A língua alemã em Freud ̶ E Eu com Isso?
Pedro Heliodoro de Moraes Branco Tavares1
“ - O Freud não me diria isso. (Diz o paciente)
- O que Freud diria tu não ia entender mesmo. Ou tu sabe alemão?”
O Analista de Bagé L. F. Veríssimo
Não raro, nas humanidades, deparamo-nos com termos alemães. Muitos certamente
viram ao longo de uma graduação em filosofia, sociologia, letras ou psicologia, algum
professor escrever no quadro palavras de estranha pronúncia, tais como Zeitgeist,
Weltanschauung, Vorstellung, Leitmotiv, Bildungsroman, Entstehung, Vorhandensein,
etc.
O emprego de muitos destes termos acaba sendo justificado pela impossibilidade de
tradução, tal como, segundo afirmam alguns, seria impossível traduzir para qualquer
outra língua o lusíssimo termo “saudade”. Eu teria aqui minhas reservas, creio que em
alemão se transmite a mesmíssima idéia com a palavra Sehnsucht. Mas, tudo bem,
não vamos desmerecer a nossa preciosa e “última flor do Laccio”.
É bem verdade que às vezes se fica tentado a concordar como a afirmação
hedeggeriana de que “Só [seria] possível filosofar em alemão”. Por certo, a filosofia de
Heidegger só foi possível em alemão, já a de Hume, Montaigne, Kirkegaard, e outros...
Seriam estas possíveis no alemão? Certamente não. Isso, pelo menos assim é como
penso, pois as línguas não são tão somente códigos de expressão, substituíveis e
análogicos. As línguas não são códigos, são cosmovisões. Por sinal, cosmovisão, este
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Psicanalista e Literato-Germanista, Doutor em Psicanálise e Psicopatologia Fundamental
(UNIVERSITÉ PARIS VII), Doutor em Teoria Literária (UFSC). Professor de Língua e Literatura
Alemã (Universidade Federal de Santa Catarina). Professor de Psicologia (FES-SC).
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neologismo em nossa língua, parece dar conta muito bem do acima citado
Weltanschauung, ainda que, é claro, não cause a mesma impressão de familiaridade.
Tradução e neologismos são assuntos recorrentes entre psicanalistas, sobretudo
depois de Lacan. Foi Lacan, a partir da lingüística de Saussure e de seu retorno a
Freud quem chamou a atenção para isso que muitos consideram ou um preciosismo
desnecessário e chegam a acusar de “impostura” intelectual. Lacan soube questionar
as traduções deturpadoras das propostas freudianas e, com seus neologismos
franceses, soube expressar o que Freud pôde fazer com o alemão. Isso inclusive
poderia vir a se tornar tema de uma discussão futura. Se seus estilos, de Freud e de
Lacan, são considerados tão distintos um do outro, isso certamente se deve às suas
línguas de expressão. O que Freud expressava numa linguagem familiar a qualquer
germanófono, fazendo uso de seus recursos como a prefixação verbal e a
justaposição de morfemas ou Komposita, Lacan só obtinha a partir de uma violação do
código lingüístico, que lhe deu a fama de ininteligível e provocador. Se o parlêtre
lacaniano só se forma a partir de uma invenção no francês, em alemão Freud poderia
expressar idéia semelhante com o significante Sprachwesen que, ainda que estranho
aos dicionários, não seria entendido como um neologismo ou como um termo erudito.
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Mas, voltemos a nossa questão: Se na Psicanálise o alemão nos interessa é antes por
querermos dar conta desta cosmovisão através da qual Freud se expressou. Vejam
que tive o cuidado de não dizer “a língua de Freud”, nem se trata aqui do “alemão de
Freud”, mas antes de como ele se expressava nessa língua ou se utilizava dela. O
alemão é por nós considerada uma língua estrangeira, e assim também o era por
Freud. E qual seria então sua língua mãe, o Iídiche? Não se trata disso, certamente
sua ascendência judaica em plena Viena da virada do século pode tê-lo auxiliado a
chegar a uma tal conclusão, embora o que ele afirma em seu ensaio sobre o
Unheimliche (FREUD, 1919) ou a Estranheza familiar (uma tradução possível), é que
“todos falamos uma língua que nos é estrangeira.” A língua mãe, essa só Lacan veio a
denominar: lalangue.
