REVISTA DE SAUDE ISSN 0303 - 7657 MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO FUNDACENTRO FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO DE SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO REVISTA DE SAUDE 2 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Ministério do Trabalho e Emprego Alencar Rodrigues Ferreira Júnior Paulo Cesar Bezerra de Lima Virgílio César Romeiro Alves Fundacentro Rosiver Pavan Antônio Roberto Lambertucci Thaís Helena de Carvalho Barreira Willian Toshio Minatogawa Higa Representantes dos Empregadores Fulgêncio Gulim Júnior Élio Eulálio Grisa Confederação Nacional da Indústria Magnus Ribas Apostólico Adib Miguel Eid Confederação Nacional das Instituições Financeiras Luciano Figliolia Confederação Nacional do Comércio Benedito Dario Ferraz Gerson Oger Fonseca Confederação Nacional dos Transportes Representantes dos Trabalhadores Rita de Cássia Evaristo Rejane Guimarães Pintaga Central Única dos Trabalhadores Arnaldo Gonçalves Luiz Carlos de Oliveira Força Sindical Joel Pereira Félix Washington Aparecido dos Santos Confederação Geral dos Trabalhadores Rosimeire Rodrigues Siqueira Ivo Wanderley Matta Social Democracia Sindical Representantes do Ministério da Previdência e Assistência Social Helmut Schwarzer Geraldo Almir Arruda Representantes do Ministério da Saúde Antonio Alves de Souza Marco Antônio Gomes Perez Membros Indicados pelo Ministro do Trabalho e Emprego Francisco Antonio de Castro Lacaz Maria Neuma Lopes de Sales Oswaldo Paulino Participantes da Fundacentro sem direito a voto Arline Sydneia Abel Arcuri Renata Maria Celeguim Antonio Lucas Buzato Vol. 28 - nº 105 /106 3 REVISTA BRASILEIRA DE SAÚDE OCUPACIONAL - FUNDA CENTRO - VOL. 28 - Nº 105/106 Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva VOL. 28 Nº 105/106 Maio / 2004 Ministro do Trabalho e Emprego Ricardo Berzoini FUNDACENTRO REVISTA Presidenta Rosiver Pavan DE SAUDE Diretor Executivo Antônio Roberto Lambertucci Diretora Técnica Arline Sydneia Abel Arcuri ISSN 0303 - 7657 Diretora de Administração e Finanças Renata Maria Celeguim MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO FUNDACENTRO FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO DE SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO Comissão Editorial Diogo Pupo Nogueira Jorge da Rocha Gomes Sonia Maria José Bombardi José Damásio de Aquino Nelson Nefussi Editor Responsável José Carlos Castilha Crozera (Mtb 14.612) Supervisão Editorial Elisabeth Rossi Revisão de Texto Avelino Maciel José Maria Maciel Impressão e Acabamento Santa Clara Editora Redação e Administração Rua Capote Valente, 710 CEP 05409-002 Brasil São Paulo SP Fones: 55 (11) 3066.6137 / 3066.6378 Fax 55 (11) 3066-6258 e-mail: [email protected] Vendas de Publicações Fone 55 (11) 3066-6315 Fax 55 (11) 3066-6316 Tiragem 5.000 exemplares As opiniões emitidas pelos autores são de sua inteira responsabilidade. 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Da mesma forma, o desenvolvimento sócio-econômico também requer processos sustentáveis de trabalho e, aí, mais uma vez, a Fundacentro inova, ao propor a SST como um elemento de transversalidade, presente nas políticas públicas de inclusão social e de desenvolvimento sustentável, implementadas pelo Governo federal. No relacionamento com os parceiros sociais e institucionais também vêm ocorrendo mudanças, por meio das audiências públicas que estão sendo promovidas pela entidade em vários Estados. A instituição está chamando os sindicatos de empresários e de trabalhadores, a universidade, o Ministério Público, o Poder Judiciário e todos os segmentos envolvidos com a segurança e saúde no trabalho para participar de suas decisões, trazendo o controle social para dentro da administração pública. No plano internacional, a Fundacentro assinou um termo de cooperação com a Agência Européia para Segurança e Saúde no Trabalho, que faz da nossa entidade a porta de entrada da Comunidade Européia no Brasil e a porta de entrada de pesquisadores brasileiros na Europa. Outra conquista da Fundacentro foi sua inclusão na Comissão Interministerial - responsável pela elaboração de uma Política Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador para o país - que reúne os ministérios da Saúde, Trabalho e Previdência Social. Normas Gerais para Publicação de Artigos Vol. 28 - nº 105 /106 5 SUMÁRIO 9 ................... PPRA / PCMSO: AUDITORIA, INSPEÇÃO DO TRABALHO E CONTROLE SOCIAL por C. R. MIRANDA; C. R. DIAS Programas PPRA /PCMSO determinam a necessidade da intervenção do estado na regulamentação das relações do trabalho 21 ................. AVALIAÇÃO DO NÍVEL DE RUÍDO CAUSADO POR DIFERENTES CONJUNTOS MECANIZADOS por L. H. DE SOUZA; H. C. FERNANDES; E. L. DA VITÓRIA Analisa a relação de trabalho homem-máquina e destaca pontos relevantes no que diz respeito à má adaptação entre o maquinário agrícola e a condição auditiva humana 31 ................. OS CARREGADORES DE UM ENTREPOSTO DE ABASTECIMENTO: UM TRABALHO PRECÁRIO por A. M. IGUTI Precariedades e irregulariedades para carregadores de um entreposto de abastecimento abordadas sob um aspecto humano-social 43 ................. LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS E SOFRIMENTO MENTAL EM DIFERENTES PROFISSÕES por M. E. DE CARVALHO; C. ANTÔNIO; M. L.. M. R. LINO; M. BUSSACOS LER e sua ligação com sofrimento mental esclarece o aumento da doença em diferentes profissões 51 ................. PRÁTICAS ALIMENTARES E PERFIL LIPÍDICO INDESEJÁVEL EM TRABALHADORES PETROQUÍMICOS por M. C. COSTA; I. LESSA; S. V. VIANA Mudança em prática alimentar sob o ponto de vista de saúde, produtividade no trabalho e melhor vida social 63 ................. AVALIAÇÃO DA EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL AO CHUMBO EM UMA METALÚRGICA - UM ESTUDO TRANSVERSAL por J. A. MENEZES FILHO; W. A. DE CARVALHO; A. G. SPÍNOLA Automoção na área de trabalho e seus aspectos negativos diretamente ligados ao trabalhador 73 ................. ANÁLISE DA INTERVENÇÃO DE UM PROGRAMA DE ATIVIDADE FÍSICA NOS HÁBITOS DE LAZER por M. G. C. SALVE; A. D. P. BANKOFF A importância da atividade física para os trabalhadores analisada sob o aspecto de qualidade de vida e aumento de produtividade. 83 ................. SEGURANÇA NO TRABALHO DE APLICAÇÃO DE AGROTÓXICOS COM O PULVERIZADOR DE PISTOLAS EM CITROS por M. L. DE OLIVEIRA; J. G. MACHADO NETO 91 ................. Aborda os vários problemas causados ao homem quando em contato com pulverizadores de produtos agrotóxicos POSTURA CORPORAL - UM PROBLEMA QUE AFLIGE OS TRABALHADORES por M. G. C. SALVE; A. D. P. BANKOFF Causas e prevenções necessárias aos problemas posturais, assim como análise de adequações externas que se fazem necessárias nesta área 105 ............... ABORDAGEM CLÍNICA E PSICOSSOCIAL DAS LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS LER / DORT por H. H. DOS SANTOS LER: definição e discussão sobre o aumento de casos no Brasil, assim como suas razões, origens e conseqências 6 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional CONTENTS ENVIRONMENTAL RISK PREVENTION PROGRAMS OCCUPATIONAL HEALTH MEDICAL CONTROL PROGRAMS: AUDITS, EMPLOYMENT INSPECTION AND SOCIAL CONTROL .................... 9 by C. R. MIRANDA; C. R. DIAS ERPP / OHMCP programs determine the need of the State intervention in the regulamentation of work relations EVALUATION OF NOISE LEVELS CAUSED BY DIFFERENT GROUPS OF MECHANICAL EQUIPMENT ................. 21 by L. H. DE SOUZA; H. C. FERNANDES; E. L. DA VITÓRIA It analyses the man-machine relation and highlights the most relevant points that concern the bad adaptation between the agricultural machines and the human hearing condition HORTICULTURAL MARKET PORTERS: DANGEROUS EMPLOYMENT by A. M. IGUTI ................. 31 Precariounesses and Irregularities to Market Porters seen and analysed under a human-social aspect REPETITIVE STRAIN INJURIES (RSI) AND MENTAL SUFFERING IN DIFFERENT PROFESSIONS by M. E. DE CARVALHO; C. ANTÔNIO; M. L.. M. R. LINO; M. BUSSACOS ................. 43 RSI and its connection with mental suffering makes clear the illness in various professions EATING HABITS AND UNDESIRABLE LIPIDIC PROFILES IN PETROCHEMICAL INDUSTRY WORKERS by M. C. COSTA; I. LESSA; S. V. VIANA ................. 51 Changes in Eating Habits seen under a health aspect as much as an increase in productivity and a better social life ASSESSMENT OF OCCUPATIONAL EXPOSURE TO LEAD IN A METALLURGY PLANT A CROSS-SECTIONAL STUDY by J. A. MENEZES FILHO; W. A. DE CARVALHO; A. G. SPÍNOLA ................. 63 Automation in the working area and its negative aspects related to the emploees AN APPRAISAL OF THE EFFECTS THAT A PHYSICAL ACTIVITIES PROGRAM HAS ON RECREATIONAL HABITS by M. G. C. SALVE; A. D. P. BANKOFF ................. 73 The importance of a plysical activity program for workers seen as an aspect of quality of life and productivity increase WORK SAFETY IN PESTICIDE SPRAYING OF CITRUS FRUITS USING HAND GUN SPRAYERS by M. L. DE OLIVEIRA; J. G. MACHADO NETO ................. 83 It brings the several problems caused to men when in contact with pesticide Hand Gun Sprayers BODY POSTURE A PROBLEM THAT AFFLICTS WORKERS by M. G. C. SALVE; A. D. P. BANKOFF ................. 91 Causes and preventions nueded to posture problems,as much as the analisys of external adequations so necessary in this field CLINICAL AND PSYCHO-SOCIAL PERSPECTIVE OF REPETITIVE STRAIN INJURIES RSI / WRMD by H. H. DOS SANTOS ............... 105 RSI: definition and discussion about the increase of cases in Brazil, as its reasons, origin and consequences Vol. 28 - nº 105 /106 7 8 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional PPRA / PCMSO: Auditoria, Inspeção do Trabalho e Controle Social Carlos Roberto Miranda1 Carlos Roberto Dias2 1 Médico do Trabalho, Mestre em Saúde Comunitária, Auditor Fiscal do Trabalho. 2 Médico do Trabalho, Pós-graduado em Higiene Ocupacional, Auditor Fiscal do Trabalho. Environmental Risk Prevention Programs / Occupational Health Medical Control Programs: Audits, Employment Inspection and Social Control Os autores analisaram Programas de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) implementados por 30 empresas, de diferentes ramos econômicos, com mais de 100 (cem) empregados, em atividade em Salvador, Bahia. As inconsistências verificadas foram estudadas segundo os riscos ocupacionais, levando-se em conta as diversas etapas de desenvolvimento dos programas. Os autores constataram a baixa qualidade técnica desses programas e apontam a evidente necessidade de ampliar a cobertura da fiscalização estatal, assim como de estimular a participação dos trabalhadores e dos seus representantes no desenvolvimento dos programas PPRA e PCMSO. Consideram, ainda, de fundamental importância o desenvolvimento e o aprimoramento de condutas, procedimentos e instrumentos de inspeção na área de segurança e saúde no trabalho. Palavras-chaves Riscos Ambientais, Programas de Saúde Ocupacional, Auditoria, Inspeção do Trabalho. The authors evaluated Environmental Risk Prevention / Occupational Health Medical Control Programs in use by 30 companies operating in various fields, each with over 100 employees, in the city of Salvador, State of Bahia, Brazil. The inconsistencies encountered were examined in light of the occupational risks involved, considering the various stages inherent to program development. The authors perceived the low degree of technical quality of the Programs in question and indicated the need for more widespread involvement of State Inspectors, plus the encouragement of workers and their representatives with regards the development of Environmental Risk Prevention / Occupational Health Medical Control Programs. Furthermore, they also considered the development and enhancement of codes of conduct, procedures and inspection instruments to be of prime importance for work safety and health. Keywords Environmental Risks, Occupational Health Programs, Auditing, Employment Inspection. Vol. 28 - nº 105 /106 9 Introdução A legislação brasileira que trata da segurança e da saúde no trabalho passou a adotar um novo enfoque, a partir do final de 1994, ao estabelecer a obrigatoriedade das empresas elaborarem e implementarem dois programas: um ambiental, o PPRA Programa de Prevenção de Riscos Ambientais, e outro médico, o PCMSO Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional. Adotando como paradigma a Convenção 161/85 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a legislação brasileira específica passou a considerar as questões incidentes não somente sobre o indivíduo mas, também sobre a coletividade de trabalhadores, promovendo, assim, uma ampliação do conceito restrito de medicina do trabalho (1, 2) Em verdade, apesar do Brasil ter ratificado em 1991 a Convenção 161 da OIT, até 1994 as Normas Regulamentadoras (NRs) caracterizavam-se ainda por um enfoque essencialmente individualista. As NR-7 e 9 intitulavam-se, respectivamente, Exames Médicos e Riscos Ambientais, ou seja, a ênfase era, isoladamente, ora para o corpo do trabalhador, ora para a avaliação quantitativa de um certo risco ambiental. As novas normas, preocupadas agora com a saúde do conjunto dos trabalhadores, privilegiaram o instrumental clínicoepidemiológico na abordagem da relação saúde/trabalho e introduziram a questão da valorização da participação dos trabalhadores e do controle social. Neste sentido, a exigência legal dos novos programas PCMSO e PPRA representou, na prática, a superação de um viés biologista/ ambiental e a introdução de um olhar coletivo nas questões relacionadas com a segurança e a saúde dos trabalhadores brasileiros. (3, 4) PPRA Programa de Prevenção de Riscos Ambientais O PPRA, cuja obrigatoriedade foi estabelecida pela NR-9 da Portaria 3214/ 78, apesar de seu caráter multidisciplinar, é considerado essencialmente um programa de higiene ocupacional que deve ser implementado nas empresas de forma articulada com um programa médico o PCMSO. (5, 6) 10 Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco de suas atividades, estão obrigadas a elaborar e implementar o PPRA, que tem como objetivo a prevenção e o controle da exposição ocupacional aos riscos ambientais, isto é, a prevenção e o controle dos riscos químicos, físicos e biológicos presentes nos locais de trabalho. A NR-9 detalha as etapas a serem cumpridas no desenvolvimento do programa, os itens que compõem a etapa do reconhecimento dos riscos, os limites de tolerância adotados na etapa de avaliação e os conceitos que envolvem as medidas de controle. A norma estabelece, ainda, a obrigatoriedade da existência de um cronograma que indique claramente os prazos para o desenvolvimento das diversas etapas e para o cumprimento das metas estabelecidas. Um aspecto importante deste programa é que ele pode ser elaborado dentro dos conceitos mais modernos de gerenciamento e gestão, onde o empregador tem autonomia suficiente para, com responsabilidade, adotar um conjunto de medidas e ações que considere necessárias para garantir a saúde e a integridade física dos seus trabalhadores. A elaboração, implementação e avaliação do PPRA podem ser feitas por qualquer pessoa, ou equipe de pessoas que, a critério do empregador, sejam capazes de desenvolver o disposto na norma. Além disso, cabe à própria empresa estabelecer as estratégias e as metodologias que serão utilizadas para o desenvolvimento das ações, bem como a forma de registro, manutenção e divulgação dos dados gerados no desenvolvimento do programa. As ações do PPRA devem ser desenvolvidas no âmbito de cada estabelecimento da empresa, sendo que sua abrangência e profundidade dependem das características dos riscos existentes no local de trabalho e das respectivas necessidades de controle. A NR-9 estabelece as diretrizes gerais e os parâmetros mínimos a serem observados na execução do programa mas os mesmos podem ser ampliados mediante negociação coletiva de trabalho. Procurando garantir a efetiva implementação do PPRA, a norma estabelece que a empresa deve Revista Brasileira de Saúde Ocupacional adotar mecanismos de avaliação que permitam verificar o cumprimento das etapas, das ações e das metas previstas. Além disso, a NR-9 prevê algum tipo de controle social, garantindo aos trabalhadores o direito à informação e à participação no planejamento e no acompanhamento da execução do programa. PCMSO Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional O PCMSO, cuja obrigatoriedade foi estabelecida pela NR-7 da Portaria 3214/ 78, é um programa médico que deve ter caráter de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce dos agravos à saúde relacionados ao trabalho. Entende-se aqui por diagnóstico precoce, segundo o conceito adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a detecção de distúrbios dos mecanismos compensatórios e homeostáticos, enquanto ainda permanecem reversíveis alterações bioquímicas, morfológicas e funcionais. Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco de sua atividade, estão obrigadas a elaborar e implementar o PCMSO, que deve ser planejado e implantado com base nos riscos à saúde dos trabalhadores, especialmente os riscos identificados nas avaliações previstas no Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA). Entre suas diretrizes, uma das mais importantes é aquela que estabelece que o PCMSO deve considerar as questões incidentes tanto sobre o indivíduo como sobre a coletividade de trabalhadores, privilegiando o instrumental clínico-epidemiológico. A norma estabelece, ainda, o prazo e a periodicidade para a realização das avaliações clínicas, assim como define os critérios para a execução e interpretação dos exames médicos complementares (os indicadores biológicos). Em síntese, na elaboração do PCMSO, o mínimo requerido é um estudo prévio para reconhecimento dos riscos ocupacionais existentes na empresa, através de visitas aos locais de trabalho, baseando-se nas informações contidas no PPRA. A partir deste reconhecimento de riscos, deve ser estabelecido um conjunto de exames clínicos e complementares específicos para cada grupo de trabalhadores da empresa, utilizanVol. 28 - nº 105 /106 do-se de conhecimentos científicos atualizados e em conformidade com a boa prática médica. Assim, o nível de complexidade do PCMSO depende basicamente dos riscos existentes em cada empresa, das exigências físicas e psíquicas das atividades desenvolvidas e das características biopsicofisiológicas de cada população trabalhadora. (7) A norma estabelece as diretrizes gerais e os parâmetros mínimos a serem observados na execução do programa, podendo os mesmos, entretanto, ser ampliados mediante negociação coletiva de trabalho. O PCMSO deve ser coordenado por um médico, com especialização em medicina do trabalho, que será o responsável pela execução do programa. Ao empregador, por sua vez, compete garantir a elaboração e efetiva implementação do PCMSO, bem como zelar pela sua eficácia. Procurando garantir a efetiva implementação do PCMSO, a NR-7 estabelece que o programa deverá obedecer a um planejamento em que estejam previstas as ações de saúde a serem executadas durante o ano, devendo estas ser objeto de relatório anual. O relatório anual deverá discriminar, por setores da empresa, o número e a natureza dos exames médicos, incluindo avaliações clínicas e exames complementares, estatísticas de resultados considerados anormais, assim como o planejamento para o ano seguinte. A inspeção do trabalho e os programas PPRA/PCMSO A inseparabilidade entre o trabalho e o indivíduo que o realiza, a implicação da pessoa do trabalhador na atividade laboral, determinam uma exigência de tutela de sua liberdade e integridade física, ou seja, em última instância determinam a intervenção do Estado na regulamentação das relações de trabalho. Em conseqüência, na medida em que o trabalho é de alguma forma normatizado, a inspeção encontra sentido e lugar de ser na história do trabalho. Em síntese, o serviço de inspeção deveria ser a forma de tornar efetivas as regulamentações do processo de trabalho. (8) Entretanto, não são poucas as dificuldades relacionadas à inspeção e ao controle dos ambientes de trabalho. A complexida11 de cada vez maior das relações trabalhistas exige que o Auditor do Trabalho tenha uma boa formação jurídica e técnica. O caráter multidisciplinar da inspeção do trabalho justifica a incorporação de carreiras técnicas que aportem ao sistema de inspeção e proteção do trabalho os conhecimentos teóricos e práticos que são necessários para atender adequadamente as questões que se relacionam com a segurança e saúde dos trabalhadores. (4) Neste sentido, a Convenção nº 81 da OIT, adotada em 1947 e ratificada pelo Brasil em 1957, estabelece em seu artigo 10 que o número de inspetores de trabalho deve ser o suficiente para permitir o exercício eficaz das funções de serviço de inspeção e será fixado tendo-se em conta o número, a natureza, a importância e a situação dos estabelecimentos sujeitos ao controle da inspeção, assim como o número e a diversidade das categorias de trabalhadores ocupados nesses estabelecimentos. (9) Em nosso país, o Ministério do Trabalho e Emprego - MTE é o órgão de âmbito nacional competente para coordenar, orientar, controlar e supervisionar as atividades relacionadas com a segurança e saúde no trabalho, inclusive a fiscalização do cumprimento dos preceitos legais e regulamentares, em todo o Território Nacional. A nível estadual, essa fiscalização é executada pelas Delegacias Regionais do Trabalho. Para desenvolver a fiscalização na área de segurança e saúde no trabalho em todo o país, o MTE dispõe atualmente de 690 Auditores fiscais. Vale observar que esse contingente é claramente insuficiente para inspecionar um total de mais de 4 milhões de estabelecimentos em atividade e dar cobertura para uma população economicamente ativa hoje em torno de 28 milhões de trabalhadores. Esses dados revelam a existência de um auditor fiscal para cerca de 6.000 estabelecimentos, ou seja, um auditor fiscal para cada 40.000 trabalhadores em atividade no país. No caso do Estado da Bahia o quadro é ainda mais grave pois a Delegacia Regional do Trabalho dispõe de apenas 20 auditores na área de segurança e saúde no trabalho (11 médicos do trabalho e 9 engenheiros de segurança) para inspecionar cerca de 200.000 estabelecimentos em atividade no Estado e dar cobertura para 12 uma população economicamente ativa hoje em torno de 1.300.000 trabalhadores. Ou seja, um auditor fiscal para cerca de 10.000 estabelecimentos, ou, um auditor fiscal para cada 65.000 trabalhadores em atividade. (10, 11) Em relação ao PPRA, do ponto de vista da inspeção do trabalho, certos procedimentos obrigatórios previstos na NR-9 podem permitir um melhor acompanhamento do programa. Um aspecto fundamental é a obrigatoriedade do empregador reconhecer os riscos ambientais presentes nos diversos locais de trabalho da empresa e assumir prazos para solucionar as questões relativas a esses riscos. Como o programa é permanente, cabe ao empregador formalizar um cronograma anual, com estabelecimento das ações a serem executadas e as metas a serem alcançadas neste período. Por sua vez, a exigência da manutenção de um histórico com o registro dos dados mantido por um período mínimo de vinte anos permite aos Auditores Fiscais do Trabalho verificar e comprovar tecnicamente os resultados alcançados no desenvolvimento do programa. Quanto ao PCMSO, ao estabelecer a obrigatoriedade de um planejamento em que estejam previstas as ações de saúde a serem executadas durante o ano, as quais devem ser objeto de um relatório anual, a NR-7 permitiu também um melhor acompanhamento do programa médico da empresa. Metodologia O presente trabalho teve como objetivo principal auditar, do ponto de vista da inspeção do trabalho, Programas de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) elaborados e implementados por empresas, de diferentes ramos econômicos, com mais de cem empregados, em atividade em Salvador, Bahia. Além disso, buscou-se avaliar a participação dos trabalhadores e dos seus representantes no desenvolvimento desses programas e, ao mesmo tempo, definir e aprimorar condutas, procedimentos e instrumentos de inspeção na área de segurança e saúde no trabalho. Foram utilizados dados primários e secun- Revista Brasileira de Saúde Ocupacional dários. Os dados primários foram coletados pelos próprios autores, dois Auditores Fiscais (Médicos do Trabalho) lotados na Delegacia Regional do Trabalho na Bahia, no período entre abril e dezembro de 2002, utilizando um questionário (checklist) especificamente elaborado para levantamento dos riscos ambientais presentes nos locais de trabalho. Para efeito deste trabalho, foram considerados riscos ambientais, os agentes químicos, físicos e biológicos existentes nos ambientes de trabalho que, em função de sua natureza, concentração ou intensidade e tempo de exposição, são capazes de causar danos à saúde do trabalhador, conforme conceituação adotada pela NR-9, item 9.1.5, da Portaria 3214/78. Os dados secundários, por sua vez, foram obtidos a partir dos documentos-base, dos históricos e dos relatórios anuais dos Programas de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e dos Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) elaborados e implementados por empresas privadas de diferentes ramos econômicos, com mais de 100 (cem) empregados, em atividade em Salvador, Bahia. Os programas foram analisados e auditados, tomando como base a identificação e o reconhecimento dos riscos ambientais, assim como a avaliação do cumprimento das etapas, das ações e das metas previstas em seus documentos-base e respectivos relatórios anuais. As análises incluíram, ainda, as estratégias e as metodologias utilizadas pelas empresas para o desenvolvimento de seus respectivos programas. A amostra Foram inspecionadas 30 empresas com mais de cem empregados e em atividade em Salvador, Bahia. Cumpre observar que essa amostra representa 6,5% das empresas com mais de cem empregados, em atividade em Salvador, nos setores da indústria, comércio e serviços. De acordo com consulta parametrizada no SFIT Sistema Federal de Inspeção do Trabalho, durante o ano de 2002, na cidade de Salvador, nos referidos setores, estavam em atividade 465 empresas com mais de cem empregados (12). Vol. 28 - nº 105 /106 Empresas inspecionadas Das 30 empresas inspecionadas, 10 (33,3%) delas pertencem ao setor Industrial, 10 (33,3%) ao setor de Serviços e 10 (33,3%) ao setor de Comércio. Em relação ao grau de risco da atividade econômica desenvolvida, 11 (36,7%) das empresas foram classificadas como grau de risco dois, 17 (56,7%) como grau de risco três e 2 (6,7%) como grau de risco quatro, de acordo com o Quadro I da NR4 da Portaria 3214/78. Quanto ao número de empregados, todas as empresas selecionadas mantém mais de 100 trabalhadores em atividade, sendo que 15 (50,0%) delas possuem entre 100 e 200 empregados, 4 (13,3%) entre 201 e 300 empregados, 4 (13,3%) entre 301 e 400 empregados, 2 (6,7%) entre 401 e 500 empregados e 5 (16,7%) possuem mais de 500 empregados. Resultados PPRA: resultado das auditorias Os Programas de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) foram analisados, tomando-se como base a identificação e o reconhecimento dos riscos ambientais existentes nos locais de trabalho, assim como a avaliação do cumprimento das etapas, das ações e das metas previstas em seus documentos-base e respectivos relatórios anuais. Os resultados são apresentados na Tabela 01, tendo sido analisados os seguintes tópicos: a. Elaboração do programa Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco de suas atividades, estão obrigadas a elaborar e implementar o PPRA, de acordo com a NR-9, item 9.1.1, da Portaria 3214/ 78. Das 30 empresas inspecionadas, 2 (6,7%) não tinham elaborado e implementado o referido programa. b. Responsabilidade técnica De acordo com a NR-9, item 9.3.1.1, a elaboração e implementação do PPRA poderão ser feitas por qualquer pessoa, ou equipe de pessoas que, a critério do em- 13 Tabela 01 PPRA: Resultados das Auditorias. pregador, sejam capazes de desenvolver o disposto na norma. Entre as 28 empresas inspecionadas que elaboraram o PPRA, em 14 (50,0%) delas o programa tinha sido elaborado por um engenheiro de segurança do trabalho, em 13 (46,4%) por um técnico de segurança do trabalho e em 1 (3,6%) por um médico do trabalho. Apesar de ser considerado essencialmente um programa de higiene ocupacional, em nenhuma das empresas o programa tinha sido elaborado por um profissional higienista ocupacional. c. Avaliação anual A norma estabelece que a empresa deve adotar mecanismos de avaliação que permitam verificar o cumprimento das etapas, das ações e das metas previstas. De acordo com a NR-9, item 9.2.1.1, uma avaliação global do PPRA deve ser efetuada, sempre que necessário e pelo menos uma vez ao ano, para a avaliação do seu desenvolvimento e realização dos ajustes necessários e estabelecimento de novas metas e prioridades. Entre as 28 empresas inspecionadas que elaboraram o PPRA, 24 (85,7%) não tinham efetuado pelo menos uma avaliação anual do seu programa. d. Inconsistências identificadas Entende-se aqui por inconsistência, a qualidade ou estado de falta de consistência, de fundamento ou de coerência entre os dados e informações contidas nos documentos fornecidos pela empresa e aqueles verificados fisicamente no local de trabalho 14 pelos Auditores Fiscais do Trabalho. Neste sentido, foram avaliadas as seguintes etapas do PPRA: reconhecimento dos riscos ambientais, estabelecimento de prioridades e metas de avaliação e controle, avaliação quantitativa dos riscos e da exposição dos trabalhadores e, implantação de medidas de controle e avaliação de sua eficácia. Entre as 28 empresas que elaboraram o PPRA, 26 (92,9%) delas apresentaram algum tipo de inconsistência em seu programa. Analisando-se as empresas que apresentaram inconsistências segundo as etapas do programa, em 12 (42,9%) delas a inconsistência referia-se ao reconhecimento dos riscos, em 11 (39,3%) à avaliação quantitativa, em 20 (71,4%) à implantação de medidas coletivas, em 3 (10,7%) ao planejamento do programa e, em 20 (71,4%) a inconsistência estava relacionada ao cronograma de execução das ações. Estudando-se as inconsistências segundo os riscos ocupacionais, verificou-se que em 82,1% dos casos as inconsistências relacionavam-se com os riscos físicos, em 28,6% essa relação era com os riscos químicos e, em nenhum caso as inconsistências estavam relacionadas com os riscos biológicos presentes nos locais de trabalho. No caso das empresas que apresentaram inconsistências relacionadas com os riscos químicos, em 7,1% delas a inconsistência referia-se ao reconhecimento dos riscos, em 35,7% à avaliação quantitativa, em 25,0% à implantação de medidas coletivas e, em 7,1% à implantação de medidas de proteção individual. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Entre as empresas que apresentaram inconsistências relacionadas com os riscos físicos, em 35,7% delas a inconsistência referia-se ao reconhecimento dos riscos, em 35,7% à avaliação quantitativa, em 60,7% à implantação de medidas coletivas e, em 17,9% à implantação de medidas de proteção individual. PCMSO: resultado das auditorias Os Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) foram anali- Tabela 02 sados, tomando-se como base os riscos à saúde dos trabalhadores, especialmente os identificados no PPRA da empresa e aqueles verificados pelos Auditores Fiscais durante a inspeção realizada no local de trabalho. Foi avaliado o cumprimento das ações e das metas previstas no planejamento anual, especialmente em relação à realização obrigatória dos exames médicos ocupacionais. Os resultados são apresentados na Tabela 02, tendo sido analisados os seguintes tópicos: PCMSO: Resultados das Auditorias. a. Elaboração do programa Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco de suas atividades, estão obrigadas a elaborar e implementar o PCMSO, de acordo com a NR-7, item 7.1.1, da Portaria 3214/ 78. Das 30 empresas inspecionadas, 2 (6,7%) não tinham elaborado e implementado o referido programa. b. Avaliação anual A NR-7, em seu item 7.4.6, estabelece que o programa deverá obedecer a um planejamento em que estejam previstas as ações de saúde a serem executadas durante o ano, devendo estas ser objeto de relatório anual. Entre as 28 empresas inspecionadas que elaboraram o PCMSO, 22 (78,6%) não tinham efetuado uma avaliação anual do seu programa. c. Inconsistências identificadas Entende-se aqui por inconsistência, a qualidade ou estado de falta de consistência, Vol. 28 - nº 105 /106 de fundamento ou de coerência entre os riscos à saúde dos trabalhadores e os procedimentos médicos efetivamente realizados no desenvolvimento do PCMSO. Neste sentido, foram avaliadas as seguintes etapas: identificação dos riscos ocupacionais a que está ou será exposto cada trabalhador da empresa, realização dos exames médicos ocupacionais, execução e interpretação dos indicadores biológicos, planejamento anual das ações de saúde, registro dos dados em prontuário clínico individual e emissão do Atestado de Saúde Ocupacional (ASO). Entre as 28 empresas que elaboraram o PCMSO, 24 (85,7%) delas apresentaram algum tipo de inconsistência em seu programa. As inconsistências verificadas nos programas relacionavam-se em 50,0% dos casos com o monitoramento biológico dos riscos físicos, em 7,1% essa relação era com os riscos químicos e em 7,1% as inconsistências estavam relacionadas com os riscos biológicos presentes nos locais de trabalho. 15 No caso das empresas que apresentaram inconsistências em seu PCMSO, em 57,1% delas a inconsistência relacionava-se à realização dos exames complementares (indicadores biológicos), em 21,4% à periodicidade dos exames médicos, em 17,9% delas à realização dos exames médicos clínicos, em 17,9% à emissão do atestado de saúde ocupacional e em 3,6% ao registro de dados em prontuário clínico individual. Ao analisar as inconsistências, relacionando-as aos vários tipos de exames médicos ocupacionais obrigatórios, verificamos que em 71,4% das empresas a inconsistência verificada no PCMSO estava relacionada com o exame periódico, em 3,6% com o exame admissional e, em 3,6% com o exame médico demissional. O Mapa de Riscos O Mapa de Riscos, previsto na NR-5 da Portaria 3214/78 (1), tem por objetivo reunir as informações necessárias para estabelecer o diagnóstico da situação de segurança e saúde no trabalho na empresa. Elabo- Tabela 03 Mapa de Riscos: Resultados das Auditorias. Fiscalização estatal: a inspeção trabalhista No presente trabalho, analisando as anotações registradas durante os anos de 1995 a 2002 nos Livros de Inspeção do Trabalho (LIT) das empresas estudadas, constatou-se que 8 (26,7%) delas não tinham sido inspecionadas durante o referi- 16 rar o Mapa de Riscos é atribuição dos integrantes da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), com a participação do maior número de trabalhadores. Na elaboração do mapa, busca-se conhecer o processo de trabalho, identificar os riscos existentes no local analisado e, ao mesmo tempo, possibilitar a troca e divulgação de informações entre os trabalhadores, bem como estimular sua participação nas atividades de prevenção. O conhecimento e a percepção que os trabalhadores têm do processo de trabalho e dos riscos ambientais presentes, incluindo os dados consignados no Mapa de Riscos, deverão ser considerados para fins de planejamento e execução do PPRA. Contudo, entre as 30 empresas inspecionadas, 13 (43,3%) não tinham elaborado o Mapa de Riscos. Entre as 17 empresas que elaboraram o Mapa de Riscos, em 9 (53,0%) essa elaboração não tinha contado com qualquer participação dos trabalhadores e em 16 (94,1%) não houve a participação de representantes de seus sindicatos, conforme resultados apresentado na Tabela 03 . do período, 3 (10,0%) empresas foram inspecionadas apenas 1 (uma) vez, 11 (36,7%) foram inspecionadas 2 (duas) vezes, 3 (10,0%) foram inspecionadas 3 (três) vezes, 2 (6,7%) foram inspecionadas 4 (quatro) vezes e 3 (10,0%) foram inspecionadas 5 (cinco) ou mais vezes durante o período. Os resultados são apresentados na Tabela 04. