UNIVERSIDADE DE MARÍLIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO THIAGO CURY LUIZ Jornalismo e humor no CQC: estudo de caso do quadro Proteste já Marília/SP Abril/2010 UNIVERSIDADE DE MARÍLIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO THIAGO CURY LUIZ Jornalismo e humor no CQC: estudo de caso do quadro Proteste já Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação, na área de concentração em Mídia e Cultura, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Marília, como requisito à obtenção do título de Mestre em Comunicação, sob a orientação da Profª. Drª. Rosangela Marçolla. MARÍLIA/SP Abril/2010 Thiago Cury Luiz Jornalismo e humor no CQC: estudo de caso do quadro Proteste já BANCA EXAMINADORA ____________________________________ Orientadora: Prof. Dra. Rosangela Marçolla (Unimar-SP) _______________________________________ Examinador: Prof. Dr. Roberto Reis de Oliveira (Unimar-SP) __________________________________________ Examinador: Prof. Dr. Walter Teixeira Lima Júnior (Cásper Líbero-SP) Marília, 09 de abril de 2010. Aos meus pais, fonte da vida, e à Giovanna, minha namorada, fonte do amor, que mesmo distantes, foram tão próximos. Agradeço a meus professores, em especial a Antonio Manoel dos Santos Silva, o mais sábio dos homens que já conheci. A Roberto Reis de Oliveira, por me apresentar as tão desejadas novas possibilidades. À Rosangela Marçolla, orientadora em mais um trabalho marcante. E à Lúcia Marques de Miranda Moreira, por fugir do pragmatismo e abraçar o pensamento. Aos amigos de antes, de sempre, a gratidão pelo afago. À família, por desejar o melhor. Aos alunos, os primeiros, de uma experiência árdua e encantadora. E a Ele, por me arrebatar, fortalecer-me e dar sentido à razão. A eles. A ela. Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando. Falei muitas vezes como um palhaço, mas jamais duvidei da sinceridade da platéia que sorria. [Charles Spencer Chaplin, autor e diretor inglês (18891977)] RESUMO Esta pesquisa vem com o objetivo de estudar a convergência entre jornalismo e humor. Para tanto, usaremos o programa da TV Bandeirantes, o CQC (Custe o que custar), mais precisamente o quadro Proteste já, veiculado há dois anos, às segundasfeiras, como objeto de análise desta pesquisa. Em aproximadamente duas horas de transmissão, o conteúdo veiculado mescla a práxis jornalística com o estilo humorístico, e é a dinâmica de produção deste conteúdo que será estudada na presente pesquisa. Comprova-se pela época dura do regime militar, momento em que as mensagens jornalísticas encontraram respaldo no humorismo para ganhar vida, que é possível unir informação e entretenimento engajado. O Pasquim foi símbolo de uma época e representou que a aliança entre riso e informação era mais do que humor. Era jornalismo. Pautado nesta proposta, agora envolto no processo democrático, porém não sem pressões, influências, censura, o CQC apresenta a idéia de atualizar o público sem abrir mão do humor. Eis a sátira, onde o riso representa a crítica compreendida pelo público. Ou seja, o âmbito jornalístico não fica comprometido. Ao contrário. O humor presta contribuições nesse sentido. Como embasamento e sustentação teórica, utilizamos a filosofia grega e moderna que trata de política, passagens relevantes sobre jornalismo político e uma vasta bibliografia sobre humor, antes, é claro, de partir para as questões de ordem mais técnica, nos capítulos III e IV, onde o programa Custe o que custar e um estudo de caso sobre o quadro Proteste já ganharão espaço na pesquisa. Palavras-chave: Jornalismo político, humor, CQC, Proteste já ABSTRACT This study is aimed at studying the convergence of journalism and humor. To this end, the program will use the TV Bandeirantes, the CQC (Custe o que custar) more precisely the framework Proteste já, aired two years ago, on Monday, to be analyzed in this study. In about two hours of transmission, the content conveyed merges the journalistic practice with humorous style, and is the dynamic production of this content to be studied in this research. Attests to the hard time the military regime, when the messages newspaper found support for the humor to life, it is possible to combine information and entertainment engaged. O Pasquim was a symbol of time and represented the alliance between laughter and information was more than humor. It was journalism. Lined in this proposal, now wrapped in the democratic process, but not without pressures, influences, censorship, the CQC presents the idea of updating te public without giving up the mood. This is satire, where laughter is the critical understood by the receiver. That is, the journalistic field is not compromised. The contrary, humor provides provides contributions accordingly. At the basis and theoretical framework, we use Greek philosophy and modern comes to politics, the relevant passages on political journalism and a vast literature on mood before, of course, from de issues of the more technical, in the Chapters III e IV where the program Custe o que custar, and a case study on the framework Proteste já gain space on the research. Key-words: political journalism, humor, CQC, Proteste já SUMÁRIO INTRODUÇÃO ______________________________________________________10 CAPÍTULO I ________________________________________________________16 A POLÍTICA E O JORNALISMO POLÍTICO ______________________________ 16 1.1 A Política ______________________________________________________ 16 1.1.1 O conceito de política _________________________________________ 18 1.1.2 O ser político ________________________________________________ 22 1.1.3 Os governantes ______________________________________________ 24 1.2 O jornalismo político _____________________________________________ 28 1.2.1 O papel da imprensa __________________________________________ 31 1.2.2 A imprensa e os políticos_______________________________________ 34 1.2.3 A cobertura jornalística em política_______________________________ 38 CAPÍTULO II ________________________________________________________43 O HUMOR E SUAS MODALIDADES ___________________________________ 43 2.1 O humor ______________________________________________________ 43 2.2 O riso ________________________________________________________ 54 2.3 A ironia e a sátira _______________________________________________ 63 2.4 Piadas e Caricaturas _____________________________________________ 71 CAPÍTULO III _______________________________________________________75 CQC – POLÍTICA E HUMOR NA TV ____________________________________ 75 3.1 Histórico de programas jornalísticos e humorísticos na TV brasileira_______ 75 3.2 Ponto de partida ________________________________________________ 76 3.3 O CQC argentino _______________________________________________ 84 3.4 O programa brasileiro ____________________________________________ 85 3.5 Os quadros ____________________________________________________ 93 3.6 Os personagens _________________________________________________ 95 3.7 Os pontos fracos _______________________________________________ 103 3.8 Jornalismo e humor ____________________________________________ 105 3.9 Jornalismo e humor televisivos ___________________________________ 108 CAPÍTULO IV ______________________________________________________115 ESTUDO DE CASO DO QUADRO PROTESTE JÁ ________________________ 115 4.1 Introdução____________________________________________________ 115 4.2 A forma______________________________________________________ 116 4.3 Critérios de seleção de edições____________________________________ 117 4.4 As diferentes edições ___________________________________________ 118 4.4.1 A dieta da cesta básica (Saúde/economia) ________________________ 119 4.4.2 Obras noturnas no metrô (Transporte) ___________________________ 122 4.4.3 Desrespeito com as vagas para deficientes (Cidadania) ______________ 125 4.4.4 Deputado emprega funcionários (Política) ________________________ 128 4.4.5 Merenda escolar (Educação) __________________________________ 131 4.4.6 Proprietários sem casa (Habitação) _____________________________ 135 4.4.7 Crime ecológico e reciclagem (Meio Ambiente) ___________________ 137 4.4.8 Falta de água (Saneamento Básico) _____________________________ 141 4.4.9 Honestidade dos técnicos de eletrodomésticos (Prestação de serviço) __ 144 4.4.10 Marcenaria comunitária é fechada pelo Poder Público (Cultura)______ 147 4.11 Proteste já/Resolução de casos _________________________________ 151 CONSIDERAÇÕES FINAIS___________________________________________153 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ___________________________________157 ANEXOS ___________________________________________________________163 INTRODUÇÃO Falar de postura crítica e não falar de jornalismo é incentivar uma lacuna que pode ser sanada articulando as duas instâncias. Falar de jornalismo político e não tratar de política é como se o primeiro conceito não necessitasse de embasamento antecedente. Abordar política e não mencionar a filosofia é desperdiçar a coerência e a lucidez de autores transcendentais. O fio condutor de quem aborda a imprensa ácida e contestadora é enorme e tem suas introduções no período clássico, na Grécia dos filósofos. De lá partiram as denominações que hoje nos são familiares. Pela sabedoria da Antiguidade é possível situar o processo político em sua correção e em seus vícios. A idéia de algo genérico, sem limitações econômicas e culturais, é posta por Aristóteles (2006, p.20), um dos que encabeçam as teorias sobre políticas. De fato, embora devamos começar pelo que é concebido, os objetos de conhecimento o são em duas acepções: alguns o são relativamente a nós, outros na acepção absoluta do termo. Por conseguinte, é de se presumir que devamos começar pelas coisas que são conhecidas a nós. Por essa razão, quem quiser ouvir com proveito as exposições sobre o que é nobre e justo, e em geral sobre ciência política, é preciso ter sido educado nos bons hábitos. Se a política possuía um fim nobre para os gregos, parte dos filósofos modernos trata com mais ceticismo tal pensamento generoso. Carregado de intenções nem tão virtuosas, o anseio em assumir uma colocação de destaque no meio tem seu caráter premeditado, no sentido de se apossar de um bem social a partir de atitudes duvidosas. “Qualquer homem que se entrega à política aspira ao poder – seja porque o considere como instrumento a serviço da consecução de outros fins, ideais ou egoístas, seja porque deseje o poder ‘pelo poder’, para gozar do sentimento de prestígio que só o poder confere” (WEBER, 2006, p. 61). Assim como para Aristóteles, Hobbes enxergava a política como uma instância reservada aos indivíduos bondosos, pautados pelo ápice dos posicionamentos éticos. Porém, engana-se quem acha os pressupostos contidos em Leviatã superficiais e românticos em demasia. Não foge às possibilidades humanas manter-se à mercê do que não abrange o bem comum. “As ações do homem derivam de suas opiniões. É no bom governo das opiniões que consiste o bom governo das ações dos homens, tendo em vista a paz e a concórdia entre eles. Em matéria de doutrina só se deve olhar a verdade, nada se obstando à verdade em função da paz” (HOBBES, 2004, p. 135). Em meio à complexidade política, a imprensa surge como porta-voz dos fatos que se desenrolam neste âmbito. Mas como tratar com frieza, justiça e postura firme a política, a mesma que viabiliza o trabalho jornalístico por meio de concessões na mídia eletrônica e de compra de espaços publicitários em diversos veículos impressos, como nas cidades interioranas? Naturalmente, o conflito de interesses se fará presente, no sentido de privilegiar este ou aquele nome. É por intermédio dos canais jornalísticos que a sociedade se aproxima de suas extensões cidadãs. Embora haja a necessidade de atuação constante, é impensável um indivíduo totalmente engajado, ainda mais em um país das dimensões do Brasil, sem o auxílio dos meios de comunicação. Eles permitem ao público atingir acontecimentos inimagináveis sem a sua existência. Com o avanço da tecnologia, a dinâmica entre fato e publicação tornou-se ainda mais presente. Com a internet, as notícias – não só sobre política – ganham as páginas virtuais minutos após o acontecimento. É possível e acessível a um grande número de pessoas ter contato com os assuntos de interesse público e se inteirar da realidade corrente. Diante das inúmeras possibilidades de acesso e de escolha, conteúdos alternativos ao convencional surgem com o intuito de abocanhar uma fatia do público que já não mais se satisfaz com o modelo estabelecido há algum tempo. Outras estratégias são traçadas para não afastar ainda mais o público daquilo que é relevante a ele. Ainda que seja visível o desinteresse da política e do próprio jornalismo em não informar, os empresários e profissionais da imprensa sabem que o público está mais atento às saliências do poder político, e buscam se inteirar. Nessa toada, surge o CQC, programa de jornalismo e variedades permeado pelo humor, transmitido pela TV Bandeirantes, às segundas-feiras, a partir das 22h15min. Uma reprise é veiculada aos sábados. O semanal lançou mão de uma abordagem diferente, uma nova maneira de informar o público, e alterou o modelo de fazer jornalismo. Ao fugir do padrão estético, que não é necessariamente ético, o CQC levou até a política o humor. Dessa forma, tira da política e propicia ao público a crítica, os questionamentos populares. Assim como o jornalismo, o riso também possui o seu papel social. Não deve ser externado por um mero capricho corporal, e sim acompanhar uma demanda maior. Se ambos têm uma função pública, é pertinente caminharem juntos. Para compreender o riso, é preciso colocá-lo em meio natural, que é a sociedade; é preciso, sobretudo, determinar sua função útil, que é uma função social. Essa será – convém dizer desde já – a idéia diretiva de todas as novas investigações. O riso deve corresponder a certas exigências da vida em comum. O riso deve ter uma significação social (BERGSON, 2007, p.6). Tendo o humor como foco nas abordagens jornalísticas, ao provocar o riso diante de temática tão importante como a política, a comicidade neste meio busca conscientizar a sociedade de modo irreverente e direto. Sem meias palavras, a risada esboça no cidadão o seu contentamento com a situação embaraçosa em que se encontra o político. No método convencional de produzir informações, o representante, muitas vezes imoral com a expectativa social, é preservado. No humor voltado para a política, o objetivo é o inverso. [...] Cumpre reconhecer, para mérito da humanidade, que ideal social e ideal moral não diferem essencialmente. Podemos, portanto, admitir que, em regra geral, são exatamente os defeitos alheios que nos fazem rir – desde que acrescentemos, é verdade, que esses defeitos nos fazem rir em razão da sua insociabilidade, e não da sua imoralidade (BERGSON, 2007, p. 104). Diante disso, de dois anos de transmissões semanais, o programa pesquisado neste trabalho confirmou seu espaço no ramo do jornalismo e do humor. Recuperou uma tradição esquecida com o desenvolvimento da democracia: a crítica política humorada, que atualmente se restringe às charges, caricaturas e a uma ou outra crônica, nos veículos impressos e em alguns televisivos. Contradição à parte, esta pesquisa se justifica pela unicidade do objeto em meio às produções televisivas. Na tentativa de propor algumas demonstrações sobre esse viés do jornalismo, contrapondo o modos facendi da atividade jornalística convencional, adepta do estilo mais formal e ‘politicamente correto’, este trabalho se faz necessário. Por si só, a proposta já seria viável. Levando-se em conta que um programa humorístico tende a se ‘relacionar mais e melhor’ com o público, já que oferece momentos descontraídos e por isso com maior possibilidade de ser aceito, vemos que é relevante estudar tal conteúdo, até pelo bom nível de aceitação que possui diante do público1. 1 É relevante mencionar que não foi objetivo da pesquisa desenvolver um estudo de recepção. Isto é, cientificamente a aceitação do programa não foi comprovada neste estudo. Todavia, o aumento no índice de audiência da emissora no horário, a conquista de prêmios e a permanência na grade da TV Bandeirantes corroboram a idéia de que o CQC teve êxito perante o público. O humor pode ser uma vertente aderida pelo jornalismo. Por isso, é importante o estudo de caso do programa, em especial do quadro Proteste Já, para confirmar, também, a validade da informação acompanhada da ironia, da sátira, do sarcasmo. É relevante salientar que “o estudo de caso é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira a permitir o seu amplo e detalhado conhecimento” (GIL, 1996, p.58). Além disso, o estudo de caso é uma “pesquisa que se concentra no estudo de um caso particular, considerado representativo de um conjunto de casos análogos, por ele significativamente representativo. [...] de modo a ser apto a fundamentar uma generalização para situações análogas, autorizando inferências (SEVERINO, 2007, p.121). Sendo uma linha alternativa do jornalismo costumeiro, a comunicação também vê a inauguração de uma nova fase em seu campo. Embasado nisso, o trabalho se justifica por esclarecer e compor detalhes sobre o programa e seus desdobramentos. Se há a inserção desse tipo de programação na grade televisiva, é porque existe, também, a carência do público pelo conteúdo referido. Tem-se, então, uma lacuna a ser preenchida, tanto na produção, quanto na recepção de informações. A análise do lado produtor é importante para a compreensão do processo de criação e divulgação da proposta em questão. Outro fator que incita a realização deste trabalho é a televisão. Por se tratar do veículo de comunicação mais usufruído do planeta, um programa disponibilizado nesta mídia possui repercussão abrangente e, conseqüentemente, sua relevância adquire níveis ainda mais acentuados. Expõe Arlindo Machado (2001, p.30) que a mais baixa audiência da televisão é uma audiência de várias centenas de milhares de telespectadores, e, portanto, muito superior à mais massiva audiência de qualquer outro meio, equivalente à performance comercial de um best seller na área da literatura. Essa é, talvez, a contribuição mais importante da televisão para a superação da incômoda equação ‘melhor repertório/menor audiência’: agora, mesmo a menor audiência é sempre a maior que um trabalho de alta qualidade poderia almejar. Esse simples fato já não justifica toda a televisão? Para tanto, o estudo se divide em quatro capítulos: o primeiro trata de política e jornalismo político, fazendo menção à Grécia e aos pensadores e profissionais do campo mais atuais; o segundo aborda as teorias e os conceitos sobre o humor, trazendo desde as menções socráticas até os pensadores mais próximos; o terceiro capítulo reserva o ponto em comum entre os caminhos percorridos anteriormente, culminando no programa CQC – Custe o que custar, da TV Bandeirantes. Para consumar os apontamentos aqui produzidos, fechamos o trabalho com um quarto capítulo, um estudo de caso sobre o mais jornalístico dos quadros do programa, o Proteste já, visando uma compreensão mais detalhada da feitura jornalística permeada pelo humor e suas modalidades. Partindo para as metas da pesquisa, o objetivo geral é estudar a dinâmica do processo de produção de conteúdo jornalístico com viés humorístico. Já os objetivos específicos são diversos, sendo que os mais relevantes compreendem a análise do programa da Rede Bandeirantes, CQC – Custe o que custar, enxergando-o no contexto da proposta geral desta pesquisa; um recorte do conteúdo e seleção do quadro Proteste já, pois se trata da seção ‘mais jornalística’ do programa inserida em uma linha-mestra de humor mais abrangente; o apontamento de diferenças e convergências entre o conteúdo jornalístico transmitido com humor e aquele emitido do modo mais tradicional, até como meio de obter um paralelo entre ambos, no sentido de situar as virtudes e os vícios da práxis e do estilo, sob uma fórmula de sucesso, a aliança de jornalismo e humor, sem perder a credibilidade do primeiro e o teor irreverente do segundo; a compreensão de como o CQC e particularmente o Proteste Já comportam-se diante da tarefa de informar e fazer rir, sempre tendo como base os elementos de que lançam mão para cumprir tal objetivo; Como materiais para a realização deste trabalho foram utilizados livros que tratem das duas propostas centrais desta pesquisa: jornalismo político e humor. A pesquisa bibliográfica e documental sobre essas duas frentes foi o primeiro material utilizado para o início da produção deste estudo. Nesta bibliografia, podem ser incluídos sites confiáveis que abordam o tema Comunicação e Entretenimento, como, por exemplo, o portal do Intercom. Já que jornalismo político e política são elementos indissociáveis, explorar as obras clássicas e os autores mais modernos da filosofia foi indispensável. Outro material de suma importância foram os programas referentes ao conteúdo analisado, ou seja, o CQC – Custe o que custar. Por intermédio desta análise fizemos apontamentos sobre as características preponderantes deste programa. Aliado às informações coletadas na bibliografia, o estudo adquiriu corpo, e a proposta em si começou a ganhar forma. De abril de 2008 a novembro de 2009, todos os programas foram gravados pelo autor que, além disso, utilizou o apoio da internet, mais precisamente do portal de vídeos youtube, para compor o acervo estudado. Uma entrevista foi realizada com Rafinha Bastos, um dos âncoras do programa e o jornalista responsável pelo Proteste. Vale frisar o material usado nesta entrevista: gravador, bloco de notas, caneta, máquina fotográfica e filmadora. Os procedimentos metodológicos foram os seguintes: pesquisa bibliográfica sugerida pela orientadora e àquelas que o orientando achou pertinente para o projeto; pesquisa em sites que tratam de entretenimento, jornalismo, comunicação e humor; reunião de diversos programas (CQC – Custe o que custar) que expressam a intenção do projeto. Indo mais a fundo, a construção de um estudo de caso do quadro Proteste já, visto por nós como o ‘mais jornalístico’ entre os demais, foi uma demanda inadiável para a concretização dos objetivos aqui traçados. Pautados por critérios específicos de temática, onze edições do Proteste já foram analisadas meticulosamente. Com o intuito de responder as perguntas “como” e “por que”, o Estudo de Caso surge como o método mais pertinente a um trabalho que preze pela análise da produção de conteúdo midiático. Difere da análise de conteúdo, pois esta se prende a um período e tem como base dados quantitativos, fatos que não serão encontrados neste estudo de caso; entrevista com um dos integrantes do programa, o jornalista Rafinha Bastos, para discutir as idéias que norteiam a produção do programa, pauta, peculiaridades do estilo e, obviamente, características marcantes do quadro que dirige, o Proteste já; cruzamento de dados pertinentes para a resolução dos objetivos, visualizando o que coincide e difere das hipóteses colocadas em um primeiro momento; composição da dissertação, utilizando conceitos e ferramentas aprendidos durante a realização das disciplinas, e definição constante do conteúdo da pesquisa por meio das orientações. CAPÍTULO I A POLÍTICA E O JORNALISMO POLÍTICO 1.1 A Política Definir política não é fácil. À primeira vista, a terminologia se confunde com a prática corriqueira, e as conceituações seriam marcadas por conteúdos depreciativos. De modo geral, hoje em dia trata-se de politicagem, onde os interesses partidários se sobrepõem aos sociais e de cidadania e o fim público perde em consistência, abrangência e eficácia. Àqueles que pleiteiam uma ciência mais condizente com a teoria, que cultivam o caráter vanguardista da política, resta objetivar o aprimoramento desse instrumental. É um exemplo clássico em que a teoria tem muito a ensinar à prática. Quando se transpõe o exemplo para o contexto brasileiro, a idéia concebida de política é ainda mais radical e negativa. Não porque os estudiosos ou os mais leigos não têm a dimensão exata da definição. Muito se deve ao modo como essa arte é desenvolvida por quem, supostamente, representa-nos em uma esfera pública. De maneira muito duvidosa e questionável, os políticos articulam propostas que fogem às necessidades sociais para contemplarem ambições particulares. É em meio a este quadro que a atuação do CQC2, o objeto de estudo desta pesquisa, vem a preencher uma lacuna, no sentido de não haver nada semelhante a essa produção. Quando o político depara-se com um elemento do programa – e é comum o parlamentar esbarrar em silêncio, respostas indevidas ou inserção humorística – é como se o Custe o que custar, em uma de suas diversas facetas, estivesse ali para lembrar o congressista, o prefeito, governador, vereador, do seu papel enquanto detentor momentâneo do “poder”. Outros telejornais fazem o mesmo, mas não com a incisão e a habilidade satírica e irônica do CQC. 2 Sigla que significa Custe o que custar. Inspirado no modelo argentino de mesmo nome, Caiga Quien Caiga (Caia quem cair), o CQC reúne em seu conteúdo entretenimento e informação pautados pelo humor. Transmitido pela TV Bandeirantes (Band) às segundas-feiras, a partir das 22h15min, a versão brasileira nasceu com sete integrantes, que permanecem até hoje: Marcelo Tas (apresentador), Rafinha Bastos (comentarista e repórter), Marco Luque (comentarista), Rafael Cortez (profissional de campo), Oscar Filho (profissional de campo), Danilo Gentili (profissional de campo) e Felipe Andreoli (profissional de campo). Em quase dois anos de existência, além dos já conhecidos membros, passou pelo programa Warley Santana, com o quadro Em foco, e atualmente tem em seu corpo de “repórtereshumoristas” Mônica Iozzi, que conquistou a vaga após vencer um concurso que reuniu 28 mil postulantes. Em 17 de março de 2008 a atração veio ao ar e hoje é considerada pela Band e pelo público como um dos principais programas da emissora. O que se espera de tal âmbito é que os anseios sociais se vejam representados e concluídos. Não basta que o cidadão, a cada dois anos, dirija-se a uma urna e confirme seu voto em candidato A ou B. Isso se constitui porque o tal ser político não é ou está individualizado. Sua força emana das relações indissociáveis que se conceberam à medida que a civilização conquistou suas evoluções. Desempenhando deveres, naturalmente há a necessidade de se obter direitos, e a partir daí a sociedade se articula para a conquista dos mesmos. “Na prática (...) não é possível considerar o indivíduo como separado da sociedade na qual ele ou ela vive. O indivíduo não funciona exceto no contexto da sociedade; a sociedade não existe externamente aos indivíduos que nela estão” (FISCHER, 1984, p. 61). É possível que o pouco empenho em votar, mencionado anteriormente, seja fruto da falta de resultados que as eleições produzem. Em parte, por culpa de partidários que se apoderam da máquina pública para se vislumbrar outros fins, que não sejam gerais, generosos. Em parte, por responsabilidade da própria sociedade que, mesmo observando o cenário pouco plausível e sendo a política repleta de passagens conturbadas, não atua de maneira convincente na oportunidade mais clara que tem de produzir mudanças. Fecha-se, portanto, um círculo vicioso. Qual seria, então, a função que não é desempenhada? A política, por ser uma instituição de teor público, tem como pressuposto elementar atender as necessidades públicas e organizar a sociedade para que esta viva sob um regime harmonioso. Fazer política é propor soluções para as problemáticas sociais mais intrigantes. É executar medidas com fins municipais, estaduais e nacionais. É legislar, apresentar leis que orientem a convivência dos cidadãos e que beneficiem os indivíduos pautados pela correção. É pôr as leis em prática, punindo, nada que exagere ou que seja brando em demasia, aqueles que atentaram contra o bem-estar das pessoas de bom caráter. Quando nada disso acontece, o Custe o que custar introduz questionamentos. A nossa intenção com este estudo é, mais do que produzir uma análise sobre a inserção do humor em meio ao campo político, entender como o CQC se porta diante da política, dos políticos, aderindo às ferramentas do humorismo. Sem funcionar, a sociedade sofre dolo. A função do jornalismo é prezar pela sociedade. Ao fiscalizar, investigar e propor soluções, pressiona a política a pôr em andamento aquilo que não caminha. E por que não é posto em funcionamento? É uma mistura de três fatores: incompetência, sensação de impunidade e despolitização. É óbvio que os três possuem relações de causa e conseqüência entre si. Mas se há incompetentes que adquirem a honra de representar uma nação, mesmo não apresentando habilidade e aptidão, é porque uma população apolítica não está capacitada a eleger, de forma coerente, quem a representará. É desconfortável notar que existem, no âmbito das decisões abrangentes, indivíduos que falam em nome de uma população numerosa e de todas as suas conveniências inaptos a fortalecer um princípio básico: fazer política. Sócrates – Não é, pois, inevitável que também o indivíduo seja sábio como o Estado e pela mesma razão? Glauco – Por certo. S – E que, se o indivíduo é corajoso, também o Estado o seja pela mesma razão e da mesma maneira e ainda que em cada virtude o indivíduo e o Estado procedam de modo concorde? G – Sim, é de todo necessário admiti-lo. S – Assim, Glauco, não receio dizer que um homem é justo da mesma maneira pela qual o Estado é justo. G – Também essa é uma conseqüência necessária (PLATÃO, 2007, p. 155). Intermediando política e indivíduo, vem a idéia do CQC de fazer humor e jornalismo. Em poder dessa ‘química’, como qualquer outro trabalho jornalístico, a abordagem sobre assuntos de natureza política serve para mostrar ao público o que é feito pelo e para o povo no âmbito democrático. Não deixa de ser uma forma de educar. Mas não é a única e, tampouco, a melhor. 1.1.1 O conceito de política Para sintetizar o que se propôs anteriormente, mostra-se relevante conceituar a ciência política. Até para que a sua prática se paute por facilidades, definir o termo e a sua proveniência podem encurtar distâncias entre a teoria e o campo ativo, além de abrigar com eficiência para que veio e para quem é destinada a política. Mais do que delimitar funções, o conceito de política nos é útil para que se tenha a dimensão exata da importância que tal ciência desempenha no meio social e todas as suas fragmentações no cenário público. A palavra política procede do termo pólis, que, na Grécia Antiga, significava as Cidades-Estado com intenso poderio político e militar, representando em ambos os casos exemplos de direcionamentos. Atenas e Esparta despontavam, cada uma com suas peculiaridades, como locais que cultivavam modelos importantes a qualquer nação que preze pela correção e pela honra. Do ponto de vista político, embora Atenas não presenciasse mulheres, estrangeiros e escravos tendo poder de voto nas decisões políticas, já apresentava avanços, como as discussões na Ágora sobre temáticas pertinentes, em sua organização social. Esparta incentivava a idéia de potência bélicomilitar. Para Aristóteles (2007, p.56), toda cidade é um tipo de associação, e toda associação é estabelecida tendo em vista algum bem (pois os homens sempre agem visando a algo que consideram ser um bem); por conseguinte, a sociedade política [pólis], a mais alta dentre todas as associações, a que abarca todas as outras, tem em vista a maior vantagem possível, o bem mais alto dentre todos. E complementa a idéia, afirmando que quando várias aldeias se unem em uma única e completa comunidade, a qual possui todos os meios para bastar-se a si mesma, surge a Cidade (pólis), formada originariamente para atender às necessidades da vida e, na seqüência, para o fim de buscar viver bem. Assim, se em sua forma inicial essa associação era conforme a natureza, do mesmo modo o é a Cidade, pois esta é o fim daquela primeira associação, e a natureza de uma coisa é justamente o seu fim: dizemos que um ser é perfeito [que atingiu o seu completo desenvolvimento] quando ele [seja um homem, um cavalo ou uma família] está conforme a natureza, e que a coisa que, superando todas as outras, aproxima-se mais do desenvolvimento completo do que lhe é próprio, deve ser considerada a melhor. A causa final e o fim de cada coisa é o seu mais perfeito estado, e bastar-se a si mesma é o fim de cada ser e sua excelência (2007, p. 56). Esta ciência, por ser de extrema relevância para o bom convívio dos cidadãos, ganhou nas eras que se sucederam abordagens e estudos, partindo dos filósofos gregos. Ainda que atualizações sejam necessárias, em vista do intervalo de tempo que separa a Antigüidade da época Contemporânea, é possível e necessário buscar embasamento nas definições deixadas há mais de dois mil anos. Sendo assim, ao se trazer o legado constituído por teóricos que dedicaram boa parte de suas vidas aos estudos sobre política, cultiva-se uma aproximação maior ao verdadeiro e puro significado da ciência em relação à sociedade. Nessa vertente, o livro Ciência Política (MAGALHÃES, 2003, p.15) propõe que esta indica tratar-se, portanto, de uma atividade humana relacionada ao exercício da vida pública e das funções decisórias que dizem respeito ao interesse coletivo, eis que a cidade era o centro da vida coletiva. Nesse sentido, era a aposta ao oikos, o reduto do lar e da família, onde se desenrolava a atividade produtiva/reprodutiva do cidadão. O cidadão é o personagem central da política. Seja definindo seus representantes, seja esperando destas medidas que lhe trarão benefícios. Ao abordar um congressista no parlamento, Danilo Gentili ou Rafinha Bastos3 recordam o eleito do papel a ser desempenhado frente aos anseios sociais. Quando ambos, ou qualquer outro repórter do CQC, ironiza ou satiriza um desleixo político, chama a atenção popular para o seu direito e dever. Direito de receber serviços de qualidade, de ver formulados leis e projetos que lhe darão respaldo, e dever de vigiar o representante, punindo-o ou exigindo o mesmo caso não se tenha o retorno vislumbrado. Outro que se embasou nos autores gregos foi o italiano Norberto Bobbio. Na tentativa de construir uma definição para política, propôs que algo taxativo se perdeu na diversidade que o termo adquiriu no período atual. Pelas nuances por que passou ao longo desses dois milênios e dos mais variados locais, política pode até ter perdido aquilo que a define. Porém, não abriu mão da importância que tem em sua relação com o poder público e os cidadãos que se beneficiam do mesmo. Compondo a visão do autor (2000, p.160), na era moderna, o termo perdeu o seu significado original, tendo sido paulatinamente substituído por outras expressões tais como ‘ciência do Estado’, ‘doutrina do Estado’, ‘ciência política’, ‘filosofia política’ etc., para enfim ser habitualmente empregado para indicar a atividade ou o conjunto de atividades que têm de algum modo, como termo de referência, a polis, isto é, o Estado. Mas o indivíduo moderno também é outro. O Renascimento Cultural e o Iluminismo romperam as barreiras em que o homem estava ancorado. Ao sair do estado bruto em que se encontrava, o ser humano conheceu novas experiências e acabou por perder suas referências mais antigas. Essa maleabilidade do cidadão pode ter se refletido na política, onde a sua atuação configura-se de maneira direta e participativa. Portanto, outra afirmação que acompanha o pensamento socrático. É agora lugar-comum dizer que a época moderna fez surgir uma forma nova e decisiva de individualismo, no centro da qual erigiu-se uma nova concepção do sujeito individual e sua identidade. Isso não significa que nos tempos pré-modernos as pessoas não eram indivíduos mas que a individualidade era tanto “vivida” quanto “conceptualizada” de forma diferente. As transformações associadas à modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e na estrutura (HALL, 2006, pp. 24-25). 3 Ambos são provenientes da Comédia Stand-up, embora Bastos seja jornalista e Gentili, publicitário. São os dois repórteres mais envolvidos com o viés político, seja inquirindo políticos, no quadro Controle de qualidade, seja dando visibilidades a carências sociais (Proteste já). Prosseguindo no raciocínio desse autor, a idéia que se tem de política pode ser traduzida nas interações existentes entre representantes e representados. Ou seja, desde que o contato entre ambos seja proveitoso e fomentado de modo virtuoso, pode-se conceber a ciência em seu estado bruto, apenas desviando o seu enfoque para o campo prático, sem se restringir à teoria. Na tradução de algo mais próximo da realidade pública, abrindo a possibilidade de se compreender melhor a dimensão da instância política, tem-se que o poder político pertence à categoria do poder de um homem sobre outro homem (não do poder do homem sobre a natureza). Esta relação de poder é expressa de mil maneiras, nas quais se reconhecem expressões típicas da linguagem política: como relação entre governantes e governados, entre soberanos e súditos, entre Estados e cidadãos, entre comando e obediência etc. (BOBBIO, 2000, p. 161). A finalidade da política vem para complementar o conceito da terminologia. A função perante o público se apresenta como uma conseqüência implícita do conceito em si. Se não fosse a existência de um fim, o conceito puro e simples seria desprezível. Por isso, “em todas as ciências e artes o fim é um bem, e o bem no mais alto grau deve ser o sumo-bem das ciências mais altas entre todas, e esta é a ciência política; em outras palavras, o bem mais alto é o interesse comum” (ARISTÓTELES, 2007, p. 132). Ironizar a política para o cidadão resgatá-la. O pressuposto que norteia o CQC e o quadro Proteste já4 serve de alerta para ambos, representantes e representados, e pode ser usado como combustível para o elemento central quando a discussão envolve política. O interesse comum a que se refere Aristóteles é a instância precursora e definidora da harmonia. Por menor que seja uma cidade, é importante haver uma esfera que convirja para si a organização dos cidadãos no desfrute de serviços públicos. Alinhando-se à prestação de serviços, o programa e especialmente o quadro destacam o elemento levantado pela filosofia. Tão imprescindível quanto definir política é delimitar a importância de seu papel frente aos dilemas públicos. Nesse sentido, não basta a proposição única e incompleta de um conceito que, por si só, não apresenta consistência e autenticidade. Mais do que algumas linhas de definição, caminhemos, pois, ao ser político. Este, sim, irá tratar de 4 Trata-se do conteúdo mais jornalístico do programa. O quadro parte de denúncias feitas por cidadãos acerca de diversas temáticas, variedade esta que será abordada no capítulo IV. Rafinha Bastos, apresentador e jornalista responsável pela seção, vai até o local, apura o fato, busca variedade de fontes e confronta a crítica social com os esclarecimentos do poder público, sem abdicar do humor como pano de fundo à vertente jornalística. legalizar e oficializar na prática sua função, já que se o beneficiário da política não for contemplado, é preferível esquecer qualquer tipo de discussão, ainda que de forma preliminar, para se instituir premissas no campo referido. 1.1.2 O ser político Falar em política e não se referir ao povo é irrelevante. Sem ele, sem a sua participação, o processo torna-se vago e descartável. A sua relevância para o andamento político é tamanha que na maioria dos países adere-se à democracia, ou seja, aquele que remete à população a autonomia de decidir os rumos de seu país, de opinar sobre a escolha de seus representantes. Um dos méritos do Proteste já é se enquadrar na essência jornalística. Se a função primordial do jornalismo é emitir a verdade dos fatos e privilegiar o interesse público (BUCCI, 2006), ouvi-lo é o desenrolar da produção, parte da naturalidade do processo de composição de material jornalístico. Temos, então, a fundamentação do trabalho do profissional do jornalismo político. Em déficit está a consciência do indivíduo sobre sua força diante das decisões. Por isso, aquele que vota é denominado de ser político. Mas não só pelo voto. Na verdade, quanto menos a atividade deste ser se limitar ao voto, mais ele e a política de seu país tendem a ganhar. O pleito eleitoral seria a fase mais burocrática entre todas as funções do cidadão. Antes dele, há uma série de papéis que, assim como a política, o eleitor necessita desenvolver. Por meio do voto, o indivíduo pode propor as respostas necessárias, no sentido de demonstrar ao meio social, desde que sua opção se converta em maioria – embora esta não seja uma condição sine qua non para haver representatividade –, seu nível de insatisfação ou aprovação. Mas até que não chegue o processo eleitoral, é fundamental que cada ser político tenha a noção exata do que é feito em seu benefício ou prejuízo, em se tratando de interesse público, e não individual, e na medida do possível faça suas reivindicações. Mais do que isso, é importante ao cidadão político ser politizado. Ao invés, todo o processo de percepção do certo ou errado passará à margem do veredicto público, o que é totalmente legal e válido. Aliás, é a própria maneira de ser da política desde a Grécia, mesmo que lá o sufrágio decisório não coubesse a todos. Ainda assim, foi o primeiro avanço significativo na busca de um uso melhor da política e de resultados mais abrangentes. Não há como negar o caráter desbravador grego na instituição da democracia. A participação do personagem central é decisiva – ou seria este o peso real. Fica evidente, pois, que a Cidade é uma criação da natureza, e que o homem, por natureza, é um animal político [isto é, destinado a viver em sociedade], e que o homem que, por sua natureza e não por mero acidente, não tivesse sua existência na cidade, seria um ser vil, superior ou inferior ao homem. Tal indivíduo, segundo Homero, é ‘um ser sem lar, sem família, sem leis’, pois tem sede de guerra e, como não é freado por nada, assemelha-se a uma ave de rapina (ARISTÓTELES, 2007, p. 56). Na mesma obra, Aristóteles (2007, p.118) retoma a idéia do ser político afirmando a necessidade de se ter uma nação virtuosa e de o caráter dos representantes ser inspirado e direcionado por esse ‘padrão’ de indivíduo. Sendo assim, no âmbito humano subjetivo, a sociedade estaria integralmente representada na política. Se a cidade não pode ser inteiramente composta de homens bons, e se cada cidadão deve desempenhar bem a tarefa relativa à sua função, o que só é possível pela excelência de cada um, a virtude do bom cidadão e do homem bom não coincidem. Todos devem ter a virtude do bom cidadão – assim, e só assim, a cidade pode ser perfeita; mas não terão todos a virtude do homem bom, visto que reconhecemos que na boa Cidade os cidadãos não serão necessariamente homens bons. Quando o CQC ou o Proteste já aborda a irregularidade com irreverência, faz a tentativa de levar ao telespectador o assunto imprescindível aliado ao instrumento do humor. Torna-se mais viável o engajamento do cidadão às pertinências do seu papel. De fato, o programa não tem a incumbência de moralizar, mas contribuir para o aperfeiçoamento de serviços mal-prestados e a mobilização da sociedade com fiscalização e denúncia é pressuposto de todas as esferas públicas, como a comunicação. Como aborda o autor, ponderando a precisão de se nivelar a questão da bondade humana, é improvável que em uma cidade – ainda mais se ela possuir um número de habitantes elevado – encontremos apenas pessoas virtuosas. É tão irreal quanto ilusório. Mais do que seres humanos, a sociedade é composta por indivíduos e, como tais, possuem suas particularidades. Cada qual com seu modo de ser e objetivos, não se pode abrir mão dessas variáveis. O que não significa dizer que a liberação a qualquer tipo de ato está instituída. 1.1.3 Os governantes Assim como o ser político, o governante possui o seu papel no interior do processo político. Se o povo vai às urnas é para eleger alguém, aquele que o representará durante um mandato de quatro ou oito anos. E esse cidadão – que além de cidadão passa a ser governante – terá a responsabilidade de desenvolver seu trabalho em prol dos anseios sociais, vontades estas que permitiram ao candidato tomar a posição de estadista ou legislador de forma momentânea. O cargo de governante é entremeado de privilégios e boa remuneração. Isso acarreta na perda do intuito básico do posto, que é o bem público. Postulantes flertam com o poder pela finalidade remuneratória oferecida. Ocorre o que denomina-se aqui de comercialização ou privatização do poder público. O interesse por produzir melhoras à cidade, ao estado ou ao país é secundário. O que norteia as iniciativas políticas é a condição econômica permitida pela máquina pública. Há duas formas de exercer política. Pode-se viver ‘para’ a política ou pode-se viver ‘da’ política. Nada há de exclusivo nessa dualidade. Até ao contrário, geralmente se faz uma e outra coisa simultaneamente, tanto na idealidade quanto na prática. Quem vive ‘para’ a política a transforma, no sentido mais profundo do termo, em ‘objetivo de sua vida’, seja porque encontra forma de gozo na simples posse do poder, seja porque o exercício dessa atividade lhe permite achar equilíbrio interno e exprimir valor pessoal, colocando-se a serviço de uma ‘causa’ que dá significação à sua vida [...]. Portanto, assenta-se nossa distinção num aspecto extremamente importante da condição do homem político, que é o aspecto econômico. Do que vê na política uma permanente fonte de rendas, diremos que ‘vive da política’ e diremos, no caso contrário que vive ‘para a política’ (WEBER, 2006, p. 68). Bobbio (2000, p.204), apropriando-se de uma das ideias colocadas por Weber, apresenta como um erro crasso visar, em primeiro lugar, o benefício econômico. São posturas incompatíveis: ambicionar a recompensa financeira do cargo público e comprometer-se às realizações sociais enquanto representante maior do governo constituído. [...] Pecado mortal de qualquer homem político, e da vaidade, ou seja, da necessidade de colocar em primeiro lugar, em máxima evidência, a própria pessoa. Quando lhe falta uma causa assim concreta, o político corre o risco de continuamente confundir a prestigiosa aparência do poder com o poder real, e quando lhe falta o senso de responsabilidade, arrisca-se a gozar do poder simplesmente por amor à potência, sem lhe dar um objetivo por conteúdo. É um exercício corriqueiro dos integrantes do Custe o que custar abordar políticos que não seguem à risca o ofício da política. Deputados, senadores, vereadores, prefeitos, governadores e até o presidente Lula já passaram pelo “crivo” do CQC. Aos políticos seguem perguntas capciosas, irônicas e contestadoras, que os colocam em situações indesejadas. Em seu estudo sobre o chiste, Sigmund Freud (1996, p.104) analisa o potencial deste instrumento contra “autoridades”. A prevenção das invectivas ou das réplicas insultuosas por circunstâncias é um caso tão comum que os chistes tendenciosos são especialmente utilizados para possibilitar a agressividade ou a crítica contra pessoas em posições elevadas, que reivindicam o exercício da autoridade. O chiste assim representa uma rebelião contra tal autoridade, uma liberação de sua pressão. O fascínio das caricaturas baseia-se no mesmo fator: rimos delas, mesmo se malsucedidas, simplesmente porque consideramos um mérito a rebelião contra a autoridade. É relevante salientar, em meio às questões políticas e econômicas, que honra e virtude são valores constantemente relatados por Aristóteles (2006, p.21), no sentido de se tratar de prerrogativas indispensáveis aos governantes. Acima de propostas coerentes e uma boa aparência propagandística, tanto na Antiguidade como atualmente, é primordial lançar mão de características que dêem ao político a condição moral de assumir tal posto: o de representante de uma sociedade organizada. Um exame dos tipos principais de vida mostra que as pessoas de maior refinamento e de índole mais ativa identificam a felicidade com a honra, pois a honra é, pode-se dizer, o objetivo da vida política. Todavia, isso parece ser demasiadamente superficial para ser o que buscamos, visto que a honra depende mais de quem a concede que de quem a recebe, ao passo que nos parece que o bem é algo próprio de um homem e que dificilmente lhe poderia ser tirado. E prossegue em sua abordagem, colocando a virtude como uma iniciativa louvável dentro de um regime político. É dito que sem dúvida alguma, a virtude que devemos analisar é a virtude humana, pois o bem e a felicidade que estamos buscando são o bem e a felicidade humanos. Entendemos por virtude humana não a do corpo, mas a da alma; e também dizemos que a felicidade é uma atividade de alma. E se é assim, obviamente o político deve ter algum conhecimento do que diz respeito à alma, assim como deve conhecer o corpo todo aquele que se propõe a estudar e curar os olhos, e com maior razão ainda porque a política é mais louvada e melhor que a medicina [...]