INSTITUTO BRASILEIRO DE AVALIAÇÕES E PERÍCIAS DE ENGENHARIA
XXII CONGRESSO PANAMERICANO DE VALUACIÓN
XIII COBREAP - CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA DE
AVALIAÇÕES E PERÍCIAS – FORTALEZA/CE – ABRIL 2006
FALTA DE ADERÊNCIA DE REVESTIMENTOS TRADICIONAIS EM
ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO: RAZÕES PARA A SUA OCORRÊNCIA
Guimarães, Cristiano Oliveira (1); Gomes, Abdias Magalhães (2)
(1) Mestrando em Construção Civil, Engenheiro Civil e Especialista em Concreto pela
Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais, CREA-MG 74973/D,
Rua Rui Barbosa, 200. Chácara. CEP 32.650-520 - Betim – MG,
[email protected] Tel: 31 35321284
(2) Professor Doutor, Departamento de Engenharia de Materiais e Construção Civil da
Universidade Federal de Minas Gerais, CREA-MG 28841/D, Nº REGISTRO IBAPE Rua
Espírito Santo, 35. Centro.
CEP 30160-030– Belo Horizonte – MG,
[email protected] - Tel: 31 32381850 – Fax: 31 3238 1857
Resumo: Este trabalho anuncia e identifica uma razão pela qual alguns revestimentos
tradicionais de tetos e paredes constituídos de argamassa de aglomerantes (cimento e cal) e
areia, têm comumente desplacado de seu substrato, O anúncio e a indicação foi possível a
partir da realização de um trabalho pericial em um edifício de andares múltiplos que
precocemente apresentou a no seu interior a patologia referenciada como desplacamento que
comumente coloca em risco a vida de operários, usuários e sobretudo moradores.
Palavras-chave: argamassa, patologia, revestimento
1. Introdução:
Por vezes os peritos que atuam no ramo da construção civil têm pela frente a necessidade de
responder a seguinte pergunta: porque o revestimento tradicional (emboço ou reboco)
desplacou da estrutura de concreto armado?
Esta pergunta só será respondida cão o perito possua informações detalhadas sobre o tipo de
material utilizado na produção das argamassas;do concreto da estrutura; das condições em que
foram realizados os trabalhos de aplicação (mão de obra; técnica operatória; cura; condições
termo-higrométricas do meio; etc).
Entretanto, por vezes a resposta é simples e rápida, basta que sejam, avaliadas algumas
condicionantes e disponibilizadas algumas ferramentas, por exemplo, o histórico do trabalho
realizado.
2. Objetivo do trabalho:
O objetivo do trabalho é apresentar à comunidade científica extrato de uma perícia realizada
que informa a existência de um corriqueiro agente causal em resposta à patologia de
desplacamento de argamassas tradicionais (chapisco, emboço e reboco) das faces das
estruturas de concreto armado.
Vale a pena ressaltar que existem uma série de outros motivos e mecanismos que contribuem
e são responsáveis, por vezes unívocos, para a patologia tipificada como desplacamento de
revestimento tradicionais de alvenarias, pisos e tetos, que não serão cobertos por este trabalho.
3. Síntese do Laudo pericial
3.1 - Introdução
O presente trabalho objetiva, a pedido da EMPRESA, avaliar as razões pelas quais um reboco
de teto não está tendo a necessária aderência a uma laje de concreto armado, bem como no
vigamento contíguo, especificamente em prédio de apartamentos localizado na Rua Alfa, 850,
bairro Beta na cidade de Belo Horizonte, suportada por inspeção por ensaios e análise de
amostras extraídas do local, especificamente a saber:
¾
¾
¾
¾
capa de concreto extraído do fundo da laje;
reboco aplicado à laje;
reboco aplicado em viga de concreto armado também não aderido;
fôrma de madeira com resquícios de concreto utilizado no enchimento da laje.
As amostras foram submetidas a inspeção visual e a sua microestrutura foi avaliada através da
inspeção por MEV (microscopia eletrônica de varredura), em aumentos de 500x e 3000x, e
sendo também obtida a composição química aproximada das mesmas através de micro-sonda
especial .
