REVISTA
DE
SAUDE
ISSN 0303 - 7657
MINISTÉRIO
DO TRABALHO E EMPREGO
FUNDACENTRO
FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO
DE SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO
REVISTA
DE
SAUDE
2
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Ministério do Trabalho e Emprego
Alencar Rodrigues Ferreira Júnior
Paulo Cesar Bezerra de Lima
Virgílio César Romeiro Alves
Fundacentro
Rosiver Pavan
Antônio Roberto Lambertucci
Thaís Helena de Carvalho Barreira
Willian Toshio Minatogawa Higa
Representantes dos Empregadores
Fulgêncio Gulim Júnior
Élio Eulálio Grisa
Confederação Nacional da Indústria
Magnus Ribas Apostólico
Adib Miguel Eid
Confederação Nacional das Instituições Financeiras
Luciano Figliolia
Confederação Nacional do Comércio
Benedito Dario Ferraz
Gerson Oger Fonseca
Confederação Nacional dos Transportes
Representantes dos Trabalhadores
Rita de Cássia Evaristo
Rejane Guimarães Pintaga
Central Única dos Trabalhadores
Arnaldo Gonçalves
Luiz Carlos de Oliveira
Força Sindical
Joel Pereira Félix
Washington Aparecido dos Santos
Confederação Geral dos Trabalhadores
Rosimeire Rodrigues Siqueira
Ivo Wanderley Matta
Social Democracia Sindical
Representantes do Ministério da Previdência e Assistência Social
Helmut Schwarzer
Geraldo Almir Arruda
Representantes do Ministério da Saúde
Antonio Alves de Souza
Marco Antônio Gomes Perez
Membros Indicados pelo Ministro do Trabalho e Emprego
Francisco Antonio de Castro Lacaz
Maria Neuma Lopes de Sales
Oswaldo Paulino
Participantes da Fundacentro sem direito a voto
Arline Sydneia Abel Arcuri
Renata Maria Celeguim
Antonio Lucas Buzato
Vol. 28 - nº 105 /106
3
REVISTA BRASILEIRA DE SAÚDE OCUPACIONAL - FUNDA CENTRO - VOL. 28 - Nº 105/106
Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva
VOL. 28
Nº 105/106
Maio / 2004
Ministro do Trabalho e Emprego
Ricardo Berzoini
FUNDACENTRO
REVISTA
Presidenta
Rosiver Pavan
DE
SAUDE
Diretor Executivo
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Diretora Técnica
Arline Sydneia Abel Arcuri
ISSN 0303 - 7657
Diretora de Administração e Finanças
Renata Maria Celeguim
MINISTÉRIO
DO TRABALHO E EMPREGO
FUNDACENTRO
FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO
DE SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO
Comissão Editorial
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Jorge da Rocha Gomes
Sonia Maria José Bombardi
José Damásio de Aquino
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4
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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
EDITORIAL
Este primeiro ano do novo governo brasileiro representou para a Fundacentro um ano de recuperação
institucional. Foi, ainda, um ano de preparação para o Plano Plurianual 2004-2007, em que se deu
início a uma série de mudanças que irão garantir a existência e o crescimento futuro da entidade.
Ao incorporar a questão do meio ambiente entre suas atividades, a entidade inovou o conceito de
Segurança e Saúde no Trabalho - SST, assumindo que a proteção do meio ambiente requer processos
sustentáveis de trabalho, o que passa, necessariamente, pela segurança e saúde do trabalhador. Da
mesma forma, o desenvolvimento sócio-econômico também requer processos sustentáveis de trabalho e,
aí, mais uma vez, a Fundacentro inova, ao propor a SST como um elemento de transversalidade,
presente nas políticas públicas de inclusão social e de desenvolvimento sustentável, implementadas
pelo Governo federal.
No relacionamento com os parceiros sociais e institucionais também vêm ocorrendo mudanças, por meio
das audiências públicas que estão sendo promovidas pela entidade em vários Estados. A instituição
está chamando os sindicatos de empresários e de trabalhadores, a universidade, o Ministério Público,
o Poder Judiciário e todos os segmentos envolvidos com a segurança e saúde no trabalho para participar de suas decisões, trazendo o controle social para dentro da administração pública. No plano
internacional, a Fundacentro assinou um termo de cooperação com a Agência Européia para Segurança
e Saúde no Trabalho, que faz da nossa entidade a porta de entrada da Comunidade Européia no Brasil
e a porta de entrada de pesquisadores brasileiros na Europa.
Outra conquista da Fundacentro foi sua inclusão na Comissão Interministerial - responsável pela elaboração de uma Política Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador para o país - que reúne os
ministérios da Saúde, Trabalho e Previdência Social.
Normas Gerais
para Publicação
de Artigos
Vol. 28 - nº 105 /106
5
SUMÁRIO
9 ...................
PPRA / PCMSO: AUDITORIA, INSPEÇÃO DO TRABALHO E CONTROLE SOCIAL
por C. R. MIRANDA; C. R. DIAS
Programas PPRA /PCMSO determinam a necessidade da intervenção do estado na regulamentação
das relações do trabalho
21 .................
AVALIAÇÃO DO NÍVEL DE RUÍDO CAUSADO POR DIFERENTES CONJUNTOS
MECANIZADOS
por L. H. DE SOUZA; H. C. FERNANDES; E. L. DA VITÓRIA
Analisa a relação de trabalho homem-máquina e destaca pontos relevantes no que diz respeito à
má adaptação entre o maquinário agrícola e a condição auditiva humana
31 .................
OS CARREGADORES DE UM ENTREPOSTO DE ABASTECIMENTO: UM TRABALHO
PRECÁRIO
por A. M. IGUTI
Precariedades e irregulariedades para carregadores de um entreposto de abastecimento abordadas
sob um aspecto humano-social
43 .................
LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS E SOFRIMENTO MENTAL EM DIFERENTES
PROFISSÕES
por M. E. DE CARVALHO; C. ANTÔNIO; M. L.. M. R. LINO; M. BUSSACOS
LER e sua ligação com sofrimento mental esclarece o aumento da doença em diferentes
profissões
51 .................
PRÁTICAS ALIMENTARES E PERFIL LIPÍDICO INDESEJÁVEL EM TRABALHADORES
PETROQUÍMICOS
por M. C. COSTA; I. LESSA; S. V. VIANA
Mudança em prática alimentar sob o ponto de vista de saúde, produtividade no trabalho e
melhor vida social
63 .................
AVALIAÇÃO DA EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL AO CHUMBO EM UMA
METALÚRGICA - UM ESTUDO TRANSVERSAL
por J. A. MENEZES FILHO; W. A. DE CARVALHO; A. G. SPÍNOLA
Automoção na área de trabalho e seus aspectos negativos diretamente ligados
ao trabalhador
73 .................
ANÁLISE DA INTERVENÇÃO DE UM PROGRAMA DE ATIVIDADE FÍSICA NOS
HÁBITOS DE LAZER
por M. G. C. SALVE; A. D. P. BANKOFF
A importância da atividade física para os trabalhadores analisada sob o aspecto de qualidade de
vida e aumento de produtividade.
83 .................
SEGURANÇA NO TRABALHO DE APLICAÇÃO DE AGROTÓXICOS COM O
PULVERIZADOR DE PISTOLAS EM CITROS
por M. L. DE OLIVEIRA; J. G. MACHADO NETO
91 .................
Aborda os vários problemas causados ao homem quando em contato com pulverizadores de
produtos agrotóxicos
POSTURA CORPORAL - UM PROBLEMA QUE AFLIGE OS TRABALHADORES
por M. G. C. SALVE; A. D. P. BANKOFF
Causas e prevenções necessárias aos problemas posturais, assim como análise de adequações
externas que se fazem necessárias nesta área
105 ...............
ABORDAGEM CLÍNICA E PSICOSSOCIAL DAS LESÕES POR ESFORÇOS
REPETITIVOS LER / DORT
por H. H. DOS SANTOS
LER: definição e discussão sobre o aumento de casos no Brasil, assim como suas razões, origens
e conseqências
6
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
CONTENTS
ENVIRONMENTAL RISK PREVENTION PROGRAMS OCCUPATIONAL HEALTH
MEDICAL CONTROL PROGRAMS: AUDITS, EMPLOYMENT INSPECTION AND
SOCIAL CONTROL
.................... 9
by C. R. MIRANDA; C. R. DIAS
ERPP / OHMCP programs determine the need of the State intervention in the regulamentation
of work relations
EVALUATION OF NOISE LEVELS CAUSED BY DIFFERENT GROUPS OF
MECHANICAL EQUIPMENT
................. 21
by L. H. DE SOUZA; H. C. FERNANDES; E. L. DA VITÓRIA
It analyses the man-machine relation and highlights the most relevant points that concern the bad adaptation
between the agricultural machines and the human hearing condition
HORTICULTURAL MARKET PORTERS: DANGEROUS EMPLOYMENT
by A. M. IGUTI
................. 31
Precariounesses and Irregularities to Market Porters seen and analysed under a human-social aspect
REPETITIVE STRAIN INJURIES (RSI) AND MENTAL SUFFERING IN DIFFERENT
PROFESSIONS
by M. E. DE CARVALHO; C. ANTÔNIO; M. L.. M. R. LINO; M. BUSSACOS
................. 43
RSI and its connection with mental suffering makes clear the illness in various professions
EATING HABITS AND UNDESIRABLE LIPIDIC PROFILES IN PETROCHEMICAL
INDUSTRY WORKERS
by M. C. COSTA; I. LESSA; S. V. VIANA
................. 51
Changes in Eating Habits seen under a health aspect as much as an increase in productivity and
a better social life
ASSESSMENT OF OCCUPATIONAL EXPOSURE TO LEAD IN A METALLURGY
PLANT – A CROSS-SECTIONAL STUDY
by J. A. MENEZES FILHO; W. A. DE CARVALHO; A. G. SPÍNOLA
................. 63
Automation in the working area and its negative aspects related to the emploees
AN APPRAISAL OF THE EFFECTS THAT A PHYSICAL ACTIVITIES PROGRAM HAS
ON RECREATIONAL HABITS
by M. G. C. SALVE; A. D. P. BANKOFF
................. 73
The importance of a plysical activity program for workers seen as an aspect of quality of life and
productivity increase
WORK SAFETY IN PESTICIDE SPRAYING OF CITRUS FRUITS USING HAND GUN
SPRAYERS
by M. L. DE OLIVEIRA; J. G. MACHADO NETO
................. 83
It brings the several problems caused to men when in contact with pesticide Hand
Gun Sprayers
BODY POSTURE – A PROBLEM THAT AFFLICTS WORKERS
by M. G. C. SALVE; A. D. P. BANKOFF
................. 91
Causes and preventions nueded to posture problems,as much as the analisys of external adequations
so necessary in this field
CLINICAL AND PSYCHO-SOCIAL PERSPECTIVE OF REPETITIVE STRAIN INJURIES
RSI / WRMD
by H. H. DOS SANTOS
............... 105
RSI: definition and discussion about the increase of cases in Brazil, as its reasons, origin
and consequences
Vol. 28 - nº 105 /106
7
8
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
PPRA / PCMSO: Auditoria, Inspeção
do Trabalho e Controle Social
Carlos Roberto Miranda1
Carlos Roberto Dias2
1
Médico do Trabalho, Mestre em
Saúde Comunitária,
Auditor Fiscal do Trabalho.
2
Médico do Trabalho,
Pós-graduado em Higiene
Ocupacional, Auditor Fiscal do
Trabalho.
Environmental Risk Prevention
Programs / Occupational Health
Medical Control Programs: Audits,
Employment Inspection and
Social Control
Os autores analisaram Programas de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e Programas
de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) implementados por 30 empresas, de
diferentes ramos econômicos, com mais de 100 (cem) empregados, em atividade em Salvador, Bahia. As inconsistências verificadas foram estudadas segundo os riscos ocupacionais,
levando-se em conta as diversas etapas de desenvolvimento dos programas. Os autores
constataram a baixa qualidade técnica desses programas e apontam a evidente necessidade
de ampliar a cobertura da fiscalização estatal, assim como de estimular a participação dos
trabalhadores e dos seus representantes no desenvolvimento dos programas PPRA e PCMSO.
Consideram, ainda, de fundamental importância o desenvolvimento e o aprimoramento de
condutas, procedimentos e instrumentos de inspeção na área de segurança e saúde no
trabalho.
Palavras-chaves Riscos Ambientais, Programas de Saúde Ocupacional, Auditoria, Inspeção do Trabalho.
The authors evaluated Environmental Risk Prevention / Occupational Health Medical Control Programs in use by 30 companies operating in various fields, each with over 100
employees, in the city of Salvador, State of Bahia, Brazil. The inconsistencies encountered
were examined in light of the occupational risks involved, considering the various stages
inherent to program development. The authors perceived the low degree of technical
quality of the Programs in question and indicated the need for more widespread involvement of State Inspectors, plus the encouragement of workers and their representatives with
regards the development of Environmental Risk Prevention / Occupational Health Medical Control Programs. Furthermore, they also considered the development and enhancement of codes of conduct, procedures and inspection instruments to be of prime importance for work safety and health.
Keywords Environmental Risks, Occupational Health Programs, Auditing, Employment
Inspection.
Vol. 28 - nº 105 /106
9
Introdução
A legislação brasileira que trata da segurança e da saúde no trabalho passou a
adotar um novo enfoque, a partir do final
de 1994, ao estabelecer a obrigatoriedade
das empresas elaborarem e implementarem
dois programas: um ambiental, o PPRA –
Programa de Prevenção de Riscos
Ambientais, e outro médico, o PCMSO –
Programa de Controle Médico de Saúde
Ocupacional. Adotando como paradigma
a Convenção 161/85 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT), a legislação brasileira específica passou a considerar as questões incidentes não somente sobre o indivíduo mas, também sobre a coletividade de trabalhadores, promovendo,
assim, uma ampliação do conceito restrito
de “medicina do trabalho” (1, 2)
Em verdade, apesar do Brasil ter ratificado em 1991 a Convenção 161 da OIT,
até 1994 as Normas Regulamentadoras
(NRs) caracterizavam-se ainda por um
enfoque essencialmente “individualista”. As
NR-7 e 9 intitulavam-se, respectivamente,
Exames Médicos e Riscos Ambientais, ou
seja, a ênfase era, isoladamente, ora para
o corpo do trabalhador, ora para a avaliação quantitativa de um certo risco ambiental.
As novas normas, preocupadas agora com
a saúde do conjunto dos trabalhadores,
privilegiaram o instrumental clínicoepidemiológico na abordagem da relação
saúde/trabalho e introduziram a questão
da valorização da participação dos trabalhadores e do controle social. Neste sentido, a exigência legal dos novos programas PCMSO e PPRA representou, na prática, a superação de um “viés biologista/
ambiental” e a introdução de um “olhar
coletivo” nas questões relacionadas com a
segurança e a saúde dos trabalhadores
brasileiros. (3, 4)
PPRA Programa de Prevenção de
Riscos Ambientais
O PPRA, cuja obrigatoriedade foi
estabelecida pela NR-9 da Portaria 3214/
78, apesar de seu caráter multidisciplinar,
é considerado essencialmente um programa de higiene ocupacional que deve ser
implementado nas empresas de forma articulada com um programa médico – o
PCMSO. (5, 6)
10
Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco
de suas atividades, estão obrigadas a elaborar e implementar o PPRA, que tem como
objetivo a prevenção e o controle da exposição ocupacional aos riscos ambientais, isto
é, a prevenção e o controle dos riscos químicos, físicos e biológicos presentes nos locais de trabalho.
A NR-9 detalha as etapas a serem cumpridas no desenvolvimento do programa,
os itens que compõem a etapa do reconhecimento dos riscos, os limites de tolerância
adotados na etapa de avaliação e os conceitos que envolvem as medidas de controle. A norma estabelece, ainda, a
obrigatoriedade da existência de um
cronograma que indique claramente os prazos para o desenvolvimento das diversas
etapas e para o cumprimento das metas
estabelecidas.
Um aspecto importante deste programa
é que ele pode ser elaborado dentro dos
conceitos mais modernos de gerenciamento
e gestão, onde o empregador tem autonomia suficiente para, com responsabilidade,
adotar um conjunto de medidas e ações
que considere necessárias para garantir a
saúde e a integridade física dos seus trabalhadores.
A elaboração, implementação e avaliação do PPRA podem ser feitas por qualquer pessoa, ou equipe de pessoas que, a
critério do empregador, sejam capazes de
desenvolver o disposto na norma. Além disso, cabe à própria empresa estabelecer as
estratégias e as metodologias que serão
utilizadas para o desenvolvimento das
ações, bem como a forma de registro, manutenção e divulgação dos dados gerados
no desenvolvimento do programa.
As ações do PPRA devem ser desenvolvidas no âmbito de cada estabelecimento da
empresa, sendo que sua abrangência e
profundidade dependem das características dos riscos existentes no local de trabalho e das respectivas necessidades de controle.
A NR-9 estabelece as diretrizes gerais e
os parâmetros mínimos a serem observados
na execução do programa mas os mesmos
podem ser ampliados mediante negociação coletiva de trabalho. Procurando garantir a efetiva implementação do PPRA, a
norma estabelece que a empresa deve
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
adotar mecanismos de avaliação que permitam verificar o cumprimento das etapas, das
ações e das metas previstas. Além disso, a
NR-9 prevê algum tipo de controle social,
garantindo aos trabalhadores o direito à informação e à participação no planejamento
e no acompanhamento da execução do programa.
PCMSO Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional
O PCMSO, cuja obrigatoriedade foi
estabelecida pela NR-7 da Portaria 3214/
78, é um programa médico que deve ter
caráter de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce dos agravos à saúde
relacionados ao trabalho. Entende-se aqui
por “diagnóstico precoce”, segundo o conceito adotado pela Organização Mundial
da Saúde (OMS), a detecção de distúrbios
dos mecanismos compensatórios e
homeostáticos, enquanto ainda permanecem reversíveis alterações bioquímicas,
morfológicas e funcionais.
Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco
de sua atividade, estão obrigadas a elaborar e implementar o PCMSO, que deve
ser planejado e implantado com base nos
riscos à saúde dos trabalhadores, especialmente os riscos identificados nas avaliações previstas no Programa de Prevenção
de Riscos Ambientais (PPRA). Entre suas diretrizes, uma das mais importantes é aquela que estabelece que o PCMSO deve considerar as questões incidentes tanto sobre o
indivíduo como sobre a coletividade de trabalhadores, privilegiando o instrumental
clínico-epidemiológico.
A norma estabelece, ainda, o prazo e a
periodicidade para a realização das avaliações clínicas, assim como define os critérios para a execução e interpretação dos
exames médicos complementares (os indicadores biológicos).
Em síntese, na elaboração do PCMSO, o
mínimo requerido é um estudo prévio para
reconhecimento dos riscos ocupacionais
existentes na empresa, através de visitas aos
locais de trabalho, baseando-se nas informações contidas no PPRA. A partir deste
reconhecimento de riscos, deve ser estabelecido um conjunto de exames clínicos e
complementares específicos para cada grupo de trabalhadores da empresa, utilizanVol. 28 - nº 105 /106
do-se de conhecimentos científicos
atualizados e em conformidade com a boa
prática médica. Assim, o nível de complexidade do PCMSO depende basicamente
dos riscos existentes em cada empresa, das
exigências físicas e psíquicas das atividades desenvolvidas e das características
biopsicofisiológicas de cada população trabalhadora. (7) A norma estabelece as diretrizes gerais e os parâmetros mínimos a
serem observados na execução do programa, podendo os mesmos, entretanto, ser
ampliados mediante negociação coletiva de
trabalho.
O PCMSO deve ser coordenado por um
médico, com especialização em medicina
do trabalho, que será o responsável pela
execução do programa. Ao empregador,
por sua vez, compete garantir a elaboração e efetiva implementação do PCMSO,
bem como zelar pela sua eficácia. Procurando garantir a efetiva implementação do
PCMSO, a NR-7 estabelece que o programa deverá obedecer a um planejamento
em que estejam previstas as ações de saúde a serem executadas durante o ano, devendo estas ser objeto de relatório anual.
O relatório anual deverá discriminar, por
setores da empresa, o número e a natureza dos exames médicos, incluindo avaliações clínicas e exames complementares,
estatísticas de resultados considerados anormais, assim como o planejamento para o
ano seguinte.
A inspeção do trabalho e os programas PPRA/PCMSO
A inseparabilidade entre o trabalho e o
indivíduo que o realiza, a implicação da
pessoa do trabalhador na atividade
laboral, determinam uma exigência de tutela de sua liberdade e integridade física,
ou seja, em última instância determinam a
intervenção do Estado na regulamentação
das relações de trabalho. Em conseqüência, na medida em que o trabalho é de
alguma forma normatizado, a inspeção
encontra sentido e lugar de ser na história
do trabalho. Em síntese, o serviço de inspeção deveria ser a forma de tornar efetivas
as regulamentações do processo de trabalho. (8)
Entretanto, não são poucas as dificuldades relacionadas à inspeção e ao controle
dos ambientes de trabalho. A complexida11
de cada vez maior das relações trabalhistas
exige que o Auditor do Trabalho tenha uma
boa formação jurídica e técnica. O caráter
multidisciplinar da inspeção do trabalho justifica a incorporação de carreiras técnicas
que aportem ao sistema de inspeção e proteção do trabalho os conhecimentos teóricos e
práticos que são necessários para atender
adequadamente as questões que se relacionam com a segurança e saúde dos trabalhadores. (4)
Neste sentido, a Convenção nº 81 da OIT,
adotada em 1947 e ratificada pelo Brasil
em 1957, estabelece em seu artigo 10 que
o número de inspetores de trabalho deve
ser o suficiente para permitir o exercício eficaz das funções de serviço de inspeção e
será fixado tendo-se em conta o número, a
natureza, a importância e a situação dos
estabelecimentos sujeitos ao controle da inspeção, assim como o número e a diversidade das categorias de trabalhadores ocupados nesses estabelecimentos. (9)
Em nosso país, o Ministério do Trabalho
e Emprego - MTE é o órgão de âmbito nacional competente para coordenar, orientar, controlar e supervisionar as atividades
relacionadas com a segurança e saúde no
trabalho, inclusive a fiscalização do cumprimento dos preceitos legais e regulamentares, em todo o Território Nacional. A nível
estadual, essa fiscalização é executada
pelas Delegacias Regionais do Trabalho.
Para desenvolver a fiscalização na área
de segurança e saúde no trabalho em todo
o país, o MTE dispõe atualmente de 690
Auditores fiscais. Vale observar que esse
contingente é claramente insuficiente para
inspecionar um total de mais de 4 milhões
de estabelecimentos em atividade e dar
cobertura para uma população economicamente ativa hoje em torno de 28 milhões
de trabalhadores. Esses dados revelam a
existência de um auditor fiscal para cerca
de 6.000 estabelecimentos, ou seja, um
auditor fiscal para cada 40.000 trabalhadores em atividade no país.
No caso do Estado da Bahia o quadro é
ainda mais grave pois a Delegacia Regional do Trabalho dispõe de apenas 20 auditores na área de segurança e saúde no
trabalho (11 médicos do trabalho e 9 engenheiros de segurança) para inspecionar
cerca de 200.000 estabelecimentos em
atividade no Estado e dar cobertura para
12
uma população economicamente ativa hoje
em torno de 1.300.000 trabalhadores. Ou
seja, um auditor fiscal para cerca de 10.000
estabelecimentos, ou, um auditor fiscal para
cada 65.000 trabalhadores em atividade.
(10, 11)
Em relação ao PPRA, do ponto de vista
da inspeção do trabalho, certos procedimentos obrigatórios previstos na NR-9 podem permitir um melhor acompanhamento
do programa. Um aspecto fundamental é
a obrigatoriedade do empregador reconhecer os riscos ambientais presentes nos diversos locais de trabalho da empresa e
assumir prazos para solucionar as questões
relativas a esses riscos. Como o programa
é permanente, cabe ao empregador formalizar um cronograma anual, com estabelecimento das ações a serem executadas
e as metas a serem alcançadas neste período. Por sua vez, a exigência da manutenção de um histórico com o registro dos dados mantido por um período mínimo de vinte anos permite aos Auditores Fiscais do Trabalho verificar e comprovar tecnicamente
os resultados alcançados no desenvolvimento do programa.
Quanto ao PCMSO, ao estabelecer a
obrigatoriedade de um planejamento em
que estejam previstas as ações de saúde a
serem executadas durante o ano, as quais
devem ser objeto de um relatório anual, a
NR-7 permitiu também um melhor acompanhamento do programa médico da empresa.
Metodologia
O presente trabalho teve como objetivo
principal auditar, do ponto de vista da inspeção do trabalho, Programas de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e Programas de Controle Médico de Saúde
Ocupacional (PCMSO) elaborados e
implementados por empresas, de diferentes ramos econômicos, com mais de cem
empregados, em atividade em Salvador,
Bahia. Além disso, buscou-se avaliar a participação dos trabalhadores e dos seus representantes no desenvolvimento desses
programas e, ao mesmo tempo, definir e
aprimorar condutas, procedimentos e instrumentos de inspeção na área de segurança e saúde no trabalho.
Foram utilizados dados primários e secun-
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
dários. Os dados primários foram
coletados pelos próprios autores, dois Auditores Fiscais (Médicos do Trabalho) lotados
na Delegacia Regional do Trabalho na
Bahia, no período entre abril e dezembro
de 2002, utilizando um questionário
(“checklist”) especificamente elaborado
para levantamento dos riscos ambientais
presentes nos locais de trabalho. Para efeito deste trabalho, foram considerados “riscos ambientais”, os agentes químicos, físicos e biológicos existentes nos ambientes de
trabalho que, em função de sua natureza,
concentração ou intensidade e tempo de
exposição, são capazes de causar danos
à saúde do trabalhador, conforme
conceituação adotada pela NR-9, item
9.1.5, da Portaria 3214/78. Os dados
secundários, por sua vez, foram obtidos a
partir dos documentos-base, dos históricos
e dos relatórios anuais dos Programas de
Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e
dos Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) elaborados e
implementados por empresas privadas de
diferentes ramos econômicos, com mais de
100 (cem) empregados, em atividade em
Salvador, Bahia. Os programas foram analisados e auditados, tomando como base a
identificação e o reconhecimento dos riscos
ambientais, assim como a avaliação do
cumprimento das etapas, das ações e das
metas previstas em seus documentos-base e
respectivos relatórios anuais. As análises
incluíram, ainda, as estratégias e as
metodologias utilizadas pelas empresas
para o desenvolvimento de seus respectivos
programas.
A amostra
Foram inspecionadas 30 empresas com
mais de cem empregados e em atividade
em Salvador, Bahia. Cumpre observar que
essa amostra representa 6,5% das empresas com mais de cem empregados, em atividade em Salvador, nos setores da indústria, comércio e serviços. De acordo com
consulta parametrizada no SFIT – Sistema
Federal de Inspeção do Trabalho, durante
o ano de 2002, na cidade de Salvador,
nos referidos setores, estavam em atividade
465 empresas com mais de cem empregados (12).
Vol. 28 - nº 105 /106
Empresas inspecionadas
Das 30 empresas inspecionadas, 10
(33,3%) delas pertencem ao setor Industrial, 10 (33,3%) ao setor de Serviços e 10
(33,3%) ao setor de Comércio.
Em relação ao grau de risco da atividade econômica desenvolvida, 11 (36,7%)
das empresas foram classificadas como
grau de risco dois, 17 (56,7%) como grau
de risco três e 2 (6,7%) como grau de risco
quatro, de acordo com o Quadro I da NR4 da Portaria 3214/78.
Quanto ao número de empregados, todas as empresas selecionadas mantém mais
de 100 trabalhadores em atividade, sendo que 15 (50,0%) delas possuem entre
100 e 200 empregados, 4 (13,3%) entre
201 e 300 empregados, 4 (13,3%) entre
301 e 400 empregados, 2 (6,7%) entre
401 e 500 empregados e 5 (16,7%) possuem mais de 500 empregados.
Resultados
PPRA: resultado das auditorias
Os Programas de Prevenção de Riscos
Ambientais (PPRA) foram analisados, tomando-se como base a identificação e o
reconhecimento dos riscos ambientais existentes nos locais de trabalho, assim como a
avaliação do cumprimento das etapas, das
ações e das metas previstas em seus documentos-base e respectivos relatórios anuais.
Os resultados são apresentados na Tabela
01, tendo sido analisados os seguintes tópicos:
a. Elaboração do programa
Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco
de suas atividades, estão obrigadas a elaborar e implementar o PPRA, de acordo
com a NR-9, item 9.1.1, da Portaria 3214/
78. Das 30 empresas inspecionadas, 2
(6,7%) não tinham elaborado e
implementado o referido programa.
b. Responsabilidade técnica
De acordo com a NR-9, item 9.3.1.1, a
elaboração e implementação do PPRA poderão ser feitas por qualquer pessoa, ou
equipe de pessoas que, a critério do em-
13
Tabela 01
PPRA: Resultados das Auditorias.
pregador, sejam capazes de desenvolver o
disposto na norma. Entre as 28 empresas
inspecionadas que elaboraram o PPRA, em
14 (50,0%) delas o programa tinha sido
elaborado por um engenheiro de segurança do trabalho, em 13 (46,4%) por um técnico de segurança do trabalho e em 1
(3,6%) por um médico do trabalho. Apesar
de ser considerado essencialmente um programa de higiene ocupacional, em nenhuma das empresas o programa tinha sido
elaborado por um profissional higienista
ocupacional.
c. Avaliação anual
A norma estabelece que a empresa deve
adotar mecanismos de avaliação que permitam verificar o cumprimento das etapas,
das ações e das metas previstas. De acordo com a NR-9, item 9.2.1.1, uma avaliação global do PPRA deve ser efetuada, sempre que necessário e pelo menos uma vez
ao ano, para a avaliação do seu desenvolvimento e realização dos ajustes necessários e estabelecimento de novas metas e prioridades. Entre as 28 empresas
inspecionadas que elaboraram o PPRA, 24
(85,7%) não tinham efetuado pelo menos
uma avaliação anual do seu programa.
d. Inconsistências identificadas
Entende-se aqui por “inconsistência”, a
qualidade ou estado de falta de consistência, de fundamento ou de coerência entre
os dados e informações contidas nos documentos fornecidos pela empresa e aqueles
verificados fisicamente no local de trabalho
14
pelos Auditores Fiscais do Trabalho. Neste
sentido, foram avaliadas as seguintes etapas
do PPRA: reconhecimento dos riscos
ambientais, estabelecimento de prioridades e
metas de avaliação e controle, avaliação
quantitativa dos riscos e da exposição dos
trabalhadores e, implantação de medidas de
controle e avaliação de sua eficácia.
Entre as 28 empresas que elaboraram o
PPRA, 26 (92,9%) delas apresentaram algum tipo de inconsistência em seu programa. Analisando-se as empresas que apresentaram inconsistências segundo as etapas do programa, em 12 (42,9%) delas a
inconsistência referia-se ao reconhecimento dos riscos, em 11 (39,3%) à avaliação
quantitativa, em 20 (71,4%) à implantação de medidas coletivas, em 3 (10,7%)
ao planejamento do programa e, em 20
(71,4%) a inconsistência estava relacionada ao cronograma de execução das ações.
Estudando-se as inconsistências segundo
os riscos ocupacionais, verificou-se que em
82,1% dos casos as inconsistências relacionavam-se com os riscos físicos, em 28,6%
essa relação era com os riscos químicos e,
em nenhum caso as inconsistências estavam
relacionadas com os riscos biológicos presentes nos locais de trabalho.
No caso das empresas que apresentaram inconsistências relacionadas com os riscos químicos, em 7,1% delas a inconsistência referia-se ao reconhecimento dos riscos,
em 35,7% à avaliação quantitativa, em
25,0% à implantação de medidas coletivas
e, em 7,1% à implantação de medidas de
proteção individual.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Entre as empresas que apresentaram inconsistências relacionadas com os riscos físicos,
em 35,7% delas a inconsistência referia-se
ao reconhecimento dos riscos, em 35,7% à
avaliação quantitativa, em 60,7% à implantação de medidas coletivas e, em 17,9% à
implantação de medidas de proteção individual.
PCMSO: resultado das auditorias
Os Programas de Controle Médico de
Saúde Ocupacional (PCMSO) foram anali-
Tabela 02
sados, tomando-se como base os riscos à
saúde dos trabalhadores, especialmente os
identificados no PPRA da empresa e aqueles
verificados pelos Auditores Fiscais durante a
inspeção realizada no local de trabalho. Foi
avaliado o cumprimento das ações e das
metas previstas no planejamento anual, especialmente em relação à realização obrigatória dos exames médicos ocupacionais. Os
resultados são apresentados na Tabela 02,
tendo sido analisados os seguintes tópicos:
PCMSO: Resultados das Auditorias.
a. Elaboração do programa
Todas as empresas, independente do número de empregados ou do grau de risco
de suas atividades, estão obrigadas a elaborar e implementar o PCMSO, de acordo
com a NR-7, item 7.1.1, da Portaria 3214/
78. Das 30 empresas inspecionadas, 2
(6,7%) não tinham elaborado e
implementado o referido programa.
b. Avaliação anual
A NR-7, em seu item 7.4.6, estabelece
que o programa deverá obedecer a um planejamento em que estejam previstas as
ações de saúde a serem executadas durante o ano, devendo estas ser objeto de
relatório anual. Entre as 28 empresas
inspecionadas que elaboraram o PCMSO,
22 (78,6%) não tinham efetuado uma avaliação anual do seu programa.
c. Inconsistências identificadas
Entende-se aqui por “inconsistência”, a
qualidade ou estado de falta de consistência,
Vol. 28 - nº 105 /106
de fundamento ou de coerência entre os riscos à saúde dos trabalhadores e os procedimentos médicos efetivamente realizados no
desenvolvimento do PCMSO. Neste sentido,
foram avaliadas as seguintes etapas: identificação dos riscos ocupacionais a que está ou
será exposto cada trabalhador da empresa,
realização dos exames médicos ocupacionais,
execução e interpretação dos indicadores biológicos, planejamento anual das ações de
saúde, registro dos dados em prontuário clínico individual e emissão do Atestado de Saúde Ocupacional (ASO).
Entre as 28 empresas que elaboraram o
PCMSO, 24 (85,7%) delas apresentaram
algum tipo de inconsistência em seu programa. As inconsistências verificadas nos programas relacionavam-se em 50,0% dos casos com o monitoramento biológico dos riscos físicos, em 7,1% essa relação era com os
riscos químicos e em 7,1% as inconsistências
estavam relacionadas com os riscos biológicos presentes nos locais de trabalho.
15
No caso das empresas que apresentaram
inconsistências em seu PCMSO, em 57,1%
delas a inconsistência relacionava-se à realização dos exames complementares (indicadores biológicos), em 21,4% à periodicidade dos exames médicos, em 17,9% delas à
realização dos exames médicos clínicos, em
17,9% à emissão do atestado de saúde
ocupacional e em 3,6% ao registro de dados em prontuário clínico individual.
Ao analisar as inconsistências, relacionando-as aos vários tipos de exames médicos
ocupacionais obrigatórios, verificamos que
em 71,4% das empresas a inconsistência
verificada no PCMSO estava relacionada com
o exame periódico, em 3,6% com o exame
admissional e, em 3,6% com o exame médico demissional.
O Mapa de Riscos
O Mapa de Riscos, previsto na NR-5 da
Portaria 3214/78 (1), tem por objetivo reunir as informações necessárias para estabelecer o diagnóstico da situação de segurança e saúde no trabalho na empresa. Elabo-
Tabela 03
Mapa de Riscos: Resultados das Auditorias.
