CENTRO EDUCACIONAL WESLEYANO DO SUL
PAULISTA
CRISTINA J.V.A. OLIVEIRA
JAQUELINA ELI LEITE ARRUDA
MARCELY PIMENTA L. MORITA
Histórias de Itapeva: a fazenda Pilão D’água
ITAPEVA/SP
2006
CRISTINA J.V.A. OLIVEIRA
JAQUELINA ELI LEITE ARRUDA
MARCELY PIMENTA L. MORITA
Histórias de Itapeva: a fazenda Pilão D’água
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentada à Banca Examinadora
do
Centro
Wesleyano
do Sul
Paulista, como requisito parcial
para
a
obtenção do grau
licenciado em
História
orientação da
profª
Corrêa
ITAPEVA/SP
2006
Marques.
sob
de
a
Ms. Silvia
CRISTINA J.V.A. OLIVEIRA
JAQUELINA ELI LEITE ARRUDA
MARCELY PIMENTA L. MORITA
Histórias de Itapeva: a fazenda Pilão D’água
Orientador (a) Profª Ms. Silvia Corrêa Marques
_____________________________________________________________________
Data da aprovação: 05/12/2006
Dedicamos esse trabalho de pesquisa à
memória do Sr. João Kaufmann, que
contribuiu para a realização do mesmo,
vindo a falecer no dia 28/12/2006.
AGRADECIMENTOS
É preciso saber dizer obrigado!
Aos nossos pais, esposos, filhos, irmãs por serem o exemplo da fé e
esperança nos dando muita força e coragem para vencer na vida.
Aos nossos mestres em especial a professora Silvia Corrêa Marques,
pela lição do saber, pela orientação constante, pela dedicação, por repartirem
suas experiências de vida e auxiliarem a trilharmos este caminho.
Aos amigos com os quais convivemos durante três anos compartilhando
momentos agradáveis e momentos difíceis, o nosso respeito e afeto.
Aos entrevistados e colaboradores: Mady Gomes Rolim Ribeiro, João
Kaufmann, Maria Alice Queiroz, Vladimir Mattos, Mônica Braren, Stefan Braren,
Benedito Gimenez, Silvano de Melo Almeida e família Rolim de Itapetininga
que disponibilizaram o seu precioso tempo para nos transmitir seus
conhecimentos contribuindo para a conclusão desta pesquisa.
A todos que de forma direta ou indireta nos deram as mãos e nos
ajudaram na realização desse trabalho.
A todos nossa gratidão.
“Na realidade, não há percepção
que não esteja impregnada de
lembranças.”
(Henri Bérgson)
RESUMO
A história da fazenda Pilão D’água se entrelaça com a história do
município de Itapeva, localizado na região sudoeste do Estado de São Paulo.
Em nossa pesquisa pretendemos reconstruir aspectos da história da
fazenda formada no século XlX e em plena vigência da escravidão no País.
Pretende-se também discutir os conceitos de preservação e de patrimônio
histórico, pois mesmo em ruínas, há também vestígios da escravidão em
Itapeva com a existência de uma das únicas senzalas existente no território
paulista e indícios do trabalho escravo como o muro de pedras construído
pelos africanos e seus descendentes.
A Pilão D’água se constituiu enquanto fazenda de invernagem e engorda
de animais no período de vigência do ciclo do tropeirismo, passando, mais
tarde para a criação de porcos, além de áreas para a agricultura como, por
exemplo, o algodão no inicio do século XX. Está fazenda passou pelas mãos
de muitos proprietários dentre eles o Sr. Adelino Rolim em meados da década
de 20, vendida em 1944 para o alemão Hans H. Braren que permaneceu ali até
o dia da morte, ficando a propriedade para a sua esposa.
A fazenda foi
vendida para o então Prefeito Wilmar H. Mattos, com o propósito de restaurala, transformando-a em patrimônio histórico, o que ainda não se concretizou,
haja vista que a fazenda se encontra em completo abandono.
Palavras chave: escravidão – invernagem – preservação – patrimônio
histórico.
SUMÁRIO
Introdução.....................................................................09
Capítulo l - A fazenda Pilão D’água – Patrimônio que
resiste ao tempo e ao descaso....................................14
Capítulo ll –Na fazenda Pilão D’água, o sonho e o
trabalho alemão............................................................18
Capítulo lll – No rastro das tropas, no apito do
trem...............................................................................27
Considerações Finais....................................................36
Anexos...........................................................................38
Referências Bibliográficas...........................................50
9
INTRODUÇÃO
Pesquisa é um procedimento racional e sistemático que tem como
objetivo proporcionar respostas aos problemas que são propostos (GIL, p.19).
Refazer, se não toda, mas uma parcela significativa da longa trajetória da existência
da Fazenda Pilão D’água, foi o problema que inicialmente nos provocou. Sabíamos
de antemão que muitos dados da fazenda não estavam sistematizados, criando
uma espécie de lenda, onde cada um na cidade contava um pedaço ou a sua
versão.
Dessa forma, entendemos o
problema como o
início da pesquisa,
entretanto,
“... é preciso saber colocar o problema, na vida científica os
problemas não se colocam por si mesmo... é precisamente a marca do
espírito científico... uma resposta à questão”. (HUNNE, p. 59).
Este Trabalho de Conclusão de Curso está inserido na linha de pesquisa
história local e regional, cujo objeto de estudo está focado na Fazenda Pilão
D’água, localizada no município de Itapeva, Estado de São Paulo.
Pretendemos reconstruir aspectos da história da fazenda surgida em
meados do século XIX, em plena vigência da escravidão. Nos reportaremos
aos anos finais do Segundo Império, procurando alcançar os dias atuais,
quando
a
fazenda
permanece
resistindo
à
ação
do
tempo
descaracterização de seu patrimônio histórico, arquitetônico e natural.
e
à
10
Segundo LAKATOS e MARCONI o tema de uma pesquisa é o assunto
que se deseja provar ou desenvolver. (p. 139). Neste sentido, pesquisar a
fazenda Pilão D’água é também recorrer ao conceito de patrimônio, mais do
que valor histórico, o lugar que reconhecemos como “Patrimônio” da cidade, é
aquilo que nos identifica, nos particulariza e nos traz referências.
Assim sendo, temos a preocupação de realizar uma pesquisa baseada em
documentos, sejam orais ou escritos, visando contribuir para a história do
Município, haja vista que a saga da fazenda Pilão D’água se entrelaça com a
história de Itapeva, ou Faxina, antigo local de invernagens de animais, região
fundamental para o entendimento do que foi ciclo do tropeirismo na então
província de São Paulo (MARQUES, PETRONE).