Foram realizados ensaios de arrancamento do novo reboco aplicado sobre a laje de concreto
armado, após a queda do antigo revestimento, a partir de metodologia executiva proposta para
a sua recuperação, que incluiu a aplicação de uma cola adesiva (primer aderente). Os testes de
arrancamento foram realizados em consonância com a normalização técnica da ABNT
(NBR-13528-Método de ensaio e NBR-13749-Especificações de revestimentos).
3.2 - Resultados
Testes de arrancamento
Identificação das amostras:
¾ Amostra 1: reboco aplicado, sobre a laje de teto de apartamento do 2º piso, mediante
preparo com adesivo, decorridos 15 dias de sua aplicação;
¾ Amostra 2: reboco aplicado, sobre a laje de teto de apartamento do 2º piso, mediante
preparo com adesivo, decorridos 3 dias de sua aplicação;
¾ Amostra 3: mesma localização da amostra 2.
Tabela 1 – Teste de Arrancamento
Amostra Tensão de arrancamento (MPa)
1
0,37
2
0,28
3
0,37
Localização do arrancamento
No interior do reboco
Na interface do reboco e laje de concreto
No interior do reboco
Análise da microestrutura e composição química
No quadro abaixo pode-se observar um resumo da análise química, via úmida, realizada, pela
qual foi possível atentar para as seguintes situações:
¾ a grande quantidade de Ca e Si presentes na forma de madeira;
¾ a diferença de concentração de Ca e Si na parte interna para a externa no reboco;
¾ a diferença de concentração de Ca e Si entre a viga e a laje.
Elemento
Viga – não carbonatada
Laje – face externa
Reboco do teto – lado interno
Reboco teto – lado externo
Fôrma de madeira
Ca (%)
24,06
28,83
34,37
41,96
22,44
Si (%)
54,59
48,39
44,16
38,59
59,28
Através das micro-fotografias da viga, da laje e da forma (vide Figura 1, 2 e 3) com aumento
de 500x e 3000x, pode-se observar o que provavelmente são as partículas de C-S-H (silicato
de cálcio hidratado) bem como uma variação da porosidade nas amostras, onde os poros
observados na viga são maiores; os presentes na fôrma de compensado de madeira são os
menores e os da laje estão em uma situação referenciada como intermediária.
a) aumento 500 x
Figura 1 – Concreto da face externa da laje
b) aumento 3000x
a) aumento 500x
b) aumento 3000x
Figura 2 – Face do concreto da viga em contato com a fôrma
a) aumento 500x
b) aumento 3000x
Figura 3 – Resquícios de concreto existente sobre a superfície da fôrma de compensado
Nas fotografias que se seguem (Figuras 4 e 5) está representada a parte interna e externa do
reboco de revestimento da laje de concreto. Pode-se observar, além da possível presença de
C-S-H, a diferença de porosidade destes elementos (o lado externo é mais poroso que o
interno).
Presença
de CaCO3
a) aumento 500x
Figura 4 – face do reboco em contato com a laje
b) aumento 3000x
Presença
de CaCO3
a) aumento 500x
Figura 5 – Face do reboco externo
b) aumento 3000x
É notória a presença de pontos esbranquiçados (CaCO3) em todas as amostras.
3.3 - Discussão e conclusão dos resultados
Teste de arrancamento
Os resultados dos testes realizados conduzem à conclusão de que a metodologia de ensaio
adotado na recuperação dos rebocos sinaliza para resultados individuais superiores àqueles
recomendados pela ABNT NBR-13749, que é de 0,30 MPa, sinalizando para o atendimento
ao referenciado pela citada norma.
Observações de campo
Há notórios indícios da existência de concreto sobre a superfície das fôrmas de madeira, que
pode ter sido provocada pela falta de desmoldante nas fôrmas de compensado de madeira e,
possivelmente, o seu uso teria reduzido tal efeito.