. O político, então, deve estudar a alma tendo em vista os objetivos que mencionamos, e apenas quanto baste para o entendimento das questões que estamos discutindo (2006, p.37). O próprio Aristóteles (2006, p.41) vai mais adiante com relação ao papel do governante no âmbito social. Além de se responsabilizar pela elaboração e desenvolvimento de projetos e leis, os políticos têm a incumbência de incutir em suas populações os valores mais nobres do ser humano. Considerando que, se assumiram altos cargos no poder público, é porque são adeptos de todas as premissas necessárias para se postar como um político e um indivíduo acima de qualquer questionamento. O que estamos dizendo é confirmado pelo que acontece nas CidadesEstados: os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem. Esse é o propósito de todos os legisladores, e quem não consegue alcançar tal meta, falha no desempenho de sua missão, e é exatamente nesse ponto que reside a diferença entre a boa e a má constituição (2006, p. 41). É evidente que realizar uma transposição direta entre o conceito que se tinha de políticos, na Antiguidade, e a definição que se tem hoje pode parecer demasiado romantismo. No entanto, Aristóteles (2006, pp.100-101) não orienta algo que esteja fora do alcance humano ou o que deve ser uma exceção à regra. O indivíduo deveria prezar pelos valores que o transformariam em um ser supremo, apto a governar de fato seus súditos. De maneira que os valores morais abriram espaço para outros. O homem que se arroga mais do que possui, sem qualquer objetivo ulterior, constitui uma espécie desprezível [do contrário não se comprazeria na falsidade], mas parece ser mais fútil do que mau. Entre aqueles que assim agem visando a algum objetivo, o que visa à boa reputação ou à honra não merece maiores censuras (embora seja jactancioso); no entanto, o que o faz por dinheiro, ou pelas coisas que trazem dinheiro, é um caráter mais desprezível. Com efeito, não é a potencialidade que faz o jactancioso, mas o propósito, pois é um homem jactancioso em virtude dessa disposição de caráter e por ser como é; do mesmo modo, algumas pessoas são mentirosas porque se deleitam com a mentira em si mesma, e outras porque desejam reputação ou ganhos. Os que se vangloriam para ser bem conceituados arrogam-se qualidades que lhes possam valer louvores ou elogios, ao passo que os que visam às vantagens se atribuem qualidades valiosas para os outros, mas cuja inexistência não é facilmente descoberta, como as de um vidente, de um sábio ou de um médico. Eis porque muitos se arrogam conhecer essas espécies de coisas e se vangloriam disso, pois nela se encontram as características que mencionamos acima. Mantendo-se alinhado aos preceitos nobres de legislação, a justiça fornece coerência à dinâmica envolvendo representante e representado. Além de ser justo, o governante que cultivar para si esta proposta ganha a possibilidade de servir de modelo à sociedade. Desenvolvendo tal artifício, fica facultado ao cidadão seguir seu representante como um exemplo de indivíduo. E seria natural que o processo se tornasse rotineiro dentro da cidade. Para homens iguais, o honroso e o justo consistem em que recebam aquilo que lhes pertence, pois isso é a justiça e a igualdade. Mas a concessão desigual aos iguais, e de diferenças aos semelhantes, é contrária à natureza, e nada que seja contrário à natureza pode ser bom. Portanto, se existe alguém superior em suas virtudes morais e com o poder de realizar as melhores ações, devemos segui-lo e obedecê-lo, mas ele precisa ter a capacidade tanto para a ação quanto para a prática da virtude (ARISTÓTELES, 2007, p. 239). Para provar que a política compreende, de modo essencial, a égide abstrata do ser humano, aquele que governa necessita possuir ciência sobre os dilemas mais intrigantes e implícitos. Conhecer as nuances mais ocultas pode simbolizar a abrangência plena que o governante mantém acerca de seus governados. Sendo assim, a probabilidade de exercer um bom mandato aumenta, permitindo-lhe adquirir intenso respeito e admiração diante dos súditos. Ele [o estadista] deve levar em conta a parte da alma e suas funções, e acima de tudo o que é melhor para os cidadãos, e qual o objetivo a ser perseguido; ele também deveria lembrar-se da diversidade que há nas vidas humanas e suas atividades. Com efeito, os homens devem ser capazes de envolver-se com negócios e ir à guerra, mas o ócio e a paz são melhores; eles devem sem dúvida fazer o que é necessário e útil, mas fazer o que é honroso é melhor (ARISTÓTELES, 2007, p. 258). Além dos valores abstratos, como já mencionados, é preciso possuir qualidades técnico-práticas, ainda mais quando há a referência à política. Não basta que o postulante a um cargo público seja honesto, por exemplo, mas não saiba conduzir as questões mais complexas dentro de um sistema social. É fundamental que o governante tenha tato para levar adiante interesses públicos e trazer benefícios aos cidadãos que compõem a sociedade que governa. Visão política e bom manuseio do instrumento governamental são particularidades que devem ser inerentes à sua atuação. São três as qualificações requeridas dos cidadãos que vão exercer as magistraturas mais importantes: primeiro de tudo, lealdade à constituição estabelecida; em segundo lugar, a maior capacidade administrativa; e em terceiro, virtude e justiça apropriada a cada forma de governo, pois se o que é justo não é o mesmo em todos os governos, a qualidade de justiça também deve diferir (ARISTÓTELES, 2007, p. 199). Somando-se à qualidade prática e ao conhecimento sobre o interior de sua sociedade, surge como pressuposto irrevogável a verdade. É ela que acompanhará o estadista em sua jornada como membro máximo de um povo. Sem lançar mão da grandeza absoluta torna-se inviável exercer o ato político. A ciência em questão implica confiança mútua, acarretando na obrigação de haver a crença do político nos cidadãos, e a recíproca se mostra como procedente, na medida em que sem verdade e confiança o votante não pode conceder o “poder” a alguém incapaz de atingir conceitos como esses. Da mesma forma, o estadista que notar fraqueza, seja da sua parte ou de seus seguidores, abriria possibilidade para se desligar do cargo, pois perderia o laço que o une à posição política e à população: a credibilidade. Em diálogo com Adimanto, Sócrates coloca com pertinência a utilização da verdade como determinação máxima do conjunto político. É preciso, contudo, que a verdade se sobreponha a tudo. Porque, se não tínhamos razão há pouco, e na realidade assim deve ser, quando afirmávamos que a mentira é inútil para os deuses e útil para os homens somente como remédio, é claro que tal expediente é preciso deixá-lo aos médicos, enquanto os profanos não deveriam a ele recorrer (PLATÃO, 2007, p. 91). Passível de análises e interpretações, o legado grego foi deixado para que a posteridade se baseasse nas orientações propostas. Evidentemente, atualização e adaptações seriam inevitáveis, pois o desenvolvimento do processo civilizatório encarregou-se de introduzir e enaltecer particularidades existentes no período préCristo. Todavia, no que diz respeito à essência humana, se houve uma alteração do ponto de vista negativo, não cabe ao desenvolvimento humano absorver o desvio. Os filósofos antigos propiciaram às gerações seguintes a constituição de cidadãos e governantes orientados por preceitos louváveis. E quando esses preceitos não ganham destaque na sociedade e na política, o Custe o que custar inquire com o humor socrático. 1.2 O jornalismo político Principiemos esta seção com aquele que inaugurou as pesquisas em comunicação no Brasil. O conceito de Luiz Beltrão (2006, p.31), acerca do jornalismo, é pertinente para introduzir a análise do jornalismo político deste estudo. O jornalismo tem três finalidades essenciais: 1º) informar, orientar e entreter o leitor. Este visa: informar-se do novo, do imprevisto, do original e, através dele ou por causa dele, recordar-se do passado, do já sabido, do quase perdido nos arcanos da memória; 2º) receber uma mensagem de advertência ou orientação, isto é, orientar-se para o futuro, para a ação; 3º) entreter-se, descansar das preocupações no humor, na ficção, na poesia, nas belas letras, na arte. Daí a extensão do campo jornalístico a todos os quadrantes da atividade humana a todos os seres, às coisas, à natureza, a todos os domínios da inteligência e da sensibilidade. Clóvis Rossi, jornalista do veículo Folha de S. Paulo, oferece uma definição mais sintética de imprensa. Afirma Rossi (1994, p.7) que “jornalismo, independentemente de qualquer definição acadêmica, é uma fascinante batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos: leitores, telespectadores ou ouvintes. Uma batalha geralmente sutil e que usa uma arma de aparência extremamente inofensiva: a palavra, acrescida, no caso da televisão, de imagens”. Pelo fato de se tratar do campo mais relevante entre poder público e sociedade, a política merece tratamento especial. Não é à toa que as mídias impressas e eletrônicas destinam a maior parte de seus conteúdos ao noticiário político. Traduzindo em uma relação mais direta, a relevância da política é tamanha que os jornalistas focam seus trabalhos na redação sobre aquela. No Brasil não aconteceu diferente. Em 1808, ano em que a Família Real portuguesa se mudou para a colônia, fugindo de uma possível represália da França bonapartista em resposta ao descumprimento do Bloqueio Continental imposto contra a nação inglesa, iniciaram as primeiras atividades impressas no país. A Imprensa Régia, exclusivamente controlada pela Coroa, marcou o surgimento de divulgação de notícias. Ligada direta e integralmente à política, a investida abarcaria tão somente a proposta de relatar assuntos pertinentes ao reinado de D. João VI. A partir do início eminentemente político da imprensa, mesmo que as generalidades tenham adquirido espaços em jornais, revistas, emissoras de rádio e TV e sites de internet, era praticamente inevitável que outra temática ocupasse o posto de vertente mais abordada pela mídia. Só para citar um exemplo, o primeiro caderno dos principais jornais do país é destinado às questões políticas, seja do Brasil ou do mundo. Os outros veículos acompanharam o pioneirismo do jornal. O grande problema é a postura tomada por determinados veículos, em especial os maiores, aqueles que apresentam níveis de audiência consideráveis. Confunde-se abordagem política com interesses e ideologias partidárias. Não é incomum se deparar com meios de comunicação que, por aderir ao pensamento do partido X, posiciona-se indiscriminadamente em confronto com o partido Y. Quem tem a perder com esse tipo de jornalismo é a própria imprensa e especialmente a sociedade. Quando o assunto é partido político, o CQC não poupa nada. Seja governador, prefeito, senador ou deputado de qualquer cidade ou estado, o programa empenha-se no papel de questionar. Se há uma pessoa que é mais preservada pelo semanal é o presidente Lula, talvez até pela dificuldade que se tem em abordá-lo. Em diversos conteúdos, mesmo a distância e em situações formais, o estadista brasileiro demonstra muita afeição ao programa. Mas isso não impede o Custe o que custar de formular piadas e críticas envolvendo o presidente. O jornalismo está encarregado de transmitir a verdade dos fatos. Isso se traduz em interesse público e relevância da informação à sociedade (BUCCI, 2006). Não existe pertinência na propagação de conteúdos jornalísticos desinteressante à sociedade. Se dessa forma se procede, é porque ambições escusas são cultivadas em um meio que, se não deveria privilegiar a objetividade, pois se trata de algo muito distante das possibilidades reais, teria como linha-mestra um tratamento menos tendencioso. Para se ter uma idéia do que representa o interesse público – abordaremos mais adiante a relação do jornalismo com a sociedade –, tanto o público pode se deixar levar pela empolgação ou veemência do jornalista, como o contrário é perfeitamente possível. Eis uma relação à flor da pele, envolvendo, em doses salientes, razão e impulso. É o que explica Barbosa Lima Sobrinho (1997, p.41). Todas as seduções e todos os motivos excitam a imprensa à linguagem violenta. Só excepcionalmente e por forças de circunstâncias especiais precisará de moderação como elemento de vitória. Escrita para o povo, escraviza-se às suas paixões e cede a essa impetuosidade invectivamente que faz delícias dos instintos por que a massa se orienta. ‘É mais vantajoso – diz Delafosse – depravar a multidão que lhe ensinar deveres. Diante disso, se o profissional do jornalismo não leva adiante essas idéias e se absolve de colocá-las em prática, não se cumpre a única premissa que é pertinente à área: informar, entreter e opinar. Um veículo pode ser contrário a um governo ou partido? Sim. E este meio comunicativo pode abertamente expressar sua oposição? Sem dúvida, por meio dos editoriais. O entrave se situa no desrespeito a essas orientações preliminares. O posicionamento político do veículo vai além, atingindo as reportagens. É evidente que a Rede Bandeirantes5 tem seus direcionamentos políticos. A emissora é constituída por pessoas, e é natural que esses indivíduos se alinhem às idéias que mais lhes agradam. Mas isso não interfere no trabalho que o CQC faz no Congresso, nos eventos que compreendem a participação de políticos ou nas investidas de Rafinha Bastos, no Proteste já, a ponto de afirmarmos que, caso o mesmo conteúdo fosse transmitido pela Rede Globo, não teria a liberdade de abordagem que possui na Band, como o próprio Bastos mencionou em entrevista ao autor. Ainda que a abordagem política mantenha o jornalismo muito próximo de suas características mais evidentes, seduzindo a imprensa no sentido de participar mais ativamente das discussões, não se configura em uma articulação correta, à medida que a finalidade primeira do jornalismo é informar a verdade factual, que além de ser relevante é de interesse público. Acontece que, ao aderir a esta ou aquela ideologia, a comunicação jornalística exime-se do seu fim público em vista do seu privilégio, exclusivamente. As pesquisas em comunicação, embasadas em vertentes criteriosas, devem ter como intuito apontar as deficiências notórias correntes na imprensa e propor modelos que divergem de tais propostas. Por outro lado, é possível que a vontade social também produza mudanças nos direcionamentos políticos equivocados que partem do jornalismo. Se a prática do jornalismo político tem muito a ensinar à teoria, o campo científico tem mais ainda a agregar à imprensa especializada em política. E a sociedade não pode ser colocada à margem dessa discussão. Seu papel é imprescindível na política e na concessão pública que se encarrega de abordá-la. 1.2.1 O papel da imprensa Uma das funções fundamentais do jornalismo é dar visibilidade às questões sociais mais pertinentes. Muitas vezes é através dele que a população fica a par de situações de que desconhece. Por exemplo, os direitos previstos em Constituição ou os tópicos que resguardam sua autonomia enquanto consumidor. Abrangências desse tipo são feitas pela mídia e o destinatário fica ciente, ainda que seja seu dever se interessar, por vias diretas, sobre assuntos dessa natureza. “Todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e 5 Veículo de comunicação com sede em São Paulo, presidido pela família Saad, cuja data de fundação é o ano de 1937. A TV iniciou as transmissões no Edifício Radiantes, bairro Morumbi, em 1967. de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras” (NEVES, 1977, p. 19). Sendo mais precisos, citamos alguns pontos específicos da Constituição Federal sobre o direito à informação. É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (Título II, Capítulo I, Artigo 5° e Inciso IX); é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional (Título II, Capítulo I, Artigo 5° e Inciso XIV); A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição; (Título VIII, Capítulo V, Artigo 220); Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV (Título VIII, Capítulo V, Artigo 220, Parágrafo 1°); É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística (Título VIII, Capítulo V, Artigo 220, Parágrafo 2°); Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. (Título VIII, Capítulo V, Artigo 220, Parágrafo 5°) (Extraído do site www.planalto.gov.br. Acesso em 26/09/2009, às 14h30min). Fora isso, é por meio do jornalismo que descobrimos mazelas sociais que assombram os pontos mais distantes do Brasil. Com isso, ficamos mais atentos quando as mesmas problemáticas surgem nas proximidades. Um grande evento, mesmo transcorrendo do outro lado do mundo, pode ser transmitido e acompanhado por milhões de pessoas simultaneamente. Tanto as grandes festas esportivas quanto os maiores impasses políticos, étnicos, religiosos e culturais chegam às residências de todo o planeta por intermédio da atuação jornalística. Em política, o jornalismo tem abertura para cultivar o caráter investigativo, no sentido de atuar como um fiscal do que ocorre na esfera pública e abrir ao destinatário aquilo que é de seu interesse. A imprensa foi, e ainda é, igualmente, um dos instrumentos principais da oposição e da resistência política em qualquer época. Em todos os regimes políticos, a imprensa foi uma arma na difusão das visões opostas àquelas do poder instituído. Da mesma forma que a imprensa é uma instituição historicamente vinculada à vigilância pública pelo poder em exercício, para a manutenção e a reprodução da ordem instituída, ela é um instrumento do exercício da democracia. É por meio da imprensa – seja ela burguesa ou popular alternativa – que as queixas e as reivindicações populares se expressam, ainda que muitas vezes sem a consistência e a permanência das visões dominantes (MOTTA, 2002, p.14). O próprio Motta (2002, pp.14-15), em seguida, complementa a idéia com mais profundidade. De acordo com a sua análise, a imprensa é identificada como um baluarte da vigilância democrática e da resistência aos abusos dos governos autoritários. Ela é tomada, por delegação implícita da sociedade, como instrumento de defesa popular contra as injustiças, ilegalidades e ilegitimidades. A imprensa seria o instrumento de desconfiança e de cobertura pública, para impedir que a política seja apenas uma ação em defesa de interesses particulares, contrários aos interesses gerais da sociedade, principalmente nas complexas sociedades contemporâneas, onde as pessoas comuns se sentem distantes e impotentes para exercer os seus direitos de cidadãos. Se ela de fato exerce democraticamente esse quarto poder, representando todos os grupos sociais, é uma questão que só o exame de cada circunstância pode responder. É condição imprescindível ao jornalismo não se envolver no partidarismo ideológico da política para não pôr em risco a credibilidade do veículo e do conteúdo divulgado. No Brasil, é muito comum a política ser usada como instrumento para beneficiar o político, e não a sociedade, como já vimos anteriormente. Em função disso, a atividade em questão presta serviço à população a partir do momento que não se fecha para o fato e emite luz sobre um prejuízo sofrido pela sociedade. Por não se aproximar de qualquer sigla partidária, o CQC não perde a credibilidade, configurando-se, hoje, no carro-chefe da programação da Band. Ao notar que o semanal não toma partido, ou seja, possui espaço amplo para produzir suas abordagens, o telespectador não se vê obrigado a se limitar a uma visão. Para sintetizar as idéias colocadas por Luiz Gonzaga Motta (2002), em Informação e poder, Nelson Traquina, estudioso da área comunicacional, prevê que o contexto democrático permite ao jornalismo três fatores necessários ao pleno desempenho do mesmo. Dentre eles, Traquina aponta para o fato de que a imprensa serve como um protetor para o cidadão. Eis a colocação do autor (2006, p.138). Nelson Traquina, autor de diversos estudos importantes sobre o jornalismo contemporâneo, lembra que a teoria democrática prevê três grandes papéis para o jornalismo: 1) o jornalismo deve dar aos cidadãos as informações que são úteis, que são necessárias para que eles possam cumprir os seus papéis de pessoas interessadas na vida social e na ‘governação’ do país; 2) o jornalismo deve ser o espaço do contraditório e da pluralidade de opiniões, ser uma espécie de mercado de idéias; 3) o jornalismo tem o papel de ser o watchdog (cão de guarda) da sociedade, proteger os cidadãos contra os abusos do poder. Pelo fato de o jornalismo político ganhar atenção especial por parte dos veículos e contar com direcionamentos restritos a ele, tem-se a impressão de que adquire mais importância do que qualquer outra área. De fato, a política tem desdobramentos e influências na sociedade que dão ao jornalismo especializado nesta área possibilidades a abrangências maiores e diferentes. Porém, cada temática com sua abrangência tem o seu compromisso com a verdade dos fatos. O jornalismo que trata sobre turismo não deve ser menos ético do que o político, simplesmente por abordar um recorte aparentemente menos sério. Não que a informação política seja em si mais relevante que qualquer outra. O dever de bem informar vale tanto para o tempo e a temperatura como para a programação de cinema a taxa de inflação ou a conduta de um partido ou parlamentar em uma votação no Parlamento. Mas existem circunstâncias que colocam o jornalismo político, e sobretudo aquele que envolve julgamentos subjetivos, sujeito a maior rigor ético e exigência de credibilidade (CRUVINEL, 2006, p. 219). Da mesma forma, o viés humorístico do jornalismo do CQC não permite que ele se distancie dos preceitos éticos, necessários em qualquer atividade profissional. O humor abre espaço para um discurso mais informal, não significando menos apuração e critério na composição do material. Enquanto um quadro que insere jornalismo, o Proteste já é imprensa e o humorismo serve para sofisticar as suas investidas. Se não for assim, ou se faz humor, ou se faz jornalismo. Política ganha uma assiduidade maior nos veículos impressos e eletrônicos porque alterações neste âmbito vêm acompanhadas de conseqüências positivas ou negativas. Os resultados, como não poderia ser de outra forma, atingem diretamente a população, o fim máximo da atuação jornalística. Por isso é que se nesta profissão não atuarem indivíduos virtuosos, o papel por eles produzidos pode causar efeitos opostos em relação à produção jornalística mais plausível. 1.2.2 A imprensa e os políticos Tomando como exemplo o Brasil, o centro do jornalismo especializado em política situa-se onde as principais decisões deste campo surgem. É em Brasília, pólo político-administrativo da nação, que ‘as coisas acontecem’. Sendo assim, é de se esperar que todo o aparato jornalístico destinado à abordagem dessa importante instância também seja disponibilizado em maior quantidade técnica e profissional em território brasiliense. Ainda que as medidas políticas tenham como objetivo outras cidades e que nesses municípios há uma vigorosa vida política, o ‘coração’ está no ponto-médio do país. Elaborado estrategicamente para dar mais tranqüilidade aos integrantes dos três poderes, o Distrito Federal foi transferido do Rio de Janeiro, cidade que apresentava uma proximidade maior entre população e poder político, para o Planalto Central, ponto geográfico distante de todas as grandes cidades do Brasil, que são caracterizadas pela incidência de manifestações públicas. Além de Brasília se colocar longe das metrópoles brasileiras, as sedes do Judiciário, do Legislativo e do Executivo aproveitam o espaço em demasia e se isolam das cidades-satélites e da sociedade. Naturalmente, tratando-se de jornalismo político, o profissional da imprensa terá convívio quase que diário com o parlamentar e com os assuntos relativos aos desdobramentos políticos do país. É quando a atuação da imprensa pode misturar-se ao quebra-cabeça político e colocar em xeque o trabalho do profissional. Se a credibilidade é fomentada pelas abordagens de interesse público e a relevância que os fatos apresentam, qualquer movimentação que fuja a isso é prejudicial ao jornalismo e, acima de tudo, à sociedade. Será prestado um desserviço à população caso haja aproximação entre jornalistas e político, a ponto de se prejudicar o conteúdo em detrimento de uma amizade inconveniente. Políticos profissionais e jornalistas interagem promiscuamente, atuando uns para os outros: mais que legislar, deputados ‘atuam para’ a imprensa numa performance midiática pós-moderna, enquanto os jornalistas profissionais cultivam interesseiras intimidades com os seus políticos preferidos para obter as informações de bastidores, rezando todos juntos na ‘gramática da comunicação’ (MOTTA, 2002, p. 20). No Congresso Nacional, o CQC não alimenta qualquer tipo de intimidade. Ao não ter ‘rabo preso’, a margem de questionamento avança e não há ressalvas. Ressalvas faz a sociedade brasileira em relação à política. A partir do descontentamento, o jornalista pode até possuir algum tipo de relação com o político, desde que isso não interfira no seu trabalho, que é o de perguntar ao representante o que ele normalmente não quer, aquilo que o público ambiciona. O Custe o que custar não abre mão de tal prerrogativa. Outra autora que trata da questão da proximidade entre ocupante de cargo público e repórter é Tereza Cruvinel (2006, p.221). Se não forem estipuladas limitações para que o convívio não se transforme em troca de favores, a validade da informação cairá drasticamente. O jornalismo não deve servir a políticos e jornalistas. A finalidade jornalística é um direito social. E é a ela, e somente a ela, que a atividade de imprensa precisa servir. Outro aspecto muito discutido é a proximidade dos jornalistas políticos com o poder, o que sempre leva a questionamentos sobre a influência eventualmente danosa desta proximidade sobre a isenção e a independência. Os jornalistas de Brasília são particularmente cobrados sobre essa proximidade, que deve ser vista como uma necessidade profissional, ainda que carregada de riscos, não como uma escolha ou decorrente das vaidades ou do deslumbramento com o poder. Com alguma freqüência ouvimos, mesmo de colegas de outras praças, afirmações do tipo ‘vocês, que convivem tão bem com eles’. Eles, os que ocupam o poder, os congressistas, os governos que se sucedem... Ao mesmo tempo, Motta (2002, p.215) entende que, apesar de ser uma atitude equivocada passível de produzir resultados desprezíveis, é uma faceta do indivíduo/jornalista eminente. O autor assegura que perceber o jornalista estritamente como um ‘profissional’ obediente a procedimentos predeterminados (nos termos em que, não por acaso, as empresas pretendem fazer) é um modo de reduzir sua importância e sua possibilidade transformadora. É um modo de domesticar o ímpeto da crítica e justificar teoricamente aquilo que Lucínio Rios Neto certa vez classificou de jornalismo amestrado, praticado por aqueles que ‘estiveram ontem com o ministro, mas preferiram uísque nas pedras às perguntas incômodas. Em outras palavras, estiveram com o ministro, mas não houve penetração’. Francisco Rüdiger (2003, p.35), em Tendências do Jornalismo, faz uma abordagem histórica da imprensa sul-riograndense. No segundo capítulo, Rüdiger nos dá mostras de como a relação entre políticos e jornalistas se iniciou, no último quartel do século XIX. Segundo sua descrição, os partidos encarregaram-se de montar suas próprias empresas e lançar periódicos pelos quais assumiam inteira responsabilidade. Nesse contexto, surgiram as redações, os jornais começaram a ter uma organização editorial e se consolidava a racionalidade em seu funcionamento. Os políticos foram progressivamente tomando o lugar dos tipógrafos na função social de jornalistas. A compreensão de todo esse processo gira em torno, pois, da manutenção e fortalecimento de elos entre político e jornalista, possivelmente um resquício do princípio atrelado de ambas as atividades. A arte do jornalismo que definirá o teor da matéria, se ela está tendenciosa ou não em prol do político, é a entrevista, sem, é claro, esquecer do enfoque que será dado a esse material. É por meio desta, seja publicada na íntegra ou transcritos alguns trechos entremeando a reportagem6 ou a notícia, que as opiniões do político ficarão claras. A partir daí, cabe ao leitor ou telespectador cruzar as informações que já possuía com as disponibilizadas, para concluir se há a verdade factual ali, se o político não diz a verdade, mas o jornalista procura se distanciar daquele posicionamento, ou se ambos não privilegiam o compromisso com a verdade e com o público, e mentem. Sobre a entrevista, Rudolfo Lago (2006, p.159-160) emite algumas orientações. Não que seja fácil. O maior problema é que nem todo mundo quer ser decifrado. Menos ainda em política, atividade em que discurso e palavra servem de instrumento para a construção de imagens no jogo ilusório das aparências. No jornalismo político, o papel do entrevistador é tornar claro, expor, abrir ao público idéias, informações, fatos e intenções que, muitas vezes, em agente político prefere omitir. E ele deve fazer isso sem se deixar devorar por essas ilusões e aparências. Realmente, o teor ácido do jornalismo irreverente é a entrevista. Como não há o off nas matérias do CQC, o conteúdo se concentra na interação entre inquiridor e entrevistado. Quando a pergunta é comprometedora e, obviamente, o político se nega a dar seu depoimento, a pergunta por si só contém informações relevantes. A recusa também configura-se em uma resposta polpuda, na medida em que não se pronunciar é quase afirmar o que o questionamento sugere. No Custe o que custar, o tête-à-tête é a alma do jornalismo bem humorado. Como em Cidadão Kane7, os papéis de político e jornalista costumam se misturar. No Brasil, as distâncias mínimas são mínimas, seguindo um pressuposto histórico mundial e nacional. Parece inevitável que as duas instituições sejam indissolúveis? Sim. E a idéia não consiste em colocá-las nas extremidades de uma relação. Desde que essa proximidade não desperte as iniciativas escusas, o jornalismo, a política e a sociedade só tem a ganhar com esse contato. 6 Reportagem ou matéria jornalística, de acordo com Nilson Lage (2008, p.18), tem características notáveis. “Estabeleceu-se que a informação jornalística deveria reproduzir os dados obtidos com as fontes; que os testemunhos de um fato deveriam ser confrontados uns com os outros para que se obtivesse a versão mais próxima possível da realidade [...]; que a relação com as fontes deveria basear-se apenas na troca de informações; e que seria necessário, nos casos controversos, ouvir porta-vozes dos diferentes interesses em jogo”. Outro que apresenta abordagem sobre a reportagem é Pierre Ganz (s.d., p.32). Para ele, as fontes compreendem todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente no fato. “São quer as testemunhasprotagonistas de um acontecimento [...], quer os responsáveis por explicar esses acontecimentos [...]”, e prossegue, destacando elementos que estão presentes nas investidas jornalísticas do programa. “Algumas informações são muito difíceis de exprimir em imagem. É o caso de muitos dados econômicos. A informática permite hoje produzir imagens utilizáveis em vídeo onde aparecem quadros e gráficos” (GANZ, s.d., p.47). 7 Produzido nos Estados Unidos, em 1941, Citizen Kane teve como diretor e ator principal Orson Wells, que representou um jornalista que confundiu a sua atuação com o desejo de se tornar político. Perdeu o controle sobre a derrocada provocada pela confusão entre as duas instâncias. 1.2.3 A cobertura jornalística em política A abordagem do jornalismo político, como vimos, não pode ultrapassar alguns limites. O termômetro preponderante da atuação do jornalista é a sociedade. Isso leva este profissional a trabalhar em torno dos anseios dos cidadãos. É pensando neles e no que é de interesse deles que o jornalismo deve iluminar a verdade dos fatos. Esse simples jogo entre os participantes do diálogo midiático definirá a credibilidade de um veículo. Quando nos referimos à política, essa dinâmica é ainda mais delicada, e o repórter precisa ir além. Na história da construção de uma matéria sobre política, o nome de Pompeu de Sousa não é pouco lembrado. Por ter enaltecido o lead, como forma de orientar e objetivar os conteúdos jornalísticos. Como se sabe, a técnica, introduzida nos Estados Unidos, foi seguida em massa pelas redações brasileiras. Até hoje é usual tanto em notícias quanto em reportagens. O leitor também se acostumou à fórmula, embora muitos – leitores ou redatores – prefiram fugir do modelo ‘estéril’. Pompeu de Sousa levou para o Diário Carioca o conceito de que toda matéria jornalística deveria começar com um lead, ou seja, com uma síntese das informações básicas que um fato deve conter: quem, o que, quando, onde, por quê e como. Promovia-se ali a divisão criteriosa do conteúdo jornalístico entre ‘informação’ e ‘opinião’. A partir daquele momento, os repórteres – por mais partidários que fossem – deveriam tratar os fatos com objetividade e equilíbrio. A opinião ficaria restrita ao espaço das colunas e dos editoriais. A mudança conduzida por Pompeu de Sousa e Odílio Costa Filho teria forte influência sobre o jornalismo político (PEREIRA, 2006, p. 90). O lead trouxe ao jornalismo – em especial ao especializado em política – o critério da objetividade. Foi ele que, durante muito tempo, pautou exclusivamente a abordagem da imprensa. Até hoje, é seguido por uma parcela de repórteres e mencionado na academia como a prerrogativa elementar do jornalismo de qualidade. Embora existam controvérsias, [...] nada mais natural que, em um determinado momento histórico, a noção de objetividade viesse a interessar à imprensa, cuja função é informar o que se passa na comunidade, no país e no mundo. Mas essa incorporação não se fez do dia para a noite. Começou a partir de meados do século XIX com a lenta e persistente adoção e discussão dos princípios de imparcialidade e equilíbrio como componentes determinantes da ética profissional de captação e transmissão de notícias (AMARAL, 1996, p.25). Porém, não basta ao profissional da imprensa ir aos locais específicos para cobrir fatos políticos relevantes. Do mesmo modo, um bom texto é insuficiente para desenvolver um bom trabalho. Fugindo da objetividade, o repórter não pode ser um mero reprodutor daquilo que vê. Os acontecimentos que lhe saltam aos olhos, se acompanhados de repertório, conhecimento e informação, ganharão em compreensão. Isso irá se refletir em um material mais apreciável pelo destinatário. Para tratar corretamente o fato, o repórter não deve se contentar apenas com o factual. Precisa entender também o contexto em que se deu o fato. Para isso, tem de acumular aquilo que, no jargão profissional, chama-se de background information – ou “informação de fundo”. Trata-se de um nível de informação que não entra necessariamente na notícia, mas permite ao profissional entender o alcance e a limitação do fato que é notícia e, em alguns casos, captar seus possíveis desdobramentos (MARTINS, 2005, p.61). Encorpa a idéia, assegurando que, “por tudo isso, o repórter político não pode limitar a cobertura aos fatos que acontecem entre as quatro paredes do Congresso. Deve estar permanentemente atento às flutuações do estado de espírito da sociedade” (MARTINS, 2005, p.53). Definitivamente, o CQC não é adepto da objetividade jornalística. Ao despertar o lúdico com trocadilhos, sátiras e ironias, não se concebe uma fala focada no fato. Segundo, os repórteres não utilizam o lead. A estrutura textual adere à liberdade que o humor proporciona. Sendo assim, as piadas lidam com a resposta do entrevistado ou a falta dela, e, no âmbito político, a tendência da réplica do jornalista raramente é a favor do questionado. Têm certas coisas que eu já vou para a entrevista querendo perguntar. Às vezes o entrevistado não te dá referências para você fazer comédia. Eu vou preparado, com algumas coisas que eu quero dizer, que eu quero abordar. Algumas vezes eu vou com uma pergunta irônica pré-estabelecida. Durante as eleições, eu sabia que muito não seria respondido, então a piada teria que estar na minha pergunta. Muitos Protestes funcionaram mais pela resposta do entrevistado do que pela pergunta do entrevistador. Em outros, a pergunta fica mais forte que a resposta. Eu sou um personagem muito importante nesse processo, mas nada mais forte do que a resposta. Por isso, eu tenho que estar sempre ligado para a réplica. (Rafinha Bastos, em entrevista ao autor, em 07/10/2008) Quem vai mais adiante na desnecessidade de se manter menos imparcial é o próprio Franklin Martins (2005, p.76), em Jornalismo político. Ter opinião não significa tomar partido para um dos lados e não reproduzir a verdade do acontecimento. Ter opinião é uma oportunidade a mais de compreender melhor a análise, interpretar suas variantes e finalizar a notícia, o artigo ou a reportagem. Desde que seja uma maneira de esclarecer o público, é válido. O jornalista tem de formar opinião sobre os assuntos que cobre. [...] É indispensável para filtrar, organizar e hierarquizar as informações recolhidas. Repórter que não tem opinião não consegue sequer apurar direito a matéria. Ter opinião não significa ser parcial ou escrever sem objetividade. Significa formar o próprio juízo sobre os fatos, entender sua importância [ou falta de importância] para a sociedade, avaliar seu impacto sobre a vida das pessoas, perceber os interesses que estão em jogo e esforçar-se para informar sobre a essência dos conflitos, e não sobre sua aparência. O tratamento com maior profundidade não é bem-vindo somente para dar à matéria mais consistência, assegurar maior qualidade à informação. É útil também para averiguar a postura do jornalista, até que ponto a sua ética prevalece ao lançar mão da subjetividade. Sendo menos objetivo, a tendência é que trafegue por caminhos mais férteis, e essa fertilidade pode lhe dar mais condições de abordagem, mas não garante a ele o direito de ir de encontro à clareza do fato. Análise e interpretação são, portanto, uma das faces do ato de informar, sujeitas inclusive a maior rigor ético porque envolvem a subjetividade do jornalista em sua avaliação e na seleção dos aspectos a destacar. (...) Uma boa análise política deve ser antes de tudo compreensível. Além disso, deve buscar a verdade dos fatos como base da avaliação e identificar o mais objetivamente possível as variáveis envolvidas. Fora destes parâmetros de honestidade profissional, qualquer fato político pode se prestar às mais diversas interpretações. Poderá resvalar do jornalismo para o doutrinalismo (CRUVINEL, 2006, p. 228). Na mesma obra, Rudolfo Lago (2006, p.143) trata, igualmente, da indissolubilidade entre fato jornalístico de natureza política – assim como o de qualquer outra temática – e análise e posicionamento. Definitivamente pode ser um método de não extrair detalhes e desdobramentos relevantes do conteúdo e, além disso, evitar que o leitor, telespectador ou ouvinte note que tenha faltado informação e que a matéria esteja incompleta. Com a objetividade, o jornalista corre o sério risco de não garimpar o que seria possível e fundamental. E o destinatário fica sem a informação mais abrangente. Em primeiro lugar, uma coisa precisa ficar clara para o jornalista que queira enveredar pelos mistérios da cobertura política. Não existe, hoje, apuração de fato jornalístico na política que não implique também análise política deste mesmo fato. Provavelmente, o mesmo ocorre em outros setores de cobertura. Mas certamente, não com a mesma intensidade. Em política, apuração e análise são elementos indissociáveis. Em economia, por exemplo, a simples notícia sobre se a cotação do dólar subiu ou baixou já é notícia. Caberá a análise das circunstâncias sobre essa baixa ou elevação, mas não raro ela fica para os analistas do mercado financeiro. Tanto que, diariamente, jornais ou noticiários de rádio ou TV limitam-se apenas a informar a cotação da moeda, e mais nada. O mundo econômico é mais preciso, mais exato, e formado por números e padrões que se repetem. Em política, tudo é mais impreciso. Dito de forma velada, nas entrelinhas. Os fatos dependem mais dos seus atores, dos seus estilos, das suas convicções e das suas linhas de pensamento. A mais B nem sempre será igual a C. Depende de quem seja A. Depende de quem seja B. Cada temática tem seus limites de análise. Umas permitem mais e outras, menos. Em política, uma análise pode trazer benefícios à matéria, retirar de seu redator informações interessantes e premiar o público com menções surpreendentes e verdadeiras. No entanto, o trato mais cuidadoso pode direcionar a opinião do público, na medida em que naquele conteúdo constam o conflito de dados e um posicionamento do repórter ou do veículo possivelmente pautado por algum interesse externo ao jornalismo. A necessidade de se possuir profundo conhecimento do que aborda – e, em política, especialização e criticidade só vêm a agregar – mostra-se imprescindível ao desdobramento jornalístico. Talvez mais do que qualquer outra atividade profissional, o jornalismo exige das pessoas que lidam diariamente com a coleta e a seleção de informações um tipo de conhecimento horizontal e multifacetado, que dê condições ao repórter, editor ou redator de avaliar de avaliar a qualidade e a veracidade do acontecimento, antes de decidir pela sua divulgação. Isso não impede, claro, que o profissional de comunicação se especialize em determinada área e aprofunde conhecimentos específicos. Entretanto, quando o assunto é jornalismo político a especialização requer menos um saber técnico – ao contrário, por exemplo, de jornalismo econômico – e mais um saber plural – o que envolve obrigatoriamente conhecer a história do país (SEABRA, 2006, p. 111). Como se supõe, enveredar pelo campo da política é tão instigante quanto exigente. Instigante, porque os ensinamentos deixados pelos gregos foram seguidos e adaptados para o nosso dia-a-dia e boa parte das indagações do cotidiano tem suas respostas na Antigüidade. Trata-se de um terreno pleno em fertilidade, seja ao poder público, seja aos cidadãos. Se o sistema político atual não atingiu o funcionamento intocável, deve-se ao fato de os políticos e a sociedade não terem compreendido a idéia central da instância política. O jornalismo político, por sua vez, tem a incumbência de levar as questões referentes ao campo analisado para o conhecimento da sociedade. Como mediadora, a imprensa surgiu com o objetivo de ser uma fração da voz popular nas instituições políticas. Como em um caminho de sentido duplo, o jornalismo devolve à população seus questionamentos mais latentes e gritantes. Ora se utilizando de objetividade, ora de análise e aprofundamento. Ora sendo ético, reproduzindo a verdade dos fatos, privilegiando como fim máximo o público telespectador, fazendo florescer a credibilidade, elemento de suma importância à sobrevivência do jornalismo. Ora se curvando aos interesses comerciais, os de natureza política ou empresarial. Em meio aos dilemas e aos trajetos espinhosos, o jornalismo segue uma abordagem que lhe recheia de audácia e crítica. A inserção do humor como pano de fundo veio agregar à postura formal da imprensa a diversão, a criatividade, o questionamento escancarado. O humor crítico pergunta, ironiza, intimida e obtém as traduções da política mais corrupta. Feito Charles Chaplin, o jornalismo auxiliado pelo humor instaura novos modelos. O Custe o que custar e o Proteste já são dois campos férteis para levarmos adiante a pesquisa que faz convergir jornalismo e humor. CAPÍTULO II O HUMOR E SUAS MODALIDADES 2.1 O humor Mas não é só no campo do jornalismo que o CQC e, particularmente, o quadro Proteste Já atuam. O programa lança mão de um instrumento comumente utilizado para transmitir informações com criticidade. À época de regimes pouco brandos, o jornalismo com viés humorístico é agregado ao âmbito informacional para fugir da censura e de represálias mais ácidas, como a tortura. Mesmo sem ditadura, o Custe o que custar põe em cena a fórmula e testa o retorno de uma abordagem, porém em cenário democrático. É normal localizar o humor em programações de entretenimento. Com o fim do regime militar, perdeu-se a motivação para lutar por algo maior, ainda que no Brasil existam problemas tão complexos quanto o autoritarismo de décadas anteriores. O cômico abriu mão da crítica como pano de fundo, para fazer o público rir. O CQC faz isso também, mas é norteado constantemente por inserções de cunho social, produzindo a sátira de variados temas, dentre eles política. Aliar humor à notícia é uma forma de atrair o telespectador àquilo que possui relevância. Diante da importância que tem, o humor começou a ser analisado bem antes de programas televisivos o encaparem. O humor foi estudado pela primeira vez de forma sistemática na Antigüidade. Infelizmente, não é possível acompanhar as teorias antigas de humor de modo satisfatório, já que o segundo livro da Poética de Aristóteles, dedicado à comédia, se perdera para sempre – tema brilhantemente explorado em O nome da rosa, de Umberto Eco – assim como Sobre a comédia e Sobre o absurdo, de seu discípulo Teofrasto (BREMMER e ROODENBURG, 2000, p. 17). A versão dada por Umberto Eco diz respeito a uma parte da história. De fato, o Livro II da Poética se perdeu, assim como todo o estudo sobre a comédia. Como sabido, sem a modernidade das prensas gráficas, os exemplares dos livros restringiam-se a números reduzidos e manuscritos. Ainda assim, a hipótese levantada por Eco não é descartável, posto que o conteúdo formulado por Aristóteles desafiava alguns dogmas concebidos pelo Catolicismo 8. 8 O filme O nome da rosa (1986), dirigido por Jean Jacques Annaud e baseado na obra literária homônima de Umberto Eco (1980), traz à tona a oposição entre os beneditinos conservadores (dogmas religiosos) e os franciscanos libertários (filosofia clássica). Em questão está o esforço de parte É possível fazer um estudo sobre humor, partindo do sentido etimológico do termo. Ao se compreender a palavra, tem-se uma possibilidade melhor de entendimento. Como foi feito com política, ao ramificar humor as conceituações posteriores se mostram mais claras. A palavra humor derivou para nós do latim, naturalmente, e com o sentido material que tinha de corpo fluído, licor, umidade ou vapor, e com o sentido também de fantasia, capricho ou vigor. [...] Aqui humor não tem, evidentemente, sentido material, pois sabemos que, desde os tempos mais antigos, todo humor corporal era considerado signo ou causa de doença (PIRANDELLO, 1996, p. 19). Na definição de Luigi Pirandello (1996, p.19) nota-se a força de atuação do humor. Aparentemente frágil, por representar momentos de descontração e aparente descompromisso, o humor mais ácido e crítico vem com a função de proporcionar o oposto às aparências. O cômico vem para quebrar algo pré-estabelecido. Ao contrário do que aparenta, o humor não se presta apenas a reproduzir o que é vigente. Ele cria e renova. O que nosso objeto de estudo tenta fazer é isso: jornalismo com a abordagem do humor. Ao informar, mantém a fórmula jornalística. Porém, quando lança mão do humor, busca renovar, quebrar o modelo em detrimento de outro, mesclando estilos. Porque o humorismo tem, sobretudo, necessidade de intimidade de estilo, que sempre foi para nós um obstáculo graças à preocupação com a forma, por todas as objeções retóricas que se nos fizeram em torno da língua. O humorismo tem necessidade do mais vivaz, livre, espontâneo e imediato movimento da língua, movimento que se pode ter somente quando pouco a pouco se cria a forma. Ora, a retórica ensinava não a criar a forma, mas a imitá-la, a compô-la exteriormente; ensinava a procurar fora a língua, como um objeto, e naturalmente ninguém conseguia encontrá-la senão nos livros, nos livros que ela havia imposto como modelos, como textos (PIRANDELLO, 1996, p. 55). Em contato com os primeiros estudos e as pesquisas que se sucederam, em vista da fertilidade do tema, definições emergiram, e particularmente uma nos chamou atenção para que constasse deste trabalho. Em Uma história cultural do humor, de Bremmer e Roodenburg (2000, p.13), nota-se um conceito capaz de ser abrangente e pontual. considerável da Igreja Católica em censurar a busca por conhecimento e a liberdade de crenças, por meio de homicídios e da Inquisição. A suposta alegação feita por um monge beneditino, em relação ao cunho herege da Comédia, de Aristóteles, é de que o riso seria um pecado, na medida em que quem ri perde o temor a Deus. [...] Entendemos o humor como qualquer mensagem – expressa por atos, palavras, escritos, imagens ou músicas – cuja intenção é a de provocar o riso ou um sorriso. [...] No sentido escrito, a noção de humor é relativamente nova. Em seu significado moderno, foi pela primeira vez registrada na Inglaterra em 1682, já que, antes disso, significava disposição mental ou temperamento. Para corroborar a citação anterior, a obra organizada por Sérgio Milliet, intitulada Obras-primas do conto humorístico, oferece uma abordagem sobre o termo humor e sua procedência inglesa. Nesse embalo, vale destacar o princípio da palavra e seus desdobramentos em outros idiomas. Dentro de um contexto inglês, o humor adquiriu status nobre em seu começo, já que se fortaleceu em ambiente aristocrático. Para o autor (1963, p.9-10), nada mais difícil do que definir o ‘humour’. Confundem-no alguns com o espírito, a graça, o chiste, a própria farsa. Na verdade, o ‘humour’ é uma maneira de ser tipicamente inglesa, que não encontra paralelo nos latinos. E que talvez consista apenas em rir à custa dos outros. Entretanto, o adjetivo humorístico já adquiriu em português outro sentido menos restrito, o de cômico, engraçado, espirituoso, e é nesse sentido que o aceitamos aqui [...]