20 anos Gulbenkian anos 11•12 Excelência reiterada e sinais de abertura Entrevista com Lawrence Foster • A Orquestra Gulbenkian em oito retratos • Chostakovitch e as dualidades russas • As mil interpretações de Wagner • Teatro/Música, uma inovação histórica Balthasar-Neumann Ensemble por Florence Grandidier Este suplemento faz parte integrante da edição nº 7832 do Público, e não pode ser vendido separadamente Fila vinte e quatro, lugar nove Satyagraha, de Philip Glass: uma grande ópera contemporânea, porventura a mais bela do autor KEN HOWARD/METROPOLITAN OPERA A fotografia da capa deste suplemento é inspiradora: nela está bem expressa a alegria do que é fazer música em conjunto. E também o privilégio que é aprender a saber escutar quem nos rodeia. Esta foto fica bem ao grupo barroco que é o Balthasar Neumann Choir and Soloists, um ensemble de Freiburg que no final de Novembro actua no Grande Auditório. Podia muito bem ser uma fotografia da Orquestra Gulbenkian. O espírito moderno e global, feito de gente bonita, é o mesmo. Lisboa capital periférica em muita coisa dispõe de um agrupamento musical de excepção que completa cinquenta anos no Outono de 2012. São cinquenta anos que se confundem com a história da música em Portugal no último meio século. O navio almirante e o farol de um Serviço de Música de uma instituição que nasceu para resistir a todas as pressões, a todas as crises. Para quem se senta há quase trinta anos em frente destes músicos, semana após semana, maestro após maestro, programa atrás de programa, o salto qualitativo desta formação é impressionante. O resultado deve-se ao esforço de todos. Dos maestros Muhai Tang, Michel Corboz e mais recentemente numa década gloriosa de Lawrence Foster. Dos directores do serviço de música, Luís Pereira Leal a que sucedeu há dois anos o finlandês Risto Nieminen. E aos incríveis músicos capazes de aguentar com uma capacidade estóica e apaixonada uma temporada com trinta programas diferentes. E, no entanto, teimamos em desvalorizar alguns das programas mais audaciosos e interessantes que a Orquestra Gulbenkian apresenta. Recusamos amar estes músicos numa proporção correcta com aquilo que eles nos dão. Com quase setenta elementos, todos ambicionamos mais. Esta Orquestra merece ser formalmente sinfónica, merece sair mais vezes em digressões internacionais. Não podemos ficar, acreditemos que isso não vai acontecer, a um passo do topo. A Orquestra Gulbenkian é, mais uma vez, um eixo central da temporada de música Gulbenkian que agora se inicia. No mesmo ano em que o pianista Alfred Brendel, alguém que definitivamente não se reforma, vem perguntar numa conferência com exemplos ao piano se a música clássica tem necessariamente de ser séria. E isto numa época que nos dizem que é de crise. Rui Lagartinho 2 Face ao nível de excelência desta Temporada, a segunda da responsabilidade de Risto Nieminen, será inevitável a angústia do espectador no momento de fazer as escolhas – mas não é menor a angústia do crítico no momento de analisar e propor destaques. Augusto M. Seabra Temporada de Música 2011-2012 Excelência reiterada e sinais de abertura Face ao nível de excelência da Temporada 2011-12 do Serviço de Música da Gulbenkian, a segunda da responsabilidade de Risto Nieminen, verdadeiramente excepcional, à consolidação de novas propostas e à introdução de mais outra, porventura ainda mais radical, o ciclo Teatro/Música em parceria com o Teatro Maria Matos, por si só uma grande novidade, face a esse nível de excelência será inevitável a angústia do espectador no momento de fazer as escolhas – mas não é menor a angústia do crítico no momento de analisar e propor destaques. Comecemos pelas duas grandes novidades da temporada anterior, que foram consideráveis sucessos: as transmissões directas em alta definição de representações na Metropolitan Opera House de Nova Iorque e o ciclo Músicas do Mundo. Este ano há todavia dois aspectos de vulto a assinalar: as transmissões do Met não incluem apenas obras do reportório corrente, mas também uma grande ópera contemporânea, porventura a mais bela do autor (ainda mais que Einstein ou the Beach), Satyagraha de Philip Glass (19-11-11), e um pastiche barroco, The Enchanted Island (04-02-12), concebido por William Christie a partir de obras de Händel, Rameau,Vivaldi e outros. Quanto ao ciclo Músicas do Mundo tem um cartaz de luxo, com Anoushka Shankar (12-12-11), Goran Bregovik (06-02-12), Natacha Atlas (26-02-12), Angelique Ionatos (2403-12) e mesmo – oh surpresa, fado na Gulbenkian! –, António Zambujo (24-04-12), que, é certo, já encaixou internacionalmente na categoria de “world music”, mas o ciclo vai para além do entendimento estrito do termo, num sentido cosmopolita, com o trio de Ryuchi Sakamoto (21-11-11) ou Maria João e Mário Laginha (21-05-12). Em termos de estrutura da temporada, e além desse importantíssimo ciclo Teatro-Música (ver texto nas páginas 20/21), que aliás inclui o que porventura será o aconteci- 3 mento máximo da temporada, a estreia em Portugal, quarenta anos volvidos!, de uma obra capital do século XX, Momente de Karlheinz Stockhausen (10 e 11-11-11), há que assinalar que desapareceu um tipo de organização da temporada transacta de muito discutível nexo, que foram o Festival Mozart e o Festival de Inverno – para além de ser questionável a relevância e percepção pública dessa lógica, se o primeiro, dedicado em concreto a um compositor, ainda podia ser pertinente, o segundo não tinha qualquer lógica coerente. Em vez disso há sim dois fios condutores: um Outono Russo e Wagner na Primavera. O primeiro permitir-nos-á ouvir esse monumento que são os Quartetos de Chostakovitch, com os máximos intérpretes, os Borodin, com os quais o compositor trabalhou estritamente (9, 11, 12, 16 e 17-1011) – e já agora, a propósito de quartetos, diga-se que há na temporada um outro grande destaque, os últimos quartetos de Beethoven pelos Hagen (27-11-11), completados pelo op. 132 pelos Tetzlaf (11-12-11). Já o programa Wagner inclui apresentações em versão de concerto do Tannhäuser (12 e 1501-12) e, bem mais discutível, o Acto I do Siegfried (03/4-05-12), justamente o momento dramaticamente mais frágil de todo O Anel do Nibelungo, aquele que tem menos sentido autonomizar e, por maioria de razões, apresentar em versão de concerto. Facto da maior relevância, e em que Nieminen justamente insiste, é a presença recorrente, mesmo de temporada a temporada, de alguns grandes intérpretes. Voltarão assim de novo, em momentos cimeiros da programação, Esa-Pekka Salonen e a Orquestra Filarmonia, com uma apresentação encenada de O Castelo do Barba Azul de Bartók (24-1011), a “superstar” Gustavo Dudamel que, depois de se ter apresentado com a Simon Bolivar, a Orquestra de Jovens Ibero-Americana e a Filarmó- nica de Los Angeles, vem desta vez com outra tra formação de que é director, a Sinfónica nfónica de Gotemburgo (2703-12), ou a Orquestra Juvenil Gustav Mahler hler (15 e 16-04-12). Esses três já são, por assim dizer, pilares da programação gramação da Gulbenkian. Mas não se pode também deixar de referir presenças resenças regulares, como as de doiss grandes pianistas, Grigory Sokolovv (13-11), e Radu Lupu (1404-12). E, já agora, fale-se também dos regressos, gressos, os de duas grandes cantoras, as, Karita Mattila (17-09) e Angelika ka Kirchschlager (1 e 2-12), e da excepcional epcional violonista Viktoria Mullovaa (06-03-12). Acontecimentos especialíssimos líssimos são o retorno após longa ausência usência de Maria João Pires (13-05-12) 12) e esse momento de excepção que será a vinda do já retirado Alfred fred Brendel com uma conferênciaa e uma “masterclass” sobre Schubert rt (18 e 19-02-12). Dee grande nível é também o ciclo dee Música Antiga, com os dois enores “superstars”, Philippe contratenores Jaroussky sky (14-11-11) e Andreas Scholl (07-02-12), ou duas formações como omo a Orquestra Barroca de Freiburgo rgo e René Jacobs, com uma versão de concerto de uma deliciosa ópera ra do jovem Mozart, La finta giardiniera era (02-10-11), e o Ensemble e Coro o Balthasar Neumann com Thomass Hengelbrock (que este ano foi o primeiro rimeiro maestro especialista no barroco roco a dirigir Wagner no “templo” o” de Bayreuth, Tannhäuser no caso), o), com o Magnificat de Bach e uma missa de Zelenka (29-11-11). Uma observação bservação e um reparo no entanto: o: cada vez mais estes ciclos se estão o a restringir ao barroco e às novass abordagens do classicismo, sem propriamente opriamente a “música antiga”, anterior. terior. See o ciclo Teatro/Música, em colaboração aboração com o Maria Matos, é a grande e mais importante te inovação da Temporadaa (embora tenha que ser abordado tendo em conta ta a presença de música contemporânea em geral, ral, esse um O ciclo Teatro/Música é a grande e mais importante inovação da Temporada ponto a vários títulos problemático – ver textos nestas páginas) cabe assinalar, e saudar, que, além da já habitual cooperação com a Casa da Música, com um concerto do Remix, a Gulbenkian dá outros sinais de abertura: acolhe o Festival Jovens Músicos, promovido pela Antena 2, e a que também se associam a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Big Bang do Hot Clube de Portugal, acolhe dois agrupamentos com residência no Centro Cultural de Belém, um de música antiga, o Divino Sospiro, e outra de contemporânea, OrchestrUtopica, e numa parceria inédita com o São Carlos em dias sucessivos a Orquestra Gulbenkian actuará naquele teatro e a Orquestra Sinfónica Portuguesa na Fundação. Multiplicam-se pois esses sinais de abertura, que tão necessários eram. A perspectiva da nova temporada da Gulbenkian é de molde a justificar as maiores expectativas. Risto Nieminen ENRIC VIVES-RUBIO Entrevista com Lawrence Foster Dez anos na vida de um maestro Uma década é um ciclo importante. E o de Lawrence Foster à frente da Orquestra Gulbenkian, enquanto maestro titular, marcou uma parceria de sucesso que continuará até 2013. Rui Lagartinho texto Filipe Arruda fotos Desde 2002 que o percurso artístico de Lawrence Foster se confunde com o da Orquestra Gulbenkian enquanto seu maestro titular e director artístico. Conduziu esta formação ao seu melhor nível de sempre como o atestam as críticas em Portugal e nos países onde a Orquestra actuou. Nunca como até agora na sua história de quase cinquenta anos a Orquestra Gulbenkian gravou tantos discos, fez tantas digressões – se dependesse do maestro elas seriam ainda mais constantes – apresentou uma programação tão variada. O público tem aprendido a responder com um entusiasmo também em crescendo. Os 29 programas a executar no Grande Auditório durante a próxima temporada quase que chegam para contar a história da música ocidental, tanta é a diversidade de propostas. No final do primeiro dia de trabalho depois das férias, Lawrence Foster chega ao pé de nós entusiasmado com a gravação de uma nova ópera do compositor americano Gordon Getty, Usher House e com o regresso da Orquestra Gulbenkian ao festival Georges Enesco em Bucareste. Foster nasceu nos Estados Unidos mas a sua ascendência é romena. Nesta mesma digressão a Or- “Um dia gostaria de conduzir um concerto em que o público não me visse. Só os músicos” questra Gulbenkian actua pela primeira vez na Arménia a terra onde nasceram os pais de Calouste Gulbenkian. Apesar de ter nascido em Istambul, Gulbenkian sempre se considerou arménio. O cruzamento de afectos e de raízes marca o arranque da nova temporada da Orquestra Gulbenkian. Logo no primeiro dia depois das férias, arrancaram as gravações (para o selo Pentatone) da nova ópera de Gordon Getty Usher House. Quase que não houve tempo para respirar… É verdade. E sabe que mais? Só no dia de hoje gravámos mais minutos de música que o de qualquer normal gravação com uma orquestra de Londres. A entoação está perfeita, a cooperação foi enorme. Estes músicos são grandes virtuosos. Continua a afirmar, como o fez há cinco anos, ser a Orquestra Gulbenkian um dos segredos mais bem guardados do mundo musical? Hoje a qualidade da Orquestra Gulbenkian é um segredo partilhado por mais gente mas ainda é um segredo. Muita coisa mudou com o aumento de gravações e as boas críticas na imprensa especializada mas também com as digressões que fazemos regularmente. É preciso continuar a investir nesta visibilidade. Depois desta digressão à Roménia e à Arménia marcada pelos afectos, no regresso Tchaikovsky e as suas três últimas sinfonias esperam por si. Estou muito satisfeito por voltar ao festival Georges Enesco em Buca- 4 5 reste e acho importante que a Orquestra se estreie na Arménia ainda antes de completar cinquenta anos de existência. O mês de Outubro marca o arranque da programação que designamos por Outono Russo. O actual director do serviço de música da Fundação Gulbenkian Risto Nieminen adora fazer uma programação conceptual. Eu pelo contrário tendo mais para um conceito de programação caótico mais centrada na coerência musical intrínseca do que nos aspectos históricos. Dentro deste espírito ambos acabamos por fazer concessões. É o que vai acontecer agora com este ciclo de música russa em torno das três últimas sinfonias de Tchaikovsky. Estou rendido à invenção melódica e à audácia das suas orquestrações.Tchaikovsky foi um pioneiro na pesquisa das possibilidades de cada instrumento. Toda a sua música é emocionalmente comunicativa e de uma beleza extraordinária. E depois lá mais para o fim da temporada um outro ciclo em torno da música de Ravel. Terminamos a temporada com um bom vinho branco seco. Tenho um fraquinho por Ravel e pela sua música simultaneamente inventiva e fresca. Ravel exige uma enorme disciplina para ser bem executado. A sua alma é muito problemática. Brilhante, espontânea mas ao mesmo tempo problemática e obscura. Pelo meio Wagner. Gosta tanto de dirigir ópera em versão de concerto, porque não dirige o Tannhäuser? O maestro Bertrand de Billy que regularmente colabora connosco apetecia-lhe muito dirigir esta ópera e por isso vai ser ele a fazê-lo. É muito importante fazer ópera todos os anos. O facto de ano após ano se fazer pelo menos uma ópera em versão concerto no Grande Auditório foi decisivo para a melhoria da qualidade da orquestra. Numa ópera os músicos aprendem a escutar os cantores, aprendem a respirar de uma forma diferente, ganham uma flexibilidade especial. Não fazer ópera é como tocar só com um braço. O maestro Bruno Walter dizia que a qualidade dos músicos da Filarmónica de Viena só era o que era porque eles cresciam musicalmente no fosso a escutar os melhores cantores do mundo. Uma tradição que não se perdeu. Orgulho-me muito da qualidade dos maestros que vêm tocar à Fundação. Quando um homem como Kirill Petrenko que tem programado dirigir O anel do Nibelungo em Bayreuth resolve vir a Lisboa praticar dois dos actos do Siegfried com a Orquestra Gulbenkian penso que está tudo dito. Petrenko é neste momento um dos cinco grandes maestros da actualidade. É o próximo director da ópera da Baviera em Munique. Ter aqui todos os anos Bertrand de Billy e Simone Young como maestros convidados é uma bênção. São figuras inspiradoras para a Orquestra e escolhem sempre programas de grande impacto. Uma sinfonia de Bruckner dirigida pela Simone Young é sempre um grande acontecimento. É conhecida e muito gabada a forma como trabalha com os solistas convidados. Adoro acompanhar solistas: para mim é fascinante pôr-me na mente do solista e perceber o que Lawrence Foster: “Orgulho-me muito da qualidade dos maestros que vêm tocar à Fundação” Lawrence Foster na Gulbenkian: “Não percebo maestros que não gostam de acompanhar solistas” e perceber a forma como cada músico interpreta cada passagem e incorporála