CENTRO EDUCACIONAL WESLEYANO DO SUL PAULISTA CRISTINA J.V.A. OLIVEIRA JAQUELINA ELI LEITE ARRUDA MARCELY PIMENTA L. MORITA Histórias de Itapeva: a fazenda Pilão D’água ITAPEVA/SP 2006 CRISTINA J.V.A. OLIVEIRA JAQUELINA ELI LEITE ARRUDA MARCELY PIMENTA L. MORITA Histórias de Itapeva: a fazenda Pilão D’água Trabalho de Conclusão de Curso apresentada à Banca Examinadora do Centro Wesleyano do Sul Paulista, como requisito parcial para a obtenção do grau licenciado em História orientação da profª Corrêa ITAPEVA/SP 2006 Marques. sob de a Ms. Silvia CRISTINA J.V.A. OLIVEIRA JAQUELINA ELI LEITE ARRUDA MARCELY PIMENTA L. MORITA Histórias de Itapeva: a fazenda Pilão D’água Orientador (a) Profª Ms. Silvia Corrêa Marques _____________________________________________________________________ Data da aprovação: 05/12/2006 Dedicamos esse trabalho de pesquisa à memória do Sr. João Kaufmann, que contribuiu para a realização do mesmo, vindo a falecer no dia 28/12/2006. AGRADECIMENTOS É preciso saber dizer obrigado! Aos nossos pais, esposos, filhos, irmãs por serem o exemplo da fé e esperança nos dando muita força e coragem para vencer na vida. Aos nossos mestres em especial a professora Silvia Corrêa Marques, pela lição do saber, pela orientação constante, pela dedicação, por repartirem suas experiências de vida e auxiliarem a trilharmos este caminho. Aos amigos com os quais convivemos durante três anos compartilhando momentos agradáveis e momentos difíceis, o nosso respeito e afeto. Aos entrevistados e colaboradores: Mady Gomes Rolim Ribeiro, João Kaufmann, Maria Alice Queiroz, Vladimir Mattos, Mônica Braren, Stefan Braren, Benedito Gimenez, Silvano de Melo Almeida e família Rolim de Itapetininga que disponibilizaram o seu precioso tempo para nos transmitir seus conhecimentos contribuindo para a conclusão desta pesquisa. A todos que de forma direta ou indireta nos deram as mãos e nos ajudaram na realização desse trabalho. A todos nossa gratidão. “Na realidade, não há percepção que não esteja impregnada de lembranças.” (Henri Bérgson) RESUMO A história da fazenda Pilão D’água se entrelaça com a história do município de Itapeva, localizado na região sudoeste do Estado de São Paulo. Em nossa pesquisa pretendemos reconstruir aspectos da história da fazenda formada no século XlX e em plena vigência da escravidão no País. Pretende-se também discutir os conceitos de preservação e de patrimônio histórico, pois mesmo em ruínas, há também vestígios da escravidão em Itapeva com a existência de uma das únicas senzalas existente no território paulista e indícios do trabalho escravo como o muro de pedras construído pelos africanos e seus descendentes. A Pilão D’água se constituiu enquanto fazenda de invernagem e engorda de animais no período de vigência do ciclo do tropeirismo, passando, mais tarde para a criação de porcos, além de áreas para a agricultura como, por exemplo, o algodão no inicio do século XX. Está fazenda passou pelas mãos de muitos proprietários dentre eles o Sr. Adelino Rolim em meados da década de 20, vendida em 1944 para o alemão Hans H. Braren que permaneceu ali até o dia da morte, ficando a propriedade para a sua esposa. A fazenda foi vendida para o então Prefeito Wilmar H. Mattos, com o propósito de restaurala, transformando-a em patrimônio histórico, o que ainda não se concretizou, haja vista que a fazenda se encontra em completo abandono. Palavras chave: escravidão – invernagem – preservação – patrimônio histórico. SUMÁRIO Introdução.....................................................................09 Capítulo l - A fazenda Pilão D’água – Patrimônio que resiste ao tempo e ao descaso....................................14 Capítulo ll –Na fazenda Pilão D’água, o sonho e o trabalho alemão............................................................18 Capítulo lll – No rastro das tropas, no apito do trem...............................................................................27 Considerações Finais....................................................36 Anexos...........................................................................38 Referências Bibliográficas...........................................50 9 INTRODUÇÃO Pesquisa é um procedimento racional e sistemático que tem como objetivo proporcionar respostas aos problemas que são propostos (GIL, p.19). Refazer, se não toda, mas uma parcela significativa da longa trajetória da existência da Fazenda Pilão D’água, foi o problema que inicialmente nos provocou. Sabíamos de antemão que muitos dados da fazenda não estavam sistematizados, criando uma espécie de lenda, onde cada um na cidade contava um pedaço ou a sua versão. Dessa forma, entendemos o problema como o início da pesquisa, entretanto, “... é preciso saber colocar o problema, na vida científica os problemas não se colocam por si mesmo... é precisamente a marca do espírito científico... uma resposta à questão”. (HUNNE, p. 59). Este Trabalho de Conclusão de Curso está inserido na linha de pesquisa história local e regional, cujo objeto de estudo está focado na Fazenda Pilão D’água, localizada no município de Itapeva, Estado de São Paulo. Pretendemos reconstruir aspectos da história da fazenda surgida em meados do século XIX, em plena vigência da escravidão. Nos reportaremos aos anos finais do Segundo Império, procurando alcançar os dias atuais, quando a fazenda permanece resistindo à ação do tempo descaracterização de seu patrimônio histórico, arquitetônico e natural. e à 10 Segundo LAKATOS e MARCONI o tema de uma pesquisa é o assunto que se deseja provar ou desenvolver. (p. 139). Neste sentido, pesquisar a fazenda Pilão D’água é também recorrer ao conceito de patrimônio, mais do que valor histórico, o lugar que reconhecemos como “Patrimônio” da cidade, é aquilo que nos identifica, nos particulariza e nos traz referências. Assim sendo, temos a preocupação de realizar uma pesquisa baseada em documentos, sejam orais ou escritos, visando contribuir para a história do Município, haja vista que a saga da fazenda Pilão D’água se entrelaça com a história de Itapeva, ou Faxina, antigo local de invernagens de animais, região fundamental para o entendimento do que foi ciclo do tropeirismo na então província de São Paulo (MARQUES, PETRONE). Veremos adiante que o progresso não chegou com o café, mas com a Estrada de Ferro Sorocabana. E lá estava a imponente fazenda, bem próxima dos trilhos. Hoje, muitas informações correm as ruas da cidade, algumas um tanto fantasiosas e contraditórias, outras nem tanto. Isto mostra a importância da fazenda para muitas famílias itapevenses que têm a sua história entrecortada pela longa existência da fazenda, que envolve a escravidão em Itapeva, assassinato do então chefe político local por um dos herdeiros das terras e a imigração alemã na década de 40 do século XX. Porque não estão sendo tomadas as devidas preocupações técnicas para sua restauração e conservação, sendo a fazenda considerada pelo poder público municipal um patrimônio histórico? Esta será uma das questões que procuraremos responder. 