REDE KIPUS E RECONVERSÃO DOCENTE NA AMÉRICA LATINA E CARIBE Olinda Evangelista1 Introdução O presente trabalho resulta de pesquisa acerca da Reforma Educacional empreendida na América Latina e Caribe – ALC a partir da década de 1990 do século passado, cujos desdobramentos se encontram em vigência. Aspectos dessa reforma vêm sendo criticados e estratégias são criadas para avaliá-los e redirecioná-los. Na esteira das críticas, mas sem a negação do projeto de reforma, foi criada a Rede Kipus de Formação Docente, no Chile, em 2003. Resultado da conjugação de instituições de ensino superior – ISE voltadas à formação docente, foi proposta pela Oficina Regional de Educação para a América Latina e Caribe – OREALC, Chile. Esta orienta tecnicamente a Rede e sua coordenação é feita pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO. Fazem parte da rede, no Brasil, as Universidades Federais de Juiz de Fora, MG – UFJF e de Minas Gerais – UFMG, do Brasil. Por considerarmos a Kipus uma das evidências da capilarização do ideário reformista na região, que tem na reconversão docente um de seus pilares fundamentais, o objetivo do presente trabalho é o de oferecer elementos para a compreensão de novas vias de implementação da reforma, assim como o refinamento de algumas de suas proposições educacionais e políticas. As fontes de estudo As fontes eleitas2 para estudo foram recolhidas principalmente nos endereços 1 Professora no Departamento de Estudos Especializados em Educação, Centro de Ciências da Educação, Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Campus Trindade, s/n. Florianópolis, SC. Fone: (48) 3721-9245. Pesquisadora CNPq. Membro do Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho – GEPETO (www.gepeto.ufsc.br). E-mail: [email protected]. 2 Os documentos estudados estão referidos no final do texto. Outras foram coletadas – entrevistas com membros da Rede radicados no Chile e publicações impressas –, mas não foram utilizadas. 1 eletrônicos da Rede, Chile, sede, e Peru, e no endereço eletrônico da UNESCO3, entre outras. A documentação coligida é composta de documentos oriundos de instituições de ensino superior, ministérios de educação, organizações multilaterais e de seus intelectuais orgânicos, não necessariamente vinculados formalmente a essas organizações. A análise desenvolvida sobre o corpus documental articula alguns elementos teóricometodológicos que auxiliam na compreensão de diretrizes políticas para a educação presentes nesses documentos. Trabalhamos com a premissa, de McNally (1999), da iniludível relação entre língua, vida, história e sociedade. Em sua abordagem materialista-histórica toma a língua como esfera de experiência social, “o próprio material de que é constituída a consciência humana. A língua é a forma de consciência especificamente humana, a consciência de seres singularmente sociais”. (MCNALLY, 1999, p. 35). Podemos agregar a proposição de Gramsci (1966, p. 13) segundo a qual Se é verdade que tôda linguagem contém os elementos de uma concepção de mundo e de uma cultura, será igualmente verdade que, a partir da linguagem de cada um, é possível julgar da maior ou menor complexidade da sua concepção de mundo. A brevidade da digressão pretende tão-só indicar que a história se constrói por relações sociais concretas e não por divergências discursivas (MCNALLY, 1999, p. 39). Na frase todos os homens são filósofos Gramsci permite compreender, de um lado, que a filosofia está contida “[...] na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo” (GRAMSCI, 1966, p. 11), e, de outro, que todo ser humano é portador de filosofia, de concepção de mundo. Podemos concluir, preliminarmente, que todo sujeito histórico é portador de consciência: de uma que o aprisiona ou de uma que o liberta ou de ambas. O exposto conduz à idéia de que as relações entre perspectivas de classes antagônicas – entre hegemonia e contra-hegemonia – resultam de “movimentos nos quais a resistência econômica e o combate ideológico andam de mãos dadas.” (MCNALLY, 1999, p. 45). 3 Rede Kipus de Formação Docente – Chile: http://www.redkipus.org/; Rede Kipus de Formação Docente – Peru: www.pucp.edu.pe/kipus/; UNESCO – http://portal.unesco.org/. 