na minha forma de dirigir. Um dia gostaria de conduzir um concerto em que o público não me visse. Só veriam os músicos. Mudaria tanto a forma como as pessoas escutariam e disfrutariam do concerto. Não gosto da ideia de coreografar a música. É uma ideia redutora. Gosto da ideia de desafiar o público fazendo o contrário do que é expectável em termos de direcção mantendo-me muito calmo, por exemplo, no meio da intensa massa sonora que é por exemplo a Sinfonia alpina de Richard Strauss. eles querem fazer.A partir daí aprendo não a segui-los mas a participar de uma forma activa na sua leitura. É um prazer tão grande como aquele que se retira quando fazemos música de câmara. Não percebo maestros que não gostam de acompanhar solistas. Como se define enquanto maestro? Sou um maestro old fashioned segundo os padrões de hoje. Não acredito em modas, nem vou atrás delas, nem tento ser diferente por conveniência. Ser um maestro à antiga significa manter a tradição que vem de Karl Böhm ou de Herbert von Karajan de manter os tempos lentos na interpretação do reportório do período clássico como Haydn ou Beethoven. Quando a moda das leituras rápidas se esfumar o triunfo do meu tipo de execução vai voltar. Tenho de acreditar de forma fervorosa na música de um compositor para o tocar. Para mim a razão para ser maestro é o amor à música. A direcção de orquestra não me fascina por uma questão de poder ou autoridade. Acho isso muito aborrecido. Não gosto de ditar o que uma orquestra deve fazer. Gosto de escutar “Sou um maestro old fashioned segundo os padrões de hoje. Não acredito em modas” A Orquestra Gulbenkian partilha estas suas ideias? A orquestra e o seu maestro são como uma família com altos e baixos no seu relacionamento. Todos os músicos são muito pacientes comigo, tratam-me com um grande respeito. Tocam com o coração. Com enorme paixão. É notório que têm um grau de educação elevada e um vasto leque de interesses. Durante os ensaios, se eu falar a propósito de Beethoven de Schiller ou Goethe toda a gente sabe de que universo estou a falar. Isto não acontece por exemplo nos Estados Unidos onde posso dirigir a abertura Egmont de Beethoven sem que ninguém saiba quem era Goethe. Já há um som característico da Orquestra Gulbenkian? Aqui na Gulbenkian gosto da claridade do som conseguida que talvez seja reflexo da luz que nos rodeia. Aprecio um certo brilho no som. Quente e claro. Há também uma suavidade na forma como o ataque das peças é feito que é muito portuguesa e em minha opinião reflecte as características intrínsecas da própria língua portuguesa. Hoje em dia muitas orquestras perderam a sua individualidade sonora. Na Alemanha gosto das orquestras que soem à tradição alemã. Em França gosto de reconhecer um certo vibrato nos instrumentos de sopro. Que legado deixa quando daqui a dois anos deixar de ser maestro titular da Orquestra Gulbenkian? Deixo um reportório maior e mais variado e um nível de execução de alto nível. Deu-se também um grande salto na comunicação com o público. Os concertos deveriam estar sempre esgotados. O Luís Pereira Leal e mais recentemente o Risto Nieminen conseguiram montar uma temporada que é um enorme festival, sem quebras de qualidade durante nove meses. O público tem que confiar neste esforço. Programar implica três importantes vectores: desafiar a orquestra, desafiar o público e conseguir programar música que possa ter reconhecimento internacional. Tudo isso tem sido feito aqui na Gulbenkian com frutos visíveis. E em termos de reportório? O que ainda lhe apetece fazer? Continuar a fazer-nos descobrir a música do compositor romeno Georges Enesco? Como dizia um cantor americano, Johnny Cash, “I’ve done my time”. Já contribui com a minha parte para que se descubra a música de George Enesco. Fiz o meu trabalho. Agora cabe a outros sucederem-me nessa tarefa. Mas talvez me atreva a fazer Édipo, uma grande ópera muito pouco conhecida. Lembra-se da sua primeira manhã de ensaios com a Orquestra Gulbenkian? Recordo um incrível acolhimento. Senti-me imediatamente bem-vindo. Portugal é o país mais tolerante da Europa. Sinto isso cada vez que cá estou. Pode chamar-me ingénuo, mas é o que eu sinto. 6 Uma casa onde os sons do mundo se encontram Um retrato da Orquestra Gulbenkian por alguns dos que a fazem todos os dias. Rui Lagartinho texto Rita Baleia fotos São sessenta e seis pessoas e não podiam ser mais diferentes. Nasceram em Portugal e em vários outros cantos do mundo. Na grande maioria dos casos em anos distintos. A paixão pela música obriga-os a um convívio quase diário que felizmente é tudo menos forçado. A família que é a Orquestra Gulbenkian anda nesta primeira metade de Setembro em digressão pela Roménia e pela Arménia: três concertos, três programas totalmente distintos onde a Sinfonieta para Orquestra de Cordas de Joly Braga Santos abre um concerto que termina com a Sinfonia nº 9 de Antonin Dvorak e outro começa com o Adagio do bailado Spartacus de Aram Khachaturian a abrir caminho para o concerto de violino de Brahms. No regresso espera-os uma temporada de trinta programas diferentes só no Grande Auditório. Começam com a A Criação Terminam com o Bolero de Ravel. Uma temporada maior que a da Orquestra Nacional de Espanha, ou que a da Sinfónica de Barcelona. A comparação pára nos Pirenéus mas podia atravessá-los. Um ritmo de trabalho avassalador, um teste de resistência física ao valor da paixão que é fazer música em conjunto. Uma aventura que começou há quase cinquenta anos com a criação da Orquestra de Câmara Gulbenkian. A referência à música de Câmara no nome caiu em 1971 com a inauguração do Grande Auditório. “Lembro-me de ser muito jovem, ainda estudava o violoncelo, e de as pessoas que me levavam aos concertos me dizerem que a Orquestra Gulbenkian estava para acabar. Afinal tais vaticínios não se concretizaram e a Orquestra Gulbenkian está hoje mais forte e sólida que nunca.” Maria José Falcão, primeiro violoncelo solo da Orquestra para onde entrou em 1990. Sorriso suave, olhar límpido e claro.“A qualidade da Orquestra melhorou imenso: a exigência é maior e o rigor também.Aprendemos a nunca cair na rotina. Há mais variedade de maestros a virem trabalhar connosco. Escutam-nos lá fora ou leem as críticas aos nossos concertos. Passam palavra. Este trabalho é muito importante para a visibilidade actual da Orquestra Gulbenkian.” 7 “Aimez - Vous Brahms?” Da Venezuela com amor. “Durante 14 anos (entre os 8 e os 26) toquei nalgumas das orques- tras do famoso Sistema (que formou entre outros o maestro Gustavo Dudamel) na Venezuela. Aqui o som é muito mais aveludado e redondo do que aquele a que eu estava habituada no meu país. Para mim a chegada à Orquestra Gulbenkian foi uma mudança grande e muito positiva.” Passaram quinze anos desde que Ana Beatriz Manzanilla chegou a Lisboa. Na altura havia menos portugueses a tocar na Orquestra Gulbenkian. Hoje orgulha-se quando vê que a situação se alterou: “A qualidade dos músicos portugueses faz – me pensar que daqui a uns tempos será possível existir uma Orquestra Gulbenkian só com músicos portugueses. Contra mim falo. (risos). A vida dá muitas voltas e encarrega-se de fechar ciclos. Agora sou eu a estar envolvida com o projecto da orquestra Geração, uma aventura musical portuguesa claramente inspirada no modelo do Sistema de ensino da música venezuelano.” A versatilidade de reportórios e de escolas de interpretação em confronto é para esta morena apaixonada pela sua família, pela Orquestra Gulbenkian e por Brahms um dos segredos do sucesso: “É uma orquestra que reage muito depressa a novos desafios, como agora que ensaiamos numa semana quatro programas diferentes e ainda gravamos um disco.” O que é um fagote? “O fagote tem a função harmónica de criar uma certa estabilidade no contexto da orquestra. O solo do fagote com que se inicia a Sagração da Primavera de Stravinsky foi visionário no seu tempo. E assim se manteve. É um lamento único na história da música. Mas o fagote também pode ser assumido como brincalhão como fez o Paul Dukas em Aprendiz de feiticeiro. A maturidade e articulação do discurso de Vera Dias transborda dos seus vinte e cinco anos. Está na Orquestra Gulbenkian há cinco. Chegou vinda da Alemanha onde estudou. “Todos os músicos têm uma relação íntima com o seu instrumento pela intimidade solitária que desenvolvem durante a sua carreira. Estudando e aperfeiçoando-se como músico. Depois chega o momento de integrar uma orquestra. E é uma sensação muito peculiar. É como pertencer a uma grande família. Somos muitos e existe uma Maria José Falcão violoncelo “A Orquestra Gulbenkian hoje é quase tão perpétua como a Fundação que a criou”. Ana Beatriz Manzanilla violino “A Orquestra Gulbenkian com 66 músicos de catorze nacionalidades é uma verdadeira torre de Babel.” Sophie Perrier flauta David Lefèvre violino “Lisboa sendo uma capital é como a Orquestra Gulbenkian: soube guardar uma dimensão humana.” espécie de camaradagem entre nós. Não somos todos amigos íntimos, como é óbvio, mas fazer arte une-nos. Tocarmos e escutarmo-nos em simultâneo é uma sensação única.” Um luxo acessível Há unos anos, segundo Vera, “as orquestras eram um luxo. Os meus pais que trabalham numa fábrica adoraram a experiência de escutar uma orquestra ao vivo. Desde a primeira vez. Nós temos de começar a dar valor ao que é nosso. Temos uma excelente orquestra com uma maioria de músicos portugueses que devia orgulhar o nosso público e isso ainda não acontece com a paixão com o que o fazem os espanhóis ou os alemães em relação às suas orquestras e aos seus músicos. É uma questão de mentalidade que espero que mude. A Orquestra Gulbenkian está num período de transição. A pressão para sermos melhores é cada vez maior. E a orquestra acompanha esse desafio. Podemo-nos comparar às grandes orquestras europeias, apesar de estarmos num país pequeno.” Rui Sul Gomes entrou para a Orquestra Gulbenkian no mesmo ano que Vera Dias. É deles, entre outros, de quem se fala quando o tema é a renovação dos músicos na Orquestra:“Sinto que o facto de ter entrado muita gente nova nos últimos cinco anos contribuiu para o dinamismo da Orquestra Gulbenkian”. Timbalista, é por razões óbvias um dos músicos que mais tempo passa na Fundação Gulbenkian. O seu instrumento não pode ser levado a tiracolo mas o tamanho não é proporcional à sensibilidade que é necessária para tocar este instrumento feito de pele natural. Os timbales recordam-nos o rugido da terra em cada obra. Fecham capítulos narrativos, inauguram outros. Isso é bem audível nas sinfonias de Beethoven ou de Mahler e na incontornável Sagração da Primavera de Stravinsky. Rui que tem uma visão privilegiada e de anfiteatro sobre os seus colegas não tem dúvidas: “Caminhamos para que haja em breve uma sonoridade própria da Orquestra Gulbenkian”. Sophie Perrier é a primeira flauta solo.Toca na Gulbenkian desde 1989. Assistiu ao primeiro salto qualitativo na história da formação: “Entrei na altura em que a Orquestra se alargou sobre a direcção do maestro Muhai Tang e o nível da Orquestra melhorou. Ao subir o nível da execução também sobem as tensões entre os músicos. Mas aqui na Gulbenkian conseguimos sempre manter um nível bastante simpático, distendido e compreensivo entre nós.” Quem vê Sophie e a sua flauta que a própria define como “graça, agilidade, leveza” não desconfia do esforço e do treino que o seu instrumento exige: “A flauta é um instrumento suave mas que precisa de mui- “Schubert faz vibrar em mim emoções muito fortes”. to esforço físico para ser tocado porque perdemos muito ar.” Poder trabalhar este ano sob a orientação de Ton Koopman é algo que deixa Sophie bastante entusiasmada. E numa cantata de Bach, o seu compositor preferido. Sophie Perrier impressiona-se sempre com “o grande fervor, o grande interesse e entusiasmo do público quando fazemos os concertos para toda a família.” Mas lamenta que nos outros concertos “O público ainda esteja fechado. Talvez se passassem mais concertos vezes na televisão, isso mudasse”. Por acaso este ano a RTP 2 transmite em directo ou em gravações alguns dos concertos do Prémio Jovem Músicos. O mais importante prémio musical português, organizado pela Antena 2 completa este ano 25 anos. Em termos de impacto junto do público a bitola do concertino principal da Orquestra Gulbenkian o concertino David Lefèvre é a Orquestra Filarmónica de Monte Carlo. O violinista garante-nos que o público em Lisboa é muito mais jovem que no Mónaco e que a comunicação com o público mais calorosa. Sob a direcção do maestro Foster a Orquestra Gulbenkian deixou de ter um concertino principal permanente. David Lefèvre não está em permanência em Lisboa mas a sua mulher e o seu filho recém-nascido sim:“Acho que isso diz muito da minha afeição pelo vosso país.” Para Lefèvre uma orquestra é “uma grande escola de humildade.” “A orquestra é o instrumento que mais se aproxima do registo da voz humana.” Quando os sons se misturam “Há entre os músicos da Orquestra Gulbenkian quem tenha aprendido a tocar violino nos Estados Unidos. Outros na Rússia. Há uma forma diferente de tocar num contrabaixista francês ou num alemão. Depois todos se adaptam a uma direcção que se por exemplo vier do Togo tem de ser aceite.” O que de facto não falta Orquestra são escolas diferentes de interpretação que aqui desaguam. O Leste Europeu, a Rússia, a Arménia são ainda referência nas cordas. Samuel Barsegian primeiro solista em viola está na Orquestra Gulbenkian há três. Veio da Bélgica, é um dos três músicos arménios da Orquestra:“É incrível a única orquestra com um nome arménio , Gulbenkian, nunca tocou na Armenia”. É com emoção que encara esta digressão. Para ele o que mais o surpreendeu foi a flexibilidade que encontrou desde o primeiro momento em que integrou a orquestra: “A Gulbenkian é a orquestra mais flexível que eu conheço na Europa. E eu conheço algumas para poder falar assim. Seria difícil noutro lugares os músicos adaptarem-se a um reportório e a um ritmo de trabalho tão intensos.” Para Samuel o seu instrumento é um pivô central no som da Orquestra: “A orquestra é o instrumento que mais se aproxima do registo da voz humana.” O seu colega de naipe Patrick Eisinger há mais de vinte anos que Samuel em Lisboa concorda com essa definição:“A viola faz a ligação entre os vários naipes das cordas.Alguns os mais cínicos dizem que ela é um mal necessário em cada orquestra. Tem um som suave e poderoso.” Conversar com Patrick permite-nos perceber que o som de uma orquestra num dia qualquer traduz sempre uma história que começou muito antes, quando um bom maestro chega com uma boa ideia: “O último grande dinossauro, entre os maestros professores, Rodolf Barshai que felizmente chegou a trabalhar connosco tinha uma noção de como se constrói um som imaginado. Isso é uma bênção. Nos primeiros anos aqui em Lisboa fui muito marcado por dois maestros húngaros que nunca mais esqueci: o Janos Furst e o Iván Fischer.” Já na altura havia muitos estrangeiros, hoje há mais mas também estão a entrar muitos portugueses. As cordas portuguesas evoluíram muito e são hoje muito boas. Só não podemos nunca esquecermos que cada ataque da mão direita deve ser diferente consoante o compositor. Temos de estar muito atentos.” O mundo musical português é muito novo quando comparado com outros países mas está a evoluir muito depressa e bem. Aqui na Orquestra isso sente-se todas as semanas quando se percebe que cada maestro tira pode tirar desta orquestra o som que quiser. Depois os resultados vêem-se: Quem imaginaria que a Orquestra Gulbenkian iria actuar com sucesso no Concertgbouw de Amsterdão ou na Filarmónica de Berlim? É um clube restrito e a Orquestra Gulbenkian