. Na realidade, o humor nada tem de plebeu: é antes burguês, assinalando a emancipação espiritual renascentista em luta contra os preconceitos e limitações dos nobres feudais e dos príncipes da igreja. É uma revolta do bom senso contra a divagação, do realismo contra o sonho. A partir da formulação do autor, concluímos que surge como uma quebra de modelos, um rompimento com um contexto que vigorou durante uma era. A insatisfação e inadequação que geraram alterações nos planos político, econômico, social e cultural inseriu o humor em condição privilegiada. Mais próximo às flexibilidades sociais, a nova vertente de expressão ganhou campo, tornando-se mais presente nas manifestações públicas. É importante ressaltar que o humor pode envolver várias ciências e campos de estudo. Por hora, cabe-nos citar, de modo mais amplo, as possibilidades de pesquisa que o tema oferece, ampliando ainda mais as variantes de compreensão do assunto. De acordo com Solange Wechsler (1998, p.97), [...] o humor, segundo os diversos teóricos do assunto, possui várias características [Torrance, 1979] que podem ser trabalhadas como: Incongruência [o humor aparece no aparelhamento de idéias ou situações divergentes]; surpresa [as situações humorísticas trazem uma combinação repentina, inesperada ou de choque]; Ambivalência [a base do humor decorre da combinação de emoções ou sentimentos incompatíveis]; Alívio ou relaxamento [a situação de humor alivia tensões, constrangimentos, rigidez, descarregando um ambiente desagradável]; Configuração [o humor é decorrente da percepção de que elementos, inicialmente percebidos como divergentes, possam ter alguma combinação]; Economia de sentimentos [o humor, na visão psicanalítica, consegue reduzir os gastos envolvidos em situações de grande tensão, transformando elementos sérios em pouco importantes]. O CQC passa por todas as configurações anteriormente citadas. É incongruente, pois abarca situações que, a priori, são incompatíveis (jornalismo político e humor); há a característica surpresa, despertando a graça no público por este não esperar a relação entre humorismo e ambiente formal; ambivalência, já que a união entre contrariedades é consumada; podemos citar alívio e relaxamento, considerando que a irreverência não é extasiante; e configuração, ao notar a pertinência da ligação entre elementos que poderiam divergir. O programa só não se encaixa em economia de sentimentos. Como a idéia não é reduzir a relevância dos assuntos tratados, caso acontecesse se tornaria incompatível com a determinação do jornalismo. Ao estudar o humorismo, Pirandello (1996, p.51-52) determinou a quebra, a ruptura provocada pelo humor em suas iniciativas. O riso provocado pelo cômico é capaz de desnortear o seu alvo. Dessa forma, constitui-se a crítica satírica. Há o realce de um defeito por meio do humor. Este por sua vez coloca em evidência uma falha grotesca, e, na medida em que existe a irreverência sobre o equívoco, surge o protesto e a contestação através da reação popular, que ridiculariza aquilo que a ofende. O humorismo, como veremos, pelo seu íntimo, especioso e essencial processo, inevitavelmente descompõe, desordena e discorda; quando, via de regra, a arte em geral, como era ensinada pela escola e pela retórica, era sobretudo composição exterior, acordo logicamente ordenado. E pode-se notar, de fato, que tanto os nossos escritores que se costumam denominar humoristas, quanto os outros que o são própria e verdadeiramente, ou são do povo ou popularizantes, isto é, distantes da escola, ou rebeldes à Retórica, isto é, às leis externas da tradicional educação literária. Pode-se notar, enfim, que quando esta tradicional educação literária foi desprezada, quando o domínio da poética intelectualística do classicismo foi rompido pela irrupção do sentimento e da vontade que caracteriza o movimento romântico, os escritores que tinham uma natural inclinação ao humorismo expressam-no em suas obras não por imitação, mas espontaneamente. E prossegue o autor, afirmando que [...] a reflexão, sim, pode descobrir tanto ao cômico e ao satírico quanto ao humorista esta construção ilusória. Mas o cômico somente rirá, contentando-se em esvaziar esta metáfora de nós mesmos edificada pela ilusão espontânea; o satírico desdenhará dela; o humorismo, não: através do ridículo desta descoberta verá o lado sério e doloroso, desmontará esta construção, mas não apenas para rir dela; e oxalá que, no lugar de desdenhar-se dela, rindo, compadeça-se (PIRANDELLO, 1996, p. 156). Outra passagem que compreende a ruptura, a quebra de padrões, pode ser vista em Criatividade: descobrindo e encorajando. É importante que se mantenha a originalidade do produto, já que uma cópia contém pouco ou nada de criação. Privilegiar o original é garantir àquilo que é apresentado particularidades de arte, uma idéia de criacionismo. Se fosse copiar, no CQC não haveria jornalismo, restando-lhe apenas o status de programa de humor. Para cair no lugar-comum não é difícil. Em alguns momentos, como veremos mais à frente, o Custe o que custar se identifica com o Casseta & Planeta9. Mas este não faz jornalismo. Faz o humor que fez Jô Soares10, sem a realização de entrevistas, o trabalho no campo do fato, mas com sátiras políticas que abrangem os problemas atuais. A produção oferecida ao público é, em sua maior parte, inovadora quando comparamos aos programas de humor e jornalismo brasileiros. A originalidade pode ser entendida como: novidade, quebra de padrões habituais de pensar, capacidade para produzir idéias raras ou incomuns, uso de situações ou conceitos de modo não-costumeiro, habilidade para estabelecer conexões distantes e indiretas ou respostas infreqüentes dentro de um determinado grupo de pessoas. A originalidade implica dar um salto mental, em ir além do óbvio. Embora a presença da fluência e da flexibilidade tenda a favorecer o aparecimento de idéias originais, não existe, porém, nenhuma garantia de que isso vá ocorrer. Nesse sentido, o indivíduo pode gerar um grande número de idéias e de diferentes classes, que não são, entretanto, incomuns quando comparadas com as de um grupo maior (TORRANCE in WECHSLER, 1998, p.76). Mas a comédia pode, também, apropriar-se do que existe e propor uma adaptação ao jornalismo, devolvendo um produto mesclado, híbrido. Neste caso, não se trata de cópia. Coube ao humorista extrair algo popular e devolver, de forma que o público aprove o remanejamento. Sob este aspecto, o trabalho do profissional do humor pode ser válido, na medida em que uma situação banal e corriqueira ganha novas e divertidas feições. 9 Programa transmitido pela TV Globo, todas as terças-feiras, há mais de dez anos. Dois grupos advindos da mídia impressa (jornais Casseta e Planeta) formaram a trupe do programa, que permanece até então, com exceção de Bussunda, morto em 2006. 10 Até a veiculação do seu programa de entrevistas, Jô Soares Onze e Meia (SBT) e Programa do Jô (Rede Globo), o humorista desempenhou participações marcantes em atrações exclusivamente humorísticas: Faça Humor, Não Faça Guerra (1970), Satiricon (1973), O Planeta dos Homens (1976) e Viva o Gordo (1981), todos pela TV Globo. Essa dinâmica não deixa de ser uma atividade criacionista. É de se levar em conta a adaptação de um contexto morno, já conhecido, com peculiaridades irreverentes. Se alguém ri do que antes mal era notado, é porque houve a criação de uma nova abordagem que alavancou o interesse do público. O aperfeiçoamento do objeto ordinário faz parte desta apropriação do existente. O objetivo da comédia é completamente diferente. Nela, a generalidade está na própria obra. A comédia pinta caracteres que já conhecemos, ou com que ainda toparemos em nosso caminho. Ela anota semelhanças. Seu objetivo é apresentar-nos tipos. Se houver necessidade, chegará a criar tipos novos. Nisso se distingue das outras artes (BERGSON, 2007, p. 122). Sobre a questão do ridículo, Aristóteles (2007, p.33) nos oferece uma passagem interessante de sua Arte Poética para mostrar que a crítica humorística pode habitar a ridicularização de um defeito social, político, cultural. O CQC faz isso na medida em que abre espaço para a informação irreverente na ânsia de emitir luz sobre problemáticas de interesse social. À base da sátira, o Custe o que custar atrai atenções sem formalismos, porém sem abrir mão da crítica e da informação de interesse público. “A comédia é, como já dissemos, imitação de maus costumes, não contudo de toda sorte de vícios, mas só daquela parte do ignominioso que é o ridículo. O ridículo reside num defeito e numa tara que não apresentam caráter doloroso ou corruptor” (2007, p. 33). Ainda que as situações sejam as mais delicadas e, aparentemente, exijam seriedade, o humor pode servir como pano de fundo para uma crítica. A idéia do humor inserido no conteúdo informativo é a de realçar as deficiências abordadas na matéria. É como se uma caricatura, que é o enaltecimento de características vigentes, fosse constituída para dar visibilidade às falhas mais gritantes. O humor não somente possui algo libertador... algo sublime e elevado... O sublime participa evidentemente do êxito do narcisismo, da invulnerabilidade do eu que se afirma vitoriosamente. Recusa-se o eu a se deixar vencer, a lhe deixar que lhe imponham o sofrimento através das realidades exteriores, recusa-se a admitir que os traumatismos do mundo exterior possam atingi-lo. Mais ainda: mostra que tais traumatismos podem tornar-se oportunidades de prazer (MILLIET, 1963, p.12) Mesmo sendo, na maioria das vezes, usado para distrair e entreter o público, o humor não deve abrir mão da qualidade. Desde a Antiguidade Clássica, com Aristóteles e Cícero, dois dos maiores teóricos do humor, tinha-se em vista a necessidade qualitativa nas intervenções humorísticas. Se o humor não tiver crítica, qualidade, não cumpre sua função social, exposta anteriormente por Milliet (1963, p.12). Caso seja transposto ao nosso objeto de pesquisa, é ainda mais necessário que a informação humorística se preste ao serviço público. O humor de boa qualidade conhece seus limites e evita a todo custo a imitação e as atitudes de mímicos e bufões. Conforme Fritz Graf, Cícero discutiu o humor para leitores classe A, cuja finalidade era divertir o público sem perder a dignidade (BREMMER e ROODENBURG, 2000, p. 18). Os autores prosseguem, abordando que a crítica, a característica inerente ao humor de qualidade, encontrava obstáculos à sua difusão. Por isso, as apresentações eram restritas. Para eles, “o humor podia ser perigoso, e seu lugar na cultura tinha de ser limitado a ocasiões estritamente definidas. Os gregos sabiam muito bem que o riso poderia conter um lado muito desagradável” (BREMMER, 2000, p. 30). Para complementar as menções de Bremmer, citamos, novamente, Pirandello (1996, p.139) que possui um estudo útil à teoria do humor. Dissemos que, ordinariamente, na concepção de uma obra de arte, a reflexão é quase uma forma do sentimento, quase um espelho no qual o sentimento se mira. Querendo continuar esta imagem, poder-se-ia dizer que, na concepção humorística, a reflexão é, sim, como um espelho, mas de água gelada, no qual a chama do sentimento não apenas se mira, mas mergulha e apaga-se: o frigir da água é o riso que desperta o humorista; o vapor que dela exala é a fantasia freqüentemente um pouco fumacenta da obra humorística. De fato, o humor fazia parte do contexto grego. Os filósofos clássicos, Sócrates, Platão e Aristóteles, usaram-se dos traços humorísticos e produziram trabalhos ricos neste âmbito. Todos os autores que surgiram posteriormente se escoraram nos gregos para principiarem estudos sobre o tema. A teoria do humor foi se renovando, sem perder o embasamento grego em suas contextualizações históricas. Não é explícito que nosso objeto de pesquisa tenha sido idealizado com base nos pressupostos gregos, mas o CQC busca propor um humor de qualidade. Já que se fala em humor de qualidade, Sérgio Milliet (1963, p.11-12) aponta para uma comparação entre cômico e arte. Para o autor, desde que seja bem feito e cumpra papel social, o humorismo é comparável aos feitos artísticos, como pode ser observado em um trecho do livro. Em nossa época a técnica humorística passou por grandes modificações. Sob a influência do cinema por um lado e a ambição de renovar inteiramente os processos literários, começou-se a abusar do simultaneísmo e do absurdo. Voltamos até certo ponto às concepções cômicas da Idade Média, aproveitando os recursos que uma total liberdade criadora põe à nossa disposição. Por um lado, a literatura desbotou na pintura e nas outras artes, graças aos surrealistas que, além da magia e da psicanálise, exploraram a fundo o humorismo. Quando Salvador Dali pinta uma frigideira com um fone em lugar dos ovos tradicionais, faz humor, da melhor espécie porque gratuito, sem segundas intenções. O programa em análise peca quando caminha com “segundas intenções”. Neste momento, o CQC não faz nem jornalismo, nem humor. Abre mão da função que o concebeu para se tornar apelativo. Isso, sem dúvida, será abordado por nós mais adiante, pois não estamos aqui para compor uma visão apaixonada do objeto. É necessário reconhecer os defeitos, até para enaltecer as qualidades. O semanal dá as costas ao legado clássico quando explora a semi-nudez e as expressões de baixo calão. Duas obras relevantes da época, A República e Ética a Nicômaco, traçam um panorama do uso e da utilidade do humor nas passagens filosóficas de Platão e Aristóteles. No entanto, como se sabe, a obra mais completa sobre o tema – e a primeira – é Poética, de Aristóteles. Como pouco restou do Livro II, outros trabalhos tornaramse colaboradores. De fato, tanto Platão como Aristóteles, os principais filósofos do século IV, opuseram-se ao humor grosseiro e à obscenidade, acentuando a necessidade do riso contido, inofensivo. Em A república, Platão declara que os guardiões do Estado ideal são proibidos de se entregar ao riso porque o riso exagerado é normalmente seguido de uma reação violenta. Essa ênfase na moderação do riso também aparece em primeiro plano em A república, na discussão sobre a poesia. Neste ponto, Platão rejeita a bufonaria na comédia porque ela pode fazer com que as pessoas a imitem. [...] O tratado de Aristóteles Sobre a comédia infelizmente não sobreviveu, mas ele apresenta uma análise sistemática da galhofa e do riso em sua Ética a Nicômaco. Em Aristóteles, podemos ver a tendência de Platão totalmente elaborada, uma vez que ele considera como bufões comuns aqueles que se excedem no humor e preferem extrair o riso a dizer algo lisonjeiro ou evitar ferir o alvo de sua diversão. Por outro lado, aqueles que brincam de um modo refinado são chamados espirituosos (eutrapeloi). São os homens que respeitam limites, ao passo que o bufão é escravo de seu senso de humor, e não poupa nem a si mesmo, nem aos outros, se puder provocar o riso (BREMMER, 2000, pp. 39-40). Aristóteles, em sua Poética ou Arte Poética, faz questão de se dirigir a Homero como o precursor da comédia em seus escritos. Nas obras homéricas de conteúdo dramático, buscou inserir o humor para intercalar momentos intensos com passagens mais suaves. O filósofo (2007, p.31) reconhece o feito antepassado à medida que do mesmo modo que Homero era sobretudo o cantor de assuntos sérios (pois é o único, não só porque atingiu o belo, mas também porque suas imitações participam do gênero dramático), assim também foi o primeiro a traçar as linhas mestras da comédia, distribuindo sob forma dramática tanto a censura como o ridículo. Independente de onde tenha surgido e do local em que mais se desenvolveu, o humor não é uma unidade, ao menos no que diz respeito à sua linguagem. Obviamente, em cada país que aporta, irá desenvolver-se à mercê do idioma vigente, e a linguagem inerente a cada Língua dará ao humor brasileiro, alemão ou japonês características próprias que os diferenciem e que os façam ter suas identidades. Um conto relatado na Alemanha, ainda que traduzido para o Português, pode não ter a mínima graça aqui no Brasil. Tudo dependerá da bagagem cultural de quem conta e de quem ouve o conto. Nesse processo, a linguagem utilizada também dará feições positivas ou negativas à piada. O Custe o que custar é um exemplo disso. A fórmula é argentina11, além de ter sido desenvolvida em outros países, inclusive na Europa. Se o programa brasileiro fosse uma mera cópia do modelo veiculado no país vizinho, igual na forma e no conteúdo, possivelmente não acharíamos tão bom. Isso porque é preciso seguir as tendências histórico-culturais de cada país e, embora haja semelhanças, os traços e as raízes possuem distinções. Tanto o jornalismo quanto o humor necessitam acompanhar tais peculiaridades. Talvez haja algo de artificial em se criar uma categoria especial para a comicidade de palavras, pois a maioria dos efeitos cômicos que estudamos até agora já se produzem por meio da linguagem. Mas é preciso distinguir a comicidade que a linguagem exprime da comicidade que a linguagem cria. A rigor, a primeira poderia ser traduzida de uma língua para outra, com a possibilidade de perder a maior parte de seu brilho ao passar para uma sociedade nova, diferente em termos de costumes, literatura e, sobretudo, associações de idéias. Mas a segunda é geralmente intraduzível. Ela deve tudo o que é à estrutura da frase ou à escolha das palavras. Não constata, por meio da linguagem, certas distrações particulares dos homens ou dos acontecimentos; destaca as distrações da linguagem em si. E a própria linguagem, aqui, que se torna cômica (BERGSON, 2007, pp. 76-77). Entretanto, o humor de qualidade não se prendeu às questões políticas. Quando as relações familiares passaram a ganhar destaque no meio social, o humor tratou de abordar tais movimentações. Nesse sentido, ficou clara a relação entre a proposta grega e as menções romanas, comprovando que os novos pensadores elaboram seus conceitos sem abdicar do que fora produzido anteriormente. Entre Grécia e Roma havia 11 No capítulo seguinte será feito um comparativo entre o CQC argentino e o brasileiro. convergências no campo teórico do humor, e tanto em uma quanto em outra o cômico passou a fazer parte do cotidiano. Sendo assim, os pensadores da época prestaram-se a avaliar o fenômeno. Quando as circunstâncias políticas mudaram, a comédia nova grega passou dos assuntos políticos para as questões familiares – homens jovens que amam (seduzem ou estupram) meninas das classes inferiores, filhas perdidas reencontradas muito mais tarde como prostitutas, gêmeos separados no nascimento e reunidos quando jovens. O humor, a graça e até a indecência integram essa comédia também (em um grau muito maior do que os estudiosos tenderam a acreditar no começo desse século, conforme nos mostraram os novos papiros), mas não há o escárnio social. A comédia romana arcaica continuou a comédia nova grega, adaptando peças gregas para o palco romano; e novamente a crítica social direta foi excluída. Isto aconteceu não só porque os originais gregos não possuíam uma dimensão política – afinal, a comédia romana floresceu num período em que a vida pública romana era animada e suficientemente controversa para se expor ao comentário público –, mas porque a lei romana proibia ridicularizar um cidadão (GRAF, 2000, p. 57). O romano Cícero, em O Orador, também ofereceu contribuições dentro dos estudos sobre humor. Como se fizesse parte de uma espécie de segunda geração, o autor foi o primeiro a constituir um trabalho denso, sem que este se perdesse. Portanto, no campo a que nos referimos, Cícero é o colaborador mais antigo, considerando que sua obra se manteve intacta, ao contrário da de Aristóteles. Ao lado de Quintiliano – porém este com menor expressão – destacou-se por seu caráter inovador, sem abrir mão dos conceitos de antecessores gregos. Os mesmos resultados surgem da definição funcional de Cícero sobre o humor: o riso extrai ‘do castigo da deformidade e da desgraça, sem causar vergonha’. A deformidade e a desgraça provêm de um desvio social: a função da graça é corrigir esse desvio – de um modo socialmente aceitável. Quando observamos os exemplos dados por Cícero, outro ponto se torna claro: é o desvio dentro desta mesma classe alta que o humor critica (GRAF, 2000, p. 54). O paralelo entre Grécia e Roma é constante. Em se tratando de dois momentos históricos subseqüentes e que contemplam importância considerável no panorama da História Geral, as duas potências da Antiguidade coincidem seus caminhos em outras áreas. Considerando que as cidades-estados gregas influenciaram maneiras de agir e pensar em diversos pontos do planeta, quem exerceu tal influência posteriormente foi Roma, por meio de seu império milenar. Como não poderia proceder de outra forma, as teorias também seguiram o percurso político. O pensamento grego e, depois, o romano estavam em sintonia com os campos de batalhas. Como Grécia e Roma presenciaram sucessivos êxitos em guerras, seus pensadores ganharam visibilidade e repercussão. Naturalmente, os legados gregos e romanos permaneceram, e o campo humorístico produziu igualmente resquícios além de seu tempo. Nessa vertente, é imprescindível a menção sobre os bobos da corte que, mesmo sem ter papel estritamente político, marcaram época. Nenhuma discussão do humor medieval ou do início do período moderno seria completa sem referência aos bobos profissionais, que podiam ser encontrados na corte e em toda parte. Vários italianos da época conquistaram fama inter-regional, se não internacional, nessa profissão, entre eles Dolcibene, os dois Gonellas, o Scocola de Borso d’Este em Ferrara (imortalizados nos afrescos de Schifanoia), o Diodato de Beatrice d’Este em Milão e o Fritella de Isabella d’Este em Mântua (BURKE, 2000, p. 97). Mais do que uma iniciativa isolada, o humor está diretamente ligado às tendências culturais. “O humor quase sempre reflete as percepções culturais mais profundas e nos oferece um instrumento poderoso para a compreensão dos modos de pensar e sentir moldados pela cultura” (DRIESSEN, 2000, p. 251). Todavia, não é suficiente fazer humor sem o respaldo que lhe dê confiabilidade. Aliás, sem este, aquele não se viabiliza. Falamos de criatividade. Uma ferramenta que propicia recursos ao humorista, capaz de criar o elo entre arte e público. Em uma sociedade com um nível de criticidade alto, humor feito de qualquer maneira, desprovido de critérios que prezem pelo acabamento respeitável, é relegado à baixa aceitação. O que falta às produções denominadas humorísticas é justamente o caráter criativo. Os programas vêm apelando excessivamente para a nudez e ao erotismo, emitindo o talento do ator para plano secundário. A intenção de privilegiar a atuação do ator – ou, no caso do CQC, a atuação do jornalista – seria deixada de lado, nesta nova conjuntura que privilegia a audiência. Nesse momento, tocamos no ponto que abrange a questão social: se programas de baixo nível dão audiência é porque a sociedade aprova esses conteúdos, e o público é tão culpado quanto quem emite programações de qualidade baixa. A criatividade é o termômetro entre humor de qualidade e público. Na verdade, humor só existe quando há criação. Quando esta é nula, não existe humor. Esta característica não é útil somente ao humor. Em qualquer ramo, a assertiva serve para privilegiar a criação em detrimento da cópia predatória, pouco desenvolta. “A mais antiga das concepções sobre criatividade provém da crença de que esse processo ocorre por inspiração divina. Essa noção vem do pouco conhecimento sobre o pensamento humano e, assim sendo, tudo que não era explicável era atribuído aos deuses” (WECHSLER, 1998, p.26). Mais adiante, veremos o humor em alguns autores da literatura universal. Sendo um deles, Erasmo de Roterdã faz um Elogio da loucura. Nesta obra, há o enaltecimento das peculiaridades insanas para justificar o caos. Por falar em loucura, na obra Criatividade: descobrindo e encorajando, Solange Wechsler (1998, p.26-27) descreve que, desde a Antiguidade, tem-se a tendência de nivelar criação e loucura. Nas palavras da autora, fica claro que Outra tendência que encontramos desde a Antigüidade é a associação da criatividade a alguma forma de loucura. A espontaneidade do artista, a irracionalidade, a originalidade de pensamento, a ruptura com maneiras tradicionais de agir, levaram e ainda levam o sujeito criativo a destoar das regras e dos comportamentos estabelecidos e esperados pela sociedade, fazendo com que ele seja julgado anormal ou louco. Foucault (1981) analisou bem essa tendência em diferentes épocas da civilização, mostrando como o indivíduo diferente era trancafiado e isolado do resto da sociedade. O CQC, da Rede Bandeirantes, buscou se alinhar a algumas características brasileiras, como irreverência, para transmitir informação e conhecimento. Na aliança entre jornalismo e humor, o programa resgatou alguns pressupostos da Antiguidade em um formato televisivo moderno. Sem perder de vista a criatividade, mesmo que esbarrando em contradições, por privilegiar, em momentos específicos, a baixa qualidade que tanto combateu, o Custe o que custar consegue informar sobre questões relevantes com a desenvoltura própria do humor 2.2 O riso Mas é insuficiente estudar humor de forma isolada. Caso não entremos em suas particularidades, torna-se um estudo vago, pendente. É pertinente apontar características relevantes que se fazem presentes, para que a abordagem seja mais completa e contemple facetas do tema. E se há um detalhe corriqueiro, que pode ser situado na relação entre humor e público, é o riso. Temos aí um elemento exclusivamente humano. O riso trata-se da etapa final do cômico. É o que determina o resultado positivo do humor que foi proposto. Se o que foi dito ou visto não é risível, não existe o caráter humorístico. Porém, o riso é relativo, varia de uma pessoa a outra. O que é engraçado a alguém pode não ser para outrem. A bagagem histórico-cultural de cada indivíduo é que determinará o riso. E, é óbvio, o humorista deve ser alguém competente, que consiga extrair do espectador a graça. O riso é um fenômeno cultural. De acordo com a sociedade e a época, as atitudes em relação ao riso, a maneira como é praticado, seus alvos e suas formas não são constantes, mas mutáveis. O riso é um fenômeno social. Ele exige pelo menos duas ou três pessoas, reais ou imaginárias: uma que provoca o riso, uma que ri e outra de quem se ri, e também, muitas vezes, da pessoa ou das pessoas com quem se ri. É uma prática social com seus próprios códigos, seus rituais, seus atores e seu palco (LE GOFF, 2000, p. 65). Quem também aborda o caráter cultural do riso é Beth Brait, em A ironia em perspectiva polifônica. A autora afirma que o riso e suas relações com o humor são capazes de traduzir o DNA de qualquer sociedade. Algumas características inerentes a determinados meios podem vir à tona através do entendimento acerca das questões culturais. Dentre essas questões destaca-se o humor, o cômico, e todas as suas modalidades, fazendo desta ou daquela sociedade menos séria ou mais risonha. Eis um trecho da obra de Brait (2008, p.15). Por esse enfoque, as formas de construção, manifestação e recepção do humor, configurado ou não pela ironia, podem auxiliar o desvendamento de momentos ou aspectos de uma dada cultura, de uma dada sociedade. O deslindamento de valores sociais, culturais, morais ou de qualquer outra espécie parece fazer parte da natureza significante do humor. Acompanhemos, igualmente, a posição de Verena Alberti sobre as particularidades culturais e suas manifestações em vista do humor de cada local. Segundo a autora, nesses casos, o lugar atribuído ao riso e ao risível depende, evidentemente, da forma pela qual a sociedade ou a linguagem são concebidas: quando pressupõem a idéia de um sistema, de uma ordem, de uma norma, o lugar do riso é em geral o da desordem ou da transgressão. No universo das ciências sociais, por exemplo, observa-se a recorrência do caráter transgressor do riso. Trata-se, na maioria dos casos, de uma transgressão socialmente consentida: ao riso e ao risível seria reservado o direito de transgredir a ordem social e cultural, mas somente dentro de certos limites (1999, p. 30). Henri Bérgson (2007, p.2-3) aborda igualmente a questão da relatividade do riso. Sua concepção varia de uma pessoa a outra, de um lugar para outro e, entre culturas diferentes, pode apresentar particularidades sensíveis. Na opinião do autor, que é um dos expoentes no tema, arriscando-se a articular o cunho filosófico do riso, [...] não há comicidade fora daquilo que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; nunca será risível. Rimos de um animal, mas por termos surpreendido nele uma atitude humana ou uma expressão humana. Rimos de um chapéu; mas então não estamos gracejando com o pedaço de feltro ou de palha, mas com a forma que os homens lhe deram, com o capricho humano que lhe serviu de molde. Como um fato tão importante, em sua simplicidade, não chamou atenção dos filósofos? Vários definiram o homem como ‘um animal que sabe rir’. Poderiam também tê-lo definido como um animal que faz rir, pois, se algum outro animal ou um objeto inanimado consegue fazer rir, é devido a uma semelhança com o homem, à marca que o homem lhe imprime ou ao uso que o homem lhe dá (2007, pp. 2-3). Já que nos referimos à cultura, quem compôs um trabalho útil acerca da relação entre humor e cultura foi Bakhtin (GUREVICH, 2000, p.83-84). Nesse sentido, o riso foi considerado pelo autor como uma manifestação popular. Como se sabe, Bakhtin tratou a cultura popular da Idade Média e do Renascimento como uma cultura de carnaval ou do riso. Sua proposição era que o riso representava a característica principal da cultura popular. O conceito de cultura popular não era muito difundido entre os historiadores antes do aparecimento do livro de Bakhtin, e continua bastante contraditório. Além disso, é difícil negar que sua idéia é muito fecunda se a utilizarmos com precaução (GUREVICH, 2000, pp. 83-84). O brasileiro é muito risonho. Graças às inúmeras combinações religiosas, étnicas e culturais, na genealogia da sociedade ficou enraizada a facilidade de rir enquanto expressão de contentamento e descontração. De outra forma, o CQC não atingiria o sucesso atual, justamente porque o diferencial busca o alinhamento a essa demanda social. Em um país mais “frio”, ou o humor tem outras características, ou ele não é concebido por esbarrar na negação pública. O jornalismo, infelizmente, tem um formato muito específico. Quando a gente começou a fazer o Proteste já, que é uma coisa mais humorada, sentiu que tinha tudo a ver com o Brasil, porque o brasileiro é um povo bem humorado e consegue rir de si mesmo, da própria desgraça. Através desse tipo de humor, a gente consegue falar sério. Eu acho que o Brasil é o país ideal para se fazer humor no jornalismo (Rafinha Bastos, em entrevista ao autor, em 07/10/2008) Não é porque o riso está ligado ao humor que só há riso quando o humor ocorre. Não. O riso pode simbolizar outro tipo de reação que não seja o resultado do humorismo. Nas situações mais adversas, que representem o oposto do contentamento, o riso pode ser visto até como instrumento desafiador. Em uma oportunidade em que prevalece a tensão, um riso é capaz de desequilibrar o embate em favor daquele que riu. São as várias vertentes do humor e do riso. Embora o humor deva provocar o riso, nem todo riso é fruto do humor. O riso pode ser ameaçador e, realmente, os etologistas afirmavam que o riso começava numa exibição agressiva dos dentes. Por outro lado, o humor e o riso correspondente também podem ser muito libertadores. Todos nós sabemos como uma piada inesperada de humor é capaz de desfazer um clima tenso num instante (BREMMER e ROODENBURG, 2000, p. 15) No mesmo livro, Henk Driessen (2000, pp.253-254) também trata da inseparabilidade entre humor e riso. Nós podemos proferir uma risada sem que a situação seja propícia para tal ato. A função do riso não é única. Há várias possibilidades de criá-lo. Mesmo um contexto conturbado, carregado, pode ser pivô de um riso, ainda que este não seja espontâneo. O normal é que, neste caso, quando não há humor, a atitude de rir serve como um desafio ao oponente, para desarmonizá-lo. Johan Huizinga, em Homo ludens, tentou captar a brincadeira em sua forma pura, como um fundamento da cultura. Embora o riso, a insensatez, a piada e o cômico sejam, segundo Huizinga, de certo modo opostos à seriedade, eles não estão necessariamente vinculados ao lúdico, nem são ingredientes dele. Essas idéias compartilham a sua irredutibilidade, constituindo, cada uma delas, realidades próprias. Deixando de lado as puras essências, gostaria de salientar que o humor e o riso, embora intimamente ligados, não devem ser considerados inseparáveis. Concordo com Mary Douglas, uma boa guia em assuntos de piadas, que ‘seria errado supor que o teste final de uma piada é provocar ou não o riso. Não é necessário entrar na fisiologia e na psicologia do riso, já que é amplamente sabido que se pode apreciar uma piada sem de fato rir, e que se pode rir por outras razões que não seja a compreensão de uma piada. O riso é um dom humano. Ou seja, só o homem ri, só o homem faz rir. Mas há animais que nos provocam riso ou situações que produzem o mesmo efeito. Que justificativa produzir, se esses dois contextos fogem daquilo que propusemos anteriormente? Se um bicho nos é engraçado, é porque ele remete a alguma condição humana. Rimos dos feitos de um macaco porque anatomicamente ele lembra as formas humanas. Seus movimentos braçais assemelham-se aos nossos. Rimos de uma situação curiosa: uma casa cor-de-rosa com um canteiro no telhado. Achamos graça, pois o homem foi capaz de criar uma condição inimaginável. Sendo assim, notamos que o riso é eminentemente humano. E se é pertinente à nossa espécie, deve partir dela e retornar a ela. Isso se chama função social. É incoerente pensar em um fundamento da humanidade que não lhe traga benefícios mais amplos. Na medida em que o riso é propiciado, é necessário incutir-lhe um fundo crítico, que sirva de alerta a qualquer falha pública. Do contrário, o papel exercido pelo humor será, apenas, de entretenimento. O riso deve ser alguma coisa desse tipo, uma espécie de gesto social. Pelo medo que inspira, o riso reprime as excentricidades, mantém constantemente vigilantes e em contato recíproco certas atividades de ordem acessória que correriam o risco de isolar-se e adormecer, flexibiliza enfim tudo o que pode restar de rigidez mecânica na superfície do corpo social. O riso, portanto, não é da alçada da estética pura, pois persegue (de modo inconsciente e até imoral em muitos casos particulares) um objetivo útil de aperfeiçoamento geral. Tem algo de estético, todavia, visto que a comicidade nasce no momento preciso em que a sociedade e a pessoa, libertas do zelo da conservação, começam a tratar-se como obras de arte (BERGSON, 2007, p. 15). Entretanto, o riso não se restringe a uma só função. Vladimir Propp estudou essa vertente do tema. A ambigüidade também leva à questão da função. O riso era sempre um fim em si, ou poderia ser um meio para outro fim? Uma possibilidade a se considerar é a idéia do folclorista russo Vladimir Propp, de o riso atuar, em certas ocasiões, como uma espécie de ritual. Poderíamos interpretar, em particular, o riso oriental como riso ritual (BURKE, 2000, p. 98). Se o riso é inerente à humanidade, a arte consiste em uma das facetas daquele. Se “a arte imita a vida”, como afirmou Oscar Wilde, e a atitude de rir faz parte indissolúvel dos atos humanos, as duas características se convergem e relacionam-se. O humor também pode ser arte. Se houver talento por parte do profissional do cômico e em sua apresentação, o conjunto é artístico. Sendo assim, arte e humor, arte e riso se encontram na medida em que traçam caminhos inseparáveis. Por isso, o humor e o riso podem ser instrutivos, culturais e proporcionar o conhecimento, o questionamento, o grito em meio ao silêncio instaurado diante de uma deficiência. O riso partilha, com entidades como o jogo, a arte, o inconsciente etc., o espaço do indizível, do impensado, necessário para que o pensamento sério se desprenda de seus limites. Em alguns casos, mais do que partilhar desse espaço, o riso torna-se o carro-chefe de um movimento de redenção do pensamento, como se a filosofia não pudesse mais se estabelecer fora dele (ALBERTI, 1999, p. 11). Quando Rafinha Bastos questiona friamente o político, no Proteste, ele põe sob o conhecimento do lugar em questão e de todos que assistem ao programa que existe uma ilegalidade ali, aos olhos de todos. O responsável é o entrevistado, tornando-se uma reação em cadeia, onde cada vez mais pessoas se unem a Rafinha para “derrotar” o entrevistado. Cada riso é o troco pela confiança traída, pelas condutas irregulares. Embora o riso seja uma faculdade exclusivamente humana, houve épocas que aquele fora reprimido. Ele era tido como um desafiador da fé. Aquele que ria, não sentia medo. Quem não sente medo, não teme a Deus. A obra de Umberto Eco, O nome da rosa, relata o referido momento histórico. Monges da ordem beneditina não admitiam o riso. Em contrapartida, os franciscanos, respaldados em filósofos do porte de Aristóteles e Tomás de Aquino, não se opunham a essa peculiaridade do homem. Deleitar-se com o humor e o riso abundante é eminentemente contrário a se esforçar para manter toda a vida sob controle, o que pode ser observado entre os pitagóricos, os espartanos e, em um grau ainda mais alto, os cristãos ascéticos. Não deveria surpreender que um grupo social que tentava manter o controle sobre todos os tipos de expressão física, como comer, dormir e a sexualidade, também se opusesse ao riso. Desfrutar livremente o humor e o riso é a marca de uma comunidade tranqüila, aberta, não de uma ideologia ascética ou de uma sociedade tensa. [...] Além dessa herança do fim da Antigüidade, Tomas de Aquino retomaria as idéias de Aristóteles sobre a eutrapelía e as interpretaria como um argumento pelo riso contido, argumento esse seguido por Pascal. E assim o eco do riso antigo seria ouvido, embora com moderação, durante muitos séculos. O riso, na forma hilaris, se torna um atributo de São Francisco de Assis e uma das manifestações de sua santidade. Francisco fala a seus irmãos: ‘Nas atribulações, na presença daqueles que o atormentam, permaneçam sempre hilari vultu’. O riso realmente se torna uma forma de espiritualidade e comportamento (BREMMER, 2000, pp. 43-44, 80). É possível que esta tendência dos beneditinos seja motivada por uma dúvida que paira entre os cristãos. O fato de Jesus Cristo possivelmente nunca ter rido incentiva alguns grupos cristãos a aderirem à idéia de que o riso é um pecado. A Bíblia não registra explicitamente que Jesus tenha rido em algum momento. No entanto, não há registros de que tal ação seja desprezível. Normalmente, criam-se convenções para justificar a existência de diferentes grupos, ideologias, interesses. O fato de Jesus não ter rido não significa nada. E mais: isso não está registrado na Bíblia, mas não é o mesmo de nunca ter acontecido. Pelo contrário. Por ser um ato tão natural, tão espontâneo, não haveria motivos para descrever e narrar uma situação em que Jesus havia achado graça de algo. É digno de registro, o que foge à nossa compreensão, à normalidade da nossa existência. Possivelmente, na Bíblia não há ponto algum que descreve Cristo urinando ou dormindo. São atividades inerentes ao ser humano. [...] O homo risibilis [...] não é, obviamente, ‘o homem ridículo’ ou ‘o homem de quem se ri’, mas ‘o homem dotado do riso’, o homem cuja característica mais marcante é o riso. [...] Pois se Jesus, o grande modelo para a humanidade, que será cada vez mais apontado como o que deve ser imitado, não riria sequer uma vez em sua vida humana, então o riso como se torna estranho ao homem, pelo menos a um homem cristão. Por outro lado, se considerarmos o riso um traço distintivo do homem, o homem que ri certamente se sentirá mais capaz de expressar a sua própria natureza. Durante a primeira fase, a Igreja, diante de um fenômeno que considera perigoso e realmente não sabe controlar, rejeita-o totalmente. [...] Mais tarde, por volta do século XII, ela consegue submeter o fenômeno ao seu controle, distinguindo o riso bom do ruim, os modos admissíveis de rir dos inadmissíveis (LE GOFF, 2000, pp. 69-70). Em contrapartida, na própria Bíblia, em seu livro inicial, está registrada uma menção ao riso. A situação descrita fora marcada pelo cômico e o nascimento de um ser, o fim divino do amor, foi batizado Issac (Riso). Se Jesus não riu, o que não se saberá nunca com total certeza, no marco principiante do ‘Livro dos livros’ é feita referência ao riso de maneira aprazível e nada ofensivo. Observemos os capítulos do Gênesis (17 e 18) nos quais o nascimento de Isaac é anunciado. É uma preciosidade cômica. Um dia Jeová aparece a Abraão, como fazia com freqüência, e lhe diz: ‘Serás pai’. Abraão: ‘será que um centenário vai ter um filho e que, aos 90 anos, Sara vai dar à luz?’. Abraão mantém-se em silêncio, mas tem suas considerações. Algum tempo depois Jeová aparece a Sara e lhe diz: ‘Será mãe’. Sara abertamente põe-se a rir. No ano seguinte o evento acontece. Uma criança nasce para Sara e Abraão, que é então chamada ‘riso’, Isaac. A confusa Sara diz a Jeová que ela, na verdade, não rira durante a predição. Jeová finge acreditar mas finalmente diz: ‘Sim, tu riste’ (LE GOFF, 2000, p. 76). Tendo o riso uma atuação social, é natural que ele alerte o indivíduo acerca de alguma deficiência gritante ou latente. Mas o impacto deve servir para colocar em ordem o elemento que destoa da normalidade necessária. Quando o Proteste já entra em cena, é com esse intuito que ele se realiza. Ele informa, faz humor e provoca no público o riso. Um riso que é sempre dado sobre uma falta política, um erro cultural, um desvio social. O que se torna risível é o que necessita reparos. E a graça deve despertar no público a carência por melhoras. Eis o seu papel público. O riso é a vingança do prejudicado contra quem o afrontou. No momento em que Rafinha Bastos questiona o secretário dos transportes de algum município, utilizando-se da crítica com humor, ele desperta o riso no cidadão que não desfruta plenamente do serviço de ônibus coletivo. Quando Bastos coloca a piada, ao mesmo tempo conduz o entrevistado a uma ‘saia-justa’. O “vilão”, ao ficar indefeso e acuado, desperta no morador uma sensação de revés. É o troco que a população impõe sobre quem lhe causou tantos transtornos. A comicidade é esse lado da pessoa pelo qual ela se assemelha a uma coisa, aspecto dos acontecimentos humanos que, em virtude de sua rigidez de um tipo particular, imita o mecanismo puro e simples, o automatismo, enfim o movimento sem a vida. Exprime, portanto, uma imperfeição individual ou coletiva que exige correção imediata. O riso é essa correção. O riso é certo gesto social que ressalta e reprime certa distração especial dos homens e dos acontecimentos (BERGSON, 2007, pp. 64-65). Em seu estudo sobre o riso, Henri Bergson destina parte de sua obra a falar sobre a função do riso, à que já nos referimos neste trabalho. Sobre a questão da função desnorteante do riso, Bérgson (2007, p.101) afirma que a sociedade propriamente dita não procede de outra maneira. É preciso que cada um de seus membros fique atento para o que o cerca, que se modele de acordo com o ambiente, que evite enfim fechar-se em seu caráter assim como numa torre de marfim. Por isso, ela faz pairar sobre cada um, senão a ameaça de correção, pelo menos a perspectiva de uma humilhação que, mesmo sendo leve, não deixa de ser temida. Essa deve ser a função do riso. Sempre um pouco humilhante para quem é seu objeto, o riso é de fato uma espécie de trote social. O humor, quando focaliza uma falha, desperta o riso. No humorismo crítico, rimos do que é defeituoso, vicioso. Por isso, graça e emoção não se misturam. É impossível rir de algo que desperte compaixão. Acha-se engraçado o revés que o inimigo sofre. É como se a desgraça de um satisfizesse o outro, pois o rival proporcionou desgraça também. Eis o limiar entre o que é engraçado e o que passa despercebido. Jamais será visto no Proteste já, o jornalista Rafinha Bastos despertar a emoção do telespectador, principalmente quando o entrevistado for o político que não cumpriu o que prometeu, ou o responsável por um serviço que deveria funcionar de forma plena para uso do cidadão. Neste caso, o entrevistador será um caricaturista. Ou seja, ele irá realçar as deficiências para alertar o público. Este, por sua vez, conscientiza-se sobre o problema e debocha do seu algoz. A comicidade, dizíamos, dirige-se à inteligência pura; o riso é incompatível com a emoção. Descreva-se um defeito que seja o mais leve possível: se me for apresentado de tal maneira que desperte minha simpatia, ou meu medo, ou minha piedade, pronto, já não consigo rir dele. Escolha-se, ao contrário, um vício profundo e até mesmo, em geral, odioso: ele poderá tornar-se cômico se, por meio de artifícios apropriados, conseguirem, em primeiro lugar, fazer que ele me deixe insensível. Não digo que então o vício será cômico; digo que a partir daí poderá tornar-se cômico. Ele não deve comover-me: essa é a única condição realmente necessária, embora não certamente suficiente (BERGSON, 2007, p. 104). Rimos do vício. Mas ao riso tem que suceder a correção. De nada adianta achar graça de uma piada proferida contra um político corrupto, se nas próximas eleições nós o elegemos novamente. Riso e ação devem caminhar juntos para que haja eficácia no humor e sua função social seja completa. Fora isso, as risadas servirão de entretenimento e as faltas graves não tardarão a retornar. O humor crítico e a sátira diferenciam-se neste ponto das demais investidas humorísticas apenas. O cômico no Proteste não está somente na ridicularização do servidor público. Está na sua melhora enquanto gerenciador do bem público. A comédia de que foi vítima deve lhe servir como um ensinamento e um alerta: caso não desfaça o erro cometido ou não aprimore uma deficiência bruta, será punido no âmbito democrático. Mas não é só o político que precisa ter isso em mente. O público, o eleitor, o cidadão, o telespectador, também necessita focar tal pressuposto. Caso contrário, as irregularidades continuarão, apesar da atuação humorística. Mas, por outro lado, visto ser o objeto do riso essa mesma correção, é útil que a correção atinja ao mesmo tempo o maior número possível de pessoas. Por isso é que a observação cômica vai instintivamente para o geral. Ela escolhe, entre as singularidades, aquelas que são passíveis de reproduzir-se e que, por seguinte, não estão indissoluvelmente ligadas à individualidade da pessoa, singularidades comuns, poderíamos dizer. Transportando-as para a cena, ela cria obras que pertenceriam sem dúvida à arte por só visarem conscientemente a agradar, mas que se distinguirão das outras obras de arte por seu caráter de generalidade, assim como pela intenção inconsciente de corrigir e instruir. Tínhamos portanto razão de dizer que a comédia intermedeia entre arte e vida. Ela não é desinteressada como a arte pura. Ao organizar o riso, aceita a vida social como um meio natural; segue mesmo um dos impulsos da vida social. E nesse ponto dá as costas à arte, que é uma ruptura com a sociedade e um retorno à natureza simples (BERGSON, 2007, pp. 127-128). Enquanto programa de inserções jornalísticas, o CQC presta um serviço à sociedade sem perder o bom humor. Misturando seriedade e irreverência, o Custe o que custar informa o público com descontração e dá visibilidade a problemáticas de gravidade elevada. Há quem só goste da seriedade, da formalidade, para transmitir informações. Há telespectadores que não a suportam. O jornalismo com viés humorístico vem para se adaptar a duas demandas distintas. Coloca na mesma audiência dois perfis diferentes de público. Ora, o riso tem justamente a função de reprimir as tendências separatistas. Seu papel é corrigir a rigidez, transformando-a em flexibilidade, readaptar cada um a todos, enfim aparar arestas. Teremos então uma espécie de comicidade cujas variedades poderiam ser determinadas de antemão. Se quiserem, nós lhe daremos o nome de comicidade profissional (BERGSON, 2007, p. 132). Sem o riso, o humor perderia seu fundamento central. Humor é riso mais função social. O nosso objeto de pesquisa se situa na convergência desta equação. Ao aliar descontração e informação, o Proteste já faz um jornalismo fino (humor sutil) e moleque (descontraído, irreverente). Desperta a curiosidade do público pelo fato de privilegiar uma abordagem alternativa, coloca na berlinda uma autoridade que traiu a confiança pública nele depositada. O riso vinga o cidadão e faz aflorar neste o desejo por melhoras. 