Resumos Literários – Conhecimento Específico A Mente Educada – Kieran Egan A Mente Educada: Os Males da Educação e a Ineficiência Educacional das Escolas Kieran Egan – Bertrand Brasil COMPREENSÃO MÍTICA À medida que crescemos, recebemos uma ajuda genética menos precisa e temos de contar cada vez mais com uma capacidade geral de aprendizagem codificada dentro de nós, o que não é bem diferenciado para aprender a ler ou a resolver problemas de matemática. A proeza educacional é tornar esses tipos de aprendizado mais fáceis e mais eficientes, fazendo com que se contornem o melhor possível as disposições genéticas em enfraquecimento ainda em operação quando crescemos e entramos na infância. Pode-se inferir que essas disposições genéticas estão em operação, a partir do enérgico desenvolvimento da linguagem até os sete anos de idade. Como o desenvolvimento prossegue num ritmo de acumulação de palavras e da sofisticação de outro período da vida, parece justo presumir que alguma influência genética particular ainda esteja ativa. Portanto, o período de compreensão mítica é um período durante o qual influências genéticas em enfraquecimento fundem-se com o crescente arranjo e disposição de nossa capacidade indiferenciada de aprendizado que, consequentemente, deixa de ser fácil e começa a exigir um trabalho deliberado. Comecemos mergulhando nas “profundezas” com a estruturação binária como dualismo e oposições. Formar oposições binárias é uma consequência necessária do uso da linguagem, é um instrumento de como damos sentido ao mundo, e também de como podemos fazer 1 deles formas destrutivas ou trabalhos úteis e construtivos. Organizar seu entendimento conceitual do mundo físico, formando inicialmente estruturas binárias – como quente/frio, grande/pequeno, macio/duro, torto/ reto, doce/azedo –, permite uma orientação inicial sobre um âmbito de fenômenos que, de outra forma, seriam atordoantemente complexos: “Quando uma vez uma oposição se estabelece e é, em princípio, entendida, então cada um dos opostos, ou qualquer termo intermediário, pode ser imediatamente definido por oposição ou por grau” (Ogden, 1976, p. 20). O que está acima de discussão é o fato de que a estruturação binária é encontrada universalmente entre grupos humanos e é comumente usada pelas crianças hoje em dia. Assim, o sentido educacional não é ensinar conceitos binários, mas sempre orientar em direção à mediação, elaboração e cognição consciente dos conceitos estruturantes iniciais. Antes de aprendermos a a andar de bicicleta, aprendemos a caminhar e, depois de sabermos fazer as duas coisas, apreenderemos conceitos de opressão e liberdade, amor e ódio, bondade e maldade, medo e segurança. Desta forma, crianças pequenas, ao que tudo indica universalmente (Brown, 1991), deliciam-se com história de fantasias cheias de coelhos, ursos e outros animais, falando e vestindo roupas, também deslocadas de qualquer coisa familiar em sua experiência desperta cotidiana. Uma implicação educacional desta pronta adesão à fantasia e ao deslocamento reforça aquela feita na seção anterior: o aprendizado das crianças nem sempre segue em progressão lógica de um Resumos Literários – Conhecimento Específico A Mente Educada – Kieran Egan conteúdo conhecido para outro, associado e desconhecido. É geralmente aceito nos manuais de educação atuais que as crianças pequenas sejam pensadores “concretos” e que as práticas de ensino e os currículos por todo o mundo ocidental foram profundamente influenciados por esta crença (Roldão, 1992). Nossa ideia é a de que o desenvolvimento da linguagem inevitavelmente envolve o uso de abstrações e que o pensamento abstrato – no sentido cotidiano e um tanto vago da expressão – não é menos comum em crianças pequenas do que o pensamento concreto. A predominância do ponto de vista de que as crianças pequenas são pensadores concretos obscureceu o sentido em que são também, obviamente, pensadores abstratos. Assim, a ausência de consciência ou percepção de abstrações em crianças pequenas, ou a sua falta de articulação em manipular abstrações não são um sinal de que não há abstrações em seu pensamento, como há no de um adulto típico. A ausência significa apenas que não refletiram sobre seu pensamento ou que não estão a par de seu pensamento de tal forma que conscientemente lidem com as abstrações que usam o tempo todo. Assim o surgimento posterior de abstrações em nosso desenvolvimento da linguagem não é um resultado de se seguir geneticamente o concreto, mas representa descobertas de nossas operações mentais há muito ativas, através de refletir-se sobre elas. A estrutura da história permite que as crianças se associem emocionalmente