0 UNIVERSIDADE REGIONAL INTEGRADA DO ALTO URUGUAI E DAS MISSÕES CÂMPUS DE FREDERICO WESTPHALEN PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS MESTRADO EM LETRAS ÁREA DE CONCENTRAÇÃO EM LITERATURA COMPARADA LITERATURA, VIDA SOCIAL E MEMÓRIA EM CRÔNICAS DE CAIO FERNANDO ABREU Mestranda: Larissa Bortoluzzi Rigo Orientadora: Profa. Dra. Luana Teixeira Porto Frederico Westphalen, julho de 2013. 1 Larissa Bortoluzzi Rigo LITERATURA, VIDA SOCIAL E MEMÓRIA EM CRÔNICAS DE CAIO FERNANDO ABREU Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras – Mestrado em Letras, área de concentração em Literatura Comparada, sob a orientação da Profa. Dra. Luana Teixeira Porto, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Letras. Frederico Westphalen, julho de 2013. 2 UNIVERSIDADE REGIONAL INTEGRADA DO ALTO URUGUAI E DAS MISSÕES CÂMPUS DE FREDERICO WESTPHALEN PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS MESTRADO EM LETRAS ÁREA DE CONCENTRAÇÃO EM LITERATURA COMPARADA A Comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação de Mestrado LITERATURA, VIDA SOCIAL E MEMÓRIA EM CRÔNICAS DE CAIO FERNANDO ABREU elaborada por Larissa Bortoluzzi Rigo como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Letras COMISSÃO EXAMINADORA Profa. Dra. Luana Teixeira Porto Orientadora/Presidente Profa. Dra. Rosani Úrsula Ketzer Umbach 1ª arguidora Profa. Dra. Ana Paula Teixeira Porto 2ª arguidora Prof. Dr. Lizandro Carlos Calegari Membro Suplente 3 Dedico este trabalho ao meu esposo, William, aos meus pais, Celso e Odite, e ao meu irmão João e à cunhada Cristiane, por todo amor que tenho a eles e pelos exemplos de honestidade, humildade e dignidade. Espero que se orgulhem de mim... 4 AGRADECIMENTOS O processo que envolve a execução da pesquisa não é um trabalho que exige apenas reflexão, comprometimento e muita dedicação. Pesquisar está em consonância com o processo de humanização, e nesse sentido, muitas pessoas estiveram ao meu lado, auxiliando-me para conseguir com esse ato, ser uma pessoa melhor. Estou profundamente agradecida a minha orientadora, Luana Teixeira Porto, por ter me recebido com toda sua generosidade, educação e de forma tão respeitosa. Agradeço ainda pela competência profissional e humana com que conduziu a orientação desta pesquisa, por suas leituras sempre atentas e pelo cuidado constante com minha formação. Reitero que foi sob seus ensinamentos que a pesquisa contribuiu para meu crescimento. Agradeço ainda a todos os professores do Programa desta Instituição pelo estímulo, sugestões de leituras, pelas aulas “iluminadoras” que me possibilitaram uma formação consistente para o desenvolvimento da pesquisa. Nesse sentido, um agradecimento especial à professora Ana Paula Porto pelo estímulo ao estudo e pelas aprendizagens construídas as quais contribuíram para entender a literatura e outras artes. Agradeço também aos colegas Jaci Seidel, Girvani Seitel, Denise Meneses e em especial a Letícia Sangaletti e Larissa Paula Tirloni pela contribuição no processo de formação. Aos funcionários da Instituição que nos auxiliaram sempre que necessário. Além dos colegas do meio acadêmico, é preciso ressaltar o apoio e ajuda incondicional de meus familiares. Muito obrigada ao meu esposo William por toda sua ajuda, estímulo, leituras críticas e atentas, por compreender meus momentos ruins e bons e, acima de tudo, por me incentivar cotidianamente a seguir em busca desse sonho. Esse percurso só foi possível graças a sua colaboração. Meus pais, Celso e Odite e ao meu irmão João, por todo amor, apoio irrestrito e incondicional, você são o meu porto-seguro e a melhor definição de família que possuo. Agradeço ainda aos meus cunhados Cristiane, Alessandra e Musa, aos meus estimados 5 sobrinhos Hamza e Ryad e ainda aos meus afilhados, pelas constantes palavras de apoio e pelo amor. Agradeço à minha sócia, Raquel, pela compreensão nos momentos de ausência e pelo incentivo. Ao grupo intitulado “Amigos de Fé” e “amigos”, meus agradecimentos e reconhecimento por estarem ao meu lado nos momentos mais difíceis, muito obrigada pelos conselhos e pela constante ressalva que conseguiria chegar ao meu propósito final. A todos esses e outros que de uma forma ou outra colaboraram, muito obrigada. 6 RESUMO Este trabalho examina crônicas do escritor Caio Fernando Abreu, publicadas no jornal Folha de São Paulo nas décadas de 1980 e 1990 e reunidas no livro A Vida Gritando aos Cantos, de 2012. A proposta do estudo consiste em identificar os elementos formais e temáticos recorrentes na sua narrativa para examiná-las, relacionando-as aos diálogos que tecem com a sociedade e com o leitor e procurando investigar em que medida as suas narrativas constroem uma memória de seu tempo e em que medida as crônicas do autor dialogam com o contexto de produção em que está inserido. A atividade de leitura e interpretação da crônica de Caio neste trabalho recebe, como procedimento metodológico, a articulação da forma e do conteúdo das narrativas na perspectiva crítica da sociologia da literatura. No desenvolvimento desta investigação, o estudo considera, em um primeiro momento as características da crônica, de acordo com o aparato metodológico de autores que refletem o gênero enquanto sua conceituação e modo de concepção em diferentes períodos históricos. No segundo, os traços singulares da narrativa de Caio e aspectos evidentes em suas crônicas, tais como a linguagem coloquial, humor e ironia, subjetividade e trabalho de citação e, por fim, a busca pelo diálogo pelo leitor são ressaltados e evidenciados, mostrando que os textos de Caio não se enquadram nos moldes propostos pela teoria da crônica. Na terceira parte, relações entre literatura, sociedade e memória contemplam as reflexões propostas acerca das crônicas do escritor, explanando a relação constante e pertinente do texto do escritor com os aspectos sociológicos, o que sinaliza a presença das memórias individual, social e cultural nessas narrativas do autor. Ao examinar crônicas de Caio, observa-se que suas narrativas permitem questionar a teoria da crônica e que seus textos apresentam diferentes recursos estéticos que põem em destaque a busca por um diálogo com o leitor e também com o contexto histórico do qual faz parte, construindo assim uma memória de seu tempo. PALAVRAS-CHAVE: memória. Literatura, crônica, Caio Fernando Abreu, sociedade, 7 ABSTRACT This paper analyzes Caio Fernando Abreu’s chronicles, published in Folha de São Paulo, in 1980’s and 1990’s and combined in the book Life Crying on Corners, from 2012. The suggestion of the study is to identify the formal and thematic elements present in his narrative, in order to analyze them, connecting them to the dialogues that they weave with the society and with the reader and investigating how his narratives build a memory of his time and how the writer’s chronicles talk to the production context in which he is inserted. The reading of Caio’s chronicle, in this work, receive, as a methodological procedure, the articulation of form and content of the narratives in the critical perspective of sociology of literature. In the development of this investigation, the study considers, at a first moment, the characteristics of chronicle, according to the methodological apparatus of authors who think about the genre in relation to its concept and way of conception in different historical periods. At the second moment, the singular traits about Caio’s narrative and evident aspects in his chronicles, such as the colloquial language, humor and irony, subjectivity and citation work, and, finally, the search for the dialogue with the reader, are discussed, showing that Caio’s texts don’t fit as proposed by the theory of chronicle. In the third part, relations among literature, society and memory contemplate the reflections about the writer’s chronicles, explaining the constant and relevant relation of Caio’s text with the sociological aspects, what identifies the presence of individual, social and cultural memories in the author’s narratives. When we analyze Caio’s chronicles, we observed that his narratives permit to question the theory of chronicle and his texts show different aesthetic resources that valorize the search for a dialogue with the reader and with the historical context, building a memory of his time. Keywords: Literature, chronicle, Caio Fernando Abreu, society, memory. 8 SUMÁRIO DE UMA TRAJETÓRIA DE LEITURA A UMA TRAJETÓRIA DE PESQUISA 09 1. A CRÔNICA E SUA TRAJETÓRIA NO BRASIL 15 1.1. A origem da crônica: dos primeiros caminhos até a atualidade 15 1.2. O hibridismo do gênero crônica: entre literatura e jornalismo 23 1.3. A crônica e seus autores: um pequeno esboço da crônica brasileira 34 2. A NARRATIVA DE CAIO FERNANDO ABREU 47 2.1. A narrativa de Caio Fernando Abreu: do romance à crônica 47 2.2. A crônica de Caio Fernando Abreu 59 2.2.2 A linguagem coloquial de suas crônicas 69 2.2.3. O humor e a ironia nas crônicas de Caio 74 2.2.4. A subjetividade e o trabalho de citação nas crônicas 82 2.2.5. A busca pelo diálogo com leitor 91 3. LITERATURA, SOCIEDADE E MEMÓRIA EM CRÔNICA DE CAIO 97 FERNANDO ABREU 3.1. Diálogos entre literatura e sociedade 97 3.2. A representação da sociedade na crônica de Caio Fernando Abreu 104 3.3. Relações entre literatura e memória 113 3.4. A construção da memória na crônica de Caio Fernando Abreu 118 CRÔNICAS DE CAIO: RELATOS DE UM NARRADOR-REPÓRTER 127 REFERÊNCIAS 132 9 DE UMA TRAJETÓRIA DE LEITURA A UMA TRAJETÓRIA DE PESQUISA Caio Fernando Abreu foi-me apresentado no curso de Mestrado em Letras. Até então, desconhecia a existência e a literatura desse escritor. À primeira vista, seus textos pareceram-me apenas mais uma literatura disponível para leitura. Mas depois, quando contos do escritor passaram a ser objeto de reflexão em uma disciplina que propunha uma leitura das vozes de minorias na literatura brasileira, suas narrativas receberam outra conotação, e pude começar a construir uma nova percepção e julgamento de valor sobre seus textos. Caio Fernando Abreu não era mais um escritor mediano, como outros, que não despertavam tanto a minha atenção. Passava a ser um autor que me possibilitava ver o quanto a literatura pode nos humanizar. O susto e as náuseas iniciais de suas leituras cederam, então, lugar a uma vontade cada vez maior de conhecer as narrativas desse escritor. Logo, habituei-me a ler Caio Fernando Abreu, queria estar em contato com seus textos, e os recursos estéticos utilizados pelo autor me inseriam em suas narrativas, levando-me a ingressar no cenário de suas histórias. Além disso, queria acompanhar as reflexões propostas por esse escritor, até então distante. Em tal contexto, quanto mais lia, mais me aproximava de seu mundo, e, assim, Caio Fernando Abreu passou a ser somente e simplesmente Caio. A conotação de seus textos fez com que o escritor se tornasse para mim um “velho conhecido”, e suas narrativas passaram a fazer mais sentido. Além disso, os contos e romances do escritor despertaram em mim a percepção sobre o lado mais humano da literatura. No entanto, foram as crônicas de Caio que escolhi para serem minhas companheiras nesta jornada de pesquisa. Percebi nas crônicas de Caio uma oportunidade para unir as minhas duas paixões: o jornalismo e a literatura. Estudar a confluência desses dois campos em um trabalho de mestrado tornou-se uma atividade prazerosa, pois o jornalismo, como opção primeira de formação, e a literatura, como uma inserção ao mundo das letras e também ao próprio contexto do jornalismo, puderam ser aproximados neste estudo. A presença de Caio e da literatura tornou-se, então, constante em meu cotidiano. Procuro me inspirar no escritor gaúcho quando este faz referências a elementos culturais e a alusão a subsídios externos ao texto, que enriquecem o aparato teórico dos leitores e denotam ainda mais confiabilidade à produção, a busca constante por conferir ao texto um sentido de diálogo e, é claro, a reflexão. 10 Além de todos esses elementos supracitados, a escolha pela crônica de Caio incorreu pela maior aproximação com a realidade. Nos contos e romances, identificava certo distanciamento, mesmo sabendo que as descrições das narrativas estavam imbuídas de alusão a situações sociais, os personagens tinham nomes fictícios, e por isso a realidade acabava, no meu ponto de vista, sendo alterada. Por outro lado, os contos me auxiliaram para compreender a sociedade e aflorar ainda mais o aspecto de jornalista no sentido de buscar compreender melhor a sociedade e os fatos que tornam a vida social concreta. Nesse processo de reflexão incitada pelas narrativas de Caio, poderia citar muitos contos e frases que surtiram significações, questionamentos e perturbações em minha experiência como jornalista e também estudiosa da literatura, mas dois deles foram fundamentais: “Terça-Feira Gorda” ampliou as minhas reflexões quanto à homossexualidade. Com esse texto, entendi como ocorre a relação entre dois homens, que “por acaso” são do mesmo sexo. A expressão grifada “por acaso” resume todo o texto, pois o narrador demonstra que o que é válido em uma relação são os sentimentos de afeto entre dois companheiros, independentemente do sexo. Sob essa ótica, o conto “Aqueles Dois” também exemplifica o entendimento acerca das relações entre duas pessoas do mesmo sexo, sobretudo com a expressão “encontro de almas”, o que denota a representação e a perspectiva crítico-social do autor acerca do preconceito homossexual. Ao ter contato com esses dois textos, ficava me perguntando sobre as práticas de preconceito e violência sexual, sobre experiências de afeto e analisando a sociedade como um todo: o que há de mais gratificante para o amor que um encontro de almas? Em tal perspectiva, procurava disseminar esses textos para que outras pessoas pudessem ter contato com essa literatura e modificar as suas realidades no sentido de melhorar as relações interpessoais e de respeito ao ser humano. Assim, observando as reflexões que as narrativas de Caio suscitam, percebo que o que mais me aproximou desse escritor foi a sua contribuição social: o seu legado foi humanizar os leitores, fazer com que, ao ler seu texto, as pessoas pudessem se sentir mais vivas e com maior vontade de respeitar o próximo. E com as crônicas, essa inserção do social com o literário só aumentou. Ao ter contato com o livro A Vida Gritando nos Cantos, quando li a segunda crônica da coletânea, observei que era exatamente o que queria, ou seja, com essas narrativas foi possível reunir todos os elementos que tornam viável o cotejo do jornalismo com as 11 letras: diálogo com leitor, alusão a elementos externos ao texto, contato com subsídios culturais e tudo isso falando do cotidiano, tornando-se, desse modo, o contexto perfeito a uma jornalista em formação1. O entusiasmo pelo escritor só aumentou a minha paixão pela pesquisa. É muito gratificante estar inserida em contextos acadêmicos que possibilitam refletir acerca do meio em que vivemos, pois acredito que, através das reflexões e com leituras como as de Caio, podemos nos tornar mais humanos e aptos para mudar a realidade. Então, após esse relato pessoal de como o escritor chegou até mim, passo a utilizar uma redação mais acadêmica e objetiva para que os meus julgamentos pessoais não modifiquem o teor e a importância da pesquisa. Assim como comecei construindo um histórico de como fui apresentada ao escritor, passo a apresentá-lo. Caio escreveu prosa e poesia e, nas narrativas, construiu textos ora com uma linguagem simples, ora com linguagem mais complexa. Seus textos ainda são marcados pela referência constante a elementos culturais, tais como os da cultura de massa e os da cultura também mais erudita, o que demonstra sua inteligência e sensibilidade frente ao contexto do qual fez parte, mostrando que Caio era um leitor do mundo, um leitor da vida. Além disso, uma de suas principais peculiaridades é a capacidade de reflexão sobre os mais variados temas, e suas crônicas, mesmo sendo escritas na década de 1990, com temáticas específicas, parecem atemporais, cujos significados se aplicam ao contexto atual. Considerando isso, este trabalho aborda a crônica do escritor, procurando identificar os elementos formais e temáticos recorrentes na sua narrativa para examiná-las, relacionando-as aos diálogos que tecem com a sociedade e com o leitor e procurando investigar em que medida as suas narrativas constroem uma memória de seu tempo e em que medida as crônicas do autor dialogam com o contexto de produção em que está inserido. Para abordar esse tema, o trabalho examina crônicas de Caio publicadas no jornal Folha de São Paulo nas décadas de 1980 e 1990 e reunidas no livro A Vida Gritando nos Cantos, de 2012. A escolha das crônicas como objeto central deste estudo justifica-se tanto por ser um gênero que aborda aspectos da realidade, contribuindo assim para a 1 Jornalista em formação, pois essa a atuação como jornalista requer constante aperfeiçoamento e construção de saberes. Os fatos do dia a dia fazem com que somente a experiência traga a carga necessária para conduzir a mídia. 