enquanto obra integral. Este primeiro quesito permite reconhecer a coisa como sendo uma, e não outra. O segundo, o da simetria, permite considerar o objeto como um, em si mesmo, nas suas partes e no seu todo, na relação consigo mesmo e com os outros objetos. E pelo terceiro, a epifania, a coisa torna-se ela mesma. (GOTLIB, 1987, p. 52). O conto, portanto, é um gênero difícil de definir, de escrever e de compreender, pois, exige dedicação e atenção tanto do escritor e do crítico, quanto do leitor. Desta forma, cada narrativa curta deve ser observada através de suas condições de produção, pois, conforme dito anteriormente, cada escritor denota os elementos marcantes de sua 173 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS escrita, portanto, a compreensão do mesmo exige que o leitor saiba quem escreveu, onde, quando e para quê escreveu, assim, obterá maior entendimento da obra lida. Quem conta um conto aumenta um ponto Após uma breve viagem sobre a história do conto, observou-se que o conto é uma tarefa solitária, devido ao nível de concentração exigida para escrevê-lo, e além disso, o escritor possui uma bagagem própria de conhecimento, talvez por isso, não haja um consenso quanto a forma e o conteúdo deste gênero, portanto, concordamos com Gotlib (1987): “[...]parece que as tentativas de se buscar um elemento comum aos contos para além do simples contar ‘estórias’, que o liga a sua tradição antiga, tendem também a se desdobrar, [...]em quase tantas quantos são os contos que se contam”. Conseguintemente compreendemos que, embora muitos anos tenham se passado, desde os registros dos primeiros contos, existem ainda muitas descobertas a serem feitas, pois, a narrativa curta é capaz de expressar, narrar, contar as mais diversas situações por nós vividas através de sua linguagem densa e em curto espaço de tempo, aliada ao talento e sensibilidade dos escritores que se dedicam a esta arte. Por fim, se existe um adjetivo no mundo capaz de definir o conto, com certeza, esse se chama Peculiar, pois, apesar de divergir sobre as teorias deste, os teóricos concordam em que esta narrativa é belíssima. E cada indivíduo que optar por engajar-se nesse assunto retornará aos primórdios da civilização, na forma simples de contar, afinal, “quem conta um conto aumenta um ponto”. Afinal, quando o assunto é conto cada qual defende a sua teoria. Conforme exposto na introdução, a pesquisa está em desenvolvimento e tem contribuído bastante para a nossa compreensão da literatura, através das leituras dos teóricos já mencionados. Pretendemos, em breve, realizar novas publicações que acrescentem conhecimentos sobre o conto e sua aplicação na obra de Dalton Trevisan, para os possíveis leitores interessados no assunto e para nós também. 174 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS REFERÊNCIAS BOSI, Alfredo (org). O Conto Brasileiro Contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1975. GOTLIB, Nádia Batella. Teoria do Conto. 3. ed. São Paulo: Ática, 1987. MARIA, Luzia de. O que é Conto. São Paulo: Brasiliense, 1984. 99 p. (coleção primeiros passos). PIGLIA, Ricardo. Teses sobre o Conto. Disponível em: <http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/1628605>. Acesso em: 29 Nov. 2012, 10:15:13. 175 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Os labirintos de DISPERSÃO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO OLIVEIRA, Valdeci Batista de Melo48 SCHNEIDER, Camila Lacerda49 RESUMO: Mário de Sá-Carneiro foi um poeta português e um dos maiores autores do modernismo em Portugal. Sá-Carneiro começou a compor poemas muito cedo, aos 11 anos. A partir dos 14 já traduzia livros do francês Victor Hugo e do alemão Goethe. Desde cedo o poeta já demonstrava seu inconformismo e insatisfação com a vida, o que o levou a cometer suicídio prematuramente, aos 25 anos de idade. Neste trabalho será analisado o poema Dispersão de Mário de Sá-Carneiro, presente na obra homônima e publicada no ano de 1914. Analisar-se-á os efeitos de sentido que este poema, uma das mais relevantes obras em verso do poeta, desperta no leitor. Para isso, serão trabalhados os elementos que Sá-Carneiro utiliza para dar forma ao discurso lírico, bem como analisar algumas figuras de linguagem e recursos estéticos usados pelo poeta no decorrer da composição. PALAVRAS-CHAVE: Mário de Sá-Carneiro, Dispersão, Análise de poema. Mário de Sá-Carneiro foi um poeta português e um dos maiores autores do modernismo em Portugal. Mudou-se de sua cidade natal, a capital portuguesa Lisboa, para continuar seus estudos na capital francesa, Paris, em que viveu parte de sua vida e de onde trocava cartas com aquele que viria a ser seu melhor amigo, Fernando Pessoa. Nessas correspondências trocadas entre os autores já se percebia como Sá-Carneiro abria-se para o amigo, demonstrando-lhe sua frustração com a existência e tratando de temas que logo após seriam abordados em sua produção literária. Mário de Sá-Carneiro começou a compor poemas muito cedo, aos 11 anos. A partir dos 14 já traduzia livros do francês Victor Hugo e do alemão Goethe. Desde cedo o poeta já demonstrava seu inconformismo e insatisfação com a vida, o que o levou a cometer suicídio prematuramente, aos 25 anos de idade. Sua obra encaixa-se no movimento modernista, apesar das fortes influências de autores simbolistas como Baudelaire e Mallarmé. Teve ainda como influência literária 48 Doutora em Letras pela USP e professora da Disciplina de Literatura Portuguesa do curso De Letras da UNIOESTE. E-mail: [email protected] 49 Acadêmica do Segundo ano da Graduação do curso de Letras Português/Inglês da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE/Cascavel). Bolsista CAPES pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID/UNIOESTE. Integrante do grupo de pesquisa “Confluências da Ficção, História e Memória na Literatura”. E-mail: [email protected] 176 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS grandes nomes como os de Poe, Oscar Wilde e Dostoievski. O poema escolhido para análise chama-se Dispersão, escrito em maio de 1913 e publicado em um livro que leva o mesmo nome, no ano de 1914. Buscar-se-á nesse ensaio fazer uma interpretação desta que é uma das mais relevantes obras em verso de Sá-Carneiro, bem como analisar algumas figuras de linguagem e recursos estéticos usados pelo poeta no decorrer da composição. Uma das características de Mário de Sá-Carneiro que o encaixa na escola modernista é o encontro pouco harmonioso de vários sons, causando uma falta de consonância corrente em todo o poema. A dissonância é uma marca forte em obras pertencentes ao modernismo, como afirma Adorno em Teoria Estética. Segundo o teórico, a dissonância, sinal de todo o modernismo, admite, mesmo nos seus equivalentes ópticos, a atração do sensível, ao mesmo tempo que o transfigura no seu contrário, a dor: fenômeno estético original da ambivalência. O alcance imprevisível de tudo o que é dissonante para a nova arte desde Baudelaire e o Tristão - na verdade, uma espécie de invariante do modernismo - provém do fato de que o jogo imanente de forças da obra de arte converge com a realidade exterior, cujo poder sobre o sujeito aumenta paralelamente à autonomia da obra.(ADORNO, p. 26, 1970) Essa dissonância já usada em Baudelaire e incorporada à obra de Sá-Carneiro atua como um artifício estético para retratar o “não-belo”, para expressar a falta de coerência do mundo moderno aos olhos do poeta. Em outro sentido, também pode ser vista como um meio de trazer o caótico mundo moderno à obra. Se, em Fernando Pessoa, mais especificamente em seus heterônimos, o uso de onomatopeias retrata os sons comuns da sociedade moderna, da tecnologia crescente, vê-se que em Sá-Carneiro, outro poeta português, a mesma ideia é transposta de modo distinto. Há, contudo, uma preocupação aparente quanto ao uso das imagens para causar uma aproximação do leitor com a realidade do contexto do eu lírico. A leitura das imagens produzidas por meio do poema dependerá, evidentemente, de quem o lê, lembrando sempre, como apontado por Bosi em seu O ser e o tempo da poesia, que 177 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS a experiência da imagem, anterior à da palavra, vem enraizada no corpo. A imagem é afim à sensação visual. (...) A imagem é um modo da presença que tende a suprir o contacto direto e a manter, juntas, a realidade do objeto em si e a sua existência em nós. O ato de ver apanha não só a aparência da coisa, mas alguma relação entre nós e essa aparência: primeiro e fatal intervalo. (BOSI, p. 13, 1977) Assim, o poema de Sá-Carneiro mantém contato direto com o leitor, fazendo-o lembrar de que aquilo descrito pelo autor é a realidade, que sua vida é exatamente como retrata a obra. O vazio existencial presente no eu lírico é forte o suficiente para impregnar àquele que lê o poema, ainda assim é incapaz de revelar, de fazer subir à superfície alguns dos vazios existenciais guardados nos mais íntimos refolhos da alma como o próprio Mario de Sá Carneiro disse. “Daqui os ‘isolados’ que todos nós, os homens, somos ‘e guardamos vazios existenciais,’ mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia”. A sensação de não ter feito tudo aquilo que se gostaria de ter realizado é encontrada também ao longo de toda a obra, sendo esse sentimento facilmente relacionado à vida de grande parte dos leitores, muitas vezes crentes de que caminhos diferentes poderiamos ter conduzido às coisas que desejavam. Iniciando a análise, logo no início da composição se percebe como o autor não consegue se desligar do eu lírico, estando o poeta completamente impregnado nos versos por ele compostos. O poema é praticamente autobiográfico, no qual encontramos fortes relações do próprio poeta com aquilo que escreve. A obra é composta por 22 estrofes, cada qual com 4 versos (quadras), resultando um total de 88 versos distribuídos ao longo do poema. Há presença de rimas interpoladas e alternadas, variando ainda entre ricas e pobres, sendo as últimas produzidas na maioria das vezes com a mesma palavra, em uma espécie de anáfora dentro de cada estrofe, que busca dar um sentido de circularidade ao poema. (1)Perdi-me dentro de mim (A) 178 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS (2)Porque eu era labirinto (B) (3)E hoje, quando me sinto.(B) (4)É com saudades de mim.(A) Entende-se logo no início do poema que o sujeito lírico figura alguém que não consegue se encontrar, não sabendo ele mais quem é. A palavra labirinto por si já dá uma ideia de busca por vários caminhos distintos, sendo esses caminhos os diferentes eventos pelos quais ele passou – ou não. Agora, então, ele tenta encontrar algo dentro de si, tenta buscar quem ele se tornou depois de ter passado por tantos caminhos diferentes. Ele procura a si mesmo e por aquele que ele era. Quando diz saudades de mim o eu lírico refere-se ao fato de que as pessoas mudam, esquecem seus sonhos e planos e acabam por se olhar no espelho depois de alguns anos e vendo que não são mais aquelas de antigamente. Por isso ele diz que tem saudades dele mesmo, uma vez que o eu lírico não é mais o mesmo que ele era. Percebe-se, ainda, que aquela pessoa na qual o eu lírico se transformou - e que ele é atualmente - caracteriza-se como um ser um tanto apático, que não “sente” de maneira constante.Ao dizer quando eu me sinto o poeta demonstra que não é sempre que ele “sente” algo e, quando ele realmente se vê sentindo alguma coisa, ele percebe que sente saudades daquilo que foi. Entretanto, percebe-se que não se trata mais de um indivíduo que se preocupa com os sentimentos constantemente. A repetição da palavra “mim” por anáfora realça aquilo que o poeta está querendo dizer, sua preocupação em buscar o verdadeiro “eu”. A escolha da mesma palavra para fazer a rima é uma marca presente ao longo de todo o poema. Como apontado por Cândido em seu Estudo analítico do poema, o uso das palavras pelos poetas não é “aleatório” e sem prévia intenção. Sabe-se que, no poema, as palavras se comportam de modo variável, não apenas se adaptando às necessidades do ritmo, mas adquirindo significados diversos conforme o tratamento que lhes dá o poeta. Antes de mais nada, é preciso 179 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS distinguir, como na linguagem corrente, a linguagem direta da linguagem figurada. (CÂNDIDO, p. 69, 1996) Ou seja, além de dar destaque às palavras por meio da repetição delas, cada uma das palavras juntas no poema ganham sentidos novos não percebidos antes. Em literatura as palavras nunca carregarão o sentido “óbvio” e literal, sempre estarão representando uma imagem que vai além daquilo que se lê, senão não é literatura, não é poesia. O que o Antonio Candido está a dizer é que as palavras juntas no poema ganham sentidos novos não percebidos antes conforme os recursos e elementos utilizados pelo poeta. Não que cada uma das palavras tenham um significado próprio, mesmo porque desde Saussire nós sabemos que nada tem sentido fora da relação de dependência recíproca da cadeia sintagmática. Temos de lembrar que toda poesia lírica é feita de uma acirrada e tensa composição de elementos: palavras; sons; figuras de palavras, de sintaxe e de pensamento; plano gráfico-visual; morfologia; léxico; sintaxe e semântica. Cada um desses elementos e todos eles não saem atirando sozinhos, cada um ao seu bel-prazer. Eles se combinam, se articulam se fortalecem dentro da cadeia sintagmática exígua, chamada de poema Como dito, por meio desse recurso o poeta consegue uma proeminência naquilo que procura enfatizar. Contudo, está abrindo mão dos padrões estéticos de forma e manutenção de rimas ricas na composição do poema. Essa é uma marca forte e uma das que caracteriza o autor na escola do modernismo, na qual os artistas não se importavam mais com os padrões e buscavam a criação livre. Outra característica de Sá-Carneiro que o enquadra na escola modernista é a atenção que o poeta confere ao “existencial”. Já no título do poema escolhido – Dispersão –percebe-se que a pluralidade de pensamentos nos quais o autor estava inserido já causava nele essa fuga desordenada de ideias, levando-o a “dispersão” do ser, essa não tranquilidade e paz de espírito. A questão existencial está forte e presente em todo o poema, como o trecho que se segue: 180 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS (5)Passei pela minha vida(A) (6)Um astro doido a sonhar.(B) (7)Na ânsia de ultrapassar,(B) (8)Nem dei pela minha vida...(A) Seguindo, então, encontramos na segunda estrofe um eu lírico consciente de que durante a vida só sonhou e não viveu, tendo ele visto, assim, sua vida passar e o tempo decorrer por ele. Essa ânsia de ultrapassara que ele se refere seria o fato de que ele sempre buscava além, sempre esperando “mais” em um futuro próximo, com ânsia e vontade de chegar logo nesse futuro, ultrapassar o presente, esquecendo-se de vivê-lo. Por fim, o que restou, foi a imagem de alguém que não viveu intensamente, acreditando que algo além estaria a o esperar. A imagem que se faz na mente ao deparar-se com esses primeirosversos é a de um homem lamentoso, lastimando a sua vida de desventuras. Nota-se nesses primeiros versos como o eu lírico sente que sua vida poderia ter sido diferente. Pode-se considerar essas duas primeiras estrofes como um grande desabafo, no qual o poeta procura expurgar seus sentimentos. Quando exprime que está “perdido dentro de si”, o poeta manifesta que seus sentimentos são confusos e que as mudanças pelas quais passou na vida fez com que ele não mais fosse quem ele costumava ser. O modo com o qual o eu lírico se sente é bastante comum em nossa sociedade ainda hoje, tendo a maioria dos indivíduos já se sentido dessa maneira um dia. O autor consegue, dessa maneira, fazer uma relação entre sua obra e aquele que a lê, cumprindo, de acordo com Adorno em seu Discurso sobre lírica e sociedade, seu papel como produtor lírico: relata uma realidade que está ligada com o que as pessoas estão habituadas, mesmo que elas ainda não tenham se dado conta disso. Então, não que aquiloque o poema lírico exprime tenha de ser imediatamente aquiloque todos vivenciam. Sua universalidade não é uma volontéde tousnão é a da mera comunicação daquilo que os outros simplesmentenão são capazes de comunicar. Ao contrário, o mergulhonoindividuadoelevao poema lírico ao 181 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS universal por tornar manifesto algo de não distorcido, de não captado, de aindanão subsumido, anunciando desse modo, por antecipação, algode um estado em que nenhum universal ruim, ou seja, no fundo algo particular, acorrente o outro, o universal humano. Acomposição lírica tem esperança de extrair da mais irrestritaindividuação, o universal. (ADORNO, p. 66, 1975) Sendo assim, essa preocupação com a existência, esse vazio e frustração com a vida que levou, tão presentes no eu lírico deste poema, são assuntos universais, pelos quais todos irão um dia passar, questões que um dia todos irão levantar. Todavia, apesar dessa universalidade, alguns adquirirão essa consciência sobre a existência somente após ler a obra de Mário de Sá-Carneiro. Fazendo tais explicitações no poema, o eu lírico torna ciente e claro para si e para seu leitor a necessidade de pensar sobre os temas abordados. É a carpintaria do poema, como ele faz os versos com escolha semântica, lexical, sintática, como compõe as imagens, a percepção que ele tem da “minh’alma nostálgica de além” e de estar armado, vestido de, “cingidos de quimera e d’irreal”, que é ao mesmo tempo convenção estética desde o simbolismo decadentismo, mas aqui visto pela dispersão do eu que se desagrega, visto pelo olhar único do poeta. (9)Para mim é sempre ontem, (A) (10)Não tenho amanhã nem hoje: (B) (11)O tempo que aos outros foge (B) (12)Cai sobre mim feito ontem. (A) Ao invés de pensar no futuro ou no presente, o eu lírico só lembra o passado, por isso diz que para ele é sempre ontem. Aparenta, ainda, ser uma pessoa sem grandes perspectivas, tendo feito planos para si apenas no passado. Ao dizer o tempo que aos outros foge, o eu lírico refere-seao fato de que a maioria das pessoas acredita que o tempo “foge” delas, que é escasso, enquanto para ele, o tempo está passando devagar, se arrastando pelas horas ao longo dos dias, “caindo sobre ele feito ontem” porque todos os dias são, para ele, iguais. 182 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS (13) (O Domingo de Paris(A) (14)Lembra-me o desaparecido(B) (15)Que sentia comovido(B) (16)Os Domingos de Paris:(A) (17)Porque um domingo é família,(A) (18)É bem-estar, é singeleza,(B) (19)E os que olham a beleza (B) (20)Não têm bem-estar nem família). (A) O desaparecido mencionado pelo sujeito lírico pode se referir a ele mesmo ou algum desaparecido de notícia de jornal, de qualquer modo, o que importa aqui é que esse desaparecido figurado remete ao próprio sujeito lírico que se esvai na dispersão. A “comoção” refere à percepção da beleza dos “domingos de Paris” locução adjetiva que realça o espaço tempo levantado pela fantasmagoria do poema, ao mesmo tempo em que afirma a beleza e o bem estar dos que são felizes, contraposta pelo advérbio de negação à incompletude dos que não tem gozam dessa felicidade, mas podem perceber , como se a solidão ampliasse a acuidade de visão e de percepção da beleza dos “domingos de Paris”. Contudo, hoje ele não o sente mais. Sabe-se que o domingo é, já na época do poeta, o único dia da semana no qual se consegue reunir toda a família, em decorrência da correria do dia a dia moderno. Sá-Carneiro mudou-se para a capital francesa para continuar os estudos, tendo, assim, que ficar longe dos familiares. Os domingos seriam para ele, então, um dia de saudosismo, no qual o poeta lembrava como era feliz quando morava em sua cidade natal, e como precisou abrir mão do bem-estar que a família traz para poder viver sozinho em Paris. (21)O pobre moço das ânsias...(A) (22)Tu, sim, tu eras alguém! (B) (23)E foi por isso também(B) (24)Que me abismaste nas ânsias.(A) 183 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O pobre moço mencionado pelo eu lírico é ele mesmo, que ansiava por um futuro, estudava e sonhava em ser alguém melhor. Ele considera aquele jovem moço que ele era,um alguém de verdade, pelos sonhos que ele possuía, por ter sido um alguém que tinha metas, que tinha sentimentos. As ânsias do pobre moço seriam seus anseios, suas vontades e objetivos. Entretanto, aquele pobre moço frustrou-se ao perceber que não estava conseguindo fazer tudo aquilo que acreditava ser capaz de fazer. Os mesmos sonhos que lhe deram força para seguir em frente, foram os sonhos que fizeram com que ele se desiludisse, transformando-se na pessoa que ele é hoje. Esse pobre moço foi então alguém que jogou (abismou) o eu lírico (ele mesmo) nas ânsias, tendo as ânsias agora um sentido de angústia, e não mais de anseio. (25)A grande ave doirada (A) (26)Bateu asas para os céus, (B) (27)Mas fechou-as saciada (A) (28)Ao ver que ganhava os céus. (B) O eu lírico era essa aveque bateu asas para os céus, buscando alcançar seus objetivos. Porém, quando estava lá no alto, conseguindo concretizar seus sonhos, deu-se por satisfeito ao perceber que já havia atingido um patamar mais elevado daquele em que se encontrava. Acabou, assim,“fechando as asas”, no sentido de se estagnar, erroneamente “saciado” por estar conquistando o que ansiava. Aqui se percebe o ponto em que o eu lírico explicita os motivos que o levaram a existência que leva, o ponto de alta tensão, por demonstrar que ele mesmo é o culpado pelos tormentos que assolam sua alma. (29)Como se chora um amante,(A) (30)Assim me choro a mim mesmo: (B) 184 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS (31)Eu fui amante inconstante(A) (32)Que se traiu a si mesmo.(B) Há nesses versos uma contradição entre o eu lírico ter amado a si emesmo assim ter se traído. Ele traiu a si no sentido de que parou com seus sonhos, e ao parar de almejar, acabou afetando quem ele viria a ser. Hoje ele se arrepende disso, e por isso chora. Amante inconstante de si por ter sido inconstante ao se amar e, assim, acabando por se trair. Seus sonhos não eram mais dele, assim como o amor não é verdadeiramente daquele que trai. (33)Não sinto o espaço que encerro (A) (34)Nem as linhas que protejo: (B) (35)Se me olho a um espelho, erro – (A) (36)Não me acho no que projeto. (B) A imagem que o eu lírico projeta no espelho não é mais a dele mesmo. Ele, que era um jovem cheio de vontades e metas, não se reconhece na imagem daquele homem sem objetivos na vida. Ainda, nota-se nessa estrofe como o poeta já acredita que não tem mais projeção e que ele praticamente não existe mais, ao falar que não “sente” mais o espaço que ocupa. Todas as linhas caíram, todos os espaços se tornaram quebradiços, voláteis,como se ele não ocupasse mais nenhum espaço.Há, contudo, outra possível interpretação, na qual o eu lírico apenas refere-se ao fato de que ele “fecha”o espaço, encerrando-se dentro dele, tentando isolar-se do mundo e daquilo que antes desejava. (37)Regresso dentro de mim(A) (38)Mas nada me fala, nada!(B) (39)Tenho a alma amortalhada, (B) (40)Sequinha, dentro de mim. (A) Agora o eu líricoregressa dentrode si, tenta voltar no tempo e lembrar aquele que ele era,em busca de respostas para compreenderem que momento se perdeu. Porém, ele nada encontra, ele nada sente, não há respostas. O eu lírico descreve sua alma como 185 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS algo morto, sendo amortalhada,uma alma já revestida de mortalha, a vestidura que envolve o cadáver que vai ser sepultado. Sua alma está sequinha, como as folhas que secam no outono e ficam sem vida. O poeta já não sente mais amor, nem ódio. É apenas uma alma morta. (41)Não perdi a minha alma,(A) (42)Fiquei com ela, perdida.(B) (43)Assim eu choro, da vida, (B) (44)A morte da minha alma. (A) Nos versos seguintes, então, o eu lírico continua a falar sobre a morte de sua alma, buscando um sentido de morte de sentimentos, de não mais sentir, de não mais se importar. Ele não perdeu a alma, ele só convive com ela morta dentro de si. Ele convive com a falta de sentimentos e percebe que não os sente mais. Contudo, ainda assim está vivo e, ao dizer que “chora a morte da alma”, lamenta não mais sentir. Se fosse algo indiferente para ele, não teria tanta significação como tem. (45)Saudosamente recordo (A) (46)Uma gentil companheira (B) (47)Que na minha vida inteira (B) (48)Eu nunca vi... Mas recordo (A) (49)A sua boca doirada(A) (50)E o seu corpo esmaecido, (B) (51)Em um hálito perdido (B) (52)Que vem na tarde doirada. (A) (53) (As minhas grandes saudades (A) (54)São do que nunca enlacei.(B) (55)Ai, como eu tenho saudades(A) (56)Dos sonhos que sonhei!... )(B) O poeta dedica aqui três estrofes àquela que poderia ter sido seu grande amor. O eu lírico sonhava em ter uma companheira, mas nunca chegou a possui-la, a viver esse 186 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS amor verdadeiro. Quando diz que“recorda” a amada, ele se refereaos sonhos que teve, as suas idealizações do que teria sido essa mulher, esse amor, apesar de nunca tê-lo vivido. Ele descreve a amada com precisão, como se ela tivesse existido, por muito ter devaneado sobre ela.Pode-se analisar também nesses versos o uso da cor “dourada” para descrever os lábios da amada e a tarde que cai. Tendo em vista que Sá-Carneiro já havia utilizado a cor dourada para descrever a ave que “atingia os céus”, compreende-se que, para o poeta, essa cor representa algo bom, remetendo ao sol, ou à riqueza. Ainda, alguns psiquiatras acreditam que a cor dourada revitaliza a mente, sendo utilizada em algumas terapias para auxiliar a depressão. Percebe-se, então, que o eu lírico talvez se refugia nesses bons pensamentos para afastar-se de seu pessimismo e melancolia. (57)E sinto que a minha morte – (A) (58)Minha dispersão total – (B) (59)Existe lá longe, ao norte, (A) (60)Numa grande capital.(B) Nesses trechos nota-se que o eu lírico deseja que seu fim não seja em Paris, e sim em sua cidade natal, a grande capitalLisboa. Quanto à morte ser adispersão totaldo eu lírico, compreende-se que ele se refere ao fato de que, ao morrer,seu corpo tornar-seá pó e será disperso pela natureza. Ou ainda, pode ser que, ao partir, seus poemas tornarse-ão mais célebres e ele consiga um maior reconhecimento, sendo sua obra dispersa entre os homens. De qualquer maneira, a morte irá espalhar suas marcas pelo mundo. (61)Vejo o meu último dia (A) (62)Pintado em rolos de fumo, (B) (63)E todo azul-de-agonia (A) (64)Em sombra e além me sumo. (B) 187 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Aqui o eu lírico jádescreve seu último dia, como ele vê o dia de sua morte, quando ele“sumirá nas sombras e no além”. Os rolos de fumorepresentam as faixas de crepe que se utiliza para luto na cultura portuguesa. (65)Ternura feita saudade, (A) (66)Eu beijo as minhas mãos brancas... (B) (67)Sou amor e piedade (A) (68)Em face dessas mãos brancas... (B) (69)Tristes mãos longas e lindas(A) (70)Que eram feitas pra se dar...(B) (71)Ninguém mais quis apertar...(B) (72)Tristes mãos longas e lindas...(A) Ao falar das mãosbrancas e pálidas, que remetem a mãos de defunto, percebe-se que nesse trecho o eu lírico já está morto, já perdeu sua vivacidade. Aternura transformada em saudadefaz alusão a tudo aquilo que havia de bom nele (ternura) que já não existe mais(virou saudade). As mãos brancassão reflexos do que ele poderia ter vivido, o eu lírico se sente saudosista e triste. Elas são lindas por representarem tudo o que ele poderia ter sido, um jovem feliz, com alguém para amar e com alguns objetivos alcançados, e outros por atingir. As mãos longaspodem representar os longos caminhos pelos quais o eu lírico poderia ter percorrido, mas que nunca percorreu. (73)Eu tenho pena de mim, (A) (74)Pobre menino ideal... (B) (75)Que me faltou afinal? (B) (76)Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...(A) Vê-se nessa estrofe que o pobre menino ideal é aquele que o eu lírico era, e que ele sentepena desse garoto por ele ter se tornado a pessoa na qual ele se transformou. O que faltou naquele jovem para que ele tenha desistido da vida que levava? Como se 188 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS tornouum alguém frio? Agora só restam lamentos e queixas, seu inconformismo com a vida é aparente. (77)Desceu-me n'alma o crepúsculo; (A) (78)Eu fui alguém que passou.(B) (79)Serei, mas já não me sou;(B) (80)Não vivo, durmo o crepúsculo. (A) Momento da morte do eu lírico, no qual lhe descena alma o crepúsculo. Foi alguém que passou, pois é um alguém já morto. No verso em que dizSerei, mas já não me souo eu lírico refere-se ao fato de ele, mesmo morto, ele continuará a ser alguém que existiu um dia, que ainda tem um significado por ter tido uma existência, ainda que vazia. Mesmo sem existir de fato, ele representará (serei) um ser que viveu (mas já não me sou). (81)Álcool dum sono outonal(A) (82)Me penetrou vagamente(B) (83)A difundir-me dormente (B) (84)Em uma bruma outonal. (A) (85)Perdi a morte e a vida, (A) (86)E, louco, não enlouqueço... (B) (87)A hora foge vivida (A) (88)Eu sigo-a, mas permaneço... (B) Outras duas estrofes que descrevem a morte do eu lírico. Como já analisado anteriormente, o eu lírico “perde” a vida, por não ter aproveitado e ter feito aquilo que um dia almejou fazer. A hora da morte chega, e ele se vai com ela, mas permanece em 189 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS sua produção literária e naquele que ele foi, ficando na memória das pessoas (Eu sigo-a, mas permaneço). Por fim, Sá-Carneiro termina seu poema com os seguintes versos: Castelos desmantelados, Leões alados sem juba... Castelos sempre foram grandes monumentos que passam a ideia de proteção, de segurança. Castelos desmanteladosrefere-se a castelos destruídos, ou seja, segurança destruída, desfeita, abalada.As linhas que formam a barreira da existência foram dissolvidas, assim como já citado anteriormente no decorrer do poema.Os limites do eu lírico são quebrados e ele se desfaz. Os castelos que desmoronam é a existência do eu lírico que se finda, sobrando, assim, apenas os leões alados sem juba,ou seja, os grifos. Grifos são criaturas mitológicas que possuem o corpo de leão e a cabeça e as asas de águia. O leão não tem juba, no caso, porque sua cabeça é de águia. Os grifos representam os pensamentos do eu lírico, sobre o que ele foi e o que poderia ter sido. São representados pelos grifos porque hoje ele já não é nada, como as figuras mitológicas, que não existem verdadeiramente. Os grifos ligam o que ele é com o que ele poderia ter sido. Não obstante, as reticências no final da obra conferem um tom inconclusivo ao poema. REFERÊNCIAS: ADORNO, Theodor. Discurso sobre lírica e sociedade. In.: LIMA, Luiz Costa (org.). Teoria da literatura e suas fontes. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975. ADORNO, Theodor. Teoria Estética. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1970. BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo:Cultrix. Ed. da Universidade de São Paulo, 1977. ------- ( org.). Leitura de Poesia. São Paulo: Ática, 1996. CÂNDIDO, Antônio. O estudo analítico do poema. São Paulo: Humanistas Publicações, 1996. MARTINS, Fernando Cabral(org.). Mário de Sá-Carneiro- Verso e Prosa. Lisboa: Ed. Assírio & Alvim, 2010. BERARDINELLI, Cleonice. Mário de Sá-Carneiro, Poesia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 3ª ed. , 1974. 190 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS RESIGNAÇÃO E SUBMISSÃO: AS RELAÇÕES SOCIO-CULTURAIS EM COETZEE Jociane Maurina SALOMÃO 50 Wellington Ricardo FIORUCI51 RESUMO O romance Vida e época de Michael K (1983) evidencia a submissão político-social e cultural da sociedade sul africana, representada na narrativa em questão pelo protagonista, o qual dá nome à obra de John Maxwell Coetzee - escritor contemporâneo, agraciado com o prêmio Nobel em literatura. Verificam-se no romance diversos conflitos sociais e psicológicos, provenientes das heranças pós-coloniais latentes no continente africano, os quais fazem com que Michael K tenha uma vida que não lhe pertence plenamente, e, por conseguinte, os conflitos sociais tornam-no exilado em seu país. Vítima das mais diversas formas de preconceito, Michael é silenciado pela sociedade que se recusa a entendê-lo, e ele, por sua vez, busca a digressão em um mundo somente seu, mais próximo a terra – à mãe terra, a única capaz de compreender seus anseios. Neste contexto, Coetzee leva o leitor à reflexão, e se cumpre o papel humanizador da literatura através dos inóspitos relatos vivenciados a partir de sua leitura. PALAVRAS CHAVE: Coetzee, literatura contemporânea, historicidade, conflitos sociais. Em suas obras literárias, Coetzee quebra as fronteiras narrativas, minimizando as idiossincrasias referentes à relação entre o arcabouço histórico e a literatura de ficção, evento que denota suas escolhas estilísticas desenvolvidas de forma inovadora e autêntica, instigando ao estudo crítico das mesmas. Como afirma Canepari-Labib quando se refere à obra Vida e época de Michael K: “[...] the author refers explicitly to the South African situation, giving the reader his vision of the near future which is obviously influenced by the political events of the years 1978 – 82.” (CANEPARI-LABIB, 2005, p. 24-5). Ao nascer, K já apresentara um problema que lhe acompanharia pela vida toda, seu lábio leporino, e por este motivo, Anna K, sua mãe, o rejeitava: “Estremeceu ao pensar no que havia crescido dentro dela aqueles meses todos” (COETZEE, 2003, p. 50 Acadêmica do curso de Licenciatura em Letras Português – Inglês; UTFPR – Pato Branco. E-mail: [email protected] 51 Professor de teoria literária do Curso de Letras UTFPR – Pato Branco e orientador de PIBIC. [email protected] 191 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS 09). Coetzee inicia seu livro intitulado Vida e época de Michael K á fazendo menção a este episódio, o nascimento e posterior detecção do problema de dicção de Michael K, que segundo Kehind: “His physiognomy is a reflection of many truths about the oppressive systems of apartheid South Africa.” (KEHIND, 2010, p.18) - um menino genuíno de família pobre, onde a mãe é quem o sustenta com os trabalhos de doméstica, e cujo pai não é mencionado em nenhum momento. Neste contexto, K se acha incapaz de ser um chefe de família digno de tal papel, incapaz de cumprir uma etapa essencial no ciclo normal da vida e garantir a perpetuação de sua espécie: Que sorte eu não ter filhos, pensou; que sorte eu não ter o desejo de ser pai. [...] Ia fracassar nos meus deveres, seria o pior dos pais. [...] De minha mãe são as cinzas que eu trouxe de volta, pensou, e meu pai foi Huis Norenius. Meu pai foi a lista de regras na parede do dormitório, as vinte e uma regras cuja primeira era “Haverá silêncio nos dormitórios em todos os momentos”, [...] (COETZEE, 2003, p. 122) Desde bebê Michael acompanhara sua mãe no trabalho: “aprendendo a ficar quieto” (COETZEE, 2003, p. 10). Silenciado devido à questões políticos e também devido à má formação de seu lábio, que além de dificultar a fala, lhe torna alvo de olhares tortos e risos nem sempre discretos, fatos que acabam por influenciar em seu afastamento do convívio humano. Já não bastando o problema relacionado à dicção, desde pequeno o menino apresentara dificuldades na escola, assim, Michael frequentou as aulas por pouco tempo, e fora conduzido a uma espécie de orfanato: “onde, às custas do estado, passou o resto da infância na companhia de outras crianças infelizes” (COETZEE, 2003, p. 10) que foram igualmente rejeitadas por seus pais, ou conduzidas a esta instituição devido as más condições financeiras. O distanciamento da escola já denota a condição futura do protagonista, pois é na escola que: “se aprende [también] a “hablar bien el idioma”, a “redactar” bien, lo que de hecho significa (para los futuros capitalistas y sus servidores) saber “dar 192 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS órdenes”, es decir (solución ideal), “saber dirigirse” a los obreros, etcétera.” (ALTHUSSER, 1974, p. 15) desta forma, K não aprendera a dar ordens, portanto, está sujeito a recebê-las de alguém mais instruído - estas são as imposições do sistema, o que não significa que Michael as aceitará. Como cita Vital: “K is marked not only as subject to forces deriving from [the] symbiotic historical process, but as one Who inverts their values, Who acts out the possibility of rejecting empire’s values in a world defined by them.”