Veremos adiante que o progresso não chegou com o café, mas com a
Estrada de Ferro Sorocabana. E lá estava a imponente fazenda, bem próxima
dos trilhos.
Hoje, muitas informações correm as ruas da cidade, algumas um tanto
fantasiosas e contraditórias, outras nem tanto. Isto mostra a importância da
fazenda para muitas famílias itapevenses que têm a sua história entrecortada
pela longa existência da fazenda, que envolve a escravidão em Itapeva,
assassinato do então chefe político local por um dos herdeiros das terras e a
imigração alemã na década de 40 do século XX.
Porque não estão sendo tomadas as devidas preocupações técnicas
para sua restauração e conservação, sendo a fazenda considerada pelo poder
público municipal um patrimônio histórico? Esta será uma das questões que
procuraremos responder.
11
A Fazenda Pilão D’ água está situada em área limítrofe urbano rural, à
margem da Rodovia Francisco Alves Negrão (SP – 258), entre Capão Bonito e
Itararé, este distante 2 km da divisa com o Estado do Paraná. No lado
esquerdo da sede, há um trecho percorrido por uma estrada de terra em boas
condições, passando pelo bairro Santa Maria (lado direito), pelo lixão municipal
(lado esquerdo), seguindo a diante, é possível alcançar o município de Itaberá
e o distrito do Guarizinho, ainda em Itapeva. Nesta estrada encontram – se
fazendas de gado, de lavouras e áreas de reflorestamento. Trata – se, na
verdade, de mais um dos antigos trechos de passagem das tropas.
A Pilão D’água era uma fazenda de invernagem para engorda de bois e
muares no tempo dos tropeiros. Hoje, lá ainda existe a senzala, em péssimo
estado de conservação, havendo também vestígios do trabalho escravo como
o muro de pedras construído pelos cativos da fazenda bem próxima a sede, a
antiga Casa Grande ou “casarão”, como é chamada, e que teria sido construído
no século XVlll, conservando parte de sua arquitetura antiga colonial de taipa
de pilão (ARAÙJO).
Partimos da hipótese de que a sobrevivência da fazenda estava no fato
de que ela foi sempre um dos carros chefes dos vários ciclos econômicos tanto
nacionais, como regionais e locais: a invernagem e criação de animais, o
algodão, a criação de suínos, a cana – de -
açúcar para a produção da
aguardente, perdendo o seu poder produtivo a partir dos anos 80 do século XX,
mas mantendo sua beleza arquitetônica preservada.
Para uma entrevista bem conduzida faz-se necessário à elaboração de
um questionário objetivo e consciente, para fazer o entrevistado falar com
12
segurança. Segundo THOMPSON, uma entrevista não é um diálogo ou
conversa. Tudo o que interessa é fazer o informante falar.(p. 271).
Adotamos o seguinte critério para as entrevistas: pessoas que tiveram
vínculos com a fazenda sejam eles familiares, de propriedade ou mesmo
profissionais.
A fazenda passou por vários proprietários, dentre eles o Coronel Donato
de Camargo Melo a partir de 18941 e Adelino Rolim, na década de 20 do
século passado. Um dos últimos proprietários foi o alemão Hans Henrich
Rudolf Braren, que deixou para sua segunda esposa Iracema Augusta Braren,
ambos já falecidos. Há várias hipóteses sobre a imigração de Braren para
Itapeva, mas podemos inferir que a sua chegada em território tão longínquo
estava relacionado a formação da Alemanha nazista e a preparação para
guerra. Construir uma nova vida, longe das seqüelas da 1ª guerra e do regime
totalitário alemão podem ter sido os motivos que trouxe Braren e sua esposa
para o Paraná e posteriormente Itapeva, com capital suficiente para comprar
aquela que foi uma das maiores e mais importantes fazendas de Itapeva.
A fazenda passou por várias desapropriações, sendo uma delas para a
construção do campo de aviação de Itapeva, outra para a construção do Centro
Comunitário e Recreativo Bento Alves Natel, feita por Jorge Assumpção
Shimidt, enquanto foi prefeito desta cidade na década de 1970.
Após a morte da senhora Iracema Augusta Braren o então prefeito da
cidade Wilmar Hailton de Mattos comprou o restante da fazenda, passando
está a pertencer ao poder público.
1
Sílvia C. Marques em sua pesquisa de mestrado sobre o quilombo do Jaó teve acesso ao inventário da
Fazenda Pilão feito em 1894 ( Cartório de 1ºOfício de Itapeva) quando a fazenda passa a ser propriedade
de Donato de Camargo Melo.
13
No primeiro capítulo da nossa pesquisa buscaremos retratar a fazenda
Pilão D’água nos dias atuais, bem como discutir a sua preservação com o
intuito de despertar o interesse da sociedade local pela história da fazenda,
aqui vista como parte significativa da história de Itapeva.
No segundo capítulo procuraremos refazer os aspectos históricos e
familiares da fazenda nas décadas de 40, 50, 60 e 70 bem como abordaremos
a imigração alemã em Itapeva, tema pouco conhecido, haja vista que a
colonização alemã é característica dos Estados do Sul do País.
A partir do terceiro capítulo visaremos resgatar a história de uma fazenda
com características coloniais com tantos mistérios envoltos da sua origem e
com vestígios de escravidão.
Finalizaremos o trabalho com as considerações finais.
14
CAPÍTULO l
A FAZENDA PILÃO D’ÁGUA – PATRIMÔNIO QUE
RESISTE AO TEMPO E AO DESCASO
A fazenda Pilão D’água passou a fazer parte do poder público de Itapeva
a partir de 2003, o que significou uma conquista importante para a sociedade
itapevense, provocando uma grande discussão na cidade em torno do tema
patrimônio.
Após o falecimento da Srª Iracema em 10 de Janeiro de 2001, a fazenda
seu irmão Adolfo Pollack o único herdeiro (em pesquisa na Web, descobrimos
que o sobrenome POLLACK comumente indica famílias judia), que vendeu
para a Prefeitura Municipal de Itapeva em 2003, sendo esta compra efetuada
pelo então prefeito Wilmar Hailton Mattos, no seu segundo mandato.
Segundo Mady Gomes Rolim Ribeiro o Município adquiriu 74 alqueires
para construir um centro de Educação Ambiental, sendo doados partes destes
alqueires para a UNESP ( Curso de Engenharia Industrial Madeireira).
...em 2003 o Município adquiriu 74 alqueires incluindo a sede
para construir ali uma escola de Educação Ambiental, uma parte desses
74 alqueires foram doados para a UNESP...
De acordo com Araújo, parte dos recursos empregados nesta compra
veio do FUNDEF – Fundo Nacional para o Desenvolvimento do Ensino
Fundamental, com o pretexto de ser implantado neste local uma escola
ambiental.(2006)
15
A fazenda está sendo considerada patrimônio histórico, no entanto ela
não foi devidamente tombada, haja vista que no município não está constituído
o Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e
Arquitetônico, órgão este que oficializa o tombamento.