2 Se as elites dominantes aspiram universalizar sua visão de mundo e torná-la eterna – como no projeto neoliberal dos últimos 30 anos –, as classes subalternas também elaboram visões alternativas, resultantes de sua experiência objetiva de classe, incluindo suas práticas de resistência, suas condições concretas de existência. E essas estão impressas em qualquer fonte de estudo. Essas considerações deram o horizonte às primeiras indagações realizadas: se os documentos se compõem de palavras não aleatórias, nem arbitrárias, quais os seus sentidos? Segundo Thompson (1981, p. 57-58), documentos ajudam “a conhecer quem somos, porque estamos aqui, que possibilidades humanas se manifestaram, e tudo quanto podemos saber sobre a lógica e as formas de processo social.” Desse modo, no trabalho com documentos impõe-se considerá-lo como resultado de práticas sociais e como expressão da consciência humana possível em um dado momento histórico. Em síntese, tomamos os documentos selecionados como expressão de vida, de conflitos, de litígios, de interesses, como sínteses de determinações históricas, como lócus de encontro entre pesquisador, documentos e teoria. Com essas premissas conceituais é possível dizer que o corpus documental em exame está atravessado por interesses que se articulam à manutenção do capitalismo, humano e civilizado, embora alguns façam crítica ao neoliberalismo e a aspectos das reformas. As negações pontuais e fragmentadas dos resultados funestos do processo econômico, assim como as elisões, não são capazes, entretanto, de esconder em sua sombra os comprometimentos sociais burgueses desse projeto educacional na ALC. A crítica à Reforma Educacional dos anos de 1990 Muitas das objeções à Reforma Educacional na ALC que deram origem à Red Kipus foram formuladas no final dos anos de 1990, quando alguns de seus resultados podiam ser percebidos, atingindo inúmeros de seus eixos4. Entre eles encontravam-se os 4 Martín Hopenhayn (s.d, p. 23) assim se refere: Pero también se han levantado vocês críticas frente a algunos sesgos adquiridos por dichas reformas. Algunas son que las reformas adolecen de un exceso de tecnocratismo, concentrándose en mecanismos de financiamiento y gestión pero no en contenidos y procesos de aprendizaje reales. Se argumenta que tienden a privilegiar el aprendizaje de saberes funcionales al desarrollo tecnológico y al desempeño productivo futuro, mutilando aspectos menos instrumentales como la expresividad y la autocomprensión, y sobre todo soslayando la importancia del desarrollo espiritual y del crecimiento personal como parte central del sentido de educar. Noel McGinn (2002, p. 24) defendeu a idéia de que as reformas no han sido mas que débiles instrumentos de cambio, han generado altos costos económicos y políticos y producido una resistência que ha reducido su 3 relativos à formação docente, às instituições formadoras, às práticas de formação continuada. De outro lado, as críticas incidiam sobre as referências conceituais, argumentando-se que a reforma falira por não ter conceitos claramente colocados, caso dos de “educação”, “formação” e “docente”. Esse é o âmbito de atuação da Kipus: propor um refinamento conceitual associado a novas práticas de formação docente. Em 1997, Messina (1997, p. 57)5 assinalava que havia uma tríplice crise na educação – da formação, da profissão docente e da escola pública – que justificava as reformas. Entretanto, seu interesse centrava-se sobre a formação docente: “Formación docente” hace referencia a procesos o funciones destinadas a crear ciertas condiciones que favorezcan el desarrollo profesional docente de los sujetos participantes; formación docente implica una objetivación o externalidad asociada con instituciones, espacios reconocidos públicamente y orientados por propósitos específicos. Formación involucra institucionalidad, aun cuando también son dimensiones del fenómeno, las representaciones de la formación en los sujetos participantes y los procesos de desarrollo que estos experimentan. (MESSINA, 1997, p. 58) Segundo a autora, embora se soubesse que a formação docente ocorresse em instituições, ainda não se havia lhe dado a devida importância: no resulta trivial destacar que cualquier cambio de enfoque acerca de la formación docente requiere de cambios institucionales tanto en los centros de formación como en el conjunto del sistema educativo. (MESSINA, 1997, p. 56) De seu ponto de vista, a formação inicial envolvia instituições de diferentes níveis – secundário, superior não universitário, universitário6 – abrindo vários questionamentos: En particular, ¿cómo se relaciona la estructura actual de la formación docente inicial con las tareas legítimas que se definen socialmente para los maestros y, viceversa, qué reformas se deben efectividad o la de los esfuerzos futuros. En su lugar los gobiernos deberían abordar los sistemas educativos, sus escuelas, como organizaciones de aprendizaje. 