Fiscalização estatal: a inspeção
trabalhista
No presente trabalho, analisando as
anotações registradas durante os anos de
1995 a 2002 nos Livros de Inspeção do
Trabalho (LIT) das empresas estudadas,
constatou-se que 8 (26,7%) delas não tinham sido inspecionadas durante o referi-
16
rar o Mapa de Riscos é atribuição dos integrantes da Comissão Interna de Prevenção de
Acidentes (CIPA), com a participação do maior
número de trabalhadores. Na elaboração do
mapa, busca-se conhecer o processo de trabalho, identificar os riscos existentes no local
analisado e, ao mesmo tempo, possibilitar a
troca e divulgação de informações entre os
trabalhadores, bem como estimular sua participação nas atividades de prevenção. O conhecimento e a percepção que os trabalhadores têm do processo de trabalho e dos riscos ambientais presentes, incluindo os dados
consignados no Mapa de Riscos, deverão ser
considerados para fins de planejamento e
execução do PPRA. Contudo, entre as 30
empresas inspecionadas, 13 (43,3%) não tinham elaborado o Mapa de Riscos. Entre as
17 empresas que elaboraram o Mapa de Riscos, em 9 (53,0%) essa elaboração não tinha contado com qualquer participação dos
trabalhadores e em 16 (94,1%) não houve a
participação de representantes de seus sindicatos, conforme resultados apresentado na
Tabela 03 .
do período, 3 (10,0%) empresas foram
inspecionadas apenas 1 (uma) vez, 11
(36,7%) foram inspecionadas 2 (duas) vezes, 3 (10,0%) foram inspecionadas 3 (três)
vezes, 2 (6,7%) foram inspecionadas 4
(quatro) vezes e 3 (10,0%) foram
inspecionadas 5 (cinco) ou mais vezes durante o período. Os resultados são apresentados na Tabela 04.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Tabela 04
PPRA /PCMSO: Fiscalização Estatal.
Após inspecionar as 30 empresas
selecionadas, auditando seus programas
PPRA e PCMSO, foram emitidos 29 Termos
de Notificação (TN) para que as empresas
regularizassem 215 itens, perfazendo uma
média de 7 irregularidades por empresa.
Controle social e a participação dos
trabalhadores
A experiência mundial tem demonstrado
que a ação da fiscalização estatal é limitada e raramente tem sido suficiente, o que
torna cada vez mais importante o controle
social, isto é, a fiscalização exercida diretamente pelos próprios trabalhadores e
pelos seus sindicatos. De acordo com a NR9, itens 9.4 e 9.5, os trabalhadores interessados têm o direito de apresentar propostas e receber informações e orientações a
fim de assegurar a proteção aos riscos
ambientais identificados na execução do
PPRA. Além disso, a norma estabelece que
colaborar e participar na implantação e na
execução do PPRA é uma das responsabilidades dos trabalhadores.
Os documentos-base e os relatórios anuais do PPRA e do PCMSO, por sua vez,
devem ser apresentados e discutidos na
Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). A implantação de medidas de
caráter coletivo deve ser sempre acompanhada de treinamento dos trabalhadores,
Vol. 28 - nº 105 /106
quanto aos procedimentos que assegurem
a sua eficiência, e de informação sobre as
eventuais limitações de proteção que ofereçam. O trabalhador tem também o direito de receber cópia dos resultados dos procedimentos médicos a que foi submetido,
além da segunda via do seu Atestado de
Saúde Ocupacional (ASO). Convém destacar, finalmente, que ao estabelecer os
parâmetros mínimos e as diretrizes gerais a
serem observados na execução dos programas PPRA e PCMSO, as normas estabelecem, também, que os mesmos podem ser
ampliados mediante negociação coletiva de
trabalho.
No presente estudo, entre as 28 empresas que tinham elaborado o PPRA ou o
PCMSO, em nenhuma delas essa elaboração tinha contado com qualquer participação dos trabalhadores (ou de representantes de seu sindicato), sendo que em 25
(89,3%) os documentos-base do PPRA ou
do PCMSO não foram apresentados e discutidos na Comissão Interna de Prevenção
de Acidentes (CIPA). A ampliação das diretrizes gerais e dos parâmetros mínimos dos
programas PPRA e PCMSO, mediante negociação coletiva de trabalho, também não
foi verificada entre as empresas
inspecionadas. Os resultados relacionados
com a avaliação do controle social são
apresentados na Tabela 05.
17
Tabela 05
PPRA / PCMSO: Controle Social.
Conclusões
A legislação brasileira de segurança e
saúde no trabalho, a partir do final de
1994, passou a adotar um novo enfoque
e estabeleceu a obrigatoriedade das empresas elaborarem e implementarem dois
programas: um ambiental, o PPRA – Programa de Prevenção de Riscos Ambientais,
e outro médico, o PCMSO – Programa de
Controle Médico de Saúde Ocupacional.
As novas normas privilegiaram o instrumental clínico-epidemiológico na abordagem da
relação saúde/trabalho e introduziram a
questão da valorização da participação
dos trabalhadores e do controle social.
Contudo, ao inspecionar 30 empresas
baianas com mais de 100 empregados, os
Autores evidenciaram que 2 (6,7%) delas
não tinham elaborado o PPRA ou o
PCMSO. Entre as 28 empresas que elaboraram o PPRA, 92,9% delas apresentaram
algum tipo de inconsistência em seu programa, sendo que 85,7% não tinham efetuado uma avaliação global do PPRA. Entre as 28 empresas que elaboraram o
PCMSO, 85,7 % apresentaram algum tipo
de inconsistência em seu programa, sendo
que 78,6% não tinham efetuado uma avaliação anual do PCMSO.
Após um período de 8 anos de vigência
da legislação que introduziu os programas
PPRA e PCMSO, os Autores constataram que
26,7% das empresas estudadas não tinham
sido inspecionadas durante o referido pe-
18
ríodo, sendo que 83,4% das empresas foram inspecionadas 3 (três) vezes ou menos.
Em relação ao controle social, isto é, a fiscalização exercida diretamente pelos próprios trabalhadores e pelos seus sindicatos,
foi possível evidenciar que entre as empresas que elaboraram o PPRA ou o PCMSO,
em nenhuma delas essa elaboração tinha
contado com participação dos trabalhadores ou do sindicato profissional. A ampliação das diretrizes gerais e dos parâmetros
mínimos dos programas PPRA e PCMSO,
mediante negociação coletiva de trabalho,
também não foi verificada entre as empresas inspecionadas.
Concluindo, apesar das novas normas
privilegiarem o instrumental clínicoepidemiológico e valorizarem a participação dos trabalhadores e o controle social,
no presente trabalho foi possível constatar
a baixa qualidade técnica dos programas
PPRA e PCMSO, a ação limitada e insuficiente da fiscalização estatal dos ambientes
de trabalho, além do precário controle social, isto é, a inexistência de uma fiscalização exercida diretamente pelos próprios trabalhadores e pelos seus sindicatos. Os Autores apontam a evidente necessidade de
ampliar a cobertura da fiscalização estatal, estimular a participação dos trabalhadores e dos seus representantes no desenvolvimento dos programas PPRA e PCMSO
e, desenvolver e aprimorar condutas, procedimentos e instrumentos de inspeção na
área de segurança e saúde no trabalho.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Referências Bibliográficas
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TRABALHO – SFIT. Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE). Consulta
parametrizada de empresas: áreas da
Indústria (CNAE: 15.11-3 a 36.99-4),
Comércio (CNAE: 50.10-5 a 52.79-5)
e Serviços (CNAE: 55.11-5 a 93.092), com 100 ou mais empregados
(Faixa=19 a 37), setembro de 2002.
19
20
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Avaliação do Nível de Ruído Causado
por Diferentes Conjuntos Mecanizados
Luiz Henrique de Souza1
Haroldo Carlos Fernandes2
Edney Leandro da Vitória3
1
Engenheiro Agrícola,
Mestrando em Engenharia Agrícola
do Departamento de Engenharia
Agrícola da Universidade Federal de
Viçosa – MG.
2
Professor Adjunto do Departamento
de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa – MG.
3
Professor Substituto do centro
Agropecuário da Universidade
Federal do Espírito Santo – ES.
Evaluation of Noise Levels Caused by
Different Groups of Mechanical
Equipment
O presente estudo busca avaliar e comparar os níveis de ruído durante uma operação
agrícola, desde a fase de aragem do terreno, até a colheita, para que, assim, em situação
real de trabalho no campo, sejam feitas as devidas análises dos riscos a que estão sujeitos os
operadores de máquinas, durante todo o manejo de uma cultura. Para realização dos
ensaios, foram utilizados: trator (73cv), arado e grade de discos, aplicador de calcáreo,
pulverizador e colhedora, onde foram feitos testes com o trator, tracionando cada um dos
implementos, em velocidade e operações diferentes, com o motor mantido na rotação de
1700 rpm. Para a colhedora, foram utilizadas, também, velocidades de avanço diferentes,
avaliando-se o nível de ruído à esquerda e à direita do operador. Em relação às médias dos
níveis de ruído, os valores se encontraram muito elevados, ultrapassando os limites estipulados, gerando grande desconforto ao operador. A colhedora apresentou maior desconforto
ao operador, não apresentando diferença significativa entre a mesma, parada ou em movimento. Mesmo estando o trator e/ou colhedora parados, os mesmos apresentaram níveis de
ruído bem superior, ao mínimo estipulado apresentando assim, risco não só a quem opera,
como também a quem está próximo dos mesmos.
Palavras-chaves Nível de Ruído, Máquinas Agrícolas.
This study endeavors efforts were therefore made to evaluate and compare the noise levels
generated during agricultural operations, ranging from the plowing stage through to the
harvest, so that the appropriate to be therefore able to conduct the risk analyses be made in
real-life field conditions to determine exactly what machine operators are subjected to during
an entire cultivation process. The machinery used in the tests consisted of: a 73 hp tractor, a
plow, disk grader, artificial manure and lime spreader, crop sprayer and harvester. The tests
were conducted with the tractor towing each implement at varying speeds and in different
operations with the engine running at 1700 rpm. The harvester was also operated using
different forward gear speeds. The noise levels recorded on both the operator’s right and lefthand sides were very high in relation to the average noise levels and exceeded the stipulated
limits, causing much operator discomfort. The harvester generated the most operator discomfort, with little difference between when in motion and when not in motion. Both the tractor
and the harvester when not in motion generated noise levels far higher than the stipulated
minimum levels, presenting thereby a risk not only to the operator but also to whoever was
close by.
Keywords Noise Level, Agricultural Machinery.
Vol. 28 - nº 105 /106
21
Introdução
Dentre muitos fatores ambientais que prejudicam o trabalhador, o ruído pode ser
considerado um dos principais, pois pode
causar danos auditivos, assim como, outras conseqüências. Infelizmente, o setor
agrícola observou esse problema tardiamente, tanto que, na área rural, pouco, ou
quase nada, existe a respeito do ruído em
máquinas agrícolas e, conseqüentemente,
não se pode tirar nenhuma conclusão sobre os problemas ocupacionais, em trabalhadores agrícolas. De maneira geral, o
trator se coloca em destaque, quando se
pesquisa a relação homem-máquina, na
área rural. Qualquer estudo, por mais superficial que seja, demonstra que a frota
nacional de tratores não está projetada,
de acordo com as necessidades do trabalhador, mas sim, com as do trabalho. O
tratorista tem que, ao mesmo tempo, controlar o implemento e manter o trator alinhado, enquanto é submetido, durante
horas, ao sol, à chuva, ao frio, à poeira e
à fumaça do escapamento, além de um
nível de ruído e de vibrações desumanos.
No ano de 1897, na Suécia, foram realizados os primeiros ensaios oficiais com
máquinas agrícolas, porém, o teste para
tratores da Universidade de Nebraska é o
mais famoso e conhecido, mundialmente.
Os “Testes de Nebraska” servem de base
para todos os ensaios de hoje. Eles se baseiam em 2 tipos de testes: ensaio na tomada de potência e ensaio na barra de
tração (SILVEIRA, 1978). Até então, não
existia nenhuma preocupação com o nível
de ruído em tratores. A primeira Legislação que estabelecia valores máximos para
o ruído em veículos e máquinas surgiu, na
Alemanha em 1958. Foi criada uma tabela que impunha valores decrescentes para
o ruído, em veículos, a cada ano de fabricação. Com a publicação da RECOMENDAÇÃO ISO R 362, a legislação passou
a considerar, como limite máximo de ruído, para máquinas agrícolas, a faixa de
85 a 89 dBA (BURK, 1969). Em 1959,
surgiu a norma para ensaio de tratores da
Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na sua versão de 1970, ela divide os ensaios com
tratores em 2 tipos: 8 ensaios obrigatórios
e 5 ensaios facultativos. Para os ensaios
22
obrigatórios, 2 deles se referem ao ruído
produzido por tratores: “ruído produzido
pelo trator, no meio ambiente” e “medida
do ruído no ouvido do tratorista”
(FERNANDES,
1991).
Segundo
FERNANDES (1991), a maioria dos países
da Europa adotam as normas da OCDE,
como referência. Como exemplo, citam-se
a França, que adotou todos os ensaios (inclusive os de ruído), sob a coordenação
do Centro Nacional de Estudo e de Experimentação de Máquinas Agrícolas
(CNEEMA); e a Inglaterra, que normalizou
os ensaios de tratores, conforme as normas BS 1794 e BS 2800, e, para ensaios
específicos de ruído em veículos, usa as
normas BS 3489 - 1962 - “Sound Level
Meters” e BS 3534 - 1962 - “Sound Level
Meters for the Measurement of Noise
Emitted by Motor Vehicles”. Nos Estados
Unidos, várias normas disciplinam o nível
de ruído em máquinas, sendo as principais,
segundo FERNANDES (1991): SAE - J919A
- 1971 - “SAE Recomended Pratice, Sound
Measurement at the Operator Station for
Agricultural and Construction Equipament”
e “SAE - J1013 - 1973 “ASAE Recomended
Pratice, Measurement of Whole Body
Vibration of the seated operator of
Agricultural Equipament”. No Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas
(ABNT) possui inúmeras normas a respeito
de medições de ruído em máquinas, sendo as principais para máquinas agrícolas:
NBR - 9999 (ASSOCIAÇÃO ... – NBR,
1987) – “Medição do Nível de Ruído, no
Posto de Operação, de Tratores e Máquinas Agrícolas” e NBR – 10400 (NBR,
1988) – “Tratores Agrícolas – Determinação das Características Técnicas e Desempenho”. Há controvérsia muito grande a
respeito do limite de ruído ocupacional.
Vários estados americanos fixaram o limite em 90 dBA. O critério das leis federais
americanas (NIOSH - “National Institute for
Occupational Safety and Health”) também
fixou 90 dBA, enquanto várias pesquisas
científicas têm evidenciado ser este nível
elevado. Normas de alguns países já reduziram esse limite para 85 ou 80 dBA.
Estudando o risco auditivo de trabalhadores expostos a diversos níveis de ruído,
MERLUZZI et al. (1987) afirmaram que “exposição a ruído ocupacional de 85 dBA pode
modificar o limiar auditivo de certa porcenRevista Brasileira de Saúde Ocupacional
tagem da população exposta ao ruído”.
Na tabela 1, mostram-se os limites de
exposição ocupacional ao ruído, confor-
me normas nacionais de diversos países
(FERNADES, 1991).
Tabela 1
Limite de exposição ocupacional ao ruído, conforme as normas
nacionais de diversos países.
*Tempo de exposição diária ou semanal.
OSHA: “Occupational Safety and Health Administration”.
NIOSH: “National Institute for Occupational Safety and Health”.
Objetivos
1. Avaliar e comparar os níveis de ruído
durante operação agrícola para os conjuntos trator-implemento e colhedora.
2. Comparar os resultados, com as normas vigentes no Brasil.
Materiais e métodos
Os ensaios foram conduzidos em uma
área de aproximadamente 1 ha, pertencente ao Departamento de Engenharia
Agrícola (DEA) da Universidade Federal de
Vol. 28 - nº 105 /106
Viçosa (UFV). A área está localizada no
município de Viçosa, MG, com longitude
de 42º 52’ 40” W (Gr) e latitude 20º
45’20” S, a 658 m de altitude.
Nas operações agrícolas foram avaliados: Trator – 54 KW – 73 cv – 2000 rpm;
arado de discos reversível, marca CIPOLA,
modelo “C3, 3 x 26”, largura de corte de
1,10 m e peso aproximado de 4.905 N;
grade niveladora “off-set”, marca BALDAN,
36 x 17”, largura de corte aproximada de
2,8 m e peso aproximado de 9.810 N;
distribuidor de calcáreo; pulverizador, bico
Teejet 11003 vk; semeadora e colhedora
auto-propelida.
23
Antes da passagem das máquinas, foram coletadas 10 amostras em 3 profundidades, em pontos escolhidos aleatoriamente, na área onde foram feitos os testes. Utilizou-se um anel volumétrico, e o valor da
densidade do solo foi obtida, dividindose a massa do solo, secada em estufa a
105 º C , p e l o s e u v o l u m e ( E M P R E S A . . . – EMBRAPA, 1979). Na área experimental, antes da passagem das máquinas, foram feitas leituras do índice de cone,
em pontos distribuídos aleatoriamente, perfazendo-se um total de 10. As leituras foram efetuadas por meio de um
penetrógrafo da marca SOIL CONTROL,
modelo SC-60, com uma haste de 600 mm
de comprimento e 9,53 mm de diâmetro,
equipada com um cone de 129,3 mm2 de
área de base, 12,83 mm de diâmetro e
30graus de ângulo de vértice. O índice de
cone foi obtido através da média das leituras de 0 a 0,40 m, em kgf/cm2, transformada para unidade do Sistema Internacional de Medidas (MPa). Procurou-se, na
obtenção das leituras, seguir as recomendações-padrão da ASAE S 313
(AMERICAN SOCIETY OF AGRICULTURAL
ENGINEERS, 1990), que exige, para o
teste, uma velocidade de penetração de
1.829 mm por minuto.
Para determinação do teor de água, utilizou-se o método-padrão de estufa, seguindo a metodologia empregada pela
EMBRAPA (1979). As amostras foram
coletadas na área, antes da passagem das
máquinas, em 10 pontos, aleatoriamente,
distribuídos na área, e em 3 diferentes profundidades.
O trator e colhedora foram avaliados nas
condições em que se encontravam no campo, em trabalho. O local escolhido para
realização dos testes era, relativamente plano, sem obstáculos e declives, os quais
poderiam ocasionar deflexão do som. As
medições não foram realizadas, com equipamento, em manobra, ou durante a aceleração e a desaceleração.
Antes do início de cada determinação
dos níveis de ruído, mediram-se o ruído de
fundo, a velocidade do vento, a umidade
e a temperatura do ar. Embora tenha sido
observada a condição climática favorável,
24
em todas as medições, foi utilizado o protetor de ventos, no microfone do medidor de
pressão sonora, com os intuitos de uniformizar as condições de leitura e evitar a influência de rajadas de vento que pudessem
ocorrer.
A escala utilizada para medida do nível
de ruído do trator e colhedora foi o decibel
(dB). Os ruídos foram determinados em um
medidor de pressão sonora (decibelímetro)
da marca MINIPA, no circuito de resposta
lenta (slow) e de equalização “A”.
As determinações dos níveis de ruído foram baseadas na NBR 9999 (ABNT,
1987), que é uma norma específica para
a medida de ruído, em tratores, e seus efeitos sobre o tratorista, em que são fixados
todos os procedimentos de medidas. Embora as condições de operação tenham
diferido daquelas prescritas pela norma,
todos os procedimentos de medida, nela
fixados, podem ser cumpridos, conforme
realizado por FERNANDES (1991) e LIMA
(1998).
O microfone do medidor foi posicionado
na altura do ouvido do operador, conforme a norma NBR 9999 (ABNT, 1987).
Para a obtenção do ruído, gerado apenas pelo motor, foram feitas medições dos
níveis de ruído, com o trator parado. Essa
avaliação permitiu quantificar a contribuição do motor no ruído total do trator e
determinar os níveis de ruído a que estão
sujeitos os trabalhadores, próximos ao trator.
As leituras, um total de 10, foram realizadas próximas ao ouvido do operador,
do lado onde estava posicionado o escapamento de saída dos gases do motor,
onde se suponha ser o lado de maior nível
de ruído, emitido pelos tratores.
Para avaliar a influência da força de tração requerida pelo implemento, realizaram-se ensaios, com variáveis, previamente fixadas: foram utilizados 1 trator , arado e grade de discos, aplicador de
calcáreo, semeadora, pulverizador e
colhedora. Realizaram-se os ensaios com
o trator, tracionando cada um dos
implementos, em velocidades e operações
diferentes, o motor foi mantido na rotação
de 1700 rpm. Para a colhedora, foram
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
analisados velocidades e lados à esquerda e à direita do operador.
A medição dos níveis de ruído foi realizada, com o medidor posicionado próximo ao ouvido do operador durante a execução das operações, em uma área
preestabelecida de 90 m2, sendo efetuadas
10 leituras, em períodos de 5 segundos,
aproximadamente, caso a dispersão das
leituras do nível de ruído obtida nas condições de medição excedesse a 3 dBA; outra medição era realizada até que a leitura de 3 medições sucessivas se limitassem
a uma dispersão, na faixa de 3 dBA. As
médias dessas leituras foram consideradas
como resultado.
Na avaliação da influência da força de
tração requerida, dos níveis de ruído durante uma operação agrícola, o experimento foi montado num delineamento fatorial
2 x 2, para velocidade do conjunto e profundidade de trabalho, respectivamente,
com 10 repetições, para leituras dos níveis de ruído. Na avaliação da influência
do lado de operação, para a colhedora,
foi montado o experimento, num delineamento fatorial 2 x 2, para velocidade e
lado de operação, respectivamente, conforme o número de repetições, citado acima.
Resultados
Os testes foram realizados, em uma área,
onde os fatores que poderiam afetar a força de tração requerida; como declividade,
altitude, condições de superfície do solo,
umidade do solo, tipo de solo e resistência
do solo à penetração, eram homogêneos,
assegurando-se, assim, que as variações
de velocidade e profundidade, para cada
conjunto trator-implemento ensaiado, seriam suficientes, para uma variação, na força de tração.
Através da análise de variância, verificou-se que as interações, entre as velocidades e profundidades utilizadas, foram
significativas a 5% de probabilidade,
exceto nos conjuntos: trator-semeadora e
trator-Aplicador de calcáreo. O coeficiente de variação apresentou valores entre 38
e 72%, representando uma alta dispersão
dos níveis de ruído, nas operações agrícolas consideradas.
Trator com
arado de discos
Na tabela 2 podem ser vistos os resultados das médias dos níveis de ruído.
Tabela 2 Médias dos níveis de ruído (dBA), obtidas no trator com arado de discos,
variando-se a velocidade e a profundidade da operação.
Médias seguidas pelas mesmas letras
maiúsculas, na horizontal, e pelas mesmas
letras minúsculas, na vertical, não diferem,
entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey.
A maior média de nível de ruído foi en-
Vol. 28 - nº 105 /106
contrada, quando se utilizaram a maior
velocidade e a maior profundidade, indicando a tendência de elevação do nível
de ruído, em função do aumento da força
de tração requerida, obtida, na mesma rotação do motor do trator.
25
Trator com grade de discos
Tabela 3
Médias dos níveis de ruído (dBA), obtidas no trator com grade de discos,
variando-se a velocidade e o ângulo de travamento da grade.
Médias seguidas pelas mesmas letras
maiúsculas, na horizontal, e pelas mesmas
letras minúsculas, na vertical, não diferem,
entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste
de Tukey.
A maior média de nível de ruído foi encontrada, quando se utilizaram a maior velocidade e a maior profundidade, indicando a tendência de elevação do nível de
ruído, em função do aumento da força de
tração requerida, obtida, na mesma rota-
ção do motor do trator.
Trator com aplicador de
calcáreo
Os resultados das médias dos níveis de
ruído para as velocidades foram analisadas, separadamente, já que não houve
interação, entre essas duas variáveis, conforme análise de variância.
Tabela 4
Médias dos níveis de ruído (dBA), obtidas no trator, com aplicador de calcáreo
para as velocidades utilizadas.
Médias seguidas pelas mesmas letras não
diferem, entre si, a 5% de probabilidade,
pelo teste de Tukey.
Embora não tenha ocorrido diferença significativa para as médias dos níveis de ruí-
do para as duas velocidades estudadas, a
maior média foi encontrada, quando se utilizou a maior velocidade, indicando a tendência de elevação do nível de ruído, em
função do aumento da velocidade do trator.
Trator com Semeadora
Tabela 5
Médias dos níveis de ruído (dBA), obtidas do trator, com semeadora,
variando-se a velocidade de trabalho.
Os resultados das médias dos níveis de
ruído para as velocidades foram analisadas, separadamente, já que não houve
26
interação entre essas duas variáveis, conforme análise de variância.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Médias seguidas pelas mesmas letras não
diferem entre si, a 5% de probabilidade,
pelo teste de Tukey.
Não houve diferença significativa para
as médias dos níveis de ruído, para as duas
velocidades de trabalho estudadas para a
mesma rotação do motor do trator.
Trator com Pulverizador
Tabela 6 Média dos níveis de ruído (dBA) obtidas do trator, com pulverizador, em
função da velocidade e pressão utilizada.
Médias seguidas pelas mesmas letras não
diferem entre si, a 5% de probabilidade,
pelo teste de Tukey.
A maior média do nível de ruído foi encontrada na maior velocidade, indicando
a tendência de elevação do nível de ruído
em função do aumento da velocidade,
para o trator com pulverizador numa mesma pressão de trabalho.
Colhedora
Tabela 7 Média dos níveis de ruído (dBA) da colhedora, em função da velocidade e
lado de operação.
Médias seguidas pelas mesmas letras
maiúsculas, na horizontal, e pelas mesmas
letras minúsculas, na vertical, não diferem,
entre si, a 5% de probabilidade, pelo teste
de Tukey.
A maior média do nível de ruído foi encontrada, na menor velocidade, devido a
uma maior trepidação da colhedora nesta
situação e lado direito, já que o escapamento da mesma se situa deste lado.
de 89,6 dBA do lado do escapamento do
mesmo.
Nível de ruído com
o trator parado
Discussão geral dos valores médios dos níveis de
ruído encontrados e com-
Foi obtida uma média de nível de ruído
Vol. 28 - nº 105 /106
Nível de ruído com
a semeadora parada
Foi obtida uma média de nível de ruído
de 96,8 dBA do lado do escapamento da
colhedora.
27
paração direta com outras publicações
A tabela 8 mostra o tempo máximo, permi-
Tabela 8
tido de trabalho diário, para cada operação
agrícola, considerando-se o maior nível de
ruído médio encontrado para cada operação.
Tempos de exposição diária permissível às médias de ruído encontradas
nas operações.
Conclusões
Com relação às médias dos níveis de
ruído encontradas nas medições, os valores se encontraram elevados, ultrapassando os limites estipulados pela Portaria 3214/78 - NR15 - CLT (cujo valor limite é de 85 dBA para uma exposição
máxima diária de 8 horas, sem protetores
auriculares), os níveis geram grande desconforto ao operador.
A colhedora apresentou maior desconforto ao operador, não apresentando diferença
significativa, entre a mesma, parada ou em
operação.
Mesmo estando o trator e/ou colhedora
parados, os mesmos apresentaram níveis
de ruído, superiores ao mínimo estipulado, apresentando riscos a quem opera, e
a quem está próximo dos mesmos.
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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Os Carregadores de um Entreposto de
Abastecimento: um Trabalho Precário
Aparecida Mari Iguti
Médica do trabalho, Docente do
Departamento de Medicina Preventiva
e Social da Faculdade de Ciências
Médicas da UNICAMP – SP.
Horticultural Market Porters:
Dangerous Employment
Neste trabalho, entrevistamos 20 carregadores da CEASA de Campinas, enfocando
suas condições de vida e de trabalho, em especial relacionado às formas precárias,
numa das muitas facetas do mundo do trabalho da atualidade.
Palavras-chaves Trabalho, Precariedade, Carregadores de Cargas, Trabalho Informal.
For this study, we interviewed 20 porters at the CEASA, a horticultural supply post, in Campinas,
State of São Paulo, with special attention being given to the precarious type of work, in one of
the many facets of present-day work conditions.
Keywords Work, Precariousness, Porters, Irregular Employment.
Vol. 28 - nº 105 /106
31
“(Bom carregador) É saber tratar bem
do homem de pedra, tratar bem do freguês e saber fazer uma carga. Fazer uma
carga é saber pegar mercadoria, não pegar uma mercadoria fraca: vamos supor,
você pega esse monte de milho, tem que
saber pegar o bom. Caixa de alface tem
duas camadas, doze pés ou três camadas,
18 pés, até 24 pés. Se pegar de três camadas, já não é bom carregador; é prá
pegar vagem manteiga, que é fininha,
pega vagem grossa; aí tem que trocar. Tem
que saber escolher a mercadoria, porque
aí, a mercadoria que o freguês vende, tem
mais qualidade”
A motivação deste
trabalho
Em 1995 o Departamento de Medicina
Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, através de
dois docentes, iniciou um trabalho junto à
CEASA de Campinas para conhecer as
condições de trabalho, e dentro das possibilidades, de elaborar um programa para
os seus trabalhadores. Meu interesse
centrou-se nos carregadores pois, segundo se comentava, a frequência de casos
de lombalgia era muito alta. A fim de podermos ser aceitos e legitimados no serviço, uma vez formalizada nossa presença,
passamos a atender os que procuravam,
espontaneamente o posto de saúde municipal local; estivemos integrados à equipe
local, e o atendimento buscou centrar nos
que apresentavam problemas crônicos; foi
dada uma ênfase nos que tinham queixas
relacionadas à coluna. Tendo percebido,
neste contexto que os carregadores não
procuravam o ambulatório, e sim, trabalhadores de outras atividades, tais como,
cozinheiras com uma certa idade, pessoal
de limpeza geral e outros, veio-me a indagação sobre o que se passava, exatamente, com os carregadores. Para conhecer
um pouco sobre seu trabalho e seu mundo, decidi entrevistá-los. Esta é a motivação deste trabalho.
O método e os entrevistados
Foram feitas visitas aos locais de trabalho e as entrevistas ocorreram no local de
32
trabalho, em horário de “fim de feira” (entre
10:00 e 11:00 horas). Foram 23 os entrevistados, ao longo do ano de 1998, sendo
20 carregadores, dois permissionários, “donos de pedra” (são os que obtêm a permissão, na forma de concessão, para
comercializar produtos, em espaços pré delimitados) e um consertador de carrinhos. As
entrevistas foram realizadas, uma vez por
semana, em geral na sexta feira. Perguntouse ao trabalhador se aceitava ser entrevistado e tendo-se o consentimento, procedeu-se
a uma entrevista, com um pequeno roteiro,
onde se priorizou a descrição de “um dia de
feira” para o carregador. A partir deste
“aquecimento”, diferentes assuntos foram
abordados. Sete carregadores recusaram-se
a participar das entrevistas. Não foram feitas gravações, sendo anotado, diretamente,
em caderno. Ao final de cada entrevista, foram feitas leituras sobre suas falas (que se
tentou manter o mais fiel possível). Todas as
entrevistas foram feitas pela autora do trabalho. Nas falas dos trabalhadores, cujo eixo
central foi o de fazer o trabalho, diversos
aspectos da precariedade foram aparecendo. Esta é a razão de ser desta temática,
como eixo organizador do texto.
A Ceasa e o trabalho
dos carregadores
Recebe 460.000.000 de quilos de produtos (dados de 1993, PMC,1994); que
são carregados e descarregados, anualmente. Circulam, nos momentos de pico,
algo em torno de 16.000 pessoas; sua
“população” constante é de 3.000 a 4.000
pessoas. Possui em sua estrutura, quatro
bancos,
10
restaurantes,
e
x
permissionários que vendem seus produtos,
nas chamadas “pedras” e nos “boxes”.
As atividades concentram-se na venda
atacadista de produtos hortifrutigrangeiros,
nas segundas, quartas e sextas feiras, aos
quais denominam, “dias de feira”. Nas
terças e quintas feiras, são os dias de mercado de flores. Os boxes funcionam de
forma contínua, de segunda a sábado, e
uma diferença é o fato de possuírem sistemas de refrigeração, para conservação de
frutas em especial, e serem fixos e possuírem uma área construída definida. O
entreposto ainda conta com venda de carnes e peixes. Os carregadores são em torno
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de 800, mas estes números não são considerados unanimidade pelos carregadores, que
acreditam serem muito maior (chegam a estimar até o dobro).
Para trabalhar, os carregadores necessitam, em primeiro lugar, de serem cadastrados na CEASA; precisam de um carrinho para o transporte, cujas características são: possuir duas rodas traseiras e dois
apoios de ferro para a parte da “frente”.
A distribuição dentro das diferentes áreas
da CEASA não ficou muito clara. Muitos
trabalham “fixo” para um permissionário
“dono de pedra”, fazendo a descarga dos
produtos, e depois, para alguns “fregueses” ou “clientes” o carregamento das
mercadorias. Muitos fregueses costumam
ser “fiéis” e contratar o trabalho do mesmo carregador; mas ocorre de aparecerem alguns, que contratam só para uma
“viajinha”. As atividades não são homogêneas e não costumam ocupar todos os
dias da semana, mais nos dias de feira, e
ainda assim, de forma desigual; a sexta
feira é a mais forte; durante o ano, também existem.
O trabalho é feito das 7:00 - 8:00 horas, para a descarga e 9:00 em diante, o
carregamento; por volta das 11:30 horas
quase já terminou ...é o fim de feira.
O que é o trabalho precário?
DESSORS (1994), referindo-se ao trabalho precário, faz uma conceituação ampliada, da instabilidade e da fragilidade a
que se submete o trabalhador, nesta situação, em especial, relacionada à sua duração. Prefere não definir a precarização e
deixar em aberto, defendendo a sua complexidade e a “multiplicidade de ressonâncias”. Considera como uma situação ampla, existente mesmo para casos em que
os próprios trabalhadores, ainda não se
consideram diretamente envolvidos nessa
situação, mas cujas situações podem apresentar a ameaça de instabilidade. Mesmo
os que estariam, aparentemente, ao abrigo desta situação, são passíveis de sofrer
a situação de desestabilização, que passa
desde a situação brutal do downsizing, até
a hipocrisia dos planos sociais. Mas ocorre também por remanejamento de horários, transferências, e todo um arsenal de ajus-
Vol. 28 - nº 105 /106
tes à lógica de produção, que mesmo procurando preservar a harmonia em condições
aceitáveis de trabalho, eliminam pessoas e
fragilizam o trabalho de outros.
Para SANDRET (1995) o
trabalho precário implica
também em:
A impressão de serem
tomados por objetos
“A gente é como garrafa descartável,
bebeu a água, joga fora...” (carregador,
33 anos de CEASA)
“Esse dinheiro do SOLO, apesar de ser
pouco, ele vai e não volta, não traz benefício nenhum...nem barracão, nem isso eles
fizeram...antes, tinha uma associação,
agora, não tem mais; porque teria que
pagar mensalidade também...como a maioria não pode pagar, foi extinguida e assim é.
O que aconteceu: o CEASA não negocia mais com carregador, colocam quantos
carregadores que quiser: é muito carregador prá pouco serviço.
“Tem pessoas que você ajuda e elas não
ajudam você. Na hora que você mais precisa, prejudicam você; e aqui tá cheio.
Você cumprimenta, mas é só prá manter.”
A exclusão do coletivo
do trabalho
“Tem muito carregador aí que maltrata
a gente à toa, é bruto... é preciso ter muita
paciência...” (iniciante)
“[0 pior] É a desunião, é cada um por
si, enquanto tá ganhando; só quando tem
problema vem conversar. Tem carregador
que nem te olha na cara, quando você
precisa subir na rampa com carga, porque não dá pra puxar sozinho, ele vira a
cara, faz de conta que não é com ele. Mas,
todo mundo precisa, sabe? Daí quando
chegar a vez dele...e ele nem percebe isso.”
Da ausência de reconhecimento de sua profissão
É um serviço que ninguém reconhece,
ninguém dá valor pro serviço. Você entra
de mão vazia e sai de mão vazia. A gente
33
não tem garantia, carteira assinada, férias,
décimo terceiro. A gente fica doente, só recebe um salário, e olha lá, demora quatro a
seis meses. Não tem estabilidade, hoje você
tem patrão, amanhã você não tem. Patrão
quer dizer compromisso; hoje tem compromisso, amanhã ele já não quer.”
“É a ignorância, às vezes, até dos parceiros de serviço, os comerciários em geral, que
tratam a gente com inferioridade”
A intensificação do trabalho: exigências crescentes, sem realização subjetiva/criativa do ser humano.