11 A Fazenda Pilão D’ água está situada em área limítrofe urbano rural, à margem da Rodovia Francisco Alves Negrão (SP – 258), entre Capão Bonito e Itararé, este distante 2 km da divisa com o Estado do Paraná. No lado esquerdo da sede, há um trecho percorrido por uma estrada de terra em boas condições, passando pelo bairro Santa Maria (lado direito), pelo lixão municipal (lado esquerdo), seguindo a diante, é possível alcançar o município de Itaberá e o distrito do Guarizinho, ainda em Itapeva. Nesta estrada encontram – se fazendas de gado, de lavouras e áreas de reflorestamento. Trata – se, na verdade, de mais um dos antigos trechos de passagem das tropas. A Pilão D’água era uma fazenda de invernagem para engorda de bois e muares no tempo dos tropeiros. Hoje, lá ainda existe a senzala, em péssimo estado de conservação, havendo também vestígios do trabalho escravo como o muro de pedras construído pelos cativos da fazenda bem próxima a sede, a antiga Casa Grande ou “casarão”, como é chamada, e que teria sido construído no século XVlll, conservando parte de sua arquitetura antiga colonial de taipa de pilão (ARAÙJO). Partimos da hipótese de que a sobrevivência da fazenda estava no fato de que ela foi sempre um dos carros chefes dos vários ciclos econômicos tanto nacionais, como regionais e locais: a invernagem e criação de animais, o algodão, a criação de suínos, a cana – de - açúcar para a produção da aguardente, perdendo o seu poder produtivo a partir dos anos 80 do século XX, mas mantendo sua beleza arquitetônica preservada. Para uma entrevista bem conduzida faz-se necessário à elaboração de um questionário objetivo e consciente, para fazer o entrevistado falar com 12 segurança. Segundo THOMPSON, uma entrevista não é um diálogo ou conversa. Tudo o que interessa é fazer o informante falar.(p. 271). Adotamos o seguinte critério para as entrevistas: pessoas que tiveram vínculos com a fazenda sejam eles familiares, de propriedade ou mesmo profissionais. A fazenda passou por vários proprietários, dentre eles o Coronel Donato de Camargo Melo a partir de 18941 e Adelino Rolim, na década de 20 do século passado. Um dos últimos proprietários foi o alemão Hans Henrich Rudolf Braren, que deixou para sua segunda esposa Iracema Augusta Braren, ambos já falecidos. Há várias hipóteses sobre a imigração de Braren para Itapeva, mas podemos inferir que a sua chegada em território tão longínquo estava relacionado a formação da Alemanha nazista e a preparação para guerra. Construir uma nova vida, longe das seqüelas da 1ª guerra e do regime totalitário alemão podem ter sido os motivos que trouxe Braren e sua esposa para o Paraná e posteriormente Itapeva, com capital suficiente para comprar aquela que foi uma das maiores e mais importantes fazendas de Itapeva. A fazenda passou por várias desapropriações, sendo uma delas para a construção do campo de aviação de Itapeva, outra para a construção do Centro Comunitário e Recreativo Bento Alves Natel, feita por Jorge Assumpção Shimidt, enquanto foi prefeito desta cidade na década de 1970. Após a morte da senhora Iracema Augusta Braren o então prefeito da cidade Wilmar Hailton de Mattos comprou o restante da fazenda, passando está a pertencer ao poder público. 1 Sílvia C. Marques em sua pesquisa de mestrado sobre o quilombo do Jaó teve acesso ao inventário da Fazenda Pilão feito em 1894 ( Cartório de 1ºOfício de Itapeva) quando a fazenda passa a ser propriedade de Donato de Camargo Melo. 13 No primeiro capítulo da nossa pesquisa buscaremos retratar a fazenda Pilão D’água nos dias atuais, bem como discutir a sua preservação com o intuito de despertar o interesse da sociedade local pela história da fazenda, aqui vista como parte significativa da história de Itapeva. No segundo capítulo procuraremos refazer os aspectos históricos e familiares da fazenda nas décadas de 40, 50, 60 e 70 bem como abordaremos a imigração alemã em Itapeva, tema pouco conhecido, haja vista que a colonização alemã é característica dos Estados do Sul do País. A partir do terceiro capítulo visaremos resgatar a história de uma fazenda com características coloniais com tantos mistérios envoltos da sua origem e com vestígios de escravidão. Finalizaremos o trabalho com as considerações finais. 14 CAPÍTULO l A FAZENDA PILÃO D’ÁGUA – PATRIMÔNIO QUE RESISTE AO TEMPO E AO DESCASO A fazenda Pilão D’água passou a fazer parte do poder público de Itapeva a partir de 2003, o que significou uma conquista importante para a sociedade itapevense, provocando uma grande discussão na cidade em torno do tema patrimônio. Após o falecimento da Srª Iracema em 10 de Janeiro de 2001, a fazenda seu irmão Adolfo Pollack o único herdeiro (em pesquisa na Web, descobrimos que o sobrenome POLLACK comumente indica famílias judia), que vendeu para a Prefeitura Municipal de Itapeva em 2003, sendo esta compra efetuada pelo então prefeito Wilmar Hailton Mattos, no seu segundo mandato. Segundo Mady Gomes Rolim Ribeiro o Município adquiriu 74 alqueires para construir um centro de Educação Ambiental, sendo doados partes destes alqueires para a UNESP ( Curso de Engenharia Industrial Madeireira). ...em 2003 o Município adquiriu 74 alqueires incluindo a sede para construir ali uma escola de Educação Ambiental, uma parte desses 74 alqueires foram doados para a UNESP... De acordo com Araújo, parte dos recursos empregados nesta compra veio do FUNDEF – Fundo Nacional para o Desenvolvimento do Ensino Fundamental, com o pretexto de ser implantado neste local uma escola ambiental.