5 Graciela Messina é Socióloga na Universidade Nacional de Buenos Aires e consultora da UNESCO. 6 Este é o caso do Brasil: a formação docente para a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental pode ser realizada em Curso Normal de nível médio, em Curso Normal de nível superior, no geral fora de universidade, e em Curso de Licenciatura em Pedagogia, no geral universitário. A Resolução CNE nº 1/2006 (BRASIL, 2006), que reformou o Curso de Pedagogia, define pelo menos oito campos de atuação para o licenciado: docência na Educação Infantil, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, na Educação Profissional e no Curso Normal, ambos em nível médio, na gestão, na pesquisa, em EJA e em outras áreas. Temos, simultaneamente, a polivalência do “licenciado em pedagogia” e o esvaziamento teórico e político de sua formação, explicitando-se o movimento de reconversão do professor. 4 llevar a cabo en la formación inicial frente a las nuevas demandas sociales que se hacen presentes e implican nuevas tareas para los maestros? (MESSINA, 1997, p. 58) Tais questões foram colocadas por outros intelectuais que também viam na institucionalização da formação docente um problema, posto que a ela se ligaria qualquer projeto de profissionalização docente. Além disso, a situação salarial, a legislação educacional, a centralização das reformas, na prática, haviam reduzido o espaço pedagógico e social do professor. (MESSINA, 1997, p. 62) Entre as soluções sugeridas pela autora figurava a necessidade de criar uma nova institucionalidade que desse unidade aos diferentes níveis e programas de formação docente. Ao lado disso, sugeria a criação de sistemas nacionais de formação inicial que gerassem novos posicionamentos dos professores em relação à sua própria tarefa7. Assim, Una nueva actitud formativa no gira en el vacio sino requiere de una nueva institucionalidad [...]. (MESSINA, 1997, p. 75) Resta claro que a autora elabora uma crítica ao sistema de formação docente, sugerindo que este seja alterado em sua concepção e prática. Em 1999, uma importante intelectual ligada à UNESCO – Rosa Torres8 – tecia críticas à reforma, assinalando que la formación docente no puede encararse de manera aislada, sino como parte de un paquete de medidas dirigidas a revitalizar la profesión docente y en el marco de câmbios sustantivos en la organización y la cultura escolar en sentido amplio. La ausencia de uma visión sistémica de la política y el cambio educativos continúa y continuará, como en el pasado, rebotando la posibilidad de hacer efectivos incluso esos pequeños cambios parciales que pretenden instaurarse. (TORRES, 1999, p. 52)9 7 Segundo Messina (1997, p. 75), uma nova institucionalidade deveria ser criada sobre a seguinte base: Un interés especial concita la creación de nuevas maneras de aprender y enseñar, donde la reflexión desde la práctica y la escritura asumen un papel central. La aceptación de la incertidumbre como parte del trabajo profesional y la disposición hacia el aprendizaje a lo largo de toda la vida son otros de los princípios centrales que deberían promoverse desde una institucionalidad que los ha asumido em sus estructuras. 8 Rosa Maria Torres foi Assessora Principal na Seção de Educação da UNICEF, em Nova York e Diretora de Programas para América Latina e Caribe da Fundação Kellogg. Foi Investigadora e Coordinadora da área de Gestão da Inovação Educativa no IIPE-UNESCO, Buenos Aires. Criou o Instituto Fronesis, em Quito. Coordena a rede Pronunciamiento Latinoamericano por una Educación para Todos. 9 Con el término “docentes” nos referimos a los educadores que trabajan en el sistema escolar. Al hablar de su formación incluimos tanto a educadores de aula como a directores y supervisores, entendiendo la importancia de articular estos tres estamentos y de hacerlo en el marco de nociones de “equipo escolar”, “desarrollo profesional” y “gestión escolar” que integren, para todos ellos, tanto la dimensión administrativa como la curricular y pedagógica. [...] la cuestión de la “formación docente” dentro del 5 Para a autora, a “crise docente” sugeria um processo de revalorização, profissionalização e incentivo ao protagonismo docente tanto na região, quanto em outros países. As medidas que se sucederam eram débeis e, somadas aos baixos salários, não contemplaram as demandas do campo. Decorreu daí que a formação docente foi secundarizada pela reforma. O processo de capacitação em serviço estava desligado da formação inicial. No caso da primeira, funcionava em sistema emergencial, massivo e