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Tabela 04 PPRA /PCMSO: Fiscalização Estatal. Após inspecionar as 30 empresas selecionadas, auditando seus programas PPRA e PCMSO, foram emitidos 29 Termos de Notificação (TN) para que as empresas regularizassem 215 itens, perfazendo uma média de 7 irregularidades por empresa. Controle social e a participação dos trabalhadores A experiência mundial tem demonstrado que a ação da fiscalização estatal é limitada e raramente tem sido suficiente, o que torna cada vez mais importante o controle social, isto é, a fiscalização exercida diretamente pelos próprios trabalhadores e pelos seus sindicatos. De acordo com a NR9, itens 9.4 e 9.5, os trabalhadores interessados têm o direito de apresentar propostas e receber informações e orientações a fim de assegurar a proteção aos riscos ambientais identificados na execução do PPRA. Além disso, a norma estabelece que colaborar e participar na implantação e na execução do PPRA é uma das responsabilidades dos trabalhadores. Os documentos-base e os relatórios anuais do PPRA e do PCMSO, por sua vez, devem ser apresentados e discutidos na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). A implantação de medidas de caráter coletivo deve ser sempre acompanhada de treinamento dos trabalhadores, Vol. 28 - nº 105 /106 quanto aos procedimentos que assegurem a sua eficiência, e de informação sobre as eventuais limitações de proteção que ofereçam. O trabalhador tem também o direito de receber cópia dos resultados dos procedimentos médicos a que foi submetido, além da segunda via do seu Atestado de Saúde Ocupacional (ASO). Convém destacar, finalmente, que ao estabelecer os parâmetros mínimos e as diretrizes gerais a serem observados na execução dos programas PPRA e PCMSO, as normas estabelecem, também, que os mesmos podem ser ampliados mediante negociação coletiva de trabalho. No presente estudo, entre as 28 empresas que tinham elaborado o PPRA ou o PCMSO, em nenhuma delas essa elaboração tinha contado com qualquer participação dos trabalhadores (ou de representantes de seu sindicato), sendo que em 25 (89,3%) os documentos-base do PPRA ou do PCMSO não foram apresentados e discutidos na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). A ampliação das diretrizes gerais e dos parâmetros mínimos dos programas PPRA e PCMSO, mediante negociação coletiva de trabalho, também não foi verificada entre as empresas inspecionadas. Os resultados relacionados com a avaliação do controle social são apresentados na Tabela 05. 17 Tabela 05 PPRA / PCMSO: Controle Social. Conclusões A legislação brasileira de segurança e saúde no trabalho, a partir do final de 1994, passou a adotar um novo enfoque e estabeleceu a obrigatoriedade das empresas elaborarem e implementarem dois programas: um ambiental, o PPRA Programa de Prevenção de Riscos Ambientais, e outro médico, o PCMSO Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional. As novas normas privilegiaram o instrumental clínico-epidemiológico na abordagem da relação saúde/trabalho e introduziram a questão da valorização da participação dos trabalhadores e do controle social. Contudo, ao inspecionar 30 empresas baianas com mais de 100 empregados, os Autores evidenciaram que 2 (6,7%) delas não tinham elaborado o PPRA ou o PCMSO. Entre as 28 empresas que elaboraram o PPRA, 92,9% delas apresentaram algum tipo de inconsistência em seu programa, sendo que 85,7% não tinham efetuado uma avaliação global do PPRA. Entre as 28 empresas que elaboraram o PCMSO, 85,7 % apresentaram algum tipo de inconsistência em seu programa, sendo que 78,6% não tinham efetuado uma avaliação anual do PCMSO. Após um período de 8 anos de vigência da legislação que introduziu os programas PPRA e PCMSO, os Autores constataram que 26,7% das empresas estudadas não tinham sido inspecionadas durante o referido pe- 18 ríodo, sendo que 83,4% das empresas foram inspecionadas 3 (três) vezes ou menos. Em relação ao controle social, isto é, a fiscalização exercida diretamente pelos próprios trabalhadores e pelos seus sindicatos, foi possível evidenciar que entre as empresas que elaboraram o PPRA ou o PCMSO, em nenhuma delas essa elaboração tinha contado com participação dos trabalhadores ou do sindicato profissional. A ampliação das diretrizes gerais e dos parâmetros mínimos dos programas PPRA e PCMSO, mediante negociação coletiva de trabalho, também não foi verificada entre as empresas inspecionadas. Concluindo, apesar das novas normas privilegiarem o instrumental clínicoepidemiológico e valorizarem a participação dos trabalhadores e o controle social, no presente trabalho foi possível constatar a baixa qualidade técnica dos programas PPRA e PCMSO, a ação limitada e insuficiente da fiscalização estatal dos ambientes de trabalho, além do precário controle social, isto é, a inexistência de uma fiscalização exercida diretamente pelos próprios trabalhadores e pelos seus sindicatos. Os Autores apontam a evidente necessidade de ampliar a cobertura da fiscalização estatal, estimular a participação dos trabalhadores e dos seus representantes no desenvolvimento dos programas PPRA e PCMSO e, desenvolver e aprimorar condutas, procedimentos e instrumentos de inspeção na área de segurança e saúde no trabalho. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Referências Bibliográficas 1. MTE MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. SSST - Secretaria de Segurança e Saúde no Trabalho. Legislação de Segurança e Saúde no Trabalho. Brasília, 1999. 2. OIT - ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Conferência Internacional do Trabalho (70º reunião). Serviços de saúde dos trabalhadores. Informe IV(2). Genebra: OIT, 1985. 3. Moura, M.A. Um olhar coletivo. Revista Proteção, 40-43, maio de 1998. 4. Miranda, C.R. Inspeção do Trabalho, Epidemiologia e Segurança e Saúde no Trabalho. In: A importância da Inspeção do Trabalho Trabalhos Premiados. Brasília (DF) : Sindicato Nacional dos Agentes da Inspeção do Trabalho (SINAIT), 1999. 5. Pena, P.L.G. Elementos teóricos e metodológicos para a elaboração do PPRA e do PCMSO. FAMED/UFBA. Salvador, julho 2000 (mimeo). 6. Saad, I.F.S.D. & Giampaoli, E. Programa de Prevenção de Riscos Ambientais NR-9 Comentada. 4º edição. ABHO: São Paulo, 1999. 7. MTE MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. SSST - Secretaria de Segurança e Saúde no Trabalho. Vol. 28 - nº 105 /106 Norma Regulamentadora nº 7: nota técnica. Brasília : MTb, SSST, 1996. 34 p. 8. DAL ROSSO, S. - A Inspeção do Trabalho - Capítulo 9 do Livro O Trabalho na Sociedade. O Castigo de Prometeu. Brasília (DF) : Sindicato Nacional dos Agentes da Inspeção do Trabalho (SINAIT), 1997. 42p. 9. OIT - ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Convenção nº 81 sobre a Inspeção do Trabalho. Genebra : OIT, 1947. 10. SISTEMA FEDERAL DE INSPEÇÃO DO TRABALHOSFIT. Quadro de Auditores Fiscais do Trabalho. Brasília : Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), dezembro de 2002. 11. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICAS IBGE. Diretoria de Pesquisas, Divisão de Cadastro e Classificação. Cadastro Central de Empresas. Brasília , 1999. 12. SISTEMA FEDERAL DE INSPEÇÃO DO TRABALHO SFIT. Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Consulta parametrizada de empresas: áreas da Indústria (CNAE: 15.11-3 a 36.99-4), Comércio (CNAE: 50.10-5 a 52.79-5) e Serviços (CNAE: 55.11-5 a 93.092), com 100 ou mais empregados (Faixa=19 a 37), setembro de 2002. 19 20 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Avaliação do Nível de Ruído Causado por Diferentes Conjuntos Mecanizados Luiz Henrique de Souza1 Haroldo Carlos Fernandes2 Edney Leandro da Vitória3 1 Engenheiro Agrícola, Mestrando em Engenharia Agrícola do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa MG. 2 Professor Adjunto do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa MG. 3 Professor Substituto do centro Agropecuário da Universidade Federal do Espírito Santo ES. Evaluation of Noise Levels Caused by Different Groups of Mechanical Equipment O presente estudo busca avaliar e comparar os níveis de ruído durante uma operação agrícola, desde a fase de aragem do terreno, até a colheita, para que, assim, em situação real de trabalho no campo, sejam feitas as devidas análises dos riscos a que estão sujeitos os operadores de máquinas, durante todo o manejo de uma cultura. Para realização dos ensaios, foram utilizados: trator (73cv), arado e grade de discos, aplicador de calcáreo, pulverizador e colhedora, onde foram feitos testes com o trator, tracionando cada um dos implementos, em velocidade e operações diferentes, com o motor mantido na rotação de 1700 rpm. Para a colhedora, foram utilizadas, também, velocidades de avanço diferentes, avaliando-se o nível de ruído à esquerda e à direita do operador. Em relação às médias dos níveis de ruído, os valores se encontraram muito elevados, ultrapassando os limites estipulados, gerando grande desconforto ao operador. A colhedora apresentou maior desconforto ao operador, não apresentando diferença significativa entre a mesma, parada ou em movimento. Mesmo estando o trator e/ou colhedora parados, os mesmos apresentaram níveis de ruído bem superior, ao mínimo estipulado apresentando assim, risco não só a quem opera, como também a quem está próximo dos mesmos. Palavras-chaves Nível de Ruído, Máquinas Agrícolas. This study endeavors efforts were therefore made to evaluate and compare the noise levels generated during agricultural operations, ranging from the plowing stage through to the harvest, so that the appropriate to be therefore able to conduct the risk analyses be made in real-life field conditions to determine exactly what machine operators are subjected to during an entire cultivation process. The machinery used in the tests consisted of: a 73 hp tractor, a plow, disk grader, artificial manure and lime spreader, crop sprayer and harvester. The tests were conducted with the tractor towing each implement at varying speeds and in different operations with the engine running at 1700 rpm. The harvester was also operated using different forward gear speeds. The noise levels recorded on both the operators right and lefthand sides were very high in relation to the average noise levels and exceeded the stipulated limits, causing much operator discomfort. The harvester generated the most operator discomfort, with little difference between when in motion and when not in motion. Both the tractor and the harvester when not in motion generated noise levels far higher than the stipulated minimum levels, presenting thereby a risk not only to the operator but also to whoever was close by. Keywords Noise Level, Agricultural Machinery. Vol. 28 - nº 105 /106 21 Introdução Dentre muitos fatores ambientais que prejudicam o trabalhador, o ruído pode ser considerado um dos principais, pois pode causar danos auditivos, assim como, outras conseqüências. Infelizmente, o setor agrícola observou esse problema tardiamente, tanto que, na área rural, pouco, ou quase nada, existe a respeito do ruído em máquinas agrícolas e, conseqüentemente, não se pode tirar nenhuma conclusão sobre os problemas ocupacionais, em trabalhadores agrícolas. De maneira geral, o trator se coloca em destaque, quando se pesquisa a relação homem-máquina, na área rural. Qualquer estudo, por mais superficial que seja, demonstra que a frota nacional de tratores não está projetada, de acordo com as necessidades do trabalhador, mas sim, com as do trabalho. O tratorista tem que, ao mesmo tempo, controlar o implemento e manter o trator alinhado, enquanto é submetido, durante horas, ao sol, à chuva, ao frio, à poeira e à fumaça do escapamento, além de um nível de ruído e de vibrações desumanos. No ano de 1897, na Suécia, foram realizados os primeiros ensaios oficiais com máquinas agrícolas, porém, o teste para tratores da Universidade de Nebraska é o mais famoso e conhecido, mundialmente. Os Testes de Nebraska servem de base para todos os ensaios de hoje. Eles se baseiam em 2 tipos de testes: ensaio na tomada de potência e ensaio na barra de tração (SILVEIRA, 1978). Até então, não existia nenhuma preocupação com o nível de ruído em tratores. A primeira Legislação que estabelecia valores máximos para o ruído em veículos e máquinas surgiu, na Alemanha em 1958. Foi criada uma tabela que impunha valores decrescentes para o ruído, em veículos, a cada ano de fabricação. Com a publicação da RECOMENDAÇÃO ISO R 362, a legislação passou a considerar, como limite máximo de ruído, para máquinas agrícolas, a faixa de 85 a 89 dBA (BURK, 1969). Em 1959, surgiu a norma para ensaio de tratores da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na sua versão de 1970, ela divide os ensaios com tratores em 2 tipos: 8 ensaios obrigatórios e 5 ensaios facultativos. Para os ensaios 22 obrigatórios, 2 deles se referem ao ruído produzido por tratores: ruído produzido pelo trator, no meio ambiente e medida do ruído no ouvido do tratorista (FERNANDES, 1991). Segundo FERNANDES (1991), a maioria dos países da Europa adotam as normas da OCDE, como referência. Como exemplo, citam-se a França, que adotou todos os ensaios (inclusive os de ruído), sob a coordenação do Centro Nacional de Estudo e de Experimentação de Máquinas Agrícolas (CNEEMA); e a Inglaterra, que normalizou os ensaios de tratores, conforme as normas BS 1794 e BS 2800, e, para ensaios específicos de ruído em veículos, usa as normas BS 3489 - 1962 - Sound Level Meters e BS 3534 - 1962 - Sound Level Meters for the Measurement of Noise Emitted by Motor Vehicles. Nos Estados Unidos, várias normas disciplinam o nível de ruído em máquinas, sendo as principais, segundo FERNANDES (1991): SAE - J919A - 1971 - SAE Recomended Pratice, Sound Measurement at the Operator Station for Agricultural and Construction Equipament e SAE - J1013 - 1973 ASAE Recomended Pratice, Measurement of Whole Body Vibration of the seated operator of Agricultural Equipament. No Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) possui inúmeras normas a respeito de medições de ruído em máquinas, sendo as principais para máquinas agrícolas: NBR - 9999 (ASSOCIAÇÃO ... NBR, 1987) Medição do Nível de Ruído, no Posto de Operação, de Tratores e Máquinas Agrícolas e NBR 10400 (NBR, 1988) Tratores Agrícolas Determinação das Características Técnicas e Desempenho. Há controvérsia muito grande a respeito do limite de ruído ocupacional. Vários estados americanos fixaram o limite em 90 dBA. O critério das leis federais americanas (NIOSH - National Institute for Occupational Safety and Health) também fixou 90 dBA, enquanto várias pesquisas científicas têm evidenciado ser este nível elevado. Normas de alguns países já reduziram esse limite para 85 ou 80 dBA. Estudando o risco auditivo de trabalhadores expostos a diversos níveis de ruído, MERLUZZI et al. (1987) afirmaram que exposição a ruído ocupacional de 85 dBA pode modificar o limiar auditivo de certa porcenRevista Brasileira de Saúde Ocupacional tagem da população exposta ao ruído. Na tabela 1, mostram-se os limites de exposição ocupacional ao ruído, confor- me normas nacionais de diversos países (FERNADES, 1991). Tabela 1 Limite de exposição ocupacional ao ruído, conforme as normas nacionais de diversos países. *Tempo de exposição diária ou semanal. OSHA: Occupational Safety and Health Administration. NIOSH: National Institute for Occupational Safety and Health. Objetivos 1. Avaliar e comparar os níveis de ruído durante operação agrícola para os conjuntos trator-implemento e colhedora. 2. Comparar os resultados, com as normas vigentes no Brasil. Materiais e métodos Os ensaios foram conduzidos em uma área de aproximadamente 1 ha, pertencente ao Departamento de Engenharia Agrícola (DEA) da Universidade Federal de Vol. 28 - nº 105 /106 Viçosa (UFV). A área está localizada no município de Viçosa, MG, com longitude de 42º 52 40 W (Gr) e latitude 20º 4520 S, a 658 m de altitude. Nas operações agrícolas foram avaliados: Trator 54 KW 73 cv 2000 rpm; arado de discos reversível, marca CIPOLA, modelo C3, 3 x 26, largura de corte de 1,10 m e peso aproximado de 4.905 N; grade niveladora off-set, marca BALDAN, 36 x 17, largura de corte aproximada de 2,8 m e peso aproximado de 9.810 N; distribuidor de calcáreo; pulverizador, bico Teejet 11003 vk; semeadora e colhedora auto-propelida. 23 Antes da passagem das máquinas, foram coletadas 10 amostras em 3 profundidades, em pontos escolhidos aleatoriamente, na área onde foram feitos os testes. Utilizou-se um anel volumétrico, e o valor da densidade do solo foi obtida, dividindose a massa do solo, secada em estufa a 105 º C , p e l o s e u v o l u m e ( E M P R E S A . . . EMBRAPA, 1979). Na área experimental, antes da passagem das máquinas, foram feitas leituras do índice de cone, em pontos distribuídos aleatoriamente, perfazendo-se um total de 10. As leituras foram efetuadas por meio de um penetrógrafo da marca SOIL CONTROL, modelo SC-60, com uma haste de 600 mm de comprimento e 9,53 mm de diâmetro, equipada com um cone de 129,3 mm2 de área de base, 12,83 mm de diâmetro e 30graus de ângulo de vértice. O índice de cone foi obtido através da média das leituras de 0 a 0,40 m, em kgf/cm2, transformada para unidade do Sistema Internacional de Medidas (MPa). Procurou-se, na obtenção das leituras, seguir as recomendações-padrão da ASAE S 313 (AMERICAN SOCIETY OF AGRICULTURAL ENGINEERS, 1990), que exige, para o teste, uma velocidade de penetração de 1.829 mm por minuto. Para determinação do teor de água, utilizou-se o método-padrão de estufa, seguindo a metodologia empregada pela EMBRAPA (1979). As amostras foram coletadas na área, antes da passagem das máquinas, em 10 pontos, aleatoriamente, distribuídos na área, e em 3 diferentes profundidades. O trator e colhedora foram avaliados nas condições em que se encontravam no campo, em trabalho. O local escolhido para realização dos testes era, relativamente plano, sem obstáculos e declives, os quais poderiam ocasionar deflexão do som. As medições não foram realizadas, com equipamento, em manobra, ou durante a aceleração e a desaceleração. Antes do início de cada determinação dos níveis de ruído, mediram-se o ruído de fundo, a velocidade do vento, a umidade e a temperatura do ar. Embora tenha sido observada a condição climática favorável, 24 em todas as medições, foi utilizado o protetor de ventos, no microfone do medidor de pressão sonora, com os intuitos de uniformizar as condições de leitura e evitar a influência de rajadas de vento que pudessem ocorrer. A escala utilizada para medida do nível de ruído do trator e colhedora foi o decibel (dB). Os ruídos foram determinados em um medidor de pressão sonora (decibelímetro) da marca MINIPA, no circuito de resposta lenta (slow) e de equalização A. As determinações dos níveis de ruído foram baseadas na NBR 9999 (ABNT, 1987), que é uma norma específica para a medida de ruído, em tratores, e seus efeitos sobre o tratorista, em que são fixados todos os procedimentos de medidas. Embora as condições de operação tenham diferido daquelas prescritas pela norma, todos os procedimentos de medida, nela fixados, podem ser cumpridos, conforme realizado por FERNANDES (1991) e LIMA (1998). O microfone do medidor foi posicionado na altura do ouvido do operador, conforme a norma NBR 9999 (ABNT, 1987). Para a obtenção do ruído, gerado apenas pelo motor, foram feitas medições dos níveis de ruído, com o trator parado. Essa avaliação permitiu quantificar a contribuição do motor no ruído total do trator e determinar os níveis de ruído a que estão sujeitos os trabalhadores, próximos ao trator. As leituras, um total de 10, foram realizadas próximas ao ouvido do operador, do lado onde estava posicionado o escapamento de saída dos gases do motor, onde se suponha ser o lado de maior nível de ruído, emitido pelos tratores. Para avaliar a influência da força de tração requerida pelo implemento, realizaram-se ensaios, com variáveis, previamente fixadas: foram utilizados 1 trator , arado e grade de discos, aplicador de calcáreo, semeadora, pulverizador e colhedora. Realizaram-se os ensaios com o trator, tracionando cada um dos implementos, em velocidades e operações diferentes, o motor foi mantido na rotação de 1700 rpm. Para a colhedora, foram Revista Brasileira de Saúde Ocupacional analisados velocidades e lados à esquerda e à direita do operador. A medição dos níveis de ruído foi realizada, com o medidor posicionado próximo ao ouvido do operador durante a execução das operações, em uma área preestabelecida de 90 m2, sendo efetuadas 10 leituras, em períodos de 5 segundos, aproximadamente, caso a dispersão das leituras do nível de ruído obtida nas condições de medição excedesse a 3 dBA; outra medição era realizada até que a leitura de 3 medições sucessivas se limitassem a uma dispersão, na faixa de 3 dBA. As médias dessas leituras foram consideradas como resultado. Na avaliação da influência da força de tração requerida, dos níveis de ruído durante uma operação agrícola, o experimento foi montado num delineamento fatorial 2 x 2, para velocidade do conjunto e profundidade de trabalho, respectivamente, com 10 repetições, para leituras dos níveis de ruído. Na avaliação da influência do lado de operação, para a colhedora, foi montado o experimento, num delineamento fatorial 2 x 2, para velocidade e lado de operação, respectivamente, conforme o número de repetições, citado acima. Resultados Os testes foram realizados, em uma área, onde os fatores que poderiam afetar a força de tração requerida; como declividade, altitude, condições de superfície do solo, umidade do solo, tipo de solo e resistência do solo à penetração, eram homogêneos, assegurando-se, assim, que as variações de velocidade e profundidade, para cada conjunto trator-implemento ensaiado, seriam suficientes, para uma variação, na força de tração. Através da análise de variância, verificou-se que as interações, entre as velocidades e profundidades utilizadas, foram significativas a 5% de probabilidade, exceto nos conjuntos: trator-semeadora e trator-Aplicador de calcáreo. O coeficiente de variação apresentou valores entre 38 e 72%, representando uma alta dispersão dos níveis de ruído, nas operações agrícolas consideradas. Trator com arado de discos Na tabela 2 podem ser vistos os resultados das médias dos níveis de ruído. Tabela 2 Médias dos níveis de ruído (dBA), obtidas no trator com arado de discos, variando-se a velocidade e a profundidade da operação. Médias seguidas pelas mesmas letras maiúsculas, na horizontal, e pelas mesmas letras minúsculas, na vertical, não diferem, entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. A maior média de nível de ruído foi en- Vol. 28 - nº 105 /106 contrada, quando se utilizaram a maior velocidade e a maior profundidade, indicando a tendência de elevação do nível de ruído, em função do aumento da força de tração requerida, obtida, na mesma rotação do motor do trator. 25 Trator com grade de discos Tabela 3 Médias dos níveis de ruído (dBA), obtidas no trator com grade de discos, variando-se a velocidade e o ângulo de travamento da grade. Médias seguidas pelas mesmas letras maiúsculas, na horizontal, e pelas mesmas letras minúsculas, na vertical, não diferem, entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. A maior média de nível de ruído foi encontrada, quando se utilizaram a maior velocidade e a maior profundidade, indicando a tendência de elevação do nível de ruído, em função do aumento da força de tração requerida, obtida, na mesma rota- ção do motor do trator. Trator com aplicador de calcáreo Os resultados das médias dos níveis de ruído para as velocidades foram analisadas, separadamente, já que não houve interação, entre essas duas variáveis, conforme análise de variância. Tabela 4 Médias dos níveis de ruído (dBA), obtidas no trator, com aplicador de calcáreo para as velocidades utilizadas. Médias seguidas pelas mesmas letras não diferem, entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. Embora não tenha ocorrido diferença significativa para as médias dos níveis de ruí- do para as duas velocidades estudadas, a maior média foi encontrada, quando se utilizou a maior velocidade, indicando a tendência de elevação do nível de ruído, em função do aumento da velocidade do trator. Trator com Semeadora Tabela 5 Médias dos níveis de ruído (dBA), obtidas do trator, com semeadora, variando-se a velocidade de trabalho. Os resultados das médias dos níveis de ruído para as velocidades foram analisadas, separadamente, já que não houve 26 interação entre essas duas variáveis, conforme análise de variância. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Médias seguidas pelas mesmas letras não diferem entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. Não houve diferença significativa para as médias dos níveis de ruído, para as duas velocidades de trabalho estudadas para a mesma rotação do motor do trator. Trator com Pulverizador Tabela 6 Média dos níveis de ruído (dBA) obtidas do trator, com pulverizador, em função da velocidade e pressão utilizada. Médias seguidas pelas mesmas letras não diferem entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. A maior média do nível de ruído foi encontrada na maior velocidade, indicando a tendência de elevação do nível de ruído em função do aumento da velocidade, para o trator com pulverizador numa mesma pressão de trabalho. Colhedora Tabela 7 Média dos níveis de ruído (dBA) da colhedora, em função da velocidade e lado de operação. Médias seguidas pelas mesmas letras maiúsculas, na horizontal, e pelas mesmas letras minúsculas, na vertical, não diferem, entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. A maior média do nível de ruído foi encontrada, na menor velocidade, devido a uma maior trepidação da colhedora nesta situação e lado direito, já que o escapamento da mesma se situa deste lado. de 89,6 dBA do lado do escapamento do mesmo. Nível de ruído com o trator parado Discussão geral dos valores médios dos níveis de ruído encontrados e com- Foi obtida uma média de nível de ruído Vol. 28 - nº 105 /106 Nível de ruído com a semeadora parada Foi obtida uma média de nível de ruído de 96,8 dBA do lado do escapamento da colhedora. 27 paração direta com outras publicações A tabela 8 mostra o tempo máximo, permi- Tabela 8 tido de trabalho diário, para cada operação agrícola, considerando-se o maior nível de ruído médio encontrado para cada operação. Tempos de exposição diária permissível às médias de ruído encontradas nas operações. Conclusões Com relação às médias dos níveis de ruído encontradas nas medições, os valores se encontraram elevados, ultrapassando os limites estipulados pela Portaria 3214/78 - NR15 - CLT (cujo valor limite é de 85 dBA para uma exposição máxima diária de 8 horas, sem protetores auriculares), os níveis geram grande desconforto ao operador. A colhedora apresentou maior desconforto ao operador, não apresentando diferença significativa, entre a mesma, parada ou em operação. Mesmo estando o trator e/ou colhedora parados, os mesmos apresentaram níveis de ruído, superiores ao mínimo estipulado, apresentando riscos a quem opera, e a quem está próximo dos mesmos. Referências Bibliográficas ABNT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS - NBR 9999- Medição do Nível de Ruído, no Pos28 to de Operação de Tratores e Máquinas Agrícolas. 1987. 12 p. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional ABNT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS - NBR 10400Tratores Agrícolas - Determinação das Características Técnicas e Desempenho. 1988. ABNT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS - NORMA NB 95 - Níveis de ruído aceitáveis. 1966. AMERICAN SOCIETY OF AGRICULTURAL ENGINEERS. ASAE Standards 1990. St. Joseph, Michigan, 1990. Não paginado. BRASIL - Decreto-lei n.º 5452, de 1º de maio de 1943. Consolidação das leis trabalhistas, 1943. 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Sociedade Brasileira de Engenharia Agrícola, v. 2, p. 1327-1337. Vol. 28 - nº 105 /106 FERNANDES, J. C; Estratégias para diminuição do ruído em tratores agrícolas Parte I: alteração da posição do sistema de exaustão In : XXV Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola, 1996a, Bauru-SP. Anais... Sociedade Brasileira de Engenharia Agrícola. p.172. FERNANDES, J. C; Estratégias para diminuição do ruído em tratores agrícolas Parte II: Redimensionamento de posição do sistema de exaustão In : XXV Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola, 1996b, Bauru-SP. Anais... Sociedade Brasileira de Engenharia Agrícola. p.221. FIEDLER, N. C. Avaliação ergonômica de máquinas utilizadas na colheita de madeira. Viçosa, MG, UFV. 1995. 126p. (tese M.S.). FUNDACENTRO - Norma para avaliação da exposição ocupacional ao ruído Série Técnica de Avaliação de Riscos Ambientais - NHT-09 R/E - Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, n.º 14, 1986. IIDA, I. Ergonomia: projeto e produção. 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Horticultural Market Porters: Dangerous Employment Neste trabalho, entrevistamos 20 carregadores da CEASA de Campinas, enfocando suas condições de vida e de trabalho, em especial relacionado às formas precárias, numa das muitas facetas do mundo do trabalho da atualidade. Palavras-chaves Trabalho, Precariedade, Carregadores de Cargas, Trabalho Informal. For this study, we interviewed 20 porters at the CEASA, a horticultural supply post, in Campinas, State of São Paulo, with special attention being given to the precarious type of work, in one of the many facets of present-day work conditions. Keywords Work, Precariousness, Porters, Irregular Employment. Vol. 28 - nº 105 /106 31 (Bom carregador) É saber tratar bem do homem de pedra, tratar bem do freguês e saber fazer uma carga. Fazer uma carga é saber pegar mercadoria, não pegar uma mercadoria fraca: vamos supor, você pega esse monte de milho, tem que saber pegar o bom. Caixa de alface tem duas camadas, doze pés ou três camadas, 18 pés, até 24 pés. Se pegar de três camadas, já não é bom carregador; é prá pegar vagem manteiga, que é fininha, pega vagem grossa; aí tem que trocar. Tem que saber escolher a mercadoria, porque aí, a mercadoria que o freguês vende, tem mais qualidade A motivação deste trabalho Em 1995 o Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, através de dois docentes, iniciou um trabalho junto à CEASA de Campinas para conhecer as condições de trabalho, e dentro das possibilidades, de elaborar um programa para os seus trabalhadores. Meu interesse centrou-se nos carregadores pois, segundo se comentava, a frequência de casos de lombalgia era muito alta. A fim de podermos ser aceitos e legitimados no serviço, uma vez formalizada nossa presença, passamos a atender os que procuravam, espontaneamente o posto de saúde municipal local; estivemos integrados à equipe local, e o atendimento buscou centrar nos que apresentavam problemas crônicos; foi dada uma ênfase nos que tinham queixas relacionadas à coluna. Tendo percebido, neste contexto que os carregadores não procuravam o ambulatório, e sim, trabalhadores de outras atividades, tais como, cozinheiras com uma certa idade, pessoal de limpeza geral e outros, veio-me a indagação sobre o que se passava, exatamente, com os carregadores. Para conhecer um pouco sobre seu trabalho e seu mundo, decidi entrevistá-los. Esta é a motivação deste trabalho. O método e os entrevistados Foram feitas visitas aos locais de trabalho e as entrevistas ocorreram no local de 32 trabalho, em horário de fim de feira (entre 10:00 e 11:00 horas). Foram 23 os entrevistados, ao longo do ano de 1998, sendo 20 carregadores, dois permissionários, donos de pedra (são os que obtêm a permissão, na forma de concessão, para comercializar produtos, em espaços pré delimitados) e um consertador de carrinhos. As entrevistas foram realizadas, uma vez por semana, em geral na sexta feira. Perguntouse ao trabalhador se aceitava ser entrevistado e tendo-se o consentimento, procedeu-se a uma entrevista, com um pequeno roteiro, onde se priorizou a descrição de um dia de feira para o carregador. A partir deste aquecimento, diferentes assuntos foram abordados. Sete carregadores recusaram-se a participar das entrevistas. Não foram feitas gravações, sendo anotado, diretamente, em caderno. Ao final de cada entrevista, foram feitas leituras sobre suas falas (que se tentou manter o mais fiel possível). Todas as entrevistas foram feitas pela autora do trabalho. Nas falas dos trabalhadores, cujo eixo central foi o de fazer o trabalho, diversos aspectos da precariedade foram aparecendo. Esta é a razão de ser desta temática, como eixo organizador do texto. A Ceasa e o trabalho dos carregadores Recebe 460.000.000 de quilos de produtos (dados de 1993, PMC,1994); que são carregados e descarregados, anualmente. Circulam, nos momentos de pico, algo em torno de 16.000 pessoas; sua população constante é de 3.000 a 4.000 pessoas. Possui em sua estrutura, quatro bancos, 10 restaurantes, e x permissionários que vendem seus produtos, nas chamadas pedras e nos boxes. As atividades concentram-se na venda atacadista de produtos hortifrutigrangeiros, nas segundas, quartas e sextas feiras, aos quais denominam, dias de feira. Nas terças e quintas feiras, são os dias de mercado de flores. Os boxes funcionam de forma contínua, de segunda a sábado, e uma diferença é o fato de possuírem sistemas de refrigeração, para conservação de frutas em especial, e serem fixos e possuírem uma área construída definida. O entreposto ainda conta com venda de carnes e peixes. Os carregadores são em torno Revista Brasileira de Saúde Ocupacional de 800, mas estes números não são considerados unanimidade pelos carregadores, que acreditam serem muito maior (chegam a estimar até o dobro). Para trabalhar, os carregadores necessitam, em primeiro lugar, de serem cadastrados na CEASA; precisam de um carrinho para o transporte, cujas características são: possuir duas rodas traseiras e dois apoios de ferro para a parte da frente. A distribuição dentro das diferentes áreas da CEASA não ficou muito clara. Muitos trabalham fixo para um permissionário dono de pedra, fazendo a descarga dos produtos, e depois, para alguns fregueses ou clientes o carregamento das mercadorias. Muitos fregueses costumam ser fiéis e contratar o trabalho do mesmo carregador; mas ocorre de aparecerem alguns, que contratam só para uma viajinha. As atividades não são homogêneas e não costumam ocupar todos os dias da semana, mais nos dias de feira, e ainda assim, de forma desigual; a sexta feira é a mais forte; durante o ano, também existem. O trabalho é feito das 7:00 - 8:00 horas, para a descarga e 9:00 em diante, o carregamento; por volta das 11:30 horas quase já terminou ...