A língua, assim como a cultura, estas nos são sempre estranhas, embora elas nos
atravessem e nos façam delas seus joguetes. O que pretendo trazer à tona, para que
possamos discutir e nos aproximarmos, são algumas questões e mitificações que
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envolvem a terminologia alemã de Freud assim como suas possíveis e impossíveis
traduções.
Na língua em questão, o alemão, assim como na língua grega, parece que
encontramos num só significante as acepções estrangeiro e estranho: Fremd, na
primeira e ξένος (xénos), na segunda. Mas, é justamente Freud quem nos lembra da
importância e do quanto de familiar existe nisso que procuramos afastar de nossa
existência (FREUD, 1919). Nisso, nesse afastamento denegatório, seus tradutores
foram mestres, sobretudo aqueles que o verteram, ou per-verteram, para a língua
inglesa, da qual obtivemos a nossa per-versão brasileira.
O autor de que tratamos era, certamente, um erudito. Pierre Cotet (1989) chega até
mesmo a “elencar” os estilos de escrita deste que merecidamente veio a receber o
prêmio Goethe de literatura. Pediria a vocês a licença de mencionar esse pequeno rol.
Segundo Cotet, Freud seria a um só tempo:
- o filósofo e didata da metapsicologia;
o dialético da Psicologia das Massas;
o conferencista real ou imaginário das Conferências e das Novas Conferências;
o ensaísta da Recordação de Infância de Leonardo da Vinci;
o orador de Recordações Atuais sobre a Guerra e a Morte;
o debatedor que encontra, em Totem e Tabu ou na Análise de uma Histeria, o
movimento mesmo de uma reunião pública;
o polemista da Contribuição à História do Movimento Psicanalítico;
o procurador que ajusta as contas com Jung, Adler ou Janet;
o panegirista de Charcot;
o biógrafo ou exegeta de Moisés;
o memorialista de si mesmo (Estudo Autobiográfico);
o prefaciador de ao menos quinze obras de confrades;
o lingüista de “o Inquietante” (Das Unheimliche);
o poeta das horas de graça concedida pela natureza (“A Transitoriedade”), pelo
romance (Gradiva), pela comédia shakespeariana (“o Tema das Escolhas dos
Cofrinhos”);
o cronista de seus próprios sonhos ou de seus lapsos, inclinado à confidência ou à
confissão;
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o dialoguista que sabe fazer falar tanto o pequeno Hans como o interlocutor parcial
da “Análise Leiga”;
o contador das “Lembranças Encobridoras”;
o folhetinista da Viena burguesa, com suas ruas, suas moradias, seus pátios, suas
escadas, suas alcovas;
o miniaturista do “Bloco Mágico”;
o humorista que gosta de ditos espirituosos e analisa aqueles dos outros;
o mestre do aforismo, de todas as formas de imagens, comparações e metáforas,
do paralelo, da citação que ele explora ou do exergo de que se apropria.”
Sua versatilidade e sua erudição não estão sendo aqui colocadas em questão, muito
pelo contrário. O que pretendo destacar do estilo ou da escrita freudiana, é que, à
diferença do que se possa pensar, a sua terminologia, os elementos fundamentais de
sua metapsicologia, seus Grundbegriffe, eram muito mais “familiares” e “vulgares” no
contexto de sua cultura e língua de expressão do que se possa imaginar. Isso, aliás,
para aqueles que têm contato com o seu pensamento não é de se estranhar, uma vez
que toda a problemática de sua obra e do tipo de “tratamento psíquico” que sugere é
sobre e para as questões da vida cotidiana (FREUD, 1901).
Se dizia que era
necessário um certo nível intelectual para se submeter à análise (FREUD, 1912)
estava se referindo à capacidade de abstração e de elaborar metáfora. Freud
raramente quis fazer uso das chamadas “línguas clássicas”, do latim e do grego, tal
como se fez na tradução médico-biológica de Strachey. Nunca falou em anáclise, e
sim em apoio (Anlehnung), nunca mencionou a palavra catexia, mas antes
investimento (Besetzung) e, talvez seja esse o caso mais comentado e digno de nota,
não tratou a sexualidade humana a partir dos instintos e sim das pulsões (Triebe).