instrumental. No da segunda, abandonada, optou-se por mecanismos de controle, avaliação e exigências de trabalho. (TORRES, 2000a, p. 22-23) Em 2001, Barriga e Espinosa (2001, p. 31) contribuíram nessa discussão respondendo à pergunta: quais as intenções das reformas dos anos de 1990? Uma intenção “refundacional”, “reorganizacional”, “reajustar las formas y modos em que se piensan las necesidades educativas”. Esse posicionamento resultou do balanço feito pelos autores do Projeto Principal de Educação10, ao final de seus 20 anos de existência na região. Indicou-se que a participação do professor na implementação da reforma foi pequena, ponto em aberto tanto em relação aos anos de 1990 quanto hoje, do ponto de vista da UNESCO. Frente à constatação de que os professores não assumiram a reforma – e muitas vezes a rechaçaram – intelectuais latino-americanos ligados à UNESCO buscaram explicações. Concluíram – após a condenação das precárias condições de trabalho – que sem os professores não haveria sucesso para a reforma e seu caráter de mundialização não seria por eles assimilado. (BARRIGA; ESPINOSA, 2001, p. 41) concepto de “aprendizaje permanente”, es decir, entendiendo que los saberes y competencias docentes son resultado no solo de su formación profesional, sino de aprendizajes realizados a lo largo y ancho de la vida, dentro y fuera de la escuela y en el ejercicio mismo de la docencia. (TORRES, 1999, p. 40) E ainda: reforma é aquela que repiensa y pone en el centro el currículo y la pedagogía, el qué y cómo se aprende, el qué y cómo se enseña, a todos los niveles y en los diversos ámbitos – en el sistema escolar, en laformación docente inicial y en servicio, en la formación de formadores y administradores del sistema – en el marco de un concepto integrado de gestión (escolar, educativa) que incluye tanto la dimensión organizativo-administrativa como la curricular-pedagógica, para los diferentes actores y estamentos (TORRES, 2000a, p. 70). 10 O Projeto Principal de Educação – PPE nasceu em 1979, no México, e foi lançado em Quito, Equador, em 1981. Coordenado pela UNESCO e disseminado na América Latina e Caribe, tinha três metas para serem alcançadas até 2000: acceso universal a la escuela primaria, eliminación del analfabetismo adulto y mejoría de la calidad y la eficiencia de la educación. (TORRES, 2000b, p. 8) A ele seguiu-se o Projeto Regional de Educação para a América Latina e o Caribe – PRELAC, propondo “maior participação de atores e instâncias e criação de redes”, entendidas como “organização muito diferente daquelas existentes nos sistemas educacionais atuais, já que exigem uma estrutura aberta, uma grande autonomia, hierarquias não lineares, múltiplas conexões e limites flexíveis.” A reordenação dos sistemas educacionais seria realizada “com os países pelas redes regionais coordenadas pela UNESCO ou por redes de apoio lideradas por outros organismos de cooperação internacional.” (PRELAC, 2002, p. 22). 6 Também Vollmer (1994)11 chama a atenção para a “questão docente”, inexoravelmente ligada à da qualidade da educação. Segundo a autora, o processo de “conversão” do papel docente es una exigencia no sólo de las transformaciones acaecidas en la organización del trabajo, sino que es una consecuencia de los procesos de descentralización, de la autonomía en la gestión de las escuelas y de los cambios que están ocurriendo en los procesos de enseñanza y aprendizaje [...]. (VOLLMER, 1994, p. 16) Tal conversão implicaria la resignificación de funciones tradicionales y el surgimiento de un conjunto de tareas nuevas e este seria o critério mais importante para fundamentar y orientar la transformación estructural de las carreras de formación docente. (VOLLMER, 1994, p. 18) A adequação da formação às novas demandas exigiria la articulación e integración dinámica entre las instituciones formadoras, las escuelas y los sectores académicos, para lograr la apertura necesaria que permita captar y dar respuestas, en forma permanente, a las necesidades educativas de la sociedad [...]. (VOLLMER, 1994, p. 18) Ademais seria necessária a implementação de um sistema de formación continua del docente que incluya la formación inicial, el desarrollo profesional, la capacitación en servicio y las oportunidades de calificaciones superiores. [...] el fortalecimiento de los institutos de formación docente, elevando el nivel de los formadores de formadores, de manera que asuman el papel decisivo que les cabe en la preparación y motivación de los futuros maestros y profesores [...]