integra-o por mérito próprio.” Entre Setembro e Junho em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, estes e mais umas largas dezenas de músicos como eles dão ano após ano o seu melhor. Para eles e para si! 8 Samuel Barsegian viola “A diáspora musical de três músicos arménios voltou a reunir-se em Lisboa na Orquestra Gulbenkian.” Rui Sul Gomes timbales “Há uma energia muito especial que emana dos timbales que contagia os meus colegas durante a execução de uma obra.” 9 Vera Dias fagote “Durante uns tempos fui o benjamim da Orquestra Gulbenkian. Adorei.” Patrick Eisinger viola “Tchaikovsky, Brahms, Rachmaninov, Chostakovitch: o meu coração está lá.” Os russos experimentaram na sua música, e também na sua vida, a dualidade entre internacionalismo e nacionalismo. Chostakovitch é exemplo acabado desta dualidade russa. Teresa Cascudo Ciclo Outono Russo Dualidade e criação DR A música russa constitui um dos eixos principais da programação que o Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian propõe esta temporada. Serão escutadas obras dos compositores russos clássicos, de Glinka a Chostakovitch, mas também um importante número de excelentes intérpretes russos, entre os quais se destaca o longevo Quarteto Borodin. O nacionalismo primeiro, e o socialismo soviético depois, foram as grandes ideias que determinaram o percurso dos compositores russos dos séculos XIX e XX. A música sempre constituiu um elemento central da vida cultural russa, ancorado num exigentíssimo sistema de ensino. Certamente por isso, a nova música, desde Glinka, sempre foi Censurado, Chostakovitch viveu dividido entre uma prática pública e outra privada recebida, aplaudida ou censurada com paixão. A partir da década de 80 do século XIX, a “música russa” difundiu-se para além das fronteiras do Império dos Czares conseguindo uma projecção notável: uma imagem sonora colorista e de grande impacto, formou-se a partir daí e persiste na imaginação dos melómanos até hoje. Os desvios a esta linha por parte de qualquer compositor, pode levar à tentação de pensar que a cultura russa é repleta de contrastes e de paradoxos. Esta leitura, aplicada aos compositores dos últimos dois séculos, parece mesmo inevitável. Mas, talvez, a palavra dualidade seja o melhor guia para quem, além de pretender desfrutar do inegável prazer sonoro e da empatia emocional desta música, queira também entender o que se poderia denominar como um projecto de construção de uma imagem sonora. Russa ao longo do século XIX, soviética durante boa parte do século XX. A inevitável influência da tradição musical europeia, que se fundamenta na estabilidade das convenções que definem os diversos géneros, conviveu com a procura dos elementos sonoros que se podiam identificar com a tradição russa. O debate daí derivado era fundamentalmente crítico, mas orientou a recepção e o trabalho dos compositores. Como resultado, houve compositores, como Borodin, que abriram novas vias que influenciaram muitos colegas mais a Ocidente. Os russos experimentaram na sua música, e também na sua vida, a dualidade entre internacionalismo e nacionalismo, como atestam os percursos de Tchaikovsky, Rachmaninov e de Prokofiev, três dos compositores incluídos esta temporada na programação musical da Fundação Calouste Gulbenkian. O sucesso internacional combinou-se neles com um profundo apego à terra russa. As últimas sinfonias de Tchaikovsky e 10 Orquestra Sinfónica Portuguesa Barbara Hannigan CALENDÁRIO MARCO BORGGREVE DR Ciclo Chostakovitch Integral dos quartetos de cordas Outros concertos Grande Auditório Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Sol Gabetta violoncelo Glinka,Chostakovitch,Tchaikovsky 09 Out 19h00 Borodin Quartet Quarteto Borodin D. Chostakovitch KEITH SAUNDERS 11 Out 19h00 Quarteto Borodin D. Chostakovitch 12 Out 19h00 Quarteto Borodin D. Chostakovitch 16 Out 19h00 Quarteto Borodin D. Chostakovitch 17 Out 19h00 Quarteto Borodin D. Chostakovitch Ingo Metzmacher ANJA FRERS Grande Auditório 13 Out 21h00 14 Out 19h00 14 Out 21h30 Solistas da Orquestra Gulbenkian (entrada livre) Trio Arriaga Felipe Rodriguez violino Oleguer Beltran-Pallarés violino Samuel Barsegian viola Maia Kouznetsova viola Varoujan Bartikian violoncelo Martin Henneken violoncelo Tchaikovsky, Chostakovitch 09 Dez 21h30 Solistas da Orquestra Gulbenkian (entrada livre) Ana Beatriz Manzanilla violino Jorge Teixeira violino Cristopher Hooley viola Jeremy Lake violoncelo João Paulo Santos piano Braga Santos, Chostakovitch 15 Dez 21h00 16 Dez 19h00 Orquestra Gulbenkian David Afkham maestro Sergei Khachatryan violino Prokofiev, Chostakovitch 15 Dez 21h00 16 Fev 21h00 17 Fev 19h00 Orquestra Gulbenkian Barbara Hannigan soprano/ maestrina Rossini, Mozart, Ligeti, Nono, Stravinsky, Chostakovitch 13 Abr 11 Artur Pizarro Martin André DR RICARDO BRITO alguns concertos para piano de Prokofiev e Rachmaninov serão tocados pela Orquestra Gulbenkian e permitirão comprová-lo. Chostakovitch é exemplo acabado desta dualidade russa, estando fortemente marcada no seu carácter vacilante entre a euforia e a depressão que se tornou ainda mais agudo nas circunstâncias históricas que lhe tocaram viver. A partir de 1934, em plena época de terror estalinista, o poder político começou a intervir de forma directa na criação musical. Chostakovitch foi um dos compositores eleitos pelo poder soviético para mostrar publicamente como deviam funcionar as regras da arte soviética. Dois anos após a estreia, a ópera Lady Macbeth foi acusada no Pravda de ser “caos em vez de música”, ou seja, de sacrificar o indispensável efeito educativo nas massas em prol da pretensão formalista. Chostakovitch reagiu compondo a premiada Quinta Sinfonia. A partir desse momen- to, viveu dividido entre uma prática pública e outra privada, entre a adaptação à pressão totalitarista e as suas próprias necessidades enquanto artista. Os quinze quartetos que escreveu entre 1938 e 1974 ilustram bem essa prática mais pessoal. Serão tocados na íntegra pelo Quarteto Borodin, no próximo mês de Outubro. Fundado em 1945, embora adoptasse o nome com que é conhecido alguns anos mais tarde, este quarteto viveu, com Chostakovitch, as sucessivas fases do regime soviético. Tem mantido a sua actividade sem interrupções até hoje, momento em que já não é vivo nenhum dos seus membros iniciais. Um deles, que foi também o último em falecer, foi o violoncelista Valentin Berlinsky. Numa entrevista que tivemos a oportunidade de lhe fazer, lembrava as lágrimas que o compositor deixava cair em silêncio durante as audições privadas dos seus quartetos, executados, entre outros agrupamentos, pelos Borodin. Imaginem, quando os escutem, que se encontram numa sala pequena repleta de amigos íntimos e de fantasmas. Onde ninguém se move e só se chora. Decidir se Chostakovitch foi ou não um dissidente tem sido um dos temas mais discutidos pela musicologia internacional. Mas, quem pode, vivendo numa democracia, exigir heroísmo a quem sofreu directamente a loucura do estalinismo? É certo, porém, que ele sobreviveu, enquanto muitos outros foram silenciados. Temos o exemplo de Nikolai Roslavets, cujo primeiro concerto para violino será escutado nos dias 27 e 28 de Outubro próximos. Defensor da nova música, particularmente de Schoenberg, e da tradição clássica, crítico com o dogmatismo dos “músicos proletários”, foi acusado em 1930 de contrarevolucionário e de inimigo do povo. A sua obra foi banida e só 21h00 Orquestra Sinfónica Portuguesa Martin André maestro Artur Pizarro piano Chostakovitch, Rachmaninov, Tchaikovsky começou a ser recuperada na passada década de 80. A música russa persiste até hoje não só no legado dos seus compositores, mas também na presença assídua de intérpretes russos no circuito internacional. Para além do Quarteto Borodin, ao longo desta temporada poderão ser escutados os pianistas Evgeny Kissin, Arcadi Volodos, Alexei Volodin e Grigory Sokolov, os violinistas Viktoria Mullova, Alina Ibramova, Sergey Khachatryan e Dmitri Maktin e o maestro Kirill Petrenko. Não serão escutados apenas músicos russos. Assim, por exemplo, no segundo e no terceiro dos concertos para piano de Rachmaninov, serão solistas Sequeira Costa e Artur Pizarro. No entanto, a ligação do primeiro com a música russa é conhecida, e não apenas como intérprete: em 1958 foi convidado por Chostakovitch para fazer parte do júri do prestigiado Concurso Tchaikovsky, do qual fez parte em várias ocasiões. 16 Abr 19h00 Gustav Mahler Jugendorchester Ingo Metzmacher maestro Iréne Theorin soprano Wagner, Chostakovitch Filmes Grande Auditório 07 Dez 2100 Shostakovich against Stalin:The War Symphonies Realização Larry Weinstein 1997, 76 min legendas em inglês 14 Dez 19h00 Shostakovich: Katerina Izmailova Realização Mikhail Shapiro 1966, 112 min legendas em inglês Wagner não é apenas mais um compositor: é também um motor da história de grande influência futura na música e na estética. A Gulbenkian apresenta-o em múltiplos contextos. Henrique Silveira Ciclo Wagner+ As mil interpretações Richard Wagner DR Na sua nova temporada de Música, a Fundação Calouste Gulbenkian dedica a Richard Wagner (Leipzig 1813 – Veneza 1883) uma “longa linha melódica da programação”. Os concertos Wagner+ “oferecem diferentes pontos de vista do seu universo criativo”. A expressão usada no editorial do programa que anuncia a temporada musical 11/12 da Gulbenkian não podia ser mais feliz.Wagner associa à sua vida e obra um verdadeiro universo: treze dramas musicais, obras teóricas como A Obra de Arte do Futuro, Arte e Revolução, Ópera e Drama, panfletos, ideias sobre teatro e arte, acção política e revolucionária. Relações amplamente documentadas com Liszt, Nietzsche e muitos outros pensadores. Wagner não é estático no tempo, o seu caminho desde o socialismo revolucionário de Bakunine e ideias de Feuerbach até ao pessimismo de Schopenhauer é muito importante na sua vida e obra. Wagner não é apenas mais um compositor: é também um motor da história de grande influência futura na música e na estética. A Fundação Gulbenkian apresenta Wagner em múltiplos contextos: nos próprios dramas musicais em versão de concerto, como o Tannhäuser, seguidos de excertos muito significativos de Siegfried; nas transmissões da Metropolitan Opera House de Nova Iorque do Siegfried e do Crepúsculo dos Deuses que concluem a tetralogia de Robert Lepage e de James Levine; nos excertos sinfónicos, com as aberturas e prelúdios em destaque, e as adaptações para orquestra da música do próprio compositor e de outros, onde se inclui uma visão do Anel sem palavras. Uma obra do maestro Lorin Maazel a partir de Wagner e que será escutada na Gulbenkian. As penosas digressões que levaram Wagner até à Rússia para reunir dinheiro para pagar as crónicas dívidas incluíam sempre excertos sinfónicos, um dos grandes motores da popularidade de Wagner nas duas décadas finais da sua vida. Nesta programação figuram também as transcrições para piano e as reduções para agrupamentos de câmara, que contribuíram para a divulgação inicial da música de Wagner. Finalmente, surgem as obras de autores influenciados por Wagner, tão díspares como Liszt, Smetana, Bruckner, Strauss, Chostakovitch entre muitos outros. É um universo mágico, onde figuram as lendas e mitologia nórdicas misturadas com poemas medievais alemães como a “Canção dos Nibelungos” que surge em todos os dramas musicais posteriores ao Navio Fantasma com a particularidade de serem sempre reinventadas pela imaginação de Wagner, criador de mitos. Richard Wagner tem servido ao longo dos anos como estandarte para múltiplos debates. Ainda é comum encontrar gente a quem desagrada a obra do compositor, apenas com base em preconceitos e ideias feitas relacionadas com as ideias políticas, filosóficas ou com as idiossincrasias do carácter do compositor. Os aproveitamentos políticos da sua vida e obra foram evidentes por parte de Hitler, que tentou estender a sua admiração pela música e obra de Wagner a todo o partido nazi e nação alemã sem, aliás, ter tido grande sucesso entre os seus apaniguados mais directos. Era mais um caso de gosto pessoal do que um culto generalizado, e foi, evidentemente, aproveitado em filmes de propaganda. O mais célebre destes filmes, O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl, usa a música de Wagner e uma estética neo-wagneriana para exaltar o partido nazi e o seu líder. Existe um paralelo no aproveitamento político dos artistas e da sua arte posto em evidência com o caso de Chostakovitch. No entanto há uma diferença considerável entre este e Wagner: o russo acreditou, com alguns problemas de consciência, na ideologia de Estaline, tendo Wagner morrido cinquenta anos antes de Hitler chegar ao poder. É evidente que Wagner tinha efectivo conhecimento do seu génio; chegou a ser escutado a dizer, dirigindo-se ao seu cão Peps em Dresden antes das barricadas de 1848, muito antes de ser famoso, “Se tu soubesses que quem te leva a passear é o grande Wagner!”. Isso tornava-o antipático aos olhos dos seus contemporâneos, nomeadamente aos do célebre crítico vienense Hanslick, que Wagner tratou com desdém nos seus primeiros encon- A sua instabilidade tonal será levada ao extremo pelas correntes vanguardistas do século XX tros. Um facto que lhe veio a granjear o rancor do professor de estética vienense. Wagner foi ainda desleal para com amigos e protectores, como Otto Wesendonck, quando vivia às suas expensas numa moradia nas traseiras do seu jardim, o chamado asyl, e a Hans von Bülow de quem tomou a sua segunda mulher, Cosima, filha do seu amigo e defensor Franz Liszt. A relação com Mathilde Wesendonck deu-nos obras notáveis, sendo a mais importante esse monumento ao amor que é o “Tristão e Isolda”, uma obra suprema, segundo as palavras do compositor Vianna da Motta. A relação com Cosima deu-lhe estabilidade para concluir o Anel, 26 anos após a sua concepção. O artista romântico, que foi Wagner, poderia encontrar o estado febril da criação artística sem o germe da paixão, do tormento e da culpa? A distância mágica do palco, o fluxo contínuo da acção dramática, sem quebras ou pausas, a sala escura, a orquestra invisível, o anfiteatro democrático de onde todos têm a Bertrand de Billy DR 12 CALENDÁRIO Wagner Concertos Filmes Grande Auditório Grande Auditório Ludwig Realização Luchino Visconti 1972, 185 min 05 Jan 21h00 06 Jan 19h00 Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Artur Pizarro piano Franz Liszt,Wagner/Liszt 08 Jan 21h00 Job Arantes Tomé DR 13 mesma visão e audição, o teatro pelo teatro, em que o público é o elemento central mas em que os actores/cantores representam como na vida sem poses declamatórias, tudo isso devemos a Wagner. A sua música goza de uma dualidade extraordinária: é de um sinfonismo absoluto, o Tristão tem um dos libretos mais curtos relativamente à extensão da obra e, ao mesmo tempo, é absolutamente funcional no serviço do drama.A orquestra é um personagem fundamental da obra, caracterizando e realizando a acção, tanto nos pontos naturalistas, acção como quando se ouve uma escala descendente na queda de Hunding desce em A Valquíria ou os cães a ladrar ao longe e os rios a fluir, como através de su subtis efeitos psicológicos, representando a felicidade, a angústia, o senta amor trágico, ou mesmo esperança num futuro e numa redenção que salvará o homem do futuro. salvar Wagner usa a técnica do leitW motiv, motivo condutor, tanto nas motiv vozes como na orquestra mas o seu emprego através desta torna-se caempr da ve vez mais evidente à medida que a sua obra amadurece. Cria uma teia de te temas que se torna num contraponto complexo chegando ao extremo de, no Crepúsculo dos Deuses, apresentar mais de