(2006) 15 A fazenda está sendo considerada patrimônio histórico, no entanto ela não foi devidamente tombada, haja vista que no município não está constituído o Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico, órgão este que oficializa o tombamento. A fazenda está sendo utilizada pela Associação de Peões e Boiadeiros Chico Pio, grupo que se apresenta como portador de tradição tropeira de Itapeva. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo pretende utilizar esse espaço para implantar o projeto Caminho das Tropas, circuito que ligava Sorocaba a Viamão do Rio Grande do Sul. No dia 01/10/2006 a Rede Globo de televisão (Globo Rural), refez o caminho das tropas parando com a comitiva na fazenda Pilão D’água. Entretanto a presença de cavalos, o uso para festas e confraternizações vem comprometendo o espaço enquanto patrimônio histórico, enquanto espaço de preservação de uso para fins culturais. A Fazenda vem sendo notícias nos últimos tempos, pois a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Itapeva está engajada em transformar este espaço em ponto turístico instalando próximo ao local um centro de eventos, com parques de exposições, pistas de motocross e arena para rodeios. Segundo os pesquisadores Sílvia Correa Marques e Sílvio Alberto Camargo Araújo a implantação dos projetos pode comprometer em definitivo o patrimônio histórico, caso não sejam tomadas precauções técnicas. Segundo ARAÚJO, o órgão técnico responsável pela preservação do patrimônio histórico no País é o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), enquanto decreto-lei 25, organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico através do tombamento. A destruição, inutilização ou 16 deteriorização de patrimônio cujo valor arqueológico, histórico ou artístico tenha sido oficialmente reconhecido constitui crime e acarreta penas severas aos infratores, incluindo detenção de seis meses a dois anos (Decreto-lei 2.848). Patrimônio histórico necessita ser preservado e conservado na medida que são exemplos documentais de uma época, de um tipo de tecnologia construtiva, de um espaço de memória, quer seja do barão ou do trabalhador assalariado. A Constituição Federal em vigor reconhece o patrimônio cultural como a memória e o modo de vida da sociedade brasileira, utilizando elementos materiais como imateriais. Artigo5º -- Todos são iguais Perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e a propriedade, nos termos seguintes [...] LXXlll. Qualquer cidadão é parte legitima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência. [...] (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988) É patrimônio cultural e ambiental, o conjunto dos elementos históricos, arquitetônicos, ambientais, paleontológicos, arqueológicos, ecológicos e científicos, para os quais se reconhecem valores que identificam e perpetuam a memória e referenciais do modo de vida e identidade social.2 2 Site: http://www.prodam.sp.gov.br/dph/instituc/patri.htm 17 Além da sede o Município adquiriu o Centro Comunitário Alves Natel o principal manancial de água de Itapeva, que está comprometida pelo assoreamento e poluição.3 De acordo com o jornal Folha do Sul do dia 12/02/2005, a preservação desta área deveria ser responsabilidade da Prefeitura e da Sabesp que explora a água para o abastecimento da cidade. O assoreamento da represa, o desmatamento e poluição ameaçam o equilíbrio ambiental e o patrimônio arqueológico. Por cerca de quatro décadas vem havendo esse processo gradual de degradação da micro bacia do Pilão D’água, poderá se tornar um gigantesco lamaçal, completamente poluído e foco de doenças. 3 Site: www.folhadosul.com.br 18 CAPÍTULO ll NA FAZENDA PILÃO D’ÁGUA, O SONHO E O TRABALHO ALEMÃO A partir da década de 40 começou uma nova fase na fazenda Pilão D’água com seus novos proprietários que saíram da Alemanha, passando pela Argentina e depois por algumas cidades do Brasil, chegando finalmente em Itapeva, aguçando as especulações sobre sua vinda para cidade em pleno momento da eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando os alemães eram identificados com o regime nazista de Hitler – o terceiro Reich. Nesse período, a perseguição e o extermínio em massa dos judeus já era uma realidade, bem como a invasão da Polônia, Dinamarca e Noruega. No ano de 1941, cerca de 270.000 alemães judeus haviam conseguido fugir da Alemanha. (CARNEIRO,2000). O Brasil, em pleno regime ditatorial, o Estado Novo de Vargas, entra na guerra ao lado dos aliados: Inglaterra, França e Estados Unidos. Apesar da simpatia de Vargas pelo nazi-fascismo, os Estados Unidos adotam uma política de boa vizinhança e garantiram o alinhamento do Brasil contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão), em contrapartida o Brasil constrói sua primeira siderúrgica, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), no Estado do Rio de Janeiro, com empréstimo norte-americano. (FAUSTO,1995). 19 Nesse contexto histórico complexo e contraditório, como os moradores da pequena cidade de Itapeva percebiam a chegada de alemães na comunidade? Segundo Mônica Braren4, neta do Sr. Hans, ele morava na cidade de Hamburg, Norte da Alemanha, vindo a imigrar para a cidade de Buenos Aires, Argentina, onde se casou com a sua primeira mulher a Srª Hilde Braren e teve a sua primeira filha Helga Braren. Mais tarde veio com sua família para o Brasil, onde nasceu a sua segunda filha Ingborg Braren, morando em algumas cidades, tais como Caxambu, Minas Gerais e Londrina no Norte do Paraná. Sendo que, posteriormente em visita a região de Itapeva, gostou do ambiente de Itapeva e da fazenda resolvendo compra-la, mudando-se com a sua família para o local. Em 1944 o Sr Hans Henrich Rudof Braren tornou-se proprietário da Fazenda Pilão D’água5, comprando da família Rolim. De acordo com a Srª Mady Gomes Rolim Ribeiro a fazenda continha aproximadamente 960 alqueires. Conforme relato escrito do Sr. João Kaufmann, antigo administrador da fazenda, o Sr. Hans era comprador de café de uma companhia americana e proprietário da fazenda Pilão D’água. O Sr. Hans foi até a fazenda Santa Hildegaldis comprar café conhecendo o Sr. João