“ A gente vai até o limite, sempre; mais
a gente não agüenta...”
Aumento dos excluídos (sem estrutura de serviços, sem acesso aos bens de
consumo, sem direito à cidadania)
“O trabalho do carregador influi até lá
fora, a gente vai comprar “à prestação, não
tem como comprovar renda, aí não pode
comprar. Mas, a gente fica, porque o desemprego lá fora tá bravo, é melhor ficar aqui: é melhor pingar algum do
que secar”
Assim, HIRATA (1998) considera que
uma das consequências dos novos modelos produtivos é o da precarização do trabalho, referindo-se a uma dupla transformação, tanto no seu conteúdo, como na
forma, que observa como sendo aparentemente paradoxal, em que há uma dupla
mão, por um lado, a exigência de estabilização, de implicação do sujeito no processo de trabalho, através de atividades
que requerem autonomia, iniciativa, responsabilidade, comunicação e, por outro,
verifica-se o processo de instabilidade, de
precarização dos laços empregatícios, com
desemprego prolongado, formas de emprego precário e da flexibilidade no uso da
mão de obra e das atividades temporárias, não estáveis. Nota-se o aumento da
vulnerabilidade no trabalho.
“A gente não tem patrão de verdade,
mas o dono da pedra, a gente fica fixo,
senão não tem nenhuma segurança...”mas,
não pode ficar doente, porque senão ele
substitui, é certo, porque não pode ficar
dependendo, né? ... quebra o galho da
gente, faz algum adiantamento se a gente
fica apertado...”
“Eu trabalhei prá um senhor aqui den-
34
tro, 10 anos e 3 meses. Quando foi segunda feira, ele simplesmente me dispensou.
Se fosse registrado, teria algum direito;
como não tenho, fica assim mesmo. Ele
prometeu pagar o INPS atrasado; se pagar, com o tempo que tenho, acho que
posso me aposentar: são 19 anos de insalubridade, me falaram que cada ano vale
dois, se for, homem se aposenta com 35,
acho que pode dar, precisa levantar...”
“Não pode [colocar substituto], acho errado, estando num serviço como esse, fica
doente, precisa, né? Lógico não pode colocar qualquer um, que pode ser perigoso,
se a pessoa não tem experiência, não tem
noção. Mas uma pessoa de confiança, até
que o carregador acompanha o serviço,
se ele não pode fazer força, né? “
Aliás, o que é precário não é somente o
trabalho em si, mas, as condições de vida
em geral. O sistema de transportes coletivos, por exemplo, e a necessidade de deslocar-se até o trabalho. É acordar cedo, é
enfrentar condições difíceis:
“ É acordar 4:30; o ônibus demora 45
minutos para chegar; se perde o ônibus,
espera mais uma hora; alguns têm carro
velho, mas a maioria vem de ônibus; chega aqui às 6:20, no mais tardar 7:00 horas, pra descarregar as mercadorias.”
“Acordo na base de 4 horas da manhã,
todos os dias, eu e minha mulher que trabalha no ITAL, tomamos o café da manhã,
tomo dois ônibus pra vim; 5:30 no bairro
e depois 6:20 no mercado. Preciso sair
cedo, senão não alcanço 6:20 no
mercado...chego numa base de cinco pras
sete, mais ou menos...”
“Acordo três horas, que é prá não perder hora; tenho que sair 4:30 de casa,
tomo três ônibus prá vir...”
“Acordo 5:30, venho de bicicleta”
Quem são estes
carregadores
CINGOLANNI (1986), em estudo sobre
trabalhadores precários, faz algumas distinções, tendo, inicialmente, encontrado
dificuldades para estabelecer, exatamente o que seriam os trabalhadores precários. Primeiro defrontou-se com uma
multiplicidade de variáveis e categorias.
Mas, caracterizou da seguinte forma: instabilidade nos empregos, com mudanças fre-
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quentes e a intermitência de empregos. Esta
caracterização de precariedade só seria possível se levantarmos a estória de empregos,
ao longo dos anos, dos trabalhadores. Encontrou diferenças entre os trabalhadores,
que classificou em quatro categorias:
1) indivíduos que ficam nesta situação, em
função do desemprego, e que buscam fazer
alguma formação e encontrar empregos típicos e estáveis.
“Eu queria, sempre quis ser
professor...mas ia precisar fazer faculdade, comecei o colegial muito tarde, terminei com 28 anos de idade (neste ano)...com
o que ganho, não dá prá pagar mensalidade de faculdade...”
2) Indivíduos em dúvida sobre o futuro,
bastante desorientados e que buscam a
estabilidade, a qualquer preço, e o fim da
precariedade
- “Trabalhava em agricultura, morava em
Pernambuco, vim com a família toda, trouxe tudo, a tralha toda...Lá era assim: plantava, vinha a chuva, acabava tudo...vinha
o sol, acabava também...tinha criação,
não tinha água, morria tudo...”
“Depois de 10 anos, fico sem ação, sem
receber nada. Se conseguir outro serviço,
tudo bem, se não, a gente passa necessidade, a família passa necessidade. Devido à idade, as firmas não pegam mais a
gente, aí se não encontrar serviço, a gente
passa necessidade.”
“Minha idéia é desistir, parar - entrei com
16 anos, disse que quando chegasse a 28,
ia parar...se encontrasse algum
serviço...mas, a situação tá difícil, essa em
que se encontra o país...difícil.”
3) indivíduos com perfil variado, agrupados por apresentar atividades laborais
‘atípicos’, e que a crise econômica, só faz
piorar, e que aceitam como continuação,
este tipo de trabalho.
“Aqui prá mim é normal, a senhora sabe,
a gente não tem estudo nem nada, então
aqui é bom... não dá prá fazer ficha em
firma, nem nada, então é aqui mesmo”
“De CEASA tenho 14 anos, mas trabalhei em box desde 79...trabalhei um tempo
fora,
na
TELEBRAS,
na
construção...entrei como servente, fui prá
carpinteiro, mas larguei porque não dá prá
saúde, não aquelas alturas, lá no alto... o
pedreiro é mais fácil, chega prá fazer o
serviço, o trabalho já tá feito, o carpintei-
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ro chega antes prá instalar os andaimes,
lá no vazio, altura, não dá não...”
“Eu trabalhei registrado 19 anos, eu trabalhei desde 1968. Como trabalhava registrado, eu já trabalhei como operador
de máquina, como conferente, como programador de produção...nas primeiras firmas também trabalhei com química, como
preparador de pasta de polir. Nessas firmas de metalúrgica, tudo insalubre.”
“A Sra. não acredita, eu SOU MOTORISTA, PROFISSIONAL E TUDO, de carga
mesmo, acredita nisso? Mas tá ruim não
dá, aqui é melhor, estou perto de minha
casa... eles mandam a gente lá pro norte,
longe, estrada ruim, a gente vai e nem sabe
se volta...ainda pego alguma carga, perto, às vezes, mas aí tem pouco, todo mundo quer, né? ”
“Eu trabalhava com madeira, era marceneiro, tinha profissão, registrado em carteira e tudo...trabalhava com acabamento de
móveis”
“Eu trabalhava numa firma multinacional,
a ENGESA, é essa que fabrica armas mesmo; aí o que aconteceu: através de um irmão que trabalha 27 anos aqui, aí esse
patrão apartou de um sócio e queria uma
pessoa de confiança que entendesse de
burocracia; conversamos, eu tinha um salário, ele cobriu o valor e eu vim ; ele disse:
se ele subir, eu subia junto; aí ele prometeu
registrar, e foi passando e aí até agora não
registrou. Até registrou outras pessoas, e eu
aqui.
4) O quarto grupo tem uma
especificidade: trata-se de indivíduos que
apresentam uma aversão pela disciplina
produtiva
“Já trabalhei de empregado, a gente fica
preso, preso mesmo. Tem hora prá entrar,
hora prá sair; não pode parar prá respirar, tomar água. Aqui não, cansou, dá uma
paradinha, toma uma água, dá um
tempinho, come uma fruta, é muito melhor...”
“Só uma vez trabalhei como empregado, um ano e meio; você chega e fica o
tempo todo, e podem ficar te mandando, e
isso e aquilo. Além do mais, o que você
ganha lá, em um ano, aqui, você ganha
em dois meses.”
”O fato de não ter ninguém que mande
fazer as coisas, eu sei meu serviço, não
precisa ninguém dizer, acho que é um dos
35
motivos que estou aqui até agora.”
“O serviço não é direto, o grosso é segunda, quarta e sexta; aí é isso que segura a gente, dá prá resolver outros problemas. Eu mesmo não precisava vir na terça
e quinta porque não tinha carregamento.”
Os processos de criação e recriação de
desigualdades e da incapacidade da economia, em absorver a população ativa em
níveis socialmente satisfatórios levam à
‘nova pobreza” um fenômeno de degradação, de enfraquecimento gradual e contínuo, degradação essa definida como processo de deterioração das condições econômicas e sociais de uma parcela da sociedade, com consequente rebaixamento do
status relativo; com este termo, nova pobreza, designamos os indivíduos que não
dispõem de recursos para assegurar a sua
própria sobrevivência e cuja situação de
precariedade e fragilidade penaliza, a
cada vez mais, suas chances de reinserção.
(CATANI, 1996). As nossas observações
dizem respeito às origens e as histórias de
vida destes indivíduos.
Como chegam
ao entreposto
Na verdade, quando se pergunta à administração, explicam-nos que carregadores são cadastrados, até um certo número,
e que existe uma “fila” de espera. Na prática, existem trabalhadores dos boxes (em
geral são registrados em carteira, costumam ser formalizados, trabalham de segunda a sábado, e os chamados “autônomos”, que são os “controlados” pela administração local; estes possuem um carrinho, podem se deslocar por toda área; os
dos boxes, só podem trabalhar nas áreas
de boxes. Fora destes, existem os que trabalham, sem direito a possuir um carrinho;
ou seja ajudam os cadastrados (ou mesmo
trabalham para eles - sublocação); em geral, já fizeram “a ficha” e estão na lista de
espera, para serem chamados. A espera
pode ser longa. Este cadastro não é, necessariamente, aberto ou simples; existem
as ‘indicações’. Às vezes, acontece de uma
substituição acontecer, quando o carregador adoece ou morre, e a vaga ficar para
um filho ou parente.
“Um parente de minha mulher, que era
carregador, morreu e eu entrei na vaga dele.
36
“Tem dois tipos de carregador aqui, o que
pode ter carrinho, de azul e o que não
pode, vermelho, como se fosse trabalho de
“bico”, mas não é, é cadastrado e tudo.
“Conforme os de azul vão desistindo, saindo, em caso de falecimento, de doença, os
de vermelho vão entrando...a gente fica esperando eles morrerem ou então desistirem
que é pra gente entrar...”(vermelhos bem
jovens)
“Conheço o Entreposto, desde pequeno,
meu pai trabalhou aqui, construindo o
Ceasa, que era pequeno; hoje cresceu
muito, dá pra todo mundo trabalhar, não
ia poder ficar só uns trinta carregadores,
como antes, não, isso cresceu muito, veja
a quantidade de mercadoria, de gente,
essas pedras todas...”
Prova de fogo: o início
Quando os carregadores começam, são
chamados de “cabaço”, principiante,
iniciante, aquele que ainda não domina o
saber do trabalho; existe uma certa diferenciação entre eles e riem-se dos novatos
que passam por uma espécie de prova de
fogo. DEJOURS (1987) nos fala do
“enquadramento” dos jovens trabalhadores, recém-chegados a uma equipe. Diz que
são submetidos a verdadeiros testes, são
gozados a respeito da própria virilidade,
exigem-se certas proezas físicas, são observados: são submetidos ao teste da ideologia–defesa. Se não suportarem este
ambiente de trabalho, devem partir, o que
ocorre, de tempos em tempos.
“Cabaço é um que não sabe trabalhar”;
a gente diz ‘cabacinho’ prá novato...”
“Dá prá ver quando tá puxando carrinho - fica com o braço duro, não dobra o
braço porque tem medo que empina...” (ri)
“É uma pessoa que começa hoje e só atrapalha: pega uma caixa e derruba; puxa o
carrinho e empina; passa, não presta atenção, e passa por cima do pé de uma pessoa; é o estreante, o principiante, este é o
cabaço”
“A gente vê ele fazendo muita força, sem
precisão, ele faz muita força no braço, ele
deixa o carrinho não equilibrado... a gente vê, pela cara, que faz muita força, a
gente vê a dificuldade de encostar o
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carrinho...prá encostar o carrinho tem de
olhar de lado e ir afastando, né?
“Quando cheguei, logo, era cabaça,
cabaça, perguntei que diabo era
isso...No começo é difícil, o carrinho empina, quebra, o braço dói muito, até uns
dois meses”
“Todo novo que entra, quer mostrar serviço, fazer mais rápido, pegar mais carga.
O pessoal fica só olhando, já sabe que não
vai agüentar, vai se arrebentar todo”
“A gente tem que aprender a se virar,
conhecer... tem novatos, chegam, e não ficam, não é fácil...”
Os carregadores dizem ‘empinar’ o carrinho, quando está carregado e que ao
fazer um movimento qualquer, e em particular, ao subir rampas, o carrinho faz um
movimento brusco para trás, empinando,
como um cavalo e derrubando toda carga. Caso a carga seja de mercadorias frágeis, pode se perder tudo. Quem paga o
prejuízo? Alguns donos de carga são compreensivos e pagam por exemplo, a metade; mas, a maioria obriga o carregador a
pagar tudo. Como eles não têm dinheiro
suficiente, pagam, com trabalho, ao longo de semanas ou meses. Além do mais, o
carrinho tende a quebrar, com o impacto
da virada, impedindo o carregador de trabalhar, por dias ou até semanas, conforme a gravidade do estrago.
“Foi o jeito de basear ele no braço, a
gente tinha medo de empurrar, saber a
base de puxar o carrinho...virar, o carrinho virou, com laranja, esparramou laranja foi prá todo lado...se bate sementinha
de pêssego, uva, assim de lado, na roda,
e passa desapercebido, vira.. agora não,
a gente segura.. a gente tá mais firme,
mesmo assim acontece, é perigoso...”
“Isso aí você aprende com o tempo, começa com sete caixas, depois dez...aí você
começa a tombar o carrinho, ai aprende,
naturalmente...”
“Se a pessoa tá começando, é preferível
carregar dianteiro, porque o peso fica mais
ai, mas empina menos (mas fica mais
pesado pra carregar). Depois, você pega
prática, fica mais leve carregar na traseira, manusear ele...”
“Tem carga e descarga. Carga são essas viajinhas aí, se leva prá lá (aponta um
local distante), quando volta, de carrinho
vazio, já deu prá descansar um pouco.
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Descarga não, é mais difícil, porque o trabalho é direto, não para até acabar. Descarga, se são 200 caixas, só para quando
acabar. “
“Só empinei uma vez, tava carregando
194 caixas de morango... Ah, foi difícil,
né? tava trabalhando prá esse patrão mesmo, levei dois meses prá pagar a dívida,
foi duro...”
“Primeiro comecei nos box, de laranja;
no começo era difícil, empinava o carrinho, não tinha prática. Depois de uma semana, a gente vai bem. Eles ensinam, primeiro coloca uma caixa no pé do carrinho
que é pra apoiar, depois enche; começa
com 10 caixas, depois de um dia já coloca quinze. Se não der problema de coluna, já leva 15-20 caixas. O normal aqui é
20 caixas, de pesado, quando você já está
aprovado no serviço.”
Ser um bom carregador:
a luta pela estabilidade
CLOT (1995) observou em diferentes situações de trabalho, a “eficácia do trabalho, apesar de tudo”. E foi uma fala de um
trabalhador que despertou sua atenção:
“Apesar de tudo, o trabalho sério é incontestável” E é através da engenhosidade
compensatória, um tipo de engajamento
profissional, para fazer o que é necessário
ser feito, que os trabalhadores superam os
obstáculos do trabalho.
“Aprender a trabalhar no mercado central. Ali adquire muito cuidado. Você tem
que ter cuidado com a mercadoria, como
comprador e com a seleção de mercadoria. Existe vários, né? Tomate, existe quatro
seleções: extra 1A, 1A, extra B, extrinha.
Ainda tem verde ou vermelho. Do caminhão,
chega tudo misturado. Aí põe no carrinho
e tem que separar. Esse, é o mais fácil. Tem
seleção de figo, de goiaba que é pior, tem
de oito a vinte e dois, quer dizer, é a quantidade que vai dentro da embalagem...“
Para se tornar um bom carregador, não
é tarefa tão simples como se possa pensar;
tem a carga, a descarga, a distribuição da
carga no carrinho, a forma de segurar o
carrinho, o cuidado com a carga, o saber
escolher ou conferir a mercadoria, e as relações com o “freguês” (é preciso conquistá-lo
37
com um bom trabalho e criar confiança) e o
“patrão” (dono de pedra ou box). Também
não pode “empinar”, que é quando o carrinho alavanca para trás, e nada consegue
segurá-lo. Nestas ocasiões, é frequente perder ou estragar parte da mercadoria e pior,
quebrar a grade do carrinho, este sim, um
grande prejuízo. Além do mais, é preciso se
cuidar, cuidar do corpo, para não adoecer,
e esta tarefa faz parte do trabalho do carregador.
Existem aspectos “morais” existe a
valoração da honestidade:
“Precisa ser honesto, rápido e
inteligente...de repente, tem pessoas que
não sabem como trabalhar...vamos supor,
vamos carregar dois caminhões, eu um e
você outro, temos a mesma quantidade;
se você for bom, carrega na metade do
tempo...”
“Existe o mau carregador - até já mandaram embora uns par deles; vai pegar
10 caixa, pega onze; chegam pegam 1011 tomate da caixa aberta, guardam na
sacola.”
Tem que ser honesto, principalmente, não
mexer em nada, sem pedir autorização, se
quiser alguma coisa, pedir antes...”
Da educação, da eficiência, do cuidado
“Tem educação prá mexer com a pessoa, que não bate caixa, não joga, que
estraga mercadoria”
“Que sabe tratar o cliente da gente, porque se sabe tratar, tem o tempo todo (fixo);
saber pegar a mercadoria; corrigir a mercadoria: a gente abre a caixa, se a mercadoria não for boa, troca a mercadoria”
“Por exemplo, você tem que ver o tipo
de caixaria a carregar, se carregar caixa
e engradado, primeiro as caixas, e depois
os engradados; se tem caixa k e colete,
primeiro caixa K e depois colete, que é
prá ficar certinho, o espaço dar certo...”
“Tem carregador que é desmazelado,
toda mercadoria é sensível, conforme bate
a caixa, machuca a mercadoria...”
“É a pessoa que respeita os outros, que
respeita, que faz a carga direitinho, que
não mexe com nada dos outros, chega põe
as coisas com jeito, não derruba, não estraga”
“Tem carregador que não tem paciência, em vez de esperar até chega a querer
gritar com dono de pedra, assim não dá;
tem que saber esperar, quando tem dois
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ou três carregador na pedra, é isso que
faz o bom carregador.”
“Então um bom carregador, a gente sabe
que ele carrega direito, não faz isso. E
por exemplo, o G... lá, nos dias que carrego no campo, é ele que fica aqui, tentando vender a mercadoria que ficou. Ele
fica aqui sozinho, vê? Acontece, o carregador vê, lá no meio (de um monte de
caixas vazias) uma caixa sua, vai lá, pega
e traz prá você. Isso é um bom carregador” (permissionário)
“Aquele que o comprador chega, faz a
lista, entrega pra ele, e ele dá o caminhão pronto pro freguês. O freguês não
precisa se preocupar, ele paga as contas
dele, e vai embora.”
O zelo é um ingrediente necessário à
eficácia de uma organização do trabalho;
e o que é o zelo no trabalho? É a
engenhosidade, é o exercício de inteligência eficiente no trabalho, cujas características podem ser enumeradas, como, saber
lidar com o imprevisto, com o inusitado,
com o que não foi ainda assimilado ou
rotinizado...(DEJOURS, 2000)
As dificuldades do
carregamento
Para a maioria, o que “é difícil” relaciona-se com fatores que de alguma forma,
coloca em risco sua saúde, uma das facetas
da precariedade do trabalho. Alguns dos
fatores citados foram o peso da mercadoria, o formato das embalagens (caixas,
sacos, engradados); o peso total do carrinho, o tempo de chuva que faz a carga
pesar mais, as rampas (os galpões têm rampas de acesso, pois, ficam na altura da
carroceria dos caminhões, para permitir a
descarga das mercadorias)
“Erguer o carrinho pesado (começar a
transportar), pega na coluna... depois a
gente tem prática, equilibra... é um molejo,
amortecedor... tem que controlar, porque
senão empina no ar...manejar no braço,
não deixar tombar...se o corpo é maneiro
[magro], sobe facinho [fácil] no ar.. se for
muito alto é mais difícil de controlar altura
(do carrinho), mas tem mais peso (compensa)”
“O mais difícil é subir e descer rampa,
porque não tem freio, tem que ser no bra-
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ço; é peso, peso demais tem que alguém
ajudar”
“A base é 20 caixas, até 25, mas judia,
mas tem de carregar... o bom, bom mesmo
seria 15 caixas...”
“Difícil o jeito de pegar a caixa; prá
pegar a caixa tem jeito senão se esforça
muito, trabalha mais - a caixa tem jeito prá
pegar: caixa fechada tem que pegar inclinada, porque se pegar reto, faz muito peso,
se torna mais pesada...”
“O perigo mesmo é subir na rampa...a
única coisa ruim que você sente é subir rampa, precisa alguém ajudar, fica com fôlego assim.
“É tudo igual...difícil é abacaxi a granel, é melancia a granel, é pior pra carregar”
“É repolho, nessas caixas [engradados],
é difícil de carregar. Repolho é a verdura
mais pesada. Também tem batatinha, as
sacas são de plástico, lisas, é ruim de lutar; mas isso não carrego sempre, é mais
difícil.”
“Mas se tiver em engradado, engradado quebra muito e fica difícil de carregar”.
“Tem cliente ruim, aí ninguém quer, quando chega, todo mundo estava lá e aí já
não está mais, sumiu tudo...ninguém quer,
todo mundo sabe, aí se precisa, ninguém
ajuda...”
Efeitos do trabalho sobre os corpos cansados e os corpos doentes
“Trabalhar é ser condenado a não poder fazer outra coisa, ainda mais quando
o repouso aqui não é senão a reparação
do trabalho”. (CINGOLANI, 1986)
“Chego em casa, vou tomar banho e
curtir um pouco meus filhos. E durmo um
pouco também. A gente fica cansado, né?
Depende do tipo de serviço que pega aqui.
Trabalho segunda, quarta e sexta. Não é
igual todo dia. Tem dia que é mais igual.
Na quarta e sexta, fico mais cansado, tem
mais trabalho, mais movimento. Segunda
é dia fraco...”
“No começo o braço fica quebrado, com
batido, agora não, a gente acostumou...
“Quando você começa a aprender a puxar, você pode machucar o calcanhar,
...”Se a gente não souber carregar, judia
do corpo, prejudica a coluna.
“Se por eventualidade se acidenta, o
carregador, se ele não tiver um fundo dele
mesmo, ele morre a mingua. Se o carrega-
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dor tiver dificuldades financeiras e não
puder pagar SOLO, eles vão prender o
carrinho..
“Esse rapaz mesmo [um carregador novo]
foi atropelado; se não tivesse ajuda, tinha
morrido mesmo. De fome também. A gente
depende e muito de favores dos outros, a
gente não tem nenhuma proteção aqui.”
“Tô tendo [dor na coluna], de um ano
pra cá, começou a escapar os nervos,
acho...Eu ia no massagista, na hora ficava
bom, mas daí a uma semana, começava
de novo...dá um mau jeito, fica tudo doído, inclusive essa semana, começou de
novo...”
“Tem uns caras aí que nem são velhos,
com muita dor por aí, precisam dormir com
três travesseiros na costas, tanta dor...mas
não sei de ninguém que parou por
isso...Quando dói, todo mundo vai pro
massagista; se for mais grave, aí não, mas
a maioria vai no massagista mesmo.”
“Eles [os velhos] fazem umas carguinhas,
já não dão mais pro pesado, não aguentam mais...uma carga grande eles já não
pegam mais; quando carregam mais vão
parando no caminho, duas, três vezes. Às
vezes eles têm os fixos, que já fazem há
muito tempo, aí os fregueses não se desfazem, então eles têm essa carga; tem alguns
que vêm trabalhar só pra não parar de vez.
No Natal, sabe, faltou carregador, aí um
cara tava precisando de serviço e me falou: olhaí, só esses velhos...tá faltando
carregador...então você veja, o pessoal não
pede pra eles, escolhem gente mais nova
que aguenta...”
“É serviço que se a pessoa ficar muito tempo, ela morre. No começo não sente, é jovem, depois a gente começa a desgastar,
não tem o mesmo ritmo. A gente se esforça
demais, só pra agradar patrão, depois é
que a gente vê.”
“E o que morre de carregador....Só no
mês passado foram quatro, desse barracão. Morreram atropelados aí na pista.”
Formas de pagamento e
as incertezas de receber:
que precariedade!
BIHR (1990 apud ANTUNES) considera
que as várias categorias de precários têm,
em comum, a instabilidade no emprego e
de remuneração, a desregulamentação das
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condições de trabalho, em relação às normas vigentes, com consequente regressão dos
direitos sociais, bem como ausência da proteção e expressões sindicais, configurando
uma tendência à individualização extrema da
relação salarial.
É muito desunido [os carregadores], só
quando tem problema, te cumprimenta, aí
vem conversar, contar suas coisas...Os
carregadores são muito desunidos, você
vê, até os camelôs que não são nada, criaram um sindicato...aqui a gente marca uma
reunião, não vai ninguém, nem adianta.
Enquanto o cara tá ganhando 300, ele nem
quer saber do que tá ganhando 10; só
procura quando tem algum problema...”
“A descarga, a gente faz e depois não
recebe, a gente trabalha e não pagam.
Aqui no Entreposto não tem problema de
[falta] serviço, o problema é receber...
“Às vezes você faz o serviço, aí não paga,
diz, deixa pra depois que pago, e não
paga; aí desanima, né?”
Tem uns que se exige que pague, outros,
deixa passar, pagar depois porque você
sabe que vai acertar, pagam. Tem uns que
vêm até de outros estados, Rio, Bahia, São
Paulo; esses, tem que receber na hora.
”Ih, eu já trabalhei pruns quatro, faliu
tudo, aí não pagam; sabe, falir aqui nas
pedras é a coisa mais fácil, não vendem,
aí vão fazendo dívida, aí não pagam a
gente, vão embora sem pagar...”
“Aqui é o único lugar que tem que pagar prá trabalhar; tem que ter licença, cada
carregador paga 13 reais, por mês, prá
trabalhar...fazem promissória, tem dia pra
pagar, cada dia de atraso pra recolher no
banco, é um real por dia de atraso, que é
prá ninguém atrasar... se atrasar muito, às
vezes a gente fica com muita dívida, passam umas correntes no seu carrinho, não
pode mais puxar o carrinho, trabalhar...”
“Se quebra? Quebra muito, a gente vende muito fiado. Tem que fazer negócio,
arriscar. Não pode vender só à vista, não
dá. Aí, a gente não sabe quem vem aí,
não tem como cobrar. Eles levam a mercadoria, não tem prova que comprou. Não
têm endereço, telefone. Tem varejão que
quebra. Aí eles não pagam, fecham e não
pagam. Sempre acaba devendo pra alguém. Às vezes chega a 20.000 (reais).
Tem um aí que me deve 4.000. No Ceasa,
ele deve 100.000. É muito dinheiro, são
40
10 carros zero, você vê? (permissionário,
dono de pedra)
“Às vezes a gente trabalha prá um freguês, ele enrola a gente, promete que vai
pagar no final de semana, e não paga,
fica enrolando. A gente vai falar, e ele fica
reclamando ainda...”
“Se muito freguês não paga, a gente não
pode pagar também. Aí, fica ruim.”
A competição
“O trabalho diminuiu porque o mercado
cresceu demais, em muito pouco tempo, e
não compradores suficientes. Acho que o
problema maior aqui é entrada de carregadores sem limite. Aumentou vendedor,
aumentou carregador, mas não comprador”.
“Alguns supermercados trazem os funcionários próprios... competem com a gente,
tiram o trabalho da gente...como eles são
registrados, os patrões querem economizar,
aí tiram o trabalho de quem paga INPS, tá
aqui por conta do trabalho...”
“Tá uma época difícil até prá gente, falta trabalho, não está bom, a gente não
ganha bem...tem mais carregador do que
é pra ser, mas eles (A Administração) vão
pondo mais carregador, não perguntam o
que a gente acha, São como Deus, vão
fazendo sem perguntar nem o que a gente
acha...”
“O serviço, o que segura a gente aí, que
era acima do que eu ganhava. Aí a gente
ficou esperando que melhorasse, a gente
viveu de ilusão. Nos últimos três anos, fiquei sem aumento, segundo o que ele falou, era por causa dos planos econômicos,
estava no vermelho, falou...aí, na segunda, pedi aumento, e ele simplesmente mandou embora.
Uma boa carga: um pequeno sonho contra a
precariedade
Uma boa carga tem significados variados para os carregadores:
“Uma viajinha, duas viajinhas, 10 reais;
se a carga é grande, quatro contos é muito..” “é quando pego um bom freguês, que
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compra bastante mercadoria, carga pequena, então ganho bastante com pouca carga...”
O tratamento que o freguês dá, o respeito, a educação e o pagamento, é claro: “É
quando a pessoa é boa [cliente] paga bem,
trata você bem, é isso...”
Também pode ser uma carga pequena,
e leve: “É quando pego um bom freguês,
que paga bem e a caixaria é manera..”
“Boa carga mesmo é pimentão, jiló, tudo
manerinho...alface também é moleza...”
“Seria uma carga de pimentão, beringela,
seria leve e rápida...”
Pode ser uma carga ou descarga de caminhão e que seja de produto leve: “Que
eu considero com carga baixa, de três de
alta, que o caminhão encoste no horário e
que pague bem...”
Ou ainda de ter serviço garantido para
fazer: “Seria, vamos supor, você tem sempre serviço, prá você estar trabalhando;
quanto mais serviço, mais você ganha...”
“É uma carga que a pessoa ganha bem;
toda feira é carga certa; feira são os dias
que tem feira, que é segunda, quarta e
sexta.”
Mas: “Pessoa viver de viajinha, não dá
não” “Prá mim, é carga maior, quanto
maior, mais ganho, né?
O que consegue ganhar num dia de feira: “É do que ganhei.” [Passa um carregador, com umas cinco caixas, bem tranquilo.
Ele fala, apontando para a carga]: “É como
esse aí, pouca mercadoria, e paga a mesma coisa! “ É uma boa carga. Quer dizer,
pra carregar no carrinho, em termos de
peso, é o carrinho completo com 20 volumes. Se for menos, fica ruim, se for mais,
fica sensível. Já em termos financeiros, é
eu trabalhar numa carga e receber um bom
preço.“
rer o trabalho ou mais exatamente
este trabalho? (CINGOLANI, 1986)
“É porque você é uma pessoa livre, você
é quase independente, não tem ninguém
prá te ficar mandando... e é descontraído
também...” é a amizade.
“Gosto, acho bom demais, é o melhor
serviço que já encontrei, esse, ninguém
manda em você.
“A gente brinca muito, se distrai, passa o
tempo bem....”
“O dinheiro. O dinheiro e a amizade do
povo. Trabalhando certo, você tem amigo,
emprego fixo e fica sem depender de ninguém. É autônomo, né, prá mim, eu gosto,
ninguém fica mandando em mim.”
“Do meu serviço aqui, o que mais gosto é
que tô recebendo por mês. Estou trabalhando e estou recebendo. Eu faço e recebo.
“Do serviço gosto de tudo em geral; sem
serviço, gosto mais da lanchonete, tomar
umas biritas...”
É a hora de ir embora, né?”
“Aqui todo serviço é bom; é pesado mas
é bom - é como se fosse recreativo, os quatro dias de Ceasa são de ‘cabeça fria’, o
tempo passa rápido”.
”O fato de não ter ninguém que mande
fazer as coisas, eu sei meu serviço, não
precisa ninguém dizer, acho que é um dos
motivos que estou aqui até agora.”
A precariedade não é senão atitude que
consiste em fazer um “compromisso violento” com o trabalho, para lhe tirar o tempo.
A recusa não supõe, então, o desejo de
acabar com todo trabalho, mas com uma
condição para poder fazer o trabalho de
outra forma, ou para finalmente, desesperar de não encontrar um outro, ou ainda,
encontrar uma outra forma de viver.”
(CINGOLANI, 1986)
Do que mais gostam
Conclusão
A noção de precariedade aqui tem a
conotação de fragilidade estatutária e da
instabilidade profissional que costuma se
associar aos trabalhadores precários. Entretanto, ela não supõe que um trabalhador queira se estabilizar, ou que ao contrário, escolheu a instabilidade. A precariedade, começa com a questão: – além da
necessidade vital do salário – por que que-
O trabalho, seria antes de mais nada, a
experiência e o princípio da determinação
de uma condição. Este horizonte é o fazer
produtivo ou um tipo de atividades
“terciários”, fragmentados, normatizados
pela racionalidade funcional. Trabalhar, é
ser condenado, não poder fazer outra coisa, ainda mais quando o repouso constituise, somente, na recuperação do trabalho. É
Vol. 28 - nº 105 /106
41
também ser condenado a não possuir o tempo e inversamente , a viver o desejo do tempo livre sobre o modo do não trabalho. A
precariedade, então, seria tão somente, a
atitude que consiste em fazer um compromisso violento com o trabalho, para arrancar
seu tempo....(CINGOLANI, 1986)
A precariedade atinge os trabalhadores
de diversas formas, num mesmo trabalho.
Podemos considerar as relações de trabalho, mas notamos que aparece com as formas de pagamento do trabalho, da organização de trabalho, cuja transparência
não é nada evidente, dos riscos à saúde
decorrentes da própria atividade, dos danos às mercadorias, que podem representar
prejuízos; das dificuldades de acesso ao trabalho, de como são vistos pela sociedade e
do próprio contexto econômico social, que
os afeta diretamente, pois quando os varejões
“quebram” vêem-se sem receber pelo trabalho já executado, além do risco de não receberem pelo trabalho, que ocorre com certa
frequência.
Apesar disso tudo, ainda encontram sua
forma de bem viver.
Aqui, para os excluídos, só restam duas alternativas: a violência ou a solidariedade. Mas,
a maioria resiste como pode; os trabalhadores conseguem levar suas vidas, mesmo nestas condições; aí está um bom exemplo.
Referências Bibliografias
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CATANI, A. D.- Trabalho & Autonomia.- Ed.
Vozes, Rio Janeiro, 1996.
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Découverte, Paris, 1995.
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DESSORS, D.- Precarité, Precarisation,
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par la psychodynamique du travail.Archives Maladies Professionelles, 56,
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Trabajo.- 4,7, 5-27, 1998.
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Precarité du Travail.- Archives Maladies
Professionelles., 56, 3:171-72, 1995.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Lesões por Esforços Repetitivos e
Sofrimento Mental em Diferentes
Profissões
Maria Engrácia de Carvalho
Chaves1
Carlos Antônio Melgaço
Valadares2
Maria Lúcia Maia Ribeiro Lino3
Marco Bussacos3
1
FUNDACENTRO - Ministério do
Trabalho e Emprego.
2
Sindicato dos Bancários da Bahia.
Participação : Comissão Intersindical
de LER.
Trabalho apresentado no XVIth
3
World Congress on Safety and Health
at Work, na Áustria , no período de
26 a 31 de maio de 2002
Repetitive Strain Injuries (RSI) and
Mental Suffering in Different
Professions
Estudo que tem como objetivo específico comparar os resultados de um indicador de sofrimento mental em portadores de LER/DORT, de acordo com diferentes profissões.O instrumento central da pesquisa foi um questionário auto - aplicado contendo questões objetivas e
subjetivas, com 120 perguntas. O estado de saúde mental foi avaliado através da inclusão
dos ítens do SRQ-20 (Self-Report Questionnaire). Os testes estatísticos utilizados foram :
Cochran Armitage, qui-quadrado e t-student. Os principais resultados foram: apenas os
trabalhadores de telecomunicações e processamento de dados (TELEPROCESS), trabalhavam, em sua maioria, no horário de turnos. A grande maioria dos trabalhadores de todas as
profissões referiam realizar horas-extra, com exceção dos trabalhadores de TELEPROCESS
(33,33%). A maioria dos trabalhadores de todos os setores, com exceção do setor
TELEPROCESS, queixou-se de pressão por parte das chefias. A percentagem de positividade
do SRQ-20 foi de aproximadamente 90% - não houve diferença estatisticamente significante
em relação às profissões. Chegamos à conclusão que o adoecimento por LER interfere nos
níveis de sofrimento mental , aumentando-o homogeneamente entre as diferentes profissões.