12 compreensão da narrativa de Caio, quanto para relacionar em que medida as narrativas do escritor dialogam com a cultura de massa estabelecida pela sociedade e com o contexto jornalístico, já que a crônica é um gênero que se encontra no limiar entre literatura e jornalismo. De acordo com as considerações expostas, o estudo, nos moldes propostos, deve considerar: a) as características da crônica como gênero literário; b) os traços singulares da narrativa de Caio; c) as relações entre literatura e sociedade e sua expressão na crônica do autor Caio; d) o diálogo com o leitor através da crônica do autor e sua relação com o jornalismo literário; e) a construção de uma memória coletiva do período dos anos 1980 a 1990 através da produção e publicação das crônicas do escritor gaúcho. Para abordar esses tópicos, a análise das crônicas será realizada com a observação de aspectos estético-formais, mas também de aspectos contextuais da época em que o autor estava inserido, na medida em que estes forem adequados à reflexão sobre as relações entre literatura e sociedade. Este estudo busca pôr em diálogo literatura e sociedade e investigar de que forma a crônica de Caio constrói uma memória coletiva de seu tempo. Assim, podemos inferir que este trabalho está relacionado diretamente à linha de pesquisa Ficção, História e Memória, tendo em vista que ela investiga as relações entre literatura, história e memória, em suas interfaces com outras disciplinas. Além disso, o discurso literário é visto, de acordo com essa linha de pesquisa, como construção sociocultural que privilegia a mímese, isto é, a representação da sociedade, o que inclui, ainda, as minorias sociais tanto no papel de personagens quanto de produtores do discurso. Por esse prisma é que a execução desta pesquisa justifica-se como uma contribuição para estudos que visam à maior aproximação da literatura com a sociedade. É possível ainda inferir que, apesar de os estudos que privilegiam aspectos da literatura com a sociedade serem objetos de inúmeras reflexões, a incidência de uma pesquisa voltada a um gênero como a crônica é ainda pouco estudada, embora Caio tenha sido um cronista de sucesso. Especificamente sobre Caio, há pouquíssimos estudos que se voltam para sua produção textual de crônicas. O que é mais difundido no meio acadêmico são estudos sobre os contos do escritor. Com base nisso, entende-se que o tema deste trabalho é pertinente para contribuir com estudos que abrangem o gênero da crônica, de modo a destacar as relações entre literatura, sociedade e memória na obra do escritor gaúcho. 13 Nesse sentido, este trabalho está estruturado em três capítulos. Na busca de uma compreensão mais aprofundada a respeito da crônica, o primeiro capítulo, “A crônica e sua trajetória no Brasil”, apresenta o percurso do gênero até chegar ao País. No primeiro subcapítulo, “A origem da crônica: dos primeiros caminhos até a atualidade”, é feito um apanhado geral sobre a teoria que abrange a crônica, desde a etimologia com que o gênero está permeado até a significação que é compreendida atualmente acerca de sua conceituação. O segundo subcapítulo, “O hibridismo do gênero da crônica: entre literatura e jornalismo”, aborda o trânsito entre os campos da literatura e do jornalismo, que acabam por caracterizar as crônicas, demonstrando, assim, a sua difícil conceituação. Nesta seção, aponta-se ainda que a matéria da crônica pode variar de assuntos meramente cotidianos até exposições da interioridade de seus autores. O terceiro subtítulo do capítulo, “A crônica e seus autores: um pequeno esboço da crônica brasileira”, mostra que a crônica figura como um registro de uma sociedade fragmentada, que é pautada mais pelo caráter de urgência do que propriamente pelas lembranças que os indivíduos podem resgatar. Por conseguinte, alguns autores contribuem para a fixação do gênero na sociedade, cultivando, assim, o caráter de atemporalidade que caracteriza grande parte dos textos. A partir dessa perspectiva, abordamos como as particularidades da crônica estão cultuadas em distintos autores e quais são os escritores que deixaram suas marcas para que este gênero fosse consolidado no Brasil. No segundo capítulo, “A Narrativa de Caio Fernando Abreu”, apresentamos a obra do escritor. O primeiro subcapítulo, “A Narrativa de Caio Fernando Abreu: do romance à crônica”, relaciona a trajetória percorrida pelo escritor gaúcho, observando ainda os traços de suas narrativas, focalizando como o escritor construiu seus textos, a forma com que apresenta suas obras tanto na prosa quanto na novela, no romance e, por fim, na crônica. A seção cujo título é “A crônica de Caio Fernando Abreu” demonstra a forma como as particularidades do gênero estão inseridas nas narrativas do escritor, além de ressaltar o modo como está estruturado e a relação de suas crônicas com os campos da literatura e do jornalismo e, finalmente, da memória com a sociedade. Nas próximas subseções, “A linguagem coloquial de suas crônicas”, “Humor e a ironia nas crônicas de Caio”, “A subjetividade e o trabalho de citação nas crônicas” e a “A busca pelo diálogo com o leitor”, ressaltamos as perspectivas mais recorrentes de suas crônicas, isto é, a 14 linguagem coloquial, o humor e a ironia, a subjetividade e o trabalho de citação, e a busca pelo diálogo com o leitor, sempre procurando demonstrar qual o efeito que essas características possuem nas narrativas do escritor. No terceiro capítulo, “Literatura, sociedade e memória na crônica de Caio Fernando Abreu”, analisamos como esses aspectos estão inseridos na narrativa do escritor gaúcho. No primeiro item do terceiro capítulo, “Diálogos entre literatura e sociedade”, apresentamos a forma como ocorre o diálogo nas crônicas do escritor pelo viés sociológico. O próximo subcapítulo, “A representação da sociedade na crônica de Caio Fernando Abreu”, é constituído da análise de como a sociedade é representada em distintas crônicas do autor. No terceiro subcapítulo, “Relações entre literatura e sociedade”, ressaltamos a maneira como a crônica de Caio Fernando Abreu dialoga com a sociedade, e, por fim, “A construção da memória na crônica de Caio Fernando Abreu” trata da construção da memória nas crônicas do autor e como a relação destes elementos transforma a narrativa do escritor. Por último, apresentamos as considerações finais, para demonstrar o resultado da pesquisa realizada em Literatura, Vida Social e Memória nas Crônicas de Caio Fernando Abreu. Para tanto, retomamos alguns aspectos propostos na reflexão, tais como o referencial teórico acerca das crônicas do primeiro capítulo, a análise realizada sobre algumas particularidades da crônica de Caio ressaltadas no segundo capítulo, até as relações propostas no terceiro capítulo entre literatura, sociedade e memória. 15 1. A CRÔNICA E SUA TRAJETÓRIA NO BRASIL 1.1. A origem da crônica: dos primeiros caminhos até a atualidade A etimologia do termo “crônica” é oriunda da Mitologia Clássica. Cronos2 é o deus grego que simboliza o tempo. Sobre a relação entre o mito de Cronos, o tempo e a crônica, Costa (2010) afirma: “Até o momento, essa relação continua válida, porque a crônica, esteve e está efetivamente relacionada com uma perspectiva temporal, seja de escolha do assunto, seja no tratamento formal desse mesmo assunto.” (p. 187). A relação do gênero com a questão temporal na qual o mito está associado é, portanto, recorrente em sua origem e significação. De acordo com o estudioso Moisés (2004), o termo latino chronica significa o relato dos fatos; já em grego, khronikós, de khrónos, está conexo também ao tempo. Nesse sentido, o significado deste vocábulo foi sofrendo modificações ao longo dos anos, conforme indica Moisés: Empregado primeiramente no início da era cristã, designava uma lista ou relações de acontecimentos, arrumados conforme a sequência linear do tempo. Colocada assim, entre os simples anais e a História propriamente dita, a crônica limitava-se a registrar os eventos, sem aprofundar-lhes as causas ou dar-lhes qualquer interpretação. (MOISÉS, 2004, p. 110) Essa acepção associa o termo crônica a um traço meramente informativo, e, tendo atingido o seu ponto alto na Idade Média, no século XII, de acordo com Moisés (2004), o gênero liga-se ao traço histórico, abandonando o aprofundamento dos fatos que caracteriza a crônica no início de sua produção. Assim, as crônicas começaram a se definir em alguns aspectos relacionados à quantidade de informações registradas, havendo narrativas que tratavam de acontecimentos com abundâncias de pormenores, situando-se numa perspectiva da história individual no sentido de que cada cronista contava a história a partir de seu ponto de vista. Essas 2 De acordo com a mitologia grega, Deus Cronos, filho de Urano (Céu) e de Gaia (Terra), destronou o pai e casou com a irmã, Reia. Urano e Gaia predisseram-lhe então, que ele também seria destronado por um de seus filhos. Para evitar que se cumprisse a profecia, Cronos devorou todos os filhos nascidos de sua união com Reia. Até que ela conseguiu enganar o marido, e deu-lhe uma pedra para comer, ao invés da criança. Dessa forma, a profecia se cumpriu, Zeus deu ao pai uma droga e o fez vomitar todos os filhos que havia devorado, liderando juntamente com seus irmãos, uma guerra contra o pai, que acabou sendo derrotado por todos. (OLIVEIRA, 2008) 16 eram as chamadas “crônicas”, que, para elucidá-las, Costa (2010) cita como exemplo as obras do século XIV de Fernão Lopes3. Em sentido oposto, aquelas que tratavam os acontecimentos com maior superficialidade, segundo Moisés (2004), eram determinadas como “cronições”. Então, um mesmo vocábulo que, em seu sentido primeiro, restringe-se a estar relacionado ao tempo começa a se delinear em especificidades que lhe abrangem outras significações e contextos. Contudo, Costa (2010) alerta para o fato de esta distinção atingir somente alguns países: “Tal discriminação só foi possível em Português e Espanhol, não atingiu o Inglês, que englobam os dois tipos sob um rótulo comum (chronique, chronicle).” (2010, p. 110). Para os ingleses, a atribuição de dois vocábulos para um mesmo conceito não foi bem aceita, ficando os ingleses com a significação primeira, ligada à perspectiva histórica. Ainda no que tange ao sentido histórico que o termo começa a carregar, Roncari (2002) entende que o vocábulo “cronista”, no início de sua significação, está relacionado a relatos dos escrivães que acabaram transformando esses escritos em um gênero bastante lido e difundido na Europa: as narrativas das viagens marítimas ou as literaturas de viagem. A associação entre cronista e relato de escrivães devese ao fato de que, em 1500, os escrivães de que o autor chama atenção precisavam descrever as novas terras para aqueles que estavam, por vezes, em outros continentes. Ao fazer a descrição em pormenores de uma terra desconhecida, essa narrativa transforma-se em um gênero já com as características mais opinativas, uma vez que o cronista (neste caso o escritor) emitia o seu ponto de vista acerca do lugar até então desconhecido. Ao apresentar traços da crônica e seu surgimento, Roncari (2002) ressalta a importância que os relatos que surgiram a partir das crônicas ofereceram para a história da humanidade: “o início dessa prática acabou criando um conjunto 3 Gianez (2009) estuda as crônicas oficiais de Fernão Lopes, já que, através destes materiais, o estudioso constatou a gênese do discurso oficial em Portugal, e, de acordo com o autor, “as obras despontam num período de abalo e rearranjo decisivo do pensamento histórico e político no reino, os quais marcaram a ascensão da Dinastia de Avis.” (p. 05). As crônicas de Fernão Lopes relatavam os acontecimentos históricos que o país estava passando, relacionando-se, assim, à descrição dos fatos. Nesse âmbito Paraense (1998) corrobora com a afirmação de Gianez (2009) atribuindo a Fernão Lopes a aproximação do historiador. “Fernão Lopes também supera o ponto de vista do cronista e aproxima-se do historiador ao declarar-se consciente das limitações impostas à compreensão dos acontecimentos por fatores afetivos – especialmente o amor à terra dos ancestrais – e pela diversas opiniões existentes acerca dos fatos. Seu objetivo é narrar servindo-se de documentos fidedignos, especialmente documentos escritos e confrontados em suas versões distintas.” (p. 14) 17 riquíssimo tanto de documentos históricos quanto de textos também de valor literário.” (RONCARI, 2002, p. 25). Esse sentido primeiro de registro e observação, para posterior composição do que o escritor/cronista enxergava a sua volta, assemelha-se a um traço da crônica atual, pois o cronista que está inserido na atualidade pode observar a sua realidade e, a partir dela, optar em passar o seu ponto de vista ao leitor e lhe escrever sobre determinado tema ou fato, que pode ser cotidiano, ou pode optar por recontar um evento do passado. As vivências e pontos de vista do escritor acerca de determinados fatos e temas eram registradas em crônicas no século XV, e esse traço permanece nas crônicas do século XXI, uma vez que o ponto de vista e as experiências dos autores são particulares e continuam sendo repassadas ao leitor. O que precisa ainda ser ressaltado com relação aos registros históricos das crônicas de viagem4 é que elas estão diretamente ligadas ao contexto histórico da época. As expedições marítimas portuguesas e espanholas abalaram a visão que os europeus tinham de si e do mundo, pois até então eles acreditavam que estariam ocupando o centro do mundo. Além disso, os europeus necessitavam das crônicas para conhecer o “mundo novo”. Nessa perspectiva, “para se resituarem no mundo, agora muito mais amplo, aberto, variado, composto de novas terras, novos homens, costumes e civilizações, os europeus dependiam de informações, relatos e narrativas.” (RONCARI, 2002, p. 27). É nesse sentido que o autor afirma que a Carta de Caminha e outras com autoria de distintos escrivães e cronistas5 voltam-se para suprir as novas necessidades europeias e se constituir como um marco para história. Esse fato ocorre na medida em que as crônicas/relatos foram as responsáveis por transmitir a notícia de que havia mais terras e mudar a visão de finitude do planeta nas proximidades de Portugal, o que mudou a concepção até então vigente da extensão territorial da Terra. A importância que as crônicas tiveram para a história de Portugal6 também é evidenciada no contexto da Inglaterra no 4 Dentre as diferentes formas da crônica, está a de viagem. É chamada assim por ser uma espécie de diário dos escritores, que chegavam às terras até então desconhecidas e relatavam o que estavam observando daquela realidade. 