(VITAL, 2008, p. 95). Coetzee constrói seu livro com uma linguagem simples e objetiva, que, no entanto, não consegue ser mais simples que o protagonista, que muitas vezes é reduzido a agir pelo instinto de sobrevivência - mas que por vezes nem este lhe resta, sendo incapaz de cuidar de si, de sua alimentação, condição primordial à manutenção da vida. Michael é um herói de si, de sua sobrevivência, que, de uma forma ou outra é mantida, mesmo que em uma espécie de sobrevida, no entanto, a esperança de dias melhores é sempre cultivada: “a decisive moment in which Michael, perhaps after an epiphany, some sort of untangling of what he has known, will take a political stand and become a kind of new South African hero.” (WATSON, 2006, p. 04) demonstrando a vivacidade e a perseverança do povo sul africano que é representado pelo personagem. Este homem singular, que vive à margem da sociedade e que chega a ser chamado de macaco por três vezes no decorrer da narrativa: “Onde você foi criado, macaco. Gritou o fazendeiro.” (COETZEE, 2003, p. 102), fato que denuncia a discriminação social sofrida pela grande maioria da população negra, em contraste com a minoria branca, descendente dos colonizadores e que por sua vez detém o poder; este homem não se preocupa – talvez por opção ou quiçá por falta de entendimento suficiente para compreender o mundo, – não dá atenção a nada daquilo que o cerca, nem consigo mesmo. Vive simplesmente porque lhe fora dada esta condição. Michael é apresentado como alguém que possui uma leve deficiência mental, que em um período que passara desempregado: “passou deitado na cama olhando as próprias mãos” (COETZEE, 2003, p. 10), mas que, no entanto, é mais inteligente que muitas das pessoas ditas possuidoras de perfeitas condições psíquicas, pois, afinal de contas, consegue passar por todo o período de guerras internas relatado no romance com vida. - embora vivesse de forma estranha, como concluiu o médico do campo, responsável por K: “Você é igual a um bicho-pau, Michaels, cuja única defesa contra 193 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS um universo de predadores é a sua forma estranha.” (COETZEE, 2003, p. 174), assim, o meio estranho pelo qual Michael passa seus dias é justificado pelo fim obtido, - ele sobrevive, contra todas as expectativas expostas por Coetzee. Se já não bastassem as guerras literalmente sofridas pela população, que não sabe o motivo e muito menos obtém algum tipo de benefício com estas, há no romance a constante presença de cenas de violência entre a população, como na passagem a seguir, em que estando Michael voltando do trabalho: “foi encurralado por dois homens que bateram nele, levaram seu relógio, seu dinheiro e seus sapatos, e o deixaram caído, tonto, com um corte no braço, um polegar destroncado e duas costelas fraturadas.” (COETZEE, 2003, p. 10), episódio comum em uma sociedade em que todos lutam pela sobrevivência, roubando até mesmo parte das vestimentas, o que denota a paupérrima condição da população e a fragilidade da segurança pública. Outro problema diz respeito à saúde pública, pois havendo tantos atentados à integridade física, os hospitais estão lotados, sem condições de oferecer o mínimo de dignidade aos pacientes, como é o caso de Anna K, que: “passara cinco dias deitada num corredor, no meio de uma porção de vítimas de esfaqueamento surras e tiros [...] negligenciada pelas enfermeiras que não tinham tempo de dar atenção a uma velha quando havia rapazes morrendo mortes espetaculares.” (COETZEE, 2003, p. 11). A referida senhora sofria de hidropisia e morava de favor na casa de seus patrões, onde trabalhara durante oito anos, antes da doença manifestar-se. Com sérios problemas de locomoção e abandonada em um quarto pelos Buhrmann, a senhora K é uma típica personagem do espetáculo do mundo, que quando não serve mais para gerar rendas acaba, na melhor das hipóteses, em um asilo, ou, na época de K, em um tipo de “campo”. No entanto, Anna K não teve o privilégio de frequentar essa espécie de campo, simplesmente fora abandonada em um canto da casa. Seu quarto, bem como sua condição mediante a sociedade lembra Gregor Samsa, personagem de Kafka em A metamorfose, que igualmente fora abandonado em um cômodo da casa por não contribuir mais com o sustento da família, passando a ser um estranho à estirpe por não fazer mais parte do sistema. Anna K está à margem da sociedade, jogada em um canto, repudiada e ignorada por todos, sentindo-se totalmente infeliz em seu país, restando-lhe como condição de fuga apenas a morte, pois já não havia esperança concreta de recuperação 194 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS para si. Na porta de seu quarto havia a mencionada placa com o emblema de perigo e a respectiva caveira, que denotam o descaso para com esta senhora e também antecipam o triste futuro da enferma, que embora fosse um peso nos ombros de seu filho, era sua única companhia. Michael fora acostumado a viver sozinho, lhe perturbava até mesmo a presença de sua mãe: “Por causa da sua cara, K não tinha amigas mulheres.” (COETZEE, 2003, p. 10). Nem mulheres, nem homens: simplesmente não se dava bem com as palavras, e vivia isolado em seu mundo, que embora aparentemente simples a quem o observe de fora, é muito complexo em seu interior – Michael é um homem absurdamente singular. K dificilmente interage verbalmente, e quando o faz, é mal entendido pela austeridade do mundo, que não o aceita, por isso, fica cada vez mais distante da “civilização”, em um processo de desumanização. Como afirma Kehinde: “K is the symbol of the extremely marginalized non-white groups in the hitherto apartheid enclave of South Africa; he finds himself an all-round unfortunate character.” (KEHINDE, 2010, p. 16). Apesar de todo o preconceito e discriminação que o encaminham cada vez mais para a margem de uma sociedade nada igualitária, que é regida pelo preconceito no auge do Apartheid, K ganha espaço no romance. É através de seu entendimento, de sua sensibilidade, que o leitor tem acesso à sua história, ao menos em um primeiro momento, no qual o personagem faz questão de contar sua história de vida, bem como de sua época, época esta que não é exatamente sua. Michael vive em um período de intensas guerras civis, que contribuem para com sua vida subumana, a qual, de acordo com o já mencionado médico responsável pelo campo para onde K fora levado, nem mesmo ele lembra o motivo o qual precedeu o início da mesma. Em meio a tantas calamidades, o médico oficial, em conversa com Noel, sugere que: “Michaels não devia nunca ter vindo pra este campo”, continuei. “Foi um erro. Na verdade, a vida dele foi um erro do começo ao fim. É uma coisa cruel de dizer, mas vou dizer: ele é o tipo de sujeito que nunca devia ter nascido num mundo destes. Teria sido 195 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS melhor se tivesse sido sufocado pela mãe quando ela viu o que ele era, e jogado na lata de lixo [...]. (COETZEE, 2003, p. 180) Neste momento, o leitor tem acesso à visão de alguém de fora, o médico responsável por K, que o observa incansavelmente, e é nesta ocasião que o protagonista se torna ainda mais absurdo aos olhos do leitor, onde sua vida é mantida, de forma paradoxal, ignota às leis de sobrevivência conhecidas pela medicina. Coetzee sensibiliza o leitor gradativamente, ao passo que a sociedade trata o referido personagem cada vez mais injustamente. K é apenas mais uma vitima da tirania exercida pelos poucos que detém o poder sobre a massa. No entanto, Michael recusa-se a fazer parte deste regime, como no caso em que ele enterra o dinheiro do Visagie, neto do dono da fazenda, e sai sem dar satisfação, simplesmente por não se submeter ao papel de vassalo – ele não precisava disso. K também se recusa em viver nos campos, ele não é um parasita, como diz o soldado em determinado momento, por isso não aceita ser aprisionado, ele quer viver da terra, tirar seu sustento da terra. K tem sua opinião formada, K pensa, embora não consiga expor seus pensamentos, - o problema está em sua relação com a sociedade que o reprime de todas as formas, não deixando espaço à sua expressão. A dura realidade é que ninguém tem paciência de ouvi-lo, nem a ele, nem a maioria da população menos favorecida, e isso não é exclusividade da África do Sul, como no excerto a seguir, quando K fora mais uma vez perguntar sobre os passes que lhes permitiria- a ele e sua mãe- saírem da província: “Não me faça perder tempo. Vou dizer pela última vez, se derem o passe, o passe chega! Não está vendo essa gente toda esperando? É idiota, ou o quê? Próximo!” (COETZEE, 2003, p. 28) denotando a insensibilidade humana bem como a necessidade de “massacre” ao semelhante. Embora marginalizado, K em momento algum demonstra revolta contra a sociedade, pelo contrário, pede desculpa e evita incomodá-la, como vez quando repelido pela enfermeira que recusara dar atendimento à sua mãe, e queixa-se da superlotação do hospital: “Eu sou só uma. Não duas, nem três – uma. Entendeu isso, ou é difícil demais para entender? ’ K desviou os olhos. “desculpe”, resmungou, sem saber o que mais dizer e voltou para o pátio.” (COETZEE, 2003, p. 37), apenas aceitando, sem questionar. 196 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Assim, o que ele ambiciona é viver livremente, longe de tudo e de todos: “Por isso é bom que eu, que não tenho com que viver, passe mais tempo aqui onde não incomodo.” (COETZEE, 2003, p. 123) e este aqui refere-se à fazenda Visagie, onde K construíra uma toca para morar, próxima ao açude, ambicionando tirar o sustento da terra com o suor de seu trabalho, longe dos campos – metáfora da sociedade africana encurralada pelo estado - e regando seu jardim de abóboras, que representa o seu lar, a identidade que ele nunca possuiu plenamente. K fora silenciado desde o nascimento, primeiramente devido ao problema patológico, ao fato de ser órfão de pai, à humildade de sua mãe e ao desprezo desta para com o filho, e posteriormente, a sociedade se encarregou de silenciá-lo ainda mais, no entanto, Michael se mostra sempre prestativo e persistente, solidário para com o próximo. Michael é uma criança adulta, como ele mesmo assume: “Eu venho de uma linhagem de crianças sem fim.” (COETZEE, 2003, p. 136). Michael não guarda rancor e não tem maldade. Michaels é o povo sul africano que sofre, e sofre sem saber por que, ou ainda, sem saber de onde vem esse estado de coisas do mundo, que implica em seu sofrimento. Assim: “o texto escuta as ‘vozes’ da história e não mais as re-presenta como uma unidade, mas como jogo de confrontações”. (CARVALHAL, 1998, p.48). Neste contexto de produção literária, o escritor re-cria a história do povo sulafricano, de forma que esta não é verdadeira, nem falsa; como afirma Todorov: A literatura não é um discurso que possa ou deva ser falso [...] é um discurso que, precisamente, não pode ser submetido ao teste da verdade; ela não é verdadeira nem falsa, e não faz sentido levantar essa questão: é isso que define seu próprio status de ‘ficção’. (TODOROV 1981ª, 18 apud HUTCHEON 1991a, p.146). Em um dado momento, K questiona a si mesmo o porquê de estar no mundo, no entanto, não encontra uma resposta, mais tarde, quando Anna K adoece, ele entende que viera ao mundo para cuidar de sua mãe, embora também esteja implícito o cuidado desprendido para com a mãe terra, condição primordial de sobrevivência em um território que ainda sofre grandes influências da colonização. 197 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Neste sentido, a obra é abordada, por vezes, sob um viés pós-colonialista, (KEHINDE 2010) e que remete à corrente pós-modernista, - embora: “In literary critical circles, debates rage about whether the post-colonial is the postmodern or whether it is its very antithesis” (HUTCHEON, 1991b, p. 01) - em um sentido amplo, e também no sentido de que: “O narrador pós-moderno sabe que o ‘real’ e o ‘autêntico’ são construções de linguagem.” (SANTIAGO, 2002, p. 46-47), e, portanto, correspondem aos pressupostos de Todorov (1981) com relação aos conceitos de verdade e mentira discutidos no discurso ficcional. Embora não entenda o mundo que o cerca, e o cerca literalmente nos campos, a única reação de K é fugir, fugir do mundo que lhe causa mal, o local pouco importa, para a rua, para as montanhas, para a fazenda, contando que possa viver livre, sozinho. Quando aprisionado, K recusa-se em alimentar-se, a comida não têm sabor, ou seja, a vida não tem sentido algum, exatamente como se sentia o personagem de Kafka em Um artista da fome, que pede desculpas por estar ocupando o lugar de um animal na jaula, e que diz não alimentar-se devido à falta de sabor na comida e ao gosto de poeira que a mesma tem. K é, igualmente ao personagem de Kafka, um grande artista: “Mas é um grande artista da fuga.” (COETZEE, 2003, p. 193) fuga dos campos, da vida em sociedade, e quanto à alimentação: Fome era uma sensação que não tinha, da qual mal se lembrava. Se comia, consumindo o que encontrasse, era porque ainda não tinha se livrado do conceito de que corpos que não comem morrem. Pouco lhe importava a comida que comia. Não tinha gosto nenhum, ou tinha gosto de poeira. Quando a comida brotar desta terra, disse a si mesmo, meu apetite volta, porque ela terá sabor. (COETZEE, 2003, p. 119). O silêncio de Michael é o grito de urgência proferido pela sociedade reprimida, que ganha voz através das palavras dadas de empréstimo ao humanista escritor – afirmação de Per Wastberg (2004) - e que se materializa na não voz de K, onde o peso do silêncio e o fato de ser ignorado pela sociedade dizem mais que mil palavras. 198 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Quando em contato com a sociedade, K desempenha o papel de fantoche, sendo mandado de um lado para o outro sem que lhe seja explicado o porquê, ou ainda, sem lhe atenderem aos anseios: ‘“Para onde estão levando a gente?”, perguntou. [...] “o que importa para onde estão nos levando?” [...] “Só tem duas possibilidades: linha acima ou linha abaixo. Com trem é sempre assim.”’ (COETZEE, 2003, p. 52). Nem mesmo a população pergunta-se qual a direção que está sendo conduzida, isto não importa, já fora acostumada a rotina, no entanto, Michael continua questionando, não aceitando. No hospital onde sua mãe está recebendo tratamento médico, Michael não aufere informações precisas, ficando subordinado ao acaso, como no trecho abaixo: No balcão, perguntou onde encontrá-la [sua mãe] e foi mandado para uma ala remota do hospital, onde ninguém sabia do que ele estava falando. Voltou ao balcão e mandaram que voltasse de manhã. [...] “Minha mãe... ela estava aqui ontem...” “Pergunte no balcão”, [...] “Sua mãe faleceu durante a noite”, disse a médica. [...] “este pacote”, continuou a enfermeira, “contém as cinzas da sua mãe. Sua mãe foi cremada hoje de manhã, Michael. (COETZEE, 2003, p. 37, 40-1-2) K não é informado sobre os procedimentos a serem desempenhados após a passagem de Anna K, apenas lhe entregam um pacote de cinzas, cinzas estas provenientes dos restos mortais de sua mãe, e que ele carrega consigo, como mais um indício de sequidade. Mais tarde, estas cinzas serão depositadas no solo, precisamente na fazenda dos Visagie, onde K pretende cultivar a terra: “Ali, bem curvado para que as cinzas não fossem levadas pelo vento, espalhou os finos flocos cinzentos sobre a terra, e com a pá revolveu a terra junto com ela. Foi o começo de sua vida de agricultor.” (COETZEE, 2003, p. 72), que embora sem muito sucesso é o que mantém viva a luta de K pela sobrevivência, pois acredita que tudo vem da terra, ao menos tudo o que possa ter algum significado para ele. Seu desejo de arar o solo, bem como a satisfação em ver as plantas crescendo denotam sua identidade cultural proveniente do processo de colonização da terra, e que 199 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS ainda está hodierna no período pós-colonial, mantida por alguém que não possui bens, salvo algumas sementes e o desejo de multiplicá-las em solo fértil. Assim sendo, K trata a terra e seus respectivos frutos de forma paternal: Os primeiros brotinhos das folhas de abóbora estavam surgindo da terra, um aqui, outro ali. K abriu a comporta uma última vez e ficou olhando a água varrer lentamente o campo, escurecendo a terra. Agora, quando mais precisam de mim, pensou, abandono meus filhotes. (COETZEE, 2003, p. 77) E seus filhotes seriam abandonados por uma causa maior, a não submissão ao neto do senhor Visagie, a liberdade tão prezada por quem nunca a possuiu inteiramente e que por isso mesmo luta desesperadamente para manter aquilo que mais próximo está da autonomia. Em momento algum o protagonista é tratado de forma natural pela sociedade, quando não lhe agridem ou repelem, tratam-no como incapaz, com atos de caridade, como é possível observar nos dois exemplos: no primeiro, K pede algo par fazer no hospital ainda, e é ignorado, mandado para qualquer lugar, e no segundo, uma médica lhe faz a doação de algumas coisas, por caridade, coisas que, de acordo com a atendente “alguém deve ter deixado aí”, portanto, objetos que não lhes tinham utilidade: “Não estou pedindo dinheiro”, disse, “só alguma coisa para fazer. Varrer o chão, alguma coisa assim. Limpar o jardim.” “Vá falar com o funcionário lá embaixo”, disse o homem, e seguiu em frente. K não conseguiu encontrar o funcionário certo. [...] “E neste pacote”, ela [a médica] continuou, empurrando com firmeza o segundo pacote para ele, “colocamos umas coisinhas para você que podem ser úteis, roupas e objetos de cuidados pessoais.” (COETZEE, 2003, p. 38-9 e 42) A guerra é injusta, como já fora informado na epígrafe do romance, se não antes, pela experiência de mundo. No entanto até mesmo o soldado que se acha no 200 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS direito de tirar todo o dinheiro de K, - dinheiro este que pertencera a sua mãe e que é fruto de uma vida inteira de trabalhos – pratica um ato de caridade, se é que pode ser chamado assim. Ao perceber o lamentável estado de sua vítima, o soldado lhe restitui algum dinheiro, uma nota de dez rands: “‘Gorjeta’, disse. ‘compre um sorvete. ’” (COETZEE, 2003, p. 48) Quando em contato com o neto do dono da fazenda, Michael se sente mal, e o moço faz questão de se apresentar como superior a ele: “Sou o neto do patrão Visagie.” (COETZEE, 2003, p. 73) como se, na ausência do senhor, K devesse submeter-se a ele. Embora esta fosse a intenção do jovem, mais uma vez Michael surpreende: “saiu da fazenda levando a lista de coisas que o neto precisava e quarenta rands em notas. Pegou uma latinha velha da beira da estrada, e no portão da fazenda enterrou o dinheiro”.( COETZEE, 2003, p. 78). Assim, K deixa clara sua não submissão ao sistema, preferindo as montanhas que alguém mandando em si. Conforme o tempo passa, K passa a buscar, gradativamente, o distanciamento das pessoas: “Being an outsider may empower Michael, however, his ‘otherness’ might be what deprives him of power to some extent since he wants to break away from society and is reluctantly brought back”. (TALÉN, 2012, p. 05). K sente-se mudado: “sua memória inteira parecia ser de partes, não de todos.” (COETZEE, 2003, p. 61) e reflete se é possível existir dois tipos de homem; na sequência ele compara-se a animais: “Pensava em si mesmo como um cupim, abrindo seu caminho dentro da rocha.” (COETZEE, 2003, p. 80) ou ainda compara-se a uma formiga: “Sou que nem uma formiga que não sabe onde está seu formigueiro, pensou.” (COETZEE, 2003, p. 99), ambos os animais, o cupim e a formiga vivem na e da terra, exatamente o que queria Michael, mas como não é um destes animais, tampouco humano como os demais, vive alheio ao mundo, estranho a si mesmo. Nos períodos em que passa longe da sociedade, vivendo na fazenda ou nas montanhas, alheio a todos os campos, Michael perde a noção do tempo e come para viver, não vive para comer, mostrando-se sensato e equilibrado, alimentando-se de raízes, larvas, flores e algumas eventuais caças, como pássaros e lagartos. Suas moradias são rudimentares, embora haja uma casa na fazenda, ele a ignora e constrói uma espécie de toca, onde passa os dias agachado e a maior parte do tempo dormindo, o 201 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS mesmo faz nas montanhas, dentro das cavernas, como se o sono representasse uma forma de desprendimento do mundo injusto no qual nascera. Michael é por vezes um ser estranho: “Ele não é deste mundo. Vive num mundo todo dele.” (COETZEE, 2003, p. 165), palavras do médico, que o havia comparado a uma pedra anteriormente: “um seixo que, depois de jazer em algum lugar cuidando de suas coisas desde o começo dos tempos, é de repente apanhado e passado ao acaso de mão em mão. [...] uma criatura não nascida, xucra.” (COETZEE, 2003, p. 158). Uma criatura não nascida, pois, de acordo com Arendt (2004), a inserção no mundo humano se dá através das palavras, fato que simboliza um segundo nascimento, o qual confirma a condição humana denunciada num primeiro momento pelo aspecto físico. E esta criatura não nascida representa toda uma nação sofredora, desde os primórdios. Alguém que está: “se encolhendo nos cantos para escapar de sua época” (COETZEE, 2003, p. 135) uma época, aliás, na qual não deveria ter nascido. Com toda a sua simplicidade, Michael não tem espaço em sua época, uma época de tantos conflitos. A impressão transmitida ao médico é a de que: [...] alguém juntou um punhado de poeira, cuspiu em cima e moldou na forma de um homem rudimentar, cometendo um ou dois erros (a boca, e sem dúvida o conteúdo da cabeça), omitindo um ou dois detalhes (o sexo), mas acabando por chegar a um genuíno homem da terra, [...]. (COETZEE, 2003, p. 186-7) Assim, este homem que almeja apenas viver de forma pacífica, com o mínimo indispensável à sobrevivência, e que é incapaz de causar o mal a quem quer que seja, e, no entanto, é tão humilhado e massacrado pela inóspita sociedade capitalista, é inserido na obra de Coetzee para levar o leitor à reflexão, meta historiograficamente, de seus atos, na busca de um futuro digno para um povo igualmente digno deste. REFERÊNCIAS: ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. Posfácio de Celso Lafer. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. 202 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS ALTHUSSER, Louis. Ideología y aparatos ideológicos de Estado - Traducido por Alberto J. Pla - Ediciones Nueva Visión, Buenos Aires, 1974. CANEPARI-LABIB, Michela. “Old Myths – Modern Empires. Power, Language and Identity in J. M. Coetzee’s Work”. Peter Lang AG, European Academic Publishers, Bern 2005. Disponível em: www.amazon.com/Old-Myths-Modern-Empires- . Acesso em 21 de novembro de 2012. CARVALHAL, T. F. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 1998. COETZEE, J.M. Vida e época de Michael K. Trad. José Rubem Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. HUTCHEON, L. Poética do Pós Modernismo: História, Teoria, Ficção. Tradução: Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991a. HUTCHEON, Linda. 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Esse questionamento é válido e nos leva a olhar para uma parte da produção literária brasileira com olhos um pouco mais críticos e buscar os rastros destas marcas pós-coloniais num cânone, em geral, tão afeito aos influxos estrangeiros, vivendo muitas vezes, quase de uma aceitação tácita dos modelos europeus, usando-os indiscriminadamente como seus, sem questionar sobre a validade dos mesmos para veicular a política de uma afirmação nacional. Não se pode afirmar categoricamente que há um cânone pós-colonial no Brasil, ou que há autores conscientemente pós-coloniais produzindo uma literatura de combate aos modelos europeus, ou à herança da antiga metrópole como forma de expressar-se independente de Portugal. A literatura brasileira desde o Romantismo começou a debater-se para livrar do rótulo de literatura imitativa dos portugueses e venceu este sentimento de forma até zombeteira durante o Movimento Modernista, inaugurado com a Semana de Arte Moderna de 1922, culminando essa libertação no Manifesto Antropófago, escrito por Oswald de Andrade, o qual pregava uma deglutição seletiva dos modelos estrangeiros abrasileirando-os de acordo com nossas necessidades, uma verdadeira revisitação simbólica da antropofagia praticada pelos índios. Aparentemente, havia-se superado o sentimento de subalternidade ou de periferia do mundo que assolava alguns literatos desde o movimento romântico no Brasil. No entanto, ainda havia muito por se fazer e por se construir em termos de 52 UEM – [email protected] 204 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS cultura brasileira, estava-se apenas no princípio de uma maior liberdade em busca de construir um imaginário brasileiro, um cânone que pudesse representar o Brasil em todas as suas diferentes facetas culturais, o que em grande parte era dificultado pela própria extensão geográfica do país. O cânone literário brasileiro sempre levou em consideração aquelas obras que privilegiassem uma representação do Brasil em suas narrativas. No entanto, ao construir-se esse cânone, apagou-se uma série de traços indesejáveis na busca da pretensa homogeneidade de uma cultura brasileira e quando não se apagou, exaltou-se apenas aquilo que era interessante para o forjamento de uma imagem brasileira. No caso de Jorge Amado, por exemplo, costuma-se chamar a atenção para suas personagens femininas, o estereótipo da mulher brasileira, morena, sensual, extremamente sexualizada, quase um objeto de consumo para que os estrangeiros vissem e aproveitassem. É quase um chavão falar de Gabriela e Tieta, mulheres sensuais, livres, com um apetite sexual infindável. Mas será que há apenas isso na literatura amadiana? Não está neste ponto um olhar mais nosso que do autor? Falou ele apenas de um país sucumbido à luxúria e às inúmeras cenas de adultério, como se colocando chifres nas cabeças dos coronéis fosse uma forma de vingar-se do coronelismo, que mais parece admirar do que ter ojeriza? Por que não se comenta da contribuição de Jorge Amado na construção da cultura afro-brasileira, dos mitos do candomblé que desfilam por seus romances, ora em forma de culto religioso, ora em forma de narrativa mágico-realista, dominando as personagens e fazendo-as agir de acordo com as orientações dos orixás, ora mostrando como o culto católico se mescla com o culto afro nas procissões baianas, em que as fés se misturam e se complementam entre as contribuições africanas e europeias nos “caixapregos” do espaço onde se passam muitas das narrativas amadianas? Não se oculta muito dessa contribuição por ser negra? Por ser a história dos negros na conformação de uma identidade brasileira fraturada por negar suas origens? Por se tentar ainda construir uma imagem europeizada de um país em grande parte negro? Ou por que se acredita que os negros que ali figuram nas narrativas de Jorge Amado não servem para o estereótipo do negro que a elite intelectual costumou divulgar, agindo como se a Lei Áuera de 13 de maio tenha resolvido todos os problemas? Muitas vezes negando os preconceitos que sofreram autores como Machado 205 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS de Assis, João do Rio, Lima Barreto, Cruz e Sousa que quando estudamos ainda temos a necessidade de engrandecer as suas obras, apesar de serem negros ou mulatos? Quase como um troféu de superação que oculta o caminho que tiveram de trilhar para ficar nas páginas do cânone literário nacional? Partindo desses questionamentos, pretendemos apresentar um pequeno esboço sobre a questão do negro no romance Tocaia Grande – a face obscura, de Jorge Amado pelo viés do pós-colonialismo, mostrando como sua figura é representada nesta narrativa e como contribuiu para a formação de uma cultura afro-brasileira na literatura produzida no Brasil. Portanto, nosso foco será a personagem do negro Tição, Castor Abduim, na configuração da sociedade que começou a se formar em Tocaia Grande, espécie de entre-lugar no mapa da Bahia, a caminho de Itabuna e Ilhéus, fora do mapa geográfico conhecido, figurando como um terceiro espaço de enunciação, onde se narra a formação da cultura brasileira e todas as contribuições que essa recebeu: É o Terceiro Espaço que embora em si irrepresentável, constitui as condições discursivas da enunciação que garantem que o significado e os símbolos da cultura não tenham unidade ou fixidez primordial e que até os mesmos signos possam ser apropriados, traduzidos, rehistoricizados e lidos de outro modo. (BHABA, 2007, p.68). Tocaia Grande é esse “Terceiro Espaço” de enunciação, de onde emerge a história obscura da formação de uma pequena cidade chamada Irisópolis, é essa face da história que o narrador se dedica a contar, a revelar os símbolos esquecidos de uma cultura construída com sangue e vida de pessoas oprimidas pelo poder do coronelismo na Bahia. É neste espaço mítico, quase um paraíso na linguagem do turco Fadul, outra personagem do romance em questão, que se é possível conhecer a história de Tição, que encontrou a liberdade num lugar aparentemente sem lei, mas de pessoas felizes, justamente por não estarem debaixo das leis morais da maioria dos homens. Esse local mítico é construído como o espaço das inter-relações, dos hibridismos culturais, raciais, religiosos, das mesclas livres, das orgias dos signos estabelecidos, reorganizando o mundo a partir de um novo olhar, livre das amarras históricas, por isso Tocaia Grande é o espaço de cisão, de corte e ruptura, espaço paradisíaco para alguns, 206 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS couto de assassinos para outros, é local privilegiado para o diverso, no qual não há melhores nem piores, superiores nem inferiores, putas, loucos, negros, índios, turcos, sergipanos ou alagoanos, jagunços e parteiras, todos celebram a multiplicidade do “nós” que emerge deste novo espaço nos “cafundós do judas”, perdido no não espaço do mapa da Bahia. Tição, Castor Abduim Castor Abduim, Tição Aceso, Tição simplesmente, Príncipe de Ébano, filho de Xangô e Oxóssi são alguns dos nomes pelos quais é conhecida é personagem. Negro forte e alegre, festeiro, cordial: “Amadurecera num negro tranquilo e cordial[grifo meu], conservava o jeito simples, o porte altivo, o caráter amigueiro” (AMADO, 2008, p.61), sendo amigo das pessoas mais simples, despojado de preconceitos e com um forte apetite sexual é que será o foco do texto a partir deste momento. Praticamente sem família, Tição é criado pelo tio Cristóvão Abduim e com ele aprende a ser ferreiro, a trabalhar na forja. No entanto, ao ser conhecido pela esposa do Barão de Itauaçu é adotado pela família como serviçal de cozinha e cama e passa a viver na casa-grande. Ali serve os patrões na mesa, e também nos intervalos à esposa do Barão, Marie-Claude, que o usa sexualmente para satisfazer seu apetite sexual pelos homens de pele negra. As complicações de Tição começam quando ele passa a se deitar com a concubina do Barão; da esposa, provavelmente o senhor sabia da traição, mas como ele mesmo passava parte do tempo a deflorar negras no banguê, permitia à esposa suas aventuras sexuais. Porém, com Rufina era diferente, o Barão a enchia de joias e lhe havia dado a honra de ser deflorada por ele, sentia-se dono, posseiro daquela carne morena; assim, ao ver o negro Tição satisfazendo-se sexualmente com sua concubina e à “maneira dos animais” enfureceu-se e chicoteou o jovem; quando este corre, o Barão aproveita para surrar Rufina; Tição não aguenta ouvir os gritos da moça, volta e esbofeteia o Barão com grande gozo. A partir deste dia passa a ser foragido da justiça, negro que tentou contra a pureza de Marie-Claude, tentou estuprar a serviçal da casa e ainda atentou contra a vida do Barão. Agora, Tição é um fora da lei. 207 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Embarcado às pressas por Mãe Gertrudes de Oxum no porão de um navio que ia de Salvador a Ilhéus, Tição chega às terras do cacau; indicado por Pai Aloru vai trabalhar um tempo na fazenda do coronel Robustiano de Araújo, homem bom e justo, e logo se muda para Tocaia Grande, local onde realmente se sente livre e sem patrão, podendo viver sua vida de ferreiro sem dever favores a ninguém. A primeira aparição de Tição no romance não deixa dúvidas de como os brancos veem o negro. O Barão e Marie-Claude estabelecem um diálogo em que o jovem é visto como um animal, um ser que talvez nem tenha alma, mas uma certeza há: que Tição é um belo exemplar de animal: “Não me leveis a mal, ma chère, mas vossa afirmação é uma estultice. Onde já se viu dizer que um negro é um homem? Um belo animal, repito, com certeza menos inteligente que vosso cavalo Diamante Azul. (AMADO, 2008, p.56). A questão do olhar nesse momento é muito importante. O senhor da casa-grande e sua esposa olham tudo ao redor como se fossem donos até mesmo dos empregados, inclusive dos negros. Embora haja uma olhar de cobiça por parte da baronesa que observa o negro com olhos úmidos de desejo, não há a intenção de torná-lo uma pessoa, mas um objeto que pode ser usado, assim como toda a plantação de cana que está ao redor da fazenda. Para Homi Bhabha: “Os olhos do homem branco destroçam o corpo do homem negro e nesse ato de violência epistemológica seu próprio quadro de referência é transgredido, seu campo de visão perturbado”. (BHABHA, 2007, p.73). De certa maneira o negro é objeto de repulsa e cobiça. O olhar do colonizador quer se apropriar de tudo que há à sua volta. A posição do dono das terras é ambígua, a repulsa na verdade revela o desejo incontido que a pele negra desperta na sexualidade tanto do barão quanto da baronesa. Para tanto, o branco, em sua pretensa superioridade, tenta ocultar este desejo mostrando desinteresse pela figura do negro, observando-o como se adquirisse um animal, admitindo até mesmo que possa ter alma, mas uma alma de segunda classe, colonial: O Barão era deveras autoridade em raças, herdara a competência do pai, perito na escolha e compra de cavalos e escravos. Mas MarieClaude aprendera com as freiras do Sacré-Couer que os negros também têm alma, adquirem-na com o batismo. Alma colonial, de segunda classe, mas suficiente para distingui-los dos animais: a bondade de Deus é infinita, explicava Sóror Dominique dissertando 208 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS sobre o heroísmo dos missionários no coração da África selvagem. (AMADO, 2008, p.55). Por trás desse argumento da baronesa o que está em jogo é convencer o esposo que pode adquirir o negro para outros serviços que não apenas o de puxar carga como se fosse um animal. Na verdade, a baronesa está certa de que todo coronel deve ser corno: “[...] todos os tenentes-coronéis nascem com uma irrevogável vocação para corno manso, nem a mais pateta das esposas pode impedir que cumpram seu destino[...]” (AMADO, 2008, p.54); além disso, o negro Tição a encantara, o desejava para cama, mais que para servir a mesa, gostaria de verificar a destreza no jovem no leito a possuíla sexualmente, pois ouvira de sua colega de quarto no seminário que: “[...] os negros em matéria de cama, são absolutamente insuperáveis.” (AMADO, 2008, p.54). Aqui está a grande contradição da postura dos colonizadores, mostram que os negros têm alma de “segunda classe”, mas no fundo os desejam para se relacionar na cama. O narrador mostra em seguida como Tição entra na vida do casal: A baronesa adotou Castor e não se arrependeu. Se o senhor de engenho se deu conta do interesse que ditou a mudança de estado do aprendiz de ferreiro, agora a lhe servir à mesa fez vista grossa, ele próprio ocupado a derrubar cabrochas no banguê, delas usando e abusando como se ainda perdurasse a escravidão. (AMADO, 2008, p.56). Mascarado por uma narrativa leve e cheia de questões sexuais, narrando até com certo humor e descaramentos as relações sexuais entre brancos e negros, entre senhores e quase escravos, o leitor corre o risco de não perceber que as negras ainda são estupradas pelos senhores de engenho, que escolhem as virgens para abusar sexualmente delas, assim como as senhoras brancas, que debaixo dos olhos de seus esposos, gozam o prazer do brinquedo que ganharam, do animal com alma de segunda classe que as satisfazem sexualmente. Esta atração sexual que as mulheres brancas sentem pelos negros parece ser comum nas narrativas latino-americanas, a escritora caribenha Maryse Condé em Corações Migrantes(1995) também comenta esse olhar concupiscente despertado nas senhoras brancas pelos negros: 209 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS No fundo, porém, as passageiras eram vítimas dessa atração misteriosa, nunca explica que as mulheres brancas sentem pelos homens negros. Elas tinham de confessar si mesmas que esta indiferença aliada a uma altivez[a de Razyé] bem colocada dentro de uma sobrecasaca de corte elegante, um torso maciço sob uma camisa com peitilho de pregas e as formas bem torneadas dentro daquelas calças de sarja esquentavam seus sangues. (CONDÉ, 1995, p.22) A diferença entre as senhoras da elite caribenha e as da elite baiana é que nestas o desejo é despertado não pelo negro com roupa, mas justamente o nu a que estava submetida essas pessoas. Marie-Claude quase entra em êxtase quando observa Tição pela primeira vez: “Demorou os olhos molhados no exemplar perfeito, no belo animal. Observou os dentes brancos, o sorriso vadio. Malheur! Uma faixa de pano escondia-lhe a primazia.” (AMADO, 2008, p.55). Parece que o negro sempre é representado coisificado nas narrativas de fundo histórico sobre os países latino-americanos. Principalmente naqueles enredos que se desenvolvem no início do século XX, mostrando que a libertação dos escravos demorou muito a ser compreendida na cabeça dos senhores de engenho e de suas esposas, ambos acostumados a tantos anos de exploração sexual dos homens e das mulheres negras. O que vemos, na verdade, é a violência colonial imperando mesmo após a independência do Brasil; sabe-se, também, que já não existia mais a escravidão à época em que se passa a narrativa, mas os senhores de engenho agem como se fossem os europeus ainda a explorar a terra e os homens que nela habitam e trabalham. Embora o império não exista mais e a abolição da escravatura seja uma lei consolidada, a prática é totalmente diferente, o que se tem são novos colonizadores da terra, brasileiros ricos que abusam dos negros pelo poder que têm e herdaram de suas antigas famílias que chegaram ao Brasil com os primeiros colonizadores. Talvez aqui comece a se delinear uma resposta ao questionamento sobre a literatura brasileira pós-colonial proposto por Tomas Bonnici a que nos referimos no início do texto e que estamos tentando obter uma resposta neste ato de interlocução mediada via texto: a literatura brasileira é pós-colonial? Se não é sem seu projeto de literatura autônoma, o é em alguns momentos como este da literatura de Jorge Amado, o qual em seu romance Tocaia Grande se vinga, de certa maneira do homem branco, senhor de engenho, enfeitando a cabeça desse com chifres colocados por Tição, numa 210 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS contradição típica das literaturas de cunho pós-colonial, usando da ferramenta do colonizador, violando os direitos deste por meio da violência. Se o senhor de engenho estupra, o negro serve a senhora na cama usando e sendo usado, sendo objeto sexual e objetificando a mulher branca que o adquirira: “Com justa pertinência designava a formosa e notável potestade conforme a ocasião e a serventia: com as duas mãos empunhava le grand mât, fartava-se a mamar le biberon, abria-se para receber pela frente e por detrás l’axe du monde”.