IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 O Sultanato de Angoche e a resistência ao colonialismo português no norte de Moçambique (18421910)1 Regiane Augusto de Mattos 2 O objetivo central da minha pesquisa de doutorado é analisar o papel do sultanato de Angoche na organização da resistência ao colonialismo português no norte de Moçambique, no período entre 1842 e 1910. A primeira baliza refere-se à intervenção portuguesa na proibição do comércio de escravos na África por meio de um tratado assinado, em 1842, entre Portugal e Inglaterra. A segunda baliza reporta-se a 1910, ano em que o sultanato de Angoche foi efetivamente ocupado por Portugal. A pesquisa desdobra-se em dois grandes eixos de análise. O primeiro eixo diz respeito aos principais fatores desencadeadores da resistência organizada pelo sultanato de Angoche. O segundo eixo debruça-se nas formas de mobilização e organização da resistência dos 1 Conferência apresentada no “Dia de África” (25 de maio de 2010) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), durante o estágio de pesquisa na mesma universidade, com a supervisão do Prof. Dr. José Horta e financiamento do PDEE/CAPES/Brasil. 2 Bacharel e licenciada em História pela Universidade de São Paulo (USP), onde também obteve o título de mestre em História Social. Atualmente desenvolve tese de doutorado na mesma universidade sobre o sultanato de Angoche e a resistência à dominação portuguesa no norte de Moçambique entre 1842 e 1910, sob orientação da Profa. Dra. Leila Leite Hernandez. 15 16 Regiane de Mattos diferentes grupos étnicos existentes nessa região, sobretudo sob a liderança do sultão Farelay. O sultanato de Angoche O sultanato de Angoche localizado na região norte de Moçambique foi responsável por uma das mais longas resistências à dominação portuguesa no continente africano, prolongada até 1910. O sultanato era formado por grupos suaílis originários da cidade litorânea de Quíloa. Seguiam o islamismo e eram grandes comerciantes. A posição geográfica do sultanato de Angoche contribuiu muito para a sua expansão política. Localizado próximo ao litoral, o sultanato era responsável por realizar o comércio de longa distância, controlando as principais rotas comerciais entre o litoral índico e o interior do continente africano. Além disso, as estratégias de parentesco também garantiram a expansão da influência de Angoche entre os grupos do interior. Essas estratégias envolviam a doação de terras e o casamento. Isto proporcionava uma estreita ligação política de dependência e lealdade entre o sultanato e as sociedades do interior. 3 Os grupos étnicos do norte de Moçambique, em especial os suaílis de Angoche, estabeleceram intercâmbios por meio do Oceano Índico, sobretudo iniciados pelas cidades de Mogadixo, Quíloa, Brava, Lamu, conforme as fontes documentais árabes anteriores ao século XII, como os relatos do geógrafo Al’Idrisi. Das referidas cidades, ouro, marfim e escravos eram embarcados para as ilhas de Zanzibar, Comores e Madagascar e para regiões para além do Golfo Pérsico. Os portugueses passaram a fazer parte dessas relações comerciais apenas no século XVI, construindo entrepostos na costa oriental da África, onde reabasteciam os navios que se dirigiam para a Índia e comercializavam âmbar, marfim, fibra de coco e, sobretudo ouro. 3 Com relação ao conceito de grupo étnico ver: BARTH, Fredrik. Ethnic groups and boundaries. The social organization of culture difference. In: POUTIGNAT, Philippe, STREIFF-FENART, Jocelyne. Teorias da etnicidade. Seguido de Grupos étnicos e suas fronteiras de Fredrik Barth. São Paulo: Editora Unesp, 1997. AMSELLE, Jean-Loup & M’BOKOLO, Elikia. Au coeur de l’ethnie. Ethnie, tribalisme e État en Afrique. Paris: La Découverte, 1999. IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 O Sultanato de Angoche 17 Até esse momento, os franceses dominaram a cena do tráfico de escravos, pois já havia muito tempo tinham estabelecido o controle desse comércio entre Moçambique e as ilhas no Índico. Eles produziam espécies de café e especiarias nas ilhas Mascarenhas, e como mão-deobra trabalhadora utilizavam os escravos comprados na costa da África Oriental, em geral, adquiridos em Madagascar, Quíloa, Zanzibar e na ilha de Moçambique e comercializados por árabes, suaílis e