. (VOLLMER, 1994, p. 18-19) As críticas arroladas – mas não esgotadas – ofereceram o quadro no qual propostas de conversión del rol profesional ou de “reconversão” docente, mediante formação e aperfeiçoamento, pudessem ser elaboradas. O objetivo desta proposta era o de criar as condições para que os docentes compreendessem los problemas presentados en su práctica, de manera que pueda elaborar respuestas originales para cada una de las situaciones en las cuales le corresponde actuar, y asumir responsabilidades cualitativamente diferentes con soluciones diversas. (VOLLMER, 1994, p. 19) 11 María Inés Abrile de Vollmer, Ex-Ministra de Educação da Província de Mendoza (Argentina), Subsecretaria de Equidad y Calidad do Ministério de Cultura e Educação da Argentina. 7 A intervenção da Rede Kipus A Rede Kipus em sua curta existência agregou mais de 200 organizações da região, conclamadas a investirem nos professores por meio de qualificação de mais longo alcance. Seu projeto é o de intervir nos programas de formação de formadores existentes na região e de re-significação do conceito educação. Sua estratégia consiste em reunir o conhecimento acumulado pelas instituições de formação docente da região em nível superior e oferecer elementos para o que denomina “formação inovadora”, isto é, uma formação que concilie demandas locais ou regionais às internacionais para construir novos significados para a formação. Este processo deve ser alcançado pela reconversão docente, entendida como a capacidade dos professores de incorporarem o novo conceito de educação e aderirem aos princípios da reforma nos termos propostos pela OREALC/UNESCO, responsável por sua difusão na região. A Kipus opera por meio de grupos temáticos – Desafíos en la formación docente inicial y en servicio; Desarrollo profesional y dimensiones de la profesión docente; La profesión docente y los cambios en el escenario social; Tendencias en la profesión docente frente a los cambios – que, além de aglutinarem intelectuais e instituições, articulam e orientam investigações sobre profissão docente. Os temas dos grupos oferecem os eixos para a organização dos congressos da rede12 (RED KIPUSb). Como resultado e forma de sua organização a Rede tem, hoje, em funcionamento três projetos13: 1) Educavida – Educación para poblaciones rurales; 2) Estudio sobre formación docente, convivencia y cultura de paz; 3) Doctorado internacional con foco 12 Em junho de 2008 se realizou o V Encuentro Internacional de KIPUS, la Red Docente de América Latina y el Caribe, na Pontifícia Universidade Católica do Perú, em Lima. A Red KIPUS, coordinada por la UNESCO, proporcionou o encontro para discutir e formular propostas para o desenvolvimento da profissão docente. Participaram ministerios de educación, universidades, facultades de educación, institutos pedagógicos, centros de investigación, organizaciones docentes, directores de instituciones educativas, docentes, investigadores, provenientes de todos los países del continente. Segundo informação do site El V Encuentro de KIPUS mostrará los esfuerzos y aportes de sus miembros dirigidos a elevar la preparación profesional y fortalecer el compromiso ético de los y las docentes. Estos esfuerzos pretenden ser una valiosa contribución a que la educación de calidad sea, efectivamente, un derecho de toda la población. (RED KIPUSd) 13 Entre os projetos concluídos estão: 1) Formación docente y las tecnologías de información y comunicación; 2) Condiciones de trabajo y salud docente; 3) Incorporación de la prevención del SIDA en el currículo de la formación de docentes en América Latina. (RED KIPUSc) 8 en la profesión docente. Coerente com sua proposta – de re-significar a educação e reconverter o docente –, a Red Kipus bajo la responsabilidad académica de 11 universidades de reconocido prestigio, con el aval de la UNESCO, inició en octubre de 2007 la implementación de un programa de doctorado latinoamericano (RED KIPUSa), cuja previsão de funcionamento era 2009. Segundo informações do seu site, o doutorado contribuiria al fortalecimiento de la profesión docente en el campo de las políticas públicas a nivel nacional, regional y local […] diseñado por latinoamericanos y para latinoamericanos. Em seu lançamento no Chile, na Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación – UMCE, em setembro de 2008, estavam presentes o Instituto Internacional de Educación Superior para América Latina y el Caribe – IESALC, a Oficina Regional de Educación para América Latina y el Caribe – OREALC/UNESCO e seis universidades latinoamericanas – México, Colômbia, Venezuela, Brasil, Honduras