(AMADO, 2008, p.57). O narrador de Tocaia Grande consegue explicitar algo plenamente. Embora o negro seja objeto muitas vezes, é inegável que também é alvo do desejo sexual, tanto da baronesa que ouvira falar dessa fama dos negros na cama quando estava no seminário em Guadalupe quanto do Barão que também tem uma concubina para satisfazer seus desejos sexuais, enchendo-a de joias e agrados e aproveitando para misturar-se à pele negra de Rufina. Na narrativa de Jorge Amado, negros e brancos trocam de lugar o tempo todo, ora são objetos ora objetificam, mas sempre estão misturando-se, roçando-se, entregando-se aos desejos despertados pela diferença, pela cor da pele que se contrasta entre beijos e “fodilhança”, para usar uma expressão do autor, estes personagens vão povoando o estado da Bahia, passeando pelas páginas da história do coronelismo baiano. Para Edouard Glissant o “Outro é a tentação do Mesmo”, mas para que este sublime ou apague o objeto que o tenta. Já o “Diverso” é o que permite por em relação, não se deseja mais suplantar a figura do Outro, apagá-la, mas estabelecer um projeto de relação que permita o enriquecimento mútuo. O diverso é o diferente que não pode faltar ao mundo, a diferença trouxe a consciência que não se precisa apagar o Outro para se sobreviver, mas que este também por ser Diverso é o elo que une as comunidades mais diferentes do mundo: O Diverso não é o caótico nem o estéril, significa o esforço do espírito humano em direção à relação transversal, sem transcendência universalista. O Diverso tem a necessidade da presença dos povos, não mais como objeto a sublimar, mas como projeto a por em relação. O mesmo requer o Ser, O Diverso estabelece a Relação. (GLISSANT, 1981, p.190). 211 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS É espaço do Diverso que Jorge Amado inaugura em sua narrativa. Tocaia Grande é o espaço onde as pessoas, as raças e as classes entram em relação. O espaço mítico de Tocaia permite a realização do sonho do Diverso, a Relação é o centro deste lugar situado nos caixa-pregos da Bahia, perdido entre o belo e o feio, entre a paz e a violência, talvez por ser mítico permita a existência da Relação. Povos vindos de diversas partes do Brasil e do mundo se relacionam como iguais em Tocaia Grande: Em busca de trabalho e de fortuna descia do norte, subia do sul para o novo eldorado uma vária e sôfrega humanidade: trabalhadores, criminosos, aventureiros, mulheres da vida, advogados, missionários dispostos a converter gentios. Chegavam também do outro lado do mar: árabes e judeus, italianos, suíços e alemães, não esquecendo os ingleses da estrada de ferro Ilhéus-Conquista[...] (AMADO, 2008, p. 71). Tocaia Grande representa este espaço, este projeto a por em relação como argumenta Glissant, é o espaço que garante os contatos entre os diversos povos, diversas gentes que se misturam e se relacionam permanentemente. Tocaia é o local do encontro das religiões, das mesclas das crenças que ao entrar em relação se misturam e se tornam apenas uma: Nos tempos da colônia, quando ainda não existia o cacau, São Jorge, trazido no oratório das caravelas pelos brancos, fora proclamado padroeiro da capitania. Montado em seu cavalo, a lança erguida, santo guerreiro, protetor na medida exata. No recesso da floresta, trazido pelos escravos no porão dos navios negreiros, Oxóssi, dono da mata e dos animais, cavalgava um porco-espinho, um queixada gigantesco, um caititu. Fundiram-se o santo da Europa e o orixá da África numa divindade única a comandar o sol e chuva, a receber as preces e as cantigas, as missas e os ebós, no andor da procissão, no altar-mor da Catedral de Ilhéus ou na choça de Pai Aloru que nascera escravo e ali se acoitara para guardar a liberdade. (AMADO, 2008, p. 72). Em Tocaia Grande se celebra o espaço da comunidade universal, da aceitação da cultura do outro e de suas crenças, na possibilidade de fundir crenças, de rezar a missa e oferecer os ebós, de ver em São Jorge Oxóssi, de transformar o cavalo branco em porcoespinho e celebrar tanto na Catedral quanto na choça e nos terreiros de candomblé a fé do povo baiano. Como afirma Glissant, “o diverso é teimoso, ele nasce em todas as partes” (1980), assim é com Tocaia Grande, local privilegiado para a presença do 212 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Diverso, onde a oralidade ajuda a construir o imaginário local, no qual as crenças católicas se transformam ao contato com as crenças vindas “no porão dos navios negreiros”. A personagem Tição, não sendo totalmente livre no espaço socializado de Salvador, também terá de empreender outra viagem, não como a de seus ancestrais, que vieram da África, mas terá de sair da capital baiana para encontrar a liberdade em Tocaia Grande; uma vez mais o negro é obrigado a encarar o porão de um navio. Após transformar o Barão em devoto de São Cornélio, como nos conta jocosamente o narrador, corneando duplamente o Barão voltará a ser fugitivo, perderá sua hipotética liberdade para ganhar a verdadeira no espaço distante e mítico de Tocaia: Escondido no porão de um veleiro de dois mastros viajou de Bahia para Ilhéus. No terreiro onde zelava pelos orixás, num coqueiral entre Pontal e Olivença, Pai Aloru o acolheu e o recomendou ao Coronel Robustiano de Araújo, cuja riqueza não impedia de dar comida aos encantados e de receber a benção e os conselhos do babalorixá. (AMADO, 2008, p. 60) Parece que para o negro não resta outro caminho a não ser sempre a fuga, o deslocar-se de seu local de nascimento para outro, uma rota obrigatória para se reconhecer como pessoa, para ser livre, para adquirir uma identidade que não àquela imposta pelos olhos do homem branco. A diáspora53 parece um ritual inevitável na vida dos negros sejam os vindos da África sejam os que já estão no Brasil. No caso de Tição, ele é obrigado a fugir das calúnias do coronel para não ser preso. 53 Empregamos aqui o termo diáspora no sentido de viagem em busca de uma identidade perdida, deixada na África ou em algum lugar imaginário ao qual o sujeito ainda está preso por laços afetivos. Para Thomas Bonnici: “As pessoas diaspóricas vivem longe de sua terra natal, real ou imaginária, a qual ainda está enraizada ou na língua atualmente falada, ou na religião adotada, ou nas culturas produzidas.” (2005, p.21). No caso específico de Tição, sua viagem é um ritual de aprendizagem e de encontro com a liberdade, que o levará a uma “pátria” que ele ainda nem sonha: as terras de Tocaia Grande, local onde ele poderá viver, constituir família e oferecer aos seus orixás o devido culto. Tição não empreende uma viagem à mãe África, mas em busca da liberdade que ainda não lhe fora concedida, a viagem no porão do navio é uma metáfora da viagem que fizeram seus ancestrais, porém, se eles vieram para ser escravos, Tição viaja para ser livre, até experimenta o calor e o aperto do porão, mas é apenas uma forma de cumprir um ritual inevitável do sujeito diaspórico: a viagem como forma de conhecimento de sua identidade. 213 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Aqui entra outro detalhe, Tição é um encantado54, filho de Xangô o Oxóssi, por isso recebe abrigo dos Pais e Mães de santo, e também do Coronel Robustiano, homem justo e que cultuava as entidades africanas. Do dono das terras obtém um empréstimo para pagar a longo prazo e se muda para Tocaia Grande, ali trabalhando como ferreiro sem patrão e sem dono. No entanto, Tição se sente livre um pouco antes. O sentimento de liberdade o domina quando ele pode esbofetear o senhor de engenho, nem na cama com a baronesa, usando-a e sendo usado como objeto sexual se sentia tão livre. Tição agora ocupava o mesmo lugar do patrão, adquirira-o na repetição da violência, ocupando o que até ali era direito dos senhores de engenho: Tratado como Príncipe de Ébano, pondo cornos no Barão no luxo dos lençóis de linho, das cobertas de renda, das colchas de cetim, nem no leito da Madama se sentira um homem livre. Para que isso acontecesse fizera-se necessário meter a mão na cara do Senhor, correr perigo de vida, atravessar o mundo e chegar às terras do cacau onde cada um tinha seu valor e, bem ou mal, era pago pelo que fazia. (AMADO, 2008, p.61). A violência é a forma de romper com o poder do colonizador, é o momento que ao assumiu o cabo do chicote e inverter as posições estabelecidas pela política do branco, que Tição se sente homem livre, possuir as mulheres do patrão não garantem a liberdade nesse meio em que negros e negras serviam sexualmente aos seus amos, mas ofender aos donos da terra fisicamente se convertia em uma forma de prazer, mais intenso que a alforria; na violência Tição se vinga de todos os brancos que um dia chicotearam os escravos e usaram e abusaram de suas qualidades físicas e sexuais. A tentação de ser o Outro predomina nas narrativas pós-colonais. Para se afirmar o sujeito pós-colonial, num primeiro momento, sente a necessidade de ocupar o lugar do herdeiro da cultura europeia, daquele que está no lugar privilegiado do poder, por ser 54 Tição representa de certa forma Xangô e Oxóssi na terra, vive como seus guias, tem os mesmos costumes, é uma espécie de escolhido pelos Orixás para sofrer e ser feliz de acordo com os desejos de seus guias. Desta forma, Tição conhece todos os rituais e presentes dedicados a cada entidade, pagandolhes os tributos devidos. De acordo com Reginaldo Prandi os encantados são: “[...] concebidos como espíritos de homens e mulheres que morreram ou então passaram diretamente deste mundo para o mundo mítico, invisível, sem ter conhecido a experiência de morrer: diz-se que encantaram.” (,2004 p.7) 214 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS branco ou herdeiro das primeiras famílias que chegaram ao Brasil com a colonização portuguesa. Até o episódio do enfrentamento com o Barão, Tição era visto apenas como um animal, um ser menos inteligente que o cavalo que a esposa do Barão montava. Deixando de montar seu cavalo, para montar seu pajem, a baronesa mudava apenas de animal. Porém, ao esbofetear o patrão, o então príncipe de Ébano, Tição, torna-se um sujeito, uma pessoa de direito e de dever, passa a ser perseguido: “Cabeça e colhões postos a prêmio, Castor ganhou o mundo” (AMADO, 2008, p.59), e consequentemente, sua liberdade, vivendo em Tocaia Grande. Tocaia Grande é o lugar da liberdade para todos, não só para os negros, mas para turcos, prostitutas, encantados. Local onde as pessoas podem exercer sua fé livremente, cada qual na sua individualidade, o que proporciona a Tição exercer seu ofício de ferreiro e ao mesmo tempo oferecer os sacrifícios a seus guias, buscar a caça e oferecêla sobre o peji de pedra ao lado da forja onde fazia as ferraduras para cavalos e criava presentes para os orixás. No romance em questão Tição ocupa um lugar privilegiado na narrativa, é um dos protagonistas da história, um dos fundadores de Tocaia Grande, seu nome é cantado pelos trovadores baianos, muitos anos depois do fim do “arruado”, cujos limites ele defendera com a própria vida, lutando ao lado do Turco Fadul, dos sergipanos, putas e moradores que resolveram ficar para enfrentar a grande tocaia armada para exterminar os moradores do local. Alguns dos feitos que os poetas jamais esqueceram sobre Tição foram os de ele ter esbofeteado o Barão de Itauaçu e se deitado com todas as mulheres que conseguiu sem fazer distinção: Pelas costas fuzilado/ Caiu sem vida negro Tição/ O mais grande feiticeiro/ O mais destro ferreiro/ De toda aquela região/Morreu na mesma ocasião/ Alma penada, seu cão de estimação./ Foi grande a choradeira/ na corte da França e da Bahia/ Pois o capeta não fazia distinção/Comia branca e negra ele comia/Com a maior satisfação/ Todas elas lhe servia/ Pra acabar com a solidão. (AMADO, 2008, p.549). 215 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Assim, Tição ficou eternizado na memória do povo baiano, por meio dos cantos de poetas populares que faziam trovas em homenagem aos protagonistas que lutaram por Tocaia Grande. Um dos mais cantados foi Tição, o negro que só poderia ser herói no terceiro espaço de Tocaia, no lugar onde ainda era possível ser livre, longe das leis dos bacharéis e filhos de coronéis ciosos em manter o poder. Ali, Castor Abduim experimentou mulheres, amigou, teve filho, serviu a seus orixás passando pela vida como o encantado que sempre foi. Como afirma Glissant: “O escrito se oraliza. A literatura recupera assim um ‘real’ que parecia determiná-la e limitá-la. O discurso antilhano se articula tanto sobre o vigor do grito original quanto sobre a paciência da paisagem reconhecida pela imposição dos ritmos vividos.” (1981, p .201) Embora o crítico antilhano comente a realidade de seu país, o conceito de oralitura é válido para aplicar-se à narrativa de Tocaia Grande, por meio da voz dos poetas é que Tição não fica esquecido, de forma que a voz dos cantores populares invade a escrita e a renova com suas fontes orais. São elas que permitem à literatura canônica se renovar, muitas vezes por meio do realismomágico dos encantados presentes na obra de Jorge Amado, como é o caso de Tição, ligado ao mundo terreno e ao mundo dos orixás ao mesmo tempo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo do presente texto tentamos responder algumas questões sobre o negro no romance Tocaia Grande. Porém, este estudo é apenas um esboço inicial de uma análise ainda e vias de construção sobre o papel do negro na literatura brasileira, principalmente, naquela já consagrada pelo cânone literário. Esperamos com o breve esboço que fizemos ter respondido em parte ao questionamento do professor e pesquisador Thomas Bonnici sobre a questão do póscolonialismo na literatura brasileira, colocando-o como interlocutor privilegiado desse percurso, mostrando como ainda há muito por estudar pelo viés da crítica pós-colonial na literatura produzida no Brasil. Também, escolhemos o negro como sujeito central de nossa análise, pois a voz desse povo sempre esteve apagada, oprimida pela voz e a escrita do branco. Assim, Tição realiza como personagem literário o papel de anunciar a cultura afro-brasileira a 216 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS todos os leitores, orgulhando-se de sua crença, expondo-se como filho de Xangô e Oxóssi, herdeiro da cultura africana recebida de seus ancestrais, sem pai nem mãe na vida terrena, mas guardado pelos orixás que o conduziram pelas terras da Bahia em busca de sua identidade e seu destino, para ser sepultado para sempre no solo quase sagrado de Tocaia Grande, o paraíso na terra, ganhado à base do sangue de muitas vidas, mas de uma natureza paradisíaca que teve força suficiente para prender com seus laços o Tição Aceso, o Príncipe de Ébano que ali encontrou sua identidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMADO, Jorge. Tocaia Grande. Rio de Janeiro: MEDIAfahion, 2008. BONNICI, Thomas. Conceitos-chave da Teoria Pós-Colonial. Maringá-PR: EdUEM, 2005. _________________. O Pós-Colonialismo E A Literatura. 2ed. Maringá-PR: EdUEM, 2012. CONDÉ, Maryse. Corações Migrantes. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. GLISSANT, Edouard. Le discours antillais. Paris: Seuils, 1981, p.190-201. PRANDI, Reginaldo. (org.) Encantaria brasileira: o livro dos mestres, dos caboclos e dos encantados. Rio de Janeiro: Pallas, 2004. 217 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A MULHER BRASILEIRA E SEU PERFIL DELINEADO PELA HISTÓRIA: DESDE PERO VAZ DE CAMINHA AO BRASIL COLONIAL DESCRITO EM CASA-GRANDE & SENZALA Janaina Rosa ARRUDA55 Leila DEL POZO GONZALEZ56 Resumo: O presente artigo tem por objetivo compreender o estereótipo atribuído à mulher brasileira dentro de uma perspectiva histórica. Procura-se observar quais foram os fatores que contribuíram para a formação desse estereótipo e de que forma o mesmo está inscrito na história. Mediante revisão bibliográfica, busca-se revisar qual teria sido o início da construção do estereótipo, com base no livro do visionário Gilberto Freyre Casa-Grande & Senzala. Rever a história, partindo do achamento do Brasil desde as primeiras impressões descritas pelo colonizador e seu imaginário, nos possibilita compreender a amplitude em que se enquadram as características tanto físicas quanto subjetivas relacionadas às brasileiras. O referido artigo restringe-se a um recorte na formação desse estereótipo, pois compreender toda sua abrangência requer uma investigação mais extensa e seria necessário alcançarmos a contemporaneidade para compreender de que maneira esse estereótipo atua na modernidade. Palavras-chave: Gilberto Freyre, Estereótipo da mulher brasileira, Brasil colonial. Resumen: El presente artículo tiene como objetivo comprender el estereotipo atribuido a la mujer brasileña dentro de una perspectiva histórica. Se procura observar cuáles fueron los factores que contribuyeron para la formación de ese estereotipo y de que forma el mismo está inscrito en la historia. Mediante revisión bibliográfica, se busca revisar cual habría sido el inicio de la construcción del estereotipo, tomando como base el libro del visionario Gilberto Freyre: Casa-Grande & Senzala. Volver a ver la historia partiendo de la llegada al Brasil desde las primeras impresiones del colonizador y su imaginario, nos posibilita comprender la amplitud en que se encuadran las características tanto físicas como subjetivas relacionadas a las brasileñas. El referido artículo se encuentra restringido a un recorte en la formación de ese estereotipo, pues comprender toda su amplitud requiere una investigación más extensa y seria necesario alcanzar la contemporaneidad para comprender de qué manera ese estereotipo actúa en la modernidad. Palabras llave: Gilberto Freyre, Estereotipo de la mujer brasileña, Brasil colonial. 55 Acadêmica do curso de Letras – Italiano UNIOESTE. Bolsista Capes [email protected] Acadêmica do curso de Letras – Espanhol UNIOESTE. Bolsista Capes/[email protected] 56 218 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS INTRODUÇÃO Na tentativa de delimitar o estereótipo da mulher brasileira percebe-se que são muitos os fatores que influenciaram na formação do mesmo. Recorremos ao recorte histórico como possibilidade de investigação e para uma compreensão satisfatória fizemos uso da obra Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre (2005), cuja importância é significativa no cenário nacional. A época retratada inicia-se com o chamado “descobrimento” do Brasil e com o primeiro documento histórico brasileiro narrando a “aventura” da descoberta à corte portuguesa. A partir da carta de Pero Vaz de Caminha o processo de estereotipação da feminilidade brasileira é apresentado, fato que só veio à propagar-se durante a colonização do país. Na década de 30, o livro Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre (2005) vem afirmar o estereótipo, pois em suas páginas encontram-se inúmeras referências as mulheres brasileiras associadas diretamente à sensualidade, sexualidade e a lascividade. Devemos ressaltar que, ao analisarmos a obra de Freyre, nos detivemos em suas observações sobre as mulheres brasileiras, no entanto, toda a história do processo de colonização do país está amplamente representada no conteúdo do livro. Observaremos, em uma escala gradativa, as influências motivadoras do estereótipo, buscando ao longo do artigo fomentar nosso discurso na existência do mesmo, destacando nas falas de Freyre (2005) indicativos que vieram a fortalecer a imagem de brasilidade atribuida às mulheres do territorio que hoje pertence ao Brasil. DEFINIÇÕES IMPORTANTES: ESTEREÓTIPO, MITO E ETNOCENTRISMO Para pensar o estereótipo da mulher brasileira foi necessário considerarmos o período da colonização, e até mesmo as épocas precedentes, como gérmens de uma iniciação cultural em terras brasileiras. Somamos, ainda, a interação da cultura do estrangeiro com a cultura do nativo; a ideologia dominate europeia e a ideologia dos 219 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS povos chamados na época de “selvagens e tribais”, sem deixar de lado a também intervenção da cultura africana neste processo de colonização e de formação de identidade brasileira; juntamente com os valores apregoados pelos cristãos e os valores apregoados pelos “pagãos”. Deve-se aceitar o fato de que todas essas “forças” agem ao mesmo tempo e possuem laços de dependência, nos impossibilitando uma análise parcial ou circunscrita da estereotipagem da brasileira. Johnson (1987) no seu livro She: A chave do entendimento da psicologia feminina: uma interpretação baseada no mito de Eros e Psiquê, usando conceitos psicológicos jungianos, define estereótipo como ideias pré-concebidas que resultam em generalizações ou especificações que tendem a considerar que todos os membros de um determinado agrupamento social se comportam de forma semelhante ou possuem as mesmas características. O estereótipo acabaria tornando-se um conjunto de crenças capaz de classificar grupos sociais. As ideias formadoras do estereótipo terminariam sendo transmitidas como “ideias verdadeiras” pelo meio cultural e social. Estas ideias acabariam por se tornar verdades indiscutíveis. O estereótipo negativo poderia, também, representar a satisfação da necessidade de um status superior, pois aqueles que esteriotipam fortalecem a própria imagem. Torna-se dessa forma o estereótipo negativo um mecanismo de defesa e proteção da auto-imagem daqueles que o usam em depreciação de outros. (JOHNSON, 1987, p. 1). Ao redor da mulher brasileira se teria criado um mito, que não é produto racional ou científico, é produto da imaginação coletiva, experiências de toda uma era e de toda uma cultura e por esse motivo, torna-se real. À medida que esse mito se desenvolve no decorrer dos anos, sendo recontado e aperfeiçoado, ele passa a carregar um poderoso significado coletivo (JOHNSON, 1987, p. 7). Os mitos vão se modificando à medida que as pessoas recontam algumas histórias retratando imagens coletivas, coisas que são verdadeiras para todos os homens. Portanto o mito não é algo mentiroso ou imaginário, é verdadeiro (JOHNSON, 1987, p. 6). Em seu livro O que é etnocentrismo, Everardo P. Guimarães Rocha define o etnocentrismo como “uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, 220 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS nossos modelos, nossas definições do que é a existência” (ROCHA, 1988, p. 5). Quer dizer, é a maneira como olhamos “nosso vizinho”, partindo do que conhecemos. Etnocentrismo e estereótipo estariam interligados, pois o etnocentrismo de alguém cria um estereótipo com respeito à aquém diferente dele. Continua Rocha: “este choque gerador do etnocentrismo nasce, talvez, na constatação das diferenças”. No entanto, devemos fazer a ressalva de que o etnocentrismo não seria propriedade de uma única sociedade (ROCHA, 1988, p. 6). Refletindo sobre as definições acima e aplicando o observado, poderíamos arriscar e dizer que os colonizadores teriam vindo com essa predisposição a criar mitos e estereótipos. E isto seria explicado pela definição do etnocentrismo, já que nenhum povo estaria livre de formar estereótipos com respeito aos outros. Em outras palavras não poderíamos tirar a possibilidade, por exemplo, de que os povos indígenas terem criado paralelamente um estereótipo dos portugueses. Deixando estes conceitos esclarecidos, procedemos então à busca de fatos históricos. A MULHER BRASILEIRA, CONSTRUTO AO LONGO DA HISTÓRIA Talvez, tudo tenha começado com a carta que Pero Vaz de Caminha que escrevera ao rei sobre suas impressões do Brasil. A carta está repleta de imagens nem sempre objetivas da mulher nativa. Em vários parágrafos se apresenta a nudez de seus corpos, explicitando sempre sua “disponibilidade” (CAMINHA apud PEREIRA, 1999, p. 1-14), e comparando-as sempre com as mulheres européias. Na missiva de Caminha notamos como a nativa foi vista desse olhar do homem português, europeu, cristão, católico do século XVI. Freyre (2005), no seu livro Casa Grande & Senzala, lembra que existia no imaginário do homem português a sublimação da mulher moura, uma mulher de cor, semelhante às índias brasileiras. Inclusive, poderíamos sugerir que o colonizador português teria acoplado ao mito pré-existente sobre a mulher moura às mulheres brasileiras (inicialmente, falando das indígenas nativas desta terra) (FREYRE, 2005, p. 221 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS 70-71). Existia uma lenda relacionada à cor vermelha e ao banho das mouras nos rios, ao fato delas gostarem de pentear seus cabelos (FREYRE, 2005, p. 125). Esta coincidência pode ter inflamado em alto grau o imaginário do português Caminha na sua chegada ao Brasil descrevendo que [...] uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. (Vaz de Caminha in Pereira, 1999, p. 4) Freyre descreve que o colonizador português possuía, como característica principal e particular, a sua miscibilidade. O povo português estaria em desvantagem com respeito às outras nações colonizadoras. Portugal possuiria um capital humano muito pobre, o que fez com que os colonizadores atribuíssem um significado novo a sua miscibilidade. O colonizador português optou por emprenhar mulheres e fazer filhos numa carreira genésica instintivamente violenta, resultando numa rápida procriação com as nativas e dando à primeira sociedade um caráter de permanência (FREYRE, 2005, p. 68-73). A proporção de mulheres brancas vindas para o Brasil teria sido insignificante, e que devido a essas condições, teria recaído inicialmente sobre a mulher indígena o papel de matriz fundamental gerando filhos dos homens brancos (RIBEIRO, 1995, p. 229). Foi proveitosa a multiplicação do europeu com a mulher indígena e logo com a negra, pois gerou uma população mestiça vigorosa e dúctil mais adaptada ao clima tropical (FREYRE, 2005, p. 74). No seu livro, Reis (2001) afirma que o português etnicamente já era um povo miscigenado, seria uma população branca, no entanto com sangue negro, mouro e judeu. Freyre tinha grande admiração pelo colonizador português, e pensava que essa origem deveria trazer orgulho aos brasileiros. O autor tinha uma visão positiva da miscigenação, o que deveria representar um alívio para as elites brasileiras. Essa interpretação de Freyre sobre a miscigenação tornou-se referência para o mundo pós1945 (REIS, 2001, p. 69). 222 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Segundo Reis (2001, p. 75), Se o brasileiro é mestiço, e Freyre não omite esse lado, essa mestiçagem não se realizou amorosamente. O brasileiro mestiço não é fruto de uma relação humana entre etnias-culturas diferentes. Ele é filho de um estupro: o senhor conquistador, colonizador, armado de espada e terço, que invade e domina índios e negros, exterminando e escravizando os homens e violentando as suas mulheres. Freyre acredita que o próprio escravo se satisfaça nesta relação sadomasoquista sexual e pessoal. O escravo preferia o senhor invasor e brutal, isto é, bem no seu papel, pois é masoquista (REIS, 2001, p. 75). Continuando com as características que teriam ajudado no seu sucesso como colonizador nas terras do Sul, poder-se-ia dizer que, o português possuiria uma incrível aptidão para se aclimatar em regiões tropicais, que além de outros fatores, como a sua experiência prévia na África, Ásia e Antilhas, o teriam ajudado de forma mais eficiente a alcançar os seus objetivos. Para esclarecer melhor o proceder promíscuo do colono português nas relações entre brancos e as mulheres de raças de cor no Brasil do século XVI, Freyre explica que essas atividades estariam condicionadas ao sistema econômico e a escassez de mulheres brancas. Sobre o sistema econômico, baseado na produção de açúcar, uma atividade produtiva crescente, exigiria uma enorme massa de escravos, que controlados por uma minoria branca e polígama, juntos conformariam uma sociedade semifeudal (FREYRE, 2005, p. 33). A escassez de mulheres brancas desenvolveria uma relação, entre senhores e escravos (os índios também estariam considerados como escravos, pelo menos inicialmente), de “superiores” e “inferiores”, caracterizada por senhores desabusados e sádicos com escravas passivas. O equilíbrio social do Brasil teria ocorrido com a miscigenação praticada entre o colonizador e a índia, negra-mina, mulata, cabrocha, quadrarona, oitavona, que se tornariam caseiras, concubinas e, até mesmo, esposas legítimas dos senhores brancos. Dessa forma a distancia social entre a casa-grande e a 223 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS senzala diminuiria, formando gradualmente a identidade do povo brasileiro (FREYRE, 2005, p. 33). Devemos lembrar que a cultura do português possuiria um paradigma patriarcal etnocentrista, razão pela qual não importava a maneira que se deu a sua desordenada geração de filhos, pois esses foram desconsiderados em todo aspecto e forma; e este é um fato escandalizador. Freyre (2005) observa que desde o primeiro contato do colonizador com as índias, a mulher morena seria a preferida dos portugueses para o amor físico, enquanto que a mulher branca estaria ligada às classes mais altas. O convencionalismo social pregaria a superioridade da mulher branca, a inferioridade da mulher negra e a preferência sexual pela mulata. A cabocla, a mulata ou a morena teriam sido celebradas pela beleza física, a cor dos olhos, os dentes alvos, a meiguice e carinhos, tornando-as superiores nesse sentido às “virgens pálidas” ou às “louras donzelas” (FREYRE, 2005, p. 72). Surgia o costume nas senzalas a responsabilidade de atribuir à negra ou mulata a antecipação da vida erótica ou o desregramento sexual do rapaz brasileiro. Praticamente toda negra, mulata e índia seria culpada por ter “contribuído para a depravação precoce do menino branco da classe senhoril (FREYRE, 2005, p. 457). Como disse Freyre (2005, p. 462), “nós, uns inocentinhos: elas, uns diabos dissolvendonos a moral e corrompendo-nos o corpo”. Esta última afirmação irônica de Freyre nos faz refletir sobre como eram observadas essas questões. Segundo Freyre, ter-se-ia criado uma imagem estigmatizada do Brasil devido ao elemento de corrupção da vida em família, elemento esse passivo representado pelas mulatas e pelos moleques. O elemento ativo, fruto dessa corrupção, era o sadismo dos Senhores. A formação da sociedade colonial no Brasil teria começado, segundo Freyre, por volta de 1532 com a família rural ou semi-rural como unidade no Brasil constituída ou gente casada vinda do reino. Organizava-se então, uma sociedade cristã em sua superestrutura, a índia recém-batizada tornava-se esposa e mãe de família. Inicialmente repugnadas para o casamento pelos portugueses, sua situação mudaria graças às prédicas dos jesuítas (FREYRE, 2005, p. 515). Muitas caboclas e filhas de caboclas tornavam-se esposas legítimas de portugueses. Não era mais a escassez de mulheres brancas o motivo, mas a preferência sexual pelas morenas, mulatas ou índias. Essas 224 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS mulheres também buscavam ter filhos do colonizador, ambicionando que os mesmos pertencessem à raça superior. Tal sistema de miscigenação fora antes “filho da necessidade” do que orientação sexual ou política, mas o colonizador utilizou-se desse sistema para a dominação (FREYRE, 2005, p. 160). A devassidão estaria presente desde o momento em que desembarcavam os europeus de seus navios. É importante ressaltar que o que para os portugueses era devassidão, para a tribo indígena seria parte de sua cultura, a poligamia seria natural. O homem estando em condições de manter uma família grande, casava-se com muitas mulheres (FREYRE, 2005, p. 167). As mulheres da tribo também gozariam de liberdade, pois assim como os homens, poderiam trocar de companhia caso não se acertassem com o marido. Os portugueses, ao depararem-se com a poligamia dos índios, teriam se aproveitado dela para expandir a massa popular necessária à economia (FREYRE, 2005, p. 168), já discutido acima. Quando chegara a moral católica ao Brasil, fora condenada a cultura tribal atribuindo devassidão à mesma. Os padres jesuítas preocuparam-se com tanta “poucavergonha” e pediram ajuda ao reino, para que mandassem mulheres brancas, estrangeiras, na tentativa de corrigir a lascividade. Porém as mulheres brancas que teriam sido enviadas para o Brasil, além de serem poucas, geralmente teriam sido meretrizes RIBEIRO, 1995, p. 89). Entretanto mesmo entre os negros escravos, teria sido permitido o concubinato e relações ilícitas entre servos e pessoas livres. Os portugueses teriam nutrido grande excitação na sensualidade das negras, essas eram preferidas como mucamas ou cozinheiras, pois apresentavam excelentes qualidades. A parte mais produtiva da propriedade escrava era o ventre gerador, utilizado por muitos proprietários e símbolo da depravação sexual (FREYRE, 2005, p. 399). Não era o negro o libertino, mas o escravo a serviço do interesse dos seus senhores. Marie Suzuki Fujisawa, no seu livro Das Amélias às mulheres multifuncionais: a emancipação feminina e os comerciais de televisão, observa que uma vez formada a colônia, a sociedade brasileira espelhou-se na sociedade européia, com uma mulher totalmente dependente do homem. As mulheres não teriam nenhum direito jurídico. Estas estariam submetidas à constituição da família patriarcal e seriam oprimidas. A colonização teria transplantado os valores do Velho Mundo, deturpando as culturas brasileiras já existentes, principalmente com referência à mulher indígena. O papel da 225 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS mulher, dentro da organização das nações indígenas, era fundamental para a educação, o trabalho doméstico e a agricultura (FUJISAWA, 2006, p. 32), fato que não foi bem visto pelo colonizador. Romero (apud Freyre, 2005) afirma que no Brasil, o patriarcalismo nunca teria sido absoluto (FREYRE, 2005, p. 126). Freyre observa que o português, achando uma paisagem difícil de controlar, preferira iniciar a forma de “sesmaria” praticada nas colônias das Antilhas, tomando à mulher indígena como principal instrumento de trabalho, mas como elemento formador de família (FREYRE, 2005, p. 79). Por outro lado, Emanuel Araújo, no seu artigo A arte da sedução: sexualidade feminina na Colônia, observa que o estereótipo esperado das mulheres brancas no Brasil colonial corresponderia ao de bom comportamento. A moça deveria sempre esperar que o rapaz bem-intencionado tomasse a iniciativa da corte e ele por sua vez deveria esperar o consentimento paterno da dama. Este comportamento seria influência direta da Igreja, pois a sua preocupação com o adestramento da sexualidade feminina devia-se ao fato que de outra forma estaria ameaçado o equilíbrio doméstico e a segurança do grupo social, o que refletiria em todas as instituições, fossem elas civis ou eclesiásticas (ARAÚJO, 2007, p. 45). Na hierarquia social o homem era visto como a cabeça da mulher (ARAÚJO, 2007, p. 46) As mulheres eram consideradas animais imperfeitos passíveis de receberem alguma influência do “espírito descorporificado”, a mulher carregaria em si um estigma atávico que a tornava predisposta a alguma transgressão: o peso do pecado original, motivo pelo qual deveria então ser vigiada, ainda mais sua sexualidade. Tal tratamento remeter-se-ia ao tipo de virtude que se buscava instituir às mulheres brancas da época, submetidas assim ao estereótipo do bom comportamento. A sociedade vigente pregava que para as mulheres bastava conhecer as primeiras letras, pois sua melhor companhia seriam a almofada e o bastidor. Muitas mulheres foram “recolhidas” pelos maridos, para que evitassem cair em pecado, mesmo em “recolhimento” os princípios da religião eram transmitidos, afim de que ficassem protegidas dos “defeitos ordinários do seu sexo” (ARAÚJO, 2007, p. 50). O programa de estudos destinado às mulheres idealizava o papel da mulher e sua realização pelo casamento, sua habilidade desenvolvida no trato dos filhos e do marido, para que esses não percebessem “a mão que os dirige nem a cadeia que os 226 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS prende”. Existia instrução através de manuais, esses condenavam qualquer pecado lascivo, desde tocamentos desonestos, até sonhos torpes (ARAÚJO, 2007, p. 51). Paralelamente a este comportamento estrito, as negrinhas ou mulatinhas eram empurradas para os braços dos rapazes, filhos dos senhores, para que despertassem nos moços o interesse sexual. Não era o desejo da mulher, era a ordem do Senhor (FREYRE, 2005, p. 456). Com frequência a negra ou a mulata eram vistas como influências perniciosas ou corruptoras da família. A cultura transplantada da Europa, com a ajuda da Igreja, tentava permanecer na sociedade brasileira da época. Os valores brasileiros são resultado dessa cultura europeia. No entanto, o sistema europeu, tal qual era originalmente, não era aplicável ao Brasil. O padrão português em terras tupiniquins acabaria por adquirir características adequadas à terra nova. A própria vestimenta das mulheres caracterizaria a deficiência em aplicar o padrão europeu. O clima tropical fazia com que a confecção do vestuário fosse realizado com tecidos mais leves, e também indicava o mundo em que a mulher vivia. Para ser notada, admirada ou desejada, a mulher utilizava-se do vestuário, ou da falta dele. Em 1768, o vice-marquês do Lavradio ao desembarcar no Brasil declararia que “este país é ardentíssimo, as mulheres têm infinita liberdade, todas saem à noite sós” (ARAÚJO, 2007, p. 53) e que em Salvador as mulheres andavam quase nuas pouco mais de meia cintura para cima, com ombros e peito à mostra (ARAÚJO, 2007, p. 55). A igreja interferiria constantemente no andamento da vida social tentando controlar os pensamentos e os sentimentos, o que algumas vezes conseguia com sucesso, no entanto, nem todos aceitariam tal intromissão quando essa passava do limite aceitável e interferia no desejo ou na paixão carnal. A moral colonial brasileira, por um ou outro motivo, escondia muita hipocrisia. Há um paradoxo grande entre a vida mais solta vivida pelos homens e a vida regrada destinada às mulheres brancas. A sociedade da época ao mesmo tempo em que pregava a moralidade, não condenava a vida lasciva dos homens. Para esses era necessário a satisfação de suas paixões carnais, no entanto as suas mulheres deveriam ser “santas”. No século XVII Gregório de Matos deixou estampado em seus versos o adultério feminino, que mesmo com tamanha preocupação e cuidado dos maridos, ainda assim ocorria. 