portugueses. Em meados do século XVIII, com os crescentes incentivos portugueses e a contribuição, suaílis, árabes e franceses ao comércio de escravos, Angoche tornou-se um dos mais importantes centros econômicos da África Oriental. No século XIX, já era um grande ponto comercial de escravos destinados a Zanzibar, Comores, ilha de Moçambique, Europa e América. Nesse período, o tráfico de escravos na África Oriental também continuou direcionado para o mundo árabe, persa e indiano. Com a proibição do tráfico de escravos na África, promovida por meio de um acordo entre Inglaterra e Portugal, em 1842, o comércio clandestino cresceu substancialmente, em particular, na área do sultanato de Angoche. Razões da resistência. Com relação ao primeiro eixo de análise, diversas razões podem ser atribuídas aos movimentos de resistência. A primeira hipótese é a interferência econômica portuguesa, caso da proibição do comércio de escravos, um dos mais lucrativos negócios nos portos de Moçambique. Diante desse panorama econômico, no qual o comércio de escravos tinha um papel importantíssimo, pode-se considerar como marco inicial da resistência ao domínio português a proibição do tráfico de escravos em 1842. Garantir a autonomia econômica do sultanato, sobretudo no que se refere ao controle do comércio de escravos, era fundamental para a permanência do poder e da soberania do sultanato de Angoche. O tráfico de escravos, além de proporcionar aos chefes suaílis grandes lucros, proporcionava-lhes prestígio e poder entre os demais grupos étnicos da região, bem como entre os agentes estrangeiros - franceses, indianos, brasileiros –, na medida em que dominavam uma rede co- IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 18 Regiane de Mattos mercial importantíssima. O sultanato de Angoche conseguiu resistir à interferência portuguesa no controle da economia, no caso da proibição do comércio de escravos, até início do século XX, quando ainda escravos eram embarcados nessa área. Na década de 1840, o sultão que comandava Angoche era Hassane Issufo. Este tinha um meio-irmão chamado Mussa-Momadi-Sabo, mais conhecido como Mussa Quanto, que se tornou comandante militar do sultanato. Aproveitando a grande influência que tinha sobre o sultão Hassane Issufo, Mussa Quanto o convenceu a organizar uma expedição de guerra, comandada por ele, e destinada a conquistar as terras do Zambeze. Nessa época, o sultanato sofria com a concorrência do comércio realizado nas feiras do Zambeze e nos prazos de Quelimane. Em suas investidas no vale do Zambeze, Mussa Quanto invadiu as terras do senhor do prazo da Maganja da Costa João Bonifácio. Como reação à invasão das suas terras e à escravização da sua população, Bonifácio organizou um ataque ao sultanato de Angoche. Durante alguns anos preparou os recursos necessários, como a compra de armas e o recrutamento de homens que permitissem a dominação do sultanato. E para tanto, recebeu o apoio militar de Portugal. Em 25 de setembro de 1861, as forças de João Bonifácio ocuparam a ilha de Angoche. Mussa Quanto foi ferido e acabou fugindo para a povoação do xeque de Sancul, na baía do Mocambo, onde, então, foi preso e levado para a fortaleza de São Sebastião. Por sua vez, o sultão Hassane Issufe dirigiu-se para Madagascar, morrendo, mais tarde. Em 1862, Mussa Quanto conseguiu fugir da prisão na fortaleza de São Sebastião onde havia permanecido por alguns meses. Há informações de que ele teria fugido para Madagascar e aí iniciado a organização de um contra-ataque para retomar seu território em Angoche. Para isso, obteve o apoio das elites de Madagascar que lhe forneceram armas e munições. Por outro lado, existem igualmente indícios de que Mussa Quanto tentou organizar a resistência a partir do interior de Moçambique. Mussa Quanto tentou recuperar o comando do sultanato atacando os xecados de Sancul, Sangage e os imbamelas, que após a ocupação da ilha de Angoche aproximaram-se dos portugueses. Neste período, as autoridades portuguesas agiam aproveitando das disputas internas às sociedades africanas. Neste caso, apoiou um IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 O Sultanato de Angoche 19 dos chefes africanos do subgrupo macua imbamela – conhecido como Morla-muno - contra os ataques de Mussa Quanto. Ao final dessa contenda, o