e Chile14. O projeto tem um duplo propósito: 1) contribuir para a formulação e gestão de políticas educacionais, particularmente para o desenvolvimento da profissão docente, e 2) fortalecer o protagonismo das universidades no âmbito das políticas públicas. Esses dois propósitos assentam-se sobre três estratégias: 1) geração de conhecimento sobre a profissão docente; 2) formação de profissionais para os setores envolvidos com a educação e a profissão docente e 3) interferir em processos de transformação na 14 No endereço eletrônico informa-se que la idea es de crear y fortalecer redes socio-educativos a nivel regional. El doctorado debe incidir desde el campo de las políticas para la profesión docente en la generación de conocimiento, en la formación de profesionales de diversos sectores involucrados con el desarrollo de la profesión docente y en los procesos de transformación en la formación de estos profesionales. (RED KIPUSa). Os objetivos são, ademais, formar profesionales de variadas disciplinas vinculados a la docencia mediante la creación de una red de doctorados impartidos en diversas sedes, donde sus estudiantes abordarán ejes temáticos inter o multidisciplinarios en: políticas educativas y formación docente; profesión docente y políticas; prácticas curriculares en la formación docente y en la educación de niños y jóvenes. […]; promover la solidaridad entre los países de América Latina y buscar múltiples formas de cooperación entre las organizaciones y universidades latinoamericanas para mejorar la calidad educativa de la región. As universidades envolvidas são: Universidad Pedagógica Experimental Libertador (Venezuela), Universidad Pedagógica Nacional de México, Universidad Pedagógica Nacional de Colombia, Universidad Federal de Minas Gerais (Brasil), Universidad Tecnológica San Antonio de Machala (Ecuador), Universidad del Bío Bío (Chile), Universidad Católica Cardenal Silva Henríquez (Chile), Universidad de la Frontera (Chile), Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación (Chile), Universidad Pedagógica Nacional Francisco Morazán (Honduras) y la Pontificia Universidad Católica del Perú. (RED KIPUSa) 9 formação inicial, em serviço e, em geral no desenvolvimento profissional dos docentes15. O curso de doutorado não gerou ainda material suficiente para análise. Entretanto, é possível levantar a hipótese de que se constitui como um importante passo para a realização dos desideratos da OREALC/UNESCO e das instituições envolvidas, bem como para a disseminação de seu ideário na região. O referido curso se adequa perfeitamente à sua principal diretriz, qual seja, intervir nos conteúdos da formação docente pela formação dos formadores em nível superior. Conclusões Em trabalho anterior discutimos a problemática da reconversão no âmbito econômico (EVANGELISTA, 2008). Citamos Martínez (1994 apud GINDIN, 2006, p. 45) e seu entendimento de que A reconversão produtiva dentro das empresas, com a incorporação de novas tecnologias e modos de organização da produção, promove a diminuição da dotação de pessoal, a terceirização de funções e a preocupação por integrar o trabalhador à empresa, se esforçando por desarticular o coletivo assalariado. A reconversão processada, respondendo a uma demanda do mercado, teve repercussões sobre o campo educacional. Trabalhamos com a hipótese de que “a estratégia de reconversão docente [subjazia] às mudanças na formação inicial e continuada do professor, bem como na gestão do trabalho docente e do sistema de ensino” (EVANGELISTA, 2008). Foi considerada importante neste percurso a Rede Kipus de Formação Docente, posto que defende a reconversão docente e o papel disseminador das redes sociais interessadas em educação. 15 A Coordenação Acadêmica Internacional é composta por: Rosa María Torres, Universidad Pedagógica Nacional de México; Margie Jessup, Universidad Pedagógica Nacional de Colômbia; Martha Duque e Pablo Rios, Universidad Pedagógica Experimental Libertador de Venezuela; Dalila Andrade e Luciola Licino Santos, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil; Judith Morel, Universidad Pedagógica Nacional Francisco Morazán de Honduras; Sueli Pires, Instituto Internacional de Educación Superior para América Latina y el Caribe – IESALC; Magaly Robalino, Emilio Gautier e Rebeca Zevallos, Oficina Regional de Educación para América Latina y el Caribe – OREALC/UNESCO/Santiago/Chile; Mario Leyton, Leonora Díaz, Orlando Silva e Valeria Herrera, Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, Chile. (RED KIPUSa) 10 Também assinalamos a