2.3 A ironia e a sátira Não se tem uma definição exata da procedência do termo ironia. Devido à saliência produzida pelas diferentes culturas espalhadas por todo o mundo, aquilo que envolve o humor ganha em relativismo. Dessa forma, não é obrigatório definir um princípio para a palavra, de maneira que cada contexto histórico-social se incumbiu de ornamentar sua participação. No livro A ironia e o irônico, D. C. Muecke (1995, p.22) trata desta questão. A evolução semântica do vocábulo foi acidental; historicamente, nosso conceito de ironia é o resultado cumulativo do fato de termos, de tempos em tempos no decurso dos séculos, aplicado o vocábulo, ora intuitivamente, ora negligentemente, ora deliberadamente, a fenômenos que pareciam, talvez erroneamente, ter bastante semelhança com alguns outros fenômenos aos quais já o vínhamos aplicando. Assim, o conceito de ironia a qualquer tempo é comparável a um barco ancorado que o vento e a corrente, forçar variáveis e constantes, arrastam lentamente para longe de seu ancoradouro. Como no âmbito do humor, a ironia também ‘nasceu’ na Grécia Antiga, mais precisamente na República, de Platão. Novamente, a ciência busca embasamento nas proposições filosóficas da Antiguidade. O primeiro registro de eironeia surge na República de Platão. Aplicada a Sócrates por uma de suas vítimas, parece ter significado algo como ‘uma forma lisonjeira, abjeta de tapear as pessoas’. Para Demóstenes, um eiron era aquele que, alegando incapacidade, fugia de suas responsabilidades de cidadão. Para Teofrasto, um eiron era evasivo e reservado, escondia suas inimizades, alegava amizade, dava uma impressão falsa de seus atos e nunca dava uma resposta direta. Miss Fairfax em Emma, assemelha-se a um eiron teofrastiano quando se recusa a exprimir sua própria opinião: ‘Ele era bonito?’, pergunta Emma e não obtém outra resposta senão: ‘acredito que ele fosse considerado um jovem muito fino’ (MUECKE, 1995, p.31). Para compreendermos melhor, Jolles (1976, p.211) oferece-nos uma definição para ironia. A ironia [...] troça do que repreende, mas sem opor-se-lhe, manifestando antes simpatia, compreensão e espírito de participação. Por isso é que ela se caracteriza pelo sentido de solidariedade. O trocista tem em comum com o objeto de sua troça o fato de ser afetado por aquilo de que zomba; ele próprio o conhece, mas reconhecendo a sua insuficiência, e mostra-o a quem não parece conhecê-lo. É essa a razão por que a solidariedade tem aqui significado mais profundo. Sente-se, na ironia, um pouco da intimidade e da familiaridade entre o superior e o inferior. É justamente nessa solidariedade que reside o imenso valor pedagógico da ironia. Mais uma vez, seguindo a tendência do humorismo, a ironia busca respaldo também em pensadores romanos. Cícero e Quintiliano oferecem repertório para a constituição teórica do irônico. Entre outras coisas, oferecem um significado bem próximo ao que conhecemos. Prova de que os ensinamentos distantes são assegurados pela exatidão de quem dedicou tempo e conhecimento para estudar o tema. Uma das obras ícones sobre o riso é O Orador, de Cícero. Na Inglaterra, como no resto da Europa moderna, o conceito de ironia se desenvolveu muito lentamente. Os significados mais interessantes em Cícero e Quintiliano – ironia enquanto um modo de tratar o oponente num debate e enquanto estratégia verbal de um argumento completo – foram ignorados a princípio, e durante duzentos anos e mais a ironia foi encarada principalmente como uma figura de linguagem. [...] Definia-se o termo como algo que ‘diz uma coisa mas significa outra’, como uma forma de ‘elogiar a fim de censurar e de censurar a fim de elogiar’, e como um modo de ‘zombar e escarnecer’. Era também usado para significar dissimulação, mesmo dissimulação não-irônica, subentendidos, e paródia [uma vez ao menos, por Pope] (MUECKE, 1995, p.33). Se o humor tem a incumbência de provocar o riso, embora este não dependa necessariamente daquele para vigorar, para isso é necessário aprimorar algumas ferramentas para cumprir seu objetivo. Se a meta é produzir uma crítica norteada pelo humor, a ironia é um aliado considerável para o jornalista que se presta a tal função. No Proteste já, são incontáveis as vezes que Rafinha Bastos busca ser irônico para colocar seu entrevistado na berlinda. Ser irônico é tirar o contestado do que é concreto e deixálo vulnerável aos questionamentos e à opinião pública. A blindagem se esvai. O irônico só encontra espaço por causa da alternância de reações e comportamentos. Se todos tivessem a mesma postura irônica, a ironia não seria uma ‘arma’. Seria a configuração da normalidade. Ela tem seu lugar garantido, pois há o artista que sabe desenvolver-se enquanto irônico. E há o indivíduo que se perturba quando a artimanha do humorista o tem como alvo. Nesta delimitação de papéis, tem-se a atuação da ironia envolvendo preceptor e alvo. Todavia, não podemos estabelecer a importância de ser irônico sem ao menos estabelecer a importância de ser sério. Os ovos de ouro da ironia não poderiam ser postos com tanta abundância se não tivéssemos gansas em profusão. Assim como o ceticismo pressupõe credulidade, a ironia precisa de ‘alazonia’, que é o vocábulo grego para fanfarronice; mas, em obras sobre ironia, é o termo reduzido para qualquer forma de autoconfiança ou ingenuidade. (...) Isto sugere que a ironia tem basicamente uma função corretiva. É como um giroscópio que mantém a vida num curso equilibrado ou reto, restaurando o equilíbrio quando a vida está sendo levada muito a sério, ou como mostram algumas tragédias, não está sendo levada a sério o bastante, estabilizando o instável, mas também desestabilizando o excessivamente estável (MUECKE, 1995, p.19). Gentili e Bastos ironizam políticos. Quando o fazem, tem-se o intuito de ratificar os defeitos. Na relação entre instável e estável, há dois panoramas. Em um âmbito extremamente formal, que é o da política, ambos “desarmam” os entrevistados inserindo o irônico. O marasmo cessa. Os questionamentos, da maneira como são, extraem do ambiente aquilo que de errado prevalece. A mentira e o desserviço vêm à tona, e equilibra-se o que era desordem. É nesta relação antagônica de interlocutores que se situa a ironia. Ela pode estar representada por meio de dois ironistas ótimos ou ruins. Mas sua força será profundamente sentida quando houver uma sensível variante entre indivíduos. A diferença de ‘talento’ perceptível irá enfatizar a ironia dentro do diálogo. A desigualdade irônica fará de um ou de outro talentoso ou atingido. Caso ambos fossem iguais, o diálogo seria monótono e sem nenhum ápice que o fizesse interessante. Este auge é a ironia. A ironia romântica é a única dissimulação involuntária e, ainda assim, totalmente deliberada (...) tudo deveria ser jocoso e sério, francamente aberto e profundamente escondido. Origina-se na união entre o savoir vivre e o espírito científico, da conjunção de uma filosofia perfeitamente instintiva com uma perfeitamente consciente. Contém e desperta um sentimento de indissolúvel antagonismo entre o absoluto e o relativo, entre a impossibilidade e a necessidade de comunicação completa (MUECKE, 1995, p.40-41). Entre entrevistador e entrevistado, há disparidades sensíveis. Para que se atinja o objetivo de pôr o político em situação delicada, é preciso ter um profissional capaz de conduzir a inquirição plenamente. Como a linguagem e o discurso jornalísticos são mais flexíveis no CQC, o potencial do jornalista deve se concentrar no humor. Este fará diferença no diálogo. É comum visualizar o político ‘sofrer’ com as perguntas, mas já houve quem revertesse o quadro. Quando isso acontece, há a igualdade de forças, ficando a ironia menos presente. A ironia pode se manifestar de diversos modos. Vai depender do panorama sócio-cultural da população em questão. Há públicos mais suscetíveis ao riso, ao humor. Há grupos de pessoas mais ‘exigentes’. Por outro lado, o irônico tem possibilidades diversas de se manifestar a partir do trabalho proposto pelo humorista. O talento que ele possui ou não vai definir o grau de comicidade e o apreço que despertará no públicoalvo. A ironia, seu efeito humorado, tanto pode revelar-se via um chiste, uma anedota, uma página literária, um desenho caricatural, uma conversa descontraída ou uma discussão acirrada, espaços ‘institucionalizados’ para o aparecimento de discursos de humor, quanto em outros, como a primeira página de um jornal sério e que não tem por objetivo divertir seus leitores (BRAIT, 2008, p. 14). Um dos artifícios irônicos mais eficazes é a realização de uma pergunta quando já se sabe a resposta. O primeiro a propor este método foi Sócrates. Em seus diálogos reproduzidos por Platão, o filósofo indagava Adimanto mesmo sabendo o que seria dito. Eis a ironia de quem tinha a noção dos resultados e seu colega, por dedução, tomava o caminho correto. A sabedoria socrática estava aberta ao aprendizado, de forma a destacar uma vertente humorística. No quadro Proteste já, o entrevistador busca seguir, mesmo que em alguns momentos, um traçado idêntico. Por ter conversado com a população e estar a par dos problemas que acometem os cidadãos locais, Rafinha Bastos vai ao encontro do político ou do servidor público certo das deficiências de que seu entrevistado é responsável. As perguntas feitas pelo repórter são irônicas, na medida em que o telespectador sabe as respostas e sabe que o jornalista tem poder sobre as mesmas. Qualquer desvio por parte do entrevistado provocará riso em quem assiste. A velha definição de ironia – dizer uma coisa e dar a entender o contrário – é substituída; a ironia é dizer alguma coisa de uma forma que ative não uma mas uma série infindável de interpretações subversivas. Naturalmente, deveremos voltar a esta curiosa noção. Ao nível popular, ao nível da reportagem de jornal, por exemplo, a ‘ironia’ provavelmente pode servir-se de coincidências ou quando existe uma margem muito pequena entre o sucesso e o fracasso numa matéria de grande alcance (MUECKE, 1995, p.48). Mas fazer ironia não é simples como pode parecer. Antes de se propor a fazer, o humorista necessita saber os caminhos a seguir. Do contrário, ele pode ser a vítima daquilo que faria ou falaria. Estudar a arte da ironia e suas possibilidades dentro de um diálogo mostra-se como alternativa para evitar algum revés. É necessário que se tenha isso em vista, pois caso o efeito seja o inverso do esperado, o papel do humor, da ironia e do riso se altera. “Sempre existe em algum lugar um contexto contrastante. Assim, o papel do observador irônico é mais ativo e criativo do que sugere a palavra ‘observador’” (MUECKE, 1995, p.63). Para o jornalista em questão, a melhor forma de não cair em armadilhas é apuração e buscar a diversidade de fontes. Para que o entrevistador possa lançar mão do teor irônico em sua fala, é preciso conhecer os questionamentos direcionados ao ‘vilão’ do enredo. Isso lhe será útil, pois as maiores deficiências do entrevistado, que, por sua vez, tentaria ocultá-las ao máximo, ficarão em evidência. Dessa forma, o jornalista atinge seu objetivo, no momento em que vê seu interlocutor ‘patinando’ nas suas próprias falhas. “A ironia exige, além de uma larga experiência de vida e um grau de sabedoria mundana, uma habilidade, aliada a engenho, que implica ver semelhanças em coisas diferentes, distinguir entre coisas que parecem as mesmas, eliminar irrelevâncias, ver a madeira a despeito das árvores e estar atento a conotações e ecos verbais” (MUECKE, 1995, p.61). Nesse sentido, a ironia pode moldar a realidade vigente. Isso difere de inventar. Caso a ironia se preste a formular uma concretude totalmente distinta e inválida perante a normalidade, o humor e seus desdobramentos oferecem um desserviço ao público. Os pontos estratégicos do que acontece ou ocorreu não podem ser excluídos em detrimento de uma conivência humorística. Afinal, a realidade deve ser a base do divertimento. É por ela que o humor deve pautar. Ao invés, não sendo privilegiada a conjuntura presente, haverá distorção e uma abordagem tendenciosa. O jornalista necessita estar atento a essas possibilidades tentadoras. A construção do real simbólico é de sua autoria. Por diversas vezes, o cenário corrente chega ao conhecimento do público por intermédio do repórter. Saindo da formalidade e usando- se da ironia, o profissional do jornalismo confere um trajeto mais sinuoso e de difícil manuseio. A ironia não pode se sobrepor à notícia. Senão não é jornalismo com viés humorístico. É programa de humor, apenas. Enquanto a ironia dá forma à realidade enquanto força vitoriosa, revela não só que a realidade é como nada diante de seu oponente derrotado, não só que a vitória da realidade nunca pode ser uma vitória final, que sempre, muitas vezes, desafiada por novas rebeliões da idéia, mas também que a realidade deve sua vantagem não tanto à sua própria força, que é demasiado crua e sem direção para manter a vantagem, quanto à problemática interna (embora necessária) da alma acabrunhada por seus ideais (MUECKE, 1995, p.118). Por outro lado, a ironia não é o único artifício usado pelo jornalismo na transmissão da notícia. Outro recurso pode ser solicitado para dar uma forma mais sutil ou arrebatadora à informação. Na verdade, o artifício em questão costuma ser mais polêmico que a ironia, justamente por “colocar o dedo” no ponto em questão, no questionamento a ser feito. A informação passada com humor não perde sua característica central que é a seriedade. É quando o humor abre espaço para a sátira divulgar o que é de interesse público. Diante disso, é importante mencionar que “a sátira é uma zombaria dirigida ao objeto que se repreende ou se reprova e que nos é estranho. Recusamo-nos a ter algo em comum com o objeto dessa reprovação; opomo-nos a ele rudemente e, por conseguinte, desfazemo-lo sem simpatia nem compaixão” (JOLLES, 1976, p.211) A sátira é o resultado da convergência entre denúncia e humor. Têm-se, de um lado, a informação, inerente às causas jornalísticas, e de outro a graça, que norteia as ações do humorismo. Sem perder de vista um e outro, o jornalismo com viés humorístico implementa a sátira. Utilizada com maior incidência em regimes políticos fechados, para que a censura não cerceie a informação relevante, ela mantém-se hoje como forma de ‘vingança’, especialmente ante os políticos. Ainda que eles não entrem no jogo do jornalista, a piada é uma forma de colocá-lo em situação delicada, mesmo sem proferir uma só palavra. Convirá ter em atenção que a sátira é por nós considerada como um gênero literário formal possuídos de características uniformes de técnicas, motivação e espírito. No consenso geral dos críticos literários, o conteúdo e espírito orientador da sátira é a crítica, sendo o seu propósito o de reformar. E, na medida em que procura persuadir a fim de reformar, os seus objetivos são retóricos. O que quer que de indefinível o satirista for – um retórico, um filósofo ou, ainda, um mágico – ele é, com efeito, um homem que não consegue deixar de denunciar a idiotice, o vício, o absurdo. E tem, sem sombra de dúvida, os seus próprios padrões – de natureza meramente pessoal ou social, de cariz político, teológico, moral, estético, metafísico etc – em função dos quais formula o seu juízo, ainda que na sua escrita esses padrões permaneçam implícitos e não explícitos. Para denunciar, ridicularizando na maioria dos casos as imperfeições do homem, o autor satírico tem necessariamente de ter consciência do que é – para si, pelo menos – desejável porque ‘perfeito’ (CATZ, 1978, p.108). A sátira vem com o intuito de apontar para aquilo que não ‘anda’ corretamente. Mas ela não faz milagres. Não tem a capacidade nem a incumbência de consertar o mau funcionamento de algum serviço, ou corrigir a atitude equivocada de um político. Ela tem, sim, a oportunidade de abrir espaço para que a irregularidade seja vista. A partir da atuação da sátira, dando visibilidade às falhas, é que o público, o cidadão, toma ou não as atitudes cabíveis diante dos problemas que o acometem. Quando Rafinha Bastos desenvolve o seu Proteste já, a idéia é essa. Ele não vai para solucionar o problema na prática. Mas põe o servidor político em uma situação de tomada de atitude mais eficaz. Ele se vê pressionado indiretamente pelo povo através da sátira produzida pelo jornalista, e vai em busca de resultados que satisfaçam a população. Tudo isso, para não mais se ver em condição perigosa, de reprovação popular, o que pode lhe causar a perda de apoio social e político. A função da sátira é denunciar os vícios da sociedade, e isso não precisa ser seguido necessariamente de comicidade. Além do mais, alerta Propp, seu propósito é denunciar e não curar ou corrigir os erros, pois, se assim fosse, seria fácil curar o alcoolismo ou a marginalidade, fazendo as pessoas assistirem a um espetáculo satírico. Seu significado está em mobilizar aqueles que ficam indiferentes diante dos vícios, criando uma reação para não compactuar com o que vem sendo satirizado (ALMEIDA, 2001, p.35). Sobre isso, em entrevista ao autor em 07/10/2008, Bastos afirma que “o objetivo do Proteste já é motivar as pessoas a buscarem os seus direitos, a lutarem pelo que é seu. Ele não tem o objetivo de solucionar problemas. Eventualmente, isso acontece, mas a idéia é incentivar as pessoas a tomarem decisões e fazer as autoridades aceitarem a população”. No jornalismo idealizado pelo Custe o que custar a sátira é predominante nas investidas dos ‘profissionais de preto’. Embora haja matérias que privilegiem o entretenimento, as reportagens de cunho social avalizam a proposta do semanal. A participação do programa no Congresso Nacional é clássica para expressar este exemplo. Especialmente Danilo Gentili toma os corredores do Senado e da Câmara e entrevista políticos sob um tom que mescla ironia e sátira. Rafinha Bastos também põe essa tática em funcionamento no seu Proteste já. Primeiro, Rafinha é irônico, principalmente quando pergunta algo ao homem público que este e aquele já sabem. Por sua crítica habitar esta artimanha e mesmo o que não foi dito informar o público sobre uma deficiência, a sátira cumpre o seu papel de ‘tirar sarro’ do político mentiroso e mau servidor e, de quebra, abre a possibilidade à sociedade de descobrir o que estava encoberto por motivos de interesse e conveniência. O papel social do quadro é contemplado nesta medida. No desenvolvimento do seu tema, o autor recorre à totalidade de estratagemas pelos quais o autor satírico alcança os seus fins – a ironia, o burlesco, o segundo sentido, a alegoria, a fábula, o subterfúgio, as chaves, a obscuridade de dicção etc – todos os artifícios de dissimulação, que tornam fascinante o estudo da sátira e, tantas vezes, levam a tamanhas confusões. As características essenciais da sátira, de um modo muito amplo e geral, são: um ataque ou censura ao homem ou às suas tolices; um significado essencial que não coincide com o que resultaria duma interpretação estritamente literal; uma distorção por meio de abrandamento (litoles) ou do exagero (hipérbole); uma abordagem do tema que é mordaz, audaciosa ou grotesca; um efeito diminuidor do objeto da sátira; um domínio da obra pelas técnicas da sátira (CATZ, 1978, p.106-107). A sátira não tem ‘papas na língua’. O humor pode ser brando, pode vir com o intuito de divertir o espectador, sem ter um compromisso público mais robusto. Às vezes, o humor faz o leitor, o ouvinte ou o telespectador rir, e nada mais. O que vale são as horas de descontração. A ironia também não é obrigatoriamente informativa. Ela pode ser encontrada na forma de gracejos. Seu fim não é informar. Pode até ser, e se for, melhor para quem a acompanha. Porém, não se trata de condição sine qua non. Com a sátira é diferente. Se nela há sempre a crítica, seu sentido fundamental foge à superficialidade. É comum a ela criticar, informar. É a mensagem, jornalística ou não, acompanhada pelo humor. Neste caso, a irreverência é um adendo à notícia, um enfeite ao que necessita ser dito à sociedade. O gracejo não é um fim concreto, mas um instrumento de atração. O chamativo à notícia não é configurado pelo sensacionalismo, mas sim pelo humor. Eis o satirismo jornalístico. A estrutura da sátira é essencialmente uma montagem, ou uma moldura, para mostrar, realçando, uma determinada coisa. De um modo geral, a forma satírica é tudo o que sirva para pôr a descoberto uma sucessão de aspectos diferentes dum mesmo assunto, ou sujeito, que é o objetivo da denúncia, com um pequeno nicho reservado, algures, para uma indicação do bem de que (o objetivo denunciado) é o oposto (PAULSON apud CATZ, 1978, p.183). A denúncia, a fiscalização, pode ser feita de diversas formas. O Jornal Nacional faz de um jeito, assim como o próprio Jornal da Band, ambos no horário nobre da televisão. O CQC, em conteúdos de natureza política, passa pelo mesmo processo de investigação, apuração. O método utilizado para publicar o fato muda, e, por tudo o que discutimos e ainda diremos, é impossível desprezar a sua legitimidade. 2.4 Piadas e Caricaturas Fora as sátiras e ironias, outras modalidades de humor se fazem presentes nas iniciativas dos profissionais desta área. A piada pode ser considerada outro carro-chefe das investidas humorísticas. E ela está passível de possuir dois teores. Se o humor como entretenimento for privilegiado, a piada vem apenas para fazer o ouvinte rir, divertir-se. Caso o humorismo tenha um fundo social mais amplo, suas intromissões não só provocarão o riso, mas também irão despertar o olhar do cidadão para uma crítica pertinente ao meio em que vive. O quadro Proteste já é especialista nisso. Ao mesmo tempo em que diverte o público com suas piadas, oferece ao mesmo notícia. A piada vem como pano de fundo da informação, visto que a notícia norteia a atuação de Bastos, e não a piada. Como poderá ser notado no capítulo seguinte, a apuração conduz o trabalho do repórter diante do fato. É importante ter a transmissão de mensagens da maneira mais convencional, pautada pela seriedade. Mas o modelo com humorismo também tem seu espaço resguardado por produzir efeitos distintos à população. Uma piada é uma forma de miniarte verbal destinada a provocar o riso. É originalmente oral, contada a um grupo fechado, por isso em prosa, tratando das contingências e tensões da vida comum. É uma narrativa breve de alguma adversidade curiosa, incongruência ou réplica inteligente, personificando e atraindo grupo de pessoas de gostos parecidos. Integra, portanto, a cultura mais geral do humor em uma sociedade e é, até certo ponto, um indicador do que nela se entende como engraçado. (...) A natureza de uma piada é promover o humor e a harmonia do grupo que compartilha dela e seus pressupostos implícitos. Qualquer grupo, pela própria existência, pressupõe e pode deliberadamente excluir estranhos; quase todas as piadas tradicionais, por mais curtas que sejam, caçoam de uma vítima que é ou passa a ser estranho (BREWER, 2000, p. 133). Além do CQC, quem faz esse tipo de trabalho é o Casseta & Planeta, da Rede Globo. Mesmo não se considerando um programa jornalístico, os cassetas produzem um humor informativo. Eles variam entre a paródia – que trataremos no capítulo seguinte – e a caricatura – que será abordada logo mais. Com o slogan humorismo verdade, jornalismo mentira, a produção global presta dois serviços aos telespectadores: lazer e informação. Sem jamais perder a irreverência, os atores satirizam, dentre outros elementos, a política brasileira. Independente do presidente ou da sigla partidária que o acompanha, o programa também se mostra crítico à má utilização do poder público pela instituição política. Nas palavras de Cláudio Manoel, um dos idealizadores e integrantes da trupe do Casseta, fica subentendido que a função do semanal é diferente da do CQC, mas que o programa acaba atingindo tal objetivo, mesmo sem ser jornalístico. (Cláudio Manoel) O humorista já tem uma natural arrogância, mas não fica mais engraçado com isso. As pessoas nos param para falar que gostam do nosso programa porque informamos, despertamos as pessoas para questões sociais e políticas. Trata-se de uma etapa posterior ao riso. Despertamos porque as piadas são legais, porque as pessoas viram e refletiram sobre aquilo (GONÇALO JUNIOR, 2001, p.65-66). Só que a arte de contar piadas não é restrita a programas televisivos da modernidade. Bem antes deles, mais precisamente na Antigüidade Romana, a bufonaria já se apropriara do método de contar piadas para distrair a realeza romana. Em tempos de constantes guerras por que passara o Império Romano, os contadores de piadas eram requisitados para promover o entretenimento exclusivamente à classe mais privilegiada, à corte. Neste âmbito, podemos destacar o papel do bobo da corte, que não somente contava piadas, mas encenava, incorporava papéis para dar mais vivacidade ao seu trabalho. Em produções televisivas é possível observar que no período de vida de Cristo, mais precisamente quando já era visto com maus olhos pelos governantes de Roma, as encenações engraçadas eram utilizadas e vistas nos palácios da aristocracia daquele local. Os bufões usariam livros de piadas. Uma de nossas fontes sobre os ‘sessenta’ diz que Filipe pediu que as piadas fossem copiadas, o que sugeriria um tipo de livro de piadas, mas outra fonte menciona que ele apenas pediu que elas fossem escritas. Assim, não podemos ter certeza absoluta da existência de livros de piadas na última metade do século IV, mas eles são confirmados pelo comediógrafo romano Plauto, que usou a comédia grega como sua fonte (BREMMER, 2000, p. 34). Não é à toa que as piadas ganham o apreço do público desde Roma Antiga. Por cativar o interesse do público e conseguir distraí-lo das tensões do cotidiano, as piadas têm repercussão considerável no meio social. Por isso, é viável introduzir em suas investidas o caráter político. Mesmo perdendo em leveza, ganha em informação, o que confere maior importância ao conteúdo. A piada que o CQC propõe tem descendência no stand up comedy. Essa espécie de humor requer rapidez. Como a maioria dos jornalistas do Custe o que custar provém deste ramo teatral, as entrevistas sempre contam com a perspicácia nos comentários e a réplica de uma resposta do entrevistado em forma de pergunta. As piadas acabam por atingir o inesperado do telespectador. Talvez o segredo do sucesso esteja na velocidade adquirida pelas piadas. Parece haver muito riso sem piadas durante os primeiros contatos entre o antropólogo e a comunidade anfitriã, na tentativa de se superar uma situação que pode ser embaraçosa, incômoda e atordoante para as duas partes. Ambas as partes encontram no riso uma área comum de comunicação e um alívio para a tensão inerente à situação. O riso torna suportável o insuportável (DRIESSEN, 2000, p. 262). Inesperado é sinônimo de fator surpresa. Uma das condições básicas para que o riso se manifeste é a ocorrência do súbito. Por exemplo: se mesmo em um programa de humor ouvimos uma fala que já esperávamos, mesmo que muitos riam, nós não acharemos graça. Quem riu, achou cômico, pois não esperava ouvir o que foi dito. Não rimos porque o fator surpresa, para nós, foi nulo. “Eis que reaparece a relação entre o riso e o impensável, ou mais especificamente entre o riso e a ‘não-linguagem’. O riso de Foucault é provocado por um ‘não-lugar’: um espaço aonde o pensamento não chega e onde a linguagem não pode manter juntas as palavras e as coisas” (ALBERTI, 1999, p. 16). Um modo contundente de se fazer piada é por meio de charges e caricaturas. Aquela costuma ser mais crítica que esta. A charge pode vir acompanhada de um diálogo e descreve ou desenha uma situação polêmica. É normal o fato de acontecimentos políticos ganharem destaque e repercussão nas charges dos jornais impressos diários. É outra forma de informar e criticar com bom humor. Na TV, o programa Roda Viva12, da Rede Cultura, mostra ao vivo o cartunista Chico Caruso fazendo suas artes durante o programa. A caricatura contém menos crítica. Ela vem mais para despertar o riso no apreciador desse tipo de desenho. O que a caricatura faz é realçar as características mais evidentes de alguma personalidade com repercussão na sociedade. Se o presidente da República tem um topete destacável, na caricatura o penteado ganha contornos ainda maiores. Se um artista tem a cabeça maior que o habitual ou um nariz que é visivelmente maior que um tamanho padrão, esses elementos corporais serão encampados pelo caricaturista. Entende-se agora a comicidade da caricatura. Por mais regular que seja uma fisionomia, por mais harmoniosa que suponhamos serem suas linhas, por mais graciosos os movimentos, seu equilíbrio nunca é absolutamente perfeito. Nela sempre se discernirá o indivíduo de um vezo que se anuncia, o esboço de um esgar possível, enfim uma deformação preferida na qual se contorceria a natureza. A arte do caricaturista é captar esse movimento às vezes imperceptível e, ampliando-o, torná-lo visível para todos os olhos. [...] Sem dúvida é uma arte que exagera, mas define-a muito mal quem lhe atribuiu o exagero por objetivo, pois há caricaturas mais parecidas com o modelo do que o são os retratos, caricaturas nas quais o exagero mal é perceptível: e, ao contrário, pode-se exagerar ao extremo sem obter um verdadeiro efeito de caricatura (BERGSON, 2007, pp. 19-20). Como afirma Jolles (1976, p.216), a caricatura é, também, uma forma de chiste13, que, segundo Freud, “nos permite explorar no inimigo algo de ridículo que não poderíamos tratar aberta ou conscientemente, devido a obstáculos no caminho; ainda uma vez, o chiste evitará as restrições e abrirá fontes de prazer que se tinham tornado inacessíveis” (1996, p.103). A caricatura não reproduz fielmente o fato. A partir da abordagem feita, ela enaltece os traços mais marcantes. É exatamente isso que o humor faz. O CQC, tendo em seu corpo abertura para humor e jornalismo, destaca o fato sob uma abordagem alternativa. 12 Há quase 24 anos, o programa de entrevistas exibido todas as segundas-feiras, a partir das 22 horas, traz para serem sabatinadas por profissionais da TV Cultura e de outros veículos de comunicação personalidades importantes da política, economia, cultura, esportes e mídia, sejam elas do Brasil ou do exterior. 13 Segundo Freud (1996, p.19), chiste é a “habilidade de encontrar similaridades entre coisas dessemelhantes, isto é, descobrir similaridades escondidas”. Ainda seguindo Freud, “um chiste tendencioso requer três pessoas: além da que faz o chiste, deve haver uma segunda que é tomada como objeto da agressividade hostil ou sexual e uma terceira na qual se cumpre o objetivo do chiste de produzir prazer” (1996, p.100). CAPÍTULO III CQC – POLÍTICA E HUMOR NA TV 3.1 Histórico de programas jornalísticos e humorísticos na TV brasileira O ano de 1950 marca o início das transmissões televisivas no Brasil. Junto com ele, os programas de jornalismo também vieram à tona. Em setembro do mesmo ano, a TV Tupi levou ao ar o primeiro telejornal brasileiro: Imagens do dia. Dois anos depois, em abril, vai ao ar a primeira edição do Repórter Esso, uma herança radiofônica, que ficaria na TV até 1970. Em 1963, estréia na TV Excelsior o Jornal Excelsior, programa que dois anos adiante fora transferido para a TV Tupi, sob o nome Jornal de Vanguarda, indo mais tarde para a programação de outras emissoras. Em setembro de 1969, vai ao ar o Jornal Nacional, primeiro telejornal exibido em rede e ao vivo. É transmitido para Brasília e mais oito Estados da região Centro-Sul. Em 1971 acontece a estréia do Jornal Hoje. Seis anos mais tarde, surge o Bom Dia São Paulo, que origina, em 1983, o Bom Dia Brasil. Em setembro de 88, é lançado em São Paulo, pelo SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) o TJ Brasil. Em 1996, iniciam-se as transmissões da Globonews, primeiro canal de notícias 24 horas. No ano seguinte, a Band levou ao ar o Jornal da Band. Em março de 2001 estréia a Bandnews, canal também a cabo que se dedica, durante todo o dia, a notícias14. No ramo dos programas de humor, a TV brasileira conheceu uma diversidade extensa de atrações e artistas que se destacaram na categoria. Após pesquisa realizada no portal de vídeos youtube, selecionamos os humorísticos de destaque no Brasil, desde os anos 50. Sem compromisso com a ordem cronológica, os conteúdos vinculados ao humor são os seguintes: Balança mas não cai; Faça humor, não faça guerra; Família Trapo; Satiricom; Praça da Alegria; A grande família; Os trapalhões; Chaves; Chapolin; Vivo o gordo; A Praça é nossa; TV Pirata; Chico Anysio Show; Casseta & Planeta; Escolinha do Professor Raimundo; Sai de baixo; Chico Total; Zorra Total; A Diarista; Show do Tom; A Turma do Didi; Pânico na TV; Rock Gol; Tomaladacá; Hermes e Renato; 15 minutos; e CQC (Custe o que custar). 14 Mescladas, as informações foram extraídas do portal www.mundodatv.com.br, publicadas em 16/02/2010, tendo o acesso sido feito em 20/02/2010, às 9h30min, e do livro Jornalismo de TV, Editora Contexto, (BACELLAR, BISTANE, 2005, pp.121-128) 3.2 CQC: Ponto de partida Sedenta de humor engajado, a televisão aberta do Brasil, há tempos, não presenciava um trabalho de tão boa qualidade. Acostumados, nos últimos anos, a acompanhar programas que julgam ser de humor, o que não se confere em demasia na prática, os telespectadores tiveram de conviver com a deturpação da concepção de humorismo. Sem qualquer fundo social, teor este que combina com o trabalho humorístico de protesto, conceberam-se conteúdos pouco alinhados às questões sociais mais relevantes. A graça tinha um fim mais louvável em décadas anteriores, levada adiante por atores competentes, como Paulo Gracindo e Brandão Filho, protagonistas do quadro “Primo rico e primo pobre”, no programa Balança mas não cai, de 1982. O expoente da programação atual, que traz pouco – ou quase nada – da ‘geração dos primos’, é o Zorra Total. Adepto de quadros que não refletem as peculiaridades sociais, o programa da Rede Globo, transmitido aos sábados após a principal telenovela da emissora, é um amontoado anacrônico de personagens em cena. Além do engajamento nulo, a atuação dos atores é pautada pelo atropelamento de diálogos profanados em voz muito alta. Normalmente, beira a gritaria, o que torna tudo ainda mais cansativo e de baixa qualidade. No entanto, ao que parece, caiu no gosto do público. O conteúdo que caminha na contramão do modelo global é o CQC, Custe o que custar15, da Rede Bandeirantes. Veiculado às segundas-feiras, às 22h15min – uma reprise é transmitida aos sábados, por volta da meia-noite –, o programa foi uma grata surpresa que surgiu na televisão brasileira no ano de 2008. Em março, mês de sua estréia, e nos dois meses subseqüentes, o CQC não emplacou e patinou nas estimativas de audiências. Compreensível, pois a proposta e a forma fugiam daquilo que se conhecia por humor. A partir de meados de 2008, o CQC passou a registrar índices que o credenciaram a um posto entre os programas mais assistidos da Band. O 11º programa "CQC" conseguiu, ontem (26), uma façanha: dobrou a audiência da Band nas noites de segunda-feira. A atração, que estreou em 17 de março deste ano com três pontos de média, marcou ontem sua maior audiência: seis pontos de média, com pico de oito pontos, ficando em terceiro lugar no Ibope da Grande São Paulo. 15 O programa exibido pela Band, desde março de 2008, foi inspirado no modelo argentino do CQC, criado em 1995. (Publicado em 27/05/2008, às 12h50min, no portal Folha Online. Acesso em 13/07/2008, às 17 horas). Há quem, especialmente no início, não gostasse da proposta empreendida pelo Custe o que custar. Márcio Alemão, colunista do portal “Terra”, emitiu luz sobre algumas deficiências que o semanal apresentou inicialmente e que, como características da publicação, ainda permanecem. O programa tem virtudes, mas antes de enumerá-las, vale um destaque para a câmera que fica no palco, nos apresentadores: é péssima, é velha e violentamente irritante. Diria que fazia muitos anos que não via alguém fazer um trabalho tão equivocado com uma câmera. Talvez explique os 2 pontos de audiência. (...) Ainda assim, repito que o nível do CQC é bem melhor e sinceramente espero que a inteligência dos apresentadores e criadores se manifeste mais fortemente. Mas se a câmera do palco for mantida, o fracasso está garantido. (Publicado em 24/03/2008, às 7h56min. Acesso em 13/07/2008, às 17h15min). Outro que apresentou ressalvas sobre o programa foi Daniel Taubkin, em texto publicado no portal “Observatório da Imprensa”. Confesso que não deu pra rir de nada, basicamente o que vi foi uma espécie de humor papparazzo ou humor "de balada", (com um vestuário dejavu inspirado nos Blues Brothers do maravilhoso John Belushi), um humor metido a low profile, humor "publicitário", humor society, humor blog, ou youmore cover, pois o programa é um clone de um original platino. Ele consiste, essencialmente, em encontrar, extrair comicidade, enchendo o saco do entrevistado. Os textos são fraquinhos, os atores/repórteres, então... (Publicado em 08/04/2008. Acesso em 13/07/2008, às 17h25min). Não se trata, porém, de um programa de humor, apenas. O CQC faz jornalismo também. Ou seja, o Custe o que custar alia a crítica e a publicação de assuntos de interesse social com a irreverência do cômico. Isso lhe confere uma face peculiar e alternativa. Jornalismo, apontando para o convencional, remete-nos à formalidade e ao discurso ‘sério’. O programa vai de encontro a essa idéia. Todos os jornalistas são vestidos com terno e gravata. Entretanto, as falas dos âncoras e repórteres são permeadas por piadas em meio à contestação. Não podemos esquecer que o INFOtenimento é sinônimo de jornalismo ético, de qualidade e que, por isso, não deve ser tomado como um jornalismo menor por explorar o entretenimento. Devemos admitir que a atividade jornalística tem, sim, a função de divertir (apesar de quase sempre ser apresentada ao público como algo sem humor e pesado). Esse papel interage perfeitamente com a sua função de órgão fiscalizador, que promove a sociedade e os seus cidadãos (DEJAVITE, 2006, p.89). A mescla entre estilo humorístico e práxis jornalística, aparentemente opostos, faz do CQC um fomentador do INFOtenimento. Nas palavras de Fábia Angélica Dejavite, pode-se levantar alguns apontamentos acerca do método utilizado pelo conteúdo pesquisado. Segundo a autora, esse acréscimo de matérias que entretêm fez surgir uma das mais recentes especialidades jornalísticas, chamada jornalismo de INFOtenimento (isto é, aquele conteúdo editorial que fornece informação e diversão ao leitor e, ao mesmo tempo, constitui uma prestação de serviço). Por ser híbrido, encontra-se fracionado, aparecendo ora implícita, ora explicitamente (DEJAVITE, 2006, p.15). Ricardo Kotscho, jornalista e autor de A prática da reportagem, fala sobre o jornalismo e as diversas maneiras de conduzi-lo. “Pode-se fazer uma reportagem de mil maneiras diferentes, dependendo da cabeça e do coração de quem escreve, desde que essa pessoa seja honesta, tenha caráter, princípios” (1995, p.8). Aliando ambos, jornalismo e humor, está composta a sátira. A sátira é uma crítica feita sob um discurso humorado. É semelhante ao que a charge faz, principalmente nos jornais impressos. É feito um recorte da realidade, em especial de uma temática de interesse público e que despertou polêmica junto à opinião popular, e esse tópico editado é ornamentado por características que levam o leitor a achar graça daquilo que vê. No entanto, não se perde a crítica. O que ocorre, pois, é o enaltecimento da contestação feita pelo veículo através do humor. Convirá ter em atenção que a sátira é por nós considerada como um gênero literário formal possuidor de características uniformes de técnicas, motivação e espírito. No consenso geral dos críticos literários, o conteúdo e espírito orientador da sátira é a crítica, sendo o seu propósito o de reformar. E, na medida em que procura persuadir a fim de reformar, os seus objetivos são retóricos. O que quer que de indefinível o satirista for – um retórico, um filósofo ou, ainda, um mágico – ele é, com efeito, um homem que não consegue deixar de denunciar a idiotice, o vício, o absurdo. E tem, sem sombra de dúvida, os seus próprios padrões – de natureza meramente pessoal ou social, de cariz político, teológico, moral, estético, metafísico etc – em função dos quais formula o seu juízo, ainda que na sua escrita esses padrões permaneçam implícitos e não explícitos. Para denunciar, ridicularizando na maioria dos casos as imperfeições do homem, o autor satírico tem necessariamente de ter consciência do que é – para si, pelo menos – desejável porque ‘perfeito’ (CATZ, 1978, p.108). A característica de aliar humor e jornalismo é uma tentativa de criar o diferencial, em um novo contexto de avanços tecnológicos e mudanças de hábito que se instauram a cada momento. Marcelo Tas, apresentador, em entrevista a Vanessa Lima, André Sender e Samanta Lobo fala sobre o espaço que o CQC veio ocupar. Eu acho que tudo deve ser reinventado hoje. Estamos vivendo uma transformação muito radical. O consumidor, telespectador, todos hoje não têm mais tempo para perder com bobagem, por conta de todas as oportunidades de acesso à informação que temos, se você não se reinventar você não comunica mais com essa nova geração. O jornalismo, como é a arte que conta as histórias que estão acontecendo, se não se reinventar não vai conseguir falar com essa moçada (Publicado no portal MSN, sem data registrada. Acesso em 13/07/2008, às 17h50min). Ao trazer o humor para o espaço jornalístico – e, às vezes, o inverso –, o CQC fica à margem do óbvio, do costumeiramente visto. Não deixa de ser uma alternativa para conquistar mais audiência, na medida em que manter o modelo cultivado por outras emissoras ou pela própria Band seria repetir o comum. Também, é justo reconhecer a iniciativa e o duro caminho que é desbravar o desconhecido ou o pouco usufruído. Mesmo se tivesse em pauta os mesmos assuntos dos principais jornais e telejornais do país – e não tem – falar o que todos falam, mas de uma forma única, seria motivo suficientemente agradável para sondar o que se passa. Alguns programas que têm este efeito são de formato simples, mas revelam-se diferentes das habituais emissões populares quer no tema, quer no estilo de apresentação. A sua virtude consiste no facto de prenderem a atenção, transmitindo a idéia de que há algo que vale a pena descobrir. Mais importante do que a variedade e a novidade é a não-trivialidade (LOPES, 1997, p. 47). A idéia de se buscar um diferencial está voltada para a demanda social que emerge em uma nova conjuntura da televisão no Brasil. O modelo de apresentação de notícias e reportagens não é próprio da TV. Nasceu no jornal impresso, mas foi no rádio que aderiu às características atuais, muitas delas reproduzidas de maneira idêntica na mídia do século XX. Arrisquemos um teste. Em qualquer telejornal diário, deixemos de atentar à tela. Façamos outras atividades enquanto ouvimos o noticiário. Com raras exceções, será possível captar as informações, mesmo sem designar atenção especial ao que é transmitido. Isso acontece porque a maneira como a TV emite seus conteúdos jornalísticos assemelha-se ao da rádio, veículo no qual não necessitamos prestar atenção visual. Com o Custe o que custar essa dinâmica muda. Seria incômodo apenas ouvir uma matéria do programa, posto que suas reportagens vêm acompanhadas de efeitos sonoros e visuais16 e, além disso, não possui o discurso direto das demais emissoras e telejornais. Caso não seja viável assistir ao que se passa, não é impune somente ouvir o que é dito. Mesmo os efeitos sonoros, que subentendem chamar atenção do sentido audição, ficariam incoerentes. Eles estão em harmonia com a imagem e com a fala, muitas vezes metafórica e irônica do jornalista, pedindo notoriedade. A emergente mudança nos processos e no papel que o jornal diário impresso de referência desempenha na sociedade objetiva o êxito mercadológico, procurando adequar seu conteúdo às necessidades dos leitores. O público, cidadão da sociedade da informação, valoriza não somente o conteúdo informativo e o entretenimento, mas ainda a forma como a notícia é veiculada (DEJAVITE, 2006, p.65). O CQC, por ser um programa que converge jornalismo e humorismo, busca se manter longe das tendências dramáticas que o âmbito jornalístico, em oportunidades diversas, vê sobrepor ao critério informacional. Drama ou sensacionalismo é inserido em meio às abordagens noticiosas com o intuito de cravar mais audiência, por abordar o lado sentimental do público. Tal artifício é transmitido por meio de textos excessivamente piedosos, melodias melancólicas ao fundo e imagens que apontam para o sofrimento alheio. O humor pode, sim, afastar as pessoas da crítica. Há quem diga que, ao rir, o indivíduo se afasta daquilo que requer seriedade e é só por meio dela que as problemáticas mais gritantes podem ser solucionadas. Mas isso acontece no humor que não possui vínculo político. No caso analisado, nas matérias que promovem questionamentos a representantes brasileiros e até de outros países latino-americanos o riso é uma forma de acatar a crítica feita. É entender a sátira, pois aquilo e aqueles que nos afrontam são colocados à mercê do ridículo, mostrando-nos suas deficiências e ilicitudes. Enfim, o entretenimento pode ser analisado de diversas maneiras, seguindo as mais variadas áreas do saber. De modo geral, é entendido por meio de duas visões: há, de um lado, aqueles que o vêem como um instrumento de manipulação e alienação, em prol de determinadas ideologias; e, de outro, os que o tomam sob um prisma utilitarista, considerando-o como algo que possa contribuir para o 16 Eles servem de “alegorias”, vêm com o intuito de destacar uma fala, ação ou informação sem perder o humor. O barulho de grilos cantando é inserido quando o entrevistado fica em silêncio; algum tema musical é tocado para representar uma personalidade ou suas idéias. Exemplo: quando o ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, é entrevistado, no momento do seu depoimento é posta, como fundo, a música d’O Poderoso Chefão. Quando alguém se intimida com uma pergunta, a face do entrevistado “ruboriza”. Quando fica pensativo, seu cérebro “ganha movimento” de algo pensante. Entre outras inserções que complementam a fala de entrevistador e entrevistado. Algumas inserções desta natureza poderão ser vistas na mídia digital (DVD) em anexo. desenvolvimento do indivíduo [...]