que lá trabalhava, convidando-o para administrar sua fazenda em Itapeva. Ele e sua família vieram para a fazenda ficando hospedados na casa da sede, até construírem 4 Nos entramos em contato com os descendentes do Sr. Braren pela Internet através do ORKUT, onde Conhecemos seu bisneto Stefan Braren que gentilmente nos atendeu fornecendo informações importantes, Entre elas, nos colocou em contato por E-mail com Mônica Braren 5 Jornal O Tempo, 17/12/1944 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques. 20 uma nova moradia com tijolos da olaria existente na fazenda. Kaufmann permaneceu como administrador por mais de 20 anos. O Sr. Hans utilizava a fazenda como ponto de apoio durante o período do café, deixando o gerenciamento da mesma com o Sr. João, que cuidava da criação de animais e das plantações de arroz, milho e feijão. Nesse período, foram fornecedores de leite para a cidade e também queijos minas. O Sr. João relatou que: ... “diariamente pessoas da cidade chegavam à mangueira para tomar leite da hora que eram vendidos, o queijo também era vendido pelo empregado Sr. José Maciano na estação de ferro”. De acordo com o Sr. João nas divisas da fazenda passava a linha de trem denominada Estrada de Ferro Sorocabana, onde a locomotiva movida à lenha provocava muitos incêndios queimava cercas, pastagens, prejudicando a criação de animais trazendo prejuízos para o Sr. Hans. Ainda de acordo com o Sr. João Kaufmann, após a morte do Sr. Hans Braren a propriedade ficou com a Srª Iracema Augusta Braren sua segunda esposa, iniciando uma nova era na fazenda. As plantações e a criação de animais foram interrompidas, ficando apenas com arrendamento de terras. Sendo assim o Sr. João não teria mais função na administração da fazenda, indo morar na cidade. O Sr. João Kaufmann, também um alemão que imigrou para o Brasil com a esperança de dias melhores em terras desconhecidas, é parte importante da história da fazenda. Nosso contato com ele foi intermediado por Maria Alice Queiroz, também moradora de Itapeva e amiga antiga de Kaufmann. Ela o procurou na Sociedade Beneficente Alemã no Butantã, São 21 Paulo, e gentilmente nos deixou um relato escrito sobre sua vida e seu trabalho na fazenda Pilão D’água. (Vide relato em anexo). O Sr. João Kaufmann relembra que saiu da Itália fascista em 1936 para América do Sul em viagem de navio, sendo obrigado a deixar o curso de medicina por concluir, devido ao avanço na Europa das tropas de Hitler, pelo motivo de ter descendência judia. Aportou em Bueno Aires esperando visto para o Brasil, chegando no Porto de Santos, encontrando um senhor que tinha fazenda Santa Isabela em Rolândia no Paraná, começando a trabalhar como operário. Após um tempo o Sr. João encontrou a sua futura esposa Nelly que também veio da Alemanha como enfermeira de sua família. A família dela não aceitava o relacionamento deles, pois ela não tinha como religião o judaísmo. O Brasil nesse período, como foi dito, encontrava-se em regime autoritário, conhecido como Estado Novo, onde Getulio Vargas apresentava simpatia pelos regimes nazi-fascista, que durou de 1937 a 1945. A vida dos alemães no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) não foi fácil. Eles eram perseguidos pelas autoridades e ninguém lhes dava emprego. Mônica Braren nos relata um episodio vivido por sua família: ...Durante a 2ª guerra, ele não podia trabalhar por ser alemão (todos os alemães foram perseguidos, tornaram pessoas não grata) e sua esposa Hilde sustentou a casa dando aulas de piano, inglês e francês. O Sr. Hans foi o penúltimo proprietário da fazenda. Após o seu falecimento, houve a divisão de bens ficando a propriedade para sua esposa Iracema Augusta Braren. 22 O Sr. Gimenez rememora com muitas saudades os momentos vividos com o casal, de acordo com suas lembranças conheceu e torno-se amigo da família Braren no ano de 1972, quando o Hans já era casado com a Iracema, os quais lhe narraram a sua história de amor. Ele era viúvo e quando a conheceu em São Paulo, ela era vendedora de uma loja de roupas. Foi amor à primeira vista, convidando-a para vir morar com ele na fazenda. Em seu livro o Sr. Gimenez lembra com afeto e admiração essa amizade: ...” Conheci em um passado bem distante um homem singularmente estranho. Seu nome Hans Braren, um alemão de 2 metros de altura e sua esposa Srª Iracema Augusta Braren. A nossa amizade nasceu quando cheguei há mais de trinta anos na cidade que atualmente vivo. Ele um rico fazendeiro e eu um simples bancário lutando pela subsistência. Ele um homem refugiado da guerra com seus 75 anos e eu um jovem de 28 anos. Seu maior prazer era jogar xadrez...”6 Ainda segundo relatos do Sr. Gimenez e de Mônica Braren, sempre existiram algumas lendas a respeito da fazenda. Como, por exemplo, sobre um suposto tesouro enterrado no local. Após o falecimento do Sr. Hans, o Sr. Leonardo Butzer pediu autorização à dona Iracema para, com o auxilio de um detector de metais, cavar um buraco na garagem. Mas a única coisa que encontrou foi uma lata velha. Em entrevista com o Sr. Silvano de Melo Almeida, morador das proximidades da fazenda, ele nos relatou que a sua mãe Aparecida de Melo 6 Livro Sementes de amor - Na Oitava casa da vida, autor Benedito Gimenez 23 Almeida trabalhou por 50 anos na fazenda Pilão D’água. Trinta anos trabalhando na sede, como cozinheira e vinte anos como artesã dos famosos queijos. Seu pai trabalhava na lavoura plantando cana, abacaxi, cuidando do gado e fazendo aceiro. Sua mãe contava aos filhos que o Sr. Hans, que eles conhecem como Sr. João havia chegado à cidade de Itapeva com a sua esposa dona Hilde e compra a fazenda Pilão D’água. De acordo com suas recordações: ...por eles serem estrangeiros a fazenda não era no nome do Sr. Braren estava no nome de alguns portugueses que não me recordo o nome, vindo a passar a fazenda no nome do Sr. Braren depois de alguns anos. Alguns moradores da cidade iam até a fazenda jogar pedras por eles serem alemães. Tempos depois o Sr Hans ficou viúvo casando-se com a dona Iracema que era descendente de alemães, e tinha como religião o judaísmo. Segundo o Sr. Silvano e as suas irmãs que participaram da entrevista, o Sr. Hans Henrich Rudof Braren foi primeiramente para o