posição da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI, 2003) em relação ao tema: [...] en los noventa detectamos el empeño puesto en que los docentes se “perfeccionen”, “reconviertan”, “actualicen”, según las distintas miradas que se hicieron del problema. No fue una cuestión menor para los espíritus reformistas normalizar las habilidades, “competencias”, de los docentes para una nueva escuela, es decir, que se apropiaran de nuevos saberes útiles para la escuela del siglo XXI. Os documentos com os quais trabalhamos no presente texto recolocam a questão da reconversão docente como estratégia de produção de mudanças substantivas na educação, entendida de vários modos, mas principalmente como profissionalização docente e via para a “educação de qualidade”. Está decalcada neste entendimento, segundo De Rossi (2005), a idéia da “escola competitiva, das necessidades básicas de aprendizagem impulsionadas pela reconversão da educação para refundar os sistemas de ensino.” Reconversão docente significa, então, “o conjunto de estratégias adotadas por distintas instâncias e centros de poder para racionalizar os sistemas educativos” e tornar as políticas educacionais palatáveis “às pressões econômicas das agências (inter)nacionais.” (DE ROSSI, 2005). De acordo com a reflexão em pauta, está em tela de juízo o problema da institucionalização da formação docente. Ao propor “re-significar a educação” pela alteração da formação dos formadores nas instituições de formação inicial – embora articulada à formação contínua –, a Rede Kipus esclarece ser necessário mudar as mentes dos docentes na ativa e a consciência dos que no futuro abraçarão a profissão. Esse objetivo se expressa em um grupo de iniciativas em curso na região cuja propensão é a de reconfigurar o sistema de formação docente – inicial e continuada – e o campo de trabalho docente16. Não sem razão estão sendo repensadas as diretrizes curriculares para 16 Refira-se o recente debate em torno da constituição de um Sistema Nacional Público de Formação dos Profissionais do Magistério, sob a responsabilidade da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES, cuja minuta de decreto (BRASIL, 2008) circulou em outubro de 2008. Contudo, com a publicação do Decreto nº 6.755, em 29 de janeiro de 2009, o governo federal retrocedeu em relação à proposição de um sistema nacional e instituiu uma Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica (BRASIL, 2009), atribuindo à CAPES a tarefa de “(fomentar) programas de formação inicial e continuada”. Mais recentemente foi criada a Plataforma Paulo Freire, “um sistema on-line que prevê o cadastro dos professores da rede pública, para mapear as 11 a formação inicial de professores, as funções docentes, a profissionalização do magistério, a certificação, a gratificações por desempenho e novas formas de gerenciamento do sistema educacional. A Rede Kipus defende o preparo adequado do professor. Em poucas palavras: propõe a intervenção nas instituições formadoras, portanto, na formação da inteligência na área. As evidências aqui arroladas intentam indicar que a reconversão docente supõe reconverter as instituições de formação pela reconversão conceitual de educação, professor, escola e aluno – tarefa para a qual conclamam os intelectuais. Resta perguntar qual de nós dirá não. Referências BARRIGA, Angel D.; ESPINOSA, Catalina I. El docente en las reformas educativas: sujeto o ejecutor de proyectos ajenos. Revista Iberoamericana de Educación, eneroabril, nº 025, Madrid, Espanha: OEI, 2001. p. 17-41. BRASIL. CNE. Conselho Pleno. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Pedagogia. Resolução CNE/CP nº 1 de 15 de maio de 2006. Disponível em http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp01_06.pdf Acesso em 15.10.2007 BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Decreto no. .... , ... de outubro de 2008. Institui o Sistema Nacional Público de Formação dos Profissionais do Magistério. Brasília, 2008. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/decreto_102008x.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2008. BRASIL. Decreto nº 6.755, de 29 de janeiro de 2009. Institui a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica, disciplina a atuação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES no fomento a programas de formação inicial e continuada, e dá outras providências. Brasília – DF, Diário Oficial da União, Ano CXLVI, nº 21, sexta-feira, 30 de janeiro de 2009. DE ROSSI, Vera Lucia Sabongi. Mudança com máscaras de inovação. Educação e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 92, 2005. Disponível em: <http://test.