representante de Portugal na região ainda teve que promover um acordo de paz, indo de encontro a Mussa Quanto. Logo depois, Mussa Quanto morreu, em 27 de julho de 1877. Ao analisar o período no qual enquadra-se a atuação do comandante militar e, mais tarde, sultão Mussa Quanto, pode-se levantar como hipótese que a perda da soberania também foi um dos fatores fundamentais para a organização da resistência em Angoche. Vários estudos já apontaram a importância do impacto da perda da soberania para um povo, na medida em que este é obrigado a se submeter a outra cultura, perdendo o direito de se auto-governar. A soberania atrelava-se, muitas vezes, à religiosidade, encontrando respaldo nos símbolos e rituais religiosos. Além disso, os representantes políticos faziam uso desses elementos simbólicos ligados à religiosidade para defender a legitimidade do poder político. Nesse sentido, é possível considerar que a religião pode ter sido um fator de coesão de grupos diferentes para contestar a interferência externa ao poder político e a ameaça da ordem interna. Dessa maneira, será importante analisar o papel político das idéias religiosas. Não obstante as diferentes recepções africanas, no sultanato de Angoche, o islamismo era a religião preponderante. Mas teria sido o islamismo o elemento primordial para a mobilização e a organização da resistência, tornando-se um instrumento de oposição? Em outros termos, o sultanato de Angoche teria lutado tanto pela defesa do poder político do seu território, quanto pela permanência de suas crenças religiosas? Será preciso, entretanto, aprofundar a pesquisa e identificar qual foi o papel do islamismo na articulação da resistência entre os outros grupos étnicos. Para tanto, investigar-se-á o grau de submissão desses grupos étnicos aos preceitos religiosos islâmicos. Ressalte-se que Angoche, além de fazer parte do “mundo suaíli” e se integrar à rede comercial e cultural do Oceano Índico, também dirigiu seus interesses e promoveu estratégias políticas para o interior do continente, não apenas visando o tráfico de escravos. Os líderes de Angoche agiam levando em conta que o sultanato era uma parte integrada ao continente. Utilizavam estratégias e criavam laços de lealdade entre os chefes do interior e o sultão de Angoche que reforçavam as IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 20 Regiane de Mattos relações comerciais. A relação política e cultural construída entre o sultanato de Angoche e os povos do interior do continente, sobretudo os macuas, é uma dimensão importante para compreender a longa resistência às investidas portuguesas. Durante o século XIX, notam-se, por parte do sultanato de Angoche, tentativas de alianças entre os diferentes grupos étnicos presentes nessa região. Essas alianças foram muito importantes no final do século XIX, quando foi organizada uma coligação contra os portugueses composta por chefes macuas, permitindo a resistência à dominação até 1910. Em 1849, Mussa Quanto realizou uma longa viagem em companhia de seu parente Agi, também sharif, tecendo uma importante rede de interesses comerciais e políticos. Percorreu o Lomué, o Lugenda chegando até ao Zambeze. Em seguida, partiu em direção ao território dos ajauas, onde procurou arranjar prosélitos, promovendo a expansão do islamismo entre os grupos étnicos do interior do continente. Mais tarde seguiu para Zanzibar com objetivo de visitar parentes e depois para as ilhas Comoros e Madagáscar. Nota-se que o sultanato de Angoche mantinha relações muito próximas, inclusive de parentesco, com as elites muçulmanas de Zanzibar e das ilhas do Índico. O sultanato de Angoche tinha contato com essas áreas do oceano Índico há muito tempo. Essas antigas relações possuíam um caráter econômico muito forte. Por outro lado, havia igualmente um aspecto religioso, marcado pelo interesse em expandir o islamismo. Na década de 1830, Zanzibar tornou-se a capital do sultanato de Oman, pois o sultão Sayyid-Said para lá se transferiu com a intenção de controlar o comércio de escravos, marfim, panos, armas de fogo e pólvora. Décadas mais tarde, as ilhas Comoros e Madagascar foram responsáveis pela expansão de confrarias islâmicas no território de Angoche. Portanto, pode-se afirmar que a viagem empreendida por Mussa Quanto tinha três propósitos direcionados