5 O termo “cronistas”, nesse sentido, está sento utilizado com relação à conotação histórica que associada o cronista àquele responsável por relatar o que estava observando ao seu redor, constituindo uma espécie de diário das viagens. 6 Para registrar a história de seu povo, Costa (2010) ressalta que foi a mando de D. Duarte que Fernão Lopes iniciou as Crônicas de D. Pedro I, D. Fernando e D. João I. Nesses escritos, a autora cita Silveira (1992): “a matéria não ficcional transforma-se em ficção, se aceite o princípio de que a 18 século XII. De acordo com Costa (2010), a crônica nos anos 891 a 1154 era denominada como Anglo-saxon chronicle. Era assim designada por ser uma obra composta por um conjunto de nove manuscritos que tinha como intuito mostrar a forma como o povo anglo-saxão se estabeleceu nas Ilhas Britânicas. No que tange a Anglo-saxon chronicle, Paraense (1998) afirma que também pode ser chamada de Old English chronicle, intitula como sendo esta a primeira história contínua da nação ocidental em sua própria língua, além de ser o primeiro livro em prosa, com a narrativa em inglês. (PARAENSE, 1998). Quanto à origem da crônica, cabem algumas observações. Um primeiro ponto diz respeito à interpretação, ao subjetivismo e à ideologia que estão incorporados ao escritor. Este, inevitavelmente, passa por três processos em sua escrita: ver, interpretar (nesse caso de acordo com o seu ponto vista, isto é, suas ideologias) e transpor sua percepção sobre o mundo através da escrita para os seus leitores que usufruirão através das ideologias e interpretações de cada cronista: o que acarreta o subjetivismo. Nesse sentido, Schneider (2008) pondera que a crônica é vista como “uma expressão de diferentes vozes, mesmo que contraditórias – de um determinado tempo social.” (2008, p. 02) A ideia de a crônica estar ligada aos processos ideológicos e inserida em um tempo social pode ser melhor compreendida com Bosi (1994). Isso porque o autor defende que a história do homem brasileiro está ligada a um determinado tempo social, isto é, aos viajantes missionários europeus. Nas palavras do autor: A pré-história das nossas letras interessam como reflexo da visão do mundo e da linguagem que nos legaram aos primeiros observadores do país. É graças a essas tomadas diretas da paisagem, do índio, dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra-arte. (BOSI, 1994, p. 13) Cabe ainda ressaltar sobre esse contexto que, no tocante à história da crônica no Brasil, o estudioso Jorge de Sá (1999) aponta que o surgimento da literatura está ligado à crônica. O autor, assim como Bosi (1994), cita a carta de Pero Vaz Caminha ao Rei Dom Manuel como a primeira experiência de uma crônica em terras brasileiras, e Sá (1999) liga esse fato ao nascimento da literatura neste país: História – pela interpretação, pelo subjetivismo, pela comunicação, pela ideologia – é também uma ficcionalização do real.” (COSTA apud SILVEIRA, 2010, p. 27) 19 “a história de nossa Literatura se inicia, pois, com a circunstância de um descobrimento: oficialmente, a Literatura Brasileira nasceu da crônica.” (SÁ, 1999, p. 07). Caminha estabeleceu ainda outro traço da crônica ao instituir também o seu princípio básico: registrar o circunstancial. O significado do gênero está ligado, neste contexto, ao sentido histórico da palavra, e, sob essa ótica, Laurito (1993) sustenta: “são textos que antecipam o advento e a existência de uma historiografia nacional, já fruto de reflexão crítica e apoiada em instrumento adequado.” (p. 14). As crônicas constituem-se, assim, de documentos históricos e de registros. Para Laurito (1993), o marco histórico da crônica ocorre no século XV, e, de lá para cá, o gênero vem se desenvolvendo e se transformando. O autor comenta ainda que, além do registro circunstancial, o gênero possui significado em consonância com a ideia de ser um resgate do tempo. Nas palavras do autor: Tendo como marco histórico o ano de 1418, a palavra crônica, ainda que posteriormente, viesse abranger outros sentidos, permaneceu na língua portuguesa com o sentido antigo de narrativa vinculada ao registro de acontecimentos históricos.” (1993, p. 12) O desenvolvimento da crônica continua nos séculos seguintes. Moisés (2004) relata que, a partir do Renascimento (século XVI e XVII), o vocábulo passou a ser substituído por “história”. Para Laurito (1993), as crônicas, no seu sentido histórico, são textos que antecipam o advento e a existência de uma historiografia nacional. Já o conceito que mais se assemelha ao atual sobre a crônica é datado de 1800 (século XIX). Nas palavras de Moisés (2004): Com a significação moderna, o vocábulo entrou em uso no século XIX, para rubricar textos que só longinquamente se vinculam a primeira forma de crônica: ostentam, agora, estrita personalidade literária. Assim entendida, a crônica teria sido inaugurada pelo francês Julien-Louis Geoffroy, por volta de 1800, no Journal des Débats, onde periodicamente estavam feuilletons (MOISÉS, 2004, p. 110) É importante ressaltar ainda que o conceito antigo de crônica – como registro dos fatos históricos – continuou paralelamente à concepção moderna que se impôs tanto a partir do século XIX quanto com o advento da literatura jornalística que está ligada aos folhetins ou feuilletons. No que tange aos folhetins, Coutinho (2006) 20 assinala que eles tinham uma finalidade única: o entretenimento. Nas palavras do autor: “Era um espaço onde se contavam piadas, falava-se de eventos do dia, apresentavam-se charadas, ofereciam-se receitas de cozinha ou beleza, e comentavam-se as últimas novidades: peças teatrais, livros, etc.” (COUTINHO, 2006, p. 46) Quanto à procedência, Castello (2004) comenta que os folhetins foram introduzidos no Brasil com o Romantismo ao serem importados da França. Eles surgem nos jornais, tendo um espaço específico, que era localizado nos rodapés (rez-de-chaussée7) da página de destaque dos periódicos. A sua divulgação envolvia a produção literária da época, uma vez que as narrativas ficcionais eram colocadas dia a dia nos folhetins. O autor ressalta a importância deste gênero para a época: Recurso circunstancial de divulgação da narrativa ficcional, foi suficiente para marcar linguagem e construção, a partir do qual, muitas dessas narrativas passaram para a forma do livro, carregando consigo as particularidades indicadas. Foi comum desde suas origens entre nós até pelo restante do século XIX. Também, sem tais peculiaridades, muitas das principais criações ficcionais brasileiras do século XIX foram divulgadas naquele espaço jornalístico. (CASTELLO, 2004, p. 252) Nesse sentido, as pessoas se reuniam para ler o que estava escrito nos folhetins. O escritor, que pode ser confundido com o cronista em um primeiro momento, trabalhava em seus textos a criação literária ligada à escrita jornalística. Sob essa ótica, outro aspecto do folhetim envolve a criação literária atrelada à atividade jornalística. Candido (1989) cita como exemplo a seção escrita por José de Alencar – um dos primeiros e principais cultores deste gênero – “Ao correr da pena”, que era publicada semanalmente para o Correio MercantiI (1854 a 1855). De acordo com Castello (2004), Alencar traduziu os folhetins para os leitores: “o folhetinista inventou ao invés de contar, o que, por conseguinte, excedeu os limites da crônica.” (p. 253). Dessa forma, como é possível observar, a crônica tem impulso a partir dos folhetins no século XIX e aos poucos vai se redefinindo. As diferenças nos dois gêneros consistem na forma com que são publicados: o folhetim desse século ocupava quase meia página de um jornal, já a crônica moderna é mais curta e nela 7 Expressão utilizada por Coutinho (2006). 21 são comentados poucos assuntos, ao contrário do folhetim. Sobre o aspecto dos assuntos, Laurito (1993) afirma: Nos tempos atuais, dificilmente essa multiplicidade de assuntos estaria delimitada numa única seção do jornal. Isso porque, com a evolução da imprensa, o abrangente folhetim de variedades do século XIX foi desaparecendo, para dar lugar a seções especializadas de articulistas, comentaristas, analistas e críticos, ou seja, jornalistas também especializados em determinadas matérias. Entre eles, o que se chama hoje de cronista, o especializado em tudo ou nada. Melhor dizendo, aquele escritor-jornalista que, ao mesmo tempo, prende e solta a sua imaginação criadora num espaço específico e bem caracterizado da imprensa diária ou periódica. (p. 22) O marco do nascimento da crônica, como dito, está ligado ao folhetim, e sobre isso Laurito (1993) registra a ideia de que estudiosos da crônica brasileira assinalam, como o seu nascimento, o marco em dois de dezembro de 1852: “data em que Francisco Otaviano inaugura, no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, a seção ‘A Semana’, ou seja, os folhetins literários do Romantismo.” (1993, p. 29). A partir desse período, a tradução de como é a crônica atualmente começa a se formular. É justamente a partir desta data que Moisés (2004) alega o prestígio que este gênero passa a receber: “a ponto de haver os que a identificam com a própria Literatura Brasileira ou a consideram nossa exclusividade.” (p. 110) No tocante às transformações do folhetim para crônica, Candido (1989) pontua seu raciocínio acerca dessas modificações: Aos poucos o “folhetim” foi encurtando e ganhando certa gratuidade, certo ar de quem está escrevendo à toa, sem dar muita importância. Depois, entrou francamente pelo tom ligeiro e encolheu de tamanho, até chegar ao que é hoje. Ao longo deste percurso, foi largando cada vez mais a intenção de informar e comentar (deixadas a outros tipos de jornalismo), para ficar sobretudo com a de divertir. A linguagem se tornou mais leve, mais descompromissada e (fato decisivo) se afastou da lógica argumentativa ou da crítica política, para penetrar poesia adentro. Creio que a fórmula moderna, na qual entra um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu quantum satis de poesia, representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma. (s/d) Para melhor exemplificar como ocorreram as transformações que vão desde a linguagem mais leve até o toque de humor, Candido (1989) cita os autores que fizeram parte da evolução do gênero. No século XIX, José de Alencar novamente é mencionado, juntamente com Francisco Otaviano e Machado de Assis, por ainda possuírem em suas narrativas o que Candido (1989) chama de “o corte de artigo 22 leve.” Já em outro cronista, França Júnior, o que ocorre é uma redução na escala de temas, ligada, ao que afirma o estudioso, no incremento de humor. Além desses, Candido (1989) cita outros autores que se enquadram no rol de modificações da crônica: Olavo Bilac, mestre da crônica leve e aliviada de peso, guarda um pouco do comentário antigo, mas amplia a dose poética, enquanto João do Rio se inclina para o humor e o sarcasmo, que contrabalançam um pouco a tara de esnobismo. Eles e muitos outros, maiores e menores, de Carmen Dolores a João Luso até nossos dias, contribuíram para fazer do gênero este produto sui generis do jornalismo literário brasileiro que ele é hoje. (CANDIDO, 1989) Outros nomes, como Humberto de Campos, Raquel de Queirós, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Henrique Pongetti podem ser citados como autores que cultivaram o gênero crônica. Quanto ao formato do gênero atualmente, Moisés (2004) pontua sua explanação para termos que se ligam à crônica moderna, atribuindo significado a vocábulos ingleses, commentary, literary, column, para a crônica moderna - aquela publicada tanto em jornais quanto em revistas. Desse modo, “comentário”, “literatura” e “coluna” estão pautados às crônicas e se constituem a partir de um acontecimento diário, que tenha chamado atenção de seu escritor; além disso, possuem a particularidade de não apresentar caráter próprio ou até mesmo limites precisos. Nessa esteira, sem as definições próprias, a crônica assemelha-se a uma categorização híbrida ou múltipla, conforme explica o autor: Pode assumir a forma de alegoria, necrológico, entrevista, invectiva, apelo, resenha, confissão, monólogo, diálogo, em torno de personagens reais e/ou imaginárias etc. A análise dessas várias facetas permite inferir que a crônica constitui o lugar geométrico entre a poesia (lírica) e o conto: implicando sempre a visão pessoal, subjetiva, ante um fato qualquer do cotidiano, a crônica estimula a veia poética do prosador; ou dá margem a que este revele dotes de contadores de histórias. No primeiro caso, resultado por ser um poema em prosa; no segundo, uma narrativa breve. (MOISÉS, 2004, p. 111) No contexto brasileiro, nomes como Joaquim Manuel Macedo, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Raul Pompeia e Manuel Antônio de Almeida são alguns dos que foram se adequando à concepção gênero crônica ao longo dos anos. No início, com esses autores, a compreensão do gênero era mais próxima à modalidade histórica, ainda mesclada à ficção. Já a crônica, no sentido em que o termo é 23 comumente utilizado para designar um texto jornalístico, que aborda os mais distintos assuntos, nasceu, de acordo com Laurito (1993), como um filão que “começou no século XIX, na França, e que se transplantou com sucesso para o Brasil.” (p. 15) Com as diferentes concepções que permeiam o vocábulo, a evolução e a difusão da crônica também estiveram em diferentes significações dentro da história da literatura, e, sobre esse contexto, Costa (2010) afirma que: Em 1971, Gerald Moser escrevia um estudo para uma publicação feita na Carolina do Sul, nos Estados Unidos intitulado: “The cronica: a new genre in Brazilian Literature?” (A crônica: um novo gênero na Literatura Brasileira?) Até hoje, os dicionários de termos literários em língua inglesa não incluem o verbete “crônica”, mas ao longo de todos esses anos cresceu uma vasta produção de crônicas e um grande número de estudos sobre essa forma literária. Arrigucci (1987, p. 53) também deu destaque ao desenvolvimento dessa forma de literatura no Brasil: “Teve aqui um reflorescimento de fato surpreendente como forma peculiar.” (COSTA, 2010, p. 188) A partir das observações de Costa, é possível estabelecer, em linhas gerais, que o século XIX estaria relacionado ao folhetim e ao século XX caberiam as particularidades da crônica firmada como gênero específico e atrelada a jornais, revistas e até mesmo livros que reúnem escritas nesse gênero. Além disso, ainda no século XX, outra concepção do gênero é adotada, e o produtor da crônica é considerado um escritor especializado em “tudo e em nada”, para usar a expressão de Laurito (1993). Quanto à crônica, fica evidente a sua aproximação com o jornalismo. Nas palavras de Laurito: “Melhor dizendo aquele escritor-jornalista ou jornalista-escritor que, ao mesmo tempo, prende e solta a sua imaginação criadora num espaço específico bem caracterizado da imprensa diária ou periódica.” (p. 22). Com vistas à mescla que a crônica possui entre o jornalismo e a literatura e sobre as transformações que foram ocorrendo concomitantemente ao contexto histórico do século XXI, a próxima seção aborda esses aspectos, em especial, o trânsito entre literatura e jornalismo que caracteriza o gênero. 