227 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Na época colonial a lei vigente permitia que o homem casado vítima de adultério pudesse matar tanto a esposa quanto ao adúltero licitamente (ARAÚJO, 2007, p. 61). A maioria de assassinatos teria sido por causa: do torpe ciúme, de vinganças de escravos contra suas sinhás ; de amantes do marido que queriam se livrar delas; de cartas escritas por estrangeiros que queriam se ufanar de seu sucesso com as brasileiras. A mulher brasileira tem também quem as defenda. Um exemplo está em John Mawe (apud FREYRE, 2005, p. 514), que não acha justo generalizar, pois não se tinham exemplos concretos. Segundo Araújo (2007, p. 61), as mulheres se arriscavam muito ao cometerem o adultério, e talvez por esse motivo preferissem pecar com os viajantes estrangeiros. Froger (apud ARAÚJO, 2007) dizia que em 1696, as mulheres em Salvador sempre encontravam uma maneira de concederem seus “favores” aos viajantes franceses, dos quais apreciavam os modos sedutores e livres. Amédée Françoais Frézier, outro viajante francês em 1714, narra que em Salvador as mulheres eram quase todas libertinas e sempre encontravam uma maneira de burlar a vigilância dos maridos ou dos pais (ARAÚJO, 2007, p. 61) As mulheres estavam sujeitas a duas escolhas: ou se submetiam aos padrões impostos; ou reagiam com o exercício da sedução e da transgressão. A mulher podia ser mãe, irmã, filha, religiosa, mas nunca amante. Na época colonial a sexualidade feminina era manifestada se esgueirando pelos desvios da sociedade imposta e suportando a culpa dos pecados atribuídos a ela pela Igreja (ARAÚJO, 2007, p. 73). Maria Ângela D’Incao, no seu artigo: Mulher e família burguesa, afirma que no século XIX nasce uma nova mulher, devido à consolidação do capitalismo, ao desenvolvimento da vida urbana, a ascensão da burguesia e sua nova mentalidade. Ocorre uma valorização da intimidade e da maternidade (D’INCAO, 2007, p. 223). A mulher de elite passou a frequentar cafés, bailes e teatros. A mulher, aparentemente, era mais livre e em sua vida social dava mais liberdade às emoções, mas ainda era vigiada pelo pai ou marido e teria também os olhares da sociedade. Essa nova mulher teve que aprender a comportar-se publicamente e a conviver de maneira educada (D’INCAO, 2007, p. 228). A sexualidade ainda era ponto importante, pois a virgindade feminina era requisito fundamental para o casamento e dignidade da família. 228 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Freyre acrescenta que no século XIX efetivamente nasce a virtude da senhora branca, mas que essa virtude seria mantida “à custa da prostituição da escrava negra; à custa da tão caluniada mulata; à custa da promiscuidade e da lassidão estimulada nas senzalas pelos próprios senhores brancos” (FREYRE, 2005, p. 539). La Barbinais (apud FREYRE, 2005, p. 537) afirma que as próprias senhoras, que “admitindo uma exceção ou outra, não eram senhoras de família, mas brancas desclassificadas” (FREYRE, p. 537), as quais contribuíram para uma imagem tão corrompida, pois escolhiam suas escravas mais belas e jeitosas para explorá-las sexualmente. Negrinhas de dez ou doze anos já eram colocadas na rua, oferecendo-se aos marinheiros franceses e ingleses. As escravas mostravam-se nas janelas semi-nuas, a quem os senhores obrigavam a vender seus “favores” (FREYRE, 2005, p. 538). No final do século XVIII Luís do Santos Vilhena notou ser um ato generalizado entre as mulheres andarem dentro de suas casas com roupas largas que muitas vezes caem e mostram seus peitos. Os olhares masculinos não deixavam de notar os corpos à mostra e à vontade, o que de certa forma comprazia a essas mulheres também (ARAÚJO, 2007, p. 56). A questão dos trajes foi motivo de alarde dos vereadores de Salvador em 1641, pois muitas escravas utilizavam-se de roupas “indecentes” prostituindo-se para o sustento de seus patrões. Em 1709 o próprio rei preocupo-se com a questão dos trajes, pois as escravas andavam com tais trajes nas conquistas ultramarinas incitando aos homens. Porém convêm ressaltar que tal fato não se limita às escravas, pois as prostitutas brancas usavam do mesmo artifício em suas conquistas (ARAÚJO, 2007, p. 57). Bocayuva, no seu livro: Erotismo à brasileira. O excesso sexual na obra de Gilberto Freyre, fala sobre as relações de gênero sob a perspectiva freyreana. A autora faz referência a presença de uma linguagem de dominação política colonial em Casa Grande e Senzala. Sobre as brancas, os brancos e suas relações, a dicotomia masculino/feminino estaria bem delimitada: o senhor patriarcal seria o membrum virile (os militantes, renovadores, individualistas), entanto que a mulher, a iaiá, o útero (sedentárias, estáveis, conservadoras, caseiras), ambos descritos como sádicos e cruéis (em relação com os escravos), ou ainda como banzeiros, indolentes (em relação com os europeus). É 229 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS interessante a descrição de Freyre sobre o critério etário que marcaria diferença para as brancas. Elas se casavam aos 11-12 anos; passados os 15 eram consideradas solteironas, e ao amadurecer desprovidas da proteção masculina eram pouco mais que escravas, devido à sua dependência econômica. Segundo o mestre pernambucano (apud BOCAYUVA, 2001, p. 86), no aspecto social, as circunstâncias de regime econômico no Brasil impuseram à mulher da casa grande o estado de sexo frágil. O autor retoma o seu argumento de corpo como construto social: [...] como o corpo dos escravos, o corpo da iaiá branca é posse do senhor, corpo que envelhece jovem de tanto gerar prole e cumprir a meta do povoamento do país, corpo frágil, mole e mesmo podre da mulher branca, senhora das suas mucamas, mucama de seu marido (FREYRE apud BOCAYUVA, 2001, p. 86-87). Sobre índias teria recaído a tarefa de formação da civilização brasileira, segundo Freyre, como contribuintes fundamentais. Essas contribuições seriam a sua “função de reprodutoras, os seus conhecimentos agrícolas, a culinária e a higiene pessoal; higiene que, aliás, virou “uma marca da identidade brasileira” (e que também estaria presente nas outras mulheres morenas). O mestre de Apipucos sugeriria que as índias, cansadas da vida nômade não se resistiram às vantagens da estabilidade e afirmara que elas “trabalharam infinitamente mais que os seus homens”. Deixa claro, no entanto, que este comportamento se devia a divisão sexual de trabalho entre os indígenas brasileiros. Bocayuva comenta que a menção da voracidade sexual das índias no livro do sociólogo proveem de sua leitura dos viajantes dos séculos XVI – XIX. O mestre pernambucano destaca que a condição dos negros – negras e morenas; mulatos as mulatas – foi imposta pela escravatura. Ele não estabelece oposições entre homem e mulher negros como nos casos anteriores. E enfatiza que os escravos seriam os pés e as mãos de seus senhores. As mulheres negras seriam além de seus pés e mãos, suas cozinheiras, amas-de-leite, mucamas, reprodutoras de proles extensas. 230 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A relação entre sinhás e mucamas era de amor e ódio. As sinhás reprimidas pelos seus maridos reproduziriam nas relações com as mucamas expressões de opressão, sendo até mais cruéis com as mucamas que seu senhor com os escravos (BOCAYUVA, 2001, p. 89 - 91). O sociólogo mostraria no seu discurso “a hierarquia rígida do sistema senhorial pernambucano que agrega à herança histórica portuguesa fatores de ordem biológica”, tais como a afirmação de que a negra estaria mais bem dotada para amamentar. Na escrita do sociólogo pernambucano, o sexo da mulata seria comparado ao mandacaru. A mulata por ser “exótica e inferior despertaria nos homens da elite branca o desejo das transgressões sexuais” (BOCAYUVA, 2001, p. 96). Alguns analistas descreveram Freyre de forma entusiasmada, declarando-o um místico sensual ou um espírito encarnado; outros o consideraram obsceno, pornográfico e que deveria ter sua obra queimada em praça pública em nome da castidade (REIS, 2001, p. 54). CONSIDERAÇÕES FINAIS Analisar o estereótipo da mulher brasileira é tarefa árdua. Incontáveis fatores permeiam essa trajetória, o que nos submeteria à uma análise mais extensa e apurada de todos os seus pormenores. Detivemo-nos em um pequeno recorte histórico, porém não menos importante, que possibilitasse uma compreensão inicial sobre o ponto de partida mediante o qual o estereótipo de brasilidade feminina teria se iniciado. Recontar a história das primeiras mulheres brasileiras necessariamente nos remete a Gilberto Freyre e sua imensa contribuição na construção do entendimento de nossa identidade nacional. Sob sua perspectiva buscamos fazer o levantamento dos fatos que possivelmente serviram como fonte para a afirmação do estereótipo da mulher brasileira. A contradição nos relatos confirmaria que o mito da sexualidade excessiva da brasileira esteve desde o início da colonização do Brasil. Mesmo tendo testemunhas de viajantes que afirmavam ter visto mulheres de bom caráter, todas as brasileiras terminariam dentro do estereótipo de libertinas. O estereótipo da brasileira na colônia 231 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS estaria definido como possuidoras de superexitação, ardência, sensualidade, sexualidade exaltada, preferência erótica do português, sugestão sexual.57 Gilberto Freyre, no seu estudo sobre a sociedade colonial brasileira, mostra a situação a que estaria relegada a mulher brasileira. Esta estereotipação da brasileira está presente na história, e efetivamente teria começado com Pero Vaz de Caminha e todos os ocidentais que chegaram ao Brasil e escreveram sobre suas apreciações. O estereótipo existe, é real, pela definição de Johnson, tendo se tornado verdade indiscutível, nasceu do etnocentrismo, do estranhamento do outro e do choque entre as culturas. Compreender o estereótipo é compreender a própria história, abstendo-se de julgamentos ou procurando “culpados” pela propagação do estereótipo de brasilidade feminina. Devemos buscar, mesmo que utopicamente, uma neutralidade em nossa observação, pois nossa busca sempre partirá do viés do outro para a formação do nosso próprio viés. 57 Tomamos como referência o quadro no livro de BOCAYUVA, 2001, p. 123-127. 232 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS REFERÊNCIAS ARAÚJO, Emanuel. A arte da sedução: sexualidade feminina na Colônia. In_____: MARY DEL PRIORE (org.); Carla Bassanezi (coord. De textos) História das Mulheres no Brasil. 9. ed. 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São Paulo: Brasiliense, 1988. 233 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A REPRESENTAÇÃO DAS PERSONAGENS FEMININAS NOS CONTOS FANTÁSTICOS RUBIANOS: AGLAIA, BÁRBARA E EPIDÓLIA Gessica Zavadoski GOMES58 Daiane da Silva LOURENÇO 59 Wilma dos Santos COQUEIRO 60 RESUMO: O gênero literário fantástico, que, sobretudo a partir do século XX, tem como principal objetivo o desequilíbrio do mundo familiar do leitor, tem no Brasil como um dos precursores o escritor mineiro Murilo Rubião, que se dedicou exclusivamente à escrita de contos fantásticos. Dado o interesse pelo estudo do uso do fantástico como forma de evidenciar o patriarcalismo presente na sociedade, este trabalho tem como foco a análise dos contos “Bárbara”, “Aglaia” e “Epidólia”. As narrativas são formadas por elementos naturais e por elementos insólitos, que causam hesitação no leitor no decurso de todo texto. Esses contos representam o contexto social do século XX, bem como os problemas encontrados pelas personagens nessa sociedade moderna, que ainda não se libertou totalmente do modo de vida patriarcal. Por meio da análise dos elementos fantásticos presentes nos contos, pretendemos mostrar como tais recursos influenciam na configuração das protagonistas e seus embates com a sociedade androcêntrica. Para tanto, este trabalho embasa-se nos estudos teóricos sobre o gênero fantástico, apoiando-se nas ideias de Todorov (2004); Volobuff (2000); Rodrigues (1988) e Goulart (1995) e sobre a crítica literária feminista em Bourdieu (2002). Palavras-chave: Gênero Fantástico. Conto Rubiano. Personagem feminina. 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho teve como foco algumas reflexões a respeito do gênero fantástico e da representação feminina em contos de Murilo Rubião. Atemo-nos, primeiramente, na compreensão do gênero fantástico na literatura, o qual ganhou destaque no Brasil a partir do século XX. Várias tentativas de definição levam ao entendimento de que esse gênero aparece com características diferentes em diversas épocas.. 58 Acadêmica de Iniciação Científica e integrante do Grupo de Pesquisa Diálogos Literários. E-mail: [email protected] 59 Mestre em Estudos Literários (UEM) e docente da Rede Pública de Ensino. Integrante do Grupo de Pesquisa Novos letramentos, multiletramentos e o ensino de línguas estrangeiras (USP). E-mail: [email protected] 60 Docente de Literatura Brasileira na Unespar/Fecilcam. Doutoranda em Estudos Literários (UEM). Integrante dos Grupos de Pesquisa Diálogos Literários e LAFEB. E-mail: [email protected] 234 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Num segundo momento, observamos a construção das personagens femininas nos contos “Bárbara”, “Aglaia” e “Epidólia”, do escritor mineiro, Murilo Rubião. Essas personagens protagonistas apresentam trajetórias conturbadas e mesmo tendo um posicionamento forte e próprio perante a sociedade brasileira ainda tradicional, são reprimidas e sofrem as consequências. Portanto, o escritor leva-nos a uma reflexão da condição da mulher e da iniciativa que a mesma tem, de se buscar uma nova mulher, que caminha para a sua independência. Escolhemos analisar contos de Murilo Rubião, por esse ser o precursor dessa literatura no Brasil. Rubião dedicou-se exclusivamente ao gênero fantástico e a contos. Suas narrativas contêm elementos naturais, tal qual encontramos no nosso cotidiano e estes imbricam com os elementos sobrenaturais, proporcionando o aparecimento do fantástico. Em seus contos, faz contundentes críticas sociais perante a sociedade industrial do século XX e nosso foco é entender como os elementos fantásticos enfatizam a situação vivida pela mulher nessa sociedade ainda com costumes patriarcais. Os contos selecionados do escritor – “Bárbara”, “Aglaia” e “Epidólia” – contêm personagens femininas marcadas pelo insólito e representam essa sociedade mencionada. 2 O FANTÁSTICO NA NARRATIVA CONTEMPORÂNEA O gênero literário fantástico contém diversas e contraditórias teorias que explicam seu surgimento em narrativas. De acordo com Rodrigues (1988), há duas hipóteses para seu surgimento, a primeira seria desde Homero e As mil e uma noites. A segunda, para a teórica a mais precisa, é de que o surgimento do fantástico se deu em meados do século XVIII e XIX. Sendo assim, o fantástico surgiu em um momento histórico no qual a maioria das pessoas acreditavam fielmente em crenças religiosas e em eventos sobrenaturais. No entanto, devido ao Iluminismo, tais crenças começam a ser questionadas e a razão passa a fazer parte do cotidiano. Momento propício para o surgimento de um gênero literário que questiona as fronteiras entre o real e o sobrenatural. O fantástico alcançou muitos leitores a partir do romance gótico, por meio de cenários medievais, com castelos, heróis, donzelas, monstros, maldições, aventuras, como a obra Frankenstein, publicada 235 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS em 1818, por Mary Shelley. Eram obras que envolviam o leitor por meio do medo e do terror. David Roas (2001) afirma que “embora o gênero fantástico tenha nascido com o romance gótico, será no romantismo que alcança a sua maturidade” 61 (tradução minha) (p. 22). Contudo, somente após o Romantismo adquiriu maior status literário, visto que o gênero transformou-se. Assim como Roas (2011), outros estudiosos também acreditam que o fantástico teve início com o romance gótico. Segundo Volobuef (2000, p. 109), a narrativa fantástica dessa época “explorava diretamente os ambientes macabros, os lances dramáticos e o ritmo acelerado de aventura”, a fim de provocar terror e medo ao leitor. A partir do século XIX, o fantástico passa por profundas mudanças a fim de provocar ao leitor, do século XX, momentos de risos e reflexões sobre o seu cotidiano. Conforme, Volobuef (2000, p. 109), “o fantástico foi sendo paulatinamente depurado ao longo do século XIX até chegar ao XX com um arsenal narrativo mais sutil, enredos mais condensados, escritura mais requintada”. A fim de explicar as diferentes fases do gênero fantástico, Volobuef cita Coalla (1994) e as três fases que essa escritora define para o gênero. Primeiramente, “em fins do século XVIII e começo do XIX, o fantástico exigia a presença do elemento sobrenatural, materializando-se o medo na figura de um fantasma ou monstro (a causa da angústia está no ambiente externo)”, já “no século XIX, o fantástico passa a explorar a dimensão psicológica, sendo o sobrenatural substituído pelas imagens assustadoras produzidas pela loucura, alucinações, pesadelos (a causa da angústia está no interior do sujeito);” por fim, com uma roupagem totalmente nova, o gênero evolui no século XX, tomando para si a linguagem. Nesse século, [...] o fantástico transportou-se para a linguagem, por meio da qual é criada a incoerência entre elementos do cotidiano (a causa da angústia está na falta de nexo na ordenação de coisas comuns, na falta de sentido, no surgimento do absurdo). Se antes o insólito era produzido no nível semântico, no século XX ele se infiltra no nível sintático (VOLOBUEF, 2000, p. 111). 61 Aunque si bien el gênero fantástico nace com la novela gótica, será em el romanticismo cuando alcance su madurez. 236 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A partir do século XX, portanto, essa literatura tem como principal objetivo o desequilíbrio no mundo familiar do leitor. O fantástico, até o século XVIII, não era visto como gênero literário, o mesmo só ganhou importância com os estudos de Tzvetan Todorov, apresentados em seu livro Introdução a Literatura Fantástica, no qual expõe fundamentações teóricas a respeito do fantástico. Todorov (2004) procurou definir o gênero de acordo com as obras escritas até o século XIX. Conforme o crítico, o fantástico aparece frente a elementos naturais, que imbricam com os sobrenaturais, provocando a visão ambígua do leitor frente aos acontecimentos narrados. Assim, ocorre a hesitação do leitor. Para ele, “a hesitação do leitor é, pois, a primeira condição do fantástico”. (TODOROV, 2004, p. 37). Nesta mesma obra, Todorov (p. 36) afirma também que, “a fé absoluta como a incredulidade total nos levam para fora do fantástico; é a hesitação que lhe dá vida”. Quando o leitor hesita, ele se questiona se o que está lendo pertence ao mundo real ou não. A obra de Todorov, por ter sido escrita baseada somente em narrativas anteriores ao século XX, é muito questionada. Pois, como já afirmamos, após o Romantismo, as obras fantásticas sofreram alterações de estilo e temática. Mesmo assim, a teoria de Todorov contribui como embasamento para entender a essência do fantástico. Alguns estudiosos contemporâneos, como Karin Volobuef, Selma Calasans Rodrigues, Audemaro Taranto Goulart, David Roas, retomaram a definição e caracterização do gênero fantástico e a reelaboraram de acordo com suas respectivas épocas e perspectivas. Como o gênero fantástico surge a partir do confronto entre real/irreal, Goulart (1995, p. 34) o considera antinômico, porque “o insólito e o estranho ocorrem no universo familiar, e o cotidiano se caracteriza pela mistura do desconhecido com o conhecido”. Utilizando-se da visão de Goulart (1995), Lourenço (2009, p. 3), afirma que “é a fluidez das fronteiras entre o natural e o sobrenatural que torna aceitáveis as situações insólitas, por isso tanto as personagens quanto o leitor não questionam os fatos e não sentem medo”. A fronteira se torna tênue porque elementos sobrenaturais são inseridos em um ambiente que nos é familiar. Em outras palavras, na narrativa contemporânea um elemento estranho costuma ser inserido no dia-a-dia da personagem, sem nenhuma explicação racional. 237 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Diferente do século XIX, de acordo com Volobuef (2000), a narrativa fantástica contemporânea tem como temática a inquietação perante os avanços científicos e tecnológicos, bem como os devaneios oníricos ou de faz-de-conta, as angústias existenciais e psicológicas, e a sensação de impotência frente à realidade opressiva. Assim, essa narrativa não evoca medo ou terror, provoca reações no leitor como: “incômodo, surpresa, dúvida, estranhamento, mas também encantamento e riso” (VOLOBUEF, 2000, p. 110). Neste sentido, a narrativa fantástica provoca, também, um leque de questionamento ao leitor, fazendo com que ele através deste gênero efetue [...] uma reavaliação dos pressupostos da realidade, questionando sua natureza precípua e colocando em dúvida nossa capacidade de efetivamente captá-la através da percepção dos sentidos. Com isso, o fantástico faz emergir a incerteza e o desconforto diante daquilo que era tido familiar (VOLOBUEF, 2000, p. 112). Com isso, percebe-se que esse gênero pretende levar o leitor ao desequilíbrio do que até então considerava real. Além disso, o fantástico é visto como ameaça da desestruração de uma linguagem coerente, bem como, revela problemas e desvenda o cotidiano da sociedade. Apesar de o surgimento do fantástico ter provavelmente sido no século XVIII, na América hispânica e no Brasil houve o florescimento da literatura fantástica somente do século XX (RODRIGUES, 1988). O Brasil produziu menos literatura fantástica em comparação a América hispânica, sendo que no país, em pleno século XIX, segundo a teórica, o escritor Machado de Assis, em Memórias póstumas de Brás Cubas, foi o primeiro que utilizou elementos fantásticos. Para Rodrigues (1988), os autores contemporâneos brasileiros que mais se destacam nesse gênero são J. J. Veiga e Murilo Rubião. Outros, ainda mais modernos, como: Guimarães Rosa, Moacyr Scliar, Lígia Fagundes Telles e Flávio Moreira da Costa utilizaram também elementos fantásticos em suas obras, mas não dedicaram-se efetivamente a essa forma narrativa. Para Borges (2009), definir o surgimento de obras do gênero fantástico no Brasil não é tão simples, pois 238 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Existem muitas polêmicas e contradições de pesquisa com relação aos indícios da composição literária de gênero fantástico no Brasil, principalmente porque algumas delas consideram fantástico tudo aquilo que se contrapõe ao realismo e envolve estéticas de ruptura com essa característica, de maravilhoso, mágico etc (BORGES, 2009, p.7). Para o crítico, Álvares de Azevedo, em Noites na Taverna e Macário, foram as primeiras obras a apresentarem indícios de elementos fantásticos. Outros escritores, entre eles: Joaquim Manuel de Macedo, Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Érico Veríssimo também utilizaram esses elementos. Segundo Fonseca (1987), essa dificuldade de designar se uma obra brasileira pertence ao gênero fantástico ou não, se dá pelo fato de “não contarmos, efetivamente, com uma tradição literária que tenha usado o fantástico de maneira mais elaborada, (...) com valores de gênero literário próprio” (FONSECA, 1987, p. 165). Apesar de citar autores como Aluísio Azevedo, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, que utilizaram elementos fantásticos em algumas obras, Fonseca acredita que, no Brasil, o fantástico encontra sua especial preferência no conto. Em nossa pesquisa, decidimos abordar contos de Murilo Rubião, pelo fato de ter sido um escritor dedicado exclusivamente ao gênero fantástico e a contos, e por, em seus contos, apresentar personagens femininas marcadas pelo insólito. 3 O PAPEL PRECURSOR DE MURILO RUBIÃO NA LITERATURA FANTÁSTICA Murilo Rubião publicou a primeira obra, em 1947, titulada O ex-mágico, mas somente alcançou reconhecimento em 1974 com as obras O convidado e O pirotécnico Zacarias. O sucesso do escritor se deu principalmente com esse último livro, mesmo contendo contos publicados em obras anteriores. Seus livros, nessa época, começaram a ser indicados para concursos vestibulares. De acordo com Goulart (1995), Rubião ganhou reconhecimento na literatura brasileira atual. Suas obras são investigadas como um todo pelos especialistas, pois Rubião é um escritor que se atem a pequenos detalhes, com alto grau de significação. 239 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS De acordo com Sandra Elis Aleixo (2008), o escritor mineiro, Murilo Rubião é “único em seu tempo, rompe os padrões do realismo tradicional e não compartilha o mesmo regionalismo de Guimarães Rosa, ou a literatura intimista de Clarice Lispector” (ALEIXO, 2008, p. 188). Para Aleixo, a literatura desse escritor é comprometida com os problemas da realidade da sociedade, bem como, aborda situações para reflexão da súbita modernidade. Ainda segundo a pesquisadora, Rubião é conhecido pela sua singularidade de trabalhar com a reescritura de contos, pelo uso de epígrafes e também pela criação de personagens conturbadas. Conforme, Aleixo (2008), as narrativas de Murilo Rubião nunca se completam quanto ao processo de reescritura e em quase todos os textos contém a temática da metamorfose. Esse caráter circular das obras do escritor, através da reescritura, também pode ser visto nas epígrafes bíblicas, por ser de natureza profética, portanto, aponta para o futuro, assim pensamos na questão do círculo e do infinito. No conto “Bárbara”, a questão do infinito está bem marcada porque a protagonista pede e seu marido sempre atende seus pedidos, por isso o movimento circular, de repetição, até o fim do conto. Já em “Aglaia”, a protagonista não desejava ter filhos com o esposo, acaba parindo-os mesmo tomando os cuidados precisos e isso se repete até o fim da narrativa, passandonos a noção do infinito. A metamorfose também é uma característica comum nos contos. Em “Bárbara” ocorre o processo de mutação, que é o aumento do corpo colossal da personagem que engorda a cada desejo. Em “Aglaia”, são infindáveis os filhos que a personagem tem. Devido a tais transformações constantes, as personagens de Murilo Rubião “não se definem claramente como indivíduos singulares, ora pelos diversos nomes que recebem [...], ora pelas metamorfoses em outros seres, ora pela falta de um passado que os inscreva na História [...]” (ALEIXO, 2008, p. 193). Além de a tendência ao infinito e das metamorfoses, de acordo com Jorge Schwartz (1981), Murilo inunda seus textos com exageros e hipérboles, de forma aumentativa ou diminutiva. Os hiperbólicos pedidos de Bárbara refletem no tamanho do seu corpo colossal, já em “Aglaia”, a personagem principal gera filhos com o esposo, mesmo sem o contato sexual. Conforme Aleixo (2008), quase sempre, as personagens femininas dos textos de Rubião são personagens vistas pelo aspecto físico, a fim de induzir o parceiro a desejos eróticos. Temos o exemplo de Aglaia, ela “se desnudou: do busto despontaram os seios 240 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS duros. Subiu as mãos pelas coxas dela e pensou, satisfeito, que nenhum filho nasceria para deformar aquele corpo” (RUBIÃO, 2005, p. 189). Para Sandra Elis Aleixo (2008), nas personagens também ocorre a ausência de afeto entre elas, ou seja, sempre no final da narrativa, o relacionamento de amizade ou amor acabam obstruídos e sem indícios de felicidade, como ocorre em “Bárbara”: o filho raquítico e feio rejeitado pela mãe, representa a, também frágil, união do casal. Em “Epidólia”, a personagem feminina é uma mulher que representa ter vários amantes e Manfredo é um deles. O protagonista permanece infeliz do começo ao fim da narrativa. Vale entendermos que a maioria das personagens femininas de Murilo são ousadas, buscam se libertar do patriarcalismo, mesmo sem conquistas felizes e vidas marcadas pela solidão, até mesmo quando estão acompanhadas de outros. O espaço da narrativa acompanha a solidão sentida pelas personagens, pelos relacionamentos infecundos, bem como o tempo também é acrescido a esse ambiente angustiante. O tempo colabora para que aconteça o movimento circular das ações das personagens. Ainda para Aleixo (2008), o tempo também traz ações que levam narrativas ao infinito e, portanto, ao não fechamento do enredo. As personagens de Murilo Rubião são seres sem qualquer possibilidade de sair do mundo circundante, pois vivem numa sociedade opressora. Como podemos perceber, o fantástico de Rubião focaliza um mundo conturbado e, assim, acaba povoando suas narrativas com personagens que não se espantam diante dos fatos extraordinários, aprisionadas a um sistema opressor, que as condena ao tédio, à solidão e ao sofrimento, sem chances de fuga, o escritor mineiro posiciona sua produção nesse novo fantástico (ALEIXO, 2008, p. 189). Neste sentido, Rubião traz em suas narrativas, elementos insólitos e sobrenaturais de forma metafórica, a fim de realizar uma crítica à sociedade. Rubião tornou-se um escritor preocupado com o social, portanto sua literatura não é alienada e nem alienante. Sua preocupação direciona-se também a uma escrita engajada voltada ao absurdo da condição humana contemporânea. 241 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS 4 A REPRESENTAÇÃO DAS PERSONAGENS FEMININAS NOS CONTOS RUBIANOS Como sabemos, Rubião se ateve a pequenos detalhes com alto grau de significação. Os contos analisados, “Bárbara”, “Aglaia” e “Epidólia”, possuem, na maioria das vezes, elementos linguísticos que se repetem, como o uso de primeira pessoa para quem narra a história, o que ocorre “Bárbara” e “Epidólia”, cuja peculiaridade é apresentar narradores é masculinos. Além disso, outro fato que se repete nas três histórias é a condição da mulher numa sociedade androcêntrica. Em relação ao conto “Bárbara”, o narrador frisa o tempo todo “as manias” e “as esquisitices” da mulher, ou seja, representa a protagonista como egoísta e exigente, que prende o marido a satisfação de seus desejos: “Por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a satisfazer seus caprichos” (Rubião, 2005, p 33). Bárbara exigia que o esposo fosse buscar o oceano, um baobá, um navio e uma estrela. A cada desejo, a protagonista engordava. As metáforas do exagero permanecem durante toda a narrativa, refletindo o desejo de libertação frustrado a cada pedido, o que torna a protagonista cada vez mais incapaz de demonstrar afeto aos que estão à sua volta. Também notamos a questão do infinito, quando Bárbara pede uma estrela, dando a entender que o marido a buscará. O infinito está bem marcado porque a protagonista pede e seu marido se propõe, de uma forma figurada, a realizar o seu desejo, por isso o movimento circular, de repetição, permanece até o fim do conto. A metamorfose também é uma característica comum nas narrativas de Rubião. Em “Bárbara” o processo de mutação ocorre com o aumento do corpo colossal da personagem que engorda a cada desejo insatisfeito. A frustração dos desejos não realizados de Bárbara reflete no tamanho do seu corpo colossal. Além de a tendência ao infinito e das metamorfoses, de acordo com Jorge Schwartz (1981), Rubião inunda seus textos com exageros e hipérboles, de forma aumentativa ou diminutiva. No conto “Bárbara” ocorre a ausência de afeto de Bárbara para com o filho e o marido, ou seja, o relacionamento de amizade ou amor acaba obstruído e sem indícios de felicidade. No final do conto: o filho raquítico e feio rejeitado pela mãe, representa a, também frágil, união do casal. Vale entendermos que a maioria das personagens femininas de Murilo são ousadas, buscam libertar-se do patriarcalismo, mesmo sem 242 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS conquistas felizes e vidas marcadas pela solidão, até mesmo quando estão acompanhadas de outros. O espaço da narrativa acompanha a solidão sentida por Bárbara, pelos relacionamentos infecundos, bem como o tempo também é acrescido a esse ambiente angustiante. O tempo colabora para que aconteça o movimento circular das ações de Bárbara. Assim, para Aleixo (2008), o tempo também traz ações que levam narrativas ao infinito e, portanto, ao não fechamento do enredo. Bárbara e o esposo são seres sem qualquer possibilidade de sair do mundo circundante, pois vivem numa sociedade opressora. Como podemos perceber, o fantástico de Rubião focaliza um mundo conturbado. Notamos no conto “Bárbara”, que a protagonista tende a ser mais individual e esperta que o marido. Sua atitude comentada pelo narrador tende a mostrar o quanto a mesma é insensata e indiferente com a família. Também enfatiza a suposta preocupação e bondade desse narrador personagem para com Bárbara e o filho. Mas devemos observar que a protagonista não tem qualquer possibilidade de mudança, por isso vive ainda presa numa sociedade patriarcal. O marido, aparentemente, atende aos pedidos da mulher; mas na verdade, ele age como um homem do sistema patriarcal que provê a mulher de coisas. Traz tudo pronto para ela, mas não deixa a mesma ter vida própria, buscar a sua liberdade. Temos, como exemplo, o desejo dela de ver de perto o mar, mas ao invés do marido levá-la até lá, ele traz uma garrafa de água do mar para a protagonista. Ou seja, seus pedidos nunca se realizam de fato. Todas as metáforas do texto apontam para o desejo de libertação: mar, baobá, navio, estrela, mas não se concretizam, ela acaba sendo frustrada, assim como as mulheres oprimidas do sistema patriarcal. Também devemos levar em consideração que o conto é narrado pelo ponto de vista de um homem, que faz questão de se mostrar como vítima, falando das “esquisitices" da mulher, das "manias", das "extravagâncias”, isso quer dizer que ela não tem voz na história. No conto “Aglaia”, a história é narrada por uma terceira pessoa e mostra o caso de um casal que desacata a conduta normal dos casamentos do século XX. O próprio nome Aglaia, vindo do grego, significa “brilho, claridade”. Na mitologia grega, é uma 243 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS deusa da natureza, da beleza, acompanhada de mais duas graças: a Tália, que traz as flores e Eufrosina que representa a alegria. Elas alegravam a natureza, os homens e até os deuses, com suas belezas, nudez e sensualidade. Podem também representar a imagem primitiva da mulher. As Três Graças eram filhas de Zeus e da ninfa marinha Euríneme. Na pintura de Sandro Botticelli (1477-78), A primavera, podemos perceber que as ninfas eram damas de companhia de Vênus e associadas à primavera. A epígrafe desse conto, que pertence ao capítulo da Bíblia, é referente à maldição divina, em que Eva é castigada por ter oferecido a Adão o fruto proibido: “Eu multiplicarei os teus trabalhos e os teus partos” (Gênesis, III, 16). No conto, Aglaia leva o seu parceiro ao ato sexual. Logo após o casamento, a personagem com pressa de satisfazer os seus desejos sexuais, ela pede para despir-se e, em instantes, ela se encontra “vestida com uma camisola transparente, entremostrando a carnadura sólida e harmônica” (RUBIÃO, 2005, p. 189), o que desperta o desejo sexual do parceiro, ou seja, Aglaia usa-se de sua beleza, juventude e sedução para com o marido. No conto, o fantástico aparece quando Aglaia engravida de forma absurda, inicialmente tomando todas as precauções médicas e depois sem o ato sexual. Esse fato contrapõe a medicina e a filosofia da existência humana, principalmente, quando a protagonista começa a parir vários filhos, em um curto prazo de tempo. “Nasciam com seis, três, dois meses e até vinte dias após a fecundação” (RUBIÃO, 2005, p. 193). O exagero e a noção de infinito também aparecem nesse conto, pois os hiperbólicos nascimentos dos filhos do casal permanecem até o fim da narrativa. Aglaia e Colebra, personagens que pretendem com o casamento satisfazer seus desejos carnais, rompendo, assim, com o ideal patriarcal de casar para procriar. A personagem, inicialmente, consegue se realizar como pessoa, até aparecer a primeira gravidez. Ao abortar a criança, ela desafia as leis religiosas, contudo uma espécie de maldição recai sobre ela. Ela começa a parir sem cessar, é abandonada pelo marido e tem que pagar uma pensão para o mesmo. No conto, Aglaia tenta se distanciar desse ideal patriarcal da época. Ela tem um posicionamento forte, inicialmente, não ouve os conselhos do pai, figura muito representativa numa sociedade ainda muito religiosa. O pai é visto como a voz da sabedoria e da obediência. Desobedecer seus conselhos e não receber sua benção para o casamento, pode-se considerar uma relação que caminha para seu fracasso. 