é o fim de feira. O que é o trabalho precário? DESSORS (1994), referindo-se ao trabalho precário, faz uma conceituação ampliada, da instabilidade e da fragilidade a que se submete o trabalhador, nesta situação, em especial, relacionada à sua duração. Prefere não definir a precarização e deixar em aberto, defendendo a sua complexidade e a multiplicidade de ressonâncias. Considera como uma situação ampla, existente mesmo para casos em que os próprios trabalhadores, ainda não se consideram diretamente envolvidos nessa situação, mas cujas situações podem apresentar a ameaça de instabilidade. Mesmo os que estariam, aparentemente, ao abrigo desta situação, são passíveis de sofrer a situação de desestabilização, que passa desde a situação brutal do downsizing, até a hipocrisia dos planos sociais. Mas ocorre também por remanejamento de horários, transferências, e todo um arsenal de ajus- Vol. 28 - nº 105 /106 tes à lógica de produção, que mesmo procurando preservar a harmonia em condições aceitáveis de trabalho, eliminam pessoas e fragilizam o trabalho de outros. Para SANDRET (1995) o trabalho precário implica também em: A impressão de serem tomados por objetos A gente é como garrafa descartável, bebeu a água, joga fora... (carregador, 33 anos de CEASA) Esse dinheiro do SOLO, apesar de ser pouco, ele vai e não volta, não traz benefício nenhum...nem barracão, nem isso eles fizeram...antes, tinha uma associação, agora, não tem mais; porque teria que pagar mensalidade também...como a maioria não pode pagar, foi extinguida e assim é. O que aconteceu: o CEASA não negocia mais com carregador, colocam quantos carregadores que quiser: é muito carregador prá pouco serviço. Tem pessoas que você ajuda e elas não ajudam você. Na hora que você mais precisa, prejudicam você; e aqui tá cheio. Você cumprimenta, mas é só prá manter. A exclusão do coletivo do trabalho Tem muito carregador aí que maltrata a gente à toa, é bruto... é preciso ter muita paciência... (iniciante) [0 pior] É a desunião, é cada um por si, enquanto tá ganhando; só quando tem problema vem conversar. Tem carregador que nem te olha na cara, quando você precisa subir na rampa com carga, porque não dá pra puxar sozinho, ele vira a cara, faz de conta que não é com ele. Mas, todo mundo precisa, sabe? Daí quando chegar a vez dele...e ele nem percebe isso. Da ausência de reconhecimento de sua profissão É um serviço que ninguém reconhece, ninguém dá valor pro serviço. Você entra de mão vazia e sai de mão vazia. A gente 33 não tem garantia, carteira assinada, férias, décimo terceiro. A gente fica doente, só recebe um salário, e olha lá, demora quatro a seis meses. Não tem estabilidade, hoje você tem patrão, amanhã você não tem. Patrão quer dizer compromisso; hoje tem compromisso, amanhã ele já não quer. É a ignorância, às vezes, até dos parceiros de serviço, os comerciários em geral, que tratam a gente com inferioridade A intensificação do trabalho: exigências crescentes, sem realização subjetiva/criativa do ser humano. A gente vai até o limite, sempre; mais a gente não agüenta... Aumento dos excluídos (sem estrutura de serviços, sem acesso aos bens de consumo, sem direito à cidadania) O trabalho do carregador influi até lá fora, a gente vai comprar à prestação, não tem como comprovar renda, aí não pode comprar. Mas, a gente fica, porque o desemprego lá fora tá bravo, é melhor ficar aqui: é melhor pingar algum do que secar Assim, HIRATA (1998) considera que uma das consequências dos novos modelos produtivos é o da precarização do trabalho, referindo-se a uma dupla transformação, tanto no seu conteúdo, como na forma, que observa como sendo aparentemente paradoxal, em que há uma dupla mão, por um lado, a exigência de estabilização, de implicação do sujeito no processo de trabalho, através de atividades que requerem autonomia, iniciativa, responsabilidade, comunicação e, por outro, verifica-se o processo de instabilidade, de precarização dos laços empregatícios, com desemprego prolongado, formas de emprego precário e da flexibilidade no uso da mão de obra e das atividades temporárias, não estáveis. Nota-se o aumento da vulnerabilidade no trabalho. A gente não tem patrão de verdade, mas o dono da pedra, a gente fica fixo, senão não tem nenhuma segurança...mas, não pode ficar doente, porque senão ele substitui, é certo, porque não pode ficar dependendo, né? ... quebra o galho da gente, faz algum adiantamento se a gente fica apertado... Eu trabalhei prá um senhor aqui den- 34 tro, 10 anos e 3 meses. Quando foi segunda feira, ele simplesmente me dispensou. Se fosse registrado, teria algum direito; como não tenho, fica assim mesmo. Ele prometeu pagar o INPS atrasado; se pagar, com o tempo que tenho, acho que posso me aposentar: são 19 anos de insalubridade, me falaram que cada ano vale dois, se for, homem se aposenta com 35, acho que pode dar, precisa levantar... Não pode [colocar substituto], acho errado, estando num serviço como esse, fica doente, precisa, né? Lógico não pode colocar qualquer um, que pode ser perigoso, se a pessoa não tem experiência, não tem noção. Mas uma pessoa de confiança, até que o carregador acompanha o serviço, se ele não pode fazer força, né? Aliás, o que é precário não é somente o trabalho em si, mas, as condições de vida em geral. O sistema de transportes coletivos, por exemplo, e a necessidade de deslocar-se até o trabalho. É acordar cedo, é enfrentar condições difíceis: É acordar 4:30; o ônibus demora 45 minutos para chegar; se perde o ônibus, espera mais uma hora; alguns têm carro velho, mas a maioria vem de ônibus; chega aqui às 6:20, no mais tardar 7:00 horas, pra descarregar as mercadorias. Acordo na base de 4 horas da manhã, todos os dias, eu e minha mulher que trabalha no ITAL, tomamos o café da manhã, tomo dois ônibus pra vim; 5:30 no bairro e depois 6:20 no mercado. Preciso sair cedo, senão não alcanço 6:20 no mercado...chego numa base de cinco pras sete, mais ou menos... Acordo três horas, que é prá não perder hora; tenho que sair 4:30 de casa, tomo três ônibus prá vir... Acordo 5:30, venho de bicicleta Quem são estes carregadores CINGOLANNI (1986), em estudo sobre trabalhadores precários, faz algumas distinções, tendo, inicialmente, encontrado dificuldades para estabelecer, exatamente o que seriam os trabalhadores precários. Primeiro defrontou-se com uma multiplicidade de variáveis e categorias. Mas, caracterizou da seguinte forma: instabilidade nos empregos, com mudanças fre- Revista Brasileira de Saúde Ocupacional quentes e a intermitência de empregos. Esta caracterização de precariedade só seria possível se levantarmos a estória de empregos, ao longo dos anos, dos trabalhadores. Encontrou diferenças entre os trabalhadores, que classificou em quatro categorias: 1) indivíduos que ficam nesta situação, em função do desemprego, e que buscam fazer alguma formação e encontrar empregos típicos e estáveis. Eu queria, sempre quis ser professor...mas ia precisar fazer faculdade, comecei o colegial muito tarde, terminei com 28 anos de idade (neste ano)...com o que ganho, não dá prá pagar mensalidade de faculdade... 2) Indivíduos em dúvida sobre o futuro, bastante desorientados e que buscam a estabilidade, a qualquer preço, e o fim da precariedade - Trabalhava em agricultura, morava em Pernambuco, vim com a família toda, trouxe tudo, a tralha toda...Lá era assim: plantava, vinha a chuva, acabava tudo...vinha o sol, acabava também...tinha criação, não tinha água, morria tudo... Depois de 10 anos, fico sem ação, sem receber nada. Se conseguir outro serviço, tudo bem, se não, a gente passa necessidade, a família passa necessidade. Devido à idade, as firmas não pegam mais a gente, aí se não encontrar serviço, a gente passa necessidade. Minha idéia é desistir, parar - entrei com 16 anos, disse que quando chegasse a 28, ia parar...se encontrasse algum serviço...mas, a situação tá difícil, essa em que se encontra o país...difícil. 3) indivíduos com perfil variado, agrupados por apresentar atividades laborais atípicos, e que a crise econômica, só faz piorar, e que aceitam como continuação, este tipo de trabalho. Aqui prá mim é normal, a senhora sabe, a gente não tem estudo nem nada, então aqui é bom... não dá prá fazer ficha em firma, nem nada, então é aqui mesmo De CEASA tenho 14 anos, mas trabalhei em box desde 79...trabalhei um tempo fora, na TELEBRAS, na construção...entrei como servente, fui prá carpinteiro, mas larguei porque não dá prá saúde, não aquelas alturas, lá no alto... o pedreiro é mais fácil, chega prá fazer o serviço, o trabalho já tá feito, o carpintei- Vol. 28 - nº 105 /106 ro chega antes prá instalar os andaimes, lá no vazio, altura, não dá não... Eu trabalhei registrado 19 anos, eu trabalhei desde 1968. Como trabalhava registrado, eu já trabalhei como operador de máquina, como conferente, como programador de produção...nas primeiras firmas também trabalhei com química, como preparador de pasta de polir. Nessas firmas de metalúrgica, tudo insalubre. A Sra. não acredita, eu SOU MOTORISTA, PROFISSIONAL E TUDO, de carga mesmo, acredita nisso? Mas tá ruim não dá, aqui é melhor, estou perto de minha casa... eles mandam a gente lá pro norte, longe, estrada ruim, a gente vai e nem sabe se volta...ainda pego alguma carga, perto, às vezes, mas aí tem pouco, todo mundo quer, né? Eu trabalhava com madeira, era marceneiro, tinha profissão, registrado em carteira e tudo...trabalhava com acabamento de móveis Eu trabalhava numa firma multinacional, a ENGESA, é essa que fabrica armas mesmo; aí o que aconteceu: através de um irmão que trabalha 27 anos aqui, aí esse patrão apartou de um sócio e queria uma pessoa de confiança que entendesse de burocracia; conversamos, eu tinha um salário, ele cobriu o valor e eu vim ; ele disse: se ele subir, eu subia junto; aí ele prometeu registrar, e foi passando e aí até agora não registrou. Até registrou outras pessoas, e eu aqui. 4) O quarto grupo tem uma especificidade: trata-se de indivíduos que apresentam uma aversão pela disciplina produtiva Já trabalhei de empregado, a gente fica preso, preso mesmo. Tem hora prá entrar, hora prá sair; não pode parar prá respirar, tomar água. Aqui não, cansou, dá uma paradinha, toma uma água, dá um tempinho, come uma fruta, é muito melhor... Só uma vez trabalhei como empregado, um ano e meio; você chega e fica o tempo todo, e podem ficar te mandando, e isso e aquilo. Além do mais, o que você ganha lá, em um ano, aqui, você ganha em dois meses. O fato de não ter ninguém que mande fazer as coisas, eu sei meu serviço, não precisa ninguém dizer, acho que é um dos 35 motivos que estou aqui até agora. O serviço não é direto, o grosso é segunda, quarta e sexta; aí é isso que segura a gente, dá prá resolver outros problemas. Eu mesmo não precisava vir na terça e quinta porque não tinha carregamento. Os processos de criação e recriação de desigualdades e da incapacidade da economia, em absorver a população ativa em níveis socialmente satisfatórios levam à nova pobreza um fenômeno de degradação, de enfraquecimento gradual e contínuo, degradação essa definida como processo de deterioração das condições econômicas e sociais de uma parcela da sociedade, com consequente rebaixamento do status relativo; com este termo, nova pobreza, designamos os indivíduos que não dispõem de recursos para assegurar a sua própria sobrevivência e cuja situação de precariedade e fragilidade penaliza, a cada vez mais, suas chances de reinserção. (CATANI, 1996). As nossas observações dizem respeito às origens e as histórias de vida destes indivíduos. Como chegam ao entreposto Na verdade, quando se pergunta à administração, explicam-nos que carregadores são cadastrados, até um certo número, e que existe uma fila de espera. Na prática, existem trabalhadores dos boxes (em geral são registrados em carteira, costumam ser formalizados, trabalham de segunda a sábado, e os chamados autônomos, que são os controlados pela administração local; estes possuem um carrinho, podem se deslocar por toda área; os dos boxes, só podem trabalhar nas áreas de boxes. Fora destes, existem os que trabalham, sem direito a possuir um carrinho; ou seja ajudam os cadastrados (ou mesmo trabalham para eles - sublocação); em geral, já fizeram a ficha e estão na lista de espera, para serem chamados. A espera pode ser longa. Este cadastro não é, necessariamente, aberto ou simples; existem as indicações. Às vezes, acontece de uma substituição acontecer, quando o carregador adoece ou morre, e a vaga ficar para um filho ou parente. Um parente de minha mulher, que era carregador, morreu e eu entrei na vaga dele. 36 Tem dois tipos de carregador aqui, o que pode ter carrinho, de azul e o que não pode, vermelho, como se fosse trabalho de bico, mas não é, é cadastrado e tudo. Conforme os de azul vão desistindo, saindo, em caso de falecimento, de doença, os de vermelho vão entrando...a gente fica esperando eles morrerem ou então desistirem que é pra gente entrar...(vermelhos bem jovens) Conheço o Entreposto, desde pequeno, meu pai trabalhou aqui, construindo o Ceasa, que era pequeno; hoje cresceu muito, dá pra todo mundo trabalhar, não ia poder ficar só uns trinta carregadores, como antes, não, isso cresceu muito, veja a quantidade de mercadoria, de gente, essas pedras todas... Prova de fogo: o início Quando os carregadores começam, são chamados de cabaço, principiante, iniciante, aquele que ainda não domina o saber do trabalho; existe uma certa diferenciação entre eles e riem-se dos novatos que passam por uma espécie de prova de fogo. DEJOURS (1987) nos fala do enquadramento dos jovens trabalhadores, recém-chegados a uma equipe. Diz que são submetidos a verdadeiros testes, são gozados a respeito da própria virilidade, exigem-se certas proezas físicas, são observados: são submetidos ao teste da ideologiadefesa. Se não suportarem este ambiente de trabalho, devem partir, o que ocorre, de tempos em tempos. Cabaço é um que não sabe trabalhar; a gente diz cabacinho prá novato... Dá prá ver quando tá puxando carrinho - fica com o braço duro, não dobra o braço porque tem medo que empina... (ri) É uma pessoa que começa hoje e só atrapalha: pega uma caixa e derruba; puxa o carrinho e empina; passa, não presta atenção, e passa por cima do pé de uma pessoa; é o estreante, o principiante, este é o cabaço A gente vê ele fazendo muita força, sem precisão, ele faz muita força no braço, ele deixa o carrinho não equilibrado... a gente vê, pela cara, que faz muita força, a gente vê a dificuldade de encostar o Revista Brasileira de Saúde Ocupacional carrinho...prá encostar o carrinho tem de olhar de lado e ir afastando, né? Quando cheguei, logo, era cabaça, cabaça, perguntei que diabo era isso...No começo é difícil, o carrinho empina, quebra, o braço dói muito, até uns dois meses Todo novo que entra, quer mostrar serviço, fazer mais rápido, pegar mais carga. O pessoal fica só olhando, já sabe que não vai agüentar, vai se arrebentar todo A gente tem que aprender a se virar, conhecer... tem novatos, chegam, e não ficam, não é fácil... Os carregadores dizem empinar o carrinho, quando está carregado e que ao fazer um movimento qualquer, e em particular, ao subir rampas, o carrinho faz um movimento brusco para trás, empinando, como um cavalo e derrubando toda carga. Caso a carga seja de mercadorias frágeis, pode se perder tudo. Quem paga o prejuízo? Alguns donos de carga são compreensivos e pagam por exemplo, a metade; mas, a maioria obriga o carregador a pagar tudo. Como eles não têm dinheiro suficiente, pagam, com trabalho, ao longo de semanas ou meses. Além do mais, o carrinho tende a quebrar, com o impacto da virada, impedindo o carregador de trabalhar, por dias ou até semanas, conforme a gravidade do estrago. Foi o jeito de basear ele no braço, a gente tinha medo de empurrar, saber a base de puxar o carrinho...virar, o carrinho virou, com laranja, esparramou laranja foi prá todo lado...se bate sementinha de pêssego, uva, assim de lado, na roda, e passa desapercebido, vira.. agora não, a gente segura.. a gente tá mais firme, mesmo assim acontece, é perigoso... Isso aí você aprende com o tempo, começa com sete caixas, depois dez...aí você começa a tombar o carrinho, ai aprende, naturalmente... Se a pessoa tá começando, é preferível carregar dianteiro, porque o peso fica mais ai, mas empina menos (mas fica mais pesado pra carregar). Depois, você pega prática, fica mais leve carregar na traseira, manusear ele... Tem carga e descarga. Carga são essas viajinhas aí, se leva prá lá (aponta um local distante), quando volta, de carrinho vazio, já deu prá descansar um pouco. Vol. 28 - nº 105 /106 Descarga não, é mais difícil, porque o trabalho é direto, não para até acabar. Descarga, se são 200 caixas, só para quando acabar. Só empinei uma vez, tava carregando 194 caixas de morango... Ah, foi difícil, né? tava trabalhando prá esse patrão mesmo, levei dois meses prá pagar a dívida, foi duro... Primeiro comecei nos box, de laranja; no começo era difícil, empinava o carrinho, não tinha prática. Depois de uma semana, a gente vai bem. Eles ensinam, primeiro coloca uma caixa no pé do carrinho que é pra apoiar, depois enche; começa com 10 caixas, depois de um dia já coloca quinze. Se não der problema de coluna, já leva 15-20 caixas. O normal aqui é 20 caixas, de pesado, quando você já está aprovado no serviço. Ser um bom carregador: a luta pela estabilidade CLOT (1995) observou em diferentes situações de trabalho, a eficácia do trabalho, apesar de tudo. E foi uma fala de um trabalhador que despertou sua atenção: Apesar de tudo, o trabalho sério é incontestável E é através da engenhosidade compensatória, um tipo de engajamento profissional, para fazer o que é necessário ser feito, que os trabalhadores superam os obstáculos do trabalho. Aprender a trabalhar no mercado central. Ali adquire muito cuidado. Você tem que ter cuidado com a mercadoria, como comprador e com a seleção de mercadoria. Existe vários, né? Tomate, existe quatro seleções: extra 1A, 1A, extra B, extrinha. Ainda tem verde ou vermelho. Do caminhão, chega tudo misturado. Aí põe no carrinho e tem que separar. Esse, é o mais fácil. Tem seleção de figo, de goiaba que é pior, tem de oito a vinte e dois, quer dizer, é a quantidade que vai dentro da embalagem... Para se tornar um bom carregador, não é tarefa tão simples como se possa pensar; tem a carga, a descarga, a distribuição da carga no carrinho, a forma de segurar o carrinho, o cuidado com a carga, o saber escolher ou conferir a mercadoria, e as relações com o freguês (é preciso conquistá-lo 37 com um bom trabalho e criar confiança) e o patrão (dono de pedra ou box). Também não pode empinar, que é quando o carrinho alavanca para trás, e nada consegue segurá-lo. Nestas ocasiões, é frequente perder ou estragar parte da mercadoria e pior, quebrar a grade do carrinho, este sim, um grande prejuízo. Além do mais, é preciso se cuidar, cuidar do corpo, para não adoecer, e esta tarefa faz parte do trabalho do carregador. Existem aspectos morais existe a valoração da honestidade: Precisa ser honesto, rápido e inteligente...de repente, tem pessoas que não sabem como trabalhar...vamos supor, vamos carregar dois caminhões, eu um e você outro, temos a mesma quantidade; se você for bom, carrega na metade do tempo... Existe o mau carregador - até já mandaram embora uns par deles; vai pegar 10 caixa, pega onze; chegam pegam 1011 tomate da caixa aberta, guardam na sacola. Tem que ser honesto, principalmente, não mexer em nada, sem pedir autorização, se quiser alguma coisa, pedir antes... Da educação, da eficiência, do cuidado Tem educação prá mexer com a pessoa, que não bate caixa, não joga, que estraga mercadoria Que sabe tratar o cliente da gente, porque se sabe tratar, tem o tempo todo (fixo); saber pegar a mercadoria; corrigir a mercadoria: a gente abre a caixa, se a mercadoria não for boa, troca a mercadoria Por exemplo, você tem que ver o tipo de caixaria a carregar, se carregar caixa e engradado, primeiro as caixas, e depois os engradados; se tem caixa k e colete, primeiro caixa K e depois colete, que é prá ficar certinho, o espaço dar certo... Tem carregador que é desmazelado, toda mercadoria é sensível, conforme bate a caixa, machuca a mercadoria... É a pessoa que respeita os outros, que respeita, que faz a carga direitinho, que não mexe com nada dos outros, chega põe as coisas com jeito, não derruba, não estraga Tem carregador que não tem paciência, em vez de esperar até chega a querer gritar com dono de pedra, assim não dá; tem que saber esperar, quando tem dois 38 ou três carregador na pedra, é isso que faz o bom carregador. Então um bom carregador, a gente sabe que ele carrega direito, não faz isso. E por exemplo, o G... lá, nos dias que carrego no campo, é ele que fica aqui, tentando vender a mercadoria que ficou. Ele fica aqui sozinho, vê? Acontece, o carregador vê, lá no meio (de um monte de caixas vazias) uma caixa sua, vai lá, pega e traz prá você. Isso é um bom carregador (permissionário) Aquele que o comprador chega, faz a lista, entrega pra ele, e ele dá o caminhão pronto pro freguês. O freguês não precisa se preocupar, ele paga as contas dele, e vai embora. O zelo é um ingrediente necessário à eficácia de uma organização do trabalho; e o que é o zelo no trabalho? É a engenhosidade, é o exercício de inteligência eficiente no trabalho, cujas características podem ser enumeradas, como, saber lidar com o imprevisto, com o inusitado, com o que não foi ainda assimilado ou rotinizado...(DEJOURS, 2000) As dificuldades do carregamento Para a maioria, o que é difícil relaciona-se com fatores que de alguma forma, coloca em risco sua saúde, uma das facetas da precariedade do trabalho. Alguns dos fatores citados foram o peso da mercadoria, o formato das embalagens (caixas, sacos, engradados); o peso total do carrinho, o tempo de chuva que faz a carga pesar mais, as rampas (os galpões têm rampas de acesso, pois, ficam na altura da carroceria dos caminhões, para permitir a descarga das mercadorias) Erguer o carrinho pesado (começar a transportar), pega na coluna... depois a gente tem prática, equilibra... é um molejo, amortecedor... tem que controlar, porque senão empina no ar...manejar no braço, não deixar tombar...se o corpo é maneiro [magro], sobe facinho [fácil] no ar.. se for muito alto é mais difícil de controlar altura (do carrinho), mas tem mais peso (compensa) O mais difícil é subir e descer rampa, porque não tem freio, tem que ser no bra- Revista Brasileira de Saúde Ocupacional ço; é peso, peso demais tem que alguém ajudar A base é 20 caixas, até 25, mas judia, mas tem de carregar... o bom, bom mesmo seria 15 caixas... Difícil o jeito de pegar a caixa; prá pegar a caixa tem jeito senão se esforça muito, trabalha mais - a caixa tem jeito prá pegar: caixa fechada tem que pegar inclinada, porque se pegar reto, faz muito peso, se torna mais pesada... O perigo mesmo é subir na rampa...a única coisa ruim que você sente é subir rampa, precisa alguém ajudar, fica com fôlego assim. É tudo igual...difícil é abacaxi a granel, é melancia a granel, é pior pra carregar É repolho, nessas caixas [engradados], é difícil de carregar. Repolho é a verdura mais pesada. Também tem batatinha, as sacas são de plástico, lisas, é ruim de lutar; mas isso não carrego sempre, é mais difícil. Mas se tiver em engradado, engradado quebra muito e fica difícil de carregar. Tem cliente ruim, aí ninguém quer, quando chega, todo mundo estava lá e aí já não está mais, sumiu tudo...ninguém quer, todo mundo sabe, aí se precisa, ninguém ajuda... Efeitos do trabalho sobre os corpos cansados e os corpos doentes Trabalhar é ser condenado a não poder fazer outra coisa, ainda mais quando o repouso aqui não é senão a reparação do trabalho. (CINGOLANI, 1986) Chego em casa, vou tomar banho e curtir um pouco meus filhos. E durmo um pouco também. A gente fica cansado, né? Depende do tipo de serviço que pega aqui. Trabalho segunda, quarta e sexta. Não é igual todo dia. Tem dia que é mais igual. Na quarta e sexta, fico mais cansado, tem mais trabalho, mais movimento. Segunda é dia fraco... No começo o braço fica quebrado, com batido, agora não, a gente acostumou... Quando você começa a aprender a puxar, você pode machucar o calcanhar, ...Se a gente não souber carregar, judia do corpo, prejudica a coluna. Se por eventualidade se acidenta, o carregador, se ele não tiver um fundo dele mesmo, ele morre a mingua. Se o carrega- Vol. 28 - nº 105 /106 dor tiver dificuldades financeiras e não puder pagar SOLO, eles vão prender o carrinho.. Esse rapaz mesmo [um carregador novo] foi atropelado; se não tivesse ajuda, tinha morrido mesmo. De fome também. A gente depende e muito de favores dos outros, a gente não tem nenhuma proteção aqui. Tô tendo [dor na coluna], de um ano pra cá, começou a escapar os nervos, acho...Eu ia no massagista, na hora ficava bom, mas daí a uma semana, começava de novo...dá um mau jeito, fica tudo doído, inclusive essa semana, começou de novo... Tem uns caras aí que nem são velhos, com muita dor por aí, precisam dormir com três travesseiros na costas, tanta dor...mas não sei de ninguém que parou por isso...Quando dói, todo mundo vai pro massagista; se for mais grave, aí não, mas a maioria vai no massagista mesmo. Eles [os velhos] fazem umas carguinhas, já não dão mais pro pesado, não aguentam mais...uma carga grande eles já não pegam mais; quando carregam mais vão parando no caminho, duas, três vezes. Às vezes eles têm os fixos, que já fazem há muito tempo, aí os fregueses não se desfazem, então eles têm essa carga; tem alguns que vêm trabalhar só pra não parar de vez. No Natal, sabe, faltou carregador, aí um cara tava precisando de serviço e me falou: olhaí, só esses velhos...tá faltando carregador...então você veja, o pessoal não pede pra eles, escolhem gente mais nova que aguenta... É serviço que se a pessoa ficar muito tempo, ela morre. No começo não sente, é jovem, depois a gente começa a desgastar, não tem o mesmo ritmo. A gente se esforça demais, só pra agradar patrão, depois é que a gente vê. E o que morre de carregador....Só no mês passado foram quatro, desse barracão. Morreram atropelados aí na pista. Formas de pagamento e as incertezas de receber: que precariedade! BIHR (1990 apud ANTUNES) considera que as várias categorias de precários têm, em comum, a instabilidade no emprego e de remuneração, a desregulamentação das 39 condições de trabalho, em relação às normas vigentes, com consequente regressão dos direitos sociais, bem como ausência da proteção e expressões sindicais, configurando uma tendência à individualização extrema da relação salarial. É muito desunido [os carregadores], só quando tem problema, te cumprimenta, aí vem conversar, contar suas coisas...Os carregadores são muito desunidos, você vê, até os camelôs que não são nada, criaram um sindicato...aqui a gente marca uma reunião, não vai ninguém, nem adianta. Enquanto o cara tá ganhando 300, ele nem quer saber do que tá ganhando 10; só procura quando tem algum problema... A descarga, a gente faz e depois não recebe, a gente trabalha e não pagam. Aqui no Entreposto não tem problema de [falta] serviço, o problema é receber... Às vezes você faz o serviço, aí não paga, diz, deixa pra depois que pago, e não paga; aí desanima, né? Tem uns que se exige que pague, outros, deixa passar, pagar depois porque você sabe que vai acertar, pagam. Tem uns que vêm até de outros estados, Rio, Bahia, São Paulo; esses, tem que receber na hora. Ih, eu já trabalhei pruns quatro, faliu tudo, aí não pagam; sabe, falir aqui nas pedras é a coisa mais fácil, não vendem, aí vão fazendo dívida, aí não pagam a gente, vão embora sem pagar... Aqui é o único lugar que tem que pagar prá trabalhar; tem que ter licença, cada carregador paga 13 reais, por mês, prá trabalhar...fazem promissória, tem dia pra pagar, cada dia de atraso pra recolher no banco, é um real por dia de atraso, que é prá ninguém atrasar... se atrasar muito, às vezes a gente fica com muita dívida, passam umas correntes no seu carrinho, não pode mais puxar o carrinho, trabalhar... Se quebra? Quebra muito, a gente vende muito fiado. Tem que fazer negócio, arriscar. Não pode vender só à vista, não dá. Aí, a gente não sabe quem vem aí, não tem como cobrar. Eles levam a mercadoria, não tem prova que comprou. Não têm endereço, telefone. Tem varejão que quebra. Aí eles não pagam, fecham e não pagam. Sempre acaba devendo pra alguém. Às vezes chega a 20.000 (reais). Tem um aí que me deve 4.000. No Ceasa, ele deve 100.000. É muito dinheiro, são 40 10 carros zero, você vê? (permissionário, dono de pedra) Às vezes a gente trabalha prá um freguês, ele enrola a gente, promete que vai pagar no final de semana, e não paga, fica enrolando. A gente vai falar, e ele fica reclamando ainda... Se muito freguês não paga, a gente não pode pagar também. Aí, fica ruim. A competição O trabalho diminuiu porque o mercado cresceu demais, em muito pouco tempo, e não compradores suficientes. Acho que o problema maior aqui é entrada de carregadores sem limite. Aumentou vendedor, aumentou carregador, mas não comprador. Alguns supermercados trazem os funcionários próprios... competem com a gente, tiram o trabalho da gente...como eles são registrados, os patrões querem economizar, aí tiram o trabalho de quem paga INPS, tá aqui por conta do trabalho... Tá uma época difícil até prá gente, falta trabalho, não está bom, a gente não ganha bem...tem mais carregador do que é pra ser, mas eles (A Administração) vão pondo mais carregador, não perguntam o que a gente acha, São como Deus, vão fazendo sem perguntar nem o que a gente acha... O serviço, o que segura a gente aí, que era acima do que eu ganhava. Aí a gente ficou esperando que melhorasse, a gente viveu de ilusão. Nos últimos três anos, fiquei sem aumento, segundo o que ele falou, era por causa dos planos econômicos, estava no vermelho, falou...aí, na segunda, pedi aumento, e ele simplesmente mandou embora. Uma boa carga: um pequeno sonho contra a precariedade Uma boa carga tem significados variados para os carregadores: Uma viajinha, duas viajinhas, 10 reais; se a carga é grande, quatro contos é muito.. é quando pego um bom freguês, que Revista Brasileira de Saúde Ocupacional compra bastante mercadoria, carga pequena, então ganho bastante com pouca carga... O tratamento que o freguês dá, o respeito, a educação e o pagamento, é claro: É quando a pessoa é boa [cliente] paga bem, trata você bem, é isso... Também pode ser uma carga pequena, e leve: É quando pego um bom freguês, que paga bem e a caixaria é manera.. Boa carga mesmo é pimentão, jiló, tudo manerinho...alface também é moleza... Seria uma carga de pimentão, beringela, seria leve e rápida... Pode ser uma carga ou descarga de caminhão e que seja de produto leve: Que eu considero com carga baixa, de três de alta, que o caminhão encoste no horário e que pague bem... Ou ainda de ter serviço garantido para fazer: Seria, vamos supor, você tem sempre serviço, prá você estar trabalhando; quanto mais serviço, mais você ganha... É uma carga que a pessoa ganha bem; toda feira é carga certa; feira são os dias que tem feira, que é segunda, quarta e sexta. Mas: Pessoa viver de viajinha, não dá não Prá mim, é carga maior, quanto maior, mais ganho, né? O que consegue ganhar num dia de feira: É do que ganhei. [Passa um carregador, com umas cinco caixas, bem tranquilo. Ele fala, apontando para a carga]: É como esse aí, pouca mercadoria, e paga a mesma coisa! É uma boa carga. Quer dizer, pra carregar no carrinho, em termos de peso, é o carrinho completo com 20 volumes. Se for menos, fica ruim, se for mais, fica sensível. Já em termos financeiros, é eu trabalhar numa carga e receber um bom preço. rer o trabalho ou mais exatamente este trabalho? (CINGOLANI, 1986) É porque você é uma pessoa livre, você é quase independente, não tem ninguém prá te ficar mandando... e é descontraído também... é a amizade. Gosto, acho bom demais, é o melhor serviço que já encontrei, esse, ninguém manda em você. A gente brinca muito, se distrai, passa o tempo bem.... O dinheiro. O dinheiro e a amizade do povo. Trabalhando certo, você tem amigo, emprego fixo e fica sem depender de ninguém. É autônomo, né, prá mim, eu gosto, ninguém fica mandando em mim. Do meu serviço aqui, o que mais gosto é que tô recebendo por mês. Estou trabalhando e estou recebendo. Eu faço e recebo. Do serviço gosto de tudo em geral; sem serviço, gosto mais da lanchonete, tomar umas biritas... É a hora de ir embora, né? Aqui todo serviço é bom; é pesado mas é bom - é como se fosse recreativo, os quatro dias de Ceasa são de cabeça fria, o tempo passa rápido. O fato de não ter ninguém que mande fazer as coisas, eu sei meu serviço, não precisa ninguém dizer, acho que é um dos motivos que estou aqui até agora. A precariedade não é senão atitude que consiste em fazer um compromisso violento com o trabalho, para lhe tirar o tempo. A recusa não supõe, então, o desejo de acabar com todo trabalho, mas com uma condição para poder fazer o trabalho de outra forma, ou para finalmente, desesperar de não encontrar um outro, ou ainda, encontrar uma outra forma de viver. (CINGOLANI, 1986) Do que mais gostam Conclusão A noção de precariedade aqui tem a conotação de fragilidade estatutária e da instabilidade profissional que costuma se associar aos trabalhadores precários. Entretanto, ela não supõe que um trabalhador queira se estabilizar, ou que ao contrário, escolheu a instabilidade. A precariedade, começa com a questão: além da necessidade vital do salário por que que- O trabalho, seria antes de mais nada, a experiência e o princípio da determinação de uma condição. Este horizonte é o fazer produtivo ou um tipo de atividades terciários, fragmentados, normatizados pela racionalidade funcional. Trabalhar, é ser condenado, não poder fazer outra coisa, ainda mais quando o repouso constituise, somente, na recuperação do trabalho. É Vol. 28 - nº 105 /106 41 também ser condenado a não possuir o tempo e inversamente , a viver o desejo do tempo livre sobre o modo do não trabalho. A precariedade, então, seria tão somente, a atitude que consiste em fazer um compromisso violento com o trabalho, para arrancar seu tempo....(CINGOLANI, 1986) A precariedade atinge os trabalhadores de diversas formas, num mesmo trabalho. Podemos considerar as relações de trabalho, mas notamos que aparece com as formas de pagamento do trabalho, da organização de trabalho, cuja transparência não é nada evidente, dos riscos à saúde decorrentes da própria atividade, dos danos às mercadorias, que podem representar prejuízos; das dificuldades de acesso ao trabalho, de como são vistos pela sociedade e do próprio contexto econômico social, que os afeta diretamente, pois quando os varejões quebram vêem-se sem receber pelo trabalho já executado, além do risco de não receberem pelo trabalho, que ocorre com certa frequência. Apesar disso tudo, ainda encontram sua forma de bem viver. Aqui, para os excluídos, só restam duas alternativas: a violência ou a solidariedade. Mas, a maioria resiste como pode; os trabalhadores conseguem levar suas vidas, mesmo nestas condições; aí está um bom exemplo. Referências Bibliografias ANTUNES, R.- Adeus ao Trabalho.- Editora Cortez, SP, 1995. CATANI, A. D.- Trabalho & Autonomia.- Ed. 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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Lesões por Esforços Repetitivos e Sofrimento Mental em Diferentes Profissões Maria Engrácia de Carvalho Chaves1 Carlos Antônio Melgaço Valadares2 Maria Lúcia Maia Ribeiro Lino3 Marco Bussacos3 1 FUNDACENTRO - Ministério do Trabalho e Emprego. 