. Mas, incontestavelmente, conduz a pessoa para uma nova realidade mais criativa, e deve, portanto, ser considerado como algo tão importante quanto a informação, a educação e a comunicação, pois pode perfeitamente interagir com todas as áreas (DEJAVITE, 2006, p.50). Conteúdos jornalísticos, especialmente em grandes reportagens, costumam se utilizar desses artifícios para cativar uma fatia maior do público. Nos programas de variedades, arriscando investidas a partir do jornalismo, também conta histórias ‘sensacionais’, ainda com maior intensidade e profundidade no drama em questão. Sempre com uma boa intenção aparente, ao solucionar problemas familiares, financeiros e de moradia, é preciso não fechar os olhos para os anseios midiáticos apelativos, pois passa a impressão de que, caso a audiência não houvesse, as iniciativas beneficentes não ocorreriam. “O princípio de seleção é a busca do sensacional, do espetacular. A televisão convida à dramatização, no duplo sentido: põe em cena, em imagens, um acontecimento e exagera-lhe a importância, a gravidade, e o caráter dramático, trágico” (BOURDIEU, 1997, p. 25). Antes de jornalistas, boa parte do elenco veio do teatro17. Mais precisamente do Stand-up Comedy18. Esse gênero de humor compreende a participação do artista em um palco contando piadas ou construindo-as de improviso. Isso requer criatividade e velocidade de raciocínio aguçadas. O Stand-up Comedy é um estilo de se fazer humor proveniente dos Estados Unidos e que vem caindo no gosto do público aqui no Brasil, embora muito sutilmente. É o ônus que se paga por ser um projeto desenvolvido no teatro, arte pouco difundida e aceita no país. Elisabetta Zenatti, diretora de programação e artístico da Band, em declaração para o Portal Imprensa, conta sobre o processo de produção inicial e a importância de muitos dos integrantes terem vindo do teatro. Essa foi uma das escalações mais difíceis que fizemos, porque esse elenco precisava ter vários atributos específicos. Era fundamental ter ótimo conhecimento geral e humor na veia, além de muita coragem e improviso para enfrentar as situações. Duas outras preocupações foram não escolher pessoas com o mesmo tipo de humor e buscar profissionais sem vícios, que não fossem conhecidos na TV, apesar de experientes. Alguns deles, inclusive, são destaque da comédia 17 Marcelo Tas, Rafinha Bastos, Rafael Cortez e Felipe Andreoli são jornalistas, sendo que Bastos e Cortez também trabalham no teatro. Marco Luque, Oscar Filho e Danilo Gentili são provenientes da Stand-up Comedy, sendo Gentili formado em Publicidade. 18 Ao pé da letra, Stand-up Comedy significa Comédia em pé. E é dessa forma que o ator se coloca perante o público para contar um sem número de piadas. stand up aqui no Brasil (Publicado em 17/03/2008, às 15h15min. Acesso em 13/07/2008, às 18 horas). Conhecida como “humor de cara limpa” a Comédia Stand-up19 privilegia o talento do artista. Marcado por estar sozinho no palco e em pé, o ator, munido de um microfone, menciona uma coletânea de piadas que vão entretendo o público. Isso faz com que haja uma interação entre platéia e comediante, e o humor passa a pautar a relação entre quem fala e quem ouve. Esse tipo de comediante não é adepto de anedotas (piadas conhecidas pelo público). Através da sua experiência pessoal cotidiana, ele elabora seus textos, fazendo com que a graça se situe em passagens que possam compreender o dia-a-dia de qualquer espectador. O fato de alguns integrantes terem nascido no teatro, na comédia, dá ao jornalismo do Custe o que custar um diferencial, em relação às matérias dos telejornais tradicionais. As reportagens do CQC são dinâmicas e isso se deve à maneira como a informação é passada, por meio do humor. O dinamismo apresenta-se na forma de investidas velozes, tanto da parte do entrevistado como de quem pergunta. Nesse sentido, se há dúvidas quanto à fração jornalística do CQC, em especial do Proteste, a análise de Nilson Lage demonstra que o quadro segue os prognósticos de um material (reportagem) jornalístico. Com exceção dos resultados eleitorais ou de votações, a reportagem estritamente política baseia-se em entrevistas, com ou sem identificação dos entrevistados. Essas entrevistas tratam de processos políticos em si (denúncias, sempre abundantes e que se amiúdam em tempos de crise ou perto de eleições; a organização de partidos; a constituição e o funcionamento de comissões parlamentares etc.) ou refletem questões não estritamente políticas, tais como problemas de saúde pública, aspectos da administração, da economia etc. O nível da análise admitido consiste em contextualizar declarações e os fatos a que se reportam (LAGE, 2008, p.116). Se a informação jornalística é o espaço privilegiado da reportagem especializada, e, sendo assim, uma peculiaridade dela é destinar-se a públicos mais ou menos heterogêneos (LAGE, 2008, p.113), a espécie de trabalho que é desenvolvida no Proteste já diz respeito ao jornalismo especializado em política, lembrando que [...] um repórter de política nacional, por exemplo, não precisa ser um cientista político (e, se for, usará em seu trabalho muito pouco da ciência política que aprendeu), mas deve dispor do máximo de informações sobre a história recente, a organização do Estado e natureza dos fatos políticos (LAGE, 2008, p.111-112). 19 É relevante mencionar que o CQC reproduz muito pouco da Comédia Stand-up. A herança aderida pelo programa é o improviso. Em situações incontáveis, o entrevistador propõe trocadilhos ou ironias para sondar o alvo da crítica, normalmente um político. Em casos também inúmeros, o entrevistado não é capaz ou se nega a responder. O efeito do silêncio é engraçado e diz muito, falando e esclarecendo mais do que no jogo comum de pergunta e resposta. Neste caso, a velocidade é rival de quem está na berlinda, mas não do público. Ao se utilizar de efeitos visuais, sonoros e da edição, o programa traz o telespectador para o tempo certo da pergunta ou piada. Eu dizia ao começar que a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento. Estabelecia um elo, negativo, entre a urgência e o pensamento. É um velho tópico do discurso filosófico: a oposição feita por Platão entre o filósofo que dispõe de tempo e as pessoas que estão na ágora, a praça pública, e que são tomadas pela urgência. Ele diz, mais ou menos, que, na urgência, não se pode pensar. É francamente aristocrático. É o ponto de vista do privilegiado que tem tempo, e que não se interroga muito sobre seu privilégio. Mas este não é o lugar de discutir esse aspecto; o certo é que há um elo entre o pensamento e o tempo. E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão das relações entre o pensamento e a velocidade (BOURDIEU, 1997, pp. 39-40). Para quem confunde o estilo do CQC com o do Pânico na TV20, a diretora tem uma justificativa para diferenciar as duas produções. Para Zenatti, “o 'CQC' é o programa de humor mais irreverente da TV brasileira na atualidade. Fazemos um humor elegante, mesmo nos momentos mais fortes. O programa tem um quê de Michael Moore [cineasta americano]. O programa ataca claramente os políticos e presta serviço. Essa é nossa diferença. Não queremos só 'zoar'” (Publicado em 27/05/2008, às 12h50min, pelo portal Folha Online. Acesso em 13/07/2008, às 13h40min). Se a função do jornalismo é dar visibilidade a assuntos de relevância social, o humor é um instrumento que pode sofisticar e arrebatar a denúncia. O humorismo não é útil, apenas, para produzir no público uma sensação de relaxamento ou de êxtase após dar cambalhotas de tanto gargalhar. Serve para despertar, sob uma vertente alternativa, o interesse do público sobre uma pendência social, política ou cultural. Por natureza, o humor atrai o espectador, seja na TV, no cinema, no teatro ou no material impresso. 20 O formato migrou do rádio, mais precisamente da Jovem Pan, para a TV, em 28 de setembro de 2003. O programa consiste em quadros humorísticos interpretados pelos seus integrantes sob o comando de Emílio Zurita. O principal quadro da atração é formado pelos “repórteres” Vesgo (Rodrigo Scarpa) e Sílvio (Wellington Muniz). Eles invadem festas de famosos e entrevistam as pseudo-celebridades (Baseado em trecho do portal www.tudoemfoco.com.br. Acesso em 03/03/2010, às 14h50min). Atrelado ao jornalismo, o humorismo traduz a sua função social em entretenimento e conscientização. 3.3 O CQC argentino O Custe o que custar não é originário do Brasil. O modelo foi idealizado na Argentina, e hoje, além dos países vizinhos, Chile, Itália, Estados Unidos, Espanha e Portugal possuem seus respectivos formatos. A Eyeworks-Cuatro Cabezas, produtora argentina, detém os direitos de transmissão da atração. Na comparação entre brasileiros e argentinos, encontram-se diferenças e semelhanças. Se cada país possui cultura própria, é necessário que as adaptações sejam feitas para que o público se identifique com o conteúdo. Por isso, o CQC brasileiro mantém características idênticas às do argentino, para que a atração mantenha um perfil, porém sem deixar de atentar para a demanda de cada sociedade. Tanto no CQC da Argentina como no do Brasil, os integrantes se vestem de preto, carregam óculos escuros e questionam políticos, celebridades e pessoas do meio comum. Os efeitos sonoros, visuais e as piadas entremeando as falas dos entrevistados também são encontrados no CQC argentino, assim como no programa exibido pela TV Bandeirantes. Em ambos, os integrantes não se esquivam de entrevistas com personalidades ou cidadãos comuns de outros países. Porém, é importante frisar que os “homens de preto” do Brasil inquirem nos idiomas inglês e espanhol, enquanto os argentinos se restringem a falar uma Língua estrangeira, o inglês. Outra igualdade entre ambos é o símbolo do programa: a mosca. Nos dois, o inseto representa a essência do programa, a persistência e o incômodo incansáveis. Em comparação, segue a metáfora composta por Raul Seixas, Mosca na sopa, na canção em que diz ser “a mosca que pousou em sua sopa [...] a mosca que pintou prá lhe abusar [...] a mosca que perturba o seu sono [...] a mosca no seu quarto a zumbizar [...] e não adianta vir me dedetizar, pois nem o DDT pode assim me exterminar. Porque você mata uma e vem outra em meu lugar”. Assim como as semelhanças, as distinções são visíveis no paralelo entre os dois programas. No CQC brasileiro é nítida a manutenção de uma hierarquia na bancada. Enquanto na versão argentina os três praticamente dividem a atuação, sem que haja uma condução definida por parte do “elemento” central, na brasileira, Marcelo Tas é o responsável por dirigir a atração. Outra disparidade são os quadros. Entre ambos, os quadros em comum são o Top Five e o Proteste já. Enquanto isso, aqui existem ou já existiram outras variedade de quadros: Controle de Qualidade, Cadeia de favores, CQC Investiga, Teste de honestidade, entre outros. O Proteste, objeto de estudo desta pesquisa, é produzido em outros países, sem fechar os olhos para a demanda de cada um. O quadro também existe na Argentina e Chile, por exemplo. Trata-se do mesmo formato, com as peculiaridades de cada repórter e temas de cada país. Há também esse quadro na Espanha. É curioso perceber como são diferentes as pautas da América do Sul em relação às da Europa. Aqui geralmente reclamamos que não há hospitais, serviços médicos, pavimentação, esgoto, estradas, escolas. Já na Europa reclama-se, por exemplo, dos guard-rails da estrada, que são como guilhotinas para motociclistas. Isso mostra claramente as demandas dos países e a diferença entre o Primeiro e Terceiro Mundo. Imagino que na Suécia seria muito difícil fazer Proteste já. (Raphael Cerqueira, produtor do quadro, em entrevista a Dowglas Lima e Daniel Lopes, do portal www.amalgama.blog.br. Publicado em 25/11/2008. Acesso em 03/03/2010, às 15h05min) Os argentinos se dedicam às investidas de campo, sem distinção de gênero, enquanto no Brasil há diferenciações de atração, que são os quadros. No entanto, a maior distância entre as versões está no teor de cada um dos discursos. O Caiga quien caiga é mais ácido e incisivo do que o Custe o que custar. Mesmo sendo menos áspero, o CQC brasileiro recebeu elogios da matriz por fazer uma mescla que cativa o público. Do contrário, poderia cair no ostracismo. 3.4 O programa brasileiro A maneira alternativa de produzir e divulgar reportagens credenciou-lhe a angariar diversos prêmios, logo em seu ano primeiro na televisão. Fugindo dos padrões mais costumeiros de jornalismo e humor, o Custe o que custar protagoniza um material diferente inserido em uma fórmula televisiva já tão combalida e conhecida. Se em um primeiro momento o programa causou estranhamento – o que não deixa de ser bemvindo –, posteriormente deu-nos a possibilidade de acompanhar algo novo, fora das repetições costumeiras. A APCA (Associação Paulista dos Críticos de Artes) escolheu na noite de segunda-feira (8) os melhores artistas de 2008 em dez diferentes categorias, como cinema, dança, literatura e televisão. Na TV, o "CQC", da Band, levou o prêmio de melhor programa de humor, enquanto Patrícia Pillar ficou com o prêmio de melhor atriz por sua atuação em "A Favorita". (Trecho extraído do portal www.folhaonline.com.br, postado em 09/12/2008, às 19h11min. Acesso em 03/03/2010, às 15h15min). Marcelo Tas, elemento central do programa, faz uma análise sobre a viabilidade do CQC em relação ao público brasileiro. “Topei o convite da Band porque acredito que o nível de exigência editorial e qualidade técnica do 'CQC' é uma forma de aperfeiçoar o trabalho que faço na TV desde sempre. E também porque acredito ‘que o telespectador brasileiro esteja aberto e com vontade de mais irreverência e humor para ajudar a digerir as notícias absurdas dos nossos dias” (Publicado em 17/03/2008, às 15h15min, no Portal Imprensa. Acesso em 13/07/2008, às 15 horas). Composto por sete membros, somente o elemento central já era conhecido do público. Marcelo Tas, que já idealizou e vivenciou diversos personagens, como o Ernesto Varela21, na década de 80, e o Professor Tibúrcio 22, nos anos 90, é o âncora principal. Além dele, a bancada é composta por outros dois nomes: Rafinha Bastos e Marco Luque, ambos provenientes da Comédia Stand-up. A equipe de campo é formada por quatro jornalistas: Felipe Andreoli, Rafael Cortez, Oscar Filho e Danilo Gentili. Com exceção do primeiro, que cobria eventos esportivos em um programa de mesma natureza na própria Band, os demais vieram do ramo similar de atuação de Luque e Bastos. Compõem o programa conteúdos dos mais variados cunhos. Político, esportivo, cultural, econômico, social e de celebridades. Fora isso, existem (ou já existiram) quadros fixos que formam a linha-padrão do conteúdo. São eles: CQTeste, CQC Investiga, Top Five, Cadeira de favores, Palavras Cruzadas, Cara-a-cara, Semana do presidente, Controle de qualidade e Proteste já. Alternando puro entretenimento com trabalho jornalístico, sempre pautado pelo humor, os quadros fixos ajudam a dinamizar 21 “De 1983 a 1986, Marcelo Tas incorporou o personagem Ernesto Varela no programa “Olhar Eletrônico”. Acompanhado do cinegrafista Valdeci (Fernando Meirelles), Varela era conhecido por suas abordagens nada comuns e sua falta de noção na hora de falar com os entrevistados. Além de fazer o papel do repórter, Tas também era diretor e roteirista da atração. Uma das passagens lendárias do intrépido Ernesto Varela foi uma entrevista com Paulo Maluf, onde ele, na maior cara de pau, indaga o político: ‘muitas pessoas não gostam do senhor, dizem que o senhor é corrupto. É verdade isso, deputado?’” (Trecho extraído do portal www.abril.com.br, publicado em 10/11/2009. Acesso em 03/03/2010, às 16 horas). 22 “Novamente trabalhando ao lado do cineasta Fernando Meirelles, Marcelo Tas emplacou mais um sucesso na TV, desta vez conquistando o público infantil na pele do Professor Tibúrcio, do programa “Rá-Tim-Bum”, produzido pela TV Cultura de 1989 a 1992. Tas sempre esclarecia questões interessantes para as crianças, sempre começando sua “aula” com o bordão: “Olá Classe!”. Até hoje muitas pessoas se surpreendem ao saber que o apresentador do “CQC” era o célebre personagem infantil” (Trecho extraído do portal www.abril.com.br, publicado em 10/11/2009. Acesso em 03/03/2010, às 16 horas). o programa e a garantir atrações permanentes e que foram bem recebidas pelos telespectadores. Contribui para a criação de uma identidade à atração. No quadro político, uma campanha ao mesmo tempo curiosa e coerente traçou um desenho do quão desbravador foi o programa em questão. A equipe do CQC foi impedida de entrar no Congresso e realizar entrevistas com os parlamentares, no princípio de suas atividades enquanto programa jornalístico. Ora, a Câmara e o Senado federais, como organismos públicos e instituições símbolos da democracia, estão abertos à sociedade e à imprensa, responsável por divulgar aos cidadãos os debates mais interessantes do plenário. O fato é que a proibição gerou um abaixo-assinado na Internet, onde aproximadamente 260 mil pessoas opinaram pela entrada dos ‘engravatados da imprensa’ no Congresso. Opinião esta que fora consumada. Quem fala mais sobre o assunto, em declaração ao portal “Último Segundo”, é Rafinha Bastos, um dos integrantes da bancada e repórteres do semanal. Com a exibição das matérias, tanto a Câmara quanto o Senado cassaram as credenciais da equipe. A alegação foi que o programa não é jornalístico, mas sim humorístico. Com isso, a equipe lançou a campanha "CQC no Congresso", e busca o apoio popular para conseguir novamente as credenciais. De acordo com o repórter Rafinha Bastos, que grava o quadro nesta quinta-feira em Brasília, o CQC é, sim, jornalístico. "Mas fazemos isso de uma maneira irônica e bem humorada". Esse formato, segundo ele, "está assustando as figuras políticas", que deveriam aprender "a usar essa nova linguagem" (Publicado em 19/06/2009, às 12h05min. Acesso em 20/08/2009, às 16h20min) Marcelo Tas, apresentador, conduz uma análise sobre o que ocorreu com o CQC, a partir do momento que o programa fora impedido de entrevistar os representantes políticos. É bom lembrar que o Congresso é espaço público, onde seus ocupantes devem explicações à sociedade sobre o que acontece nas reuniões. Sendo assim, um das formas de levar ao público as informações é por intermédio da imprensa. E o Custe o que custar, assim como outros canais do jornalismo, vem com o mesmo intuito. Acho que vivemos um momento extremamente delicado. Se a gente começa a se acostumar com essa pequena censura que vem acontecendo, tudo está perdido. Tem veículo sendo multado por entrevistar candidatos a prefeito e até jornal que tem capa publicada através de liminar. Isso é muito grave. E o pior: o pessoal que está patrocinando esta tortura é o mesmo que lutou contra ela no passado (Publicado em 01/07/2008, às 12h20min, no portal Folha Online. Acesso em 13/07/2008, às 14h10min). Além deste evento que ajudou a dar impulso ao programa, as reportagens de caráter político marcam presença constante em todas as edições do CQC. No segundo semestre de 2008, vale destacar descobertas de corrupções envolvendo políticos e empresários, como foi o episódio da Operação Satiagraha23. Tiveram destaque particular as eleições municipais, nas quais após resultados do primeiro e segundo turnos, foram produzidas edições totalmente dedicadas ao assunto. O pleito dos Estados Unidos também ganhou cobertura especial, para onde foi enviado o repórter Felipe Andreoli. No primeiro semestre de 2009, além do Proteste, que freqüentemente traz assuntos ligados à política, a pauta que ganhou destaque se refere aos indícios de ilegalidades envolvendo o mandato de senador de José Sarney, até então presidente da Casa. Acompanhando a tendência da imprensa em geral de abordar a questão, Danilo Gentili, o repórter que ganha as incumbências de cobrir o Senado Federal, protagonizou uma cena curiosa e que sintetiza o momento vivido pela representação pública. Ao questionar sobre as acusações, mesmo sem ser invasivo, Gentili foi tratado de maneira bruta pelos seguranças do político, sendo jogado ao chão. A televisão, por ser um veículo comunicacional voltado a entreter o público, necessita lançar mão da qualidade e do dinamismo em suas transmissões jornalísticas, para que o público não busque diversão em outro canal. Como o CQC divide a temática política com tantas outras em praticamente duas horas de veiculação semanal, precisa encontrar alternativas para não cessar a demanda de audiência. O humor, vertente usada pela publicação, produz o diferencial e o diversional nas aparições políticas do programa. Em um universo dominado pelo temor de ser entediante e pela preocupação de divertir a qualquer preço, a política está condenada a aparecer como um assunto ingrato, que se exclui tanto quanto possível dos horários de grande audiência, um espetáculo pouco excitante, ou mesmo deprimente, e difícil de tratar, que é preciso tornar interessante (BOURDIEU, 1997, p. 133). O desempenho do jornalismo não é simples. A burocracia política atravanca, em situações específicas, o funcionamento das mídias eletrônicas, e o jornalismo não passa impune a isso. O caso da imprensa falada é mais complexo, pois as concessões televisiva e radiofônica partem do Estado. Naturalmente, em se tratando de uma política corrupta, as influências no que tange as produções midiáticas são presentes e marcantes. 23 Investigação da Polícia Federal que encontrou ligações entre o “mensalão” e uma quadrilha encabeçada pelo banqueiro Daniel Dantas, pelo ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, e pelo empresário Naji Nahas. É como se o direito de transmitir fosse concedido àqueles que satisfizessem as vontades políticas. Acontece mais esse tipo de conduta nos estados mais distantes dos grandes centros, devido à baixa fiscalização e aos baixos níveis educacionais. Quando algo não nasce a partir da naturalidade, mas apenas por meio de permissão, quem tem o poder de conceder, possui também a chantagem, como instrumento de manipulação. A concessão por parte do Estado ocorre porque a informação é um direito social previsto em lei. Como tal, os representantes públicos devem tomar frente na condução desses bens. Por isso, cabe a eles fornecer ou não temporariamente o espaço midiático. Os operadores públicos de televisão nasceram na Europa sob uma forte proteção política. A televisão dependia, não das oscilações do mercado, como acontecia nos Estados Unidos, mas do Estado. Era ele quem definia as regras de funcionamento do audiovisual e fixava o seu financiamento. Tal ligação se, por um lado, fortaleceu os propósitos cívicos da televisão, por outro, debilitou a independência ambicionada principalmente pelos jornalistas. Carentes de autosuficiência e ancorados por uma legislação debilmente estruturante, os responsáveis pelos canais públicos vergaram-se, ao longo dos tempos, às vontades dos políticos, vergastando não raras vezes a deontologia jornalística. No entanto, a independência do poder político foi sempre uma reivindicação da TV pública (LOPES, 1999, p. 27-28). Em contrapartida, o jornalismo – político, especialmente – pede um elemento imprescindível ao cumprimento do que se refere ao interesse público e à verdade dos fatos: a informação de qualidade. Quando o CQC vai ao Congresso ou fiscaliza se um serviço público não foi feito, a partir da denúncia de cidadãos, procura levar à sociedade em geral a informação pertinente a ela. As considerações levantadas ali podem servir para qualquer público, seja onde for. A informação de qualidade exige uma visão global e contextualizadora dos factos; o contraste de fontes e a depuração dos dados; o aprofundamento das conseqüências sociais, políticas e econômicas; a busca de um equilíbrio na cobertura territorial, social e cultural; o enfoque pluralista e imparcial das opiniões, propostas de soluções e críticas dos diversos grupos que convivem numa sociedade democrática. É necessária uma diversidade e especialização dos conteúdos informativos conforme os interesses dos múltiplos grupos que compõem a vida social (HERREROS apud LOPES, 1997, p.46). No campo econômico, a crise financeira foi o assunto que recebeu maior destaque. Questionando os parlamentares e até o presidente Lula, sem nunca, é bom que se frise, perder o bom humor, a equipe abordou o colapso nas instituições econômicas e suas conseqüências dentro do país. De quebra, ouviram de personagens importantes como o Brasil reagiria diante da problemática e até que ponto ela poderia afetar o cotidiano dos brasileiros. Para se aprofundar no assunto, Felipe Andreoli aproveitou a sua passagem nos Estados Unidos durante as eleições, em 2008, para sabatinar os norteamericanos sobre a crise. Até em outro idioma foi lançada mão da sátira. Do ponto de vista cultural, o que mais se tornou pauta do semanal foram os lançamentos de livros e revistas. Sempre com pessoas conhecidas debutando seus trabalhos, como José Saramago, Carlos Aberto de Nóbrega, Fernando Meligeni, John Casablancas, Serginho Groisman, Juca Kfouri, entre outros, os meninos do CQC não deixam passar eventos desta natureza para uma conversa divertida com os autores de livros e com as pessoas que acompanham o lançamento. É comum originarem conteúdos engraçados, apesar do pouco fundo social incutido nessas reportagens. É que o bom gosto predomina. Na área esportiva, o CQC não abriu mão das suas investidas. De novo ele, Felipe Andreoli foi o responsável pela cobertura em território estrangeiro. No maior evento esportivo do mundo, também no ano de 2008, o “Crespo”, como é apelidado pelos colegas, foi a Pequim, na China, para registrar as matérias sobre as Olimpíadas, entrevistando atletas de diversas nacionalidades e o público, multinacional, que lá estava para acompanhar os Jogos. Outros eventos esportivos que marcaram presença, em 2008, foram os jogos da Seleção Brasileira pelas Eliminatórias para o Mundial de 2010, o jogo final do Campeonato Brasileiro, que deu o título ao São Paulo, e a apresentação de Ronaldo pelo Corinthians. É quando a irreverência do humor se encontra com a do futebol e recheia as conversas entre jornalista, torcedores e jogadores. Em 2009, as partidas de futebol de maior destaque continuaram a ganhar visibilidade no programa. Os confrontos da Seleção Brasileira nos jogos eliminatórios para o próximo mundial foram presenças certas na editoria esportiva. As conquistas do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil, pelo Corinthians, não fugiram das abordagens. Sempre privilegiando a mescla entre futebol, humor e torcedor. Saem conteúdos informativos, engraçados e originais. As celebridades também não passaram impunes pelas artimanhas do CQC. No momento em que o cunho social é deixado de lado, os repórteres aproveitam para propor diálogos provocadores e descontraídos. Em uma espécie de desafio a personalidades que, em muitas oportunidades, são erroneamente denominadas de artistas, já ocorreu de entrevistador e entrevistado não entrarem em comum acordo e o diálogo se tornou mais áspero. O ator Paulo Betti e o cineasta Hector Babenco protagonizaram as cenas marcantes do ano de 2008, sob este aspecto. No entanto, em fase posterior, ambos se renderam ao trabalho dos jornalistas e hoje participam das brincadeiras, guardadas as proporções, é lógico. Mas é sob a óptica social que o programa se destaca. Engajado neste aspecto – e autodenominando-se difusores do humor inteligente – cria reportagens humoradas, portadoras de denúncias levadas adiante por poucos veículos de comunicação. O nível de investigação e contestação é tamanho que o comum é se indignar e dar risadas dos que são questionados. O quadro mais conhecido e que presta este tipo de serviço é o Proteste já24, com Rafinha Bastos. Como bem define Marcelo Tas, durante a chamada da seção, “é um quadro sério do programa”. Permeando todas as reportagens, seja de que natureza for, vêm os efeitos sonoros e visuais, mais uma das inovações do programa. Os sons inseridos pela produção do CQC têm o intuito de destacar, aguda ou gravemente, uma fala. Ninguém passa impune por essa ferramenta: nem entrevistado e nem o próprio entrevistador. Outro tipo de som, que não tem sua inserção no discurso de quem participa do diálogo, serve para ‘traduzir’ a situação vigente. Outra modalidade são os efeitos visuais. As investidas desse gênero servem para enaltecer a face de quem pergunta ou responde. Exemplo: se uma das pontas do diálogo se excede e faz uma expressão facial muito brusca, é aplicado um efeito para realçar o movimento da boca ou dos olhos. É válida a analogia com a caricatura ou a charge, o que não deixa de ser o programa em si: crítica com humor. Assim como o sonoro, o efeito visual não é somente aplicado aos personagens da conversa. Vale também para representar uma situação em vigência. É bom que se esclareça o seguinte: um dos grandes méritos do CQC é agregar às reportagens, com muita qualidade e pertinência, os efeitos de imagem e som. Com todas essas abordagens e instrumentos, o objetivo do programa é fugir do comum, visivelmente batido nos telejornais. Ao se utilizar do humor, sai da reprodução textual e discursiva dos jornais eletrônicos diários e semanais. Além disso, a irreverência não impede que haja posicionamento, mas o apontamento desregrado a uma 24 O quadro é o de maior incidência jornalística do programa, pois, pautado por uma denúncia, os dois lados da questão são ouvidos, como manda o jornalismo. determinada posição, como é possível visualizar nos telejornais mais opinativos, cede espaço às interpretações. Nossos apresentadores de jornais televisivos, nossos animadores de debates, nossos comentaristas esportivos tornaram-se pequenos diretores de consciência que se fazem, sem ter de forçar muito, os porta-vozes de uma moral tipicamente pequeno-burguesa, que dizem ‘o que se deve pensar’ sobre o que chamam de ‘os problemas de sociedade’, as agressões nos subúrbios ou a violência na escola. A mesma coisa é verdade no domínio da arte e da literatura: o mais conhecidos dos programas ditos literários servem – e de maneira cada vez mais servil – aos valores estabelecidos, ao conformismo e ao academicismo, ou aos valores do mercado (BOURDIEU, 1997, p. 65). No entanto, para se alcançar a qualidade na atividade jornalística, é necessário entrelaçar dois quesitos indissociáveis: robustez financeira e material humano qualificado. Com muito dinheiro, mas sem qualidade, o programa pode adquirir um cenário bonito, matérias serem feitas no exterior, mas a habilidade de levar a informação ao público está no profissional. Por outro lado, sem dinheiro, mas com profissionais qualificados, é possível desempenhar um trabalho melhor. Mas as transmissões, cedo ou tarde, irão esbarrar-se nas limitações econômicas, que são incompatíveis com a mídia TV. A promoção de uma televisão de qualidade não deriva apenas da vontade dos seus programadores, estando antes condicionada pelos recursos financeiros disponíveis e, conseqüentemente, pelo quadro de profissionais que integra. Sem uma sólida segurança financeira, Será certamente difícil pensar-se na produção de séries e documentários e em produções artísticas de grande envergadura. Sem recursos humanos de talento, será complicado inovar e transformar programas de interesse público em espaços de interesse do público (HEARST apud LOPES, 1997, p. 47). Ao aliar matérias de interesse social com o humor, o Custe o que custar propõe, por intermédio de alguns quadros, uma inovação na maneira de fazer jornalismo. Abandona a fórmula idêntica aos telejornais e busca pautas alternativas. Quando aborda os assuntos costumeiros, é inserida a irreverência, que tira das reportagens o peso do sensacionalismo e da mesmice e injeta novidade, que pode se transformar no estopim da relevância social e da busca pela informação por parte do público. 3.5 Os quadros25 O Proteste já consiste em um quadro que recebe dos telespectadores sugestões que gostariam que fossem abordadas. Esses tópicos se enquadram em problemas correntes em diversas cidades do país, com destaque para o Estado de São Paulo. Denúncia feita, o repórter Rafinha Bastos, que também é um dos apresentadores, desloca-se e faz questionamentos a quem solicitou o pedido e aos responsáveis por determinados serviços e obras não estarem de acordo com o combinado inicialmente. Para não fugir da veia humorística, Bastos incorpora um personagem. Não só o quadro, como o programa em seu todo, desenvolve uma espécie de paródia eletrônica26. Quem fala sobre isso é Affonso Romano de Sant’Anna (1985, p.32). A paródia não é um espelho. Ou, aliás, pode ser um espelho, mas um espelho invertido. Mas é melhor usar outra imagem. E, ao invés do espelho, dizer que a paródia é como a lente: exagera os detalhes de tal modo que pode converter uma parte do elemento focado num elemento dominante, invertendo, portanto, a parte pelo todo, como se faz na charge e na caricatura. Outro quadro que cultivou propostas sociais foi o Cadeia de Favores. Em uma ação inovadora, Rafinha Bastos parte de um objeto e intercepta pessoas que se interessem por trocar o que têm pelo utensílio oferecido por Rafinha. A idéia é sanar uma série de solicitações feitas por alguma instituição. No único episódio que foi ao ar, em 2008, uma escola municipal situada na zona rural de Itu, interior de São Paulo, necessitava de diversos materiais utilizados pelo local de ensino. O jornalista listou as carências e, ao oferecer de início um chaveiro, chegou à contemplação total de todos os itens, doados pelo publicitário Washington Olivetto, o participante final da cadeia. Aparentemente, o quadro seria fixo e corriqueiro. No entanto, durante o ano de 2009 não houve sua produção e veiculação, retornando em edição única no fim do ano, o que demonstra que o conteúdo será apresentado uma vez ao ano, em época de natal. Já o quadro CQCTeste consiste em um jogo de perguntas e respostas realizado com personalidades da música, esporte e televisão, que passam pelas indagações de 25 Cada quadro do CQC pode ser visto no DVD anexo a este material. “A paródia é a criação de um texto a partir de um bastante conhecido, ou seja, com base em um texto consagrado alguém utiliza sua forma e rima para criar um novo texto cômico, irônico, humorístico, zombeteiro ou contestador, dando um novo sentido ao texto. Parte da intertextualidade, a paródia é um intertexto, ou seja, é um texto resultante de um texto origem que pode ser escrito ou oral. Essa intertextualidade também pode ocorrer em pinturas, no jornalismo e nas publicidades” (Definição extraída do site www.alunosonline.com.br. Acesso em 21/02/2010, às 11h20min). 26 Rafael Cortez, intercalando as perguntas de conhecimentos gerais com brincadeiras coerentes, porém, às vezes apelativas, considerando a entrevistada sendo uma atriz ou celebridade que tenha feito ensaio fotográfico sensual ou até participado de produções de cinema pornográfico. Não deixa de ser uma seção interessante, do ponto de vista de as perguntas oferecerem curiosidades desconhecidas ou não do público. No entanto, para preservar o perfil mais sofisticado do programa, seria mais coerente e conveniente evitar a decréscimo no nível. O outro quadro fixo do programa é o Top Five. Semanalmente, são selecionadas imagens de TV que representam alguma gafe ou resultado interessante. Elas são elencadas em cinco posições, sugeridas pelo público, e são sempre sucedidas por um comentário irreverente da bancada. O fato é que o Top Five é uma das preferências de quem acompanha o CQC justamente por tocar nas imperfeições de um veículo que, de costume, não deixa passar defeitos e deficiências para o público. Sem fundo social, é um momento que ironiza a própria mídia. Houve edições em que o próprio CQC fez parte das gafes do quadro. Outro quadro de intenso destaque, que não foi mencionado até aqui, é o Repórter Inexperiente. Realizado por Danilo Gentili, que ganhou repercussão por causa dessa atuação, interpreta um jornalista totalmente estabanado e impertinente. Essas qualidades colocam o entrevistado em uma situação delicada, despertando, por vezes, a ira de quem está lá para responder uma entrevista normal e dentro dos padrões, fato que em momento algum se concretiza. A seção foi obrigada a sair do ar devido ao reconhecimento que as personalidades mais conhecidas passaram a ter do quadro e do próprio “jornalista”. Os episódios exibidos foram previamente gravados. Algo parecido ocorreu com a seção “Em foco”. Warley Santana simulava ser um assessor de imagem, marcando um encontro quase sempre com um político para que a este fossem direcionadas algumas informações pertinentes à conduta do assessorado. Mais do que engraçado, o quadro era útil, pois tocava em um ponto muito presente nas investidas políticas de hoje: a idéia de marketing. O “Em foco” era a prova de que o que se fala nas mídias eletrônicas e impressas são resultado de uma maquiagem feita pelo marqueteiro. Isto é, o político não diz o que pensa e o que quer, mas o que lhe mandam dizer. Pelo mesmo motivo que acometeu o Repórter Inexperiente, o “Em foco” saiu do ar. Outro quadro que principiou em 2009 e caiu no gosto do público foi o Controle de qualidade. Danilo Gentili vai ao Congresso Nacional e entrevista deputados e senadores. Além das perguntas sobre a política geral, Gentili “joga” com os parlamentares. O repórter, agora experiente, extrai trechos de jornais referentes ao contexto atual do país ou questiona sobre algum projeto em discussão na própria Casa e remete aos entrevistados. O resultado é uma completa inabilidade e falta de conhecimento por parte dos legisladores. A seção Palavras cruzadas consiste na realização de perguntas iguais a duas pessoas conhecidas pelo público: músicos, esportistas ou profissionais de outras áreas. Debutou em 2009 e tinha a incumbência de encerrar o programa, sendo o único conteúdo do último bloco. Puro entretenimento, a curiosidade ficava por conta do confronto de opiniões, ora polêmicas, ora divertidas. O CQC, em uma iniciativa só, quebrou dois padrões, e foi desbravador de dois estilos de programas televisivos. A idéia inovadora foi precursora de uma nova forma de se fazer jornalismo e humor. Para isso, era indispensável que os membros do programa elaborassem uma nova forma de atuar. Implantaram isso através da criação de personagens, que é um dos traços mais situados no trabalho do CQC. Adepto de inúmeras variantes e de jornalistas/atores polivalentes, o programa ganhou em qualidade e inovação, fazendo dele uma potência no jornalismo e no ramo humorístico. 3.6 Os personagens27 Para esmiuçar cada personagem, é necessário lembrar todos que compõem o CQC. Marcelo Tas, Marco Luque e Rafinha Bastos formam a bancada do programa. É bom destacar que Tas tem papel central na apresentação, pois é ele quem chama os conteúdos, além de solicitar os comentários dos demais participantes da bancada. As reportagens, além de contar com os trabalhos de Bastos, no quadro “Proteste já”, são de responsabilidades de outros cinco “elementos”28: Rafael Cortez, Danilo Gentili, Oscar Filho, Felipe Andreoli e Mônica Iozzi. Normalmente, os conteúdos de teor esportivo são elaborados por Andreoli, sendo o restante distribuído aleatoriamente. Faz-se relevante mencionar também que, embora incorporem-se personagens, isso não ocorre na totalidade da apresentação de cada um. A adesão integral à encenação ficou a cargo de dois personagens que já não mais marcam presença no 27 Embora assumam características de encenação, isso não é verificado na totalidade da apresentação de qualquer integrante. A participação de cada um dos oito membros do programa pode ser vista no DVD que segue em anexo a este material. 28 Cada um dos sete integrantes do programa é denominado de ‘elemento’. programa: o assessor de imagem (Warley Santana) e o repórter inexperiente (Danilo Gentili). Fora isso, há em cada membro do CQC a existência de características que ajudam a personificar o profissional de campo ou o integrante da bancada. No entanto, não existe ali um grupo de atores, mas sim de apresentadores, comentaristas e profissionais de campo, que produzem entretenimento e jornalismo. Começando por Marcelo Tas, considerado o membro essencial do programa – o símbolo da sua importância para o CQC é o fato de ele estar locado no centro da bancada – sua atuação não se restringe apenas em apresentar o programa e mediar as investidas humorísticas de Rafinha e Marco. Além de pitacos bem elaborados e se utilizando de expressões que qualificam ironicamente os repórteres, ele desempenha o papel de ‘pai’ da rapaziada. Apesar de se deixar levar pela descontração, Tas pode ser considerado o “mais normal” entre os participantes. Ele se encarrega de fazer a mediação entre o tolerável e o distanciamento da linha central. Quando uma piada ou um comentário ultrapassa o limite ou sai da idéia inicial, Tas toma as rédeas do andamento, contém as falas dos colegas de apresentação e volta a dar seqüência ao programa. São raras as vezes em que é feito um comentário irônico por parte de Luque e Bastos direcionado a Marcelo Tas. Isso prova que o personagem de Tas simboliza a autoridade do programa, enquanto um produto em exibição. Eliminam-se aí as demais autoridades administrativas e de bastidores. É útil lembrar que, apesar do posto durante a geração do programa, Marcelo Tas não desempenha tal função de modo deliberado e ofensivo. Mesmo em casos extremos, em que o fio da meada está sendo perdido, com uma fala nada agressiva e inteiramente divertida, ele retoma ao procedimento normal. Esse modo de conduzir o programa, sem ser autoritário – até para não contradizer a proposta do programa – credencia-o, ainda mais, ao posto de ‘pai da galera’. Tas adquire o respeito de membros do programa e platéia, além de alimentar seu potencial carismático, embora, normalmente, restrinja-se a produzir comentários abertos como seus companheiros de bancada. Para quem assiste, à esquerda de Tas se encontra Rafinha Bastos. Divide a função de comentar as matérias com Marco Luque. Mas ambos possuem estilos diferentes. Bastos é mais comportado. Dificilmente se excede em uma fala, colocando-a de maneira séria. Na verdade, a seriedade de Bastos é resquício da sua outra atuação dentro do programa, sua aparição no Proteste já, quadro que dá visibilidade a uma denúncia. A atuação deste integrante é semelhante ao comportamento de um irmão mais velho – dando seguimento à comparação com o meio familiar. A seriedade de Rafinha transforma suas falas em comentários ácidos, adeptos do sarcasmo. Bastos é quem dispara as palavras mais acachapantes entre todos os profissionais do CQC, ainda que considerados os repórteres. É como se o auterego do programa, levando-se em conta a sua proposta de fazer jornalismo com humor e, com isso, basear-se na criticidade, fosse Rafinha Bastos. É ele quem desempenha o personagem responsável por mostrar a ‘cara’ do semanal ao público. É o irmão mais velho, mais responsável, mais sério, sem, é claro, perder o bom humor. No quadro Proteste já, do qual Bastos é o protagonista, não se perde a acidez de vista. Todavia, ele destoa consideravelmente da característica que pauta a sua atuação. Precedendo o início da matéria, Rafinha incorpora um personagem propriamente dito. Por exemplo: em uma das edições do programa, o repórter desenvolveu uma proposta que levava em consideração um desvio de conduta praticado por um político. Como o político já adquiriu o estereótipo de mentiroso, ou seja, cara-de-pau, Rafinha se fantasiou de boneco de madeira. É a irreverência tomando conta do papel de Bastos dentro da matéria, sem, entretanto, abrir mão da acidez. Nós temos uma produção que vai atrás de informações em um trabalho de campo para ver a viabilidade da matéria e buscar personagens. Feita a denúncia, nós pensamos nas possibilidades para as quais ela pode nos levar, o que vamos fazer, quem vamos cobrar, como faremos a resolução, que “cabeça” pode ser feita para essa matéria. Ou seja, tudo é feito a partir da denúncia. (Rafinha Bastos, em entrevista ao autor, no dia 07/10/2008) À direita de Marcelo Tas fica Marco Luque. É o mais ‘moleque’ entre os três. Aproveitando-se de uma rica variante vocal, ora implantando o grave, ora o agudo, Luque é a contrapartida completa de Rafinha Bastos e tem postura bem distinta se comparado a Tas. O apresentador usa de movimentos de mãos e expressões faciais que lhe dão a oportunidade e abertura pertinentes para desempenhar uma atuação ‘mais solta’. Por essas características, é um dos que estão na preferência do público. É possível dizer que Luque é mais do ramo do humor do que da área jornalística. A verdade é que Marco Luque sempre atuou no segmento humorístico. É portador de uma variedade considerável de personagens, criados pelo próprio Luque. Isso lhe rendeu aparições em apresentações teatrais e uma entrevista com Jô Soares, inclusive tendo espaço disponível para interpretar um dos seus papéis mais solicitados: o motoboy29. Pode-se considerar que Marco é o melhor ator entre todos os integrantes do CQC. O seu poder de interpretação é tamanho que é capaz de situar a diversidade de personagens, sem que o resultado seja grosseiro. Considerando a analogia com a família, Marco Luque ganha o posto do irmão caçula. É o mais levado, o que faz mais pirraça e o que ‘atormenta’ o auditório. Isso faz com que a comparação fique ainda mais evidente: Marcelo Tas, ao se deparar com um comentário ‘inocente’ de Luque se dirige a este de forma direta, ainda que com humor. Postura esta desnecessária com Rafinha Bastos. Como o irmão mais velho, não se manifesta positivamente quando de uma piada produzida por Luque. Mas, sutilmente, percebe-se que há o consentimento discreto. Eis a cumplicidade entre irmãos. Saindo do interior do auditório, caminhemos pelas ruas, onde encontramos os repórteres do CQC. Geralmente na cidade de São Paulo, onde os eventos acontecem com incidência maior, ocasionando, fatalmente, em pautas mais condizentes com a proposta do programa, eles compõem as matérias, seja em local fechado ou aberto. Variando entre temáticas sempre atuais, para manter o espectador no contexto do que está sendo abordado, as produções jornalísticas, além de contar com o humor inerente a cada integrante, desfruta de efeitos visuais e sonoros que são inseridos com extrema pertinência. Do contrário, seriam sons e imagens vagos, prejudiciais a qualquer conteúdo, ainda mais em se tratando de jornalismo. As reportagens sobre política têm ficado, em maior escala, com Danilo Gentili, considerando que este adquiriu um nível de maturidade e acidez condizente com o que se espera do programa quando da entrevista com políticos. A Oscar Filho cabem mais as matérias de cunho cultural e o contato com celebridades, pela facilidade com que tem de se aproximar e ‘xavecar’ as belas mulheres. Puro entretenimento este último. Rafael Cortez pode ser considerado o mais versátil, pois faz um pouco de tudo (assim como os outros, porém com uma rotatividade maior). Cortez sabatina políticos, mulheres, celebridades. Felipe Andreoli, que após suas reportagens sobre as Olimpíadas, as eleições americanas e a crise financeira, falando diretamente da China (no primeiro caso) e dos Estados Unidos (nos outros dois), ganhou espaço. Além do esporte, editoria destinada exclusivamente a Andreoli, ele tem aparecido nas matérias sobre política também. Felipe terminou 2008 como o repórter mais atuante do CQC. 29 Esse personagem de Luque ironiza a relação entre motoboy e os motoristas de veículos convencionais, que é muito conturbada em grandes cidades como São Paulo. Danilo Gentili, “o capeta em forma de guri”, como se refere Marcelo Tas ao chamar a matéria do repórter, iniciou o CQC destacando-se no quadro já findado Repórter Inexperiente. O jornalista, como a própria denominação da seção sugere, incorporava peculiaridades de um entrevistador completamente alheio às formalidades e à coerência. Atos como deixar o microfone cair, interromper repentinamente o entrevistado, esquecer perguntas e lançar mão de uma revista de ensaio nu com as páginas todas grudadas não foram pouco corriqueiros. O quadro foi obrigado a sair do ar, em vista do reconhecimento que Gentili adquiriu junto ao público, o que tornava inviável a aceitação de pessoas para serem sabatinadas pelo ‘desajeitado’. Gentili, então, passou a freqüentar com mais passagens as reportagens do programa. Se no Repórter Inexperiente prevaleciam a descontração e o entretenimento, com pouca inserção de crítica, nas matérias desenvolvidas por Danilo o teor sofreu uma drástica alteração. O entretenimento deu lugar à crítica ácida com sotaque interiorano. Ocorreu que foram dadas a ele pautas mais ‘maduras’, que abrangiam temáticas relevantes. O auge do amadurecimento tanto da pauta como do jornalista foi a Operação Satiagraha, encabeçada pela Polícia Federal, em que o “elemento” chegou a questionar Daniel Dantas. Nas pautas sobre o Senado, Gentili é o encarregado de argüir os parlamentares, trazer informações sobre a realidade do plenário e, é claro, conteúdo