Paraná, arrumando emprego na analise da qualidade do café. Tempos depois comprou a fazenda Pilão D’água. Dona Hilde ficava no casarão enquanto ele ia até Londrina verificar o café. Nesse período o Sr. João Kaufmann foi contratado para ser capataz da fazenda. Na fazenda tinha um ferro de trilho que Kaufmann soava como um sino para avisar os empregados o horário de trabalhar, almoçar e encerrar o trabalho. De acordo com eles a casa onde Gisele de Melo Almeida mora teria sido uma das casas dos colonos e durante a Revolução de 32 teria 24 funcionado como um hospital. Ainda de acordo com as informações colhidas com Gisele: ...na fazenda existia uma capela que foi reformada pela família Braren onde a Dona Iracema Augusta Braren colocou no altar a Santa Isabel. A missa de inauguração foi celebrada pelo Dom Silvio. Tempos depois a Santa teria sido roubada. No seu relato Kaufmann também destacou a existência de um quilombo nas terras da fazenda perto do campo de aviação denominado Estação Jaó, onde a locomotiva abastecia de água. Onde hoje estão o bairro Santa Maria e o lixão, também eram terras que pertenciam a fazenda Pilão D’água. No dia 17 de Novembro de 1954 o Sr. Hans Heirinch Rodolf Braren e a Srª Hilde Wrang de Braren cederam uma área de terras à Prefeitura Municipal de Itapeva para a instalação dos serviços de abastecimento de água da cidade efetuando uma ligação de motor elétrico para acionar uma bomba instalada no canal.7 Também houve uma desapropriação das terras, por parte do Município pelo prefeito da época Sr. Cícero Marques, para a construção do campo de aviação.8 No início da década de 1970 ocorreu uma terceira desapropriação: 20 alqueires de terra, realizada pelo então prefeito Jorge Assumpção Schimidt que iniciou a construção de um reservatório de água para a população urbana, que na época das secas sofria com a escassez. O lugar recebeu o nome de Centro 7 8 Documentação Poder Executivo disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques. Jornal O Tempo, disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques. 25 Comunitário Recreativo Bento Alves Natel, inaugurado no dia 20 de Setembro de 1972.9 No local foi construída a represa que até hoje abastece a cidade, aproveitando as condições naturais de água e vegetação, além de manter precariamente a estrutura de pedras construídas pelos escravos. As características aprazíveis do espelho d’água da represa, bosques com espécies nativas e exóticas, o muro de pedras construído por mãos escravas no século XlX e também as duas piscinas de águas naturais, o restaurante e a ilha artificial, tornaram o local um importante ponto turístico do Município. Este lugar na época tornou-se uma das maiores áreas de esporte, lazer e cultura da região, gerando recursos financeiros e empregos para a cidade, até meados de 90.10 No Decreto Nº 10.755, de 22 de novembro de 1977, que dispõe sobre o enquadramento dos corpos de água receptores na classificação prevista no Decreto nº 8.468, de 8 de setembro de 1976 e da providência correlatas é citado o Ribeirão do Pilão D’água: PAULO EGYDIO MARTINS, GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO no uso da suas atribuições legais e com fundamento na Lei nº 997 de 31 de maio de 1976 e no artigo 7 º do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 8.468, de 8 de setembro de 1976. 4.9. Da Bacia do Alto Paranapanema: Ribeirão Pilão D'água a jusante 9 Casa de Cultura Cícero Marques. 10 Jornal Cílios da Terra 26 da captação de água de abastecimento para Itapeva até a confluência com o Rio Taquari, no município de Itapeva;11 Na gestão de Guilherme Brugnaro o recanto Bento Alves Natel foi abandonado. Nos primeiros meses da gestão do prefeito Wilmar Hailton de Mattos, em 1997, este referido local foi interditado, ficando completamente desamparado, a partir daí começou a depredação, assoreamento e também mortes por afogamento. Na atual gestão de Luiz Antonio Hussne Cavani (PT), por decisão judicial manter-se-á policiamento nestas terras a fim de evitar acidentes. . 11 Site: www.mp.sp.gov.br 27 CAPÍTULO lIl NO RASTRO DAS TROPAS, NO APITO DO TREM Os memorialistas locais, entre eles Genésio de Moura Muzel, deixaram importantes relatos sobre a origem e povoamento de Itapeva, sendo muitos deles, publicados em forma de artigo na Folha do Sul, jornal tradicional de Itapeva. O povoado de Itapeva, no século XVlll, se desenvolve como passagem obrigatória para os tropeiros que se deslocam do Sul para a feira de animais que se iniciava em Sorocaba. Nesse contexto, Silvia Marques afirma que mesmo antes da intensificação do ciclo de muar – animal de transporte vendido para as áreas cafeeiras – toda a região de Itapeva, Buri e Itararé, já estava partilhado pelo Sesmeiros. Portanto, Itapeva deve ser compreendida no contexto da expansão do capitalismo, da busca do lucro que viria das invernagens de animais. Dessa forma, por esta região ricos negociantes de animais adquiriram terras, que eram administradas por fazendeiros como nos campos do Paraná. (PETRONE, 1976). Os caminhos de Sorocaba a Itapeva, Curitiba e o Sul do país se fizeram, em grande parte pelo transporte de boi e pelas tropas de cavalos e burros trazidas do sul do país. Itapeva estaria inserida no “ciclo do tropeirismo”, sendo uma das “estações de invernagens”, para muares, eqüinos e bovinos antes de serem vendidos em Sorocaba. (PETRONE, 1976). 28 Com a fundação da cidade de Itapeva houve grandes interesses por terras neste local, surgindo então em meados do século XlX a denominada chácara Pilão D’Água.12 Neste período a fazenda era voltada para criação e invernagem de animais. Na chácara havia a Casa Grande de arquitetura colonial construída em taipa de pilão e posteriormente foi ampliada com alvenaria, conservando até os dias de hoje sua arquitetura ainda que parcialmente deteriorada. Em volta da casa ainda é possível observar alguns muros de pedras, que segundo informações coletadas foram feitos pelos escravos para a contenção dos animais. Há ainda a Senzala que foi parcialmente alterada, sendo uma das poucas ainda existentes no sudoeste Paulista e talvez a única que está relacionada ao ciclo do tropeirismo e não da cana-de-açúcar ou café. No final do século XlX esta propriedade pertenceu a Srª Fortunata Maria de Camargo. Após a sua morte no dia 15 de junho de 1894, a decisão da divisão dos bens deixados necessitou da intervenção judicial, pois não houve partilha amigável entre os herdeiros. Os herdeiros da dona Fortunata eram: 13 1º Tenente Coronel Honorato Carneiro de Melo; 2º Tenente Coronel Martinho Carneiro de Melo; 3º Coronel Donato de Camargo Melo, casado com Maria de Carneiro Camargo filha de Fortunata; 4º Major José Teixeira Pinto, casado com Isabel Ramos Silva de Camargo filha de Fortunata. 