Palavras-chaves Lesões por Esforços Repetitivos, Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho, Sofrimento Mental, Organização do Trabalho.
The objective was to compare one indicator of mental suffering among workers affected by
repetition strain injuries (RSI), according different professions. The main instrument for the
study was a broad questionnaire consisting of 120 objective and subjective questions, including
SRQ-20 (Self Report Questionnaire). The utilized statistical tests were : chi-square, Cochran
Armitage and t-student. The main results were: only the telecommunication workers worked in
shift work, in majority. The great majority of all the professions , except telecommunication
workers, refered overtime work performed. The majority of all the sectors , except telecommunication , refered bosses’ pressure.The SRQ-20 positivity frequence was 90 %, aproximately.
There were not statistically significant differences between the SRQ-20 results in relationship
to the professions. The high and similar SRQ-20 positivity frequencies point out the relevance
of being a population with established diagnosis of RSI, what increases the mental suffering
levels among the different professions.
Keywords Repetition Strain Injuries (RSI), Mental Suffering, Work Organization.
Vol. 28 - nº 105 /106
43
Apresentação
Em 1997, iniciou-se um amplo estudo
epidemiológico descritivo com 105 portadores de Lesões por Esforços Repetitivos (LER)
/ Distúrbios Osteomusculares Relacionados
ao Trabalho (DORT), por solicitação da
Comissão Intersindical de LER/BA. Este estudo foi realizado através de um trabalho
conjunto da FUNDACENTRO/CRBA, do
Sindicato dos Bancários da Bahia e da referida Comissão.
O objetivo geral de toda a pesquisa foi
desenvolver amplo estudo com portadores
de LER, buscando-se compreender melhor
o processo de adoecimento e a interferência da doença na própria vida das pessoas acometidas (CHAVES e cols., no prelo).
A partir desse trabalho inicial, foram desdobrados outros, inclusive o presente estudo.
Introdução
Para se entender as mudanças que se
processam no mundo do trabalho há que
se pensar a atendências da economia caracterizada pela chamada globalização,
com reestruturação e intensa competição
entre empresas, terceirização com
precarização do trabalho e a ofensiva contra direitos históricos conquistados pelos trabalhadores, em nome da flexibilização.
Na tentativa de avaliar o impacto das
mudanças no mundo do trabalho sobre a
saúde dos trabalhadores, alguns estudos
têm partido do conjunto corpo-mente, buscando entender como se relacionam as lesões físicas e o sofrimento mental.
BORGES (1999), estudando as relações
entre trabalho bancário e adoecimento físico e mental, destaca a presença e associação entre distúrbios psicoemocionais e
osteomusculares. Os primeiros estariam associados, em seu estudo, a fatores da organização do trabalho, tais como: sobrecarga de trabalho, controle de chefia e
sentimentos de desvalorização.
Analisando a diferença dos índices da
freqüência de distúrbios mentais menores,
que foram maiores, com o de LER,
BORGES(1999) levanta duas possibilidades: a primeira, que o sofrimento psíquico
poderia ser indicador precoce das LER; e a
44
segunda, que nem todo sofrimento psíquico
estaria relacionado às LER e, na ausência de
algumas condições de sobrecarga
osteomuscular, encontraria outra forma de
expressão mórbida.
No que se refere ao atendimento clínico
no ambulatório de Saúde Mental do CRST
André Gabois, ROCHA e cols (2001) mencionam a presença de trabalhadores com
LER/DORT e quadros de depressão, entre
os pacientes que procuraram o Serviço.
Em publicação do Ministério da Saúde
(2001), embora seja feita a ressalva de que
não se pode generalizar a indicação de
psicoterapia para todos os portadores de
LER, já que a indicação deverá ser feita a
partir da avaliação de cada caso em particular e do desejo de cada um, a observação feita é que “em algum momento da
evolução de LER/DORT, o paciente tem
necessidade de apoio psicológico por parte de um profissional”, segundo a experiência dos autores.
A experiência de dois anos de atendimento de portadores de LER em um trabalho de
psicoterapia de grupo possibilita-nos observar a importância de alguns fatores na
determinação das LER, especialmente a
pressão por parte das chefias, levando a
uma tensão emocional claramente relacionada ao adoecimento; por outro lado, o
sofrimento mental acarretado pela presença do adoecimento tem estado presente
durante todo o período de atendimento, o
que coloca a necessidade de reflexão sobre dificuldades e possibilidades no
redirecionamento da vida, buscando-se alternativas para a realidade limitante das
LER (CHAVES, 2002).
O sofrimento mental vem sendo estudado em “trabalhadores sadios” de diversas
categorias, tais como bancários, telecomunicações, processamento de dados, siderúrgicos e muitas outras (BORGES, 1990;
BORGES, 1999; CHAVES e cols, 1998;
FERNANDES, 1992; JARDIM, 1994; PITTA,
1990; SILVA FILHO e cols, 1993). Nestes
estudos citados, o instrumento utilizado como
indicador de distúrbios mentais menores foi
o SRQ-20, cujos índices variaram de 20 a
37,7% de positividade.
No presente estudo, pretendemos conhecer em que magnitude ocorre o sofrimento
mental em portadores de LER e se há variações de intensidade deste sofrimento de
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
acordo com as diversas profissões estudadas.
Materiais e métodos
Foi
desenvolvido
um
estudo
epidemiológico descritivo (corte transversal).
A população de estudo constituiu-se, inicialmente, de 105 portadores de Distúrbios
Osteomusculares Relacionados ao Trabalho
que frequentaram as reuniões mensais da
Comissão Intersindical de LER/DORT no
CESAT(Centro de Estudos da Saúde dos
Trabalhadores), no período de julho a setembro de 1999. Os trabalhadores pertenciam às categorias de bancários,
comerciários, processamento de dados, telecomunicações e outras. Um participante
da pesquisa foi excluído, pois omitiu a informação sobre a que categoria pertencia.
O instrumento central da pesquisa foi um
questionário auto- aplicado, contendo questões objetivas e subjetivas, com 120 perguntas. O estado de saúde mental foi avaliado através do SRQ-20 (Self-Report
Questionnaire). Este questionário, contendo
20 questões, foi desenvolvido pela OMS com
o objetivo de rastrear distúrbios psiquiátricos
menores, na população que se dirigia a ins-
tituições de cuidados primários de saúde, em
países em desenvolvimento (MARI &
WILLIAMS, 1986). O SRQ-20 foi considerado positivo com um ponto de corte de 8
para mulheres e 6 para homens.
Houve, inicialmente, um estudo piloto, que
favoreceu a escolha da população de estudo definitiva. Toda a equipe foi treinada
para a coleta de dados. Durante a coleta,
houve reuniões semanais para discussão das
dúvidas.
Os testes estatísticos utilizados foram :
C o c h r a n - A r m i t a sg e , Q u i - q u a d r a d o
e t –Student .
Resultados/discussão
A média de idade dos trabalhadores foi
de 41 anos, aproximadamente. Cerca de
87% da população eram mulheres e
12,4%, homens. Uma pessoa não informou
o sexo.
Na tabela 1, observa-se que apenas os
trabalhadores da área de Telecomunicações e Processamento de Dados (TELE/
PROCESS) trabalham,predominantemente,
em turno (57.14%).Seguem-se os
comerciários (33.3%), bancários (23.5%) e
outras profissões (13.64%). Essas diferenças foram, estatisticamente, significantes.
Tabela 1 Distribuição dos trabalhadores com LER, de acordo com área de trabalho e
sistema de horários c2 = 10,81; p < 0.05 .
Vol. 28 - nº 105 /106
45
Na tabela 2, observa-se que todas as profissões realizam horas-extras, destacandose os comerciários (96.30%), seguidos dos
bancários (91.18%), outras profissões
(86.36%) e TELE/PROCESS(66.67%). O
destaque maior diz respeito ao menor
percentual de realização de horas-extras
no segmento TELE/PROCESS. Resultado
esperado, uma vez que há um controle
maior na área de processamento de dados, no que se refere ao exercício de horas-extras, com legislação mais clara e objetiva em relação ao número de horas permitidas, pelo menos, para os que trabalham
em terminais de computador. As diferenças
encontradas não foram, estatisticamente,
significantes.
Tabela 2
Distribuição dos Trabalhadores com LER, de acordo com área de trabalho e
realização de horas - extras Cochran-Armitage Z = 1,14 ; p= 0,2533.
Área
de
trabalho
Realização
de horasextras
Sim
N
Não
%
N
%
Sem dado
N
%
Total
N
%
Banco
31
(91,18)
3 (8,82)
0 (0,00)
34 (32,69)
Comércio
26
(96,30)
1 (3,70)
0 (0,00)
27 (25,96)
Tele /Process
14
(66,67)
7 (33,33)
0 (0,00)
21 (20,19)
Outras
19
(86,36)
2 (9,09)
1 (4,55)
22 (21,16)
Total
90 (86,54)
13 (12,50)
1 (0,96)
104 (100,00)
A profissão que mais se destaca na queixa relacionada à pressão de chefia é a de
bancários (82.35%) - tabela 3. Em estudo
com caixas bancários, realizado por
BORGES (1999), a variável “problemas
com chefia” foi correlacionada, tanto aos
distúrbios psico-emocionais, quanto às LER.
Por outro lado, o menor percentual de
queixa referente a essa variável é dos trabalhadores da área de TELE/PROCESS
(33.33%). Este dado está de acordo com
algumas discussões sobre a ausência de
uma chefia constante e vigilante no trabalho de turno, como ocorre no turno administrativo. Essas diferenças foram, estatisticamente, significantes.
Tabela 3 Distribuição dos Trabalhadores com LER, de acordo com área de trabalho e
queixas acerca da pressão das chefias c2 = 14,05 ; p < 0,05.
Área
de
trabalho
Pressão
de
Chefias
Não
%
N
%
Sem dado
N
%
Total
N
%
Banco
28 (82,35)
6 (17,65)
0 (0,00)
34 (32,69)
Comércio
18 (66,67)
9 (33,33)
0 (0,00)
27 (25,96)
7 (33,33)
14 (66,67)
0 (0,00)
21 (20,19)
Outras
11 (50,00)
9 (40,91)
2 (9,09)
22 (21,16)
Total
64 (61,54)
38 (36,54)
2 (1,92)
104(100,00)
Tele/Process
46
Sim
N
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Na tabela 4, observa-se a positividade
do SRQ, segundo as profissões. Os valores
de positividade foram semelhantes para os
bancários (91.18%), comerciários (92.0%)
e outras profissões (95.45%). Os TELE/
PROCESS tiveram um índice mais baixo de
positividade do SRQ (80.95%). Os resultados não foram, estatisticamente,
significantes.
Tabela 4 Distribuição dos Trabalhadores com LER, de acordo com área de trabalho e
positividade do SRQ-20 *2 não responderam ao SRQ-20 Cochran-Armitage Z = 0,6933; p =
0,4881.
Área
de
trabalho
SRQ+
Sim
N
Não
%
N
Total
%
N
%
Banco
31 (91,18)
3 (8,82)
34
(33,33)
Comércio
23 (92,00)
2 (8,00)
25
(24,51)
Tele/Process
17 (80,95)
4 (19,05)
21
(20,59)
Outras
21 (95,45)
1 (4,55)
22
(21,57)
Total
92 (90,19)
10 (9,80)
Em resultados referentes a estudos com
“trabalhadores sadios”, foram encontradas
as seguintes frequências de SRQ+ : entre
dois grupos de bancários, 25% e 23,6%
(SILVA FILHO e cols, 1993); em um prédio
de um banco estatal, 20,6% (CHAVES e
cols ,1998); 37.7% entre caixas de um banco estatal (BORGES, 1999); entre trabalhadores de processamento de dados de três
empresas distintas, uma variação de 20 a
24% (FERNANDES, 1992); 19,4% entre trabalhadores siderúrgicos (BORGES, 1990);
em estudo conduzido por Jardim (1994)
com condutores de metrô, 25,8%, e, dentre
trabalhadores de instituições hospitalares ,
20,8% (PITTA, 1990).
Conclusão
O primeiro ponto que chama a atenção
são os elevados índices de SRQ-20+ que
foram encontrados nesta população, demonstrando uma situação de sofrimento
mental generalizada. Quando comparamos
os nossos resultados com aqueles de outros
estudos realizados com “trabalhadores-sadios”, percebemos a imensa distância entre eles. Nos estudos com “trabalhadores
sadios”, os índices de SRQ+ variaram de
20% a 37,7%, enquanto que o índice ge-
Vol. 28 - nº 105 /106
102* (100,00)
ral de SRQ+ nas diversas profissões estudadas foi de 90%. Cremos que essa diferença deve-se ao fato de tratar-se de uma
população enferma, o que interfere no nível de sofrimento mental.
Apesar das diferenças encontradas entre as profissões referentes a alguns fatores
da organização do trabalho, não houve
diferença, estatisticamente, significante,
entre os índices de SRQ+ . Esta
homogeneidade nos índices das profissões
estudadas reforça a idéia de que os valores elevados devem-se mais à condição
do adoecimento do que à diversidade das
condições de trabalho nas categorias estudadas, apontando para uma forte associação entre LER e sofrimento mental. A doença chegou para todos e com ela o sofrimento mental. O que os iguala é a condição limitante do adoecimento , que traz
consigo, repercussões sérias sobre o estado emocional e psíquico dos trabalhadores. O estudo de corte transversal aponta
para uma associação, mas não permite
aprofundar questões sobre causalidade.
A análise inicial das perguntas subjetivas do estudo geral, apresentada em eventos por Chaves (2000;2001), indica a percepção unânime dos participantes do estudo de que o adoecimento por LER repercutiria sobre o estado psíquico, e a percepção
47
da maioria dos trabalhadores, de que o trabalho seria desencadeador de sofrimento
mental e este, por sua vez, favoreceria o
adoecimento por LER. Ou seja, formas de
organização do trabalho autoritárias e exigentes com a produção favorecem, tanto o
sofrimento psíquico, como a ocorrência de
distúrbios osteomusculares. Como refere
Borges (1999), as “LER podem ser entendidas como a expressão patológica em nível
físico e psíquico do conflito na organização
do trabalho”.
Os resultados elevados da frequência do
SRQ-20+ neste estudo são alarmantes e
chamam a atenção para a necessidade de
uma atuação conjunta na prevenção de
agravos à saúde do trabalhador, visando
à proteção, tanto da saúde física, como da
saúde mental.
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trabalhadores de uma usina
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11 a 01/12/2000, e no ler. Congreso
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Fórum de Ciência e Cultura/ UFRJ.
Rio de Janeiro, 1993.
49
50
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Práticas Alimentares e Perfil Lipídico
Indesejável em Trabalhadores
Petroquímicos
Maria Cecilia Costa1
Inês Lessa2
Solange Veloso Viana3
1
Mestre em Nutrição da Universida-
de Federal da Bahia, Escola de
Nutrição.
2
Doutora em Medicina e Pesquisa-
dora do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e
Tecnológico, da Universidade Federal
da Bahia, Instituto de Saúde Coletiva.
3
Doutora em Saúde Pública e
Professora Pesquisadora da Cooperação Técnica do Instituto de Saúde
Coletiva da Universidade Federal da
Bahia.
Eating Habits and Undesirable Lipidic
Profiles in Petrochemical Industry
Workers
No universo dos trabalhadores de uma indústria petroquímica de Camaçari, Bahia – Brasil,
foi realizado estudo de corte transversal, para medida da associação entre práticas alimentares e perfil lipídico indesejável. Os dados sobre hábitos alimentares e atividade física foram
obtidos por questionário semi-estruturado e os dados secundários, clínico-laboratoriais e
dietéticos, a partir da ficha clínica padronizada e da ficha do cardápio diário. Para análise,
foram usadas as Prevalências (P), Intervalos de Confiança a 95% (IC 95%), Razões de
Prevalência (RP) e regressão logística. A quota energética média, consumida diariamente,
numa única refeição, na indústria, independentemente do turno de trabalho, correspondeu a
96,1% da quota energética, total, média diária, dos trabalhadores. A prevalência das práticas alimentares mais lipídicas foi de 63,9%, IC (53,6; 74,2); de colesterol total indesejável
de 49,4%, IC (38,6; 60,2) e a da não participação no Programa de Qualidade de Vida, de
60,2%, IC (49,7; 70,7). A RP entre práticas alimentares e perfil lipídico indesejável, de
1,43, IC (1,02; 2,01), com p < 0,05.
Palavras-chaves Práticas Alimentares, Indústria Petroquímica, Lípidas Séricas, Alimentação Institucional.
A cross-sectional survey was conducted to assess the association between eating habits and
undesirable lipidic profiles in the universe of petrochemical workers (n = 83) in Camaçari,
Bahia, Brazil. The data concerning eating habits and physical activities were obtained using
semi-structured questionnaires, while the secondary data, i.e. the clinical and laboratorial
data were obtained using standardized clinical data registration forms and the daily menu
records. Analysis input elements consisted of: Prevalences (P); Confidence Intervals up to
95% (IC 95%); Prevalence Quotient (RP) and Logistical Regressions. The average energetic
quota ingested per day in a single meal within the industrial plant, independent of the work
shift corresponded to 96.1% of the total average energetic quota for the workers. The prevalence of more lipidic eating habits was 63.9%, IC (53.6; 74.2); undesirable cholesterol
49.4%, IC (38.6; 60.2) and non-participation in the Quality of Life Program was 60.2%
(IC (49,7; 70,7). The Prevalence Quotient (RP) between eating habits and undesirable lipid
profile was 1.43, IC (1.02; 2.01), with p < 0.05.
Keywords Eating Habits Practices, Petrochemical Industry, Lipidic Serum, Institutional
Food Catering.
Vol. 28 - nº 105 /106
51
Introdução
O processo de industrialização vem incorporando, de forma crescente, tecnologias
com alto grau de automação23, com tendência de mudança do perfil de morbimortalidade dos trabalhadores5,7,18. Essa
nova tendência, configura-se pela maior
prevalência de agravos à saúde, representados, sobretudo, pelas doenças crônicodegenerativas, cuja relação de causalidade, com o trabalho, não é tão evidente,
como o nexo que ocorre com as doenças,
tipicamente, ocupacionais9. Essas doenças
vêm contribuindo, para a redução do tempo de vida produtiva e ocupando posição
de destaque, na composição das taxas de
mortalidade, em diversos países, inclusive,
nos países em desenvolvimento1,3,14.
Alguns autores11,15,18,27 sugerem, que a
ocorrência de muitas das doenças crônicas,
não transmissíveis, guardam estreita relação com as características qualitativas da
dieta, sobretudo, a incorporação de maior
quantidade de alimentos ricos em gorduras. Outros5,7 demonstram que esses novos
hábitos são resultantes de ajustes às novas
formas de consumo, em decorrência de
novos padrões tecnológicos, além dos processos de urbanização e de migração. Essa
questão assume importância singular, considerando que o monitoramento, permanente, da operação nas indústrias, transforma
a produção e o fornecimento de refeições,
numa exigência da própria tecnologia,
para organizar o processo produtivo26.
Nessas organizações, os trabalhadores
consomem, pelo menos, uma refeição no
local de trabalho, cujas diretrizes orientamse pelo Programa de Alimentação do Trabalhador – PAT4. O Programa propõe-se a
resolver problemas relacionados à escassez de nutrientes, articulando saúde e produtividade, estabelecendo “quotas
energéticas mínimas” para o trabalhador,
indistintamente, sem qualquer avaliação,
baseada em mínimos calóricos. As quotas
resultam em comportamentos alimentares,
que tanto podem contribuir para manter a
saúde e o bem-estar, como para desencadear transtornos lipídicos e morbidades associadas11.
O reconhecimento de que as características da dieta podem exercer influência de-
52
cisiva sobre o estado de saúde dos indivíduos levou a Organização Mundial de
Saúde a estabelecer limites para o consumo de gorduras (de colesterol, de ácidos
graxos saturados e poliinsaturados), de proteínas de origem animal e de glicídios, principalmente os monossacarídeos27. Considerando que as estratégias preventivas sobre
fatores de risco ou de doenças no âmbito
das indústrias, sejam eles adquiridos nela,
ou em outro ambiente, são obrigatórias nos
programas de saúde do trabalhador e que
as dislipidemias, em grande parte, são resultantes do hábito alimentar, este estudo
teve como objetivo, determinar a relação
entre práticas alimentares, predominantemente na indústria, e a presença de perfil
lipídico indesejável, dos seus trabalhadores.
Metodologia
Estudo de corte transversal, realizado em
uma indústria química, do Pólo Petroquímico
de Camaçari – BA, operando desde o início dos anos 90. abrange o universo dos
83 trabalhadores, com idade inferior a 50
anos, com vínculo empregatício, em atividade em 1998.
Características pessoais, socioambientais,
do trabalho e comportamentais dos participantes, foram obtidas por questionário,
auto-preenchido, previamente testado. As
informações sobre colesterol total (CT), HDL
colesterol (HDL-c), LDL colesterol (LDL-c),
triglicérides (Tg) e colesterol total/HDL
colesterol (CT/HDL-c), foram obtidas dos
prontuários médicos, no setor médico da
indústria e, os dados sobre a composição
da alimentação, para estimativa da quota
energética, média diária, oferecida para
consumo na indústria, referentes ao ano de
1998, foram identificados nas fichas dos
cardápios diários, no serviço de nutrição da
indústria. Esses cardápios foram, previamente analisados, a partir dos critérios estabelecidos pela política de alimentação da
fábrica. Devido ao fato dos cardápios
apresentarem o mesmo padrão calórico e
a mesma freqüência das preparações, foi
sorteado e analisado um mês de cardápio,
para estimar a quota energética, média,
oferecida para consumo na indústria.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Critérios e definições:
1) Práticas alimentares foram classificadas em: a) mais lipídicas – quando na
resposta ao questionário, o trabalhador
mencionava como de consumo diário, alimentos e/ou preparações lipídicas, em pelo
menos três refeições e, b) menos lipídicas
– quando não era informado o consumo
habitual diário de alimentos e/ou preparações lipídicas, nas três refeições consumidas
– desjejum, almoço e jantar;
2) Perfil lipídico indesejável (PLI) – quando pelo menos uma das
lípidas – CT,
HDL-c, LDL-c, Tg – ou o índice CT/HDL-c,
apresentava o valor fora do limite recomendado 24;
3) Participação no Programa de Qualidade de Vida (PQV* ): a) não participante
– quando o trabalhador negou a participação no programa, em qualquer período, desde a sua implantação e, b) participante – quando informou participação no
programa, pelo menos uma vez.
4) Quotas energéticas, médias diárias
recomendadas, foram definidas como: a)
total (QET) – quando a quantidade de calorias, obtida pelo somatório das quotas
energéticas médias, para cada atividade
dos trabalhadores, praticada durante o dia,
a partir da Taxa Metabólica Basal – TMB21,
foi considerada como adequada às necessidades nutricionais médias da populaçãoalvo, após realizado o ajuste da quota
energética média total diária, por faixa
etária 22 e, b) Quota Energética
Ocupacional (QEO) – quando a quantidade de calorias foi considerada restrita, para
o desenvolvimento da atividade do trabalhador na indústria, a partir da idade, do
peso, da altura, do sexo e da atividade
física2,22.
5) Quota Energética média, oferecida na
Fábrica, para consumo diário, (QEF) como
a quantidade de calorias, resultante dos
alimentos elaborados (cardápio referência)
para consumo durante a jornada de traba-
Vol. 28 - nº 105 /106
lho. A partir de uma amostra do cardápio
referência, procedeu-se as determinações:
1) das quantidades médias de alimentos
consumidos per capita/dia; 2) da composição química desses alimentos25; 3) das
quantidades médias de colesterol e
de
ácidos graxos saturados, poliinsaturados e
monoinsaturados, oferecidas/consumidas,
na fábrica; 4) do consumo energético médio per capita/dia; e 5) da distribuição
percentual média, per capita, dos nutrientes da refeição consumida na indústria –
independentemente do turno de trabalho.
Os parâmetros para a alimentação/dia
foram os da OMS20.
Para a análise, foram calculadas as
prevalências, os IC a 95%, a RP e o Odds
Ratio (OR)12,13. Posteriormente, as quotas
energéticas médias diárias recomendadas
– total e ocupacional – foram comparadas
com a quota energética média oferecida,
na fábrica, para consumo diário. Para identificação da variável modificadora de efeito, foi usado o teste da razão de verossimilhança, mantendo-se, na análise a variável, caso a mesma apresentasse valor de p
£ 0,05. Para avaliar confundimento, adotou-se, como na avaliação de modificação
de efeito, o procedimento backward. Seria
mantida, como confundidora, a variável
que apresentasse variação percentual da
amplitude do intervalo de confiança da OR
de, pelo menos, 15%. O critério de inclusão, foi propositalmente, restrito.
* Programa implantado na
fábrica, a partir de 1995, durante a avaliação da saúde do
trabalhador, em cada exame
periódico, com intuito de reduzir
os riscos para a saúde, contidos
na alimentação, para as doenças
crônico-degenerativas.
Resultados
Dos 83 trabalhadores, 15 (18,1%) tinham
idade < 30 anos, 44 (53,0%) 30 a 39 anos
e 24 (28,9%) = 40 anos, sendo 34 (41%),
em turno administrativo, e 49 (59%), sob
revezamento de turno, na área de produção. Pelo número de mulheres (13,3%), os
dados não foram estratificados por sexo.
As prevalências das lípidas indesejáveis
foram muito elevadas (Figura 1 e Tabela
1), sendo, a mais baixa, a das triglicérides,
com 18,1%.
53
Figura 1 Prevalências do índice e dos níveis lipídicos indesejáveis, em trabalhadores de
uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998.
60
50
P(%)
40
30
20
10
0
CT
HDL-c
LDL-c
CT/HDL-c
Tg
Lipídios
As prevalências de práticas alimentares, mais lipídicas, alcança 63,9% e não participação dos trabalhadores no PQV 60,2% (Tabela 1).
Variáveis
n°
P,%
IC 95%
Práticas alimentares mais lipídicas
53
63,9
(53,6 – 74,2)
Hipercolesterolemia
41
49,4
(38,6 – 60,2)
HDL-C indesejável
16
19,3
(10,8 – 27,8)
LDL-C indesejável
41
49,4
(38,6 – 60,2)
CT/HDL-C indesejável
34
41,0
(30,4 – 51,6)
Hipertrigliceridemia
15
18,1
( 9,8 – 26,4)
Programa de Qualidade de Vida - não participação
50
60,2
(49,7 – 70,7)
Perfil lipídico indesejável, foi observado
em 81,1% dos trabalhadores que referiam
consumir alimentação mais lipídica com RP
de 1,43, IC (1,02; 2,01), em relação aos
que consumiam uma alimentação menos
lipídica. Essa associação foi positiva e es-
tatisticamente significante (Tabela 2). Dos
não participantes do PQV 76,0% apresentam PLI contra 66,7% entre os que participavam do PQV. A RP foi 1,14 com IC (0,85
– 1,52), não estatisticamente significante.
Tabela 2
Associação entre perfil lipídico indesejável e dietas mais lipídicas e não
participação do Programa de Qualidade de Vida, em uma indústria petroquímica, PPC –
BA, 1998.
Variáveis
PLI
Sim
Não
Total
n°
P,%
n°
P,%
43
81,1
10
18,9
53
Menos lipídicas
17
56,7
13
43,3
30
PQV**
Não participava
38
76,0
12
24,0
50
Participava
22
66,7
11
33,3
33
Práticas alimentares*
Mais lipídicas
RP
IC 95%
1,43
(1,02 – 2,01)
1,14
(0,85 – 1,52)
* Realizadas na indústria e fora dela.
** Programa de Qualidade de Vida (co-variável) realizado anualmente na indústria, a partir de 1995.
54
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
A co-variável PQV, apresentou p-valor
igual a 0,14, não sendo modificadora de
efeito. Com a exclusão do PQV, não houve
modificação relevante da variação da amplitude do intervalo de confiança da OR,
não se detectando confundimento (Quadro 1).
Quadro 1
Avaliação de modificação de efeito e confundimento na associação entre
práticas alimentares e perfil lipídico indesejável, a partir do programa de qualidade de vida.
P(%)
Todas as prevalências das lípidas indesejáveis, à exceção do HDL-c indesejável, aumentaram com a idade (Figura 2).
90
CT
80
HDL-c
70
LDL-c
60
CT/HDL-c
50
Tg
40
30
20
10
0
20 - 29
30 - 39
40 - 49
Faixa etária
Figura 2 Prevalências do índice e dos níveis lipídicos indesejáveis, por faixa etária, em
trabalhadores de uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998.
Os percentuais referentes a QEO média,
adequada aos trabalhadores, a QET e a
QEF (Figura 3), permitem observar que a
QEO correspondeu a aproximadamente,
40% da QET e que mesmo subtraindo o
Vol. 28 - nº 105 /106
percentual da QEF em 1, 2 e até 3 desvios
padrão desta média, continuam acima do
recomendado e corresponde, a quase
100% da quota energética total média diária, recomendada para estes trabalhadores.
55
100
80
%
60
*QET = Quota Energética Total
40
média recomendada. QEO =
Quota Energética Ocupacional
20
média recomendada. QEF =
Quota Energética
0
planejada/consumida na
QET*
Fábrica.
QEO*
QEF*
QEF*1
QEF*2
QEF*3
QUOTA ENERGÉTICA (Kcal)
Figura 3 Percentuais das quotas energéticas médias recomendadas e da oferecida aos
trabalhadores de uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998.
Na Figura 4, encontra-se a distribuição
dos macronutrientes na refeição consumida
durante a jornada de trabalho e aquelas
que são recomendadas. A quota de
glicídios encontra-se abaixo, a de proteínas, acima, e a lipídica, com valor no limite máximo do recomendado pela OMS,
para uma refeição normocalórica.
80
GLICÍDIOS
70
PROTEÍNAS
60
LIPÍDIOS
*Rec. = Recomendado.
Ind. Turno = Independentemente
de Turno. ADM = Turno
Administrativo.
RT = Revezamento de Turno.
MACRONUTRIENTES (%)
50
40
30
20
10
0
Rec*. mínima Rec*. média Rec*. máxima Ind. Turno*
ADM*
RT*
REFEIÇÃO
Figura 4 Distribuição dos macronutrientes na refeição recomendada e da consumida
em uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998.
As proporções médias dos ácidos graxos
saturados e poliinsaturados na refeição
consumida, independentemente do turno
(Figura 5), apresentam-se nos limites máximos recomendados. Nos trabalhadores no
56
turno administrativo, a quantidade de ácidos graxos saturados foi de 14% e a
consumida pelos trabalhadores, com
revezamento de turno, apresenta uma
quantidade de poliinsaturados de 8%.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
16
ÁCIDOS GRAXOS (%)
14
12
10
8
6
4
2
0
Rec.máxima
Ind. Turno
ADM
RT
REFEIÇÃO
Poliinsaturados
Monoinsaturados
Saturados
Figura 5
Percentuais de ácidos graxos recomendados e consumidos na refeição em
uma indústria petroquímica, PPC - BA, 1998.
Na Figura 6, consta uma comparação entre a consumida e a recomendada. A quantidade média do colesterol, consumida pelo
trabalhador da indústria, mostra-se acima
da máxima recomendada/dia.
400
350
COLESTEROL (mg)
300
250
200
150
100
50
0
RECOMENDADA
IND. TURNO
ADM
RT
REFEIÇÃO
Figura 6
Quantidade de colesterol recomendada e consumida em média/dia em uma
indústria petroquímica, PPC - BA, 1998.
Vol. 28 - nº 105 /106
57
Discussão
Além da similaridade qualitativa, entre
as refeições consumidas dentro e fora da
indústria, o padrão alimentar dos trabalhadores mostrou-se, bastante próximo dos resultados dos inquéritos domiciliares realizados no Brasil em décadas passadas, quando se observaram tendências, na redução
do consumo de cereais e tubérculos, da
substituição dos glicídios por lipídios e da
troca de proteínas vegetais por animais8,10.
A refeição consumida na indústria, independentemente do turno de trabalho, contém alto teor de gordura, tendo como agravante, a qualidade dos lipídios consumidos. Apesar de a maior parte do colesterol
sérico ser endógeno, a composição lipídica
da alimentação exerce papel importante,
na regulação do nível sérico de colesterol,
uma vez que, o grau de saturação dos
ácidos graxos exerce influência sobre os
níveis de LDL-c e de HDL-c de forma diferenciada. De modo geral, os ácidos graxos
saturados tendem a elevar tanto o LDL-c
quanto o HDL-c, enquanto os
poliinsaturados, quando usados em substituição aos saturados, reduzem, tanto o LDLc quanto o HDL-c15.
A queda da prevalência do HDL-c indesejável, a partir dos 30 anos de idade,
acentuando-se ainda mais a partir da quarta década, difere da literatura. Segundo
alguns estudos, o HDL-c, entre a terceira e
a sexta décadas, mantém-se estável nos
homens e, seguindo-se de pequena elevação, enquanto, nas mulheres, tende a elevar-se, lentamente, até a sétima década,
com pequena redução posterior. Entretanto, as concentrações plasmáticas do HDL-c
permanecem, significativamente mais elevadas, nas mulheres, do que nos homens6.
Ainda que não se possa afirmar que as
alterações do perfil lipídico que ocorrem,
com a idade, sejam devidas ao envelhecimento, a hábitos de vida, relacionados à
dieta e níveis de atividade, ou uma combinação destes fatores, sabe-se que as práticas alimentares desempenham um importante papel, nestas alterações. Os dados
mais convincentes de que a dieta se constitui num importante fator modulador no metabolismo das lipoproteínas, nas alterações
relacionadas com a idade, são a ausên-
58
cia de elevação no colesterol plasmático,
nas comunidades, onde os indivíduos consomem dietas pobres em gorduras
saturadas e colesterol6.
Investigações realizadas em grupos
populacionais migrantes revelam a elevação dos níveis médios de CT e do LDL-c,
quando, hábitos alimentares inadequados
foram incorporados por estes grupos24. Outros estudos confirmam a associação positiva, entre consumo de alimentos, fonte de
proteína animal e de lipídios e
hiperlipidemias15,19.
O aumento do nível sangüíneo de CT está
associado ao consumo elevado de colesterol
e ácidos graxos saturados, na dieta, e a
uma baixa ingestão de ácidos graxos
poliinsaturados28. Entretanto, Mensink &
Katan17 demonstraram, ser pouco relevante, o efeito dos ácidos graxos poliinsaturados
sobre o nível de colesterol sangüíneo. Essa
afirmação pode estar relacionada ao
percentual, mais elevado de ácidos graxos
poliinsaturados, em dietas contemporâneas
(em torno de 6% da energia), do que as
de, aproximadamente, 3%, em dietas de
décadas passadas17. Desse modo, podese suspeitar que as características qualitativas da refeição consumida diariamente, na
indústria – alimentação com excesso de
colesterol (aproximadamente 350 mg) e de
ácidos graxos saturados (10% da quota
energética já excessiva) –, é a mais provável explicação para a associação positiva,
entre as práticas alimentares e o perfil
lipídico, dos trabalhadores. Assim, são fortes os indícios de que a alimentação desses
trabalhadores se constitui, num possível fator de risco, para o perfil lipídico indesejável.
Ainda que os mecanismos, pelos quais
ocorrem as dislipidemias, não estejam totalmente esclarecidos, uma vez que, nem sempre, está presente em pessoas com sobrepeso
e/ou distribuição andróide. Os resultados
mostram-se coerentes com estudos, realizados em diferentes grupos populacionais16,
nos quais foram descritas associações entre
ingestão de ácidos graxos saturados e elevação do CT, em especial, o LDL-c. Outros
estudos apontam a influência do colesterol
dietético sobre o CT sérico, apesar da variabilidade, na magnitude da resposta24.