mil pontos de apres inserção dos diversos temas conduinserç tores.A absorção da obra de Wagner tores pode ser intuitiva, porque toda essa teia sse entranha inconscientemente, mas ganha uma dimensão tanto maior quanto mais informada é preparação do público para a obra. paraç É também essa constante mutação dramática que leva à instabilidade tonal que serve fins estéticos e teatrais. Essa instabilidade será depois teatra levada ao extremo pelas correntes levad vanguardistas do século XX. vangu É muito difícil, fora do contexto dr dramático e mantendo uma estrutura tonal fixa, emular Wagner. trutu Um d dos mais wagnerianos dos seus seguidores, Bruckner, não consegue seguid romper com algum estatismo nas romp suas obras em que os temas não evoluem, sendo muitas vezes apenas evolu retomados, transpostos ou reorretom questrados , como tão bem notou quest André Boucourechliev. Andr Wagner tomou conhecimento no exílio 1854 da filosofia de SSchopenhauer. O libreto do Anel já estava escrito nessa altura e a obra literária sofre uma reinterpretação pelo próprio compositor, que escreve a música sob à luz das novas ideias. Esta sucessão permite uma série s de interpretações: umas Uri Caine piano Pedro Pacheco violino Otto Pereira violino Raquel Reis violoncelo Marc Ramirez contrabaixo Paulo Jorge Ferreira acordeão Wagner e Veneza Kirill Petrenko DR segundo as ideias de Schopenhauer, outras segundo o modelo socialista revolucionário do plano inicial, muitas, ainda, de acordo com as orientações pessoais de cada encenador ou de cada maestro: exemplo, Graham Vick vê o Anel como um conflito social, enquanto Herbert von Karajan o via como um conflito de gerações. A filosofia de Schopenhauer, não podendo entrar conscientemente no texto, já escrito, toma o seu lugar através da música. O próprio Wagner reinterpreta a cena da quebra da lança de Wotan por Siegfried como um acto de renúncia e não da tomada de poder pelo mais forte. Podemos dizer que a construção do fluxo dramático tem uma narrativa que se encerra também na própria música centrada na orquestra, e isso dá sentido àquilo que Maazel procurou fazer no seu “Ring without words”: “Tudo reside na orquestra”. As mil interpretações da música de um compositor que durante o tempo das suas circunstâncias biográficas projectou um futuro que ainda é hoje, leva-nos a ansiar pelo início do ciclo Wagner+. 12 Jan 19h00 15 Jan 16h00 08 Jan 15h00 13 Jan 19h00 Grande Auditório Parsifal Realização Hans Syberberg 1982, 255 min Conferências 08 Jan 19h00 Auditório Três Tannhäusser: do libreto de Wagner ao olhar de Visconti Conferência por Yvette Centeno e Nuno Vieira de Almeida Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Bertrand de Billy maestro Melanie Diener soprano Heidi Brunner soprano Ana Maria Pinto soprano Johan Botha tenor Charles Robert Reid tenor Dietmar Kerschbaum tenor Job Tomé barítono Falk Struckmann barítono Tannhäuser - Richard Wagner 23 Mar 19h00 Orquestra Gulbenkian Michael Boder maestro Wagner, Ligeti,Wagner/Maazel Uri Caine CARLOS LOPES 15 Abr 19h00 Gustav Mahler Jugendorchester Ingo Metzmacher maestro Iréne Theorin soprano Wagner,Webern, Zimmermann, Scriabin 16 Abr 19h00 Gustav Mahler Jugendorchester Ingo Metzmacher maestro Iréne Theorin soprano Wagner, Chostakovitch Dietmar Kerschbaum 03 Mai 21h00 04 Mai 19h00 Orquestra Gulbenkian Kirill Petrenko maestro Scott MacAllister tenor Wolfgang Koch baixobarítono Peter Galliard tenor Siegfried (1º Acto) - Richard Wagner 10 Mai 21h00 11 Mai 19h00 Michael Boder DR Johan Botha DR Orquestra Gulbenkian Kirill Petrenko maestro Scott MacAllister tenor Anna Katharina Behnke soprano Wagner,Tchaikovsky Ana Maria Pinto DR Melanie Diener DR DR Freiburger Barockorchester MARCO BORGGREVE A curiosidade que nesta temprada explora Músicas do Mundo e parcerias extraordinárias parece perder algum do seu vigor quando encara o horizonte da música antiga. Vanda de Sá Ciclo de Música Antiga Brilho relativo René Jacobs PHILIPPE MATSAS O conjunto de 7 programas que constituem o ciclo de Música Antiga da Temporada Gulbenkian celebra grandes nomes do cânone internacional, com Johann Sebastian Bach à cabeça; privilegia a música vocal com algumas das maiores estrelas do canto, umas firmadas como Andreas Scholl, outras emergentes como Philippe Jaroussky; não abarca os reportórios anteriores ao período barroco; ignora quase a música criada em Portugal; não reflecte uma linha de diferenciação e sim uma inserção da música antiga enquanto universo estável, sem questões intrínsecas suficientemente fortes para estimular ciclos internos de programação e pensamento. Este último aspecto é sintoma de maturidade de reportórios, mas denota um empobrecimento da curiosidade em relação a tudo o que continua ainda a ser revelado e é novo no universo da música antiga. A curiosidade que explora Músicas do Mundo e parcerias extraordinárias parece perder algum do seu vigor quando encara o horizonte da música antiga. Em matéria de espectáculo vocal promessa de drama, coloratura e algumas extravagâncias histriónicas no recital de Patricia Petibon que na esteira do seu mais recente trabalho discográfico intitulado Rosso cantará árias de ópera de autores como Haendel, Vivaldi e A. Scarlatti ao lado de outros menos conhecidos como Alessandro Stradella ou Tarquinio Merula. Lembramo-nos dos caminhos desbravados por Cecilia Bartoli em matéria de reabilitação de reportórios em recitais de ópera, da exploração de contrastes, sussurros, suspiros, ênfases, sublinhados e itálicos de toda a ordem. Voltamos a querer ouvir Bartoli. Neste recital, Petibon conta com o acompanhamento da Venice Baroque Orchestra sob a direcção empolgante de Andrea Marcon. Os amantes de ópera não quererão perder a abertura do ciclo com La finta Giardiniera, K.196 de Mozart sob a direcção de René Jacobs, o maestro que, antecedido por John Eliot Gardiner, mais contribuiu para a releitura do texto musical das óperas de Mozart que se verificou a partir da década final do século XX. Uso de edições críticas, recuperando textos integrais e evitando cortes ditados pela tradição (nomeadamente em recitativos), tempos rápidos, vozes “refrescantes”, equilíbrio de elencos, elegância estilística, uma beleza profundamente marcada por um hálito de juventude. Nem todos os registos primaram (Gardiner, DG-Archiv; Jacobs, Harmonia Mundi) pelo mesmo nível de realização mas Cosi fan tutte foi em ambos os projectos Mozart um caso de sucesso extraordinário. Certo é que as óperas de Mozart se constituíram como um dos núcleos de reportório (et pour cause) em que se equilibraram e consolidaram de forma particularmente consistente as premissas de uma interpretação historicamente informada mas consciente das suas limitações, liberdades e constrangimentos num jogo de equilíbrio com uma tradição rele- 14 CALENDÁRIO Música Antiga Grande Auditório 02 Out 19h00 Thomas Hengelbrock Fernando Guimarães Jeannette Sorrell FLORENCE GRANDIDIER DIDIER DR CHAUTAUQUAN DAILY Freiburger Barockorchester René Jacobs maestro Jeremy Ovenden tenor Sophie Karthauser soprano Alexandrina Pendatchanska soprano Marie-Claude Chappuis meio-soprano Sunhae Im soprano Jeffrey Francis tenor Michael Nagy baixo La finta giardiniera, K. 196 - W. A. Mozart 14 Nov 19h00 Appolo’s Fire Ensemble Jeannette Sorell maestrina Philippe Jaroussky contratenor Vivaldi, Händel 29 Nov 21h00 Balthasar Neumann Choir & Soloists Balthasar Neumann Ensemble Thomas Hengelbrock maestro Zelenka, J. S. Bach 30 Nov 21h00 Coro Gulbenkian Michel Corboz maestro Charlotte Müller Perrier soprano Fernando Guimarães tenor Nicholas McNair órgão Thilo Hirsch violoncelo J. S. Bach, Francisco António de Almeida, D. Scarlatti 03 Dez 15 vante. La finta Giardiniera (libreto de Giuseppe Petrosellini) foi estreada em Munique em 1775, quando o compositor tinha 18 anos. Trata-se de uma das óperas mais ignoradas do autor mau grado revelar o toque de génio emergente e anunciar a maturidade em Mozart, em concreto a capacidade de transcender constrangimentos formais. Em 1779 a ópera foi adaptada ao formato singspiel (com texto em alemão), conquistando notória popularidade junto do público. René Jacobs dirige a Freiburger Barockorchester (fundada em 1987) que juntamente com a Akademie für alte Musik (1982) ou o Concerto Köln (1985), entre outras formações, é no presente uma das mais importantes orquestras, cujo reportório sintomaticamente se tem vindo a expandir a períodos mais recentes e que apresentam características de paleta sonora e de articulação que as diferenciam de formações francesas, italianas e mesmo inglesas, assumindo-se o Hespérion XXI como um caso à parte. A mesma Freiburger Barockorchester propõe um reforço de sintonia de identidade no concerto intitulado Em demanda da Flor Azul, sob a direcção de Pablo Heras-Casado (20 Março). Trata-se da flor que o jovem poeta medieval criado por Novalis tenta alcançar, evocando um remoto paraíso espiritual e poético que orientou o primeiro romantismo alemão.Também oriundos de Freiburg nos visitam o Balthasar Neumann Choir and Soloists e o Ensemble do mesmo nome que sob a direcção de Thomas Engelbrock interpretarão obras de inspiração católica do compositor boémio Jan Dismas Zelenka (16791745) e de J. S. Bach. Os pequenos textos de apresentação do programa Gulbenkian quase sempre privilegiam os intérpretes, cabendo aqui por isso apresentar resumidamente a embaixada musical portuguesa concentrada em exclusivo em Francisco António de Almeida (c. 1702-1755). Contemporâneo de Carlos Seixas é um dos insignes músicos em actividade durante o reinado de D. João V e autor de obras largamente reconhecidas como La Spinalba (ópera) e La Giuditta (oratória) que espelham uma maestria musical de excelência. Acabou de ser publicada a edição crítica do Te Deum, que valerá a pena programar em iniciativas como a do Te Deum em São Roque (31 Dez. com o Coro Gulbenkian e o Divino Sospiro sob a direcção de Jorge Matta). Concerto aqui assinalado porque tem a virtude de oferecer um cenário de excelência para a música antiga, como outrora se fez nas Jornadas de Música Antiga da Fundação Gulbenkian. No capítulo das efemérides que poderiam celebrar-se de alguma forma – sobretudo se o entendimento consensual é o de que as datas redondas são bons pretextos para sublinhar a obra de compositores menos ouvidos – refiram-se os 250 anos de nascimento de Marcos de Portugal (Lisboa, 24 de Março de 1762 – Rio de Janeiro, 17 de Fevereiro de 1830) e os 300 anos de nascimento do compositor napolitano David Perez (1711-1778). Este último, trabalhou em Portugal desde 1752 até à sua morte, ocupando o cargo de Compositor da Real Câmara e de “Mestre de Música de Suas Altezas Reais”. Foi com a sua ópera Alessandro nell’Indie que se inaugurou a Ópera do Tejo em 1755. A avaliar a extensiva disseminação da música de Marcos António Portugal podemos considerar estarmos perante o compositor português de maior reconhecimento internacional de todos os tempos. Algumas obras importantes têm sido alvo de recentes edições críticas, sendo expectável que a programação da próxima temporada de música Gulbenkian não passe ao lado da efeméride. Pablo Heras-Casado MIGUEL PEÑALVER 21h00 Venice Baroque Orchestra Andrea Marcon maestro Patricia Petibon soprano Joel Grare percussão Händel, Stradella, A. Scarlatti, Vivaldi, F. Geminiani,T. Merula, A. Sartorio 07 Fev 21h00 Kammerorchester Basel Julia Schröder maestrina Andreas Scholl contratenor J. S. Bach 20 Mar 21h00 Freiburger Barockorchester Pablo Heras-Casado maestro Kristian Bezuidenhout pianoforte Schubert, Schumann, Mendelssohn Andreas Scholl JAMES MCMILLAN/DECCA É privilegiada a música vocal, com estrelas emergentes ou já firmadas, como Scholl Entrevista com Karita Mattila Diva! Porque não? Cinco anos depois da sua última actuação na Gulbenkian a diva espontânea que é Karita Mattila volta a Lisboa num recital acompanhada pelo pianista Martin Katz. Abre a temporada. Rui Lagartinho Martin Katz DR Ainda estávamos a saborear a felicidade de ter escutado Karita Mattila ao vivo na véspera num recital inesquecível, quando de repente entrando algures no lisboeta eléctrico 28, pareceu-nos reconhecer aquela enorme loura sentada num lugar à janela olhando para o bulício das ruas da baixa de Lisboa. Sim, era ela, em pausa descontraída, no dia seguinte a um recital em que meteu o público no bolso chegando nos encores a cantar descalça. A mais natural das divas da actualidade, tem uma carreira de quase trinta anos que saltou para o estrelato depois de em 1983 ter vencido o exigente concurso de canto de Cardiff no País de Gales. A partir daí as melhores casas de ópera abriram as portas ao talento desta soprano: nos últimos vinte anos foi uma assídua da Metropolitan Opera House de Nova Iorque onde se estreou como Dona Elvira no Don Giovanni de Mozart em 1990. E foi aí que em 2004 a sua Salomé, descarnada e visceral, nua por instantes porque il faut, fez furor destapando segundo os críticos o véu de todas as emoções. A sombra da heroína da ópera de Richard Staruss não mais a largou. É a cabeça de cartaz de uma mão cheia de mulheres fortes que incluem as heroínas de Janacek Katia Kabanova e Jenufa, a Elisabeth do Don Carlo de Verdi ou a Leonore em Fidelio de Beethoven. Como é óbvio Karita Mattila integra com orgulho a plêiade de cantores, compositores, maestros, clarinetistas que têm vindo a fazer com que os melómanos passem a reparar na Finlândia. Mattila chega a Lisboa – uma cidade que ela adora e que comprovadamente gosta de desfrutar – vinda de Helsinquia onde há dias voltou a cantar o ciclo Four Instants da compositora finlandesa Kaija Sariaaho. Até ao fim do ano ainda volta à ópera de Houston com a sua Leonore. Há umas semanas enviámoslhe algumas perguntas. A resposta a elas foi a última coisa que fez antes de ir de férias. Que memórias tem da sua última passagem pela Fundação Gulbenkian? Eu e o meu marido adoramos Lisboa. E das duas vezes que aí cantei cheguei mesmo a fazer alguns amigos. Diverti-me imenso. Guardo muitas e boas memórias e reparei que o público que assistiu ao meu recital era muito jovem. Berg, Brahms, Debussy e Strauss. Com que critérios desenhou este recital? A vida é demasiado curta para cantar aquilo de que não se gosta. Este é o critério principal que uso para escolher tudo aquilo que canto. A partir daí tudo é possível.Tenho a sorte de a música de que eu gosto ser suficientemente vasta de modo a permitir-me renovar o meu reportório de forma regular. Escolhi uma série de canções de Strauss que adoro. Mas antes começo com Siebe frühe lieder. Berg é um compositor muito intenso e que requer um grande nível de concentração por parte do público. É bom para iniciar um recital com um grande desafio. E eu ADORO desafios. Debussy introduz uma atmosfera diferente na sala depois de uma primeira parte de canto alemão e por sua vez faz uma excelente passagem para as canções de Strauss com que termino a noite. Não vem a Lisboa cantar a ópera mas será sempre aquilo que designamos por animal de palco. Essa tarimba está sempre lá, com ou sem encenação? Ninguém se pode esquecer que “A vida é demasiado curta para cantar aquilo de que não se gosta. Este é o critério principal” eu sou sobretudo uma cantora de ópera profissional que aprendeu a usar, em estudo e em treino, todas as ferramentas dramáticas. A ópera é uma forma de teatro. Sou de facto um animal de palco. É algo natural em mim. Há uma fotografia absolutamente extraordinária tirada pelo Richard Avedon em que abraça a cabeça de São João Baptista embevecida com o troféu. É uma espécie de talismã? A Salomé de Richard Strauss é a sua imagem de marca? Eu também adoro essa foto. Deu-me a oportunidade de conhecer o Richard Avedon antes de mais. É uma fotografia que me faz sentir bem comigo própria. Mas há outras heroínas no meu reportório que eu amo apaixonadamente: Leonore, Katya, Jenufa, Manon Lescaut, Emilia Marty, Tatiana… o leque é felizmente amplo. É também uma importante divulgadora da música finlandesa no mundo. Cantar boa música finlandesa um pouco por todo o mundo é muito especial para mim e enche-me de orgulho. Em relação à música contemporânea sinto-o como um dever, estreá-la, divulgá-la. Mas atenção: eu só escolho boa música. CALENDÁRIO Katita Mattila Grande Auditório 17 Set 19h00 Karita Mattila soprano Martin Katz piano Alban Berg Sieben frühe Lieder Johannes Brahms Meine Liebe ist grün, op. 63 nº 5 Wiegenlied, op. 49 nº 4 Von ewiger Liebe, op. 43 nº 1 Vergebliches Ständchen, op. 84 nº 4 Claude Debussy Harmonie du soir Le jet d’eau Recueillement Richard Strauss Der Stern, op. 69 nº 1 Wiegenlied, op. 41 nº 1 Allerseelen, op. 10 nº 8 Frühlingsfeier, op. 56 nº 5 Karita Mattila DR Tem tempo para si fora dos palcos? Acho que ao fim destes anos todos já encontrei um equilíbrio entre trabalho e descanso. É fundamental para recuperar energias estar cem por cento em forma e tirar prazer do que faço. E se quiser saber sobre o futuro, enquanto tiver saúde e resistência física NÃO, não tenho planos para me retirar tão depressa. A última vez que cantou em Lisboa descalçou-se para os encores. E agora? Tem alguma surpresa planeada? Veremos. Se contasse, deixaria de ser surpresa. 