20 anos
Gulbenkian
anos 11•12
Excelência reiterada e sinais de abertura
Entrevista com Lawrence Foster • A Orquestra Gulbenkian em oito retratos • Chostakovitch e as
dualidades russas • As mil interpretações de Wagner • Teatro/Música, uma inovação histórica
Balthasar-Neumann Ensemble por Florence Grandidier
Este suplemento faz parte integrante da edição nº 7832 do Público, e não pode ser vendido separadamente
Fila vinte
e quatro,
lugar nove
Satyagraha, de Philip Glass:
uma grande ópera
contemporânea, porventura
a mais bela do autor
KEN HOWARD/METROPOLITAN OPERA
A fotografia da capa deste suplemento é inspiradora: nela está bem expressa a alegria do que é
fazer música em conjunto.
E também o privilégio que é aprender a saber escutar quem nos rodeia.
Esta foto fica bem ao grupo barroco que é o Balthasar Neumann Choir and Soloists, um ensemble
de Freiburg que no final de Novembro actua no
Grande Auditório.
Podia muito bem ser uma fotografia da Orquestra
Gulbenkian. O espírito moderno e global, feito de
gente bonita, é o mesmo.
Lisboa capital periférica em muita coisa dispõe de
um agrupamento musical de excepção que completa cinquenta anos no Outono de 2012.
São cinquenta anos que se confundem com a história da música em Portugal no último meio século. O navio almirante e o farol de um Serviço de
Música de uma instituição que nasceu para resistir
a todas as pressões, a todas as crises.
Para quem se senta há quase trinta anos em frente destes músicos, semana após semana, maestro
após maestro, programa atrás de programa, o salto qualitativo desta formação é impressionante.
O resultado deve-se ao esforço de todos. Dos
maestros Muhai Tang, Michel Corboz e mais recentemente numa década gloriosa de Lawrence Foster.
Dos directores do serviço de música, Luís Pereira
Leal a que sucedeu há dois anos o finlandês Risto
Nieminen.
E aos incríveis músicos capazes de aguentar com
uma capacidade estóica e apaixonada uma temporada com trinta programas diferentes.
E, no entanto, teimamos em desvalorizar alguns
das programas mais audaciosos e interessantes que
a Orquestra Gulbenkian apresenta. Recusamos
amar estes músicos numa proporção correcta com
aquilo que eles nos dão.
Com quase setenta elementos, todos ambicionamos mais. Esta Orquestra merece ser formalmente sinfónica, merece sair mais vezes em digressões
internacionais.
Não podemos ficar, acreditemos que isso não vai
acontecer, a um passo do topo.
A Orquestra Gulbenkian é, mais uma vez, um eixo
central da temporada de música Gulbenkian que
agora se inicia.
No mesmo ano em que o pianista Alfred Brendel,
alguém que definitivamente não se reforma, vem
perguntar numa conferência com exemplos ao piano se a música clássica tem necessariamente de
ser séria.
E isto numa época que nos dizem que é de crise.
Rui Lagartinho
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Face ao nível de excelência desta Temporada, a segunda da responsabilidade de Risto Nieminen,
será inevitável a angústia do espectador no momento de fazer as escolhas – mas não é menor a
angústia do crítico no momento de analisar e propor destaques. Augusto M. Seabra
Temporada de Música 2011-2012
Excelência reiterada
e sinais de abertura
Face ao nível de excelência da Temporada 2011-12 do Serviço de Música da Gulbenkian, a segunda da
responsabilidade de Risto Nieminen,
verdadeiramente excepcional, à consolidação de novas propostas e à
introdução de mais outra, porventura ainda mais radical, o ciclo Teatro/Música em parceria com o Teatro
Maria Matos, por si só uma grande
novidade, face a esse nível de excelência será inevitável a angústia do
espectador no momento de fazer as
escolhas – mas não é menor a angústia do crítico no momento de
analisar e propor destaques.
Comecemos pelas duas grandes novidades da temporada anterior, que foram consideráveis sucessos: as transmissões directas em
alta definição de representações na
Metropolitan Opera House de Nova Iorque e o ciclo Músicas do
Mundo. Este ano há todavia dois
aspectos de vulto a assinalar: as
transmissões do Met não incluem
apenas obras do reportório corrente, mas também uma grande
ópera contemporânea, porventura
a mais bela do autor (ainda mais
que Einstein ou the Beach), Satyagraha de Philip Glass (19-11-11), e
um pastiche barroco, The Enchanted
Island (04-02-12), concebido por
William Christie a partir de obras
de Händel, Rameau,Vivaldi e outros.
Quanto ao ciclo Músicas do Mundo
tem um cartaz de luxo, com Anoushka Shankar (12-12-11), Goran
Bregovik (06-02-12), Natacha Atlas
(26-02-12), Angelique Ionatos (2403-12) e mesmo – oh surpresa, fado na Gulbenkian! –, António Zambujo (24-04-12), que, é certo, já
encaixou internacionalmente na
categoria de “world music”, mas o
ciclo vai para além do entendimento estrito do termo, num sentido
cosmopolita, com o trio de Ryuchi
Sakamoto (21-11-11) ou Maria João
e Mário Laginha (21-05-12).
Em termos de estrutura da
temporada, e além desse importantíssimo ciclo Teatro-Música (ver texto nas páginas 20/21), que aliás inclui
o que porventura será o aconteci-
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mento máximo da temporada, a estreia em Portugal, quarenta anos
volvidos!, de uma obra capital do
século XX, Momente de Karlheinz
Stockhausen (10 e 11-11-11), há que
assinalar que desapareceu um tipo
de organização da temporada transacta de muito discutível nexo, que
foram o Festival Mozart e o Festival
de Inverno – para além de ser questionável a relevância e percepção
pública dessa lógica, se o primeiro,
dedicado em concreto a um compositor, ainda podia ser pertinente,
o segundo não tinha qualquer lógica
coerente.
Em vez disso há sim dois fios
condutores: um Outono Russo e
Wagner na Primavera. O primeiro
permitir-nos-á ouvir esse monumento que são os Quartetos de
Chostakovitch, com os máximos
intérpretes, os Borodin, com os
quais o compositor trabalhou estritamente (9, 11, 12, 16 e 17-1011) – e já agora, a propósito de
quartetos, diga-se que há na temporada um outro grande destaque,
os últimos quartetos de Beethoven
pelos Hagen (27-11-11), completados pelo op. 132 pelos Tetzlaf
(11-12-11). Já o programa Wagner
inclui apresentações em versão de
concerto do Tannhäuser (12 e 1501-12) e, bem mais discutível, o
Acto I do Siegfried (03/4-05-12),
justamente o momento dramaticamente mais frágil de todo O Anel
do Nibelungo, aquele que tem menos sentido autonomizar e, por
maioria de razões, apresentar em
versão de concerto.
Facto da maior relevância, e em
que Nieminen justamente insiste, é
a presença recorrente, mesmo de
temporada a temporada, de alguns
grandes intérpretes. Voltarão assim
de novo, em momentos cimeiros da
programação, Esa-Pekka Salonen e
a Orquestra Filarmonia, com uma
apresentação encenada de O Castelo do Barba Azul de Bartók (24-1011), a “superstar” Gustavo Dudamel
que, depois de se ter apresentado
com a Simon Bolivar, a Orquestra de
Jovens Ibero-Americana e a Filarmó-
nica de Los Angeles, vem desta vez
com outra
tra formação de que é director, a Sinfónica
nfónica de Gotemburgo (2703-12), ou a Orquestra Juvenil Gustav Mahler
hler (15 e 16-04-12). Esses
três já são, por assim dizer, pilares
da programação
gramação da Gulbenkian. Mas
não se pode também deixar de referir presenças
resenças regulares, como as
de doiss grandes pianistas, Grigory
Sokolovv (13-11), e Radu Lupu (1404-12). E, já agora, fale-se também
dos regressos,
gressos, os de duas grandes
cantoras,
as, Karita Mattila (17-09) e
Angelika
ka Kirchschlager (1 e 2-12), e
da excepcional
epcional violonista Viktoria
Mullovaa (06-03-12). Acontecimentos
especialíssimos
líssimos são o retorno após
longa ausência
usência de Maria João Pires
(13-05-12)
12) e esse momento de excepção que será a vinda do já retirado Alfred
fred Brendel com uma conferênciaa e uma “masterclass” sobre
Schubert
rt (18 e 19-02-12).
Dee grande nível é também o
ciclo dee Música Antiga, com os dois
enores “superstars”, Philippe
contratenores
Jaroussky
sky (14-11-11) e Andreas
Scholl (07-02-12), ou duas formações como
omo a Orquestra Barroca de
Freiburgo
rgo e René Jacobs, com uma
versão de concerto de uma deliciosa ópera
ra do jovem Mozart, La finta
giardiniera
era (02-10-11), e o Ensemble
e Coro
o Balthasar Neumann com
Thomass Hengelbrock (que este ano
foi o primeiro
rimeiro maestro especialista
no barroco
roco a dirigir Wagner no
“templo”
o” de Bayreuth, Tannhäuser
no caso),
o), com o Magnificat de Bach
e uma missa de Zelenka (29-11-11).
Uma observação
bservação e um reparo no
entanto:
o: cada vez mais estes ciclos
se estão
o a restringir ao barroco e
às novass abordagens do classicismo,
sem propriamente
opriamente a “música antiga”, anterior.
terior.
See o ciclo Teatro/Música,
em colaboração
aboração com o Maria
Matos, é a grande e mais importante
te inovação da Temporadaa (embora tenha
que ser abordado tendo
em conta
ta a presença de
música contemporânea
em geral,
ral, esse um
O ciclo Teatro/Música é a grande e mais
importante inovação da Temporada
ponto a vários títulos problemático
– ver textos nestas páginas) cabe
assinalar, e saudar, que, além da já
habitual cooperação com a Casa da
Música, com um concerto do Remix,
a Gulbenkian dá outros sinais de
abertura: acolhe o Festival Jovens
Músicos, promovido pela Antena 2,
e a que também se associam a Orquestra Metropolitana de Lisboa e
a Big Bang do Hot Clube de Portugal,
acolhe dois agrupamentos com residência no Centro Cultural de Belém, um de música antiga, o Divino
Sospiro, e outra de contemporânea,
OrchestrUtopica, e numa parceria
inédita com o São Carlos em dias
sucessivos a Orquestra Gulbenkian
actuará naquele teatro e a Orquestra Sinfónica Portuguesa na Fundação. Multiplicam-se pois esses sinais
de abertura, que tão necessários
eram.
A perspectiva da nova temporada da Gulbenkian é de molde a
justificar as maiores expectativas.
Risto Nieminen
ENRIC VIVES-RUBIO
Entrevista
com Lawrence Foster
Dez anos
na vida
de um
maestro
Uma década é um ciclo importante. E o de Lawrence Foster
à frente da Orquestra Gulbenkian, enquanto maestro titular,
marcou uma parceria de sucesso que continuará até 2013.
Rui Lagartinho texto Filipe Arruda fotos
Desde 2002 que o percurso artístico
de Lawrence Foster se confunde com
o da Orquestra Gulbenkian enquanto
seu maestro titular e director artístico.
Conduziu esta formação ao seu melhor
nível de sempre como o atestam as
críticas em Portugal e nos países onde
a Orquestra actuou.
Nunca como até agora na sua
história de quase cinquenta anos a
Orquestra Gulbenkian gravou tantos
discos, fez tantas digressões – se dependesse do maestro elas seriam ainda mais constantes – apresentou uma
programação tão variada. O público
tem aprendido a responder com um
entusiasmo também em crescendo.
Os 29 programas a executar
no Grande Auditório durante a próxima temporada quase que chegam
para contar a história da música
ocidental, tanta é a diversidade de
propostas.
No final do primeiro dia de trabalho depois das férias, Lawrence Foster chega ao pé de nós entusiasmado
com a gravação de uma nova ópera do
compositor americano Gordon Getty,
Usher House e com o regresso da Orquestra Gulbenkian ao festival Georges
Enesco em Bucareste. Foster nasceu
nos Estados Unidos mas a sua ascendência é romena.
Nesta mesma digressão a Or-
“Um dia gostaria de conduzir um concerto
em que o público não me visse. Só os músicos”
questra Gulbenkian actua pela primeira vez na Arménia a terra onde
nasceram os pais de Calouste Gulbenkian. Apesar de ter nascido em
Istambul, Gulbenkian sempre se considerou arménio.
O cruzamento de afectos e de
raízes marca o arranque da nova temporada da Orquestra Gulbenkian.
Logo no primeiro dia depois das
férias, arrancaram as gravações
(para o selo Pentatone) da nova
ópera de Gordon Getty Usher
House. Quase que não houve
tempo para respirar…
É verdade. E sabe que mais? Só no
dia de hoje gravámos mais minutos de
música que o de qualquer normal gravação com uma orquestra de Londres.
A entoação está perfeita, a cooperação foi enorme. Estes músicos são
grandes virtuosos.
Continua a afirmar, como o fez
há cinco anos, ser a Orquestra
Gulbenkian um dos segredos
mais bem guardados do mundo
musical?
Hoje a qualidade da Orquestra
Gulbenkian é um segredo partilhado
por mais gente mas ainda é um segredo.
Muita coisa mudou com o aumento de gravações e as boas críticas
na imprensa especializada mas também
com as digressões que fazemos regularmente. É preciso continuar a investir
nesta visibilidade.
Depois desta digressão à Roménia e à Arménia marcada pelos
afectos, no regresso Tchaikovsky
e as suas três últimas sinfonias
esperam por si.
Estou muito satisfeito por voltar
ao festival Georges Enesco em Buca-
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reste e acho importante que a Orquestra se estreie na Arménia ainda
antes de completar cinquenta anos
de existência.
O mês de Outubro marca o arranque da programação que designamos por Outono Russo. O actual director do serviço de música da Fundação Gulbenkian Risto Nieminen adora
fazer uma programação conceptual. Eu
pelo contrário tendo mais para um
conceito de programação caótico mais
centrada na coerência musical intrínseca do que nos aspectos históricos.
Dentro deste espírito ambos acabamos por fazer concessões. É o que
vai acontecer agora com este ciclo de
música russa em torno das três últimas
sinfonias de Tchaikovsky.
Estou rendido à invenção melódica e à audácia das suas orquestrações.Tchaikovsky foi um pioneiro na
pesquisa das possibilidades de cada
instrumento.
Toda a sua música é emocionalmente comunicativa e de uma beleza
extraordinária.
E depois lá mais para o fim da
temporada um outro ciclo em
torno da música de Ravel.
Terminamos a temporada com
um bom vinho branco seco.
Tenho um fraquinho por Ravel e
pela sua música simultaneamente inventiva e fresca.
Ravel exige uma enorme disciplina para ser bem executado. A sua
alma é muito problemática. Brilhante,
espontânea mas ao mesmo tempo
problemática e obscura.
Pelo meio Wagner. Gosta tanto
de dirigir ópera em versão de
concerto, porque não dirige o
Tannhäuser?
O maestro Bertrand de Billy que
regularmente colabora connosco
apetecia-lhe muito dirigir esta ópera
e por isso vai ser ele a fazê-lo.
É muito importante fazer ópera
todos os anos. O facto de ano após
ano se fazer pelo menos uma ópera
em versão concerto no Grande Auditório foi decisivo para a melhoria da
qualidade da orquestra. Numa ópera
os músicos aprendem a escutar os
cantores, aprendem a respirar de uma
forma diferente, ganham uma flexibilidade especial. Não fazer ópera é como tocar só com um braço.
O maestro Bruno Walter dizia
que a qualidade dos músicos da Filarmónica de Viena só era o que era
porque eles cresciam musicalmente
no fosso a escutar os melhores cantores do mundo. Uma tradição que
não se perdeu.
Orgulho-me muito da qualidade
dos maestros que vêm tocar à Fundação. Quando um homem como Kirill
Petrenko que tem programado dirigir
O anel do Nibelungo em Bayreuth resolve vir a Lisboa praticar dois dos actos
do Siegfried com a Orquestra Gulbenkian penso que está tudo dito.
Petrenko é neste momento um
dos cinco grandes maestros da actualidade. É o próximo director da ópera da Baviera em Munique.
Ter aqui todos os anos Bertrand
de Billy e Simone Young como maestros convidados é uma bênção.
São figuras inspiradoras para a
Orquestra e escolhem sempre programas de grande impacto.
Uma sinfonia de Bruckner dirigida pela Simone Young é sempre um
grande acontecimento.
É conhecida e muito gabada a
forma como trabalha com os
solistas convidados.
Adoro acompanhar solistas:
para mim é fascinante pôr-me na
mente do solista e perceber o que
Lawrence Foster:
“Orgulho-me muito
da qualidade
dos maestros que
vêm tocar à Fundação”
Lawrence Foster na
Gulbenkian: “Não percebo
maestros que não gostam
de acompanhar solistas”
e perceber a forma como cada músico
interpreta cada passagem e incorporála na minha forma de dirigir.
Um dia gostaria de conduzir um
concerto em que o público não me
visse. Só veriam os músicos.
Mudaria tanto a forma como as
pessoas escutariam e disfrutariam do
concerto.
Não gosto da ideia de coreografar a música. É uma ideia redutora.
Gosto da ideia de desafiar o público
fazendo o contrário do que é expectável em termos de direcção mantendo-me muito calmo, por exemplo,
no meio da intensa massa sonora que
é por exemplo a Sinfonia alpina de
Richard Strauss.
eles querem fazer.A partir daí aprendo não a segui-los mas a participar
de uma forma activa na sua leitura.
É um prazer tão grande como aquele que se retira quando fazemos música de câmara.
Não percebo maestros que não
gostam de acompanhar solistas.
Como se define enquanto maestro?
Sou um maestro old fashioned
segundo os padrões de hoje. Não
acredito em modas, nem vou atrás
delas, nem tento ser diferente por
conveniência.