A elevada freqüência de trabalhadores
que informou não participar do PQV
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
demostra a falta de interesse pelo Programa, pouca informação sobre repercussões
maléficas, do estilo de vida inadequado
para a saúde, em particular, das práticas
alimentares ou falha nas estratégias do Programa. Esse comportamento pode estar associado ao fato de eles rejeitarem a proposta do Programa, para mudanças das
suas práticas alimentares, já asseguradas,
uma vez que, só 39,8% aderiu ao PQV.
A associação borderline entre PQV e perfil lipídico indesejável, parece resultar da
persistência de práticas alimentares inadequadas. O fato de o PQV estabelecer modificações na composição de alguns itens
do cardápio, visando redução de riscos
para a saúde, provavelmente, ainda é insuficiente para essa mudança. O argumento se fundamenta, no fato em que, uma
dieta normocalórica, com ação preventiva,
não pode restringir-se a mudanças da alimentação, apenas numa única refeição.
Se o objetivo principal do PQV é reduzir
os riscos, para a saúde, contidos na dieta,
para as doenças crônico-degenerativas, a
participação da indústria, para prevenir tais
agravos, mostrou-se pouco eficiente. Desse
modo, a proposta do PQV, em reduzir a
quantidade de gordura e aumentar a de
fibras, na refeição consumida na indústria,
não previne os agravos em questão, principalmente, se considerarmos que a
reformulação de práticas alimentares inadequadas não se constitui num processo de
fácil mudança, a curto prazo. Ademais, as
mudanças de comportamento, necessárias
ao alcance do objetivo do PQV, não se
concretizam com uma única intervenção anual.
Também para o PQV, a sua não interferência na associação investigada orientou
para a exclusão dessa variável do modelo, sem prejuízo, pois não se confirmou,
como modificadora de efeito, ou como
confundidora. Entretanto, não se pode excluir a possibilidade de que a não interferência da variável na associação
investigada seja, também, atribuída à falta de poder do estudo, em função do tamanho reduzido da população.
Além do excesso de calorias, de gordura
saturada e de colesterol, identificados na
alimentação consumida, durante a jornada de trabalho, fora da indústria, esses trabalhadores, têm como agravante, os seus
estilos de vida, mantendo um padrão de
alimentação, com características semelhantes àquela ofertada e consumida na indústria, associado a uma atividade física, igualmente, insuficiente. Desse modo, as práticas alimentares dos trabalhadores, em particular, no local de trabalho, contribuem
para a perpetuação de estilo de vida inadequado, evidenciado pelas dislipidemias.
O programa de qualidade de vida da
empresa, ainda é incipiente, e de curta
duração para alcançar os objetivos a que
se propõe.
Os resultados mostram, claramente, que
a incorporação pelas indústrias dos mínimos calóricos recomendados pelo PAT, para
a refeição, no local de trabalho, é incompatível com as necessidades nutricionais dos
seus trabalhadores e promotora de riscos,
para as maiores causas de morbidade e
mortalidade, associadas à alimentação.
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61
62
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Avaliação da Exposição Ocupacional
ao Chumbo em uma Metalúrgica
Um Estudo Transversal
José Antonio Menezes Filho1
Wilson Andrade de Carvalho2
Ademário Galvão Spínola3
1
Farmacêutico-Bioquímico, M.Sc.
Professor de Toxicologia da Universidade Federal da Bahia e Coordenador
do Laboratório de Patologia Clínica e
Toxicologia do Hospital São Rafael
2
Médico da Universidade Federal da
Bahia, Faculdade de Farmácia e
Chefe do Laboratório de Patologia
Clínica e Toxicologia do Hospital São
Rafael.
3
Médico da Universidade Federal da
Bahia, Faculdade de Medicina,
Departamento de Medicina Preventiva e Chefe do Serviço de Medicina
do Trabalho do Hospital São Rafael.
Assessment of Occupational Exposure to Lead in a Metallurgy Plant
A Cross-Sectional Study
OBJETIVO: Avaliar o nível de exposição ocupacional em uma metalúrgica de chumbo, através da determinação dos indicadores biológicos de exposição e efeito, com o objetivo de
estabelecer um mapeamento das áreas de risco dentro da planta industrial. METODOLOGIA:
Estudo transversal incluindo 195 trabalhadores de uma metalúrgica primária de chumbo,
localizada no Estado da Bahia-Brasil, e um grupo de referência de 65 indivíduos. Nos
grupos de expostos e controle foram realizadas as dosagens dos indicadores biológicos de
exposição e efeito (IBE´s) ao chumbo inorgânico, incluindo Pb-S, ALA-U, ZnPP e Hb.
Palavras-chaves Chumbo Sangüíneo, Exposição Ocupacional, ALA, PB-S.
OBJECTIVE: The aim of this study was the assessment of occupational exposure to lead in a
metallurgy plant, by measuring biological exposure and effects indicators; and the mapping
of risk areas throughout the industrial plant. METHODOLOGY: A cross-sectional study was
performed involving 195 workers at a lead metallurgy plant and a reference group of 65
individuals, in the State of Bahia, Brazil. Both the exposed and control groups were tested for
dosage levels for biological exposure and effects indicators for inorganic lead, including
Pb-S, ALA-U, ZnPP and Hb - (blood lead level (BLL); d-aminolevulinic acid in urine (ALA-U);
zinc-protoporphyrin (Zn-PP); and hemoglobin (Hb).
Keywords Lead in Blood, Occupational Exposure, BLL, ALA.
Vol. 28 - nº 105 /106
63
Introdução
O chumbo é um metal com uma longa
história de uso industrial e com importantes
efeitos tóxicos sobre a saúde humana. Estudos epidemiológicos realizados em diversos países do mundo revelam inúmeros casos de intoxicação, notadamente em exposições ocupacionais e ambientais. Apesar
do extraordinário conhecimento adquirido
nas últimas décadas sobre o mecanismo de
toxicidade do metal, das recentes medidas
de prevenção e de supervisão médica e
principalmente da aplicação de eficientes
medidas de higiene industrial, concorrendo para uma considerável redução nos níveis de exposição ocupacional, lamentavelmente ainda continua ocorrendo casos de
intoxicação1,2,3,4. Elevada exposição ao
chumbo e casos de intoxicação têm sido
encontrados, notadamente em crianças filhas de trabalhadores de fundição de chumbo e em crianças residentes próximo às fundições primárias de chumbo5,6. Mesmo em
áreas sem fonte pontual de emissão de
chumbo no meio ambiente, pode haver a
contaminação dos seres vivos. Alguns estudos demonstraram a contaminação, principalmente de crianças, através do material
particulado em casario antigo pintado com
tinta a base de chumbo, proximidade de
autoestrada e do contato direto com o solo7,-9.
As principais fontes de exposição
ocupacional ao chumbo são representadas
principalmente pelas minerações, fundições
e refinarias de chumbo, fábricas de baterias (acumuladores), indústria cerâmica e
fundições de metais não ferrosos10-13, encontradas com grande freqüência em diversos
estados brasileiros, inclusive na Bahia.
Os processos de fundição e refinaria, são
provavelmente, entre todas as modalidades
de exposição ocupacional, as que apresentam maior risco de exposição ao metal, provavelmente porque envolvem operações
nas quais o chumbo fundido e as ligas são
aquecidas a temperaturas elevadas com
desprendimento de vapores de chumbo10,
12, 14
.
No ambiente laboral a absorção do
chumbo resulta principalmente da inalação
de pequenas partículas de tamanho
respirável ou dos fumos do metal. Secundariamente, pode ocorrer absorção através
64
da ingestão de alimentos contaminados,
água e por hábitos do trabalho, como o de
fumar10, 12 e por contaminação dérmica e
do vestuário.
Diversos estudos epidemiológicos e
toxicológicos têm sido realizados recentemente em populações com exposição
ocupacional ao chumbo com o objetivo de
desenvolver marcadores biológicos de
toxicidade subclínica adequados para a
aplicação em programas de saúde
ocupacional, particularmente para baixos
níveis de exposição3, 12, 15. Os Indicadores
Biológicos de Exposição (IBE) mais
comumente empregados e recomendados
para a monitorização biológica da exposição ocupacional ao chumbo são representados principalmente pelo chumbo no sangue (Pb-S), zinco-protoporfirina (ZnPP) e
ácido d-aminolevulínico na urina (ALA-U).
Outros indicadores como ácido daminolevulínico desidratase (ALA-D) e a
coproporfirina urinária (CP-U), não são
comumente empregados em saúde
ocupacional, principalmente por apresentarem pouca especificidade11, 14, 16- 22.
O objetivo deste estudo foi avaliar o nível
de exposição em uma metalúrgica de chumbo, através da determinação dos indicadores biológicos de exposição e efeito do
chumbo, a fim de estabelecer um
mapeamento das áreas de risco na planta
industrial.
Material e métodos
Caracterização dos Grupos
Foram investigados cento e noventa e cinco trabalhadores adultos do sexo masculino de uma refinaria primária de chumbo
localizada no Estado da Bahia, Brasil no
ano de 1993. De acordo com o fluxograma do processo de produção da planta
industrial e de organização e distribuição
de cargos e funções da empresa, os trabalhadores foram distribuídos nos seguintes
grupos de atividade laboral: sinterização
(n = 23), fusão (n = 41), refinaria (n = 49),
laboratório (n = 8), serviços gerais (n=17),
manutenção (n = 26) e administração (n =
31). Os grupos de sinterização, fusão e
refinaria exerciam suas atividades laborais
nos respectivos setores industriais, os indivíduos do grupo de serviços gerais, com atividades de limpeza; e os da manutenção,
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
com atividades de manutenção dentro da
planta. O pessoal de laboratório participava da execução, coleta e determinação
analítica das amostras destinadas ao controle de qualidade de produção e da
monitorização ambiental nos programas de
higiene industrial da empresa. O grupo
controle foi constituído por 65 indivíduos
pareados por sexo, idade, raça, hábitos
alimentares, tabagismo e alcoolismo com o
grupo de trabalhadores expostos na planta industrial, diferindo apenas quanto ao
aspecto de não se referirem a exposição
atual ou no passado aos compostos de
chumbo.
Metodologia
Foi realizado um estudo de corte transversal incluindo os grupos de expostos e controle nos quais foram realizadas as determinações de chumbo no sangue (Pb-S), ácido daminolevulínico na urina (ALA-U), zincoprotoporfirina (ZnPP) e hemoglobina (Hb) no
sangue total.
O sangue foi coletado por punção venosa
em veia cubital, através de sistema a vácuo,
em dois tubos de vidro com EDTA livre de
resíduo de chumbo. O tubo de sangue destinado à determinação de chumbo foi armazenado em geladeira a 2-8°C até o momento da análise e o tubo coletado para a determinação de Hb foi imediatamente processado. A urina foi coletada em coletores de
polietileno descontaminado com ácido nítrico
a 2% em água pura Tipo I (Sistema Milli-RX45
acoplado a um Milli-Q, Millipore). A concentração de chumbo no sangue foi determinada em duplicata por espectroscopia de
absorção atômica, usando o método
eletrotémico de digestão da amostra em forno de grafite, segundo o método de Fernadez
modificado23, utilizando o equipamento
Perkin-Elmer 5000 equipado com forno de
grafite P.E. HGA-500. A dosagem do ALAU
foi
realizada
pelo
método
espectrofotométrico 24 , usando o
espectrofotômetro Perkin-Elmer Lambda I. O
resultado foi corrigido pelo valor da creatinina
urinária, que foi dosada pelo método cinético
de Jaffé no analisador bioquímico MEGA da
Merck Diagnósticos. A determinação da ZnPP
foi executada por fluorimetria direta em sangue total, utilizando-se o hematofluorômetro
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Protofluor-Z da Helena Laboratories, seguindo o protocolo do fabricante. A hemoglobina
foi determinada imediatamente após a coleta
do sangue, usando-se o sistema automatizado
STKS da Coulter.
O controle de qualidade analítica para a
determinação do Pb-S foi realizado usando
o sangue controle fornecido pela Bio-Rad®,
Liphocheck Nível I e II, além do controle externo de qualidade do Programa de
Intercalibração de Controle de Qualidade do
Instituto Nacional de Seguridad y Higiene del
Trabajo (Espanha). O controle de qualidade
das determinações bioquímicas foi realizado
através do programa de Controle Externo de
Qualidade da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e SEGULAB (Itália).
Após extratificação por grupos de atividade, as médias de cada foram comparadas
através do teste não paramétrico de Wilcoxon
para médias não-pareadas, análise de
variância one-way (ANOVA) e estudo de
correlação, utilizando-se o programa estatístico Epinfo 6.0.
Resultados
Os resultados das determinações de PbS, ALA-U, ZnPP e Hb, do grupo controle e
dos trabalhadores da metalúrgica, estão
resumidos na Tabela 1.
Comparando-se os valores de Pb-S do grupo controle (5,4±3,9 µg/dL) com o grupo
de indivíduos da área administrativa
(13,1±8,4 µg/dL), constatou-se uma diferença estatisticamente significativa
(p<0,001) entre eles, demonstrando que
embora os trabalhadores administrativos
não exerçam atividade na área de produção da planta, possuíam uma fonte adicional de exposição, oriunda provavelmente,
da contaminação ambiental da
metalúrgica. Não foi observada diferença
significativa (p>0,05) entre os indicadores
de efeito (ALA, ZnPP e HB) deste grupo
quando comparado com o grupo controle.
Diferença ainda mais significativa
(p<0,0001) foi constatada comparando-se
o Pb-S do grupo controle com o Pb-S do
grupo dos trabalhadores de Serviços Gerais (25,1±9,1µg/dL ), da Manutenção
(28,5±9,8 µg/dL), do Laboratório
(23,1±7,6 µg/dL) e da Sinterização
65
(36,7±9,8 µg/dL). Entretanto, não foi observada diferença significativa (p>0,05)
entre o Pb-S dos grupos de Refinaria, Fusão e Sinterização, sugerindo níveis semelhantes de exposição, bem como entre os
grupos de Laboratório, Manutenção e Serviços Gerais.Em relação ao ALA-U foi constatada uma diferença altamente significativa (p<0,0001) quando comparado o controle (1,9±0,9 mg/g creat.) com os grupos
da Manutenção (6,9±3,8 mg/g creat.),
Sinterização (11,9±9,3 mg/g creat.), Fusão (11,1±6,9 mg/g creat.) e Refinaria
(10,3±9,5 mg/g creat.), não sendo, porém, observada diferença estatística entre
Tabela 1
as
médias
destes
grupos
de
trabalhadores.Considerando a ZnPP, constatou-se uma diferença altamente significativa (p<0,0001) entre o grupo controle
(13,5±0,9 µg/dL) e os grupos de Fusão
(65,5±45,5
µg/dL),
Sinterização
(87,5±107,0 µg/dL) e Refinaria
(65,5±61,5 µg/dL). Esta diferença foi
menos significativa (p<0,001) para o grupo da Manutenção (33,0±38,0 µg/dL) e
para o grupo de Serviços Gerais
(25,5±20,0 µg/dL). Não sendo observada, porém, diferença significativa (p>0,05)
entre os grupos controle (25,5±20,0 µg/
dL) e o da Administração (21,0±28,0 µg/
dL).
Valores dos Indicadores Biológicos de Efeito e Exposição nos Grupos Expos-
tos e Controle.
Nota: Os valores são média ± desvio padrão e amplitude entre parênteses. Os grupos com diferença
estatística significativa (p<0,05) do grupo controle estão com asterísco.
66
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
200
ALA mg/g creat.
175
Pb-S ug/dL
150
ZnPP ug/dL
125
100
75
50
25
0
GC
ADM
SGE
AMN
LAB
SIN
FUS
REF
Legenda: Barra representa a média aritmética e travessão representa o desvio padrão.
Figura 1 Distribuição dos bioindicadores PB-S, ALA e ZnPP nos grupos controle e nos
grupos de trabalhadores expostos.
A Figura 1 apresenta uma distribuição gráfica dos valores médios de Pb-S, ZnPP e ALAU dos grupos controle e dos grupos de trabalhadores expostos da metalúrgica.
Discussão
Os níveis de chumbo no sangue na população geral têm diminuído ao longo do
tempo em diversos países do mundo, provavelmente resultante de ações de controle
de determinadas fontes de emissão de
chumbo, como as de origem industrial e de
derivados do petróleo. O uso do álcool adicionado à gasolina reduziu a utilização de
antidetonante a base de chumbo, contribuindo substancialmente para a redução da
emissão atmosférica de chumbo pelos automóveis, como acontece no Brasil25-27. Na
maioria dos países a concentração média
de chumbo no sangue em pessoas não expostas ocupacionalmente está situada entre 10 e 15 ìg/dL e em algumas situações é
inferior a 10 ìg/dL. Na Suécia a média de
Pb-S é de 8 ìg/dL no sexo masculino e de 6
ìg/dL para o sexo feminino 25. Na Itália o
nível de Pb-S encontrado na população
geral é de 12-15 ìg/dL para o sexo masculino e de 8-10 ìg/dL para o sexo feminino4,
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na Espanha de 7,8 ìg/dL e nos Estados Unidos da América do Norte de 16,1 ìg/dL para
o sexo masculino e de 11,0 ìg/dL para o
sexo feminino28. Níveis mais elevados em indivíduos da população geral têm sido observados em outros países, como na Cidade do
México onde foram encontrados 25,5 ìg/dL
de Pb-S no sexo masculino e 19,3 ìg/dL no
sexo feminino29.
Os resultados obtidos do grupo controle,
formado por indivíduos adultos do sexo
masculino, revelam que a média do Pb-S
foi de 5,4 ìg/dL (Tabela 1), inferior ao valor de 12,4 ìg/dL encontrado para a Cidade de São Paulo – Brasil30 e dos reportados para a maioria dos países25. Os valores de ALA-U, ZNPP e Hb encontrados no
grupo controle são semelhantes aos valores de referência destes indicadores observados em populações de indivíduos não
ocupacionalmente expostos31, 32.
O grupo da Administração apresentou
Pb-S de 13,1 ìg/dL, significativamente mais
elevado que o grupo controle (p<0,001),
demonstrando que a proximidade do escritório administrativo da área de produção
da planta industrial e o uso do mesmo refeitório e de outras instalações da empresa, podem ter contribuído para uma maior
67
exposição ambiental deste grupo, passando
a apresentar níveis sangüíneos de chumbo
semelhantes aos de indivíduos que convivem
próximo a áreas industriais de produção de
chumbo reportados por outros pesquisadores6, 10, 25,30.
Embora tenha ocorrido considerável aumento na produção e consumo dos compostos de chumbo na década de 1970,
observou-se paralelamente uma redução
substancial nos níveis de Pb-S de indivíduos ocupacionalmente expostos, refletindo
uma melhoria e maior atenção aos programas de vigilância epidemiológica, de medidas mais eficazes de higiene industrial e
de monitorização biológica dos trabalhadores expostos3, 25,29. Apesar disso, ainda
continua ocorrendo em alguns países situações consideradas de elevado risco, como
a constatada em 1987 nos Estados Unidos
da América do Norte, em que mais de
1.000 trabalhadores tinham Pb-S acima de
40 ìg/dL e aproximadamente 200 deles
possuíam níveis de chumbo no sangue acima de 50 ìg/dL. Verificou-se neste e em
outros estudos que a maioria dos trabalhadores com concentração mais elevada exerciam atividade em mineração, refinaria,
fundições e em indústrias de acumuladores. Os processos de fundição e refinaria
do chumbo são provavelmente os que representam maior risco de exposição, confirmando os resultados obtidos neste estudo
no qual os trabalhadores das áreas de refinaria, fusão e sinterização apresentaram
as concentrações mais elevadas de chumbo no sangue1, 3, 10, 25, 33, 34.
Em 1980 a Organização Mundial de
Saúde25 recomendou como limite de tolerância biológico (LTB) para exposição
ocupacional ao chumbo o Pb-S de 40 ìg/
dL para trabalhadores masculinos e 30 ìg/
dL para mulheres. A American Conference
of Governmental Industrial Hygienists35 dos
Estados Unidos da América do Norte adotou um LTB de 50 ìg/dL de chumbo no sangue e no guideline de 2001 o indicador
de dose interna atualizado é de 30 ìg/dL25,
fazendo a ressalva que mulheres em idade fértil com plumbemia superior a 10 ìg/
dL podem gerar crianças com chumbo
sangüíneo de 100 ìg/dL, as quais podem
desenvolver sérias lesões no desenvolvimento
cognitivo. No Brasil o Ministério do Trabalho36 adota como valor de referência o Pb68
S de até 40 ìg/dL e para exposição
ocupacional o IBMP (Índice Biológico Máximo Permitido) de 60 ìg/dL. Neste estudo
constatamos que 43,5% dos trabalhadores
do grupo de sinterização, 36,6% da fusão,
32,6% da refinaria e 23% da manutenção
possuíam Pb-S superior a 40 ìg/dL, considerado como normal pela legislação brasileira e igual ou superior ao LTB estabelecido em diversos países, enquanto 12,2%
dos trabalhadores da área de fusão, 10,2%
da de refinaria e 7% da de sinterização,
totalizando 12 trabalhadores nos três grupos, revelaram Pb-S superior a 50 ìg/dL,
valor de chumbo sangüíneo mais elevado
do que o estabelecido como LTB pela Organização Mundial da Saúde 25 e a
ACGIH dos Estados Unidos da América
do Norte.
No que concerne ao bioindicador de efeito, concentração urinária de ALA, observamos que 85,4% dos trabalhadores da área
de Sinterização e 81,6% da Refinaria, possuíam ALA-U superior a 4,5 mg/g creat.
estabelecido como valor de referência pela
legislação brasileira 36 , enquanto que
36,6% dos indivíduos da de sinterização,
48,8% da de fusão e 30,6% da de refinaria apresentaram ALA-U superior a 10 mg/
g creat., adotado pela legislação brasileira como Índice biológico Máximo Permitido
(IBMP).
A Figura 2 apresenta a corrrelação entre
a plumbemia e a concentração urinária de
ALA nos grupos controle e nos diversos grupos de trabalhadores da metalúrgica. O
modelo matemático que melhor descreve esta
correlação é equação quadrática [ALA =
0,007*(Pb-S)2 –0,111*(Pb-S)+4,51] com
coeficiente de correlação (r2) de 0,249. O
teste t para significância do índice de correlação demonstrou que esta é uma correlação positiva e significativa (p<0,05) entre os
indicadores de exposição e de efeito. Esses
dados estão de acordo com os resultados de
outros estudos2, 17, 19, 22, havendo uma inflexão
nas concentrações de Pb-S superiores a 40
ìg/dL. Utilizando este modelo para prever a
concentração de ALA-U a partir do Pb-S de
40 ìg/dL, por exemplo, seria 11,3 mg/g
creat.; concentração esta acima do IBMP para
o chumbo inorgânico (10 mg/g creatinina).
Para a ZnPP os resultados mais elevados
foram obtidos para os grupos da
sinterização, fusão e refinaria; corroboranRevista Brasileira de Saúde Ocupacional
terminados tipos de minério, como a galena,
utilizada pela metalúrgica avaliada neste estudo, pode aumentar o risco de toxicidade
do metal, como também influenciar na
cinética de produção de determinados indicadores biológicos utilizados na
monitorização dos trabalhadores expostos3,15, 29, 34,37. Desse modo, o zinco pode
ativar a ácido delta-aminolevulínico
desidratase (ALA-D), influenciando na produção de ALA-U22, o cádmio pode aumentar a nefrotoxicidade do chumbo, bem como
outros fatores, como o consumo de álcool,
que influencia na produção de alguns destes indicadores38.
Atualmente esta metalúrgica encontra-se
desativada, mas deixou um passivo
ambiental de mais de 50.000 toneladas
de escória com contaminação superior a 3%
de chumbo, ocasionando a contaminação
ambiental e a consequüente contaminação
da população da região6,30, merecendo
estudos de monitorização ambiental e avaliação da população circunvizinha por longo período.
do os achados a partir dos dados do ALA-U.
É possível concluir, portanto, que os trabalhadores com maior risco de exposição
ocupacional ao chumbo na planta da
metalúrgica estudada são representados
pelos grupos da Fusão, Sinterização e Refinaria, alguns deles com elevadas concentrações de chumbo no sangue e importantes alterações na concentração de ZnPP
sangüíneo e ALA urinário.
Apesar da constatação de considerável
redução nos níveis de Pb-S nos trabalhadores expostos em todo o mundo, motivando
inclusive a revisão dos LTB’s estabelecidos
na legislação de saúde ocupacional de
diversos países, mais recentemente tem sido
enfatizada a importância da toxicidade
subclínica do chumbo, demonstrando que
concentrações de chumbo no sangue mesmo abaixo dos LTB’s adotados atualmente,
podem desencadear importante toxicidade
como nefropatia, neurotoxicidade central e
periférica, efeitos sobre a reprodução, câncer renal e hipertensão arterial. Por outro
lado, a associação de outros metais, como
arsênico, cádmio e zinco, presentes em de-
50,0
Ala = 0.007(PbS)2 - 0.111(PbS) + 4.510
R2 = 0.249
45,0
Expostos
Controle
ALA mg/g creat.
40,0
35,0
30,0
25,0
20,0
15,0
10,0
5,0
-
10,0
20,0
30,0
40,0
50,0
60,0
70,0
PBS ug/dL
Figura 2
Correlação entre PB-S e ALA urinário dos grupos controle e dos trabalhadores expostos ao chumbo.
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69
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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Análise da Intervenção de um
Programa de Atividade Física nos
Hábitos de Lazer
Mariângela Gagliardi Caro Salve1
Antonia Dalla Pria Bankoff1
1
Faculdade de Educação Física da
Universidade de Campinas, Brasil
An Appraisal of the Effects that a
Physical Activities Program Has on
Recreational Habits
O presente trabalho teve por objetivo analisar a intervenção de um programa de atividade
física nos hábitos de lazer, ou seja, investigar quais as atividades físicas, preferidas, executadas por trabalhadores do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer. Selecionamos 40 voluntários (n=40), do sexo masculino. Elaboramos e aplicamos um programa de
atividade física praticada durante o expediente de trabalho, e abordamos questões de como
ter hábitos de vida saudáveis, incluindo recomendações sobre a importância prática da
atividade física nas horas de lazer. Este teve a duração de 8 meses, com sessões de uma
hora, duas vezes por semana. Chamamos de grupo II (n=10) aos que acompanharam o
programa até o quinto mês, mas mantivemos contato com esse grupo, orientado-os nas
questões acima abordadas até o final do programa. Denominamos grupo III (n=30) os que
freqüentaram até terminar o programa.
Palavras-chaves Atividade Física, Lazer, Saúde, Qualidade de Vida.
The purpose of this work was to assess how a physical activities program affects recreational
habits, in other words, to determine the nature of the preferred recreational physical activities
of carpentry workers at UNICAMP (UNICAMP – University of Campinas, State of São Paulo,
Brazil).Accordingly, we selected 40 male volunteers (n=40) and we elaborated a physical
activities program that was implemented during working hours. We also dealt with issues
relating to healthy living practices, including recommendations concerning the importance of
practicing physical activities during recreation time. This program lasted 8 months, with two
one-hour sessions each week. A group of 10 workers, denominated Group II, participated
only to the fifth month, however we maintained contact with its members and oriented them
regarding the aforementioned issues throughout the full program term, we called the volunteers that completed the program Group III (n=30).
Keywords Physical Activity, Leisure, Health, Quality of Life.
Vol. 28 - nº 105 /106
73
Introduçao
Conforme vários estudos mostram a prática regular e sistematizada da atividade
física é fundamental na prevenção e controle das doenças crônico-degenerativas. Porém,
ainda é grande a porcentagem de população inativa, ou seja, sedentária.
Para CARVALHO (1995) embora a maior parte da população adulta possa ser
classificada como inativa, somente 15 a
25% seria considerada fisicamente ativa de
forma regular. O sedentarismo é considerado como uns dos principais causadores
de doenças crônico-degenerativas, como a
hipertensão, obesidade, diabetes,
lombalgias, entre outras. Existem claras evidências de que o sedentarismo seja o principal fator de risco coronariano, já que é
relativamente alto e sua prevalência é bastante superior a dos outros fatores (idade,
sexo, história familiar...). Com a inatividade física o corpo responderá atrofiando a
massa muscular, perdendo a resistência,
diminuindo a massa óssea, as funções pulmonares, a flexibilidade e outras capacidades físicas.
Dados epistemológicos mostram que a
inatividade física é, provavelmente, um fator de risco individual para causar a
hiperlipidemia, a hipertensão, a obesidade e o diabetes. As pessoas inativas, em
geral,
são
mais
hipertensas,
hiperlipidêmicas, com maior porcentagem
de gorduras e propensão de tornarem-se
diabéticas não dependentes de insulina. Ao
passo que, as pessoas com um estilo de
vida mais ativo, têm maiores possibilidades
de prevenir essas patologias, ACHOUR
(1996).
RAMOS (1998) verificou, através de questionário composto de 14 questões, entre 246
alunos da UNICAMP, sendo137 homens e
109 mulheres, que apenas 28,86% dos
alunos que entram na universidade apresentam vida ativa, fisicamente, ou seja, realizam exercícios, três ou mais vezes por
semana, e 32,93% são considerados intermediários, isto é, praticam atividade física
uma ou duas vezes por semana.
Segundo BARBANTI (1991) 67% da população adulta brasileira não realiza nenhum tipo de atividade física. MATSUDO
et al. (1996) mencionam que pesquisas
74
recentes mostram, que nos Estados Unidos e
na Inglaterra, a taxa de inatividade física é
de 24 % e 15% respectivamente.
Epidemologistas americanos, segundo estes autores, estimam que há, aproximadamente, 250.000 mortes por ano que poderiam ser atribuídas à inatividade física e
32.400 vidas poderiam ser salvas se houvesse incremento na atividade física. O Projeto Saúde (um estudo realizado pelo Ministério da Saúde sob estilo de vida) revelou que 96% das pessoas não têm um estilo de vida inteiramente saudável, somente
10% da população, entre 18 e 55 anos,
declaram fazer atividade física regularmente, pelo menos, três vezes por semana. Estudos realizados por MATSUDO et al.
(1996), no CELAFISC, em escolares de São
Caetano do Sul e Ilha Bela revelaram que
os hábitos de atividades físicas das crianças brasileiras são menores e gastam mais
tempo assistindo TV que as crianças americanas.
Atualmente, nota-se o aumento do número de adolescentes sedentários e mais obesos (MOUSSA et al. 1994). O hábito de
assistir televisão tem sido o mais comum entre
os adolescentes, existe uma relação positiva entre o nível de adiposidade e o número de horas diárias de TV assistidas
(MATSUDO, et al. 1997). O problema
agrava-se mais quando há o consumo de
alimentos, enquanto se assiste TV (BAR-OR,
et al.1998).
De acordo com LITVAK et al., (1987) os
hábitos sociais, fumo, ingestão de álcool e
de cafeína, associados ao estresse e à inatividade física, contribuem para a instalação de cardiovasculares, doenças pulmonares obstrutivas crônicas, neoplasias, diabetes mellitus e cirrose. Essas doenças vêm
ocupando um maior espaço de
morbimortalidade nas populações latinoamericanas.
De acordo com RIGATTO (1994), antigamente, a atividade física era considerada
uma maneira de gastar o tempo mais depressa. Hoje, já se comprovou que, se realizarmos exercícios físicos, teremos até quatro vezes mais energia vital no corpo, do
que se tivermos uma vida sedentária.
Nas sociedades industrializadas, as atividades físicas têm representado, cada vez
mais um fator de qualidade de vida, tanto
de forma geral, como em relação à saúde
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
das pessoas, em todas as idades e condições,
estando associada à maior capacidade de
realização de trabalho físico e mental, com
mais entusiasmo, sensação de bem-estar,
menor gasto com saúde e diminuição do risco de doenças crônico-degenerativas (BLAIR,
1993).
São vários os estudos que indicam benefícios, tanto nos aspectos psicológicos como
biológicos da atividade física, ou seja,
melhoria da capacidade cardio-respiratória, diminuição de sintomas vasomotores, da
pressão arterial, da incidência de doenças
cardiovasculares, retardamento e prevenção do aparecimento de diabetes melittus,
da osteoporose, da obesidade, da hipertensão, redução da ocorrência de certos tipos de câncer, aumento da expectativa de
vida, entre outros. No aspecto psicológico
ocorre melhoria da auto-estima,
autoconceito, auto-imagem e diminuição da
ansiedade e depressão (CORBIN &
LINDSEY 1997; DISHMAN, 1994;
NIEMAN, 1998; BLUENTHAL et al., 1988;
CREWS & LANDERS, 1987; SINYOR, et al.
1983; GUTHRIE, et al.1995).
Para RIGATTO (1994) o exercício físico é
o melhor tranqüilizante que o homem encontra na natureza, pois a morfina
endógena, produzida pelo cérebro na atividade física, é colocada no sangue e circula por todo o corpo cerca de 24 horas
após o exercício. Para Carvalho (1995), o
exercício físico é um tranqüilizante natural.
O exercício físico diminui os sintomas de
estresse, ansiedade, depressão e raiva,
bem como a influência de estressores
psicossociais no indivíduo (BLUMENTHAL
et al., 1998; CREWS & LANDERS, 1987 e
SINYOR et al., 1993).
STEPTOE (1994) comprovou que quanto
melhor foi o condicionamento físico dos indivíduos tanto mais favoráveis serão as suas
respostas ao estresse.
GUISELINI (1996) afirma que o corpo
humano é uma máquina de fazer inveja
ao mais sofisticado computador. É
constuido por 220 ossos, 400 músculos,
1000 Km de artérias, sendo impulsionado
pelo músculo cardíaco que pulsa cerca de
60 vezes por minuto, 3600 vezes por hora.
Esse conjunto requer cuidados, dedicação
e procedimentos.
O autor sugere os seguintes procedimen-
Vol. 28 - nº 105 /106
tos necessários para a sua perfeita manutenção:
- decisão as pessoas devem convercer-se
de que cuidar do corpo é algo prioritário;
- prazer devem-se convercer que cuidar
do corpo é algo agradável;
- escolha de atividade - é necessário procurar uma atividade que não apenas fortaleça os músculos, diminua a porcentagem
de gordura, mas também beneficie o lado
emocional;
- respeito ao próprio corpo- é necessário
não se tornar um verdadeiro escravo do treinamento.
Existem várias opções de atividades físicas que promovem bem-estar físico e mental no organismo humano.
KING et al. (1993) revelaram aspectos
positivos do exercício aeróbico na redução
dos níveis de ansiedade, de depressão e
de estresse.
SAMULSKI & LUSTOSA (1996) relataram
a influência do exercício aeróbico sobre o
stresse, o humor e o autoconceito.
FIATARONE et al. (1990) sugeriram os
exercícios de força, flexibilidade, equilíbrio,
coordenação e atividades aeróbicas para
a melhoria da saúde e bem estar psicológico de adultos.
Para GANDEE (1998) as atividades
aeróbicas como caminhada, natação, entre outras, favorecem para tornar o corpo
mais relaxado.
MAZARINI (1992) recomendou a prática das atividades aquáticas, pois esta proporciona prazer, bem-estar e os indivíduos
descobrem novas maneiras de realizar exercícios físicos e a ficarem mais desinibidos.
Os exercícios, no meio líquido, oferecem a
oportunidade de as pessoas executarem,
livremente, os mais diversos movimentos,
graças a flutuabilidade do corpo. Essa
movimentação é beneficiada quando a temperatura mantiver-se em torno de 28 a 34
graus centígrados. A água aquecida proporciona aumento da circulação sanguínea e da sensibilidade neuro-sensorial, associada à redução dos efeitos da ação da
gravidade, que são responsáveis pela melhora do tônus muscular postural. Nesse
caso, favorecem uma adequada mobilidade articular e a elasticidade muscular.