com a criatividade da bem-sucedida estratégia do conselheiro inteligente. A habilidade matemática, assim, não é aprendida como um algoritmo de outro mundo, pois ela se 2 torna, em algum sentido significativo, deles. A ligação emocional com a inteligência da matemática é outro aspecto crucial do aprendizado, pouco considerado na atual ortodoxia educacional para as crianças. A metáfora, como o mito, há muito, causa perplexidade aos eruditos. Os de inclinação positivista tenderam a varrê-la para baixo do tapete acadêmico, considerando-a uma superficialidade linguística que sempre poderia ser reduzida ao tipo de linguagem literal com a qual se sentem mais à vontade. A metáfora, por exemplo, em sua aparência mais grosseira, envolve falar de algo em termos derivados bem diferentes, afinal é a sua força regeneradora evidente que a torna particularmente interessante para este esquema educacional: o pronto uso da metáfora dá prova da produtividade humana que é crucial ao aprendizado. Consequentemente, o reconhecimento da metáfora e a fluência de seu uso pela criança bem pequena é algo que os educadores deviam achar crucialmente importante. A conexão entre os tópicos aparentemente distintos de estruturação binária e metáfora, no entanto, tende, como qualquer análise, a sugerir divisões, inadequadas em algo que é mais bem concebido como um todo orgânico. Em culturas orais tradicionais, por exemplo, as pessoas sabem apenas do que conseguem se lembrar. Uma vez que algo é esquecido por uma tribo, em geral, desapareceu para sempre. A fim de combater isso, as culturas orais usaram a linguagem para ajudar a memória. Descobriram, por exemplo, que ideias ou conhecimento popular postos em forma rítmica ou rimado eram mais facilmente recordados. Assim, histórias sacras eram recitadas ao bater de um tambor ou ao dedilhar de um instrumento Resumos Literários – Conhecimento Específico A Mente Educada – Kieran Egan de cordas. Os sons padronizados ajudavam a encravar as histórias nas mentes dos ouvintes. Uma consequência curiosa do desenvolvimento da linguagem foi a descoberta de que as palavras podem ser usadas para evocar imagens nas mentes dos que as ouvem e de que essas imagens podem ter um efeito tão forte e emocional quanto os próprios eventos reais. Tal como o ritmo, as imagens desempenharam, nas culturas orais tradicionais, o crucial papel social de ajuda à memorização. Os mitos estão repletos de imagens vívidas, muitas vezes intrigantes, que lhe dão o que poderíamos chamar de um forte impacto “literário”. É difícil discutir imagens mentais sem introduzir na discussão a imaginação em geral, mas queremos considerar as imagens por si próprias, até onde isso for possível. Um aspecto talvez inevitável que construímos a partir de palavras é que elas travem algum componente efetivo, por menor que seja (Egan, 1992). Essa capacidade de pensar e sentir em termos de imagens tem implicações importantes e um tanto desconsideradas na educação das crianças. A descoberta de que certos tipos de narrativas podiam gerar estados emocionais bastante precisos em seus ouvintes foi uma das mais significativas no desenvolvimento das culturas humanas. Elas tinham duas forças cruciais. Primeiro, eram a mais eficiente ajuda à memorização. Um importante conhecimento popular codificado na estrutura de uma história ficava, assim, muito mais fácil de preservar. Segundo, elas podiam orientar as emoções dos ouvintes para seus conteúdos. 3 A tarefa educacional é tornar a compreensão linguajada tão rica quanto possível ao mesmo tempo em que perde o mínimo possível da “ unidade com a natureza”, que é nosso direito de nascença como animais. Já a segunda tarefa educacional é garantir não só que a linguagem sirva como um instrumento para expressar suas percepções e consciência, ou para comunicá-las, ou para refletir a realidade, mas também para que a criança reconheça que a linguagem tem uma vida própria, característica e dinâmica. A terceira tarefa educacional, portanto, é ensinar às crianças as variadas convenções para usar com sucesso a linguagem como um meio de comunicação com outras consciências, isoladas e singulares, semelhantes, mas não as mesmas que as nossas próprias. COMPREENSÃO ROMÂNTICA Se você contar a uma típica criança de cinco anos de idade a história de Cinderela, não é provável que ouça a pergunta “que meio de locomoção a Fada Madrinha usa?”, nem será questionado sobre onde é que ela fica ou o que ela faz quando não está agindo na história. Mas, se contar a uma típica criança de dez anos a história igualmente fantástica do Super-Homem, precisará explicar seus poderes sobrenaturais como referência a seu nascimento no planeta