2 Sindicato dos Bancários da Bahia. Participação : Comissão Intersindical de LER. Trabalho apresentado no XVIth 3 World Congress on Safety and Health at Work, na Áustria , no período de 26 a 31 de maio de 2002 Repetitive Strain Injuries (RSI) and Mental Suffering in Different Professions Estudo que tem como objetivo específico comparar os resultados de um indicador de sofrimento mental em portadores de LER/DORT, de acordo com diferentes profissões.O instrumento central da pesquisa foi um questionário auto - aplicado contendo questões objetivas e subjetivas, com 120 perguntas. O estado de saúde mental foi avaliado através da inclusão dos ítens do SRQ-20 (Self-Report Questionnaire). Os testes estatísticos utilizados foram : Cochran Armitage, qui-quadrado e t-student. Os principais resultados foram: apenas os trabalhadores de telecomunicações e processamento de dados (TELEPROCESS), trabalhavam, em sua maioria, no horário de turnos. A grande maioria dos trabalhadores de todas as profissões referiam realizar horas-extra, com exceção dos trabalhadores de TELEPROCESS (33,33%). A maioria dos trabalhadores de todos os setores, com exceção do setor TELEPROCESS, queixou-se de pressão por parte das chefias. A percentagem de positividade do SRQ-20 foi de aproximadamente 90% - não houve diferença estatisticamente significante em relação às profissões. Chegamos à conclusão que o adoecimento por LER interfere nos níveis de sofrimento mental , aumentando-o homogeneamente entre as diferentes profissões. Palavras-chaves Lesões por Esforços Repetitivos, Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho, Sofrimento Mental, Organização do Trabalho. The objective was to compare one indicator of mental suffering among workers affected by repetition strain injuries (RSI), according different professions. The main instrument for the study was a broad questionnaire consisting of 120 objective and subjective questions, including SRQ-20 (Self Report Questionnaire). The utilized statistical tests were : chi-square, Cochran Armitage and t-student. The main results were: only the telecommunication workers worked in shift work, in majority. The great majority of all the professions , except telecommunication workers, refered overtime work performed. The majority of all the sectors , except telecommunication , refered bosses pressure.The SRQ-20 positivity frequence was 90 %, aproximately. There were not statistically significant differences between the SRQ-20 results in relationship to the professions. The high and similar SRQ-20 positivity frequencies point out the relevance of being a population with established diagnosis of RSI, what increases the mental suffering levels among the different professions. Keywords Repetition Strain Injuries (RSI), Mental Suffering, Work Organization. Vol. 28 - nº 105 /106 43 Apresentação Em 1997, iniciou-se um amplo estudo epidemiológico descritivo com 105 portadores de Lesões por Esforços Repetitivos (LER) / Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT), por solicitação da Comissão Intersindical de LER/BA. Este estudo foi realizado através de um trabalho conjunto da FUNDACENTRO/CRBA, do Sindicato dos Bancários da Bahia e da referida Comissão. O objetivo geral de toda a pesquisa foi desenvolver amplo estudo com portadores de LER, buscando-se compreender melhor o processo de adoecimento e a interferência da doença na própria vida das pessoas acometidas (CHAVES e cols., no prelo). A partir desse trabalho inicial, foram desdobrados outros, inclusive o presente estudo. Introdução Para se entender as mudanças que se processam no mundo do trabalho há que se pensar a atendências da economia caracterizada pela chamada globalização, com reestruturação e intensa competição entre empresas, terceirização com precarização do trabalho e a ofensiva contra direitos históricos conquistados pelos trabalhadores, em nome da flexibilização. Na tentativa de avaliar o impacto das mudanças no mundo do trabalho sobre a saúde dos trabalhadores, alguns estudos têm partido do conjunto corpo-mente, buscando entender como se relacionam as lesões físicas e o sofrimento mental. BORGES (1999), estudando as relações entre trabalho bancário e adoecimento físico e mental, destaca a presença e associação entre distúrbios psicoemocionais e osteomusculares. Os primeiros estariam associados, em seu estudo, a fatores da organização do trabalho, tais como: sobrecarga de trabalho, controle de chefia e sentimentos de desvalorização. Analisando a diferença dos índices da freqüência de distúrbios mentais menores, que foram maiores, com o de LER, BORGES(1999) levanta duas possibilidades: a primeira, que o sofrimento psíquico poderia ser indicador precoce das LER; e a 44 segunda, que nem todo sofrimento psíquico estaria relacionado às LER e, na ausência de algumas condições de sobrecarga osteomuscular, encontraria outra forma de expressão mórbida. No que se refere ao atendimento clínico no ambulatório de Saúde Mental do CRST André Gabois, ROCHA e cols (2001) mencionam a presença de trabalhadores com LER/DORT e quadros de depressão, entre os pacientes que procuraram o Serviço. Em publicação do Ministério da Saúde (2001), embora seja feita a ressalva de que não se pode generalizar a indicação de psicoterapia para todos os portadores de LER, já que a indicação deverá ser feita a partir da avaliação de cada caso em particular e do desejo de cada um, a observação feita é que em algum momento da evolução de LER/DORT, o paciente tem necessidade de apoio psicológico por parte de um profissional, segundo a experiência dos autores. A experiência de dois anos de atendimento de portadores de LER em um trabalho de psicoterapia de grupo possibilita-nos observar a importância de alguns fatores na determinação das LER, especialmente a pressão por parte das chefias, levando a uma tensão emocional claramente relacionada ao adoecimento; por outro lado, o sofrimento mental acarretado pela presença do adoecimento tem estado presente durante todo o período de atendimento, o que coloca a necessidade de reflexão sobre dificuldades e possibilidades no redirecionamento da vida, buscando-se alternativas para a realidade limitante das LER (CHAVES, 2002). O sofrimento mental vem sendo estudado em trabalhadores sadios de diversas categorias, tais como bancários, telecomunicações, processamento de dados, siderúrgicos e muitas outras (BORGES, 1990; BORGES, 1999; CHAVES e cols, 1998; FERNANDES, 1992; JARDIM, 1994; PITTA, 1990; SILVA FILHO e cols, 1993). Nestes estudos citados, o instrumento utilizado como indicador de distúrbios mentais menores foi o SRQ-20, cujos índices variaram de 20 a 37,7% de positividade. No presente estudo, pretendemos conhecer em que magnitude ocorre o sofrimento mental em portadores de LER e se há variações de intensidade deste sofrimento de Revista Brasileira de Saúde Ocupacional acordo com as diversas profissões estudadas. Materiais e métodos Foi desenvolvido um estudo epidemiológico descritivo (corte transversal). A população de estudo constituiu-se, inicialmente, de 105 portadores de Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho que frequentaram as reuniões mensais da Comissão Intersindical de LER/DORT no CESAT(Centro de Estudos da Saúde dos Trabalhadores), no período de julho a setembro de 1999. Os trabalhadores pertenciam às categorias de bancários, comerciários, processamento de dados, telecomunicações e outras. Um participante da pesquisa foi excluído, pois omitiu a informação sobre a que categoria pertencia. O instrumento central da pesquisa foi um questionário auto- aplicado, contendo questões objetivas e subjetivas, com 120 perguntas. O estado de saúde mental foi avaliado através do SRQ-20 (Self-Report Questionnaire). Este questionário, contendo 20 questões, foi desenvolvido pela OMS com o objetivo de rastrear distúrbios psiquiátricos menores, na população que se dirigia a ins- tituições de cuidados primários de saúde, em países em desenvolvimento (MARI & WILLIAMS, 1986). O SRQ-20 foi considerado positivo com um ponto de corte de 8 para mulheres e 6 para homens. Houve, inicialmente, um estudo piloto, que favoreceu a escolha da população de estudo definitiva. Toda a equipe foi treinada para a coleta de dados. Durante a coleta, houve reuniões semanais para discussão das dúvidas. Os testes estatísticos utilizados foram : C o c h r a n - A r m i t a sg e , Q u i - q u a d r a d o e t Student . Resultados/discussão A média de idade dos trabalhadores foi de 41 anos, aproximadamente. Cerca de 87% da população eram mulheres e 12,4%, homens. Uma pessoa não informou o sexo. Na tabela 1, observa-se que apenas os trabalhadores da área de Telecomunicações e Processamento de Dados (TELE/ PROCESS) trabalham,predominantemente, em turno (57.14%).Seguem-se os comerciários (33.3%), bancários (23.5%) e outras profissões (13.64%). Essas diferenças foram, estatisticamente, significantes. Tabela 1 Distribuição dos trabalhadores com LER, de acordo com área de trabalho e sistema de horários c2 = 10,81; p < 0.05 . Vol. 28 - nº 105 /106 45 Na tabela 2, observa-se que todas as profissões realizam horas-extras, destacandose os comerciários (96.30%), seguidos dos bancários (91.18%), outras profissões (86.36%) e TELE/PROCESS(66.67%). O destaque maior diz respeito ao menor percentual de realização de horas-extras no segmento TELE/PROCESS. Resultado esperado, uma vez que há um controle maior na área de processamento de dados, no que se refere ao exercício de horas-extras, com legislação mais clara e objetiva em relação ao número de horas permitidas, pelo menos, para os que trabalham em terminais de computador. As diferenças encontradas não foram, estatisticamente, significantes. Tabela 2 Distribuição dos Trabalhadores com LER, de acordo com área de trabalho e realização de horas - extras Cochran-Armitage Z = 1,14 ; p= 0,2533. Área de trabalho Realização de horasextras Sim N Não % N % Sem dado N % Total N % Banco 31 (91,18) 3 (8,82) 0 (0,00) 34 (32,69) Comércio 26 (96,30) 1 (3,70) 0 (0,00) 27 (25,96) Tele /Process 14 (66,67) 7 (33,33) 0 (0,00) 21 (20,19) Outras 19 (86,36) 2 (9,09) 1 (4,55) 22 (21,16) Total 90 (86,54) 13 (12,50) 1 (0,96) 104 (100,00) A profissão que mais se destaca na queixa relacionada à pressão de chefia é a de bancários (82.35%) - tabela 3. Em estudo com caixas bancários, realizado por BORGES (1999), a variável problemas com chefia foi correlacionada, tanto aos distúrbios psico-emocionais, quanto às LER. Por outro lado, o menor percentual de queixa referente a essa variável é dos trabalhadores da área de TELE/PROCESS (33.33%). Este dado está de acordo com algumas discussões sobre a ausência de uma chefia constante e vigilante no trabalho de turno, como ocorre no turno administrativo. Essas diferenças foram, estatisticamente, significantes. Tabela 3 Distribuição dos Trabalhadores com LER, de acordo com área de trabalho e queixas acerca da pressão das chefias c2 = 14,05 ; p < 0,05. Área de trabalho Pressão de Chefias Não % N % Sem dado N % Total N % Banco 28 (82,35) 6 (17,65) 0 (0,00) 34 (32,69) Comércio 18 (66,67) 9 (33,33) 0 (0,00) 27 (25,96) 7 (33,33) 14 (66,67) 0 (0,00) 21 (20,19) Outras 11 (50,00) 9 (40,91) 2 (9,09) 22 (21,16) Total 64 (61,54) 38 (36,54) 2 (1,92) 104(100,00) Tele/Process 46 Sim N Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Na tabela 4, observa-se a positividade do SRQ, segundo as profissões. Os valores de positividade foram semelhantes para os bancários (91.18%), comerciários (92.0%) e outras profissões (95.45%). Os TELE/ PROCESS tiveram um índice mais baixo de positividade do SRQ (80.95%). Os resultados não foram, estatisticamente, significantes. Tabela 4 Distribuição dos Trabalhadores com LER, de acordo com área de trabalho e positividade do SRQ-20 *2 não responderam ao SRQ-20 Cochran-Armitage Z = 0,6933; p = 0,4881. Área de trabalho SRQ+ Sim N Não % N Total % N % Banco 31 (91,18) 3 (8,82) 34 (33,33) Comércio 23 (92,00) 2 (8,00) 25 (24,51) Tele/Process 17 (80,95) 4 (19,05) 21 (20,59) Outras 21 (95,45) 1 (4,55) 22 (21,57) Total 92 (90,19) 10 (9,80) Em resultados referentes a estudos com trabalhadores sadios, foram encontradas as seguintes frequências de SRQ+ : entre dois grupos de bancários, 25% e 23,6% (SILVA FILHO e cols, 1993); em um prédio de um banco estatal, 20,6% (CHAVES e cols ,1998); 37.7% entre caixas de um banco estatal (BORGES, 1999); entre trabalhadores de processamento de dados de três empresas distintas, uma variação de 20 a 24% (FERNANDES, 1992); 19,4% entre trabalhadores siderúrgicos (BORGES, 1990); em estudo conduzido por Jardim (1994) com condutores de metrô, 25,8%, e, dentre trabalhadores de instituições hospitalares , 20,8% (PITTA, 1990). Conclusão O primeiro ponto que chama a atenção são os elevados índices de SRQ-20+ que foram encontrados nesta população, demonstrando uma situação de sofrimento mental generalizada. Quando comparamos os nossos resultados com aqueles de outros estudos realizados com trabalhadores-sadios, percebemos a imensa distância entre eles. Nos estudos com trabalhadores sadios, os índices de SRQ+ variaram de 20% a 37,7%, enquanto que o índice ge- Vol. 28 - nº 105 /106 102* (100,00) ral de SRQ+ nas diversas profissões estudadas foi de 90%. Cremos que essa diferença deve-se ao fato de tratar-se de uma população enferma, o que interfere no nível de sofrimento mental. Apesar das diferenças encontradas entre as profissões referentes a alguns fatores da organização do trabalho, não houve diferença, estatisticamente, significante, entre os índices de SRQ+ . Esta homogeneidade nos índices das profissões estudadas reforça a idéia de que os valores elevados devem-se mais à condição do adoecimento do que à diversidade das condições de trabalho nas categorias estudadas, apontando para uma forte associação entre LER e sofrimento mental. A doença chegou para todos e com ela o sofrimento mental. O que os iguala é a condição limitante do adoecimento , que traz consigo, repercussões sérias sobre o estado emocional e psíquico dos trabalhadores. O estudo de corte transversal aponta para uma associação, mas não permite aprofundar questões sobre causalidade. A análise inicial das perguntas subjetivas do estudo geral, apresentada em eventos por Chaves (2000;2001), indica a percepção unânime dos participantes do estudo de que o adoecimento por LER repercutiria sobre o estado psíquico, e a percepção 47 da maioria dos trabalhadores, de que o trabalho seria desencadeador de sofrimento mental e este, por sua vez, favoreceria o adoecimento por LER. Ou seja, formas de organização do trabalho autoritárias e exigentes com a produção favorecem, tanto o sofrimento psíquico, como a ocorrência de distúrbios osteomusculares. Como refere Borges (1999), as LER podem ser entendidas como a expressão patológica em nível físico e psíquico do conflito na organização do trabalho. Os resultados elevados da frequência do SRQ-20+ neste estudo são alarmantes e chamam a atenção para a necessidade de uma atuação conjunta na prevenção de agravos à saúde do trabalhador, visando à proteção, tanto da saúde física, como da saúde mental. Referências Bibliográficas BORGES, L.H. Transtornos mentais entre trabalhadores de uma usina siderúrgica. São Paulo, 1990. (Dissertação de Mestrado, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). BORGES, L. H. Sociabilidade, Sofrimento Psíquico e Lesões por Esforços Repetitivos em processos de trabalho repetitivos: estudo de caixas bancários. Rio de Janeiro, 1999. (Tese de Doutoramento, Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro). CHAVES, M. E. C. e cols. Organização do trabalho e saúde de bancários Salvador, Bahia. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 25 (93/94) : 39 - 56, 1998. CHAVES, M. E. C. e cols. Trabajo, L.E.R. y sufrimiento mental : el dolor del proceso del padecimiento en los datos objetivos y en la palabra del trabajador. Trabalho apresentado na III Conferencia Internacional de Psicologia de la Salud em Havana, Cuba, 27/ 11 a 01/12/2000, e no ler. Congreso Latinoamericano de Psicologia de la Salud em Veracruz, México, 21 a 26/ 05/2001. CHAVES, M. E. C. Psicoterapia em Grupo com portadores de LER. Relatório Parcial. FUNDACENTRO/BA, fev. 2002. 9 p.(mimeo) . 48 CHAVES, M. E. C. e cols. Organização do Trabalho e efeitos sobre a saúde de trabalhadores : L.E.R. e sofrimento mental. ( Revista Brasileira de Saúde Ocupacional no prelo). FERNANDES, S. R. P. Trabalho informatizado e distúrbios psico emocionais estudo seccional entre três empresas de processamento de dados em Salvador-Bahia. Salvador, 1992. (Dissertação de Mestrado, Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal da Bahia). JARDIM, S.R. Processo de trabalho e sofrimento psíquico: o caso dos pilotos do Metrô carioca. Rio de Janeiro, 1994. (Tese de Doutoramento, Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro). MARI, J.J. e WILLIAMS, P. A validity study of a psychiatric screening questionnaire (SRQ) in primary care in the city of São Paulo. British Journal of Psychiatric, 148 :23-326, 1986. MINISTÉRIO DA SAÚDE LER/DORT : Dilemas, Polêmicas e Dúvidas Série A. Normas e Manuais Técnicos, n. 104. Brasília, 2001. 23 p. PITTA, A. M. F. Trabalho hospitalar e sofrimento psíquico. São Paulo, 1989. (Tese de Doutoramento, Faculdade de Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Medicina da Universidade de São Paulo) . ROCHA,L.E.; BATISTA, M.L.; MENDONÇA, M.G.V. Saúde Mental e Trabalho : Contribuição para o Reconhecimento da Relação entre Situação de Trabalho e Distúrbios Psíquicos. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 26 (99/100): 81 - 98, 2001. Vol. 28 - nº 105 /106 SILVA FILHO, J. F. e cols. Organização do Trabalho e Saúde Mental. Estudo das relações entre a prevalência de doenças mentais e organização do trabalho bancário no município do Rio de Janeiro. Textos para discussão n.7, Fórum de Ciência e Cultura/ UFRJ. Rio de Janeiro, 1993. 49 50 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Práticas Alimentares e Perfil Lipídico Indesejável em Trabalhadores Petroquímicos Maria Cecilia Costa1 Inês Lessa2 Solange Veloso Viana3 1 Mestre em Nutrição da Universida- de Federal da Bahia, Escola de Nutrição. 2 Doutora em Medicina e Pesquisa- dora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da Universidade Federal da Bahia, Instituto de Saúde Coletiva. 3 Doutora em Saúde Pública e Professora Pesquisadora da Cooperação Técnica do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Eating Habits and Undesirable Lipidic Profiles in Petrochemical Industry Workers No universo dos trabalhadores de uma indústria petroquímica de Camaçari, Bahia Brasil, foi realizado estudo de corte transversal, para medida da associação entre práticas alimentares e perfil lipídico indesejável. Os dados sobre hábitos alimentares e atividade física foram obtidos por questionário semi-estruturado e os dados secundários, clínico-laboratoriais e dietéticos, a partir da ficha clínica padronizada e da ficha do cardápio diário. Para análise, foram usadas as Prevalências (P), Intervalos de Confiança a 95% (IC 95%), Razões de Prevalência (RP) e regressão logística. A quota energética média, consumida diariamente, numa única refeição, na indústria, independentemente do turno de trabalho, correspondeu a 96,1% da quota energética, total, média diária, dos trabalhadores. A prevalência das práticas alimentares mais lipídicas foi de 63,9%, IC (53,6; 74,2); de colesterol total indesejável de 49,4%, IC (38,6; 60,2) e a da não participação no Programa de Qualidade de Vida, de 60,2%, IC (49,7; 70,7). A RP entre práticas alimentares e perfil lipídico indesejável, de 1,43, IC (1,02; 2,01), com p < 0,05. Palavras-chaves Práticas Alimentares, Indústria Petroquímica, Lípidas Séricas, Alimentação Institucional. A cross-sectional survey was conducted to assess the association between eating habits and undesirable lipidic profiles in the universe of petrochemical workers (n = 83) in Camaçari, Bahia, Brazil. The data concerning eating habits and physical activities were obtained using semi-structured questionnaires, while the secondary data, i.e. the clinical and laboratorial data were obtained using standardized clinical data registration forms and the daily menu records. Analysis input elements consisted of: Prevalences (P); Confidence Intervals up to 95% (IC 95%); Prevalence Quotient (RP) and Logistical Regressions. The average energetic quota ingested per day in a single meal within the industrial plant, independent of the work shift corresponded to 96.1% of the total average energetic quota for the workers. The prevalence of more lipidic eating habits was 63.9%, IC (53.6; 74.2); undesirable cholesterol 49.4%, IC (38.6; 60.2) and non-participation in the Quality of Life Program was 60.2% (IC (49,7; 70,7). The Prevalence Quotient (RP) between eating habits and undesirable lipid profile was 1.43, IC (1.02; 2.01), with p < 0.05. Keywords Eating Habits Practices, Petrochemical Industry, Lipidic Serum, Institutional Food Catering. Vol. 28 - nº 105 /106 51 Introdução O processo de industrialização vem incorporando, de forma crescente, tecnologias com alto grau de automação23, com tendência de mudança do perfil de morbimortalidade dos trabalhadores5,7,18. Essa nova tendência, configura-se pela maior prevalência de agravos à saúde, representados, sobretudo, pelas doenças crônicodegenerativas, cuja relação de causalidade, com o trabalho, não é tão evidente, como o nexo que ocorre com as doenças, tipicamente, ocupacionais9. Essas doenças vêm contribuindo, para a redução do tempo de vida produtiva e ocupando posição de destaque, na composição das taxas de mortalidade, em diversos países, inclusive, nos países em desenvolvimento1,3,14. Alguns autores11,15,18,27 sugerem, que a ocorrência de muitas das doenças crônicas, não transmissíveis, guardam estreita relação com as características qualitativas da dieta, sobretudo, a incorporação de maior quantidade de alimentos ricos em gorduras. Outros5,7 demonstram que esses novos hábitos são resultantes de ajustes às novas formas de consumo, em decorrência de novos padrões tecnológicos, além dos processos de urbanização e de migração. Essa questão assume importância singular, considerando que o monitoramento, permanente, da operação nas indústrias, transforma a produção e o fornecimento de refeições, numa exigência da própria tecnologia, para organizar o processo produtivo26. Nessas organizações, os trabalhadores consomem, pelo menos, uma refeição no local de trabalho, cujas diretrizes orientamse pelo Programa de Alimentação do Trabalhador PAT4. O Programa propõe-se a resolver problemas relacionados à escassez de nutrientes, articulando saúde e produtividade, estabelecendo quotas energéticas mínimas para o trabalhador, indistintamente, sem qualquer avaliação, baseada em mínimos calóricos. As quotas resultam em comportamentos alimentares, que tanto podem contribuir para manter a saúde e o bem-estar, como para desencadear transtornos lipídicos e morbidades associadas11. O reconhecimento de que as características da dieta podem exercer influência de- 52 cisiva sobre o estado de saúde dos indivíduos levou a Organização Mundial de Saúde a estabelecer limites para o consumo de gorduras (de colesterol, de ácidos graxos saturados e poliinsaturados), de proteínas de origem animal e de glicídios, principalmente os monossacarídeos27. Considerando que as estratégias preventivas sobre fatores de risco ou de doenças no âmbito das indústrias, sejam eles adquiridos nela, ou em outro ambiente, são obrigatórias nos programas de saúde do trabalhador e que as dislipidemias, em grande parte, são resultantes do hábito alimentar, este estudo teve como objetivo, determinar a relação entre práticas alimentares, predominantemente na indústria, e a presença de perfil lipídico indesejável, dos seus trabalhadores. Metodologia Estudo de corte transversal, realizado em uma indústria química, do Pólo Petroquímico de Camaçari BA, operando desde o início dos anos 90. abrange o universo dos 83 trabalhadores, com idade inferior a 50 anos, com vínculo empregatício, em atividade em 1998. Características pessoais, socioambientais, do trabalho e comportamentais dos participantes, foram obtidas por questionário, auto-preenchido, previamente testado. As informações sobre colesterol total (CT), HDL colesterol (HDL-c), LDL colesterol (LDL-c), triglicérides (Tg) e colesterol total/HDL colesterol (CT/HDL-c), foram obtidas dos prontuários médicos, no setor médico da indústria e, os dados sobre a composição da alimentação, para estimativa da quota energética, média diária, oferecida para consumo na indústria, referentes ao ano de 1998, foram identificados nas fichas dos cardápios diários, no serviço de nutrição da indústria. Esses cardápios foram, previamente analisados, a partir dos critérios estabelecidos pela política de alimentação da fábrica. Devido ao fato dos cardápios apresentarem o mesmo padrão calórico e a mesma freqüência das preparações, foi sorteado e analisado um mês de cardápio, para estimar a quota energética, média, oferecida para consumo na indústria. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Critérios e definições: 1) Práticas alimentares foram classificadas em: a) mais lipídicas quando na resposta ao questionário, o trabalhador mencionava como de consumo diário, alimentos e/ou preparações lipídicas, em pelo menos três refeições e, b) menos lipídicas quando não era informado o consumo habitual diário de alimentos e/ou preparações lipídicas, nas três refeições consumidas desjejum, almoço e jantar; 2) Perfil lipídico indesejável (PLI) quando pelo menos uma das lípidas CT, HDL-c, LDL-c, Tg ou o índice CT/HDL-c, apresentava o valor fora do limite recomendado 24; 3) Participação no Programa de Qualidade de Vida (PQV* ): a) não participante quando o trabalhador negou a participação no programa, em qualquer período, desde a sua implantação e, b) participante quando informou participação no programa, pelo menos uma vez. 4) Quotas energéticas, médias diárias recomendadas, foram definidas como: a) total (QET) quando a quantidade de calorias, obtida pelo somatório das quotas energéticas médias, para cada atividade dos trabalhadores, praticada durante o dia, a partir da Taxa Metabólica Basal TMB21, foi considerada como adequada às necessidades nutricionais médias da populaçãoalvo, após realizado o ajuste da quota energética média total diária, por faixa etária 22 e, b) Quota Energética Ocupacional (QEO) quando a quantidade de calorias foi considerada restrita, para o desenvolvimento da atividade do trabalhador na indústria, a partir da idade, do peso, da altura, do sexo e da atividade física2,22. 5) Quota Energética média, oferecida na Fábrica, para consumo diário, (QEF) como a quantidade de calorias, resultante dos alimentos elaborados (cardápio referência) para consumo durante a jornada de traba- Vol. 28 - nº 105 /106 lho. A partir de uma amostra do cardápio referência, procedeu-se as determinações: 1) das quantidades médias de alimentos consumidos per capita/dia; 2) da composição química desses alimentos25; 3) das quantidades médias de colesterol e de ácidos graxos saturados, poliinsaturados e monoinsaturados, oferecidas/consumidas, na fábrica; 4) do consumo energético médio per capita/dia; e 5) da distribuição percentual média, per capita, dos nutrientes da refeição consumida na indústria independentemente do turno de trabalho. Os parâmetros para a alimentação/dia foram os da OMS20. Para a análise, foram calculadas as prevalências, os IC a 95%, a RP e o Odds Ratio (OR)12,13. Posteriormente, as quotas energéticas médias diárias recomendadas total e ocupacional foram comparadas com a quota energética média oferecida, na fábrica, para consumo diário. Para identificação da variável modificadora de efeito, foi usado o teste da razão de verossimilhança, mantendo-se, na análise a variável, caso a mesma apresentasse valor de p £ 0,05. Para avaliar confundimento, adotou-se, como na avaliação de modificação de efeito, o procedimento backward. Seria mantida, como confundidora, a variável que apresentasse variação percentual da amplitude do intervalo de confiança da OR de, pelo menos, 15%. O critério de inclusão, foi propositalmente, restrito. * Programa implantado na fábrica, a partir de 1995, durante a avaliação da saúde do trabalhador, em cada exame periódico, com intuito de reduzir os riscos para a saúde, contidos na alimentação, para as doenças crônico-degenerativas. Resultados Dos 83 trabalhadores, 15 (18,1%) tinham idade < 30 anos, 44 (53,0%) 30 a 39 anos e 24 (28,9%) = 40 anos, sendo 34 (41%), em turno administrativo, e 49 (59%), sob revezamento de turno, na área de produção. Pelo número de mulheres (13,3%), os dados não foram estratificados por sexo. As prevalências das lípidas indesejáveis foram muito elevadas (Figura 1 e Tabela 1), sendo, a mais baixa, a das triglicérides, com 18,1%. 53 Figura 1 Prevalências do índice e dos níveis lipídicos indesejáveis, em trabalhadores de uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998. 60 50 P(%) 40 30 20 10 0 CT HDL-c LDL-c CT/HDL-c Tg Lipídios As prevalências de práticas alimentares, mais lipídicas, alcança 63,9% e não participação dos trabalhadores no PQV 60,2% (Tabela 1). Variáveis n° P,% IC 95% Práticas alimentares mais lipídicas 53 63,9 (53,6 74,2) Hipercolesterolemia 41 49,4 (38,6 60,2) HDL-C indesejável 16 19,3 (10,8 27,8) LDL-C indesejável 41 49,4 (38,6 60,2) CT/HDL-C indesejável 34 41,0 (30,4 51,6) Hipertrigliceridemia 15 18,1 ( 9,8 26,4) Programa de Qualidade de Vida - não participação 50 60,2 (49,7 70,7) Perfil lipídico indesejável, foi observado em 81,1% dos trabalhadores que referiam consumir alimentação mais lipídica com RP de 1,43, IC (1,02; 2,01), em relação aos que consumiam uma alimentação menos lipídica. Essa associação foi positiva e es- tatisticamente significante (Tabela 2). Dos não participantes do PQV 76,0% apresentam PLI contra 66,7% entre os que participavam do PQV. A RP foi 1,14 com IC (0,85 1,52), não estatisticamente significante. Tabela 2 Associação entre perfil lipídico indesejável e dietas mais lipídicas e não participação do Programa de Qualidade de Vida, em uma indústria petroquímica, PPC BA, 1998. Variáveis PLI Sim Não Total n° P,% n° P,% 43 81,1 10 18,9 53 Menos lipídicas 17 56,7 13 43,3 30 PQV** Não participava 38 76,0 12 24,0 50 Participava 22 66,7 11 33,3 33 Práticas alimentares* Mais lipídicas RP IC 95% 1,43 (1,02 – 2,01) 1,14 (0,85 – 1,52) * Realizadas na indústria e fora dela. ** Programa de Qualidade de Vida (co-variável) realizado anualmente na indústria, a partir de 1995. 54 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional A co-variável PQV, apresentou p-valor igual a 0,14, não sendo modificadora de efeito. Com a exclusão do PQV, não houve modificação relevante da variação da amplitude do intervalo de confiança da OR, não se detectando confundimento (Quadro 1). Quadro 1 Avaliação de modificação de efeito e confundimento na associação entre práticas alimentares e perfil lipídico indesejável, a partir do programa de qualidade de vida. P(%) Todas as prevalências das lípidas indesejáveis, à exceção do HDL-c indesejável, aumentaram com a idade (Figura 2). 90 CT 80 HDL-c 70 LDL-c 60 CT/HDL-c 50 Tg 40 30 20 10 0 20 - 29 30 - 39 40 - 49 Faixa etária Figura 2 Prevalências do índice e dos níveis lipídicos indesejáveis, por faixa etária, em trabalhadores de uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998. Os percentuais referentes a QEO média, adequada aos trabalhadores, a QET e a QEF (Figura 3), permitem observar que a QEO correspondeu a aproximadamente, 40% da QET e que mesmo subtraindo o Vol. 28 - nº 105 /106 percentual da QEF em 1, 2 e até 3 desvios padrão desta média, continuam acima do recomendado e corresponde, a quase 100% da quota energética total média diária, recomendada para estes trabalhadores. 55 100 80 % 60 *QET = Quota Energética Total 40 média recomendada. QEO = Quota Energética Ocupacional 20 média recomendada. QEF = Quota Energética 0 planejada/consumida na QET* Fábrica. QEO* QEF* QEF*1 QEF*2 QEF*3 QUOTA ENERGÉTICA (Kcal) Figura 3 Percentuais das quotas energéticas médias recomendadas e da oferecida aos trabalhadores de uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998. Na Figura 4, encontra-se a distribuição dos macronutrientes na refeição consumida durante a jornada de trabalho e aquelas que são recomendadas. A quota de glicídios encontra-se abaixo, a de proteínas, acima, e a lipídica, com valor no limite máximo do recomendado pela OMS, para uma refeição normocalórica. 80 GLICÍDIOS 70 PROTEÍNAS 60 LIPÍDIOS *Rec. = Recomendado. Ind. Turno = Independentemente de Turno. ADM = Turno Administrativo. RT = Revezamento de Turno. MACRONUTRIENTES (%) 50 40 30 20 10 0 Rec*. mínima Rec*. média Rec*. máxima Ind. Turno* ADM* RT* REFEIÇÃO Figura 4 Distribuição dos macronutrientes na refeição recomendada e da consumida em uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998. As proporções médias dos ácidos graxos saturados e poliinsaturados na refeição consumida, independentemente do turno (Figura 5), apresentam-se nos limites máximos recomendados. Nos trabalhadores no 56 turno administrativo, a quantidade de ácidos graxos saturados foi de 14% e a consumida pelos trabalhadores, com revezamento de turno, apresenta uma quantidade de poliinsaturados de 8%. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional 16 ÁCIDOS GRAXOS (%) 14 12 10 8 6 4 2 0 Rec.máxima Ind. Turno ADM RT REFEIÇÃO Poliinsaturados Monoinsaturados Saturados Figura 5 Percentuais de ácidos graxos recomendados e consumidos na refeição em uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998. Na Figura 6, consta uma comparação entre a consumida e a recomendada. A quantidade média do colesterol, consumida pelo trabalhador da indústria, mostra-se acima da máxima recomendada/dia. 400 350 COLESTEROL (mg) 300 250 200 150 100 50 0 RECOMENDADA IND. TURNO ADM RT REFEIÇÃO Figura 6 Quantidade de colesterol recomendada e consumida em média/dia em uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998. Vol. 28 - nº 105 /106 57 Discussão Além da similaridade qualitativa, entre as refeições consumidas dentro e fora da indústria, o padrão alimentar dos trabalhadores mostrou-se, bastante próximo dos resultados dos inquéritos domiciliares realizados no Brasil em décadas passadas, quando se observaram tendências, na redução do consumo de cereais e tubérculos, da substituição dos glicídios por lipídios e da troca de proteínas vegetais por animais8,10. A refeição consumida na indústria, independentemente do turno de trabalho, contém alto teor de gordura, tendo como agravante, a qualidade dos lipídios consumidos. Apesar de a maior parte do colesterol sérico ser endógeno, a composição lipídica da alimentação exerce papel importante, na regulação do nível sérico de colesterol, uma vez que, o grau de saturação dos ácidos graxos exerce influência sobre os níveis de LDL-c e de HDL-c de forma diferenciada. De modo geral, os ácidos graxos saturados tendem a elevar tanto o LDL-c quanto o HDL-c, enquanto os poliinsaturados, quando usados em substituição aos saturados, reduzem, tanto o LDLc quanto o HDL-c15. A queda da prevalência do HDL-c indesejável, a partir dos 30 anos de idade, acentuando-se ainda mais a partir da quarta década, difere da literatura. Segundo alguns estudos, o HDL-c, entre a terceira e a sexta décadas, mantém-se estável nos homens e, seguindo-se de pequena elevação, enquanto, nas mulheres, tende a elevar-se, lentamente, até a sétima década, com pequena redução posterior. Entretanto, as concentrações plasmáticas do HDL-c permanecem, significativamente mais elevadas, nas mulheres, do que nos homens6. Ainda que não se possa afirmar que as alterações do perfil lipídico que ocorrem, com a idade, sejam devidas ao envelhecimento, a hábitos de vida, relacionados à dieta e níveis de atividade, ou uma combinação destes fatores, sabe-se que as práticas alimentares desempenham um importante papel, nestas alterações. Os dados mais convincentes de que a dieta se constitui num importante fator modulador no metabolismo das lipoproteínas, nas alterações relacionadas com a idade, são a ausên- 58 cia de elevação no colesterol plasmático, nas comunidades, onde os indivíduos consomem dietas pobres em gorduras saturadas e colesterol6. Investigações realizadas em grupos populacionais migrantes revelam a elevação dos níveis médios de CT e do LDL-c, quando, hábitos alimentares inadequados foram incorporados por estes grupos24. Outros estudos confirmam a associação positiva, entre consumo de alimentos, fonte de proteína animal e de lipídios e hiperlipidemias15,19. O aumento do nível sangüíneo de CT está associado ao consumo elevado de colesterol e ácidos graxos saturados, na dieta, e a uma baixa ingestão de ácidos graxos poliinsaturados28. Entretanto, Mensink & Katan17 demonstraram, ser pouco relevante, o efeito dos ácidos graxos poliinsaturados sobre o nível de colesterol sangüíneo. Essa afirmação pode estar relacionada ao percentual, mais elevado de ácidos graxos poliinsaturados, em dietas contemporâneas (em torno de 6% da energia), do que as de, aproximadamente, 3%, em dietas de décadas passadas17. Desse modo, podese suspeitar que as características qualitativas da refeição consumida diariamente, na indústria alimentação com excesso de colesterol (aproximadamente 350 mg) e de ácidos graxos saturados (10% da quota energética já excessiva) , é a mais provável explicação para a associação positiva, entre as práticas alimentares e o perfil lipídico, dos trabalhadores. Assim, são fortes os indícios de que a alimentação desses trabalhadores se constitui, num possível fator de risco, para o perfil lipídico indesejável. Ainda que os mecanismos, pelos quais ocorrem as dislipidemias, não estejam totalmente esclarecidos, uma vez que, nem sempre, está presente em pessoas com sobrepeso e/ou distribuição andróide. Os resultados mostram-se coerentes com estudos, realizados em diferentes grupos populacionais16, nos quais foram descritas associações entre ingestão de ácidos graxos saturados e elevação do CT, em especial, o LDL-c. Outros estudos apontam a influência do colesterol dietético sobre o CT sérico, apesar da variabilidade, na magnitude da resposta24. A elevada freqüência de trabalhadores que informou não participar do PQV Revista Brasileira de Saúde Ocupacional demostra a falta de interesse pelo Programa, pouca informação sobre repercussões maléficas, do estilo de vida inadequado para a saúde, em particular, das práticas alimentares ou falha nas estratégias do Programa. Esse comportamento pode estar associado ao fato de eles rejeitarem a proposta do Programa, para mudanças das suas práticas alimentares, já asseguradas, uma vez que, só 39,8% aderiu ao PQV. A associação borderline entre PQV e perfil lipídico indesejável, parece resultar da persistência de práticas alimentares inadequadas. O fato de o PQV estabelecer modificações na composição de alguns itens do cardápio, visando redução de riscos para a saúde, provavelmente, ainda é insuficiente para essa mudança. O argumento se fundamenta, no fato em que, uma dieta normocalórica, com ação preventiva, não pode restringir-se a mudanças da alimentação, apenas numa única refeição. Se o objetivo principal do PQV é reduzir os riscos, para a saúde, contidos na dieta, para as doenças crônico-degenerativas, a participação da indústria, para prevenir tais agravos, mostrou-se pouco eficiente. Desse modo, a proposta do PQV, em reduzir a quantidade de gordura e aumentar a de fibras, na refeição consumida na indústria, não previne os agravos em questão, principalmente, se considerarmos que a reformulação de práticas alimentares inadequadas não se constitui num processo de fácil mudança, a curto prazo. Ademais, as mudanças de comportamento, necessárias ao alcance do objetivo do PQV, não se concretizam com uma única intervenção anual. Também para o PQV, a sua não interferência na associação investigada orientou para a exclusão dessa variável do modelo, sem prejuízo, pois não se confirmou, como modificadora de efeito, ou como confundidora. Entretanto, não se pode excluir a possibilidade de que a não interferência da variável na associação investigada seja, também, atribuída à falta de poder do estudo, em função do tamanho reduzido da população. Além do excesso de calorias, de gordura saturada e de colesterol, identificados na alimentação consumida, durante a jornada de trabalho, fora da indústria, esses trabalhadores, têm como agravante, os seus estilos de vida, mantendo um padrão de alimentação, com características semelhantes àquela ofertada e consumida na indústria, associado a uma atividade física, igualmente, insuficiente. Desse modo, as práticas alimentares dos trabalhadores, em particular, no local de trabalho, contribuem para a perpetuação de estilo de vida inadequado, evidenciado pelas dislipidemias. O programa de qualidade de vida da empresa, ainda é incipiente, e de curta duração para alcançar os objetivos a que se propõe. Os resultados mostram, claramente, que a incorporação pelas indústrias dos mínimos calóricos recomendados pelo PAT, para a refeição, no local de trabalho, é incompatível com as necessidades nutricionais dos seus trabalhadores e promotora de riscos, para as maiores causas de morbidade e mortalidade, associadas à alimentação. Referências Bibliográficas 1. ALMEIDA FILHO, N., ROUQUAYROL, M. Z. Introdução à epidemiologia moderna. 