12 Sílvia C. Marques em sua pesquisa de mestrado sobre o quilombo do Jaó teve acesso ao inventário da Fazenda Pilão feito em 1894 ( Cartório de 1ºOfício de Itapeva) quando a fazenda passa a ser propriedade de Donato de Camargo Melo. 13 Idem ao10 29 Conforme informações analisadas no inventário de Fortunata Maria de Camargo no dia 06 de Agosto de 1894 os herdeiros acima descritos fizeram a transferência e cessão de direito e herança para o Coronel Donato de Camargo Melo pela quantia de trinta e cinco contos de reis (35:000/000) para cada um, passando este a ser o proprietário da chácara Pilão D’água e das terras adjacentes. Após a venda da parte que cabia aos herdeiros para o Coronel Donato de Camargo Melo foi feito pelo poder judicial à avaliação dos bens que continham na denominada chácara Pilão D’água: Avaliação dos bens da Chácara Pilão D’água 10/08/1894 Material avaliado 1 faqueiro completo de prata Avaliado Um conto de reis Reis 1:000/000 Castiçais de prata em bom uso Seiscentos mil reis 600/000 Uma mobília para sala, lustres. Dois contos de reis 2:000/000 Um piano estragado Quinhentos mil reis 500/000 1 besta velha Cento e cinqüenta mil reis 150/000 203 vacas de criar Doze contos cento e oitenta 12:180/000 mil reis Uma chácara, contendo casa Vinte contos de reis 20:000/000 de morada, casa e terra de agua. Uma invernada denominada Dezessete contos de reis Leme, juntamente a chácara Pilão D’água. 17:000/000 30 Uma dita denominada Rincão Cinco contos de reis 5:000/000 do Prudente, juntamente com a chácara avaliada. Acrescentar as invernadas constantes da avaliação, transformando o todo da Chácara Pilão D’água.14 Segundo Marques, da fazenda teria saído o casal fundador do Quilombo existente na cidade de Itapeva conhecido como Jaó. A fazenda é palco de muitos mistérios e lendas, de acordo com os moradores próximos, corre a lenda que na fazenda existe ouro os quais foram enterrados por Fortunata Maria de Camargo. Ela pedia ajuda para os escravos para cavar os buracos, enterrava os ouros e depois matava o escravo que tinha ajudado, segundo eles ainda até pouco tempo atrás vinham pessoas com detector de metais para procurar os tais ouros, como relatam os atuais vizinhos da fazenda. Em entrevista a Sª Mady Gomes Rolim Ribeiro nos relatou que houve uma desapropriação por parte do Município pelo prefeito da época, o Coronel Acácio Piedade, para o tiro de guerra realizar treinamentos de tiros. Essas terras ficam em frente onde hoje é o clube da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), e na época pertenciam ao herdeiro de Donato de Camargo Melo, Luis de Camargo. Desse enfrentamento, Camargo ficou extremamente descontente com a desapropriação o que teria motivou o assassinato do Coronel. Este fato marcou a história política da cidade, pois Acácio Piedade era o chefe político local, deputado estadual por três vezes e forte candidato a vice- 14 Nota-se a identificação de um número significativo de animais, além das invernadas. 31 governador do Estado. Este foi o tempo da Republica Velha em Itapeva que ainda necessita de estudos. O Sr. Luiz de Camargo era declaradamente inimigo do Coronel Acácio Piedade, o seu ódio cresceu quando o Coronel comprou um terreno para a linha de tiros, mas Luiz teimava em dizer que lhe pertencia o que ocasionou no assassinato do Coronel na estação.15 A Fazenda contou com vários proprietários conforme o jornal o Tempo o Sr. Elisiario Ramos de Camargo vendeu a fazenda para os Srs. Phebo Ferreira Rogé, Albino Ferreira Rogé e Antonio Rogé Junior pela quantia de 150:000/000, residentes em São Paulo, que pretendiam desenvolver a cultura de trigo e algodão.16 O proprietário seguinte foi o Sr. Adelino Rolim, dono da Cia Empresa Luz e Força Meridional Paulista, vindo com sua família de Itapetininga. Rolim comprou a fazenda na década de 20, permanecendo no local até a sua morte em 1938. Após esse episódio a propriedade ficou em poder dos seus familiares por mais um tempo, sendo vendido em 1944 para o Sr. Hans Braren. Conforme relatos de Mady Gomes Rolim Ribeiro neta do Sr. Adelino Rolim: “... na fazenda pelo que meus parentes contava havia várias culturas de frutas principalmente abacaxis, melancia, plantavam canade-açúcar porque havia um alambique em funcionamento e eles comercializavam água ardente até quem tomava conta desse alambique era o meu pai e meu tio Oscar, mas acho que a cultura principal era do algodão, eles criavam animais também pra corte, pra produção de leite 15 16 Jornal O Tempo, 04/11/1917 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques. Jornal O Tempo, 07/07/1918 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques. 32 e segundo me contaram havia uma grande produção de queijo na fazenda também pra ser comercializado.” Sobre a produção de algodão na fazenda no jornal O Tempo de 1927, encontramos a seguinte informação: “... Foram transmitidas ao Sr. Secretário da Fazenda, a fim de ser encaminhadas ao Tribunal de contas, as cópias dos contratos celebrados entre a diretoria da Agricultura e os Srs. Albano de Souza e Adelino Rolim para a instalação de culturas de algodão e fornecimento de sementes...”17 Um longo muro de pedras feito pelos escravos separam os porcos afastando-os da sede e mantendo-os confinados até que chegasse o dia em que seriam embarcados de trem rumo a capital para virar banha.18 Quando o Sr. Adelino Rolim comprou a fazenda, ele tentou mudar o nome para “Santa Elisa” em homenagem a sua esposa. Entretanto não foi possível, pois o nome Pilão D’água já era uma marca na cidade de Itapeva que na época era denominada Faxina. “Precisa-se de colhedores de algodão, na fazenda Santa Elisa, de Adelino Rolim, antiga Pilão D’água...”19. A origem do nome