CAMPOS & POPOV (1998) mencionaram
que com a prática da hidroginástica as
doenças, como a osteoporose, são altamente
75
controladas, tanto em termos de prevenção,
como de tratamento. Outra atividade importante é a caminhada, pois essa contribui para melhorar a atividade do sistema
nervoso, cardiovascular e respiratório do organismo. É indicada para pessoas que estão iniciando um programa de atividade
física, indivíduos obesos, idosos e para os
que possuem problemas no sistema
locomotor.
RIPPE et al (1998) relataram que a prática da atividade física moderada, como a
caminhada, provoca redução do aparecimento de doenças do coração, contribui
para a diminuição da ansiedade, tensão,
controle do índice do colesterol, hipertensão e diminuição na velocidade da instalação da osteoporoe.
Os exercícios respiratórios melhoram e
ativam a função da respiração pulmonar e
contribuem diminuindo os gastos energéticos
do organismo. Os exercícios podem ter
caracter estático ou dinâmico, isto é, com
presença ou falta de movimentos de braços e tronco, respectivamente. Para executálos é preciso recomendar a respiração nasal, a fim de evitar hiperventilação e diminuição do tempo da respiração (CAMPOS
& POPOV, 1998).
Assim, a atividade física é um dos elementos fundamentais para aquisição e
manutenção de uma boa qualidade de
vida. A sua prática, nas horas de lazer, é
importante no estabelecimento do equilíbrio
físico e mental.
Podemos considerar que em décadas
mais recentes, segundo NAHAS (1997), a
qualidade de vida tem emergido como um
fator de destaque em investigações na área
da saúde, nos estudos ligados às condições
de trabalho e na perspectiva de lazer do
ser humano. A atividade física, no lazer,
representa um fator importante de qualidade de vida
Para SABA (1998) o conceito de aptidão
física, que atualmente se procura adotar
envolve todas as dimensões do comportamento humano. Hoje, a aptidão física conversa com outras áreas, dialoga que outros
fatores que incidem sobre o homem e a sua
natureza. Essa atitude difere daquela anteriormente predominada, que ficava preocupada, somente, em conseguir alguns minutos, a menos, em determinadas práticas.
O conceito da aptidão física estava forte76
mente associado às variáveis que afetam
a performance esportiva, restrita somente a
um grupo de pessoas que se dedicavam a
essa prática (alguns por profissão, outros
poucos, por lazer). A consciência da aptidão física que se tem hoje é que há outros
elementos que ultrapassam o potencial hereditário, elementos que dependem da
oportunização da prática de qualquer atividade física para o desenvolvimento das
capacidades físicas. Assim, hoje, aptidão
física está relacionada aos aspectos que
levam à melhoria da qualidade de vida. A
busca por uma saúde melhor, por uma vida
saudável, eis o desafio que percorrem pessoas que abandonam a vida sedentária,
em busca de um outro universo referencial.
É necessário que se criem condições e espaços adequados para se alcançar esses
objetivos.
AMERICAN HEART ASSOCIATION,
SUBCOMMITTEE on EXERCISE/CARDIAC
REHABILITION (1981) recomenda a pratica da atividade física, independente da
idade, do sexo e do local, com segurança
e orientação profissional, de forma regular e sistematizada e por toda a família. É
importante constar com mudanças nos hábitos alimentares, reeducação no que diz
respeito às atividades realizadas no dia-adia, como jogar vídeo-game, navegar pela
internet muitas horas seguidas, utilização
de elevadores no lugar de escadas, etc. A
saúde deve ser considerada de forma mais
abrangente, envolvendo bem-estar físico,
psíquico e social. A prevenção ou tratamento
das doenças crônico-degenerativas vai se
estabelecer a partir da identificação e remoção dos agentes causadores por essas
doenças, chamados de “fatores de riscos”.
O treinamento físico protege o desenvolvimento das doenças coronarianas, além de
garantir a sobrevida após um ataque cardíaco.
Nesse sentido, a consciência dos benefícios da prática regular ajuda em programas de atividade física (SAMULSKI &
LUSTOSA, 1996).
O NIH CONSENSUS CONFERENCE
(1996) propõe que sejam desenvolvidas
estratégias para encorajar indivíduos, com
diferentes experiências e conhecimentos, a
admitir e aderir a um estilo de vida ativo.
DISHMAN (1993) considera que mesmo
em países desenvolvidos, através de inforRevista Brasileira de Saúde Ocupacional
mações eficientes para conscientizar a população dos malefícios causados pela vida
sedentária, grande parte da população se
mostra insensível.
A consciência do valor da prática da atividade física, seja nas horas de lazer ou no
trabalho, é fundamental, tanto em termos
de saúde como em qualidade de vida. A
seguir veremos o que os autores entendem
por lazer.
Segundo DUMAZADIER (1973) lazer é:
“...conjunto de ocupações às quais
o indivíduo pode entregar-se, de livre vontade, seja para divertir-se,
recrear-se e entreter-se, ou ainda,
para desenvolver sua formação desinteressada, sua participação social voluntária, ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais”.
Para REQUIXA (1980) lazer é “...ocupação não obrigatória, de livre escolha do
indivíduo da qual vive e cujos valores propiciam condições de recuperação
psicossomática e de desenvolvimento pessoal e social”.
MEDEIROS (1980) entende como lazer:
“espaço de tempo não compreendido, do
qual podemos dispor livremente, porque já
cumprimos nossas obrigações de trabalho
e de vida”.
No conceito de MARCELINO (1987) lazer
é uma escolha individual praticada no tempo disponível e de que ocorrem determinados efeitos, como descanso físico e mental,
divertimento, desenvolvimento da personalidade e da sociabilidade. O lazer também
pode ser considerado como “atitude”, assim não abrange somente as situações de
prática, uma vez que a atitude independe
da situação da prática ou de consumo, ou
seja, um indivíduo pode ativamente participar de espetáculo de teatro, fazendo parte
ativamente da montagem da platéia.
Diante da necessidade de aquisição de
hábitos saudáveis recorremos às recomendações de AMORIM et al. (1997), ou seja,
que ao oferecer atividades essas venham
Vol. 28 - nº 105 /106
de encontro às necessidades e motivações
individuais, torna-se fundamental conhecer
as experiências de grupos específicos e os
seus hábitos, de forma a possibilitar a elaboração de programas de atividades físicas, capazes de estimular a incorporação
e manutenção de vida saudável, visando
proporcionar um impacto na qualidade de
vida.
Esse trabalho teve por objetivo analisar
a intervenção de um programa de atividade física nos hábitos de lazer, ou seja, investigar quais as atividades físicas preferidas, executadas por trabalhadores do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer.
Metodologia
Elaboramos um programa de atividade
física composta por exercícios de alongamentos musculares, relaxamentos, equilíbrio
corporal, respiratórios, caminhada e
hidroginástica e abordamos questões dos
vários hábitos de vida que a tornam saudável, incluindo a importância da prática
da atividade física nas horas de lazer. O
programa teve a duração de 8 meses, com
sessões de uma hora, duas vezes por semana.
Também, elaboramos um protocolo de
avaliação, composto por vinte e uma questões abertas e fechadas, que foi aplicado
antes e após o término do programa.
O programa foi aplicado no Laboratório
de Eletromigrafia e Postura, no bosquinho,
na piscina da Faculdade de Educação Física e nas dependências da marcenaria
da UNICAMP.
Selecionamos 40 voluntários (GI, n=40),
do sexo masculino, trabalhadores do setor
da marcenaria da UNICAMP, com idade
compreendida entre 33 e 60 anos. Chamamos de grupo II ( GII, n=10) aos que
acompanharam o programa até o quinto
mês, mas mantivemos cantato com esse grupo, orientando-os nas questões acima abordadas até o final do programa e grupo III
( GIII, n=30) aos que freqüentaram até terminar o programa.
77
Resultados
Tabela 01 Atividades físicas, preferidas e executadas pelos trabalhadores do setor da
marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer, antes e após o programa de atividade física.
F.A. – freqüência absoluta
F.R.- Freqüência relativa
45
40
35
futebol
30
caminhada
25
alongamento
20
corrida
15
natação
10
bicicleta
5
0
antes
após
Gráfico 01 Atividades físicas, preferidas e executadas pelos trabalhadores do grupo I
do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer, antes e após o programa de
atividade física.
30
25
20
futebol
15
caminhada
10
alongamento
corrida
5
0
antes
após
Gráfico 02 Atividades físicas, preferidas e executadas pelos trabalhadores do grupo
II do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer, antes e após o programa de
atividade física.
78
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
50
40
futebol
caminhada
30
alongamento
20
corrida
natação
10
bicicleta
0
antes
após
Gráfico 03
Atividades físicas, preferidas e executadas pelos trabalhadores do grupo
III do setor da marcenaria da UNICAMP, nas horas do lazer, antes e após o programa de
atividade física.
Análise dos resultados
Observamos que aumentou o interesse e
a prática da atividade física nos três grupos analisados.
O grupo I inicialmente somente jogava
futebol (7.5%), passou a praticar ciclismo
(12.5%), corrida (5%), natação (2.5%), fazer alongamentos musculares (10%), caminhada (7.5%) e aumento da porcentagem
de praticantes do futebol (42.5%). O mesmo ocorreu com o grupo II, que só jogava
futebol (30%) e passou a caminhar (10%),
fazer alongamentos musculares (10%), andar de bicicleta (10%) e corrida (2%) e
notamos diminuição de praticantes do futebol (20%). Com o grupo III notamos como
ocorreu um grande interesse pela prática
da atividade física, era um grupo de indivíduos que não se exercitavam, e com a
intervenção de nosso programa, passou a
dedicar um tempo do lazer à pratica do
futebol (50%), caminhada (6.6%), alongamentos musculares (10%), bicicleta (10%),
corrida (20%) e natação (3.3%).
FERRAREZI (1997) traçou o perfil 77 indivíduos, sendo 38 mulheres e 39 homens,
frequentadores do parque da lagoa do
Taquaral na cidade de Campinas, SP, .Utilizou um protocolo de avaliação com 22
questões abertas e fechadas. Os resultados mostraram que 50% realizam atividades físicas como forma de lazer, sendo em
menos de 1 ano: 13.7%, 1 a 5 anos: 43.8%
e mais de 5 anos: 42.5%. Tempo diário
dedicado: até uma hora: 73.3% e mais de
1 hora: 26.7%. Número de atividades:
Vol. 28 - nº 105 /106
uma: 21.2%, duas: 60.3% e três ou mais:
18.5%.
Nos anos da década de 70, um projeto de grande envergadura tinha por objetivo estimular a prática da atividade física.
O programa foi denominado de “Esporte
para Todos”, com apoio da televisão, por
meio da chamada “Mexa-se”. Esse colocou dezenas de pessoas nas ruas
conscientizando-as da prática, até então,
pouco difundida. Era o prenúncio da mudança de comportamento que assiste, no
final da década de noventa, com parques
lotados, as academias se proliferando e a
consciência emergindo em um sentido de
viver mais e melhor (SABA, 1998).
O projeto “Agita São Paulo”, criado pelo
governo estadual, tem conseguido atingir
os seus objetivos, isto é, estimular as pessoas a gastar calorias com exercícios físicos.
Semelhante ao programa de Atlanta, criado pelo Centro de Controle e Prevenção de
Doenças, o programa oferece à população,
atividades físicas, para estimular hábitos
mais saudáveis. Idealizado pelo Centro de
Estudos do Laboratório de Aptidão Física
de São Caetano do Sul, o programa aborda vários grupos de pessoas, por meio de
caminhada, palestras e jogos e consegue
estimular as pessoas a realizarem atividades físicas, tanto sozinhas, como em grupos. Esse projeto, além de proporcionar
melhora na qualidade de vida das pessoas participantes, proporciona outro elemento fundamental: a integração. Os indivíduos são motivados a desenvolver programas
em conjunto com a sua comunidade e, é
79
interessante observar, que tomam consciência de que a vida sedentária cria hábitos terríveis e danos irreparáveis à saúde
(SABA, 1998).
Conclução
Atualmente o termo qualidade de vida
vem sendo muito utilizado.
Vários estudos comprovam que a prática da atividade física, é um dos elementos
fundamentais para a aquisição ou manutenção do estado da saúde, considerado
adequado, tanto nos aspectos físico como
mental. A atividade física, escolhida para
ser praticada, deve ser aquela de que o
indivíduo mais goste e que sinta prazer ao
executá-la.
Apesar dos valores da prática da atividade física, uma grande parte da população brasileira, ainda é sedentária. Portanto, tornam-se necessárias campanhas e programas que divulguem os seus benefícios.
Os profissionais de Educação Física devem oferecer programas de atividades físicas que não proporcionem somente a
vivência da prática da atividade, mas também, devem abordar aspectos teóricos que
contribuam para o enriquecimento pessoal
dos indivíduos.
Recomendamos a abordagem dos vários
aspectos necessários à aquisição de qualidade de vida adequada. Sugerimos o
enfoque da importância de termos hábitos
saudáveis nas horas de lazer, ou seja, a
prática da atividade física.
Concluímos que o programa foi eficiente,
no sentido de conscientizar a população
estudada, dos benefícios da prática da atividade física, tornando-os mais ativos fisicamente, tanto no trabalho, como principalmente no lazer. Observamos que os voluntários optaram pela prática, também, de
outras atividades físicas, além do futebol,
contribuindo para o aumento do repertório
motor e melhoria da qualidade de vida da
população estudada.
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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Segurança no Trabalho de Aplicação
de Agrotóxicos com o Pulverizador
de Pistolas em Citros
Maurício Leite de Oliveira1
Joaquim Gonçalves Machado
Neto2
1
Engenheiro Agrônomo - M.Sc. e
Aluno do Curso de PósGraduação da Universidade Estadual
de São Paulo
2
Professor Livre-Docente do Departamento de Fitossanidade, da
Universidade Estadual de São Paulo
Work Safety in Pesticide Spraying of
Citrus Fruits Using Hand Gun
Sprayers
O presente estudo objetivou quantificar as exposições dérmicas e respiratórias proporcionadas pelas condições de trabalho de aplicação de agrotóxicos em cultura de citros com
o pulverizador de pistolas; avaliar a eficiência de medidas de proteção individual e
coletiva para esses trabalhadores; determinar as regiões mais expostas do corpo dos
trabalhadores; e classificar as condições de trabalho, sem e com as medidas de proteção
testadas, quanto à segurança ocupacional das recomendações de agrotóxicos registrados
para o controle das principais pragas e doenças dessa cultura. Verifica-se que, para o
tratorista, pulverizando com o pulverizador de pistolas, a medida de proteção mais eficiente foi o conjunto AZR e, para o aplicador, os dois conjuntos avaliados foram eficientes.
Para o tratorista, as regiões mais expostas do corpo foram as coxas + pernas – frente, os
pés e as mãos; e, para o aplicador foram, os pés e as mãos.
Palavras-chaves Agrotóxicos, Exposição Dérmica, Exposição Respiratória, Citrus.
The purpose of this study envisaged the quantification of skin and respiratory exposures
occasioned by work conditions during pesticide spraying of citrus fruits using hand gun
sprayers; the evaluation of the efficiency of individual and group protection measures for the
workers; the determination of workers’ most exposed body regions; and the classification of
work conditions, with and without the tested work-safety protection measures as recommended
for the registered pesticides used to control the main pests and diseases that attack these types
of trees and fruits. The AZR protection equipment proved to be the most efficient for the
tractor driver, when spraying using pistol sprayers. The two sets of individual protection
equipment that were checked also proved to be efficient. The most exposed regions of the
tractor driver’s body were the thighs, the front of the legs, the feet and hands. The most
exposed regions of the individual sprayer working on foot were the hands and feet.
Keywords Pesticides, Skin Exposure, Respiratory Exposure, Citrus Fruit.
Vol. 28 - nº 105 /106
83
Introdução
No Brasil, a citricultura destaca-se como
o quinto maior consumo de agrotóxicos aplicados, correspondendo a 4% do total das
vendas de 2,5 bilhões de dólares no ano
de 2000 (SINDAG, 2000). Entretanto, os
processos convencionais de aplicação desses agrotóxicos caracterizam-se por alto
desperdício. Matuo (1988) constatou que
a retenção no alvo foi de 47 a 50% dos 10
litros de calda, aplicados por planta de
citros, com o pulverizador de pistolas. A
calda não retida no alvo fica dispersa no
ambiente e pode atingir os trabalhadores
envolvidos nessas atividades e causar-lhes
intoxicações.
As medidas de proteção que controlam
as exposições ocupacionais aos agrotóxicos
atuam na prevenção do contato dos produtos com as vias de exposição do corpo.
Em condições de aplicação de agrotóxicos
no campo, 99%, ou mais, da exposição
total ocorre na via dérmica e apenas 1%,
ou menos, na via respiratória (WOLFE et
al., 1972; VAN HEMMEN, 1992). Logo, o
conhecimento das exposições dérmica e
respiratória potenciais, das características
tóxicas dos agrotóxicos e da eficiência das
medidas de proteção, é de grande importância para a adoção de estratégias de
segurança, mais efetivas, confortáveis, econômicas e aplicáveis nas condições específicas de trabalho.
Em condições de campo, tem-se recomendado, como medida de proteção no trabalho com agrotóxicos, apenas o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs).
Entretanto, quando os trabalhadores têm
acesso aos EPIs, eles são desconfortáveis e
de uso insuportável, pois proporcionam
grande retenção de umidade e de calor
na superfície do corpo (BULL &
HATHAWAY, 1986).
Na cultura estaqueada de tomate, Machado Neto et al. (1993) verificaram que
guarda-pós, confeccionados em fios de fibra sintética prensados (Non Woven), controlaram de 73 a 78%, em média, a exposição dérmica do tórax, dos braços e dos
antebraços dos aplicadores de agrotóxicos
nessa cultura. Van Hemmen (1992) relata
que, em pulverizações dirigidas para o alto,
o uso de cabina, no trator, reduz a exposição dérmica do tratorista.
Os objetivos deste trabalho foram:
quantificar as exposições dérmicas e respi84
ratórias proporcionadas pelas condições de
trabalho, na aplicação de agrotóxicos, em
cultura de citros com o pulverizador de pistolas; determinar as regiões mais expostas
do corpo dos trabalhadores; avaliar a eficiência de medidas de proteção individual
e coletiva para esses trabalhadores; e classificar as condições de trabalho, sem e com
as medidas de proteção testadas, quanto
à segurança ocupacional das recomendações de agrotóxicos registrados para o controle das principais pragas e doenças dessa cultura.
Material e Métodos
As exposições do tratorista e do aplicador,
trabalhando com o pulverizador de pistolas, foram avaliadas em pulverizações de
pomares de laranja, da variedade Pêrario, com plantas de 2,5 e 3,0 m de altura.
O pulverizador de pistolas utilizado foi
da marca Rolanzir, com tanque de 2000 L
de capacidade e duas mangueiras de 4 m
de comprimento com lanças de aplicação
do tipo “pistolas”, contendo pontas D10 nos
bicos. Esse equipamento foi arrastado por
um trator Valmet 68, trabalhando em 1a
marcha reduzida e na rotação de 1500
rpm. Essa pulverização tem duas atividades distintas: o tratorista, que dirige o trator; e os aplicadores, normalmente duas
pessoas que trabalham sobre uma plataforma acoplada na parte traseira do tanque do pulverizador, a 0,5 m de altura em
relação ao solo, e que realizam a aplicação da calda. Essa aplicação é realizada,
direcionando-se os jatos das pistolas de
pulverização às plantas das duas linhas
laterais ao deslocamento do conjunto trator-pulverizador nas entrelinhas da cultura.
Os aplicadores movimentam os jatos de
calda de modo a atingirem todas as partes
da copa das plantas. O pulverizador foi
calibrado com a pressão de 21 bar para
aplicar o volume de 10 L de calda por planta.
A segurança ocupacional das atividades
de aplicação de agrotóxicos com o pulverizador de pistolas, em cultura de citros, foi
calculada com os dados de exposição
dérmica (ED) e de exposição respiratória
(ER) proporcionadas aos trabalhadores em
condições de campo. Essas avaliações foram realizadas durante os anos de 1999 e
2000, em pomares localizados no município de Matão-SP.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Denominaram-se exposição dérmica potencial (EDP) e exposição respiratória potencial (ERP) as EDs e ERs avaliadas sem
medidas de proteção e que, teoricamente,
poderiam atingir as vias de exposição
dérmica e respiratória. Foram denominadas
exposição dérmica não controlada (EDNC)
e exposição respiratória não controlada
(ERNC), as exposições não controladas
pelas medidas de proteção. As EDNCs foram avaliadas em vestimentas amostradoras
usadas sob os dois conjuntos de proteção
individuais e quando os trabalhadores usaram os equipamentos de proteção coletivos.
Foi considerada, para as botas e para a
máscara descartável com filtro de carvão
ativado, a eficiência de 95% de controle
das exposições avaliadas, de acordo com
Lundehn et al. (1992).
As EDPs foram avaliadas em trabalhadores expostos às caldas que continham o
cátion cobre (Cu+2) do fungicida cúprico
Cuprogarb 500 PM como traçador, conforme metodologia descrita e utilizada por
Machado
Neto
(1997).
Como
amostradores das exposições dérmicas, foram utilizadas vestimentas semelhantes às
utilizadas por Pradela (1998). As
vestimentas amostradoras foram constituídas
de absorventes higiênicos femininos, para
amostrar as exposições nos pés e na face,
e macacão e luvas de algodão, para as
demais partes do corpo. As exposições foram avaliadas em períodos inferiores a uma
hora de trabalho e, posteriormente,
extrapoladas para um dia de seis horas de
exposição efetiva (MACHADO NETO,
1997).
As ERPs foram avaliadas em filtros de éster
celulose da marca SKC, com porosidade
de 0,8 mm, utilizados em cassetes de bombas de fluxo de ar contínuo, marca A. P.
Buck, reguladas com a vazão de 2 L/min.
Os cassetes foram posicionados na região
de respiração dos trabalhadores expostos
às caldas, que continham cátion manganês
(Mn+3) como traçador (OLIVEIRA, 2000). As
ERPs foram avaliadas por períodos de aproximadamente três horas e, posteriormente,
extrapoladas para um dia de seis horas de
exposição efetiva.
As EDPs e ERPs às caldas foram estimadas com os valores de Cu+2 e Mn+3 utilizados como traçadores e suas respectivas concentrações nas caldas aplicadas. Todas as
atividades foram avaliadas com 10 repetições.
Vol. 28 - nº 105 /106
Os macacões, seccionados em partes (capuz, braços, tórax-frente, tórax-atrás, coxas
+ pernas-frente e coxas + pernas-atrás), as
luvas de algodão, os absorventes higiênicos femininos e os filtros coletores das bombas pessoais foram imersos em solução de
HCl 0,2 N para a solubilização dos cátions.
As EDs das partes do corpo do trabalhador foram avaliadas nas seguintes regiões
do corpo: cabeça + pescoço, face, mãos,
braços, tórax-frente, tórax-atrás,
coxas+pernas-frente, coxas+pernas-atrás e
pés. Os amostradores permaneceram na
solução solubilizadora por duas horas. Em
seguida, as amostras foram agitadas, e uma
alíquota dessas soluções com Cu+2 foi filtrada em filtro de papel qualitativo (MACHADO NETO & MATUO, 1989). Nas amostras com Mn+3, procedeu-se apenas à retirada dos filtros de éster celulose das soluções. Os cátions foram quantificados nas
alíquotas
dessas
soluções
em
espectrofotômetro de absorção atômica
(GBC 932 AA).
Foram avaliados, como medidas de proteção individual, o conjunto AZR para o
tratorista e para o aplicador e o conjunto
ROUPA UNESP, apenas para o aplicador.
O conjunto AZR foi composto pelas seguintes vestimentas: blusa de mangas compridas, calças compridas e touca árabe com
aba frontal, confeccionadas em tecido de
algodão tratado com Teflon®, para proporcionar hidrorrepelência, viseira de acetato
transparente, avental de material impermeável (tipo napa), luvas de nitrila, botas de
borracha e máscara descartável com filtro
de carvão ativado. O conjunto Roupa
Unesp foi composto pela vestimenta Roupa
Unesp (confeccionada em plástico impermeável para a proteção dos braços e parte frontal do corpo e pernas, e aberta na
região posterior do corpo para proporcionar ventilação e maior conforto), chapéu
de palha, viseira de acetato transparente,
luvas de nitrila, botas de borracha e máscara descartável com filtro de carvão ativado.
Como medida de proteção coletiva para
o tratorista, avaliou-se a eficiência de uma
semicabina, fabricada pela Indústria Agro
Leite – Irmãos Oliveira Leite LTDA, acoplada
à capota original do trator. A semicabina é
fechada com estruturas de metal e vidro nas
partes frontal e traseira, e parcialmente fechada nas laterais, aberta na região entre
os pára-lamas e as laterais do painel de
85
instrumentos do trator. Estas aberturas laterais são locais de entrada ou de saída do
operador no trator. As partes do corpo do
tratorista que se encontram na região das
aberturas laterais do acessório, ficam livremente expostas ao ambiente e passíveis de
exposição às caldas pulverizadas.
As exposições às caldas, quantificadas
com os traçadores, foram utilizadas como
dados substitutos, de acordo com Jensen
(1984), para estimar as exposições aos
agrotóxicos recomendados para aplicação
nas condições avaliadas. Foram calculadas
as EDPs e as ERPs para as 21 recomendações dos seguintes agrotóxicos: acrinathrin,
azocyclotin, benomil, bromopropylate,
chlorothalonil, chlorpyrifós, cyhexatin,
deltamethrine, dicofol, dimethoate, ethion,
fenbutatin
oxide,
fenpyroximate,
hexythiazox, methidathion, parathion
methyl, propargite, thiophanato methyl,
triazophos, triclorfon e vamidothion, considerando-se as respectivas dosagens recomendadas (ANDREI, 1999). Esses
agrotóxicos foram escolhidos por serem os
mais tóxicos ou os mais utilizados pelos
citricultores nessas condições de pulverização.
A segurança das condições de trabalho
com cada agrotóxico foi estimada por meio
do cálculo da margem de segurança (MS)
com a fórmula de Severn (1984) modificada por Machado Neto (1997), que é a
seguinte: MS = (NOEL x 70) / (QAE x 10),
onde: MS = margem de segurança, NOEL
= nível de efeitos não observados (mg/kg/
dia) (TOMLIN, 1997); 70 = peso corpóreo
médio (kg); 10 = fator de segurança para
compensar a extrapolação dos valores de
NOEL obtidos em animais de laboratório
para o homem (BROUWER et al., 1990); e
QAE = quantidade absorvível das exposições avaliadas (mg/dia). No cálculo da
MS na via dérmica, foi considerada a QAE
= 10% da ED avaliada (0,1 x ED). No cálculo da MS na via respiratória, considerouse QAE = 100% da ER avaliada. A MS
total (ED + ER) foi calculada considerando
a QAE = [(0,1 x ED) + (ER)]. O critério utilizado para a classificação da segurança
das condições de trabalho foi o seguinte:
se MS ³ 1, condição segura, exposição
aceitável e risco tolerável, e se MS < 1,
condição insegura, exposição inaceitável e
risco intolerável, segundo Machado Neto
(1997).
Resultados e Discussão
Na Tabela 1, estão apresentados os resultados das avaliações das exposições
potenciais, nas vias dérmica e respiratória,
às suspensões de cobre e de manganês,
respectivamente, para o tratorista e para o
aplicador com a pistola de pulverização,
sem e com medida de proteção. Para o
tratorista, verifica-se que 99,98% da exposição total ocorreu na via dérmica e apenas 0,02% na via respiratória. Para o
aplicador com a pistola de pulverização,
99,99% da exposição total ocorreu na via
dérmica e 0,01% na via respiratória. Esses
resultados concordam com Wolfe et al.
(1972) e Van Hemmen (1992), onde relatam que 99%, ou mais, da exposição total
ocorre na via dérmica e apenas 1%, ou
menos, na via respiratória.
Tabela 1 Exposições potenciais (EP) e exposições não controladas (ENC) pelas medi-
das de proteção (AZR, Semicabina e Roupa Unesp), em mL de calda por dia de trabalho e
eficiências (%) das medidas de proteção em reduzir a exposição total do tratorista e do
aplicador, trabalhando com a pistola de pulverização, aplicando agrotóxicos com o pulverizador de pistolas em citros.
Exposições
86
(mL de calda/dia)
EP
Sem
proteção
Dérmica
Tratorista
ENC
Aplicador
EP
ENC
Sem
Roupa
AZR
proteção
Unesp
AZR
Semicabina
57,2
12,7
55,7
356,7
24,7
77,3
Respiratória
0,014
0,001
0,013
0,028
0,001
0,001
Total
57,214
12,701
55,713
356,728
24,701
77,301
Eficiência (%)
-
77,8
2,6
-
93,1
78,3
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
A menor EDP avaliada para o tratorista
pode ser explicada devido este operador
estar a uma distância maior da pistola de
pulverização do que o aplicador que realiza a pulverização propriamente dita, segurando esse acessório com as mãos e sofrendo maior exposição.
A eficiência das medidas de proteção
para o tratorista pode ser observada na
Tabela 1. Verifica-se que o conjunto AZR
foi a medida de proteção mais eficiente,
controlando 77,8% da exposição total. A
semicabina não proporcionou proteção
satisfatória, pois a exposição controlada por
esse equipamento foi de apenas 2,6% da
exposição total. A baixa eficiência da
semicabina no controle da exposição total
do tratorista deve-se às aberturas laterais
deste acessório, que possibilita a entrada
de ar contaminado com as gotas de pulverização.
A eficiência das medidas de proteção
para o aplicador com a pistola de pulverização pode ser verificada na Tabela 1. A
medida de proteção, mais eficiente, foi o
conjunto AZR, controlando 93,1% da exposição total. O conjunto Roupa Unesp pro-
porcionou 78,3% de controle da exposição
total, porém deve-se atentar para o detalhe da abertura total desse equipamento
na região posterior do corpo do trabalhador. Essa abertura tem a função de proporcionar a troca de calor, entre o corpo e
o ambiente, conseqüentemente, proporcionando maior conforto no trabalho com esse
equipamento.
A distribuição da exposição dérmica potencial, nas diversas partes do corpo do
tratorista, trabalhando com o pulverizador
de pistolas, e respectivos percentuais dessa exposição, estão apresentados na Figura 1. Verifica-se, que 56,34% da exposição dérmica total foi distribuída nas seguintes partes do corpo, em ordem decrescente: coxas + pernas - frente, pés e mãos.
Com esses resultados, observa-se que, apenas a proteção destas partes mais expostas, a exposição total seria reduzida em
mais de 50%.
Na Figura 1, também está apresentada
a distribuição da exposição dérmica total
nas diversas partes do corpo do aplicador
com a pistola de pulverização e respectivos percentuais dessa exposição. Observa-
Figura 1 Distribuição da exposição dérmica total pelas partes do corpo, em mL de
calda por dia e em porcentagem, das partes do corpo mais expostas em relação à exposição
total do tratorista e do aplicador com a pistola de pulverização, trabalhando com o pulverizador
de pistolas em citros.
Vol. 28 - nº 105 /106
87
se, que 62,25% da exposição total ocorreu
em apenas duas partes do corpo, em ordem decrescente: pés e mãos. Observa-se
que, apenas com a proteção destas duas
partes, mais expostas, poderia reduzir-se
mais de 60% da exposição total destes
aplicadores.
Esses resultados possibilitam recomendar,
principalmente, os equipamentos de proteção individual para as partes mais expostas do corpo desses operários, adequando-se o uso de equipamento de proteção
de acordo com a necessidade de controlar
a exposição, suficiente para tornar a condição de trabalho segura e com o menor
desconforto possível para o trabalhador.
Ao calcular as MSs, verificou-se que foram seguras para o tratorista, sem proteção, as 14 recomendações dos seguintes
agrotóxicos: acrinathrin, azocyclotin,
benomil, bromopropylate, chlorothalonil,
cyhexatin, deltamethrine, fenbutatin oxide,
fenpyroximate, hexythiazox, propargite,
thiophanato methyl, triclorfon e vamidothion.
Com a utilização da semicabina, 15 recomendações de agrotóxicos foram seguras,
além das já citadas, a recomendação de
dicofol e, com o conjunto AZR, 18 recomendações, além das anteriores, as recomendações de dimethoate, ethion e
methidathion.
Para o aplicador, trabalhando com a pistola de pulverização, sem proteção, foram
seguras as 8 recomendações dos seguintes
agrotóxicos: acrinathrin, benomil,
bromopropylate, fenbutatin oxide,
fenpyroximate, hexythiazox, thiophanato
methyl e vamidothion. Usando o conjunto
Roupa Unesp, 14 recomendações, além
das citadas, também foram seguras:
azocyclotin, chlorothalonil, cyhexatin,
deltamethrine, propargite e triclorfon e, com
a utilização do conjunto AZR, 16 recomendações, além das anteriormente citadas, as
recomendações com dicofol e ethion
Quanto à eficiência das medidas de proteção avaliadas nas duas condições de trabalho, verifica-se que o número de recomendações seguras foi maior do que quando não se utilizaram as medidas de proteção.
A composição da MS, para cada recomendação, sofre influência da toxicidade
intrínseca de cada um dos agrotóxicos e
88
da exposição proporcionada pelas condições de trabalho aos trabalhadores, concordando com as observações de Turnbull
(1985). O efeito da toxicidade do
agrotóxico na segurança da condição de
trabalho pode ser verificado dentro de uma
mesma atividade realizada na aplicação
de diferentes agrotóxicos, que resultam em
diferentes valores de MS e, conseqüentemente, em diferentes classificações de segurança. Por outro lado, o efeito da exposição pode ser observado comparando-se
a segurança na aplicação de um mesmo
agrotóxico em atividades diferentes. A atividade pode ser segura para o tratorista e
insegura para o aplicador; o fator
determinante foi, nesse caso, a exposição
sofrida por esses trabalhadores, proporcionada pela condição específica de trabalho de cada operador.
Conclusões
Considerando-se os resultados obtidos e
as condições em que as avaliações das
exposições ocupacionais foram realizadas,
pode-se concluir que, para o tratorista, pulverizando com o pulverizador de pistolas,
a exposição potencial total (dérmica + respiratória) foi de 57,2 mL de calda por dia,
sendo que as regiões mais expostas do corpo foram as coxas + pernas – frente, os
pés e as mãos; para o aplicador, a exposição potencial total foi de 356,7 mL de calda por dia, sendo os pés e as mãos as regiões mais expostas do corpo desse trabalhador. A medida de proteção mais eficiente, para o tratorista, foi o conjunto AZR
e, para o aplicador, trabalhando com a
pistola de pulverização, os conjuntos AZR
e Roupa Unesp foram eficientes. Classificaram-se como seguras, para tratorista sem
proteção (EDP), 14 recomendações, com a
utilização da semicabina, 15 recomendações e, 18 com o conjunto AZR, das 21
recomendações de agrotóxicos estudadas.
Para o aplicador, sem proteção (EDP), foram seguras 8 recomendações, 14 com a
utilização da Roupa Unesp e, com o conjunto AZR 16 recomendações, das 21 recomendações de agrotóxicos estudadas.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
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Agradecimentos
Os autores agradecem à Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo – FAPESP pelo auxílio concedido
para a realização deste trabalho.
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
Postura Corporal - um Problema que
Aflige os Trabalhadores
Mariângela Gagliardi Caro Salve1
Antonia Dalla Pria Bankoff1
1
Laboratório de Eletromiografia e
Biomecânica da Postura
Faculdade de Educação Física
Universidade Estadual de Campinas
Body Posture – a Problem that
Afflicts Workers
Este artigo aborda primeiramente, aspectos e entendimento dos autores referentes às definições de postura corporal, os mecanismos responsáveis pela sua manutenção, qual é a postura considerada adequada ou inadequada, os distúrbios e medidas de prevenção. Concluímos que a postura, é um sistema altamente complexo e varia de indivíduo para indivíduo. É
a manifestação corporal do ser humano no meio em que vive. Nela está implicada a personalidade, a maneira de posicionar-se diante das diversas situações, reflete a trajetória de
vida e é o resultado de vários sistemas que atuam no organismo. Diante dos diferentes
estímulos, os indivíduos podem adotar uma postura adequada ou inadequada. Na postura
inadequada observa-se um desarranjo em vários elementos internos e externos ao corpo,
causando em certos casos, dores e desconfortos. Quando ocorre algum desequilíbrio nos
componentes da postura, surgem as alterações, doenças e desvios do eixo corporal. Para
prevenir problemas posturais é necessário que se pense nos seguintes fatores: ambiente,
mobiliários, espaço e tipo de trabalho, pausas, equipamentos e ferramentas, devem ser respeitadas as características biomecânicas do indivíduo, contribuindo para a sua qualidade de
vida.