Ser um maestro à antiga significa manter a tradição que vem de Karl
Böhm ou de Herbert von Karajan
de manter os tempos lentos na interpretação do reportório do período clássico como Haydn ou Beethoven.
Quando a moda das leituras rápidas se esfumar o triunfo do meu
tipo de execução vai voltar.
Tenho de acreditar de forma fervorosa na música de um compositor
para o tocar.
Para mim a razão para ser maestro é o amor à música. A direcção de
orquestra não me fascina por uma
questão de poder ou autoridade. Acho
isso muito aborrecido.
Não gosto de ditar o que uma
orquestra deve fazer. Gosto de escutar
“Sou um maestro old fashioned segundo
os padrões de hoje. Não acredito em modas”
A Orquestra Gulbenkian partilha estas suas ideias?
A orquestra e o seu maestro são
como uma família com altos e baixos
no seu relacionamento.
Todos os músicos são muito pacientes comigo, tratam-me com um
grande respeito.
Tocam com o coração. Com
enorme paixão.
É notório que têm um grau de
educação elevada e um vasto leque de
interesses.
Durante os ensaios, se eu falar a
propósito de Beethoven de Schiller ou
Goethe toda a gente sabe de que universo estou a falar.
Isto não acontece por exemplo
nos Estados Unidos onde posso dirigir a abertura Egmont de Beethoven sem que ninguém saiba quem
era Goethe.
Já há um som característico da
Orquestra Gulbenkian?
Aqui na Gulbenkian gosto da claridade do som conseguida que talvez
seja reflexo da luz que nos rodeia.
Aprecio um certo brilho no som.
Quente e claro.
Há também uma suavidade na forma como o ataque das peças é feito que
é muito portuguesa e em minha opinião
reflecte as características intrínsecas da
própria língua portuguesa.
Hoje em dia muitas orquestras
perderam a sua individualidade sonora.
Na Alemanha gosto das orquestras que
soem à tradição alemã. Em França gosto de reconhecer um certo vibrato nos
instrumentos de sopro.
Que legado deixa quando daqui
a dois anos deixar de ser maestro titular da Orquestra Gulbenkian?
Deixo um reportório maior e
mais variado e um nível de execução
de alto nível.
Deu-se também um grande salto na comunicação com o público.
Os concertos deveriam estar sempre esgotados. O Luís Pereira Leal e
mais recentemente o Risto Nieminen conseguiram montar uma temporada que é um enorme festival,
sem quebras de qualidade durante
nove meses. O público tem que confiar neste esforço.
Programar implica três importantes vectores: desafiar a orquestra,
desafiar o público e conseguir programar música que possa ter reconhecimento internacional.
Tudo isso tem sido feito aqui na
Gulbenkian com frutos visíveis.
E em termos de reportório? O
que ainda lhe apetece fazer?
Continuar a fazer-nos descobrir
a música do compositor romeno
Georges Enesco?
Como dizia um cantor americano, Johnny Cash, “I’ve done my time”. Já contribui com a minha parte
para que se descubra a música de
George Enesco. Fiz o meu trabalho.
Agora cabe a outros sucederem-me
nessa tarefa.
Mas talvez me atreva a fazer Édipo, uma grande ópera muito pouco
conhecida.
Lembra-se da sua primeira manhã de ensaios com a Orquestra
Gulbenkian?
Recordo um incrível acolhimento.
Senti-me imediatamente bem-vindo.
Portugal é o país mais tolerante
da Europa.
Sinto isso cada vez que cá estou.
Pode chamar-me ingénuo, mas é o que
eu sinto.
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Uma casa
onde os sons
do mundo se
encontram
Um retrato da Orquestra Gulbenkian
por alguns dos que a fazem todos os
dias. Rui Lagartinho texto Rita Baleia fotos
São sessenta e seis pessoas e não podiam ser mais diferentes. Nasceram
em Portugal e em vários outros cantos
do mundo. Na grande maioria dos casos em anos distintos.
A paixão pela música obriga-os
a um convívio quase diário que felizmente é tudo menos forçado.
A família que é a Orquestra Gulbenkian anda nesta primeira metade
de Setembro em digressão pela Roménia e pela Arménia: três concertos, três
programas totalmente distintos onde
a Sinfonieta para Orquestra de Cordas
de Joly Braga Santos abre um concerto
que termina com a Sinfonia nº 9 de Antonin Dvorak e outro começa com o
Adagio do bailado Spartacus de Aram
Khachaturian a abrir caminho para o
concerto de violino de Brahms.
No regresso espera-os uma
temporada de trinta programas diferentes só no Grande Auditório. Começam com a A Criação Terminam
com o Bolero de Ravel.
Uma temporada maior que a da
Orquestra Nacional de Espanha, ou
que a da Sinfónica de Barcelona. A
comparação pára nos Pirenéus mas
podia atravessá-los.
Um ritmo de trabalho avassalador, um teste de resistência física ao
valor da paixão que é fazer música em
conjunto.
Uma aventura que começou há
quase cinquenta anos com a criação
da Orquestra de Câmara Gulbenkian.
A referência à música de Câmara no
nome caiu em 1971 com a inauguração do Grande Auditório.
“Lembro-me de ser muito jovem, ainda estudava o violoncelo, e de
as pessoas que me levavam aos concertos me dizerem que a Orquestra
Gulbenkian estava para acabar. Afinal
tais vaticínios não se concretizaram e
a Orquestra Gulbenkian está hoje
mais forte e sólida que nunca.” Maria
José Falcão, primeiro violoncelo solo
da Orquestra para onde entrou em
1990. Sorriso suave, olhar límpido e
claro.“A qualidade da Orquestra melhorou imenso: a exigência é maior e
o rigor também.Aprendemos a nunca
cair na rotina. Há mais variedade de
maestros a virem trabalhar connosco.
Escutam-nos lá fora ou leem as críticas
aos nossos concertos. Passam palavra.
Este trabalho é muito importante para a visibilidade actual da Orquestra
Gulbenkian.”
7
“Aimez - Vous Brahms?” Da Venezuela com amor.
“Durante 14 anos (entre os 8 e
os 26) toquei nalgumas das orques-
tras do famoso Sistema (que formou
entre outros o maestro Gustavo Dudamel) na Venezuela. Aqui o som é
muito mais aveludado e redondo do
que aquele a que eu estava habituada
no meu país. Para mim a chegada à
Orquestra Gulbenkian foi uma mudança grande e muito positiva.” Passaram quinze anos desde que Ana
Beatriz Manzanilla chegou a Lisboa.
Na altura havia menos portugueses
a tocar na Orquestra Gulbenkian.
Hoje orgulha-se quando vê que a situação se alterou: “A qualidade dos
músicos portugueses faz – me pensar
que daqui a uns tempos será possível
existir uma Orquestra Gulbenkian
só com músicos portugueses. Contra
mim falo. (risos). A vida dá muitas
voltas e encarrega-se de fechar ciclos.
Agora sou eu a estar envolvida com
o projecto da orquestra Geração,
uma aventura musical portuguesa
claramente inspirada no modelo do
Sistema de ensino da música venezuelano.”
A versatilidade de reportórios e
de escolas de interpretação em confronto é para esta morena apaixonada
pela sua família, pela Orquestra Gulbenkian e por Brahms um dos segredos do sucesso: “É uma orquestra que
reage muito depressa a novos desafios,
como agora que ensaiamos numa semana quatro programas diferentes e
ainda gravamos um disco.”
O que é um fagote?
“O fagote tem a função harmónica de criar uma certa estabilidade
no contexto da orquestra.
O solo do fagote com que se
inicia a Sagração da Primavera de Stravinsky foi visionário no seu tempo. E
assim se manteve. É um lamento único
na história da música.
Mas o fagote também pode ser
assumido como brincalhão como
fez o Paul Dukas em Aprendiz de
feiticeiro.
A maturidade e articulação do
discurso de Vera Dias transborda dos
seus vinte e cinco anos. Está na Orquestra Gulbenkian há cinco. Chegou
vinda da Alemanha onde estudou.
“Todos os músicos têm uma
relação íntima com o seu instrumento pela intimidade solitária que desenvolvem durante a sua carreira.
Estudando e aperfeiçoando-se como
músico.
Depois chega o momento de
integrar uma orquestra. E é uma sensação muito peculiar.
É como pertencer a uma grande
família. Somos muitos e existe uma
Maria José Falcão
violoncelo
“A Orquestra Gulbenkian hoje é quase tão
perpétua como a Fundação que a criou”.
Ana Beatriz Manzanilla
violino
“A Orquestra Gulbenkian com 66 músicos
de catorze nacionalidades é uma verdadeira
torre de Babel.”
Sophie Perrier
flauta
David Lefèvre
violino
“Lisboa sendo uma capital é como a Orquestra Gulbenkian: soube guardar uma dimensão humana.”
espécie de camaradagem entre nós.
Não somos todos amigos íntimos, como é óbvio, mas fazer arte une-nos.
Tocarmos e escutarmo-nos em
simultâneo é uma sensação única.”
Um luxo acessível
Há unos anos, segundo Vera,
“as orquestras eram um luxo. Os
meus pais que trabalham numa fábrica adoraram a experiência de
escutar uma orquestra ao vivo.
Desde a primeira vez. Nós temos
de começar a dar valor ao que é
nosso. Temos uma excelente orquestra com uma maioria de músicos portugueses que devia orgulhar o nosso público e isso ainda
não acontece com a paixão com o
que o fazem os espanhóis ou os
alemães em relação às suas orquestras e aos seus músicos. É uma
questão de mentalidade que espero que mude.
A Orquestra Gulbenkian está
num período de transição. A pressão
para sermos melhores é cada vez
maior. E a orquestra acompanha esse
desafio.
Podemo-nos comparar às grandes orquestras europeias, apesar de
estarmos num país pequeno.”
Rui Sul Gomes entrou para a
Orquestra Gulbenkian no mesmo
ano que Vera Dias. É deles, entre outros, de quem se fala quando o tema
é a renovação dos músicos na Orquestra:“Sinto que o facto de ter entrado muita gente nova nos últimos
cinco anos contribuiu para o dinamismo da Orquestra Gulbenkian”.
Timbalista, é por razões óbvias
um dos músicos que mais tempo
passa na Fundação Gulbenkian. O
seu instrumento não pode ser levado a tiracolo mas o tamanho não é
proporcional à sensibilidade que é
necessária para tocar este instrumento feito de pele natural. Os timbales recordam-nos o rugido da
terra em cada obra. Fecham capítulos narrativos, inauguram outros.
Isso é bem audível nas sinfonias de
Beethoven ou de Mahler e na incontornável Sagração da Primavera de
Stravinsky.
Rui que tem uma visão privilegiada e de anfiteatro sobre os seus
colegas não tem dúvidas: “Caminhamos para que haja em breve uma sonoridade própria da Orquestra Gulbenkian”.
Sophie Perrier é a primeira
flauta solo.Toca na Gulbenkian desde 1989. Assistiu ao primeiro salto
qualitativo na história da formação:
“Entrei na altura em que a Orquestra se alargou sobre a direcção do
maestro Muhai Tang e o nível da Orquestra melhorou. Ao subir o nível
da execução também sobem as tensões entre os músicos. Mas aqui na
Gulbenkian conseguimos sempre
manter um nível bastante simpático,
distendido e compreensivo entre
nós.”
Quem vê Sophie e a sua flauta
que a própria define como “graça,
agilidade, leveza” não desconfia do
esforço e do treino que o seu instrumento exige: “A flauta é um instrumento suave mas que precisa de mui-
“Schubert faz vibrar em mim emoções muito fortes”.
to esforço físico para ser tocado
porque perdemos muito ar.”
Poder trabalhar este ano sob a
orientação de Ton Koopman é algo
que deixa Sophie bastante entusiasmada. E numa cantata de Bach, o seu
compositor preferido.
Sophie Perrier impressiona-se
sempre com “o grande fervor, o
grande interesse e entusiasmo do
público quando fazemos os concertos para toda a família.” Mas lamenta que nos outros concertos “O
público ainda esteja fechado. Talvez
se passassem mais concertos vezes
na televisão, isso mudasse”. Por acaso este ano a RTP 2 transmite em
directo ou em gravações alguns dos
concertos do Prémio Jovem Músicos. O mais importante prémio musical português, organizado pela Antena 2 completa este ano 25 anos.
Em termos de impacto junto do
público a bitola do concertino principal da Orquestra Gulbenkian o concertino David Lefèvre é a Orquestra
Filarmónica de Monte Carlo. O violinista garante-nos que o público em
Lisboa é muito mais jovem que no
Mónaco e que a comunicação com o
público mais calorosa.
Sob a direcção do maestro Foster a Orquestra Gulbenkian deixou
de ter um concertino principal permanente. David Lefèvre não está em
permanência em Lisboa mas a sua
mulher e o seu filho recém-nascido
sim:“Acho que isso diz muito da minha afeição pelo vosso país.”
Para Lefèvre uma orquestra é
“uma grande escola de humildade.”
“A orquestra é o instrumento que mais se
aproxima do registo da voz humana.”
Quando os sons se misturam
“Há entre os músicos da Orquestra Gulbenkian quem tenha
aprendido a tocar violino nos Estados
Unidos. Outros na Rússia. Há uma
forma diferente de tocar num contrabaixista francês ou num alemão.
Depois todos se adaptam a uma direcção que se por exemplo vier do
Togo tem de ser aceite.”
O que de facto não falta Orquestra são escolas diferentes de
interpretação que aqui desaguam. O
Leste Europeu, a Rússia, a Arménia
são ainda referência nas cordas.
Samuel Barsegian primeiro solista em viola está na Orquestra Gulbenkian há três. Veio da Bélgica, é um
dos três músicos arménios da Orquestra:“É incrível a única orquestra
com um nome arménio , Gulbenkian,
nunca tocou na Armenia”.
É com emoção que encara esta digressão. Para ele o que mais o
surpreendeu foi a flexibilidade que
encontrou desde o primeiro momento em que integrou a orquestra:
“A Gulbenkian é a orquestra mais
flexível que eu conheço na Europa.
E eu conheço algumas para poder
falar assim. Seria difícil noutro lugares os músicos adaptarem-se a um
reportório e a um ritmo de trabalho
tão intensos.”
Para Samuel o seu instrumento
é um pivô central no som da Orquestra: “A orquestra é o instrumento
que mais se aproxima do registo da
voz humana.”
O seu colega de naipe Patrick
Eisinger há mais de vinte anos que
Samuel em Lisboa concorda com essa definição:“A viola faz a ligação entre os vários naipes das cordas.Alguns
os mais cínicos dizem que ela é um
mal necessário em cada orquestra.
Tem um som suave e poderoso.”
Conversar com Patrick permite-nos perceber que o som de uma
orquestra num dia qualquer traduz
sempre uma história que começou
muito antes, quando um bom maestro chega com uma boa ideia: “O último grande dinossauro, entre os
maestros professores, Rodolf Barshai
que felizmente chegou a trabalhar
connosco tinha uma noção de como
se constrói um som imaginado. Isso
é uma bênção. Nos primeiros anos
aqui em Lisboa fui muito marcado
por dois maestros húngaros que nunca mais esqueci: o Janos Furst e o Iván
Fischer.”
Já na altura havia muitos estrangeiros, hoje há mais mas também estão a entrar muitos portugueses.
As cordas portuguesas evoluíram muito e são hoje muito boas.
Só não podemos nunca esquecermos que cada ataque da mão direita deve ser diferente consoante o
compositor. Temos de estar muito
atentos.”
O mundo musical português é
muito novo quando comparado com
outros países mas está a evoluir muito depressa e bem.
Aqui na Orquestra isso sente-se
todas as semanas quando se percebe
que cada maestro tira pode tirar desta orquestra o som que quiser.
Depois os resultados vêem-se:
Quem imaginaria que a Orquestra
Gulbenkian iria actuar com sucesso
no Concertgbouw de Amsterdão ou
na Filarmónica de Berlim? É um clube
restrito e a Orquestra Gulbenkian
integra-o por mérito próprio.”
Entre Setembro e Junho em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, estes
e mais umas largas dezenas de músicos como eles dão ano após ano o
seu melhor.
Para eles e para si!
8
Samuel Barsegian
viola
“A diáspora musical de três músicos arménios voltou a reunir-se em Lisboa na Orquestra Gulbenkian.”
Rui Sul Gomes
timbales
“Há uma energia muito especial que emana
dos timbales que contagia os meus colegas
durante a execução de uma obra.”
9
Vera Dias
fagote
“Durante uns tempos fui o benjamim da Orquestra Gulbenkian. Adorei.”
Patrick Eisinger
viola
“Tchaikovsky, Brahms, Rachmaninov, Chostakovitch: o meu coração está lá.”
Os russos experimentaram na sua música, e também na sua vida, a dualidade entre internacionalismo e nacionalismo. Chostakovitch é exemplo acabado desta dualidade russa. Teresa Cascudo
Ciclo Outono Russo
Dualidade e criação
DR
A música russa constitui um dos
eixos principais da programação
que o Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian propõe
esta temporada. Serão escutadas
obras dos compositores russos
clássicos, de Glinka a Chostakovitch, mas também um importante
número de excelentes intérpretes
russos, entre os quais se destaca o
longevo Quarteto Borodin.
O nacionalismo primeiro, e o
socialismo soviético depois, foram
as grandes ideias que determinaram
o percurso dos compositores russos dos séculos XIX e XX. A música sempre constituiu um elemento
central da vida cultural russa, ancorado num exigentíssimo sistema de
ensino. Certamente por isso, a nova música, desde Glinka, sempre foi
Censurado, Chostakovitch viveu dividido
entre uma prática pública e outra privada
recebida, aplaudida ou censurada
com paixão.