1.2. O hibridismo da crônica: entre literatura e jornalismo Desde a origem, a crônica esteve ligada às mudanças históricas. Em um primeiro momento, no contexto brasileiro, esteve presente e foi cultuada como a 24 representação do Brasil em 1500 por descrever o que os primeiros visitantes desta terra viam no lugar novo. Após modificações, foi se delineando em um percurso sempre em busca de significações para as leituras de mundo que seus escritores registravam em seus textos. No tocante às significações que permeiam as crônicas, o contexto sóciohistórico pode ser ressaltado, uma vez que o gênero acompanha essas transformações. Em tal perspectiva, a globalização empreendeu sentidos a crônica, tais como: a mescla de diferentes campos, desde a história (em seu sentido primeiro, que ainda não lhe abandona), a literatura e por fim o jornalismo. De forma geral, a crônica passou por significativas mudanças ao longo dos séculos, iniciando pelas crônicas de viagem (em que os escritores contavam o que viam nas novas terras), o folhetim, até às crônicas modernas, cultuadas em jornais com a abordagem do cotidiano. Nesse contexto, as transformações podem ser verificadas, de acordo com Arnt (2002), na medida em que é a partir do século XIX que ocorre um fato até então não observado: a presença de escritores na vida dos jornais. Paraense (1998) acentua, nessa construção de raciocínio, que a atividade literária nos jornais, torna-se, nesse período, um negócio: O escritor profissionaliza-se uma vez que produz uma mercadoria altamente valorizada. Destinadas apenas aos assinantes, e cobrando uma taxa bastante elevada pela assinatura anual, as folhas passam a contratar escritores de renome. Estes atraem assinantes, e com eles, os anúncios. (PARAENSE, 1998, p. 22) Por esse prisma, é possível inferir que, independentemente do cargo, os escritores interferiam na maneira de se conceber um jornal. Nessa esteira, Arnt (2002) advoga: “A influência dos escritores foi de tal ordem, que podemos qualificar esse período da história da imprensa de jornalismo literário.” (ARNT, 2002, p. 07). O autor entende jornalismo literário não como a imprensa especializada em literatura, mas sim a identificação de escritores com esse tipo de mídia: “jornalismo literário é um estilo que se desenvolveu no século XIX e se caracterizou pela militância de escritores na imprensa e pela publicação de crônicas, contos e folhetins.” (ARNT, 2002, p. 08). Com essa relação de proximidade entre a literatura e o jornalismo através dos gêneros textuais citados, o estudioso afirma que a presença dos escritores favoreceu o aparecimento do jornalismo informativo e atraente. De maneira análoga, a literatura também sofre influência do jornalismo através de uma 25 maior aproximação dos escritores com os fatos que se inserem no meio social. Sob esse aspecto, Arnt (2002) propõe: Ligado às exigências do meio – tudo num jornal informa -, o olhar dos escritores do século XIX volta-se para as questões sociais e as agruras da vida cotidiana. O extraordinário crescimento da imprensa europeia estava fundamentado em modificações profundas na estrutura social. Literatura e jornalismo tornam-se, portanto, indissociáveis. (p. 08) A aproximação desses gêneros a que o autor se refere deve-se por alguns aspectos, tais como: a) significativos escritores da literatura mundial estiveram presentes na imprensa; b) a informação está hodierna tanto nos jornais, quanto na ficção, e os dois gêneros possuem este objetivo final para com seus leitores; e c) tanto a literatura quanto o jornalismo contribuem para a representação de aspectos da vida cotidiana, encadeando-se tanto em personagens ficcionais quanto em indivíduos que têm suas vidas relatadas nas folhas dos jornais, e tudo isso pode resultar nas observações dos escritores registradas nas crônicas. Sobre a representação do social nas obras literárias, Arnt (2002) enfatiza que: “os escritores do século XIX estavam direta e indiretamente engajados num movimento de crítica e denúncia das contradições sociais.” (ARNT, 2002, p. 09). Nesse sentido, Candido (1989) ressalta a comunhão da crônica com o social, haja vista a sua pretensão de humanizar. Nas palavras do autor: Por meio dos assuntos, da composição solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo o dia. Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão certa profundidade de significado e certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição. (CANDIDO, 1989, s. p.) Nessa esteira, o engajamento com relação ao social, a representação e a tentativa de melhor compreensão do mundo em que estavam inseridos levaram escritores e jornalistas a se dedicarem em torno de um gênero específico: a crônica. Acerca ainda da aproximação da crônica com o jornalismo, Costa (2010) afirma que isso ocorreu a partir do século XI: “em um primeiro momento ela tomou assuntos emprestados dos jornalistas e assim os cronistas se transformaram em comentaristas responsáveis pela crônica policial, social, teatro, economia, dentre 26 outras.” (COSTA, 2010, p. 189) Entretanto, além desses aspectos que o autor cita, a busca pela subjetividade e o uso de linguagem mais livre e descompromissada teriam sido as peculiaridades que levaram à constatação de que a crônica, ao mesmo tempo, possui um tom de jornalismo e literatura. A aproximação deste gênero aos textos literários incorre devido às suas qualidades estéticas e à literariedade8, que pode, muitas vezes, relacionar-se ainda ao gênero épico ou até mesmo lírico, mas com histórias expressivas que se constituem no conjunto da produção literária. No tocante à literariedade, Simon (2008) manifesta a ideia acerca da polêmica que este termo vem sofrendo desde 1958, quando foi a primeira vez que um crítico observou o caráter heterogêneo da produção dos cronistas: Trata-se de um longo debate que teve uma de suas primeiras intervenções em texto de Eduardo Portella, em 1958, quando o crítico já reconhecia o caráter heterogêneo da produção dos cronistas, diferenciando-a de acordo com noções como transcendência e permanência. Nessa ocasião já era possível constatar diferenças estéticas nos múltiplos textos que recebiam o nome de crônica, fenômeno que continuou a ser examinado pelos críticos ao longo da segunda metade do século XX. (SIMON, 2008, p. 59) Nesse contexto, a relação mútua e de total engajamento entre o jornalismo e a literatura na produção da crônica foi se transformando e se alongando. No século XX, outra concepção surgiu: o diálogo da crônica com outras manifestações escritas, sejam elas literárias ou não, como o jornalismo. Mesmo contendo características que estão ligadas aos períodos históricos, as crônicas continuam se relacionando à literatura e ao jornalismo, justamente pela ligação que os dois últimos campos possuem, ainda que com suas diferenças, na intenção de alguns discursos. Com base no elo da crônica com a literatura e o jornalismo, ela acaba também por se caracterizar por um hibridismo que não é comum em outros gêneros. Assim, pode-se inferir que as crônicas encontram-se na natureza híbrida, como destaca a pesquisadora Jovchelevich (2005): “pode ser, ao mesmo tempo, jornalismo e literatura – uma vez que o seu meio de difusão é o jornal, e o seu tom é literário, seja a sua abordagem ficção ou realidade.” (p. 16) Desse modo, a crônica transforma a literatura em algo íntimo, pois se relaciona com a vida de cada leitor, ao mesmo 8 O conceito de literariedade está atrelado a um conjunto de características específicas (linguísticas, semióticas, sociológicas) que permitem considerar um texto como literário e foi criado pelos formalistas russos, autores de uma corrente teórica que observa a imanência do texto, desconsiderando aspectos extraliterários. . 27 tempo em que está voltada para as experiências de quem está escrevendo, isto é, a relação com o meio social que é peculiar do jornalista. Além disso, há outras particularidades que distinguem os dois gêneros, tal como a linguagem: As reflexões de Roman Jakobson sobre as funções internas da linguagem nos permitem apreciar que, no caso do discurso jornalístico, deve ser dominante a função referencial, por ser a que articula sua funcionalidade informativa e sua vontade de construir discursos baseados em fatos reais, que correspondam a acontecimentos extradiscursivos. No caso dos discursos literários, esteja ou não presente a função referencial, deve dominar a função poética ou estética, que reclama atenção sobre o próprio texto e por isso tem, por um lado, maior liberdade referencial e, pelo outro, maiores restrições expressivas (já que o plano da expressão se articula fortemente com aquele do conteúdo). (JOVCHELEVICH apud ÁNGEL, MEDEL, 2002, p. 23-24) As crônicas possuem as características que os autores chamam atenção: estão construídas em discursos baseados em fatos reais, fazem parte do projeto editorial do jornal, já que estão inseridas em um espaço geralmente delimitado em um mesmo lugar para criar a identificação com os leitores. Além disso, os cronistas escrevem de acordo com os acontecimentos que permeiam o mundo, contudo, ao mesmo tempo, a sua linguagem não precisa estar restrita ao objetivismo que repórteres e redatores utilizam nas matérias jornalísticas. Nesse sentido, Lage (2005) define que a crônica, “em sua forma moderna, como se pratica no Brasil, é literatura, que vai da emoção à ironia.” (p. 23) O cronista pode inovar, valer-se da linguagem conotativa, como a ironia que o autor ressalta e, ainda, utilizar outros elementos que a literatura propõe, tudo isso mesclando assuntos relacionados ao cotidiano. Tais aspectos ressaltados anteriormente acerca do gênero, em especial entre a literatura e o jornalismo, podem ser exemplificados através da crônica “Contra a Pirataria”, de Moacyr Scliar. O início da narrativa demonstra essa relação, ao passo que descreve ao leitor a notícia do jornal Folha Online, na edição de 18 de outubro de 2005. Após relatar que uma dupla assaltou uma joalheira e escolheu relógios para levar, o narrador faz uma reflexão acerca da notícia. O que pode ainda ser enfatizado sobre a crônica é a que a notícia de jornal que é exposta no início do texto de Scliar é sucinta e objetiva: apenas relata o fato, respondendo as seis perguntas essenciais que o lide (ou lead) jornalístico9 deve responder: quem? o 9 Costa (2002) ressalta que o Lead está relacionado ao jornalismo com a pirâmide invertida. Nas palavras do autor: “Ao contrário da narrativa denominada “nariz de cera”, que pressupõe a descrição 28 que? Como? Quando? Onde? e Por quê? Já no restante do texto, os aspectos supracitados, tais como a linguagem não estar restrita ao objetivismo dos repórteres e redatores, a linguagem conotativa e a riqueza dos detalhes são explorados pelo narrador. Dessa forma, o autor conta ao leitor o que o repórter não poderia expressar na notícia, pois estaria contrariando outro princípio básico do jornalismo informativo, que é não dar a sua opinião. Isso porque, na linguagem jornalística, a opinião do repórter não pode ficar evidente, é preciso que a imparcialidade prevaleça.10 Com vistas à linguagem utilizada por cronistas, Candido (1989) distingue a que é utilizada por cronistas e pela literatura: O problema é que a magnitude do assunto e a pompa da linguagem podem atuar como disfarce da realidade e mesmo da verdade. A literatura corre com frequência este risco, cujo resultado é quebrar no leitor a possibilidade de ver as coisas com retidão e pensar em consequência disto. Ora, a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas, sobretudo porque quase sempre utiliza o humor. A crônica está ligada às premissas mencionadas pelo estudioso justamente por não ter pretensões de durar, ela é, como enfatiza Candido (1989), filha das máquinas, onde tudo acaba depressa. Por abrigar as peculiaridades de um veículo transitório e híbrido (entre o jornalismo e literatura), o autor a define como o intuito não de escritores que pensam em “ficar”, mas sim em sua relação com a simplicidade, ou nas palavras do autor: “a dos que escrevem do alto da montanha, mas do simples rés-do-chão.” (CANDIDO, 1989) Isso posto, é possível ressaltar que a transitoriedade da crônica entre os campos da literatura e do jornalismo permite a esse gênero a construção de peculiaridades singulares no que tange ao seu contexto de significações. Coutinho do fato jornalístico seguindo a linearidade do tempo e das circunstâncias, a pirâmide invertida, uma apropriação do jornalismo americano, prescreve que, no primeiro parágrafo da notícia, chamado lead, deve ser concentrada toda informação que permita uma rápida compreensão do enunciado – quem, o que, como, quando, onde, por quê. Assim sendo, o lead racionaliza os procedimentos e permite maior rapidez na assimilação do conteúdo, inclusive facultando eventuais cortes da matéria caso haja restrição de espaço editorial, como por exemplo, a inclusão de inserção publicitária, supostamente sem prejuízos para a compreensão do fato noticioso.” (p. 137) 10 A imparcialidade é dos princípios básicos a que os jornalistas devem ser submetidos. Mesmo que os repórteres saibam que ela não existe, é preciso demonstrar esse aspecto ao leitor. 