divertido sobre aqueles que deixaram de ser adorados, há algum tempo, pela população. O fato de Gentili possuir uma fala marcada pelo sotaque caipira deu a ele um status particular, diferente dos demais. Se em Cortez, Oscar e Andreoli prevalece a fala paulistana, o discurso do interior o credencia como um diferencial em meio ao conteúdo eminentemente paulistano. O que poderia ser, do ponto de vista negativo, destoante do programa, causa no telespectador o estranhamento bem-vindo. Além disso, Danilo foge do estereótipo que qualifica o interiorano como um personagem situado à margem dos debates produtivos e dos assuntos relevantes. Até por fazer o contraponto deste papel, o jornalista é excepcional em sua crítica. Sobre Oscar Filho, um dos quatro repórteres do CQC, é possível dizer que sua atuação diminuiu em qualidade. Prova disso é que suas aparições se reduziram a uma em cada edição. Mesmo assim, não foge aos padrões do programa e pode ser considerado como um importante integrante. Oscar, assim como Gentili e Bastos, vem da Stand-up Comedy. Isso permite a ele ser classificado como um dos mais ágeis entre os repórteres. Atento às respostas, é comum presenciar a réplica de Oscar quase que instantaneamente. Eis uma linha fomentada pelo CQC. Oscar é referido pelo apresentador Marcelo Tas como “o pequeno pônei”, devido à sua baixa estatura. Tal característica poderia ser negativa, se levássemos em conta o fato de que ser baixo não se enquadra nos padrões de beleza tanto seguidos e incentivados pela televisão, que preza pela imagem. O talento de Oscar se situa justamente na habilidade em transformar seu tamanho em um artifício a seu favor. Talvez seja por isso que Oscar seja escalado para os eventos que têm mais descontração e menos formalidades. É possível que Oscar não fosse ‘intimidador’ estando sob pressão, entrevistando um político em tempos de corrupção. Mas não é só a estatura que pauta o trabalho de Oscar Filho. Com feições, inclusive a altura, que remete o espectador à infância, Oscar encena o papel de um ‘menininho’. Privilegiando o movimento dos braços – que, sendo pequenos, sintetizam o seu tamanho reduzido –, o jornalista usa-os como ‘complemento’ à sua piada, comentário ou pergunta. A voz não chega a ser muito grave. A fala é compreendida por movimentos grandes de boca, dando maleabilidade às palavras pronunciadas. Então, de forma alguma, o elemento incorpora um personagem ríspido. Cabem a ele as matérias menos engajadas. O que não o impede de transitar pela crítica. Rafael Cortez também oferece contribuições jornalísticas ao programa. Adquirindo destaque inicial – o maior entre todos os integrantes – ele mantém a regularidade. O favorito das mulheres que assistem ao programa, Cortez esbanja charme e bom papo com as mais belas entrevistadas. Este elemento é responsável por sabatinar personalidades do meio televisivo, em um quadro conhecido como CQCTeste. Além de informação, Rafael não perde a oportunidade de produzir comentários criativos e ‘xavecar’ as moças bonitas que passam pelo crivo do jogo de perguntas e respostas. Cortez, além de ser o ‘mais bem afeiçoado’ é o que possui o discurso mais completo, emitindo-o em uma cadência bastante compreensível. Aliando essas duas características, o jornalista, quando se depara com alguma mulher que chama a sua atenção, adere ao papel de poeta. Recita poesias repentinas ou cria poemas também da mesma forma, dando uma sofisticação ainda maior à sua fala. Uma matéria que casou perfeitamente com o personagem que incorpora foi a realizada em Veneza – talvez por essa característica marcante em Cortez, destinou-se a ele esta pauta. Na atmosfera romântica de Veneza, no período que acontecia um dos mais badalados festivais de cinema, Rafael se sentiu à vontade para entrevistar as mulheres ao optar por uma vertente pouco informativa, porém romântica. Mas Rafael não se restringe a encenar o galanteador. Se o trabalho central é produzir jornalismo, nada mais natural que ter talento para dar andamento a matérias mais relevantes. Dada a versatilidade de Cortez, virtude já mencionada anteriormente, são destinadas a ele reportagens de natureza política. Nessas matérias, o que marca a atuação é sua expressão facial. Após a realização da pergunta, Cortez reage à resposta do político com a ironia estampada na cara. Na medida em que faz o movimento com a cabeça, simbolizando positividade, encontra-se a crítica do jornalista diante do discurso do político. Arqueamento das sobrancelhas e um sorriso sutil e constante reiteram a sua ironia. O último jornalista do grupo a ser mencionado é Felipe Andreoli. Pode-se dizer que, ao lado de Danilo Gentili, foi quem mais apresentou evolução entre todos os membros do CQC. No princípio, Andreoli era visto como um profissional que abandonara o diário Jogo aberto, principal programa de esportes da emissora, para se dedicar exclusivamente ao Custe o que custar. Felipe, para não desperdiçar a afinidade que tem com esportes, é destinado a cobrir partidas de futebol ou eventos do gênero. O símbolo máximo dessa incumbência foi a sua designação para cobrir os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Todos os repórteres falam, ao menos, uma língua estrangeira. Andreolli, por ter extrema fluência no Inglês e Espanhol, é o maior enviado para a realização de conteúdo internacional. E foi na sua passagem pelos Estados Unidos, durante as eleições e a crise, que o “elemento” ganhou repercussão e, conseqüentemente, maior espaço no CQC. Felipe conseguiu entrevistas interessantes com cidadãos a favor de Obama e de McCain, além de questionar os americanos sobre a crise mundial e o “baque” que os Estados Unidos estavam sofrendo, justo o país de maior poderio econômico. Por essa passagem pelo exterior, Andreolli, ainda que imperceptivelmente, aderiu ao personagem que representa o programa no exterior. Mesmo em outro idioma, Felipe não perde de vista a proposta do programa. Com comentários criativos e inteligentes chegou a despertar a ira de alguns americanos que possivelmente têm dificuldades de aceitar a crise econômica. No Brasil, Andreolli ganhou pautas relevantes, especialmente no ramo da política. Sua atuação é discreta e é adepto do discurso mais lento entre os repórteres, justamente por não ter procedência do teatro e do Stand-up Comedy. Outro profissional do CQC, que não fora citado anteriormente, é Warley Santana. Durante quatro meses, ou algo próximo a isso, Santana atuou como um assessor de imagem que servia para dar assistência a personalidades que, com reincidência intensa, aparecem na mídia. Assumindo o comando do quadro “Em foco”, o “oitavo elemento do CQC”, como denominavam os apresentadores do programa, edições antes da sua estréia, Warley tinha como alvos prediletos os políticos. Dentre eles, entrevistou Inocêncio Oliveira e Agnaldo Timóteo. É passível de afirmar que Warley era o integrante do CQC que mais incorporava um personagem. Como foi dito, os demais também tinham resquícios de personagens criados por si mesmos diante do trabalho que se propuseram a fazer. Porém, Santana era o “elemento” mais personificado. Ele estava imbuído quase que inteiramente de um personagem. Isso dava a ele uma atuação à margem dos demais, já que os sete elementos oficiais do programa eram mais ‘originais’. Assim como o “repórter inexperiente”, de Danilo Gentili, o “Em foco” teve de decretar seu término por ter caído no conhecimento do público. Todas as entrevistas foram feitas antes de a seção ir ao ar. Warley se oferecia a algum político ou celebridade como um assessor de imagem que iria trabalhar sobre o discurso dessas personalidades para que, quando estivessem na mídia, aparecessem de outra forma, de uma maneira mais ‘eficiente. Porém, Santana propunha conselhos absurdos, como as famosas e clichês ‘frases feitas’. Todos aceitavam as dicas do ‘assessor de imagem’. No fundo, o que Warley fazia era mostrar à sociedade que o que se vê quando, especialmente um político, coloca-se em frente às câmeras não é o seu próprio discurso, sua idéia original. É algo preparado previamente, dando artificialidade a algo que deveria prezar pelo caráter concreto. Não deixa de ser um segredo desvendado de grande utilidade aos telespectadores que, a todo momento, são acometidos por aparições de determinadas personalidades em canais de TV. Tanto o conceito de personagem quanto a sua função no discurso estão diretamente vinculados não apenas à mobilidade criativa do fazer artístico, mas especialmente à reflexão a respeito dos modos de existência e do destino desse fazer. Pensar a questão da personagem significa, necessariamente, percorrer alguns caminhos trilhados pela crítica no sentido de definir seu objeto e buscar o instrumental adequado à análise e à fundamentação dos juízos acerca desse objeto (BRAIT, 1985, p.28). Após dois meses de disputa, em 28 de setembro de 2009 o CQC ganhou um oitavo elemento. Mônica Lozzi, atriz de Comédia stand-up, venceu o concurso que apresentou inicialmente 28 mil inscritos. A trupe do Custe o que custar passa agora a contar com uma mulher, fato que não surpreendeu o pesquisador. A maturidade do programa pedia um diferencial à altura, e tanto o elenco como o público demandavam uma renovação, algo que impulsionasse ainda mais o semanal. Foram mais de 28 mil inscritos, enviando seus vídeos, para disputar uma vaga. Uma concorrência perversa, mas que ao mesmo tempo simboliza a força que o semanal adquiriu em menos de dois anos de vida. O programa "CQC" apresenta nesta segunda-feira a lista de 34 préselecionados para eleger o oitavo integrante do time de repórteres da atração, que é exibida semanalmente às segundas às 22h30 na Band. A princípio, eram 32 candidatos que estariam nesta fase com mais dois em reserva, mas a produção do programa decidiu colocar todos na disputa. Na relação dos pré-selecionados, há dez mulheres e 24 homens. O candidato mais jovem tem 18 anos e o mais velho tem 50. Ainda no "perfil" dos pré-selecionados, há como profissões jornalista, músico, arquiteto, estudante, humorista, ator, repórter, apresentador de TV, radialista, comediante, auxiliar administrativo, empresário, cantor, publicitário e até guarda portuário, entre outras atividades (Publicado em 17/08/2009, às 13h51min, pelo portal Folha Online. Acesso em 15/10/2009, às 15h15min). A diferença entre todos os integrantes do programa – seja da bancada ou os repórteres – está justamente nos traços de personagens que cada um incorpora. Estes contribuem para o andamento da reportagem e do programa e, há oportunidades, que supera a condução tradicional. “A personagem ou o personagem é um ser fictício que é responsável pelo desempenho do enredo; em outras palavras, é quem faz a ação. Por mais real que pareça, o personagem é sempre invenção, mesmo quando se constata que determinados personagens são baseados em pessoas reais” (GANCHO, 1997, p.14). A variedade de personagens proporcionou ao CQC um nível de qualidade respeitável. Veio para contribuir com o sucesso do programa aliado à proposta que o concebeu: jornalismo crítico e irreverente. 3.7 Os pontos fracos Como qualquer conteúdo midiático, o CQC apresenta deficiências que necessitam serem sanadas. Cada vez menos, os telespectadores vão aceitar matérias puramente de entretenimento, que é um conteúdo que possui boa incidência em algumas edições, não em todas. O público sabe que o CQC nasceu de uma proposta crítica e contestatória, para fazer uso do humor da forma mais eficaz e apropriada. E a cobrança partirá sempre de tal prerrogativa. O que se viu em fins de 2008 e em momentos de 2009 foi o semanal subestimando o nível em detrimento de falas e gestos que atingiram a pornografia. Difícil imaginar o programa se desviando da iniciativa que o concebeu. Naturalmente, o público não vê isso com bons olhos e a audiência pode ficar comprometida. O diferencial do CQC está no fato de informar com humor. Esta característica é possível situar em outros conteúdos. “Após uma liminar, concedida pela Justiça na última sextafeira (22), que impediu a reprise de um trecho do "CQC" em que o apresentador Marcelo Tas se referia à banda Sexy Dolls como "prostitutas", a Band decidiu gravar o programa exibido nesta semana” (Publicado em 27/05/2009, às 07h52min, pelo portal Folha Online. Acesso em 15/10/2009, às 15h20min). Outra falha em que o programa, volta e meia, esbarra-se é com relação ao envolvimento do entrevistado. Já houve situações em que, apesar de ser feita uma ‘graça’ carregada de ironia, o entrevistado se adequou à piada e transformou-se em parte dela, sem qualquer tipo de problema. Nesses casos, a crítica perde consideravelmente o seu poder de mostrar ao público um dos responsáveis pelo mau andamento de alguma lei ou projeto. Ela acaba também não colocando esse elemento central na berlinda, o que o forçaria a reverter a situação a seu favor e em prol daquilo que já deveria ser usufruído pelo cidadão. A receptividade e a resposta vão muito do entrevistado. O ‘cara’ do ônibus [Rafinha se refere a um entrevistado que não entrou na brincadeira e se saiu bem] foi espertíssimo. Ele entrou na brincadeira e o Proteste perdeu a força, em partes. Porque você tem duas maneiras de pensar: ‘esse imbecil está rindo de um problema que ele mesmo criou’ ou você pode achar que ‘ele está rindo porque achou engraçado e perdeu a força’ (Rafinha Bastos, em entrevista ao autor, no dia 07/10/2008). Mas o CQC tem pontos fortes. E um dos maiores é a variedade de estilos que marcam os repórteres visando à unicidade da proposta do programa. Há o chefe, o mais sério, o moleque e entre os jornalistas de rua cada um com o seu discurso, desfrutando de ferramentas para levar ao telespectador dois quesitos que compreendem a alma do conteúdo: jornalismo e humor. Essa linha de abordagem faz do Custe o que custar um diferencial na grade de programação da televisão aberta, em meio a tantas produções iguais e de qualidade bastante duvidosa. A alternância de personagens colabora para dar riqueza às transmissões. Sem ultrapassar o limite do bom senso e colocar em prejuízo a atuação do jornalista – que é o essencial de um programa que se diz jornalístico com viés humorístico – a caracterização desses profissionais, seja artificial ou por talento próprio, sofistica as matérias, ironiza o que deve ser criticado e leva ao público uma informação bem humorada. Isso faz com que haja o interesse por parte deste telespectador em atentar para o que está sendo dito, podendo ser o mesmo assunto do telejornal do dia, porém com um tratamento que transcende o formalismo e o óbvio. O CQC veio a somar. Seja para quem produz conteúdos, seja para quem os consome. O seu surgimento é uma forma de sugerir novas demarcações naquilo que se conhece por qualidade. Elevar esse índice é imprescindível para que se tenha um jornalismo, de modo específico, e uma mídia, sob um olhar amplo, atentos à função social. Os personagens trabalhados pelos elementos nos são úteis para compreender outros personagens – vilões, diga-se – que vagam impunes por aí. Servem, pois, para a nossa evolução, seja como personagens ou cidadãos. 3.8 Jornalismo e humor No Brasil, a união do humor (e todas as suas vertentes) com o jornalismo aconteceu com maior força no Regime Militar. A idéia dessa junção era fazer oposição ao governo vigente. Esse cenário será visto mais detalhadamente adiante. Por hora, é interessante contextualizar historicamente essa imprensa de oposição. Enquanto a imprensa brasileira vivia sua fase mais primitiva, os políticos tinham nela sua principal ferramenta de manipulação social. Era um jornalismo amador, que se incumbia de publicar o que era feito pela Coroa portuguesa, então instalada no Brasil. É o que conhecemos por Imprensa Régia. Na busca de se contrapor a esse movimento monótono e singular, surgiram diversas publicações de caráter oposicionista. Eram os denominados pasquins. Eram jornais pequenos, geralmente com quatro páginas, que faziam uma oposição desmedida ao regime colonialista. Como se colocaram à margem do senso comum, daquilo que prevalecia à época, os pasquins enfrentavam sérias dificuldades estruturais, financeiras e de difusão. De acordo com o historiador Nelson Werneck Sodré (1983, p.157), em A história da imprensa no Brasil, eram vozes desconexas e desarmoniosas, bradando em altos termos e combatendo desatinadamente pelo poder que lhes assegurasse condições de existência compatíveis ou com a tradição ou com a necessidade. Não encontrando a linguagem precisa, o caminho certo, a linguagem política adequada aos seus anseios, e a forma e a organização a isso necessárias, derivavam para a vala comum da injúria, da difamação, do insulto repetido. Não podiam fazer uso de outro processo porque não o conheciam, não estavam em condições de utilizá-lo. Mas os pasquins não ficaram restritos à era colonial brasileira. Depois disso, o país passou por outros momentos de dominação de um pequeno grupo sobre a maioria da sociedade, o que gerou muita censura, tortura e cerceamento da liberdade de ir e vir: o principal deles foi o Regime Militar (1964/1985). Durante esse período surgiram jornais que, assim como no passado, faziam oposição ao governo vigente. Porém, como os meios repressivos estavam à flor da pele, a oposição não poderia ser feita de maneira aberta, aos olhos de todos. Era preciso inserir a informação nas entrelinhas ou sob algum disfarce. Estava formado o termo ‘imprensa alternativa’, alternativa à grande mídia que, ou esbarrava no impedimento de fazer jornalismo, ou fazia imprensa à base dos conchavos políticos. Em uma época de repressão, era a voz dissonante e necessária à sociedade. Em meio a essa pequena, porém barulhenta imprensa, aparecia o mais atuante e competente jornal alternativo do Brasil até aquele instante. O Pasquim, aderiu ao humor engajado dentro do jornalismo. Trabalhando especialmente com ilustrações (charges e tiras), os idealizadores compuseram um veículo de comunicação dos mais atuantes em um regime que prezava pela falta de atuação, isenção de questionamentos. Para fugir da censura, o Pasquim tinha de ser, ao mesmo tempo, inteligente e complexo para entender, já que qualquer suspeita de crítica aos militares seria pretexto para o conteúdo receber cortes. A leitura, assim, tornava-se difícil, exigia do leitor extrema atenção e sensibilidade para as mensagens subliminares. Era a única forma de o Pasquim continuar informando a sociedade, à margem do jornalismo controlado. Ficamos sem eleições por quase trinta anos. Tentávamos adivinhar o que os alternativos estavam querendo dizer nas entrelinhas, o que estava oculto talvez fosse mais importante do que aquilo que aparecia impresso, o que era colocado aos nossos olhos. Agíamos como se estivéssemos surdos e cegos a tudo o que acontecia à nossa frente, à nossa volta (CHINEM, 1995, p.86). Mas o humor inteligente d’O Pasquim estava justamente no fato de não criticar abertamente a oposição. Ele abordava o contexto, mas não especificava os personagens da situação. Em um intervalo de 20 anos, o alternativo conheceu o auge e a derrocada. Dois motivos contribuíram para o brusco contraste. Primeiro, os anos de chumbo da ditadura, entre 1969 e 1977, atrasavam a censura, de maneira proposital, gerando indisposições com os patrocinadores. Segundo, os idealizadores e produtores do jornal eram artistas sem espírito administrativo, empreendedor. No ápice, quando produziam 225 mil exemplares, com comercialização total, a arrecadação era marcante. Ainda assim, não se planejou o Pasquim à mercê de tamanha arrecadação e os trabalhos se encerraram sob uma dívida, em dólar, milionária. À parte, a participação do Pasquim, apesar da inaptidão comercial e empresarial de seus integrantes, marcou época no ramo de editoração e atividade dentro do jornalismo político. Os humoristas d’ Pasquim não praticavam o humor diversionista, ou como forma de reintegração do indivíduo no sistema. Era um humor fortemente centrado na denúncia da coerção e da violação dos direitos humanos. Assim como a charge norte-americana atingiu seu apogeu durante as guerras mundiais, depreciando o inimigo, ao mesmo tempo em que oferecia alívio às famílias dos soldados, o humorismo pasquiniano sob a ditadura agredia o aparelho dominador com ironia funda, e trazia alívio ao campo oprimido (...). Por isso, nesse humor não havia campo para ironizar as oposições, sendo raros os que o faziam. As oposições eram a platéia do jogo coletivo e não seu objeto. Sua agressividade, suas incursões no inconsciente do opressor, a desmoralização do imaginário repressivo, tudo isso gerava uma profunda irritação no aparelho militar. Ao mesmo tempo em que o desprezo pelo objeto, intrínseco à caricatura e à charge, era capitado e compartilhado pela intelectualidade, no estamento militar gerava uma reação de ódio incontida (KUCINSKI, 2003, p. 220). No portal Folha Online, Miguel Arcanjo Prado entrevistou Marcelo Tas, âncora do programa, e uma das questões abordadas foi a possível semelhança com o meio de comunicação alternativo. Tas é direto ao responder: “Eu quero ser mais ambicioso do que isso. Não quero daqui a alguns anos pedir uma indenização como o Jaguar e o Ziraldo fizeram. Que fiquemos na fase gloriosa do 'Pasquim' e não esse trágico desfecho das figuras que eu tanto respeitava” (Publicado em 01/07/2008, às 12h20min. Acesso em 13/07/2008, às 17h10min). É preciso afirmar que a subjetividade do Pasquim vai de encontro à objetividade no Jornalismo. O jornalista é o responsável por informar as pessoas de algo que acontece na sua localidade ou que mantém relação com ela. É necessário, pois, que o processo de comunicação seja o mais simples e direto possível, para que haja inteira compreensão por parte do público em relação ao que está sendo transmitido. Para Luiz Amaral (1996, p.25), Nada mais natural que, em um determinado momento histórico, a noção de objetividade viesse a interessar à imprensa, cuja função é informar o que se passa na comunidade, no país e no mundo. Mas essa incorporação não se fez do dia para a noite. Começou a partir de meados do século XIX com a lenta e persistente adoção e discussão dos princípios de imparcialidade e equilíbrio como componentes determinantes da ética profissional de captação e transmissão de notícias. Em meio a todas essas análises está o produto de todos os elementos: a informação. Se de um lado tem-se o jornalismo e a sua característica mais marcante, que é a de tornar público o que é de interesse de um grande número de indivíduos, de outro há o humor e todas as suas variantes: ironia, sátira, irreverência, sarcasmo, entre outros. Foi mostrado que a união de um com o outro pode produzir resultados positivos, em um trabalho considerado de alto nível e que é apreciado pelo público, o que, em um processo comunicacional, é de extrema relevância. O programa semanal da Bandeirantes, CQC – Custe o que custar, encontra-se na convergência entre as duas vertentes estudadas: jornalismo e humor. Nada mais natural, então, analisá-lo como forma de entender melhor como funciona o mecanismo de transmissão de informações sob a vertente humorística. É claro, sem perder de vista o que já fez história e mencionando os pontos fundamentais de cada frente (jornalismo e humor) de modo isolado. 3.9 Jornalismo e humor televisivos Fazer jornalismo permeado pelo humor não é novidade. Para não ir muito longe, na transição da década de 60 para a de 70 surgiu no Brasil um veículo de comunicação que fez oposição ao Regime Militar, durante o tempo que sobreviveu. O Pasquim foi idealizado por três pessoas: o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral. Mais adiante, pouco antes de a publicação ir às ruas, Ziraldo, Millôr, Prósperi, Claudius e Fortuna se reuniram ao trio, formando a espinha dorsal da equipe. Tendo um princípio morno, o tablóide tornou-se vanguarda dos manifestos contrários à Ditadura, justamente quando o cerco se tornou mais fechado. Para fugir da perseguição, da censura e do risco de ser posto na ilegalidade, os integrantes do veículo lançaram mão de uma característica que já era marca pela natureza de suas atividades. O humor foi usado para ludibriar os perseguidores e a informação chegava às pessoas com o disfarce da sátira, da ironia. Mesmo em um regime de democracia, o CQC reavivou a proposta do Pasquim. Primeiro, que mesmo não havendo mais Ditadura os partidos e os políticos não vêem com bons olhos a liberdade de expressão e opinião na mídia, especialmente quando os têm como foco. Como isso quase sempre acontece porque há motivos para que tal movimentação ocorra, não é pouco comum a atuação da imprensa – e é sua função precípua – percorrer as particularidades da política nacional. Sendo assim, o humor serve como uma fantasia, um enfeite para a comunicação. Além disso, o público aprecia o humor. Se este estiver atrelado à informação, que é outro atrativo para o cidadão, mais um motivo para o conteúdo repercutir consideravelmente no meio social. Aliado a esse fator, o CQC possui um diferencial em relação ao Pasquim. O semanal da Band é veiculado na mídia televisiva que, como já se sabe, tem um contato mais estreito com o público do que os meios de comunicação impressos. É evidente que o programa tem como recurso explorar todos os instrumentos que a TV tem a oferecer, não apenas ao telespectador, como também aos produtores de programas de televisão. Tal meio comunicativo ganha cada vez mais adeptos, pelo fato de sua aquisição ser facilitada (preços reduzidos) e ser de acesso simples, já que a linguagem é menos empolada do que na mídia impressa. Outra necessidade que a TV atende é a da praticidade. Esta mídia não requer do seu público destinar um tempo extenso para a sua visualização, outro diferencial em relação às revistas e jornais. O meio comunicacional televisivo apresenta seus perigos. Por desfrutar de um artifício essencialmente marcante – a imagem em movimento –, a TV é capaz de fixar, no telespectador, mais facilmente as mensagens disponibilizadas. É bem menos complexo gravar uma imagem dinâmica, acompanhada de som, do que apenas o som ou uma imagem estática ou apenas palavras. O mundo das imagens é impiedoso. A imagem se impõe como o modo essencial da relação entre os seres e o mundo. A representação supunha um ‘distanciamento’, ela permitia crer que o mundo era um espetáculo, e o funcionamento da mídia contribuiu durante muito tempo para a produção espetacular dos eventos. Agora a imagem é imediata, ela não oferece mais a possibilidade do tempo de se representar o que se passa. Ela também é imperativa pois, sem ela, nada parece poder existir. Uma regra dos meios de comunicação de massa então se impôs: a realidade do acontecimento coincide com a imagem do acontecimento. O telespectador não tem ponto de apoio sobre o que se passa no mundo, é captado por imagens que desfilam num continuum. Ele pode se insurgir invocando a charlatanice eterna nas mídias; sua cólera é destinada ao silêncio, ele nada pode contra o poder das imagens mesmo se considera que os sistemas de informações constituem uma arapuca universal. A fusão entre a imagem e o real é tão absoluta que o acontecimento não pode sequer aparecer como a imagem de uma realidade escondida (JEUDY, 2001, pp. 24-25). Mas a televisão não é importante apenas por causa deste apontamento. Por ser um veículo comunicacional que alia som à imagem, há a possibilidade de se realizar trabalhos mais ousados, se comparado ao rádio e à mídia impressa. Os conteúdos disponibilizados neste meio de comunicação podem se apoderar de gestos, expressões faciais, cores, efeitos especiais, aliados a todas as variáveis sonoras existentes, para enriquecer o que está sendo proposto. Mas é preciso atentar para a questão da qualidade na televisão e não perdê-la de vista. É tempo, pois, de promover uma mirada retrospectiva e tentar redescobrir essa arte negligenciada. É tempo de resgatar a inteligência, a criatividade, o espírito crítico e tudo isso que tem ficado reprimido na maioria das abordagens tradicionais, mas que não é, como muitos podem pensar, uma tendência recente na história da televisão, ou um privilégio restrito apenas a algumas televisões públicas ou canais de cabo (pagos) (MACHADO, 2001, p.21). Dentro da perspectiva diversificada do uso televisivo, o CQC preferiu a irreverência do humor à formalidade do jornalismo convencional. E conquistou uma alternativa, pois a TV está aberta a várias maneiras de se dizer a mesma coisa. O público, por sua vez, é eclético e se adaptou fácil à maleabilidade da televisão, embora pareça haver um ‘padrão de qualidade’, importado dos Estados Unidos, a ser seguido, especialmente no interior do campo jornalístico. É evidente que o jornalismo brasileiro, encabeçado pelo Jornal Nacional, o mais antigo telejornal do país, reproduz as evoluções que caracterizam o modus facendi da imprensa estadunidense. Essa tendência não toma, apenas, a forma como o conteúdo é transmitido, mas também este próprio. O fundo ideológico e discursivo é moldado pelo ideário ocidental, pela cultura capitalista. É raro acompanhar conteúdos relacionados aos muçulmanos que não os coloquem como terroristas. É comum não visualizar informações que questionem um posicionamento dos Estados Unidos ou dos principais países da Europa. “Adorno referia-se não só à uniformidade dos filmes, do rádio e da mídia impressa popular, como jornais e revistas, mas às belas-artes e à música, que tinham de ser harmoniosas de um modo falso e forçado para que fossem facilmente consumíveis” (CASHMORE, 1998, p. 39). Tal padronização tendenciosamente exagerada provém daquilo que Marilena Chauí nomeia de ideologia dominante. O Brasil, que até pouco tempo apresentava dependência ao capital dos Estados Unidos, trazia para o jornalismo, para a economia, à cultura, toda a submissão resultante da exploração histórica, liderada por Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e Estados Unidos. Cada um a seu tempo tirou do país o direito de ter uma feição. Boa parte disso, é bom que se diga, por nossa própria culpa. Sem ser dono de si mesmo e com sua identidade desfigurada, o Brasil adotou em vários campos as características que mais lhe satisfaziam. Pela proximidade, os americanos foram mais presentes. Mesmo com a recente independência econômica, o país não abandona o modelo dominante que prevalece no jornalismo nacional, mesmo porque a sociedade se acostumou e contentou-se com a fórmula pronta. Com medo de arriscar a inovação, resta o contentamento por não perder audiência. Os noticiários não são neutros. Temos diversos estudos que mostram que a representação que os meios de comunicação fazem dos acontecimentos nacionais e internacionais é parcial, distorcida e, freqüentemente, têm uma perspectiva política (...). O próprio processo de selecionar, editar, estruturar e depois apresentar as histórias deixa sem sentido qualquer afirmação a respeito da objetividade jornalística. No instante em que notícias em potencial se tornam ‘notícias’, elas se tornam sujeitas a processos que finalmente as colocarão numa forma que possa ser assimilada com facilidade pelos espectadores, leitores e ouvintes. Durante esse processo, as notícias são definidas, interpretadas e comunicadas por diversas pessoas, cada uma das quais lhes dá uma inflexão ou uma ‘direção’ (CASHMORE, 1997, pp. 216-217). No caso do Custe o que custar, o método escolhido para transmitir informações sobre os mais variados temas da sociedade – política, esportes, economia, cultura, celebridades – foi o humor. Dentro deste, a ironia se destaca e ganha muito apreço junto aos telespectadores, principalmente quando o alvo são os políticos. Como já visto, neste caso o humorismo serve como uma espécie de vingança contra os que provocam afrontas. De acordo com Henri-Pierre Jeudy (2001, p.75), tem-se freqüentemente o humor por uma qualidade do espírito mais sutil do que a ironia. Ter humor é ser capaz de rir de si mesmo. A ironia parece mais maldosa, mais pérfida; ela é antes de tudo uma arma voltada contra os outros. Um pouco antes, o mesmo autor (2001, p.73-74) dá embasamento à idéia de que a ironia é avassaladora no que diz respeito à sua função de provocar o oponente. Quando é sistemática, a ironia irrita. Nada parece lhe resistir pois nada mais pode ser levado a sério. Essa desenvoltura no que diz respeito à tragédia humana, a exibição da irresponsabilidade, a demissão doentia aparecem como signo de uma destruição do sentido que inflige aos outros as vicissitudes de uma ridicularização sem moderação. A ironia é fácil: nenhum engajamento, nenhuma crença, nenhum ideal, nenhum valor reconhecido, nada além da gozação infernal que destrói o sentido de cada coisa. E por que é necessário, inclusive à sociedade, usufruir uma televisão de qualidade? O autor Arlindo Machado oferece uma justificativa interessante sobre como uma TV de qualidade pode influenciar no meio em que é consumida. “Numa sociedade heterogênea e complexa, em que não existe – felizmente – nenhum consenso sobre a natureza do meio, sobre seu papel na sociedade e sobre o modo como devem interagir produtores e receptores, uma televisão de qualidade deve ser capaz de equacionar uma variedade muito grande de valores e oferecer propostas que sintetizem o maior número possível de ‘qualidades’” (MACHADO, 2001, p.25). E se falamos de humor, a diferença entre TV e as demais mídias é ainda mais superior. Esta categoria, por ser muito maleável, saliente e requerer uma interação maior com o público – é necessário que este ria –, vai desfrutar com intensidade elevada de todas as ferramentas que a televisão pode oferecer, para compor um produto de qualidade. É natural que, se bem feita, a proposta terá um acabamento melhor, contará com um formato qualificado e a sua receptividade será superior, se comparada a qualquer outro veículo comunicativo. Mas para se fazer humor na televisão e, de quebra, de forma engajada, já que o jornalismo e a informação transmitida com graça requerem certa articulação e organização, é preciso ser adepto de uma ferramenta indispensável para se fazer entender e compor um conteúdo de qualidade: a criatividade. Mais ainda, fazer humor na TV para um telespectador que espera ainda uma informação jornalística pede também a criatividade, até como prerrogativa de aquisição de credibilidade, o elemento preponderante e essencial da atuação de qualquer jornalista, nos mais variados países do mundo, adeptos de culturas das mais diversificadas. Se no conteúdo humorístico não for situada a qualidade mínima exigida pelo veículo e pelo telespectador, não há forma de estender a idéia por mais tempo. Quando falamos em humor qualificado, estamos nos referindo à criatividade, o traço que dá feição aos materiais dessa natureza. E se além do humor, o jornalismo também está em questão, a necessidade – e por que não, a obrigatoriedade – de inserir criatividade nesse conteúdos é ainda maior. Ela é sinônimo de produto qualificado e, como tal, dá ao público a certeza de que consumir a publicação não é danoso ao telespectador. É possível que um programa de humor, sem qualidade, resista por algum tempo. Afinal, será o ‘diferente’ em meio às transmissões já existentes. Mas fatalmente, em pouco tempo, cairá no desgosto do público. Se se tratar de jornalismo, desqualificado, é possível que este tempo fique ainda mais curto. O público não tolera o que, aparentemente, está sendo transmitido sem compromisso. Então, quando falamos em qualidade inserida em conteúdos jornalísticos com viés humorístico, dizemos que a criatividade é preponderante para manter intacta a credibilidade do veículo e, principalmente, do programa em relação ao público. Um programa que ganhou a empatia do público foi o Casseta & Planeta, da Rede Globo. Apesar de afirmarem que fazem um programa do tipo ‘jornalismo-mentira’ e ‘humorismo-verdade’, os rapazes do semanário da terça-feira são capazes de passar informações ao público, criticando as ilicitudes com que a população se revolta e, de quebra, fazem tudo isso com muito humor e inteligência. É inegável que foi abandonado aquele humor só por fazer humor, e foram encorpados elementos mais engajados. Brincadeiras de lado, os diabólicos rapazes do Casseta e Planeta se tornaram um fenômeno único na televisão brasileira: são, ao mesmo tempo, desbocados e sofisticados, intelectualizados e populares. São capazes de tirar sarro sutil dos lutadores de jiu-jitsu, ao mesmo tempo em que fazem uma gozação inteligente dos brutamontes. Como sucesso de público e de crítica, eles continuam a desafiar a norma televisual de que no mundo nada se cria, tudo se copia. Não há como negar a originalidade do seu trabalho, apesar das explícitas influências. Da mesma forma que promoveram uma renovação do humor televisivo, libertando-o do modelo radiofônico, aproximandoo da sátira ao jornalismo e à própria TV, curiosamente eles são tão singulares no que fazem que, apesar do sucesso, nenhum concorrente tentou imitá-los (GONÇALO JUNIOR, 2001, p.55). Marcelo Madureira, integrante do Casseta, aborda a questão do uso do palavrão como instrumento para fazer o espectador rir. Em vez disso, ele defende a utilização de uma idéia mais elaborada, em detrimento de um termo de baixo calão. Para Madureira, a grande ‘tacada’ do humorista está, justamente, não concretização de uma produção, sem perder de vista os níveis de qualidade. “Falar palavrão fora do contexto, só para dizer palavrão, é babaquice, coisa de adolescente. Agora, se bolarmos uma grande sacada que não precisa ter palavrão pode ser revolucionário, como muitas vezes tem acontecido no nosso programa sobre determinados temas” (GONÇALO JUNIOR, 2001, p.73-74). O escritor, roteirista e diretor Max Nunes, idealizador de programas de humor que fizeram sucesso no Brasil, como Viva o gordo, Faça humor não faça guerra, Primo rico e primo pobre, também fala sobre a utilização do palavrão para divertir o público. Nunes não entende como essa espécie de produção pode ser pensada e colocada em prática e o público aceitar essa técnica. Combato muito esse tipo de programa com nível para baixo. Não gosto muito. Hoje, o palavrão substitui a inteligência. Por que se diz um palavrão e todo mundo ri? Não sei e não consigo entender. Se tivesse graça, vá lá. Não que seja puritano, mas defendo a graça feita com inteligência e bom humor (GONÇALO JUNIOR, 2001, p.257). A televisão, com toda a flexibilidade de que dispõe, é capaz de levar ao público produto humorístico e de qualidade. Levando-se em conta que o orçamento televisivo é caro e que conta com uma receita que permite sofisticar mais, é possível agregar ao jornalismo e ao humor características que só a TV tem a oferecer. A deficiência latente é que tais recursos podem transformar o veículo em questão em um instrumento apelativo. O humorismo de hoje explora essa característica, na medida em que põe em segundo plano a graça para privilegiar aparições de mulheres intocáveis, do ponto de vista estético. Isso projeta a essência, o conteúdo para uma queda livre. O Custe o que custar, como propõe jornalismo, e não somente humor, foge da tendência, a partir do momento que destina a maior parte de sua apresentação para dar visibilidade às pessoas que estão envolvidas em algum questionamento polêmico, como problemas de ordem política e social. Todavia, o programa já ultrapassou os limites que, aparentemente, eram impostos por si, ao difundir imagens chamativas de mulheres semi-nuas, interagindo com o repórter de modo apelativo. CAPÍTULO IV ESTUDO DE CASO DO QUADRO PROTESTE JÁ30 4.1 Introdução Pelo percurso traçado até então, o CQC, além de matérias jornalísticas, apresenta conteúdo sobre variedades, entretenimento. Trata-se da passagem onde o humor sobrepõe o jornalismo. Tanto a fatia humorística quanto a jornalística são atrativos para o público, que credencia o Custe o que custar como um dos programas de maior audiência da TV Bandeirantes. No entanto, quando as duas características centrais do semanal se convergem, os resultados são ainda mais interessantes. Existem transmissões jornalísticas abordando diversas temáticas: economia, esporte, cultura, enfim, questões de interesse público. Como já visto, o jornalismo provém da relação com a política. Dessa forma, é do jornalismo político que saem as reportagens mais instigantes. Por isso, o CQC tratou de rechear suas transmissões com a emissão de luz sobre pendências sociais, ao atentar para a polarização entre sociedade e política, dando contornos ao jornalismo político. A seção que mais se incumbiu dessa responsabilidade foi o Proteste já. Com raras exceções, o quadro é veiculado todas as semanas. Normalmente trazendo uma problemática das proximidades de São Paulo, Rafinha Bastos mescla a fiscalização de uma denúncia com o humor. Moradores insatisfeitos com alguma anormalidade ou irregularidade em seu bairro ou cidade entram em contato com o programa, por intermédio do canal eletrônico, o e-mail ([email protected]). O repórter se dirige ao local e coleta informações dos habitantes insatisfeitos e do Poder Público que é apontado como culpado pelas ilicitudes. É possível afirmar que o quadro, além de dar visibilidade a questões de relevância social, provoca efeitos positivos à comunidade que busca salientar. É comum a realização de várias edições e a produção de um Proteste destinado exclusivamente a conferir se as promessas foram cumpridas. Os resultados são estimulantes, na medida em que ficam notórias as melhoras que, de fato, aconteceram entre as duas visitas. É pertinente a afirmação de que o Proteste já é o quadro mais sério e jornalístico do programa. 30 As edições estudadas do Proteste já, divididas em categorias, estão no DVD em anexo. 4.2 A forma O Proteste já é o único material do Custe o que custar que não vem precedido de piada. Antes de sua veiculação, Marcelo Tas chama a atração e em seguida passa a palavra a Rafinha Bastos, o responsável pelo quadro, para que ele resuma a proposta do dia. Em média, o tempo de cada edição é de dez minutos. O primeiro passo é situar o local de onde partiu a denúncia. Comumente, o Proteste já é apresentado de algum bairro/comunidade carente, regiões que apresentam os maiores problemas de diversas naturezas. Dificilmente, Rafinha vai a cidades que não estejam nas proximidades da capital paulista. Ainda assim, surgem pautas proveitosas. Após situar a localidade, Bastos remete a palavra a um morador, provavelmente o interlocutor da reclamação, da denúncia. É ele quem relata com mais detalhes a situação que levou o CQC até o lugar. Com o público inteirado da conjuntura, Rafinha direciona a fala a outros moradores, para que opiniões e explicações sejam dadas acerca do assunto. Feito isso, a equipe trata de apresentar, de fato, a reclamação dos cidadãos, o problema que impede a plenitude de algum serviço ou obra. Em corpo presente – e por vezes inserindo-se na situação relatada, como será visto a seguir – Bastos expõe ao telespectador a indignação que aflige os moradores. Após essa passagem, o jornalista se dirige aos responsáveis (normalmente, a classe política) pelo mal andamento do bem público para ouvir os esclarecimentos e as justificativas das autoridades. Como garantia, Rafinha Bastos firma um prazo com o entrevistado, a fim de comprometer e pressionálo a pôr o serviço em funcionamento. Para finalizar a entrevista, o compromisso de Rafinha com a autoridade é feito por meio de uma troca: esta se compromete a realizar o serviço dentro do prazo em troca da devolução de um objeto de sua posse que é levado pelo jornalista. Assim como durante todo o programa, o Proteste não foge à regra. A fala de Rafinha Bastos é permeada de humor. Obviamente, por se tratar de uma seção mais voltada à cobertura jornalística de uma denúncia, o discurso do repórter carrega menos o tom irônico, embora sejam sensíveis as inserções do humorismo no curso do quadro. Além disso, os efeitos sonoros e, especialmente, os visuais não deixam de ilustrar as investidas jornalístico-humorísticas. É importante salientar que o fato norteia a atuação de Bastos, e não a piada. Esta sucede a apuração factual. Outra característica marcante e que contribui para a identidade do quadro é a fórmula povo-jornalismo-política. Em praticamente todos as edições estudadas é perceptível a mediação que Rafinha Bastos faz entre a insatisfação popular e as responsabilidades da classe política. É a mercê dessa dinâmica que as investidas do Proteste já acontecem. Mas o grande diferencial do quadro em relação aos demais conteúdos do CQC é na forma como se desenrola a história. Para introduzir e concluir a narrativa, Bastos elabora um enredo, no qual encenações e figurinos diversos são inseridos para compor melhor a história a se contar. Com isso, o repórter traz para o campo jornalístico modelos romanescos com os quais o telespectador está habituado. Tem-se uma metáfora que situa o telespectador no assunto a ser tratado. Para complementar a encenação, Rafinha se utiliza de figurinos caracterizados. A partir do conto que monta, as roupas são aderidas à reportagem. É comum a adaptação transcender o campo da ilustração e atingir as investidas jornalísticas, na medida em que a imagem de um jornalista “fantasiado” ou acompanhado de “alegorias”, entrevistando os responsáveis pelo item contestado, é corriqueira. São duas as funções desses “enfeites”: criar uma sensação de pertencimento maior para o telespectador e inserir irreverência em contexto em que prevalece a seriedade. Após o término da matéria, a ação volta ao estúdio e os elementos da bancada fazem seus comentários. Novamente, assim como no princípio, o humor dá lugar a falas mais formais e sérias, no sentido de aguardar, sem deixar de vigiar, se surgirão resultados melhores. 4.3 Critérios de seleção de edições Para melhor realizar a pesquisa, decidimos dividir este estudo de caso em duas etapas. A primeira diz respeito ao que foi feito, até então, neste quarto capítulo: traçaram-se as características gerais do quadro, sem especificar qualquer episódio ou passagem do Proteste já. Apontamos o que é corriqueiro na seção e compusemos uma descrição explicativa. Porém, não é possível realizar um estudo de tal natureza sem tocar nas especificidades de cada edição. Para possuir uma identidade, é necessário manter peculiaridades que façam o público assistir ao Proteste e, mesmo sem ver ou ouvir o seu anúncio, saiba do que se trata. Essas características foram especificadas anteriormente, com o intuito de identificar o conteúdo. Mas, como toda repetição (que adquire elementos iguais – identidade – e diferentes a cada nova aparição – atrativo desconhecido), deve haver as novidades, os diferenciais. Com o Proteste já não é de outra forma. A cada nova aparição, o desenrolar da situação e o enredo pré-estabelecido sugerem performances alternativas por parte do jornalista. A partir dessa premissa, Rafinha Bastos mantém a identidade do quadro, sem cair na rotina sem criação. Da mesma forma que se restringir a esta análise mais pontual, lançando mão de diversos episódios, seria superficial em demasia apenas se reservar a um acompanhamento mais genérico. Por isso, a idéia de separar em duas etapas o estudo vai ao encontro do pensamento mais abrangente, de caminhar pelas ramificações sem perder de vista a generalidade. 4.4 As diferentes edições Levando em consideração a necessidade de se aprofundar no quadro, tratamos de subdividi-lo em categorias, sendo elas: política, saúde/economia, transporte, cidadania, educação, habitação, meio ambiente, saneamento básico, prestação de serviço, cultura e resolução de casos. Decidimos por tal classificação, pois, a partir de uma pesquisa sobre todos os quadros transmitidos, de março de 2008 a dezembro de 2009, o Proteste já variou entre essas onze categorias. Grosso modo, esses onze temas permeiam o cotidiano do cidadão e estiveram presentes nas edições do Proteste. Sendo assim, este estudo categorizado se faz necessário para entender como o CQC, um programa de jornalismo e humor, lida, aborda e apresenta a realidade em que se insere. A partir de tal pressuposto, será possível visualizar até que ponto o humor vem a acrescentar ou prejudicar o desempenho jornalístico. Em vista disso, escolhemos uma edição de cada categoria para discorrer sobre o quadro em suas temáticas. A primeira análise será sobre A dieta da cesta básica (Saúde/Economia); depois virão: As obras noturnas no metrô (Transporte); O desrespeito com as vagas para deficientes (Cidadania); O deputado que emprega funcionário fantasmas (Política); Merenda escolar (Educação); Proprietários sem casa (Habitação); Crime ecológico e reciclagem (Meio ambiente); Falta de água em Sumaré (Saneamento básico); Honestidade dos técnicos de eletrodomésticos (Prestação de serviço); Marcenaria comunitária é fechada pelo poder público (Cultura); Proteste já/Resolução de casos. 