ao interior do continente: estabelecer relações com os grupos étnicos, conhecer e dominar as principais rotas comerciais e expandir o islamismo. Mas, de alguma maneira, esses objetivos estavam também relacionados a sua política externa com outros centros islamizados do Índico. Na medida em que fazia uso dessas estratégias, Mussa Quanto transformaria o sultanato de Angoche no centro político, econômico e religioso mais importante IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 O Sultanato de Angoche 21 do norte de Moçambique, tornando-se uma referência no continente para as organizações políticas localizadas no oceano Índico. O desenvolvimento da resistência O segundo eixo da pesquisa pretende analisar o desenvolvimento da organização da resistência no norte de Moçambique. Como hipótese, considero haver dois momentos diferentes com relação à atuação e à relação dos diferentes grupos étnicos dessa região com o governo português. O primeiro momento abrange os anos entre 1842 e 1889. A partir da narrativa do conflito entre Mussa Quanto e João Bonifácio, em 1861, algumas reflexões podem ser feitas a respeito da política do sultanato de Angoche e da sua relação com outras sociedades do interior do continente africano, bem como da participação portuguesa nesta chamada primeira “conquista” de Angoche. Nesse momento, não parecia haver uma política portuguesa inteiramente direcionada para a dominação e ocupação de Angoche. Em situações de disputa entre os diferentes grupos africanos e o sultanato de Angoche, a atuação das autoridades portuguesa tinha, muitas vezes, o caráter de colaboração, com o fornecimento, sobretudo, de armas e homens; em outras vezes de mediação, promovendo, até mesmo, acordos de paz. Neste caso da primeira “conquista” de Angoche, como é mencionada nos documentos históricos, houve um conflito interno às sociedades africanas (senhor do prazo João Bonifácio e o sultanato de Angoche), na qual as autoridades portuguesas participaram como colaboradoras, ajudando com homens e armas. Mesmo assim, ressalte-se que foi uma pequena colaboração. Segundo João de Azevedo Coutinho, militar português que escreveu o livro “As duas conquistas de Angoche”, o governo português enviou 18 praças do batalhão n° 2 de caçadores da África Oriental. Ao mesmo tempo em que Coutinho informa alguns dados que permitem perceber qual foi o nível de participação do governo português nesta disputa, o mesmo impõe um discurso de que essa primeira “conquista” de Angoche foi um grande feito português que contou com o apoio de João Bonifácio. Ressalte-se o uso da palavra “conquista” para tratar de um fato que, na realidade, foi a ocupação da ilha de Ango- IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 22 Regiane de Mattos che e não de todo o território que fazia parte do sultanato. Significa dizer que as autoridades portuguesas em Moçambique aproveitaram a derrota de Mussa Quanto e o recuo da elite política de Angoche para ocupar a ilha que era o centro político do sultanato. Vale mencionar que a historiografia subescreve esta idéia de que foi realmente uma primeira conquista de Angoche promovida com o grande empenho do governo português em Moçambique. Contrariamente a esta análise historiográfica, pode-se levantar como hipótese que existiram duas fases na história da resistência do sultanato de Angoche no período entre 1842 e 1910. A primeira fase iniciou-se com a proibição do tráfico de escravos em 1842 e a configuração da resistência por parte de Angoche ao não aceitar esta imposição de Portugal e continuar e ainda expandir o comércio de escravos. O momento da primeira “conquista” de Angoche enquadra-se na primeira fase, na qual Portugal não possuía condições militares, e pode-se dizer que não despendia esforços próprios para conquistar, dominar ou ocupar Angoche. Nessa primeira fase, as autoridades portuguesas em Moçambique aproveitavam as disputas entre as sociedades africanas e o sultanato de Angoche, ora apoiando uma das partes envolvidas, ora promovendo acordos. Uma estratégia utilizada pelo governo português em Moçambique nessa época era estabelecer relações políticas com as chefias africanas, nomeando-as à cargos administrativos ou militares, como por exemplo, o de capitão-mor, mas das suas próprias terras, e pagandolhes um salário