Palavras-chaves Postura Corporal, Distúrbios Posturais, Medidas de Controle.
This article deals primarily with issues related to the definitions of body posture, the mechanisms responsible for its maintenance; of what is considered adequate or inadequate; disturbances and preventative measures and the authors’ understanding of the subject. We conclude that posture is a very complex system and varies from one individual to the next. It’s the
corporal manifestation of the human being within the environment in which it lives. One’s
personality is intertwined in it, the stance one adopts in relation to Life’s varied situations
reflects one’s trajectory and it’s the result of the various systems that operate in the organism.
Individuals can adopt an adequate or inadequate posture when faced with diverse stimuli. A
disarrangement of various elements, both internal and external to the body can be observed
in the inadequate posture, in some cases resulting in pain and discomfort. When a degree of
imbalance occurs in the postural elements then alterations, disease and deviations from the
body axis tend to occur. The following factors need to be considered in order to prevent
postural problems, namely, one’s environment, furniture, physical space and type of work,
rest periods, tools and equipment, remembering that bio-mechanical characteristics should be
respected, as together they all contribute to the individual’s quality of life.
Keywords Body Posture, Postural Disturbances, Control Measures.
Vol. 28 - nº 105 /106
91
Introdução
De acordo com KNOPLICH (1985), observa-se um aumento significativo de indivíduos portadores de doenças ligadas à coluna vertebral em relação à época mais
remota quando não se registravam com
tanta freqüência. Os distúrbios de coluna
vertebral são a segunda causa de pedido
de afastamento do trabalho.
No Brasil, em relação ao desenvolvimento de ocupações profissionais, 80% das
pessoas têm ou terão problemas posturais,
representando a segunda grande causa de
afastamento do trabalho (MERCÚRIO,
1978).
Nos países escandinavos observa-se um
contínuo crescimento do número de trabalhadores com pedido de afastamento de
trabalho, média de 40 dias, devido à
lombalgia. No ano 2000, os problemas de
coluna inviabilizaram o sistema médico na
Suécia (NACHEMSON, 1991).
Segundo POLLOCK; WILMORE (1993)
pôde-se constatar que em 1974 as companhias de seguro registraram um número
maior de pedidos de afastamento de trabalho, por problemas lombares, que por
qualquer outro motivo.
Segundo MENDES (1995) das estáticas
de mortalidade, de todos os países, as
afecções músculo-esqueléticas têm ocupado os primeiros lugares, seja na forma de
acidentes ou de doenças. Os problemas
lombares têm sido causa de enormes perdas para a economia do país, elevando
as taxas de absenteísmos nas fábricas,
causando grandes gastos, diretos ou indiretos, para o sistema de saúde, com tratamentos controvertidos e aposentadorias precoces.
Segundo HALL (1993) a lombalgia é a
doença que mais invalida a população
brasileira, tornando-a incapaz de realizar
as suas ocupações profissionais e
recreacionais. Representa 10 % de todos
os problemas crônicos de saúde, sendo a
décima primeira causa de hospitalização
nos Estados Unidos que incapacita pessoas de 20 a 45 anos; a vítima mais comum
é o homem na faixa de 35 anos. Entre as
ocupações de alto risco de desenvolvimento da doença, estão os trabalhadores de
serviços gerais, motoristas de caminhão, trabalhadores domésticos, mecânicos, auxili92
ares de enfermagem, estivadores, lenhadores, lixeiros e trabalhadores de construção
civil.
MAHAYRI (1996) mencionou que as enfermidades do sistema músculo-esqueléticoligamentar são as causas de morbidade,
incapacidade e invalidez na população,
em geral, e em grupos ocupacionais. Nessas enfermidades estão incluídas, algias da
coluna
vertebral,
osteoartrose,
cervicobraquialgias, síndrome do túnel do
carpo, tenossinovites, entre outras. As
lombalgias e as lombocitalgias constituem
importante causa de absenteísmo, incapacidade temporária de execução de trabalho, aposentadorias precoces, invalidez,
alto custo econômico para o sistema de
seguridade social e incalculável sofrimento
humano.
Sabendo que um dos principais problemas de diversos grupos ocupacionais são
posturais, este artigo pretende, primeiramente, abordar aspectos e entendimento
dos autores referente à definição de postura corporal, os mecanismos responsáveis
pela sua manutenção, qual é considerada
adequada ou inadequada, as causas dos
distúrbios e medidas de prevenção.
DEFINIÇÕES DE POSTURA CORPORAL
ASMUSSEN (1953) conceituou a postura corporal como o resultado da integração
de vários reflexos: miotático, labiríntico, visual e epitelial. Foram acrescentados ainda os fatores psicológicos, as influências do
sistema endócrino e autônomo da ação
muscular.
Segundo TUCKER (1960), a postura corporal é uma atitude mental sobre o corpo,
promovendo assim o equilíbrio. Ela pode
ser definida como hábito de posição do
corpo, no espaço, após uma atividade ou
descanso.
BIERMAN; RALSTON (1965) mencionaram que a postura está relacionada com a
imagem que a pessoa tem de si mesma.
Assim, é fundamental desenvolver a consciência do movimento do tronco, pois a imagem corporal é formada por meio da consciência corporal e o desenvolvimento desse
aspecto leva à melhoria dos fatores emocionais
MORO (1973) analisou a postura corporal, na qual há um máximo de equilíbrio
dos segmentos corporais, com um mínimo
de gasto de energia para o organismo. O
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
consumo é tanto maior, quanto mais defeituoso for o alinhamento dos segmentos corporais. Para o autor, não existe um modelo
ideal de classificação.
Segundo ASCHER (1976), postura é definida como: “a posição do corpo no espaço, com referência especial as suas partes,
que exija o menor esforço, evitando fadiga
desnecessária”. Essa, para que seja considerada como adequada, deve estar ligada ao mínimo esforço e ausência de fadiga muscular. A cifose pode ser definida
como uma curvatura da coluna vertebral,
com concavidade anterior. A escoliose manifesta-se como uma curvatura simples ou
total, geralmente convexa para a esquerda; desaparece na flexão da coluna vertebral, e não há rotação das vértebras.
Para ROAF (1977), a postura está relacionada ao equilíbrio e à capacidade de
adaptação corporal para cada circunstância, como por exemplo, andar ou praticar
esporte.
A postura para HULLEMANN, et al.
(1978), é o equilíbrio harmonioso entre as
solicitações impostas aos músculos, ligamentos e discos intervertebrais. O autor acrescentou que não existe uma postura-padrão.
Para REICH (1979), o corpo e a postura
são um espelho revelador de emoções,
como se o traço emocional ficasse gravado, organicamente, na pessoa.
A postura corporal é uma atitude
indefinível, pois varia de indivíduo para
indivíduo, estando condicionada a diversos fatores, como hereditariedade, profissão, proporcionalidade dos segmentos do
corpo, tônus muscular, etc. (FRACAROLLI,
1981).
A manutenção da postura corporal está
relacionada com o tônus muscular (estado
de ligeira tensão dos músculos no estado
de repouso). Esse regula a disposição
postural dos segmentos corporais e impede
que se desarranjem. Os agentes do tônus
são os fusos neuro-musculares, cuja atividade mantém-se em permanência pelos motoneurônios-gama. Os motos-neurônios-alfa
controlam a contração muscular e atuam
em relação aos alongamentos dos fusos.
Com um alongamento correspondente a três
gramas, os fusos desencadeiam o reflexo
miotático, que leva à contração do músculo estriado. Com uma tensão de 100 a 200
gramas, os Corpúsculos de Golgi originam
Vol. 28 - nº 105 /106
o reflexo miotático inverso, que inibe o músculo alongado e facilita o seu antagonista
(GREEN, 1983).
Segundo MASSARA (1986), na postura
corporal convergem todos os elementos que
caracterizam o movimento. A postura não
é somente a expressão mecânica do equilíbrio corpóreo, mas é a expressão somática
da personalidade, a manifestação da unidade psico-física do ser. Partindo desse
princípio, não basta haver uma intervenção
cinesiológica corretiva, mas devem-se levar
em consideração os fatores de ordem
psicofísico e socioambientais. É necessário
que o indivíduo desenvolva uma consciência da postura, através de uma vivência
global da mesma, respeitando as possibilidades biomecânicas. O autor recomenda
os seguintes exercícios: relaxamento geral,
regulação respiratória, percepções das sensações, percepção de contato, movimentos
articulares e a percepção do equilíbrio vertical.
Para KENDALL; Mc CREARY (1987), postura corporal é uma composição das posições de todas as articulações do corpo, em
qualquer momento.
Para LEHMUKUHL; SMITH (1989), a postura corporal é definida como a posição ou
atitude do corpo, o arranjo relativo das
partes corporais para uma atividade específica, ou uma maneira característica de
uma pessoa sustentar o corpo e realizar
atividades físicas, com menor gasto de energia. A postura e o movimento estão intimamente relacionados; o movimento pode começar com uma determinada postura e terminar com outra. As relações posturais dos
segmentos corporais podem ser alteradas
e controladas voluntariamente, controle este
que é efêmero, pois exige concentração.
MASSARA; BANKOFF; STEFANO (1990)
consideram que a postura corporal no adulto é um hábito de se posicionar diante das
diversas situações. Cada indivíduo apresenta uma característica particular diante dos
fatos. A postura é imposta por alterações
intrínsecas ao corpo, que passam a interferir no cotidiano, modificando as cadeias, e
conseqüentemente, os movimentos corporais.
A postura significa, segundo MASSARA;
RAIMONDI (1990), “posição equilibrada
e coordenada do corpo, em ação estática
ou em preparação ao movimento, obtida e
93
mantida com máxima economia”. Há dois
tipos de posturas: há aquela que se adapta às circunstâncias, com o mínimo de gasto de energia e a não integrada com os
seus componentes da economia, o que
nada mais é do que a resultante do uso
inadequado do corpo nas mais diversas
atividades.
Para BRIGHETTI (1993) postura corporal
é um equilíbrio dinâmico somático, onde se
estabelecem relações com o meio em que
se vive. Ela envolve o conceito de equilíbrio, coordenação neuro-muscular e adaptação de um determinado movimento corporal.
Na postura corporal convergem-se todos
os elementos que caracterizam o movimento. Nela estão implicados os fatores
anátomo-funcionais, socioa-mbientais e
psico-emotivos. Se num processo educativo,
preventivo e reeducativo, não levarmos em
consideração esses fatores, qualquer alteração morfológica dar-se-á num estado de
perturbação, e o processo de recuperação
será mais demorado e seu efeito poderá
gerar mais desequilíbrios (BANKOFF,
1994).
Em outra citação, BANKOFF
(1994) salienta que a postura corporal é
pura imagem corporal. É a resultante de
um fenômeno articulatório entre as distintas
partes do corpo, relacionadas ao espaço,
como atitude e forma de estar com algo
que está de frente à alguma situação para
enfrentar uma outra situação. Portanto, é
uma reação de responder frente a algo,
onde está implicado algo mais que uma
forma, e sim toda uma história do sujeito
posto em cena, e através dessa postura, a
atitude do sujeito forma sua própria postura corporal.
Segundo SIMON et al. (1988), a postura corporal do ser humano adulto é fruto
de dois elementos, a saber, a adaptação
da espécie durante todo o processo evolutivo
e as adaptações individuais que ocorrem
durante
seu
desenvolvimento
neuropsicomotor para a aquisição da posição bípede, contrapondo-se à ação da força gravitacional.
MECANISMOS RESPONSÁVEIS PELA
POSTURA CORPORAL
AIRES et al. (1988) destacaram os seguintes ajustes posturais: estáticos locais; reflexos locais; reflexo de extensor cruzado e
94
reflexo miotático.
Segundo ESBÉRARD (1991), os reflexos
são uma série de reações corretoras de
natureza inata, que atuam com a finalidade de manter a postura do organismo, localizada por uma posição definida, no espaço, pela ação da gravidade. São divididas em três grupos: reações estáticas locais (de origem específica no próprio músculo); reações estáticas segmentares (de
origem na atividade aferente, iniciada nos
músculos do mesmo segmento, do lado
oposto); reações estáticas gerais (originadas na atividade aferente a partir dos receptores labirínticos e dos músculos do pescoço). Todas estas reações são classificadas como proprioceptivas.
Na manutenção da postura corporal há
um processo de seleção dos músculos, possivelmente envolvendo o córtex motor, regiões do tronco cerebral e suas ramificações
nervosas na coluna vertebral. Pode-se dizer que a manutenção da postura corporal
é influenciada por diversos fatores, principalmente o tato, sentido labiríntico e a percepção cinestésica, coordenados pelo
cerebelo (OLIVEIRA; GALAGHER, 1995).
O alinhamento corporal adapta-se, a todo
momento, à manutenção do equilíbrio. Ao
contrário do que parece à simples observação, a postura em pé, por exemplo, é um
equilíbrio dinâmico e altamente complexo,
que depende da contração simultânea e
seqüencial de numerosos músculos. Os ajustes posturais garantem a manutenção do
equilíbrio, ou seja, corrigindo a posição da
cabeça, corpo e membros em todo o momento que a postura se modifica
(MUNHOZ, 1995).
LEONI (1996) faz referência aos fatores
influenciadores de atitudes posturais positivas, são: os aspectos da imagem corporal,
que são os aspectos emocionais e o comportamento social, os aspectos do mínimo
esforço muscular e a ausência de fadiga,
combinação de formas tencionais equilibradas e o baixo nível de tensão nas unidades músculo-tendão e tendão-osso e a flexibilidade e resistência da região lombar,
que causam o alinhamento das estruturas
corporais. O autor conclui que os aspectos
necessários ao equilíbrio postural dizem
respeito à capacidade de manutenção de
nível aceitável de tônus e fortalecimento
musculares, assim como, à harmonia entre
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
os agonistas e antagonistas nas funções de
contração e relaxamento. O desajuste do
equilíbrio postural deve ocorrer em conseqüência da contração muscular excessiva,
da hipotonia muscular, da tensão muscular
exagerada, do enfraquecimento e da diminuição do tônus muscular. Nas situações
em que a postura-padrão não encontrar um
estado de equilíbrio no espaço, irá gerar
agressões nas estruturas relacionadas com
os músculos. Estes entram em estado de
contração excessiva, levando à dor e ao
desconforto. Os movimentos, nessas regiões,
serão prejudicados, levando a pessoa a
assumir posições (chamadas de antálgicas)
que amenizam as dores, mas que são inadequadas, causando, posteriormente, desconforto. A contração muscular excessiva
tem como causa o encurtamento muscular
que leva à tensão nas articulações por meio
das unidades músculo-tendão e tendãoosso. Esses entram em estado de tensão,
reduzem a amplitude de movimentos e,
quando executados, ocasionam as dores.
A contração muscular excessiva gera, ainda, contraturas e ocorrência de espasmos
musculares.
Os sistemas neurais são responsáveis pela
postura fundamental, em grande parte são
conhecidos. Além dos núcleos vestibulares
e da formação reticular, a organização da
postura básica depende de numerosos
mecanismos, oriundos de outros sistemas,
principalmente no cerebelo, nos núcleos de
base, e no córtex cerebral (SOUZA, 1997).
POSTURA ADEQUADA E INADEQUADA
Para BURT (1950), a postura adequada
relaciona-se com a passagem da linha da
gravidade entre apófise mastóide, extremidade do ombro, quadril e anterior ao tornozelo.
Para KENDALL; KENDALL (1968) a boa
postura é importante para proporcionar um
bom funcionamento do corpo.
Segundo CAILLET (1988), a postura pode
ser considerada boa, se o indivíduo na
posição estática, não ficar cansado, apresentar uma aparência aceitável e requerer
o equilíbrio entre o suporte ligamentar e o
tônus muscular mínimo. Já a postura incorreta causa um esforço ligamentar prolongado que gera desconforto.
A postura ideal corresponde às necessidades biomecânicas, que permitem a sustentação da posição vertical, com esforço
Vol. 28 - nº 105 /106
muscular mínimo. A postura inadequada
pode ser observada na dificuldade de
manutenção de equilíbrio desses dois fatores (KNOPLICH, 1985).
BRACCIALLI (1997) ressaltou que a postura corporal não é uma situação estática,
mas sim dinâmica, pois as partes do corpo
adaptam-se, constantemente, em resposta
aos estímulos recebidos, refletindo corporalmente as experiências momentâneas. A boa
postura depende do conhecimento e do
relacionamento das pessoas com o seu próprio corpo, ou seja, da imagem que cada
um tem de si, em cada momento. Ao adotar uma certa postura, é necessário um conhecimento prévio da imagem corporal. No
entanto, ao ocorrer um equívoco, esse conhecimento pode levar às ações imperfeitas. Assim, só se consegue manter uma boa
postura, se tiver conhecimento e domínio
corporal associados a estímulos sensoriais
e modelos posturais adequados.
Para BARLOW (1955), má postura está
associada à contração muscular excessiva,
a qual inibe a transmissão de impulsos ao
cérebro, que desse modo, não pode perceber o grau de deformidade corporal. A
contração excessiva dos músculos produz
estímulos dolorosos, levando a pessoa às
posturas antálgicas e inadequadas.
ADAMS (1985) considerou como má postura a relação anormal entre as diversas
partes do corpo, com solicitação excessiva
dos elementos de apoio e o perfeito equilíbrio do corpo sobre a base de sustentação.
GAIARSA (1976) mencionou que não
existe uma postura definida. Segundo ele,
a postura deve exprimir todas as influências (biomecânicas, gravitacionais e emocionais), atitudes expressivas (reação a um
afeto), e as repressivas (inibições ou ausências de movimentos), que causam
espasmocidade muscular e influenciam na
atitude postural. A concepção de postura
engloba as noções de comportamento (atitude, briga ou fuga).
Para SILVA; BANKOFF (1986), não existe uma postura corporal mais correta para
o ser humano, um modelo a ser seguido.
Ela é o resultado da relação do indivíduo
com o seu meio, com a sociedade em que
vive.
FATORES RESPONSÁVEIS PELOS DISTÚRBIOS POSTURAIS
95
A seguir, citaremos os fatores responsáveis pelo aparecimento e pela manutenção
dos distúrbios posturais. Agrupamos, em
cada um dos fatores, o que os autores mencionaram sobre o assunto, respeitando a
ordem cronológica da publicações.
RASCH; BURKE (1977) apontaram os
traumatismos, as doenças, a hereditariedade, ou ainda, a indumentária inadequada, como alguns dos problemas relacionados à questão do desvio postural. Atitude
mental e problemas psicológicos causam
problemas posturais (RASCH; BURKE 1977,
NACHEMSON, 1982, MAHAYRI, 1996).
FRYNOYER et al. (1980) destacaram, entre outras causas, o tabagismo.
Uma das causas de dores na coluna vertebral é o baixo grau de instrução
(NACHEMSON, 1982).
Os fatores socioculturais em que o indivíduo está inserido podem levá-lo a adquirir
problemas posturais, conforme mencionaram (SILVA, BANKOFF, 1986).
KELSEY; GOLDEN (1988) acrescentaram:
ato de dirigir, gravidez e ferimentos.
MAHAYRI (1996) também menciona idade, sexo, predisposição hereditária e alterações estruturais da coluna.
A ausência de experiência motriz na infância e na juventude, segundo MORO
(1973), causa problemas posturais. Muitas
vezes, esses começam a surgir na fase de
crescimento e desenvolvimento. CLARKE
(1979) relatou que os defeitos e a degeneração da postura são vícios adquiridos,
enquanto crianças, e não educados ao longo do tempo. Para KENDAL (1977), muitos hábitos posturais inadequados, na fase
de crescimento, provocam a hiperlordose
lombar (aumento da lordose lombar, com
inclinação pélvica anterior e flexão do quadril). Várias pesquisas, entre elas, PINERA
(1975), GALDI (1990), BRIGUETTI (1993),
BANKOFF et al. (1996) obtiveram altos índices de desvios e assimetrias posturais entre as crianças.
A inadaptação à postura ereta é uma das
causas do surgimento dos problemas
posturais (SILVA; BANKOFF, 1986).
LEONI (1996) observou que as necessidades do novo modo de locomoção estão
relacionadas com os aspectos de um novo
desenvolvimento muscular, decorrente do
fortalecimento de músculos dorsais, coordenação motora, mecânica respiratória,
96
posicionamento do centro da gravidade e
das estruturas das curvaturas espinhais. O
aspecto central desse processo adaptativo
está relacionado com a capacidade de
contrações musculares permanentes. O homem passou a utilizar os membros superiores no manuseio de armas de caça, e os
membros inferiores, na locomoção; assim,
o comportamento muscular foi adaptado às
novas necessidades. A nova demanda da
postura bípede esteve diretamente relacionada à força muscular antigravitacional e
‘a coordenação motora. Essas alterações
ocorreram em função do equilíbrio necessário para manutenção da postura vertical,
através do centro de gravidade. As curvaturas espinhais foram moldadas e suportadas pela ação da força antigravitacional.
Os autores concluem que o novo alinhamento do centro de gravidade, as curvaturas
espinhais e a coordenação motora, estão
ligados ao comportamento muscular (através do sistema proprioceptivo, arco reflexo
e seu desenvolvimento). A nível muscular,
os autores ressaltam que a necessidade
funcional diz respeito às atividades de suporte corporal (contrações isométricas) e
força antigravitacional. Assim, para atender à demanda da postura, é necessária
a capacitação de suporte muscular, em longo período, e o desenvolvimento do tônus
muscular.
Existe uma relação entre a postura e a
pressão intradiscal que leva às alterações
posturais. Quando o tronco fica ereto, com
pressão adequada para o disco, o músculo fica contraído como se estivesse realizando um trabalho muscular estático, situação
essa que pode levar ao processo de dores
ou fadiga. Assim, os músculos trabalham
melhor, quando o tronco está relaxado,
embora nesse caso, ocorra mais pressão
discal (LUNDERVOLD, 1958).
Segundo MELLEROWICZ; MELLER
(1979), NACHEMSON (1982), FOX;
MATHEWS (1983), FOX; CORBIN (1985),
MAHAYRI (1996), o sedentarismo tem levado à deformação da coluna vertebral.
KRAUS; RAAB (1961) mencionaram que
mais de 80% das lombalgias são decorrentes de deficiências musculares. RASCH;
BURKE (1977) acrescentam, além da deficiência muscular, a nervosa. Para
HULLEMAN (1978), a deficiência da postura está relacionada à fraqueza muscuRevista Brasileira de Saúde Ocupacional
lar, ocasinando a insuficiência ligamentar.
Atualmente, é reconhecido que na vigência de comprometimentos da força e flexibilidade, devido à inatividade física, podem ocorrer distúrbios no sistema músculoesqueléticos que causem dor e desconforto, com perdas na renda familiar, incapacidade crescente e aposentadoria precoce
(RIDER; DALY, 1991, POLLOCK; WILMORE,
1993).
Segundo KENDALL; Mc CREARY (1987),
a carência de flexibilidade do quadril e
da coluna vertebral pode levar os indivíduos a desenvolverem problemas lombares.
Na postura defeituosa, onde se encontram
músculos encurtados, a tendência é de serem mais fortes, e nos casos de estarem em
posição alongada, tendem a ser mais fracos. A fraqueza de alongamento muscular
é encontrada nos seguintes músculos:
trapézio médio e inferior, em pessoas com
cifose, e nos músculos adutores do quadril
no lado em que o quadril é mais alto ou
proeminente. O encurtamento dos músculos, que afeta o alinhamento postural, é
encontrado nas seguintes regiões: pescoço,
dorso superior e inferior, cintura escapular,
abdominais e todos os músculos das extremidades inferiores. A fraqueza dos músculos que mantêm reta a parte superior das
costas pode causar cifose. Os músculos
peitorais curtos levam os ombros para frente. A fraqueza dos músculos abdominais
causa inclinação pélvica para frente e a
lordose lombar. O iliopsoas curto leva à
lordose, como também à inclinação da
pelve à frente. A diminuição de prática de
exercícios físicos leva o encurtamento de
jarrete, que perde sua distensibilidade, e
conseqüentemente, a diminuição do arco
de movimentos para a flexão do quadril.
POLLOCK; WILMORE (1993) observaram
que a redução de tecido magro e do metabolismo basal (MB) ocorre com o envelhecimento. Segundo BARBANTI (1991), a
obesidade é uma das causas de distúrbios
no aparelho locomotor.
A região dorsal é formada por músculos
extensores, sendo pouco utilizados no diaa-dia, geralmente esses músculos são tensos, o que pode ocasionar dores localizadas e acentuadas, na coluna (BANKOFF,
1994).
Segundo ANDERSON et al. (1974), a
postura sentada provoca retificação da
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coluna lombar e aumento da pressão
intradiscal.
NACHEMSON (1975) mencionou que a
permanência na posição sentada, causa
mais problemas à coluna que a posição
em pé. O autor analisou as diversas posições do tronco, e observou que a pressão
intradiscal é diminuída quando o indivíduo
senta, sem o apoio do tronco e mantém as
costas retas, diminuindo ainda mais, quando os braços são apoiados nas coxas; mencionou também que a pressão é diminuída
quando aumenta a inclinação do encosto;
verificou que, quando se utiliza o apoio da
região torácica, ocorre um aumento da pressão, mas na região lombar, ocorre uma
diminuição. Concluiu que ao sentar com
apoio das costas, ocorrem menos lesões,
pois há menos pressão.
Outro problema da permanência na posição sentada é a dificuldade de retorno
venoso nos membros inferiores
(GRANDJEAN; HUNTING, 1977).
JENSEN (1979) considerou que as posturas estáticas ou de descanso, por longo
período, levam os músculos abdominais a
se tornarem alongados e fracos. O trabalho
sentado
causa
problemas
(NACHEMSON, 1982).
As atividades que exigem que o indivíduo assuma, freqüentemente, as mesmas
posições corporais, ou seja, o mesmo modo
de sentar, de apoiar os membros ou esforços significativos da estrutura locomotora,
criam hábitos posturais que podem acarretar alterações posturais permanentes
(ADRIANS, 1991; MOOREE; WELLS;
RANNEY, 1993).
No trabalho, podem existir situações, em
que o indivíduo tenha que suportar alterações fisiológicas do sistema de
posicionamento estático e dinâmico da coluna: distensão músculo-ligamentar, exigência excessiva da musculatura paravertebral
e ritmo tóraco-pélvico realizado de modo
inadequado (COUTO, 1978).
A desordem postural é freqüente em indivíduos que realizam movimentos repetitivos
e sustentação de cargas pesadas (RASCH;
BURKE, 1977, OBERG, 1993). Em casos
de lombalgia, a sustentação de peso é assumida pelas articulações vertebrais, que
são responsáveis pelo estreitamento dos
forames intervertebrais, ocasionando a compressão das raízes nervosas e originando
97
dores (KOTTKE et al.,1986).
Estudos epidemiológicos têm demostrado
que a angulação lateral ou curvamento
axial da coluna espinhal durante atividades de alavanca manual, exercícios de levantar, arrastar ou puxar podem aumentar
o risco de dor e as complicações do sistema locomotor. Atividade intensa de sobrecarga tem efeito sobre as mudanças
degenerativas do sistema locomotor, surgindo sintomas de dor na região lombar
(BERGENUDD; NILSSON, 1988).
As instalações inadequadas do ambiente, características de equipamentos, caixas
de ferramentas e/ou métodos de trabalhos
incorretos, podem levar ao desenvolvimento de algias e alterações, ao longo da coluna vertebral. As flexões de tronco e o
permanecer sentado, durante longo período de tempo, estão relacionados com queixas de fadiga muscular e dor na coluna
vertebral (KEYSERLING, PINNET; FINE,
1988).
KELSEY; GOLDEN (1988) acrescentaram as torções no trabalho e o tempo
de emprego.
BARREIRA (1989) identificou situações de
trabalho, potencialmente promotoras de
problemas osteomusculares para a coluna
vertebral; são esses: manutenção de uma
determinada postura, por períodos prolongados, o trabalhador que mantém um membro sustentado, sem apoio externo ou acima do nível do coração, situações que podem ocorrer a compressão de vasos sanguíneos, devido à atividade muscular sustentada ou pelo apoio de uma mesma área
do corpo, compressão de ligamentos, inserções musculares, tendões, entre outras, aumento da pressão intradiscal, solicitação
extraordinária imposta à coluna vertebral,
devido ao levantamento manual e ao transporte de cargas em esforço de flexão de
tronco, manobras de empilhar e puxar
objetos pesados, vibrações nas estruturas
da coluna e, finalmente, os problemas de
coluna, são os mais sentidos nos trabalhadores que executam as suas atividades sentados.
BANKOFF et al. (1994) analisaram 26
mulheres, divididas em dois grupos, com o
objetivo de verificar a incidência de desvios posturais. Para tal, realizaram avaliação postural computadorizada, análise
antropométrica, perfil relativo do estado de
98
saúde das pessoas envolvidas e condições
de trabalho. Obtiveram como resultados:
tanto os ângulos cifóticos, quanto os
lordóticos, não apresentaram diferenças
entre os dois grupos; em relação ao desconforto e às queixas, por tempo de serviço, não houve relação entre esses dois grupos; foi encontrada alta porcentagem de
desconforto, em relação ao sistema
locomotor, em ambos os grupos; altas porcentagens de pessoas com desvios
lordóticos e cifóticos. Concluíram que, independentemente do tempo de serviço e da
idade, a maior gravidade para as instalações de doenças foram o sedentarismo, os
movimentos repetitivos, a sobrecarga corporal e o estresse.
SEYMOUR (1995) observou que os modelos biomecânicos da coluna vertebral não
foram construídos para que o indivíduo
permaneça por longo período na posição
sentada, mantendo as posturas estáticas
fixadas e realizando movimentos repetitivos.
De acordo com MAHAYRI (1996), as
afecções da coluna vertebral têm como
causas a insatisfação com o trabalho, o
número elevado de ingestões, o trabalho
físico pesado, a elevação e o transporte de
cargas, com ritmo intenso, a rotação
repetitiva da coluna, a manutenção da
posição fixa, por tempo prolongado, as vibrações, os acidentes, a organização de
trabalho, as máquinas, os instrumentos e
as ferramentas (esses elementos, quando
são inadequados ou utilizados de forma
incorreta, levam ao surgimento de movimentos antifisiológicos que podem acarretar
alterações anatômicas e fisiológicas do sistema músculo-esquelético-ligamentar, implicando alterações na biomecânica normal
e originando as disfunções ou condições
patológicas estruturais). A solicitação do trabalho físico causa o aparecimento de fadigas e lesões traumáticas abruptas ou cumulativas, especialmente nos ligamentos,
músculos, nervos, discos e nas articulações.
A autora destaca a contribuição da
ergonomia, a organização do trabalho e
a educação em saúde como elementos
controladores das afecções da coluna.
MEDIDAS DE CONTROLE EM RELAÇÃO
AO TRABALHO
RAIMONDI (1984) estudou a postura
estática e a capacidade física humana do
trabalho cotidiano, implicando um
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
ordenamento geral do corpo ao ambiente
e ao tipo de trabalho, respeitando as características biomecânicas do indivíduo.
Segundo o autor, devem ser estabelecidos
critérios ergométricos, visando melhoria de
rendimento no trabalho. Para manter uma
boa postura na região dos quadris, devese evitar uma ação negativa no arranjo
muscular cérvico-dorso-lombar, para tanto,
o movimento tem que estar coordenado à
sinergia muscular de todo o corpo, evitando desequilíbrios, causados pela tensão
muscular na postura sedentária. O autor
concluiu que deve haver a necessidade de
esquematização da interação, entre a possibilidade de equilíbrio muscular na postura, e as medidas ergométricas dos aparelhos de trabalho.
BENDIX (1987) estudou a relação entre
a postura sentada do indivíduo adulto e
sua utilização e adaptação quanto ao
mobiliário. Analisou a posição da mesa e
o espaço de desenvolvimento das tarefas
cotidianas. Foi realizado um estudo
ergonômico, biomecânico e eletromiográfico
das posições: sentada, com o tronco ereto,
sentada, com apoio da região dorsal e
torácica, com a mesa em posição plana e
inclinada. O autor concluiu que o nível de
inclinação do assento e a posição dos apoios dos braços e pés são fundamentais na
manutenção da boa postura para a realização de tarefas de longa permanência,
agindo na prevenção de problemas
posturais.
A altura da mesa deve ser regulável,
permitindo que seja a mesma dos cotovelos, para que o tronco possa ficar ereto e
com os ombros relaxados. Se for alta, os
músculos dos ombros serão abduzidos. A
cadeira deve ser ajustável, em todos os seus
componentes: encosto e assento, de tal
modo que os músculos da coxa fiquem relaxados e a região poplítea não seja comprimida. A superfície do encosto deve ser
inclinada para trás, permitindo que a região lombar fique apoiada. É necessário o
apoio dos pés para as pessoas de estatura
baixa. O ambiente de trabalho deve permitir ampla liberdade de movimentos, ser
ajustável a cada operador e é preciso evitar a contratura muscular prolongada (ASSUNÇÃO; ROCHA, 1993).
Ao escolher uma cadeira é importante
verificar o conforto e a possibilidade de
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mobilização, pois os movimentos previnem
úlceras de pressão, melhoram a circulação
sanguínea e aliviam a rigidez, tanto dos
músculos, quanto das articulações
(SEYMOUR, 1995).
S e g u n d o
ANDERSON et al. (1980), o espaço de trabalho deve ser projetado, de tal forma, que
não seja necessária a inclinação do tronco
e da cabeça à frente, para a realização
de uma determinada tarefa.
Os intervalos durante o período de trabalho e as mudanças nas posturas
adotadas, são importantes para manter
uma boa hidratação do disco intervertebral.
As alterações entre as altas e as baixas
cargas nos discos são responsáveis pelo
bom funcionamento de seu mecanismo de
bombeamento de nutrientes (KRAMER,
1985).
Apesar de existirem vários métodos que
tentam estabelecer o tempo ideal e o número de pausas durante a jornada de trabalho, para diferentes profissões, ainda
não há consenso em torno do assunto. Em
geral, tarefas com exigências nervosas e
atenção, mostram melhores resultados, com
pausas curtas e freqüentes de 2 a 5 minutos, e em trabalhos manuais, devem ser 10
minutos, a cada duas horas (CUNHA,
1992).
A distribuição de períodos de pausa e
recuperação são fatores que precisam ser
avaliados. As pausas são importantes para
que sejam evitadas a sobrecarga músculoesquelética e a fadiga mental, esta,
freqüentemente expressa com irritabilidade,
queixas inespecíficas e dificuldades para
memorização, raciocínio e leitura (MENDES,
1995).
É preciso que a direção da empresa verifique e elimine os riscos potenciais, os métodos de trabalhos impróprios e o uso de
equipamentos e ferramentas inadequados.
É importante a aceitação dos trabalhadores envolvidos com a atividade e o
encorajamento dos relatos de riscos potenciais. Outra medida é a aplicação dos conhecimentos de engenheiros da empresa,
em relação à ergonomia, na concepção de
projetos e manutenção de ambientes de trabalho. É essencial a regularização das condições biomecânicas inadequadas, como
as modificações em ambientes, postos de
trabalho, máquinas e ferramentas, assim
como o planejamento das tarefas. Com o
99
objetivo de impedir as posturas inadequadas, é fundamental analisar a atividade
realizada, modificar a localização e orientação de materiais, dispositivos, comandos e alavancas de acionamento. Finalmente, a redução da jornada de trabalho e o
oferecimento de condições que garantam
ao trabalhador a sua autonomia,
criatividade, satisfação e um bom relacionamento entre eles (BARREIRA, 1994).
Conclusões
Atualmente, é grande o número de pessoas portadoras de problemas posturais,
este fato tem levado diversos profissionais
a se afastarem de suas atividades, até
mesmo por tempo indeterminado, recorrendo às aposentadorias, causando altos prejuízos à economia.