Não nos apressemos aqui em culpar o competente James Strachey pelos deslizes da
tradução britânica. Lembremos que este era um jornalista e homem de letras que em
muito se opôs aos referidos biologismos. Se formos procurar por um responsável, este
seria certamente aquele que fez a Psicanálise atravessar o canal da mancha e quase
afoga-la no caminho: Ernest Jones. Quando Strachey quis saber como se tornar um
analista Jones lhe sugeriu que estudasse medicina (!). Segundo sua esposa Alix
Strachey, “Após três semanas dissecado pernas de rãs, ele desistiu” (in RODRIGUÉ,
1995) e optou por um caminho mais direto: escrever a Freud no intuito de ser
analisado. Adiantando a questão da tradução das instâncias componentes da segunda
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tópica, Strachey se opôs ferrenhamente a idéia de Jones, com seus termos latinos.
Em carta, apesar de acatando sua decisão, chegou a se referir ao colega como
“aquela pequena besta” (in SOUZA 1999).
É digno da biologia e da medicina dar uma nomenclatura científica ao vulgar e
desimplicando assim o objeto observado do observador, poder tratá-lo com a almejada
neutralidade e distanciamento positivistas. Em questões que envolvem a sexualidade,
a morte e, por contigüidade, o tabu e o padecimento físico e psíquico, torna-se
tranqüilizador o uso de estrangeirismos greco-latinos tais como amenorréia,
orquidopexia, histeróclise, necrofilia, coprêmese. Já para a psicanálise, estas questões
que acabam por provocar o mal-estar estão sempre presentes e é sobretudo a partir
deste mal estar, do sinto-mal (QUINET, 1993), que se inicia qualquer trabalho.
Há pouco nos referíamos aos estrangeirismos herdados dos traduttore / traditore
britânicos de Freud e de sua herança. Certamente a maioria dos leitores está
advertida de que a segunda tópica do aparelho psíquico não foi concebida em latim.
Ao invés de Ego, Id e Superego, os termos originais teriam sido Ich, Es e Über-Ich,
respectivamente, que iremos a partir de agora deignar por eu, isso e super-eu.
Adotaremos a partir de agora as contribuições feitas por Paulo César de Souza em
sua tese de Doutorado publicada sob o nome As Palavras de Freud (1999).
Ao escrever seu livro Das Ich und das Es, ou O Ego e o Id no qual formaliza e avança
nas concepções metapsicológiacs da segunda tópica, Freud (1923) usa pronomes
pessoais: a primeira e a terceira pessoa neutra singular do caso reto. Ou seja, um
alfabetizando conjugaria em alemão o verbo amar da seguinte forma:
ich liebe
du liebst
er / sie / es liebt
Quanto ao caso de Ego ou Eu, parece que as discussões se encontram mais
avançadas. Adotamos uma tradição anglo-saxã anterior à psicanálise de tratar essa
instância psíquica através da qual nos identificamos como Ego. Tanto no inglês como
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no português temos palavras como egoísmo ou egolatria, palavras que, apesar de
trazerem uma conotação negativa, estão incorporadas ao vocabulário cotidiano.
Bruno Bettelheim (1983), um dos primeiros críticos da Standard Edition de Strachey,
foi quem veio com a argüição de que ao lançar mão do latim e do grego, línguas
mortas, acabava-se por evocar erudição e não vitalidade. Sugeria que se usasse os
pronomes ingleses I e It (Evidentemente que torna-se incômoda no inglês a
coinscidência fônica de eye [olho] e I [eu] ). No português teríamos em Eu uma
tradução direta para Ich, mas faltaria realmente um termo cognato ao es alemão ou ao
it inglês. Como podemos entender esse pronome? Graças à riqueza das conjugações
no português ou mesmo no espanhol acabamos muitas vezes prescindindo do uso dos
pronomes. Se dizemos “canto, corro e durmo” está claro que o agente da ação é a
primeira pessoa do singular, se ouvimos “cantas, corres e dormes” sabemos também
de imediato tratar-se da segunda pessoa e assim por diante. Não é o caso da maioria
das línguas anglo-germânicas tamanha especificidade nas conjugações, fato que
incrementaria a importância dos pronomes.