A fazenda está sendo utilizada pela Associação de Peões e Boiadeiros
Chico Pio, grupo que se apresenta como portador de tradição tropeira de
Itapeva. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo pretende utilizar esse
espaço para implantar o projeto Caminho das Tropas, circuito que ligava
Sorocaba a Viamão do Rio Grande do Sul. No dia 01/10/2006 a Rede Globo
de televisão (Globo Rural), refez o caminho das tropas parando com a comitiva
na fazenda Pilão D’água. Entretanto a presença de cavalos, o uso para festas e
confraternizações vem comprometendo o espaço enquanto patrimônio
histórico, enquanto espaço de preservação de uso para fins culturais.
A Fazenda vem sendo notícias nos últimos tempos, pois a Secretaria
Municipal de Cultura e Turismo de Itapeva está engajada em transformar este
espaço em ponto turístico instalando próximo ao local um centro de eventos,
com parques de exposições, pistas de motocross e arena para rodeios.
Segundo os pesquisadores Sílvia Correa Marques e Sílvio Alberto
Camargo Araújo a implantação dos projetos pode comprometer em definitivo o
patrimônio histórico, caso não sejam tomadas precauções técnicas.
Segundo ARAÚJO, o órgão técnico responsável pela preservação do
patrimônio histórico no País é o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional), enquanto decreto-lei 25, organiza a proteção do patrimônio
histórico e artístico através do tombamento. A destruição, inutilização ou
16
deteriorização de patrimônio cujo valor arqueológico, histórico ou artístico tenha
sido oficialmente reconhecido constitui crime e acarreta penas severas aos
infratores, incluindo detenção de seis meses a dois anos (Decreto-lei 2.848).
Patrimônio histórico necessita ser preservado e conservado na medida
que são exemplos documentais de uma época, de um tipo de tecnologia
construtiva, de um espaço de memória, quer seja do barão ou do trabalhador
assalariado. A Constituição Federal em vigor reconhece o patrimônio cultural
como a memória e o modo de vida da sociedade brasileira, utilizando
elementos materiais como imateriais.
Artigo5º -- Todos são iguais Perante a lei, sem distinção
de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e a propriedade, nos termos seguintes
[...] LXXlll. Qualquer cidadão é parte legitima para propor ação popular
que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que
o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao
patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé,
isento
de
custas
judiciais
e
do
ônus
da
sucumbência.
[...]
(CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988)
É patrimônio cultural e ambiental, o conjunto dos elementos históricos,
arquitetônicos, ambientais, paleontológicos, arqueológicos, ecológicos e
científicos, para os quais se reconhecem valores que identificam e perpetuam a
memória e referenciais do modo de vida e identidade social.2
2
Site: http://www.prodam.sp.gov.br/dph/instituc/patri.htm
17
Além da sede o Município adquiriu o Centro Comunitário Alves Natel o
principal manancial de água de Itapeva, que está comprometida pelo
assoreamento e poluição.3
De acordo com o jornal Folha do Sul do dia 12/02/2005, a preservação
desta área deveria ser responsabilidade da Prefeitura e da Sabesp que explora
a água para o abastecimento da cidade.
O assoreamento da represa, o desmatamento e poluição ameaçam o
equilíbrio ambiental e o patrimônio arqueológico. Por cerca de quatro décadas
vem havendo esse processo gradual de degradação da micro bacia do Pilão
D’água, poderá se tornar um gigantesco lamaçal, completamente poluído e
foco de doenças.
3
Site: www.folhadosul.com.br
18
CAPÍTULO ll
NA FAZENDA PILÃO D’ÁGUA, O SONHO E O
TRABALHO ALEMÃO
A partir da década de 40 começou uma nova fase na fazenda Pilão
D’água com seus novos proprietários que saíram da Alemanha, passando pela
Argentina e depois por algumas cidades do Brasil, chegando finalmente em
Itapeva, aguçando as especulações sobre sua vinda para cidade em pleno
momento da eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando os alemães eram
identificados com o regime nazista de Hitler – o terceiro Reich. Nesse período,
a perseguição e o extermínio em massa dos judeus já era uma realidade, bem
como a invasão da Polônia, Dinamarca e Noruega. No ano de 1941, cerca de
270.000
alemães
judeus
haviam
conseguido
fugir
da
Alemanha.
(CARNEIRO,2000).
O Brasil, em pleno regime ditatorial, o Estado Novo de Vargas, entra na
guerra ao lado dos aliados: Inglaterra, França e Estados Unidos. Apesar da
simpatia de Vargas pelo nazi-fascismo, os Estados Unidos adotam uma política
de boa vizinhança e garantiram o alinhamento do Brasil contra o Eixo
(Alemanha, Itália e Japão), em contrapartida o Brasil constrói sua primeira
siderúrgica, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), no Estado do Rio de
Janeiro, com empréstimo norte-americano. (FAUSTO,1995).
19
Nesse contexto histórico complexo e contraditório, como os moradores
da pequena cidade de Itapeva percebiam a chegada de alemães na
comunidade?
Segundo Mônica Braren4, neta do Sr. Hans, ele morava na cidade de
Hamburg, Norte da Alemanha, vindo a imigrar para a cidade de Buenos Aires,
Argentina, onde se casou com a sua primeira mulher a Srª Hilde Braren e teve
a sua primeira filha Helga Braren. Mais tarde veio com sua família para o Brasil,
onde nasceu a sua segunda filha Ingborg Braren, morando em algumas
cidades, tais como Caxambu, Minas Gerais e Londrina no Norte do Paraná.
Sendo que, posteriormente em visita a região de Itapeva, gostou do
ambiente de Itapeva e da fazenda resolvendo compra-la, mudando-se com a
sua família para o local.
Em 1944 o Sr Hans Henrich Rudof Braren tornou-se proprietário da
Fazenda Pilão D’água5, comprando da família Rolim. De acordo com a Srª
Mady Gomes Rolim Ribeiro a fazenda continha aproximadamente 960
alqueires.
Conforme relato escrito do Sr. João Kaufmann, antigo administrador da
fazenda, o Sr. Hans era comprador de café de uma companhia americana e
proprietário da fazenda Pilão D’água. O Sr. Hans foi até a fazenda Santa
Hildegaldis comprar café conhecendo o Sr. João que lá trabalhava,
convidando-o para administrar sua fazenda em Itapeva. Ele e sua família
vieram para a fazenda ficando hospedados na casa da sede, até construírem
4
Nos entramos em contato com os descendentes do Sr. Braren pela Internet através do ORKUT, onde
Conhecemos seu bisneto Stefan Braren que gentilmente nos atendeu fornecendo informações importantes,
Entre elas, nos colocou em contato por E-mail com Mônica Braren
5
Jornal O Tempo, 17/12/1944 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques.