16 17 Deutsche Kammerphilharmonie Bremen Ciclo Grandes Orquestras EBERHARD HIRSCH Mudança de paradigma O regresso para duas residências artísticas na Gulbenkian da Chamber Orchestra of Europe e da Gustave Mahler Jugendorchester marca o ciclo Grandes Orquestras desta temporada. Rui Lagartinho O grande acontecimento do ciclo Grandes Orquestras deste ano vai ser a residência em Lisboa durante duas semanas do compositor, pianista maestro britânico Thomas Adès (Londres, 1971). Três concertos dirigidos pelo próprio Adès – um deles à frente da Orquestra Gulbenkian – vão dar a conhecer um compositor de obra vasta e diversificada. Alguém que afirma que “Escrever música é construir um mundo imaginário com sons do mundo real.” Um dos seus mais recentes trabalhos que escutaremos em Lisboa (é uma co-encomenda da Fundação Gulbenkian), Polaris: Que clima retirará o quase tropical Dudamel duma orquestra que vem do frio? Voyage for orchestra, abriu com estrondo o novo auditório de concer tos desenhado por Frank Gehry em Miami. Dado a conhecer por Simon Rattle ainda em Birminghan, ainda no século XX, Adès tem uma longa parceria com a Chamber Orchestra of Europe com quem gravou em 2005 o seu concerto para violino. Uma obra que também vai ser executada no Grande Auditório. Nos últimos anos assistimos por parte da Gulbenkian a uma mudança de paradigma em relação ao ciclo Grandes Orquestras. Luís Pereira Leal, o anterior director do Serviço de Música, iniciou essa mudança, hoje clara: em vez de escutarmos ano após ano um ramalhete das melhores orquestras do mundo em digressão europeia, passou a optar-se por um modelo de residência artística, com mais concertos e com uma maior interacção pedagógica com o público. O regresso da já citada Chamber Orchestra of Europe mas também o da Gustav Mahler Jugendorchester são excelentes escolhas 18 Thomas Adès CALENDÁRIO BRIAN VOCE Grandes Orquestras Grande Auditório 24 Out 21h00 Philharmonia Orchestra Esa-Pekka Salonen maestro Nick Hillel encenador Michelle DeYoung soprano Sir John Tomlinson baixo Natália Luiza narradora Janácek, Bartók 05 Dez 21h00 Deutsche Kammerphilharmonie Bremen Trevor Pinnock maestro Maria João Pires piano Beethoven, Schubert 19 Jan 21h00 Chamber Orchestra of Europe Thomas Adès maestro Toby Spence tenor Leila Josefowicz violino Adès, Berlioz, Sibelius Gustavo Dudamel STEP HAISELDEN 22 Jan 19h00 Chamber Orchestra of Europe Thomas Adès maestro Nicolas Hodges piano Tal Rosner vídeo Beethoven, Adès Göteborgs Symfoniker ANNA HULT 27 Mar 21h00 Göteborgs Symfoniker Gustavo Dudamel maestro R. Strauss, J. Haydn 15 Abr 19h00 Gustav Mahler Jugendorchester Ingo Metzmacher maestro Iréne Theorin soprano Wagner,Webern, Zimmermann, Scriabin 13 Abr 21h00 Orquestra Sinfónica Portuguesa Martin André maestro Artur Pizarro piano Chostakovitch, Rachmaninov, Tchaikovsky 16 Abr 19h00 Gustav Mahler Jugendorchester Ingo Metzmacher maestro Iréne Theorin soprano Wagner, Chostakovitch 13 Mai 19h00 Deutsche Kammerphilharmonie Bremen Trevor Pinnock maestro Maria João Pires piano Beethoven, Schubert 19 nesta estratégia e o facto de voltarem à Fundação demonstram bem a confiança e a cumplicidade que já atingiram com o público português. Este ano, quebrando uma tradição já longa o ciclo Grandes Orquestras está totalmente ausente do Coliseu dos Recreios de Lisboa. Lamentamos, porque obviamente uma sala com a dimensão do Coliseu amplia o impacto do ciclo junto de um público mais vasto. Mas compreendemos que a sus- tentabilidade económica dos dois modelos – digressão e residência – seja incomportável mesmo para um orçamento generoso como o do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian. Mas há mais regressos. A Philarmonia Orchestra abre o ciclo. O seu director musical Esa-Pekka Salonen traz a Lisboa mais uma das suas propostas multimédia desta vez em torno da ópera em um acto de Béla Bartók O Castelo do Barba Azul. O espectáculo integra-se no ciclo que pre- tende dialogar com a linguagem teatral e que atravessa grande parte da temporada. Lawrence Foster dirige o Ensemble Orchestral de Paris num programa com um french touch acompanhando Jean-Yves Thibaudet – a par com Hélène Grimaud um dos melhores pianistas franceses da actualidade – no concerto número dois de Saint-Saëns. Regressa também Gustavo Dudamel, desta vez com o terceiro vértice do triângulo das orquestras que dirige regularmente e que ainda nos faltava ouvir em Lisboa: a sueca Göteborgs Symfoniker. Que clima retirará o quase tropical Dudamel duma orquestra que vem do frio? A reposta vai estar em dois poemas sinfónicos de Richard Strauss: Don Juan e Assim falou Zaratustra. Uma curiosidade: em Abril a Orquestra Sinfónica Portuguesa e Orquestra Gulbenkian trocam de casa. A OSP vem ao Grande Auditório pela mão do habitué Artur Pizarro. A Gulbenkian leva Sequeira Costa ao teatro S. Carlos. Mestre e discípulo tocam algo que ambos sabem fazer bem: os concertos dois e três de Rachmaninov. E… abençoado Trevor Pinnock. Pela sua mão, Maria João Pires regressa ao Grande Auditório da Fundação Gulbenkian após uma ausência de quase dez anos. Vem com a Deutsche Kammerphilarmonie de Dresden e traz o concerto número três de Beethoven na bagagem. Alguém de quem a pianista nunca se afastou. Ciclo Teatro/Música Audácia e interrogações No Serviço de Música da Fundação nunca houve uma iniciativa desta amplitude e audácia, apesar de co-produções anteriores. Mas ainda há interrogações a precisar de resposta. Augusto M. Seabra Cão Solteiro e Vasco Araújo – A Portuguesa JOANA DILÃO A proposta mais inovadora da Temporada 2011-2012 da Gulbenkian é o início de uma colaboração com o Teatro Maria Matos dedicada a “Teatro/Música”. Embora o Serviço de Música da Fundação já tenha feito co-produções com outras instituições culturais, como a Culturgest, nunca houve uma iniciativa desta amplitude e audácia. Poderá ser apenas coincidência, ou antes tópico de reflexão, que uma tal iniciativa conjunta surja quando os directores das instituições envolvidas são um finlandês, Risto Nieminen, e um belga, Mark Deputter, no Maria Matos. A forma tradicional ao longo dos séculos de teatro musical foi a ópera. Por diversos motivos, a estandardização do cânone estabeleceu como limite do dito “reportório corrente” a Turandot de Puccini (1924), quando muito estendendo-se a algumas óperas posteriores de Richard Strauss. Por outro lado, a narrativa modernista da geração do segundo pós-guerra estabeleceu como “última ópera” a Lulu de Alban Berg (1935). O dogmatismo era tal que um compositor como Hans Werner Henze foi mesmo “proscrito” pela sua insistência no género. Mas desde Intolleranza de Luigi Nono (1960) alguns “vanguardistas” retomaram o género, Nono e Berio sobretudo. E desde os anos 90, em paralelo à grande renovação do interesse público pelo género dito “morto” da ópera, a escrita de novas obras tornou-se regular. Por outro lado, os dois autores mais emblemáticos do século XX musical, Arnold Schönberg e Igor Stravinsky, tinham composto importantes obras de teatro musical de câmara, Pierrot Lunaire e Histoire du Soldat, indiciando outras modalidades cénicas. Nas últimas décadas, variadíssimas obras, designadamente de Kagel, Bussoti, Aperghis e, nalguns casos, de Ligeti ou Cage, são CALENDÁRIO Teatro/Música 04 Out 21h30 Teatro Maria Matos Cão Solteiro e Vasco Araújo A Portuguesa 21 Out 21h00 Philharmonia Orchestra Esa-Pekka Salonen maestro Nick Hillel encenador Michelle DeYoung soprano Sir John Tomlinson baixo Natália Luiza narradora Janácek, Bartók 10 Nov 21h00 11Nov 19h00 Grande Auditório Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Peter Eötvös maestro Julia Bauer soprano Jorge Matta director coral Pedro Amaral desenho som Momente - Karlheinz Stockhausen 02 Mar 21h30 Teatro Maria Matos Nature Theater Oklahoma Life and Times – Episode 2 29 Abr 19h00 Grande Auditório Rui Horta coreografia, luz e cenário Rolf Hind piano Bailarino a anunciar Danza Preparata John Cage: Sonatas e Interlúdios para piano preparado 20 Mai 21h30 Teatro Maria Matos Oscar Bianchi OrchestrUtopica Franck Ollu maestro Jöel Pommerat encenação Thanks to my eyes 2 20 representativas de inúmeras possibilidades de um específico “teatro instrumental” e do “teatro musical” em geral. “Revelar a multi-facetada relação entre o teatro e a música” num programa abrangente e audacioso com “um leque variado de aproximações entre as duas formas de arte” é o intuito do ciclo, ou melhor, deste novo módulo de programação, pois que é para ser prosseguido. E a abertura não podia ser mais surpreendente, até por ser uma reposição: A Portuguesa, um espectáculo da companhia teatral Cão Solteiro e do artista visual Vasco Araújo, a pretexto do hino nacional (04-10-11). Outro espectáculo característico da programação do Maria Matos, mas que há a assinalar nesta programação conjunta, é Life and Times – Episode 2 pela companhia americana Nature Theater of Oklahoma, um “musical” (1, 2 e 3-03-12). Naquele que é por certo um dos destaques maiores de toda a temporada, a admirável ópera que é O Castelo do Barba Azul de Bartók, dirigida por Esa-Pekka Salonen é apresentada numa versão cénica multimédia (24-10-11). Há também uma nova ópera do compositor suíço Oscar Bianchi, com um encenador de relevo, Joël Pommerat, Thanks to my eyes (19 e 20-05-12). E, embora não constem do ciclo, não se podem deixar de referenciar a oratória (cénica) Joana d’Arc na Fogueira de Honneger com Fanny Ardant (15 e 16-03-12) ou uma apresentação também cénica da ópera A Hora Espanhola de Ravel (31-05 e 01-06-12). Mas, voltando ao ciclo Teatro/ Música há um espectáculo credor de grandes expectativas, as Sonatas e interlúdios para piano preparado de John Cage, com concepção cénica de Rui Horta (29-04-12), que já mostrou as suas capacidades num espectáculo na Casa da Música a partir do célebre 4’33’’ do mesmo Cage. E há, é claro, momento cimeiro de toda a temporada, Momente, obra que é verdadeiramente a apoteose de Stockhausen (10 e 11-11-11). Esta atenção a situações de “contemporaneidade” implica con- siderar para além do estrito ciclo Teatro/Música o espaço ocupado propriamente pela música contemporânea na temporada da Gulbenkian. E embora a presença seja maior do que na temporada passada, há algumas interrogações que permanecem. O módulo de “retrato de um compositor” regressa com o dedicado a Thomas Adès em concertos por ele dirigidos com obras suas e também de compositores clássicos, com a prestigiada Chamber Orchestra of Europe (19 e 22-01-12) e a Orquestra Gulbenkian (27 e 2801-12). Nascido em 1971, Adès é um caso de sucesso considerável, não isento de controvérsia pela sua idiossincrasia, combinando ecos tardo-românticos com uma patente vitalidade. Assinalem-se ainda dois programas da programação regular da Orquestra Gulbenkian, um exclusivamente contemporâneo, o que é facto raro, sob o título genérico de California Dreaming, em que Joana Carneiro dirige obras de Golijov, Salonen e John Adams (17 e 18-1111), e aquele, surpreendente e do maior interesse, em que a prodigiosa soprano Barbara Hannigan será simultaneamente solista e maestrina, entre outras em obras contemporâneas de Nono e Ligeti (16 e 17-02-12). Mas um dos destaques maiores no que à contemporaneidade diz respeito é o concerto do Remix Ensemble da Casa da Música com duas obras do grande compositor alemão Wolfgang Rihm, que desde os anos 70 protagonizou uma reacção (poderíamos dizer que “neo-expressionista” embora o rótulo possa ser limitativo) aos cânones da “vanguarda”, uma das quais em estreia mundial (18-03-12). Nesse mesmo concerto figura uma obra de Emmanuel Nunes, Improvisation I – für ein Monodram, e a propósito tem que se fazer uma observação: Nunes também não pode passar da situação de “favorito da corte” que teve durante décadas na Gulbenkian, para um ausente ou alguém que, como no caso, vem por via de outra instituição. Mas há mais: apenas há dois outros compositores portugueses presentes, Carlos Caires, com uma obra que é encomenda da Antena 2 (0810-11), e Pedro Amaral, com Transmutations pour orchestre, encomenda da Câmara Municipal de Matosinhos (19 e 20-04-12). Já o escrevi no ano passado mas por maioria de razões o reforço agora: embora se compreenda que haja aspectos que demoram tempo a concretizar-se, como a possível redefinição de uma política de Nature Theater of Oklahoma, Life and Times – Episode 2 DR Grandes expectativas para as Sonatas de Cage com concepção cénica de Rui Horta Rui Horta DR 21 encomendas, o quase grau zero nessa matéria (há apenas Polaris: Voyage for Orchestra, de Adès, uma co-encomenda da Gulbenkian) também é preocupante, bem como a escassa atenção a autores portugueses contemporâneos ou a falta quase total de estreias absolutas de novas obras, tanto mais que Risto Nieminen tem amplas credenciais nesse sector, ele que até já foi director de uma instituição de referência como o IRCAM em Paris. Este é o “buraco negro” de uma temporada inovadora e de expectativas excelentes. Goran Bregovic Anoushka Shankar DR BERNADO DORAL/DG Maria João e Mário Laginha António Zambujo DR SARA MATOS Natacha Atlas Yair Dalal DR DR 22 Ciclo Músicas do Mundo CALENDÁRIO Outra ousadia Músicas do Mundo Grande Auditório 30 Out 19h00 Yair Dalal Bagdad – Jerusalém 21 Nov 21h00 Ryuichi Sakamoto Trio World Tour 2011 04 Dez Se o objectivo está traçado desde a anterior temporada – conquistar novos públicos e surpreender os “habitués” – esta segunda edição do ciclo Músicas do Mundo leva ainda mais longe essa ambição. Jorge Lima Alves 23 Quando, na temporada anterior, Risto Nieminen, o novo director do Serviço de Música da Gulbenkian, arriscou programar um ciclo Músicas do Mundo, não foram poucos os que se assustaram. Basta, agora, folhear o programa da edição 11/12 para perceber que a aposta vingou. Este ano, para além de mais concertos (dez, em vez de sete), há igualmente outra ousadia. O ciclo acedeu, claramente, a um novo patamar de ambição e, ao lado de grandes nomes (Ryuchi Sakamoto, Anoushka Shankar, Goran Bregovic, Natacha Atlas e Angelique Ionatos), surgem outros quase desconhecidos entre nós (Yair Dalal, Max Raabe, Cristina Zavalloni, Alireza Ghornani e Dorsaf Hamdani), para já não falar da surpresa que constitui a