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010173302005000300011&ln g=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Ago 2006. doi: 10.1590/S0101-73302005000300011. demandas a serem contempladas no Plano Nacional de Formação de Professores.” (UFERSA, 2009). Este plano, segundo informações do MEC, deverá “oferecer cerca de 330 mil vagas em cursos superiores com licenciatura para docentes que já fazem parte da rede”, à distância e presencial. (MORAES, 2009) 12 ESTEVE, José Mª. El profesorado de secundaria. Hacia un nuevo perfil profesional para enfrentar los problemas de la educación contemporánea. Revista Fuentes on line, 3. Universidad de Sevilla. Facultad de CC de La Educación. Disponível em: http://www.revistafuentes.org/htm/article.php?id_volumen=3&id_article=51. Acesso em: 17 mai. 2008. EVANGELISTA, Olinda. Rede Kipus e reconversão docente. Florianópolis, SC: UFSC; GEPETO, 2008. Mimeografado. GINDIN, Julián José. Sindicalismo docente e Estado - as práticas sindicais do magistério no México, Brasil e Argentina. Universidade do Estado do Rio do Janeiro. Faculdade de Educação. (Dissertação). Rio de Janeiro, 2006. GRAMSCI, A. Concepção dialética da história. RJ: Civilização Brasileira, 1966. HOPENHAYN, Martín, La educación en la actual inflexión epocal: una perspectiva latinoamericana. Dimensiones instrumentales y dimensiones de sentido. Revistaprelac. Santiago do Chile, UNESCO, s.d. p. 12-25. MCGINN, Noel. ¿Reformas o mejoramiento continuo? Documento de trabajo. Banco Interamericano de Desarrollo. Diálogo Regional de Política. Red de Educación. Tercera Reunión: Educación Secundaria. Washington, D.C.: Harvard University, 4 y 5 de abril de 2002. p.1-28. MCNALLY, David. Língua, história e luta de classe. In: WOOD, E. M. E FOSTER, J. B. Em defesa da história. Marxismo e pós-modernismo. RJ: Zahar, 1999. MESSINA, Graciela. Como se forman los maestros en America Latina. Boletin Proyecto Principal de Educación en América Latina y el Caribe, 43. Santiago, Chile, UNESCO, agosto 1997. MORAES, R. Formação de Professores. In: MEC. Portal Mundo Acadêmico. 2009. Disponível em: http://mundoacademico.unb.br/conteudos/?cod=1243492605170274111214170418. Acesso em: 11 de jun. 2009. OEI. XIII Conferencia Iberoamericana de Educación. Plan de Cooperación. Renovación de ideas y formulación de estrategias tendientes al fortalecimiento de políticas de formación docente. Bolívia, setembro de 2003. Disponível em: www.oei.es. Acesso em: 20.05.2005. PRELAC. Proyecto Regional de Educación para América Latina y el Caribe. 2002. Disponível em: http://www.unesco.cl/medios/biblioteca/documentos/prelac_proyecto_regional_educaci on_esp.pdf Acesso em: 1 de abril de 2007. 25 p. RED KIPUSa. Doctorado Latinoamericano en educación afina su diseño. Disponível em: http://www.umce.cl/enlinea/noticias/20080925_reunion_tecnica_kipus.html. Acesso em: 9 jan. 2009. 13 RED KIPUSb. Grupos temáticos. Disponível em: http://www.redkipus.org/grupos_tema.php. Acesso em: 13 jun. 2009. RED KIPUSc. Proyectos realizados. Disponível em: http://www.redkipus.org/proyectos_despliegue.php?id=3. Acesso em: 13 jun. 2009. RED KIPUSd. V Encuentro Internacional de KIPUS, la Red Docente de América Latina y el Caribe. Disponível em: www.pucp.edu.pe/encuentro/kipus/. Acesso em: 13 jun. 2009. THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. TORRES, R. M. De agentes de la reforma a sujetos del cambio: la encrucijada docente en América Latina. Perspectivas, XXX(2), 2000b. p. 1-21. TORRES, Rosa Maria. Nuevo rol docente: ¿que modelo de formacion, para que modelo educativo? Boletín Proyecto Principal de Educación en América Latina y el Caribe, 49. Santiago, Chile, UNESCO, agosto 1999. p. 39-53. TORRES, Rosa Maria. Reformas educativas, docentes y organizaciones docentes en América Latina y el Caribe. In: Los docentes protagonistas del cambio educativo. Bogotá: CAB/Editorial Magistério Nacional, 2000a. UFERSA. Reunião na ANDIFES. Universidade Federal Rural do Semi-árido – UFERSA. 2009. Disponível em: http://www2.ufersa.edu.br/portal/noticias/778/Semana%2023. Acesso em: 11 de jun. 2009. UMCE. Comisión técnica prepara Doctorado Latinoamericano. Reunión Internacional en UMCE. Disponível em: http://www.umce.cl/enlinea/noticias/20080925_reunion_tecnica_kipus.html. Acesso em: 9 jan. 2009. VOLLMER, María Inés Abrile de. Nuevas demandas a la educación y a la institución escolar, y la profesionalización de los docentes. Revista Iberoamericana de Educación, 5. Mayo – Agosto, 1994. 14