244 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O marido da protagonista é um homem que deseja sexualmente a mulher, bem como está interessado na herança que a tia da moça havia lhe deixado. Colebra foge dos seus compromissos daquela época, de homem protetor da família e passa a depender das mesadas enviadas pela esposa. Aglaia pode-se considerar uma mulher a frente de seu tempo, pois rompe com o ideal de mulher dona do lar, que casa para procriar, que é sustentada pelo marido. A personagem tem uma herança que a segura financeiramente e dá uma certa liberdade a mesma, usa anticoncepcionais, isto é, ela já tem acesso a remédios e tratamentos para evitar a gravidez, mas de fato, ela não consegue se libertar dessa sociedade opressora. Portanto, não há qualquer possibilidade de mudança e sim o aprisionamento da personagem, a qual sofre uma das piores ofensas da época, a de ser mãe solteira, a de dividir a herança com o marido, que nada tem a oferecer, a de estar condenada por desrespeitar as regras pré-estabelecidas naquela sociedade. No inicio da narrativa, a personagem demonstra-se decidida, já ao final demonstra fraqueza, característica considerada feminina, ao implorar ao marido sua ajuda. O próprio nome Colebra, vem do latim colubra que quer dizer serpente e evolui para o português como cobra. Ele é responsável pela infinidade de partos da mulher. As metáforas do exagero mostram a tamanha punição sofrida pelo casal, mas que recai sobretudo sobre a figura feminina. É possível enfatizar que o homem não sofre qualquer julgamento negativo por parte da sociedade, mesmo sendo sustentado por ela, mas a mulher é mal vista, sempre sofrendo maior opressão. O conto também termina com a noção de infinito, pois o simples fato de o conto se findar com o nascimento de novos filhos, os primeiros com olhos de vidros, remetenos a ideia que nascerão mais filhos e com um prazo de tempo ainda mais curto. Portanto, Aglaia se torna, no final, uma máquina descontrolada de fazer filhos. Já em “Epidólia”, quem narra a história é Manfredo, marido da protagonista. Epidólia não aparece de forma alguma no conto. Toda a narrativa gira em torno da busca incessante de Manfredo pela namorada. O protagonista procura Epidólia no hotel, na orla marítima, no lugar onde permanecia um pintor que tinha Epidólia como modelo e, por fim, na farmácia. De acordo com Bourdieu (2002), as mulheres vistas por uma sociedade androcêntrica, dividem espaços diferentes com os homens. Para o estudioso, os homens 245 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS frequentam espaços fora do ambiente familiar, e as mulheres são “excluídas de todos os lugares públicos (assembléia, mercado), em que se realizam os jogos comumente considerados os mais sérios da existência humana, que são os jogos da honra”. (BOURDIEU, 2002, p. 63). Epidólia, portanto frequenta espaços que até então só homens podiam, como também não tem uma casa fixa e nem família. Manfredo a procura , de forma desesperadora, mesmo não a encontrando, ele consegue pistas concretas da namorada, a qual esteve há poucas horas ou dias nos lugares procurados. Todos esses acontecimentos presenciados pelo protagonista fazem com que hesitemos do começo ao fim da narrativa. Nesse conto, a hipérbole atinge o tempo e o espaço, pelo fato desta ser representada pelas ações e descrições das personagens e enredo de forma contraditória. O lado sensual da mulher novamente é enfatizado, nesse conto. Epidólia é uma personagem feminina que, por meio das descrições de outros personagens, foge ao script feminino tradicional: casada, com filhos, dona de casa. Ela mora em um hotel, não segue rotina, não tem apenas um parceiro. Por isso, é julgada. O homem que busca constantemente a personagem pode representar uma sociedade patriarcal, na qual o homem exige a presença da mulher ao seu lado, sob seus olhos, dando-lhe satisfações. Percebemos que Epidólia não é concreta, mas existe através das pistas encontradas. Assim, Borges (2009, p. 17) cita Hermenegildo Bastos (1999) e a comparação que pode ser feita da protagonista com um fantasma ou, até mesmo, com a ficção, pela impossibilidade de “representar aquilo que é real e que só se restitui de forma fragmentada e de maneira contraditória”. Em “Epidólia”, observamos que a protagonista é rotulada, pois a sociedade rotula as mulheres de acordo com suas atitudes. Epidólia, que saía com vários homens, era julgada de forma negativa. No caso, se ela fosse um homem, isso certamente não aconteceria. O conto mostra a mulher vista pelo olhar da sociedade, visando que a personagem não tem voz em momento algum da narrativa. É descrita por olhos de outros, olhos masculinos. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 246 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Por meio das leituras a respeito do fantástico, percebemos que esse gênero passou por modificações ao longo dos séculos, de uma literatura voltada para o terror e entretenimento, no século XX, acaba por questionar o cotidiano das pessoas. Por mais que algumas obras já continham elementos fantásticos na literatura brasileira do século XX, Murilo Rubião foi quem se destacou com esse gênero, por escrever somente contos fantásticos. Vale ressaltar da divergência entre os teóricos quanto à questão das características desse gênero, mas todos confirmam a existência de elementos da realidade que se chocam com os elementos sobrenaturais, a fim de causar uma incerteza no leitor, deixando-o em dúvida se o que está diante dele é real ou irreal. Assim, a literatura fantástica tem por objetivo causar hesitação no leitor, mas acima disso, provocar nele certa ameaça ao conceito que se tem de real ou verdade. Murilo Rubião, além de provocar certo desequilíbrio no leitor pelo fato dos elementos naturais e sobrenaturais se imbricarem, também utiliza-se desse gênero para chamar a atenção e levar o leitor a reflexão dos problemas do seu dia a dia. Em seus contos, o fantástico ocorre por meio do exagero. Os três contos analisados, “Bárbara”, “Aglaia” e “Epidólia”, possuem personagens femininas que nos ajudam a refletir o papel da mulher numa sociedade ainda patriarcal. Essa sociedade possui uma visão de mundo totalmente androcêntrica. Podemos perceber nas personagens protagonistas, que elas, mesmo não aceitando a postura da mulher ideal daquela época, acabam sendo vítimas dessa sociedade, sofrendo assim alguma punição. Bárbara, durante o conto, possui uma certa postura de mulher que tem vontade de conhecer as coisas, de descobrir o mundo, mas acaba tendo seus desejos reprimidos. No entanto, ela rejeita o modo de vida imposta a ela, como cuidar do filho, do marido, da casa, assim ela vive solitária e infeliz. Aglaia também é ousada, busca para si uma vida sexual ativa, mas caba sofrendo uma punição sozinha, isso mostra o quanto os ideias da igreja e de uma sociedade machista ainda prevalecem com força em pleno século XX. Já Epidólia, a mulher invisível, busca no sexo a satisfação dos seus desejos, mas quase nunca aparece na cidade, vive sempre transitando de um lugar para outro. Epidólia, se podemos assim dizer, é o tipo de mulher que Bárbara e Aglaia gostariam de 247 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS ser. Epidólia não tem vida e paradeiro fixo, vive no eterno despertar, viaja, descobre coisas que Bárbara desejava e não conseguia por ser dependente do marido e estar presa ao modo de vida de sua época. Aglaia, busca ter uma vida sexual ativa, o que possibilitaria isso seria o casamento, mas o destino a castiga, fazendo com que ela gere muitos filhos, seja dona de casa, mas que não tenha sexo. Mesmo Epidólia, que usufrui de sua liberdade, acaba tendo uma vida marcada pelos maus olhares e falares sobre sua pessoa. De acordo com essa análise, ressaltamos que essas personagens femininas são muito significativas para o estudo da importância da representação feminina na literatura e sua intrínseca relação com a sociedade patriarcal e contemporânea. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALEIXO, Sandra Elis. O universo fantástico de Murilo Rubião. Revista Trama, PR, v. 4, n. 8, p. 187-198, jul/dez, 2008. BORGES, Gabriel Rodrigues. A composição das personagens femininas nos contos de Murilo Rubião como forma de autoquestionamento literário. Revista Água Viva, DF, v. 1, n. 1, p.1-22, out, 2010. BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. FONSECA, Pedro Carlos Louzada. Estudos de Literatura Luso-brasileira. Ribeirão Preto: Editora Coc,1987. GOULART, Audemaro Taranto. O conto fantástico de Murilo Rubião. Belo Horizonte: Ed. Lê, 1995. LOURENÇO, Daiane da Silva. A função do fantástico nos contos de Murilo Rubião: n: IV EPCT - Encontro de Produção Científica e Tecnológica, 2009, Campo Mourão. Anais do IV EPCT, Campo Mourão: Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, 2009. 248 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS ROAS, David. La amenaza de lo fantástico. In: ROAS, David (org.). Teorías de lo fantástico, Madrid: Arco/Libros, p. 7-49, 2001. RODRIGUES, Selma Calasans. O Fantástico. São Paulo: Ática, 1988. RUBIÃO, Murilo. Contos Reunidos. São Paulo: Ática, 2005. SCHWARTZ, Jorge. Murilo Rubião: a poética do Uroboro. São Paulo: Ática, 1981. TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2004. VOLOBUEF, Karin. Uma leitura do fantástico. A invenção do Morel (A.B. Casares) e o processo (F. Kafka). 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Valendo-se de teorias de Calvino (1990), Hegel (1980), Chevalier (2003), Freud (1974), entre outros, tenta-se compreender a construção lírica da artista Lília Silva que colore seus versos com a magia de figuras, com a exatidão de palavras e com um toque emocionante da sensibilidade de sua alma, dessa forma, se analisa um eu poético que anula sua existência e passa a viver da ausência da face de seu anjo, ou seja, da impossibilidade de amar. Com uma linguagem elaborada e intensas imagens que permeiam seus versos, a escritora articula realidade e fantasia, por meio, da matéria verbal. Palavras-chave: Lírica, Psicanálise, Imaginário. 1. Introdução Lília Aparecida Pereira da Silva nasceu na cidade de Itapira em São Paulo, em 1926. Pintora, desenhista, poetisa, psicóloga, escritora, jornalista e advogada. Tem publicado 103 livros nas áreas de Literatura: poesia, romance, literatura infantil, Artes plásticas, didáticos de Direito e de Psicologia. Atua como membro da Diretoria da Associação Internacional de Artes Plásticas - Comitê Brasileiro da Unesco, de 1971 a 1977. Em paralelo a essa atividade, recebe bolsa de estudos de Desenho e cursa a Faculdade Nacional de Desenhos (1974), em Porto Alegre. No ano seguinte, viaja para 62 Mestrando de Linguagem e Sociedade – Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) Bolsista da CAPES [email protected] 63 Pós Doutorado em Letras – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) Professor Associado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) [email protected] 250 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Vírginia, EUA, e faz doutoramento em artes plásticas pela Christian Orthodox Church Bielarys - Holy Heart College. A poetisa Lília possui poesias versadas em inúmeros países. Foi à primeira oradora feminina no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1971. Representou o Brasil em Literatura, em Toluca, México (1972), e em Artes Plásticas, em Santiago no Chile (1974). Pertence a várias antologias nacionais e internacionais. Alguns dos títulos publicados pela escritora: Em 1991, 33 anos de Poesia - 2 vol; Em 1994, Mínimos Conceitos (poesias) e Contos Abstratos; No ano de 1996, Carnaval Brasil; Em 1997, Europeanas; No ano de 2001, Saia de cigana entre galáxias; Em 2002, Desenho e Pintura; Em 2004, Chuva de gatos verdes; Publicado em 2005, Diário na Suíça e em 2006, Histórias do espantalho pescador, entre outros livros que abrangem a área da poesia, romance, histórias infantis, direito, teatro, psicologia, entre outros. Em relação às artes plásticas, a artista possui várias exposições de suas obras em museus brasileiros e estrangeiros. Na composição de suas obras plásticas ela trabalha com acrílico, tela, esmalte, purpurina, colagem, alumínio, aquarela, entre inúmeros outros materiais. As obras de Lília Silva transcendem a alma e perpassam do figurativo ao abstracionismo, apresentando novas técnicas de perspectivas expressionistas e surrealistas. Busca-se nesse artigo uma análise da obra “Balada do anjo”, uma balada solene, melancólica e angustiante de um eu poético em busca de seu amor, de seu paraíso, das asas do anjo/amado que o resgatará das trevas de seu coração. Com base nas teorias de Calvino (1990), Hegel (1980), Chevalier (2003) entre outros, tenta-se compreender a construção lírica da artista Lília Silva que colore seus versos com a magia de figuras, com a exatidão de palavras e com um toque emocionante da sensibilidade de sua alma. 2. Indagações da alma em “Balada do anjo” Balada do anjo Enquanto soletro a morte nos segundos, onde tua face, anjo: 251 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS entre a ferrugem e a traça, ou nos seixos da brisa invisível? Onde tua face, anjo: em meus rastos no longo fio, sob a sombrinha equilibrista acima dos arranha-céus? No pulso do outono, Exaurindo-me? Na solidão de uma pedra? Em cada olhar Julgado Amigo? Onde enviar os pássaros de meu coração: às luas nostálgicas, aos faunos nauseantes - ratos sagrados em meu corpo? Onde usar minhas asas: na oficina do caos que me desaba ou no lume decepado em suas feridas? Onde tua face, anjo, que dizem viver como perfil do mundo, ou âncora, sei eu? Onde tua face, se as pedras crescem e pedregulhos agitam-se em minhas pegadas? Onde tua face, anjo, para enxergar-me a lágrima de um mundo a um? (SILVA, 1991, p.211) O sujeito da enunciação da obra “Balada do anjo” inicia o poema mergulhado em uma profunda melancolia sendo arrebatado pela escuridão de sua alma, “Enquanto soletro a morte nos segundos”, o eu lírico se encontra preso a uma angústia desesperadora, um sofrimento que enreda não só as horas, mas cada suspiro de ar – de vida, onde os segundos tornam-se soletrados pelas trevas da desilusão. Para o crítico Eagleton (2010, p.309), “A tragédia é um prazer com um quê de terror, como naquela 252 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS forma moderna do sublime conhecida como filme de terror. Ela nos permite confrontar e ensaiar a nossa própria morte, e assim, em certo sentido, desarmá-la”. Como bem coloca o autor, o sujeito poético liliano ensaia dolorosamente sua morte, em segundos de agonia, de espera – de um encontro com seu amado. Antes de lançar seu último adeus, o eu poético procura incessantemente seu anjo (amor), e essa incansável busca é a energia que torna o eu lírico ainda vivo. “Onde tua face, anjo:/ entre a ferrugem e a traça/ ou nos seixos da brisa/ invisível?”. Nos versos da poetisa, analisa-se a procura de uma imagem desgastada pela ferrugem da tristeza ou corroída pela dor do tempo que se passou. Assim como um seixo, o eu poético se reduz a uma minúscula pedra, como se nada mais houvesse sentido, significado em sua existência. Partindo da psicanálise de Freud (1974, p.33), em relação aos estudos literários, “O afeto que corresponde à melancolia é o luto, ou seja, anseio por alguma coisa perdida. A melancolia, portanto vincula-se a uma perda, uma perda na vida instintiva [...]”. Dessa forma, compreende-se que o sujeito poético vive em busca da face de seu anjo perdido, e assim reduz sua vida ao “nada” como uma pedra abandonada em uma praia deserta emaranhada pela brisa de suas lágrimas. A palavra poética nos versos de Lília A. Pereira da Silva funciona como força que recria sentidos e que intensifica emoções onde a poetisa constrói e desconstrói universos da alma, ora funestos como a morte, ora romantizados como seixos da brisa. Para Javier González, a palavra é sempre “manifestação profunda do ser” (1990, p.156). A escritora faz de seus versos um imaginário encantado, onde o eu poético bravamente tenta equilibrar-se sobre um fio, e além da extrema dificuldade de manter-se de pé, ainda necessita se equilibrar com uma sombrinha acima de arranha-céus. Sobre essa fantástica fantasia criada por Lília, Itálo Calvino expressa, Seja como for, todas as “realidades” e as “fantasias” só podem tomar forma através da escrita, na qual exterioridade e interioridade, mundo e ego, experiência e fantasia aparecem compostos pela mesma matéria verbal; as visões poliformas obtidas através dos olhos e da alma encontram-se contidas nas linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas, de parênteses, páginas inteiras de sinais alinhados, encostados uns aos outros como grãos de areia, representando o espetáculo variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento do deserto. (1990, p.114). 253 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Valendo-se do que afirma o autor, a palavra poética Liliana mescla realidade e fantasia com os contrastes líricos e as cores da emoção que pincelam os versos como “pinturas” do interior. Segundo Cruz (2008, p.140) “a poesia é revelação da condição humana e, por essa razão, criação do homem pela imagem”. Observa-se nos versos “Onde tua face, anjo:/ em meus rastos no longo fio/ sob a sombrinha equilibrista/ acima dos arranha-céus?”, um sujeito poético na triste busca por seu anjo (amor) e assim sua existência vai caminhando pelo fio da morte, cada passo uma tentativa de equilibrar-se sob um precipício que cerca seu coração, um abismo tão profundo quanto à altura de um arranha-céu. O eu lírico não consegue forças para florescer sua gana de viver e assim vai perdendo suas únicas folhas (esperanças), seus restantes sonhos, como “No pulso do outono/ Exaurindo-me?”. E no meio dessa ventania fria do fim de sua existência todos os vértices de luz vão se dissipando e o eu poético exaurindo-se. “Na solidão de uma pedra?/ Em cada olhar/ Julgado/ Amigo?”. O sujeito da enunciação encontra-se mais solitário que uma pedra, que um seixo, pois vive da decepção de cada olhar que julgou ao seu amado, mas sem a certeza de sê-lo amigo ou não. Na terceira estrofe da obra “Balada do anjo”, verifica-se a escolha poética de distintos símbolos que mostram versos que transcendem a realidade guiando os pensamentos a “bosques inabitados” a figuras imaginárias que o inconsciente esconde nas suas gavetas mais secretas. Analisa-se nos versos lilianos, “Onde enviar os pássaros/ de meu coração:/ às luas nostálgicas,/ aos faunos nauseantes/ - ratos sagrados em meu corpo?”, elementos que fazem refletir e que emergem das profundezas do ser. Conforme o crítico Italo Calvino, Digamos que diversos elementos concorrem para formar a parte visual da imaginação literária: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus vários níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na verbalização do pensamento. (1990, p.110). Partindo dos pressupostos do teórico, compreende-se que a escritora com uma sensível observação do mundo real concebe imagens de “pássaros, luas, faunos e ratos” que pincelam a terceira estrofe transfigurando o universo real e, assim, constituindo um 254 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS universo imaginário. O eu poético segue sua angústia, pois não sabe o que fazer com os sentimentos que desejam voar como pássaros de seu coração, desse anseio que lateja que arde na vontade de bater suas asas rumo ao encontro do seu anjo, desse amor que foi perdido, mas outrora que ser encontrado. E que se depara com noites de solidão, com a escuridão de nostalgias aprisionadas por sua mente de um sentimento que no passado foi consumado, e que, no entanto, se oculta no presente. De acordo, com Kierkegaard (2004, p.65) “o desespero tem consciência de ser um ato e não provém do exterior como um sofrimento passivo sob a pressão do ambiente, mas diretamente do eu”. O sujeito poético passa a se aniquilar por sua própria desilusão de si e do amor. Silva enriquece seus versos com imagens, como, por exemplo, relacionados à mitologia o que se observa no verso “aos faunos nauseantes/ - ratos sagrados em meu corpo?”. No poema, o eu poético liliano ainda que esteja mergulhado nas trevas da melancolia encontra em seu corpo o vigor dos anseios carnais (faunos 64), ou seja, os estímulos sexuais que tornam-se “nauseantes” pela ausência do seu anjo-amado. Dessa forma, suas volições de vivenciar esse sentimento roem sua existência como “ratos sagrados” pela ânsia dessa consumação irrealizável. Destacam-se no poema, as indagações do sujeito da enunciação que reflete sobre si e sobre o Outro. Com a exatidão de palavras e expressões que se (re) inventam a cada estrofe construindo novos questionamentos, de um Eu em busca de sua verdade, e ao mesmo tempo, da salvação de sua alma, através de um anjo – que o levará a morte ou ao amor. Para Cruz (2008, p.141), “É por meio da imaginação e da concretização da poesia que o ser humano consegue dar forma às coisas mais tênues, evanescentes e se autoafirmar”. Partindo das palavras do autor, entende-se que os versos lilianos com extrema sensibilidade concebem formas sublimes resultado do profundo descortino da poetisa. Nos versos, “Onde usar minhas asas:/ na oficina do caos que me desaba/ ou no lume decepado/ em suas feridas?”. O sujeito lírico tenta voar desse sofrimento que o consome, mas para onde? Para quem? Perguntas se sucedem na falta de respostas que não aparecem. O caos – causado pela ausência de Eros,toma conta dessa mente, dessa 64 Segundo o Dicionário de mitologia greco-romana, “os faunos eram divindades romanas campestres, possuíam o corpo humano, com chifres e pés de bode”. (CIVITA, 1976, p. 72). De acordo com a mitologia grega, tinham a características de apresentarem grande potência sexual. Assim, eram retratados, por muitos pintores gregos, apresentando ereção. 255 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS oficina habitada pelo desamor, de um sentimento em chamas decepado pelas feridas causadas em seu “supremo” ser celestial. A construção poética de Lilia A. Pereira da Silva configura versos fluentes, elaborados e precisos, com o toque contemporâneo a poetisa emerge figuras que tecem emoções infindas que colorem sua obra com contornos da sua singularidade de ver o mundo. Segundo Hegel, Será necessário que as ideias e impressões que o poeta descreve, sendo pessoais, conservem, todavia um valor geral, quer dizer, sejam autênticos sentimentos e considerações capazes de despertar em outras pessoas sentimentos e considerações latentes, despertar esse que só pode ser dado graças a uma expressão poética viva. (1980, p.218), Partindo das palavras de Hegel, os versos lilianos em toda sua estrutura “gritam” uma expressão poética viva que se mostra fortemente nas suas figuras líricas que transcendem o mundo real. Observa-se em “Balada do anjo” um sujeito poético que segue sua rota de indagações, “Onde tua face, anjo/ que dizem viver como perfil do mundo/ ou âncora, sei eu?”, nessa trilha a felicidade do eu lírico continua distante, pois a face de seu amor, permanece oculta. Assim, ele busca motivos para que seu amado retorne, comparando Eros com um circulo igual ao “mundo” onde por mais voltas que se dê, retorna-se ao mesmo ponto, pois a circularidade é interrupta, ou ainda, como uma âncora que não permite que o barco afunde, por mais torrentes que sejam as águas. Enganado por essa ilusão, o sujeito da enunciação vai vivendo preso à solitária nostalgia de uma desgastante procura. Na última estrofe, “Onde tua face, se as pedras crescem/ e pedregulhos agitamse em minhas pegadas?”. O eu lírico buscando uma face inavistável vai tornando sua angústia incurável em um caminho árido. Assim, na modernidade, para Villari (2002, p.66), “ocorre um corte na concepção da melancolia como estado próprio ou interior, distanciando-se cada vez mais do ideal hipocrático”. A melancolia torna-se, segundo o autor, um estado escolhido de ser no mundo ou uma forma de conceber a existência. Compreende-se que o eu poético estrutura as bases de sua vida na procura por seu anjo perdido, enquanto sua existência vai sendo anulada, pois a sua felicidade se encontra em outrem. 256 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O sujeito poético vai se ausentando, se tornando sombra, ocultando seus sentimentos para se voltar a uma busca inexistente que reside no platonismo de seu coração e na fantasia de sua mente. Nos versos finais, “Onde tua face, anjo, para enxergar-me a lágrima/ de um mundo a um?”. As indagações permanecem, a face segue oculta e o amor inconcretizável. Entretanto, uma certeza entre todas as interrogações do poema se constitui, de que se pode enxergar a lágrima de um mundo a um – a solidão e a tristeza de um eu poético que caminha solitariamente no anoitecer de suas recordações, na jornada ao encontro da morte e não do amor. “A inquietação ante o sentimento de alguma coisa perdida, de um vazio a ser preenchido. Como o que se perdeu não retorna, o romântico assume e trata mesmo de evidenciar o luto” (VIANA, 1994, p.35). E nessa estrada negra, o eu poético começa os versos iniciais dessa balada e, assim, termina, sem resposta, sem seu anjo, sem sua vida. 3. Poesia e figurativismo Nos versos do poema “Balada do anjo” se observa um constante figurativismo que é uma das principais características da poesia liliana. A escritora delineia as mais latentes emoções que se personificam em suas imagens. O jornalista Quirino Silva discorre sobre o figurativismo da autora, Uma vez dentro desse luminoso mundo, a artista procura o universo do encantamento e do desencantamento das coisas da vida. Entrelaçando, às vezes, as figuras, Lília as obriga a revelar, “sem máscara”, a sua miserável dependência humana. Confessa, a pintora preferir o figurativismo. Esta preferência decorre das muitas pesquisas abstracionistas, tachistas. (1962, p.81). Com uma linguagem suave e encantadora a poesia de Lília vai se articulando com figuras do imaginário e do inconsciente humano que refletem bucólicas e efêmeras nuanças da travessia do sujeito poético. Nessa estrada, o eu lírico expressa seus anseios e angústias, por meio, de imagens, que revelam o teor de seus sentimentos. Partindo de estudos simbológicos de Chevalier (2003, p.14), “O símbolo tem precisamente essa propriedade excepcional de sintetizar, numa expressão sensível, todas as influências do inconsciente e da consciência, bem como das forças instintivas e espirituais, [...]”. 257 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Compreende-se que reside na palavra poética da poetisa a síntese exata do interior que configura símbolos que transgridem a facúndia dos seus versos. Na primeira estrofe do poema, há duas imagens em contraposição: Morte e anjo. Uma antítese criada pela autora, para manifestar a dualidade dos sentimentos que o eu poético passa a viver. Assim, o sujeito lírico caminha, entre a expectativa de viver – do amor (anjo) e da possibilidade de desistir – de permanecer em uma eterna melancolia (morte), dessa forma, se encontra na solidão de um entrelugar denominado por Santiago (2000, p.26), “entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão – ali nesse lugar aparentemente vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade [...]”. Esses sentimentos contraditórios de viver/morrer se figuram nas estrofes da poetisa como consequência natural da vida humana, isto é, segundo Eliade (1992, p. 14) “A oposição sagrado/profano traduz se muitas vezes como uma oposição entre real e irreal ou pseudo real”. Conforme o autor, o sujeito poético se alimenta da dor pela busca de seu anjo – sofrimento de uma procura real na tentativa de vivenciar um amor platônico – irrealidade. A ferrugem e a traça emergem como figuras da melancolia que vai corroendo e deteriorando aos poucos o coração do eu poético. Os seixos e a brisa pintam um cenário romântico – como sublimidade do eu lírico em acreditar no amor. Na segunda estrofe, “anjo, fio, sombrinha equilibrista, arranha-céus, outono, pedra, amigo” são figuras que se destacam nos versos, cujo anjo se pode analisar como imagem recorrente que se torna a raiz do poema, pois a existência do sujeito lírico se concebe pela busca do anjoamado. De acordo com Quirino Silva, As linhas de sua grafia, puras e livres, fixam os seus momentos de poesia, que um anjo está sempre a proteger. O anjo e o palhaço emergem em quase todas as suas composições. A ideia do anjo não abandona a artista. Tanto que, quando ele se ausenta, Lília vê em quase tudo que a rodeia as asas do seu anjo. (1962, p.70). Sem perder de vista esse anjo que alimenta sua alma e completa seu coração, o eu poético se volta a persistente e sofrida procura pela felicidade de uma existência que se constitui pelo amor ao Outro e não a si. As figuras fio, sombrinha equilibrista, 258 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS arranha-céus, outono, pedra, representam a total dependência de como estar preso a um fio; vulnerabilidade e insegurança na tentativa de equilibrar-se com uma sombrinha; distância e temor de uma edificação oponente como um arranha-céu; frio e instabilidade causado pelos ventos do outono; a solidão de um vazio representado pela pedra. E, por fim, a doce figura do amigo aquele que cuida, compreende e se faz presente, seria ela a única a fugir dos adjetivos fúnebres dessa triste estrofe, senão fosse acompanhada pela incerteza de um ponto de interrogação que a torna – como uma dúvida angustiante do eu lírico. Imaginação, fantasia e palavra poética estão concatenadas na lírica de Lília A. Pereira da Silva. Por meio, da precisão de suas palavras e do ritmo melódico do seu poema ocorre uma poesia singela e encantadora. Na terceira estrofe, aparecem as imagens: pássaros, coração, lua, faunos e ratos. De acordo com Chevalier (2003, p.688) “O pássaro símbolo da alma, tem um papel de intermediário entre a terra e o céu”. Compreende-se que o sujeito poético encontra-se em um estado de limbo, ou seja, atingirá o céu se encontrar seu anjo e só voltará para terra se desacorrentar-se dessa tristeza que o consome. Os versos lilianos buscam na imaginação uma via para alcançar um conhecimento extra-individual, assim como Calvino também expressa, Sempre busquei na imaginação um meio para atingir um conhecimento extra-individual, extra-objetivo; portanto seria justo que me declarasse mais próximo da segunda posição, a que a identifica com a alma do mundo. (1990, p.106). As figuras lua e coração representam a condição sentimental do eu poético, partindo dos pressupostos de Chevalier (2003, p.561), a lua seria um reflexo do sol, assim, o sujeito da enunciação se vê como um reflexo do seu amor que é o sol de sua existência e a luz mais intensa de sua alma. A imagem do coração emerge como centro das emoções – é a fonte que emiti a energia para o eu lírico prosseguir em busca de seu anjo, mas também é o local onde nascem dores incicatrizáveis. Os faunos e ratos imagens sombrias se revelam no poema como estímulos positivos (faunos) e negativos (ratos) que despertam no interior do sujeito lírico. Percebe-se que a poesia liliana articula imagens surreais com emoções da alma num sensível encontro entre mente e coração. Segundo Hegel, 259 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O estado de alma mais instantâneo, os alheios do coração, os relâmpagos de alegria, a tristeza e a melancolia, as lágrimas, enfim toda a gama de sentidos nos seus movimentos mais rápidos e acidentes mais variados permanecem fixos e eternizados mediante a expressão verbal. (1980, p. 223). Valendo-se do que afirma o autor a expressão verbal dos versos de Lília A. Pereira da Silva busca a força profunda das palavras constituídas nos poços da alma e do inconsciente. Na quarta e na quinta estrofe, a imagem do anjo reaparece com suas asas, com o poder de resgatar o eu lírico das trevas de seu coração representado pelas figuras da âncora, lume, caos e feridas que expressam o sofrimento de um ser incompleto, que só encontrará a completude em seu anjo. Para o autor Paul Valéry (1991, p.205), “[...] a poesia é uma arte da linguagem”, observa-se nos versos de “Balada do anjo” que o fazer poético se manifesta na tessitura de palavras, sons, formas e imagens que configuram um universo imaginário e ao mesmo tempo emotivo que assim como, audaciosos “passos de balé”, elaboram uma dança de versos que encanta e emociona. “Efetivamente, enquanto o andar é, em suma, uma atividade bastante monótona e pouco perfectível, essa nova forma de ação, a Dança, permite uma infinidade de criações e de variações ou configurações” (VALÉRY, 1991, p. 211). Assim, considera-se que, apesar dessa balada como diz o título do poema ser de um sujeito lírico que padece de amor, ela configura movimentos exatos, sublimes e românticos. Na ultima estrofe, as imagens: pedra e pedregulho surgem como obstáculos, barreiras que se constituem na estrada do eu poético. As figuras, pegadas, anjo, lágrima, mundo e um, isto é, compõem um campo semântico que expressa à dor de um eu lírico a procura de uma saída desse obscuro caminho que se encontra. Porém, as únicas saídas existentes para ele é a morte ou o amor. Segundo Octávio Paz (1994, p. 92), é a consciência do fim que leva o ser humano ao amor, “O amor é uma das formas que o homem inventou para olhar a morte de frente. Pelo amor roubamos ao tempo que nos mata umas quantas horas, que transformamos, às vezes, em paraíso e outras em inferno”. Valendo-se dos pressupostos de Paz, o sujeito poético vive acorrentado a um inferno causado pelo sofrimento de uma procura incansável por um sentimento 260 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS inexistente – a falta causada por esse sentimento torna a travessia do eu poético vazia, incompleta e a morte surge como uma possibilidade para estancar o desespero. Assim, considera-se que ao encontrar o anjo/o ser amado, o eu lírico estaria encontrando o paraíso. 4. Poesia e Psicanálise Para que se efetive um estudo sobre o imaginário poético de uma escritora extremamente sensível e de uma expressividade forte e emotiva, busca-se além de críticos literários e filósofos, uma ponte com psicanalistas afim de uma compreensão mais profunda do eu poético liliano. Marini (1997, p.40-50), por sua vez, assinala que, na história do saber psicanalítico, estão presentes muitos encontros com os mitos, os contos e as obras literárias. Literatura e psicanálise “se fundem ambas num trabalho da linguagem e do imaginário” (MARINI,1997, p.46), como águas que se deságuam em um mesmo córrego. Notórios psicanalíticos como Freud demonstra grande interesse pela literatura em diversos ensaios, recorrendo ao texto literário para sustentar conceitos teóricos da sua teoria psicanalítica. Da mesma forma, autores e críticos literários se estruturam na psicanálise como suporte para suas leituras, buscando, nessa área, elementos que auxiliam na investigação de alguns dos inúmeros sentidos da obra literária. Nessa relação entre literatura e psicanálise objetiva-se um fértil diálogo para compreensão do sujeito poético de Lília. 