20
uma nova moradia com tijolos da olaria existente na fazenda. Kaufmann
permaneceu como administrador por mais de 20 anos. O Sr. Hans utilizava a
fazenda como ponto de apoio durante o período do café, deixando o
gerenciamento da mesma com o Sr. João, que cuidava da criação de animais e
das plantações de arroz, milho e feijão. Nesse período, foram fornecedores de
leite para a cidade e também queijos minas. O Sr. João relatou que:
... “diariamente pessoas da cidade chegavam à mangueira para
tomar leite da hora que eram vendidos, o queijo também era vendido
pelo empregado Sr. José Maciano na estação de ferro”.
De acordo com o Sr. João nas divisas da fazenda passava a linha de
trem denominada Estrada de Ferro Sorocabana, onde a locomotiva movida à
lenha provocava muitos incêndios queimava cercas, pastagens, prejudicando a
criação de animais trazendo prejuízos para o Sr. Hans.
Ainda de acordo com o Sr. João Kaufmann, após a morte do Sr. Hans
Braren a propriedade ficou com a Srª Iracema Augusta Braren sua segunda
esposa, iniciando uma nova era na fazenda. As plantações e a criação de
animais foram interrompidas, ficando apenas com arrendamento de terras.
Sendo assim o Sr. João não teria mais função na administração da fazenda,
indo morar na cidade.
O Sr. João Kaufmann, também um alemão que imigrou para o Brasil
com a esperança de dias melhores em terras desconhecidas, é parte
importante da história da fazenda. Nosso contato com ele foi intermediado por
Maria Alice Queiroz, também moradora de Itapeva e amiga antiga de
Kaufmann. Ela o procurou na Sociedade Beneficente Alemã no Butantã, São
21
Paulo, e gentilmente nos deixou um relato escrito sobre sua vida e seu trabalho
na fazenda Pilão D’água. (Vide relato em anexo).
O Sr. João Kaufmann relembra que saiu da Itália fascista em 1936 para
América do Sul em viagem de navio, sendo obrigado a deixar o curso de
medicina por concluir, devido ao avanço na Europa das tropas de Hitler, pelo
motivo de ter descendência judia. Aportou em Bueno Aires esperando visto
para o Brasil, chegando no Porto de Santos, encontrando um senhor que tinha
fazenda Santa Isabela em Rolândia no Paraná, começando a trabalhar como
operário. Após um tempo o Sr. João encontrou a sua futura esposa Nelly que
também veio da Alemanha como enfermeira de sua família. A família dela não
aceitava o relacionamento deles, pois ela não tinha como religião o judaísmo.
O Brasil nesse período, como foi dito, encontrava-se em regime
autoritário, conhecido como Estado Novo, onde Getulio Vargas apresentava
simpatia pelos regimes nazi-fascista, que durou de 1937 a 1945.
A vida dos alemães no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial (1939
a 1945) não foi fácil. Eles eram perseguidos pelas autoridades e ninguém lhes
dava emprego. Mônica Braren nos relata um episodio vivido por sua família:
...Durante a 2ª guerra, ele não podia trabalhar por ser alemão
(todos os alemães foram perseguidos, tornaram pessoas não grata) e
sua esposa Hilde sustentou a casa dando aulas de piano, inglês e
francês.
O Sr. Hans foi o penúltimo proprietário da fazenda. Após o seu
falecimento, houve a divisão de bens ficando a propriedade para sua esposa
Iracema Augusta Braren.
22
O Sr. Gimenez rememora com muitas saudades os momentos vividos
com o casal, de acordo com suas lembranças conheceu e torno-se amigo da
família Braren no ano de 1972, quando o Hans já era casado com a Iracema,
os quais lhe narraram a sua história de amor. Ele era viúvo e quando a
conheceu em São Paulo, ela era vendedora de uma loja de roupas. Foi amor à
primeira vista, convidando-a para vir morar com ele na fazenda. Em seu livro o
Sr. Gimenez lembra com afeto e admiração essa amizade:
...” Conheci em um passado bem distante um homem
singularmente estranho. Seu nome Hans Braren, um alemão de 2
metros de altura e sua esposa Srª Iracema Augusta Braren. A nossa
amizade nasceu quando cheguei há mais de trinta anos na cidade que
atualmente vivo. Ele um rico fazendeiro e eu um simples bancário
lutando pela subsistência. Ele um homem refugiado da guerra com seus
75 anos e eu um jovem de 28 anos. Seu maior prazer era jogar
xadrez...”6
Ainda segundo relatos do Sr. Gimenez e de Mônica Braren, sempre
existiram algumas lendas a respeito da fazenda. Como, por exemplo, sobre um
suposto tesouro enterrado no local. Após o falecimento do Sr. Hans, o Sr.
Leonardo Butzer pediu autorização à dona Iracema para, com o auxilio de um
detector de metais, cavar um buraco na garagem. Mas a única coisa que
encontrou foi uma lata velha.
Em entrevista com o Sr. Silvano de Melo Almeida, morador das
proximidades da fazenda, ele nos relatou que a sua mãe Aparecida de Melo
6
Livro Sementes de amor - Na Oitava casa da vida, autor Benedito Gimenez
23
Almeida trabalhou por 50 anos na fazenda Pilão D’água. Trinta anos
trabalhando na sede, como cozinheira e vinte anos como artesã dos famosos
queijos. Seu pai trabalhava na lavoura plantando cana, abacaxi, cuidando do
gado e fazendo aceiro. Sua mãe contava aos filhos que o Sr. Hans, que eles
conhecem como Sr. João havia chegado à cidade de Itapeva com a sua
esposa dona Hilde e compra a fazenda Pilão D’água. De acordo com suas
recordações:
...por eles serem estrangeiros a fazenda não era no nome do Sr.
Braren estava no nome de alguns portugueses que não me recordo o
nome, vindo a passar a fazenda no nome do Sr. Braren depois de
alguns anos. Alguns moradores da cidade iam até a fazenda jogar
pedras por eles serem alemães. Tempos depois o Sr Hans ficou viúvo
casando-se com a dona Iracema que era descendente de alemães, e
tinha como religião o judaísmo.