Mas, quando dizemos “chove, troveja e venta” quem é o sujeito, ou mais bem posto,
quem é o agente? No alemão diríamos “es regnet, es donnert, und es schneit”. Até no
francês, uma língua neo-latina, ocorre algo semelhante: Diz-se Il pleut, algo como “Ele
chove”. Quando ou se o sujeito ou o objeto são inexistentes ou indeterminados, é esta
a partícula que se emprega. Outro exemplo: Es klopft. Wer ist es? (Batem [na porta].
Quem é?)
Lembrando do famoso chiste do Analista de Bajé, da interpelação de seu analisante:
Freud não diria isso? Realmente, Freud não diria Isso, tampouco diria Id, até porque
ele não falava português nem latim. Usamos o Isso por preservar do ideário freudiano
o “inominável” que o psicanalista encontrou na obra de Georg Groddeck (1988) a
quem ele atribui a invenção desse termo, mesmo que sua concepção já se
encontrasse em Nietzsche (1992).
Assim como Freud não inventou o termo inconsciente, mas substantivou o
adjetivo/advérbio unbewußt, transformando-o em das Unbewußte, Groddeck foi quem
substantivou o pronome em seu “Das Buch von Es” fez de es, das Es. Cabe aqui uma
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ressalva para o artigo das, também neutro. Se nos pronomes tínhamos er, como
masculino, sie, como feminino e es, como neutro, analogamente existem os artigos
definidos der, para o masculino; die, para o feminino e das, para o neutro. Através do
das, podemos “coisificar” o abstrato tornar qualquer significante um substantivo que,
no alemão, se distinguem por serem sempre escritos com inicial maiúscula. Foi, de
fato, o que Freud sugeriu ao escrevê-los sempre dessa forma.
O que Freud quis designar como o isso, ainda que não exatamente como Groddeck,
foi “uma força pela qual somos vividos, acreditando vivê-la.” (1988)
Ou, para
remontarmos a Nietzsche em seu Além do bem e do mal (1992), “um pensamento vem
quando isso [es] quer e não quando eu [ich] quero”. São de ordem semelhante as
queixas com que um psicanalista se depara em sua clínica. Queixas que se
expressam por sintagmas como “Isso é mais forte do que eu”, ou “Eu não sei por que
isso que está me acontecendo”. Já que mencionamos Nietzsche poderíamos dizer que
na análise o Isso aparece via de regra como o seu Ungeheuer, ou o Inaudito e,
portanto, inominável, aterrorizante, extraordinário e, por que não dizer, estranho.
É realmente paliativamente apaziguador procurarmos separarmos o Isso de nossa
subjetividade, atitude que exercemos seja por recalcamento, denegação ou forclusão
(para aqueles familiarizados com esses termos). Esta mentira de pernas curtas acaba,
porém sempre retornando por mais que tentemos nos dizer “E eu com isso?”. Cabe
aqui lembrar o célebre aforismo freudiano que resume o objetivo da análise, o tão
famoso quanto controverso: “Wo Es war, soll Ich werden” (1932 p. 86).
Aqueles que procurarem a versão brasileira encontraram a seguinte tradução: Onde
estava o Id, ali estará o Ego uma transformação no mínimo interessante da inglesa
“Where the Id was, there the Ego shall be” . Certamente esta é uma frase que poderia
ser considerada uma pérola para qualquer analista de discurso. Em uma sentença tão
lacônica formada quase somente por monossílabos poderíamos estabelecer uma série
de jogos. Se fossemos fazer uma primeira tradução lexical, termo a termo teríamos o
seguinte.
wo – onde.
es – isso (it).
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war – (passado do verbo sein [ser/estar] na primeira e terceira pessoa do
singular) estava, era.
soll – (primeira e terceira pessoa do verbo sollen [dever]) devo, deve.
ich – eu.
werden – verbo auxiliar que forma o futuro, advir, tornar-se.
Traduções possíveis, portanto:
Onde estava, devo advir.
Onde isso estava, devo advir.
Onde estava isso, deve advir eu.
Onde isso estava, devo tornar-me.