29 (2006) destaca que desse diálogo da crônica com o jornalismo, a crônica abarcou alguns traços básicos, tais como: A sua precariedade ou transitoriedade, o seu apego ao cotidiano, a sua aparência de simplicidade – o que não quer dizer, observe-se de passagem, um desconhecimento dos recursos artísticos –, a sua urgência, a sua concisão e caráter de síntese, o seu coloquialismo e uma sintaxe mais próxima da língua falada, da oralidade, o seu cunho de diálogo com o leitor e a sua variedade de assuntos. No entanto, enquanto o jornalismo tem no fato o seu objetivo, seja para informar divulgando-o, seja para comentá-lo dirigindo a opinião, para a crônica o fato vale, nas vezes em que ela o utiliza, como meio ou pretexto, do qual o cronista retira o máximo partido, com as virtuosidades de seu estilo, de seu espírito, de sua graça, de suas faculdades inventivas. (COUTINHO, 2006, p. 48) Características como simplicidade, todavia, sem a perda da qualidade textual, caráter urgente e sintético, coloquialismo elaborado podem estar relacionados aos dois campos supracitados. Sobre a simplicidade, Costa (2010) argumenta que: A simplicidade da crônica é exigida pela definição do seu destinatário – o leitor de jornal -, pelo ambiente da escrita em que se inseriu na origem (a imprensa periódica) e pela exiguidade de espaço para seu desenvolvimento (obrigando a síntese), mas não dispensa nem ignora os recursos de toda a linguagem literária: a escrita figurativa, o ritmo adequado e significativo das frases, a captação do instante e de sua densidade, a construção de personagens que, mesmo sem espaço de aprofundamento, são delineadas com exatidão para de imediato dizerem de sua natureza ao leitor. (COSTA, 2010, p. 189) Já o caráter de urgência e síntese podem ser melhor compreendido através de suas funções complementares. A urgência ocorre na medida em que um jornal, por exemplo, possui uma suposta validade de 24 horas, já que, no dia seguinte, outros meios impressos são substituídos pelos do dia anterior. Assim, os cronistas precisam sintetizar e captar a intensidade de um assunto que possa ser esboçado no espaço que é pré-destinado a ele; e qualquer imagem ou acontecimento pode originar, nas mãos do escritor, uma elaborada reflexão acerca da condição humana. A simplicidade, o caráter urgente e sintético, a qualidade textual e o coloquialismo literário estão atrelados à linguagem. Esta também é fruto do contexto que permeia o jornalismo. Nessa esteira, o cronista é premido pela correria e pelo contexto de produção com que se faz um meio impresso. Fatores como a abrangência a diferentes públicos-alvo, com distintos níveis sociais e de escolaridade, influenciam na forma com que os cronistas utilizam a linguagem em 30 suas crônicas para fins jornalísticos. Para que todos possam captar as informações que um jornal possui, é necessário que a linguagem também seja familiar ao público receptor. Em tal perspectiva, a oralidade é presença constante nas páginas dos jornais, e, consequentemente, nas crônicas. Sobre essa característica, Sá (1999) pondera que: Por isso sua sintaxe lembra alguma coisa desestruturada, solta, mais próxima da conversa entre dois amigos, do que propriamente do texto escrito. Dessa forma, há uma proximidade maior entre as normas da língua escrita e da oralidade, sem que o narrador caia no equívoco de compor frases frouxas, sem a magicidade da elaboração, pois ele não perde de vista o fato de que o real não é meramente copiado, mas recriado. O coloquialismo, portanto, deixa de ser a transcrição exata de uma frase ouvida na rua, para ser a elaboração de um diálogo entre o cronista e o leitor, a partir do qual a aparência simplória ganha sua dimensão exata. (p. 11) O diálogo equilibra, desse modo, o coloquial e literário, permitindo que a espontaneidade e o lado sensível permaneçam como elemento importante nas crônicas, bem como acontece em conversas diárias entre dois interlocutores. Por conseguinte, são essas as sutilezas que o cronista capta para transformar seus textos, pois uma simples situação de diálogo informal ou até mesmo um tema cotidiano sem importância aparentemente podem ser transformados pelos cronistas. Sobre a informalidade, Laurito (1993) ressalta que esse elemento não se transforma em um fator negativo para a crônica, fazendo com que o gênero perca a sua essência, que é estar permeada com o comprometimento social. De acordo com o estudioso, as crônicas só representam ser fáceis: Gênero aparentemente – e só aparentemente – fácil, a crônica exige uma espécie de descompromisso do autor no tratamento do assunto, que deve ser abordado de forma ligeira e atraente para o público leitor; por outro lado, esse suposto descompromisso do cronista – sujeito comprometidíssimo com o seu ofício – não implica mediocrização do texto. É o talento do autor que vai dar estatura maior a um gênero comumente considerado um modo menor de ficção. (LAURITO, 1993, p. 27-28) Apesar da construção de raciocínio acerca das principais características que as crônicas possuem, a sua relação e a vulnerabilidade entre os campos do jornalismo e literatura tornam a sua conceituação complexa. Laurito (1993) atribui uma premissa a essa ótica: E que, nesse primeiro esboço, o que se torna claro, a partir dos folhetinistas do século XIX é que uma das maiores dificuldades do gênero parece residir 31 no caráter dúplice de literatura e jornalismo, ou melhor, de literatura jornalística profissionalmente empenhada. (LAURITO, 1993, p. 21) Já para Bender (1993), a difícil conceituação do gênero incorre da sua falta de restrição quanto aos temas: “Não há restrição de assunto para a crônica, talvez para compensar o pouco espaço. E essa total liberdade, também quanto à estrutura, faz ser difícil a sua conceituação.” (p. 44). A ambiguidade é intensa nas crônicas, elas podem ser ao mesmo tempo simples e paradoxalmente complexas. No tocante ao problema em apreço, elas podem, ainda, ser vários gêneros textuais em uma só vez: A estrutura da crônica é uma desestrutura; a ambiguidade é a sua lei. A crônica tanto pode ser um conto, como um poema em prosa, um pequeno ensaio, como as três coisas simultaneamente. O que interessa é que a crônica, acusada injustamente como um desdobramento marginal ou periférico do fazer literário, é o próprio fazer literário. E quando não o é, não é por causa dela, a crônica, mas por culpa dele, o cronista. Aquele que se apega à notícia, que não é capaz de construir uma existência além do cotidiano, este se perde no dia a dia e tem apenas a vida efêmera do jornal. Os outros transcendem e permanecem. (BENDER, 1993, p. 53) A linha tênue que separa literatura e jornalismo na crônica também prenuncia a fronteira entre as crônicas e o gênero conto. Nesse sentido, Sá (1999) ressalta que a fronteira divisória apresenta algumas peculiaridades de cada um dos gêneros: Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, sem ter sequer a preocupação de colocar-se na pele de um narrador, que é, principalmente, personagem ficcional (como acontece nos contos, novelas e romances). Assim, quem narra uma crônica é o seu autor mesmo, e tudo que ele diz parece ter acontecido de fato, como se nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem. (SÁ, 1999, p. 09) Mesmo que a crônica não possua a densidade dos contos, existe a liberdade por parte dos cronistas, que podem transmitir a aparência da superficialidade para desenvolver seu tema, a partir da simplicidade. Contudo, essa simplicidade – já que a linguagem utilizada nos veículos de comunicação, por abranger muitos públicos, tem como característica a presença de elementos mais informais – não significa, “desconhecimento das artimanhas artísticas.” (SÁ, 1999, p. 10). Pelo contrário, “nesse contexto, a crônica também assume essa transitoriedade, dirigindo-se 32 inicialmente a leitores apressados, que leem nos pequenos intervalos da luta diária.” (SÁ, 1999, p. 10) Além disso, os contos e as crônicas diferem-se, já que os primeiros, mesmo com temáticas específicas da época em que são construídos, denotam um caráter de atemporalidade, tornando-se, assim, como parte constitutiva para a memória do período em que estão inseridas. De maneira análoga, Costa (2010) reforça a diferença do gênero que se volta para a literatura – o conto para a crônica que está no limiar entre o jornalismo e a literatura -, na medida em que a primeira possui maior transitoriedade temporal do que o conto, justamente pelo cronista retirar seus assuntos da vida cotidiana. Com vistas à melhor compreensão da crônica, Marques (2009) auxilia na conceituação: Gênero em prosa, próximo da elocução verbal que expressa a realidade da alma do artista; é breve, vem da experiência e nasce ante o impacto da realidade; é efêmero, usa fatos miúdos e sem importância como matéria prima e seu meio é o jornal. Contudo, somente permanecerá, a despeito da efemeridade de seu veículo, quando for dotada de qualidades literárias patentes. Além disso, usa da interlocução direta, sem artifícios narrativos para dialogar com o leitor. (p. 14) É frequente o narrador da crônica dirigir-se diretamente para o leitor, mantendo assim um diálogo aberto, como pode ser atestado através de uma crônica que Caio publicou no dia seis de abril de mil novecentos e oitenta e seis, no Jornal O Estado de São Paulo: É que fatalmente eu/tu/ele/nós vamos lembrar. E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou seriam boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado pela memória e refletido no tempo presente – agora –, parece sempre melhor. E teria mesmo sido? (ABREU, 2012, p. 17) O assunto cotidiano e simples sobre o dia a dia faz com que o escritor mantenha um diálogo em que pode não ser correspondido em seus questionamentos. A década de 1990 no Brasil não possuía ainda as ferramentas tecnológicas atuais, em que os escritores podem ver as respostas quase que instantaneamente ao publicar seus textos. No entanto, mesmo sem obter respostas deste que Caio chama de você, o que inclui a qualquer um que ler seus textos, o autor mantém a linguagem dialógica com seus leitores. 33 O estudioso Coutinho (2006) destaca um dos aspectos que está presente de forma constante nas crônicas de uma forma geral e nos textos de Caio: o engajamento com temas que refletem a sociedade: E não falta à crônica preocupação social, filtrada pelo viés poético de um observador e crítico atento, que busca, com humor mordaz, denunciar o contexto em que vive. Em sua aparente simplicidade e com a atenção voltada para o “miúdo” da vida, o cronista vai retratando o espírito de seu tempo, e oferece ao leitor fragmentos metonímicos de sua situação no mundo. Seu universo, composto de fragmentos, se estende do registro do voo de um pássaro ou do desabrochar de uma flor à mais densa reflexão sobre o estar no mundo, e com sua pena ele constrói, como um flâneur, a memória de seu tempo e lugar. Aliás, como este último, o cronista é, sobretudo, o observador da cidade, que ele capta em fragmentos no seu aqui e agora. (COUTINHO, 2006, p. 51) Além da importância para o meio social como um gênero que se consolida na medida em que se torna uma memória de suas classes e conversa com seus leitores, outro aspecto, como já dito, pode ser levado em conta nas crônicas: a linguagem. Por conter características, tais como a informalidade, diálogo aberto com o leitor e a representação do dia a dia, acerca do que está ocorrendo na sociedade, as crônicas formam uma espécie de memória sobre o período em que estão inseridas. Nesse contexto, Caio, ao publicar seus textos nos jornais, aproximou-se de seus leitores, dividiu com estes suas angústias, exprimiu seus pensamentos, formando, assim, uma memória deste tempo que esteve ao lado daqueles que estavam recebendo suas narrativas. Nesse sentido, Bender (1993) ressalta que a memória é um dos espaços da crônica: Na crônica, espaço e tempo se confundem muitas vezes, assim como em outros gêneros narrativos; são também inseparáveis da ação. É bom destacar que a crônica, pode ser mais reflexiva, humorística, ainda quando do tipo narrativo, não é muito propícia à ação de muito movimento. (p. 71) Outra forma de ressaltar a presença da memória nas crônicas é transportá-las para os livros, haja vista que assim o caráter rememorativo do gênero passa a se consolidar. Sobre esse aspecto Sá (1999) afirma: Na ultrapassagem do jornal para o livro, atenua-se o vínculo circunstancial e elimina-se a referência às demais matérias e à própria diagramação. Com isso, o texto adquire maior independência, e o leitor fica estimulado a buscar, no seu próprio imaginário, todas as associações possíveis. (p. 83) 34 Uma vez publicada em um livro a crônica minimiza a circunstancialidade e se torna mais duradoura, já que aqueles textos que se relacionam ao circunstancial não serão os escolhidos para se encaixar em uma coletânea. Sobre essa ótica, Sá (1999) destaca: “No momento que a crônica passa do jornal para o livro, temos a sensação de que ela superou a transitoriedade e se tornou eterna.” (p. 85) É de grande valia a figura como a dos cronistas, não somente para assuntos que fazem parte do rol de manchetes diárias, mas também para reconstruir a memória de uma sociedade. São através das histórias recontadas pelos narradores-repórteres11 que o caráter rememorativo não se perde. Sobre a importância da figura como a dos cronistas, Bosi (2001) argumenta com vistas a consolidar, através das crônicas, os pensamentos dos indivíduos que cercam a sociedade, para que as lembranças não fiquem à mercê de uma pequena elite: “destruindo os suportes materiais da memória, a sociedade capitalista bloqueou os caminhos da lembrança, arrancou seus marcos e apagou seus rastros.” (BOSI, 2001, p. 19) É imperioso considerar sobre a argumentação do estudioso que a crônica figura como um registro em uma sociedade fragmentada que é pautada mais pelo caráter de urgência do que propriamente pelas lembranças que os indivíduos podem resgatar. Nesse sentido, alguns autores contribuem para a fixação da crônica na sociedade, cultivando, assim, o caráter de atemporalidade que caracteriza grande parte dos textos do gênero, tornando a memória como parte constitutiva das crônicas. Na próxima seção, abordamos como as particularidades do gênero estão cultuadas em distintos autores e quais são os escritores que deixaram suas marcas para que este gênero estivesse consolidado no Brasil. 1.3. A crônica e seus autores: um pequeno esboço da crônica brasileira O caráter híbrido da crônica resultante da mescla da literatura com o jornalismo transforma-se em um gênero de difícil conceituação. Por outro lado, algumas peculiaridades que são inerentes a elas facilitam a sua compreensão. O caráter de atemporalidade que marca algumas crônicas torna a memória como parte integrante das crônicas, a simplicidade, o caráter sintético e urgente, o coloquialismo 11 Termo utilizado por Sá (1999) para denominar os cronistas. 