2.ed. Rio de Janeiro: COOPEMED/ APCE/ ABRASCO, 1992. 2. AUGUSTO, A. L. P. et al. Terapia nutricional. São Paulo: Atheneu, 1993. Vol. 28 - nº 105 /106 3. BARRETO, M. L., CARMO, E. H. Tendências recentes das doenças crônicas no Brasil. In: LESSA, I. (Org.) O adulto brasileiro e as doenças da modernidade: epidemiologia das doenças crônicas não-transmissíveis. São Paulo: Hucitec, 1998. p. 15-27. 59 4. BRASIL. Ministério do Trabalho. 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Professor de Toxicologia da Universidade Federal da Bahia e Coordenador do Laboratório de Patologia Clínica e Toxicologia do Hospital São Rafael 2 Médico da Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Farmácia e Chefe do Laboratório de Patologia Clínica e Toxicologia do Hospital São Rafael. 3 Médico da Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Preventiva e Chefe do Serviço de Medicina do Trabalho do Hospital São Rafael. Assessment of Occupational Exposure to Lead in a Metallurgy Plant A Cross-Sectional Study OBJETIVO: Avaliar o nível de exposição ocupacional em uma metalúrgica de chumbo, através da determinação dos indicadores biológicos de exposição e efeito, com o objetivo de estabelecer um mapeamento das áreas de risco dentro da planta industrial. METODOLOGIA: Estudo transversal incluindo 195 trabalhadores de uma metalúrgica primária de chumbo, localizada no Estado da Bahia-Brasil, e um grupo de referência de 65 indivíduos. Nos grupos de expostos e controle foram realizadas as dosagens dos indicadores biológicos de exposição e efeito (IBE´s) ao chumbo inorgânico, incluindo Pb-S, ALA-U, ZnPP e Hb. Palavras-chaves Chumbo Sangüíneo, Exposição Ocupacional, ALA, PB-S. OBJECTIVE: The aim of this study was the assessment of occupational exposure to lead in a metallurgy plant, by measuring biological exposure and effects indicators; and the mapping of risk areas throughout the industrial plant. METHODOLOGY: A cross-sectional study was performed involving 195 workers at a lead metallurgy plant and a reference group of 65 individuals, in the State of Bahia, Brazil. Both the exposed and control groups were tested for dosage levels for biological exposure and effects indicators for inorganic lead, including Pb-S, ALA-U, ZnPP and Hb - (blood lead level (BLL); d-aminolevulinic acid in urine (ALA-U); zinc-protoporphyrin (Zn-PP); and hemoglobin (Hb). Keywords Lead in Blood, Occupational Exposure, BLL, ALA. Vol. 28 - nº 105 /106 63 Introdução O chumbo é um metal com uma longa história de uso industrial e com importantes efeitos tóxicos sobre a saúde humana. Estudos epidemiológicos realizados em diversos países do mundo revelam inúmeros casos de intoxicação, notadamente em exposições ocupacionais e ambientais. Apesar do extraordinário conhecimento adquirido nas últimas décadas sobre o mecanismo de toxicidade do metal, das recentes medidas de prevenção e de supervisão médica e principalmente da aplicação de eficientes medidas de higiene industrial, concorrendo para uma considerável redução nos níveis de exposição ocupacional, lamentavelmente ainda continua ocorrendo casos de intoxicação1,2,3,4. Elevada exposição ao chumbo e casos de intoxicação têm sido encontrados, notadamente em crianças filhas de trabalhadores de fundição de chumbo e em crianças residentes próximo às fundições primárias de chumbo5,6. Mesmo em áreas sem fonte pontual de emissão de chumbo no meio ambiente, pode haver a contaminação dos seres vivos. Alguns estudos demonstraram a contaminação, principalmente de crianças, através do material particulado em casario antigo pintado com tinta a base de chumbo, proximidade de autoestrada e do contato direto com o solo7,-9. As principais fontes de exposição ocupacional ao chumbo são representadas principalmente pelas minerações, fundições e refinarias de chumbo, fábricas de baterias (acumuladores), indústria cerâmica e fundições de metais não ferrosos10-13, encontradas com grande freqüência em diversos estados brasileiros, inclusive na Bahia. Os processos de fundição e refinaria, são provavelmente, entre todas as modalidades de exposição ocupacional, as que apresentam maior risco de exposição ao metal, provavelmente porque envolvem operações nas quais o chumbo fundido e as ligas são aquecidas a temperaturas elevadas com desprendimento de vapores de chumbo10, 12, 14 . No ambiente laboral a absorção do chumbo resulta principalmente da inalação de pequenas partículas de tamanho respirável ou dos fumos do metal. Secundariamente, pode ocorrer absorção através 64 da ingestão de alimentos contaminados, água e por hábitos do trabalho, como o de fumar10, 12 e por contaminação dérmica e do vestuário. Diversos estudos epidemiológicos e toxicológicos têm sido realizados recentemente em populações com exposição ocupacional ao chumbo com o objetivo de desenvolver marcadores biológicos de toxicidade subclínica adequados para a aplicação em programas de saúde ocupacional, particularmente para baixos níveis de exposição3, 12, 15. Os Indicadores Biológicos de Exposição (IBE) mais comumente empregados e recomendados para a monitorização biológica da exposição ocupacional ao chumbo são representados principalmente pelo chumbo no sangue (Pb-S), zinco-protoporfirina (ZnPP) e ácido d-aminolevulínico na urina (ALA-U). Outros indicadores como ácido daminolevulínico desidratase (ALA-D) e a coproporfirina urinária (CP-U), não são comumente empregados em saúde ocupacional, principalmente por apresentarem pouca especificidade11, 14, 16- 22. O objetivo deste estudo foi avaliar o nível de exposição em uma metalúrgica de chumbo, através da determinação dos indicadores biológicos de exposição e efeito do chumbo, a fim de estabelecer um mapeamento das áreas de risco na planta industrial. Material e métodos Caracterização dos Grupos Foram investigados cento e noventa e cinco trabalhadores adultos do sexo masculino de uma refinaria primária de chumbo localizada no Estado da Bahia, Brasil no ano de 1993. De acordo com o fluxograma do processo de produção da planta industrial e de organização e distribuição de cargos e funções da empresa, os trabalhadores foram distribuídos nos seguintes grupos de atividade laboral: sinterização (n = 23), fusão (n = 41), refinaria (n = 49), laboratório (n = 8), serviços gerais (n=17), manutenção (n = 26) e administração (n = 31). Os grupos de sinterização, fusão e refinaria exerciam suas atividades laborais nos respectivos setores industriais, os indivíduos do grupo de serviços gerais, com atividades de limpeza; e os da manutenção, Revista Brasileira de Saúde Ocupacional com atividades de manutenção dentro da planta. O pessoal de laboratório participava da execução, coleta e determinação analítica das amostras destinadas ao controle de qualidade de produção e da monitorização ambiental nos programas de higiene industrial da empresa. O grupo controle foi constituído por 65 indivíduos pareados por sexo, idade, raça, hábitos alimentares, tabagismo e alcoolismo com o grupo de trabalhadores expostos na planta industrial, diferindo apenas quanto ao aspecto de não se referirem a exposição atual ou no passado aos compostos de chumbo. Metodologia Foi realizado um estudo de corte transversal incluindo os grupos de expostos e controle nos quais foram realizadas as determinações de chumbo no sangue (Pb-S), ácido daminolevulínico na urina (ALA-U), zincoprotoporfirina (ZnPP) e hemoglobina (Hb) no sangue total. O sangue foi coletado por punção venosa em veia cubital, através de sistema a vácuo, em dois tubos de vidro com EDTA livre de resíduo de chumbo. O tubo de sangue destinado à determinação de chumbo foi armazenado em geladeira a 2-8°C até o momento da análise e o tubo coletado para a determinação de Hb foi imediatamente processado. A urina foi coletada em coletores de polietileno descontaminado com ácido nítrico a 2% em água pura Tipo I (Sistema Milli-RX45 acoplado a um Milli-Q, Millipore). A concentração de chumbo no sangue foi determinada em duplicata por espectroscopia de absorção atômica, usando o método eletrotémico de digestão da amostra em forno de grafite, segundo o método de Fernadez modificado23, utilizando o equipamento Perkin-Elmer 5000 equipado com forno de grafite P.E. HGA-500. A dosagem do ALAU foi realizada pelo método espectrofotométrico 24 , usando o espectrofotômetro Perkin-Elmer Lambda I. O resultado foi corrigido pelo valor da creatinina urinária, que foi dosada pelo método cinético de Jaffé no analisador bioquímico MEGA da Merck Diagnósticos. A determinação da ZnPP foi executada por fluorimetria direta em sangue total, utilizando-se o hematofluorômetro Vol. 28 - nº 105 /106 Protofluor-Z da Helena Laboratories, seguindo o protocolo do fabricante. A hemoglobina foi determinada imediatamente após a coleta do sangue, usando-se o sistema automatizado STKS da Coulter. O controle de qualidade analítica para a determinação do Pb-S foi realizado usando o sangue controle fornecido pela Bio-Rad®, Liphocheck Nível I e II, além do controle externo de qualidade do Programa de Intercalibração de Controle de Qualidade do Instituto Nacional de Seguridad y Higiene del Trabajo (Espanha). O controle de qualidade das determinações bioquímicas foi realizado através do programa de Controle Externo de Qualidade da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e SEGULAB (Itália). Após extratificação por grupos de atividade, as médias de cada foram comparadas através do teste não paramétrico de Wilcoxon para médias não-pareadas, análise de variância one-way (ANOVA) e estudo de correlação, utilizando-se o programa estatístico Epinfo 6.0. Resultados Os resultados das determinações de PbS, ALA-U, ZnPP e Hb, do grupo controle e dos trabalhadores da metalúrgica, estão resumidos na Tabela 1. Comparando-se os valores de Pb-S do grupo controle (5,4±3,9 µg/dL) com o grupo de indivíduos da área administrativa (13,1±8,4 µg/dL), constatou-se uma diferença estatisticamente significativa (p<0,001) entre eles, demonstrando que embora os trabalhadores administrativos não exerçam atividade na área de produção da planta, possuíam uma fonte adicional de exposição, oriunda provavelmente, da contaminação ambiental da metalúrgica. Não foi observada diferença significativa (p>0,05) entre os indicadores de efeito (ALA, ZnPP e HB) deste grupo quando comparado com o grupo controle. Diferença ainda mais significativa (p<0,0001) foi constatada comparando-se o Pb-S do grupo controle com o Pb-S do grupo dos trabalhadores de Serviços Gerais (25,1±9,1µg/dL ), da Manutenção (28,5±9,8 µg/dL), do Laboratório (23,1±7,6 µg/dL) e da Sinterização 65 (36,7±9,8 µg/dL). Entretanto, não foi observada diferença significativa (p>0,05) entre o Pb-S dos grupos de Refinaria, Fusão e Sinterização, sugerindo níveis semelhantes de exposição, bem como entre os grupos de Laboratório, Manutenção e Serviços Gerais.Em relação ao ALA-U foi constatada uma diferença altamente significativa (p<0,0001) quando comparado o controle (1,9±0,9 mg/g creat.) com os grupos da Manutenção (6,9±3,8 mg/g creat.), Sinterização (11,9±9,3 mg/g creat.), Fusão (11,1±6,9 mg/g creat.) e Refinaria (10,3±9,5 mg/g creat.), não sendo, porém, observada diferença estatística entre Tabela 1 as médias destes grupos de trabalhadores.Considerando a ZnPP, constatou-se uma diferença altamente significativa (p<0,0001) entre o grupo controle (13,5±0,9 µg/dL) e os grupos de Fusão (65,5±45,5 µg/dL), Sinterização (87,5±107,0 µg/dL) e Refinaria (65,5±61,5 µg/dL). Esta diferença foi menos significativa (p<0,001) para o grupo da Manutenção (33,0±38,0 µg/dL) e para o grupo de Serviços Gerais (25,5±20,0 µg/dL). Não sendo observada, porém, diferença significativa (p>0,05) entre os grupos controle (25,5±20,0 µg/ dL) e o da Administração (21,0±28,0 µg/ dL). Valores dos Indicadores Biológicos de Efeito e Exposição nos Grupos Expos- tos e Controle. Nota: Os valores são média ± desvio padrão e amplitude entre parênteses. Os grupos com diferença estatística significativa (p<0,05) do grupo controle estão com asterísco. 66 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional 200 ALA mg/g creat. 175 Pb-S ug/dL 150 ZnPP ug/dL 125 100 75 50 25 0 GC ADM SGE AMN LAB SIN FUS REF Legenda: Barra representa a média aritmética e travessão representa o desvio padrão. Figura 1 Distribuição dos bioindicadores PB-S, ALA e ZnPP nos grupos controle e nos grupos de trabalhadores expostos. A Figura 1 apresenta uma distribuição gráfica dos valores médios de Pb-S, ZnPP e ALAU dos grupos controle e dos grupos de trabalhadores expostos da metalúrgica. Discussão Os níveis de chumbo no sangue na população geral têm diminuído ao longo do tempo em diversos países do mundo, provavelmente resultante de ações de controle de determinadas fontes de emissão de chumbo, como as de origem industrial e de derivados do petróleo. O uso do álcool adicionado à gasolina reduziu a utilização de antidetonante a base de chumbo, contribuindo substancialmente para a redução da emissão atmosférica de chumbo pelos automóveis, como acontece no Brasil25-27. Na maioria dos países a concentração média de chumbo no sangue em pessoas não expostas ocupacionalmente está situada entre 10 e 15 ìg/dL e em algumas situações é inferior a 10 ìg/dL. Na Suécia a média de Pb-S é de 8 ìg/dL no sexo masculino e de 6 ìg/dL para o sexo feminino 25. Na Itália o nível de Pb-S encontrado na população geral é de 12-15 ìg/dL para o sexo masculino e de 8-10 ìg/dL para o sexo feminino4, Vol. 28 - nº 105 /106 na Espanha de 7,8 ìg/dL e nos Estados Unidos da América do Norte de 16,1 ìg/dL para o sexo masculino e de 11,0 ìg/dL para o sexo feminino28. Níveis mais elevados em indivíduos da população geral têm sido observados em outros países, como na Cidade do México onde foram encontrados 25,5 ìg/dL de Pb-S no sexo masculino e 19,3 ìg/dL no sexo feminino29. Os resultados obtidos do grupo controle, formado por indivíduos adultos do sexo masculino, revelam que a média do Pb-S foi de 5,4 ìg/dL (Tabela 1), inferior ao valor de 12,4 ìg/dL encontrado para a Cidade de São Paulo Brasil30 e dos reportados para a maioria dos países25. Os valores de ALA-U, ZNPP e Hb encontrados no grupo controle são semelhantes aos valores de referência destes indicadores observados em populações de indivíduos não ocupacionalmente expostos31, 32. O grupo da Administração apresentou Pb-S de 13,1 ìg/dL, significativamente mais elevado que o grupo controle (p<0,001), demonstrando que a proximidade do escritório administrativo da área de produção da planta industrial e o uso do mesmo refeitório e de outras instalações da empresa, podem ter contribuído para uma maior 67 exposição ambiental deste grupo, passando a apresentar níveis sangüíneos de chumbo semelhantes aos de indivíduos que convivem próximo a áreas industriais de produção de chumbo reportados por outros pesquisadores6, 10, 25,30. Embora tenha ocorrido considerável aumento na produção e consumo dos compostos de chumbo na década de 1970, observou-se paralelamente uma redução substancial nos níveis de Pb-S de indivíduos ocupacionalmente expostos, refletindo uma melhoria e maior atenção aos programas de vigilância epidemiológica, de medidas mais eficazes de higiene industrial e de monitorização biológica dos trabalhadores expostos3, 25,29. Apesar disso, ainda continua ocorrendo em alguns países situações consideradas de elevado risco, como a constatada em 1987 nos Estados Unidos da América do Norte, em que mais de 1.000 trabalhadores tinham Pb-S acima de 40 ìg/dL e aproximadamente 200 deles possuíam níveis de chumbo no sangue acima de 50 ìg/dL. Verificou-se neste e em outros estudos que a maioria dos trabalhadores com concentração mais elevada exerciam atividade em mineração, refinaria, fundições e em indústrias de acumuladores. Os processos de fundição e refinaria do chumbo são provavelmente os que representam maior risco de exposição, confirmando os resultados obtidos neste estudo no qual os trabalhadores das áreas de refinaria, fusão e sinterização apresentaram as concentrações mais elevadas de chumbo no sangue1, 3, 10, 25, 33, 34. Em 1980 a Organização Mundial de Saúde25 recomendou como limite de tolerância biológico (LTB) para exposição ocupacional ao chumbo o Pb-S de 40 ìg/ dL para trabalhadores masculinos e 30 ìg/ dL para mulheres. A American Conference of Governmental Industrial Hygienists35 dos Estados Unidos da América do Norte adotou um LTB de 50 ìg/dL de chumbo no sangue e no guideline de 2001 o indicador de dose interna atualizado é de 30 ìg/dL25, fazendo a ressalva que mulheres em idade fértil com plumbemia superior a 10 ìg/ dL podem gerar crianças com chumbo sangüíneo de 100 ìg/dL, as quais podem desenvolver sérias lesões no desenvolvimento cognitivo. No Brasil o Ministério do Trabalho36 adota como valor de referência o Pb68 S de até 40 ìg/dL e para exposição ocupacional o IBMP (Índice Biológico Máximo Permitido) de 60 ìg/dL. Neste estudo constatamos que 43,5% dos trabalhadores do grupo de sinterização, 36,6% da fusão, 32,6% da refinaria e 23% da manutenção possuíam Pb-S superior a 40 ìg/dL, considerado como normal pela legislação brasileira e igual ou superior ao LTB estabelecido em diversos países, enquanto 12,2% dos trabalhadores da área de fusão, 10,2% da de refinaria e 7% da de sinterização, totalizando 12 trabalhadores nos três grupos, revelaram Pb-S superior a 50 ìg/dL, valor de chumbo sangüíneo mais elevado do que o estabelecido como LTB pela Organização Mundial da Saúde 25 e a ACGIH dos Estados Unidos da América do Norte. No que concerne ao bioindicador de efeito, concentração urinária de ALA, observamos que 85,4% dos trabalhadores da área de Sinterização e 81,6% da Refinaria, possuíam ALA-U superior a 4,5 mg/g creat. estabelecido como valor de referência pela legislação brasileira 36 , enquanto que 36,6% dos indivíduos da de sinterização, 48,8% da de fusão e 30,6% da de refinaria apresentaram ALA-U superior a 10 mg/ g creat., adotado pela legislação brasileira como Índice biológico Máximo Permitido (IBMP). A Figura 2 apresenta a corrrelação entre a plumbemia e a concentração urinária de ALA nos grupos controle e nos diversos grupos de trabalhadores da metalúrgica. O modelo matemático que melhor descreve esta correlação é equação quadrática [ALA = 0,007*(Pb-S)2 0,111*(Pb-S)+4,51] com coeficiente de correlação (r2) de 0,249. O teste t para significância do índice de correlação demonstrou que esta é uma correlação positiva e significativa (p<0,05) entre os indicadores de exposição e de efeito. Esses dados estão de acordo com os resultados de outros estudos2, 17, 19, 22, havendo uma inflexão nas concentrações de Pb-S superiores a 40 ìg/dL. Utilizando este modelo para prever a concentração de ALA-U a partir do Pb-S de 40 ìg/dL, por exemplo, seria 11,3 mg/g creat.; concentração esta acima do IBMP para o chumbo inorgânico (10 mg/g creatinina). Para a ZnPP os resultados mais elevados foram obtidos para os grupos da sinterização, fusão e refinaria; corroboranRevista Brasileira de Saúde Ocupacional terminados tipos de minério, como a galena, utilizada pela metalúrgica avaliada neste estudo, pode aumentar o risco de toxicidade do metal, como também influenciar na cinética de produção de determinados indicadores biológicos utilizados na monitorização dos trabalhadores expostos3,15, 29, 34,37. Desse modo, o zinco pode ativar a ácido delta-aminolevulínico desidratase (ALA-D), influenciando na produção de ALA-U22, o cádmio pode aumentar a nefrotoxicidade do chumbo, bem como outros fatores, como o consumo de álcool, que influencia na produção de alguns destes indicadores38. Atualmente esta metalúrgica encontra-se desativada, mas deixou um passivo ambiental de mais de 50.000 toneladas de escória com contaminação superior a 3% de chumbo, ocasionando a contaminação ambiental e a consequüente contaminação da população da região6,30, merecendo estudos de monitorização ambiental e avaliação da população circunvizinha por longo período. do os achados a partir dos dados do ALA-U. É possível concluir, portanto, que os trabalhadores com maior risco de exposição ocupacional ao chumbo na planta da metalúrgica estudada são representados pelos grupos da Fusão, Sinterização e Refinaria, alguns deles com elevadas concentrações de chumbo no sangue e importantes alterações na concentração de ZnPP sangüíneo e ALA urinário. Apesar da constatação de considerável redução nos níveis de Pb-S nos trabalhadores expostos em todo o mundo, motivando inclusive a revisão dos LTBs estabelecidos na legislação de saúde ocupacional de diversos países, mais recentemente tem sido enfatizada a importância da toxicidade subclínica do chumbo, demonstrando que concentrações de chumbo no sangue mesmo abaixo dos LTBs adotados atualmente, podem desencadear importante toxicidade como nefropatia, neurotoxicidade central e periférica, efeitos sobre a reprodução, câncer renal e hipertensão arterial. Por outro lado, a associação de outros metais, como arsênico, cádmio e zinco, presentes em de- 50,0 Ala = 0.007(PbS)2 - 0.111(PbS) + 4.510 R2 = 0.249 45,0 Expostos Controle ALA mg/g creat. 40,0 35,0 30,0 25,0 20,0 15,0 10,0 5,0 - 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 PBS ug/dL Figura 2 Correlação entre PB-S e ALA urinário dos grupos controle e dos trabalhadores expostos ao chumbo. Vol. 28 - nº 105 /106 69 Referências Bibliográficas 1.Wineger, D.A.; Levy, B.S.; Andrews, J.S.; Landrigan, P.J.; Scruton, W.H. & Krause, M.J. Chronic Occupational Exposure to Lead: An Evaluation of the Health of Smelter Workers. J. Occup. Med., 1977, 19:603-607. 2. Lee, B.K. Occupational Lead Exposure of storage Battery Workers in Korea, Br. J. Ind. Med. 1982, 39: 283-289. 3. Landrigan, P.J. Current Issues in the Epidemiology and Toxicology of Occupational Exposure to Lead. Environmental Health Perspectives 89: 61-66, 1990. 4. Apostoli, P. & Alessio, L. 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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Análise da Intervenção de um Programa de Atividade Física nos Hábitos de Lazer Mariângela Gagliardi Caro Salve1 Antonia Dalla Pria Bankoff1 1 Faculdade de Educação Física da Universidade de Campinas, Brasil An Appraisal of the Effects that a Physical Activities Program Has on Recreational Habits O presente trabalho teve por objetivo analisar a intervenção de um programa de atividade física nos hábitos de lazer, ou seja, investigar quais as atividades físicas, preferidas, executadas por trabalhadores do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer. Selecionamos 40 voluntários (n=40), do sexo masculino. Elaboramos e aplicamos um programa de atividade física praticada durante o expediente de trabalho, e abordamos questões de como ter hábitos de vida saudáveis, incluindo recomendações sobre a importância prática da atividade física nas horas de lazer. Este teve a duração de 8 meses, com sessões de uma hora, duas vezes por semana. Chamamos de grupo II (n=10) aos que acompanharam o programa até o quinto mês, mas mantivemos contato com esse grupo, orientado-os nas questões acima abordadas até o final do programa. Denominamos grupo III (n=30) os que freqüentaram até terminar o programa. Palavras-chaves Atividade Física, Lazer, Saúde, Qualidade de Vida. The purpose of this work was to assess how a physical activities program affects recreational habits, in other words, to determine the nature of the preferred recreational physical activities of carpentry workers at UNICAMP (UNICAMP University of Campinas, State of São Paulo, Brazil).Accordingly, we selected 40 male volunteers (n=40) and we elaborated a physical activities program that was implemented during working hours. We also dealt with issues relating to healthy living practices, including recommendations concerning the importance of practicing physical activities during recreation time. This program lasted 8 months, with two one-hour sessions each week. A group of 10 workers, denominated Group II, participated only to the fifth month, however we maintained contact with its members and oriented them regarding the aforementioned issues throughout the full program term, we called the volunteers that completed the program Group III (n=30). Keywords Physical Activity, Leisure, Health, Quality of Life. Vol. 28 - nº 105 /106 73 Introduçao Conforme vários estudos mostram a prática regular e sistematizada da atividade física é fundamental na prevenção e controle das doenças crônico-degenerativas. Porém, ainda é grande a porcentagem de população inativa, ou seja, sedentária. Para CARVALHO (1995) embora a maior parte da população adulta possa ser classificada como inativa, somente 15 a 25% seria considerada fisicamente ativa de forma regular. O sedentarismo é considerado como uns dos principais causadores de doenças crônico-degenerativas, como a hipertensão, obesidade, diabetes, lombalgias, entre outras. Existem claras evidências de que o sedentarismo seja o principal fator de risco coronariano, já que é relativamente alto e sua prevalência é bastante superior a dos outros fatores (idade, sexo, história familiar...). Com a inatividade física o corpo responderá atrofiando a massa muscular, perdendo a resistência, diminuindo a massa óssea, as funções pulmonares, a flexibilidade e outras capacidades físicas. Dados epistemológicos mostram que a inatividade física é, provavelmente, um fator de risco individual para causar a hiperlipidemia, a hipertensão, a obesidade e o diabetes. As pessoas inativas, em geral, são mais hipertensas, hiperlipidêmicas, com maior porcentagem de gorduras e propensão de tornarem-se diabéticas não dependentes de insulina. Ao passo que, as pessoas com um estilo de vida mais ativo, têm maiores possibilidades de prevenir essas patologias, ACHOUR (1996). RAMOS (1998) verificou, através de questionário composto de 14 questões, entre 246 alunos da UNICAMP, sendo137 homens e 109 mulheres, que apenas 28,86% dos alunos que entram na universidade apresentam vida ativa, fisicamente, ou seja, realizam exercícios, três ou mais vezes por semana, e 32,93% são considerados intermediários, isto é, praticam atividade física uma ou duas vezes por semana. Segundo BARBANTI (1991) 67% da população adulta brasileira não realiza nenhum tipo de atividade física. MATSUDO et al. (1996) mencionam que pesquisas 74 recentes mostram, que nos Estados Unidos e na Inglaterra, a taxa de inatividade física é de 24 % e 15% respectivamente. Epidemologistas americanos, segundo estes autores, estimam que há, aproximadamente, 250.000 mortes por ano que poderiam ser atribuídas à inatividade física e 32.400 vidas poderiam ser salvas se houvesse incremento na atividade física. O Projeto Saúde (um estudo realizado pelo Ministério da Saúde sob estilo de vida) revelou que 96% das pessoas não têm um estilo de vida inteiramente saudável, somente 10% da população, entre 18 e 55 anos, declaram fazer atividade física regularmente, pelo menos, três vezes por semana. Estudos realizados por MATSUDO et al. (1996), no CELAFISC, em escolares de São Caetano do Sul e Ilha Bela revelaram que os hábitos de atividades físicas das crianças brasileiras são menores e gastam mais tempo assistindo TV que as crianças americanas. Atualmente, nota-se o aumento do número de adolescentes sedentários e mais obesos (MOUSSA et al. 1994). O hábito de assistir televisão tem sido o mais comum entre os adolescentes, existe uma relação positiva entre o nível de adiposidade e o número de horas diárias de TV assistidas (MATSUDO, et al. 1997). O problema agrava-se mais quando há o consumo de alimentos, enquanto se assiste TV (BAR-OR, et al.1998). De acordo com LITVAK et al., (1987) os hábitos sociais, fumo, ingestão de álcool e de cafeína, associados ao estresse e à inatividade física, contribuem para a instalação de cardiovasculares, doenças pulmonares obstrutivas crônicas, neoplasias, diabetes mellitus e cirrose. Essas doenças vêm ocupando um maior espaço de morbimortalidade nas populações latinoamericanas. De acordo com RIGATTO (1994), antigamente, a atividade física era considerada uma maneira de gastar o tempo mais depressa. Hoje, já se comprovou que, se realizarmos exercícios físicos, teremos até quatro vezes mais energia vital no corpo, do que se tivermos uma vida sedentária. Nas sociedades industrializadas, as atividades físicas têm representado, cada vez mais um fator de qualidade de vida, tanto de forma geral, como em relação à saúde Revista Brasileira de Saúde Ocupacional das pessoas, em todas as idades e condições, estando associada à maior capacidade de realização de trabalho físico e mental, com mais entusiasmo, sensação de bem-estar, menor gasto com saúde e diminuição do risco de doenças crônico-degenerativas (BLAIR, 1993). São vários os estudos que indicam benefícios, tanto nos aspectos psicológicos como biológicos da atividade física, ou seja, melhoria da capacidade cardio-respiratória, diminuição de sintomas vasomotores, da pressão arterial, da incidência de doenças cardiovasculares, retardamento e prevenção do aparecimento de diabetes melittus, da osteoporose, da obesidade, da hipertensão, redução da ocorrência de certos tipos de câncer, aumento da expectativa de vida, entre outros. No aspecto psicológico ocorre melhoria da auto-estima, autoconceito, auto-imagem e diminuição da ansiedade e depressão (CORBIN & LINDSEY 1997; DISHMAN, 1994; NIEMAN, 1998; BLUENTHAL et al., 1988; CREWS & LANDERS, 1987; SINYOR, et al. 1983; GUTHRIE, et al.1995). Para RIGATTO (1994) o exercício físico é o melhor tranqüilizante que o homem encontra na natureza, pois a morfina endógena, produzida pelo cérebro na atividade física, é colocada no sangue e circula por todo o corpo cerca de 24 horas após o exercício. Para Carvalho (1995), o exercício físico é um tranqüilizante natural. O exercício físico diminui os sintomas de estresse, ansiedade, depressão e raiva, bem como a influência de estressores psicossociais no indivíduo (BLUMENTHAL et al., 1998; CREWS & LANDERS, 1987 e SINYOR et al., 1993). STEPTOE (1994) comprovou que quanto melhor foi o condicionamento físico dos indivíduos tanto mais favoráveis serão as suas respostas ao estresse. GUISELINI (1996) afirma que o corpo humano é uma máquina de fazer inveja ao mais sofisticado computador. É constuido por 220 ossos, 400 músculos, 1000 Km de artérias, sendo impulsionado pelo músculo cardíaco que pulsa cerca de 60 vezes por minuto, 3600 vezes por hora. Esse conjunto requer cuidados, dedicação e procedimentos. O autor sugere os seguintes procedimen- Vol. 28 - nº 105 /106 tos necessários para a sua perfeita manutenção: - decisão as pessoas devem convercer-se de que cuidar do corpo é algo prioritário; - prazer devem-se convercer que cuidar do corpo é algo agradável; - escolha de atividade - é necessário procurar uma atividade que não apenas fortaleça os músculos, diminua a porcentagem de gordura, mas também beneficie o lado emocional; - respeito ao próprio corpo- é necessário não se tornar um verdadeiro escravo do treinamento. Existem várias opções de atividades físicas que promovem bem-estar físico e mental no organismo humano. KING et al. (1993) revelaram aspectos positivos do exercício aeróbico na redução dos níveis de ansiedade, de depressão e de estresse. SAMULSKI & LUSTOSA (1996) relataram a influência do exercício aeróbico sobre o stresse, o humor e o autoconceito. FIATARONE et al. (1990) sugeriram os exercícios de força, flexibilidade, equilíbrio, coordenação e atividades aeróbicas para a melhoria da saúde e bem estar psicológico de adultos. Para GANDEE (1998) as atividades aeróbicas como caminhada, natação, entre outras, favorecem para tornar o corpo mais relaxado. MAZARINI (1992) recomendou a prática das atividades aquáticas, pois esta proporciona prazer, bem-estar e os indivíduos descobrem novas maneiras de realizar exercícios físicos e a ficarem mais desinibidos. Os exercícios, no meio líquido, oferecem a oportunidade de as pessoas executarem, livremente, os mais diversos movimentos, graças a flutuabilidade do corpo. Essa movimentação é beneficiada quando a temperatura mantiver-se em torno de 28 a 34 graus centígrados. A água aquecida proporciona aumento da circulação sanguínea e da sensibilidade neuro-sensorial, associada à redução dos efeitos da ação da gravidade, que são responsáveis pela melhora do tônus muscular postural. Nesse caso, favorecem uma adequada mobilidade articular e a elasticidade muscular. CAMPOS & POPOV (1998) mencionaram que com a prática da hidroginástica as doenças, como a osteoporose, são altamente 75 controladas, tanto em termos de prevenção, como de tratamento. Outra atividade importante é a caminhada, pois essa contribui para melhorar a atividade do sistema nervoso, cardiovascular e respiratório do organismo. É indicada para pessoas que estão iniciando um programa de atividade física, indivíduos obesos, idosos e para os que possuem problemas no sistema locomotor. RIPPE et al (1998) relataram que a prática da atividade física moderada, como a caminhada, provoca redução do aparecimento de doenças do coração, contribui para a diminuição da ansiedade, tensão, controle do índice do colesterol, hipertensão e diminuição na velocidade da instalação da osteoporoe. Os exercícios respiratórios melhoram e ativam a função da respiração pulmonar e contribuem diminuindo os gastos energéticos do organismo. Os exercícios podem ter caracter estático ou dinâmico, isto é, com presença ou falta de movimentos de braços e tronco, respectivamente. Para executálos é preciso recomendar a respiração nasal, a fim de evitar hiperventilação e diminuição do tempo da respiração (CAMPOS & POPOV, 1998). Assim, a atividade física é um dos elementos fundamentais para aquisição e manutenção de uma boa qualidade de vida. A sua prática, nas horas de lazer, é importante no estabelecimento do equilíbrio físico e mental. Podemos considerar