(...)
Lembremos da sugestão de Lacan:
Là où c’était, il me faut advenir. (Lá onde isso estava, devo (-me) advir.
Quem estaria com a razão, Strachey aterrrorizado pelas “sugestões” de Ernest Jones
ou Lacan? Apesar de sermos mais tentados a concordar com Lacan é preciso dizer
que Freud dá margens para as equi-vocações.
Em sua frase não há artigo, ele
realmente não diz O Eu E O Isso, tal qual no título de seu livro, no entanto, ao colocar
ambos os termos em maiúsculo, faz qualquer leitor de alemão pensar se tratar de
substantivos.
Talvez seja mais interessante largarmos a ilusão de uma tradução correta e nos
posicionarmos quanto a uma mais adequada. Sem dúvida a mais interessante com a
qual já me deparei foi a proposta por Garcia-Roza em seu Freud e o Inconsciente
(1994). Sua versão seria: Ali onde se estava, ali como sujeito devo vir a ser.
O que é interessante destacar dessa frase e de suas diferenças nas traduções é a
questão da implicação, questão que vem permeando tudo que até aqui foi tratado. Não
estamos tratando de duas entidades externas e alheias que atendem pelo nome de Id
ou Ego de Eu ou Isso, ou seja lá o que nomes tenham. A metáfora dos “dois senhores”
pode até ser interessante como ilustração, ainda que perniciosa por evocar um
distanciamento.
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A partir da implicação de um falante, espera-se que, não diga “meu Eu”, mas diga-se
eu e enquanto eu torne-se advertido d’isso que também não é estranho ainda que
não-sabido, que procure escutar isso que fala em si.
Quanto à tradução das idéias e dos termos freudianos, ainda que aqui apontemos
para algozes ou para um algoz britânico, continuamos concordando como o
“traduzido”, que toda tradução implica em perdas e traições ao autor. Se a tradução de
Strachey peca pelo cientificismo, a versão francesa de Laplanche incorre no purismo
léxico que tira do texto original a sua fluidez e beleza (SOUZA, 1999). Não
necessitamos certamente, tal como o Analista de Bagé, nos resignarmos de
compreender Freud se não conhecemos sua língua de expressão, desde que nos
aproximemos de suas versões com as devidas advertências. Advertências que podem
custar a mais cara das advertências, a do sujeito do inconsciente.
Referências:
1. BETTELHEIM, Bruno. Freud and Man’s Soul. Nova Iorque: Knopf, 1983.
9
2. COTET, Pierre et al. Traduire Freud. Paris : PUF, 1989.
3. FREUD, Sigmund. Das Ich und das Es, in Studienausbage Bd. III – Psychologie
des Unbewussten. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1923 / 2000.
4. FREUD, Sigmund. Das Unheimliche, in Gesammelte Werke – Chronologisch
geordnet. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1919 / 1999.
5. FREUD, Sigmund. Die Zerlegung der psychischen Persönlichkeit – Neue Folge der
Vorlesungzur
Einführung
in
die
Psychoanalyse.,
in
Gesammelte
Werke
–
Chronologisch geordnet; Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1932/1999.
6. FREUD, Sigmund. Ratschläge für den Arzt bei der Psychoanalytischen
Behandlung in Scriften zur Behandlungstechnik –Studienausgabe . Frankfurt am Main:
Fischer Verlag, 1912 / 2000.
7. FREUD, Sigmund. Zur Psychopathologie des Alltagslebens, in Gesammelte Werke
– Chronologisch geordnet; Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1901/1999.
8. GARCIA ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1994.
9. GRODDECK, Georg. Das Buch vom Es. Psychoanalytische Briefe an eine
Freundin. Frankfurt am Main: Ullstein Sachbuch, 1988.
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10. NIETZSCHE, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal. Trad. Paulo César de Souza.
São Paulo: Cia. das Letras, 1992.
11. QUINET, Antonio.. As 4+1 condições de análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1993.
12. RODRIGUÉ, Emilio. Sigmund Freud – O século da Psicanálise: 1895 – 1995.
Volume 1, São Paulo: Escuta, 1995.
13. SOUZA, Paulo César de. As Palavras de Freud. São Paulo Ática, 1999.
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