por ocupar o cargo. Ou ainda, manter esse tipo de relação com pretendentes em caso de disputas na sucessão do poder político. Na verdade, para o governo português, a partir daquele momento, ele teria o direito de usufruir as terras que passariam a fazer parte de Portugal. Por outro lado, as chefias africanas poderiam interpretar essa nomeação ao cargo como uma espécie de título de distinção e o salário como um tributo pago pelo governo português em troca da livre circulação e do comércio nessas terras. O governo português poderia enviar também um representante em missão oficial às sociedades do interior oferecendo aos régulos presentes como tecidos e aguardente. Depois alguns régulos assinavam um “Termo de Vassalagem”, uma espécie de termo de compromisso, no qual se tornavam fiéis ao governo português, permitiriam a passa- IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 O Sultanato de Angoche 23 gem de representantes do governo por suas terras, se comprometiam a não fazer guerra com outros grupos aliados e a ajudar no caso de guerra do lado dos portugueses, enviando soldados. No entanto, em várias fontes escritas por militares e representantes do governo português aparece a reclamação da falta de cumprimento do termo pelos “chefes aliados”, sobretudo no caso de envio de ajuda militar. E isto é freqüentemente visto como falta de palavra das chefias africanas. Mas, é preciso questionar se a assinatura deste termo de vassalagem era entendida da mesma maneira para as duas partes, isto é, se para os chefes africanos não era apenas o símbolo do início de uma relação política entre iguais, não significando a submissão e a obrigatoriedade de cumprimento de todos os termos. Então, a primeira fase que se inicia em 1842 e que segue até 1890, é marcada por um tipo de relação em que o governo português não conseguiu impor a submissão aos povos do norte de Moçambique, nem ao sultanato de Angoche. Por volta de 1890, houve uma mudança de atitude portuguesa, que passou a ser mais ofensiva, com uma política direcionada para a ocupação de Angoche. Para entender essa mudança, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Com a morte de Mussa Quanto, em 1877, iniciou-se um novo processo de sucessão no sultanato de Angoche. Dois se destacaram na disputa: Ussene Ibrahimo, sobrinho de Mussa Quanto, e Suleimane-BinRajá, apoiado pelos portugueses. Ussene Ibrahimo saiu-se vencedor. Mas, em março de 1888, ele foi morto em combate contra os imbamelas. O novo sultão a comandar Angoche foi o sobrinho-neto de Mussa Quanto de nome Mahamuieva, mais conhecido como Farelay. Ele promoveu uma coligação composta pelos xecados de Sangage, Sancul e Quitangonha e pelo grupo macua-imbamela liderado pelo chefe Guarnea e pelo namarrais, também subgrupo macua. Com essa aliança conseguiu resistir à dominação portuguesa até 1910, quando foi derrotado e deportado para a Guiné. Portugal começou a formular um projeto de conquista efetiva dos territórios africanos a partir da década de 1830 e sua implementação aconteceu ao longo da segunda metade do século XIX. Para garantir, então, a ocupação efetiva dos seus territórios em África, a partir da década de 1890, chegou-se a conclusão que somente a força militar IICT | bHL | blogue de História Lusófona | Ano VI | Fevereiro 2011 24 Regiane de Mattos daria conta da oposição dos povos locais. Para isso, promoveram-se as chamadas campanhas de “pacificação” ou de “domesticação”. Nessa época, o governo português iniciou também a implementação dos principais mecanismos coloniais, como o imposto da palhota e o trabalho compulsório em obras públicas, o que gerou um enorme descontentamento das populações cujos chefes se consideravam aliados e não submetidos pelo governo português, provocando a mudança para o lado da oposição. Além disso, as povoações próximas aos postos administrativos e militares portugueses sofriam com os ataques da resistência, sobretudo com a falta de proteção dada pelo governo português. Isso provocava também a fuga dessas populações para o lado da resistência. Todas essas questões reforçaram ainda mais a resistência à dominação portuguesa no norte de Moçambique. O resultado foi uma coligação organizada pelo sultão de Angoche, Farelay, entre diferentes grupos. 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