que em décadas mais recentes, segundo NAHAS (1997), a qualidade de vida tem emergido como um fator de destaque em investigações na área da saúde, nos estudos ligados às condições de trabalho e na perspectiva de lazer do ser humano. A atividade física, no lazer, representa um fator importante de qualidade de vida Para SABA (1998) o conceito de aptidão física, que atualmente se procura adotar envolve todas as dimensões do comportamento humano. Hoje, a aptidão física conversa com outras áreas, dialoga que outros fatores que incidem sobre o homem e a sua natureza. Essa atitude difere daquela anteriormente predominada, que ficava preocupada, somente, em conseguir alguns minutos, a menos, em determinadas práticas. O conceito da aptidão física estava forte76 mente associado às variáveis que afetam a performance esportiva, restrita somente a um grupo de pessoas que se dedicavam a essa prática (alguns por profissão, outros poucos, por lazer). A consciência da aptidão física que se tem hoje é que há outros elementos que ultrapassam o potencial hereditário, elementos que dependem da oportunização da prática de qualquer atividade física para o desenvolvimento das capacidades físicas. Assim, hoje, aptidão física está relacionada aos aspectos que levam à melhoria da qualidade de vida. A busca por uma saúde melhor, por uma vida saudável, eis o desafio que percorrem pessoas que abandonam a vida sedentária, em busca de um outro universo referencial. É necessário que se criem condições e espaços adequados para se alcançar esses objetivos. AMERICAN HEART ASSOCIATION, SUBCOMMITTEE on EXERCISE/CARDIAC REHABILITION (1981) recomenda a pratica da atividade física, independente da idade, do sexo e do local, com segurança e orientação profissional, de forma regular e sistematizada e por toda a família. É importante constar com mudanças nos hábitos alimentares, reeducação no que diz respeito às atividades realizadas no dia-adia, como jogar vídeo-game, navegar pela internet muitas horas seguidas, utilização de elevadores no lugar de escadas, etc. A saúde deve ser considerada de forma mais abrangente, envolvendo bem-estar físico, psíquico e social. A prevenção ou tratamento das doenças crônico-degenerativas vai se estabelecer a partir da identificação e remoção dos agentes causadores por essas doenças, chamados de fatores de riscos. O treinamento físico protege o desenvolvimento das doenças coronarianas, além de garantir a sobrevida após um ataque cardíaco. Nesse sentido, a consciência dos benefícios da prática regular ajuda em programas de atividade física (SAMULSKI & LUSTOSA, 1996). O NIH CONSENSUS CONFERENCE (1996) propõe que sejam desenvolvidas estratégias para encorajar indivíduos, com diferentes experiências e conhecimentos, a admitir e aderir a um estilo de vida ativo. DISHMAN (1993) considera que mesmo em países desenvolvidos, através de inforRevista Brasileira de Saúde Ocupacional mações eficientes para conscientizar a população dos malefícios causados pela vida sedentária, grande parte da população se mostra insensível. A consciência do valor da prática da atividade física, seja nas horas de lazer ou no trabalho, é fundamental, tanto em termos de saúde como em qualidade de vida. A seguir veremos o que os autores entendem por lazer. Segundo DUMAZADIER (1973) lazer é: ...conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se, de livre vontade, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua formação desinteressada, sua participação social voluntária, ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais. Para REQUIXA (1980) lazer é ...ocupação não obrigatória, de livre escolha do indivíduo da qual vive e cujos valores propiciam condições de recuperação psicossomática e de desenvolvimento pessoal e social. MEDEIROS (1980) entende como lazer: espaço de tempo não compreendido, do qual podemos dispor livremente, porque já cumprimos nossas obrigações de trabalho e de vida. No conceito de MARCELINO (1987) lazer é uma escolha individual praticada no tempo disponível e de que ocorrem determinados efeitos, como descanso físico e mental, divertimento, desenvolvimento da personalidade e da sociabilidade. O lazer também pode ser considerado como atitude, assim não abrange somente as situações de prática, uma vez que a atitude independe da situação da prática ou de consumo, ou seja, um indivíduo pode ativamente participar de espetáculo de teatro, fazendo parte ativamente da montagem da platéia. Diante da necessidade de aquisição de hábitos saudáveis recorremos às recomendações de AMORIM et al. (1997), ou seja, que ao oferecer atividades essas venham Vol. 28 - nº 105 /106 de encontro às necessidades e motivações individuais, torna-se fundamental conhecer as experiências de grupos específicos e os seus hábitos, de forma a possibilitar a elaboração de programas de atividades físicas, capazes de estimular a incorporação e manutenção de vida saudável, visando proporcionar um impacto na qualidade de vida. Esse trabalho teve por objetivo analisar a intervenção de um programa de atividade física nos hábitos de lazer, ou seja, investigar quais as atividades físicas preferidas, executadas por trabalhadores do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer. Metodologia Elaboramos um programa de atividade física composta por exercícios de alongamentos musculares, relaxamentos, equilíbrio corporal, respiratórios, caminhada e hidroginástica e abordamos questões dos vários hábitos de vida que a tornam saudável, incluindo a importância da prática da atividade física nas horas de lazer. O programa teve a duração de 8 meses, com sessões de uma hora, duas vezes por semana. Também, elaboramos um protocolo de avaliação, composto por vinte e uma questões abertas e fechadas, que foi aplicado antes e após o término do programa. O programa foi aplicado no Laboratório de Eletromigrafia e Postura, no bosquinho, na piscina da Faculdade de Educação Física e nas dependências da marcenaria da UNICAMP. Selecionamos 40 voluntários (GI, n=40), do sexo masculino, trabalhadores do setor da marcenaria da UNICAMP, com idade compreendida entre 33 e 60 anos. Chamamos de grupo II ( GII, n=10) aos que acompanharam o programa até o quinto mês, mas mantivemos cantato com esse grupo, orientando-os nas questões acima abordadas até o final do programa e grupo III ( GIII, n=30) aos que freqüentaram até terminar o programa. 77 Resultados Tabela 01 Atividades físicas, preferidas e executadas pelos trabalhadores do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer, antes e após o programa de atividade física. F.A. freqüência absoluta F.R.- Freqüência relativa 45 40 35 futebol 30 caminhada 25 alongamento 20 corrida 15 natação 10 bicicleta 5 0 antes após Gráfico 01 Atividades físicas, preferidas e executadas pelos trabalhadores do grupo I do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer, antes e após o programa de atividade física. 30 25 20 futebol 15 caminhada 10 alongamento corrida 5 0 antes após Gráfico 02 Atividades físicas, preferidas e executadas pelos trabalhadores do grupo II do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer, antes e após o programa de atividade física. 78 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional 50 40 futebol caminhada 30 alongamento 20 corrida natação 10 bicicleta 0 antes após Gráfico 03 Atividades físicas, preferidas e executadas pelos trabalhadores do grupo III do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer, antes e após o programa de atividade física. Análise dos resultados Observamos que aumentou o interesse e a prática da atividade física nos três grupos analisados. O grupo I inicialmente somente jogava futebol (7.5%), passou a praticar ciclismo (12.5%), corrida (5%), natação (2.5%), fazer alongamentos musculares (10%), caminhada (7.5%) e aumento da porcentagem de praticantes do futebol (42.5%). O mesmo ocorreu com o grupo II, que só jogava futebol (30%) e passou a caminhar (10%), fazer alongamentos musculares (10%), andar de bicicleta (10%) e corrida (2%) e notamos diminuição de praticantes do futebol (20%). Com o grupo III notamos como ocorreu um grande interesse pela prática da atividade física, era um grupo de indivíduos que não se exercitavam, e com a intervenção de nosso programa, passou a dedicar um tempo do lazer à pratica do futebol (50%), caminhada (6.6%), alongamentos musculares (10%), bicicleta (10%), corrida (20%) e natação (3.3%). FERRAREZI (1997) traçou o perfil 77 indivíduos, sendo 38 mulheres e 39 homens, frequentadores do parque da lagoa do Taquaral na cidade de Campinas, SP, .Utilizou um protocolo de avaliação com 22 questões abertas e fechadas. Os resultados mostraram que 50% realizam atividades físicas como forma de lazer, sendo em menos de 1 ano: 13.7%, 1 a 5 anos: 43.8% e mais de 5 anos: 42.5%. Tempo diário dedicado: até uma hora: 73.3% e mais de 1 hora: 26.7%. Número de atividades: Vol. 28 - nº 105 /106 uma: 21.2%, duas: 60.3% e três ou mais: 18.5%. Nos anos da década de 70, um projeto de grande envergadura tinha por objetivo estimular a prática da atividade física. O programa foi denominado de Esporte para Todos, com apoio da televisão, por meio da chamada Mexa-se. Esse colocou dezenas de pessoas nas ruas conscientizando-as da prática, até então, pouco difundida. Era o prenúncio da mudança de comportamento que assiste, no final da década de noventa, com parques lotados, as academias se proliferando e a consciência emergindo em um sentido de viver mais e melhor (SABA, 1998). O projeto Agita São Paulo, criado pelo governo estadual, tem conseguido atingir os seus objetivos, isto é, estimular as pessoas a gastar calorias com exercícios físicos. Semelhante ao programa de Atlanta, criado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, o programa oferece à população, atividades físicas, para estimular hábitos mais saudáveis. Idealizado pelo Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul, o programa aborda vários grupos de pessoas, por meio de caminhada, palestras e jogos e consegue estimular as pessoas a realizarem atividades físicas, tanto sozinhas, como em grupos. Esse projeto, além de proporcionar melhora na qualidade de vida das pessoas participantes, proporciona outro elemento fundamental: a integração. Os indivíduos são motivados a desenvolver programas em conjunto com a sua comunidade e, é 79 interessante observar, que tomam consciência de que a vida sedentária cria hábitos terríveis e danos irreparáveis à saúde (SABA, 1998). Conclução Atualmente o termo qualidade de vida vem sendo muito utilizado. Vários estudos comprovam que a prática da atividade física, é um dos elementos fundamentais para a aquisição ou manutenção do estado da saúde, considerado adequado, tanto nos aspectos físico como mental. A atividade física, escolhida para ser praticada, deve ser aquela de que o indivíduo mais goste e que sinta prazer ao executá-la. Apesar dos valores da prática da atividade física, uma grande parte da população brasileira, ainda é sedentária. Portanto, tornam-se necessárias campanhas e programas que divulguem os seus benefícios. Os profissionais de Educação Física devem oferecer programas de atividades físicas que não proporcionem somente a vivência da prática da atividade, mas também, devem abordar aspectos teóricos que contribuam para o enriquecimento pessoal dos indivíduos. Recomendamos a abordagem dos vários aspectos necessários à aquisição de qualidade de vida adequada. Sugerimos o enfoque da importância de termos hábitos saudáveis nas horas de lazer, ou seja, a prática da atividade física. Concluímos que o programa foi eficiente, no sentido de conscientizar a população estudada, dos benefícios da prática da atividade física, tornando-os mais ativos fisicamente, tanto no trabalho, como principalmente no lazer. Observamos que os voluntários optaram pela prática, também, de outras atividades físicas, além do futebol, contribuindo para o aumento do repertório motor e melhoria da qualidade de vida da população estudada. Referências Bibliográficas ACHOUR,A. 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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Segurança no Trabalho de Aplicação de Agrotóxicos com o Pulverizador de Pistolas em Citros Maurício Leite de Oliveira1 Joaquim Gonçalves Machado Neto2 1 Engenheiro Agrônomo - M.Sc. e Aluno do Curso de PósGraduação da Universidade Estadual de São Paulo 2 Professor Livre-Docente do Departamento de Fitossanidade, da Universidade Estadual de São Paulo Work Safety in Pesticide Spraying of Citrus Fruits Using Hand Gun Sprayers O presente estudo objetivou quantificar as exposições dérmicas e respiratórias proporcionadas pelas condições de trabalho de aplicação de agrotóxicos em cultura de citros com o pulverizador de pistolas; avaliar a eficiência de medidas de proteção individual e coletiva para esses trabalhadores; determinar as regiões mais expostas do corpo dos trabalhadores; e classificar as condições de trabalho, sem e com as medidas de proteção testadas, quanto à segurança ocupacional das recomendações de agrotóxicos registrados para o controle das principais pragas e doenças dessa cultura. Verifica-se que, para o tratorista, pulverizando com o pulverizador de pistolas, a medida de proteção mais eficiente foi o conjunto AZR e, para o aplicador, os dois conjuntos avaliados foram eficientes. Para o tratorista, as regiões mais expostas do corpo foram as coxas + pernas frente, os pés e as mãos; e, para o aplicador foram, os pés e as mãos. Palavras-chaves Agrotóxicos, Exposição Dérmica, Exposição Respiratória, Citrus. The purpose of this study envisaged the quantification of skin and respiratory exposures occasioned by work conditions during pesticide spraying of citrus fruits using hand gun sprayers; the evaluation of the efficiency of individual and group protection measures for the workers; the determination of workers most exposed body regions; and the classification of work conditions, with and without the tested work-safety protection measures as recommended for the registered pesticides used to control the main pests and diseases that attack these types of trees and fruits. The AZR protection equipment proved to be the most efficient for the tractor driver, when spraying using pistol sprayers. The two sets of individual protection equipment that were checked also proved to be efficient. The most exposed regions of the tractor drivers body were the thighs, the front of the legs, the feet and hands. The most exposed regions of the individual sprayer working on foot were the hands and feet. Keywords Pesticides, Skin Exposure, Respiratory Exposure, Citrus Fruit. Vol. 28 - nº 105 /106 83 Introdução No Brasil, a citricultura destaca-se como o quinto maior consumo de agrotóxicos aplicados, correspondendo a 4% do total das vendas de 2,5 bilhões de dólares no ano de 2000 (SINDAG, 2000). Entretanto, os processos convencionais de aplicação desses agrotóxicos caracterizam-se por alto desperdício. Matuo (1988) constatou que a retenção no alvo foi de 47 a 50% dos 10 litros de calda, aplicados por planta de citros, com o pulverizador de pistolas. A calda não retida no alvo fica dispersa no ambiente e pode atingir os trabalhadores envolvidos nessas atividades e causar-lhes intoxicações. As medidas de proteção que controlam as exposições ocupacionais aos agrotóxicos atuam na prevenção do contato dos produtos com as vias de exposição do corpo. Em condições de aplicação de agrotóxicos no campo, 99%, ou mais, da exposição total ocorre na via dérmica e apenas 1%, ou menos, na via respiratória (WOLFE et al., 1972; VAN HEMMEN, 1992). Logo, o conhecimento das exposições dérmica e respiratória potenciais, das características tóxicas dos agrotóxicos e da eficiência das medidas de proteção, é de grande importância para a adoção de estratégias de segurança, mais efetivas, confortáveis, econômicas e aplicáveis nas condições específicas de trabalho. Em condições de campo, tem-se recomendado, como medida de proteção no trabalho com agrotóxicos, apenas o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs). Entretanto, quando os trabalhadores têm acesso aos EPIs, eles são desconfortáveis e de uso insuportável, pois proporcionam grande retenção de umidade e de calor na superfície do corpo (BULL & HATHAWAY, 1986). Na cultura estaqueada de tomate, Machado Neto et al. (1993) verificaram que guarda-pós, confeccionados em fios de fibra sintética prensados (Non Woven), controlaram de 73 a 78%, em média, a exposição dérmica do tórax, dos braços e dos antebraços dos aplicadores de agrotóxicos nessa cultura. Van Hemmen (1992) relata que, em pulverizações dirigidas para o alto, o uso de cabina, no trator, reduz a exposição dérmica do tratorista. Os objetivos deste trabalho foram: quantificar as exposições dérmicas e respi84 ratórias proporcionadas pelas condições de trabalho, na aplicação de agrotóxicos, em cultura de citros com o pulverizador de pistolas; determinar as regiões mais expostas do corpo dos trabalhadores; avaliar a eficiência de medidas de proteção individual e coletiva para esses trabalhadores; e classificar as condições de trabalho, sem e com as medidas de proteção testadas, quanto à segurança ocupacional das recomendações de agrotóxicos registrados para o controle das principais pragas e doenças dessa cultura. Material e Métodos As exposições do tratorista e do aplicador, trabalhando com o pulverizador de pistolas, foram avaliadas em pulverizações de pomares de laranja, da variedade Pêrario, com plantas de 2,5 e 3,0 m de altura. O pulverizador de pistolas utilizado foi da marca Rolanzir, com tanque de 2000 L de capacidade e duas mangueiras de 4 m de comprimento com lanças de aplicação do tipo pistolas, contendo pontas D10 nos bicos. Esse equipamento foi arrastado por um trator Valmet 68, trabalhando em 1a marcha reduzida e na rotação de 1500 rpm. Essa pulverização tem duas atividades distintas: o tratorista, que dirige o trator; e os aplicadores, normalmente duas pessoas que trabalham sobre uma plataforma acoplada na parte traseira do tanque do pulverizador, a 0,5 m de altura em relação ao solo, e que realizam a aplicação da calda. Essa aplicação é realizada, direcionando-se os jatos das pistolas de pulverização às plantas das duas linhas laterais ao deslocamento do conjunto trator-pulverizador nas entrelinhas da cultura. Os aplicadores movimentam os jatos de calda de modo a atingirem todas as partes da copa das plantas. O pulverizador foi calibrado com a pressão de 21 bar para aplicar o volume de 10 L de calda por planta. A segurança ocupacional das atividades de aplicação de agrotóxicos com o pulverizador de pistolas, em cultura de citros, foi calculada com os dados de exposição dérmica (ED) e de exposição respiratória (ER) proporcionadas aos trabalhadores em condições de campo. Essas avaliações foram realizadas durante os anos de 1999 e 2000, em pomares localizados no município de Matão-SP. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Denominaram-se exposição dérmica potencial (EDP) e exposição respiratória potencial (ERP) as EDs e ERs avaliadas sem medidas de proteção e que, teoricamente, poderiam atingir as vias de exposição dérmica e respiratória. Foram denominadas exposição dérmica não controlada (EDNC) e exposição respiratória não controlada (ERNC), as exposições não controladas pelas medidas de proteção. As EDNCs foram avaliadas em vestimentas amostradoras usadas sob os dois conjuntos de proteção individuais e quando os trabalhadores usaram os equipamentos de proteção coletivos. Foi considerada, para as botas e para a máscara descartável com filtro de carvão ativado, a eficiência de 95% de controle das exposições avaliadas, de acordo com Lundehn et al. (1992). As EDPs foram avaliadas em trabalhadores expostos às caldas que continham o cátion cobre (Cu+2) do fungicida cúprico Cuprogarb 500 PM como traçador, conforme metodologia descrita e utilizada por Machado Neto (1997). Como amostradores das exposições dérmicas, foram utilizadas vestimentas semelhantes às utilizadas por Pradela (1998). As vestimentas amostradoras foram constituídas de absorventes higiênicos femininos, para amostrar as exposições nos pés e na face, e macacão e luvas de algodão, para as demais partes do corpo. As exposições foram avaliadas em períodos inferiores a uma hora de trabalho e, posteriormente, extrapoladas para um dia de seis horas de exposição efetiva (MACHADO NETO, 1997). As ERPs foram avaliadas em filtros de éster celulose da marca SKC, com porosidade de 0,8 mm, utilizados em cassetes de bombas de fluxo de ar contínuo, marca A. P. Buck, reguladas com a vazão de 2 L/min. Os cassetes foram posicionados na região de respiração dos trabalhadores expostos às caldas, que continham cátion manganês (Mn+3) como traçador (OLIVEIRA, 2000). As ERPs foram avaliadas por períodos de aproximadamente três horas e, posteriormente, extrapoladas para um dia de seis horas de exposição efetiva. As EDPs e ERPs às caldas foram estimadas com os valores de Cu+2 e Mn+3 utilizados como traçadores e suas respectivas concentrações nas caldas aplicadas. Todas as atividades foram avaliadas com 10 repetições. Vol. 28 - nº 105 /106 Os macacões, seccionados em partes (capuz, braços, tórax-frente, tórax-atrás, coxas + pernas-frente e coxas + pernas-atrás), as luvas de algodão, os absorventes higiênicos femininos e os filtros coletores das bombas pessoais foram imersos em solução de HCl 0,2 N para a solubilização dos cátions. As EDs das partes do corpo do trabalhador foram avaliadas nas seguintes regiões do corpo: cabeça + pescoço, face, mãos, braços, tórax-frente, tórax-atrás, coxas+pernas-frente, coxas+pernas-atrás e pés. Os amostradores permaneceram na solução solubilizadora por duas horas. Em seguida, as amostras foram agitadas, e uma alíquota dessas soluções com Cu+2 foi filtrada em filtro de papel qualitativo (MACHADO NETO & MATUO, 1989). Nas amostras com Mn+3, procedeu-se apenas à retirada dos filtros de éster celulose das soluções. Os cátions foram quantificados nas alíquotas dessas soluções em espectrofotômetro de absorção atômica (GBC 932 AA). Foram avaliados, como medidas de proteção individual, o conjunto AZR para o tratorista e para o aplicador e o conjunto ROUPA UNESP, apenas para o aplicador. O conjunto AZR foi composto pelas seguintes vestimentas: blusa de mangas compridas, calças compridas e touca árabe com aba frontal, confeccionadas em tecido de algodão tratado com Teflon®, para proporcionar hidrorrepelência, viseira de acetato transparente, avental de material impermeável (tipo napa), luvas de nitrila, botas de borracha e máscara descartável com filtro de carvão ativado. O conjunto Roupa Unesp foi composto pela vestimenta Roupa Unesp (confeccionada em plástico impermeável para a proteção dos braços e parte frontal do corpo e pernas, e aberta na região posterior do corpo para proporcionar ventilação e maior conforto), chapéu de palha, viseira de acetato transparente, luvas de nitrila, botas de borracha e máscara descartável com filtro de carvão ativado. Como medida de proteção coletiva para o tratorista, avaliou-se a eficiência de uma semicabina, fabricada pela Indústria Agro Leite Irmãos Oliveira Leite LTDA, acoplada à capota original do trator. A semicabina é fechada com estruturas de metal e vidro nas partes frontal e traseira, e parcialmente fechada nas laterais, aberta na região entre os pára-lamas e as laterais do painel de 85 instrumentos do trator. Estas aberturas laterais são locais de entrada ou de saída do operador no trator. As partes do corpo do tratorista que se encontram na região das aberturas laterais do acessório, ficam livremente expostas ao ambiente e passíveis de exposição às caldas pulverizadas. As exposições às caldas, quantificadas com os traçadores, foram utilizadas como dados substitutos, de acordo com Jensen (1984), para estimar as exposições aos agrotóxicos recomendados para aplicação nas condições avaliadas. Foram calculadas as EDPs e as ERPs para as 21 recomendações dos seguintes agrotóxicos: acrinathrin, azocyclotin, benomil, bromopropylate, chlorothalonil, chlorpyrifós, cyhexatin, deltamethrine, dicofol, dimethoate, ethion, fenbutatin oxide, fenpyroximate, hexythiazox, methidathion, parathion methyl, propargite, thiophanato methyl, triazophos, triclorfon e vamidothion, considerando-se as respectivas dosagens recomendadas (ANDREI, 1999). Esses agrotóxicos foram escolhidos por serem os mais tóxicos ou os mais utilizados pelos citricultores nessas condições de pulverização. A segurança das condições de trabalho com cada agrotóxico foi estimada por meio do cálculo da margem de segurança (MS) com a fórmula de Severn (1984) modificada por Machado Neto (1997), que é a seguinte: MS = (NOEL x 70) / (QAE x 10), onde: MS = margem de segurança, NOEL = nível de efeitos não observados (mg/kg/ dia) (TOMLIN, 1997); 70 = peso corpóreo médio (kg); 10 = fator de segurança para compensar a extrapolação dos valores de NOEL obtidos em animais de laboratório para o homem (BROUWER et al., 1990); e QAE = quantidade absorvível das exposições avaliadas (mg/dia). No cálculo da MS na via dérmica, foi considerada a QAE = 10% da ED avaliada (0,1 x ED). No cálculo da MS na via respiratória, considerouse QAE = 100% da ER avaliada. A MS total (ED + ER) foi calculada considerando a QAE = [(0,1 x ED) + (ER)]. O critério utilizado para a classificação da segurança das condições de trabalho foi o seguinte: se MS ³ 1, condição segura, exposição aceitável e risco tolerável, e se MS < 1, condição insegura, exposição inaceitável e risco intolerável, segundo Machado Neto (1997). Resultados e Discussão Na Tabela 1, estão apresentados os resultados das avaliações das exposições potenciais, nas vias dérmica e respiratória, às suspensões de cobre e de manganês, respectivamente, para o tratorista e para o aplicador com a pistola de pulverização, sem e com medida de proteção. Para o tratorista, verifica-se que 99,98% da exposição total ocorreu na via dérmica e apenas 0,02% na via respiratória. Para o aplicador com a pistola de pulverização, 99,99% da exposição total ocorreu na via dérmica e 0,01% na via respiratória. Esses resultados concordam com Wolfe et al. (1972) e Van Hemmen (1992), onde relatam que 99%, ou mais, da exposição total ocorre na via dérmica e apenas 1%, ou menos, na via respiratória. Tabela 1 Exposições potenciais (EP) e exposições não controladas (ENC) pelas medi- das de proteção (AZR, Semicabina e Roupa Unesp), em mL de calda por dia de trabalho e eficiências (%) das medidas de proteção em reduzir a exposição total do tratorista e do aplicador, trabalhando com a pistola de pulverização, aplicando agrotóxicos com o pulverizador de pistolas em citros. Exposições 86 (mL de calda/dia) EP Sem proteção Dérmica Tratorista ENC Aplicador EP ENC Sem Roupa AZR proteção Unesp AZR Semicabina 57,2 12,7 55,7 356,7 24,7 77,3 Respiratória 0,014 0,001 0,013 0,028 0,001 0,001 Total 57,214 12,701 55,713 356,728 24,701 77,301 Eficiência (%) - 77,8 2,6 - 93,1 78,3 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional A menor EDP avaliada para o tratorista pode ser explicada devido este operador estar a uma distância maior da pistola de pulverização do que o aplicador que realiza a pulverização propriamente dita, segurando esse acessório com as mãos e sofrendo maior exposição. A eficiência das medidas de proteção para o tratorista pode ser observada na Tabela 1. Verifica-se que o conjunto AZR foi a medida de proteção mais eficiente, controlando 77,8% da exposição total. A semicabina não proporcionou proteção satisfatória, pois a exposição controlada por esse equipamento foi de apenas 2,6% da exposição total. A baixa eficiência da semicabina no controle da exposição total do tratorista deve-se às aberturas laterais deste acessório, que possibilita a entrada de ar contaminado com as gotas de pulverização. A eficiência das medidas de proteção para o aplicador com a pistola de pulverização pode ser verificada na Tabela 1. A medida de proteção, mais eficiente, foi o conjunto AZR, controlando 93,1% da exposição total. O conjunto Roupa Unesp pro- porcionou 78,3% de controle da exposição total, porém deve-se atentar para o detalhe da abertura total desse equipamento na região posterior do corpo do trabalhador. Essa abertura tem a função de proporcionar a troca de calor, entre o corpo e o ambiente, conseqüentemente, proporcionando maior conforto no trabalho com esse equipamento. A distribuição da exposição dérmica potencial, nas diversas partes do corpo do tratorista, trabalhando com o pulverizador de pistolas, e respectivos percentuais dessa exposição, estão apresentados na Figura 1. Verifica-se, que 56,34% da exposição dérmica total foi distribuída nas seguintes partes do corpo, em ordem decrescente: coxas + pernas - frente, pés e mãos. Com esses resultados, observa-se que, apenas a proteção destas partes mais expostas, a exposição total seria reduzida em mais de 50%. Na Figura 1, também está apresentada a distribuição da exposição dérmica total nas diversas partes do corpo do aplicador com a pistola de pulverização e respectivos percentuais dessa exposição. Observa- Figura 1 Distribuição da exposição dérmica total pelas partes do corpo, em mL de calda por dia e em porcentagem, das partes do corpo mais expostas em relação à exposição total do tratorista e do aplicador com a pistola de pulverização, trabalhando com o pulverizador de pistolas em citros. Vol. 28 - nº 105 /106 87 se, que 62,25% da exposição total ocorreu em apenas duas partes do corpo, em ordem decrescente: pés e mãos. Observa-se que, apenas com a proteção destas duas partes, mais expostas, poderia reduzir-se mais de 60% da exposição total destes aplicadores. Esses resultados possibilitam recomendar, principalmente, os equipamentos de proteção individual para as partes mais expostas do corpo desses operários, adequando-se o uso de equipamento de proteção de acordo com a necessidade de controlar a exposição, suficiente para tornar a condição de trabalho segura e com o menor desconforto possível para o trabalhador. Ao calcular as MSs, verificou-se que foram seguras para o tratorista, sem proteção, as 14 recomendações dos seguintes agrotóxicos: acrinathrin, azocyclotin, benomil, bromopropylate, chlorothalonil, cyhexatin, deltamethrine, fenbutatin oxide, fenpyroximate, hexythiazox, propargite, thiophanato methyl, triclorfon e vamidothion. Com a utilização da semicabina, 15 recomendações de agrotóxicos foram seguras, além das já citadas, a recomendação de dicofol e, com o conjunto AZR, 18 recomendações, além das anteriores, as recomendações de dimethoate, ethion e methidathion. Para o aplicador, trabalhando com a pistola de pulverização, sem proteção, foram seguras as 8 recomendações dos seguintes agrotóxicos: acrinathrin, benomil, bromopropylate, fenbutatin oxide, fenpyroximate, hexythiazox, thiophanato methyl e vamidothion. Usando o conjunto Roupa Unesp, 14 recomendações, além das citadas, também foram seguras: azocyclotin, chlorothalonil, cyhexatin, deltamethrine, propargite e triclorfon e, com a utilização do conjunto AZR, 16 recomendações, além das anteriormente citadas, as recomendações com dicofol e ethion Quanto à eficiência das medidas de proteção avaliadas nas duas condições de trabalho, verifica-se que o número de recomendações seguras foi maior do que quando não se utilizaram as medidas de proteção. A composição da MS, para cada recomendação, sofre influência da toxicidade intrínseca de cada um dos agrotóxicos e 88 da exposição proporcionada pelas condições de trabalho aos trabalhadores, concordando com as observações de Turnbull (1985). O efeito da toxicidade do agrotóxico na segurança da condição de trabalho pode ser verificado dentro de uma mesma atividade realizada na aplicação de diferentes agrotóxicos, que resultam em diferentes valores de MS e, conseqüentemente, em diferentes classificações de segurança. Por outro lado, o efeito da exposição pode ser observado comparando-se a segurança na aplicação de um mesmo agrotóxico em atividades diferentes. A atividade pode ser segura para o tratorista e insegura para o aplicador; o fator determinante foi, nesse caso, a exposição sofrida por esses trabalhadores, proporcionada pela condição específica de trabalho de cada operador. Conclusões Considerando-se os resultados obtidos e as condições em que as avaliações das exposições ocupacionais foram realizadas, pode-se concluir que, para o tratorista, pulverizando com o pulverizador de pistolas, a exposição potencial total (dérmica + respiratória) foi de 57,2 mL de calda por dia, sendo que as regiões mais expostas do corpo foram as coxas + pernas frente, os pés e as mãos; para o aplicador, a exposição potencial total foi de 356,7 mL de calda por dia, sendo os pés e as mãos as regiões mais expostas do corpo desse trabalhador. A medida de proteção mais eficiente, para o tratorista, foi o conjunto AZR e, para o aplicador, trabalhando com a pistola de pulverização, os conjuntos AZR e Roupa Unesp foram eficientes. Classificaram-se como seguras, para tratorista sem proteção (EDP), 14 recomendações, com a utilização da semicabina, 15 recomendações e, 18 com o conjunto AZR, das 21 recomendações de agrotóxicos estudadas. Para o aplicador, sem proteção (EDP), foram seguras 8 recomendações, 14 com a utilização da Roupa Unesp e, com o conjunto AZR 16 recomendações, das 21 recomendações de agrotóxicos estudadas. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Referências Bibliográficas ANDREI, E. (ed.). Compêndio de defensivos agrícolas: guia prático de produtos fitossanitários para uso agrícola. São Paulo: Organização Andrei Editora LTDA, 1999. 672p. BROUWER D.H. et al. Respiratory exposure to field-strength dusts in greenhouses during application and after re-entry. Annual report 1990, TNO Health Research, p. 183-184, 1990. BULL, D.; HATHAWAY, D. Pragas e venenos: agrotóxicos no Brasil e no terceiro mundo. Petrópolis: Vozes, 1986. 235p. JENSEN, J.K. The assumptions used for exposure assessments. In: SIEWIERSKI, M. (ed.). Determination and assessment of pesticide exposure. New York: Elsevier, 1984. p. 147-152. LUNDEHN, J. et al. 