Krypton e à diferente estrutura molecular de nosso sol daquela de sua estrela-mãe. O que acontece entre os cinco e os dez anos de idade que causa esta diferença? As crianças tipicamente deixam de acreditar em Papai Noel, fantasmas e outros habitantes de terras encantadas durante esses anos, porque elas começam a dolorosa jornada de saída do Éden para o Resumos Literários – Conhecimento Específico A Mente Educada – Kieran Egan mundo mais prosaico dos adultos. Esta acomodação gradual à realidade prosaica não pode ser uma explicação suficiente, porque a própria acomodação precisa ser explicada. Outra coisa que costuma acontecer durante esses anos na escola, que pode ajudar a explicar a mudança nas histórias, é que ensinamos as crianças a passar de discriminações de base perceptual como “quente” e “frio” para meios abstratos de se referir ao mundo. No caso da temperatura, nós ensinamos a conectá-las aos números arbitrários do termômetro. A mudança do aprendizado do primeiro sistema de símbolos da linguagem oral para o segundo sistema de símbolos, de inúmeros escritos e do alfabeto ocorreu gradualmente e em estágios discerníveis na nossa história cultural e pode ser bem recapitulada em similares estágios distintos na educação hoje. O primeiro degrau importante leva ao que chamo de compreensão romântica. A figura romântica arquetípica é o herói. O herói vive, como o resto de nós, sob as restrições do mundo cotidiano, mas diferente de nós, consegue de certa forma transcender as restrições que nos cercam. Os deuses míticos que transcendem à vontade as restrições da natureza foram varridos para longe pelo impulso racional de representar o mundo com precisão. Duas observações apropriadas aqui: a) parecem Primeira, os heróis conquistam nosso interesse porque eles “incorporam” em um grau incomum uma virtude humana que lhes permite transcender restrições convencionais. b) Segunda, o herói arquetípico na tradição ocidental sempre foi um 4 homem voltado ao poder e autor de feitos geralmente violentos. Existe, no entanto, um vasto âmbito de qualidade com que nos associamos em qualquer herói – santidade, compaixão, abnegação, elegância, espírito inteligente, engenho, paciência, ou o que for, bem como violência testosterônica. Quando temos dez anos, diante da realidade mais ou menos e cada vez mais autônoma, precisamos estabelecer algum tipo de segurança intelectual e psicológica, pois encontramo-nos muito à mercê do mundo em torno de nós. A pessoa, instituição ou equipe a que a criança se associa geralmente dão pistas claras para as restrições achadas mais problemáticas. Astros do rock, imensamente ricos, decadentes e sujos oferecem um tipo de herói; o craque jogador de futebol, outro; e, da mesma forma, o escritor de sucesso, o cantor ou ator do momento, a possante de futebol ou vôlei. A tensão característica do romance vem do desejo de transcender uma realidade ameaçadora, ao mesmo tempo em que busca garantir a identidade da pessoa dentro dela. Uma característica da compreensão romântica, então, é sua pronta associação a qualidades humanas transcendentes ou qualidades humanas exercidas em um grau transcendente. Acreditamos que é um erro grave encarar a educação como um processo inevitavelmente progressivo, como um empreendimento no qual temos sucesso no grau em que as crianças aprendem mais, tornam-se mais hábeis em alfabetização e numeração e dão mostras de estágios mais elevados de desenvolvimento psicológico,ao mesmo tempo, deixando de lado as perdas associadas a cada ganho. Para escolas e professores que se sentem acuados, Resumos Literários – Conhecimento Específico A Mente Educada – Kieran Egan reconheço que isso pode parecer uma queixa um tanto exótica. E, ao mesmo tempo em que tantos alunos parecem adquirir um grau tão marginal de alfabetização e numeração básicas, a ideia de que até esses parcos sucessos possam nos ser subtraídos pode ser bem deprimente.Portanto, crucial para a compreensão romântica é o senso crescente de uma realidade autônoma. O senso de realidade está amarrado à escolaridade na alfabetização e nas técnicas de pensamento descontextualizado que se mostraram eficazes para descrever e controlar a realidade. A compreensão romântica representa uma transição gradual. As formas de pensamento dos alunos gradualmente se acomodam às formas da realidade autônoma, mas primeiro elas dão sentido à realidade em termos “românticos”. COMPREENSÃO FILOSÓFICA Uma constante da história cultural é o senso cambiante do eu. As principais realizações teóricas do mundo moderno, do novo modelo copernicano de nosso lugar no universo, ao novo modelo de Darwin de nosso lugar no mundo natural, exerceram