35 elaborado e a oralidade são apenas algumas particularidades deste gênero que se tornou presente na vida de tantos escritores. É oportuno observar ainda outra importante especialidade da crônica, que é a habilidade peculiar que predispõe o cronista a captar com maior intensidade os sinais da vida que nem sempre são apreendidos pelos leitores. Nas vias da interpretação, o narrador-repórter repensa a situação da razão com a emoção, e essa ação de repensar é intitulada por Sá (1999) como lirismo reflexivo. Esse traço, segundo o autor, está presente nas crônicas do escritor Rubem Braga, como pode ser observado em sua crônica “O pavão”: Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico. (BRAGA, 1962, p. 149)12 O autor escreve sobre um pavão, e a simplicidade do tema é exaltada pelo toque de lirismo reflexivo. Na medida em que Rubem Braga escolhe o pavão como sua matéria-prima e vai dela às cores, ao grande artista e ao amor, ele está perfazendo o caminho dos escritores nas redações dos jornais no século XIX: transformando a simplicidade dos vocábulos para incitar os leitores a se portarem como mais ativos e reflexivos acerca do que está sendo escrito. Autores como Rubem Braga instigaram ainda mais a forma de fazer crônica justamente pela literariedade de seus textos. Ademais, de maneira geral, podemos afirmar que as características que auxiliam na conceituação das crônicas, tais como caráter urgente e sintético, simplicidade, qualidade textual, coloquialismo elaborado e caráter de atemporalidade, podem ser reconhecidas na crônica de Braga. O autor de “O Pavão” sofreu influência de outros escritores, como Manuel Bandeira e João Rio, e, conforme explica Sá (1999), esses são considerados como antecessores de todos 12 Texto extraído do livro Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga. p. 149. 36 os cronistas brasileiros. Sobre Rubem Braga, Sá (1999) assegura que ele ocupa lugar de destaque na literatura: Sua opção é ainda mais corajosa porque, vivendo num país de frases bombásticas, ele cumpre a principal característica do escritor: o despojamento verbal, que implica uma construção ágil, direta, sem adjetivações. Novamente a pressa de viver confere ao narrador-repórter uma característica que se transfere para a narrativa curta por ele produzida, que é a simultaneidade do ato de escrever com o ato de eliminar os excessos. (SÁ, 1999, p. 13) A liberdade de que goza o cronista acaba permitindo que, por vezes, transcenda o meramente factual e faça um texto com alto teor literário, com a qualidade que se espera de uma obra-prima (BENDER, 1993). Rubem Braga é considerado por Bender (1993) como o cronista-mor da modernidade. A autora pondera que “com ele o gênero alçou um voo constante e definitivo. Começou a ter fama como correspondente de guerra na Itália e nem por isso perdeu as peculiaridades de seu estilo brasileiro.” (p. 49). Braga representa, para a crônica, a transposição do estilo jornalístico para o literário, aprimorando, assim, este gênero que se consolidou no Brasil. Bender (1993) ressalta que Braga é considerado o pioneiro da crônica contemporânea, “difícil um texto seu não ter se tornado antológico e não pertencer a um livro didático.” (p. 49) . Além de Rubem Braga, Sá (1999) cita outros nomes que merecem destaque frente à sensibilidade com as crônicas. Fernando Sabino utiliza a metalinguagem para demonstrar que a crônica exerce, sim, a inspiração, mas, acima de tudo, seleciona e pesquisa seus conteúdos. Sá (1999) defende a ideia de que, “a crônica deve escolher um fato capaz de reunir em si mesmo o disperso conteúdo humano, pois só assim ela pode cumprir o antigo princípio da literatura: ensinar, comover e deleitar.” (SÁ, 1999, p. 22) É partir do conteúdo que Sabino procura ensinar os leitores, através da ação que as palavras possuem, que a vida tem mais sentido quando compartilhada. Outra característica que Sabino emprega é o distanciamento para manter um diálogo com os leitores de suas crônicas. Esse distanciamento é uma estratégia utilizada para ficar mais à vontade e explorar o humor das situações. Para exemplificar a forma com que Sabino se dirige para seus leitores e a essência de seus textos, pode ser feita referência ao seu texto “A Última Crônica”. O autor inicia contando sobre seu trajeto rotineiro: 37 A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica. (SABINO, 1965, p. 174) Nesse momento, o narrador afirma que vê ao fundo do botequim um casal de “pretos” que acaba de se sentar em uma das últimas mesas ao longo de uma parede de espelhos. O escritor cria o ambiente para que o leitor possa se situar e continua narrando sobre as características destas pessoas: “A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre.” (SABINO, 1965, p. 174). A menina e seus pais compõem o cenário de observação do narrador: “Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome. Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma.” (SABINO, 1965, p. 174) Então, o homem atrás do balcão apanha uma porção de bolo, que é descrito pelo narrador em detalhes: é amarelo-escuro em uma fatia triangular: “A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual.” (SABINO, 1965, p. 174) O narrador passa a observar cada movimento da família, e a narrativa passa a girar em torno dos detalhes: A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim. São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põese a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os 38 pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura -- ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido -- vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso. (SABINO, 1965, p. 174)13 Em uma reflexão superficial sobre a crônica de Sabino, é possível perceber que o narrador de seu texto confidenciou com seus leitores um problema que estava lhe incomodando, a falta de inspiração para escrever. No mesmo passo, ele utiliza um fato pessoal de seu cotidiano e transforma o seu olhar de escritor, as suas reflexões, em cada palavra que é escolhida para elaborar o texto. O seu testemunho é o que clarifica a simplicidade do relato dos fatos, que versam sobre o aniversário de uma pessoa que até então era desconhecida. No entanto, quando ele resolve contar a história dessa menina, ela passa a ser conhecida não só do escritor, mas sim de todos aqueles que estão lendo sua crônica. Na narrativa, está ainda a evidência da rotina a que Sabino é submetido, pois, mesmo sem estar inspirado para escrever, ele precisa adaptar-se ao caráter urgente e sintético do gênero e encontrar um tema que prenda a atenção de seu leitor. Com relação ao contexto dos autores que, assim como Sabino, auxiliaram, através de suas crônicas, na significação e em uma melhor conceituação do gênero, Sá (1999) cita outro narrador-repórter: Sérgio Porto. O humor que apareceu nos poemas satíricos de Gregório de Matos reaparece dessa vez nos escritos de Porto. Ele é o criador de Stanislaw Ponte Preta, o seu pseudônimo nas crônicas publicadas. Sá (1999) o descreve como: Sérgio Porto traz a luz o Stanislaw Ponte Preta para retomar a linhagem dos cronistas mundanos que sabem registrar a vida cotidiana, e, acima de tudo, para criticar aquele tipo inculto que inventava “palavras e expressões como ‘piu-piu’, ‘champanhota’, ‘fúria louca’, ‘bola branca’, ‘flor azul’ e outras baboseiras.” Infelizmente Stanislaw não conseguiu eliminar esse tipo – ele ainda existe -, mas soube analisá-lo através do riso popular, caricaturando (se é possível fazer caricatura de uma caricatura) o mais conhecido cronista 13 Texto extraído do livro A Companheira de Viagem, de Fernando Sabino (1965). p. 174. 39 mundano, verdadeiro símbolo do festival de besteira que ainda hoje esse país. (SÁ, 1999, p. 31) Fazendo o leitor rir, Porto demonstra, através de seus escritos, que um cronista com qualidades negativas contribui para o enfraquecimento da língua. Além disso, outra carga que está presente na forma com que Porto escreve é demonstrar que o jornalismo também é uma forma de literatura para registrar os acontecimentos, mesmo que seja através do riso. Sobre o humor, Sá comenta: “O humor portanto, assume a função de recuperar a poesia, confirmando que a crônica e seu contexto jornalístico são uma realização literária sempre.” (SÁ, 1999, p. 33). Além do humor, Ponte Preta ficou famoso, de acordo com Bender (1993), pela leveza carioca da linguagem, pela transcrição da oralidade da fala maliciosa, a malandragem que usava nas crônicas e pelo tom coloquial. Sérgio Porto se esconde ainda por trás de seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta e através de suas características primordiais já citadas: humor e ironia. Seguindo outra tendência de crônicas acerca do humor, estão as do autor que é citado por Sá (1999), Lourenço Diaferia. Este é mais voltado ao banal e focaliza acontecimentos mais efêmeros. De acordo com Sá (1999), esses acontecimentos são narrados em textos organizados de forma que não haja lacunas que possam impedir o leitor de visualizar a totalidade de ciência. Da mesma forma que Diaferia, outros cronistas podem ser citados por representarem as peculiaridades das crônicas, tais como Paulo Mendes Campos e Heitor Cony. No primeiro, de acordo com pareceres de Sá (1993), muitas de suas crônicas se aproximam do poema em prosa. Já Carlos Heitor Cony possui representação tanto na literatura quanto no jornalismo. Souza (2009) declara que, após o golpe militar de 1964, Cony se tornou o primeiro jornalista a se manifestar contra o regime ditatorial: “A partir daí foi como se a carreira profissional tanto de jornalista como de romancista enveredasse com vigor para temas políticos”. (2009, p. 23). É importante ser lembrado ainda que o lugar de cada um desses autores neste estudo deve-se pela forma com que abordam a crônica. Pelo mesmo viés, outros dois nomes que devem estar inseridos nesse rol são Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes. A principal característica de Carlos Drummond de Andrade também está nas crônicas, até neste gênero o autor faz poesia, contudo Sá (1999) alerta que isso ocorre porque ele conhece bem os dois gêneros: 40 Dizer que a poesia está presente nas crônicas de Carlos Drummond de Andrade pode até parecer redundância. Afinal, em tudo que ele escreve – seja sob a forma de poema ou de narrativa curta – existe a magia da síntese, o ritmo adequado, o jogo de imagens e o fino humor que nos revela o desgaste da vida e a sua renovação. Mas o fato de ser ele um dos maiores poetas brasileiros não o obriga a fazer poesia quando escreve prosa: se isso acontece é porque Drummond conhece bem os deslimites dos gêneros. (SÁ, 1999, p. 65) Além dos aspectos ressaltados por Sá (1999) - magia da síntese, ritmo adequado, jogo de imagens e o fino humor que revela o desgaste da vida e sua renovação -, outras premissas podem ser observadas nas crônicas de Drummond, como enfatiza Silva (2006): “Ao focalizar cenas do cotidiano de grandes centros urbanos, Drummond, sob a graça do riso, traz à tona flagrantes da miséria humana.” (p. 171). As cenas dos grandes centros estão presentes, como afirma Sá (1999) na obra Cadeira de Balanço: “Ao dividir o seu livro Cadeira de Balanço em oito seções, chamou cada uma delas de ‘Cariocas’, aí focalizando os temas onde o núcleo gerador é a relação invisível mas real entre o morador e sua cidade.” (p. 69) Ao tematizar o livro acerca da expressão “Cariocas”, a cidade do Rio de Janeiro é representada na crônica “A cidade sem meninos.” De acordo com Sá (1999), nessa narrativa, está presente a denúncia da ausência de crianças nos centros urbanos, como um dos índices de desenvolvimento: As casas familiares são substituídas por casas comerciais, hoje mais habitadas pela inflação do que propriamente por funcionários e clientes. A vida se transforma e empurra os meninos para outros espaços, eliminando sua lúdica presença desses pontos que se expandem e ameaçam tomar conta de tudo, uma vez que é bem grande o número de edifícios de apartamentos com lojas no andar térreo. Família e comércio se misturam, falta uma clareira para as crianças brincarem, as pessoas envelhecem mais depressa. (p. 70) Na mesma perspectiva, o cronista-poeta, como intitula Sá (1999), não fantasia as sensações dos centros urbanos, mas sim as registra através das crônicas, utilizando recursos estilísticos, contudo sempre lembrando que a crônica oscila entre o imaginado e o que realmente existe. Assim como Drummond, Vinicius de Moraes também utiliza como principal ferramenta em suas crônicas a representação da vida. Acerca dessa premissa, Sá (1999) afirma: 41 Enquanto o ficcionista tem o direito de criar acontecimentos, pessoas, datas, locais, etc., em função de uma verossimilhança que consiste na coerência interna do próprio texto, o cronista deve “injetar um sangue novo” em “um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou de véspera”, trabalhando, pois, com um conceito de verossimilhança que liga a coerência interna do texto à coerência do fato comprovadamente acontecido. A partir desse real que não foi inventado pelo cronista é que ele injetará sangue novo no relato; isto é, usando “as artimanhas peculiares” ultrapassará os limites do real como é visto por todos nós e alcançará uma dimensão mais profunda: a essência mesma daquilo que o sujeito busca ao recriar um objeto. Nesse momento, o “prosador do cotidiano” também faz ficção. (p. 74) É no sentido do hibridismo da literatura com o jornalismo que, assim como Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade mescla as duas áreas. O relato dos fatos do cotidiano relaciona-se às premissas jornalísticas, já a subjetividade, que se pauta no lirismo através de um jogo expresso e o silêncio do discurso, entre o que está renomeado e a forma de representação, está em consonância com o produzir literatura. No que tange ao subjetivismo e a relação deste com o cronista, Sá (1999) afirma: “em suma: o subjetivismo como forma de apreensão do ser.” (p. 76) No entanto, mesmo com a gama de traços que permeiam as crônicas, elas precisam ser lidas através de um espírito crítico, tal como Sá (1999) chama atenção: “A crônica, apesar de sua aparente simplicidade – só pode ser valorizada quando a lemos criticamente, descobrindo sua significação.” (p. 79). Nesse sentido, as particularidades que compõem a crônica são melhor compreendidas se atreladas à sua interpretação, como alerta Sá (1999), já que o leitor assume um papel crucial na construção de sentidos para as crônicas. Ainda sobre a crônica no Brasil, o pesquisador Francismar Ramírez Barreto, em sua dissertação de mestrado, enfatiza a relação de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes e Fernando Sabino e outros nomes que estiveram em consonância com a crônica para melhor representar a importância do gênero frente à história da literatura no Brasil. Ele inicia por Machado de Assis, que, para