5. Considerações Finais Para se compreender a profundidade do poema “Balada do anjo” de Lília A. Pereira da Silva se parte dos pressupostos de críticos literários como Italo Calvino, Terry Eagleton, Paul Valéry e outros, além dos estudos simbológicos de Chevalier (2003) e da Psicanálise. A construção poética da escritora reside em formas precisas, no figurativismo e numa extrema sensibilidade que emerge fortemente em seus versos. O imaginário constituído em sua obra é povoado por imagens intensas que revelam as lacunas da alma. 261 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Em “Balada do anjo” se observa um sujeito poético que trilha uma estrada melancólica em busca do seu amor, da face perdida de seu anjo. Na incansável busca por seu enamorado, o eu lírico vai anulando sua existência para se voltar a uma angustiante e dolorosa jornada ao encontro de um sentimento idealizado e platônico que faz de sua vida um entrelugar – entre céu e inferno. E nesse limbo que se enreda, ele vai soletrando a morte nos segundos como expõe Lília em seus versos. Para Psicanálise, valendo-se das teorias de Freud e Viana, o eu poético vive da ausência, do anseio desse sentimento perdido, é esse desejo de realização que o faz um ser existente pela incompletude. Dessa forma, o eu lírico navega pelos versos da obra carregando o sofrimento da impossibilidade, almejando um anjo inexistente. Valendo-se de Cruz e Valéry a respeito da lírica da poetisa, se entende que seus versos revelam a condição humana representada por imagens que se configuram como uma arte da linguagem, isto é, com movimentos e formas que encantam. Com base nas teorias de Calvino, o ato imaginativo dos versos lilianos articula realidade e fantasia que tomam forma, por meio, da polidez de suas palavras. Com uma observação singular e apurada do mundo, Lília transcende a realidade com figuras que desvelam as angústias e intermitências da alma. Referências Bibliográficas CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. CIVITA, Victor (editor). Dicionário de mitologia greco-romana. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1976. CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionários de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002. CRUZ, Antonio. Palavra poética e experiência religiosa em Rodrigo Pitta: uma leitura de Água, Gasolina e a Virgem Maria. In: ALVES, Lourdes; CRUZ, Antonio. Poética e Sociedade: Interfaces literárias. Cascavel, Edunioeste, 2008. EAGLETON, Terry; BEAUMONT, Matthew. A tarefa do crítico. Trad. Matheus Corrêa. São Paulo, Ed. 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Rachel de Queiroz, com O Quinze (1930), e Graciliano Ramos, com São Bernardo, de 1934, engendram as personagens femininas, Conceição e Madalena, como heroínas problemáticas, na concepção de Georg Lukacs (2000), que não se adaptam ao modelo patriarcal vigente e, por meio de ações e palavras, questionam os valores estabelecidos até então. Ambas, professoras e intelectuais, tornam-se singulares à medida que mostram os percalços do início da ascensão feminina no Brasil. As duas personagens, com traços identitários semelhantes, como a generosidade e a solidariedade para os menos favorecidos, opõem-se ao ideal dominante. Esse trabalho, que tem como objetivo uma análise comparativa das personagens, Conceição e Madalena, como heroínas problemáticas, respalda-se, entre outros, nos estudos teóricos de Dacanal (1986), Lukacs (2000), Bosi (2006) e Duarte (2011). PALAVRAS-CHAVE: Patriarcado; Romance de 30; heroínas problemáticas. A década de 30, foi altamente transformadora, pelo desastre econômico que alguns países, considerados fortes, como os EUA passaram, pela revolução industrial e pela direção que a civilização mundial tomou, caminho sem volta, enfim, uma década de movimentos e momentos revolucionários. No Brasil, país recente e procurando um espaço, não poderia ser diferente. A política da Era Vargas foi bastante emblemática, por se tratar de um ícone popular e um transformador, para o bem ou para o mal, das políticas sociais do país. Apesar desta rapidez com que mudanças na história aconteciam, certas culturas e costumes da sociedade, não se transformavam com a 65 Graduando do Curso de Letras da UNESPAR/FECILCAM. Integrante do Grupo de Pesquisa Diálogos Literários, e-mail: [email protected]. 66 Professora Orientadora. Docente do Curso de Letras da UNESPAR/ FECILCAM. Doutoranda em Estudos Literários (UEM). Integrante dos Grupos de Pesquisa Diálogos Literários e LAFEB. E-mail: [email protected]. 264 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS mesma rapidez. Ainda, éramos um país dominado pelo patriarcalismo e a figura da mulher, marcada pela submissão e falta de possibilidades de crescimento pessoal e profissional. A literatura, com reflexos da transformadora Semana de Arte Moderna, de 1922, já não seguia padrões, fórmulas e características divididas em períodos, como no Romantismo, Naturalismo, Realismo, etc; Neste contexto histórico cultural, surgem nomes que se eternizariam ou eternizariam suas obras. Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, curiosamente, com poucos anos de diferença, lançam obras que vão na contramão do que prega a sociedade para o papel da mulher. Rachel de Queiroz, normalista, professora, dedicada à leitura, colocaria muito de si na personagem Conceição, de O Quinze, publicado em 1930, também professora, também dedicada à leitura. Ser professora no final do século XIX e início do XX, era o máximo que a sociedade patriarcal permitia, pois ser professora e a escola, eram considerados profissão e lugar, extensão do lar. É justamente isso que evidencia Jane Soares de Almeida, na obra Mulher e Educação: a paixão pelo possível, que mostra as dificuldades de inserção da mulher nessa profissão. Para a autora, Na realidade, o fim último da educação era preparar a mulher para atuar no espaço doméstico e incumbir-se do cuidado com maridos e os filhos, não se cogitando que pudesse desempenhar uma profissão assalariada. A mulher educada dentro das aspirações masculinas seria uma companhia mais agradável para o homem que transitava regularmente no espaço urbano, diferente do período colonial com seu recolhimento e distanciamento do espaço da sociabilidade. ( 1998 p.19) Rachel de Queiroz, professora, juntamente com outras mulheres que acabaram ganhando espaço na sociedade, ainda que lentamente por conta da nova profissão, visto que a mulher, ao se interessar e se apropriar das escolas que formavam novas professoras, acabou se apaixonando pela nova profissão. 265 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Graciliano Ramos, colaborador e fundador de jornais, apreciador das boas letras, teve sua infância no sertão de Alagoas, onde presenciou todas as agruras que por fim usaria como base para diversas obras que publicaria. São Bernardo, de 1934, é uma obra com personagens áridos em sentimentos, como o clima que presenciou em toda sua infância. Mas longe de ser uma obra árida, o autor compõe um texto rico em revelar o emaranhado das emoções humanas. Revela-se o poder de sintetizar estas emoções do autor através de suas experiências pessoais. Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.(MIRANDA, 2004, p.27) O escritor ainda manifesta, em sua história, seu olhar crítico sobre a desigualdade social provocado pelas secas e uma certa violência com que este assunto era tratado. Opiniões sem dissimulação e cheias de severidade com os problemas da terra onde nasceu. Um tipo de personagem que ficou muito famoso a partir da década de 30 é o herói problemático. Quando o herói de uma obra literária, ao invés de se adaptar e andar conforme o meio em que está inserido, procura resistir, não se sujeitando a suas influências e, na maioria das vezes, fazendo o que está ao seu alcance para tentar melhorá-lo, podemos chamar tal personagem de herói problemático. Essa denominação deve-se aos estudos de Georg Lukacs (2000) que afirma que o herói do romance surge de um mundo cindido entre essência e aparência, que seria o mundo degradado da sociedade burguesa. Para ele, sendo o herói romanesco responsável por seus atos, ele está irremediavelmente condenado a fazer escolhas. Para o autor, a relação entre personagem e espaço poderia ser entendida como uma representação literária da relação entre o indivíduo e a sociedade. Em conflito com o espaço, as personagens podem reagir de diferentes modos, de acordo com a sua visão de mundo e problematizando as questões sociais de seu tempo. Ao apontar a ruptura entre o herói e o mundo, como traço intrínseco na constituição do gênero romance, Lukacs 266 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS reitera , várias vezes, que “o romance é a epopéia do mundo abandonado por deus” (2000, p. 92). O crítico brasileiro Alfredo Bosi desenvolve essa tese de Lukacs, ao analisar os caminhos trilhados pela ficção dos anos 30, ressaltando que o melhor do romance dessa época seria aquele de tensão crítica, no qual os heróis, formulam ou não ideologias explícitas, mostram o seu mal estar permanente em relação à realidade que lhes é dada. Para Bosi, nos romances “em que a tensão atingiu o nível de crítica, os fatos assumem significação menos ingênua e servem para revelar as graves lesões que a vida em sociedade produz no tecido da pessoa humana” (2006, p. 393). Nas obras O Quinze, de Rachel de Queiroz, e em São Bernardo, de Graciliano Ramos, é possível encontrar duas personagens que se encaixam nesse perfil e que são bem parecidas em alguns aspectos. Nesses romances, conforme ressalta Constância Lima Duarte, “o exercício do magistério vai dar um novo discurso às mulheres, que se põem a denunciar injustiças, desestruturar verdades, e dão passos para “tornar-se mulher”enquanto identidades conscientes e sujeitos da história” (2011, p. 52). Em O Quinze, temos Conceição, e só pelo fato de exercer uma profissão que exija estudo, já se diferencia de todas as outras mulheres apresentadas na obra, as quais, seguindo o costume da época e da região, eram educadas para obedecerem aos maridos, serem dedicadas aos afazeres domésticos e se casarem, sendo que este é outro ponto que a torna diferente. Segundo Duarte, essa personagem feminina “exibe traços de emancipação e prefere ‘pensar por si’” (2011, p. 52). Devido a isso, Conceição não se casa, não pela falta de oportunidade, mas pelo fato de que mesmo o único homem pelo qual ela se interessou, seu primo Vicente, mostra não ser diferente dos demais. Ela é o retrato da mulher que tem ideais inovadores e principalmente femininos, tendo necessidade por afeto, mas ela acaba por preencher este vazio criando Duquinha, seu afilhado e filho de Chico Bento e Cordulina. Esta ultima é o modelo mais perfeito de mulher submissa: analfabeta, sofredora, com o destino atrelado ao do marido, completamente o contrário de Conceição. A heroína é dedicada a sua avó Dona Inácia e a trata como mãe, já que a mesma foi quem criou Conceição depois que sua mãe verdadeira morreu. Por vezes, tem algumas recaídas por Vicente, mas não se deixa levar 267 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS por esse sentimento, embora isso continue a persegui-la até o fim do romance, ela mesma diz que tem vocação para solteirona: Conceição tinha vinte e dois anos e não falava em casar. As suas poucas tentativas de namoro tinham-se ido embora com os dezoito anos e o tempo de normalista; dizia alegremente que nascera solteirona. (QUEIROZ, 1937 p.7) E, ao fim do romance, ela realmente acaba vivendo só, criando Duquinha e, apesar de não se sentir completamente realizada, a personagem prefere não abrir mão de seus princípios para tentar preencher seu vazio na irrealizada vida amorosa. No romance São Bernardo, para se comparar à Conceição, nos é apresentada a personagem Madalena, também uma professora e igualmente sem os pais, ela foi criada por dona Glória, a muito custo, e tem um passado que retrata imensa pobreza: Morávamos em casa de jogador de espada, disse Madalena. Havia duas cadeiras. Se chegava visita d. Glória sentava-se num galão de querosene. A saleta de jantar era meu gabinete de estudo. A mesa tinha uma perna quebrada e encostava-se na parede. Trabalhei ali muitos anos. À noite baixava a luz do candeeiro por economia. D. Glória ia para a cozinha resmungar, chorar, lastimar-se...(RAMOS, 2009 p. 122) ` Mesmo, em meio a tudo isso, ela continua opondo-se ao meio capitalista e agressivo até seu fim. Ela acaba por casar-se com Paulo Honório, mesmo sem se conhecerem direito, e por um bom tempo parece ser feliz por encontrar-se nesse estado. Tinha simpatia pelo lado socialista da disputa política que ocorria na época e adorava suas leituras e influências da, como era chamada na época, escola normal. Dotada de grande sensibilidade, sempre demonstra preocupação com as condições de vida dos trabalhadores: Conforme declarei, Madalena possuía um excelente coração. Descobri nela manifestações de ternura que me sensibilizaram. E, como sabem, não sou homem de sensibilidades”. (RAMOS, 2009 p.108) No entanto, era simplesmente incapaz de assumir a passividade da condição de esposa, estando sempre a andar pela fazenda, procurando o que fazer e, tanto insiste a Paulo, que acaba assim conseguindo uma colocação em um escritório: 268 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Veem que estamos brandos como duas bananas. E assim passamos um mês. Por insistência dela, dei-lhe ocupação: _ Faça a correspondência. Quer ordenado. Perfeitamente, depois combinaremos isso. Seu Ribeiro que lhe abra uma conta. (RAMOS, 2009, p.109) As coisas começam a mudar com o crescente ciúme de Paulo, que começa a tratá-la mal e a provocar constantes brigas. Desse modo, o comportamento de Madalena, que outrora lhe agradava, agora passa a deixá-lo irritado, pois ela sempre foi acostumada a conversar com todos na fazenda e alguns visitantes da cidade também. Madalena calou-se, deu as costas e começou a subir a ladeira. Acompanhei-a embuchado. De repente voltou-se e, com voz rouca, uma chama nos olhos azuis, que estavam quase pretos: _ Mas é uma crueldade. Para que fez aquilo? Perdi os estribos: É um molambo.(...) _ Fiz aquilo porque achei que devia fazer aquilo. E não estou habituado a justificar-me, está ouvindo? Era o que faltava. Grande acontecimento, três ou quatro muxicões num cabra. Que diabo tem você com o Marciano para estar tão parida por ele? (RAMOS, 2009 p. 111) E isso faz com que ele desconfie de todos. Durante todo esse tempo, a heroína recebe os insultos, mesmo em seu período de gestação, e aguenta o quanto pode. Ela da à luz a um menino franzino ao qual, mesmo com esse lado tão caridoso, ela não dedica muita atenção. Fica doente, chegando a emagrecer e a enfraquecer, porém os médicos do local nada podem fazer, quando sua resistência a esta situação de tamanho desgaste chega ao fim, ela opta por tomar o caminho do suicídio, acabando de uma vez por todas com o sofrimento e as adversidades do mundo e deixando uma carta endereçada a Paulo Honório: Entrei apressado, atravessei o corredor do lado direito e no meu quarto dei com pessoas soltando exclamações. Arredei-as e estaquei: 269 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Madalena estava estirada na cama, branca, de olhos vidrados, espuma nos cantos da boca [...] Sobre a banca de Madalena estava o envelope de que ela me havia falado. Abri-o. era uma carta extensa em que se despedia de mim.” (RAMOS, 2009, p.176) As duas personagens tem traços de personalidade parecidos, como a generosidade para com os menos favorecidos, pois ambas passaram por dificuldades no passado; a resistência a sujeitar-se ao padrão de vida que a sociedade cobra das mulheres da época e a oposição ao ideal dominante, Conceição recusa-se a aceitar que a miséria tome conta ao seu redor, enquanto Madalena faz sua parte indo contra o sistema de capitalismo e brutalidade com o qual a fazenda São Bernardo foi erguida. As duas personagens, no entanto, não comungam em todos os aspectos, Madalena casa-se sem mesmo conhecer direito a seu noivo, sendo que Conceição não se casa, mesmo sentindo uma grande afeição por Vicente, permanecendo solteira, o que era um grande estigma para a mulher naquela sociedade. Quando surge a oportunidade de criar uma criança, a personagem do romance de Rachel a abraça com todo o carinho, já por outro lado, Madalena não consegue amar nem mesmo a seu próprio filho. Em um ultimo aspecto, elas também tomam decisões diferentes, enquanto Conceição permanece resoluta em sua decisão e continua a levar seu jeito de viver até o fim do romance, a personagem do romance de Graciliano sucumbe à pressão do meio e busca uma saída para seu sofrimento, por meio do suicídio, ato que pode ser interpretado como uma fuga covarde ou um meio de conservar seus ideais intactos antes de se dobrar conforme o resto do ambiente dita. A obra O Quinze, é narrado em terceira pessoa e focado na personagem principal Conceição. Toda narrativa passa através de seus sentimentos e pensamentos. A autora Rachel de Queiroz, busca na personagem feminina representar algo semelhante ao que a mulher enfrentava neste período da história do país. Na obra São Bernardo, Graciliano Ramos projeta seu narrador em primeira pessoa, em um personagem masculino, o que faz da obra, um leitura nada imparcial dos fatos. Toda ação e a própria caracterização da personagem Madalena se passam pela mediação do narrador Paulo Honório. 270 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Analisando as duas obras, conseguimos distinguir perfeitamente, a fuga do subjetivismo, característica latente da fase patriarcal de nossa literatura. Aqui, provocase uma ruptura naquela constante falta de aprofundamento em problemas concretos de qualquer período anterior da literatura. Gilberto Freyre ressalta, em sua obra Sobrados e Mucambos que [...]embora um subjetivismo, em geral, ralo e medíocre. Encontramo-lo na literatura como na política.(...). Ao lado deste subjetivismo ralo, uma grande falta de interesse por problemas concretos, imediatos, locais. Uma ausência quase completa de objetividade. (FREYRE, 2001, p.139) Descritas estas características, podemos precisar exatamente, onde Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, simplesmente romperam ordens e leis vigentes quando, ao produzirem suas obras, ainda que posterior ao século XIX, período máximo do patriarcalismo, que representam a força do sistema ainda vigente, principalmente no nordeste brasileiro, onde a cultura patriarcal era muito mais forte e arraigada. Uma descrição básica feita no final do séc. XIX, por um doutor, no jornal O Médico do Povo, traçando características do ideal da mulher: As mulheres geralmente são as mais amáveis de toda a terra, porque aos atrativos do corpo reúnem a docilidade, a brandura, e mesmo a humildade; são fiéis, extremosas, e boas mães de família; e quando a tudo isso se adiciona uma fina educação é a brasileira a melhor mulher do mundo.” (1864, p. 3) Este ideal da mulher reproduz o discurso profundamente androcêntrico, desconstruído em termos, por Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. Ambos os autores procuram, em suas obras concisas, desmistificar a figura do herói que se entrega e se curva diante de adversidades, sejam elas impostas pela natureza, pelos homens ou por qualquer tipo de fator sobre humano que possa impedir a personagem de caminhar em direção ao seu destino e de superar as dificuldades impostas. Nesse sentido, Alfredo Bosi destaca que são várias as maneiras de o herói do romance atuar em oposição ao 271 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS meio, uma vez que o herói problemático entra em conflito com “estruturas incapazes de atuar os valores que a mesma sociedade prega: liberdade, justiça, amor” (2006, p. 391). As personagens características das duas obras mostram a luta contra o sistema vigente e contra as adversidades impostas. A grandeza das duas obras, São Bernardo e O Quinze, está na obsessão pelo avesso do cotidiano, onde nada é simples ou prémoldado. Sistematicamente e, de forma explícita, os dois autores, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, buscam novos espaços e olhares sobre temáticas conhecidas, ainda que sobre a capitulação ou enquadramento das personagens femininas, sob pena de infringir regras corroboradas por autores criados sobre estigmas ainda não exonerados neste período da literatura. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Jane Soares. Mulher e Educação: a paixão pelo possível. São Paulo:. Unesp Fundação, 1998. BONNICI, Thomas. No limite da feminilidade : assassinas e bruxas – a mulher na sociedade inglesa dos séculos XVI e XVII. In: MAINKA, P.J. (Org.) Mulheres, bruxas, criminosas: Aspectos da bruxaria nos tempos modernos. Maringá :Eduem, 2003, p. 89-106. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 4.ed. São Paulo: Cultrix, 2006. DUARTE, Constância Lima. “A Literatura de autoria feminina no Modernismo dos anos 30”. In: ZOLIN, Lúcia Osana & GOMES, Carlos Magno (orgs.). Deslocamentos da escritora brasileira. 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As pesquisas nas áreas das ciências humanas e as produções artísticas, progressivamente, descobrem o outro, não mais dentro da ótica colonizador colonizado, mas pretendendo um olhar descontaminado dos preconceitos de classe, etnia ou gênero. Neste momento, percebe-se que a coletânea dos compêndios da história universal não são mais que a transcrição de um discurso hegemônico que se impõe e silencia os demais discursos, e que a compreensão da complexa e conflitante rede de relações estabelecida nas e entre as sociedades deve ser apreendida fora do legado fonofalologocêntrico – fono, pois o signo tem a pretensão de ser a própria coisa evocada, e não sua representação; falo, por ser parte do domínio do homem branco, europeu, sobre as demais minorias, etnias e nações; logo, pois é pautado em uma lógica que exclui a contingência e o dissonante em nome da tradição. Neste momento, inicia-se uma busca pela voz dos escravos, das mulheres, dos pequenos operários, e de todos os demais discursos dissonantes que haviam sido excluídos da história oficial para que não pervertessem seu caráter de continuidade ininterrupta. Para a história, na sua forma clássica, o descontínuo era simultaneamente o dado e o impensável: o que se oferecia sob a forma de acontecimentos, instituições, ideias ou práticas dispersas: era o que devia ser contornado, reduzido, apagado pelo discurso da história, para que aparecesse a continuidade dos encadeamentos. A descontinuidade era esse estigma da dispersão temporal que o historiador tinha o encargo de suprimir da história. (FOUCAULT, 2005, p. 84) Assim, a força homogeinizante e redutora do discurso fonofalologocêntrico começa a desmantelar-se, fragmentar-se, perder o caráter de verdade uníssona e dar espaço ao descontínuo e a imensa gama de discursos que foram recalcados e 67 Acadêmico do curso de Doutorado em Letras – UNIOESTE; [email protected] 273 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS silenciados. A voz do outro deixa de ser obstáculo que necessita ser transposto e ressurge enquanto palavra ativa, que reverbera e obriga à releitura de um passado já canonizado pela ideia de tradição. Surgem, a partir desta guinada, várias tentativas de incluir, no discurso dominante e na história oficial, os fatos, crenças, costumes, ideologias e demais aspectos que foram relegados ao esquecimento a fim de conservar a unicidade histórica. Barthes, Bakhtin, Derrida, Foucault, Lacan, Deleuze, entre tantos outros autores, erguem-se contra estes campos discursivos homogeinizantes e redutores e procuram desconstruir as narrativas mestras, pretensamente totalizantes, da cultura ocidental, demonstrando que as verdades contidas na história do ocidente são, na verdade, construções narrativas eivadas pelos interesses daqueles grupos que detêm a “autoridade de dizer”. A partir deste momento, torna-se evidente e inegável que, na construção da memória das nações, impôs-se a supervalorização de determinados aspectos e a negação de tantos outros para a edificação de um passado monumental, e que este movimento carregou consigo a marca da opressão e silenciamento de tudo o que havia de desarmônico – a mulher, o negro, o latino, o índio, o pobre etc. E este é o processo que torna-se evidente na análise dos conflitos sociais que permearam a modernidade pois, como já apontava Nietzsche, “uma virtude hipertrofiada – tal como parece ser o sentido histórico de nosso tempo – pode ser tão boa para a degradação de um povo quanto um vício hipertrofiado” (NIETZSCHE, 2003, p.6). Nesta época de releitura da Modernidade e problematização de suas bases, a literatura tem papel fundamental. Tanto na prosa quanto na poesia, surgiram obras que procuraram devolver a voz àqueles “grupos marginalizados e até então silenciados, definidos pela diferença de raça, sexo, preferência sexual e classe. [aos quais] O autoritarismo do centro sempre relegara para a margem o outro, o diferente, o que não fosse igual a si mesmo.”(HELENA, 1999, p. 153), como é o caso da literatura afrodiaspórica, da literatura feminina, da literatura homoerótica etc. Partindo destas consideração, neste artigo, buscar-se-á expor uma pequena análise da obra Ponciá Vicêncio (2003) de Conceição Evaristo, romance que aborda a condição de mulher concomitantemente a condição de afrodescendente em um Brasil pós-escravidão. 274 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O enredo desta obra narra a trajetória de Ponciá Vicêncio, mulher pobre e negra. Ponciá morava com a mãe, o pai e o irmão na vila Vicêncio – conjunto de lotes pertencentes aos vicêncios – descendentes do coronel Vicêncio, proprietário da fazenda Vicêncio que era mantida por meio do trabalho escravo – que, após a abolição, foram “doados” às famílias dos ex-escravos para o plantio e cultivo, com a condição que continuassem a trabalhar na fazenda. Nesta comunidade de negros localizada à margem da fazenda na qual seus antepassados trabalhavam como escravos, Ponciá passa a infância e a adolescência. O pai e o irmão de Ponciá trabalhavam nas terras da família Vicêncio, como os demais homens da comunidade – conforme o combinado em troca da concessão das terras em que moravam –, enquanto Ela e a mãe, Maria, cuidavam da pequena porção de terra “herdada” dos vicêncios e faziam artesanato com barro, potes e jarros que o pai vendia nas vilas e casas grandes adjacentes para suplementar a renda familiar. Desde a mais tenra infância, a principal característica de Ponciá, observada por todos, era a semelhança física com o avô paterno, Vô Vicêncio, ex-escravo que, em um momento de demência, após ver os quatro filhos serem vendidos mesmo depois da Lei do Ventre Livre, matara a esposa e tentara suicidar-se com uma foice, sendo impedido pelos demais, mas não antes de mutilar o próprio corpo, decepando o próprio braço. Vô Vicêncio sobrevive, mas nunca mais recobra a lucidez. Embora Ponciá fosse criança de colo quando o avô paterno morreu, assim que começa a andar imita os trejeitos e o braço cotó de seu avô, escondendo um de seus bracinhos nas costas. Além disto, quando começa a trabalhar o barro junto à mãe, modela um boneco semelhante ao avô. Além da semelhança, Nêngua Kainda, velha sábia que serve como uma espécie de profetisa na vila, enfatiza que Ponciá cumprirá seu destino e tomará para si a herança do avô. Quando o pai de Ponciá morre, Ponciá, aos dezenove anos, decide sair da vila e do convívio com a mãe e com o irmão para ir à cidade grande em busca de uma vida melhor, repetindo a jornada de tantos outros afrodescendentes que viviam em condições semelhantes. A viagem é feita de trem e demora alguns dias, marcados pela falta de conforto e comida durante o trajeto. Chegando à cidade, sem conhecer ninguém, Ponciá dorme a primeira noite na porta de uma igreja, lugar onde abordando as mulheres que saiam da igreja consegue emprego de doméstica. Na cidade, alimenta o sonho de juntar dinheiro, comprar um barraco e trazer a mãe e o irmão para morar junto a si. 275 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Enquanto Ponciá faz suas economias, o irmão, Luandi, também decide migrar para a cidade, e faz a mesma jornada que sua irmã. Na cidade, sem saber o paradeiro de Ponciá, arruma um emprego de faxineiro em uma delegacia, para o qual fora indicado por um soldado negro chamado Nestor, que conhecera na estação de trem que desembarcara. Luandi deslumbra-se com o trabalho na delegacia e sonha em ser soldado, ter poder como o negro Nestor. Maria Vicêncio, sozinha em casa, decide viajar enquanto aguardava a hora de reencontrar seus filhos. Algum tempo após a partida da mãe e do irmão, Ponciá retorna à vila para reencontrar-se com eles, mas encontra apenas a casa de barro vazia, há tempos desabitada. Antes de retornar a cidade, reencontra Nêngua Kainda que, novamente, profetiza que um dia Ponciá irá cumprir a herança de seu avô. Voltando à cidade, apaixona-se por um servente de pedreiro, e decidem morar juntos em um barraco na favela. No início, mantêm uma relação amorosa e pacífica, mas, frente à pobreza, à distância da família e aos sete abortos espontâneos que sofreu, Ponciá torna-se cada dia mais triste e acaba caindo em um estado de profunda apatia. Seu companheiro, não conseguindo compreender nem lidar com o estado da mulher, começa a agredir fisicamente, embora, por vezes, sinta-se culpado por sua forma de agir. Enquanto isso, Ponciá mergulha progressivamente em um estado de profundo alheiamento da vida cotidiana, semelhante ao Banzo, mal crônico que acometia os negros no período da escravidão. Luandi, neste meio tempo, regressa à vila e também não encontra a mãe nem a irmão. Deixa seu endereço da cidade com Nêngua Kainda, para que entregasse a sua mãe se ela retornasse à vila. Voltando à cidade, Luandi apaixona-se por uma prostituta chamada Bilisa, “protegida” de um negro chamado Climério, a quem ela destinava parte dos lucros com a prostituição. Embora o soldado Nestor, já amigo de Luandi, avisasse-o para não envolver-se afetivamente com uma mulher-dama, o amor entre os dois crescia cada vez mais. Negro Climério, com raiva da relação entre Luandi e Bilisa, mata-a e foge. Enquanto Luandi sofria a dor da morte de Bilisa, a mãe volta à vila e recebe de Nêngua o endereço do filho. Decide que é hora de ir à cidade reencontrar os seus. Já na estação da cidade, encontra um soldado negro e entrega o endereço a ele, este, admirado, reconhece sua letra no bilhete quase apagado pelo tempo, era o soldado 276 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Nestor, e o bilhete ele que escrevera, a pedido de Luandi. Nestor leva a mãe ao encontro do filho. Após o encontro com a mãe, Luandi foi promovido a soldado, e seu primeiro serviço era na estação. Lá, na primeira hora de trabalho, encontra Ponciá, que andava delirante e em círculos, já totalmente alheia à vida. Luandi desiste de ser soldado e, juntamente com a mãe, volta a sua terra levando a irmã, que já reencontrara a herança do avô. O romance Ponciá Vicêncio retrata a realidade dos afrodescendentes após a abolição da escravatura, resignados a um vilarejo às margens das fazendas dos coronéis e tendo que pagar tributos pelo uso das terras, espaço no qual vigora o excesso de trabalho e a ausência de tempo para a família. Embora não sendo mais escravos, todos ainda vivem em condição análoga, situação da qual os jovens da comunidades, como Ponciá, buscam fugir migrando às cidades, porém, encontram apenas os subempregos e a miséria das favelas. Mas, além da questão racial fortemente acentuada na obra de Evaristo, a condição da mulher também é marcada, sendo, Ponciá, uma protagonista duplamente estigmatizada pela opressão: afrodescendente e mulher. À respeito desta segunda condição, vale-se ressaltar a originalidade da obra de Evaristo. Como salienta Tânia Pellegrine (2001), a partir da década de 70, diante de um mundo em ritmo acelerado e de profundas transformações, a literatura feminina impõese junto ao público e à crítica, ocupando um espaço reconhecidamente significativo com nomes como Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Edla Van Steen, Sônia Coutinho, Helena Parente Cunha entre outras. Porém, o universo símbólico retratado nestas obras ainda pertencia exclusivamente a mulher de classe média, permanecendo silenciada a voz da operária, da mulher do povo, da componesa. Silêncio este que é rompido com Ponciá Vicêncio, que nos trás a mulher camponesa, que sofre pela condição de camponesa, pela condição de mulher e pela condição de negra. Romance caracterizado pela visão do “outro”, o narrador conduz o leitor pelos meandros da memória de Ponciá Vicêncio, memória também de todo um grupo ainda marcado pelo selo da escravidão e, através da qual, a protagonista procura significar sua existência. 277 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Nesses textos, assim como em tantos outros de mulheres, o passado e a família adquirem importância fundamental, porque o dilaceramente das personagens neles encontra explicação [...] A própria linguagem espalha esse processo, desde que, sabe-se, existe uma estreira relação entre linguagem e sujeito e entre sujeito e prática social.” (PELLEGRINI, 2001, p. 121) Assim, em uma estrutura fragmentada, típica das narrativas construídas através da memória, a protagonista Ponciá nasce sob a insígnia da opressão, carregando um sobrenome herdado dos donos de seus avós, “Na assinatura dela, a reminiscência do poderio do senhor, de um tal coronel Vicêncio” (EVARISTO, 2003, p. 29), marcando, indefinidamente, sua condição. Além do nome que rememora a sina de seus antepassados, a memória familiar é calcada em Ponciá desde a primeira infância, a menina carrega a semelhança física e os trejeitos de Vô Vicêncio, e simula a falta de um braço escondendo-o atrás das costas logo que começa a andar. Junto à sina do avô, soma-se também, neste romance afrobrasileiro, várias outras histórias dolorosas que marcaram os descendentes de escravos mesmo após o fim da escravidão, como a do pai de Ponciá, que era pajem do filho do patrão e tinha a obrigação de brincar com ele, brincadeiras que sempre reafirmavam a permanência da condição de escravo, mesmo depois da Lei Áurea – era o cavalo em que o filho do patrão montava e, certa vez, fora obrigado pelo sinho-moço a abrir a boca e aparar a urina, enquanto o sinho-moço mijava e ria. Histórias que vão formando a personagem principal e levando-a a seu destino. Além dos relatos das injustiças e humilhações sofridas pelos negros, o narrador desvela esteriótipos e desconstrói elementos que historicamente “justificaram” a escravidão e ainda pautam certas condutas modernas, como o mito da superioridade intelectual do senhor em relação ao escravos que, por vezes, ainda repercutem nas comparações entre brancos e não-brancos. Pajem do sinhô-moço, escravo do sinhô-moço, tudo do sinhô-moço, nada do sinhô-moço. Um dia o coronelzinho, que já sabia ler, ficou curioso para ver se negro aprendia os sinais, as letras de branco e começou a ensinar o pai de Ponciá. O menino respondeu logo ao ensinamento do distraído mestre. Em pouco tempo reconhecia todas as letras. Quando sinhô-moço se certificou que o negro aprendia, parou a brincadeira. Negro aprendia sim! Mas o que o negro ia fazer com o saber de branco? 