A partir da década de 80 do
século XIX, a “música russa” difundiu-se para além das fronteiras do
Império dos Czares conseguindo
uma projecção notável: uma imagem
sonora colorista e de grande impacto, formou-se a partir daí e persiste
na imaginação dos melómanos até
hoje. Os desvios a esta linha por parte de qualquer compositor, pode
levar à tentação de pensar que a cultura russa é repleta de contrastes e
de paradoxos. Esta leitura, aplicada
aos compositores dos últimos dois
séculos, parece mesmo inevitável.
Mas, talvez, a palavra dualidade seja
o melhor guia para quem, além de
pretender desfrutar do inegável prazer sonoro e da empatia emocional
desta música, queira também entender o que se poderia denominar
como um projecto de construção
de uma imagem sonora. Russa ao
longo do século XIX, soviética durante boa parte do século XX.
A inevitável influência da tradição musical europeia, que se fundamenta na estabilidade das convenções que definem os diversos
géneros, conviveu com a procura
dos elementos sonoros que se podiam identificar com a tradição
russa. O debate daí derivado era
fundamentalmente crítico, mas
orientou a recepção e o trabalho
dos compositores. Como resultado, houve compositores, como Borodin, que abriram novas vias que
influenciaram muitos colegas mais
a Ocidente. Os russos experimentaram na sua música, e também na
sua vida, a dualidade entre internacionalismo e nacionalismo, como
atestam os percursos de Tchaikovsky, Rachmaninov e de Prokofiev,
três dos compositores incluídos
esta temporada na programação
musical da Fundação Calouste Gulbenkian. O sucesso internacional
combinou-se neles com um profundo apego à terra russa. As últimas sinfonias de Tchaikovsky e
10
Orquestra Sinfónica
Portuguesa
Barbara Hannigan
CALENDÁRIO
MARCO BORGGREVE
DR
Ciclo
Chostakovitch
Integral
dos quartetos
de cordas
Outros concertos
Grande Auditório
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Sol Gabetta violoncelo
Glinka,Chostakovitch,Tchaikovsky
09 Out 19h00
Borodin Quartet
Quarteto Borodin
D. Chostakovitch
KEITH SAUNDERS
11 Out 19h00
Quarteto Borodin
D. Chostakovitch
12 Out 19h00
Quarteto Borodin
D. Chostakovitch
16 Out
19h00
Quarteto Borodin
D. Chostakovitch
17 Out
19h00
Quarteto Borodin
D. Chostakovitch
Ingo Metzmacher
ANJA FRERS
Grande Auditório
13 Out 21h00
14 Out 19h00
14 Out 21h30
Solistas da Orquestra
Gulbenkian
(entrada livre)
Trio Arriaga
Felipe Rodriguez violino
Oleguer Beltran-Pallarés
violino
Samuel Barsegian viola
Maia Kouznetsova viola
Varoujan Bartikian
violoncelo
Martin Henneken violoncelo
Tchaikovsky, Chostakovitch
09 Dez
21h30
Solistas da Orquestra
Gulbenkian
(entrada livre)
Ana Beatriz Manzanilla
violino
Jorge Teixeira violino
Cristopher Hooley viola
Jeremy Lake violoncelo
João Paulo Santos piano
Braga Santos, Chostakovitch
15 Dez 21h00
16 Dez 19h00
Orquestra Gulbenkian
David Afkham maestro
Sergei Khachatryan violino
Prokofiev, Chostakovitch
15 Dez 21h00
16 Fev 21h00
17 Fev 19h00
Orquestra Gulbenkian
Barbara Hannigan soprano/
maestrina
Rossini, Mozart, Ligeti, Nono,
Stravinsky, Chostakovitch
13 Abr
11
Artur Pizarro
Martin André
DR
RICARDO BRITO
alguns concertos para piano de
Prokofiev e Rachmaninov serão
tocados pela Orquestra Gulbenkian
e permitirão comprová-lo.
Chostakovitch é exemplo acabado desta dualidade russa, estando
fortemente marcada no seu carácter vacilante entre a euforia e a depressão que se tornou ainda mais
agudo nas circunstâncias históricas
que lhe tocaram viver. A partir de
1934, em plena época de terror estalinista, o poder político começou
a intervir de forma directa na criação musical. Chostakovitch foi um
dos compositores eleitos pelo poder soviético para mostrar publicamente como deviam funcionar as
regras da arte soviética. Dois anos
após a estreia, a ópera Lady Macbeth foi acusada no Pravda de ser “caos em vez de música”, ou seja, de
sacrificar o indispensável efeito
educativo nas massas em prol da
pretensão formalista. Chostakovitch
reagiu compondo a premiada Quinta Sinfonia. A partir desse momen-
to, viveu dividido entre uma prática
pública e outra privada, entre a
adaptação à pressão totalitarista e
as suas próprias necessidades enquanto artista.
Os quinze quartetos que escreveu entre 1938 e 1974 ilustram
bem essa prática mais pessoal. Serão tocados na íntegra pelo Quarteto Borodin, no próximo mês de
Outubro. Fundado em 1945, embora adoptasse o nome com que é
conhecido alguns anos mais tarde,
este quarteto viveu, com Chostakovitch, as sucessivas fases do regime
soviético. Tem mantido a sua actividade sem interrupções até hoje,
momento em que já não é vivo nenhum dos seus membros iniciais.
Um deles, que foi também o último
em falecer, foi o violoncelista Valentin Berlinsky. Numa entrevista que
tivemos a oportunidade de lhe fazer,
lembrava as lágrimas que o compositor deixava cair em silêncio durante as audições privadas dos seus
quartetos, executados, entre outros
agrupamentos, pelos Borodin. Imaginem, quando os escutem, que se
encontram numa sala pequena repleta de amigos íntimos e de fantasmas. Onde ninguém se move e
só se chora.
Decidir se Chostakovitch foi
ou não um dissidente tem sido um
dos temas mais discutidos pela
musicologia internacional. Mas,
quem pode, vivendo numa democracia, exigir heroísmo a quem
sofreu directamente a loucura do
estalinismo? É certo, porém, que
ele sobreviveu, enquanto muitos
outros foram silenciados. Temos
o exemplo de Nikolai Roslavets,
cujo primeiro concerto para violino será escutado nos dias 27 e
28 de Outubro próximos. Defensor da nova música, particularmente de Schoenberg, e da tradição clássica, crítico com o dogmatismo dos “músicos proletários”,
foi acusado em 1930 de contrarevolucionário e de inimigo do
povo. A sua obra foi banida e só
21h00
Orquestra Sinfónica
Portuguesa
Martin André maestro
Artur Pizarro piano
Chostakovitch, Rachmaninov,
Tchaikovsky
começou a ser recuperada na passada década de 80.
A música russa persiste até
hoje não só no legado dos seus
compositores, mas também na presença assídua de intérpretes russos
no circuito internacional. Para além
do Quarteto Borodin, ao longo desta temporada poderão ser escutados os pianistas Evgeny Kissin, Arcadi Volodos, Alexei Volodin e Grigory Sokolov, os violinistas Viktoria
Mullova, Alina Ibramova, Sergey
Khachatryan e Dmitri Maktin e o
maestro Kirill Petrenko. Não serão
escutados apenas músicos russos.
Assim, por exemplo, no segundo e
no terceiro dos concertos para piano de Rachmaninov, serão solistas
Sequeira Costa e Artur Pizarro. No
entanto, a ligação do primeiro com
a música russa é conhecida, e não
apenas como intérprete: em 1958
foi convidado por Chostakovitch
para fazer parte do júri do prestigiado Concurso Tchaikovsky, do
qual fez parte em várias ocasiões.
16 Abr
19h00
Gustav Mahler
Jugendorchester
Ingo Metzmacher maestro
Iréne Theorin soprano
Wagner, Chostakovitch
Filmes
Grande Auditório
07 Dez
2100
Shostakovich against
Stalin:The War
Symphonies
Realização Larry Weinstein
1997, 76 min
legendas em inglês
14 Dez
19h00
Shostakovich: Katerina
Izmailova
Realização Mikhail Shapiro
1966, 112 min
legendas em inglês
Wagner não é apenas mais um compositor: é também um motor da história de grande influência futura na música e na estética. A Gulbenkian apresenta-o em múltiplos contextos. Henrique Silveira
Ciclo Wagner+
As mil interpretações
Richard Wagner
DR
Na sua nova temporada de Música,
a Fundação Calouste Gulbenkian
dedica a Richard Wagner (Leipzig
1813 – Veneza 1883) uma “longa linha melódica da programação”. Os
concertos Wagner+ “oferecem diferentes pontos de vista do seu universo criativo”.
A expressão usada no editorial
do programa que anuncia a temporada musical 11/12 da Gulbenkian
não podia ser mais feliz.Wagner associa à sua vida e obra um verdadeiro universo: treze dramas musicais, obras teóricas como A Obra de
Arte do Futuro, Arte e Revolução, Ópera e Drama, panfletos, ideias sobre
teatro e arte, acção política e revolucionária. Relações amplamente
documentadas com Liszt, Nietzsche
e muitos outros pensadores.
Wagner não é estático no tempo, o seu caminho desde o socialismo revolucionário de Bakunine e
ideias de Feuerbach até ao pessimismo de Schopenhauer é muito importante na sua vida e obra. Wagner
não é apenas mais um compositor:
é também um motor da história de
grande influência futura na música e
na estética.
A Fundação Gulbenkian apresenta Wagner em múltiplos contextos: nos próprios dramas musicais
em versão de concerto, como o Tannhäuser, seguidos de excertos muito
significativos de Siegfried; nas transmissões da Metropolitan Opera
House de Nova Iorque do Siegfried
e do Crepúsculo dos Deuses que concluem a tetralogia de Robert Lepage
e de James Levine; nos excertos sinfónicos, com as aberturas e prelúdios em destaque, e as adaptações
para orquestra da música do próprio
compositor e de outros, onde se inclui uma visão do Anel sem palavras.
Uma obra do maestro Lorin Maazel
a partir de Wagner e que será escutada na Gulbenkian.
As penosas digressões que levaram Wagner até à Rússia para reunir dinheiro para pagar as crónicas
dívidas incluíam sempre excertos
sinfónicos, um dos grandes motores
da popularidade de Wagner nas duas décadas finais da sua vida.
Nesta programação figuram também as transcrições para piano e as
reduções para agrupamentos de câmara, que contribuíram para a divulgação inicial da música de Wagner.
Finalmente, surgem as obras de
autores influenciados por Wagner,
tão díspares como Liszt, Smetana,
Bruckner, Strauss, Chostakovitch
entre muitos outros.
É um universo mágico, onde
figuram as lendas e mitologia nórdicas misturadas com poemas medievais alemães como a “Canção
dos Nibelungos” que surge em todos os dramas musicais posteriores
ao Navio Fantasma com a particularidade de serem sempre reinventadas pela imaginação de Wagner,
criador de mitos.
Richard Wagner tem servido
ao longo dos anos como estandarte para múltiplos debates. Ainda é
comum encontrar gente a quem
desagrada a obra do compositor,
apenas com base em preconceitos
e ideias feitas relacionadas com as
ideias políticas, filosóficas ou com
as idiossincrasias do carácter do
compositor.
Os aproveitamentos políticos
da sua vida e obra foram evidentes
por parte de Hitler, que tentou estender a sua admiração pela música
e obra de Wagner a todo o partido
nazi e nação alemã sem, aliás, ter tido grande sucesso entre os seus
apaniguados mais directos. Era mais
um caso de gosto pessoal do que um
culto generalizado, e foi, evidentemente, aproveitado em filmes de
propaganda. O mais célebre destes
filmes, O Triunfo da Vontade de Leni
Riefenstahl, usa a música de Wagner
e uma estética neo-wagneriana para
exaltar o partido nazi e o seu líder.
Existe um paralelo no aproveitamento político dos artistas e da
sua arte posto em evidência com o
caso de Chostakovitch. No entanto
há uma diferença considerável entre
este e Wagner: o russo acreditou,
com alguns problemas de consciência, na ideologia de Estaline, tendo
Wagner morrido cinquenta anos antes de Hitler chegar ao poder.
É evidente que Wagner tinha
efectivo conhecimento do seu génio;
chegou a ser escutado a dizer, dirigindo-se ao seu cão Peps em Dresden antes das barricadas de 1848,
muito antes de ser famoso, “Se tu
soubesses que quem te leva a passear é o grande Wagner!”. Isso tornava-o antipático aos olhos dos seus
contemporâneos, nomeadamente
aos do célebre crítico vienense
Hanslick, que Wagner tratou com
desdém nos seus primeiros encon-
A sua instabilidade tonal será levada ao extremo
pelas correntes vanguardistas do século XX
tros. Um facto que lhe veio a granjear o rancor do professor de estética vienense.
Wagner foi ainda desleal para
com amigos e protectores, como
Otto Wesendonck, quando vivia às
suas expensas numa moradia nas
traseiras do seu jardim, o chamado
asyl, e a Hans von Bülow de quem
tomou a sua segunda mulher, Cosima, filha do seu amigo e defensor
Franz Liszt.
A relação com Mathilde Wesendonck deu-nos obras notáveis,
sendo a mais importante esse monumento ao amor que é o “Tristão
e Isolda”, uma obra suprema, segundo as palavras do compositor Vianna
da Motta. A relação com Cosima
deu-lhe estabilidade para concluir o
Anel, 26 anos após a sua concepção.
O artista romântico, que foi Wagner,
poderia encontrar o estado febril da
criação artística sem o germe da paixão, do tormento e da culpa?
A distância mágica do palco, o
fluxo contínuo da acção dramática,
sem quebras ou pausas, a sala escura, a orquestra invisível, o anfiteatro
democrático de onde todos têm a
Bertrand de Billy
DR
12
CALENDÁRIO
Wagner
Concertos
Filmes
Grande Auditório
Grande Auditório
Ludwig
Realização Luchino Visconti
1972, 185 min
05 Jan 21h00
06 Jan 19h00
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Artur Pizarro piano
Franz Liszt,Wagner/Liszt
08 Jan 21h00
Job Arantes Tomé DR
13
mesma visão e audição, o teatro pelo teatro, em que o público é o elemento central mas em que os actores/cantores representam como na
vida sem poses declamatórias, tudo
isso devemos a Wagner.
A sua música goza de uma dualidade extraordinária: é de um sinfonismo absoluto, o Tristão tem um
dos libretos mais curtos relativamente à extensão da obra e, ao mesmo tempo, é absolutamente funcional no serviço do drama.A orquestra
é um personagem fundamental da
obra, caracterizando e realizando a
acção, tanto nos pontos naturalistas,
acção
como quando se ouve uma escala
descendente na queda de Hunding
desce
em A Valquíria ou os cães a ladrar ao
longe e os rios a fluir, como através
de su
subtis efeitos psicológicos, representando a felicidade, a angústia, o
senta
amor trágico, ou mesmo esperança
num futuro e numa redenção que
salvará o homem do futuro.
salvar
Wagner usa a técnica do leitW
motiv, motivo condutor, tanto nas
motiv
vozes como na orquestra mas o seu
emprego através desta torna-se caempr
da ve
vez mais evidente à medida que
a sua obra amadurece. Cria uma teia
de te
temas que se torna num contraponto complexo chegando ao extremo de, no Crepúsculo dos Deuses,
apresentar mais de mil pontos de
apres
inserção dos diversos temas conduinserç
tores.A absorção da obra de Wagner
tores
pode ser intuitiva, porque toda essa
teia sse entranha inconscientemente,
mas ganha uma dimensão tanto
maior quanto mais informada é preparação do público para a obra.
paraç
É também essa constante mutação dramática que leva à instabilidade tonal que serve fins estéticos e
teatrais. Essa instabilidade será depois
teatra
levada ao extremo pelas correntes
levad
vanguardistas do século XX.
vangu
É muito difícil, fora do contexto dr
dramático e mantendo uma estrutura tonal fixa, emular Wagner.
trutu
Um d
dos mais wagnerianos dos seus
seguidores, Bruckner, não consegue
seguid
romper com algum estatismo nas
romp
suas obras em que os temas não
evoluem, sendo muitas vezes apenas
evolu
retomados, transpostos ou reorretom
questrados , como tão bem notou
quest
André Boucourechliev.
Andr
Wagner tomou conhecimento no exílio 1854 da filosofia de
SSchopenhauer. O libreto do Anel
já estava escrito nessa altura
e a obra literária sofre uma
reinterpretação pelo próprio
compositor, que escreve a
música sob à luz das novas
ideias. Esta sucessão permite
uma série
s
de interpretações: umas
Uri Caine piano
Pedro Pacheco violino
Otto Pereira violino
Raquel Reis violoncelo
Marc Ramirez
contrabaixo
Paulo Jorge Ferreira
acordeão
Wagner e Veneza
Kirill Petrenko DR
segundo as ideias de Schopenhauer,
outras segundo o modelo socialista
revolucionário do plano inicial, muitas, ainda, de acordo com as orientações pessoais de cada encenador
ou de cada maestro: exemplo,
Graham Vick vê o Anel como um
conflito social, enquanto Herbert
von Karajan o via como um conflito
de gerações.
A filosofia de Schopenhauer,
não podendo entrar conscientemente no texto, já escrito, toma o seu
lugar através da música. O próprio
Wagner reinterpreta a cena da quebra da lança de Wotan por Siegfried
como um acto de renúncia e não da
tomada de poder pelo mais forte.
Podemos dizer que a construção do
fluxo dramático tem uma narrativa
que se encerra também na própria
música centrada na orquestra, e isso
dá sentido àquilo que Maazel procurou fazer no seu “Ring without words”: “Tudo reside na orquestra”.
As mil interpretações da música de um compositor que durante
o tempo das suas circunstâncias biográficas projectou um futuro que
ainda é hoje, leva-nos a ansiar pelo
início do ciclo Wagner+.