Pilão D’água ainda é uma incógnita, mas acredita-se que próximo à Casa Grande em um barranco de 5m de altura, existia um 17 Jornal O Tempo, 30/10/1927 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques Material audio-visual cedido pela família Rolim 19 Jornal O Tempo 15/04/1928 disponível no acervo da Casa de Cultura Cícero Marques 18 33 monjolo para beneficiamento de produtos agrícolas, esta estrutura pode ter determinado o nome da fazenda.20 A lembrança é a sobrevivência do passado. (RODRIGUES, 2006) Sendo assim a Srª Mady revive em suas lembranças fatos que marcaram a vida da sua família: Neste período na fazenda viviam o vovô.Adelino, a vovó Eliza e nove filhos as mulheres todas se formaram professoras no Instituto Peixoto Gomides em Itapetininga, porque aqui em Itapeva não existia escola normal, os homens trabalhavam na fazenda, cada um com sua obrigação, até um dos meus tios morreu na fazenda, pois houve um acidente, estavam descarregando um caminhão e uma tora caiu em cima dele, esse meu tio morreu solteiro em virtude desse acidente na fazenda Pilão D’água, o meu pai cuidava do alambique que eles tinham, ele e o tio Oscar se revezavam, o tio Oscar também era um veterinário prático ele tinha uma casa de produtos e tratamento de animais, ia até a fazenda e atendia, meu tio Otávio ele tinha terras, mas ele cuidava de minas na região de Apiaí e só o meu tio Tonico que era o mais velho que continuou trabalhando com fazendas ele tinha leiteria, ele ficou com uma parte da fazenda no Jaó e ali na escolinha perto da estação Vila Isabel. Como a professora, Mady se reporta a antiga escolinha: Antigamente não existia a Rodovia que passa atrás da escola do Zulmira e onde hoje é o Clube de Campo também fazia parte da propriedade Pilão D’água, neste local o Sr. Adelino Rolim teria 20 ARAÚJO, Sílvio Alberto Camargo. Dissertação de Mestrado 34 construído uma escola para suas filhas Auta e Chiquinha lecionarem, a qual eles chamavam carinhosamente de escolinha. Mady Rolim, também afirma poder existir alguns Rolim que possuem propriedades nesta área como, por exemplo, o matadouro, onde que está localizada a denominada “favela Pilão D’água”. Acredita-se então que uma parte da fazenda ficou reservada para os filhos e o restante foi vendido. Durante a Revolução de 32 o Sr. Adelino Rolim e família tiveram que ceder a casa-sede para os revolucionários gaúchos, deslocando-se para o sítio chamado Timbuva, já que a fazenda tinha vários sítios com denominações diferentes e com acomodações para visitantes. (RIBEIRO, 2006) O Sr. Antonio Rolim Leme e a Srª Walda Rolim Martins Correa desde menino vinham passar as férias com os avós na fazenda. No ano de 2003 ambos retornaram para a fazenda Pilão D’água, rememorando os momentos vividos ali com muita emoção. Tudo foi registrado em material áudio-visual pela família. Neste material, transbordam memórias, emoções, lagrimas e alegria. Tal como aponta Ecléa Bosi, lembrar não é rever, mas refazer, reconstruir, repensar com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. Alguns momentos foi o do menino, Antonio que na época vinha passar as férias escolares na fazenda. Ele descia do trem na estação da Vila Isabel com as malas nas costa e vinha caminhando pela ferrovia até chegar na casa dos avós. Eles reviram a Casa Grande que apesar de modificada pelos outros donos ainda mantinha as características do tempo em que eram crianças. Do lado da igrejinha havia um puxadinho onde se guardavam melancias. A dona Elisa fazia tachos de doces de leite, goiabada, marmelada para distribuir para os parentes e amigos. Naquela época já existia um telefone a manivela para a comunicação dos Rolim’s. 35 Após a venda da fazenda para os alemães a família Rolim não perdeu o elo com a fazenda, geralmente aos domingos a Srª Mady, o pai, a mãe e os irmãos iam visitar a dona Hilde e aproveitavam para brincar na cachoeira, catar coquinhos nos campos e relembrar história do passado. 36 CONSIDERAÇÕES FINAIS Através dos levantamentos que fizemos, da escolha dos depoentes, da identificação e análise da documentação escrita, reencontramos a história da fazenda Pilão D´água sob a ótica do pesquisador. O levantamento das informações e sua análise foram as etapas da metodologia adotada. Esta pesquisa percorreu o caminho das lembranças familiares, das memórias afetivas dos depoentes que tiveram ligações diretas com a fazenda. Entre eles estava João Kaufmann, falecido há uma semana do encerramento desta pesquisa. Ao saber do nosso trabalho em São Paulo, Kaufmann, de imediato, aceitou colocar no papel as lembranças de uma história que se iniciou na Europa da Segunda Guerra Mundial, atravessou o oceano em busca de trabalho e lugar seguro para se viver. Nesta trajetória, surge a imponente fazenda Pilão D´água, berço de dois alemães, um deles de origem judia. Não apenas as lembranças, mas também documentos analisados por nós possibilitaram contribuir para a histórica de Itapeva, pois a fazenda representa a história, a identidade deste lugar, deste Município. Precisamos tomar consciência como cidadãos itapevense das nossas obrigações e direitos preservando e conservando, esse bem tão valioso do nosso Município, que foi por muito delapidado, fazendo com que a fazenda 37 Pilão D’água torna-se sinônimo da história de Itapeva e parte da história do Estado de São Paulo, ao lado das imponentes fazenda de café. 38 Depoimento do Sr. João Kaufmann – 22/10/2006 Maria Alice Queiroz em visita ao senhor João Kaufmann na Sociedade Beneficente Alemã no Butantã- São Paulo, escreveu sobre sua vinda para o Brasil, bem como sua vida na fazenda Pilão D’água: Ele saiu da Firenze, Itália em 1936, com a morte do seu pai, em 1936 para América do Sul, com visto para o Paraguai. Na viagem de navio conheceu um senhor que indicou o Brasil onde seria mais fácil achar emprego. Assim Sr. João aportou em Buenos Aires na espera do visto para o Brasil. Quando chegou no Porto de Santos, o funcionário do porto não aceitou o visto, mas outro funcionário o enviou a uma família conhecida moradora do bairro Sumaré, em São Paulo, a Srª. Truth. Encontrou o Sr. que tinha fazenda em Rolândia, Paraná, a Santa Isabela, onde começou a trabalhar como operário. Embora já estivesse quase formado em medicina, foi obrigado a fugir da Alemanha devido ao avanço na Europa das tropas de Hitler, pelo motivo de ter descendência judia. Após um tempo Sr. João encontrou sua esposa numa reunião entre fazendeiros. Srª. Nelley sua futura esposa, também veio da Alemanha como enfermeira da família da prima dela. Apenas para ficar um ano. Foi nesse ano que o casal se encontrou, embora a família da Srª. Nelley não aceitava por não terem a mesma descendência (ela não tinha como religião o judaísmo). 