278 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O pai de Ponciá Vicêncio, em matéria de livros e letras, nunca foi além daquele saber (EVARISTO, 2003, p. 18). Dentro da mesma ótica de desmistificação e alteração do status quo imposto ao negro e a mulher, a narradora demonstra a perspicácia de Ponciá, superior a do próprio pai, no aprendizado das letras, que começara quando alguns missionários, de passagem pela vila, montaram uma escola: “Quando os padres partiram, depois de terem cumprido todos os seus ofícios, Ponciá logo percebeu que não podia ficar esperando por eles para aumentar o seu saber. Foi avançando sozinha e pertinaz pelas folhas da cartilha. E em poucos meses já sabia ler” (EVARISTO, 2003, p. 28) A violência doméstica também é abordada na obra de Evaristo, mas não limitase à questão familiar, é tratada como sintoma de problemas socias mais abrangentes. O companheiro de Ponciá, ao vê-la cada vez mais distante da realidade, agride-a, por não saber como lidar com a situação de outra forma. Porém, a violência não atinge apenas à mulher, também afeta o agressor. Quando viu Ponciá parada, alheia, morta-viva, longe de tudo, precisou fazê-la doer também e começou a agredi-la. Batia-lhe, chutava-a, puxava-lhe os cabelos. Quando viu o snague a escorrer-lhe pela boca e pelas narinas, pensou em matá-la, mas caiu em si assustado. Foi até o pote, buscou uma caneca d`água e limpou arrependido e carinhoso o rosto da mulher. (EVARISTO, 2003, p. 96) Neste caso, revela-se o caráter paradoxal da violência doméstica, a narradora, ao não resumir o personagem masculino a uma visão maniqueísta, assume a pluralidade das personagens, revelando a complexidade das relações. O relacionamento entre Ponciá e seu companheiro demonstra como um sistema de opressão e silêncio, imposto aos afrobrasileiros no espaço público, acaba por deteriorar as relações socias no ambiente privado, na própria casa, lugar no qual as relações domésticas também são marcadas pela falta de diálogo, demonstrada várias vezes na obra através do silêncio dos homens, que pouco falam, não choram e nem riem no romance, exceto na loucura de Vô Vicêncio que ri e chora ao mesmo tempo. Este emudecimento e embrutecimento das relações não é derivado do caráter das personagens, mas, muito além disto, é um reflexo de uma estrutura social que se perpetua por meio da exploração do trabalho, da violência, da negação da instrução, das 279 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS injustiças nas relações entre brancos e negros e, consequentemente, distorce e deforma as relações dos indivíduos com seus próprios familiares, trazendo a desigualdade e a violência exterior ao interior da casa. E, justamente por ser o espaço da casa também lugar de opressão à mulher, Ponciá deseja abandonar a condição feminina, pois sente, no pertencimento a este gênero, apenas uma inclinação a mais para o sofrimento. Ao ver a mulher tão alheia, teve desejos de trazê-la ao mundo à força. Deu-lhe um violento soco nas costas, gritando-lhe pelo nome. Ela lhe devolveu um olhar de ódio, pensou em sair, ir para o lado de fora, passar por debaixo do arco-íris e virar logo homem. (EVARISTO, 2003, p. 20) O homem, na cidade, torna-se símbolo de opressão para Ponciá, o que não ocorria na vila, pois o pai e o irmão viviam mais tempo nas terras dos Vicêncios, e ela e a mãe mantinham uma sociedade quase matriarcal no lote a eles cedido: “a menina gostava de ser mulher e era feliz. A mãe nunca reclamava da ausência do homem. [...] Quando ele chegava, era ela quem determinava o que o homem faria em casa naqueles dias.” (EVARISTO, 2003, p. 27) Estes elementos que caracterizam a perda da identidade de Ponciá que, posteriormente, é metaforizada pelo alheiamento e alienação à realidade. Ponciá, primeiramente, foge da vila Vicêncio, procurando a negação da identidade que lhe foi imposta pelo sobrenome e pelo espaço em que reside, elementos que marcam a condição de descendente de escravos. Porém, na cidade, além da exploração do trabalho que perpetua, em circunstâncias diversas, a condição vivida no campo, o relacionamento amoroso revela outra faceta de sua identidade que também a remete a inferioridade – ser mulher –, o que ela igualmente procura negar. Assim, inserida em um contexto patriarcal, a negação da identidade de raça e gênero e a impossibilidade de identificação com outra condição que não seja a opressão conduzem Ponciá ao alheiamento, a impossibilidade de encontrar-se a si mesma, de encontrar seu lugar no mundo: “Nos dias em que ficou no povoado à espera do trem, por várias vezes sentiu o vazio, a ausência de si própria. Caía meio morta, desfalecida, vivendo, porém, o mundo ao redor, mas não se situando, não se sentindo.” (EVARISTO, 2003, p. 63). Mas a obra não restringe-se apenas a história da busca de identificação de Ponciá, sua história pessoal serve de ponte para um profundo questionamento sobre as 280 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS relações entre brancos e negros, sobre as mazelas impostas aos afrodescendentes e a exploração de sua força de trabalho. Sob a ótica da mulher negra, é recontada a história dos descendentes de escravos e dado voz à revolta destes homens e mulheres que foram silenciadas na história oficial e no cânone literário. Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem e dormem para serem sacrificados um dia. Seria isto vida, meu Deus? [...] Estava cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior parte das colheitas ser entregue aos coronéis (EVARISTO, 2003, p. 33). E a denúncia da condição de exploração e miséria perpassa não apenas o espaço rural, mas também a vida na cidade, destino compartilhado por todos, como fica evidente nas recordações de Ponciá sobre as histórias dos negros que iam para a cidade: “Ela sabia de muitos casos tristes, em que tudo havia dado errado. Procurou se lembrar de algum que tivesse tido um final feliz. Não lembrou. Esforçou-se mais e não atinou com nenhum” (EVARISTO, 2003, p. 37). Mesmo assim, Ponciá resolveu ir à cidade, porém seu destino não fora diferente das demais histórias que ouvia. Sem perspectiva, a desilusão aumentava na medida em que percebia a imobilidade dos seus frente àquela vida de exploracão e constante luta pela sobrevivência, como era o caso de seu companheiro. Deus meu, será que o homem não desejava mais nada? Para ele bastava o barraco, a comida posta na lata de goiabada vazia? O pó, a poeira das construções civis, o gole de pinga nos finais de semana? O papo rápido com os amigos? Será que isso bastava? (EVARISTO, 2003, p. 44) E a crescente conscientização da impossibilidade de superar sua realidade de mulher negra, tanto no campo quanto na cidade, leva-a a verificação de que a condição de escravo perpetua-se, embora exercida por outros meios. A vida escrava continuava até os dias de hoje. Sim, ela era escrava também. Escrava de uma condição de vida que se repetia. Escrava do desespero, da falta de esperança, da impossibilidade de travar novas batalhas, de organizar novos quilombos, de inventar outra vida. (EVARISTO, 2003, p. 83) 281 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS E é esta a realidade que a conduz a assumir a herança de seu avô, “Vô Vicêncio queria morte. Se não podia viver, era melhor morrer de vez.” (EVARISTO, 2003, p. 72), e Ponciá, simbolicamente, morre para a vida por meio de um estado de apatia no qual já não contempla o mundo exterior, restringindo-se a sua interioridade, a mesma fuga de seu avô, mas que também serve, metaforicamente, protestar sobre a vida sofrida de todos os afrodescendentes, e para relembrar que não adianta qualquer outra vida que não seja junto a seus irmãos de sina e de dor. Da mesma forma que o sonho da cidade transformara-se em ilusão para Ponciá, a primeira impressão de Luandi, seu irmão, foi o deslumbre diante da possibilidade de adquirir um poder negado a ele na vila, representado pela figura do soldado negro Nestor. “A cidade era mesmo melhor do que na roça. Ali estava a prova. O soldado negro! Ah! que beleza! Na cidade, negro também mandava!” (EVARISTO, 2003, p. 71). Porém, aos poucos, Luandi começa a compreender que o poder do soldado Nestor é impotente diante da situação em que vivia sua raça, e que a força da polícia somente serve para manter o funcionamento de um sistema que perpetua as relações desiguais entre brancos, detentores do poder, e negros, mão de obra barata. O que, em outras palavras, fora-lhe dito por Nêngua Kainda. Ria dizendo que o moço estava num caminho que não era o dele. Que estava querendo ter voz de mando, mas de que valeria mandar tanto, se sozinho? Se a voz de Luandi não fosse o eco encompridado de outras vozes-irmãs sofridas, a fala dele nem no deserrto cairia. Poderia, sim, ser peia, areia nos olhos dele, chicote que ele levantaria contra os corpos dos seus. (EVARISTO, 2003, p. 94) Palavras e descoberta que só ocorreram derradeiramente a Luandi quando reencontra a irmã, durante seu primeiro dia de trabalho como soldado na estação. Neste momento, através da irmã que, nesta pasagem, é símbolo do sofrimento e da luta dos afrodescendentes, Luandi compreende que sua vida era Um grão de areia lá no fundo do rio, só tomaria corpo, só engrandeceria, se se tornasse matéria argamassa de outras vidas. Descobria também que não bastava saber ler e assinar o nome. Da leitura era preciso tirar outra sabedoria. Era preciso autorizar o texto da própria vida, assim como era preciso contruir a história dos seus. E que era preciso continuar decifrando nos vestígios do tempo os sentidos de tudo que ficara para trás. E perceber que, por baixo da assinatura do próprio punho, outras 282 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS letras e marcas havia. A vida era um tempo misturado do antes-agoradepois-e-do-depois-ainda. A vida era a mistura de todos e de tudo. Dos que foram, dos que estavam sendo e dos que viriam a ser. (EVARISTO, 2003, p. 127) A tomada da consciência e a fim simbólico dado a obra, que não oferece decifração final através de um único sentido, serve de metonímia à luta de uma etnia marcada pelo domínio e exploração exercida pelo universo branco, europeu e androcêntrico e à repercussão de um discurso que procura romper o silêncio e desconstruir o monólogo hegemônico e redutor das vozes autorizadas pelo poder. Ponciá, no fim da obra, deixa de ser protagonista de uma história pessoal e transformase em porta-voz de uma raça; e esse é sua herança: a resistência, a não adequação ao sistema exploratório, a negação ao discurso autorizado, o levantar de uma voz. Neste sentido, Conceição Evaristo constrói uma narrativa que, a partir da união da realidade de um Brasil pós-escravidão, com elementos da cultura africana, como a religiosidade e os costumes, e com a história pessoal de uma família, impressiona tanto pela beleza e completude enquanto criação estética, quanto caráter de denúncia de uma vexatória realidade que ainda permanece incrustrada na história de nosso país e que, por vergonha ou outro interesse, por vezes tentou-se apagar. REFERÊNCIAS CUNHA, Helena Parente (Org.) Desafiando o cânone: aspectos da literatura de autoria feminina na prosa e na poesia (anos 70/80). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999. EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza, 2003. FOUCAULT, Michel. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Segunda consideração imtempestiva: da utilidade e desvantagens da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003 PELLEGRINE, Tânia. A ficção brasileira hoje: os caminhos da cidade. Revista de Critica Literaria Latino Americana. Año XXVII, n° 53. Lima-Hanover, 1er. Semestre del 2001, pp. 115-128. 283 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS MINICURSO: Representação e autoria na obra de Marcelino Freire: relações possíveis entre literatura e gênero PINTER, Kayanna¹ SILVA, Regina Coeli Machado² Na sociedade brasileira contemporânea, os papéis sociais destinados ao gênero feminino e ao gênero masculino não aparecem de maneira tão nítida, apesar de ainda continuarem marcados. A teoria feminista trouxe – e ainda traz – à luz a construção dos papéis sociais naturalizados em torno da matriz genital/biológica (SWAIN, sd, p. 01), questionando-os e demonstrando os processos e procedimentos que o constituem. Pretende, portanto (...)eliminar qualquer naturalização na conceitualização da diferença sexual, pensando gênero de maneira ‘não-identitária’. Isto é, rejeitando os pressupostos universalistas presentes na distinção sexo/gênero, convergem na tentativa de analisar criticamente os procedimentos através dos quais o gênero é concebido como fixando identidades, e de formular conceitualizações que permitam descrever as múltiplas configurações de poder existentes em contextos históricos e culturais específicos. (PISCITELLI, 2002, p. 29) É neste sentido que se torna fundamental a análise crítica dos estudos de gênero, especialmente no que concernem as concepções defendidas por Françoise Héritier (1997), Michel Foucault (1984; 1985;1988) e Judith Butler (2003). Héritier, em seu texto Masculino/feminino (1997), nos apresenta explicações para a dominação e sujeição do gênero feminino, afirmando ainda que tal dominação dá-se no plano simbólico, amparando-se em visões ideológicas do problema. Para a autora, estes discursos simbólicos são construídos sobre um sistema de categorias binárias, de pares dualistas, que opõem frente a frente séries como Sol e Lua, alto e baixo, direita e esquerda, noite e dia, claro e escuro, luminoso e sombrio, leve e pesado, frente e 284 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS costas, quente e frio, seco e úmido, masculino e feminino, superior e inferior. (HÉRITIER, 1997, p. 17) A autora ampara-se nos estudos antropológicos para confirmar sua hipótese de que tal dominação dá-se de forma simbólica e é socialmente construída. Michel Foucault, no entanto, vem a complementar a teoria proposta por Heritiér quando afirma o sujeito como político, criador e receptor de experiências que se tornam modos de subjetivação a partir dos dispositivos disciplinares aos quais esse mesmo sujeito está exposto. Assim, o poder, ao qual geralmente é atribuído um caráter repressor, apresentase como produtor de conhecimento e de formas de identidade. Judith Butler, em sua obra Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2010) compreende a sexualidade de maneira semelhante àquela apresentada por Foucault. Para a autora tanto a categoria sexo, quanto a categoria gênero são marcadas por concepções equivocadas da sexualidade. Um sujeito não pode ser caracterizado por seu sexo, ou por seu gênero, pois as duas categorias apresentam-se como reducionistas, devendo, sim, ser caracterizado pela identidade sexual com a qual se identifica, pelo simples fato de que a categoria gênero não consegue abranger de forma mais significativa as representações do indivíduo. Butler (2010), afirma que se alguém “é” uma mulher, isso certamente não é tudo que esse alguém é; o termo não logra ser exaustivo, não porque os traços predefinidos de gênero da “pessoa” transcendam a parafernália específica de seu gênero, mas porque o gênero nem sempre se constituiu de maneira coerente ou consistente nos diferentes contextos históricos, e porque o gênero estabelece interseções com modalidades raciais, classistas, étnicas, sexuais e regionais de identidades discursivamente construídas. Resulta que se tornou impossível separar a noção de “gênero” das interseções políticas e culturais em que invariavelmente ela é produzida e mantida (BUTLER, 2003, p. 20) 285 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Portanto, a categoria de gênero não se apresenta tão rígida, fixa como a categoria de sexo. Mas ainda assim essa categoria é previamente dada, caracterizando como “o meio discursivo/cultural pelo qual ‘a natureza sexuada’ ou ‘um sexo natural’ é produzido e estabelecido como ‘pré-discursivo, anterior à cultura, uma superfície politicamente neutra sobre a qual age a cultura” (BUTLER, 2003, p. 25). Ainda para Butler (2010), não somente a categoria de gênero não seria suficiente para caracterizar as manifestações da sexualidade, pois esta seria uma junção entre o sexo – biológico, o gênero – social, o desejo e o discurso formador das categorias feminino e masculino. Tais categorias seriam, desta maneira, formadas de forma plural, culminando em um ser que, formado por esta junção, seria completo. E como se encontraria a representação da sexualidade com a cultura pós-moderna, contemporânea, a partir do século XXI? A contemporaneidade apresenta-se de maneira plural, multifacetada, dividida entre a tradição e a ruptura, composta por diversas características. É assim também a representação do gênero na literatura deste período, sendo uma das principais funções literárias a de mostrar esta cultura plural, que assume diferentes faces, reconstruindo, com uma linguagem própria, as instituições e categorias sociais. Esta é justamente sua função social, que “comporta o papel que a obra desempenha no estabelecimento de relações sociais, na satisfação de necessidades espirituais e materiais, na manutenção ou mudança de uma certa ordem da sociedade” (CANDIDO, 2008, p. 55), ou seja, a literatura tem como princípio transgredir as representações de uma sociedade, através dos signos lingüísticos, dos quais se vale para conscientizar o leitor da realidade que o cerca e das mudanças que nela ocorrem. Portanto, justifica-se a realização deste minicurso, e da pesquisa a ele vinculada, na perspectiva de que os estudos relacionados à representação do gênero na literatura nunca serão ultrapassados, pois enquanto o papel social do gênero feminino continuar alterando-se, sua representação nas narrativas literárias daquele período também sofrerá alterações, especialmente no atual momento de nossa sociedade, que se caracteriza pela rápida transposição entre a tradição e a ruptura, enquanto o discurso predominante é, ainda, aquele vinculado ao regime da heterossexualidade compulsória. 286 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS 3. OBJETIVOS a) Geral: Compreender a relação entre a obra de Marcelino Freire e a sociedade contemporânea, amparando-nos principalmente na relação intrínseca existente entre literatura e sociedade. b) Específicos: Contextualizar autor e obra, estabelecendo relações entre o momento histórico atual – a contemporaneidade – e a narrativa de Freire (2003; 2005; 2008); c) Expor a maneira como vem sendo construída a identidade de gênero na contemporaneidade, considerando-se como fatores contribuintes para a construção desta identidade as diversas manifestações da sexualidade, na sociedade em geral e na representação literária destes sujeitos, bem como a reformulação da família na contemporaneidade e os atuais debates sobre a categoria gênero; d) Relacionar as representações de gênero à compreensão pós-estruturalista de Michel Foucault e Judith Butler, autores que postulam os atos de gênero como atos políticos; e) Explorar a maneira como se dá a representação das “minorias sexuais” nos contos de Freire, a partir da noção de performance, arte encenada primeiramente por artistas norte-americanos da década de 1970; f) Refletir sobre a composição estética dos contos de Freire, relacionando-a principalmente às personagens, enredo e linguagem utilizada por este, além de problematizar a relação das personas autorias criadas por Freire e a performance de autoria característica da literatura brasileira contemporânea. 4. CONTEÚDOS: 287 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Ao trabalharmos com a representação da sexualidade na narrativa literária, trabalhamos também com o conceito de literatura enquanto representação do todo social. Tal representação dá-se, segundo Antonio Candido (2008), por meio da linguagem literária e da maneira pela qual esta é elaborada e, para o completo entendimento da obra, encontra-se em primeiro plano, tornando-se conhecida pelo conceito de fatores internos. Porém, há ainda uma segunda ramificação de fatores que contribuem o entendimento total: os fatores externos, a vida social, as ideologias e os valores que servem de material para que a narrativa literária seja concebida pelo artista criador. Uma obra nunca é completamente entendida se o leitor, o crítico literário e os demais estudiosos da literatura desconsiderarem a junção de tais fatores. Desta maneira, durante a realização do mini curso, utilizaremos a exposição dos seguintes conceitos, amparados em estudos que consideram a estreita relação existente entre literatura e sociedade e voltando-nos, principalmente, para a escrita de Marcelino Freire, em suas diversas coletâneas de contos: a) A relação literatura e sociedade e seus desdobramentos, utilizando principalmente as teorias que tratem a respeito das relações da tríade autor-obrapúblico, definida por Antonio Candido (2008), da mímesis literária enquanto “representação das representações” sociais, conceituada por Luiz Costa Lima (2000), bem como da caracterização estrutural da literatura e da autoria na literatura freireana, que encontram na noção de performance sua principal caracterização e semelhança; b) Os estudos feministas de gênero, passando também pelas teorias anteriores ao feminismo, as quais defendiam a ideia de uma dominação da mulher com base em definições biológicas – temos aqui como exemplo a medicina, que até o século XVIII atribuía à mulher “humores” e doenças que poderiam desenvolverse somente no corpo feminino, ou ainda a mitologia, que liga tudo que é tido como atributo feminino ao satânico e ao impuro – e focalizando nossa apresentação nas questões pós-feministas, que entendem a dominação feminina como um construto possibilitado pelos diversos discursos contemporâneos, defendendo ainda a desconstrução da divisão binária de gênero; 288 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS c) Apresentar exemplos de representações do gênero que se enquadrem nas respectivas teorias – feministas, antropológicas e sociológicas – de gênero, presentes em diversos contos de Freire, demonstrando também questões literárias pertinentes a tais estudos: o uso da linguagem própria de cada gênero, as metáforas, bem como a relação mímesis representação e performance. 5. CRONOGRAMA Das 14h às 14h20min: apresentação do minicurso (objetivos, justificativa, metodologia) e da proponente; Das 14h20min às 14h40min: apresentação das questões relativas à narrativa literária (estruturação/desestruturação da narrativa de Marcelino Freire); Das 15h às 15h30min: reflexão acerca da representação de gênero nos contos de Marcelino Freire; Das 15h30min às 16h: encerramento do minicurso – avaliação da proposta. 6. METODOLOGIA Tendo como objeto de reflexão os contos de Marcelino Freire publicados nas obras Angu de sangue (2005), Balé Ralé (2003) e Rasif: mar que arrebenta (2008, Amar é crime (2010) e Contos negreiros (2005) que contenham representações da sexualidade, tais como Moça de família (2005) e Balé Ralé (2003) será utilizado como princípio norteador para a análise do corpus, a teoria sociológica da literatura e para compreender a representação do(s) gênero(s) na obra de Freire, abordagens antropológicas de estudo de gênero, que o afirmam como construto da realidade social (Françoise Héritier, 1997 ) e posições teóricas que o colocam em um patamar político de representação (FOUCAULT, 1988; BUTLER, 2010). 289 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Para que os objetivos expostos sejam alcançados, lançaremos mão das seguintes etapas, durante a realização do minicurso: A primeira etapa será constituída pela apresentação das teorias relativas ao estudo da narrativa: as teorias sociológicas, principalmente aquelas voltadas à literatura brasileira – como as obras de Antônio Candido (2008), passando-se em seguida para a apresentação dos conceitos relacionados aos estudos de gênero, tanto contemporâneos – que serão mais utilizados – quanto fazendo-se um apanhado histórico das relações de gênero e da dominação masculina para que, em seguida, possa ser apresentado o autor trabalhado: Marcelino Freire, utilizando-se para tal apresentação materiais diferenciados, como vídeos de entrevistas feitas com Freire, leitura de seus contos, para que os participantes do minicurso tenham maior contato com sua escrita, tendo por encerramento da proposta a análise dos contos de Freire, tanto em sua estrutura, quanto em seus aspectos temáticos, voltando-nos principalmente para a reflexão acerca das manifestações da sexualidade encontradas nas obras. Em relação a relação literatura/sociedade, desenvolveremos a primeira parte do minicurso pensando principalmente em qual é a relação daquela com a sociedade brasileira, não somente contemporânea, mas especialmente em tal período, fazendo, desta maneira, um apanhado histórico, amparado nos estudos de Candido (2008), para confirmar o caráter social da narrativa literária, enfatizando-se ainda que a arte é social nos dois sentidos: depende da ação dos fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção de mundo, ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais. Isto decorre da própria natureza da obra e independe do grau de consciência que possam ter a respeito os artistas e os receptores de arte (CANDIDO, 2008, p. 30) Retiramos desta afirmação de Candido (2008) o pressuposto que nos leva ao passo seguinte: somente entenderemos como se dá a junção da representação e de seu papel em nossa sociedade quando conseguirmos compreender que a literatura, e as artes de maneira geral, conseguem representar instituições e concepções de mundo de uma 290 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS maneira fictícia, mas que, de certa maneira, é consoante à realidade, pois tem nesta seu pano de fundo, seu material. Aqui encontramos nosso corpus. Os contos de Marcelino Freire, com personagens ou narradoras do gênero feminino, nos apresentam uma multiplicidade de representações da sexualidade – da mesma maneira que, na contemporaneidade, coexistem inúmeras identidades, que se relacionam de maneiras diferentes com seus parceiros, como no caso de Marília, personagem do conto Sinal fechado (2008), com sua família, como Mariazinha, do conto Moça de família (2005) e ainda com a religião/religiosidade contemporânea, representação que encontramos em Waleska, protagonista do conto A senhora que era nossa (2005). Procuraremos, portanto, utilizarmo-nos e abrir espaço para uma discussão e análise crítica da representação da sexualidade na literatura brasileira contemporânea, que também pressupõe uma concepção de pesquisa que proporcione a reflexão tanto do proponente do minicurso, quanto de seu ouvinte e participante, possibilitando assim um aprofundamento teórico das questões analisadas e uma melhor interpretação da análise. Aqui, encontramos espaço para abrigarmos o conceito de interacionismo simbólico, que “assume como pressuposto que a experiência humana é mediada pela interpretação, a qual não se dá de forma autônoma, mas à medida que o indivíduo interage com o outro” (ANDRÉ, 1995, p. 18). 7. RECURSOS - Multimídia; - Xerox de alguns contos de Marcelino Freire, que representem as diversas manifestações da sexualidade contemporânea; - Vídeos (no youtube.com, são encontrados vídeos de contos de Freire, especialmente de seu último livro: Rasif: mar que arrebenta (2008), teatralizados); Entrevista com Marcelino Freire http://www.youtube.com/watch?v=Kanmkmw9p5w) (disponível em: 291 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS 8. AVALIAÇÃO A avaliação proposta para o encerramento do mini-curso baseia-se em uma breve discussão acerca do(s) tema(s) apresentado(s), acrescentando-se conhecimento tanto ao proponente, quanto aos demais participantes, pois a troca de experiências permite uma maior compreensão do real alcance de entendimento do assunto trabalhado. Esta discussão poderá ser conduzida, primeiramente, acerca dos temas da composição literária, para que, em seguida, seja transposto este limiar e floresçam os temas relacionados à representação do gênero na contemporaneidade, abrindo-se espaço para a discussão não somente do gênero feminino, mas também do gênero masculino e daquelas representações que não se enquadram no regime da divisão binária, que rege nossa sociedade. 9. REFERÊNCIAS ANDRÉ, Marli. Etnografia da prática escolar. Campinas: Papirus, 1995. BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética; a teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernadini et al. São Paulo: Unesp, Hucitec, 1988. BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Cia das Letras, 2008. DUMONT, Louis. Homo Hierarchicus: O sistema de castas e suas implicações. São Paulo: EDUSP, 1992. FREIRE, Marcelino. Angu de sangue. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005 FREIRE, Marcelino. Balé ralé. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. 292 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS FREIRE, Marcelino. Rasif: mar que arrebenta. Rio de Janeiro: Record, 2008. HÉRITIER, Françoise. “Masculino/Feminino”. In Enciclopédia Einaudi, v. 20, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1997, p. 11-26. PISCITELLI, Adriana. “Re criando a (categoria) mulher”. In ALGRANTI, L. M. Org.) A Prática Feminista e o Conceito de Gênero, Textos Didáticos, n.48. Campinas: UNICAMP, 2002. Disponível em: http://www.ifch.unicamp.br/pagu/sites/www.ifch.unicamp.br.pagu/files/Adriana01.pdf. Acesso em: 28 de maio de 2011, às 12h. SANTIAGO, Silviano. O narrador pós-moderno. In Nas malhas da letra: ensaios. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. Tradução: Lygia Araújo Watanabe — São Paulo; Companhia das Letras, 1988 SWAIN, Tania Navarro. Quem tem medo de Foucault? Feminismo, corpo e sexualidade. Espaço Michel Foucault. Disponível em: http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/art04.pdf. Acesso em: 28 de maio de 2011, às 11:30h. 293 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS AS VÁRIAS FACETAS DO MITO DE PROMETEU: A REPRESENTAÇÃO DA INSATISFAÇÃO HUMANA68 REDEL, Elisângela69 MARTINY, Franciele Maria70 RESUMO: Neste trabalho realizar-se-á a comparação de algumas versões do mito de Prometeu – que se caracteriza por relatar a origem dos deuses e do mundo e a evolução da humanidade a partir da descoberta do fogo e, assim, de todas as ciências e saberes – tendo como base as obras Os trabalhos e os dias e Teogonia: a origem dos deuses, ambas de Hesíodo, Prometeu Agrilhoado, de Ésquilo, e o poema inacabado Prometeus, de Johann Wolfgang von Goethe, focalizando os aspectos que divergem entre as obras e apontam para um determinado contexto histórico e social, condicionante da percepção e da mentalidade do homem em relação ao mundo. O desenvolvimento dessa mentalidade foi representado pelos autores sob perspectivas diversas, pois, em relação a Hesíodo e Ésquilo, o moderno Prometeu de Goethe se liberta da punição dos deuses, e passa a ser o criador do mundo e de si mesmo, contribuindo, para tanto, o fogo, metáfora do conhecimento, da conquista da ciência e da tecnologia. Para este estudo, serão utilizados os arcabouços teóricos de Vernant (2000), Brunel (1997) e Aristóteles (1973). PALAVRAS – CHAVE: mitologia; Prometeu; insatisfação humana. O personagem Prometeu é descrito por Vernant (2000, p. 60) como possuidor de “um espírito de rebelião, esperto e indisciplinado, está sempre pronto a criticar”. Além disso, ele possui deveras semelhanças ao próprio Zeus, o deus supremo. “Ambos se definem como um espírito sutil, astuto, tendo esta qualidade que Atena vai representar entre os deuses e que Ulisses encarna entre os homens: a esperteza” (VERNANT, 2000, p. 60). 68 Trabalho apresentado à disciplina de Teoria Literária, ministrada pelo Prof. Dr. Antônio Donizeti da Cruz no curso de Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus de Marechal Cândido Rondon. 69 Mestranda em Letras – UNIOESTE/CAPES – [email protected] 70 Doutoranda em Letras – UNIOESTE/CAPES – [email protected] 294 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Porém, apesar das semelhanças, há um grande distanciamento entre eles, na medida em que Zeus é deus soberano e o titã Prometeu está longe de sê-lo. Além disso, o titã nunca quis alcançar tamanha posição, se aproximando mais dos humanos, o que reforça aspectos de ambiguidade e contradição na sua própria existência. A ambivalência presente também nos humanos está contida no próprio nome de Prometeu, que significa aquele que prevê, portanto, aquele que se antecipa aos fatos, ao contrário de seu irmão, Epi-meteu, aquele que compreende tarde. “Nós pobres e infelizes mortais, somos sempre, a um só tempo, prometéicos e epimetéicos, previmos, fazemos nossos planos, mas volta e meia as coisas se passam contrariamente às nossas expectativas, surpreendendo-nos e deixando-nos insatisfeitos” (VERNANT, 2000, p. 60). Assim, Helena (s/d) atenta para o fato de a tragédia ser algo além de uma história de caráter literário e que os mitos e as fábulas são gêneros de excelência neste cenário trágico, servindo de exemplo para os homens. Se observarmos a Poética, e consideramos os seis elementos que indica como fundadores do gênero trágico, em sua articulação, podemos concluir que a tragédia não diz respeito apenas a um texto literário. Ela conjuga outros sistemas de signos, desde a gestualidade da representação, o tom de voz, a vestimenta típica, até o caráter de espetáculo, de cenografia e sonoplastia que comporta (HELENA, s/d, p. 10). O mito de Prometeu, assim, é um exemplo de literatura que pode tomar dimensões cada vez maiores e atingir um número cada vez mais amplo de pessoas, servindo para a criação e re-criação de outros mitos. Em vista de tais premissas, será abordado adiante o mito de Prometeu, trabalhado em diferentes épocas, por diferentes autores e pautadas sob diferentes aspectos – ora acrescentam-se cenas ora são excluídas algumas - conforme a mudança de autor para autor e de época para época. A análise será baseada nas seguintes obras: Os trabalhos e os dias, de Hesíodo, Teogonia: a origem dos deuses, também de Hesíodo, Prometeu Agrilhoado, de Ésquilo e o poema inacabado, Prometeus, de Johann Wolfgang von Goethe, focalizando o 295 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS contraste entre as obras em questão, as quais denunciam o momento histórico, a visão do homem de acordo com cada época, a evolução no plano das mentalidades e a forma que cada autor buscou trabalhar estes aspectos sob o prisma do mito de Prometeu, tão difundido nos dias atuais. MITO DE PROMETEU Nas palavras de Aristóteles, “o imitar é congênito no homem” e a imitação “própria da natureza” (1973, p.444). Dessa perspectiva, a tragédia imita ações de elevada índole, não os personagens, mas suas ações, como é o caso de O Prometeu. Não obstante, é necessário saber do que trata este mito, qual sua essência, visto que “sua popularidade acha-se atestada por grande quantidade de textos onde se multiplicam nuances e variantes em conformidade com a organização estrutural dos mitos” (BRUNEL, 1997, p.787). Na mitologia grega, Prometeu é um titã grego, filho de Jápeto e de Ásia, também chamada de Clímene, e irmão de Atlas, Epimeteu e Menoécio. É pai de Deucalião e o responsável por roubar o fogo dos deuses e entregá-lo aos homens. Mas, como o fogo era somente dos deuses, Zeus castigou Prometeu acorrentando-o no cume do monte Cáucaso. Lá, todos os dias uma águia dilacerava o seu fígado que, devido à sua imortalidade, se regenerava. Depois de 30.000 anos, Hércules liberta o titã.71 Teogonia: A origem dos deuses, de Hesíodo (507-516) é a primeira obra literária a apresentar a existência de Prometeu. Nela, o titã, filho de Jápeto e da oceânide Clímene, engana a Zeus. Para discernir os deuses e os mortais, era necessário o sacrifício de um boi. Não obstante, Prometeu trapaceou ao fazer a divisão, sobre a carne pôs a carcaça, o ventre, e sobre os ossos, a brilhante banha. Querendo ser mais esperto que Zeus, engana a si mesmo, pois os ossos deram a imortalidade aos deuses. Como vingança, Zeus esconde o fogo dos homens, roubando-o Prometeu. Colérico, 71 Disponível em: < http://forgetthefear.blogspot.com.br/2009/08/prometeu.html>. Acesso em 03 nov. 2012. 296 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS enfurecido, Zeus castiga os homens entregando de “presente” a estes a mulher em toda sua graça e beleza. Por não se igualar ao poder de Zeus, Prometeu, em castigo, “a grande cadeia o retém”. Nem este escapou à fúria de Zeus. Embora a obra de Hesíodo não esteja estruturada conforme as partes quantitativas da Poética de Aristóteles (1973) – prólogo, episódio, êxodo, coral – nos é pertinente citar algumas de suas palavras referentes à estrutura e consequentemente qualidade do mito: É pois necessário que um mito bem estruturado seja antes simples do que duplo, como alguns pretendem; que nele não se passe da infelicidade para a felicidade, mas, pelo contrário, da dita para desdita; e não por malvadez, mas por algum erro de uma personagem, a qual, como dissemos, antes propenda para o melhor do que para o pior (ARISTOTELES, 1973, p. 454). Em Os trabalhos e os Dias, de Hesíodo, poema de cunho moral, o autor fornece alguns dados suplementares. Logo no início, Hesíodo invoca as musas da Piéria e não as do Hélicon (em Teogonia nove musas aparecem individualmente nomeadas; sabe-se que elas habitavam igualmente um outro local) : Musas Piérias que gloriais com vossos cantos, Vinde! Dizei Zeus vosso pai hineando. Por ele mortais igualmente desafamados e afamados, Notos e ignots são, por graça do grande Zeus. Pois fácil torna forte e fácil o forte enfraquece, Fácil o brilhante obscurece e o obscuro abrilhanta, Fácil o obliquo apruma e o arrogante verga Zeus altissonante que altíssimos palácios habita. 