12 Jan 19h00
15 Jan 16h00
08 Jan 15h00
13 Jan 19h00
Grande Auditório
Parsifal
Realização Hans Syberberg
1982, 255 min
Conferências
08 Jan 19h00
Auditório Três
Tannhäusser: do libreto de
Wagner ao olhar de
Visconti
Conferência por Yvette
Centeno e Nuno Vieira de
Almeida
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Bertrand de Billy maestro
Melanie Diener soprano
Heidi Brunner soprano
Ana Maria Pinto soprano
Johan Botha tenor
Charles Robert Reid tenor
Dietmar Kerschbaum tenor
Job Tomé barítono
Falk Struckmann barítono
Tannhäuser - Richard Wagner
23 Mar 19h00
Orquestra Gulbenkian
Michael Boder maestro
Wagner, Ligeti,Wagner/Maazel
Uri Caine
CARLOS LOPES
15 Abr
19h00
Gustav Mahler
Jugendorchester
Ingo Metzmacher maestro
Iréne Theorin soprano
Wagner,Webern, Zimmermann,
Scriabin
16 Abr
19h00
Gustav Mahler
Jugendorchester
Ingo Metzmacher maestro
Iréne Theorin soprano
Wagner, Chostakovitch
Dietmar Kerschbaum
03 Mai 21h00
04 Mai 19h00
Orquestra Gulbenkian
Kirill Petrenko maestro
Scott MacAllister tenor
Wolfgang Koch baixobarítono
Peter Galliard tenor
Siegfried (1º Acto) - Richard
Wagner
10 Mai 21h00
11 Mai 19h00
Michael Boder
DR
Johan Botha DR
Orquestra Gulbenkian
Kirill Petrenko maestro
Scott MacAllister tenor
Anna Katharina Behnke
soprano
Wagner,Tchaikovsky
Ana Maria Pinto
DR
Melanie Diener
DR
DR
Freiburger Barockorchester
MARCO BORGGREVE
A curiosidade que nesta temprada explora Músicas do Mundo e parcerias extraordinárias parece
perder algum do seu vigor quando encara o horizonte da música antiga. Vanda de Sá
Ciclo de Música Antiga
Brilho relativo
René Jacobs
PHILIPPE MATSAS
O conjunto de 7 programas que
constituem o ciclo de Música Antiga
da Temporada Gulbenkian celebra
grandes nomes do cânone internacional, com Johann Sebastian Bach à
cabeça; privilegia a música vocal com
algumas das maiores estrelas do canto, umas firmadas como Andreas
Scholl, outras emergentes como Philippe Jaroussky; não abarca os reportórios anteriores ao período barroco; ignora quase a música criada em
Portugal; não reflecte uma linha de
diferenciação e sim uma inserção da
música antiga enquanto universo estável, sem questões intrínsecas suficientemente fortes para estimular
ciclos internos de programação e
pensamento. Este último aspecto é
sintoma de maturidade de reportórios, mas denota um empobrecimento da curiosidade em relação a tudo
o que continua ainda a ser revelado
e é novo no universo da música antiga. A curiosidade que explora Músicas do Mundo e parcerias extraordinárias parece perder algum do
seu vigor quando encara o horizonte da música antiga.
Em matéria de espectáculo vocal promessa de drama, coloratura e
algumas extravagâncias histriónicas
no recital de Patricia Petibon que na
esteira do seu mais recente trabalho
discográfico intitulado Rosso cantará
árias de ópera de autores como Haendel, Vivaldi e A. Scarlatti ao lado
de outros menos conhecidos como
Alessandro Stradella ou Tarquinio
Merula. Lembramo-nos dos caminhos desbravados por Cecilia Bartoli em matéria de reabilitação de
reportórios em recitais de ópera, da
exploração de contrastes, sussurros,
suspiros, ênfases, sublinhados e itálicos de toda a ordem. Voltamos a
querer ouvir Bartoli. Neste recital,
Petibon conta com o acompanhamento da Venice Baroque Orchestra
sob a direcção empolgante de Andrea Marcon.
Os amantes de ópera não quererão perder a abertura do ciclo
com La finta Giardiniera, K.196 de
Mozart sob a direcção de René Jacobs, o maestro que, antecedido por
John Eliot Gardiner, mais contribuiu
para a releitura do texto musical das
óperas de Mozart que se verificou
a partir da década final do século
XX. Uso de edições críticas, recuperando textos integrais e evitando
cortes ditados pela tradição (nomeadamente em recitativos), tempos
rápidos, vozes “refrescantes”, equilíbrio de elencos, elegância estilística, uma beleza profundamente marcada por um hálito de juventude.
Nem todos os registos primaram
(Gardiner, DG-Archiv; Jacobs, Harmonia Mundi) pelo mesmo nível de
realização mas Cosi fan tutte foi em
ambos os projectos Mozart um caso de sucesso extraordinário. Certo
é que as óperas de Mozart se constituíram como um dos núcleos de
reportório (et pour cause) em que
se equilibraram e consolidaram de
forma particularmente consistente
as premissas de uma interpretação
historicamente informada mas consciente das suas limitações, liberdades
e constrangimentos num jogo de
equilíbrio com uma tradição rele-
14
CALENDÁRIO
Música Antiga
Grande Auditório
02 Out 19h00
Thomas Hengelbrock
Fernando Guimarães
Jeannette Sorrell
FLORENCE GRANDIDIER
DIDIER
DR
CHAUTAUQUAN DAILY
Freiburger
Barockorchester
René Jacobs maestro
Jeremy Ovenden tenor
Sophie Karthauser soprano
Alexandrina
Pendatchanska soprano
Marie-Claude Chappuis
meio-soprano
Sunhae Im soprano
Jeffrey Francis tenor
Michael Nagy baixo
La finta giardiniera, K. 196 - W. A.
Mozart
14 Nov 19h00
Appolo’s Fire Ensemble
Jeannette Sorell maestrina
Philippe Jaroussky
contratenor
Vivaldi, Händel
29 Nov 21h00
Balthasar Neumann
Choir & Soloists
Balthasar Neumann
Ensemble
Thomas Hengelbrock
maestro
Zelenka, J. S. Bach
30 Nov 21h00
Coro Gulbenkian
Michel Corboz maestro
Charlotte Müller Perrier
soprano
Fernando Guimarães tenor
Nicholas McNair órgão
Thilo Hirsch violoncelo
J. S. Bach, Francisco António de
Almeida, D. Scarlatti
03 Dez
15
vante. La finta Giardiniera (libreto de
Giuseppe Petrosellini) foi estreada
em Munique em 1775, quando o
compositor tinha 18 anos. Trata-se
de uma das óperas mais ignoradas
do autor mau grado revelar o toque
de génio emergente e anunciar a
maturidade em Mozart, em concreto a capacidade de transcender
constrangimentos formais. Em 1779
a ópera foi adaptada ao formato singspiel (com texto em alemão), conquistando notória popularidade junto do público.
René Jacobs dirige a Freiburger Barockorchester (fundada em
1987) que juntamente com a Akademie für alte Musik (1982) ou o
Concerto Köln (1985), entre outras
formações, é no presente uma das
mais importantes orquestras, cujo
reportório sintomaticamente se
tem vindo a expandir a períodos
mais recentes e que apresentam
características de paleta sonora e
de articulação que as diferenciam
de formações francesas, italianas e
mesmo inglesas, assumindo-se o
Hespérion XXI como um caso à
parte. A mesma Freiburger Barockorchester propõe um reforço de
sintonia de identidade no concerto
intitulado Em demanda da Flor Azul,
sob a direcção de Pablo Heras-Casado (20 Março). Trata-se da flor
que o jovem poeta medieval criado
por Novalis tenta alcançar, evocando um remoto paraíso espiritual e
poético que orientou o primeiro
romantismo alemão.Também oriundos de Freiburg nos visitam o Balthasar Neumann Choir and Soloists
e o Ensemble do mesmo nome que
sob a direcção de Thomas Engelbrock interpretarão obras de inspiração católica do compositor
boémio Jan Dismas Zelenka (16791745) e de J. S. Bach.
Os pequenos textos de apresentação do programa Gulbenkian
quase sempre privilegiam os intérpretes, cabendo aqui por isso apresentar resumidamente a embaixada
musical portuguesa concentrada em
exclusivo em Francisco António de
Almeida (c. 1702-1755). Contemporâneo de Carlos Seixas é um dos
insignes músicos em actividade durante o reinado de D. João V e autor
de obras largamente reconhecidas
como La Spinalba (ópera) e La Giuditta (oratória) que espelham uma
maestria musical de excelência. Acabou de ser publicada a edição crítica
do Te Deum, que valerá a pena programar em iniciativas como a do Te
Deum em São Roque (31 Dez. com
o Coro Gulbenkian e o Divino Sospiro sob a direcção de Jorge Matta).
Concerto aqui assinalado porque
tem a virtude de oferecer um cenário de excelência para a música antiga, como outrora se fez nas Jornadas de Música Antiga da Fundação
Gulbenkian.
No capítulo das efemérides
que poderiam celebrar-se de alguma
forma – sobretudo se o entendimento consensual é o de que as datas
redondas são bons pretextos para
sublinhar a obra de compositores
menos ouvidos – refiram-se os 250
anos de nascimento de Marcos de
Portugal (Lisboa, 24 de Março de
1762 – Rio de Janeiro, 17 de Fevereiro de 1830) e os 300 anos de nascimento do compositor napolitano
David Perez (1711-1778). Este último, trabalhou em Portugal desde
1752 até à sua morte, ocupando o
cargo de Compositor da Real Câmara e de “Mestre de Música de Suas Altezas Reais”. Foi com a sua ópera Alessandro nell’Indie que se inaugurou a Ópera do Tejo em 1755.
A avaliar a extensiva disseminação da música de Marcos António
Portugal podemos considerar estarmos perante o compositor português de maior reconhecimento internacional de todos os tempos.
Algumas obras importantes têm sido alvo de recentes edições críticas, sendo expectável que a programação da próxima temporada
de música Gulbenkian não passe
ao lado da efeméride.
Pablo Heras-Casado
MIGUEL PEÑALVER
21h00
Venice Baroque
Orchestra
Andrea Marcon maestro
Patricia Petibon soprano
Joel Grare percussão
Händel, Stradella, A. Scarlatti,
Vivaldi, F. Geminiani,T. Merula, A.
Sartorio
07 Fev 21h00
Kammerorchester Basel
Julia Schröder maestrina
Andreas Scholl contratenor
J. S. Bach
20 Mar 21h00
Freiburger
Barockorchester
Pablo Heras-Casado
maestro
Kristian Bezuidenhout
pianoforte
Schubert, Schumann,
Mendelssohn
Andreas Scholl
JAMES MCMILLAN/DECCA
É privilegiada a música vocal, com estrelas
emergentes ou já firmadas, como Scholl
Entrevista com Karita Mattila
Diva! Porque não?
Cinco anos depois da sua última actuação na Gulbenkian a diva espontânea que é Karita Mattila volta a Lisboa num recital acompanhada pelo pianista Martin Katz. Abre a temporada. Rui Lagartinho
Martin Katz
DR
Ainda estávamos a saborear a felicidade de ter escutado Karita Mattila
ao vivo na véspera num recital inesquecível, quando de repente entrando algures no lisboeta eléctrico 28,
pareceu-nos reconhecer aquela
enorme loura sentada num lugar à
janela olhando para o bulício das ruas da baixa de Lisboa.
Sim, era ela, em pausa descontraída, no dia seguinte a um recital
em que meteu o público no bolso
chegando nos encores a cantar descalça.
A mais natural das divas da actualidade, tem uma carreira de quase trinta anos que saltou para o estrelato depois de em 1983 ter vencido o exigente concurso de canto
de Cardiff no País de Gales.
A partir daí as melhores casas
de ópera abriram as portas ao talento desta soprano: nos últimos vinte
anos foi uma assídua da Metropolitan
Opera House de Nova Iorque onde
se estreou como Dona Elvira no Don
Giovanni de Mozart em 1990. E foi aí
que em 2004 a sua Salomé, descarnada e visceral, nua por instantes porque il faut, fez furor destapando segundo os críticos o véu de todas as
emoções. A sombra da heroína da
ópera de Richard Staruss não mais a
largou. É a cabeça de cartaz de uma
mão cheia de mulheres fortes que
incluem as heroínas de Janacek Katia
Kabanova e Jenufa, a Elisabeth do Don
Carlo de Verdi ou a Leonore em Fidelio de Beethoven.
Como é óbvio Karita Mattila
integra com orgulho a plêiade de
cantores, compositores, maestros,
clarinetistas que têm vindo a fazer
com que os melómanos passem a
reparar na Finlândia.
Mattila chega a Lisboa – uma
cidade que ela adora e que comprovadamente gosta de desfrutar
– vinda de Helsinquia onde há dias
voltou a cantar o ciclo Four Instants
da compositora finlandesa Kaija
Sariaaho. Até ao fim do ano ainda
volta à ópera de Houston com a
sua Leonore.
Há umas semanas enviámoslhe algumas perguntas. A resposta
a elas foi a última coisa que fez antes de ir de férias.
Que memórias tem da sua última passagem pela Fundação
Gulbenkian?
Eu e o meu marido adoramos
Lisboa. E das duas vezes que aí cantei cheguei mesmo a fazer alguns
amigos. Diverti-me imenso.
Guardo muitas e boas memórias e reparei que o público que assistiu ao meu recital era muito jovem.
Berg, Brahms, Debussy e Strauss.
Com que critérios desenhou este recital?
A vida é demasiado curta para
cantar aquilo de que não se gosta.
Este é o critério principal que uso
para escolher tudo aquilo que canto.
A partir daí tudo é possível.Tenho a
sorte de a música de que eu gosto
ser suficientemente vasta de modo
a permitir-me renovar o meu reportório de forma regular.
Escolhi uma série de canções
de Strauss que adoro. Mas antes começo com Siebe frühe lieder. Berg é
um compositor muito intenso e que
requer um grande nível de concentração por parte do público. É bom
para iniciar um recital com um grande desafio. E eu ADORO desafios.
Debussy introduz uma atmosfera
diferente na sala depois de uma primeira parte de canto alemão e por
sua vez faz uma excelente passagem
para as canções de Strauss com que
termino a noite.
Não vem a Lisboa cantar a ópera mas será sempre aquilo que
designamos por animal de palco.
Essa tarimba está sempre lá,
com ou sem encenação?
Ninguém se pode esquecer que
“A vida é demasiado curta para cantar aquilo
de que não se gosta. Este é o critério principal”
eu sou sobretudo uma cantora de
ópera profissional que aprendeu a
usar, em estudo e em treino, todas
as ferramentas dramáticas. A ópera
é uma forma de teatro. Sou de facto
um animal de palco. É algo natural
em mim.
Há uma fotografia absolutamente extraordinária tirada pelo Richard Avedon em que abraça a
cabeça de São João Baptista embevecida com o troféu. É uma
espécie de talismã? A Salomé de
Richard Strauss é a sua imagem
de marca?
Eu também adoro essa foto.
Deu-me a oportunidade de conhecer o Richard Avedon antes de mais.
É uma fotografia que me faz sentir
bem comigo própria. Mas há outras
heroínas no meu reportório que eu
amo apaixonadamente: Leonore, Katya, Jenufa, Manon Lescaut, Emilia
Marty, Tatiana… o leque é felizmente amplo.
É também uma importante divulgadora da música finlandesa
no mundo.
Cantar boa música finlandesa
um pouco por todo o mundo é muito especial para mim e enche-me de
orgulho.
Em relação à música contemporânea sinto-o como um dever,
estreá-la, divulgá-la. Mas atenção: eu
só escolho boa música.
CALENDÁRIO
Katita Mattila
Grande Auditório
17 Set 19h00
Karita Mattila soprano
Martin Katz piano
Alban Berg
Sieben frühe Lieder
Johannes Brahms
Meine Liebe ist grün, op. 63 nº 5
Wiegenlied, op. 49 nº 4
Von ewiger Liebe, op. 43 nº 1
Vergebliches Ständchen, op. 84 nº 4
Claude Debussy
Harmonie du soir
Le jet d’eau
Recueillement
Richard Strauss
Der Stern, op. 69 nº 1
Wiegenlied, op. 41 nº 1
Allerseelen, op. 10 nº 8
Frühlingsfeier, op. 56 nº 5
Karita Mattila
DR
Tem tempo para si fora dos palcos?
Acho que ao fim destes anos
todos já encontrei um equilíbrio entre trabalho e descanso. É fundamental para recuperar energias estar
cem por cento em forma e tirar prazer do que faço.
E se quiser saber sobre o futuro, enquanto tiver saúde e resistência física NÃO, não tenho planos
para me retirar tão depressa.
A última vez que cantou em Lisboa descalçou-se para os encores.
E agora? Tem alguma surpresa
planeada?
Veremos. Se contasse, deixaria
de ser surpresa.
16
17
Deutsche Kammerphilharmonie Bremen
Ciclo Grandes Orquestras
EBERHARD HIRSCH
Mudança
de paradigma
O regresso para duas residências artísticas na Gulbenkian da Chamber Orchestra of Europe e da
Gustave Mahler Jugendorchester marca o ciclo Grandes Orquestras desta temporada. Rui Lagartinho
O grande acontecimento do ciclo
Grandes Orquestras deste ano vai
ser a residência em Lisboa durante
duas semanas do compositor, pianista maestro britânico Thomas
Adès (Londres, 1971). Três concertos dirigidos pelo próprio Adès –
um deles à frente da Orquestra
Gulbenkian – vão dar a conhecer
um compositor de obra vasta e diversificada. Alguém que afirma que
“Escrever música é construir um
mundo imaginário com sons do
mundo real.”