4.4.1 A dieta da cesta básica (Saúde/economia)31 O Proteste já denominado “Dieta da cesta básica” talvez tenha sido das pautas mais interessantes desenvolvidas pelo repórter Rafinha Bastos. Tudo porque o jornalista decidiu não só cobrir a proposta, ouvindo fontes, apresentando imagens, reproduzindo convívios públicos, mas também fazer parte da história. Em vez de acompanhar um entrevistado que sofria do problema, Bastos se introduziu na problemática para extrair conclusões mais exatas e transmitir de modo fiel tais pendências do cotidiano. De forma resumida, o elemento do CQC fez uma abordagem sobre o valor da cesta básica (em maio de 2008) e a eficácia dessa quantidade em uma família composta por quatro pessoas. A cifra girava em torno de R$ 269,55, ou seja, mais da metade do salário mínimo, como bem frisa o jornalista. Extraindo produto de limpeza e higiene, sobram R$ 226,35 para a compra de alimentos básicos. Ao dividir este valor por quatro (pessoas), tem-se um quociente de R$ 56,58, que será o total utilizado por Rafinha Bastos para comprar a alimentação referente ao seu dia-a-dia. Após isso, os produtos comprados são divididos em porções para serem ingeridas todos os dias, no almoço e janta. O acompanhamento e as divisões ficaram sob responsabilidade de uma nutricionista, enquanto os efeitos na saúde do “paciente” são vistos de perto por um médico. Durante 30 dias, é possível ter uma noção de como a alimentação sem qualidade e quantidade afeta no convívio de Rafinha com outras pessoas. Tanto em casa, a partir do depoimento da esposa, como no trabalho, sendo registradas imagens do repórter antes e durante o programa. Ficou notório que o humor de Bastos estava alterado. Mas a idéia central desta edição foi esclarecer que o valor da cesta básica é alto para quem ganha um salário mínimo, além de não propiciar uma alimentação nutritiva e rica em opções. Por essas características, enquadramos esta edição nos temas economia e saúde. As questões econômicas envolvem o poder de compra do brasileiro ganhando um 31 CQC: Programa 14. Data 16/06/2008. Duração: 16min10seg. salário mínimo e tendo que comprar uma quantidade de alimento suficiente para abastecer uma casa com quatro moradores. A quantia paga pelo salário mínimo não acompanha a inflação sofrida pelos alimentos, e tal disparidade gera inúmeras conseqüências tais como: emagrecimento, princípio de anemia, má qualidade do sono, mau humor em casa e no trabalho, entre outros. Como acontece em todas as aparições do Proteste, Bastos encena uma história que serve de metáfora sobre o assunto tratado. É nesta narrativa que o repórter introduz a matéria, ao aparecer lendo um jornal e sendo noticiado do valor da cesta básica. Essas histórias não só servem como um atrativo mais divertido, como colabora na compreensão do telespectador. No caso específico da edição estudada, Bastos afirma neste conto que fará a cobertura simulando as condições de alguém que vive com renda mínima. Se aparentemente não se trata de uma passagem informativa, os detalhes demonstram que o objetivo é justamente esse. Rafinha Bastos toma o espaço para apresentar as cifras utilizadas para compor os parâmetros de compra e consumo. Não fossem as inserções de dados econômicos em momento propício e específico (no início, antes da cobertura de fato), a decodificação do público ficaria comprometida pela não clareza das informações. Outro ponto a ser destacado nesta edição do Proteste já é a variedade de fontes existente na matéria, dando maior sustentação à abordagem feita. Graças a esse tipo de “especialização”, as declarações dos entrevistados acabam por abranger todo o convívio do repórter, isto é, as conseqüências (positivas ou negativas) propiciadas pela experiência da “dieta” foram vistas e sentidas pelas pessoas entrevistadas. Inegavelmente, isso dá à idéia discorrida argumentos relevantes às considerações do telespectador. Na matéria são entrevistados a esposa do jornalista, um médico, uma nutricionista e um economista. Além disso, freqüentemente o próprio Rafinha Bastos emite esclarecimentos sobre a sua experiência. No jornalismo, assim como em qualquer outro campo investigativo, a melhor maneira de se compreender o problema de modo mais completo é dando voz às diversas variantes do contexto particular e social. É insuficiente se restringir a um viés que, se comparado a outros, não condiz com a realidade recortada. O primeiro entrevistado da reportagem é José Maurício Soares, economista. Entre vários esclarecimentos, ele coloca que o salário ideal para alimentar bem uma família de quatro pessoas, além de quitar as demais obrigações, é de R$ 1.987,00, calculado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Ou seja, frente ao salário mínimo da época, R$ 415,00, há uma diferença que externa o déficit entre o real e o ideal. Já se tem uma noção que as dificuldades enfrentadas pelo entrevistador serão enormes, na medida em que a disparidade de valores é sensível. O outro entrevistado é o médico Gustavo Damasio. Ao contrário do economista, o clínico aparece durante toda a edição, fazendo avaliações semanais no “paciente” e emitindo seus pareceres diante do quadro. É importante salientar algumas passagens da participação do profissional da medicina, como as ocasiões em que ele, logo de cara, não recomenda a Rafinha Bastos praticar aquela alimentação e a constatação de problemas inerentes a uma dieta desregrada: emagrecimento rápido e excessivo (foram seis quilos em dez dias, oito ao final de um mês) e tontura. Esses fatores condicionam o discurso do médico a não indicar tal procedimento. A seguir, o repórter, a partir do cálculo do economista e de uma bateria de exames, vai às compras. A etapa correspondente à aquisição de alimento é a ida a uma nutricionista. A consideração levantada por Cristina Menna Barreto levou em conta os produtos de maior incidência na cesta básica: óleo (fritura), açúcar, arroz (carboidrato), além da falta de carne (proteína). Uma fonte permanente na reportagem, assim como o médico, foi a esposa do repórter, Junia. Com a maior incidência na matéria, pois era a pessoa com o convívio mais presente, a mulher de Rafinha Bastos ofereceu seu testemunho do que é conviver com alguém que não preza por uma boa alimentação. O ônus mais elevado era protagonizado pelos efeitos dessa dieta desqualificada. O mau humor, a insônia e até a eliminação de gases durante a noite foram depoimentos marcantes, que sintetizam a repercussão da experiência em questão. De todos os entrevistados em potencial, talvez o único que pudesse ter feito falta seria o próprio trabalhador, aquele que ganha um salário mínimo, ampara uma família de quatro pessoas e ainda precisa alimentar toda a casa com a parcela referente ao sustento alimentício. Porém, ao se inserir na conjuntura, Rafinha Bastos foi o próprio proletário, simulando o panorama árduo. Para não ficar apenas em imagens, o jornalista também dava os seus depoimentos, ora por meio de offs, ora diretamente para a câmera. A produção deste Proteste foi capaz de abranger as duas propostas do programa: humor e jornalismo. Lançando mão de alegorias (efeitos sonoros e visuais) e do discurso alimentado pela ironia, o humorismo foi praticado durante o tempo da matéria. A partir da perspectiva jornalística, visualizamos detalhes sobre a relação entre o poder de compra do trabalhador, ganhando um salário mínimo, e o que é possível adquirir. Resultado: baixa quantidade de comida e excesso de produtos nocivos à saúde. Dessa forma, riso e crítica, temáticas desta pesquisa, foram situadas neste estudo de caso. 4.4.2 Obras noturnas no metrô (Transporte)32 O segundo Proteste já analisado tem como nome “Obras noturnas no metrô”. O objetivo da reportagem é dar visibilidade a uma reclamação dos moradores dos Jardins, bairro nobre da cidade de São Paulo, devido ao barulho causado pelas obras do metrô. Como se trata de um projeto a longo prazo, o trabalho dos operários “vara” a noite, mas nem por isso a intensidade sonora das atividades diminuem. O incômodo dos habitantes mais próximos foi tratado no quadro. Envolta por prédios residenciais, a região da Avenida Oscar Freire, onde é construída uma das estações da Linha Amarela, emitiu reclamações, no segundo semestre de 2008, contra os constantes barulhos produzidos pela obra. Embora a ampliação do metrô seja importante aos moradores e a toda população paulistana, a reivindicação veio no sentido de solicitar diminuição dos ruídos noturnos. Como de costume, Rafinha Bastos compôs uma narrativa para salientar a pendência em discussão. Novamente, inseriu-se em um personagem para se enquadrar na história contada, que serviu de metáfora ao assunto abordado. O enredo apresentava um morador comum que, a todo momento, era incomodado por composições sonoras indesejadas (uma fanfarra): dentro de casa, ao sair dela, ao entrar no carro. Enfim, sempre um barulho impertinente surgia nos momentos que desejava mais tranqüilidade. A idéia da metáfora foi alertar para isso. Mais adiante, Bastos retoma outra história, agora não para informar o público do incômodo que é um barulho constante, mas sim com o intuito de alertar o quão prejudicial é ter uma noite mal dormida por causa do barulho. Na história, supostamente, o repórter coloca um fone de ouvido, cujo som reproduzido é o do maquinário das obras, antes de dormir. Ao pegar no sono, Rafinha sonha que está em 32 CQC: Programa 24. Data 25/08/2008. Duração: 13min39seg. um encontro romântico com a modelo e apresentadora Daniela Cicarelli. Quando se aproxima para beijá-la, acorda, motivado pelo barulho durante o sono. Na primeira parte da reportagem, o trabalho jornalístico se concentra nas entrevistas com os moradores das proximidades (Eduardo Silveira, Thiago Rached, Nelly Valela, Eliane Abmussi). Em um momento inicial, os diálogos acontecem perto da estação, onde se ouve as peculiaridades e as mudanças no cotidiano de alguns habitantes. Depois, Bastos vai até alguns apartamentos para ter uma dimensão mais exata e real dos efeitos da obra. De fato, o barulho é intenso, levando algumas pessoas a buscarem alternativas mais drásticas e curiosas, como o consumo de medicamentos de tarja preta e a construção de “engenhoca” para barrar o impacto do som. Além disso, é relevante salientar que a matéria foi realizada à noite/madrugada, justamente para apresentar ao telespectador o cenário que aborrece os moradores das redondezas. Após presenciar o ambiente da residência dos contestadores, Bastos se dirigiu à obra, quando já passava das duas horas da manhã, para conversar com um responsável pelos trabalhos. Não encontrando, aproveitou para ironizar a obra, auxiliando na manobra das carretas. Novamente, o ponto alto foi a diversidade de entrevistados que compuseram a reportagem. Moradores à parte, Rafinha Bastos se incumbiu de inquirir um jurista (Waldir de Arruda Miranda), um médico (Flávio Aloé), além da assessora de comunicação do metrô, Márcia Borges. Dessa forma, o repórter contemplou todas as possibilidades, ao entrar em contato com os prejudicados (moradores) e com o outro lado, a responsável pelos transtornos (prefeitura). Outras vertentes também foram consultadas, solicitando a colaboração de um advogado e de um médico. O jurista encarregou-se de alertar para os direitos dos cidadãos que se sentirem lesados pela obra. De quebra, fez menção à possibilidade de a empresa ter a sua obra embargada e ser necessário ressarcir os indivíduos que comprovarem terem sido desrespeitados pela atividade infratora. Já que se trata de uma concessão, é interessante que o município fiscalize o trabalho da concessionária. Outro profissional entrevistado foi um médico. Para analisar os transtornos que o barulho traz ao sono e todas as conseqüências disso no dia-a-dia de um indivíduo, de um trabalhador, a palavra de um especialista acabou por cumprir um requisito jornalístico pertinente, na medida em que o sono mal cumprido implica efeitos prejudiciais às atividades diárias de qualquer pessoa. O critério jornalístico, neste caso, pede a palavra de um clínico especialista, e o CQC, mesmo se utilizando do humor, não abriu mão das ferramentas inerentes à imprensa. Adiante, o jornalista se encaminha ao diálogo mais importante e sarcástico da reportagem: a entrevista com a assessora de comunicação do metrô. Mesmo não tendo responsabilidade direta pela obra, a Prefeitura, enquanto instância representante do povo que concede um bem público, possui a incumbência de vigiar a propriedade social, inclusive quando repassada a uma concessionária. Afinal, ela não deixa de ser um bem da sociedade. Como pano de fundo da entrevista, Rafinha utiliza parte de uma equipe de escola de samba durante a conversa. Ao fingir que não ouve a assessora, por causa do barulho – aquele mesmo que incomoda os moradores das imediações do metrô –, a entrevistada necessita retomar várias respostas, o que a deixa nervosa. A metáfora está no fato de que os “autores” do barulho que atrapalha os moradores sofrem ao serem ridicularizados também por um barulho. Findando a conversa, o entrevistador firma um prazo para o término do som incessante durante as noites. O cumprimento da promessa será assunto adiante, na categoria Proteste já/Resolução de casos. Nesta edição do Proteste, assim como na primeira pesquisada e nas demais, o repórter Rafinha Bastos não abandonou a mescla entre humor e jornalismo. Se por um lado o critério jornalístico foi privilegiado pela apuração dos fatos e a busca por diferentes fontes – que neste caso podem ser divididas em quatro classes –, por outro as ironias e as sátiras estiveram presentes no repertório do humorista, além dos já conhecidos efeitos visuais e sonoros, características permanentes em todas as reportagens do programa. Na aliança entre humor e jornalismo, o problema denunciado pelos lesados ganhou visibilidade, por intermédio da apresentação do contexto real e das entrevistas com os moradores. O telespectador foi informado das condições em que vivem as famílias da região onde é instalada a estação, dos problemas que os efeitos causados pelas obras podem gerar na vida do cidadão e dos direitos que o resguardam. Na entrevista com a representante municipal no assunto, a comicidade ganhou ainda mais espaço, premiando o telespectador com boas doses de informação, sátira e riso. 4.4.3 Desrespeito com as vagas para deficientes (Cidadania)33 O terceiro Proteste já do nosso estudo de caso, “Desrespeito com as vagas para deficientes”, inserido na categoria cidadania, foi composto para mostrar ao telespectador que algumas normas relacionadas aos portadores de deficiência não são cumpridas. Sendo corriqueiro na maioria das cidades brasileiras, o problema ganhou espaço no CQC para informar a sociedade sobre a falta dessa consciência cidadã com bastante humor. Resumidamente, Rafinha Bastos se instala no estacionamento externo da Assembléia Legislativa de São Paulo e passa a fiscalizar a incidência de automóveis e motocicletas que estacionam em local reservado aos cadeirantes. Além de vigiar, o jornalista indaga as pessoas que não cumprem as normas acerca desse direito. Feita a cobertura na Casa de Leis estadual, o repórter se dirigiu à Comissão Municipal de Direitos Humanos da prefeitura para os esclarecimentos do órgão que, em princípio, deveria zelar por essas prerrogativas. Como em todas as edições do Proteste, Bastos inicia a reportagem com uma história, cujo objetivo é antecipar as abordagens adiante. A história contada mostra o próprio Rafinha chegando em casa e, aparentemente, não encontrando ninguém. A esposa, por quem chama, não é vista. Após passar por vários cômodos da residência, ao abrir a porta de seu quarto, depara-se com a cena em que sua esposa está na cama com outra mulher (não há insinuações sexuais e nem de nudez, além de ser uma passagem que dura poucos segundos). Transmitiu-se a idéia de que é incômodo deparar-se com alguém que ocupa o lugar de outrem. De fato, o que acontece com as vagas para deficientes nos estacionamentos é isso: a ocupação de um lugar que não é seu de direito. O local escolhido para realizar a matéria é sugestivo: Assembléia Legislativa Estadual. Além de sugestiva, com o decorrer dos acontecimentos nas imediações da Casa, a pauta ganha contornos irônicos. Se levarmos em conta que a Assembléia é o âmbito onde se elaboram as leis, leis que irão resguardar os direitos dos cidadãos, o não cumprimento de uma delas, ali ao lado, acaba sendo irônico. Se levarmos em conta que algumas autoridades protagonizam esse descumprimento, aí a idéia de mesclar crítica e humor se concretiza. A reportagem começa com uma passagem, na qual o jornalista remete ao público as primeiras informações importantes sobre a questão das vagas reservadas em 33 CQC: Programa 12. Data 02/06/2008. Duração: 14min03seg. estacionamentos para deficientes físicos. É esclarecido que todo cadeirante deve portar no para-brisa e acima do painel do veículo um adesivo, nas cores azul e branco, cujo desenho representa pessoa sentada em cadeira de rodas, além de uma autorização que comprove suas limitações físicas e seus direitos perante a sociedade. Durante toda a permanência da equipe do CQC no local, foi possível avistar em inúmeras ocorrências cidadãos comuns e mesmo autoridades infringindo a norma. O pretexto usado pelos infratores é de que a parada seria rápida. Nesse sentido, o trabalho do Proteste já foi importante para conscientizar a população de que no pouco tempo em que se ocupa a vaga, um deficiente pode necessitar estacionar. Por isso, as reservas são feitas de forma prévia e devem permanecer liberadas integralmente, a não ser na ocupação por pessoas portadoras de deficiência. Dentre as autoridades flagradas, integrantes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego – órgão responsável pelo transporte do município de São Paulo), da Polícia Militar (corporação destinada à segurança, a atender reclamações públicas e zelar pelos direitos dos cidadãos) e até políticos foram pegos estacionando seus veículos em vagas destinadas a deficientes. Tal cenário acabou por dar à reportagem ainda mais força, na medida em que o teor de contestação aumenta ao situar uma irregularidade levada adiante por quem deveria combatê-la. Para identificar os infratores, o quadro se utilizou de uma câmera e um monitor. Mas essa estratégia não foi destinada apenas para fazer essa identificação. Mais do que isso, o registro de imagens e a reprodução no monitor serviram para confrontar o motorista irregular com a sua própria irregularidade. É o constrangimento sendo usado para alertar o indivíduo a não cometer o mesmo erro novamente. De quebra, algumas inserções de humor servem para colocar ainda mais na berlinda aquele que ocupou o espaço destinado a outras especificidades. De novo, do ponto de vista das entrevistas, Rafinha Bastos conseguiu reunir variadas fontes. Novamente, ao selecionar pessoas atuantes em diferentes áreas e que representam grupos sociais distintos, surgiram opiniões e argumentos provenientes de todos os âmbitos envolvidos. Os selecionados foram: o cidadão comum, deficientes físicos, policial militar, político e representantes da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo. Foram entrevistados dois portadores de deficiência que também conduzem automóveis. Levando-se em consideração questões jornalísticas, as perguntas do repórter originaram informações pertinentes à matéria, pois complementaram a fala previamente composta pelo jornalista. Além disso, deram mais artifícios para o telespectador compreender a temática em andamento. Um dos entrevistados, Wladimir Garcia de Menezes, se encarregou de informar sobre o desrespeito com as vagas resguardadas aos deficientes condutores de veículos. Na verdade, este depoimento serviu de antecipação ao que seria abordado a seguir e veio a complementar a primeira investida de Rafinha, logo no princípio da edição. O outro entrevistado, Antônio Messias dos Santos, tratou de alertar acerca de questões legais, de direito. Primeiro, lembrando que é obrigatório o porte do adesivo e da autorização concedida pelas instâncias que cuidam do transporte municipal. Depois, ao lembrar que deve haver um espaço mínimo entre veículos, para facilitar a saída do cadeirante. Neste momento, uma motocicleta fora flagrada estacionada entre dois carros. As entrevistas com os cidadãos comuns, que infringiram uma regra protetora dos deficientes, variaram entre perguntar a opinião sobre o direito de ter reservado o espaço para o cadeirante estacionar seu veículo e ouvir o que motivou alguém que não possui restrições físicas a parar em um espaço reservado a outro indivíduo. Dentre os muitos inquiridos, dois tiveram falas curiosas. Um taxista, vendo que seu erro era divulgado em larga escala, revoltou-se e chegou a afirmar que pararia novamente no local que não era seu de direito. Outro depoimento que contribuiu assiduamente, tanto pelo aspecto jornalístico como humorístico, foi de um político, Ruy Codó, que justificava sua parada em vaga para deficientes por ter sido legislador da Assembléia de São Paulo. Outras autoridades importantes, como a Polícia Militar e a CET, também caíram no equívoco de estacionar em lugar restritivo. A PM pouco falou sobre assunto, servindo como reconhecimento do erro que havia cometido. Decerto, é irônico uma infração ser cometida por quem deveria controlá-la. Por último, Rafinha Bastos se dirigiu à Comissão Municipal de Direitos Humanos. Acompanhado de um cadeirante, Ricardo Montalbo, o foco jornalístico recaiu sobre a falta de acessibilidade de um deficiente no prédio do poder público que tem a incumbência de proteger os fisicamente limitados. O presidente da Comissão se situa no sétimo andar, e nem as escadas, nem o elevador são adaptados a receber um deficiente, algo que as assessoras mal explicaram – e tampouco conseguiriam. Jornalisticamente, foi útil para colocar o âmbito político em xeque diante da população. Humor e jornalismo a serviço da população, como instrumento de conscientização da cidadania. Se um direito individual, de classes excluídas, não é seguido à risca, é tarefa da imprensa divulgar para que isso se torne público, a sociedade tome conhecimento e as autoridades ajam no sentido de preservar direitos fundamentais. Com a crítica e a contestação inerentes ao jornalismo e a comicidade pertinente ao humor, o Proteste já cumpriu o papel de informar e fazer rir. 4.4.4 Deputado emprega funcionários (Política)34 O Proteste já a ser analisado neste momento é o que relata uma irregularidade no âmbito público da cidade de Cotia35, região metropolitana de São Paulo. Na reportagem, Rafinha Bastos fala sobre um deputado estadual que emprega funcionários fantasmas. Isso significa que trabalhadores públicos, registrados na folha de empregados da prefeitura, prestam serviço ao público e recebem salário do poder municipal. Mesmo assim, não se encontram em seus respectivos departamentos para prestação de serviço social. Novamente, a matéria é introduzida por uma história fictícia. Ao se deparar com a falta de combustível de seu veículo, Bastos e seu cachorro de estimação, o Walmor, saem pelas ruas noturnas à procura de alguém que os possa levar a um posto de reabastecimento. O personagem encontra uma casa próxima e decide caminhar até ela para pedir auxílio, e acaba por descobrir que se trata de uma residência mal assombrada, habitada por pessoas e situações altamente estranhas. Temos, então, uma narrativa sendo implementada com o intuito de divertir e informar o público. Aliás, eis aí o objetivo do Custe o que custar. Ela diverte, pois foge do formalismo informacional, contando uma história em que não há dados, depoimentos. Informa, porque serve como metáfora ao que será tratado adiante. A mensagem deixada pelo conto corrobora a idéia de que é desagradável estar ou ter perto de si, fazendo parte de seu cotidiano, o local desagradável, onde pessoas que não deveriam estar ali se mostram, e quem deveria, não está. O problema abordado na matéria diz respeito a um costume corriqueiro na política brasileira: um funcionário público que recebe proventos da própria prefeitura e ainda trabalha na iniciativa privada. Não que seja proibido, desde que este empregado cumpra suas funções e horários no local efetivo de trabalho. Por exemplo: ser 34 CQC: Programa 32. Data 20/10/2008. Duração: 19min08seg. Município distante 33 km da cidade de São Paulo, com uma população de, aproximadamente, 195 mil habitantes. 35 funcionário público durante o dia e à noite possuir outro emprego, não onera os serviços de um e de outro. Porém, o que acontece em Cotia é o inverso. Trabalhadores do município, efetivamente empregados na prefeitura, abandonam seus postos de trabalho para assumirem outras funções. Isto é, continuam recebendo salários da cidade, mas não desempenham plenamente suas funções e, tampouco, cumprem horários. Fora isso, abrem a possibilidade de uma nova fonte de renda, agora em âmbito particular. O que aprofunda a crise é saber que o empregador particular é um participante da política estadual, tendo cadeira na assembléia legislativa do estado de São Paulo. Um político do Estado lesa um município ao extrair dos cidadãos de Cotia a possibilidade de cobrar e solicitar melhorias dos mandatários. Outro ato de corrupção é receber de uma instituição em que não se exerce a função cabível ao profissional naquele órgão. Por isso, este Proteste já enquadra-se na categoria Política. Resumidamente, após a história ilustrativa, Rafinha inicia a reportagem com duas entrevistas: uma com um dos vereadores da cidade, Toninho Kalunga (PT), e outra com um funcionário fantasma, André Luís Pinto de Castro, flagrado em um vídeo afirmando ser empregado da prefeitura, mas prestando serviço fixo a um deputado. Depois disso, Rafinha Bastos e Felipe Andreoli se dividem para encontrar uma das funcionárias registrada pela prefeitura, mas que não atua em seu cargo. Mesmo no decorrer da matéria, Bastos não abre mão de uma história humorada. Para ir a campo e sondar as nove pessoas denunciadas, o repórter se veste de caçafantasmas36 e vai até a prefeitura entrevistar os funcionários que lá se encontram, fazendo alusão ao desenho animado que se transformou em filme. Nessas investidas, Rafinha está municiado de uma lista onde se encontram registrados todos os funcionários municipais. Com essa lista em mãos, o jornalista faz a apuração, conferindo se as pessoas entrevistadas estão ali ou se conhecem determinados nomes. O potencial jornalístico da reportagem é alto. Como de costume, o responsável pelo quadro buscou diversidade nas entrevistas, lançando mão da medida de convidar, pela primeira vez, um colega de CQC para auxiliá-lo. Enquanto Rafinha se deslocava para a prefeitura, para sondar a legalidade dos funcionários, Andreoli foi ao Departamento de Assuntos Religiosos, na tentativa de encontrar uma funcionária, Sidenilza Brito Carvalho, previamente classificada como “fantasma”. Além de não 36 Animação que virou filme, mesclando humor e suspense. Conta a história de amigos que se unem em prol do extermínio de fantasmas. encontrá-la, foi unânime o desconhecimento por parte dos trabalhadores da seção acerca daquela funcionária. A reportagem se inicia com as entrevistas com um vereador e com um funcionário fantasma sendo intercaladas. O vereador afirma que é costumeiro encontrar essa espécie de vínculo empregatício na prefeitura de Cotia e que isso ocorre devido à falta de punição. O empregado entrevistado assume que ele presta serviço sob tais métodos e que outras pessoas fazem parte da mesma problemática. Sendo assim, temos dois depoimentos de pessoas ligadas diretamente com a situação: um político e o próprio trabalhador fantasma. A outra etapa das entrevistas compreende o deslocamento de Rafinha até a prefeitura e de Andreoli até o Departamento de Assuntos Religiosos da prefeitura de Cotia. Bastos busca ouvir das pessoas que trabalham para o município se conhecem algum colega que se passa por funcionário fantasma e se os empregados que ali se encontram fazem parte, de fato, do funcionalismo público municipal. Felipe, já no Departamento em questão, inquire os trabalhadores sobre a responsável pela seção. Mais adiante na apuração, com uma câmera escondida o Proteste já vai até o escritório do deputado estadual Gilmassi Santos, que emprega funcionários da prefeitura. Lá, é encontrada uma mulher que consta da folha de empregados do município, recebendo pela cidade e prestando serviço particular ao legislador paulista. Andreoli a questiona sobre tais circunstâncias, mas desmente o que havia afirmado no vídeo, e nega ser funcionária do deputado. Para corroborar as investigações levantadas, o repórter Rafinha Bastos escolheu outra empregada da prefeitura que não trabalha no meio público: a diretora do Departamento de Desenvolvimento e Obras, Liliane Albuquerque Dias Vieira. Diferentemente do exemplo anterior, a profissional trabalha em um escritório de advocacia. Em um primeiro momento, ao ser abordada por Bastos, a advogada se recusa a prestar qualquer tipo de esclarecimento ao quadro e à população de Cotia. A seguir, Rafinha tem a possibilidade de questionar a jurista e ouve que ela não fica na prefeitura em tempo integral, mas desempenha suas funções diariamente. O último entrevistado seria o prefeito da cidade de Cotia. Porém, após sete dias de espera, não houve retorno. Outro envolvido nas denúncias, o deputado estadual, informou ao programa, por meio de sua assessoria de imprensa, que não teria nada a declarar. Obviamente que o depoimento de ambos viria enriquecer o arsenal jornalístico da matéria, mas o fato de terem sido procurados demonstra a idoneidade do quadro e a intenção de cercar o assunto sem permitir arestas. Talvez o único entrevistado que deixou de ser procurado tenha sido o cidadão, o habitante de Cotia. Interessado direto no assunto, pois seus impostos pagam o salário dos funcionários da prefeitura, além de subentender obras, serviços e atendimento funcionando plenamente, o contribuinte daria respaldo à reportagem e, de quebra, divulgaria seu descontentamento publicamente, forçando a classe política e a justiça a agirem com mais empenho e rapidez na resolução deste caso. O humor esteve presente no Proteste já que se encarregou de cobrir um caso de corrupção na cidade de Cotia. No enredo em que funcionários do município recebem proventos da prefeitura, mas trabalham em outros estabelecimentos, o humor não poderia deixar de marcar presença por intermédio da ironia, sátira e de perguntas irreverentes, além dos já conhecidos efeitos visuais e sonoros. Pelo viés jornalístico, as entrevistas e a profundidade na apuração deram sustentação à reportagem, fato que levou Rafinha Bastos, já na edição seguinte, a lembrar que a Promotoria Pública levou o caso à frente, diante das questões levantadas pelo quadro e das circunstâncias discutíveis que foram observadas, inclusive através dos depoimentos de funcionários da própria prefeitura que não desempenhavam suas funções nos locais em que deveriam fazê-lo. Uma contribuição do jornalismo do CQC à população da cidade e ao Poder Judiciário. Sem perder o humor, pois. 4.4.5 Merenda escolar (Educação)37 Antes de iniciar a análise da quinta categoria do Proteste já, denominada Educação, cujo assunto intitula-se “A merenda escolar de Mairiporã”, é relevante mencionar que a edição estudada trata-se da segunda sobre o mesmo assunto. Comecemos, então, de forma resumida, pela primeira, já que o quadro em questão faz referência àquela. Na primeira reportagem em Mairiporã38, como de costume, Rafinha Bastos participa de uma narrativa que ilustra o assunto abordado. Novamente, ele conta com a colaboração da sua esposa que, enquanto ele assiste à TV, pede dinheiro para ir ao 37 CQC: Programa 11. Data 26/05/2008. Duração: 15min53seg (MATÉRIA 1). CQC: Programa 13. Data 09/06/2008. Duração: 12min45seg (MATÉRIA 2). 38 Município distante 31 km da cidade de São Paulo, com uma população de, aproximadamente, 78 mil habitantes. mercado comprar aproximadamente 30 produtos. Bastos abre mão de 210 reais e mais algumas moedas para que a compra seja feita. Ao retornar, ele se depara com apenas três produtos adquiridos e alguns centavos de troco. Passada esta simulação, o repórter vai a campo e faz entrevistas com dois vereadores (Júlio Ruiz e Carlos Augusto Forti) que contestam o processo de pregão feito pela prefeitura. Adiante, Bastos vai até o principal supermercado da cidade – que foi propriedade do atual prefeito e que é instalado logo abaixo à sua residência – fazer consulta de preços. Lá foi verificado que alguns produtos são comprados com até 100% de acréscimo, como o feijão (no mercado, custa R$ 3,49; pelo pregão, a prefeitura pagou R$ 8,50). Ficou constatado que a lata de extrato de tomate também havia sido superfaturada (no mercado, o valor é de R$ 2,99 ou R$ 1,39; pelo pregão, foi comprada por R$ 9,90). O óleo foi outro ponto de discórdia: Mairiporã pagou R$ 4,70, o quilo, da mesma empresa que vendeu o referido produto a outra cidade, Atibaia39, por R$ 3,45, na mesma semana. Após a pesquisa, Rafinha vai até a escola e entrevista os pais dos alunos sobre a qualidade da merenda. É unânime a opinião de que a alimentação oferecida aos estudantes não é de boa qualidade. Responsáveis pela empresa fornecedora (Nutrivip) da merenda e uma autoridade municipal no assunto estavam no local, mas preferiram não se pronunciar sobre o assunto. Para finalizar a primeira matéria em Mairiporã, Bastos vai até a prefeitura e conversa com, Edlene Aparecida, secretária adjunta de educação e cultura para obter esclarecimentos sobre os preços abusivos que são pagos pela prefeitura da cidade, enquanto Atibaia compra um produto da mesma empresa por um preço menor. A funcionária afirma que se come “resto” em Atibaia, enquanto em Mariporã o macarrão é de primeira qualidade. Por mencionar outro município, o prefeito de Atibaia ganhou espaço no Proteste já. De novo, Rafinha Bastos se utilizou da ironia para fazer uma crítica, ao afirmar que a quantia gasta pela prefeitura era suficiente para servir lagosta e champanhe para cada estudante. O prato e a bebida foram postos na mesa da secretária e apresentados a ela durante a matéria. Como um “bônus” da reportagem, foram transmitidas cenas de integrantes da prefeitura tentando intimidar o jornalista, culminando na intromissão da equipe policial da cidade para conter os ânimos mais exaltados. 39 Município distante 69 km da cidade de São Paulo, com uma população de, aproximadamente, 127 mil habitantes. É importante lembrar que na primeira edição deste assunto, o repórter prezou novamente pela diversidade de fontes. Ou seja, foram entrevistados políticos, uma secretária municipal, pais de alunos e fez comparativos de preços. Como é possível notar, faltou a palavra da empresa fornecedora e das autoridades de Atibaia, menções feitas na reportagem. Além disso, o prefeito de Mairiporã e membros da empresa fornecedora aceitaram conceder entrevista na segunda matéria, o que deu mais credibilidade ao conteúdo, e, por isso, foi por nós escolhido para a análise. Quinze dias depois, a reportagem do CQC voltou ao município para dar mais sustentação à reportagem. Dessa vez, Rafinha não utilizou nenhum conto para introduzir a matéria, já que se tratava de uma continuação, um aprofundamento. A primeira estratégia desta edição foi inteirar o telespectador que não havia assistido a abordagem anterior do que já acontecera. De quebra, serviu para introduzir a matéria atual. Na edição, apareceram trechos da entrevista com um dos vereadores, pais de alunos e com a secretária adjunta de educação e cultura, além do comparativo de preços no supermercado da cidade. Após resgate de imagens anteriores, a etapa inédita da reportagem começa com dois entrevistados da empresa responsável pelo fornecimento de merenda para Mairiporã: o diretor da firma, Rodrigo Torres, e a advogada, Marília dos Santos Soares. Como uma representante da prefeitura afirmou que a mesma empresa fornece produto de boa qualidade a Mairiporã e de péssima procedência para Atibaia, e isso justificaria a diferença de valores em relação a produtos iguais, o critério jornalístico julga necessário ouvir todas as partes envolvidas e citadas. Posteriormente, Rafinha se desloca até o município de Atibaia para ouvir o prefeito da cidade, José Roberto Tricoli, e a nutricionista da prefeitura, Regina Cerna Merlo Gennari. A nutricionista se encarregou de esclarecer como acontece o desenrolar do processo de licitação dos produtos. O prefeito fez questão de afirmar que não há irregularidade nos preços e na qualidade da comida oferecida nas escolas de Atibaia. Para finalizar a reportagem, o jornalista se desloca até a prefeitura de Mairiporã para, desta vez, conversar com o prefeito. O mandatário se restringiu a dizer que no momento do fechamento da licitação o preço do feijão estava alto e que depois baixou, fazendo com que a prefeitura tomasse as medidas cabíveis para que houvesse o reajuste. Rafinha pouco conseguiu questionar e quando o fez não foi retribuído. O prefeito pediu desculpas à população de Atibaia e se retirou do gabinete antes do término da entrevista. Bastos fez duas matérias para resultar em uma. O que, do ponto de vista jornalístico, é plausível. Seria lamentável se, ao invés, ele tivesse dado por encerrado o assunto ao final da primeira reportagem. Teria ficado incompleta e daria margem para os telespectadores duvidarem da idoneidade do programa e do comprometimento com a verdade factual do quadro Proteste já. Por se tratar de um assunto polêmico, que envolveu dois municípios próximos à cidade de São Paulo, além de uma empresa fornecedora de alimentos, certamente houve reivindicação das partes não ouvidas pela continuação da matéria. A quantidade de entrevistados foi destaque em mais uma reportagem desenvolvida por Rafinha Bastos. Até por ter tido duas oportunidades de caminhar pelo mesmo assunto, o tempo disponibilizado para compor o material permitiu que ele chegasse a fontes autorizadas a abordarem as diversas vertentes. Vereadores, secretária municipal, prefeito de Mairiporã, nutricionista e prefeito de Atibaia, diretor e advogada da empresa fornecedora de alimentos às escolas e pais dos alunos que freqüentam as instituições de ensino. Além disso, o jornalista se comprometeu a pesquisar os valores reais dos produtos, e concluiu que, mesmo no atacado, o preço unitário da mercadoria chegou ao superfaturamento de mais de 100% do valor sondado, de acordo com o preço firmado entre a prefeitura de Mairiporã e a firma responsável pela comercialização da merenda. Nas duas reportagens, o humor veio a contribuir com a toada jornalística do Proteste já. Os efeitos e as histórias encenadas pelo próprio repórter contribuíram para ilustrar o conteúdo narrado, além de oferecer maior compreensão ao público, na medida em que uma linguagem – verbal ou não-verbal – mais despojada, sem rebuscamento, torna-se mais acessível à assimilação do “telespectador mediano”. A idéia é que a encenação se transforme em metáfora do assunto em questão. O Proteste já prestou-se novamente ao tripé sustentador da ética jornalística: interesse público, relevância e verdade factual estiveram presentes na matéria e não reservaram ao quadro tão somente a classificação de humor. É jornalismo, pois foi para o meio social, entrevistou, apurou, pesquisou, buscou fontes diversas para esclarecer à população uma irregularidade de Mairiporã que pode ocorrer em qualquer outro município brasileiro. 4.4.6 Proprietários sem casa (Habitação)40 O sexto quadro a ser analisado leva o nome de “Proprietários sem casa”. Na zona sul de São Paulo, no bairro do Ipiranga, 202 famílias compraram apartamentos novos em um condomínio (Eco Vitta Ipiranga), mas até o momento têm problemas para receber as chaves de suas residências. Mesmo sem moradia no local e passando por transtornos de morar de favor na casa de parentes e amigos, os condôminos se vêem obrigados a quitar contas básicas, como luz e água. Diante de mais este problema, Rafinha Bastos conduziu o Proteste já. Como de costume, o andamento do quadro tem início com uma encenação. O repórter incorpora um personagem que, dentro de uma narrativa, busca uma mensagem metafórica para o problema abordado na seção jornalística. É a história de alguém que repousa e sonha que ganhou na mega-sena. Durante a comemoração, aparece alguém com a incumbência de informar que tudo aquilo não passava de um sonho. Ou seja, trata-se de uma pessoa que não tem liberdade e tranqüilidade de desfrutar do próprio sonho. Os futuros moradores quitaram parcelas do empreendimento, porém, por uma falha da construtora (Fortenge), não puderam assumir seus lares. O fato é que no projeto há registrada uma medida e, na realidade, a área total é menor que a projetada, faltando justamente a área verde prometida e exigida pela Prefeitura. Dessa forma, a obra aparentemente finalizada está emperrada, extraindo o direito dos moradores de assumirem aquilo que já pagaram. A reportagem pode ser dividida em duas partes. A primeira foi realizada em frente aos prédios construídos, sendo feitas entrevistas com um dos vários compradores (Leandro Alvarenga Miranda), onde eles relatam as desavenças com a construtora, o problema com os prazos, além da promessa de entrega ter comprometido todos os planejamentos matrimoniais de alguns casais. A outra etapa da matéria foi composta com os depoimentos das pessoas a partir dos lugares onde moram provisoriamente. Casais recentes e pais com criança recémnascida estão instalados de maneira provisória, até que a situação de seus apartamentos seja regularizada. Invariavelmente, fica o registro de pessoas mal acomodadas, onde seu cotidiano é totalmente alterado, já que um panorama normalizado seria os casais 40 CQC: Programa 19. Data 21/07/2008. Duração: 14min15seg. morando juntos, com seus móveis regularmente distribuídos e situados nas acomodações do condomínio. A variante de entrevistados ornamentou uma reportagem condizente com o critério jornalístico. Documentos e cobranças apresentados pelos moradores, além do lado acusado ganharam visibilidade no material conduzido por Rafinha Bastos. Na medida em que a busca por variados depoimentos aumenta a apuração do fato noticiado, os esclarecimentos ou as contradições vão compondo o conteúdo veiculado. Até então, entre os entrevistados, trata-se da única matéria que não necessitou investir sobre um político, já que constitui-se em um acordo entre cidadãos e iniciativa privada. A primeira iniciativa do repórter foi ouvir os indivíduos lesados pela construtora responsável pela obra. Após os mais diversos depoimentos, foi mencionada toda a confusão feita pela empreendedora que, ao cometer erro na medida do terreno, acabou por prejudicar o bem estar de casais que, pela primeira vez, adquiriam casa própria. Munidos de comprovantes, foi possível constatar que os moradores pagaram boa parte do empreendimento, e não estão desfrutando do resultado. Além disso, a empresa já emitiu faturas, constando a cobrança de condomínio, água, gás, entre outras contas, a partir dos documentos apresentados pelos condôminos na matéria. Outro comprovante mostrado na reportagem foi o projeto da construtora, responsabilizando-se em reservar uma parte do terreno para construir uma área verde, fato que Bastos apurou e conferiu não existir no condomínio. A partir das imagens e das falas dos entrevistados, foi possível mensurar a dimensão dos transtornos causados por um erro de cálculo a centenas de famílias que não podem habitar sua casa própria. Essas pessoas se viram na necessidade de se deslocarem para outros lugares. São casais morando juntos na casa de parentes, morando em dependências menores, sacrificando o conforto a que teriam direito. Outros são obrigados a morar separados. Constantemente citada, a construtora responsável pela elaboração do projeto e realização da obra foi procurada pela equipe do Proteste já, para prestar esclarecimento e ocupar o espaço jornalístico que abre margem à palavra de quem acusa e do acusado. Um dos diretores da construtora, Renato Mesquita, não sem antes dificultar ao máximo o contato com o jornalista, apresentou explicações. O entrevistado se reservou a dizer que as chaves dos apartamentos estão disponíveis para os moradores e negou que houve um equívoco na metragem do prédio e que, por isso, os condôminos têm dificuldade para conseguir financiamento junto às instituições bancárias de fomento à aquisição da casa própria. Na verdade, mencionou, de maneira pertinente, que no local morariam 200 famílias aproximadamente, e que 100 estão com dificuldades para assumir o empreendimento. No fim da entrevista, a autoridade que falava em nome da empresa se alterou e deixou o local, não sem antes tentar agredir o jornalista e o repórter cinematográfico. Obviamente, a situação incentivou Rafinha Bastos a compor algumas investidas norteadas pelo humor. Durante toda a matéria, foram anexadas ao conteúdo alegorias que deram mais irreverência ao material jornalístico. Rafinha se utilizou de histórias e os efeitos visuais e sonoros contribuíram para a flexibilidade da reportagem, além de auxiliarem na compreensão e nos índices de humor fomentados pelo quadro. O humor, não só neste como nos outros Protestes, serve para divertir o telespectador e enaltece para este a crítica desenvolvida sobre a problemática abordada. Do ponto de vista jornalístico, o quadro procurou aprofundar-se na questão reportada, na medida em que emitiu luz sobre os posicionamentos dos moradores e da parte acusada, a construtora. A apresentação de documentos e contratos se fez presente , certificando ao material autoridade na abordagem dos fatos. Obviamente, o enfoque dado pelo CQC não se preocupa com a imparcialidade aparente, e satiriza o diretor da construtora, sendo que isso não ocorre com os moradores. Ainda assim, com estes Rafinha Bastos lança mão de piadas, até para manter a proposta do programa em vigência, que é mesclar jornalismo e humor. Diversão e informação ao público. 