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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Postura Corporal - um Problema que Aflige os Trabalhadores Mariângela Gagliardi Caro Salve1 Antonia Dalla Pria Bankoff1 1 Laboratório de Eletromiografia e Biomecânica da Postura Faculdade de Educação Física Universidade Estadual de Campinas Body Posture a Problem that Afflicts Workers Este artigo aborda primeiramente, aspectos e entendimento dos autores referentes às definições de postura corporal, os mecanismos responsáveis pela sua manutenção, qual é a postura considerada adequada ou inadequada, os distúrbios e medidas de prevenção. Concluímos que a postura, é um sistema altamente complexo e varia de indivíduo para indivíduo. É a manifestação corporal do ser humano no meio em que vive. Nela está implicada a personalidade, a maneira de posicionar-se diante das diversas situações, reflete a trajetória de vida e é o resultado de vários sistemas que atuam no organismo. Diante dos diferentes estímulos, os indivíduos podem adotar uma postura adequada ou inadequada. Na postura inadequada observa-se um desarranjo em vários elementos internos e externos ao corpo, causando em certos casos, dores e desconfortos. Quando ocorre algum desequilíbrio nos componentes da postura, surgem as alterações, doenças e desvios do eixo corporal. Para prevenir problemas posturais é necessário que se pense nos seguintes fatores: ambiente, mobiliários, espaço e tipo de trabalho, pausas, equipamentos e ferramentas, devem ser respeitadas as características biomecânicas do indivíduo, contribuindo para a sua qualidade de vida. Palavras-chaves Postura Corporal, Distúrbios Posturais, Medidas de Controle. This article deals primarily with issues related to the definitions of body posture, the mechanisms responsible for its maintenance; of what is considered adequate or inadequate; disturbances and preventative measures and the authors understanding of the subject. We conclude that posture is a very complex system and varies from one individual to the next. Its the corporal manifestation of the human being within the environment in which it lives. Ones personality is intertwined in it, the stance one adopts in relation to Lifes varied situations reflects ones trajectory and its the result of the various systems that operate in the organism. Individuals can adopt an adequate or inadequate posture when faced with diverse stimuli. A disarrangement of various elements, both internal and external to the body can be observed in the inadequate posture, in some cases resulting in pain and discomfort. When a degree of imbalance occurs in the postural elements then alterations, disease and deviations from the body axis tend to occur. The following factors need to be considered in order to prevent postural problems, namely, ones environment, furniture, physical space and type of work, rest periods, tools and equipment, remembering that bio-mechanical characteristics should be respected, as together they all contribute to the individuals quality of life. Keywords Body Posture, Postural Disturbances, Control Measures. Vol. 28 - nº 105 /106 91 Introdução De acordo com KNOPLICH (1985), observa-se um aumento significativo de indivíduos portadores de doenças ligadas à coluna vertebral em relação à época mais remota quando não se registravam com tanta freqüência. Os distúrbios de coluna vertebral são a segunda causa de pedido de afastamento do trabalho. No Brasil, em relação ao desenvolvimento de ocupações profissionais, 80% das pessoas têm ou terão problemas posturais, representando a segunda grande causa de afastamento do trabalho (MERCÚRIO, 1978). Nos países escandinavos observa-se um contínuo crescimento do número de trabalhadores com pedido de afastamento de trabalho, média de 40 dias, devido à lombalgia. No ano 2000, os problemas de coluna inviabilizaram o sistema médico na Suécia (NACHEMSON, 1991). Segundo POLLOCK; WILMORE (1993) pôde-se constatar que em 1974 as companhias de seguro registraram um número maior de pedidos de afastamento de trabalho, por problemas lombares, que por qualquer outro motivo. Segundo MENDES (1995) das estáticas de mortalidade, de todos os países, as afecções músculo-esqueléticas têm ocupado os primeiros lugares, seja na forma de acidentes ou de doenças. Os problemas lombares têm sido causa de enormes perdas para a economia do país, elevando as taxas de absenteísmos nas fábricas, causando grandes gastos, diretos ou indiretos, para o sistema de saúde, com tratamentos controvertidos e aposentadorias precoces. Segundo HALL (1993) a lombalgia é a doença que mais invalida a população brasileira, tornando-a incapaz de realizar as suas ocupações profissionais e recreacionais. Representa 10 % de todos os problemas crônicos de saúde, sendo a décima primeira causa de hospitalização nos Estados Unidos que incapacita pessoas de 20 a 45 anos; a vítima mais comum é o homem na faixa de 35 anos. Entre as ocupações de alto risco de desenvolvimento da doença, estão os trabalhadores de serviços gerais, motoristas de caminhão, trabalhadores domésticos, mecânicos, auxili92 ares de enfermagem, estivadores, lenhadores, lixeiros e trabalhadores de construção civil. MAHAYRI (1996) mencionou que as enfermidades do sistema músculo-esqueléticoligamentar são as causas de morbidade, incapacidade e invalidez na população, em geral, e em grupos ocupacionais. Nessas enfermidades estão incluídas, algias da coluna vertebral, osteoartrose, cervicobraquialgias, síndrome do túnel do carpo, tenossinovites, entre outras. As lombalgias e as lombocitalgias constituem importante causa de absenteísmo, incapacidade temporária de execução de trabalho, aposentadorias precoces, invalidez, alto custo econômico para o sistema de seguridade social e incalculável sofrimento humano. Sabendo que um dos principais problemas de diversos grupos ocupacionais são posturais, este artigo pretende, primeiramente, abordar aspectos e entendimento dos autores referente à definição de postura corporal, os mecanismos responsáveis pela sua manutenção, qual é considerada adequada ou inadequada, as causas dos distúrbios e medidas de prevenção. DEFINIÇÕES DE POSTURA CORPORAL ASMUSSEN (1953) conceituou a postura corporal como o resultado da integração de vários reflexos: miotático, labiríntico, visual e epitelial. Foram acrescentados ainda os fatores psicológicos, as influências do sistema endócrino e autônomo da ação muscular. Segundo TUCKER (1960), a postura corporal é uma atitude mental sobre o corpo, promovendo assim o equilíbrio. Ela pode ser definida como hábito de posição do corpo, no espaço, após uma atividade ou descanso. BIERMAN; RALSTON (1965) mencionaram que a postura está relacionada com a imagem que a pessoa tem de si mesma. Assim, é fundamental desenvolver a consciência do movimento do tronco, pois a imagem corporal é formada por meio da consciência corporal e o desenvolvimento desse aspecto leva à melhoria dos fatores emocionais MORO (1973) analisou a postura corporal, na qual há um máximo de equilíbrio dos segmentos corporais, com um mínimo de gasto de energia para o organismo. O Revista Brasileira de Saúde Ocupacional consumo é tanto maior, quanto mais defeituoso for o alinhamento dos segmentos corporais. Para o autor, não existe um modelo ideal de classificação. Segundo ASCHER (1976), postura é definida como: a posição do corpo no espaço, com referência especial as suas partes, que exija o menor esforço, evitando fadiga desnecessária. Essa, para que seja considerada como adequada, deve estar ligada ao mínimo esforço e ausência de fadiga muscular. A cifose pode ser definida como uma curvatura da coluna vertebral, com concavidade anterior. A escoliose manifesta-se como uma curvatura simples ou total, geralmente convexa para a esquerda; desaparece na flexão da coluna vertebral, e não há rotação das vértebras. Para ROAF (1977), a postura está relacionada ao equilíbrio e à capacidade de adaptação corporal para cada circunstância, como por exemplo, andar ou praticar esporte. A postura para HULLEMANN, et al. (1978), é o equilíbrio harmonioso entre as solicitações impostas aos músculos, ligamentos e discos intervertebrais. O autor acrescentou que não existe uma postura-padrão. Para REICH (1979), o corpo e a postura são um espelho revelador de emoções, como se o traço emocional ficasse gravado, organicamente, na pessoa. A postura corporal é uma atitude indefinível, pois varia de indivíduo para indivíduo, estando condicionada a diversos fatores, como hereditariedade, profissão, proporcionalidade dos segmentos do corpo, tônus muscular, etc. (FRACAROLLI, 1981). A manutenção da postura corporal está relacionada com o tônus muscular (estado de ligeira tensão dos músculos no estado de repouso). Esse regula a disposição postural dos segmentos corporais e impede que se desarranjem. Os agentes do tônus são os fusos neuro-musculares, cuja atividade mantém-se em permanência pelos motoneurônios-gama. Os motos-neurônios-alfa controlam a contração muscular e atuam em relação aos alongamentos dos fusos. Com um alongamento correspondente a três gramas, os fusos desencadeiam o reflexo miotático, que leva à contração do músculo estriado. Com uma tensão de 100 a 200 gramas, os Corpúsculos de Golgi originam Vol. 28 - nº 105 /106 o reflexo miotático inverso, que inibe o músculo alongado e facilita o seu antagonista (GREEN, 1983). Segundo MASSARA (1986), na postura corporal convergem todos os elementos que caracterizam o movimento. A postura não é somente a expressão mecânica do equilíbrio corpóreo, mas é a expressão somática da personalidade, a manifestação da unidade psico-física do ser. Partindo desse princípio, não basta haver uma intervenção cinesiológica corretiva, mas devem-se levar em consideração os fatores de ordem psicofísico e socioambientais. É necessário que o indivíduo desenvolva uma consciência da postura, através de uma vivência global da mesma, respeitando as possibilidades biomecânicas. O autor recomenda os seguintes exercícios: relaxamento geral, regulação respiratória, percepções das sensações, percepção de contato, movimentos articulares e a percepção do equilíbrio vertical. Para KENDALL; Mc CREARY (1987), postura corporal é uma composição das posições de todas as articulações do corpo, em qualquer momento. Para LEHMUKUHL; SMITH (1989), a postura corporal é definida como a posição ou atitude do corpo, o arranjo relativo das partes corporais para uma atividade específica, ou uma maneira característica de uma pessoa sustentar o corpo e realizar atividades físicas, com menor gasto de energia. A postura e o movimento estão intimamente relacionados; o movimento pode começar com uma determinada postura e terminar com outra. As relações posturais dos segmentos corporais podem ser alteradas e controladas voluntariamente, controle este que é efêmero, pois exige concentração. MASSARA; BANKOFF; STEFANO (1990) consideram que a postura corporal no adulto é um hábito de se posicionar diante das diversas situações. Cada indivíduo apresenta uma característica particular diante dos fatos. A postura é imposta por alterações intrínsecas ao corpo, que passam a interferir no cotidiano, modificando as cadeias, e conseqüentemente, os movimentos corporais. A postura significa, segundo MASSARA; RAIMONDI (1990), posição equilibrada e coordenada do corpo, em ação estática ou em preparação ao movimento, obtida e 93 mantida com máxima economia. Há dois tipos de posturas: há aquela que se adapta às circunstâncias, com o mínimo de gasto de energia e a não integrada com os seus componentes da economia, o que nada mais é do que a resultante do uso inadequado do corpo nas mais diversas atividades. Para BRIGHETTI (1993) postura corporal é um equilíbrio dinâmico somático, onde se estabelecem relações com o meio em que se vive. Ela envolve o conceito de equilíbrio, coordenação neuro-muscular e adaptação de um determinado movimento corporal. Na postura corporal convergem-se todos os elementos que caracterizam o movimento. Nela estão implicados os fatores anátomo-funcionais, socioa-mbientais e psico-emotivos. Se num processo educativo, preventivo e reeducativo, não levarmos em consideração esses fatores, qualquer alteração morfológica dar-se-á num estado de perturbação, e o processo de recuperação será mais demorado e seu efeito poderá gerar mais desequilíbrios (BANKOFF, 1994). Em outra citação, BANKOFF (1994) salienta que a postura corporal é pura imagem corporal. É a resultante de um fenômeno articulatório entre as distintas partes do corpo, relacionadas ao espaço, como atitude e forma de estar com algo que está de frente à alguma situação para enfrentar uma outra situação. Portanto, é uma reação de responder frente a algo, onde está implicado algo mais que uma forma, e sim toda uma história do sujeito posto em cena, e através dessa postura, a atitude do sujeito forma sua própria postura corporal. Segundo SIMON et al. (1988), a postura corporal do ser humano adulto é fruto de dois elementos, a saber, a adaptação da espécie durante todo o processo evolutivo e as adaptações individuais que ocorrem durante seu desenvolvimento neuropsicomotor para a aquisição da posição bípede, contrapondo-se à ação da força gravitacional. MECANISMOS RESPONSÁVEIS PELA POSTURA CORPORAL AIRES et al. (1988) destacaram os seguintes ajustes posturais: estáticos locais; reflexos locais; reflexo de extensor cruzado e 94 reflexo miotático. Segundo ESBÉRARD (1991), os reflexos são uma série de reações corretoras de natureza inata, que atuam com a finalidade de manter a postura do organismo, localizada por uma posição definida, no espaço, pela ação da gravidade. São divididas em três grupos: reações estáticas locais (de origem específica no próprio músculo); reações estáticas segmentares (de origem na atividade aferente, iniciada nos músculos do mesmo segmento, do lado oposto); reações estáticas gerais (originadas na atividade aferente a partir dos receptores labirínticos e dos músculos do pescoço). Todas estas reações são classificadas como proprioceptivas. Na manutenção da postura corporal há um processo de seleção dos músculos, possivelmente envolvendo o córtex motor, regiões do tronco cerebral e suas ramificações nervosas na coluna vertebral. Pode-se dizer que a manutenção da postura corporal é influenciada por diversos fatores, principalmente o tato, sentido labiríntico e a percepção cinestésica, coordenados pelo cerebelo (OLIVEIRA; GALAGHER, 1995). O alinhamento corporal adapta-se, a todo momento, à manutenção do equilíbrio. Ao contrário do que parece à simples observação, a postura em pé, por exemplo, é um equilíbrio dinâmico e altamente complexo, que depende da contração simultânea e seqüencial de numerosos músculos. Os ajustes posturais garantem a manutenção do equilíbrio, ou seja, corrigindo a posição da cabeça, corpo e membros em todo o momento que a postura se modifica (MUNHOZ, 1995). LEONI (1996) faz referência aos fatores influenciadores de atitudes posturais positivas, são: os aspectos da imagem corporal, que são os aspectos emocionais e o comportamento social, os aspectos do mínimo esforço muscular e a ausência de fadiga, combinação de formas tencionais equilibradas e o baixo nível de tensão nas unidades músculo-tendão e tendão-osso e a flexibilidade e resistência da região lombar, que causam o alinhamento das estruturas corporais. O autor conclui que os aspectos necessários ao equilíbrio postural dizem respeito à capacidade de manutenção de nível aceitável de tônus e fortalecimento musculares, assim como, à harmonia entre Revista Brasileira de Saúde Ocupacional os agonistas e antagonistas nas funções de contração e relaxamento. O desajuste do equilíbrio postural deve ocorrer em conseqüência da contração muscular excessiva, da hipotonia muscular, da tensão muscular exagerada, do enfraquecimento e da diminuição do tônus muscular. Nas situações em que a postura-padrão não encontrar um estado de equilíbrio no espaço, irá gerar agressões nas estruturas relacionadas com os músculos. Estes entram em estado de contração excessiva, levando à dor e ao desconforto. Os movimentos, nessas regiões, serão prejudicados, levando a pessoa a assumir posições (chamadas de antálgicas) que amenizam as dores, mas que são inadequadas, causando, posteriormente, desconforto. A contração muscular excessiva tem como causa o encurtamento muscular que leva à tensão nas articulações por meio das unidades músculo-tendão e tendãoosso. Esses entram em estado de tensão, reduzem a amplitude de movimentos e, quando executados, ocasionam as dores. A contração muscular excessiva gera, ainda, contraturas e ocorrência de espasmos musculares. Os sistemas neurais são responsáveis pela postura fundamental, em grande parte são conhecidos. Além dos núcleos vestibulares e da formação reticular, a organização da postura básica depende de numerosos mecanismos, oriundos de outros sistemas, principalmente no cerebelo, nos núcleos de base, e no córtex cerebral (SOUZA, 1997). POSTURA ADEQUADA E INADEQUADA Para BURT (1950), a postura adequada relaciona-se com a passagem da linha da gravidade entre apófise mastóide, extremidade do ombro, quadril e anterior ao tornozelo. Para KENDALL; KENDALL (1968) a boa postura é importante para proporcionar um bom funcionamento do corpo. Segundo CAILLET (1988), a postura pode ser considerada boa, se o indivíduo na posição estática, não ficar cansado, apresentar uma aparência aceitável e requerer o equilíbrio entre o suporte ligamentar e o tônus muscular mínimo. Já a postura incorreta causa um esforço ligamentar prolongado que gera desconforto. A postura ideal corresponde às necessidades biomecânicas, que permitem a sustentação da posição vertical, com esforço Vol. 28 - nº 105 /106 muscular mínimo. A postura inadequada pode ser observada na dificuldade de manutenção de equilíbrio desses dois fatores (KNOPLICH, 1985). BRACCIALLI (1997) ressaltou que a postura corporal não é uma situação estática, mas sim dinâmica, pois as partes do corpo adaptam-se, constantemente, em resposta aos estímulos recebidos, refletindo corporalmente as experiências momentâneas. A boa postura depende do conhecimento e do relacionamento das pessoas com o seu próprio corpo, ou seja, da imagem que cada um tem de si, em cada momento. Ao adotar uma certa postura, é necessário um conhecimento prévio da imagem corporal. No entanto, ao ocorrer um equívoco, esse conhecimento pode levar às ações imperfeitas. Assim, só se consegue manter uma boa postura, se tiver conhecimento e domínio corporal associados a estímulos sensoriais e modelos posturais adequados. Para BARLOW (1955), má postura está associada à contração muscular excessiva, a qual inibe a transmissão de impulsos ao cérebro, que desse modo, não pode perceber o grau de deformidade corporal. A contração excessiva dos músculos produz estímulos dolorosos, levando a pessoa às posturas antálgicas e inadequadas. ADAMS (1985) considerou como má postura a relação anormal entre as diversas partes do corpo, com solicitação excessiva dos elementos de apoio e o perfeito equilíbrio do corpo sobre a base de sustentação. GAIARSA (1976) mencionou que não existe uma postura definida. Segundo ele, a postura deve exprimir todas as influências (biomecânicas, gravitacionais e emocionais), atitudes expressivas (reação a um afeto), e as repressivas (inibições ou ausências de movimentos), que causam espasmocidade muscular e influenciam na atitude postural. A concepção de postura engloba as noções de comportamento (atitude, briga ou fuga). Para SILVA; BANKOFF (1986), não existe uma postura corporal mais correta para o ser humano, um modelo a ser seguido. Ela é o resultado da relação do indivíduo com o seu meio, com a sociedade em que vive. FATORES RESPONSÁVEIS PELOS DISTÚRBIOS POSTURAIS 95 A seguir, citaremos os fatores responsáveis pelo aparecimento e pela manutenção dos distúrbios posturais. Agrupamos, em cada um dos fatores, o que os autores mencionaram sobre o assunto, respeitando a ordem cronológica da publicações. RASCH; BURKE (1977) apontaram os traumatismos, as doenças, a hereditariedade, ou ainda, a indumentária inadequada, como alguns dos problemas relacionados à questão do desvio postural. Atitude mental e problemas psicológicos causam problemas posturais (RASCH; BURKE 1977, NACHEMSON, 1982, MAHAYRI, 1996). FRYNOYER et al. (1980) destacaram, entre outras causas, o tabagismo. Uma das causas de dores na coluna vertebral é o baixo grau de instrução (NACHEMSON, 1982). Os fatores socioculturais em que o indivíduo está inserido podem levá-lo a adquirir problemas posturais, conforme mencionaram (SILVA, BANKOFF, 1986). KELSEY; GOLDEN (1988) acrescentaram: ato de dirigir, gravidez e ferimentos. MAHAYRI (1996) também menciona idade, sexo, predisposição hereditária e alterações estruturais da coluna. A ausência de experiência motriz na infância e na juventude, segundo MORO (1973), causa problemas posturais. Muitas vezes, esses começam a surgir na fase de crescimento e desenvolvimento. CLARKE (1979) relatou que os defeitos e a degeneração da postura são vícios adquiridos, enquanto crianças, e não educados ao longo do tempo. Para KENDAL (1977), muitos hábitos posturais inadequados, na fase de crescimento, provocam a hiperlordose lombar (aumento da lordose lombar, com inclinação pélvica anterior e flexão do quadril). Várias pesquisas, entre elas, PINERA (1975), GALDI (1990), BRIGUETTI (1993), BANKOFF et al. (1996) obtiveram altos índices de desvios e assimetrias posturais entre as crianças. A inadaptação à postura ereta é uma das causas do surgimento dos problemas posturais (SILVA; BANKOFF, 1986). LEONI (1996) observou que as necessidades do novo modo de locomoção estão relacionadas com os aspectos de um novo desenvolvimento muscular, decorrente do fortalecimento de músculos dorsais, coordenação motora, mecânica respiratória, 96 posicionamento do centro da gravidade e das estruturas das curvaturas espinhais. O aspecto central desse processo adaptativo está relacionado com a capacidade de contrações musculares permanentes. O homem passou a utilizar os membros superiores no manuseio de armas de caça, e os membros inferiores, na locomoção; assim, o comportamento muscular foi adaptado às novas necessidades. A nova demanda da postura bípede esteve diretamente relacionada à força muscular antigravitacional e a coordenação motora. Essas alterações ocorreram em função do equilíbrio necessário para manutenção da postura vertical, através do centro de gravidade. As curvaturas espinhais foram moldadas e suportadas pela ação da força antigravitacional. Os autores concluem que o novo alinhamento do centro de gravidade, as curvaturas espinhais e a coordenação motora, estão ligados ao comportamento muscular (através do sistema proprioceptivo, arco reflexo e seu desenvolvimento). A nível muscular, os autores ressaltam que a necessidade funcional diz respeito às atividades de suporte corporal (contrações isométricas) e força antigravitacional. Assim, para atender à demanda da postura, é necessária a capacitação de suporte muscular, em longo período, e o desenvolvimento do tônus muscular. Existe uma relação entre a postura e a pressão intradiscal que leva às alterações posturais. Quando o tronco fica ereto, com pressão adequada para o disco, o músculo fica contraído como se estivesse realizando um trabalho muscular estático, situação essa que pode levar ao processo de dores ou fadiga. Assim, os músculos trabalham melhor, quando o tronco está relaxado, embora nesse caso, ocorra mais pressão discal (LUNDERVOLD, 1958). Segundo MELLEROWICZ; MELLER (1979), NACHEMSON (1982), FOX; MATHEWS (1983), FOX; CORBIN (1985), MAHAYRI (1996), o sedentarismo tem levado à deformação da coluna vertebral. KRAUS; RAAB (1961) mencionaram que mais de 80% das lombalgias são decorrentes de deficiências musculares. RASCH; BURKE (1977) acrescentam, além da deficiência muscular, a nervosa. Para HULLEMAN (1978), a deficiência da postura está relacionada à fraqueza muscuRevista Brasileira de Saúde Ocupacional lar, ocasinando a insuficiência ligamentar. Atualmente, é reconhecido que na vigência de comprometimentos da força e flexibilidade, devido à inatividade física, podem ocorrer distúrbios no sistema músculoesqueléticos que causem dor e desconforto, com perdas na renda familiar, incapacidade crescente e aposentadoria precoce (RIDER; DALY, 1991, POLLOCK; WILMORE, 1993). Segundo KENDALL; Mc CREARY (1987), a carência de flexibilidade do quadril e da coluna vertebral pode levar os indivíduos a desenvolverem problemas lombares. Na postura defeituosa, onde se encontram músculos encurtados, a tendência é de serem mais fortes, e nos casos de estarem em posição alongada, tendem a ser mais fracos. A fraqueza de alongamento muscular é encontrada nos seguintes músculos: trapézio médio e inferior, em pessoas com cifose, e nos músculos adutores do quadril no lado em que o quadril é mais alto ou proeminente. O encurtamento dos músculos, que afeta o alinhamento postural, é encontrado nas seguintes regiões: pescoço, dorso superior e inferior, cintura escapular, abdominais e todos os músculos das extremidades inferiores. A fraqueza dos músculos que mantêm reta a parte superior das costas pode causar cifose. Os músculos peitorais curtos levam os ombros para frente. A fraqueza dos músculos abdominais causa inclinação pélvica para frente e a lordose lombar. O iliopsoas curto leva à lordose, como também à inclinação da pelve à frente. A diminuição de prática de exercícios físicos leva o encurtamento de jarrete, que perde sua distensibilidade, e conseqüentemente, a diminuição do arco de movimentos para a flexão do quadril. POLLOCK; WILMORE (1993) observaram que a redução de tecido magro e do metabolismo basal (MB) ocorre com o envelhecimento. Segundo BARBANTI (1991), a obesidade é uma das causas de distúrbios no aparelho locomotor. A região dorsal é formada por músculos extensores, sendo pouco utilizados no diaa-dia, geralmente esses músculos são tensos, o que pode ocasionar dores localizadas e acentuadas, na coluna (BANKOFF, 1994). Segundo ANDERSON et al. (1974), a postura sentada provoca retificação da Vol. 28 - nº 105 /106 coluna lombar e aumento da pressão intradiscal. NACHEMSON (1975) mencionou que a permanência na posição sentada, causa mais problemas à coluna que a posição em pé. O autor analisou as diversas posições do tronco, e observou que a pressão intradiscal é diminuída quando o indivíduo senta, sem o apoio do tronco e mantém as costas retas, diminuindo ainda mais, quando os braços são apoiados nas coxas; mencionou também que a pressão é diminuída quando aumenta a inclinação do encosto; verificou que, quando se utiliza o apoio da região torácica, ocorre um aumento da pressão, mas na região lombar, ocorre uma diminuição. Concluiu que ao sentar com apoio das costas, ocorrem menos lesões, pois há menos pressão. Outro problema da permanência na posição sentada é a dificuldade de retorno venoso nos membros inferiores (GRANDJEAN; HUNTING, 1977). JENSEN (1979) considerou que as posturas estáticas ou de descanso, por longo período, levam os músculos abdominais a se tornarem alongados e fracos. O trabalho sentado causa problemas (NACHEMSON, 1982). As atividades que exigem que o indivíduo assuma, freqüentemente, as mesmas posições corporais, ou seja, o mesmo modo de sentar, de apoiar os membros ou esforços significativos da estrutura locomotora, criam hábitos posturais que podem acarretar alterações posturais permanentes (ADRIANS, 1991; MOOREE; WELLS; RANNEY, 1993). No trabalho, podem existir situações, em que o indivíduo tenha que suportar alterações fisiológicas do sistema de posicionamento estático e dinâmico da coluna: distensão músculo-ligamentar, exigência excessiva da musculatura paravertebral e ritmo tóraco-pélvico realizado de modo inadequado (COUTO, 1978). A desordem postural é freqüente em indivíduos que realizam movimentos repetitivos e sustentação de cargas pesadas (RASCH; BURKE, 1977, OBERG, 1993). Em casos de lombalgia, a sustentação de peso é assumida pelas articulações vertebrais, que são responsáveis pelo estreitamento dos forames intervertebrais, ocasionando a compressão das raízes nervosas e originando 97 dores (KOTTKE et al.,1986). Estudos epidemiológicos têm demostrado que a angulação lateral ou curvamento axial da coluna espinhal durante atividades de alavanca manual, exercícios de levantar, arrastar ou puxar podem aumentar o risco de dor e as complicações do sistema locomotor. Atividade intensa de sobrecarga tem efeito sobre as mudanças degenerativas do sistema locomotor, surgindo sintomas de dor na região lombar (BERGENUDD; NILSSON, 1988). As instalações inadequadas do ambiente, características de equipamentos, caixas de ferramentas e/ou métodos de trabalhos incorretos, podem levar ao desenvolvimento de algias e alterações, ao longo da coluna vertebral. As flexões de tronco e o permanecer sentado, durante longo período de tempo, estão relacionados com queixas de fadiga muscular e dor na coluna vertebral (KEYSERLING, PINNET; FINE, 1988). KELSEY; GOLDEN (1988) acrescentaram as torções no trabalho e o tempo de emprego. BARREIRA (1989) identificou situações de trabalho, potencialmente promotoras de problemas osteomusculares para a coluna vertebral; são esses: manutenção de uma determinada postura, por períodos prolongados, o trabalhador que mantém um membro sustentado, sem apoio externo ou acima do nível do coração, situações que podem ocorrer a compressão de vasos sanguíneos, devido à atividade muscular sustentada ou pelo apoio de uma mesma área do corpo, compressão de ligamentos, inserções musculares, tendões, entre outras, aumento da pressão intradiscal, solicitação extraordinária imposta à coluna vertebral, devido ao levantamento manual e ao transporte de cargas em esforço de flexão de tronco, manobras de empilhar e puxar objetos pesados, vibrações nas estruturas da coluna e, finalmente, os problemas de coluna, são os mais sentidos nos trabalhadores que executam as suas atividades sentados. BANKOFF et al. (1994) analisaram 26 mulheres, divididas em dois grupos, com o objetivo de verificar a incidência de desvios posturais. Para tal, realizaram avaliação postural computadorizada, análise antropométrica, perfil relativo do estado de 98 saúde das pessoas envolvidas e condições de trabalho. Obtiveram como resultados: tanto os ângulos cifóticos, quanto os lordóticos, não apresentaram diferenças entre os dois grupos; em relação ao desconforto e às queixas, por tempo de serviço, não houve relação entre esses dois grupos; foi encontrada alta porcentagem de desconforto, em relação ao sistema locomotor, em ambos os grupos; altas porcentagens de pessoas com desvios lordóticos e cifóticos. Concluíram que, independentemente do tempo de serviço e da idade, a maior gravidade para as instalações de doenças foram o sedentarismo, os movimentos repetitivos, a sobrecarga corporal e o estresse. SEYMOUR (1995) observou que os modelos biomecânicos da coluna vertebral não foram construídos para que o indivíduo permaneça por longo período na posição sentada, mantendo as posturas estáticas fixadas e realizando movimentos repetitivos. De acordo com MAHAYRI (1996), as afecções da coluna vertebral têm como causas a insatisfação com o trabalho, o número elevado de ingestões, o trabalho físico pesado, a elevação e o transporte de cargas, com ritmo intenso, a rotação repetitiva da coluna, a manutenção da posição fixa, por tempo prolongado, as vibrações, os acidentes, a organização de trabalho, as máquinas, os instrumentos e as ferramentas (esses elementos, quando são inadequados ou utilizados de forma incorreta, levam ao surgimento de movimentos antifisiológicos que podem acarretar alterações anatômicas e fisiológicas do sistema músculo-esquelético-ligamentar, implicando alterações na biomecânica normal e originando as disfunções ou condições patológicas estruturais). A solicitação do trabalho físico causa o aparecimento de fadigas e lesões traumáticas abruptas ou cumulativas, especialmente nos ligamentos, músculos, nervos, discos e nas articulações. A autora destaca a contribuição da ergonomia, a organização do trabalho e a educação em saúde como elementos controladores das afecções da coluna. MEDIDAS DE CONTROLE EM RELAÇÃO AO TRABALHO RAIMONDI (1984) estudou a postura estática e a capacidade física humana do trabalho cotidiano, implicando um Revista Brasileira de Saúde Ocupacional ordenamento geral do corpo ao ambiente e ao tipo de trabalho, respeitando as características biomecânicas do indivíduo. Segundo o autor, devem ser estabelecidos critérios ergométricos, visando melhoria de rendimento no trabalho. Para manter uma boa postura na região dos quadris, devese evitar uma ação negativa no arranjo muscular cérvico-dorso-lombar, para tanto, o movimento tem que estar coordenado à sinergia muscular de todo o corpo, evitando desequilíbrios, causados pela tensão muscular na postura sedentária. O autor concluiu que deve haver a necessidade de esquematização da interação, entre a possibilidade de equilíbrio muscular na postura, e as medidas ergométricas dos aparelhos de trabalho. BENDIX (1987) estudou a relação entre a postura sentada do indivíduo adulto e sua utilização e adaptação quanto ao mobiliário. Analisou a posição da mesa e o espaço de desenvolvimento das tarefas cotidianas. Foi realizado um estudo ergonômico, biomecânico e eletromiográfico das posições: sentada, com o tronco ereto, sentada, com apoio da região dorsal e torácica, com a mesa em posição plana e inclinada. O autor concluiu que o nível de inclinação do assento e a posição dos apoios dos braços e pés são fundamentais na manutenção da boa postura para a realização de tarefas de longa permanência, agindo na prevenção de problemas posturais. A altura da mesa deve ser regulável, permitindo que seja a mesma dos cotovelos, para que o tronco possa ficar ereto e com os ombros relaxados. Se for alta, os músculos dos ombros serão abduzidos. A cadeira deve ser ajustável, em todos os seus componentes: encosto e assento, de tal modo que os músculos da coxa fiquem relaxados e a região poplítea não seja comprimida. A superfície do encosto deve ser inclinada para trás, permitindo que a região lombar fique apoiada. É necessário o apoio dos pés para as pessoas de estatura baixa. O ambiente de trabalho deve permitir ampla liberdade de movimentos, ser ajustável a cada operador e é preciso evitar a contratura muscular prolongada (ASSUNÇÃO; ROCHA, 1993). Ao escolher uma cadeira é importante verificar o conforto e a possibilidade de Vol. 28 - nº 105 /106 mobilização, pois os movimentos previnem úlceras de pressão, melhoram a circulação sanguínea e aliviam a rigidez, tanto dos músculos, quanto das articulações (SEYMOUR, 1995). S e g u n d o ANDERSON et al. (1980), o espaço de trabalho deve ser projetado, de tal forma, que não seja necessária a inclinação do tronco e da cabeça à frente, para a realização de uma determinada tarefa. Os intervalos durante o período de trabalho e as mudanças nas posturas adotadas, são importantes para manter uma boa hidratação do disco intervertebral. As alterações entre as altas e as baixas cargas nos discos são responsáveis pelo bom funcionamento de seu mecanismo de bombeamento de nutrientes (KRAMER, 1985). Apesar de existirem vários métodos que tentam estabelecer o tempo ideal e o número de pausas durante a jornada de trabalho, para diferentes profissões, ainda não há consenso em torno do assunto. Em geral, tarefas com exigências nervosas e atenção, mostram melhores resultados, com pausas curtas e freqüentes de 2 a 5 minutos, e em trabalhos manuais, devem ser 10 minutos, a cada duas horas (CUNHA, 1992). A distribuição de períodos de pausa e recuperação são fatores que precisam ser avaliados. As pausas são importantes para que sejam evitadas a sobrecarga músculoesquelética e a fadiga mental, esta, freqüentemente expressa com irritabilidade, queixas inespecíficas e dificuldades para memorização, raciocínio e leitura (MENDES, 1995). É preciso que a direção da empresa verifique e elimine os riscos potenciais, os métodos de trabalhos impróprios e o uso de equipamentos e ferramentas inadequados. É importante a aceitação dos trabalhadores envolvidos com a atividade e o encorajamento dos relatos de riscos potenciais. Outra medida é a aplicação dos conhecimentos de engenheiros da empresa, em relação à ergonomia, na concepção de projetos e manutenção de ambientes de trabalho. É essencial a regularização das condições biomecânicas inadequadas, como as modificações em ambientes, postos de trabalho, máquinas e ferramentas, assim como o planejamento das tarefas. Com o 99 objetivo de impedir as posturas inadequadas, é fundamental analisar a atividade realizada, modificar a localização e orientação de materiais, dispositivos, comandos e alavancas de acionamento. Finalmente, a redução da jornada de trabalho e o oferecimento de condições que garantam ao trabalhador a sua autonomia, criatividade, satisfação e um bom relacionamento entre eles (BARREIRA, 1994). Conclusões Atualmente, é grande o número de pessoas portadoras de problemas posturais, este fato tem levado diversos profissionais a se afastarem de suas atividades, até mesmo por tempo indeterminado, recorrendo às aposentadorias, causando altos prejuízos à economia. Observamos que a postura, é um sistema altamente complexo e varia de indivíduo para indivíduo. É a manifestação corporal do ser humano no meio em que vive. Nela está implicada a personalidade, a maneira de posicionar-se, diante das diversas situações, reflete a trajetória de vida e é o resultado de vários sistemas que atuam no organismo. Diante dos diferentes estímulos, os indivíduos podem adotar uma postura adequada ou inadequada. Caracterizamos como uma boa postura quando há o equilíbrio e o bom funcionamento entre as estruturas e os órgãos e, também, uma aparência aceitável. Para adquirí-la é necessário que o indivíduo tenha consciência, boa imagem e um perfeito domínio corporal. Na postura inadequada, observa-se um desarranjo, em vários elementos internos e externos ao corpo, causando, em certos casos, dores e desconfortos. Existem vários componentes da postura corporal, são eles: o aspecto evolutivo da postura ereta, a força gravitacional e muscular, o sistema endócrino, o equilíbrio, o reflexo, a imagem corporal, a atitude, a personalidade, a profissão, a hereditariedade e a influência social. Quando ocorre algum desequilíbrio nos componentes da postura, surgem as alterações, doenças e desvios do eixo corporal, comprometendo a saúde do indivíduo. Os fatores responsáveis pelos problemas posturais são: doenças, fraqueza e deficiência muscular, insuficiência ligamentar, falta de flexibilidade na região do quadril e na coluna vertebral, obesidade, sedentarismo, hereditariedade, sustentação e transporte de peso, permanência, por longo período na posição sentada, movimento de dirigir, gravidez, ausência de experiência motriz, na infância e na adolescência, problemas socioculturais, fator evolutivo da postura ereta, realização e organização do trabalho e o estresse. Para prevenir problemas posturais é necessário que se a tenha nos seguintes fatores: ambiente, mobiliários, espaço e tipo de trabalho, pausas, equipamentos e ferramentas devem ser respeitadas as características biomecânicas do indivíduo, contribuindo para a sua qualidade de vida. Referências Bibliográficas ADRIANS, M. Assimetria, trauma e idadetrês áreas importantes para a pesquisa em biomêcanica. In: Congresso Nacional de Biomecânica, 1991, Juiz de Fora. Anais... Juiz de Fora: ,1991 AIRES, M. M. et al. Fisiologia básica. Rio de janeiro : Koogan, 1988. ANDERSON, G. B. J.. et al. Lumbar disc pressure and myoelectric back muscle activity during sitting. Scand J Rehab Med., v.6, n.3, p.104-114, 1974. 