Um dos seus mais recentes
trabalhos que escutaremos em
Lisboa (é uma co-encomenda da
Fundação Gulbenkian), Polaris:
Que clima retirará o quase tropical Dudamel
duma orquestra que vem do frio?
Voyage for orchestra, abriu com estrondo o novo auditório de concer tos desenhado por Frank
Gehry em Miami.
Dado a conhecer por Simon
Rattle ainda em Birminghan, ainda
no século XX, Adès tem uma longa
parceria com a Chamber Orchestra
of Europe com quem gravou em
2005 o seu concerto para violino.
Uma obra que também vai ser executada no Grande Auditório.
Nos últimos anos assistimos
por parte da Gulbenkian a uma
mudança de paradigma em relação
ao ciclo Grandes Orquestras. Luís
Pereira Leal, o anterior director
do Serviço de Música, iniciou essa
mudança, hoje clara: em vez de escutarmos ano após ano um ramalhete das melhores orquestras do
mundo em digressão europeia, passou a optar-se por um modelo de
residência artística, com mais concertos e com uma maior interacção pedagógica com o público.
O regresso da já citada Chamber Orchestra of Europe mas também o da Gustav Mahler Jugendorchester são excelentes escolhas
18
Thomas Adès
CALENDÁRIO
BRIAN VOCE
Grandes
Orquestras
Grande Auditório
24 Out
21h00
Philharmonia Orchestra
Esa-Pekka Salonen maestro
Nick Hillel encenador
Michelle DeYoung soprano
Sir John Tomlinson baixo
Natália Luiza narradora
Janácek, Bartók
05 Dez 21h00
Deutsche
Kammerphilharmonie
Bremen
Trevor Pinnock maestro
Maria João Pires piano
Beethoven, Schubert
19 Jan 21h00
Chamber Orchestra of
Europe
Thomas Adès maestro
Toby Spence tenor
Leila Josefowicz violino
Adès, Berlioz, Sibelius
Gustavo Dudamel
STEP HAISELDEN
22 Jan
19h00
Chamber Orchestra of
Europe
Thomas Adès maestro
Nicolas Hodges piano
Tal Rosner vídeo
Beethoven, Adès
Göteborgs Symfoniker
ANNA HULT
27 Mar
21h00
Göteborgs Symfoniker
Gustavo Dudamel maestro
R. Strauss, J. Haydn
15 Abr 19h00
Gustav Mahler
Jugendorchester
Ingo Metzmacher maestro
Iréne Theorin soprano
Wagner,Webern, Zimmermann,
Scriabin
13 Abr
21h00
Orquestra Sinfónica
Portuguesa
Martin André maestro
Artur Pizarro piano
Chostakovitch, Rachmaninov,
Tchaikovsky
16 Abr 19h00
Gustav Mahler
Jugendorchester
Ingo Metzmacher maestro
Iréne Theorin soprano
Wagner, Chostakovitch
13 Mai
19h00
Deutsche
Kammerphilharmonie
Bremen
Trevor Pinnock maestro
Maria João Pires piano
Beethoven, Schubert
19
nesta estratégia e o facto de voltarem à Fundação demonstram
bem a confiança e a cumplicidade
que já atingiram com o público
português.
Este ano, quebrando uma tradição já longa o ciclo Grandes
Orquestras está totalmente ausente do Coliseu dos Recreios de
Lisboa.
Lamentamos, porque obviamente uma sala com a dimensão
do Coliseu amplia o impacto do
ciclo junto de um público mais vasto. Mas compreendemos que a sus-
tentabilidade económica dos dois
modelos – digressão e residência
– seja incomportável mesmo para
um orçamento generoso como o
do Serviço de Música da Fundação
Gulbenkian.
Mas há mais regressos.
A Philarmonia Orchestra abre
o ciclo. O seu director musical
Esa-Pekka Salonen traz a Lisboa
mais uma das suas propostas multimédia desta vez em torno da
ópera em um acto de Béla Bartók
O Castelo do Barba Azul. O espectáculo integra-se no ciclo que pre-
tende dialogar com a linguagem
teatral e que atravessa grande parte da temporada.
Lawrence Foster dirige o Ensemble Orchestral de Paris num
programa com um french touch
acompanhando Jean-Yves Thibaudet
– a par com Hélène Grimaud um
dos melhores pianistas franceses da
actualidade – no concerto número
dois de Saint-Saëns.
Regressa também Gustavo
Dudamel, desta vez com o terceiro vértice do triângulo das orquestras que dirige regularmente
e que ainda nos faltava ouvir em
Lisboa: a sueca Göteborgs Symfoniker.
Que clima retirará o quase
tropical Dudamel duma orquestra
que vem do frio? A reposta vai estar
em dois poemas sinfónicos de Richard Strauss: Don Juan e Assim falou Zaratustra.
Uma curiosidade: em Abril a
Orquestra Sinfónica Portuguesa e
Orquestra Gulbenkian trocam de
casa. A OSP vem ao Grande Auditório pela mão do habitué Artur
Pizarro. A Gulbenkian leva Sequeira
Costa ao teatro S. Carlos. Mestre e
discípulo tocam algo que ambos sabem fazer bem: os concertos dois
e três de Rachmaninov.
E… abençoado Trevor Pinnock. Pela sua mão, Maria João Pires
regressa ao Grande Auditório da
Fundação Gulbenkian após uma ausência de quase dez anos.
Vem com a Deutsche Kammerphilarmonie de Dresden e traz
o concerto número três de Beethoven na bagagem.
Alguém de quem a pianista
nunca se afastou.
Ciclo Teatro/Música
Audácia e interrogações
No Serviço de Música da Fundação nunca houve uma iniciativa desta amplitude e audácia, apesar
de co-produções anteriores. Mas ainda há interrogações a precisar de resposta. Augusto M. Seabra
Cão Solteiro e Vasco
Araújo – A Portuguesa
JOANA DILÃO
A proposta mais inovadora da Temporada 2011-2012 da Gulbenkian é
o início de uma colaboração com o
Teatro Maria Matos dedicada a “Teatro/Música”. Embora o Serviço de
Música da Fundação já tenha feito
co-produções com outras instituições culturais, como a Culturgest,
nunca houve uma iniciativa desta
amplitude e audácia. Poderá ser apenas coincidência, ou antes tópico de
reflexão, que uma tal iniciativa conjunta surja quando os directores das
instituições envolvidas são um finlandês, Risto Nieminen, e um belga,
Mark Deputter, no Maria Matos.
A forma tradicional ao longo
dos séculos de teatro musical foi
a ópera. Por diversos motivos, a
estandardização do cânone estabeleceu como limite do dito “reportório corrente” a Turandot de
Puccini (1924), quando muito estendendo-se a algumas óperas posteriores de Richard Strauss. Por
outro lado, a narrativa modernista
da geração do segundo pós-guerra
estabeleceu como “última ópera”
a Lulu de Alban Berg (1935). O dogmatismo era tal que um compositor como Hans Werner Henze foi
mesmo “proscrito” pela sua insistência no género. Mas desde Intolleranza de Luigi Nono (1960) alguns “vanguardistas” retomaram o
género, Nono e Berio sobretudo.
E desde os anos 90, em paralelo à
grande renovação do interesse público pelo género dito “morto” da
ópera, a escrita de novas obras
tornou-se regular.
Por outro lado, os dois autores
mais emblemáticos do século XX
musical, Arnold Schönberg e Igor
Stravinsky, tinham composto importantes obras de teatro musical de
câmara, Pierrot Lunaire e Histoire du
Soldat, indiciando outras modalidades cénicas. Nas últimas décadas,
variadíssimas obras, designadamente de Kagel, Bussoti, Aperghis e, nalguns casos, de Ligeti ou Cage, são
CALENDÁRIO
Teatro/Música
04 Out 21h30
Teatro Maria Matos
Cão Solteiro e Vasco
Araújo
A Portuguesa
21 Out 21h00
Philharmonia Orchestra
Esa-Pekka Salonen maestro
Nick Hillel encenador
Michelle DeYoung soprano
Sir John Tomlinson baixo
Natália Luiza narradora
Janácek, Bartók
10 Nov 21h00
11Nov 19h00
Grande Auditório
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Peter Eötvös maestro
Julia Bauer soprano
Jorge Matta director coral
Pedro Amaral desenho som
Momente - Karlheinz
Stockhausen
02 Mar 21h30
Teatro Maria Matos
Nature Theater
Oklahoma
Life and Times – Episode 2
29 Abr 19h00
Grande Auditório
Rui Horta coreografia, luz e
cenário
Rolf Hind piano
Bailarino a anunciar
Danza Preparata
John Cage: Sonatas e Interlúdios
para piano preparado
20 Mai 21h30
Teatro Maria Matos
Oscar Bianchi
OrchestrUtopica
Franck Ollu maestro
Jöel Pommerat encenação
Thanks to my eyes
2
20
representativas de inúmeras possibilidades de um específico “teatro
instrumental” e do “teatro musical”
em geral.
“Revelar a multi-facetada relação entre o teatro e a música” num
programa abrangente e audacioso
com “um leque variado de aproximações entre as duas formas de arte” é o intuito do ciclo, ou melhor,
deste novo módulo de programação,
pois que é para ser prosseguido. E a
abertura não podia ser mais surpreendente, até por ser uma reposição:
A Portuguesa, um espectáculo da
companhia teatral Cão Solteiro e do
artista visual Vasco Araújo, a pretexto do hino nacional (04-10-11). Outro espectáculo característico da
programação do Maria Matos, mas
que há a assinalar nesta programação conjunta, é Life and Times – Episode 2 pela companhia americana
Nature Theater of Oklahoma, um
“musical” (1, 2 e 3-03-12).
Naquele que é por certo um
dos destaques maiores de toda a
temporada, a admirável ópera que é
O Castelo do Barba Azul de Bartók,
dirigida por Esa-Pekka Salonen é
apresentada numa versão cénica multimédia (24-10-11). Há também uma
nova ópera do compositor suíço Oscar Bianchi, com um encenador de
relevo, Joël Pommerat, Thanks to my
eyes (19 e 20-05-12). E, embora não
constem do ciclo, não se podem deixar de referenciar a oratória (cénica)
Joana d’Arc na Fogueira de Honneger
com Fanny Ardant (15 e 16-03-12)
ou uma apresentação também cénica
da ópera A Hora Espanhola de Ravel
(31-05 e 01-06-12).
Mas, voltando ao ciclo Teatro/
Música há um espectáculo credor
de grandes expectativas, as Sonatas
e interlúdios para piano preparado de
John Cage, com concepção cénica
de Rui Horta (29-04-12), que já mostrou as suas capacidades num espectáculo na Casa da Música a partir do
célebre 4’33’’ do mesmo Cage. E há,
é claro, momento cimeiro de toda a
temporada, Momente, obra que é
verdadeiramente a apoteose de Stockhausen (10 e 11-11-11).
Esta atenção a situações de
“contemporaneidade” implica con-
siderar para além do estrito ciclo
Teatro/Música o espaço ocupado
propriamente pela música contemporânea na temporada da Gulbenkian. E embora a presença seja
maior do que na temporada passada, há algumas interrogações que
permanecem.
O módulo de “retrato de um
compositor” regressa com o dedicado a Thomas Adès em concertos
por ele dirigidos com obras suas e
também de compositores clássicos,
com a prestigiada Chamber Orchestra of Europe (19 e 22-01-12)
e a Orquestra Gulbenkian (27 e 2801-12). Nascido em 1971, Adès é
um caso de sucesso considerável,
não isento de controvérsia pela sua
idiossincrasia, combinando ecos
tardo-românticos com uma patente vitalidade.
Assinalem-se ainda dois programas da programação regular da
Orquestra Gulbenkian, um exclusivamente contemporâneo, o que é
facto raro, sob o título genérico de
California Dreaming, em que Joana
Carneiro dirige obras de Golijov,
Salonen e John Adams (17 e 18-1111), e aquele, surpreendente e do
maior interesse, em que a prodigiosa soprano Barbara Hannigan será
simultaneamente solista e maestrina, entre outras em obras contemporâneas de Nono e Ligeti (16 e
17-02-12).
Mas um dos destaques maiores
no que à contemporaneidade diz
respeito é o concerto do Remix Ensemble da Casa da Música com duas
obras do grande compositor alemão
Wolfgang Rihm, que desde os anos
70 protagonizou uma reacção (poderíamos dizer que “neo-expressionista” embora o rótulo possa ser
limitativo) aos cânones da “vanguarda”, uma das quais em estreia mundial (18-03-12).
Nesse mesmo concerto figura
uma obra de Emmanuel Nunes, Improvisation I – für ein Monodram, e a
propósito tem que se fazer uma
observação: Nunes também não
pode passar da situação de “favorito da corte” que teve durante décadas na Gulbenkian, para um ausente ou alguém que, como no caso,
vem por via de outra instituição.
Mas há mais: apenas há dois outros
compositores portugueses presentes, Carlos Caires, com uma obra
que é encomenda da Antena 2 (0810-11), e Pedro Amaral, com Transmutations pour orchestre, encomenda da Câmara Municipal de Matosinhos (19 e 20-04-12).
Já o escrevi no ano passado
mas por maioria de razões o reforço agora: embora se compreenda
que haja aspectos que demoram
tempo a concretizar-se, como a possível redefinição de uma política de
Nature Theater of Oklahoma,
Life and Times – Episode 2
DR
Grandes expectativas para as Sonatas de Cage
com concepção cénica de Rui Horta
Rui Horta DR
21
encomendas, o quase grau zero nessa matéria (há apenas Polaris: Voyage
for Orchestra, de Adès, uma co-encomenda da Gulbenkian) também é
preocupante, bem como a escassa
atenção a autores portugueses contemporâneos ou a falta quase total
de estreias absolutas de novas obras,
tanto mais que Risto Nieminen tem
amplas credenciais nesse sector, ele
que até já foi director de uma instituição de referência como o IRCAM
em Paris. Este é o “buraco negro”
de uma temporada inovadora e de
expectativas excelentes.
Goran Bregovic
Anoushka Shankar
DR
BERNADO DORAL/DG
Maria João e Mário Laginha
António Zambujo
DR
SARA MATOS
Natacha Atlas
Yair Dalal
DR
DR
22
Ciclo Músicas do Mundo
CALENDÁRIO
Outra ousadia
Músicas
do Mundo
Grande Auditório
30 Out
19h00
Yair Dalal
Bagdad – Jerusalém
21 Nov 21h00
Ryuichi Sakamoto Trio
World Tour 2011
04 Dez
Se o objectivo está traçado desde a anterior temporada – conquistar novos públicos e surpreender os “habitués” – esta segunda edição do ciclo Músicas do
Mundo leva ainda mais longe essa ambição. Jorge Lima Alves
23
Quando, na temporada anterior,
Risto Nieminen, o novo director
do Serviço de Música da Gulbenkian, arriscou programar um
ciclo Músicas do Mundo, não foram
poucos os que se assustaram. Basta, agora, folhear o programa da
edição 11/12 para perceber que a
aposta vingou. Este ano, para além
de mais concertos (dez, em vez de
sete), há igualmente outra ousadia.
O ciclo acedeu, claramente, a um
novo patamar de ambição e, ao lado de grandes nomes (Ryuchi Sakamoto, Anoushka Shankar, Goran
Bregovic, Natacha Atlas e Angelique
Ionatos), surgem outros quase desconhecidos entre nós (Yair Dalal,
Max Raabe, Cristina Zavalloni, Alireza Ghornani e Dorsaf Hamdani),
para já não falar da surpresa que
constitui a inclusão de duas propostas nacionais (a revelação António Zambujo e os consagrados
Maria João e Mário Laginha).
O mínimo que se pode dizer
é que o programa em análise é aliciante e arrojado. Se, por exemplo,
todos estes concertos tivessem lugar num fim-de-semana, poderíamos
estar a falar do mais ousado festival
do género a ter lugar em Portugal.
Apetece perguntar: quem mais se
atreveria a juntar num palco tão
prestigiado uma tal diversidade de
estilos musicais?
Curiosamente, tal como no
ano passado, tudo começa com um
virtuose do oud, o mais nobre dos
instrumentos do Médio Oriente: o
israelita Yair Dalal, que tem vindo a
aprofundar e a resgatar as tradições
musicais de toda aquela região do
globo, sem esquecer as da antiga
Babilónia e dos beduínos do deserto do Sinai. Verdadeiro paladino da
paz entre judeus e árabes, autor de
mais de uma dezena de discos aclamados, Dalal faz-se acompanhar por
quatro instrumentistas de eleição
(David Menachen, Elad Gabay, Elad
Harel e Avi Agababa) a fim de apresentar no dia 30 de Outubro, às
19horas no Grande Auditório (onde, de resto, decorre todo o ciclo),
um concerto com um título muito
apelativo: Bagdad – Jerusalém: música sacra da antiga Bagdad.
Segue-se, a 21 de Novembro
(21h), uma proposta radicalmente
diferente: Ryuchi Sakamoto em trio
com Jacques Morelenbaum (e outro
músico a designar). Embora a parceria entre os dois venha desde meados dos anos 90 (o violoncelista
participou no álbum 1996, onde
Sakamoto revisitava parte da sua
obra em trio), aprofundou-se em
2001, quando o japonês e o brasilei-
ro se juntaram para lançar um álbum
de homenagem a António Carlos
Jobim, gravado na própria casa do
compositor carioca.
Aquela que é, talvez, a proposta mais inesperada desta edição traz
a Lisboa, no dia 4 de Dezembro
(19h), o alemão Max Raabe, um vocalista singular que recria a música
daquilo a que podemos chamar “os
bons velhos tempos” da República
de Weimar (1919-1933). Graças à
voz “aveludada” do protagonista e a
uma orquestra muito bem oleada,
servida por arranjos irrepreensíveis,
está assegurado um serão de perfeita e estimulante nostalgia.