297 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Ouve, vê, compreende e com justiça endireita sentenças Tu! Eu a Perses verdades quero contar (HESÍODO, 1996, p. 23). Em Teogonia, Hesíodo fala da criação da mulher sem citar o nome de Pandora. Sabe-se, apenas, que foi plasmada da terra, cingida, adornada e coroada de flores por Palas Atena, moldada pelas mãos do ínclito Pés-tortos. Na obra Os trabalhos e os dias, este mesmo aspecto da criação da mulher como castigo aos homens por Prometeu ter roubado o fogo apresenta aspectos suplementares, em especial o nome da mulher, a saber, Pandora: Rápido o ínclito Coxo da terra plasmou-a Conforme recatada virgem, por desígnios do Cronida; Atena, deusa de glaucos olhos, cingiu-a e adornou-a; Deusas graças e soberana Persuasão em volta do pescoço puseram colares de ouro e a cabeça, Com flores vernais, coroaram as bem comadas Horas e Palas Atena ajustou-lhe ao corpo o adorno todo. Então em seu peito, Hermes Mensageiro Argifonte mentiras, sedutoras palavras e dissimulada conduta forjou, por desígnios do baritonante Zeus. Fala o arauto dos deuses aí pôs e a mulher chamou Pandora, porque todos os que tem olímpia morada deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão (HESÍODO, 1996, p. 29). Observa-se que em Teogonia, após moldada, a mulher é enviada aos mortais, sendo que descende dela toda a geração das mulheres. Ela é comparada às abelhas que 298 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS ficam no enxame e “amontoam em seu ventre esforço alheio”. Em O trabalho e os dias, fica explícito a quem Zeus envia a mulher. Ele a envia a Epimeteu que, apenas depois de aceitá-la, compreende o mal que cometeu: E quando terminou o íngreme invencível ardil, a Epimeteu o pai enviou o ínclito argifonte, veloz mensageiro dos deuses, o dom levando; Epimeteu não pensou no que Prometeu lhe dissera jamais dom do olímpio Zeus aceitar, mas que logo o devolvesse para mal nenhum nascer entre os homens mortais (HESÍODO, 1996, p.29). Prometeu havia prevenido Epimeteu de uma possível armadilha de Zeus, mas este acaba por aceitar o presente enviado. Em Teogonia observa-se, também, que Hesíodo fala sobre o papel da esposa, e que o homem, fugindo das núpcias ou do casamento, morrerá sem ter quem o segure e seus bens serão divididos entre os parentes distantes. Em O trabalho e os dias há outra perspectiva. A mulher, Pandora, quando enviada a Epimeteu, carrega consigo um jarro contendo todos os pesares do mundo e, a mando de Zeus, abre a grande tampa espalhando todos os males entre os homens. Apenas a expectação (comporta o sentido duplo de espera, negativo ou positivo) não voou para fora, pois Pandora fechou a tampa. Assim é que entre os mortais passam a reinar mil pesares. Nas palavras de Pierre Brunel (1997), o relato de Hesíodo possui uma função etiológica; serve para explicar a miséria da condição humana e ensinar o respeito aos deuses e de que da inteligência de Zeus ninguém escapa. Dessa forma, esta narração carrega uma conclusão negativa, pois, Prometeu, querendo ajudar os homens, acaba provocando sua desgraça. Os homens devem estar submissos à vontade divina, está é a lição da referida narrativa. 299 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Três séculos depois, observa-se o mito de outra perspectiva. Ésquilo, no século V, apresenta Prometeu acorrentado, teatralizado, dividido, conforme consta na Poética de Aristóteles (1973), em prólogo, episódio, êxodo, coral. Esta narrativa confere ao mito um capital alcance, religioso e metafísico, de acordo com Pierre Brunel (1997). Culpado por ter roubado o fogo dos deuses - que enchia um caule de canafrecha e que se revelou mestra de todas as artes e grande recurso para os mortais – e ter o entregado aos mortais, Prometeu é acorrentado por Hefesto, o protetor do fogo, no monte Cáucaso – embora este último não o quisesse fazer por piedade. A ave simbólica de Zeus, a águia, devora o fígado de Prometeu durante trinta milênios, até ser derrubada pela flecha de Hércules. Este aspecto não é encontrado em Hesíodo. O coro é composto pelas oceânides, as quais reprovam a atitude de Prometeu, por ter transgredido seus direitos, ultrapassado a justa medida. Não obstante, no fim da tragédia, elas estarão ao seu lado, pois Zeus também ultrapassou o limite do que é justo: “Pois tu, deus que não teme a cólera dos deuses, deste aos mortais honras que transcendem o que é justo, por isso, velarás sobre esta rocha funesta, de pé, sem dormir, sem poderes dobrar o joelho” (ÉSQUILO, 1992, p. 34). Trousson (1997, p. 785) sublinha que após o século XX e ao período literário denominado de Romantismo, o mito se tornou para os ocidentais uma espécie de “símbolo por excelência da revolta na ordem metafísica e religiosa, como se encarnasse a recusa do absurdo da condição humana”. Neste sentido, novamente, o mito serve de contestação do poder instituído, como já citado por Helena (s/d) na primeira versão, só que, neste caso, seria sobre a revolta contra o domínio eclesial. É necessário notar, entretanto, que tal definição do tema é relativamente recente e que só se impôs depois de dar muitas e muitas voltas: no curso de uma odisséia que levou mais de dois mil anos, o mito de Prometeu submete-se, com excepcional 300 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS plasticidade, às interpretações mais diversas e até mesmo contraditórias (TROUSSON, 1997, p. 795). Em 1774, Johann Wolgang von Goethe publicou o poema inacabado Prometheus, com apenas oito estrofes, no qual o titã descrito por Goethe recusa-se a venerar as divindades, cortando, assim, os laços entre deuses e homens, para que estes pudessem ser livres e iniciar suas próprias criações. PROMETHEUS Bedecke deinen Himmel, Zeus, Mit Wolkendunst Und übe, dem Knaben gleich, Der Disteln köpft, An Eichen dich und Bergeshöhn: Musst mir meine Erde Doch lassen stehn Und meine Hütte, die du nicht gebaut, Und meinen Herd, Um dessen Glut Du mich beneidest. Ich kenne nichts Ärmeres Unter der Sonn ais euch, Götter! Ihr nähret kümmerlich Von Opfersteuern Und Gebetshauch Eure Majestät Und darbtet, wären Nicht Kinder und Bettler Hoffnungsvolle Toren. Da ich ein Kind war, Nicht wusste, wo aus noch ein, Kehrt ich mein verirrtes 301 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Auge Zur Sonne, ais wenn drüber wär Ein Ohr, zu hören meine Klage, Ein Herz wie meins, Sich des Bedrängten zu erbarmen. Wer half mir Wider der Titanen Übermut? Wer rettete vom Tode mich, Von Sklaverei? Hast du nicht alies selbst vollendet, Heilig glühend Herz? Und glühtest, jung und gut, Betrogen, Rettungsdank Dem Schlafenden da droben? . Ich dich ehren? Wofür? Hast du die Schmerzen gelindert Je des Beladenen? Hast du die Tränen gestillet Je des Geängsteten? Hat nicht mich zuni Manne geschmiedet Die allmächtige Zeit Und das ewige Schicksal, Meine Herrn und deine? Wähntest du etwa, Ich sollte das Leben hasse, In Wüsten fliehen, Weil nicht alie Blütenträume reiften? Hier sitz ich, forme Menschen Nach meinem Bilde, Ein Geschlecht, das mir gleich sei: Zu leiden, zu weinen, Zu geniessen und zu freuen sich, Und dein nicht zu achten, Wie ich!i 302 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS O que diverge das demais versões do mito apresentadas é a questão da presença da mulher. Enquanto que em Ésquilo e em Hesíodo a mulher é vista como o cerne dos problemas humanos, e também como punição a estes homens que ousaram desafiar a ira dos deuses, Goethe não faz nenhuma menção específica à figura feminina. Outro exemplo que dialoga com o mito de Prometeu é o conto Viver, de Machado de Assis, no qual o personagem está livre dos grilhões e não tem mais seu fígado comido pelas águias, fala à maneira da Bíblia, tendo, no entanto, como objetivo a sedução do ser humano, dialogando com Ahaverus, o último homem da face da Terra. A EVOLUÇÃO DOS HOMENS E O PODER DE CRIAÇÃO De obra em obra, época em época, autor para autor, a estrutura deste mito se modifica, acrescentam-se aspectos, excluem-se outros, enfim, inventam e recriam-no, mas sob a mesma essência do mito. A figura que representa a essência repassada pelo mito é o fogo, que simboliza o conhecimento. Tamanha é a importância desse elemento, que o mesmo está presente em todas as versões aqui analisadas. Em Teogonia: origem dos deuses, de Hesíodo, percebe-se que o poder está centrado nas mãos de Zeus, o qual tinha o absoluto domínio dos homens: Assim falou irado Zeus de imperecíveis desígnios, depois sempre deste ardil lembrado negou nos freixos a força do fogo infatigável aos homens mortais que sobre a terra habitam (HESÍODO, 2001, p. 137). 303 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Entretanto, desafiando a supremacia dos deuses, Prometeu rouba o fogo para dálo aos homens que, até então, eram desprovidos do conhecimento. Como castigo por esse feito, Zeus cria a mulher e envia-a aos homens: Dela descende a geração das femininas mulheres. Dela é funesta geração e grei das mulheres, Grande pena que habita entre homens mortais, Parceiras não da penúria cruel, porém do luxo. Tal como na colméia recoberta abelhas Nutrem zangões, emparelhados de malefício Elas todo o dia até o mergulho do sol Diurnas fadigam-se e fazem os brancos favos, Eles ficam no abrigo do enxame à espera E amontoam no seu ventre o esforço alheio, Assim um mal igual fez aos homens mortais Zeus tonítruo: as mulheres, parelhas de obras Ásperas, e em vez de um bem, deu oposto mal (HESÍODO, 2001, p.139). Sendo esta mulher vista como um mal para os mortais, percebe-se que não é permitido contrariar a vontade dos deuses, que punem cruelmente os que ousam desafiálos: O relato de Hesíodo tem, assim, uma função etiológica; serve para explicar a miséria da condição humana e ensinar o respeito aos deuses [...]. Beinfeitor desajeitado, Prometeu causou a desgraça dos homens, cuja sorte é concebida em 304 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS termos de queda e decadência, sem fazer qualquer apologia de revolta: a lição de Hesíodo é a submissão à vontade divina (PIERRE, 1997, p.785). Por outro lado, em Prometeu Agrilhoado, de Ésquilo, apesar de também ter roubado o fogo de Zeus e tê-lo entregue aos homens, Prometeu já não teme a revolta dos deuses para com ele, e nem se sente indefeso como fora representado em Hesíodo, pois possui um elemento que lhe proporciona poder, qual seja, o segredo sobre o futuro de Zeus: o seu destino é casar-se com uma mortal com quem conceberá um filho, cujo poder ultrapassará os seus. Estando em divergência com o Prometeu da obra Teogonia, este Prometeu não é mais “aquele benfeitor”, (Pierre, 1997, p.786). Inúmeras são as dádivas que fez. Prometeu se vangloria por ter retido a ignorância dos homens, os quais nada entendiam, nada sabiam discernir. Embora um pouco longa, é de extrema importância a seguinte citação, a qual denuncia a grandeza do homem, seu progresso e capacidade. Prometeu é o iniciador da civilização das artes, das técnicas e do conhecimento. Quero falar, mas não para censurar os homens, antes para expor pormenor a benevolência do que lhes dei. A princípio, quando viam, viam falsidades; quando ouviam, não entendiam; e, como as formas dos sonhos, misturavam tudo ao acaso, durante a longa existência; e não sabiam construir casas soalheiras de tijolos, nem sabiam trabalhar a madeira; viviam em antros subterrâneos, como as formigas ligeiras, nas profundidades sem sol das cavernas, E não tinham indicio seguro do inverno, nem da florida primavera, nem do fecundo verão; mas faziam tudo sem discernimento, até eu lhes ensinar o enigmático nascer e acaso dos astros. Também descobri para eles os números, a principal das invenções engenhosas, e a combinação das letras, memória de tudo quanto existe, obreira mãe das musas. E fui o primeiro a por sob jugo os animais, submetendo-os ao cabresto ou aos corpos dos homens, para que sucedessem aos mortais nos trabalhos mais pesados, e atrelei aos carros cavalos dóceis, ornamento do luxo excessivo. 305 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS (...) Se alguém caísse doente, não havia mesinha que tomasse ou com que se ungisse ou que bebesse; pelo contrário, definhavam, à míngua de drogas, antes de eu vos revelar as misturas dos remédios calmantes com que afastassem para longe de si todas as doenças. (...) guiei os mortais na difícil arte da adivinhação e fiz-lhes ver claramente os sinais do fogo, que antes eram obscuros. Foi isto o que eu fiz. Quem antes de mim, ensinaria a descobrir os bens ocultos debaixo da terra: o bronze, o ferro, a prata e o ouro? – Ninguém, bem eu sei – se não quiser jactar-se sem fundamento. Numa só frase, aprende tudo, em suma: todas as artes para os mortais vêm de Prometeu (ÉSQUILO, 1992, p. 54-55). Ora, eis as inúmeras dádivas que Prometeu deu aos homens. Por isso ele lamenta sua sorte. A fragilidade da natureza humana, os mortais, por quem se sacrificou, não o podem ajudar. Assim, o Titã vê-se abandonado de deuses e de homens: os primeiros negam-lhe a prestar socorro por ingratidão, os outros por incapacidade. Prometeu também já não é indefeso como na narrativa de Hesíodo, agora ele possui um segredo de considerável importância para seu futuro, o qual faz com que Zeus procure descobri-lo por temer ser destronado. Prometeu é o único detentor deste segredo, além de sua mãe, quem o revelou. É importante lembrar que Prometeu se sentiu na necessidade de ajudar os imortais indefesos pelo fato de Zeus querer exterminá-los, e recriá-los outra vez. Se para Ésquilo ainda não há como fugir do poder dos deuses, em Prometheus o sentido é inverso. Pierre Brunel (1997) afirma que esse Prometeu é o fundador de uma sociedade mais justa, igualitária, que recusa as guerras de conquista. Ele recusa qualquer tipo de imitação, visto ter o poder de criar. Prometeu é “o artista revoltado que se apóia em seu poder criador para rejeitar a concepção tradicional da divindade” (BRUNEL, 1997, p. 791). O poema de Goethe não relata o roubo do fogo em si, mas suas consequências. Prometeu questiona o motivo pelo qual deve ser submisso aos deuses, sendo que estes não o ajudaram em sua luta pela liberdade e pelo conhecimento e não possuíam 306 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS nenhuma capacidade que os próprios homens não possuíssem: “Goethe enaltece o papel do artista e, como nada achasse nos deuses que o gênio humano não possuísse recusa-os para admitir, acima dos homens, apenas o Destino, potestade indefinida e impessoal” (BRUNEL, 1997, p.791). Prometeu sugere que esta nova geração viva de fato esses males provenientes de seus antepassados, mas que não recorram a nenhum deus, pelo contrário, resolvam seus impasses seguindo seus próprios princípios. As diversas versões do mito de Prometeu, aqui analisadas, apresentam um profundo amadurecimento na representação da mentalidade dos homens. O homem, agora, é instruído e possui capacidade para criar e compreender o universo sob outra perspectiva, conforme sua própria política. O homem, de geração para geração, desenvolveu sua capacidade de criação e tornou-se autônomo, gerador e gerenciador de seus atos e vontades, obtendo, assim, o livre arbítrio de sua conduta. O fogo hoje pode ser visto como um aparato tecnológico, fruto dessa incessante luta pelo conhecimento. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste breve estudo foram elencadas algumas versões que o mito de Prometeu recebeu em diferentes momentos da história, o que faz desta tragédia uma das mais conhecidas no mundo e utilizadas como uma forma de intertextualidade para várias obras na literatura. O mito se caracteriza por relatar a origem dos deuses e do mundo e a evolução da humanidade a partir da descoberta do fogo e, assim, de todas as ciências e saberes, como no caso das letras, por exemplo. Prometeu tornou-se, desde os tempos de Ésquilo, o símbolo da eterna insatisfação humana com seu destino. O Titã que não se conforma nunca com os acasos e as inconstâncias da natureza e que se revolta contra a tirania dos deuses. Prometeu é o titã, ou semideus, que tenta construir o seu próprio destino sem aceitar interferência divina. 307 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Nesse sentido, o moderno Prometeu se liberta da punição dos deuses, e passa a ser o criador do mundo e de si mesmo. Para tanto, contribui o fogo, metáfora do conhecimento, da conquista da ciência e da tecnologia, não mais roubado dos céus. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARISTÓTELES. Poética. In: Os pensadores. Trad. Edoro de Souza. São Paulo: Abril, 1973. BRUNEL, Pierre. Dicionário de mitos literários. Rio de janeiro: José Olimpio, 1997. ÉSQUILO. Prometeu Agrilhoado. Rio de Janeiro: Editora 70, 1992. GOETHE, Johann. Prometheus. Disponível em: http://primeirosescritos.blogspot.com.br/2010/01/goethe-prometheus.html. Acesso em set. 2012. HELENA, Lúcia. A tragédia grega. Disponível em www.cesargiusti.ddfnet.com.br/ufpe/teor4/text/atragediagrega.doc. Acesso em 03 de setembro de 2009. HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 2001. ______. Os trabalhos e os dias. São Paulo: Iluminuras, 1996. JENNY, Laurent. A estratégia da forma. In: Poétique – revista de teoria e análise literárias. Intertextualidades. Coimbra: Livraria Almedina, 1979. TROUSSON, Raymond. Prometeu. In: BRUNEL, Pierre. Dicionário de mitos literários. Tradução Carlos Sussekind. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997. VERNANT. Jean-Pierre. O mundo dos humanos. In: VERNANT. Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 59-74. 308 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS i Encobre o teu céu, ó Zeus, Com vapores de nuvens, E, qual menino que decepa A flor dos cardos, Exercita-te em robles e cristas de montes; Mas a minha Terra Hás-de-ma deixar, E a minha cabana, que não construíste, E o meu lar, Cujo braseiro Me invejas. Nada mais pobre conheço Sob o sol do que vós, ó Deuses! Mesquinhamente nutris De tributos de sacrifícios E hálitos de preces A vossa majestade; E morreríeis de fome, se não fossem Crianças e mendigos Loucos cheios de esperança. Quando era menino e não sabia Pra onde havia de virar-me, Voltava os olhos desgarrados Para o sol, como se lá houvesse Ouvido pra o meu queixume, Coração como o meu Que se compadecesse da minha angústia. Quem me ajudou Contra a insolência dos Titãs? Quem me livrou da morte, Da escravidão? Pois não foste tu que tudo acabaste, Meu coração em fogo sagrado? E jovem e bom — enganado — Ardias ao Deus que lá no céu dormia Tuas graças de salvação?! Eu venerar-te? E por quê? Suavizaste tu jamais as dores Do oprimido? Enxugaste jamais as lágrimas Do angustiado? Pois não me forjaram Homem O Tempo todo-poderoso 309 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS E o Destino eterno, Meus senhores e teus? Pensavas tu talvez Que eu havia de odiar a Vida E fugir para os desertos, Lá porque nem todos Os sonhos em flor frutificaram? Pois aqui estou! Formo Homens À minha imagem, Uma estirpe que a mim se assemelhe: Para sofrer, para chorar, Para gozar e se alegrar, E pra não te respeitar, Como eu! Disponível em: <http://primeiros-escritos.blogspot.com.br/2010/01/goetheprometheus.html> Acesso em 18 set. de 2012. 310 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS A VOZ DO MARGINALIZADO NA OBRA DE J. M. COETZEE, VIDA E ÉPOCA DE MICHAEL K Juliana P. OLIVEIRAi Wellington R. FIORUCIi O romance Vida e época de Michael K foi escrito por John Maxwell Coetzee em 1983, e relata a história de Michael K no meio de uma guerra civil na África do Sul, contando desde o seu nascimento, o qual é marcado pelo lábio leporino, uns dos motivos pelos quais sofre rejeição ao longo de sua trajetória. Sua mãe fica muito doente, por isso tentam sair da cidade e voltar para fazenda onde ela vivia, tendo sempre que se esconder da polícia para não serem presos, no entanto ela piora e acaba morrendo. Michael recebe as cinzas da mãe e continua o caminho de volta à fazenda, onde a enterra. Para não ser pego pelos militares, Michael passa a viver escondido em fazendas e cavernas alimentando-se de raízes, insetos e de algumas abóboras que ele plantou, até ser levado para um campo de trabalho forçado. Mesmo fraco por não se alimentar e cansado de tanto trabalhar, consegue fugir e voltar para a fazenda. Lá cava um buraco e passa a viver de uma maneira meio animalesca, alimentando-se apenas daquilo que conseguia plantar. Sem delongas, ele é capturado novamente e levado para outro campo onde tentam nutri-lo, porém se nega a comer ou falar e acaba fugindo, passando a perambular solitário. Coetzee quer nos revelar, por meio de um personagem que é considerado da margem, o que está acontecendo na sociedade, as injustiças, as discriminações, a falta de liberdade, ou seja, a realidade do povo sul-africano. E ao dar voz a esses marginalizados, o autor possibilita ao leitor enxergar a história de outra maneira, criando, assim, uma literatura diferente, que não fala da elite, mas sim daqueles que sofrem com a anulação cívica e exclusão. Sujeitos que estão em busca da sua identidade e do seu lugar na sociedade. Há também questionamentos sobre os métodos adotados pelo poder, o governo, na tentativa de manter a ordem num país que está mergulhado no caos devido a guerra civil. 311 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS É por meio dessas e outras características que podemos classificá-la como uma obra pertencente ao Pós-modernismo. Mas o que é o Pós-modernismo? É “um fenômeno cultural atual que existe, tem provocado muitos debates públicos e por isso merece uma atenção crítica”. (HUTCHEON, 1991, p.11, grifo da autora). Mas ainda não há uma resposta pronta sobre o que realmente ele é, pois é difícil explicá-lo devido ao fato de estar acontecendo nos dias atuais, e porque é preciso uma atenção especial e cuidadosa para ver o que mudou, com o decorrer do tempo, na maneira de pensar e se comportar das pessoas e como possíveis mudanças no âmbito do pensamento e da ação humana estão se refletindo na sociedade, na política, no modo de compreender a História e na linguagem literária. Segundo Harvey (2012) não há certeza quanto aos pensamentos que possam substituir o modernismo, pois é difícil apreciar, entender ou mesmo explicar as mudanças que todos vemos que têm ocorrido. Muitos críticos defendem que o Pós-modernismo é radical, que despreza as ideologias do Modernismo, afirmando que a sociedade é movida pelo consumo em massa, e que dessa forma ocorre a produção de obras com qualidade inferior, mostrando que está acontecendo a anulação de todas as formas de pensamento, principalmente no que tange a construção da história. Mas nós não vemos, por meio de outros estudiosos, que não se trata de um discurso onde tudo é certo e permitido, mas sim como a busca pelo surgimento de alguma coisa diferente, que faça com que o leitor e a sociedade se tornem mais atentos e críticos diante daquilo que lhes é apresentado. “A ideia de que todos os grupos têm direito de falar por si mesmo, com sua própria voz, e de ter essa voz como autêntica e legítima, é essencial para o pluralismo pós-moderno” (HARVEY, 2012, p. 9). Os escritores querem mostrar que discursos tidos como verdadeiros e imutáveis podem ser revistos, questionados, e que a história vai ser relatada de acordo com os interesses daquele que está contando, que geralmente é a classe dominadora. “É uma tentativa de verificar o que ocorre quando a cultura é desafiada a partir de seu próprio interior: desafiada, questionada ou contestada, mas não implodida.” (HUTCHEON, 1991, p. 16). Não se trata, neste caso, de desfazer ou negar a história e sim questioná-la, dando outros pontos de vistas para o leitor/receptor, 312 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS permitindo que, dessa forma, vozes antes excluídas tenham chance a dar sua versão dos fatos. Através das leituras feitas dos textos de Hutcheon, observamos que o PósModernismo é a arte da reflexão, do questionamento daquilo que o senso comum acredita ser verdadeiro, de uma forma investigativa que não fornece respostas concluídas. Segundo a autora, é uma reavaliação crítica e irônica do passado, da arte e da sociedade. Assim, conseguimos enxergar que nada do que nos é apresentado é neutro, sempre terá uma carga de ideologias oculta, e que é necessário desafiar e contestar os discursos históricos sem negá-los ou destruí-los, mas questioná-los. Já Jameson (2004) defende que os desdobramentos do Pós-modernismo constituem simples inversões, negações e cancelamentos das características do modernismo. E “[..] que o pós-modernismo, afinal, é pouco mais que o modernismo (ou que ele é parasitário ou atrasado com respeito às conquistas do modernismo)”. (JAMESON, 2004, p. 199). Que é o vale tudo, onde a produção escrita preocupa-se apenas com a comercialização, e devido a isso as obras de hoje trazem as vozes dos excluídos, para que esses se sintam envolvidos e valorizados, acreditando que um dia a situação em que se encontram pode ser mudada, levando-os a trabalhar, produzir e consumir mais, fortalecendo o capitalismo. E que essa artimanha, além de manipular os descentralizados, manipula os das classes favorecidas, pois esses são expostos a realidade dos marginalizados e assim vão lutar pra não descer de classe. Enfim que somos uma sociedade facilmente forjada pelos meios de comunicação e pelo estado. Mas não seguimos essa linha de pensamento. Pois o Pós-modernismo é a reavaliação da forma como as mudanças estão acontecendo e de que maneira essas transformações são apresentadas à sociedade. “[...] consiste em reconhecer que o passado, já que não pode ser destruído porque sua destruição leva ao silêncio, deve ser revisitado: com ironia, de maneira não inocente.” (ECO, 1985, p. 57). Sendo assim, devemos realizar um questionamento acerca dos fatos históricos e culturais, debatendo e repensando criticamente, buscando reescrever as experiências a partir dos relatos dos 313 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS excluídos. E, a partir disso, criar uma nova forma de fazer literatura, algo que seja mais envolvente, que traga em seu interior intertextualidades, subtextos e instrumentos que procuram convencer o leitor a respeito daquilo que está sendo dito. Além disso, traz o uso da pluralidade de vozes para contar a mesma história, mostrando inúmeras versões do mesmo acontecimento. É a vez e a possibilidade do marginalizado, o excêntrico, poder falar. Dessa maneira, essa nova estratégia de escritura busca fazer com que o leitor deixe de ser ingênuo, e passe a ser mais crítico e reflexivo. A poética do pós-modernismo procura demonstrar que, apesar de vivermos em um mundo globalizado, cada um tem a sua identidade e cultura e que não devemos nos limitar ao consumismo que impera nas relações globais. São essas diferenças entre um indivíduo, um povo, uma nação que interessam ser estudadas pelo Pós-modernismo, mas sempre com o cuidado de não marginalizar nada nem ninguém e para isso busca “[...] explorar as mídias e arenas culturais abertas a todos” (HARVEY, 2012, p. 19). Por meio disso, podemos dizer que as obras pertencentes ao Pós-modernismo não são vazias e sem sentido, os autores usam os personagens para confrontar o presente e o passado, permitindo ao leitor ter uma visão diferenciada dos fatos. O tema é posto através do narrador, contextualizando e contestando, abrindo ao leitor um leque de possibilidades de interpretações. Segundo Hutcheon (1991) não é levar o marginalizado para o centro, mas sim valorizar a periferia e usar esse posicionamento para criticar o centro a partir do seu interior. E é isso que o livro Vida e época de Michael K (1983) nos traz. É a vez da voz do marginalizado ser ouvida. Coetzee nos apresenta a realidade da África do Sul por meio do narrador que conta o que se passa com os personagens, uma série de fatos que nos mostram a repressão, o racismo e preconceito que o negro sofre, o isolamento que pessoas consideradas diferentes são obrigadas a viver e as situações desumanas que o processo de colonização proporciona, dando-nos detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Como podemos ver na exploração de Anna, mãe de Michael K,que: 314 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS Durante oito anos Anna K fora empregada doméstica [...] Trabalhava cinco e seis dias na semana [...] O salário era justo, os patrões razoáveis, andava difícil arrumar emprego [...] Um ano atrás [...] manifestou-se a hidropisia. Os Buhrmann mantiveram no emprego para fazer comida, cortaram um terço do seu salário.” (COETZEE, 1983, p. 12). E também através do olhar de Michael K e das dificuldades que encontra em sua trajetória vemos as injustiças, as violências, as incoerências, os desamparos e os ânimos de seus cidadãos, quando ele fala: “[...] o mundo podia ser indiferente a uma velha que tinha uma doença feia em tempo de guerra.” (COETZEE, 1983, p.14), ou quando diz: “Eu não estou na guerra” (COETZEE, 1983, p. 161) e o narrador afirma dizendo “Ele não é deste mundo. Vive um mundo todo dele.” (COETZEE, 1983, p. 165). Assim mostra que é a visão de alguém que não está diretamente envolvido com a guerra, permitindo ao leitor enxergar a história sem o filtro da moral, sem o ranço da história. Além disso, o próprio título sugere que será narrada, mais do que a vida do personagem, a história de uma nação. Pois o autor escolheu escrever “Vida e época de Michael K”, ao invés de “A vida e época de Michael K”. Nesse caso a utilização do artigo definido “a” sugeriria que se trata de uma única pessoa, uma única vivência, assim, sua supressão permite uma abrangência maior, indicando que os sofrimentos de K não são exclusivos dele, mas sim da maioria do povo africano. Evidenciando, também, que essa situação não mudou totalmente. Afora isso, a utilização de “época”, denota um enredo que não trata apenas de um indivíduo, mas de toda a história que envolve o período e a população que o vivenciou. Outro ponto que faz parte do Pós-modernismo é o questionamento daquilo que o senso comum considera e conhece como verdadeiro e correto e a não aceitação do que nos é apresentado e imposto, pois é necessário refletir sobre as histórias que nos são repassadas, buscando entender o que aconteceu, revendo os fatos de forma crítica, para que assim, novas ideias surjam e algo seja feito para mudar a situação. O autor questiona os sistemas centralizados, onde uma minoria decide como o país deve ser e como as regras funcionarão. Ele reconhece a necessidade de 315 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS estabelecer a ordem, mas indaga como isso está sendo feito, quais os motivos da guerra e o modo de vida das pessoas que estão passando por isso, se as medidas que estão sendo tomadas pelo governo são para melhorar a vida da população ou somente para benefícios dos poderosos. Demonstra isso quando fala das patrulhas, dos toques de recolher, das exigências de passes para sair da cidade e a dificuldade de obter um, e quando Michael é preso e sem saber o que está acontecendo começa a perguntar o porquê de estar passando por essa situação, além de ser obrigado a trabalhar. Contudo K fica sem obter nenhuma resposta. Coetzee quer com isso chamar nossa atenção para a questão da liberdade ou falta dessa, mostrando que os personagens estão livres e presos ao mesmo tempo. Um exemplo é quando narra a impossibilidade de Michael voltar ao local onde morava, tendo que passar a noite no quarto de sua mãe devido aos toques de recolher: “Uma noite os ônibus não saíram às ruas [...] Sem poder dormir, sem poder sair, por causa do toque de recolher, ficou sentado na cadeira, tremendo, até de manhã [...] (COETZEE, 1983, p. 13). Na segunda parte esse questionamento se dá por meio de outro narrador, o oficial que está cuidando de K. Esse começa a observá-lo e refletir sobre o que está acontecendo com ele e ao seu redor. Vê que Michael conseguiu viver e sobreviver no meio da história conflituosa, e o narrador também quer fugir da realidade e se igualar a ele. Desse modo, ele começa a questionar seu modo de vida e o que levou a essa guerra: “Além disso, falei, pode me lembrar por que estamos fazendo essa guerra? Uma vez me disseram, mas faz tempo e parece que esqueci. Estamos fazendo esta guerra, disse Noel, para as minorias terem algo a dizer sobre seus destinos.” (COETZEE, 1983, p. 183) Ademais, Coetzee apresenta uma literatura descentralizada, que fala e dá voz aos menos favorecidos, aos marginalizados. Isso se dá no momento em que o autor faz uma literatura que não discorre sobre a elite ou os brancos. Ao contrário, ela é popular, da classe baixa, dos marginalizados, que relata a história de um homem que vive numa sociedade onde a solidariedade raramente aparece. Michael percebe sua condição, em que o único papel que tem na sociedade é de trabalhador, 316 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS percebível nos momentos em que ele é capturado e forçado a trabalhar sem receber nenhuma explicação: “Na companhia de cinquenta estranhos, K foi levado de caminhão para o pátio da ferrovia, comeu mingau frio e chá, e foi embarcando num vagão isolado num ramal.” (COETZEE, 1983, p. 51). “Por que tenho que trabalhar?” “Porque mandaram.” (COETZEE, 1983, p. 53). O fato de ter o lábio leporino e não conseguir se comunicar direito deixa o personagem isolado das demais pessoas, vivendo à deriva pelo mundo. Mostra também que pessoas como Michael são, desde crianças, ensinadas a desempenhar funções, para servir aos outros e que não os tornassem serem pensantes, apenas trabalhadores: Por causa da deformação, e porque não era rápido de cabeça, Michael foi tirado da escola depois de uma breve tentativa [...] passou o resto da infância na companhia de outras crianças infelizes com afecções diversas, aprendendo os primeiros passos de ler, escrever, contar, varrer, esfregar, arrumar camas, lavar pratos, fazer cestos, mexer com madeira e cavar”, “Por causa da sua cara, K não tinha amigas mulheres. Ficava melhor quando estava sozinho. (COETZEE, 1983, p. 10). Isso mostra que o diferente, o marginalizado, não é aceito e ouvido pela história, sofrendo anulação cívica e falta de amparo por parte da lei, e é através disso que o autor quer defender a ideia de que esse deve ser aceito, respeitado e acolhido pela História. Aliás é por meio da fala, da linguagem que nos formamos como sujeito e expressamos nossa subjetividade, constituindo assim nossa personalidade. Em Vida e época de Michael K (1983) o escritor se utiliza do personagem principal para mostrar a situação de várias pessoas que estão em busca por uma identidade. Percebemos isso ao ver as dúvidas que Michael tem em relação ao seu 317 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS lugar e papel no mundo: “O problema que tanto o preocupava anos antes, no galpão das bicicletas do Huis Norenius, o porquê de ter sido trazido ao mundo, recebera sua resposta: tinha vindo ao mundo para cuidar da mãe.” (COETZEE, 1983, p.13). Mesmo quando sua mãe já está morta ele insiste em realizar seu último desejo, regressar à fazenda onde morava e lá enterrar as suas cinzas, mas não era somente para isso que Michael queria ir até esse local. Ele tem curiosidade em saber as suas raízes, a sua origem, e por meio dessas descobertas, poder assim, formar sua identidade. Mas não é um voltar por voltar, é um retorno ao passado com uma perspectiva diferente, mais reflexiva, demonstrada através dos fluxos de pensamentos dos personagens, pois apesar de raramente aparecer sua fala no texto, temos acesso às suas ideias, dada a focalização interna do relato. Outro ponto que nos mostra de que existe a falta de uma identidade definida é o fato do sobrenome do personagem ser apenas “K”, ou mesmo por ele ser chamado (nomeado) de formas diferentes durante o livro: “Michael K”, “Michael”, “K” e “Michaels”, deixando-nos a ideia que ele não sabe quem realmente é e que outros passam pela mesma situação. O tempo todo ele tenta voltar ao local da sua origem para tentar formar sua identidade, a identidade da nação africana. É nessas tentativas que compreendemos que o maior rival de Michael é a História, pois ela sacrifica sua existência, o anula, ele é vítima de algo que não compreende e não reconhece. Essa problematização dos acontecimentos históricos, das ideologias de um país em conflito, ajuda-nos a compreender melhor como a cultura de uma nação é formada. É por meio desses relatos do passado que o autor critica a história fazendonos refletir a respeito da formação das regras, leis, de como é ditado a forma de vida que os cidadão devem ter, exemplifica a maneira que os marginalizados são tratados, a total anulação a sua voz desses diante da sociedade, sendo meros fantoches, usados apenas como mão de obra, beneficiando a classe dominadora. Coetzee utiliza a literatura como uma forma de libertar os oprimidos do silêncio que são obrigados a viver, inserindo-os na história, dando a oportunidade para mais pessoas saberem o que acontece aqueles que não estão no centro. Ele deixa 318 FOZ DO IGUAÇU ANAIS DO VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE LETRAS A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LETRAS: DESAFIOS E PERSPECTIVAS ISSN 2175-384X 06/12/2012 a 08/12/2012 ARTIGOS COMPLETOS: EIXO TEMÁTICO – ESTUDOS LITERÁRIOS transparecer a falta de interesse do estado em ajudar indivíduos como Michael a se inserirem na sociedade, e como isso faz com que esse tipo de pessoas se isolem até quase se tornarem primitivos ou animais. Sua literatura traz à tona, de um modo critico, o que os processos de colonização causaram na população nativa, e como isso é visto, vivido e sentido por esses. O autor quer fazer com que nós tiremos as máscaras que nos foram postas e passamos, dessa maneira, a enxergar e raciocinar sobre o que está acontecendo ao nosso redor. Para que assim cada vez mais pessoas percebam como está se formando a sociedade, e quem sabe, assim, os “Michaels” possam ter o direito de se expressar, vivendo com dignidade, sendo ouvidos, deixando de ser invisíveis, ou seja, passando a existir de fato. REFERÊNCIAS CARDOSO, Ciro F. Modernismo e pós-modernismo numa antologia de alto nível. Disponível em: http://www.historia.uff.br/tempo/site/?cat=32 > Acesso em 13 nov. 2011: COETZEE, John M. Vida e época de Michael. São Paulo: Companhia das Letras, 1983. ECO, Umberto. Pós-escrito a O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. HARVEY, David. Pós-modernismo. In: HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 21. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011. p. 45-67. HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo: história, teoria, ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991. JAMESON, F. Espaço e Imagem: Teoria do Pós-moderno e outros ensaios. Trad. de Ana Lúcia Almeida Gazolla. 3ª ed. 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