impactos fortes no senso que as pessoas tinham de seu eu. A observação de Aristóteles de que os seres humanos são animais sociais ganhou um novo brilho nas cidades em crescimento durante os séculos XVI e XVII. Ninguém é uma ilha, pois está cada vez mais reconhecido que nossa sociabilidade e interdependência se devem não ao fato de sermos todos aparentados como “filhos de Deus”, mas a algo em nossa natureza animal. Conforme os alunos modernos, recapitulam tais projetos, seu senso do eu também muda. O eu “romântico”, 5 sustentado por associações como as personificações preferidas de qualidades humanas transcendentes (o cantor popular, esportistas, ativistas sociais, socorristas auto-sacrificantes), começa a se desbotar e ir sumindo contra o cenário. Os alunos começam a ver que eles estão ligados ao mundo não por meio de associações transcendentes, mas por complexas redes e cadeias causais. Eles se dão conta de que “nasceram com um passado”, e que esse passado não só constitui o eu atual, como também a moldar o futuro. Um aspecto comum da compreensão filosófica é uma tendência a pressupor que os padrões, teorias e planos gerais usados para organizar o mundo são verdadeiros na medida em que, e do modo como, os particulares dos quais eles se compõem são verdadeiros. Ou seja, pressupõe-se que a verdade de um plano geral é função da verdade dos fatos e dos próprios eventos e que a seleção e organização de fatos e eventos podem ser neutras ou “objetivas” se for tomado o cuidado adequado. Um motivo para incomodar-se com detalhes é que o apoio deles a planos gerais nem sempre é confiável. Se segurança intelectual e até o senso de identidades da pessoa estão atados aos planos gerais que a pessoa usa para dar sentido ao mundo da experiência, então é de interesse vital da pessoa garantir a adequação, a validade e a verdade de seus planos. ALGUMAS IMPLICAÇÕES PARA O CURRÍCULO A ideia sociabilizante implica um currículo voltado, o mais adequadamente possível, para o preparo de crianças para a vida que elas possivelmente levarão; concentra-se, pois, em desenvolver as Resumos Literários – Conhecimento Específico A Mente Educada – Kieran Egan capacidades e o conhecimento que são relevantes à “vida real” fora da escola. O primeiro princípio geral que pode ajudar nossa seleção de conteúdo curricular envolve uma reflexão sobre as formas culturais comuns a usuários da linguagem oral, conforme estaremos recapitulando os instrumentos intelectuais que eles desenvolveram. O segundo princípio envolve a reflexão sobre a direção, rumo às compreensões romântica, filosófica ou irônica, a que queremos que o currículo leve os estudantes. O primeiro princípio geral nos dirige aos fundamentos orais de qualquer área de estudo que queiramos incluir no currículo. Precisamos refletir não apenas na infinita variedade de referências míticas ao passado, mas também em seus aspectos comuns e nas funções psicológicas e sociais que desempenhavam. Todas as culturas orais têm contos tradicionais sobre o passado, alguns embutidos em mitos sagrados recitados como partes de rituais, outros mais informais e variáveis em conteúdo e em seus usos sociais. Todos são em forma de história e todos servem para adequar a experiência atual em um contexto ampliado e mais geralmente significativo. Com respeito ao segmento “línguas e literaturas” do currículo, o objetivo geral será o estímulo e desenvolvimento da linguagem mítica do aluno. Gostaríamos de começar com algo que nos parece importante nesse desenvolvimento, mas que costuma ser deixado de lado em educação: o senso de humor. Se, por um lado, podemos reconhecer que a ironia sofisticada inescapavelmente envolve uma espécie de humor, seus desenvolvimentos previamente indispensáveis recebem pouca atenção em educação. 6 No nível mais simples, piadas podem ampliar o vocabulário e começar o processo crucial de tornar a linguagem explícita, e, em si mesma, um objeto de reflexão. Truques e enigmas baseados em números, e assim por diante, estimulam o desenvolvimento do senso de números na engenhosidade e mágica da contagem. O desenvolvimento dessas habilidades não é intrinsecamente difícil se tivermos em mente as ferramentas intelectuais que a criança mítica traz consigo. Ignorar essas ferramentas, por outro lado, leva-nos de volta ao caminho do acúmulo, amplamente sem sentido, de algoritmos externos pouco entendidos que enterram, para a maioria das crianças, qualquer senso da engenhosidade e da maravilha de até mesmo a mais elementar matemática. A caracterização da compreensão romântica identificava o envolvimento pelos extremos da experiência e limites da realidade, pela associação com qualidades