A 12 de Dezembro (21h), regressa a Lisboa Anoushka Shankar,
para propor um concerto sugestivamente intitulado Traveller. Acompanhada por músicos indianos e
andaluzes, a filha de Ravi Shankar
procurará fazer-nos remontar no
tempo e no espaço, embarcandonos numa viagem imaginária (e quão
apelativa!), que segue, em sentido
inverso, o percurso milenar do povo rom, da Andaluzia ao Rajastão,
atravessando a Europa, o Irão, o Iraque e a Arménia.
Mais intimista, o concerto de 14
de Janeiro (21h) intitula-se Per caso
Aznavour e traz até nós o actual quarteto de Cristina Zavalloni, uma cantora italiana com dupla formação
(erudita e jazzística), cujo impressionante currículo inclui colaboraçõess
com Louis Andriessen, Michael Ny-man e Gavin Bryars. Zavalloni, quee
recria amorosamente algumas dass
mais belas canções de Charles Azna-vour, canta ocasionalmente em por-tuguês, pelo que será de esperar quee
o faça nesta ocasião.
A 6 de Fevereiro (21h), o Gran-de Auditório da Avenida de Bernaa
recebe Goran Bregovic (o compo-sitor preferido do realizador Emirr
Kusturica). O espectáculo, muito in-censado pela imprensa estrangeira,
a,
conta com a participação da sua Or-questra de Casamentos e Enterross
e da actriz portuguesa Ana Moreira,
a,
intitulando-se Margot, memórias dee
uma rainha infeliz. Recorde-se quee
Maria de Médici (1575-1642), a so-berana em questão, inspirou um
m
magnífico filme realizado por Patricee
Chéreau, para o qual, aliás, o músico
o
sérvio escreveu a partitura sonora..
No dia 26 de Fevereiro (19h),,
Natacha Atlas inscreverá o seu no-me na história da Fundação Gul-benkian. A cantora vem apresentar
o projecto Mounqaliba, in a state of
reversal que, o ano passado, deu origem a um disco ambicioso, mas infelizmente desigual, alternando “co-
vers” (como Riverman, de Nick
Drake e La nuit est sur la ville, de
Françoise Hardy, ambos deliciosamente jazzy), com composições
mais classizantes e orientalizadas
(nomeadamente as belíssimas Makaan e Taalet). Nascida em Bruxelas,
filha de uma inglesa (convertida ao
islamismo) e de um egípcio (nascido
em Jerusalém), Natacha Atlas cresceu em Marrocos é, há já vários
anos, e com toda a justiça, uma das
grandes divas da “world music”.
A 24 de Março (21h), mais uma
grande dama em foco: a grega Angelique Ionatos. Cantora, guitarrista
e compositora, ela vem confrontarnos com Eros y Muerte, um belíssimo
trabalho discográfico (editado em
2007), inspirado pela forma como
as mulheres de Creta evocam os
seus mortos. Apaixonadamente
cantado em três línguas (grego, espanhol e francês), o repertório assenta, em grande parte, em versos
de Pablo Neruda, mas conta também com poemas de Kostas Karyotakis, Kostis Palamas e Anna de Noailles, todos magnificamente musicados pela própria artista.
Alguns dias mais tarde (9 de
Abril, 21h), Alireza Ghobani e Dorsaf Hamdani, dois cantores clássicos
(ele iraniano, ela tunisina), evocarão
a inebriante poesia de Omar
Khayyam, através das suas odes ao
vinho, ao destino e à música. Desta
música eterna, tão profunda como
complexa, tão hipnótica como comovente, apetece apenas dizer que
fala directamente a Deus, ou que,
através dela, Deus se faz ouvir dos
pobres mortais. A não perder, sob
nenhum pretexto.
Na véspera do 25 de Abril
(21h), tem lugar a primeira noite
portuguesa, com António Zambujo
(voz), Bernardo Couto (guitarra),
José Conde (clarinetes), Jon Luz (cavaquinhos) e Ricardo Cruz (contrabaixo). Nascido em Beja, em 1975,
Zambujo canta um fado muito pouco ortodoxo que, mergulhando as
suas raízes no Alentejo, reflecte influências musicais que vão do jazz à
música popular brasileira, passando
por Cabo Verde. Ao ouvir o seu canto, alguns evocam Chet Baker, outros, Caetano Veloso, ou mesmo João
Gilberto, mas uma coisa é certa: a
originalidade da sua proposta e do
seu canto quase seráfico está a conquistar o mundo inteiro.
Cabe à incontornável dupla
Maria João e Mário Laginha encerrar
este ciclo (21 de Maio, 21h), com um
jazz contaminado por influências indianas, africanas e brasileiras. Basta
atentar nos instrumentistas que escolheram (o harpista Eduardo Raon,
o acordeonista João Frade e o percussionista Helge Norbakken) para
termos a certeza: vai ser mais uma
noite surpreendente e memorável.
19h00
Max Raabe & Palast
Orchester
Küssen kann man nicht alleine
12 Dez
21h00
Anoushka Shankar
Ensemble
Anoushka Shankar sitar
Traveller
14 Jan 21h00
Cristina Zavalloni IDEA
Per caso Aznavour
06 Fev 21h00
Orchestre des Mariages
et des Enterrements
Goran Bregovic
Ana Moreira actriz
Margot, memórias de uma
rainha infeliz
26 Fev
21h00
Natacha Atlas
Mounqaliba
24 Mar
21h00
Angelique Ionatos
cantora /guitarra
David Braccini violino
César Stroscio bandoneón
Claude Tchamitchian
contrabaixo
Eros Y Muerte
09 Abr 21h00
Alireza Ghorbani
& Dorsaf Hamdani
Ivresses
24 Abr 21h00
António Zambujo
21 Mai 21h00
Maria João e Mário
Laginha
Palast Orchester
GREGOR HOHENBERG
O alemão Max Raabe com a Palast Orchester
é, talvez, a proposta mais inesperada
Met Opera Live in HD
Satyagraha
DR
Aplaudir um écrã
Dez produções em directo e em alta definição do muito que se produz na Metropolitan Opera House
de Nova Iorque. O melhor teatro de ópera do mundo, com a definição dos pormenores. Rui Lagartinho
Embora o projecto tenha arrancado
em 2006 sob o impulso do director
geral do Met Peter Gelb só a partir
do ano passado foi possível assistir
em Lisboa à transmissão em directo
e em alta definição do ciclo Met Opera live in HD.
Ir a uma série de matinées de
sábado da lendária sala do Lincoln
Center é uma experiência inesquecível.
As habituais resistências e desconfianças do público português
perante a novidade, ainda se sentiram no arranque do ciclo. Mas depressa se desvaneceram. Convenhamos que também não é de ânimo
leve que se decide passar a aplaudir
um ecrã.
A equipa do Met faz destas
transmissões um dos melhores espectáculos do mundo. Para além do
esforço óbvio dos maestros, cantores, músicos da orquestra e encenadores nestas transmissões e nas visitas aos bastidores durante o intervalo percebe-se o exército que está
por detrás a garantir o sucesso de
cada transmissão.
Sentados na Plateia do Grande
Auditório estamos mais perto da
garganta dos cantores do que na primeira fila da plateia do Met.
E depois há pormenores que
Estamos mais perto da garganta dos cantores
do que na primeira fila da plateia do Met
são mágicos e que a realização amplia. Não mais esqueceremos aquela escada que, quando a Lucia de
Lameermoor de Natalie Desay resolve atravessar a última das fronteiras, leva o seu corpo e se desprende do cenário percorrendo o
palco numa movimentação de etérea beleza. Ou a precisão dos rótulos das garrafas ao estilo de 1900 e
de que a Minnie de Deborah Voigt
se rodeia em La Fanciulla del West.
Ou ainda o divertido ménage à trois
sensualmente coreografado e protagonizado por Joyce Di Donato,
Diana Damrau e Juan Diego Flórez
em Le Comte Ory.
Ou o enorme Atlas da Rússia
que cobre o palco e pelo qual caminha René Pape em Boris Goudonov.
E num espectáculo visto no
mundo inteiro o risco de os canto-
res não darem sempre o seu melhor
é mínimo.
O que vamos ver?
Anna Netrebko, a russa que definitivamente conquistou o Met abre
a temporada em Outubro com a sua
Anna Bolena de Donizetti. É uma nova produção de David McVicar.
Netrebko volta na Primavera
com Manon de Massenet.
A tetralogia O Anel do Nibelungo de Richard Wagner da dupla Robert Lepage- James Levine terá a sua
conclusão.
O Siegfried já não será dirigido
por James Levine, que recupera de
uma queda recente. Fabio Luisi, o
maestro mais próximo de lhe suceder na direcção musical do Met,
substitui-o.
Esta nova produção de O Anel
tecnicamente sofisticada e de difícil
harmonia com as vozes, ainda não
24
CALENDÁRIO
Met Opera Live
Grande Auditório
15 Out
18h00
Anna Bolena
Gaetano Donizetti
29 Out
18h00
Don Giovanni
Wolfgang Amadeus Mozart
05 Nov 18h00
Siegfried
Richard Wagner
19 Nov 18h00
Satyagraha
Philip Glass
10 Dez
18h00
Faust
Charles Gounod
04 Fev 18h00
The Enchanted Island
Vários Autores (Händel, Rameau,
Vivaldi...)
11 Fev
17h00
Gotterdämmerung / O
Crepúsculo dos Deuses
Richard Wagner
25 Fev
18h00
Ernani
Giuseppe Verdi
07 Abr
17h00
Manon
Jules Massenet
21 Abr 18h00
La Traviata
Giuseppe Verdi
Todas as transmissões são feitas
em directo da Metropolitan
Opera de Nova Iorque, em alta
definição (HD) visual e sonora
The Enchanted Island
NICK HEAVICAN/METROPOLITAN OPERA
25
convenceu totalmente. Nem a crítica nem o público.
O início do ano trará uma salada de frutas barroca.
The Enchanted Island reúne
música de vários compositores (Vivaldi, Rameau, Handel) em torno do
imaginário barroco que passa também por peças de Shakespeare como A Tempestade ou Sonho de uma
noite de Verão.
William Christie dirige as hostes onde se incluem Placido Domingo, Joyce DiDonato e David Daniels.
Outras estreias no Met incluem
o Don Giovanni de Mariusz Kwiecien,
o Faust de Jonas Kaufmann ou a Violetta de Natalie Dessay.
No total são dez títulos que
fazem deste ciclo a maior temporada de ópera a que é possível assistir
em Portugal.
Anna Bolena BRIGITTE LACOMBE/METROPOLITAN OPERA
Gotterdämmerung
BRIGITTE LACOMBE/METROPOLITAN OPERA
Paul McCreesh
Peter Rundel
Peter Eötvös
WRATISLAVIA CANTANS
DR
KLAUS RUDOLPH
Philippe Herreweghe
Pedro Neves
BERT HULSELMANS
JOÃO VASCO AAF 2011
CALENDÁRIO
Grandes
Orquestras
– Série 1
Grande Auditório
24 Out 21h00
Philharmonia Orchestra
Esa-Pekka Salonen maestro
Nick Hillel encenador
Michelle DeYoung
soprano
Sir John Tomlinson baixo
Natália Luiza narradora
Janácek, Bartók
19 Jan
21h00
Chamber Orchestra of
Europe
Thomas Adès maestro
Toby Spence tenor
Leila Josefowicz violino
Adès, Berlioz, Sibelius
15 Abr 19h00
Gustav Mahler
Jugendorchester
Ingo Metzmacher maestro
Iréne Theorin soprano
Wagner,Webern, Zimmermann,
Scriabin
13 Mai 19h00
Deutsche
Kammerphilharmonie
Bremen
Trevor Pinnock maestro
Maria João Pires piano
Beethoven, Schubert
Grandes
Orquestras
– Série 2
Grande Auditório
05 Dez 21h00
Deutsche
Kammerphilharmonie
Bremen
Trevor Pinnock maestro
Maria João Pires piano
Beethoven, Schubert
22 Jan 19h00
Chamber Orchestra of
Europe
Thomas Adès maestro
Nicolas Hodges piano
Tal Rosner vídeo
Beethoven, Adès
27 Mar 21h00
Göteborgs Symfoniker
Gustavo Dudamel maestro
R. Strauss, J. Haydn
13 Abr 21h00
Orquestra Sinfónica
Portuguesa
Martin André maestro
Artur Pizarro piano
Chostakovitch, Rachmaninov,
Tchaikovsky
16 Abr 19h00
Gustav Mahler
Jugendorchester
Ingo Metzmacher maestro
Iréne Theorin soprano
Wagner, Chostakovitch
Orquestra
Gulbenkian
Grande Auditório
13 Out 21h00
14 Out 19h00
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Sol Gabetta violoncelo
Glinka,Chostakovitch,Tchaikovsky
20 Out 21h00
21 Out 19h00
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Alexei Volodin piano
Glinka, Prokofiev,Tchaikovsky
27 Out 21h00
28 Out 19h00
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Alina Ibragimova violino
Glinka, Roslavets,Tchaikovsky
03 Nov 21h00
04 Nov 19h00
Orquestra Gulbenkian
Simone Young maestrina
Pedro Carneiro percussão
Denisov,Takemitsu, Scriabin
10 Nov 21h00
11 Nov 19h00
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Peter Eötvös maestro
Julia Bauer soprano
Jorge Matta director coral
Pedro Amaral desenho de
som
Momente - Karlheinz
Stockhausen
17 Nov 21h00
18 Nov
19h00
Orquestra Gulbenkian
Joana Carneiro maestrina
Anu Komsi soprano
Piia Komsi soprano
Golijov, Esa-Pekka Salonen, John
Adams
25 Nov 19h00
26 Nov 21h00
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Paul McCreesh maestro
Miah Persson soprano
Andrew Williams baixobarítono
Robert Murray tenor
As Estações - Joseph Haydn
29 Nov 21h00
30 Nov 19h00
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Ainars Rubikis maestro
Ruth Ziesak soprano
Robert Murray tenor
Neal Davies baixo
A Criação - Joseph Haydn
01 Dez 21h00
02 Dez 19h00
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Angelika Kirchschlager
meio-soprano
Viena – Paris – Broadway
Suppé, J. Strauss, Lehár,
Heuberger, Offenbach,
Bernstein,Weil, Gershwin, Bolcom,
Porter
08 Dez 21h00
09 Dez 19h00
Orquestra Gulbenkian
Susanna Mälkki maestro
Steven Isserlis violoncelo
Sibelius,Tchaikovsky,
Rachmaninov
15 Dez 21h00
16 Dez 19h00
Orquestra Gulbenkian
David Afkham maestro
Sergei Khachatryan violino
Prokofiev, Chostakovitch
21 Dez 19h00
22 Dez 21h00
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Michel Corboz maestro
Brigitte Fournier soprano
Rudolf Rosen barítono
Valerio Contaldo tenor
Poulenc, Puccini
09 Mar 19h00
05 Jan 21h00
06 Jan 19h00
Orquestra Gulbenkian
Pietari Inkinen maestro
Dmitri Makhtin violino
Sibelius, Beethoven
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Artur Pizarro piano
Franz Liszt,Wagner/Liszt
15 Mar 21h00
16 Mar 19h00
12 Jan 19h00
15 Jan 16h00
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Bertrand de Billy maestro
Melanie Diener soprano
Heidi Brunner soprano
Ana Maria Pinto soprano
Johan Botha tenor
Charles Robert Reid tenor
Dietmar Kerschbaum
tenor
Job Tomé barítono
Falk Struckmann barítono
Tannhäuser - Richard Wagner
27 Jan 19h00
28 Jan 21h00
Orquestra Gulbenkian
Thomas Adès maestro
Adès, Berlioz
02 Fev 21h00
03 Fev 19h00
Orquestra Gulbenkian
Bertrand de Billy maestro
Sarah Louvion flauta
Xavier de Maistre harpa
Brahms, Mozart, Chausson
09 Fev 21h00
10 Fev 19h00
Orquestra Gulbenkian
Ton Koopman maestro
Klaus Mertens baixo
J. S. Bach,Telemann, Mozart
16 Fev 21h00
17 Fev 19h00
Orquestra Gulbenkian
Barbara Hannigan soprano/
maestrina
Rossini, Mozart, Ligeti, Nono,
Stravinsky, Chostakovitch
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Simone Young maestrina
Fanny Ardant actriz
Michel Blanc actor
Ana Maria Pinto soprano
Susana Gaspar soprano
Deborah Humble meiosoprano
Gilles Ragon tenor
Philippe Kahn baixo
Jeanne d’Arc au bûcher - Arthur
Honegger
22 Mar 21h00
23 Mar 19h00
Orquestra Gulbenkian
Michael Boder maestro
Wagner, Ligeti,Wagner/Maazel
29 Mar 21h00
30 Mar 19h00
31 Mar 21h00
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Michel Corboz maestro
Charlotte Müller soprano
Anke Vondung meio-soprano
Werner Güra tenor
Fernando Guimarães tenor
Stephan McLeod baixo
Michael Schopper baixo
Philippe Pierlot viola da
gamba
Paixão segundo São João Johann Sebastian Bach
19 Abr 21h00
20 Abr 19h00
Orquestra Gulbenkian
Lionel Bringuier maestro
Debussy, Pedro Amaral, Brahms
03 Mai 21h00
04 Mai 19h00
Orquestra Gulbenkian
Krzysztof Urbanski maestro
Pedro Burmester piano
Beethoven, Brahms, Smetana
Orquestra Gulbenkian
Kirill Petrenko maestro
Scott MacAllister tenor
Wolfgang Koch baixobarítono
Peter Galliard tenor
Siegfried (1º Acto) - Richard