Observamos que a postura, é um sistema
altamente complexo e varia de indivíduo
para indivíduo. É a manifestação corporal
do ser humano no meio em que vive. Nela
está implicada a personalidade, a maneira de posicionar-se, diante das diversas situações, reflete a trajetória de vida e é o
resultado de vários sistemas que atuam no
organismo. Diante dos diferentes estímulos,
os indivíduos podem adotar uma postura
adequada ou inadequada. Caracterizamos
como uma boa postura quando há o equilíbrio e o bom funcionamento entre as estruturas e os órgãos e, também, uma aparência aceitável. Para adquirí-la é necessário
que o indivíduo tenha consciência, boa
imagem e um perfeito domínio corporal. Na
postura inadequada, observa-se um desarranjo, em vários elementos internos e externos ao corpo, causando, em certos casos,
dores e desconfortos. Existem vários componentes da postura corporal, são eles: o
aspecto evolutivo da postura ereta, a força
gravitacional e muscular, o sistema
endócrino, o equilíbrio, o reflexo, a imagem
corporal, a atitude, a personalidade, a profissão, a hereditariedade e a influência
social. Quando ocorre algum desequilíbrio
nos componentes da postura, surgem as
alterações, doenças e desvios do eixo corporal, comprometendo a saúde do indivíduo.
Os fatores responsáveis pelos problemas
posturais são: doenças, fraqueza e deficiência muscular, insuficiência ligamentar,
falta de flexibilidade na região do quadril
e na coluna vertebral, obesidade,
sedentarismo, hereditariedade, sustentação
e transporte de peso, permanência, por longo período na posição sentada, movimento de dirigir, gravidez, ausência de experiência motriz, na infância e na adolescência, problemas socioculturais, fator evolutivo
da postura ereta, realização e organização do trabalho e o estresse.
Para prevenir problemas posturais é necessário que se a tenha nos seguintes fatores: ambiente, mobiliários, espaço e tipo
de trabalho, pausas, equipamentos e ferramentas devem ser respeitadas as características biomecânicas do indivíduo, contribuindo para a sua qualidade de vida.
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das Lesões por Esforços Repetitivos
LER / DORT
Heleodório Honorato dos Santos
Professor do Departamento de Fisioterapia
e Mestrando em Engenharia de Produção
da Universidade Federal da Paraíba
Clinical and Psycho-Social
Perspective of Repetitive Strain
Injuries RSI / WRMD
Revisão bibliográfica, com abordagem clínica, psicológica e social dos problemas causados
pelas Lesões por Esforços Repetitivos - LER, hoje melhor definidas como Distúrbio
Osteomusculares Relacionados ao Trabalho - DORT. São discutidos neste texto, a sinonímia
utilizada em toda a literatura pesquisada, alguns dados epidemiológicos, em nível mundial e
nacional, quanto à distribuição da doença segundo algumas varáveis tais como: sexo, idade,
tipo de atividade, tempo e localização anatômica das queixas, afastamento do trabalho etc.
Além desses pontos, são enfocados estudos sobre fatores etiológicos e fisiopatológicos das
LER / DORT. Por fim, buscou-se uma correlação entre todos estes fatores anteriormente
citados e o psicossocial, pontuando os elementos que influenciam diretamente no aparecimento e/ou manutenção desta enfermidade multifatorial, salientado a importância da organização do trabalho na sua prevenção.
Palavras-chaves Lesões por Esforços Repetitivos, Doença Ocupacional, Distúrbios
Osteomusculares Relacionados ao Trabalho.
This is a bibliographical revision work involving clinical, psychological and social disorders
that are caused by the commonly known repetitive strain injuries (RSI) and better defined
nowadays as Work-Related Musculo-skeletal Disease (WRMD). The synonymy used throughout the researched literature is discussed in this text, together with some national and worldlevel epidemiological data concerning the distribution of the disease, listed in relation to some
variables, such as: sex, age, type of activity, duration and location of anatomical complaints,
absence from work, etc. Besides the above, studies were focused on the etiological and physiopathological factors of RSI / WRMD, furthermore, efforts were made to establish a correlation between the aforementioned factors and psycho-social factors, pointing out the elements
that directly influence the manifestation and / or maintenance of this multi-factorial infirmity,
and the importance that work organization has in relation to its prevention.
Keywords Repetitive Strain Injuries (RSI), Occupational Disease, Work-Related
Musculo-skeletal Disease (WRMD).
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Definição e
nomenclatura
Conforme HELFENSTEIN JR. (1998), existe uma verdadeira confusão entre os diversos profissionais, no que se refere ao conceito e terminologia sobre o assunto, fazendose necessária uma uniformização destes, para
que sejam evidenciadas várias questões no
âmbito dos relatórios médicos e nas decisões
terapêuticas e judiciárias.
A taxonomia (ciência das classificações) tem
apresentado confrontos, não só na semântica, como também, nas implicações científicas, para os profissionais da área da saúde,
desde os tempos de Hipócrates.
Ao pé da letra, a terminologia LER, implica
na afirmação de uma lesão tecidual, o que
não acontece na maioria dos casos, como
também sustenta a tese de que a mesma foi
causada por repetição de movimentos, deixando de lado outras formas de cargas
biomecânicas, a exemplo das atividades onde
se desenvolva sobrecarga muscular estática
para manutenção da postura por períodos
prolongados, tarefas executadas em força
máxima, situações de trabalho realizados em
altas temperaturas, ou ainda tarefas com instrumentos vibratórios.
Já, segundo BARREIRA (1994), as LER são
definidas como um conjunto de disfunções
músculo-esqueléticas que acometem os membros superiores e região cervical, estando
relacionadas ao trabalho principalmente em
áreas como indústria de eletro-eletrônicos, de
alimentos, químicas, têxteis, serviços de telefonia e de entrada de dados em terminais de
computação, entre outras.
Dados os motivos anteriormente citados na
literatura, nos deparamos com uma série de
nomenclaturas destinadas a nomear essa
condição patológica:
• distúrbios ou desordens por trauma cumulativo;
• síndrome do esforço repetitivo;
•distúrbios
músculo-esqueléticos
ocupacionais;
• síndrome ombro-braço;
• síndrome do membro superior;
• síndrome cervicobraquial ocupacional;
• síndrome da hipersolicitação;
• síndrome da dor crônica do membro
superior;
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• injúrias por uso repetitivo;
• lesões de sobrecarga ocupacional;
• injúrias ocupacionais de esforço de repetição;
• distúrbios do membro superior relacionados ao trabalho.
O mais novo termo usado para substituir a
LER, é a DORT (Distúrbios Ósteo-musculares
Relacionados ao Trabalho), ao nosso ver,
muito mais adequado, pois, agrupa nele vários outros estados dolorosos que não possuem, imperativamente, lesão tecidual, muito
embora não seja o ideal, pois exclui os distúrbios ligamentares e as neuropatias periféricas, sendo, a julgamento do autor, os termos, Distúrbios Ocupacionais do Aparelho
Locomotor ou Distúrbios reumáticos
Ocupacionais (ou Relacionados ao Trabalho), os mais adequados.
Apesar de terem sido desenvolvidos mais
de 2000 estudos a respeito da LER ou DORT,
vários autores (BARTON, 1989 e 1992;
VENDER et al, 1995; WEILAND, 1996;
HADLER, 1997) concordam que nenhum
desses estudos conseguiu estabelecer um nexo
causal, pois não puderam relacionar,
anatomicamente, os sinais e sintomas apresentados com as atividades ocupacionais específicas.
Geralmente, se considera como LER apenas as enfermidades da coluna cervical, cintura escapular e membro superior, onde destacam as doenças tendíneas inflamatórias
(tendinite da cabeça longa do bíceps e do
supra-espinhoso, epicondilite medial e lateral, tenossinovites do punho e as tenossinovites
extenosantes); as neuropatias compressivas,
particularmente a síndrome do túnel do carpo;
a síndrome tensional do pescoço e os cistos
sinoviais, com tendência a se excluir os demais segmentos do corpo, pois as enfermidades músculo-esqueléticas, principalmente
as relacionadas ao trabalho, se desenvolvem
em menor número nos membros inferiores
(MMII).
No Brasil, as ações judiciais trabalhistas
associadas aos MMII, correspondem a menos de 10% do total de ações relacionadas
aos distúrbios músculo-esqueléticos na maioria dos países industrializados.
HELFENSTEIN JR. (1999), adverte que devemos considerar LER ou DORT, qualquer
distúrbio que seja relacionado ao trabalho,
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
independente do segmento afetado, pois desta forma, podemos envolver também as
lombalgias, bursite isquiática, neuralgia
parestésica, bursite infrapatelar, tendinite
calcanear, fasciite plantar, dentre outros.
Dados epidemiológicos
Devido ao seu surgimento e crescimento
rápidos, AWERBUCH (1985), afirmou que:
“ a LER não é viral mas é bastante virulenta”.
O grande número de terminologias e de
conceitos atribuídos a ela, refletem numa dificuldade na aquisição de dados confiáveis
para o estudo da incidência e prevalência
dos diferentes tipos de distúrbios músculoesqueléticos relacionados ao trabalho.
No mundo todo, a LER/DORT vem aumentando, substancialmente, em locais como a
Nova Zelândia, Escandinávia, Austrália,
Canadá e principalmente os EUA, onde se-
Quadro I
gundo ZETTERBERG (1997), as doenças do
sistema músculo-esquelético apresentam uma
incidência anual de 14%, entre todos os atendimentos médicos, abrindo destaque para dor
lombar que equivale a 48% de todas as injúrias ocupacionais que ocasionam perda de
trabalho, tendo causado enorme prejuízo
àquele país pelos afastamentos e indenizações decorrentes.
Cá entre nós, no Brasil, somente a partir
de 1987, foi que a LER ficou reconhecida
como doença ocupacional, e portanto, como
doença ocupacional indenizável, sendo este
um dos grandes motivos de nossa estatística,
a respeito, não retratar fielmente o quadro
existente, é o que nos afirma OLIVEIRA
(1991). Para se ter uma idéia da situação, o
quadro abaixo refere-se aos registros, apenas em Belo Horizonte, realizados pelo grupo pericial de acidente do trabalho do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).
Prevalência de LER /DORT no INSS de Belo Horizonte.
ANO
TOTAL DE CASOS
PREVALÊNCIA
1985
01
1,56 %
1986
03
4,55 %
1987
95
40,95 %
1988
132
41,77
Fonte: Lesões por Esforços Repetitivos: conceitos básicos (Helfenstein Jr., 1999)
Basta ver que, em apenas 2 anos as LER/
DORT passaram de 1,56% para 40,95% de
prevalência, ou seja, a ascensão das “doenças profissionais” registradas naquela cidade, aconteceu de maneira arrebatadora, ressaltando que as mulheres foram responsáveis por 76% dos casos. Já em São Paulo,
segundo os dados da Secretaria de Saúde
do Estado, foram diagnosticados como LER/
DORT, cerca de 20.000 casos entre 1985 e
1992.
Infelizmente, somente em alguns estados, a
exemplo de São Paulo, é que se pode obter
informações regionalizadas sobre o tema. Na
região metropolitana existe o CEREST (Centro de Referência de Saúde do Trabalhador
do Estado de São Paulo), com atuação em
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várias áreas da região. O outro é o Centro
de Referência do Trabalhador, que é mantido pela Prefeitura de São Paulo, e também é
dividido por regiões.
Conforme CODO & ALMEIDA (1995), no
primeiro programa vamos encontrar dados
epidemiológicos referentes a 620 pacientes
distribuídos segundo as variáveis abaixo:
1 – distribuição da LER segundo o sexo;
2 – distribuição da LER segundo a faixa
etária;
3 – distribuição da LER segundo o ramo de
atividade;
4 – distribuição da LER segundo antecedentes de trabalho com movimentos
repetitivos;
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5 – distribuição da LER segundo o local
das queixas;
6 – distribuição da LER segundo o tempo
das queixas (meses);
7 – distribuição da LER segundo os meses
de afastamento; e
8 – distribuição da LER segundo a função.
Num outro estudo realizado por TESHIMA
& FONSECA (1994), no Centro de Referência da Prefeitura de São Paulo, foi verificado
que 93,1% dos 318 pacientes atendidos tinham entre 20 e 49 anos de idade e que as
profissões mais afetadas eram: auxiliar de
produção industrial (24,5%), digitador
(17,6%), operador de caixa (9,4%),montador
(6,0%), operador de máquinas industriais
(3,8%), telefonista (3,5%), costureira (3,1%),
compensador (1,9%), empregada doméstica
(1,3%) e outras (25,1%), sendo que as regiões do corpo mais atingidas eram o punho e
mão com 98,8% e ombro e cotovelo com
31%.
Etiologia
Na realidade, os estudiosos das LER/DORT
acreditam que a causa ou fator etiológico
atribuído a este conjunto de afecções ainda é
desconhecida, pois vários pesquisadores do
assunto a nível mundial (BOUVIER, 1982;
HOCKING, 1987 e HALES & BERTSCHE,
1992), citados por HELFENSTEIN Jr. (1999),
têm mostrado que não existe relação entre a
repetição do movimento e a incidência da
doença.
Sabe-se que, o indivíduo treinado e fisicamente condicionado, que se porta corretamente durante a jornada de trabalho, descansando a intervalos regulares, realiza, sem
prejuízo algum, as suas tarefas. Em nosso
país, os auxiliares de montagem, bancários
e digitadores, são os trabalhadores que mais
apresentam diagnóstico de LER/DORT, referindo dor e desconforto na coluna cervical e
nos membros superiores (MMSS), porém, a
patologia de maior incidência entre eles é a
tenossinovite de punho (do extensor comum
dos dedos e do extensor radial do carpo),
conforme FERRAZ (1995) e LIMA &
SIQUEIRA (1999). Resumidamente, os fato-
108
res etiológicos que dizem respeito às LER/
DORT podem ser elencados como:
1) desrespeito aos fatores ergonômicos e
antropométricos (equipamentos, acessórios,
ferramentas, mobiliários, posicionamentos,
angulações, distâncias, etc);
2) excesso de jornadas;
3) ausência de intervalos apropriados;
4) técnicas incorretas;
5) posturas indevidas;
6) força excessiva na execução de tarefas;
7) sobrecarga estática; e
8) sobrecarga dinâmica.
Fisiopatologia
Conforme a resolução SS-197 de 08/06/
1992 da Secretaria da Saúde do Estado de
são Paulo, as LER têm origem ocupacional
decorrentes de formas combinadas ou não,
de:
1 – uso repetitivo de grupos musculares;
2 – uso forçado de grupos musculares;
e
3 – manutenção de posturas inadequadas.
BAUMMER & MARTIN (1988), mostram
que em virtude do desconhecimento de muitos aspectos patológicos inerentes às LER,
como também em função dos fortes componentes psicossociais e econômicos que
norteiam o tema, surgiram duas correntes que
tentam fazer valer suas opiniões. De um lado,
encontram-se os que defendem que a dor e a
disfunção causadas pela LER, são
consequentes de lesões orgânicas nos tecidos relacionados às tarefas desempenhadas
no trabalho, enquanto que um outro grupo
de estudiosos afirma que as LER representam
situações de neurose compensatória, conversão, fadiga ou simplesmente simulação.
As estruturas anatômicas envolvidas na
fisiopatologia das LER, encontram-se no interior das articulações (ligamentos, sinóvias,
cápsulas) ou em área adjacente (tendões,
músculos, fáscias e nervos). Os tendões e os
ligamentos têm como função principal modular a transmissão de forças para que não
haja uma concentração de cargas entre os
vários componentes do sistema músculo-
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esquelético. Identicamente, a outros sistemas
do corpo, as propriedades físicas e químicas
dos tendões e ligamentos, variam com diversos fatores, como a idade, o sexo, a temperatura, a presença de fatores hormonais, atividades, etc.
KANNUS & JOZSA (1991), afirmaram
que as lesões degenerativas nos tendões, podem surgir na população, em geral acima
de 35 anos de idade, quando a reposição
do tecido tendíneo já não é tão eficaz, tanto
no que diz respeito à velocidade quanto à
qualidade, e que as alterações na estrutura
física dos tendões e na microvascularização
podem receber influências hormonais, bioquímicas, imunológicas e mecânicas. Esta
faixa etária é a que mais sofre com a doença, e é também a idade mais produtiva das
pessoas. Este estudo sugere ainda que ela se
instala, progressivamente, o que demonstra
chance de reversão do quadro quando medidas adequadas forem tomadas em tempo
hábil.
Os tendões sofrem stress tensional e
compressivo, ocasionados, respectivamente,
pelos músculos, ossos e ligamentos, respondendo aos mesmos através de deformidades
nas matrizes dos tecidos, ou ainda, por alterações fisiológicas, que se dão, provavelmente, pela obstrução do fluxo sanguíneo e com
isto cessando o aporte nutricional. Evidentemente, o grau de apresentação dessas alterações depende da intensidade, da duração
e da frequência de extensão do tendão.
No trabalho citado acima, os autores observaram que em 62% dos tendões rompidos, a vascularização estava presente, porém os vasos apresentavam diminuição do
lúmem devido à hipertrofia das camadas íntima e média de suas paredes. Estas mesmas
alterações foram, também, encontradas em
2/3 do grupo controle, que apesar de serem
considerados normais no exame
macroscópico, a microscopia mostrou que os
mesmos eram anormais.
Segundo NICOLETTI (1997), quando as
LER se instalam, a capacidade natural de reparação dos tecidos que a pessoa possui
já foi ultrapassada, ou os mecanismos de
controle imunológico que regulam a regeneração dos tecidos gastos sofreram modificações. Os componentes estruturais dos tecidos são substituídos de maneira inadequa-
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da, sobrevindo cicatrizes, mudanças das propriedades mecânicas, e provavelmente, a inflamação em tendões, nervos, fáscias e cápsula articular
Os fenômenos inflamatórios têm intensidade muito variável e são auto-alimentados pela
interação entre as alterações biológicas e
mecânicas dos tecidos envolvidos e acomodações do sistema nervoso, na direção da
manutenção da homeostase vital.
Ele afirma não dispor de dados seguros
para considerar a LER como sendo devido
“apenas” à consequência de interações entre as pessoas, geneticamente programadas
para, serem “deprimidas ou histéricas” e condições de trabalho desfavoráveis. É possível
que os distúrbios emocionais sejam o espelho comportamental de modificações biológicas desencadeadas pelas agressões sofridas.
Apesar da discordância entre os autores
sobre a relação do trabalho com as patologias ocupacionais, algumas delas são mais
evidentes, a exemplo das epicondilites, que
segundo ALLENDER (1974), num estudo envolvendo 15.000 pessoas, foi ela a que se
mostrou ter a maior incidência na população geral. Nas tendinites de ombro, nos trabalhadores industriais, existe uma certa controvérsia entre a ocorrência deste tipo de
patologia com relação ao trabalho leve e
pesado, foi a conclusão a que chegaram alguns trabalhadores.
Com relação às neuropatias periféricas, os
investigadores elegeram a síndrome do túnel
do carpo como a de maior incidência, apregoando como fatores causais: o excesso de
força, a alta repetitividade, uso de instrumentos vibratórios e posturas inapropriadas. Fatores estes que chegam a aumentar em 10
vezes (de 3 para 30 mmHg) a pressão dentro do túnel carpal, que por sua vez, provocará lesão no nervo mediano.
Em 1988, NATHAN et al. investigaram
mais de 400 trabalhadores, de 4 indústrias
americanas e chegaram a conclusão que,
antes de tudo, existe uma pré-disposição constitucional, pois dos 27 tipos de ocupações
diferentes, desempenhadas com as mãos,
neste estudo, não identificaram nenhuma correlação entre esta neuropatia periférica e a
atividade manual.
SIEGEL et al. apud HELFENSTEIN JR.
109
(1999), reafirmam a hipótese das variações
congênitas encontradas (duplicações de
fáscias e de músculos, lateralização dos tendões, diminuição da velocidade de condução nervosa) traz uma importante contribuição para etiopatogenia da síndrome do túnel
do carpo.
No que diz respeito aos distúrbios
ocupacionais que atingem a região
cervicobraquial, a mialgia tensional cervical
(síndrome tensional do pescoço) é a síndrome
miofacial mais observada na prática médica. Segundo KUORINKA (1979), ela é característica de indivíduos que executam tarefas em posturas estáticas com rotação ou
flexão sustentadas do pescoço, ou ainda, trabalhos prolongados e repetitivos que adotem
abdução ou extensão dos MMSS. Na Finlândia, ela corresponde a 60% do total das LER/
DORT, enquanto que na Escandinávia, representa 40%.
Vários autores dizem ser a isquemia o principal fator da fisiopatologia das L.ER/DORT.
Já outros, a exemplo de MCKINNOM &
NOVAK (1994), associam as posturas inadequadas e os movimentos impróprios à sua
patogênese, afirmando que determinadas
posições podem: 1) resultar no aumento direto da compressão nervosa; 2) causar
contratura muscular, e secundariamente,
compressão de estruturas neuromusculares;
e 3) estabelecer um desequilíbrio muscular.
O FENÔMENO NO
BRASIL
Segundo LIMA & SIQUEIRA (1999), o trajeto oficial da doença no Brasil foi registrado, a partir de 1987, quando o Ministério
da Previdência Social reconheceu a doença
como de origem ocupacional, porém, com
algumas restrições quanto a sua denominação, tendo em 1993, aprovado a denominação de “lesões por esforços repetitivos”.
O número de pessoas com diagnóstico de
LER/DORT tem aumentado, substancialmente, nos últimos anos, deixando como resultado: um grande número de dias de trabalho
perdidos; queda da produtividade; geração
de grandes somas pagas em indenizações;
surgimento de conflitos internos na empresa;
um impacto importante na economia do país;
e um significante fenômeno social.
110
Na realidade, pelo amplo raio de patologias que as LER/DORT pode alcançar, gera
uma corrida incessante à estimativa de diagnósticos, que pelas afirmações de
HELFENSTEIN JR. (1999), chega-se ao ponto de se tachar de “tenossinovites” dores em
tendões desprovidos de bainha sinovial. Também, a artrite reumatóide e o lúpus
eritematoso sistêmico (LES), são exemplos de
patologias diagnosticadas como LER/DORT.
Ele diz que, no Brasil, os principais motivos de tal epidemia, são os seguintes:
01) falta de organização no ambiente
de trabalho;
02) insatisfação com o trabalho;
03) despreparo dos médicos e outros
profissionais envolvidos;
04) exames complementares sem
confiabilidade;
05) influência dos sindicatos;
06) ações políticas;
07) oportunismo de advogados;
08) influência da mídia;
09) disposição ética, moral e intelectual
dos indivíduos;
10) tensão social da época;
11) interesse pela compensação financeira ou pela aposentadoria precoce; e
12) um sistema trabalhista permissivo.
É imperativo dizer que, para o surgimento
deste fenômeno, tantos os fatores sociais,
quanto os psicológicos, se revestem de uma
grande importância, visto que a percepção
da dor pode ser distorcida pela ansiedade
ou depressão, pela expectativa de uma lesão
e pelos interesses da indenização.
Vários estudos apontam para o fato de que
os esquemas compensatórios influenciam na
perpetuação de síndromes dolorosas crônicas, no aparecimento de doenças
pasicossomáticas e de lesões de sintomatologia
persistente.
Ainda conforme HELFENSTEIN JR. (1999),
“a LER/DORT se tornou, no Brasil, uma exuberante iatrogenia social”.
Abordagem
psicossocial da LER
Por ser a LER consideradsa, segundo
Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
ARAÚJO (1998), como uma patologia
multideterminada é que vários estudiosos da
áreas da saúde, da gestão da produção, da
psicopatologia do trabalho, da ergonomia,
etc, que estão voltados para a pesquisa,
têm trabalhado na busca da prevenção e tratamento dela, através de um atendimento
multidisciplinar.
Fazendo parte deste contexto, a
psicossociologia tem lugar de destaque no
tratamento preventivo e/ou curativo desta
patologia, pois é considerada uma disciplina
sem fronteiras, já que seu conteúdo teórico é
formado no conjunto de ciências tais como:
antropologia, história, psicanálise, sociologia,
psicologia, etc, visando a complexidade da
problemática do trabalho.
O autor, anteriormente citado, entende que,
não se compreendem a produção de conhecimento e as práticas de prevenção, sem
a participação concreta dos trabalhadores,
vistos como sujeitos indispensáveis, na construção coletiva da análise da LER, assim
como, na elaboração de propostas de mudanças organizacionais, visando à prevenção da patologia. O mesmo se aplica a
todo trabalho psicoterapêutico ou
socioterapêutico com os lesionados, pois
cabe-lhes aí ocupar o lugar de sujeito na
tarefa de compreensão do adoecimento,
bem como, na formulação de novas estratégias coletivas e individuais, para enfrentar a condição de portadores da LER, para
dar um novo sentido à história pessoal, nela
incorporando a doença.
A abordagem psicossocial da LER é compartilhada pela grande maioria dos pesquisadores que afirmam ser ela uma patologia
multifatorial e que segundo PAGÉS apud
ARAÚJO (1998), tem a competência e a originalidade de levar em conta os processos
heterogêneos, tradicionalmente estudados de
maneira separada, negando a hipótese de
causa única no surgimento da LER.
Através da multidisciplinalidade é que se
mergulha numa relação dialética entre as
diversas teorias, permitindo a cada pesquisador, criticar e questionar conceitos dos
outros, ao mesmo tempo que interpela sua
própria disciplina e o conjunto de pensamento
da equipe, além do que, ajuda a reescrever
seus próprios postulados, colocando-o numa
posição de aprendizagem contínua. Ao mes-
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mo tempo em que os diversos saberes são
partilhados, renuncia-se a qualquer forma
imperialista de pensar.
Obviamente, a psicossociologia nega a
abordagem mecanicista que visualiza uma
doença profissional como a LER, como um
simples desajuste ergonômico entre o homem
e seus equipamentos de trabalho, de fácil
reparo. Ela, de uma maneira holística, esboça o dia-a-dia dos trabalhadores, dentro e
fora do local de trabalho, ou seja, vai além
das tarefas executadas, da organização e das
condições de trabalho, pois acredita que a
dor presente em cada sujeito acometido de
LER, tem sua origem, também, nas relações
entre a vida profissional e a vida privada, no
salário, no plano de carreira, nas expectativas de relação profissional e pessoal.
Ainda segundo ARAÚJO (1998), o sofrimento das tarefas deve ser entendido como
algo que antecede e sucede à materialização
do gesto laboral, e não apenas, o imediatismo
de sua execução. Para a maioria dos pacientes, afirma NICOLETTI (1997), as LER continuam sendo fonte de dor e sofrimento, de
angústia e de medo sobre o presente e sobre
o futuro de sua capacidade de ganhar o seu
salário.
DEJOURS (1993), nos afirma que o indivíduo se percebe como parte de uma complexa rede que diz respeito à representação
de si mesmo e da posição social que ocupa,
enquanto trabalhador e cidadão. Diz ele que
enquanto trabalhador, cada indivíduo se
empenha, consciente ou inconscientemente,
em apaziguar os conflitos entre a sua imagem “narcísica” e os atributos sociais positivos ou negativos de sua identidade profissional. É dessa forma que cada atitude sua, cada
tarefa executada, se incorporam num universo conflitante, onde as utopias e a realidade
se debatem continuamente.
A dimensão do sofrimento se inicia nestes
conflitos, do ponto de vista existencial, o que
certamente, vai além do “mal-estar” associado a uma patologia específica como a LER
Na maioria das vezes, esse “mal-estar” percebido pelo trabalhador, gera um sofrimento que vai além de seu corpo biológico, tendo uma dimensão que atinge o universo simbólico, em que o sujeito está inserido. Esse
sofrimento não se deixa conhecer ou
explicitar, embora o trabalhador o vivencie.
A verdade é que ele está presente em seu
111
112
cotidiano, mas não mostra nitidamente a sua
cara e nem se deixa nomear de maneira clara. Alguns sociólogos e psicólogos acreditam que as LER sejam a manifestação
somática de algumas angústias do nosso tempo, uma espécie de histeria coletiva
desencadeada pela organização do trabalho
moderno, em pessoas com perfil emocional
susceptível.
Para GASPARINI apud RODRIGUES
(1992), a LER deve ser percebida como sendo um produto das interações que ocorrem
entre o ser humano e seu ambiente, frequentemente hostil, entre condições pessoais, físicas e psíquicas predisponentes e a sua exposição a um ambiente facilitador, que contribui para gerar doenças físicas e mentais.
Além do que, os profissionais que lidam com
a LER devem: conhecer o melhor que puderem da fisiologia e biomecânica do aparelho
locomotor; ter noções de ergonomia para que
entendam os fatores de riscos aos quais o
paciente se expõe durante as tarefas; empregar métodos reprodutíveis de avaliação funcional e registro das ocorrências, de maneira a possibilitar controles epidemiológicas e
avaliação de resultados de tratamentos eficazes; conhecer os locais onde existem recursos adequados para sua recuperação e
orientá-los no sentido de procurá-los; e por
fim, precisam conhecer as consequências sofridas por um trabalhador que desenvolve LER,
seus direitos e as dificuldades que ele encontrará quando for introduzido no sistema da
saúde previdenciário ou privado.
Na realidade, as lesões por esforços
repetitivos são reais e não ocorrem apenas
nos trabalhadores de fábricas, indústrias,
bancos, etc. Elas acometem também atletas
de elite, músicos, bailarinos e até donas de
casa que, apesar de não estarem submetidas
às condições peculiares da organização moderna do trabalho, apresentam queixas e sinais clínicos semelhantes às doenças
ocupacionais dos trabalhadores das linhas
de montagem.
gar, sem se informar das suas condições.
Não delibere, de pé, sobre o que lhe convém ou não convém fazer, como se não
lidasse com a vida humana.
É perceptível, pelas palavras de Ramazzini,
um médico italiano, que já estudava as doenças ocupacionais, cerca de 200 anos atrás,
antes mesmo da revolução industrial e dos
métodos taylorista/fordista de organização
da produção que, mesmo naquela época, a
atenção à saúde do trabalhador já deixava a
desejar, mesmo não existindo INSS e SUS.
Apesar de terem passados tantos anos, elas
parecem atuais e fazem levar a classe médica (principalmente ortopedistas e médicos do
trabalho) além de todos os profissionais aliados no atendimento as doenças ocupacionais,
a uma reflexão profunda de seu papel perante a sociedade. É fundamental que seja
realizado um exame ortopédico acurado, com
enfoque em capacidade funcional do aparelho locomotor, para execução de tarefas específicas, pois um dos papéis importantes que
o exame médico ocupacional tem é de possibilitar a diminuição das chances de uma pessoa que não apresente os atributos físicos necessários para a execução de um determinado trabalho venha a ser exposta aos riscos
inerentes da atividade que a tornará doente.
Não podemos ignorar que muitos dos postos de trabalho atuais, exigem, para a execução das tarefas a que se destina, capacidade
física não encontrável em todas as pessoas
medianamente dotadas de resistência aos esforços estáticos, às más posturas causadas
por uma cadeira ou layout de fábrica inadequados. Geralmente, o trabalhador não conta
com um programa de prevenção e de condicionamento físico, aumentando suas chances
de ficar doente. O pior é que, ao ser acometido da lesão, ele, na maioria das vezes, não
contará com o auxílio de um atendimento
médico eficaz, em virtude da situação em que
se encontram, hoje, os serviços encarregados de atendê-lo.
A importância de um exame médico acurado no
diagnóstico e prevenção
A organização do trabalho e a prevenção das
LER
Um médico que vai atender a um paciente proletário não se deve limitar a por a
mão no pulso, com pressa, assim que che-
Não é de hoje que as patologias
ocupacionais se apresentam em nosso meio.
Ramazzini, em um dos seus escritos, dizia: a
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natureza impõe ao gênero humano a necessidade de prover a vida diária através
do trabalho. Dessa necessidade surgiram
todas as artes, como as mecânicas e as liberais, que não são desprovidas de perigos, como aliás, todas as coisas humanas.
É forçoso confessar que ocasionam muitos
danos aos artesãos, certos ofícios que eles
desempenham. Onde esperavam obter recursos para sua própria manutenção e da
família, encontram graves doenças e passam a amaldiçoar a arte à qual se haviam
dedicado.
As doenças do sistema músculo-esquelético
associadas ao trabalho, aparecem num
percentual mais acentuado nos grandes conglomerados urbanos, muito embora não deixem de ocorrer também em locais onde não
foram impostos os métodos de organização
do trabalho.
Pela afirmação de ROCHA et al. (1993), é
preciso que os profissionais de saúde, os
empresários e o Estado, avaliem o papel que
lhes cabe na prevenção e no tratamento das
doenças ocupacionais do aparelho
locomotor.
COUTO (1996), opina que, a adequação
dos postos de trabalho às pessoas que neles
operam aos princípios ergonômicos, a adoção de métodos de administração que valorizem o aspecto humano das pessoas que trabalham na empresa e a disposição de todas
as partes envolvidas no trabalho, de envidar
esforços para encontrar respostas adequadas para o problema das LER, são o melhor
caminho que temos para seguir e o único
que realmente tem chances de interromper o
tremendo desperdício de recursos financeiros e de saúde pública que as doenças
ocupacionais do aparelho locomotor têm provocado.
Conforme CODO (1995), os fatores de
riscos na organização do trabalho responsáveis pelas LER, estão ligados ao sistema
taylorista/fordista (ritmo de trabalho, alta
repetitividade, conteúdo das tarefas e a qualidade da comunicação) associado a uma
proposta contrária ao mesmo, ou seja, a incompatibilidade de se associar força de trabalho às novas tecnologias que necessitam
da presença ativa do cérebro, gerando uma
assincronia.
As LER, segundo ele, são um sintoma desta
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dessincronia entre a exigência de um trabalho plenipotenciário, com uma organização
fragmentada do trabalho.
Sem dúvida nenhuma, a LER é uma doença, mas do ponto de vista da organização
do trabalho, ela é um sintoma, e talvez, por
esquecerem disso, é que algumas empresas
se deparam com verdadeiras epidemias, pois
para evitar que ela se alastre, tentam tratar,
isoladamente, cada caso no maior sigilo possível. Ao contrário, o aparecimento da LER,
em seus momentos iniciais, torna-se uma aliada da gerência, no sentido de detectar as
falhas na organização do trabalho e eliminar os fatores que as promovem. A abertura
de canais de comunicação entre a gerência
e trabalhadores, visando esclarecimentos e
acolhimento das queixas surgidas após os
turnos de trabalho, é um fator importante na
prevenção da LER, afetando de forma menos
contundente, a produtividade do setor, pois
só conhecendo determinada patologia é que
podemos combatê-la e preveni-la.
Para o autor acima mencionado, o primeiro e principal ponto num programa de prevenção da LER, é um diagnóstico
organizacional completo, que se divide em
duas partes: um diagnóstico das condições
de saúde mental do trabalhador. No que se
refere ao primeiro, qualquer forma de diagnóstico clássico da organização do trabalho
serve para detectar os pontos críticos
desencadeantes da LER. O segundo, mais
recente, é baseado num protocolo com 228
questões fechadas, cujo tempo médio de resposta é de 40 minutos, em aplicação coletiva, que foi elaborado nos últimos 10 anos
na Universidade de São Paulo, sobre saúde
e trabalho, constando das seguintes partes:
• um inventário clássico de personalidade e psicopatologia (versão 168,
resumida, do MMPI);
• uma escala de stress individual e no
trabalho (baseada nas escalas norteamericanas);
• uma escala de carga mental no trabalho;
• uma escala de suporte social afetivo
e suporte social institucional;
• uma escala de análise das relações
sociais na produção, subdividida
entre relações pares e relações hie-
113
rárquicas;
• uma escala de participação nos processos decisórios); e
• uma escala de satisfação no trabalho.
Alerta o autor, que o método, sumariamente
descrito, procura como qualquer diagnóstico, a melhoria das condições de trabalho em
busca de maior produtividade e bem estar
do trabalhador. Para que isto aconteça, é
necessário que: os sindicalistas instituam em
sua pauta, políticas intervencionistas nas condições de trabalho; que os empresários vejam as reivindicações dos trabalhadores como
algo coadjuvante no aumento da produtividade; e que os administradores percebam que
o trabalho é algo mais que o emprego, não
sendo avaliado pela tarefa em si, e sim, pelo
significado do gesto laborativo.
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