o estudioso, mantém uma relação analítica com a imprensa em meados do século XIX. Ele cita ainda autores que atestam a credibilidade de Assis frente ao gênero: Pelo talento que demonstra para tecer os fios invisíveis da sociedade (uma sociedade que parece querer se ocultar), por fazer evidentes as tensões histórico-sociais, pelo sentido crítico ante a construção das informações, por fazer uso de um espírito lúdico, por ter desmistificado a burguesia nacional e por haver anulado alguns vícios do jornalismo do século XIX (como a manipulação por meio da retórica ou o emprego de falsos recursos poéticos), Afrânio Coutinho, José Marques de Melo, Cristiane Costa, Eduardo Portella e Wellington Pereira coincidem ao colocar o texto 42 machadiano como um dos que confere personalidade ao gênero no Brasil e ao autor (Machado) como uma espécie de mito fundador da literatura brasileira. (BARRETO, 2007, p. 50) Machado de Assis, como ressalta Barreto (2007), confere personalidade à crônica no Brasil, e sua crônica dialoga de forma constante e direta com os seus leitores. Essa característica pode ser exemplificada na crônica publicada originalmente na Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro, em 1888. O título do texto é “5 de abril”, e o autor inicia a crônica com a saudação, “bom dia”, já ao finalizar ele não assina e tampouco faz menção a uma despedida formal, simplesmente, para avisar ao leitor que terminou, acrescenta: “boas noites”. Com vistas ao diálogo com o leitor, essa perspectiva é percebida desde as primeiras palavras: Hão de reconhecer que sou bem criado. Podia entrar aqui, chapéu à banda, e ir logo dizendo o que me parecesse; depois ia-me embora, para voltar na outra semana. Mas, não senhor; chego à porta, e o meu primeiro cuidado é dar-lhe os bons dias. Agora, se o leitor não me disser a mesma coisa, em resposta, é porque é um grande malcriado, um grosseirão de borla e capelo; ficando, todavia, entendido que há leitor e leitor, e que eu, explicando-me com tão nobre franqueza, não me refiro ao leitor, que está agora com este papel na mão, mas ao seu vizinho. Ora bem! (ASSIS, 1983) Com o fragmento, é possível observar a forma com que o escritor mantém as relações com o leitor. “Senhor” e “leitor” são os termos que o narrador utiliza para denominar aquele que está lendo, além disso, Assis até mesmo faz menção de querer brigar com o leitor se não lhe respondesse, chamando-o de “malcriado”, “grosseirão de borla e capelo”. Além desse diálogo entre narrador e leitor, a linguagem é outra grande marca de Assis: Feito esse cumprimento, que não é do estilo, mas é honesto, declaro que não apresento programa. Depois de um recente discurso proferido no Beethoven, acho perigoso que uma pessoa diga claramente o que é que vai fazer; o melhor é fazer calado. Nisto pareço-me com o príncipe (sempre é bom parecer-se a gente com príncipes, em alguma coisa, dá certa dignidade, e faz lembrar um sujeito muito alto e louro, parecidíssimo com o Imperador, que há cerca de trinta anos ia a todas as festas da Capela Imperial, pour étonner de bourgeois; os fiéis levavam a olhar para um e para outro, e a compará-los, admirados, e ele teso, grave, movendo a cabeça à maneira de Sua Majestade. São gostos) de Bismark. O príncipe de Bismark tem feito tudo sem programa público; a única orelha que o ouviu, foi a do finado Imperador, — e talvez só a direita, com ordem de o não repetir à esquerda. O Parlamento e o país viram só o resto. (ASSIS, 1983) A forma com que Machado de Assis utiliza a linguagem e a escolha lexical de sua narrativa é peculiar ao contexto em que o autor está inserido. Nesse sentido, é 43 válido considerar que os temas também se voltam a esse contexto, e, para exemplificar isso, enquanto Caio, por exemplo, cita, em suas crônicas, a cantora Rita Lee, Machado de Assis faz menção a Beethoven. Essa distinção é um processo natural também acerca das temáticas, que podem ser distintas ao longo dos séculos. A narrativa prossegue com as explicações de que autor e leitor se encontrarão uma vez por semana, e a forma com o que o autor utiliza a linguagem metafórica representa a literariedade da crônica: Portanto, bico calado. No mais é o que se está vendo; cá virei uma vez por semana, com o meu chapéu na mão, e os bons dias na boca. Se lhes disser desde já, que não tenho papas na língua, não me tomem por homem despachado, que vem dizer coisas amargas aos outros. Não, senhor; não tenho papas na língua, e é para vir a tê-las que escrevo. Se as tivesse, engolia-as e estava acabado. Mas aqui está o que é; eu sou um pobre relojoeiro, que, cansado de ver que os relógios deste mundo não marcam a mesma hora, descri do ofício. A única explicação dos relógios era serem iguaizinhos, sem discrepância; desde que discrepam, fica-se sem saber nada, porque tão certo pode ser o meu relógio, como o do meu barbeiro. (ASSIS, 1983) Assim como os outros cronistas, Assis também descreve a sua intimidade através da crônica, pois conta aos seus leitores que irão estar juntos uma vez por semana no espaço do jornal, mas também já os deixa informados de que, através de suas crônicas, poderão encontrar assuntos polêmicos, já que ele “não tem papas na língua.” O texto tem prosseguimento quando o narrador explica por que abandonou seu ofício: Um exemplo. O Partido Liberal, segundo li, estava encasacado e pronto para sair, com o relógio na mão, porque a hora pingava. Faltava-lhe só o chapéu, que seria o chapéu Dantas, ou o chapéu Saraiva (ambos da chapelaria Aristocrata); era só pô-lo na cabeça, e sair. Nisto passa o carro do paço com outra pessoa, e ele descobre que ou o seu relógio está adiantado, ou o de Sua Alteza é que se atrasara. Quem os porá de acordo? Foi por essas e outras que descri do oficio; e, na alternativa de ir à fava ou ser escritor, preferi o segundo alvitre; é mais fácil e vexa menos. Aqui me terão, portanto, com certeza até à chegada do Bendegó, mas provavelmente até à escolha do Sr. Guaí, e talvez mais tarde. Não digo mais nada para os não aborrecer, e porque já me chamaram para o almoço. (ASSIS, 1983) O contexto em que Assis está inserido novamente aparece de forma clara na crônica, em 1888, quando o regime a que o escritor estava submetido não era democracia, mas sim a monarquia, por isso a recorrência de reis e rainhas em suas crônicas. O autor termina a crônica, comentando sobre a sua falta de familiaridade 44 com o meio impresso e que, por ser a primeira crônica, ele ainda não sabe o quanto escrever: Talvez o que aí fica, saia muito curtinho depois de impresso. Como eu não tenho hábito de periódicos, não posso calcular entre a letra de mão e a letra de forma. Se aqui estivesse o meu amigo Fulano (não ponho o nome, para que cada um tome para si esta lembrança delicada), diria logo que ele só pode calcular com letras de câmbio — trocadilho que fede como o Diabo. Já falei três vezes no Diabo em tão poucas linhas; e mais esta, quatro; é demais. (ASSIS, 1983, s.p.) A linguagem, os assuntos, a forma com que Assis se expressa são pertinentes, como já registrado, ao seu contexto de produção. Esses aspectos permitem deduzir as transformações que a crônica foi sofrendo ao longo dos anos. Para melhor compreender essa evolução, é possível citar outros autores, que já foram mencionados nesse estudo, tais como José de Alencar, que se consagra como um dos primeiros cronistas nacionais da segunda metade do século XIX. Sobre as crônicas de José de Alencar, Paranese (1998) observa que um dos traços relevantes são os temas que o escritor aborda: O cronista comporta-se na escrita como flâneur pelas ruas da cidade. Sem fixar-se em nenhum assunto, Alencar revoluteia entre as difíceis questões políticas, jurídicas, econômicas, delas saltando para o espetáculo da vida mundana: bailes, passeios, comemorações, festejos, os espetáculos líricos. (...) Dois são, no entanto, os assuntos que mais se ocupa: a política e o teatro lírico. Escritas a partir de uma intensa participação na vida social de seu tempo, as crônicas de Alencar nunca abandonam as “louçanias do estilo”, muito embora o flagrante à vontade com que o escritor se dirige a seus destinatários, especialmente suas leitoras, que ele as sabe em maioria. (PARAENSE, 1998, p. 33) Após José de Alencar, vieram Joaquim José da França Junior e Joaquim Manuel Macedo. Se o sentido genérico da palavra crônica for utilizado – como registro de uma comunidade ou época, ainda outros exemplos podem ser ressaltados, tais como O Ateneu, de Raul Pompeia, A Moreninha, de Joaquim Manuel Macedo, Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio Almeida. Essas obras podem ser designadas, como ressalta Laurito (1993), como crônicas de costume, já que fixam, cada obra em seu contexto, tipos, hábitos e usos da sociedade do Rio de Janeiro em tempos passados. Acerca das transformações das crônicas, se Machado de Assis é contemporâneo ao século XVIII, Olavo Bilac pode ser citado como referência às 45 transformações do gênero no século XIX. Sobre o autor e o contexto no qual o gênero se firma, Candido (1989) afirma: A leitura de Bilac é instrutiva para mostrar como a crônica já estava brasileira, gratuita e meio lírico-humorística, a ponto de obrigá-lo a amainar a linguagem, descascá-la dos adjetivos mais retumbantes e das construções mais raras, como as que ocorrem na sua poesia e na prosa das suas conferências e discursos. Mas que encolhem nas crônicas. É que nelas parece não caber a sintaxe rebuscada, com inversões freqüentes; nem o vocabulário “opulento”, como se dizia, para significar que era variado, modulando sinônimos e palavras tão raras quanto bem-soantes. Num país como o Brasil, onde se costumava identificar a superioridade intelectual e literária com grandiloqüência e requinte gramatical, a crônica operou milagres de simplificação e naturalidade, que atingiram o ponto máximo nos nossos dias. (s/d) Sobre o estilo, formas e conceitos da crônica, o estudioso prossegue suas explanações, ressaltando que um dos grandes prestígios da crônica moderna é, então, o sintoma do progresso acerca na busca por uma oralidade escrita: Na quebra do artifício e aproximação com o que há de mais natural no modo de ser do nosso tempo. E isto é humanização da melhor. Quando vejo que os professores de agora fazem os alunos lerem cada vez mais as crônicas, fico pensando a importância deste agente de uma visão mais moderna na sua simplicidade reveladora e penetrante. (CANDIDO, 1989) Na medida em que as crônicas possuem as particularidades supracitadas pelo estudioso, é imperioso considerar que, por ser um gênero presente tanto na literatura quanto no jornalismo, outros nomes podem ser ressaltados conforme atesta Barreto (2007), que, nessa perspectiva, faz referência a Lima Barreto, João do Rio com sua crônica-reportagem, Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Rachel de Queiroz, e até mesmo as recentes personalidades (algumas já citadas), Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Carlos Heitor Cony, Otto Lara Resende, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Luis Fernando Veríssimo, José Carlos Oliveira, Lourenço Diaféria, Mario Prata, Elsei Lessa, Ivan Ângelo, Ivan Lessa, João Antonio, Zuenir Ventura, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, Antônio Maria, Ferreira Gullar, Moacyr Scliar, Fabricio Carpinejar, Danuza Leão e, não menos importante, Caio Fernando Abreu. 46 Quanto aos escritores, Candido (1989), considerando a evolução e a transformação que a crônica foi sofrendo ao longo dos séculos, menciona a ideia de que há um traço comum entre esses autores: Deixando de ser comentário mais ou menos argumentativo e expositivo, para virar uma conversa aparentemente fiada, foi como se a crônica pusesse de lado qualquer seriedade no tratamento de problemas. É curioso como elas mantêm o ar despreocupado, de quem está falando de coisas sem maior consequência e, no entanto, não apenas entram fundo no significado dos atos e sentimentos do homem, mas podem levar longe a crítica social. (CANDIDO, 1989) Tomando-se como referência a proposição de Candido (1989) acerca de a crônica construir a crítica social, Caio reproduz essa prerrogativa em suas narrativas, na medida em que trata dos assuntos com o “ar despreocupado”, e assim seu texto mostra-se atento a uma das observações de Candido (1989). O escritor utiliza o subjetivismo no sentido que é entendido por Sá (1999) e que já fora citado neste estudo, “como apreensão do ser” (p. 76), dessa forma, a crítica social aliada à compreensão dos fatos cotidianos, com a representação dos “homens” pode ser verificada de maneira notória nas narrativas de Caio. Isso posto, é sobre Caio que o próximo tópico trata, observando-se ainda os traços de suas narrativas, focalizando como o escritor construiu seus textos, a forma com que apresenta suas obras tanto na prosa, quanto na novela, romance e por fim a crônica. Mas, antes de conhecer os textos do autor, é válido conhecer a sua história. A seguir, faz-se uma breve apresentação de Caio e sua obra, para então abordá-lo enquanto escritor e jornalista e então ressaltar as particularidades de sua crônica, a dificuldade em encontrar uma teoria que dê conta do gênero nos escritos do autor, a forma com que está estruturada e a sua relação com a memória e a sociedade. 47 2. A NARRATIVA DE CAIO FERNANDO ABREU 2.1. A narrativa de Caio: do romance à crônica Caio é um autor que transitou entre a poesia e a prosa, escrevendo em diversos gêneros, entre eles, poemas, contos, novelas, peças teatrais, romances e crônicas. Sua carreira literária iniciou em 1966 com a publicação de seu primeiro conto, “O príncipe sapo”, na revista Cláudia. Nesse mesmo ano, o autor deu início à escritura do primeiro romance, Limite Branco14, produzido na pós-adolescência. A busca da identidade é o tema dessa narrativa. Durante a sua trajetória literária, o escritor também se dedicou a outros trabalhos, atuando como redator de revistas. Além da revista Cláudia, o escritor gaúcho trabalhou em distintos segmentos editoriais do sudeste brasileiro, fez parte ainda da equipe editorial das revistas Nova, Manchete, Pais e Filhos e Pop, conforme Paula Dip (2009) registra na biografia sobre o autor intitulada Para Sempre teu Caio F.: Cartas, Conversas, Memórias de Caio Fernando Abreu. Nessa obra, Paula Dip descreve o perfil do escritor quando atuava nos periódicos da editora Abril: Parece que foi ontem: ele era alto, magro, pernas longas, pés descalços e caminhava pelos corredores da Editora Abril, num ritmo quase baiano, não fosse gaúcho. Jeans, camiseta, óculos redondinhos, lembrava John Lennon. Fumava sem parar, roia as unhas e passava a mão nos cabelos semilongos, um misto de príncipe Valente com cantor de rock. Tinha voz grave e lânguida, articulava as palavras, saboreando-as lentamente. Sua risada era solta e cheia de notas agudas, resquício dos tempos em que tinha voz fina e muita vergonha de falar. Diz a lenda que Caio demorou a engrossar a voz, bem mais tarde que os meninos de sua idade, a maior saia justa. Mas no auge dos 30 anos, quando nos encontramos, ele havia superado isso. (DIP, 2009, p. 19) Paula Dip ainda relata em sua obra que Caio chegou até centro do país em busca do jornalismo. A amizade da escritora com Caio ocorre justamente pela proximidade que eles tinham através das redações dos jornais, eles se conheceram na redação da editora Abril (DIP, 2009). Além de integrar a primeira parte da revista Veja, Caio foi também editor da revista Leia Livros e colaborou em diversos jornais, tais como Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São 14 Limite Branco foi o primeiro livro de Caio Fernando Abreu, no entanto, só foi publicado após Inventário do Irremediável. 