39 Finalmente acabaram se casando gerando três filhos, Bárbara, Bernardo e Silvia. Após o casamento Sr. João arrendou uma gleba de terra no Paraná (seu irmão enviou $) onde nasceram os dois filhos, ficando nessas terras por dois anos. Após isso, foram viver na fazenda Sta. Hildegaldis, de um senhor de Nova York, onde nasceu a terceira filha. Durante esse período Sr. João conheceu Sr. Braren (comprador de café de uma companhia americana, viajante). Nesse período o Sr. Braren convidou Sr. João a tomar conta da Fazenda Pilão D´água, ficando por mais de 20 anos Ele cuidava da criação de gado, embora tivesse plantação de arroz, milho e feijão. Sr. João tinha total autonomia para gerenciar a fazenda, pois Sr. Braren utilizava a fazenda como ponto de apoio,ou seja, durante o período do comercio de café. Na chegada à fazenda, ficaram hospedados na casa da sede e construíram a nova moradia com tijolos (da olaria existente na fazenda). Durante esse período foram fornecedores de leite para a cidade e também queijos (tipo minas), diariamente pessoas da cidade chegavam à mangueira para tomar leite da hora que eram vendidos.O queijo também era vendido pelo Sr. José Maciano (empregado) na estação da estrada de ferro. Os filhos estudaram na E.E.”Otavio Ferrari”, em Itapeva o meio de transporte utilizado era a “bicicleta”. E nos fins de semana recebiam amigos para desfrutar da cachoeira ali existente (não mais hoje) e andarem a cavalo. 40 O Campo de Aviação (foi doação do Sr. Braren) na fazenda existia um quilombo perto do Campo de Aviação (Estação Jaó) onde a locomotiva abastecia de água. Existe ainda o muro feito de pedra da época dos escravos. A Santa Maria (bairro) e o lixão (terras que pertenceram a Fazenda Pilão D’água). A estrada de ferro Sorocabana margeava a divisa da Fazenda Pilão D’água, provocando muito incêndio (locomotiva movida à lenha) queimava cercas, pastagens, prejudicando a criação de animais. Após o segundo casamento do Sr. Braren com Dona Iracema, as coisas começaram a mudar na Fazenda e mais ainda com a morte do Sr. Braren. Dona Iracema iniciou uma nova era na fazenda, acabaram as plantações e a criação de animais. Ficou estipulado que ela arrendaria a área, assim o Sr. João não teria mais utilização na administração da fazenda. Sendo assim, ele com suas economias, resolveu morar na cidade, onde ficou por 20 anos e após a morte de sua esposa, resolveu vender a casa e ir morar em São Paulo. Hoje com 95 anos faz o relato de sua vida na Sociedade Beneficente Alemã, no Butantã, cidade de São Paulo. 41 Genealogia da família Camargo Mãe: Fortunata Maria de Camargo Pai: Luiz Carneiro Isabel Ramos Silva de Camargo Filhos Marido : José Teixeira Pinto Honorato Carneiro de Camargo Esposa: Fortunata Carneiro Martinho Carneiro de Camargo Esposa: Elisa de Camargo Mello Maria de Carneiro Camargo Marido: Donato de Camargo Mello 42 Iconografia da fazenda Pilão D’água Fazenda Pilão D’água na década de 20 – foto cedida pela família Rolim. A fazenda Pilão D’água nos dias de hoje 43 Sr. Adelino Rolim, Sua esposa Dona Elisa S. Rolim e sua neta foto cedida pela família Rolim Sr Adelino passeando pela sua fazenda - foto cedida pela família Rolim Sr Adelino percorrendo sua lavoura de algodão – foto cedida pela família Rolim 44 Srª Elisa Simões Rolim – foto cedida pela família Rolim. Srª Elisa Simões Rolim e Sr. Adelino - foto cedida pela família Rolim. Estrada de Ferro Sorocabana, onde passava o trem que era utilizado para levar os porcos até a capital para virar banha - foto cedida pela família Rolim. Fotos da cachoeira na década de 20 e nos dias atuais - foto cedida pela família Rolim 45 Srª Elisa e seu neto Antonio Rolim – foto cedida pela família Rolim. Walda Rolim neta do Sr Adelino e Srª Elisa - foto cedida pela família Rolim Antonio Rolim e Walda Rolim em visita a fazenda Pilão D’água no ano de 2003 - foto cedida pela família Rolim 46 A senzala ainda existente na fazenda Muro e calçamento de pedras construídos Foto tirada no dia 13/10/2006 pelos escravos – foto tirada no dia 13/10/06 Atual entrada da fazenda Pilão D’água – foto tirada no dia 13/10/2006 47 igrejinha da fazenda e o altar com as imagens dos – foto tirada no dia 13/10/2006 Jaquelina e Cristina na fazenda Pilão D’água – foto tirada no dia 13/10/2006 48 Cristina e Marcely na fazenda Pilão D’água – foto tirada no dia 13/10/2006 Telhado da senzala e parededentro da casa sede – foto tirada no dia 13/10/2006 49 Sr. João Kaufmann, administrador da fazenda Pilão D’água no período em que seu Hans Braren era dono, e atrás tem o retrato dos seus pais – foto tirada por Maria Alice Queiroz amiga da família em São Paulo, na casa de campo da sua filha. Srª Iracema Augusta Braren e sua família – foto cedida por Gisele de Melo Almeida no dia 06/11/2006 50 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, Sílvio Alberto Camargo. Arqueologia de Itapeva: contribuição à formação de políticas para a gestão patrimonial. MAE/USP, 2006. Dissertação de Mestrado. BÓSI, Ecléa, Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo, 1979 BRASIL. Constituição: República Federativa do Brasil. Brasília: Senado federal, Centro Gráfico, 1988. CARNEIRO,Maria Luiza Tucci. Holocausto, crime contra a humanidade. São Paulo: ATICA, 2000. (col: História em momentos). Constituição Federal, 1988 Decreto Nº 10.755, de 22 de novembro de 1977. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp; 1995.2006 GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa, São Paulo, Atlas, 1.991. GIMENEZ, Benedito. Sementes de amor- Itapeva, FS Editora, 2005 HUHNE, Leda Miranda. As Formas de Conhecimento. Informativo do grupo de Estudos Ambientais, Cílios da Terra. Itapeva - SP, 2.003. 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