Segundo o Sr. Silvano e as suas irmãs que participaram da entrevista, o
Sr. Hans Henrich Rudof Braren foi primeiramente para o Paraná, arrumando
emprego na analise da qualidade do café. Tempos depois comprou a fazenda
Pilão D’água. Dona Hilde ficava no casarão enquanto ele ia até Londrina
verificar o café. Nesse período o Sr. João Kaufmann foi contratado para ser
capataz da fazenda. Na fazenda tinha um ferro de trilho que Kaufmann soava
como um sino para avisar os empregados o horário de trabalhar, almoçar e
encerrar o trabalho. De acordo com eles a casa onde Gisele de Melo Almeida
mora teria sido uma das casas dos colonos e durante a Revolução de 32 teria
24
funcionado como um hospital. Ainda de acordo com as informações colhidas
com Gisele:
...na fazenda existia uma capela que foi reformada pela família
Braren onde a Dona Iracema Augusta Braren colocou no altar a Santa
Isabel. A missa de inauguração foi celebrada pelo Dom Silvio. Tempos
depois a Santa teria sido roubada.
No seu relato Kaufmann também destacou a existência de um quilombo
nas terras da fazenda perto do campo de aviação denominado Estação Jaó,
onde a locomotiva abastecia de água. Onde hoje estão o bairro Santa Maria e
o lixão, também eram terras que pertenciam a fazenda Pilão D’água.
No dia 17 de Novembro de 1954 o Sr. Hans Heirinch Rodolf Braren e a
Srª Hilde Wrang de Braren cederam uma área de terras à Prefeitura Municipal
de Itapeva para a instalação dos serviços de abastecimento de água da cidade
efetuando uma ligação de motor elétrico para acionar uma bomba instalada no
canal.7
Também houve uma desapropriação das terras, por parte do Município
pelo prefeito da época Sr. Cícero Marques, para a construção do campo de
aviação.8
No início da década de 1970 ocorreu uma terceira desapropriação: 20
alqueires de terra, realizada pelo então prefeito Jorge Assumpção Schimidt que
iniciou a construção de um reservatório de água para a população urbana, que
na época das secas sofria com a escassez. O lugar recebeu o nome de Centro
7
8
Documentação Poder Executivo disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques.
Jornal O Tempo, disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques.
25
Comunitário Recreativo Bento Alves Natel, inaugurado no dia 20 de Setembro
de 1972.9
No local foi construída a represa que até hoje abastece a cidade,
aproveitando as condições naturais de água e vegetação, além de manter
precariamente a estrutura de pedras construídas pelos escravos. As
características aprazíveis do espelho d’água da represa, bosques com
espécies nativas e exóticas, o muro de pedras construído por mãos escravas
no século XlX e também as duas piscinas de águas naturais, o restaurante e a
ilha artificial, tornaram o local um importante ponto turístico do Município.
Este lugar na época tornou-se uma das maiores áreas de esporte, lazer
e cultura da região, gerando recursos financeiros e empregos para a cidade,
até meados de 90.10
No Decreto Nº 10.755, de 22 de novembro de 1977, que dispõe sobre o
enquadramento dos corpos de água receptores na classificação prevista no
Decreto nº 8.468, de 8 de setembro de 1976 e da providência correlatas é
citado o Ribeirão do Pilão D’água:
PAULO EGYDIO MARTINS, GOVERNADOR DO ESTADO DE
SÃO PAULO no uso da suas atribuições legais e com fundamento na
Lei nº 997 de 31 de maio de 1976 e no artigo 7 º do Regulamento
aprovado pelo Decreto nº 8.468, de 8 de setembro de 1976.
4.9. Da Bacia do Alto Paranapanema: Ribeirão Pilão D'água a jusante
9
Casa de Cultura Cícero Marques.
10
Jornal Cílios da Terra
26
da captação de água de abastecimento para Itapeva até a confluência
com o Rio Taquari, no município de Itapeva;11
Na gestão de Guilherme Brugnaro o recanto Bento Alves Natel foi
abandonado.
Nos primeiros meses da gestão do prefeito Wilmar Hailton de Mattos, em
1997, este referido local foi interditado, ficando completamente desamparado, a
partir daí começou a depredação, assoreamento e também mortes por
afogamento.
Na atual gestão de Luiz Antonio Hussne Cavani (PT), por decisão
judicial manter-se-á policiamento nestas terras a fim de evitar acidentes.
.
11
Site: www.mp.sp.gov.br
27
CAPÍTULO lIl
NO RASTRO DAS TROPAS, NO APITO DO TREM
Os memorialistas locais, entre eles Genésio de Moura Muzel, deixaram
importantes relatos sobre a origem e povoamento de Itapeva, sendo muitos
deles, publicados em forma de artigo na Folha do Sul, jornal tradicional de
Itapeva.
O povoado de Itapeva, no século XVlll, se desenvolve como passagem
obrigatória para os tropeiros que se deslocam do Sul para a feira de animais
que se iniciava em Sorocaba.
Nesse
contexto,
Silvia
Marques
afirma que
mesmo
antes
da
intensificação do ciclo de muar – animal de transporte vendido para as áreas
cafeeiras – toda a região de Itapeva, Buri e Itararé, já estava partilhado pelo
Sesmeiros. Portanto, Itapeva deve ser compreendida no contexto da expansão
do capitalismo, da busca do lucro que viria das invernagens de animais. Dessa
forma, por esta região ricos negociantes de animais adquiriram terras, que
eram administradas por fazendeiros como nos campos do Paraná. (PETRONE,
1976).
Os caminhos de Sorocaba a Itapeva, Curitiba e o Sul do país se fizeram,
em grande parte pelo transporte de boi e pelas tropas de cavalos e burros
trazidas do sul do país. Itapeva estaria inserida no “ciclo do tropeirismo”, sendo
uma das “estações de invernagens”, para muares, eqüinos e bovinos antes de
serem vendidos em Sorocaba. (PETRONE, 1976).
28
Com a fundação da cidade de Itapeva houve grandes interesses por
terras neste local, surgindo então em meados do século XlX a denominada
chácara Pilão D’Água.12
Neste período a fazenda era voltada para criação e invernagem de
animais. Na chácara havia a Casa Grande de arquitetura colonial construída
em taipa de pilão e posteriormente foi ampliada com alvenaria, conservando
até os dias de hoje sua arquitetura ainda que parcialmente deteriorada. Em
volta da casa ainda é possível observar alguns muros de pedras, que segundo
informações coletadas foram feitos pelos escravos para a contenção dos
animais. Há ainda a Senzala que foi parcialmente alterada, sendo uma das
poucas ainda existentes no sudoeste Paulista e talvez a única que está
relacionada ao ciclo do tropeirismo e não da cana-de-açúcar ou café.