Microestrutura via MEV
Após a analise química e MEV das amostras, foi possível concluir:
- Um excesso de finos no concreto (proporcionado pelo elevado percentual de cimento
adotado na mistura) proporcionou a sua migração para a face externa dos elementos
estruturais. Esse fato é evidenciado pela presença de carbonato de cálcio “in natura” que
juntamente com o fenômeno referenciado como “efeito parede” proporcionou o fechamento
dos poros externos da pasta de concreto, inviabilizando a aderência do reboco ao concreto.
Desta forma, houve o impedimento de ocorrência das necessárias pontes de aderência. Vale a
pena ressaltar que, estas pontes de aderência são proporcionadas pela migração de solução de
cimento para o interior do concreto endurecido. O uso de adesivos facilitou a ação de novos
mecanismos de aderência;
- O tamanho dos cristais de carbonato de cálcio (CaCO3) observados na figura 4 (b) indicam a
existência de precipitados deste mineral sobre a superfície do reboco, fato que comprova ter
havido a sua migração do interior do concreto para a superfície, motivado sobretudo por
fenômenos afetos ao adensamento e vibração do concreto fresco. Esta situação foi observada
através da inspeção visual realizada onde é notória a presença de material pulverulento sobre
a superfície do concreto recém desformado. Tal situação pode ter inibido a ocorrência da
ponte de aderência.
4. Conclusão geral do tema:
Conclusivamente, é possível afirmar que o uso de adições carbonáticas, na forma de fino pó
calcário, na produção de concretos usinados comumentes fornecidos pelas empresas, bem
como a existência na mistura de outros compostos contendo diferentes pesos e massas
específicas, faz com que haja, durante o processo de adensamento vibratório, a migração de
finos mais pesados à superfície.
Esta migração uma vez ocorrida, irá após o endurecimento e hidratação do concreto, deixar
sob a superfície do mesmo uma fina camada de material, na forma de fuligem, que irá
dificultar de sobremaneira a aderência de quaisquer tipos de argamassas tradicionais (chapisco,
emboço e reboco) que contenham na sua constituição aglomerantes convencionais (cimentos e
caies).
Desta forma o desplacamento dos revestimentos é inevitável, sem contar os riscos gerados
para os usuários e moradores. Se o objetivo é dar solução ao processo basta recomendar a
retirada de todo revestimento e a sua execução a partir do uso, na mistura da argamassa
tradicional, de aditivos colantes especiais, que devem ter a sua performance avaliada caso a
caso.
5. Referências Bibliográficas
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by ACI (Committee 212). Detroit; ACI Manual of Concrete Practise 1982.
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Annual Book of ASTM Standards. Philadelphia,1993.
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(ABESC). Manual do concreto dosado em central. Centrográfica Editora & Gráfica. São
Paulo, 2005.
BAUER, L. A. F. Materiais de construção. 5.ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos
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COUTINHO, A. S.; GONÇALVES, A. Fabrico e propriedades do betão. 2.ed. Lisboa:
Laboratório Nacional de Engenharia Civil – LNEC, 1988. 219p., v.2.
COUTINHO, A. S.; GONÇALVES, A. Fabrico e propriedades do betão. 2.ed. Lisboa:
Laboratório Nacional de Engenharia Civil – LNEC, 1988. 368p., v.3.
HANSEN, W. D. Chemistry and physics of interfaces II. R. Sidney - Ed. American Chemical
Society Publication. Washington, D. C., 1971.
TAYLOR, H. F. W. Cemente chemistry. London: Thomas Telford, 1997. 459p.
CURRICULUM VITAE
Abdias Magalhães Gomes
Doutor em Engenharia (Dr.) pelo IST – Instituto Superior Técnico da UTL – Universidade
Técnica de Lisboa.
Mestre (Msc.) pelo Departamento de Metalurgia e Materiais da Escola de Engenharia da
Universidade Federal de Minas Gerais.
Professor Adjunto lotado no Departamento de Engenharia de Materiais e Construção da
Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Consultor e perito envolvendo a indústria da Construção Civil.
Pesquisador
Cristiano Oliveira Guimarães
Engenheiro Civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas
Gerais.
Mestrando em Construção Civil, no Departamento de Engenharia de Materiais e Construção
da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Consultor e pesquisador
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Título: - mrcl.com.br