inclusão de duas propostas nacionais (a revelação António Zambujo e os consagrados Maria João e Mário Laginha). O mínimo que se pode dizer é que o programa em análise é aliciante e arrojado. Se, por exemplo, todos estes concertos tivessem lugar num fim-de-semana, poderíamos estar a falar do mais ousado festival do género a ter lugar em Portugal. Apetece perguntar: quem mais se atreveria a juntar num palco tão prestigiado uma tal diversidade de estilos musicais? Curiosamente, tal como no ano passado, tudo começa com um virtuose do oud, o mais nobre dos instrumentos do Médio Oriente: o israelita Yair Dalal, que tem vindo a aprofundar e a resgatar as tradições musicais de toda aquela região do globo, sem esquecer as da antiga Babilónia e dos beduínos do deserto do Sinai. Verdadeiro paladino da paz entre judeus e árabes, autor de mais de uma dezena de discos aclamados, Dalal faz-se acompanhar por quatro instrumentistas de eleição (David Menachen, Elad Gabay, Elad Harel e Avi Agababa) a fim de apresentar no dia 30 de Outubro, às 19horas no Grande Auditório (onde, de resto, decorre todo o ciclo), um concerto com um título muito apelativo: Bagdad – Jerusalém: música sacra da antiga Bagdad. Segue-se, a 21 de Novembro (21h), uma proposta radicalmente diferente: Ryuchi Sakamoto em trio com Jacques Morelenbaum (e outro músico a designar). Embora a parceria entre os dois venha desde meados dos anos 90 (o violoncelista participou no álbum 1996, onde Sakamoto revisitava parte da sua obra em trio), aprofundou-se em 2001, quando o japonês e o brasilei- ro se juntaram para lançar um álbum de homenagem a António Carlos Jobim, gravado na própria casa do compositor carioca. Aquela que é, talvez, a proposta mais inesperada desta edição traz a Lisboa, no dia 4 de Dezembro (19h), o alemão Max Raabe, um vocalista singular que recria a música daquilo a que podemos chamar “os bons velhos tempos” da República de Weimar (1919-1933). Graças à voz “aveludada” do protagonista e a uma orquestra muito bem oleada, servida por arranjos irrepreensíveis, está assegurado um serão de perfeita e estimulante nostalgia. A 12 de Dezembro (21h), regressa a Lisboa Anoushka Shankar, para propor um concerto sugestivamente intitulado Traveller. Acompanhada por músicos indianos e andaluzes, a filha de Ravi Shankar procurará fazer-nos remontar no tempo e no espaço, embarcandonos numa viagem imaginária (e quão apelativa!), que segue, em sentido inverso, o percurso milenar do povo rom, da Andaluzia ao Rajastão, atravessando a Europa, o Irão, o Iraque e a Arménia. Mais intimista, o concerto de 14 de Janeiro (21h) intitula-se Per caso Aznavour e traz até nós o actual quarteto de Cristina Zavalloni, uma cantora italiana com dupla formação (erudita e jazzística), cujo impressionante currículo inclui colaboraçõess com Louis Andriessen, Michael Ny-man e Gavin Bryars. Zavalloni, quee recria amorosamente algumas dass mais belas canções de Charles Azna-vour, canta ocasionalmente em por-tuguês, pelo que será de esperar quee o faça nesta ocasião. A 6 de Fevereiro (21h), o Gran-de Auditório da Avenida de Bernaa recebe Goran Bregovic (o compo-sitor preferido do realizador Emirr Kusturica). O espectáculo, muito in-censado pela imprensa estrangeira, a, conta com a participação da sua Or-questra de Casamentos e Enterross e da actriz portuguesa Ana Moreira, a, intitulando-se Margot, memórias dee uma rainha infeliz. Recorde-se quee Maria de Médici (1575-1642), a so-berana em questão, inspirou um m magnífico filme realizado por Patricee Chéreau, para o qual, aliás, o músico o sérvio escreveu a partitura sonora.. No dia 26 de Fevereiro (19h),, Natacha Atlas inscreverá o seu no-me na história da Fundação Gul-benkian. A cantora vem apresentar o projecto Mounqaliba, in a state of reversal que, o ano passado, deu origem a um disco ambicioso, mas infelizmente desigual, alternando “co- vers” (como Riverman, de Nick Drake e La nuit est sur la ville, de Françoise Hardy, ambos deliciosamente jazzy), com composições mais classizantes e orientalizadas (nomeadamente as belíssimas Makaan e Taalet). Nascida em Bruxelas, filha de uma inglesa (convertida ao islamismo) e de um egípcio (nascido em Jerusalém), Natacha Atlas cresceu em Marrocos é, há já vários anos, e com toda a justiça, uma das grandes divas da “world music”. A 24 de Março (21h), mais uma grande dama em foco: a grega Angelique Ionatos. Cantora, guitarrista e compositora, ela vem confrontarnos com Eros y Muerte, um belíssimo trabalho discográfico (editado em 2007), inspirado pela forma como as mulheres de Creta evocam os seus mortos. Apaixonadamente cantado em três línguas (grego, espanhol e francês), o repertório assenta, em grande parte, em versos de Pablo Neruda, mas conta também com poemas de Kostas Karyotakis, Kostis Palamas e Anna de Noailles, todos magnificamente musicados pela própria artista. Alguns dias mais tarde (9 de Abril, 21h), Alireza Ghobani e Dorsaf Hamdani, dois cantores clássicos (ele iraniano, ela tunisina), evocarão a inebriante poesia de Omar Khayyam, através das suas odes ao vinho, ao destino e à música. Desta música eterna, tão profunda como complexa, tão hipnótica como comovente, apetece apenas dizer que fala directamente a Deus, ou que, através dela, Deus se faz ouvir dos pobres mortais. A não perder, sob nenhum pretexto. Na véspera do 25 de Abril (21h), tem lugar a primeira noite portuguesa, com António Zambujo (voz), Bernardo Couto (guitarra), José Conde (clarinetes), Jon Luz (cavaquinhos) e Ricardo Cruz (contrabaixo). Nascido em Beja, em 1975, Zambujo canta um fado muito pouco ortodoxo que, mergulhando as suas raízes no Alentejo, reflecte influências musicais que vão do jazz à música popular brasileira, passando por Cabo Verde. Ao ouvir o seu canto, alguns evocam Chet Baker, outros, Caetano Veloso, ou mesmo João Gilberto, mas uma coisa é certa: a originalidade da sua proposta e do seu canto quase seráfico está a conquistar o mundo inteiro. Cabe à incontornável dupla Maria João e Mário Laginha encerrar este ciclo (21 de Maio, 21h), com um jazz contaminado por influências indianas, africanas e brasileiras. Basta atentar nos instrumentistas que escolheram (o harpista Eduardo Raon, o acordeonista João Frade e o percussionista Helge Norbakken) para termos a certeza: vai ser mais uma noite surpreendente e memorável. 19h00 Max Raabe & Palast Orchester Küssen kann man nicht alleine 12 Dez 21h00 Anoushka Shankar Ensemble Anoushka Shankar sitar Traveller 14 Jan 21h00 Cristina Zavalloni IDEA Per caso Aznavour 06 Fev 21h00 Orchestre des Mariages et des Enterrements Goran Bregovic Ana Moreira actriz Margot, memórias de uma rainha infeliz 26 Fev 21h00 Natacha Atlas Mounqaliba 24 Mar 21h00 Angelique Ionatos cantora /guitarra David Braccini violino César Stroscio bandoneón Claude Tchamitchian contrabaixo Eros Y Muerte 09 Abr 21h00 Alireza Ghorbani & Dorsaf Hamdani Ivresses 24 Abr 21h00 António Zambujo 21 Mai 21h00 Maria João e Mário Laginha Palast Orchester GREGOR HOHENBERG O alemão Max Raabe com a Palast Orchester é, talvez, a proposta mais inesperada Met Opera Live in HD Satyagraha DR Aplaudir um écrã Dez produções em directo e em alta definição do muito que se produz na Metropolitan Opera House de Nova Iorque. O melhor teatro de ópera do mundo, com a definição dos pormenores. Rui Lagartinho Embora o projecto tenha arrancado em 2006 sob o impulso do director geral do Met Peter Gelb só a partir do ano passado foi possível assistir em Lisboa à transmissão em directo e em alta definição do ciclo Met Opera live in HD. Ir a uma série de matinées de sábado da lendária sala do Lincoln Center é uma experiência inesquecível. As habituais resistências e desconfianças do público português perante a novidade, ainda se sentiram no arranque do ciclo. Mas depressa se desvaneceram. Convenhamos que também não é de ânimo leve que se decide passar a aplaudir um ecrã. A equipa do Met faz destas transmissões um dos melhores espectáculos do mundo. Para além do esforço óbvio dos maestros, cantores, músicos da orquestra e encenadores nestas transmissões e nas visitas aos bastidores durante o intervalo percebe-se o exército que está por detrás a garantir o sucesso de cada transmissão. Sentados na Plateia do Grande Auditório estamos mais perto da garganta dos cantores do que na primeira fila da plateia do Met. E depois há pormenores que Estamos mais perto da garganta dos cantores do que na primeira fila da plateia do Met são mágicos e que a realização amplia. Não mais esqueceremos aquela escada que, quando a Lucia de Lameermoor de Natalie Desay resolve atravessar a última das fronteiras, leva o seu corpo e se desprende do cenário percorrendo o palco numa movimentação de etérea beleza. Ou a precisão dos rótulos das garrafas ao estilo de 1900 e de que a Minnie de Deborah Voigt se rodeia em La Fanciulla del West. Ou ainda o divertido ménage à trois sensualmente coreografado e protagonizado por Joyce Di Donato, Diana Damrau e Juan Diego Flórez em Le Comte Ory. Ou o enorme Atlas da Rússia que cobre o palco e pelo qual caminha René Pape em Boris Goudonov. E num espectáculo visto no mundo inteiro o risco de os canto- res não darem sempre o seu melhor é mínimo. O que vamos ver? Anna Netrebko, a russa que definitivamente conquistou o Met abre a temporada em Outubro com a sua Anna Bolena de Donizetti. É uma nova produção de David McVicar. Netrebko volta na Primavera com Manon de Massenet. A tetralogia O Anel do Nibelungo de Richard Wagner da dupla Robert Lepage- James Levine terá a sua conclusão. O Siegfried já não será dirigido por James Levine, que recupera de uma queda recente. Fabio Luisi, o maestro mais próximo de lhe suceder na direcção musical do Met, substitui-o. Esta nova produção de O Anel tecnicamente sofisticada e de difícil harmonia com as vozes, ainda não 24 CALENDÁRIO Met Opera Live Grande Auditório 15 Out 18h00 Anna Bolena Gaetano Donizetti 29 Out 18h00 Don Giovanni Wolfgang Amadeus Mozart 05 Nov 18h00 Siegfried Richard Wagner 19 Nov 18h00 Satyagraha Philip Glass 10 Dez 18h00 Faust Charles Gounod 04 Fev 18h00 The Enchanted Island Vários Autores (Händel, Rameau, Vivaldi...) 11 Fev 17h00 Gotterdämmerung / O Crepúsculo dos Deuses Richard Wagner 25 Fev 18h00 Ernani Giuseppe Verdi 07 Abr 17h00 Manon Jules Massenet 21 Abr 18h00 La Traviata Giuseppe Verdi Todas as transmissões são feitas em directo da Metropolitan Opera de Nova Iorque, em alta definição (HD) visual e sonora The Enchanted Island NICK HEAVICAN/METROPOLITAN OPERA 25 convenceu totalmente. Nem a crítica nem o público. O início do ano trará uma salada de frutas barroca. The Enchanted Island reúne música de vários compositores (Vivaldi, Rameau, Handel) em torno do imaginário barroco que passa também por peças de Shakespeare como A Tempestade ou Sonho de uma noite de Verão. William Christie dirige as hostes onde se incluem Placido Domingo, Joyce DiDonato e David Daniels. Outras estreias no Met incluem o Don Giovanni de Mariusz Kwiecien, o Faust de Jonas Kaufmann ou a Violetta de Natalie Dessay. No total são dez títulos que fazem deste ciclo a maior temporada de ópera a que é possível assistir em Portugal. Anna Bolena BRIGITTE LACOMBE/METROPOLITAN OPERA Gotterdämmerung BRIGITTE LACOMBE/METROPOLITAN OPERA Paul McCreesh Peter Rundel Peter Eötvös WRATISLAVIA CANTANS DR KLAUS RUDOLPH Philippe Herreweghe Pedro Neves BERT HULSELMANS JOÃO VASCO AAF 2011 CALENDÁRIO Grandes Orquestras – Série 1 Grande Auditório 24 Out 21h00 Philharmonia Orchestra Esa-Pekka Salonen maestro Nick Hillel encenador Michelle DeYoung soprano Sir John Tomlinson baixo Natália Luiza narradora Janácek, Bartók 19 Jan 21h00 Chamber Orchestra of Europe Thomas Adès maestro Toby Spence tenor Leila Josefowicz violino Adès, Berlioz, Sibelius 15 Abr 19h00 Gustav Mahler Jugendorchester Ingo Metzmacher maestro Iréne Theorin soprano Wagner,Webern, Zimmermann, Scriabin 13 Mai 19h00 Deutsche Kammerphilharmonie Bremen Trevor Pinnock maestro Maria João Pires piano Beethoven, Schubert Grandes Orquestras – Série 2 Grande Auditório 05 Dez 21h00 Deutsche Kammerphilharmonie Bremen Trevor Pinnock maestro Maria João Pires piano Beethoven, Schubert 22 Jan 19h00 Chamber Orchestra of Europe Thomas Adès maestro Nicolas Hodges piano Tal Rosner vídeo Beethoven, Adès 27 Mar 21h00 Göteborgs Symfoniker Gustavo Dudamel maestro R. Strauss, J. Haydn 13 Abr 21h00 Orquestra Sinfónica Portuguesa Martin André maestro Artur Pizarro piano Chostakovitch, Rachmaninov, Tchaikovsky 16 Abr 19h00 Gustav Mahler Jugendorchester Ingo Metzmacher maestro Iréne Theorin soprano Wagner, Chostakovitch Orquestra Gulbenkian Grande Auditório 13 Out 21h00 14 Out 19h00 Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Sol Gabetta violoncelo Glinka,Chostakovitch,Tchaikovsky 20 Out 21h00 21 Out 19h00 Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Alexei Volodin piano Glinka, Prokofiev,Tchaikovsky 27 Out 21h00 28 Out 19h00 Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Alina Ibragimova violino Glinka, Roslavets,Tchaikovsky 03 Nov 21h00 04 Nov 19h00 Orquestra Gulbenkian Simone Young maestrina Pedro Carneiro percussão Denisov,Takemitsu, Scriabin 10 Nov 21h00 11 Nov 19h00 Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Peter Eötvös maestro Julia Bauer soprano Jorge Matta director coral Pedro Amaral desenho de som Momente - Karlheinz Stockhausen 17 Nov 21h00 18 Nov 19h00 Orquestra Gulbenkian Joana Carneiro maestrina Anu Komsi soprano Piia Komsi soprano Golijov, Esa-Pekka Salonen, John Adams 25 Nov 19h00 26 Nov 21h00 Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Paul McCreesh maestro Miah Persson soprano Andrew Williams baixobarítono Robert Murray tenor As Estações - Joseph Haydn 29 Nov 21h00 30 Nov 19h00 Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Ainars Rubikis maestro Ruth Ziesak soprano Robert Murray tenor Neal Davies baixo A Criação - Joseph Haydn 01 Dez 21h00 02 Dez 19h00 Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Angelika Kirchschlager meio-soprano Viena – Paris – Broadway Suppé, J. Strauss, Lehár, Heuberger, Offenbach, Bernstein,Weil, Gershwin, Bolcom, Porter 08 Dez 21h00 09 Dez 19h00 Orquestra Gulbenkian Susanna Mälkki maestro Steven Isserlis violoncelo Sibelius,Tchaikovsky, Rachmaninov 15 Dez 21h00 16 Dez 19h00 Orquestra Gulbenkian David Afkham maestro Sergei Khachatryan violino Prokofiev, Chostakovitch 21 Dez 19h00 22 Dez 21h00 Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Michel Corboz maestro Brigitte Fournier soprano Rudolf Rosen barítono Valerio Contaldo tenor Poulenc, Puccini 09 Mar 19h00 05 Jan 21h00 06 Jan 19h00 Orquestra Gulbenkian Pietari Inkinen maestro Dmitri Makhtin violino Sibelius, Beethoven Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Artur Pizarro piano Franz Liszt,Wagner/Liszt 15 Mar 21h00 16 Mar 19h00 12 Jan 19h00 15 Jan 16h00 Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Bertrand de Billy maestro Melanie Diener soprano Heidi Brunner soprano Ana Maria Pinto soprano Johan Botha tenor Charles Robert Reid tenor Dietmar Kerschbaum tenor Job Tomé barítono Falk Struckmann barítono Tannhäuser - Richard Wagner 27 Jan 19h00 28 Jan 21h00 Orquestra Gulbenkian Thomas Adès maestro Adès, Berlioz 02 Fev 21h00 03 Fev 19h00 Orquestra Gulbenkian Bertrand de Billy maestro Sarah Louvion flauta Xavier de Maistre harpa Brahms, Mozart, Chausson 09 Fev 21h00 10 Fev 19h00 Orquestra Gulbenkian Ton Koopman maestro Klaus Mertens baixo J. S. Bach,Telemann, Mozart 16 Fev 21h00 17 Fev 19h00 Orquestra Gulbenkian Barbara Hannigan soprano/ maestrina Rossini, Mozart, Ligeti, Nono, Stravinsky, Chostakovitch Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Simone Young maestrina Fanny Ardant actriz Michel Blanc