No final do século XlX esta propriedade pertenceu a Srª Fortunata Maria
de Camargo. Após a sua morte no dia 15 de junho de 1894, a decisão da
divisão dos bens deixados necessitou da intervenção judicial, pois não houve
partilha amigável entre os herdeiros. Os herdeiros da dona Fortunata eram: 13
1º Tenente Coronel Honorato Carneiro de Melo;
2º Tenente Coronel Martinho Carneiro de Melo;
3º Coronel Donato de Camargo Melo, casado com Maria de Carneiro
Camargo filha de Fortunata;
4º Major José Teixeira Pinto, casado com Isabel Ramos Silva de
Camargo filha de Fortunata.
12
Sílvia C. Marques em sua pesquisa de mestrado sobre o quilombo do Jaó teve acesso ao inventário da
Fazenda Pilão feito em 1894 ( Cartório de 1ºOfício de Itapeva) quando a fazenda passa a ser propriedade
de Donato de Camargo Melo.
13
Idem ao10
29
Conforme informações analisadas no inventário de Fortunata Maria de
Camargo no dia 06 de Agosto de 1894 os herdeiros acima descritos fizeram a
transferência e cessão de direito e herança para o Coronel Donato de Camargo
Melo pela quantia de trinta e cinco contos de reis (35:000/000) para cada um,
passando este a ser o proprietário da chácara Pilão D’água e das terras
adjacentes.
Após a venda da parte que cabia aos herdeiros para o Coronel Donato
de Camargo Melo foi feito pelo poder judicial à avaliação dos bens que
continham na denominada chácara Pilão D’água:
Avaliação dos bens da Chácara Pilão
D’água 10/08/1894
Material avaliado
1 faqueiro completo de prata
Avaliado
Um conto de reis
Reis
1:000/000
Castiçais de prata em bom uso Seiscentos mil reis
600/000
Uma mobília para sala, lustres. Dois contos de reis
2:000/000
Um piano estragado
Quinhentos mil reis
500/000
1 besta velha
Cento e cinqüenta mil reis
150/000
203 vacas de criar
Doze contos cento e oitenta
12:180/000
mil reis
Uma chácara, contendo casa Vinte contos de reis
20:000/000
de morada, casa e terra de
agua.
Uma invernada denominada Dezessete contos de reis
Leme, juntamente a chácara
Pilão D’água.
17:000/000
30
Uma dita denominada Rincão Cinco contos de reis
5:000/000
do Prudente, juntamente com a
chácara avaliada.
Acrescentar as invernadas constantes da avaliação, transformando o todo
da Chácara Pilão D’água.14
Segundo Marques, da fazenda teria saído o casal fundador do Quilombo
existente na cidade de Itapeva conhecido como Jaó.
A fazenda é palco de muitos mistérios e lendas, de acordo com os
moradores próximos, corre a lenda que na fazenda existe ouro os quais foram
enterrados por Fortunata Maria de Camargo. Ela pedia ajuda para os escravos
para cavar os buracos, enterrava os ouros e depois matava o escravo que tinha
ajudado, segundo eles ainda até pouco tempo atrás vinham pessoas com
detector de metais para procurar os tais ouros, como relatam os atuais vizinhos
da fazenda.
Em entrevista a Sª Mady Gomes Rolim Ribeiro nos relatou que houve
uma desapropriação por parte do Município pelo prefeito da época, o Coronel
Acácio Piedade, para o tiro de guerra realizar treinamentos de tiros. Essas
terras ficam em frente onde hoje é o clube da Associação Atlética Banco do
Brasil (AABB), e na época pertenciam ao herdeiro de Donato de Camargo
Melo, Luis de Camargo. Desse enfrentamento, Camargo ficou extremamente
descontente com a desapropriação o que teria motivou o assassinato do
Coronel. Este fato marcou a história política da cidade, pois Acácio Piedade era
o chefe político local, deputado estadual por três vezes e forte candidato a vice-
14
Nota-se a identificação de um número significativo de animais, além das invernadas.
31
governador do Estado. Este foi o tempo da Republica Velha em Itapeva que
ainda necessita de estudos.
O Sr. Luiz de Camargo era declaradamente inimigo do Coronel Acácio
Piedade, o seu ódio cresceu quando o Coronel comprou um terreno para a
linha de tiros, mas Luiz teimava em dizer que lhe pertencia o que ocasionou no
assassinato do Coronel na estação.15
A Fazenda contou com vários proprietários conforme o jornal o Tempo o
Sr. Elisiario Ramos de Camargo vendeu a fazenda para os Srs. Phebo Ferreira
Rogé, Albino Ferreira Rogé e Antonio Rogé Junior pela quantia de
150:000/000, residentes em São Paulo, que pretendiam desenvolver a cultura
de trigo e algodão.16
O proprietário seguinte foi o Sr. Adelino Rolim, dono da Cia Empresa Luz
e Força Meridional Paulista, vindo com sua família de Itapetininga. Rolim
comprou a fazenda na década de 20, permanecendo no local até a sua morte
em 1938. Após esse episódio a propriedade ficou em poder dos seus familiares
por mais um tempo, sendo vendido em 1944 para o Sr. Hans Braren.
Conforme relatos de Mady Gomes Rolim Ribeiro neta do Sr. Adelino
Rolim:
“... na fazenda pelo que meus parentes contava havia várias
culturas de frutas principalmente abacaxis, melancia, plantavam canade-açúcar porque havia um alambique em funcionamento e eles
comercializavam água ardente até quem tomava conta desse alambique
era o meu pai e meu tio Oscar, mas acho que a cultura principal era do
algodão, eles criavam animais também pra corte, pra produção de leite
15
16
Jornal O Tempo, 04/11/1917 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques.
Jornal O Tempo, 07/07/1918 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques.
32
e segundo me contaram havia uma grande produção de queijo na
fazenda também pra ser comercializado.”
Sobre a produção de algodão na fazenda no jornal O Tempo de 1927,
encontramos a seguinte informação:
“... Foram transmitidas ao Sr. Secretário da Fazenda, a fim de
ser encaminhadas ao Tribunal de contas, as cópias dos contratos
celebrados entre a diretoria da Agricultura e os Srs. Albano de Souza e
Adelino Rolim para a instalação de culturas de algodão e fornecimento
de sementes...”17
Um longo muro de pedras feito pelos escravos separam os porcos
afastando-os da sede e mantendo-os confinados até que chegasse o dia em
que seriam embarcados de trem rumo a capital para virar banha.18
Quando o Sr. Adelino Rolim comprou a fazenda, ele tentou mudar o
nome para “Santa Elisa” em homenagem a sua esposa. Entretanto não foi
possível, pois o nome Pilão D’água já era uma marca na cidade de Itapeva que
na época era denominada Faxina.
“Precisa-se de colhedores de algodão, na fazenda Santa Elisa,
de Adelino Rolim, antiga Pilão D’água...”19.