Wagner
08 Mar 21h00
10 Mai 21h00
23 Fev 21h00
24 Fev 19h00
11 Mai 1
9h00
Orquestra Gulbenkian
Kirill Petrenko maestro
Scott MacAllister tenor
Anna Katharina Behnke
soprano
Wagner,Tchaikovsky
17 Mai 21h00
18 Mai 19h00
Coro Gulbenkian
Orquestra Gulbenkian
Philippe Herreweghe
maestro
Sandra Medeiros soprano
Cátia Moreso meio-soprano
Hans-Jörg Mammel tenor
Diogo Oliveira baixo
Brahms, Bruckner
24 Mai 21h00
25 Mai 19h00
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Jean-Efflam Bavouzet piano
Maurice Ravel
31 Mai 21h00
01 Jun 19h00
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Christine Tocci soprano
Gilles Ragon tenor
Luís Rodrigues barítono
Robert Holzer baixo
Maurice Ravel
Ciclo de piano
Grande Auditório
18 Out 19h00
Arcadi Volodos piano
Schubert, Brahms, Liszt
13 Nov
19h00
Grigory Sokolov piano
J. S. Bach
15 Nov
19h00
Artur Pizarro piano
Granados, Mussorgsky
06 Dez
19h00
Nicholas Angelich piano
Beethoven, Rachmaninov
17 Dez
19h00
Hélène Grimaud piano
Mozart, Berg, Liszt, Bartók
12 Fev 19h00
Evgeny Kissin piano
Beethoven, Barber, Chopin
26
Gustavo Dudamel
Ainars Rubikis
Krzysztof Urbanski
CHRIS CHRISTODOULOU
BARBARA HERBST
OLE-EINAR ANDERSEN AND ADRESSEAVISEN
Thomas Adès
Goran Bregovic
MALCOLM WATSON
DR
18 Fev 17h30
Alfred Brendel
Conferência com exemplos ao
piano
14 Abr 19h00
Radu Lupu piano
Franck, Schubert, Debussy
06 Mai 19h00
David Kadouch piano
J. Haydn, Liszt, Scriabin, Chopin
Música de Câmara
Grande Auditório
17 Set 19h00
Karita Mattila soprano
Martin Katz piano
Berg, Brahms,
Debussy, R. Strauss
27 Nov 19h00
Quarteto Hagen
Beethoven
11 Dez 19h00
Quarteto Tetzlaff
J. Haydn, Berg, Beethoven
13 Dez 19h00
Quatuor Ebène
Borodin, Prokofiev, Brahms
28 Out 21h30
Cristina Ánchel flauta
Esther Georgie clarinete
Ricardo Ramos fagote
Jonathan Luxton trompa
Isabela Melkonyan piano
Glinka, Rimsky-Korsakov
09 Dez
21h30
Ana Beatriz Manzanilla
violino
Jorge Teixeira violino
Cristopher Hooley viola
Jeremy Lake violoncelo
João Paulo Santos piano
Braga Santos, Chostakovitch
06 Jan 21h30
Alexandra Mendes violino
Cecília Branco violino
Barbara Friedhoff viola
Maria José Falcão violoncelo
Vianna da Motta, Smetana
10 Fev 21h30
Uri Caine piano
Pedro Pacheco violino
Otto Pereira violino
Raquel Reis violoncelo
Marc Ramirez contrabaixo
Paulo Jorge Ferreira
acordeão
Wagner e Veneza
Alice Caplow-Sparks oboé
Esther Georgie clarinete
Ana Beatriz Manzanilla
violino
Maia Kouznetsova viola
Raquel Reis violoncelo
Maja Plüddemann
contrabaixo
Mozart, Prokofiev,
Sérgio Azevedo
19 Fev 19h00
23 Mar 21h30
08 Jan 21h00
Alfred Brendel
Quarteto Casals
Schubert
06 Mar 19h00
Viktoria Mullova violino
Kristian Bezuidenhout
pianoforte
Beethoven
Solistas
da Orquestra
Gulbenkian
Grande auditório
(entrada livre)
14 Out 21h30
27
Oleguer Beltran-Pallarés
violino
Samuel Barsegian viola
Maia Kouznetsova viola
Varoujan Bartikian
violoncelo
Martin Henneken violoncelo
Tchaikovsky, Chostakovitch
Trio Arriaga
Felipe Rodriguez violino
Felipe Rodriguez violino
Pedro Pacheco violino
Lu Zheng viola
Maia Kouznetsova viola
Varoujan Bartikian
violoncelo
Martin Henneken violoncelo
Marc Ramirez contrabaixo
Reger, R. Strauss
04 Mai 21h30
Tera Shimizu violino
Jorge Teixeira violino
Maia Kouznetsova viola
Raquel Reis violoncelo
Kenneth Best trompa
Eric Murphy trompa
Ricardo Ramos fagote
W. A. Mozart
25 Mai 21h30
Bin Chao violino
Jorge Lé violino
Leonor Braga Santos viola
Christopher Hooley viola
Varoujan Bartikian
violoncelo
Martin Henneken violoncelo
W. A. Mozart, Joly Braga Santos
Percurso
descoberta
17 Set 19h00
Grande Auditório
Karita Mattila soprano
Martin Katz piano
Berg, Brahms, Debussy, R. Strauss
30 Nov 19h00
Grande Auditório
Coro Gulbenkian
Michel Corboz maestro
Charlotte Müller Perrier
soprano
Fernando Guimarães tenor
Nicholas McNair órgão
Thilo Hirsch violoncelo
J. S. Bach, Francisco António de
Almeida, D. Scarlatti
13 Mar
19h00
Grande Auditório
Remix Ensemble
Peter Rundel maestro
Sonia Wieder-Atherton
violoncelo
Rihm, Nunes
09 Abr 21h00
Grande Auditório
Alireza Ghorbani &
Dorsaf Hamdani
Ivresses
19 Mai 21h30
Teatro Maria Matos
Oscar Bianchi
OrchestrUtopica
Franck Ollu maestro
Jöel Pommerat encenação
Thanks to my eyes
Festival Jovens
Músicos
06 Out
17h00, Auditório Três
Novos Caminhos do Fado,
mesa redonda
Rui Vieira Nery moderador
18h00, Auditório Dois
Recital de Guitarra
portuguesa
Miguel Amaral guitarra
portuguesa
19h20, Grande Auditório
Grande Final do Prémio
Jovens Músicos
Pedro Neves maestro
07 Out
17h00, Auditório Dois
Desafios do Ensino da
Música em Portugal, mesa
redonda
António Wagner Diniz
moderador
19h20, Grande Auditório
Orquestra Metropolitana
de Lisboa, concerto
Cesário Costa maestro
Bruno Borralhinho
violoncelo
Pedro Ribeiro oboé
Bela Bartók, Joly Braga Santos,
Richard Strauss
20h30, Grande Auditório
Recital pelos laureados
(programa a anunciar)
08 Out
17h00, Auditório Três
Jovens Músicos – Que
Futuro, mesa redonda
Luís Tinoco moderador
19h00, Grande Auditório
Concerto do Jovem
Músico do Ano
Orquestra Gulbenkian
Pedro Neves maestro
Carlos Caires, obra em estreia
mundial (encomenda Antena 2),
Luís de Freitas Branco (Vathek)
22h00, Grande Auditório
Vencedores da categoria
Combo Jazz
Big Band do Hot Clube de
Portugal
Pedro Moreira direcção
Filmes
10 Nov 19h00
2100
Grande Auditório
Shostakovich against Stalin:The
War Symphonies
Realização Larry Weinstein
1997, 76 min
legendas em inglês
07 Dez
08 Jan 19h00
14 Dez 19h00
Auditório Três
Sobre Thomas Adès
Por Tom Service
Grande Auditório
Shostakovich: Katerina Izmailova
Realização Mikhail Shapiro
1966, 112 min
legendas em inglês
14 Dez
21h00
Grande Auditório
Sophia, Biography of a Violin
Concerto
Realização Jan SchmidtGarre
2007, 56 min
legendas em inglês
08 Jan 15h00
Grande Auditório
Ludwig
Realização Luchino Visconti
1972, 185 min
13 Jan 19h00
Grande Auditório
Parsifal
Realização Hans Syberberg
1982, 255 min
16 Jan 19h00
Grande Auditório
Powder her Face
de Thomas Adès
Realização Gerald Fox
1999, 110 min
legendas em português
23 Jan 19h00
Grande Auditório
The Tempest
de Thomas Adès
2004, 150 min
legendas em português
Auditório Dois
Momente
de Karlheinz Stockhausen
Realização Gérard Patris
1965, 45 min
Versão francesa
14 Mar 19h00
07 Dez
Conferências
19h00
Grande Auditório
A Arca Russa
Realização Alexander
Sokurov
2001, 96 min
legendas em português
Auditório Três
La passion de Jeanne d’Arc
Realização Carl Dreyer
1928, 110 min
10 Nov 20h00
Auditório Dois
Momente, o Paradigma da
Forma
Por Pedro Amaral
Auditório Três
Tannhäusser: do libreto
de Wagner ao olhar de Visconti
Por Yvette Centeno
e Nuno Vieira de Almeida
16 Jan 19h00
14 Mar 18h00
Auditório Três
Joana d’Arc – uma heroína
musical?
Por Paulo Ferreira de
Castro
Concertos
para a família
Grande Auditório
26 Nov
16h00
Coro Gulbenkian
Jorge Matta maestro
Vem cantar canções de Natal
com o Coro Gulbenkian
02 Mar 19h00
03 Mar 16h00
Orquestra Gulbenkian
Jorge Matta maestro
Luiza Dedisin soprano
Carolina Figueiredo
contralto
Manuel Rebelo barítono
Marie Mignot encenação
Bastien e Bastienne,
K. 46b - W. A. Mozart
26 Mai 16h00
Orquestra Gulbenkian
Lawrence Foster maestro
Jean-Efflam Bavouzet piano
David Lefèvre violino
M. Ravel
Te Deum
em São Roque
31 Dez
17h00
Igreja de S. Roque
Coro Gulbenkian
Divino Sospiro
Jorge Matta maestro
J. S. Bach, João de Sousa Carvalho
Nota: Os restantes calendários
estão junto aos textos específicos,
nas páginas anteriores.
Para mais informações consultar
www.publico.pt ou
www.musica.gulbenkian.pt
1 Como avalia a tem
2 O que recomenda
Os que seguiram na Fundação Gulbenkian a temporada 2010-11 que ideia dela formaram? E, lido agora o
Maria João Seixas
Directora
da Cinemateca
Portuguesa
1 Boa, com a agradável surpresa operática das transmissões em directo, e mesmo em diferido, do MET.
2 As óperas, claro, para quem não tem hipótese de
assistir ao vivo. Fevereiro vai ser uma festa: The Enchanted
Islands (com obras de vários autores), dirigido por William
Christie, maestro elegantíssimo, muito sofisticado; Bach
pela voz de cristal de Andreas Scholl (ui, ui, só de pensar
na sua interpretação da cantata Ich habe genug…); dois dias
com Alfred Brendel;Verdi, sempre, e o seu belo Ernani (atenção que Verdi volta em Abril, com La Traviata, e é em Abril
que ouviremos Anna Netrebko a fazer cintilar a Manon de
Massenet ); é grande a minha expectativa sobre o concerto
Ivresses da secção Músicas no Mundo, em que vozes e instrumentos persas e árabes nos vão embalar sob inspiração
dos versos e odes do sublime Omar Khayyam.
Vasco Graça
Moura
Escritor
1 A temporada 2010/2011 foi, salvo erro, a primeira
do novo director do Serviço de Música da FCG, o finlandês
Risto Nieminen, embora possamos pensar que Miguel Sobral
Cid, o director-adjunto, terá tido um papel relevante a compatibilizar a tradição do serviço (os anos gloriosos de Luís
Pereira Leal) e as novas propostas. Embora não tenha podido assistir à maior parte dos espectáculos, penso que a
elevada exigência de qualidade das temporadas de música
Gulbenkian foi mantida, do mesmo passo que se fez uma
aposta muito consistente na diversificação da oferta, que
não se limitou a espectáculos musicais in situ.
2 Do novo programa recomendaria, desde logo, a
aposta wagneriana nas suas várias vertentes, depois as
integrais de quartetos de Chostakovitch e dos últimos de
Beethoven, os grandes oratórios de Haydn (A Criação e As
Estações) e a Paixão segundo S. João de Bach, apesar de não
ser um entusiasta de Michel Corboz; interessa-me menos
o Tchaikovsky e interessam-me muito o Brahms e o Bruckner de Philippe Herreweghe, o Mussorksky de Artur
Pizarro, bem como os concertos de Hélène Grimaud, Kissin, Brendel e Radu Lupu. Não me interessa absolutamente nada o Stockhausen (na verdade, nada do que ele es-
creveu me interessa). Recomendo também o Honegger
(Jeanne au Bûcher) e as Metamorphosen para 23 instrumentos de cordas, de Richard Strauss, uma recapitulação pungente da marcha fúnebre da Eroica de Beethoven no mundo em ruínas do pós-1945. Enfim, de cada vez que folheio
o programa, sinto vontade de repescar mais alguma coisa.
Há uma grande desmultiplicação de propostas, uma enorme variedade de géneros, um bom leque de nomes consagrados (alguns deles já visitantes habituais do grande
auditório) e a elaboração do conjunto arranca de uma
concepção de música que não se confina ao estritamente
“clássico”, nem se esgota na noção tradicional de concerto Gulbenkian.
Jorge Silva Melo
Encenador,
Artistas Unidos
Não, não gosto nada de óperas em versão de concerto, nem em directo do Met, ou de onde lá onde seja,
nada se compara a entrar num teatro (daqueles bonitos
e vernelhos em que só apetece dizer “ah!”), sentar-me
num lugar bom ou mesmo mau (a minha educação foi no
São Carlos, com o Zé Ribeiro da Fonte, tínhamos 12 anos
e víamos os Mestres Cantores todos de seguida, em pé,
transpirando de alegria pascal...), não gosto disso, pronto,
e faz-me dó que a Gulbenkian avance – com evidente bom
acolhimento dos espectadores – para essas alternativas
remediadas à Ópera que não há meio de termos, pronto,
não irei. Nem irei a essas músicas do mundo, exóticas e
políticamente correctas, não, nem àquelas ligeiras passadas a smoking que agora invadem as salas de concerto (no
outro dia, era a Dulce Pontes no Concertgebouw!), não,
nem o bem amado Aznavour me levará até Cristina Zavalloni, nem pensar, que pena. Mas irei, isso sim, irei ouvir
o Sequeira Costa a São Carlos, pela Páscoa (que bela ideia
que a pobreza terá ditado: a Gulbenkian em São Carlos)
a tocar o seu nº 3 de Rachmaninov. E vou meter férias,
vou, nessa semana: não posso perder Radu Lupu, é um
génio, imponderável génio, ainda por cima é um sábado
ao fim da tarde, e depois dos Improvisos de Schubert ficarei zonzo para todo esse fim de semana que vou guardar para mim, solo per belezza, como me disse uma velha
italiana, uma noite, em Verona, solo per belezza, já marquei
na agenda (que o mais certo é vir a perder). Tudo farei, é
claro, para ir ao concerto do Remix Ensemble /Wolfgang
Rihm e ouvir a Versuchung, a maravilhosa homenagem a
Beckmann para violoncelo e orquestra, só ouvi uma vez
(em Stuttgart? em Dusseldorf?) e de que não me esqueço,
brusca, e, quem diria?, realista, se a música o pode ser. E
pronto, quem me dera ir ouvir a Maria João Pires, o Artur
Pizarro (com um repertório que acharão de outros tempos, e a mim me encanta a noite de hoje, Granados e
Mussorgsky) e o Pedro Burmester naquele Concerto de
Brahms (o nº 1) de que não há meio de gostar, pode ser
que seja desta. Não, não mexerei uma palha nem para
Glass nem para Sakamoto, ficarei em casa e quem me
dera passar essas noites a ouvir Massenet, sou mesmo
velhote e estou a ficar caturra. Fico contente por saber
que o António Zambujo vai cantar no Grande Auditório,
sim – mas não sei se irei, é tão bonito vê-lo cantar no
Senhor Vinho, ali, mesmo à nossa beira, tão fremente,
decido depois do concerto que vai ter na Culturgest,
daqui a uns dias (mas é possível que não resista, gosto
tanto dele e de o ver aventurar-se). Irei sim, ai isso não
perco, ver, no Maria Matos, Thanks to My Eyes ópera de
Oscar Bianchi e Joel Pommerat (o seu Circulos/Ficções, que
apresentou no Festival de Almada deste ano, foi uma das
três melhores coisas que nestes últimos anos consegui
ver, a tão incomensurável distância dos mais publicitados
e caducos ou emergentes mestres). E pronto: se não poderei ouvir a Mattila (uma digressão afasta-me de Palhavã para “longes terras”...), nem o Berlioz (nunca consigo,
e gosto tanto...), certo estou que estarei em 4 de Novembro a ouvir o meu querido Pedro Carneiro (ah! gosto
tanto dele) a percussionar Takemitsu (já terei ouvido?)
com a Orquestra Gulbenkian – e depois fico a ouvir Scriabin nesse dia, nem sempre me apetece, há muito que só
ouço o seu piano em velhas gravações de Horowitz, veremos. E resistirei aos últimos quartetos de Beethoven
tocados pelo quarteto Hagen e depois, num programa
mais ecléctico, pelo Tezlaff (que não conheço, nem um
nem outro...)? Há tanto tempo que não os ouço ao vivo,
eu que, desde novinho, jurei que nunca me separaria deles (juras de amor/ quem as não fez...)?
Marcelo Rebelo
de Sousa
Professor
catedrático
1 Confesso que a minha vida, nos meses que corresponderam à temporada passada, me não permitiu ver tudo
o que desejava e tinha programado. Fui, assim, absentista
em excesso. De todo o modo, do que vi retenho um balanço global bom. Falhei, infelizmente, algum piano, muito canto e todas as transmissões do Metropolitan, que me disseram terem sido interessantes, pela qualidade da imagem e
do som e pelos bastidores do espectáculo.