actor Ana Maria Pinto soprano Susana Gaspar soprano Deborah Humble meiosoprano Gilles Ragon tenor Philippe Kahn baixo Jeanne d’Arc au bûcher - Arthur Honegger 22 Mar 21h00 23 Mar 19h00 Orquestra Gulbenkian Michael Boder maestro Wagner, Ligeti,Wagner/Maazel 29 Mar 21h00 30 Mar 19h00 31 Mar 21h00 Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Michel Corboz maestro Charlotte Müller soprano Anke Vondung meio-soprano Werner Güra tenor Fernando Guimarães tenor Stephan McLeod baixo Michael Schopper baixo Philippe Pierlot viola da gamba Paixão segundo São João Johann Sebastian Bach 19 Abr 21h00 20 Abr 19h00 Orquestra Gulbenkian Lionel Bringuier maestro Debussy, Pedro Amaral, Brahms 03 Mai 21h00 04 Mai 19h00 Orquestra Gulbenkian Krzysztof Urbanski maestro Pedro Burmester piano Beethoven, Brahms, Smetana Orquestra Gulbenkian Kirill Petrenko maestro Scott MacAllister tenor Wolfgang Koch baixobarítono Peter Galliard tenor Siegfried (1º Acto) - Richard Wagner 08 Mar 21h00 10 Mai 21h00 23 Fev 21h00 24 Fev 19h00 11 Mai 1 9h00 Orquestra Gulbenkian Kirill Petrenko maestro Scott MacAllister tenor Anna Katharina Behnke soprano Wagner,Tchaikovsky 17 Mai 21h00 18 Mai 19h00 Coro Gulbenkian Orquestra Gulbenkian Philippe Herreweghe maestro Sandra Medeiros soprano Cátia Moreso meio-soprano Hans-Jörg Mammel tenor Diogo Oliveira baixo Brahms, Bruckner 24 Mai 21h00 25 Mai 19h00 Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Jean-Efflam Bavouzet piano Maurice Ravel 31 Mai 21h00 01 Jun 19h00 Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Christine Tocci soprano Gilles Ragon tenor Luís Rodrigues barítono Robert Holzer baixo Maurice Ravel Ciclo de piano Grande Auditório 18 Out 19h00 Arcadi Volodos piano Schubert, Brahms, Liszt 13 Nov 19h00 Grigory Sokolov piano J. S. Bach 15 Nov 19h00 Artur Pizarro piano Granados, Mussorgsky 06 Dez 19h00 Nicholas Angelich piano Beethoven, Rachmaninov 17 Dez 19h00 Hélène Grimaud piano Mozart, Berg, Liszt, Bartók 12 Fev 19h00 Evgeny Kissin piano Beethoven, Barber, Chopin 26 Gustavo Dudamel Ainars Rubikis Krzysztof Urbanski CHRIS CHRISTODOULOU BARBARA HERBST OLE-EINAR ANDERSEN AND ADRESSEAVISEN Thomas Adès Goran Bregovic MALCOLM WATSON DR 18 Fev 17h30 Alfred Brendel Conferência com exemplos ao piano 14 Abr 19h00 Radu Lupu piano Franck, Schubert, Debussy 06 Mai 19h00 David Kadouch piano J. Haydn, Liszt, Scriabin, Chopin Música de Câmara Grande Auditório 17 Set 19h00 Karita Mattila soprano Martin Katz piano Berg, Brahms, Debussy, R. Strauss 27 Nov 19h00 Quarteto Hagen Beethoven 11 Dez 19h00 Quarteto Tetzlaff J. Haydn, Berg, Beethoven 13 Dez 19h00 Quatuor Ebène Borodin, Prokofiev, Brahms 28 Out 21h30 Cristina Ánchel flauta Esther Georgie clarinete Ricardo Ramos fagote Jonathan Luxton trompa Isabela Melkonyan piano Glinka, Rimsky-Korsakov 09 Dez 21h30 Ana Beatriz Manzanilla violino Jorge Teixeira violino Cristopher Hooley viola Jeremy Lake violoncelo João Paulo Santos piano Braga Santos, Chostakovitch 06 Jan 21h30 Alexandra Mendes violino Cecília Branco violino Barbara Friedhoff viola Maria José Falcão violoncelo Vianna da Motta, Smetana 10 Fev 21h30 Uri Caine piano Pedro Pacheco violino Otto Pereira violino Raquel Reis violoncelo Marc Ramirez contrabaixo Paulo Jorge Ferreira acordeão Wagner e Veneza Alice Caplow-Sparks oboé Esther Georgie clarinete Ana Beatriz Manzanilla violino Maia Kouznetsova viola Raquel Reis violoncelo Maja Plüddemann contrabaixo Mozart, Prokofiev, Sérgio Azevedo 19 Fev 19h00 23 Mar 21h30 08 Jan 21h00 Alfred Brendel Quarteto Casals Schubert 06 Mar 19h00 Viktoria Mullova violino Kristian Bezuidenhout pianoforte Beethoven Solistas da Orquestra Gulbenkian Grande auditório (entrada livre) 14 Out 21h30 27 Oleguer Beltran-Pallarés violino Samuel Barsegian viola Maia Kouznetsova viola Varoujan Bartikian violoncelo Martin Henneken violoncelo Tchaikovsky, Chostakovitch Trio Arriaga Felipe Rodriguez violino Felipe Rodriguez violino Pedro Pacheco violino Lu Zheng viola Maia Kouznetsova viola Varoujan Bartikian violoncelo Martin Henneken violoncelo Marc Ramirez contrabaixo Reger, R. Strauss 04 Mai 21h30 Tera Shimizu violino Jorge Teixeira violino Maia Kouznetsova viola Raquel Reis violoncelo Kenneth Best trompa Eric Murphy trompa Ricardo Ramos fagote W. A. Mozart 25 Mai 21h30 Bin Chao violino Jorge Lé violino Leonor Braga Santos viola Christopher Hooley viola Varoujan Bartikian violoncelo Martin Henneken violoncelo W. A. Mozart, Joly Braga Santos Percurso descoberta 17 Set 19h00 Grande Auditório Karita Mattila soprano Martin Katz piano Berg, Brahms, Debussy, R. Strauss 30 Nov 19h00 Grande Auditório Coro Gulbenkian Michel Corboz maestro Charlotte Müller Perrier soprano Fernando Guimarães tenor Nicholas McNair órgão Thilo Hirsch violoncelo J. S. Bach, Francisco António de Almeida, D. Scarlatti 13 Mar 19h00 Grande Auditório Remix Ensemble Peter Rundel maestro Sonia Wieder-Atherton violoncelo Rihm, Nunes 09 Abr 21h00 Grande Auditório Alireza Ghorbani & Dorsaf Hamdani Ivresses 19 Mai 21h30 Teatro Maria Matos Oscar Bianchi OrchestrUtopica Franck Ollu maestro Jöel Pommerat encenação Thanks to my eyes Festival Jovens Músicos 06 Out 17h00, Auditório Três Novos Caminhos do Fado, mesa redonda Rui Vieira Nery moderador 18h00, Auditório Dois Recital de Guitarra portuguesa Miguel Amaral guitarra portuguesa 19h20, Grande Auditório Grande Final do Prémio Jovens Músicos Pedro Neves maestro 07 Out 17h00, Auditório Dois Desafios do Ensino da Música em Portugal, mesa redonda António Wagner Diniz moderador 19h20, Grande Auditório Orquestra Metropolitana de Lisboa, concerto Cesário Costa maestro Bruno Borralhinho violoncelo Pedro Ribeiro oboé Bela Bartók, Joly Braga Santos, Richard Strauss 20h30, Grande Auditório Recital pelos laureados (programa a anunciar) 08 Out 17h00, Auditório Três Jovens Músicos – Que Futuro, mesa redonda Luís Tinoco moderador 19h00, Grande Auditório Concerto do Jovem Músico do Ano Orquestra Gulbenkian Pedro Neves maestro Carlos Caires, obra em estreia mundial (encomenda Antena 2), Luís de Freitas Branco (Vathek) 22h00, Grande Auditório Vencedores da categoria Combo Jazz Big Band do Hot Clube de Portugal Pedro Moreira direcção Filmes 10 Nov 19h00 2100 Grande Auditório Shostakovich against Stalin:The War Symphonies Realização Larry Weinstein 1997, 76 min legendas em inglês 07 Dez 08 Jan 19h00 14 Dez 19h00 Auditório Três Sobre Thomas Adès Por Tom Service Grande Auditório Shostakovich: Katerina Izmailova Realização Mikhail Shapiro 1966, 112 min legendas em inglês 14 Dez 21h00 Grande Auditório Sophia, Biography of a Violin Concerto Realização Jan SchmidtGarre 2007, 56 min legendas em inglês 08 Jan 15h00 Grande Auditório Ludwig Realização Luchino Visconti 1972, 185 min 13 Jan 19h00 Grande Auditório Parsifal Realização Hans Syberberg 1982, 255 min 16 Jan 19h00 Grande Auditório Powder her Face de Thomas Adès Realização Gerald Fox 1999, 110 min legendas em português 23 Jan 19h00 Grande Auditório The Tempest de Thomas Adès 2004, 150 min legendas em português Auditório Dois Momente de Karlheinz Stockhausen Realização Gérard Patris 1965, 45 min Versão francesa 14 Mar 19h00 07 Dez Conferências 19h00 Grande Auditório A Arca Russa Realização Alexander Sokurov 2001, 96 min legendas em português Auditório Três La passion de Jeanne d’Arc Realização Carl Dreyer 1928, 110 min 10 Nov 20h00 Auditório Dois Momente, o Paradigma da Forma Por Pedro Amaral Auditório Três Tannhäusser: do libreto de Wagner ao olhar de Visconti Por Yvette Centeno e Nuno Vieira de Almeida 16 Jan 19h00 14 Mar 18h00 Auditório Três Joana d’Arc – uma heroína musical? Por Paulo Ferreira de Castro Concertos para a família Grande Auditório 26 Nov 16h00 Coro Gulbenkian Jorge Matta maestro Vem cantar canções de Natal com o Coro Gulbenkian 02 Mar 19h00 03 Mar 16h00 Orquestra Gulbenkian Jorge Matta maestro Luiza Dedisin soprano Carolina Figueiredo contralto Manuel Rebelo barítono Marie Mignot encenação Bastien e Bastienne, K. 46b - W. A. Mozart 26 Mai 16h00 Orquestra Gulbenkian Lawrence Foster maestro Jean-Efflam Bavouzet piano David Lefèvre violino M. Ravel Te Deum em São Roque 31 Dez 17h00 Igreja de S. Roque Coro Gulbenkian Divino Sospiro Jorge Matta maestro J. S. Bach, João de Sousa Carvalho Nota: Os restantes calendários estão junto aos textos específicos, nas páginas anteriores. Para mais informações consultar www.publico.pt ou www.musica.gulbenkian.pt 1 Como avalia a tem 2 O que recomenda Os que seguiram na Fundação Gulbenkian a temporada 2010-11 que ideia dela formaram? E, lido agora o Maria João Seixas Directora da Cinemateca Portuguesa 1 Boa, com a agradável surpresa operática das transmissões em directo, e mesmo em diferido, do MET. 2 As óperas, claro, para quem não tem hipótese de assistir ao vivo. Fevereiro vai ser uma festa: The Enchanted Islands (com obras de vários autores), dirigido por William Christie, maestro elegantíssimo, muito sofisticado; Bach pela voz de cristal de Andreas Scholl (ui, ui, só de pensar na sua interpretação da cantata Ich habe genug…); dois dias com Alfred Brendel;Verdi, sempre, e o seu belo Ernani (atenção que Verdi volta em Abril, com La Traviata, e é em Abril que ouviremos Anna Netrebko a fazer cintilar a Manon de Massenet ); é grande a minha expectativa sobre o concerto Ivresses da secção Músicas no Mundo, em que vozes e instrumentos persas e árabes nos vão embalar sob inspiração dos versos e odes do sublime Omar Khayyam. Vasco Graça Moura Escritor 1 A temporada 2010/2011 foi, salvo erro, a primeira do novo director do Serviço de Música da FCG, o finlandês Risto Nieminen, embora possamos pensar que Miguel Sobral Cid, o director-adjunto, terá tido um papel relevante a compatibilizar a tradição do serviço (os anos gloriosos de Luís Pereira Leal) e as novas propostas. Embora não tenha podido assistir à maior parte dos espectáculos, penso que a elevada exigência de qualidade das temporadas de música Gulbenkian foi mantida, do mesmo passo que se fez uma aposta muito consistente na diversificação da oferta, que não se limitou a espectáculos musicais in situ. 2 Do novo programa recomendaria, desde logo, a aposta wagneriana nas suas várias vertentes, depois as integrais de quartetos de Chostakovitch e dos últimos de Beethoven, os grandes oratórios de Haydn (A Criação e As Estações) e a Paixão segundo S. João de Bach, apesar de não ser um entusiasta de Michel Corboz; interessa-me menos o Tchaikovsky e interessam-me muito o Brahms e o Bruckner de Philippe Herreweghe, o Mussorksky de Artur Pizarro, bem como os concertos de Hélène Grimaud, Kissin, Brendel e Radu Lupu. Não me interessa absolutamente nada o Stockhausen (na verdade, nada do que ele es- creveu me interessa). Recomendo também o Honegger (Jeanne au Bûcher) e as Metamorphosen para 23 instrumentos de cordas, de Richard Strauss, uma recapitulação pungente da marcha fúnebre da Eroica de Beethoven no mundo em ruínas do pós-1945. Enfim, de cada vez que folheio o programa, sinto vontade de repescar mais alguma coisa. Há uma grande desmultiplicação de propostas, uma enorme variedade de géneros, um bom leque de nomes consagrados (alguns deles já visitantes habituais do grande auditório) e a elaboração do conjunto arranca de uma concepção de música que não se confina ao estritamente “clássico”, nem se esgota na noção tradicional de concerto Gulbenkian. Jorge Silva Melo Encenador, Artistas Unidos Não, não gosto nada de óperas em versão de concerto, nem em directo do Met, ou de onde lá onde seja, nada se compara a entrar num teatro (daqueles bonitos e vernelhos em que só apetece dizer “ah!”), sentar-me num lugar bom ou mesmo mau (a minha educação foi no São Carlos, com o Zé Ribeiro da Fonte, tínhamos 12 anos e víamos os Mestres Cantores todos de seguida, em pé, transpirando de alegria pascal...), não gosto disso, pronto, e faz-me dó que a Gulbenkian avance – com evidente bom acolhimento dos espectadores – para essas alternativas remediadas à Ópera que não há meio de termos, pronto, não irei. Nem irei a essas músicas do mundo, exóticas e políticamente correctas, não, nem àquelas ligeiras passadas a smoking que agora invadem as salas de concerto (no outro dia, era a Dulce Pontes no Concertgebouw!), não, nem o bem amado Aznavour me levará até Cristina Zavalloni, nem pensar, que pena. Mas irei, isso sim, irei ouvir o Sequeira Costa a São Carlos, pela Páscoa (que bela ideia que a pobreza terá ditado: a Gulbenkian em São Carlos) a tocar o seu nº 3 de Rachmaninov. E vou meter férias, vou, nessa semana: não posso perder Radu Lupu, é um génio, imponderável génio, ainda por cima é um sábado ao fim da tarde, e depois dos Improvisos de Schubert ficarei zonzo para todo esse fim de semana que vou guardar para mim, solo per belezza, como me disse uma velha italiana, uma noite, em Verona, solo per belezza, já marquei na agenda (que o mais certo é vir a perder). Tudo farei, é claro, para ir ao concerto do Remix Ensemble /Wolfgang Rihm e ouvir a Versuchung, a maravilhosa homenagem a Beckmann para violoncelo e orquestra, só ouvi uma vez (em Stuttgart? em Dusseldorf?) e de que não me esqueço, brusca, e, quem diria?, realista, se a música o pode ser. E pronto, quem me dera ir ouvir a Maria João Pires, o Artur Pizarro (com um repertório que acharão de outros tempos, e a mim me encanta a noite de hoje, Granados e Mussorgsky) e o Pedro Burmester naquele Concerto de Brahms (o nº 1) de que não há meio de gostar, pode ser que seja desta. Não, não mexerei uma palha nem para Glass nem para Sakamoto, ficarei em casa e quem me dera passar essas noites a ouvir Massenet, sou mesmo velhote e estou a ficar caturra. Fico contente por saber que o António Zambujo vai cantar no Grande Auditório, sim – mas não sei se irei, é tão bonito vê-lo cantar no Senhor Vinho, ali, mesmo à nossa beira, tão fremente, decido depois do concerto que vai ter na Culturgest, daqui a uns dias (mas é possível que não resista, gosto tanto dele e de o ver aventurar-se). Irei sim, ai isso não perco, ver, no Maria Matos, Thanks to My Eyes ópera de Oscar Bianchi e Joel Pommerat (o seu Circulos/Ficções, que apresentou no Festival de Almada deste ano, foi uma das três melhores coisas que nestes últimos anos consegui ver, a tão incomensurável distância dos mais publicitados e caducos ou emergentes mestres). E pronto: se não poderei ouvir a Mattila (uma digressão afasta-me de Palhavã para “longes terras”...), nem o Berlioz (nunca consigo, e gosto tanto...), certo estou que estarei em 4 de Novembro a ouvir o meu querido Pedro Carneiro (ah! gosto tanto dele) a percussionar Takemitsu (já terei ouvido?) com a Orquestra Gulbenkian – e depois fico a ouvir Scriabin nesse dia, nem sempre me apetece, há muito que só ouço o seu piano em velhas gravações de Horowitz, veremos. E resistirei aos últimos quartetos de Beethoven tocados pelo quarteto Hagen e depois, num programa mais ecléctico, pelo Tezlaff (que não conheço, nem um nem outro...)? Há tanto tempo que não os ouço ao vivo, eu que, desde novinho, jurei que nunca me separaria deles (juras de amor/ quem as não fez...)? Marcelo Rebelo de Sousa Professor catedrático 1 Confesso que a minha vida, nos meses que corresponderam à temporada passada, me não permitiu ver tudo o que desejava e tinha programado. Fui, assim, absentista em excesso. De todo o modo, do que vi retenho um balanço global bom. Falhei, infelizmente, algum piano, muito canto e todas as transmissões do Metropolitan, que me disseram terem sido interessantes, pela qualidade da imagem e do som e pelos bastidores do espectáculo. 