A origem do nome Pilão D’água ainda é uma incógnita, mas acredita-se
que próximo à Casa Grande em um barranco de 5m de altura, existia um
17
Jornal O Tempo, 30/10/1927 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques
Material audio-visual cedido pela família Rolim
19
Jornal O Tempo 15/04/1928 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques
18
33
monjolo para beneficiamento de produtos agrícolas, esta estrutura pode ter
determinado o nome da fazenda.20
A lembrança é a sobrevivência do passado. (RODRIGUES, 2006) Sendo
assim a Srª Mady revive em suas lembranças fatos que marcaram a vida da
sua família:
Neste período na fazenda viviam o vovô.Adelino, a vovó Eliza e
nove filhos as mulheres todas se formaram professoras no Instituto
Peixoto Gomides em Itapetininga, porque aqui em Itapeva não existia
escola normal, os homens trabalhavam na fazenda, cada um com sua
obrigação, até um dos meus tios morreu na fazenda, pois houve um
acidente, estavam descarregando um caminhão e uma tora caiu em
cima dele, esse meu tio morreu solteiro em virtude desse acidente na
fazenda Pilão D’água, o meu pai cuidava do alambique que eles tinham,
ele e o tio Oscar se revezavam, o tio Oscar também era um veterinário
prático ele tinha uma casa de produtos e tratamento de animais, ia até a
fazenda e atendia, meu tio Otávio ele tinha terras, mas ele cuidava de
minas na região de Apiaí e só o meu tio Tonico que era o mais velho
que continuou trabalhando com fazendas ele tinha leiteria, ele ficou com
uma parte da fazenda no Jaó e ali na escolinha perto da estação Vila
Isabel.
Como a professora, Mady se reporta a antiga escolinha:
Antigamente não existia a Rodovia que passa atrás da escola do
Zulmira e onde hoje é o Clube de Campo também fazia parte da
propriedade Pilão D’água, neste local o Sr. Adelino Rolim teria
20
ARAÚJO, Sílvio Alberto Camargo. Dissertação de Mestrado
34
construído uma escola para suas filhas Auta e Chiquinha lecionarem, a
qual eles chamavam carinhosamente de escolinha.
Mady Rolim, também afirma poder existir alguns Rolim que possuem
propriedades nesta área como, por exemplo, o matadouro, onde que está
localizada a denominada “favela Pilão D’água”. Acredita-se então que uma
parte da fazenda ficou reservada para os filhos e o restante foi vendido.
Durante a Revolução de 32 o Sr. Adelino Rolim e família tiveram que
ceder a casa-sede para os revolucionários gaúchos, deslocando-se para o sítio
chamado Timbuva, já que a fazenda tinha vários sítios com denominações
diferentes e com acomodações para visitantes. (RIBEIRO, 2006)
O Sr. Antonio Rolim Leme e a Srª Walda Rolim Martins Correa desde
menino vinham passar as férias com os avós na fazenda. No ano de 2003
ambos retornaram para a fazenda Pilão D’água, rememorando os momentos
vividos ali com muita emoção. Tudo foi registrado em material áudio-visual pela
família. Neste material, transbordam memórias, emoções, lagrimas e alegria.
Tal como aponta Ecléa Bosi, lembrar não é rever, mas refazer, reconstruir,
repensar com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado.
Alguns momentos foi o do menino, Antonio que na época vinha passar
as férias escolares na fazenda. Ele descia do trem na estação da Vila Isabel
com as malas nas costa e vinha caminhando pela ferrovia até chegar na casa
dos avós. Eles reviram a Casa Grande que apesar de modificada pelos outros
donos ainda mantinha as características do tempo em que eram crianças. Do
lado da igrejinha havia um puxadinho onde se guardavam melancias. A dona
Elisa fazia tachos de doces de leite, goiabada, marmelada para distribuir para
os parentes e amigos. Naquela época já existia um telefone a manivela para a
comunicação dos Rolim’s.
35
Após a venda da fazenda para os alemães a família Rolim não perdeu o
elo com a fazenda, geralmente aos domingos a Srª Mady, o pai, a mãe e os
irmãos iam visitar a dona Hilde e aproveitavam para brincar na cachoeira, catar
coquinhos nos campos e relembrar história do passado.
36
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através dos levantamentos que fizemos, da escolha dos
depoentes, da identificação e análise da documentação escrita, reencontramos
a história da fazenda Pilão D´água sob a ótica do pesquisador.
O
levantamento das informações e sua análise foram as etapas da metodologia
adotada.
Esta pesquisa percorreu o caminho das lembranças familiares, das
memórias afetivas dos depoentes que tiveram ligações diretas com a fazenda.
Entre eles estava João Kaufmann, falecido há uma semana do encerramento
desta pesquisa.
Ao saber do nosso trabalho em São Paulo, Kaufmann, de imediato,
aceitou colocar no papel as lembranças de uma história que se iniciou na
Europa da Segunda Guerra Mundial, atravessou o oceano em busca de
trabalho e lugar seguro para se viver. Nesta trajetória, surge a imponente
fazenda Pilão D´água, berço de dois alemães, um deles de origem judia.
Não apenas as lembranças, mas também documentos analisados por nós
possibilitaram contribuir para a histórica de Itapeva, pois a fazenda representa
a história, a identidade deste lugar, deste Município.
Precisamos tomar consciência como cidadãos itapevense das nossas
obrigações e direitos preservando e conservando, esse bem tão valioso do
nosso Município, que foi por muito delapidado, fazendo com que a fazenda
37
Pilão D’água torna-se sinônimo da história de Itapeva e parte da história do
Estado de São Paulo, ao lado das imponentes fazenda de café.
38
Depoimento do Sr. João Kaufmann – 22/10/2006
Maria Alice Queiroz em visita ao senhor João Kaufmann na
Sociedade Beneficente Alemã no Butantã- São Paulo, escreveu sobre sua
vinda para o Brasil, bem como sua vida na fazenda Pilão D’água:
Ele saiu da Firenze, Itália em 1936, com a morte do seu pai, em 1936
para América do Sul, com visto para o Paraguai. Na viagem de navio conheceu
um senhor que indicou o Brasil onde seria mais fácil achar emprego. Assim Sr.
João aportou em Buenos Aires na espera do visto para o Brasil.
Quando chegou no Porto de Santos, o funcionário do porto não aceitou o
visto, mas outro funcionário o enviou a uma família conhecida moradora do
bairro Sumaré, em São Paulo, a Srª. Truth.
Encontrou o Sr. que tinha fazenda em Rolândia, Paraná, a Santa
Isabela, onde começou a trabalhar como operário.
Embora já estivesse quase formado em medicina, foi obrigado a fugir da
Alemanha devido ao avanço na Europa das tropas de Hitler, pelo motivo de ter
descendência judia.