humanas transcendentes, pela personalização do conhecimento e por uma racionalidade distintivamente romântica como entre suas ferramentas intelectuais constituintes. Se os alunos devem explorar a escala da realidade e os limites da experiência, o conteúdo que mais prontamente servirá de apoio a este tipo de busca serão os mega erga – as grandes realizações, os desastres mais terríveis e os aspectos mais exóticos da experiência humana e do mundo natural. Outra característica romântica que pode ser convertida em um critério para a seleção do conteúdo curricular é a pronta absorção por qualquer coisa que estimule assombro e admiração. O objetivo é construir gradualmente e ao acaso um nível particular de conhecimento sobre o mundo que estimule, pouco a pouco, espanto e assombro por estar-se vivo neste mundo e Resumos Literários – Conhecimento Específico A Mente Educada – Kieran Egan nesta época, quando, o desenvolvimento de tipos de compreensão não se restringe a alunos acadêmicos avançados. Finalmente, a educação não é apenas a preparação para empregos. O princípio filosófico mais geral que servirá como um critério para seleção de conteúdo de currículo é a busca das leis que operam “por trás” dos fenômenos. O currículo filosófico será moldado por dois impulsos divergentes resultantes deste princípio. O primeiro levará a um conteúdo mais orientado para a disciplina do que em anos anteriores, porque a maioria das teorias e esquemas gerais organizadores foi elaborada nas disciplinas particulares; se isso é o que queremos, é lá que o encontraremos. O segundo apontará em direção a esquemas gerais que atravessam disciplinas, sempre procurando por mais teorias gerais, complexas redes causais e conexões entre teorias localizadas em disciplinas particulares. ALGUMAS IMPLICAÇÕES PARA O ENSINO Herdado da tradição sociabilizante é o senso do professor como um iniciador e modelo de desempenho cuja responsabilidade básica é guiar os alunos para as normas, os valores, as habilidades e o conhecimento que os permitirão se aproximar do ideal da cidadania adulta. Herdado da tradição platônica é o senso do professor como uma autoridade em alguma área de conhecimento disciplinado, cuja responsabilidade básica é instruir e inspirar os alunos a atingirem o domínio intelectual com respeito a esse conhecimento privilegiado. Herdado da tradição rousseauniana é o senso do professor como um facilitador solícito cuja responsabilidade básica é apoiar o desenvolvimento 7 individual de cada aluno. Assim como com a concepção geral da educação da qual eles derivam, há problemas com cada um desses três sensos separadamente, e eles não se encaixam bem juntos. Tentar implementar todos eles em algum grau resulta em um enorme trabalho muito árduo e frustrante. O desenvolvimento da compreensão somática na criança recapitula amplamente adaptações evolucionárias, mas, é claro, essa recapitulação, para ser atingida de forma mais adequada, precisa ser apoiada por pais e outros responsáveis. A diferença significativa entre a recapitulação da criança moderna e as adaptações evolucionárias históricas é que, hoje, temos um senso da direção em que queremos que a criança se desenvolva intelectualmente. A compreensão somática resulta basicamente da mente da criança descobrindo seu próprio corpo. Esta exploração somática estabelece o desenvolvimento fundamental da compreensão, particularmente ao construir a estrutura de espaço, tempo, causalidade, esforço e reação, os ritmos de fome e saciedade, prazer e dor, e assim por diante. Nosso corpo, então, é por onde começamos em nossa exploração do mundo e da experiência. Esta concepção um tanto nova de educação exige que os professores sejam sensíveis aos tipos de compreensão e aos instrumentos intelectuais que seus alunos estão utilizando. Esta sensibilidade obviamente não precisa ser em termos desta teoria, com suas categorias pouco familiares e sua maneira não-convencional de caracterizar o pensamento e o aprendizado das crianças, pois muitos mestres exemplificam uma sensibilidade notavelmente bem-afinada a seus alunos e, sem dúvida, caracterizam seus pensamentos em termos que são bastante Resumos Literários – Conhecimento Específico A Mente Educada – Kieran Egan diferentes dos nossos. Mas esperamos que até esses peritos professores possam reconhecer um eco de suas percepções nesta teoria, ao ver seu valor em sua provisão como pelo menos um modo de alertá-los antes de seus períodos letivos para uma dimensão crucial da prática educacional. Bibliografia: A Mente Educada: Os Males da Educação e a Ineficiência Educacional das Escolas Kieran Egan Tradução: Eduardo Francisco Alves Bertrand Brasil 2002 8