2 O próximo ano tem um programa bastante melhor do que o anterior. Mais variado. Com incursões na actualidade e uma visão ainda mais transversal. Piano, canto e orquestras criam expectativa. E não vou perder quatro das transmissões de Nova Iorque. No geral, em tempo de crise, um programa de grande qualidade.Vou ter de me desunhar para compatibilizar aulas da tarde e da noite e outros compromissos com o que é proporcionado... 28 emporada 2010-11? a do novo programa? a o programa para a nova temporada, o que lhes ocorre recomendar? Nove respostas, num breve inquérito. O Te Deum de Sousa Carvalho será apresentado a 31 de Dezembro na Igreja de São Roque DR 29 1 Como avalia a tem 2 O que recomenda Eduarda Abbondanza Presidente da ModaLisboa 1 Tentei acompanhar toda a programação o máximo possível, sendo que destaco o Jazz em Agosto, que é uma tradição do Verão em Lisboa e consegue sempre surpreender com a sua programação. Considero como pontos altos da passada temporada, a novidade das transmissões em directo da Metropolitan Opera, o evento ‘Instrumentos para a Mudança’ e o multifacetado ‘Festival de Inverno’. 2 A programação da Gulbenkian talvez seja uma das que consulto em primeiro lugar, uma vez que tenho uma relação muito forte e antiga com todas as vertentes e actividades desta instituição. De acordo com o programa acompanharei por certo os concertos Músicas do Mundo, nomeadamente de Ryuichi Sakamoto e Anoushka Shankar, da Orquestra Gulbenkian com o maestro Krzysztof Urbanski e Pedro Burmester ao piano, do Coro Gulbenkian aguardo com expectativa o espectáculo Joana d’Arc com Fanny Ardant, e a obra de John Cage com coreografia de Rui Horta. Maria Filomena Mónica Socióloga 1 Entre a minha crescente misantropia e a minha decrescente saúde, acabei por ir a poucos concertos, tendo oferecido os meus bilhetes. Assim, não posso avaliar a temporada em causa, muito menos como um todo. Lembro-me apenas, e vagamente, das sinfonias de Mahler. Em todo o caso, gostaria de retomar um tema: o do preço dos bilhetes e o do público que vai aos concertos. Alguns amigos que prezo criticaram o facto de ter afirmado, neste jornal, que o seu preço era demasiado elevado, o que faria com que só frequentassem os concertos indivíduos provenientes de estratos sociais elevados (com nítida predominância para estrangeiros) e pessoas de idade avançada. Não considero todavia que tenha sido injusta. Reconheço, de bom grado, que esta Fundação tem tido um papel imenso na divulgação da música clássica. Apenas lamento não ver ali, no que considero um dos mais belos anfiteatros da Europa, os jovens que vão aos concertos dos Prom’s, em Londres. Sei que grande parte da explicação reside na falta de uma educação artística decente na escolaridade obrigatória nacional, mas isto não explica tudo. Há jovens que não aparecem porque não têm dinheiro para lá ir. Acresce que a Fundação não é uma empresa capitalista. Acredito que já pague uma parte considerável dos custos reais, mas, na minha opinião, deveria encontrar uma forma qualquer de atrair os jovens. Até poderia começar por ressuscitar o curso de Educação Musical que, nos anos 1960, os meus filhos frequentaram, o qual desapareceu sem que entenda o motivo, visto ser de elevada qualidade. 2 A 30 de Setembro, A Criação, de Haydn; a 27 de Novembro, Os Últimos Quartetos, de Beethoven; a 7 de Fevereiro, as cantatas de Bach, especialmente o Ich habe genug, cantadas pelo contratenor Andreas Scholl; a 13 de Maio, Maria João Pires, no Concerto para piano e orquestra, nº3, de Beethoven e a Sinfonia nº 5, de Schubert (para o qual será impossível encontrar bilhetes avulso). Finalmente, a transmissão das óperas do MET: Anna Bolena, de Donizetti (15 de Outubro); D. Giovanni, de Mozart (29 de Outrubro); Ernani (25 de Fevereiro) e La Traviata, ambas de Verdi (21 de Abril). Luís Santos Ferro Engenheiro 1 Considerando os espectáculos a que assisti e quase apenas recorrendo, agora, à memória e registos de agenda, com especial gosto recordo: • As celebrações do centenário mahleriano culminando sublimemente com o Ewig… ewig… (Canção da Terra), inesquecível na arte interpretativa de Thomas Hampson. • Cosí fan Tutte em versão de concerto, simplificada mas eficaz na marcação cénica. É decerto pecaminoso ter uma ‘ópera preferida’ de Mozart… mas como é sedutora, nostálgica, a mágoa final de Fiordiligi, desencantada! E, assim, invocar as “Afinidades Electivas”, os acertos e enganos dos afectos. • O recital Bach por Sokolov, músico que sempre nos dá novas lições de arte, e o pianismo de Volodos, no 2º Concerto de Brahms. Ainda, as Partitas de Bach, integral, superiormente recriadas pelo violinista alemão Christian Tetzlav. • Concerto com Jordi Savall e seu grupo em Istambul 1710, um fascínio de sonoridades e cores, na dignidade das culturas e músicos exóticos, admiravelmente enquadrados pela sabedoria de Savall. • Impossível de me esquecer o inefável andamento lento do Quinteto D.956 (dois violoncelos) de Schubert, obra de um outro mundo. Diz G.Steiner “music that conveys both the grave constancy, the finality of death and a certain refusal of that very finality”. Trazido pelo Quarteto Belcea. 2 Escolhidos os espectáculos aos quais espero assistir, razões diversas acentuam o meu interesse e expectativas. Do conjunto, as alusões a alguns casos especiais. • O brilhante conjunto de quartetos de corda, com a integral dos Quartetos de Chostakovitch, cinco jornadas com o sólido Quarteto Borodin; o Hagen a trazernos Beethoven e os derradeiros op.130, 131 com a Grande Fuga op.133. Ainda, convocados por Brendel, os mús i c o s d o Q u a r t e t o C a s a l s re c r i a n d o o t e s o u ro schubertiano de A Mor te e a Donzela. Brendel, na sua forma de palestrante-conversador. A propósito e como lembrança pessoal, a de conversa havida, jantando após um recital. O grande pianista chegara a Lisboa na véspera para, com tempo, visitar nos Jerónimos o túmulo de Fernando Pessoa! • A Criação, oratória de Haydn e a maravilha de assistirmos a um puro e jubiloso nascer do mundo e das criaturas, entre caos e cosmos. • O sedutor programa que nos propõe a não menos sedutora A. Kirschlager, com Foster a comandar a Orquestra Gulbenkian. • Atraente o concerto onde, em Dezembro, Michel Corboz nos dirá: missas de Gloria, de Puccini e Poulenc, autor este de bela música religiosa e competente oficina. Com humor muito seu esperava que as suas obras religiosas o ajudassem a escapar das penas infernais, permitindo-lhe o Purgatório. Pela mesma data, natalícia, oportunidade para renovada audição, após silêncios, do Te Deum de Sousa Carvalho, nobremente acolitado à Cantata de Ano Novo, BWV 248. Isto no belo cenário de S. Roque, com a autoridade de Jorge Mata dirigindo Coro e Divino Sospiro. Invocaremos então a tradição setecentista da antiga e real (de Rei) ‘acção de graças’. • Sugestivo, o programa em torno de O Anel proposto por Michael Boder, dirigindoWagner, Ligetti e Maazel. • Comemorando Franz Liszt pelo segundo século de sua morte, é aliciante ouvir Artur Pizarro e, em dia seguinte, o Quarteto de José Vianna da Motta. Pizarro, o mais distinto discípulo de Sequeira Costa, é o jovem representante português da nobre linhagem que, de Liszt, se continua em Vianna da Motta, um dos seus últimos discípulos, culminando em Sequeira Costa. No local de veraneio onde escrevo estas notas, Colares, é presente a recordação do ‘maior músico português’ (cito João de Freitas Branco de memória): aqui viveu em menino, daqui subia a Serra para tocar para D. Fernando e Condessa d’Edla, patronos mecenáticos da sua aprendizagem estrangeira que incluiu o grande Liszt. Foi compositor também: aos 13 anos (1881), agradecido, dedicou à sua real amiga Au Bord du Lac de Pena, uma ‘pastoral’. • Escolhi também, naturalmente, os recitais de Sokolov e R. Lupu, seguramente de grande interesse e valor exemplar, sejam quais forem as obras apresentadas. • Destaque final nesta lista quiçá controversa, a operazinha de Ravel L’Heure Espagnole. Preciosidade requin- 30 emporada 2010-11? a do novo programa? tadamente francesa, fina ironia de finos espíritos, malícias subtis na música e no texto. Mesmo havendo legendas (que serão em português), mesmo conhecendo-se bem a língua francesa, espera-se a cortesia de a luz da sala nos permitir seguir o saboroso palavreado. Mário Vieira de Carvalho Professor catedrático 31 A temporada de 2011-2012 acentua a renovação do perfil da oferta, na sequência da mudança, ainda recente, de direcção artística. Quais são, nessa renovação, os aspectos respectivamente mais negativo e mais positivo? Escolho apenas uma área como exemplo: a da intersecção entre teatro e música. O lado mais negativo, na minha perspectiva, são as transmissões das temporadas de ópera do Metropolitan de Nova Iorque. Há, na Europa (na Alemanha, França, Inglaterra, Áustria, Holanda, países nórdicos, etc.) um trabalho muito diferenciado, criativo, inovador, tanto sobre o repertório tradicional como de redescoberta de obras “ausentes” ou “esquecidas”, bem como naturalmente de produção de novas obras músico-teatrais, que deixa muito para trás o convencionalismo e o conservadorismo que predominam no Metropolitan e reflectem o “gosto” de um certo público norte-americano. Nada de comparável com a vitalidade da cultura músico-teatral europeia nas suas expressões mais avançadas. Se é para mostrar o que se faz lá fora, então há que diversificar os modelos. Não ponho em causa, é claro, a excelência da realização musical (embora tecnologicamente mediada), mas a ópera é mais do que isso. Quanto ao lado mais positivo, esse é a nova série no Teatro Maria Matos, onde se vislumbra precisamente o propósito de inovação e experimentação, bem como, muito especialmente, de investimento na produção ou criatividade locais. No futuro, seria até desejável que esse investimento fosse substancialmente reforçado, que se abrissem novas perspectivas para compositores, escritores, intérpretes portugueses – direi mesmo mais: lusófonos –, num projecto consistente e continuado de desenvolvimento duma cultura músico-teatral em língua portuguesa. Se importamos ópera alemã e italiana, porque não havemos de “consumir” cada vez mais – e um dia até mesmo exportar – ópera em língua portuguesa? (Há mais gente no mundo a falar português do que alemão ou italiano...) Eis o que, em meia dúzia de anos, começaria a ter também o efeito colateral de atacar o desemprego e melhorar a balança de pagamentos. Um pequeno empurrão para vencer a crise. A burguesia alemã acordou cedo para esses “efeitos colaterais” da cultura, pelo menos, desde fins do século XVIII... E a nossa? Alfredo Barroso Jornalista e comentador 1 Foi uma temporada magnífica, bastante diversificada e cheia de novidades. Como escreveu Risto Nieminen, na brochura da temporada passada: “As placas continentais movem-se, as construções feitas pelo homem desmoronam-se. O que existia é destruído e tem que ser erigido de novo. Os actos da natureza podem demolir, mas ao mesmo tempo podem oferecer a possibilidade de criar algo novo, algo que não existia antes”. Dir-se-ia estarmos perante um texto escrito por um discípulo de Joseph Schumpeter, a explicar a teoria da destruição criativa, do famoso economista e sociólogo checo (austrohúngaro). Mas não. Era um texto do director do Serviço de Música da Gulbenkian sobre “Mahler, ou a antecipação da catástrofe”. Uma das novidades mais gratas aos melómanos militantes da ópera foi sem dúvida a adesão da Gulbenkian às transmissões da Metropolitan Opera, vulgo MET, em directo de Nova York, e em alta definição. Das onze óperas transmitidas, com um nível de qualidade muito elevado, saliento Boris Godunov, de Mussorgsky, sob a direcção de Valery Gergiev, e Cappriccio de Richard Strauss, com a notável interpretação de Renée Fleming, no papel da Condessa Madalena. O Festival Mozart foi outra saborosa novidade, com excelentes filmes e magníficos concertos sob as batutas de Philippe Herreweghe e René Jacobs. Nas Músicas do Mundo, a grande novidade foi, para mim, um apaixonante Melingo, a cantar Corazon e Hueso. Sem esquecer as notáveis interpretações do maestro Esa-Pekka Salonen (felizmente presença habitual em Lisboa com a Philarmonia Orchestra), e três concertos dedicados a Bach (Paixão Segundo São João, dirigida por Ton Koopman, Variações Goldberg, por Andras Schiff no piano, e O Cravo BemTemperado – Livro II, por Pierre Hantaï no cravo), devo dizer que o grande momento mágico da temporada passada foi a soberba interpretação da Sinfonia nº 9, de Gustav Mahler, pela Los Angeles Philharmonic dirigida pelo jovem e genial maestro Gustavo Dudamel. 2 O embaraço da escolha é recorrente quando a programação é muito boa e diversificada. Daí a abundância das sugestões que se seguem: • Os recitais da soprano Karita Mattila, com Martin Katz ao piano, e da soprano Patrícia Petibon, com a Venice Baroque Orchestra dirigida por Andrea Marcon; • Os recitais do contratenor Philippe Jaroussky, com o Appolo’s Fire Ensemble dirigido por Jeannette Sorell, e do contratenor Andreas Scholl, com a Kammerorchester Basel dirigida por Júlia Schröder; • A integral dos quartetos de cordas de Chostakovitch, pelo Quarteto Borodin (que tem a minha idade, 66 anos, foi-se renovando e nunca interrompeu a sua actividade), e os admiráveis últimos quartetos de cordas de Beethoven, pelo Quarteto Hagen e pelo Quarteto Tetzlaff; • Uri Caine e Solistas da Orquestra Gulbenkian, no concerto Wagner e Veneza, recriando o ambiente em que Wagner ouviu a sua música tocada por orquestras de café; • A Philharmonia Orchestra, dirigida por Esa-Pekka Salonen, a interpretar a Sinfonietta, de Janáceck, e O Castelo do Barba Azul, a ópera em um acto de Bela Bartók; • A Göteborgs Symfoniker, dirigida por Gustavo Dudamel, a interpretar Don Juan e Assim Falou Zaratrusta, de Richard Strauss, e a Sinfonia nº 103 de Haydn; • O Coro e a Orquestra Gulbenkian a interpretarem as grandes oratórias de Haydn: A Criação (maestro Ainars Rubikis) e As Estações (maestro Paul McCreesh); • A Missa dei filii, de Zelenka, e o Magnificat, de Bach, interpretados pelo Balthasar Neumann Choir and Soloists e pelo Balthasar Neumann Ensemble, dirigidos por Thomas Hengelbrock; • O concerto na Igreja de São Roque, no último dia de 2011, com a Cantata de Ano Novo, de Bach, e o Te Deum, de João de Sousa Carvalho, interpretados pelo Coro Gulbenkian e pelo Divino Sospiro, dirigidos por Jorge Matta; • O Coro e a Orquestra Gulbenkian, dirigidos por Philippe Herreweghe, a interpretarem obras de Brahms e a Missa nº 3, A Grande, de Bruckner. Vêm sempre grandes pianistas à Gulbenkian, mas os bilhetes esgotam enquanto o diabo esfrega um olho. Muitos vão perder, assim, os recitais de Arcadi Volodos, Grigory Solokov, Artur Pizarro, Nicholas Angelich, Hélène Grimaud, Evgeny Kissin, Radu Lupu, David Kadouch e Maria João Pires (com a Deutsche Kammerphilharmonie Bremen dirigida por Trevor Pinnock). As Músicas do Mundo trazem à Gulbenkian propostas interessantes, nomeadamente, Maria João e Mário Laginha, António Zambujo, Max Raabe & Palast Orchester, Cristina Zavalloni IDEA, o Anoushka Shankar Ensemble e a Orquestra de Casamentos e Funerais de Goran Bregovic. Finalmente, as óperas. Três delas no palco da Gulbenkian, em versão de concerto: La finta giardinera (Mozart) com René Jacobs a dirigir a Freiburger Barockorchester; Tannhäuser (Wagner), com Bertrand de Billy a dirigir o Coro e a Orquestra Gulbenkian; Joana d’Arc na fogueira (Honegger) com Simone Young a dirigir o Coro e a Orquestra Gulbenkian (e a actriz Fanny Ardant no papel de Joana d’Arc). E mais dez em directo do MET: Anna Bolena (Donizetti), Don Giovanni (Mozart), Siegfried (Wagner), Satyagraha (Glass), Faust (Gounod), The Enchanted Island (Händel, Rameau, Vivaldi), Gotterdämmerung (Wagner), Ernani (Verdi), Manon (Massenet) e La Traviata (Verdi). Em suma: dez verdadeiras pechinchas!