Após um tempo Sr. João encontrou sua esposa numa reunião entre
fazendeiros. Srª. Nelley sua futura esposa, também veio da Alemanha como
enfermeira da família da prima dela. Apenas para ficar um ano. Foi nesse ano
que o casal se encontrou, embora a família da Srª. Nelley não aceitava por não
terem a mesma descendência (ela não tinha como religião o judaísmo).
39
Finalmente acabaram se casando gerando três filhos, Bárbara, Bernardo
e Silvia.
Após o casamento Sr. João arrendou uma gleba de terra no Paraná (seu
irmão enviou $) onde nasceram os dois filhos, ficando nessas terras por dois
anos.
Após isso, foram viver na fazenda Sta. Hildegaldis, de um senhor de
Nova York, onde nasceu a terceira filha.
Durante esse período Sr. João conheceu Sr. Braren (comprador de café
de uma companhia americana, viajante). Nesse período o Sr. Braren convidou
Sr. João a tomar conta da Fazenda Pilão D´água, ficando por mais de 20 anos
Ele cuidava da criação de gado, embora tivesse plantação de arroz,
milho e feijão. Sr. João tinha total autonomia para gerenciar a fazenda, pois Sr.
Braren utilizava a fazenda como ponto de apoio,ou seja, durante o período do
comercio de café.
Na chegada à fazenda, ficaram hospedados na casa da sede e
construíram a nova moradia com tijolos (da olaria existente na fazenda).
Durante esse período foram fornecedores de leite para a cidade e
também queijos (tipo minas), diariamente pessoas da cidade chegavam à
mangueira para tomar leite da hora que eram vendidos.O queijo também era
vendido pelo Sr. José Maciano (empregado) na estação da estrada de ferro.
Os filhos estudaram na E.E.”Otavio Ferrari”, em Itapeva o meio de
transporte utilizado era a “bicicleta”. E nos fins de semana recebiam amigos
para desfrutar da cachoeira ali existente (não mais hoje) e andarem a cavalo.
40
O Campo de Aviação (foi doação do Sr. Braren) na fazenda existia um
quilombo perto do Campo de Aviação (Estação Jaó) onde a locomotiva
abastecia de água.
Existe ainda o muro feito de pedra da época dos escravos.
A Santa Maria (bairro) e o lixão (terras que pertenceram a Fazenda Pilão
D’água).
A estrada de ferro Sorocabana margeava a divisa da Fazenda Pilão
D’água, provocando muito incêndio (locomotiva movida à lenha) queimava
cercas, pastagens, prejudicando a criação de animais.
Após o segundo casamento do Sr. Braren com Dona Iracema, as coisas
começaram a mudar na Fazenda e mais ainda com a morte do Sr. Braren.
Dona Iracema iniciou uma nova era na fazenda, acabaram as plantações
e a criação de animais. Ficou estipulado que ela arrendaria a área, assim o Sr.
João não teria mais utilização na administração da fazenda.
Sendo assim, ele com suas economias, resolveu morar na cidade, onde
ficou por 20 anos e após a morte de sua esposa, resolveu vender a casa e ir
morar em São Paulo.
Hoje com 95 anos faz o relato de sua vida na Sociedade Beneficente
Alemã, no Butantã, cidade de São Paulo.
41
Genealogia da família Camargo
Mãe: Fortunata
Maria de Camargo
Pai: Luiz Carneiro
Isabel Ramos Silva de
Camargo
Filhos
Marido : José Teixeira
Pinto
Honorato Carneiro de
Camargo
Esposa: Fortunata
Carneiro
Martinho Carneiro de
Camargo
Esposa: Elisa de
Camargo Mello
Maria de Carneiro
Camargo
Marido: Donato de
Camargo Mello
42
Iconografia da fazenda Pilão D’água
Fazenda Pilão D’água na década de 20 – foto cedida pela família Rolim.
A fazenda Pilão D’água nos dias de hoje
43
Sr. Adelino Rolim, Sua esposa
Dona Elisa S. Rolim e sua neta
foto cedida pela família Rolim
Sr Adelino passeando pela sua
fazenda - foto cedida pela família Rolim
Sr Adelino percorrendo sua lavoura de algodão – foto cedida pela família Rolim
44
Srª Elisa Simões Rolim – foto cedida
pela família Rolim.
Srª Elisa Simões Rolim e Sr.
Adelino - foto cedida pela família
Rolim.
Estrada de Ferro Sorocabana, onde passava o trem que era utilizado para levar os
porcos até a capital para virar banha - foto cedida pela família Rolim.
Fotos da cachoeira na década de 20 e nos dias atuais - foto cedida pela família Rolim
45
Srª Elisa e seu neto Antonio Rolim –
foto cedida pela família Rolim.
Walda Rolim neta do Sr Adelino e Srª
Elisa - foto cedida pela família Rolim
Antonio Rolim e Walda Rolim em visita a fazenda Pilão D’água no ano de 2003 - foto
cedida pela família Rolim
46
A senzala ainda existente na fazenda
Muro e calçamento de pedras construídos
Foto tirada no dia 13/10/2006
pelos escravos – foto tirada no dia 13/10/06
Atual entrada da fazenda Pilão D’água – foto tirada no dia 13/10/2006
47
igrejinha da fazenda e o altar com as imagens dos – foto tirada no dia 13/10/2006
Jaquelina e Cristina na fazenda Pilão D’água – foto tirada no dia 13/10/2006
48
Cristina e Marcely na fazenda Pilão D’água – foto tirada no dia 13/10/2006
Telhado da senzala e parededentro da casa sede – foto tirada no dia 13/10/2006
49
Sr. João Kaufmann, administrador da fazenda Pilão D’água no período em que seu
Hans Braren era dono, e atrás tem o retrato dos seus pais – foto tirada por Maria Alice
Queiroz amiga da família em São Paulo, na casa de campo da sua filha.
Srª Iracema Augusta Braren e sua família – foto cedida por Gisele de Melo Almeida no
dia 06/11/2006
50
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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formação de políticas para a gestão patrimonial. MAE/USP, 2006.
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FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp; 1995.2006
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Marques.
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52
ENTREVISTAS
Ribeiro, Mady Gomes Rolim, 28/09/2006
Melo, Silvano de Almeida, 06/11/2006
RELATOS ESCRITOS
Kaufmann, João, 2006
Gimenez, Benedito; 2006
Braren, Mônica – Internet – E-mail 26/ 11/2006
Braren, Stefan – Internet - ORKUT
MATERIAL COMPLEMENTAR
Material Áudio-visual cedido pela família Rolim
Download

centro educacional wesleyano do sul paulista itapeva/sp 2006