100 ASCHER, C. Variações de postura da criança. São Paulo : Manole, 1976. ASSUNÇÃO, A. A., ROCHA, L. E. Agora até namorar fica difícil: uma história de lesões por esforços repetitivos In: BRUSCHINELLI, J.T. et al. Isto é trabalho de gente? São Paulo : Vozes, 1993. ASMUSSEN, E. 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Vol. 28 - nº 105 /106 103 104 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional Abordagem Clínica e Psicossocial das Lesões por Esforços Repetitivos LER / DORT Heleodório Honorato dos Santos Professor do Departamento de Fisioterapia e Mestrando em Engenharia de Produção da Universidade Federal da Paraíba Clinical and Psycho-Social Perspective of Repetitive Strain Injuries RSI / WRMD Revisão bibliográfica, com abordagem clínica, psicológica e social dos problemas causados pelas Lesões por Esforços Repetitivos - LER, hoje melhor definidas como Distúrbio Osteomusculares Relacionados ao Trabalho - DORT. São discutidos neste texto, a sinonímia utilizada em toda a literatura pesquisada, alguns dados epidemiológicos, em nível mundial e nacional, quanto à distribuição da doença segundo algumas varáveis tais como: sexo, idade, tipo de atividade, tempo e localização anatômica das queixas, afastamento do trabalho etc. Além desses pontos, são enfocados estudos sobre fatores etiológicos e fisiopatológicos das LER / DORT. Por fim, buscou-se uma correlação entre todos estes fatores anteriormente citados e o psicossocial, pontuando os elementos que influenciam diretamente no aparecimento e/ou manutenção desta enfermidade multifatorial, salientado a importância da organização do trabalho na sua prevenção. Palavras-chaves Lesões por Esforços Repetitivos, Doença Ocupacional, Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. This is a bibliographical revision work involving clinical, psychological and social disorders that are caused by the commonly known repetitive strain injuries (RSI) and better defined nowadays as Work-Related Musculo-skeletal Disease (WRMD). The synonymy used throughout the researched literature is discussed in this text, together with some national and worldlevel epidemiological data concerning the distribution of the disease, listed in relation to some variables, such as: sex, age, type of activity, duration and location of anatomical complaints, absence from work, etc. Besides the above, studies were focused on the etiological and physiopathological factors of RSI / WRMD, furthermore, efforts were made to establish a correlation between the aforementioned factors and psycho-social factors, pointing out the elements that directly influence the manifestation and / or maintenance of this multi-factorial infirmity, and the importance that work organization has in relation to its prevention. Keywords Repetitive Strain Injuries (RSI), Occupational Disease, Work-Related Musculo-skeletal Disease (WRMD). Vol. 28 - nº 105 /106 105 Definição e nomenclatura Conforme HELFENSTEIN JR. (1998), existe uma verdadeira confusão entre os diversos profissionais, no que se refere ao conceito e terminologia sobre o assunto, fazendose necessária uma uniformização destes, para que sejam evidenciadas várias questões no âmbito dos relatórios médicos e nas decisões terapêuticas e judiciárias. A taxonomia (ciência das classificações) tem apresentado confrontos, não só na semântica, como também, nas implicações científicas, para os profissionais da área da saúde, desde os tempos de Hipócrates. Ao pé da letra, a terminologia LER, implica na afirmação de uma lesão tecidual, o que não acontece na maioria dos casos, como também sustenta a tese de que a mesma foi causada por repetição de movimentos, deixando de lado outras formas de cargas biomecânicas, a exemplo das atividades onde se desenvolva sobrecarga muscular estática para manutenção da postura por períodos prolongados, tarefas executadas em força máxima, situações de trabalho realizados em altas temperaturas, ou ainda tarefas com instrumentos vibratórios. Já, segundo BARREIRA (1994), as LER são definidas como um conjunto de disfunções músculo-esqueléticas que acometem os membros superiores e região cervical, estando relacionadas ao trabalho principalmente em áreas como indústria de eletro-eletrônicos, de alimentos, químicas, têxteis, serviços de telefonia e de entrada de dados em terminais de computação, entre outras. Dados os motivos anteriormente citados na literatura, nos deparamos com uma série de nomenclaturas destinadas a nomear essa condição patológica: distúrbios ou desordens por trauma cumulativo; síndrome do esforço repetitivo; distúrbios músculo-esqueléticos ocupacionais; síndrome ombro-braço; síndrome do membro superior; síndrome cervicobraquial ocupacional; síndrome da hipersolicitação; síndrome da dor crônica do membro superior; 106 injúrias por uso repetitivo; lesões de sobrecarga ocupacional; injúrias ocupacionais de esforço de repetição; distúrbios do membro superior relacionados ao trabalho. O mais novo termo usado para substituir a LER, é a DORT (Distúrbios Ósteo-musculares Relacionados ao Trabalho), ao nosso ver, muito mais adequado, pois, agrupa nele vários outros estados dolorosos que não possuem, imperativamente, lesão tecidual, muito embora não seja o ideal, pois exclui os distúrbios ligamentares e as neuropatias periféricas, sendo, a julgamento do autor, os termos, Distúrbios Ocupacionais do Aparelho Locomotor ou Distúrbios reumáticos Ocupacionais (ou Relacionados ao Trabalho), os mais adequados. Apesar de terem sido desenvolvidos mais de 2000 estudos a respeito da LER ou DORT, vários autores (BARTON, 1989 e 1992; VENDER et al, 1995; WEILAND, 1996; HADLER, 1997) concordam que nenhum desses estudos conseguiu estabelecer um nexo causal, pois não puderam relacionar, anatomicamente, os sinais e sintomas apresentados com as atividades ocupacionais específicas. Geralmente, se considera como LER apenas as enfermidades da coluna cervical, cintura escapular e membro superior, onde destacam as doenças tendíneas inflamatórias (tendinite da cabeça longa do bíceps e do supra-espinhoso, epicondilite medial e lateral, tenossinovites do punho e as tenossinovites extenosantes); as neuropatias compressivas, particularmente a síndrome do túnel do carpo; a síndrome tensional do pescoço e os cistos sinoviais, com tendência a se excluir os demais segmentos do corpo, pois as enfermidades músculo-esqueléticas, principalmente as relacionadas ao trabalho, se desenvolvem em menor número nos membros inferiores (MMII). No Brasil, as ações judiciais trabalhistas associadas aos MMII, correspondem a menos de 10% do total de ações relacionadas aos distúrbios músculo-esqueléticos na maioria dos países industrializados. HELFENSTEIN JR. (1999), adverte que devemos considerar LER ou DORT, qualquer distúrbio que seja relacionado ao trabalho, Revista Brasileira de Saúde Ocupacional independente do segmento afetado, pois desta forma, podemos envolver também as lombalgias, bursite isquiática, neuralgia parestésica, bursite infrapatelar, tendinite calcanear, fasciite plantar, dentre outros. Dados epidemiológicos Devido ao seu surgimento e crescimento rápidos, AWERBUCH (1985), afirmou que: a LER não é viral mas é bastante virulenta. O grande número de terminologias e de conceitos atribuídos a ela, refletem numa dificuldade na aquisição de dados confiáveis para o estudo da incidência e prevalência dos diferentes tipos de distúrbios músculoesqueléticos relacionados ao trabalho. No mundo todo, a LER/DORT vem aumentando, substancialmente, em locais como a Nova Zelândia, Escandinávia, Austrália, Canadá e principalmente os EUA, onde se- Quadro I gundo ZETTERBERG (1997), as doenças do sistema músculo-esquelético apresentam uma incidência anual de 14%, entre todos os atendimentos médicos, abrindo destaque para dor lombar que equivale a 48% de todas as injúrias ocupacionais que ocasionam perda de trabalho, tendo causado enorme prejuízo àquele país pelos afastamentos e indenizações decorrentes. Cá entre nós, no Brasil, somente a partir de 1987, foi que a LER ficou reconhecida como doença ocupacional, e portanto, como doença ocupacional indenizável, sendo este um dos grandes motivos de nossa estatística, a respeito, não retratar fielmente o quadro existente, é o que nos afirma OLIVEIRA (1991). Para se ter uma idéia da situação, o quadro abaixo refere-se aos registros, apenas em Belo Horizonte, realizados pelo grupo pericial de acidente do trabalho do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Prevalência de LER /DORT no INSS de Belo Horizonte. ANO TOTAL DE CASOS PREVALÊNCIA 1985 01 1,56 % 1986 03 4,55 % 1987 95 40,95 % 1988 132 41,77 Fonte: Lesões por Esforços Repetitivos: conceitos básicos (Helfenstein Jr., 1999) Basta ver que, em apenas 2 anos as LER/ DORT passaram de 1,56% para 40,95% de prevalência, ou seja, a ascensão das doenças profissionais registradas naquela cidade, aconteceu de maneira arrebatadora, ressaltando que as mulheres foram responsáveis por 76% dos casos. Já em São Paulo, segundo os dados da Secretaria de Saúde do Estado, foram diagnosticados como LER/ DORT, cerca de 20.000 casos entre 1985 e 1992. Infelizmente, somente em alguns estados, a exemplo de São Paulo, é que se pode obter informações regionalizadas sobre o tema. Na região metropolitana existe o CEREST (Centro de Referência de Saúde do Trabalhador do Estado de São Paulo), com atuação em Vol. 28 - nº 105 /106 várias áreas da região. O outro é o Centro de Referência do Trabalhador, que é mantido pela Prefeitura de São Paulo, e também é dividido por regiões. Conforme CODO & ALMEIDA (1995), no primeiro programa vamos encontrar dados epidemiológicos referentes a 620 pacientes distribuídos segundo as variáveis abaixo: 1 distribuição da LER segundo o sexo; 2 distribuição da LER segundo a faixa etária; 3 distribuição da LER segundo o ramo de atividade; 4 distribuição da LER segundo antecedentes de trabalho com movimentos repetitivos; 107 5 distribuição da LER segundo o local das queixas; 6 distribuição da LER segundo o tempo das queixas (meses); 7 distribuição da LER segundo os meses de afastamento; e 8 distribuição da LER segundo a função. Num outro estudo realizado por TESHIMA & FONSECA (1994), no Centro de Referência da Prefeitura de São Paulo, foi verificado que 93,1% dos 318 pacientes atendidos tinham entre 20 e 49 anos de idade e que as profissões mais afetadas eram: auxiliar de produção industrial (24,5%), digitador (17,6%), operador de caixa (9,4%),montador (6,0%), operador de máquinas industriais (3,8%), telefonista (3,5%), costureira (3,1%), compensador (1,9%), empregada doméstica (1,3%) e outras (25,1%), sendo que as regiões do corpo mais atingidas eram o punho e mão com 98,8% e ombro e cotovelo com 31%. Etiologia Na realidade, os estudiosos das LER/DORT acreditam que a causa ou fator etiológico atribuído a este conjunto de afecções ainda é desconhecida, pois vários pesquisadores do assunto a nível mundial (BOUVIER, 1982; HOCKING, 1987 e HALES & BERTSCHE, 1992), citados por HELFENSTEIN Jr. (1999), têm mostrado que não existe relação entre a repetição do movimento e a incidência da doença. Sabe-se que, o indivíduo treinado e fisicamente condicionado, que se porta corretamente durante a jornada de trabalho, descansando a intervalos regulares, realiza, sem prejuízo algum, as suas tarefas. Em nosso país, os auxiliares de montagem, bancários e digitadores, são os trabalhadores que mais apresentam diagnóstico de LER/DORT, referindo dor e desconforto na coluna cervical e nos membros superiores (MMSS), porém, a patologia de maior incidência entre eles é a tenossinovite de punho (do extensor comum dos dedos e do extensor radial do carpo), conforme FERRAZ (1995) e LIMA & SIQUEIRA (1999). Resumidamente, os fato- 108 res etiológicos que dizem respeito às LER/ DORT podem ser elencados como: 1) desrespeito aos fatores ergonômicos e antropométricos (equipamentos, acessórios, ferramentas, mobiliários, posicionamentos, angulações, distâncias, etc); 2) excesso de jornadas; 3) ausência de intervalos apropriados; 4) técnicas incorretas; 5) posturas indevidas; 6) força excessiva na execução de tarefas; 7) sobrecarga estática; e 8) sobrecarga dinâmica. Fisiopatologia Conforme a resolução SS-197 de 08/06/ 1992 da Secretaria da Saúde do Estado de são Paulo, as LER têm origem ocupacional decorrentes de formas combinadas ou não, de: 1 uso repetitivo de grupos musculares; 2 uso forçado de grupos musculares; e 3 manutenção de posturas inadequadas. BAUMMER & MARTIN (1988), mostram que em virtude do desconhecimento de muitos aspectos patológicos inerentes às LER, como também em função dos fortes componentes psicossociais e econômicos que norteiam o tema, surgiram duas correntes que tentam fazer valer suas opiniões. De um lado, encontram-se os que defendem que a dor e a disfunção causadas pela LER, são consequentes de lesões orgânicas nos tecidos relacionados às tarefas desempenhadas no trabalho, enquanto que um outro grupo de estudiosos afirma que as LER representam situações de neurose compensatória, conversão, fadiga ou simplesmente simulação. As estruturas anatômicas envolvidas na fisiopatologia das LER, encontram-se no interior das articulações (ligamentos, sinóvias, cápsulas) ou em área adjacente (tendões, músculos, fáscias e nervos). Os tendões e os ligamentos têm como função principal modular a transmissão de forças para que não haja uma concentração de cargas entre os vários componentes do sistema músculo- Revista Brasileira de Saúde Ocupacional esquelético. Identicamente, a outros sistemas do corpo, as propriedades físicas e químicas dos tendões e ligamentos, variam com diversos fatores, como a idade, o sexo, a temperatura, a presença de fatores hormonais, atividades, etc. KANNUS & JOZSA (1991), afirmaram que as lesões degenerativas nos tendões, podem surgir na população, em geral acima de 35 anos de idade, quando a reposição do tecido tendíneo já não é tão eficaz, tanto no que diz respeito à velocidade quanto à qualidade, e que as alterações na estrutura física dos tendões e na microvascularização podem receber influências hormonais, bioquímicas, imunológicas e mecânicas. Esta faixa etária é a que mais sofre com a doença, e é também a idade mais produtiva das pessoas. Este estudo sugere ainda que ela se instala, progressivamente, o que demonstra chance de reversão do quadro quando medidas adequadas forem tomadas em tempo hábil. Os tendões sofrem stress tensional e compressivo, ocasionados, respectivamente, pelos músculos, ossos e ligamentos, respondendo aos mesmos através de deformidades nas matrizes dos tecidos, ou ainda, por alterações fisiológicas, que se dão, provavelmente, pela obstrução do fluxo sanguíneo e com isto cessando o aporte nutricional. Evidentemente, o grau de apresentação dessas alterações depende da intensidade, da duração e da frequência de extensão do tendão. No trabalho citado acima, os autores observaram que em 62% dos tendões rompidos, a vascularização estava presente, porém os vasos apresentavam diminuição do lúmem devido à hipertrofia das camadas íntima e média de suas paredes. Estas mesmas alterações foram, também, encontradas em 2/3 do grupo controle, que apesar de serem considerados normais no exame macroscópico, a microscopia mostrou que os mesmos eram anormais. Segundo NICOLETTI (1997), quando as LER se instalam, a capacidade natural de reparação dos tecidos que a pessoa possui já foi ultrapassada, ou os mecanismos de controle imunológico que regulam a regeneração dos tecidos gastos sofreram modificações. Os componentes estruturais dos tecidos são substituídos de maneira inadequa- Vol. 28 - nº 105 /106 da, sobrevindo cicatrizes, mudanças das propriedades mecânicas, e provavelmente, a inflamação em tendões, nervos, fáscias e cápsula articular Os fenômenos inflamatórios têm intensidade muito variável e são auto-alimentados pela interação entre as alterações biológicas e mecânicas dos tecidos envolvidos e acomodações do sistema nervoso, na direção da manutenção da homeostase vital. Ele afirma não dispor de dados seguros para considerar a LER como sendo devido apenas à consequência de interações entre as pessoas, geneticamente programadas para, serem deprimidas ou histéricas e condições de trabalho desfavoráveis. É possível que os distúrbios emocionais sejam o espelho comportamental de modificações biológicas desencadeadas pelas agressões sofridas. Apesar da discordância entre os autores sobre a relação do trabalho com as patologias ocupacionais, algumas delas são mais evidentes, a exemplo das epicondilites, que segundo ALLENDER (1974), num estudo envolvendo 15.000 pessoas, foi ela a que se mostrou ter a maior incidência na população geral. Nas tendinites de ombro, nos trabalhadores industriais, existe uma certa controvérsia entre a ocorrência deste tipo de patologia com relação ao trabalho leve e pesado, foi a conclusão a que chegaram alguns trabalhadores. Com relação às neuropatias periféricas, os investigadores elegeram a síndrome do túnel do carpo como a de maior incidência, apregoando como fatores causais: o excesso de força, a alta repetitividade, uso de instrumentos vibratórios e posturas inapropriadas. Fatores estes que chegam a aumentar em 10 vezes (de 3 para 30 mmHg) a pressão dentro do túnel carpal, que por sua vez, provocará lesão no nervo mediano. Em 1988, NATHAN et al. investigaram mais de 400 trabalhadores, de 4 indústrias americanas e chegaram a conclusão que, antes de tudo, existe uma pré-disposição constitucional, pois dos 27 tipos de ocupações diferentes, desempenhadas com as mãos, neste estudo, não identificaram nenhuma correlação entre esta neuropatia periférica e a atividade manual. SIEGEL et al. apud HELFENSTEIN JR. 109 (1999), reafirmam a hipótese das variações congênitas encontradas (duplicações de fáscias e de músculos, lateralização dos tendões, diminuição da velocidade de condução nervosa) traz uma importante contribuição para etiopatogenia da síndrome do túnel do carpo. No que diz respeito aos distúrbios ocupacionais que atingem a região cervicobraquial, a mialgia tensional cervical (síndrome tensional do pescoço) é a síndrome miofacial mais observada na prática médica. Segundo KUORINKA (1979), ela é característica de indivíduos que executam tarefas em posturas estáticas com rotação ou flexão sustentadas do pescoço, ou ainda, trabalhos prolongados e repetitivos que adotem abdução ou extensão dos MMSS. Na Finlândia, ela corresponde a 60% do total das LER/ DORT, enquanto que na Escandinávia, representa 40%. Vários autores dizem ser a isquemia o principal fator da fisiopatologia das L.ER/DORT. Já outros, a exemplo de MCKINNOM & NOVAK (1994), associam as posturas inadequadas e os movimentos impróprios à sua patogênese, afirmando que determinadas posições podem: 1) resultar no aumento direto da compressão nervosa; 2) causar contratura muscular, e secundariamente, compressão de estruturas neuromusculares; e 3) estabelecer um desequilíbrio muscular. O FENÔMENO NO BRASIL Segundo LIMA & SIQUEIRA (1999), o trajeto oficial da doença no Brasil foi registrado, a partir de 1987, quando o Ministério da Previdência Social reconheceu a doença como de origem ocupacional, porém, com algumas restrições quanto a sua denominação, tendo em 1993, aprovado a denominação de lesões por esforços repetitivos. O número de pessoas com diagnóstico de LER/DORT tem aumentado, substancialmente, nos últimos anos, deixando como resultado: um grande número de dias de trabalho perdidos; queda da produtividade; geração de grandes somas pagas em indenizações; surgimento de conflitos internos na empresa; um impacto importante na economia do país; e um significante fenômeno social. 110 Na realidade, pelo amplo raio de patologias que as LER/DORT pode alcançar, gera uma corrida incessante à estimativa de diagnósticos, que pelas afirmações de HELFENSTEIN JR. (1999), chega-se ao ponto de se tachar de tenossinovites dores em tendões desprovidos de bainha sinovial. Também, a artrite reumatóide e o lúpus eritematoso sistêmico (LES), são exemplos de patologias diagnosticadas como LER/DORT. Ele diz que, no Brasil, os principais motivos de tal epidemia, são os seguintes: 01) falta de organização no ambiente de trabalho; 02) insatisfação com o trabalho; 03) despreparo dos médicos e outros profissionais envolvidos; 04) exames complementares sem confiabilidade; 05) influência dos sindicatos; 06) ações políticas; 07) oportunismo de advogados; 08) influência da mídia; 09) disposição ética, moral e intelectual dos indivíduos; 10) tensão social da época; 11) interesse pela compensação financeira ou pela aposentadoria precoce; e 12) um sistema trabalhista permissivo. É imperativo dizer que, para o surgimento deste fenômeno, tantos os fatores sociais, quanto os psicológicos, se revestem de uma grande importância, visto que a percepção da dor pode ser distorcida pela ansiedade ou depressão, pela expectativa de uma lesão e pelos interesses da indenização. Vários estudos apontam para o fato de que os esquemas compensatórios influenciam na perpetuação de síndromes dolorosas crônicas, no aparecimento de doenças pasicossomáticas e de lesões de sintomatologia persistente. Ainda conforme HELFENSTEIN JR. (1999), a LER/DORT se tornou, no Brasil, uma exuberante iatrogenia social. Abordagem psicossocial da LER Por ser a LER consideradsa, segundo Revista Brasileira de Saúde Ocupacional ARAÚJO (1998), como uma patologia multideterminada é que vários estudiosos da áreas da saúde, da gestão da produção, da psicopatologia do trabalho, da ergonomia, etc, que estão voltados para a pesquisa, têm trabalhado na busca da prevenção e tratamento dela, através de um atendimento multidisciplinar. Fazendo parte deste contexto, a psicossociologia tem lugar de destaque no tratamento preventivo e/ou curativo desta patologia, pois é considerada uma disciplina sem fronteiras, já que seu conteúdo teórico é formado no conjunto de ciências tais como: antropologia, história, psicanálise, sociologia, psicologia, etc, visando a complexidade da problemática do trabalho. O autor, anteriormente citado, entende que, não se compreendem a produção de conhecimento e as práticas de prevenção, sem a participação concreta dos trabalhadores, vistos como sujeitos indispensáveis, na construção coletiva da análise da LER, assim como, na elaboração de propostas de mudanças organizacionais, visando à prevenção da patologia. O mesmo se aplica a todo trabalho psicoterapêutico ou socioterapêutico com os lesionados, pois cabe-lhes aí ocupar o lugar de sujeito na tarefa de compreensão do adoecimento, bem como, na formulação de novas estratégias coletivas e individuais, para enfrentar a condição de portadores da LER, para dar um novo sentido à história pessoal, nela incorporando a doença. A abordagem psicossocial da LER é compartilhada pela grande maioria dos pesquisadores que afirmam ser ela uma patologia multifatorial e que segundo PAGÉS apud ARAÚJO (1998), tem a competência e a originalidade de levar em conta os processos heterogêneos, tradicionalmente estudados de maneira separada, negando a hipótese de causa única no surgimento da LER. Através da multidisciplinalidade é que se mergulha numa relação dialética entre as diversas teorias, permitindo a cada pesquisador, criticar e questionar conceitos dos outros, ao mesmo tempo que interpela sua própria disciplina e o conjunto de pensamento da equipe, além do que, ajuda a reescrever seus próprios postulados, colocando-o numa posição de aprendizagem contínua. Ao mes- Vol. 28 - nº 105 /106 mo tempo em que os diversos saberes são partilhados, renuncia-se a qualquer forma imperialista de pensar. Obviamente, a psicossociologia nega a abordagem mecanicista que visualiza uma doença profissional como a LER, como um simples desajuste ergonômico entre o homem e seus equipamentos de trabalho, de fácil reparo. Ela, de uma maneira holística, esboça o dia-a-dia dos trabalhadores, dentro e fora do local de trabalho, ou seja, vai além das tarefas executadas, da organização e das condições de trabalho, pois acredita que a dor presente em cada sujeito acometido de LER, tem sua origem, também, nas relações entre a vida profissional e a vida privada, no salário, no plano de carreira, nas expectativas de relação profissional e pessoal. Ainda segundo ARAÚJO (1998), o sofrimento das tarefas deve ser entendido como algo que antecede e sucede à materialização do gesto laboral, e não apenas, o imediatismo de sua execução. Para a maioria dos pacientes, afirma NICOLETTI (1997), as LER continuam sendo fonte de dor e sofrimento, de angústia e de medo sobre o presente e sobre o futuro de sua capacidade de ganhar o seu salário. DEJOURS (1993), nos afirma que o indivíduo se percebe como parte de uma complexa rede que diz respeito à representação de si mesmo e da posição social que ocupa, enquanto trabalhador e cidadão. Diz ele que enquanto trabalhador, cada indivíduo se empenha, consciente ou inconscientemente, em apaziguar os conflitos entre a sua imagem narcísica e os atributos sociais positivos ou negativos de sua identidade profissional. É dessa forma que cada atitude sua, cada tarefa executada, se incorporam num universo conflitante, onde as utopias e a realidade se debatem continuamente. A dimensão do sofrimento se inicia nestes conflitos, do ponto de vista existencial, o que certamente, vai além do mal-estar associado a uma patologia específica como a LER Na maioria das vezes, esse mal-estar percebido pelo trabalhador, gera um sofrimento que vai além de seu corpo biológico, tendo uma dimensão que atinge o universo simbólico, em que o sujeito está inserido. Esse sofrimento não se deixa conhecer ou explicitar, embora o trabalhador o vivencie. A verdade é que ele está presente em seu 111 112 cotidiano, mas não mostra nitidamente a sua cara e nem se deixa nomear de maneira clara. Alguns sociólogos e psicólogos acreditam que as LER sejam a manifestação somática de algumas angústias do nosso tempo, uma espécie de histeria coletiva desencadeada pela organização do trabalho moderno, em pessoas com perfil emocional susceptível. Para GASPARINI apud RODRIGUES (1992), a LER deve ser percebida como sendo um produto das interações que ocorrem entre o ser humano e seu ambiente, frequentemente hostil, entre condições pessoais, físicas e psíquicas predisponentes e a sua exposição a um ambiente facilitador, que contribui para gerar doenças físicas e mentais. Além do que, os profissionais que lidam com a LER devem: conhecer o melhor que puderem da fisiologia e biomecânica do aparelho locomotor; ter noções de ergonomia para que entendam os fatores de riscos aos quais o paciente se expõe durante as tarefas; empregar métodos reprodutíveis de avaliação funcional e registro das ocorrências, de maneira a possibilitar controles epidemiológicas e avaliação de resultados de tratamentos eficazes; conhecer os locais onde existem recursos adequados para sua recuperação e orientá-los no sentido de procurá-los; e por fim, precisam conhecer as consequências sofridas por um trabalhador que desenvolve LER, seus direitos e as dificuldades que ele encontrará quando for introduzido no sistema da saúde previdenciário ou privado. Na realidade, as lesões por esforços repetitivos são reais e não ocorrem apenas nos trabalhadores de fábricas, indústrias, bancos, etc. Elas acometem também atletas de elite, músicos, bailarinos e até donas de casa que, apesar de não estarem submetidas às condições peculiares da organização moderna do trabalho, apresentam queixas e sinais clínicos semelhantes às doenças ocupacionais dos trabalhadores das linhas de montagem. gar, sem se informar das suas condições. Não delibere, de pé, sobre o que lhe convém ou não convém fazer, como se não lidasse com a vida humana. É perceptível, pelas palavras de Ramazzini, um médico italiano, que já estudava as doenças ocupacionais, cerca de 200 anos atrás, antes mesmo da revolução industrial e dos métodos taylorista/fordista de organização da produção que, mesmo naquela época, a atenção à saúde do trabalhador já deixava a desejar, mesmo não existindo INSS e SUS. Apesar de terem passados tantos anos, elas parecem atuais e fazem levar a classe médica (principalmente ortopedistas e médicos do trabalho) além de todos os profissionais aliados no atendimento as doenças ocupacionais, a uma reflexão profunda de seu papel perante a sociedade. É fundamental que seja realizado um exame ortopédico acurado, com enfoque em capacidade funcional do aparelho locomotor, para execução de tarefas específicas, pois um dos papéis importantes que o exame médico ocupacional tem é de possibilitar a diminuição das chances de uma pessoa que não apresente os atributos físicos necessários para a execução de um determinado trabalho venha a ser exposta aos riscos inerentes da atividade que a tornará doente. Não podemos ignorar que muitos dos postos de trabalho atuais, exigem, para a execução das tarefas a que se destina, capacidade física não encontrável em todas as pessoas medianamente dotadas de resistência aos esforços estáticos, às más posturas causadas por uma cadeira ou layout de fábrica inadequados. Geralmente, o trabalhador não conta com um programa de prevenção e de condicionamento físico, aumentando suas chances de ficar doente. O pior é que, ao ser acometido da lesão, ele, na maioria das vezes, não contará com o auxílio de um atendimento médico eficaz, em virtude da situação em que se encontram, hoje, os serviços encarregados de atendê-lo. A importância de um exame médico acurado no diagnóstico e prevenção A organização do trabalho e a prevenção das LER Um médico que vai atender a um paciente proletário não se deve limitar a por a mão no pulso, com pressa, assim que che- Não é de hoje que as patologias ocupacionais se apresentam em nosso meio. Ramazzini, em um dos seus escritos, dizia: a Revista Brasileira de Saúde Ocupacional natureza impõe ao gênero humano a necessidade de prover a vida diária através do trabalho. Dessa necessidade surgiram todas as artes, como as mecânicas e as liberais, que não são desprovidas de perigos, como aliás, todas as coisas humanas. É forçoso confessar que ocasionam muitos danos aos artesãos, certos ofícios que eles desempenham. Onde esperavam obter recursos para sua própria manutenção e da família, encontram graves doenças e passam a amaldiçoar a arte à qual se haviam dedicado. As doenças do sistema músculo-esquelético associadas ao trabalho, aparecem num percentual mais acentuado nos grandes conglomerados urbanos, muito embora não deixem de ocorrer também em locais onde não foram impostos os métodos de organização do trabalho. Pela afirmação de ROCHA et al. (1993), é preciso que os profissionais de saúde, os empresários e o Estado, avaliem o papel que lhes cabe na prevenção e no tratamento das doenças ocupacionais do aparelho locomotor. COUTO (1996), opina que, a adequação dos postos de trabalho às pessoas que neles operam aos princípios ergonômicos, a adoção de métodos de administração que valorizem o aspecto humano das pessoas que trabalham na empresa e a disposição de todas as partes envolvidas no trabalho, de envidar esforços para encontrar respostas adequadas para o problema das LER, são o melhor caminho que temos para seguir e o único que realmente tem chances de interromper o tremendo desperdício de recursos financeiros e de saúde pública que as doenças ocupacionais do aparelho locomotor têm provocado. Conforme CODO (1995), os fatores de riscos na organização do trabalho responsáveis pelas LER, estão ligados ao sistema taylorista/fordista (ritmo de trabalho, alta repetitividade, conteúdo das tarefas e a qualidade da comunicação) associado a uma proposta contrária ao mesmo, ou seja, a incompatibilidade de se associar força de trabalho às novas tecnologias que necessitam da presença ativa do cérebro, gerando uma assincronia. As LER, segundo ele, são um sintoma desta Vol. 28 - nº 105 /106 dessincronia entre a exigência de um trabalho plenipotenciário, com uma organização fragmentada do trabalho. Sem dúvida nenhuma, a LER é uma doença, mas do ponto de vista da organização do trabalho, ela é um sintoma, e talvez, por esquecerem disso, é que algumas empresas se deparam com verdadeiras epidemias, pois para evitar que ela se alastre, tentam tratar, isoladamente, cada caso no maior sigilo possível. Ao contrário, o aparecimento da LER, em seus momentos iniciais, torna-se uma aliada da gerência, no sentido de detectar as falhas na organização do trabalho e eliminar os fatores que as promovem. A abertura de canais de comunicação entre a gerência e trabalhadores, visando esclarecimentos e acolhimento das queixas surgidas após os turnos de trabalho, é um fator importante na prevenção da LER, afetando de forma menos contundente, a produtividade do setor, pois só conhecendo determinada patologia é que podemos combatê-la e preveni-la. Para o autor acima mencionado, o primeiro e principal ponto num programa de prevenção da LER, é um diagnóstico organizacional completo, que se divide em duas partes: um diagnóstico das condições de saúde mental do trabalhador. No que se refere ao primeiro, qualquer forma de diagnóstico clássico da organização do trabalho serve para detectar os pontos críticos desencadeantes da LER. O segundo, mais recente, é baseado num protocolo com 228 questões fechadas, cujo tempo médio de resposta é de 40 minutos, em aplicação coletiva, que foi elaborado nos últimos 10 anos na Universidade de São Paulo, sobre saúde e trabalho, constando das seguintes partes: um inventário clássico de personalidade e psicopatologia (versão 168, resumida, do MMPI); uma escala de stress individual e no trabalho (baseada nas escalas norteamericanas); uma escala de carga mental no trabalho; uma escala de suporte social afetivo e suporte social institucional; uma escala de análise das relações sociais na produção, subdividida entre relações pares e relações hie- 113 rárquicas; uma escala de participação nos processos decisórios); e uma escala de satisfação no trabalho. Alerta o autor, que o método, sumariamente descrito, procura como qualquer diagnóstico, a melhoria das condições de trabalho em busca de maior produtividade e bem estar do trabalhador. Para que isto aconteça, é necessário que: os sindicalistas instituam em sua pauta, políticas intervencionistas nas condições de trabalho; que os empresários vejam as reivindicações dos trabalhadores como algo coadjuvante no aumento da produtividade; e que os administradores percebam que o trabalho é algo mais que o emprego, não sendo avaliado pela tarefa em si, e sim, pelo significado do gesto laborativo. Referências Bibliográficas ALLENDER, E. Prevalence, incidence and remission rates of some common rheumatic diseases and syndromes. Scand J. Rhematol 3: 145-153; 1974. AWERBUCH, M. RSI: or Kangaroo Paw. Med. J. Aust. 142: 237-238; 1985. ARAÚJO, José Newton Garcia de. Abordagem Psicossocial da LER. In: LER dimensões ergonômicas e psicossociais. Belo Horizonte: Health, 1998. BAMMER, G. & MARTIN, B. The arguments about RSI: an examination. Community Health studies XII (3): 348-355, 1988. BARREIRA, T. H. C. Fatores de risco de lesões por esforços repetitivos em uma atividade manual. 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