2 O próximo ano tem um programa bastante melhor
do que o anterior. Mais variado. Com incursões na actualidade e uma visão ainda mais transversal. Piano, canto e
orquestras criam expectativa. E não vou perder quatro das
transmissões de Nova Iorque. No geral, em tempo de crise,
um programa de grande qualidade.Vou ter de me desunhar
para compatibilizar aulas da tarde e da noite e outros compromissos com o que é proporcionado...
28
emporada 2010-11?
a do novo programa?
a o programa para a nova temporada, o que lhes ocorre recomendar? Nove respostas, num breve inquérito.
O Te Deum de Sousa
Carvalho será apresentado
a 31 de Dezembro
na Igreja de São Roque
DR
29
1 Como avalia a tem
2 O que recomenda
Eduarda
Abbondanza
Presidente
da ModaLisboa
1 Tentei acompanhar toda a programação o máximo
possível, sendo que destaco o Jazz em Agosto, que é uma
tradição do Verão em Lisboa e consegue sempre surpreender com a sua programação.
Considero como pontos altos da passada temporada,
a novidade das transmissões em directo da Metropolitan
Opera, o evento ‘Instrumentos para a Mudança’ e o multifacetado ‘Festival de Inverno’.
2 A programação da Gulbenkian talvez seja uma das
que consulto em primeiro lugar, uma vez que tenho uma
relação muito forte e antiga com todas as vertentes e
actividades desta instituição.
De acordo com o programa acompanharei por certo
os concertos Músicas do Mundo, nomeadamente de Ryuichi Sakamoto e Anoushka Shankar, da Orquestra Gulbenkian com o maestro Krzysztof Urbanski e Pedro Burmester ao piano, do Coro Gulbenkian aguardo com expectativa o espectáculo Joana d’Arc com Fanny Ardant, e
a obra de John Cage com coreografia de Rui Horta.
Maria Filomena
Mónica
Socióloga
1 Entre a minha crescente misantropia e a minha
decrescente saúde, acabei por ir a poucos concertos, tendo oferecido os meus bilhetes. Assim, não posso avaliar
a temporada em causa, muito menos como um todo. Lembro-me apenas, e vagamente, das sinfonias de Mahler. Em
todo o caso, gostaria de retomar um tema: o do preço
dos bilhetes e o do público que vai aos concertos. Alguns
amigos que prezo criticaram o facto de ter afirmado, neste jornal, que o seu preço era demasiado elevado, o que
faria com que só frequentassem os concertos indivíduos
provenientes de estratos sociais elevados (com nítida
predominância para estrangeiros) e pessoas de idade avançada. Não considero todavia que tenha sido injusta. Reconheço, de bom grado, que esta Fundação tem tido um
papel imenso na divulgação da música clássica. Apenas
lamento não ver ali, no que considero um dos mais belos
anfiteatros da Europa, os jovens que vão aos concertos
dos Prom’s, em Londres. Sei que grande parte da explicação reside na falta de uma educação artística decente
na escolaridade obrigatória nacional, mas isto não explica tudo. Há jovens que não aparecem porque não têm
dinheiro para lá ir. Acresce que a Fundação não é uma
empresa capitalista. Acredito que já pague uma parte considerável dos custos reais, mas, na minha opinião, deveria
encontrar uma forma qualquer de atrair os jovens. Até
poderia começar por ressuscitar o curso de Educação
Musical que, nos anos 1960, os meus filhos frequentaram,
o qual desapareceu sem que entenda o motivo, visto ser
de elevada qualidade.
2 A 30 de Setembro, A Criação, de Haydn; a 27 de
Novembro, Os Últimos Quartetos, de Beethoven; a 7 de
Fevereiro, as cantatas de Bach, especialmente o Ich habe
genug, cantadas pelo contratenor Andreas Scholl; a 13 de
Maio, Maria João Pires, no Concerto para piano e orquestra,
nº3, de Beethoven e a Sinfonia nº 5, de Schubert (para o
qual será impossível encontrar bilhetes avulso). Finalmente, a transmissão das óperas do MET: Anna Bolena, de Donizetti (15 de Outubro); D. Giovanni, de Mozart (29 de
Outrubro); Ernani (25 de Fevereiro) e La Traviata, ambas
de Verdi (21 de Abril).
Luís Santos
Ferro
Engenheiro
1 Considerando os espectáculos a que assisti e quase apenas recorrendo, agora, à memória e registos de agenda, com especial gosto recordo:
• As celebrações do centenário mahleriano culminando sublimemente com o Ewig… ewig… (Canção da
Terra), inesquecível na arte interpretativa de Thomas
Hampson.
• Cosí fan Tutte em versão de concerto, simplificada
mas eficaz na marcação cénica. É decerto pecaminoso ter
uma ‘ópera preferida’ de Mozart… mas como é sedutora,
nostálgica, a mágoa final de Fiordiligi, desencantada! E, assim, invocar as “Afinidades Electivas”, os acertos e enganos
dos afectos.
• O recital Bach por Sokolov, músico que sempre
nos dá novas lições de arte, e o pianismo de Volodos, no
2º Concerto de Brahms. Ainda, as Partitas de Bach, integral, superiormente recriadas pelo violinista alemão
Christian Tetzlav.
• Concerto com Jordi Savall e seu grupo em Istambul
1710, um fascínio de sonoridades e cores, na dignidade
das culturas e músicos exóticos, admiravelmente enquadrados pela sabedoria de Savall.
• Impossível de me esquecer o inefável andamento
lento do Quinteto D.956 (dois violoncelos) de Schubert,
obra de um outro mundo. Diz G.Steiner “music that conveys
both the grave constancy, the finality of death and a certain
refusal of that very finality”. Trazido pelo Quarteto Belcea.
2 Escolhidos os espectáculos aos quais espero assistir, razões diversas acentuam o meu interesse e expectativas. Do conjunto, as alusões a alguns casos especiais.
• O brilhante conjunto de quartetos de corda, com
a integral dos Quartetos de Chostakovitch, cinco jornadas com o sólido Quarteto Borodin; o Hagen a trazernos Beethoven e os derradeiros op.130, 131 com a Grande Fuga op.133. Ainda, convocados por Brendel, os mús i c o s d o Q u a r t e t o C a s a l s re c r i a n d o o t e s o u ro
schubertiano de A Mor te e a Donzela. Brendel, na sua
forma de palestrante-conversador. A propósito e como
lembrança pessoal, a de conversa havida, jantando após
um recital. O grande pianista chegara a Lisboa na véspera para, com tempo, visitar nos Jerónimos o túmulo
de Fernando Pessoa!
• A Criação, oratória de Haydn e a maravilha de assistirmos a um puro e jubiloso nascer do mundo e das criaturas, entre caos e cosmos.
• O sedutor programa que nos propõe a não menos
sedutora A. Kirschlager, com Foster a comandar a Orquestra Gulbenkian.
• Atraente o concerto onde, em Dezembro, Michel
Corboz nos dirá: missas de Gloria, de Puccini e Poulenc,
autor este de bela música religiosa e competente oficina.
Com humor muito seu esperava que as suas obras religiosas o ajudassem a escapar das penas infernais, permitindo-lhe o Purgatório. Pela mesma data, natalícia, oportunidade para renovada audição, após silêncios, do Te Deum
de Sousa Carvalho, nobremente acolitado à Cantata de
Ano Novo, BWV 248. Isto no belo cenário de S. Roque,
com a autoridade de Jorge Mata dirigindo Coro e Divino
Sospiro. Invocaremos então a tradição setecentista da antiga e real (de Rei) ‘acção de graças’.
• Sugestivo, o programa em torno de O Anel proposto por Michael Boder, dirigindoWagner, Ligetti e
Maazel.
• Comemorando Franz Liszt pelo segundo século de
sua morte, é aliciante ouvir Artur Pizarro e, em dia seguinte, o Quarteto de José Vianna da Motta. Pizarro, o mais
distinto discípulo de Sequeira Costa, é o jovem representante português da nobre linhagem que, de Liszt, se continua em Vianna da Motta, um dos seus últimos discípulos,
culminando em Sequeira Costa. No local de veraneio onde escrevo estas notas, Colares, é presente a recordação
do ‘maior músico português’ (cito João de Freitas Branco
de memória): aqui viveu em menino, daqui subia a Serra
para tocar para D. Fernando e Condessa d’Edla, patronos
mecenáticos da sua aprendizagem estrangeira que incluiu
o grande Liszt. Foi compositor também: aos 13 anos (1881),
agradecido, dedicou à sua real amiga Au Bord du Lac de
Pena, uma ‘pastoral’.
• Escolhi também, naturalmente, os recitais de Sokolov e R. Lupu, seguramente de grande interesse e valor
exemplar, sejam quais forem as obras apresentadas.
• Destaque final nesta lista quiçá controversa, a operazinha de Ravel L’Heure Espagnole. Preciosidade requin-
30
emporada 2010-11?
a do novo programa?
tadamente francesa, fina ironia de finos espíritos, malícias
subtis na música e no texto. Mesmo havendo legendas (que
serão em português), mesmo conhecendo-se bem a língua
francesa, espera-se a cortesia de a luz da sala nos permitir seguir o saboroso palavreado.
Mário Vieira
de Carvalho
Professor
catedrático
31
A temporada de 2011-2012 acentua a renovação do
perfil da oferta, na sequência da mudança, ainda recente,
de direcção artística. Quais são, nessa renovação, os aspectos respectivamente mais negativo e mais positivo?
Escolho apenas uma área como exemplo: a da intersecção
entre teatro e música.
O lado mais negativo, na minha perspectiva, são as
transmissões das temporadas de ópera do Metropolitan
de Nova Iorque. Há, na Europa (na Alemanha, França, Inglaterra, Áustria, Holanda, países nórdicos, etc.) um trabalho muito diferenciado, criativo, inovador, tanto sobre
o repertório tradicional como de redescoberta de obras
“ausentes” ou “esquecidas”, bem como naturalmente de
produção de novas obras músico-teatrais, que deixa muito para trás o convencionalismo e o conservadorismo que
predominam no Metropolitan e reflectem o “gosto” de
um certo público norte-americano. Nada de comparável
com a vitalidade da cultura músico-teatral europeia nas
suas expressões mais avançadas. Se é para mostrar o que
se faz lá fora, então há que diversificar os modelos. Não
ponho em causa, é claro, a excelência da realização musical (embora tecnologicamente mediada), mas a ópera é
mais do que isso.
Quanto ao lado mais positivo, esse é a nova série
no Teatro Maria Matos, onde se vislumbra precisamente o propósito de inovação e experimentação, bem
como, muito especialmente, de investimento na produção ou criatividade locais. No futuro, seria até desejável que esse investimento fosse substancialmente
reforçado, que se abrissem novas perspectivas para
compositores, escritores, intérpretes portugueses –
direi mesmo mais: lusófonos –, num projecto consistente e continuado de desenvolvimento duma cultura
músico-teatral em língua portuguesa. Se importamos
ópera alemã e italiana, porque não havemos de “consumir” cada vez mais – e um dia até mesmo exportar
– ópera em língua portuguesa? (Há mais gente no mundo a falar português do que alemão ou italiano...) Eis
o que, em meia dúzia de anos, começaria a ter também
o efeito colateral de atacar o desemprego e melhorar
a balança de pagamentos. Um pequeno empurrão para
vencer a crise. A burguesia alemã acordou cedo para
esses “efeitos colaterais” da cultura, pelo menos, desde fins do século XVIII... E a nossa?
Alfredo Barroso
Jornalista
e comentador
1 Foi uma temporada magnífica, bastante diversificada e cheia de novidades. Como escreveu Risto Nieminen, na brochura da temporada passada: “As placas continentais movem-se, as construções feitas pelo homem
desmoronam-se. O que existia é destruído e tem que ser
erigido de novo. Os actos da natureza podem demolir,
mas ao mesmo tempo podem oferecer a possibilidade
de criar algo novo, algo que não existia antes”. Dir-se-ia
estarmos perante um texto escrito por um discípulo de
Joseph Schumpeter, a explicar a teoria da destruição criativa, do famoso economista e sociólogo checo (austrohúngaro). Mas não. Era um texto do director do Serviço
de Música da Gulbenkian sobre “Mahler, ou a antecipação
da catástrofe”.
Uma das novidades mais gratas aos melómanos militantes da ópera foi sem dúvida a adesão da Gulbenkian às
transmissões da Metropolitan Opera, vulgo MET, em directo de Nova York, e em alta definição. Das onze óperas
transmitidas, com um nível de qualidade muito elevado,
saliento Boris Godunov, de Mussorgsky, sob a direcção de
Valery Gergiev, e Cappriccio de Richard Strauss, com a
notável interpretação de Renée Fleming, no papel da Condessa Madalena. O Festival Mozart foi outra saborosa novidade, com excelentes filmes e magníficos concertos sob
as batutas de Philippe Herreweghe e René Jacobs. Nas
Músicas do Mundo, a grande novidade foi, para mim, um
apaixonante Melingo, a cantar Corazon e Hueso.
Sem esquecer as notáveis interpretações do maestro Esa-Pekka Salonen (felizmente presença habitual em
Lisboa com a Philarmonia Orchestra), e três concertos
dedicados a Bach (Paixão Segundo São João, dirigida por
Ton Koopman, Variações Goldberg, por Andras Schiff no
piano, e O Cravo BemTemperado – Livro II, por Pierre
Hantaï no cravo), devo dizer que o grande momento
mágico da temporada passada foi a soberba interpretação da Sinfonia nº 9, de Gustav Mahler, pela Los Angeles
Philharmonic dirigida pelo jovem e genial maestro Gustavo Dudamel.
2 O embaraço da escolha é recorrente quando a programação é muito boa e diversificada. Daí a abundância
das sugestões que se seguem:
• Os recitais da soprano Karita Mattila, com Martin
Katz ao piano, e da soprano Patrícia Petibon, com a Venice Baroque Orchestra dirigida por Andrea Marcon;
• Os recitais do contratenor Philippe Jaroussky, com
o Appolo’s Fire Ensemble dirigido por Jeannette Sorell, e
do contratenor Andreas Scholl, com a Kammerorchester
Basel dirigida por Júlia Schröder;
• A integral dos quartetos de cordas de Chostakovitch, pelo Quarteto Borodin (que tem a minha idade,
66 anos, foi-se renovando e nunca interrompeu a sua
actividade), e os admiráveis últimos quartetos de cordas
de Beethoven, pelo Quarteto Hagen e pelo Quarteto
Tetzlaff;
• Uri Caine e Solistas da Orquestra Gulbenkian, no
concerto Wagner e Veneza, recriando o ambiente em
que Wagner ouviu a sua música tocada por orquestras
de café;
• A Philharmonia Orchestra, dirigida por Esa-Pekka
Salonen, a interpretar a Sinfonietta, de Janáceck, e O Castelo do Barba Azul, a ópera em um acto de Bela Bartók;
• A Göteborgs Symfoniker, dirigida por Gustavo Dudamel, a interpretar Don Juan e Assim Falou Zaratrusta, de
Richard Strauss, e a Sinfonia nº 103 de Haydn;
• O Coro e a Orquestra Gulbenkian a interpretarem
as grandes oratórias de Haydn: A Criação (maestro Ainars
Rubikis) e As Estações (maestro Paul McCreesh);
• A Missa dei filii, de Zelenka, e o Magnificat, de Bach,
interpretados pelo Balthasar Neumann Choir and Soloists
e pelo Balthasar Neumann Ensemble, dirigidos por Thomas
Hengelbrock;
• O concerto na Igreja de São Roque, no último dia
de 2011, com a Cantata de Ano Novo, de Bach, e o Te
Deum, de João de Sousa Carvalho, interpretados pelo
Coro Gulbenkian e pelo Divino Sospiro, dirigidos por
Jorge Matta;
• O Coro e a Orquestra Gulbenkian, dirigidos por
Philippe Herreweghe, a interpretarem obras de Brahms e
a Missa nº 3, A Grande, de Bruckner.
Vêm sempre grandes pianistas à Gulbenkian, mas os
bilhetes esgotam enquanto o diabo esfrega um olho. Muitos vão perder, assim, os recitais de Arcadi Volodos, Grigory
Solokov, Artur Pizarro, Nicholas Angelich, Hélène Grimaud,
Evgeny Kissin, Radu Lupu, David Kadouch e Maria João
Pires (com a Deutsche Kammerphilharmonie Bremen dirigida por Trevor Pinnock).
As Músicas do Mundo trazem à Gulbenkian propostas interessantes, nomeadamente, Maria João e Mário Laginha, António Zambujo, Max Raabe & Palast Orchester, Cristina Zavalloni IDEA, o Anoushka Shankar
Ensemble e a Orquestra de Casamentos e Funerais de
Goran Bregovic.
Finalmente, as óperas. Três delas no palco da Gulbenkian, em versão de concerto: La finta giardinera (Mozart) com René Jacobs a dirigir a Freiburger Barockorchester; Tannhäuser (Wagner), com Bertrand de Billy a
dirigir o Coro e a Orquestra Gulbenkian; Joana d’Arc na
fogueira (Honegger) com Simone Young a dirigir o Coro e
a Orquestra Gulbenkian (e a actriz Fanny Ardant no papel
de Joana d’Arc). E mais dez em directo do MET: Anna Bolena (Donizetti), Don Giovanni (Mozart), Siegfried (Wagner),
Satyagraha (Glass), Faust (Gounod), The Enchanted Island
(Händel, Rameau, Vivaldi), Gotterdämmerung (Wagner), Ernani (Verdi), Manon (Massenet) e La Traviata (Verdi). Em
suma: dez verdadeiras pechinchas!
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Excelência reiterada e sinais de abertura