4.4.7 Crime ecológico e reciclagem (Meio Ambiente)41 Na ordem de categorização deste capítulo, o Proteste já de número sete foi nomeado “Crime ecológico em São José dos Campos” e “Reciclagem”. Levando-se em conta que as questões ambientais estão cada vez mais em voga, não só no Brasil como no mundo, vimos a necessidade de selecionar duas edições que trataram do tema. Embora ambos falem de meio ambiente, cada um busca uma abordagem sobre problemas distintos. O primeiro retrata uma deficiência que ainda ocorre em muitas cidades do país. O rio Paraíba do Sul serve de público de um dos esgotos da cidade de São José dos 41 CQC: Programa 62. Data 20/07/2009. Duração: 12min09seg (Crime Ecológico em São José dos Campos). CQC: Programa 53. Data 18/05/2009. Duração: 10min59seg (Reciclagem). Campos42. Por si só o problema é grave. No entanto, há um agravante: o rio é responsável pelo abastecimento de água de todo o Vale do Paraíba, importante região do Estado de São Paulo, além de abastecer boa parte da Baixada Fluminense. Água utilizada para consumo encontra-se poluída devido à má gestão política. Outra questão igualmente recorrente nos debates sobre preservação do meio ambiente é sobre reciclagem. A reportagem conduzida por Rafinha Bastos retrata a situação de alguns catadores de lixo que, ao terem a cooperativa em que trabalhavam incendiada, estão sem ocupação. Em uma cidade como São Paulo, em que a quantidade de lixo diária gira em torno de 15 milhões de quilos, o papel desses “profissionais” é de suma importância. Diante de um déficit como este, a cobertura jornalística se faz pertinente. A primeira matéria começa com uma introdução diferente das habituais. Bastos não compõe uma encenação como de costume. Ao invés, prefere oferecer dados relevantes sobre a cidade, tudo em forma de off e gráfico. A fala informa o telespectador sobre o potencial tecnológico da cidade, importante produtora brasileira de material bélico, refinadora de petróleo e montadora de automóveis. Outro índice fornecido é o de que a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) investiu mais de 44 milhões em obras de saneamento básico no município. É a partir disso que o repórter faz um gancho para a deficiência encontrada na cidade: o esgoto deságua no rio. Pautado pela busca da notícia argumentada e bem informada, Rafinha Bastos entrevista moradores da cidade (Márcia Bruni e Eduardo Nadoni), habitantes de uma comunidade ribeirinha (Antonia Ramos e Eliane Ramos) e entra em contato com o responsável pela obra inacabada. Feito isso, o jornalista se desloca até São Paulo para realizar entrevista com Umberto Cidade Semeghini, diretor da Sabesp central. Talvez o contato com um biólogo, para mensurar o desastre ambiental provocado pelo escoamento do esgoto no rio, fosse pertinente para contemplar a totalidade dos vieses jornalísticos. Os moradores de São José dos Campos se encarregaram de apresentar o problema ao repórter e a mencionar a responsabilidade da Sabesp em relação à emissão de água poluída no córrego e, posteriormente, no rio. Um dos habitantes mora em um condomínio em que os fundos margeiam o córrego que recebe o esgoto. Ali é relatado 42 Município distante 97 km da cidade de São Paulo, com uma população de, aproximadamente, 616 mil habitantes. que o odor é intenso e que a situação perdura por 15 anos. A outra moradora lembra que há um reservatório em construção, mas que a obra está interrompida há dois anos. Em uma comunidade ribeirinha, foi possível constatar que a população daquele lugar sofre dois efeitos preocupantes do descuido ambiental. O primeiro é que se trata de pessoas que vivem da pesca para conseguirem renda e sustentar a família. Com a poluição do rio, a quantidade de peixes diminui, aliada à péssima qualidade do cardume. Outra problemática identificada pela reportagem foi o risco por que passam as crianças. Acostumadas a brincar nas águas do rio, a saúde dos menores passou a apresentar danos, especialmente com doenças relacionadas à pele. Na seqüência, Bastos, por telefone, agenda encontro com o responsável pela construção de um reservatório, que seria usado para amparar a água do esgoto e fazer o tratamento. De maneira equivocada, não se identifica como jornalista e, ao chegar para a entrevista, tem seu caminho dificultado, não conseguindo conversar com o entrevistado. Posteriormente, outro contato foi feito e o CQC não obteve retorno, fato que fez o Proteste já se deslocar até a capital, visando diálogo com um dos diretores da Sabesp. Antes da entrevista, Rafinha Bastos protagoniza a única encenação da atual edição. Considerando que a central da Sabesp não tem conhecimento da deficiência encontrada em São José dos Campos, o jornalista se fantasia de fezes para que estas cheguem até o órgão público responsável pelo saneamento básico no Estado de São Paulo estimule as autoridades a conhecerem aquele problema. Na entrevista, o diretor promete um prazo para a finalização da obra, mas não deixa de acusar a incompetência da Sabesp ao afirmar que não haveria outra alternativa a não ser desaguar o esgoto no rio. A outra reportagem, porém ainda dentro da temática meio ambiente, é referente à reciclagem. Atualmente, com exceção do lixo orgânico, o restante é renovável, e diversas instituições e órgãos trabalham com o sistema de reunir lixos de mesma natureza em um recipiente equivalente. Tudo para facilitar o trabalho de renovação. Quando isso não é possível, entram em cena os catadores de lixo, indivíduos lesados pela falta de ocupação, fato que o CQC foi averiguar. Novamente, Rafinha Bastos foge da encenação para iniciar a reportagem. Assim como na edição sobre o “Crime ecológico de São José dos Campos”, o repórter introduz a matéria fornecendo dados referentes ao assunto tratado. Por meio de off e gráfico, Rafinha descreve a situação do lixo em uma cidade das dimensões de São Paulo. Estima-se que cada habitante produza um quilo de lixo por dia, totalizando o equivalente a 15 milhões de quilos, se considerarmos uma população de 15 milhões de pessoas. Diante disso, a prefeitura do município dispõe 500 milhões de reais para cuidar do lixo. Porém, apenas 1,4% do orçamento é destinado à reciclagem. Na primeira etapa da matéria, Rafinha Bastos se desloca até um barracão onde funcionava uma cooperativa de reciclagem, em Santo Amaro, zona sul da capital paulista. Lá, realiza entrevistas com vários catadores de lixo (Maria Lúcia Sobral Santos, Angelita da Paixão Andrade, Mônica Caroline Kinder, Maria do Socorro Silva e Avelino Nepomijceno) que contam como se mantinham com o trabalho na cooperativa e em que se transformou o cotidiano daqueles trabalhadores, agora sem emprego. Depois, Rafinha conversa com uma ambientalista, Nina Orlow, e, por fim, vai atrás de esclarecimentos da sub-prefeitura de Santo Amaro. Na entrevista com os catadores de lixo, eles se incumbem de apresentar o barracão onde funcionava a cooperativa e de mencionar a importância do empreendimento devido a dois motivos: primeiro, que as pessoas que atuavam naquele ramo tinham condições de extrair um sustento a partir do trabalho desenvolvido. O outro ponto positivo da cooperativa é que ela reunia um grupo de indivíduos excluídos, de baixa renda e vulneráveis ao contexto de criminalidade, privilegiando a inclusão social. Outro problema denunciado pelos catadores é que o barracão está localizado em uma área nobre da cidade. Para que continuem sendo construídos condomínios luxuosos na região, a cooperativa precisa ser desativada para que o terreno seja encampado pelo ramo imobiliário, ainda que pessoas sem este emprego voltem a morar na rua, retornem ao tráfico de drogas e percam a renda e a conseqüente possibilidade de sustentar filhos, perdendo a guarda dos mesmos. Ao conversar com a especialista em meio ambiente, Nina Orlow, o repórter coletou informações que reiteraram a importância da cooperativa para manter regulada a quantidade de lixo despejada dia-a-dia. A coleta seletiva, ou seja, metal, plástico, papeis e lixo orgânico separados, tem função fundamental na sustentabilidade da preservação ambiental. E volta a mencionar um dado disponibilizado por Rafinha Bastos no princípio da reportagem: 1,4% do orçamento municipal é destinado à questão da reciclagem. O último passo da reportagem é entrevistar uma autoridade municipal para saber quando e se será possível reativar a cooperativa, que presta um importante serviço social à comunidade. A conversa acontece com a assessora de imprensa da sub-prefeitura de Santo Amaro, Daniela Mangini, órgão responsável pela área. Depois de cinco horas, o jornalista foi atendido por Patrízia Braga, assessora do Sub-prefeito de Santo Amaro. Questionada sobre o fato de a falta de emprego ocasionar problemas de ordem financeira e social aos catadores, a assessora fechou um prazo com a reportagem, no sentido de garantir o retorno do funcionamento da cooperativa. Tanto em uma matéria como em outra, Bastos se utiliza de elementos do humor para compor o enredo. Mas as piadas servem apenas como pano de fundo da composição jornalística, levando-se em conta que o fato norteia a investida de Rafinha. Os efeitos visuais e sonoros, além das sátiras são irreverência ao conteúdo e enaltecem a crítica composta pelo jornalista sobre uma problemática social de elevada envergadura. Como qualquer vertente jornalística habitual, o CQC investigou o fato e apurou a informação, na medida em que ofereceu dados diversos ao público e entrevistou todos os envolvidos e especialista no assunto. O diferencial do programa é que a abordagem é pautada pelo humor, o que não exclui a característica central do quadro, que é o jornalismo. 4.4.8 Falta de água (Saneamento Básico)43 No oitavo Proteste já a ser estudado é noticiada a falta de água em Sumaré44, município próximo a São Paulo. Inserido na temática saneamento básico, novamente Rafinha Bastos mesclou humor e jornalismo para averiguar mais uma denúncia. Este é outro exemplo em que existe uma carência relacionada à sociedade e que o fio condutor está sob responsabilidade da política local. A partir do tripé fato-sociedade-política, Bastos compõe a matéria e seus integrantes. Assemelhando-se a uma regra, nas últimas edições estudadas, o jornalista havia deixado de iniciar a reportagem com uma narrativa, tendo a preferência de informar dados. No quadro sobre a falta de água em Sumaré, da mesma forma, o repórter introduz a matéria oferecendo dados das Nações Unidas: uma pessoa gasta, em média, 165 litros de água por dia com suas necessidades corriqueiras. Utilidade básica como tomar banho, beber água, lavar roupa e cozinhar fica comprometida em Sumaré pela falta da substância essencial da vida. 43 CQC: Programa 80. Data 23/11/2009. Duração: 13min11seg. Município distante 115 km da cidade de São Paulo, com uma população de, aproximadamente, 240 mil habitantes. 44 Ao conduzir a reportagem, Rafinha Bastos veicula imagens e depoimentos em pontos extremos da cidade. Tanto em um bairro carente, localizado na parte alta da cidade, onde se diz que o problema é mais crônico, quanto na avenida central do município, região em que se situa o comércio local, falta água para as necessidades mais básicas. Findando a primeira parte da matéria, Bastos se desloca até uma “bica”, pontos de água disponibilizados pelo DAE (Departamento de Água e Esgoto) para consumo coletivo, e registra a situação e a opinião dos moradores sobre o assunto. A encenação, que antes era usada para introduzir as reportagens, agora é inserida na metade do material. Supondo que para conseguir água só mesmo por meio de uma magia, de um ritual indígena, Rafinha simula uma dança que traz a chuva. Munido de alguns apetrechos indígenas, após “fazer chover” Bastos se dirige ao DAE para ouvir esclarecimentos das autoridades responsáveis pelo fornecimento de água na cidade de Sumaré. Entre os dados mais chamativos, dois deles ganharam destaque, pois dimensionaram a complexidade do problema que afeta os moradores de Sumaré. Um índice mostra que do total de 237 mil pessoas que habitam a cidade, aproximadamente 120 mil sofrem com a deficiência no abastecimento de água. Outro dado relevante levantado na matéria diz que a carência de água já vem de anos anteriores, mais precisamente há sete anos. A variedade de entrevistados foi, novamente, um ponto forte no conteúdo produzido pelo Proteste já. Ao se deparar com o problema da falta de água, que é corriqueiro em boa parte do país, o jornalista obteve depoimentos carregados de menções importantes, como citadas anteriormente, que “sugeriram” emitir luz sobre fontes diversas. Uma máxima nas produções do Proteste já não é o número elevado de fontes, mas sim a especificidade de cada uma durante a reportagem. Nesta matéria foram entrevistados o líder comunitário (Mestre Fernandão), uma moradora de um bairro carente e distante do centro, onde supostamente o problema seria mais intenso e comum, alguns comerciantes e moradores do centro da cidade, local onde o abastecimento deveria sofrer menos carência do que na periferia, habitantes que inserem em seus cotidianos a busca de água na “bica”, além do presidente do DAE, Luiz Eduardo Almança, autoridade no assunto e órgão municipal responsável pelo abastecimento de água e pelo saneamento básico da cidade. O primeiro diálogo é travado com um líder comunitário de Sumaré. É ele quem apresenta toda a conjuntura a Rafinha Bastos, provavelmente porque o próprio fez a denúncia ao programa. Ao conversar com o repórter, o entrevistado dá as proporções do problema, em vista do número de habitantes da cidade e do tempo que o morador se depara com a falta de água, tanto em residência, quanto no âmbito comercial. É mencionado no depoimento do líder de bairro que as atividades relacionadas à saúde e à educação sofrem alterações, na medida em que sem água o trabalho nos hospitais e a hidratação dos estudantes ficam comprometidos. Encaminhando-se ao segundo entrevistado, Bastos vai até uma casa na periferia do município para entender como a falta de água afeta o dia-a-dia dos moradores. A dona de casa mostra que é preciso armazenar água da chuva para utilizar no vaso sanitário. O problema é que este armazenamento é totalmente improvisado e a céu aberto, dando possibilidade para se criar outra deficiência: a dengue. Fora isso, é importante frisar a fala da moradora que fornece um dado curioso. Comparando duas contas de água, o valor mais alto foi cobrado no mês em que houve falha no abastecimento. Com um total de R$ 116,17, a época em que não houve disponibilização total de água foi mais oneroso em relação ao período em que houve normalização do fornecimento de água naquele bairro. No mês de maio, ao contrário de outubro de 2009, o preço cobrado pelo consumo de água pleno foi de R$ 65,09, praticamente a metade. Além dos benefícios gerados pelo desfrute total de água, tê-la plenamente é mais vantajoso do ponto de vista financeiro. Entre a classe comerciante é consenso que a falta de água afeta nos negócios e nos lucros. Um empreendimento como um supermercado, por exemplo, sofre danos consideráveis ao deparar-se com a carência de água. Porém, a grande queixa dos comerciantes foi em relação ao cotidiano doméstico. O não fornecimento regular de água gera deficiências de ordem higiênica, levando as pessoas a conviverem com atos primitivos, como efetuar necessidades fisiológicas no mato. Ao ir até uma das “bicas” espalhadas pela cidade, não é difícil se deparar com muitas pessoas buscando água para consumo caseiro, visando às necessidades básicas como alimentação, higiene e hidratação. Dentre os depoimentos, dois atraíram atenção pelo teor da fala. Um dos cidadãos afirmou que havia seis meses que a água não chegava na torneira de sua residência. Outro morador afirmou, indignado, a velha imagem que segue a relação político-eleitor: certamente na casa do político não falta água, e esse desrespeito só é superado em épocas de eleições. Precedendo a conversa com o presidente do DAE de Sumaré, Rafinha Bastos protagoniza a primeira e única encenação desta edição do quadro. Representando a dança indígena que atrai a chuva, o repórter se veste de índio e vai até o Departamento para dialogar com a autoridade responsável no assunto. Dizendo que todos os dias chega água na torneira das casas, mas não durante as 24 horas, e afirmando que o reservatório de água recém-construído será posto em funcionamento dentro de um mês – isto é, há necessidade de se criar alternativas para o problema da falta de água – Rafinha Bastos encerra a reportagem no município de Sumaré. Durante a matéria, quando avistamos e ouvimos efeitos visuais e sonoros, não apenas foi possível se divertir como também compreender a informação destacada, enaltecida. Nessa mescla entre humor e jornalismo, as investidas do humorismo não servem apenas para descontrair o público, ao contrário dos programas especializados em piadas, ironia e sátiras. No CQC e em especial no Proteste já, a idéia é jogar um lupa, uma lente de aumento na crítica elaborada. Essa reiteração é composta a partir do humor, que é útil para a compreensão do telespectador e nociva ao político que é questionado de forma diferente, sob um estilo alternativo. No quadro analisado, a irreverência não é superficial. Há nela um fundo crítico, que pauta a iniciativa jornalística de apurar o fato e levar a notícia ao público. Durante toda a transmissão, a notícia norteia o trabalho de Rafinha Bastos e conseqüentemente o humor serve de apoio à atuação do repórter. Ou seja, nada que deprecie a função jornalística que é informar, ainda que receba um tratamento diferenciado dos demais veículos e programas que também reportam notícias. 4.4.9 Honestidade dos técnicos de eletrodomésticos (Prestação de serviço)45 A penúltima edição do Proteste já inserida na nossa análise possui um teor distinto, se comparada às demais feitas até aqui. Se até então as denúncias convergiam em uma autoridade política responsável por um serviço mal acabado ou sequer fornecido, agora o quadro tratará de um assunto diferente, de modo que a problemática não resultará na falha de um político. De qualquer forma, não deixa de ser uma questão política, se considerarmos que ficará na berlinda o ser humano, a honestidade do profissional que presta serviço consertando máquina de lavar roupas. É comum depararmo-nos em casa com um aparelho que apresenta defeito. Sem qualquer experiência no ramo, chamamos um técnico para localizar e consertar o 45 CQC: Programa 76. Data 25/10/2009. Duração: 12min31seg. problema detectado. Mas o fato é que ser leigo perante uma tecnologia desconhecida atiça a desonestidade daqueles que deveriam utilizar suas técnicas para o bem, e não para se aproveitarem de uma carência do outro para lucrar. É esse hábito, talvez mais corriqueiro do que se imagina, que o Proteste já irá fiscalizar. Esta edição do quadro retoma o costume de se contar uma história antes da cobertura jornalística. Como sempre, a narrativa busca expressar o assunto que será abordado adiante, porém de forma fantasiosa. O enredo apresenta um cidadão comum (Rafinha Bastos) tentando lidar – sem sucesso – com as ferramentas que possui. Para evitar o gasto de chamar um técnico, por meio dos materiais domésticos tenta-se efetuar o conserto de um aparelho. A mensagem final diz que sem a habilidade necessária é preciso solicitar ajuda. Mas será que esse auxílio é confiável? O cenário consiste em simular um defeito na máquina de lavar. Para isso, foi chamado um técnico de máquina de lavar roupa, Marco Antônio Cabral, para que ele informasse o público do defeito produzido de forma proposital. Após pôr o aparelho em funcionamento, o especialista reitera que danificará de modo premeditado a máquina, desligando o fio do capacitor. Com essa deficiência, o eletrodoméstico deixa de funcionar, e é com esse defeito que técnicos serão solicitados para solucioná-lo. O especialista convidado pelo programa para provocar a deficiência afirmou que o valor cobrado era referente apenas à visita, ou seja, de 15 a 25 reais, já que não havia defeito, e sim a necessidade de reconectar um fio solto. Para isso, uma dona de casa, Dona Márcia, foi convidada para fazer parte da simulação. Ela receberia os profissionais (Técnicos 1, 2, 3 e 4) durante as visitas e dialogaria com eles sobre os possíveis problemas apresentados pelo aparelho e o valor do conserto. Para acompanhar as imagens e ouvir os diálogos, foi instalada uma câmera escondida no local em que estava situado o aparelho. Dessa forma, tanto Rafinha Bastos, como o público poderiam visualizar o que ocorria. É importante lembrar que as faces dos técnicos nem tão honestos não foram mostradas, compensando o fato de não mencionar a eles que se tratava de uma visita gravada, até para não se perder a espontaneidade. De outro modo, ninguém se prestaria a tal papel ou não orçaria o preço como foi feito. O primeiro técnico chegou ao defeito sem muita delonga. Na verdade, ele foi pontual ao detectar que o fio do capacitor estava desconectado e bastava somente religálo. O problema é que o técnico, denominado de “careiro” pelo quadro, cobrou R$ 65,00, afirmando que o problema não era grave, capaz de ser resolvido em cinco minutos. Ou seja, a taxa deveria compreender só a visita. Na pior das hipóteses, mais que o dobro do orçamento elaborado pelo técnico convidado. O segundo profissional contatado foi denominado de “picareta”. Ele não acertou nem no preço e nem no defeito. Após manusear o aparelho de maneira equivocada, chegando ao ponto de derrubá-la, podendo gerar outras danificações, concluiu que a deficiência estava no automático (timer), o botão que permite à máquina ligar e desligar sem a interferência humana. Ainda assim, confirmou que o trabalho era rápido, mas cobrou 238 reais. Para dar um desconto, o técnico tirou R$ 38 da mão de obra, totalizando 200 reais todo o serviço. Obviamente, Rafinha Bastos aproveitou para ironizar a redução de preço concedida. O terceiro teste conheceu um especialista apelidado de “cara-de-pau”. Assim como o anterior, não detectou o problema exato e, de quebra, cobrou um preço alto pelo serviço: R$ 242,40. Para chegar a esse valor, desmontou o painel e concluiu que o defeito estava em uma peça localizada na parte superior da máquina – e não na inferior, como de fato era. Para amenizar a quantia, fez um desconto de 20 reais, culminando no preço mais elevado cobrado até então. O último técnico que passou pelo teste foi coerente com o diagnóstico levantado inicialmente. É verdade que a dona de casa citou um acontecimento em que especialistas na área enganaram uma pessoa leiga ao trocar peças de um ar condicionado, quando o aparelho só não estava conectado na tomada. Diante disso talvez o técnico tenha ficado mais atento a qualquer espécie de golpe. De maneira que em pouco tempo o problema fora detectado: o fio do capacitor estava solto, sem permitir que o motor fosse posto a funcionar. O valor cobrado pelo serviço? R$ 30,00 a visita. Ao sair do apartamento, o técnico (Amauri) foi abordado por Rafinha Bastos. Ao ser questionado se era costume entre os colegas de profissão enganar os clientes, afirmou que é comum tal acontecimento, os altos valores cobrados e as peças trocadas desnecessariamente. Como recompensa pela honestidade – embora isso não seja virtude a ninguém – Rafinha Bastos deu espaço ao técnico para que fosse divulgado o seu telefone para contato. Tivemos, então, um Proteste já distinto dos demais. Na verdade, não houve uma denúncia de algum morador em relação a um serviço ou uma obra ineficiente ou inacabada. Quando assim ocorre, o repórter, sem perder o humor de vista, vai em busca da apuração factual, dando voz a fontes diversas. Ao ouvir as duas pontas do acontecimento – o cidadão e a autoridade – o enredo jornalístico é composto tendo como fundo a inserção do humorismo. Neste caso estudado, não houve o confrontamento entre a voz do morador lesado e a posição da prefeitura, do órgão responsável. Houve, sim, a abordagem de uma situação não menos corriqueira do meio social. Se o jornalismo político consiste na proximidade com a classe política visando um bem público, ou seja, pautado por uma tendência cidadã voltada aos direitos sociais, nesta edição do Proteste já se faz presente este cunho, na medida em que noticia algo de interesse coletivo e que envolve questões de caráter e de relacionamento interpessoal. De novo, Rafinha Bastos se utilizou de ironias para compor a crítica. Naturalmente, a cada investida humorada tem-se uma tendência em favor do lesado, o que não compromete o compromisso jornalístico. Ao contrário, seria hipocrisia não fazê-lo, já que imprensa pressupõe função social. Desde que as barreiras éticas não sejam suplantadas, não há problema em optar por uma abordagem alternativa. Neste caso, teria sido apelativo e desmoralizante ter identificado os “desonestos”, até porque eles desconheciam o contexto em que estavam inseridos. O Proteste já usa o humor para arrematar a crítica. Enquanto as reportagens dos telejornais convencionais usam o choro de um entrevistado ou uma trilha sonora emocionante para incutir no telespectador o caráter da abordagem, Rafinha Bastos se utiliza do humor e o programa lança efeitos para complementar as investidas jornalísticas. Porque humor não serve apenas para divertir, entreter, descontrair. Em conjuntura norteada pelo fato, ele tende a reiterar a deficiência latente e a informar o cidadão por meio de um estilo alternativo. 4.4.10 Marcenaria comunitária é fechada pelo Poder Público (Cultura)46 A última edição do quadro estudada leva no nome de “Marcenaria comunitária é fechada pelo Poder Público”, em Pirapora do Bom Jesus47. Ela foi destinada à categoria cultura, pois o trabalho desenvolvido neste empreendimento visava ensinar a arte de talhar madeira a pessoas carentes, sem qualquer tipo de custo. Aprender a trabalhar com 46 CQC: Programa 35. Data 10/11/2008. Duração: 10min39seg. Município distante 54 km da cidade de São Paulo, com uma população de, aproximadamente, 16 mil habitantes. 47 madeira era a única oportunidade de crianças e jovens aprenderem um ofício. A questão, além de pessoal, torna-se social também. Como o proprietário da marcenaria, Ademilson Miguel Fernandes, possuía imóveis alugados para prefeitura e esta não quitava os vencimentos, aquele decidiu entrar na justiça para reaver a quantia. Em represália, o Executivo municipal ordenou o fechamento do local por considerar que não cumpria com os requisitos de segurança. Mesmo ficando em dia com as questões legais para pôr em funcionamento o estabelecimento, a prefeitura ainda não concedeu aval positivo ao autônomo, e o projeto continua parado Este Proteste já volta a se utilizar da narrativa para principiar o contexto jornalístico. Ao contrário das demais oportunidades, nesta a história inicial não começa e termina antes de o jornalismo atuar. O conto é introduzido e, com o caminhar da reportagem, aquele é retomado e finalizado. Mais do que antes, a narrativa é utilizada como complemento à matéria, na medida em que ambas caminham juntas. O enredo insere em seu conteúdo um dos personagens infantis mais conhecidos e populares: o Pinóquio48. Nesta adaptação, Pinóquio dialoga com seu pai sobre a importância de ir à escola. Enquanto o menino reluta, seu pai cria benefícios que o fazem ir aos estudos. Após ouvir alunos, uma mãe e o próprio marceneiro, a história retorna à encenação, onde Pinóquio comunica o pai que a escola de marcenaria foi fechada por culpa do prefeito de Pirapora do Bom Jesus. O pai, por sua vez, incentiva Pinóquio a ir protestar na prefeitura, e é justamente o que ele faz, retornando a história ao âmbito jornalístico. Mesmo assim, Rafinha Bastos não abre mão da fantasia de Pinóquio e vai até a prefeitura com os trajes do personagem que incutiu. Eram 89 alunos matriculados que aprendiam o ofício de talhar a madeira para oferecer os brinquedos às crianças carentes da comunidade. Além da aprendizagem concedida a pessoas sem condições financeiras para pagar um estudo mais aprimorado, no momento da reportagem foi possível constatar que ex-alunos já haviam construído seus próprios empreendimentos, como Márcio Pereira da Silva. Ou seja, foi dada a eles, sem custo algum, a possibilidade de terem um ofício e adquirirem sustento a partir disso. Tem-se, pois, uma pendência social a ser resolvida. Para encaminhar tal problemática ao conhecimento público e, dessa forma, ser gerada uma reivindicação em 48 Personagem de ficção do romance “As aventuras de Pinóquio”, de 1883, criado por Carlo Collodi. prol do que é justo, o jornalismo vai a campo para ouvir as instâncias componentes do problema. Em contato com as fontes e com os documentos que partem destas, são feitos os diálogos que dão ao telespectador condições de mensurar a situação como um todo. É aí que o jornalismo, tanto o convencional como o proposto pelo Proteste já, desempenha o seu papel de mediador entre as questões sociais e a sociedade. O primeiro entrevistado é o marceneiro. Procedente de Pernambuco, o autônomo se deslocou até São Paulo, assim como tantos nordestinos, para buscar condições melhores de vida. E se comprometeu a ajudar pessoas carentes, passando o seu trabalho adiante, caso obtivesse sucesso na nova morada. De fato, o marceneiro prosperou e levou adiante as suas técnicas. Devido a um contraponto com a prefeitura, o marceneiro teve o seu empreendimento fechado, deixando-o impossibilitado de manter os aprendizes. Na entrevista, o “professor” menciona o papel da marcenaria na vida de muitas crianças e jovens da cidade, um município marcado pela carência. Inclusive, por meio das aulas gratuitas, um aluno capacitou-se a montar seu próprio empreendimento, usando o aprendizado como forma de ganhar dinheiro. O marceneiro lembra que abrira a escola em 2001, mas quatro anos depois esbarrou em um problema com a prefeitura, situação que levou ao fechamento do local. Sobre isso, o instrutor menciona a sua insatisfação diante da constatação de que dois ex-alunos foram presos na extinta Febem (Fundação Estadual do Bem-estar do Menor). Intercalando a fala do marceneiro, elemento central da reportagem e autor da denúncia, destacaram-se os depoimentos do ex-aluno que obteve sucesso, agora tendo a sua própria marcenaria, de uma mãe (Dona Maria), demonstrando preocupação pelo não funcionamento do empreendimento, e de um aluno, agora impedido de estudar a partir do entrave criado pela prefeitura. O ex-aluno lembrou da importância da escola de marcenaria para a população carente, especialmente visando evitar que as pessoas menos experientes entrem em contato com as drogas e o crime. Além disso, torna-se uma possibilidade a mais de evoluir, assim como aconteceu com ele. Embora haja o obstáculo em relação ao preço do maquinário, tendo ciência das técnicas constitui-se em um passo importante para a autonomia financeira e pessoal. Em vista dos jovens serem suscetíveis às variantes perigosas da sociedade, uma mãe, entrevistada por Rafinha Bastos, transmitiu a sua preocupação diante da impossibilidade de seu filho freqüentar a escola, considerando que na cidade a única opção instrutiva, fora do horário escolar, era o empreendimento do marceneiro. A preocupação da mãe reitera a importância de se oferecer educação e cultura à população, especialmente às crianças e jovens de baixa renda. O jovem, após o fechamento da marcenaria, admite que, fora o horário da escola, não faz outra atividade, a não ser ficar na rua. Por incentivo do repórter, aproveitou para solicitar à prefeitura que fosse revista a situação da marcenaria, em vista da injustiça cometida contra o empreendedor e da importância que o seu projeto tinha perante à população de Pirapora do Bom Jesus. Para finalizar a matéria, evidentemente Rafinha Bastos se dirige à prefeitura para dialogar com o secretário municipal, Milton Leite Junior, sobre em que pé anda a questão abordada. Como de costume, Bastos imprime a ironia cabível aos acusados, fato que não havia sido percebido até então durante toda a matéria. Diante disso, concluímos novamente que o humor vem para corroborar, ratificar a crítica vigente. Sendo assim, sofre os efeitos mais visíveis quem está na berlinda. De início, o repórter, em forma de conto, para seguir a tendência da sua encenação, retoma a história que culminou no fechamento da marcenaria. A autoridade municipal justificou que é necessário reunir toda a documentação para que seja concedido o alvará de funcionamento, enfatizando que é perigoso manter crianças em local que oferece risco à integridade física dos indivíduos. Por fim, o secretário se compromete a devolver o direito de atuar do marceneiro, em uma semana, caso este regularize a documentação. O caso da marcenaria, que oferecia ensino gratuito à comunidade carente e teve cerceado o seu direito de levar adiante educação e cultura, é digno de cobertura jornalística, pelo fato de um grupo de pessoas se sentir lesado. A partir de uma problemática social cria-se a cobertura jornalística que é útil para emitir luz sobre uma temática de interesse público e que afeta, neste caso, negativamente uma comunidade. Diante disso, a cobertura da imprensa é necessária, independentemente do estilo, da forma como se abordará a questão. O Proteste já foge do convencional e busca no humor um diferencial que atraía o telespectador através do riso a ponto de este servir como uma lente de aumento para se visualizar a deficiência tratada. Se a ética jornalística preza por informar o público daquilo que é relevante e interessante, fazê-lo com humor é um modo de derrubar as restrições ao formalismo. 4.4.11 Proteste já/Resolução de casos De acordo com a condução dada neste capítulo, foi possível notar que, como em qualquer outra reportagem jornalística, o material desenvolvido pelo Proteste já cumpre com os pré-requisitos do jornalismo, apurando o fato, lançando mão de entrevistas, diversificando a fonte para contemplar todas as variantes do acontecimento. Ou seja, independente da abordagem e do enfoque, o jornalismo preza por essa “fórmula”, que quadro estudado não abre mão dela. Ancorado nas transmissões do jornalismo diário, percebe-se que coberturas dos mais variados tipos são feitas, inclusive voltadas a dar visibilidade a questões sociais relevantes, que afetam ou podem afetar um número elevado de pessoas. Apossa-se de uma denúncia, de uma obra mal feita, de um serviço ineficiente, e concebe-se uma matéria de cunho crítico, no sentido de pressionar o Estado, as autoridades a pôr em pleno funcionamento o que apresenta deficiência. Da mesma maneira acontece no CQC. O programa possui um canal que o liga ao telespectador/cidadão. Por intermédio do e-mail [email protected], o público mantém contato com o quadro e faz as denúncias pertinentes à proposta. Como o próprio nome sugere, não espere do Proteste já uma conduta amena, que emitirá luz sobre algo que deu certo. A seção vem para provocar o oposto ou ao menos ouvir esclarecimento dos responsáveis pela falha. Rafinha Bastos, um dos três apresentadores do programa, conduz o quadro. Ao receber a denúncia, o repórter se desloca até o local, intera-se do fato, entrevista os atores que acusam e são acusados para compor o material jornalístico. Como consta, o trajeto percorrido pelo jornalista do CQC é aparentemente o mesmo que qualquer outro profissional do ramo exerce, à parte telejornais e veículos. O diferencial imposto por Bastos é justamente o humor. Mas o quadro vai além das coberturas jornalísticas convencionais. Como já visto, as autoridades entrevistadas pelo repórter se comprometiam a regularizar a pendência dentro de um prazo determinado. Para conferir na prática se o período havia sido respeitado, existem duas formas: uma mais branda, que é o acompanhamento mais distante, mencionando da bancada se houve ou não o cumprimento do “acordo”. A outra, mais efetiva, compreende o retorno da equipe do programa ao local para se certificar de que houve uma melhora. O Proteste já opta pela segunda. Sem um espaçamento definido entre um e outro, o quadro ganha um complemento, denominado de Promessas não cumpridas. Cria-se, desse modo, uma lacuna para o retorno da reportagem ao local noticiado anteriormente, com o intuito de verificar as alterações ou os fracassos das promessas. Geralmente, em cada edição do Promessas não cumpridas Rafinha Bastos retoma dois ou três casos para conferir se houve solução. A estrutura do quadro é composta da seguinte forma: principiando a matéria, são inseridos os melhores momentos da primeira cobertura, para inteirar o telespectador que não pôde acompanhar a primeira cobertura, além de criar o gancho para a veiculação da segunda visita. Feito isso, Rafinha volta a entrevistar o autor da denúncia e peça fundamental na matéria anterior para ouvir dele os posicionamentos diante de melhoras ou estagnações. Por fim, a autoridade é entrevistada com vistas a ouvir seus esclarecimentos, ornamentada de méritos ou justificativas. O resultado dessa proposta do Proteste já varia. Tendo como objetivo alertar os órgãos responsáveis que o CQC “ficará de olho”, obrigando-os a agilizarem os aperfeiçoamentos necessários, é possível notar que os efeitos podem ser divididos em três: a promessa é cumprida de fato; o prazo é cumprido, mas a obra ou o serviço é parcialmente regularizado; ou a situação permanece a mesma, o que ocorre com menor incidência. Se o resultado não condiz com o esperado, ainda assim o CQC e o Proteste já vão além do papel jornalístico. Além de tornar pública uma questão social, ambos se comprometem a retornar no local e fornecer à sociedade a dimensão do compromisso firmado entre política e sociedade. Se jornalismo pressupõe função social, o Proteste já segue a equação ao noticiar problemas queixados pela população e forçar as autoridades a cumprirem a promessas através de uma “vigilância prolongada e efetiva”. CONSIDERAÇÕES FINAIS Partimos do princípio de que jornalismo e humor não são incompatíveis, se trabalhados juntos. Os elementos do humorismo podem ser inseridos para provocar, somente, o riso, e dar ao leitor ou telespectador momentos de descontração, distração, divertimento e irreverência. Há e sempre houve produções que se prendessem a essa potencialidade do humor, sem transcender. Entretanto, existem idealizações que buscam aliar o entretenimento à informação. Estas produzem no público o riso mais engajado. Mais do que propiciar ao indivíduo gracejos, as idéias que circundam tais conteúdos são generosas, e visam emitir os fatos com destaque. A incumbência de enfatizar o acontecimento fica sob a égide do humor e seus elementos mais atuantes: ironia, sátira, sarcasmo. O estudo proposto nesta pesquisa teve como intuito analisar o CQC e produzir um estudo de caso do quadro Proteste já, da TV Bandeirantes. Por entender que tanto o programa quanto a seção aliam jornalismo e humor, o trabalho se mostrou relevante, até como forma de apresentar apontamentos que corroborem a idéia norteadora: a aliança entre informação e entretenimento é viável. No caso específico da atração, foi possível constatar que o CQC não é um programa exclusivamente jornalístico. Ele mescla, a partir de uma vertente alternativa, ao longo de aproximadamente duas horas de transmissão, variedades e informação. Quando, por intermédio das investidas de Danilo Gentili no Congresso Nacional (Controle de Qualidade), dos quadros CQC Investiga e Teste de Honestidade, das matérias sobre esportes, eleições e economia e, especialmente, do quadro Proteste já, com Rafinha Bastos, o CQC desempenha as prerrogativas sugeridas por Luiz Beltrão, José Marques de Melo, dentre outros pesquisadores relevantes do campo da comunicação e do jornalismo. É preciso destacar que não se pode classificar o programa como jornalístico devido a algumas inserções: Top Five, CQTeste e conteúdos sobre celebridades, festas e eventos. Essas atuações, muitas vezes amparadas em apelo ao erotismo e a termos de baixo calão, abrem mão do papel de informar para se apegarem ao sensacionalismo e à fuga à proposta de veicular jornalismo. Além disso, vale enfatizar que os integrantes do programa, em certos momentos, personificam características que se distanciam do jornalismo, da realidade, aproximando o conteúdo da ficção, da encenação. Com alegorias ou não, como pôde ser visto no capítulo e na seção que se reservaram ao estudo, apresentador, comentaristas ou profissionais de campo se “vestem” de elementos que não são seus, embora nas edições analisadas do Proteste já isso aconteça para, como dissemos, destacar a informação difundida. Mesmo baseado em uma versão argentina e com todas as semelhanças que são pertinentes a uma adaptação, o formato brasileiro apresenta particularidades que o situam como um programa destinado a brasileiros, e não argentinos. O quadro Proteste já, que tem Rafinha Bastos como jornalista responsável, certifica ao programa inserções de teor jornalístico. Para produzir as considerações sobre o quadro, selecionamos dez temáticas (cidadania, cultura, educação, habitação, meio ambiente, política, prestação de serviço, saneamento básico, saúde/economia e transporte), além das resoluções de caso que o Proteste já se empenha em desenvolver. Nesse âmbito notamos que, mesmo aderindo a composições de personagens e ao estilo humorístico, ao atender uma demanda social, inteirar-se do fato, apurá-lo e almejar a variedade de fontes, ouvindo todos os envolvidos, Bastos compõe um material que diverte o público sem abandonar a crítica, a informação. Nesse caso, ao mesmo tempo em que o riso incentiva o entretenimento, desperta a partir da comicidade a visão mais crítica, e tem-se, pois, o tripé fato (sociedade) – jornalismo (Proteste já) – política (responsáveis). As teorias de política, jornalismo político e humor, abordadas nos capítulos I e II, serviram-nos para compreender a viabilidade da aliança. E mais: humor, jornalismo e política, cada um à sua maneira e com seus instrumentais, tem o social, o alerta, o questionamento como metas. Isso ficou registrado nos capítulos III e IV, que se incumbiram do programa e do Proteste. Aproveitando o princípio da terceira temporada do CQC, vale a menção às inovações de 2010. No cenário, o tom preto predominante dará lugar ao branco. A tendência tridimensional sai da bancada e vai também às ruas, na produção de conteúdo externo, com novos equipamentos de gravação. Dentre as diversas alterações, a principal delas diz respeito ao nosso objeto de estudo, o Proteste já: Rafinha Bastos será substituído por Danilo Gentili que, como expusemos ao longo da pesquisa, já atua no ramo da investigação, do jornalismo, da política. Bastos assume um novo quadro: A Liga. Outra novidade é o Trabalho forçado. Liderado por Felipe Andreoli, Rafael Cortez e Oscar Filho, consiste em inserir pessoas famosas em ocupações nunca desempenhadas por elas. Cidadão em ação é mais um principiante. Idealizado por Danilo Gentili, ele denunciará abusos e desvios que acontecem na sociedade. O terceiro quadro novo tem o nome de Marco Luque Responde. Ele responderá perguntas de conhecimentos gerais, fazendo piada com assuntos sérios. Por fim, haverá As piores notícias da semana, divulgadas pela própria bancada. Do ponto de vista das matérias, 2010 é ano de eleições nacionais e Copa do Mundo. Felipe Andreoli, Rafinha Bastos e Rafael Cortez irão até a África do Sul. No campo político, em Brasília, Mônica Iozzi assume os trabalhos, acompanhada por Danilo Gentili, o principal atuante desta área em 2009. Com isso, a equipe mantém-se a mesma que findou o último ano: Marcelo Tas, Rafinha Bastos, Marco Luque, Felipe Andreoli, Danilo Gentili, Rafael Cortez, Oscar Filho e Mônica Iozzi. Não há alteração no dia e horário de veiculação do CQC. O jornalismo do quadro estudado não é igual ao desenvolvido nos telejornais tradicionais, mas trata-se de jornalismo sob outra abordagem, a do humor. Nesse sentido, o humorismo é tido como pano de fundo da informação, e não o inverso, posto que o fato e seus desdobramentos norteiam a atuação do jornalista. A piada enfeita, serve de alegoria ao enfoque. Temos, então, a composição do jornalismo político sob a abordagem humorística, uma vez que o mediador (Rafinha Bastos) leva ao Poder Público (política) as contestações do povo, solicitando esclarecimentos sobre uma deficiência do meio social. Estando o indivíduo lesado, o jornalismo intervém, enquanto instância cidadã, para levantar o debate acerca de um interesse comum. Buscou-se nesta pesquisa demonstrar, embasado em referências bibliográficas pertinentes ao tema, orientações, entrevista, análise do objeto em sua composição visual e no exame de qualificação, que a mescla entre jornalismo e humor pode ser desenvolvida, levando-se em conta que ambos possuem como finalidade atender e amparar demandas críticas propostas pela sociedade. O programa Custe o que custar aderiu à possibilidade e tem no quadro Proteste já a composição do jornalismo permeado pelo estilo humorístico. Se efeitos distintos são produzidos no meio social a partir do contato com este tipo de programa, não se tem conhecimento, ao menos por intermédio desta pesquisa, que pode servir como passo principiante para um estudo mais aprofundado, sobre recepção. Coube a nós compreender o processo de produção e os elementos da informação e do entretenimento incutidos no conteúdo pesquisado. A dúvida persistente no início do processo de pesquisa era se o CQC resistiria após dois anos. Como se pode notar, o tempo de composição desta dissertação coincide com o período de transmissão do programa. Após 24 meses, a permanência e o crescimento em importância do CQC na grade de programação da Bandeirantes prova que, assim como as críticas e os elogios à atração, os estudos sobre política, jornalismo e humor devem frutificar, pois a junção entre ambos, à parte os intervalos de infertilidade, não cessa. REFERÊNCIAS ABRAMO, Cláudio. A regra do jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro. 4. ed. São Paulo: Schwarcz, 1997. ALBERTI, Verena. O riso e o risível na história do pensamento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. ALEMÃO, Márcio. CQC: o Pânico mais refinado. Disponível em <www.terra.com.br>. Acesso em 13/07/2008. ALMEIDA, Eliana M. J. F. 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Quando a gente começou a fazer o proteste já, que é uma coisa mais humorada, sentiu que tinha tudo a ver com o Brasil, porque o brasileiro é um povo bem humorado e consegue rir de si mesmo, da própria desgraça. Através desse tipo de humor, a gente consegue falar sério. Eu acho que o Brasil é o país ideal para se fazer humor no jornalismo. (Thiago) Como você observa a distinção entre o jornalismo do CQC e dos demais telejornais? (Rafinha) Poucas coisas são criadas. Quando os argentinos criaram o proteste já, eles tinham o objetivo de fazer um jornalismo diferenciado. Ele é único em um mundo muito quadrado que é o jornalismo. Então, o proteste já vem para quebrar o modelo, e por isso é importante para o programa. (Thiago) Fale sobre a sua relação com o jornalismo e com a comédia stand-up. (Rafinha) Eu comecei fazendo jornalismo, não comecei no palco. Eu comecei a fazer isso que eu faço agora, mas sem humor. Eu sou formado em jornalismo. Anos depois é que eu fui subir no palco para fazer comédia stand-up. Então, hoje eu consigo associar essas duas atividades. Para mim, essa migração para a TV foi relativamente fácil. A diferença é que no palco a repercussão da sua piada é imediata. Na televisão, nós precisamos esperar um tempo a mais. (Thiago) Qual é a validade do jornalismo mesclado com humor? (Rafinha) O CQC é muito admirado, inclusive pelos próprios jornalistas. Nós não temos uma postura 100% imparcial, pois através do humor nós nos posicionamos. Por meio de uma piada você se posiciona, ou com uma pergunta que consiste em uma ironia, que não é a pergunta tradicional do jornalismo. A receptividade tem sido muito boa. (Thiago) Como você utiliza muito o humor, a sátira, a ironia, você depende extremamente do discurso do entrevistado, o que requer velocidade de raciocínio e muita articulação para formular a sua ‘réplica’. Como é conduzir uma entrevista nesses moldes? Têm certas coisas que eu já vou para a entrevista querendo perguntar. Às vezes o entrevistado não te dá referências para você fazer comédia. Eu vou preparado, com algumas coisas que eu quero dizer, que eu quero abordar. Algumas vezes eu vou com uma pergunta irônica pré-estabelecida. Durante as eleições, eu sabia que muito não seria respondido, então a piada teria que estar na minha pergunta. Muitos Protestes funcionaram mais pela resposta do entrevistado do que pela pergunta do entrevistador. Em outros, a pergunta fica mais forte que a resposta. Eu sou um personagem muito importante nesse processo, mas nada mais forte do que a resposta. Por isso, eu tenho que estar sempre ligado para a réplica. (Thiago) Como é fazer jornalismo com humor dentro do Congresso Nacional, um ambiente superficialmente organizado, engomado, mas que possui entranhas totalmente corrompidas? (Rafinha) O Congresso é a personificação do poder. A gente faz um jornalismo voltado para a resolução de problemas. Então, o Congresso é o lugar perfeito para isso. O CQC tinha que ter essa entrada, o que foi muito importante para a gente. (Thiago) Para fazer o ‘Proteste’ você constrói um personagem e o encarna. Além disso, você se utiliza de uma encenação na introdução, ou no encerramento ou até durante a reportagem. Fale um pouco sobre esse processo de formulação do personagem. (Rafinha) Nós temos uma produção, com duas pessoas que vão atrás das informações, que recebem e-mails, que fazem o trabalho de campo, para ver se o assunto pode resultar em uma matéria, para buscar os personagens. Feita a denúncia, nós pensamos nas possibilidades para as quais ela pode nos levar, o que vamos fazer, quem vamos cobrar, como faremos a resolução, que “cabeça” pode ser feita para essa matéria. Ou seja, tudo é feito a partir da denúncia. (Thiago) Não há o risco de o entrevistado – que está sendo questionado por algo que não foi feito ou foi realizado com qualidade duvidosa –, entrar no clima do humor, se esquecer da seriedade jornalística e não se sentir atingido para se conscientizar de um problema que é de sua responsabilidade? Já aconteceu? Quando acontece, o que fazer? Esse não seria um dos dilemas que enfrenta o ‘jornalismo com viés humorístico’? A receptividade e a resposta vão muito do entrevistado. O ‘cara’ do ônibus [Rafinha se refere a um entrevistado que não entrou na brincadeira e se saiu bem] foi espertíssimo. Ele entrou na brincadeira e o Proteste perdeu a força, em partes. Porque você tem duas maneiras de pensar: ‘esse imbecil está rindo de um problema que ele mesmo criou’ ou você pode achar que ‘ele está rindo porque achou engraçado e perdeu a força’. (Thiago) Qual legado o CQC e o Proteste pretendem deixar? (Rafinha) O legado é o próprio nome do quadro. A gente faz o Proteste querendo que as pessoas protestem. Se a gente conseguir fazer com que as pessoas busquem os seus direitos, que alguém busque solução para os seus problemas, que queira cobrar das autoridades, sejam privadas ou públicas, a gente fará o nosso papel. O Proteste já faz isso de uma forma divertida. Dizer que a gente não faz jornalismo é um absurdo. A gente faz jornalismo, sim. Não esperem da gente fazer o jornalismo da Rede Globo.