48 Paulo. Nesses jornais além de realizar trabalhos como os jornalistas, escrevendo reportagens, em O Estado de São Paulo, Caio era editor do Caderno 2. Logo após, em 1969, o autor recebeu o prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores pelo livro de contos Inventário do Irremediável. De acordo com o parecer de Bizello (2006), os textos dessa obra refletem a situação social e histórica do contexto em que foram produzidos e rompem com o que era até então estabelecido pela tradição literária, o que incita a presença de temáticas acerca da solidão e medo na literatura de Caio. Nesse sentido Leal (2002) enfatiza que Inventário do Irremediável é composto por narrativas que raramente ultrapassam cinco páginas e a obra está dividida “em cinco inventários menores: ‘do amor’, ‘da morte’, ‘da solidão’, ‘do espanto’, cada qual com vários contos, e o ‘do irremediável’, que é ao mesmo tempo o último ‘capítulo’ e o mesmo texto.” (LEAL, 2002, p. 46) Em tal perspectiva, a narrativa da obra apresenta a sensibilidade apurada do autor com relação ao mundo e um exame detalhado sobre a representação dos personagens com o social. Destarte, Pereira (2008) enfatiza outro aspecto de Inventário do Irremediável, já que, para a pesquisadora, é a partir desta obra que fica mais exposta a influência de Clarice Lispector em Caio Fernando Abreu15. À obra Inventário do Irremediável, somam-se mais oito voltadas a contos e ainda dois romances, três novelas, uma peça teatral intitulada “A Maldição do Vale Negro”.16 Devido à qualidade literária de seus textos, Caio Fernando Abreu recebeu diversos prêmios17, entre eles o Prêmio Jabuti, pelos romances Triângulo das Águas, Os Dragões não conhecem o Paraíso e Onde Andará Dulce Veiga? Na perspectiva das narrativas que marcaram a carreira literária de Caio Fernando Abreu, se em Inventário do Irremediável a premissa incorria em torno da introspecção e solidão, em O Ovo Apunhalado (1975), Pereira (2008) destaca que tal obra marca a passagem do plano da individualidade para a alteridade. Nas 15 Inventário do Irremediável é o livro que mais deixa exposta a influência que Clarice Lispector tem em Caio, por ser uma obra em que as narrativas voltadas a autoinvestigação e o conhecimento interior do escritor, ficam mais expostas, tal como ocorre com as narrativas de Clarice. (PEREIRA, 2008) 16 Outros textos foram reunidos por autores para publicar as obras de Caio, tais como a antologia “Mel & Girassóis” e os livros A Vida Gritando nos Cantos e Pequenas Epifanias, essas últimas obras recolhendo suas crônicas. 17 Dentre os diversos prêmios recebidos pelo autor podem-se citar a menção honrosa do Prêmio Nacional de Ficção pela obra O Ovo Apunhalado, que também foi reconhecido pela Revista Veja como um dos melhores livros do ano, prêmio status de literatura pelo conto “Sargento Garcia”. 49 palavras da pesquisadora: “ressalta a solidão dos grandes centros, a ausência de interlocução, o temor em relação à imprevisibilidade do futuro, experiências de dor dos indivíduos que não conseguiram vencer.” (p. 26). As experiências dos personagens que estão representados na obra são decorrentes do contexto em que o livro de contos foi produzido. Já Bizello (2006) menciona a ideia de que essa obra representou uma denúncia do momento histórico que o Brasil estava vivenciando, através da criação de alegorias para criticar a sociedade de consumo que pode ser descrita como desumanizada. A autora enfatiza ainda o valor e a recepção da obra: “embora a obra de Caio tenha sido julgada como um atentado aos bons costumes e, por isso, tenha sofrido alguns cortes, foi considerada uma das melhores do ano pela revista Veja.” (BIZELLO, 2006, p. 63) Por estar consolidado em uma produção literária reconhecida com nuances da escrita através de metáforas, O Ovo Apunhalado, segundo Costa (2008), constitui-se de uma narrativa curta no formato do conto. Para a estudiosa, isso foi uma forma de “responder às necessidades do tempo na urgência de comunicar os acontecimentos e suas ressonâncias existenciais.” (2008, p. 11). Um dos contos publicados em O Ovo Apunhalado que representa a urgência em comunicar acontecimentos, que possui metáforas e que apresenta ainda uma denúncia à sociedade capitalista desumanizada é “A Gravata”. Esta narrativa expõe a situação de um indivíduo que é dominado pela sociedade, demonstrando toda a sua submissão a uma identidade individual e a padrões de consumo estimulados pela Indústria Cultural18 e pelo sistema capitalista. O enredo da história pauta-se em um personagem principal que é movido pela ideia compulsiva de comprar uma gravata, e, quando isso ocorre, ele acaba morrendo. A morte neste contexto representa a autodestruição a que cotidianamente as pessoas são alvo quando se rendem a um consumismo em uma sociedade pautada pelo capitalismo. Leal (2002) observa ainda que, além da “Gravata”, os contos “Ascensão e queda de Robbéa, manequim & robô” e “A margarida enlatada” também fazem de forma explícita uma crítica irônica à sociedade de consumo. 18 A Indústria Cultural é parte integrante das sociedades contemporâneas. É difícil refletir a respeito deste contexto sem vinculá-la ao papel e ao poder que o consumo representa neste cenário. É praticamente impossível, neste âmbito, encontrar um indivíduo que não seja consumidor da Indústria Cultural, mesmo indiretamente. 50 Com vistas a sua intersecção na representação da sociedade, O Ovo Apunhalado se sobressaiu, de acordo com Costa (2008), no cenário da recepção em que as obras produzidas por Caio estão calcadas: “A crítica sobre O Ovo Apunhalado se destaca dos demais livros, para depois se estabilizar, aumentando sua frequência cada vez que um novo livro é lançado.” (p. 12) Em comparação às outras duas obras de Caio, a estudiosa pondera que Limite Branco e Inventário do Irremediável assinalam a fase inaugural do escritor, ainda com resquícios de uma prosa de caráter documental. Contudo, é a partir de O Ovo Apunhalado que o escritor conquista notoriedade frente à crítica. Assim como O Ovo Apunhalado, Pedras de Calcutá também foi publicado no decênio de 1970. De maneira análoga, em Pedras de Calcutá os problemas da década em que foi produzido também ficam evidentes em sua narrativa. Nesse sentido, estão as imagens enigmáticas e a estrutura fragmentada, em que os problemas sociais e o interior dos personagens estão inseridos em um contexto de repressão. É plausível, então, inferir o engajamento que o autor possui com o contexto do qual fez parte e o diálogo que suas narrativas estabelecem com a realidade vigente. Ainda com relação às obras que marcaram a carreira literária de Caio, é oportuno lembrar que o livro de contos Morangos Mofados marcou a sua geração e foi um dos maiores sucessos editoriais da década de 1980. Esse livro marca a trajetória de personagens que se relacionam com perspectivas distintas propostas pelo título da obra, já que vão da esperança sinalizada pelos morangos à descrença sugerida pelo mofo. Morangos Mofados é composto por uma organicidade interna que abrange três fases: “o mofo”, “os morangos” e por fim “os morangos mofados”. Os contos desta coletânea também possuem um diferencial, eles não apresentam uma narrativa cronológica, mas sim estão preocupados com o estado emocional dos personagens. Nas palavras de Leal (2002): Os contos, ao invés de centrarem sua atenção na apresentação de uma sequência de fatos, no enredo, eles se atem a descrições de estados emocionais ou existenciais das personagens. São como que mapas, quadros, retratos que expõem paisagens íntimas. (p. 53) Outro aspecto relevante é a forma como Caio Fernando Abreu utiliza a sua perspectiva de narrador. Mesmo sendo em primeira pessoa, a narrativa do autor 51 apresenta um distanciamento autocrítico, autoirônico. É comum nos textos do escritor uma narrativa centrada no eu, e, quando isso acontece, os contos apresentam uma relação singular entre narrador/personagem. Os textos em primeira pessoa contribuem para intensificar a relação entre literatura e o meio social, e Leal (2002) afirma, nesse sentido, que, “no universo dos contos de Caio Fernando Abreu, todas as personagens se angustiam, todas lidam com a sua própria fragilidade, mesmo que se situem dentro dessa ou daquela classe social.” (LEAL, 2005, p. 56) Nessa esteira, os principais focos do autor em seus textos pautam-se nas relações vigentes na sociedade. Já com relação ao contexto em que Caio está inserido, Carlos Alberto Messeder Pereira (2005) explica a mudança de comportamento dos indivíduos em decorrência do regime político vivido no Brasil nos anos de 1969 a 1974: Havia uma revolução do comportamento em processo, a qual implicava o abandono de padrões rígidos de conduta e estilo - a expressão “sem lenço, sem documento” ganhava ares cada vez mais críticos. Testemunhava-se a invenção de formas de contestação que partiam da crença em um espaço alternativo ao “sistema”, espaço esse que se constituía verdadeira trincheira de luta contra a dominação de uma “direita” encarada criticamente, cada vez mais, de um ângulo não apenas político, mas também cultural e comportamental. (PEREIRA 2005, p. 91) Os espaços alternativos ao sistema, que são mencionados por Pereira e as transformações deste decênio, implicam o surgimento dos movimentos de expressão dos anos 1970, incluindo, sob essa ótica, jornais de opiniões fortes e que reivindicavam mudanças. Cardoso (2007) aponta a Era Desenvolvimentista como sendo a que promoveu a expansão do jornalismo, televisão e a publicidade. Estes campos que eram recentes no contexto brasileiro justificam o desenvolvimento de uma linguagem mais objetiva, já que precisavam alcançar uma população mais ampla, justamente por seu caráter de mudanças. Por conta disso, os escritores começaram a experimentar novas formas de atuação literária, começando o enfrentamento ao regime social político vigente: “daí a postura de negação e invenção marcar o perfil destas novas representações narrativas.” (CARDOSO, 2007, p. 07) A estudiosa ainda relaciona a essas novas representações as composições literárias associadas às temáticas notadamente marginais, essas que também estão em consonância com a literatura de Caio Fernando Abreu. Além das 52 temáticas marginais, Pereira (2008) destaca a presença da poesia marginal neste contexto: Essa poesia agregava tanto artistas que vinham da década de 1960 envolvidos com a vanguarda do Concretismo e com o engajamento do CPCs (Centros Populares de Cultura) como pessoas que ingressavam na vida artística naquele início da década de 1970. (2008, p. 21) Costa (2008) afirma que o vetor dominante destas obras literárias é a reflexão sobre o programa dos mecanismos de poder, domínio e a consequente desigualdade social. Com base nessas premissas, é possível reconhecer a importância desse contexto por ser recorrente na literatura de Caio Fernando Abreu. Em análise convergente, Pereira (2008), compartilhando reflexões de Hohfeldt, ressalta a forma com que o escritor gaúcho cria personagens marginais que estão em consonância com o contexto dos anos 1970: Para Hohfeldt, Caio pontua de diferentes formas e com um lirismo intenso, a localização marginal dos jovens da década de 1960 a 1970 na sociedade brasileira, com extrema sensibilidade em relação a seus iguais, reconhecendo nos conflitos do outro um espelho dos seus próprios. (p. 29) Ao reconhecer os conflitos de uma sociedade que vivenciou o contexto sóciohistórico marcado por autoritarismo, censura e violência, Caio é apontado como o porta-voz das gerações de 1960 e 1970. Essa geração que é veemente marcada pelos contextos do pós-guerra, golpe militar do Brasil (em 1964), Ditadura Militar, Guerra do Vietnã, dentre outros, está representada nas obras do escritor, através de uma literatura com forte teor intimista: Através da literatura, sob uma perspectiva intimista, Caio expressa as vivências e os conflitos psicológicos na visão da juventude oprimida por uma sociedade marcada pelas divisões, numa estrutura de dominação cujos valores são baseados no poder e no consumo, relegando a um segundo plano, ou, na maior parte das vezes, excluindo os valores pessoais. O escritor não apenas dá seu depoimento, mas questiona as imposições da sociedade, seus condicionamentos e padrões de conduta e denuncia a insatisfação diante da realidade, através de personagens solitários, fragmentados, caracterizados pelo desencanto, pela dor e pelo sofrimento. (COSTA, 2008, p. 11) Em conformidade com as ideias de Costa (2008), a estudiosa Pereira (2008) discute os recursos estilísticos que eram utilizados por Caio em suas narrativas que contextualizavam a geração dos anos 1970, como a linguagem codificada, a 53 aproximação com a musicalidade e o cinema, que também está atrelada ao contexto que o autor reproduz nas histórias que criou: Sua literatura renova a complexidade da desilusão da juventude de 1970, pois, além de incorporar a seu texto todas as frustrações dessa geração, assume também suas predileções artísticas, fazendo uso da musicalidade, do refrão musical, das técnicas cinematográficas de montagem, do flashback de muita plasticidade, sugerindo como que um movimento de câmara por trás da narração. (p. 27) A abordagem social de Caio, através dos elementos citados pela autora, incorre de sua sutileza e das metáforas que se consolidam na construção de uma narrativa particular que se utiliza também de elementos externos aos textos. Pautando-se no sujeito excluído e em trânsito, as narrativas do escritor, mesmo sem descrever de maneira contundente a Ditadura Militar, conduzem os relatos de suas obras para a representação de um sistema repressor, cujos personagens são concebidos através das exclusões. Esses fatos implicam, na visão de Bizello (2006), o fato de o escritor Caio Fernando Abreu estar profundamente conexo com a realidade histórica do Brasil, utilizando algumas estratégias textuais para esse fim: O escritor cria jogos de linguagem, explora diálogos e monólogos e capta os detalhes da expressão humana. Com suas personagens agride o “status quo” dominante e desmistifica a visão de identidade una, pois apresenta indivíduos de perfis opostos aos exigidos pela sociedade tradicional: são homens e mulheres fragmentados e destituídos de identidade que vivem as mazelas sociais e psicológicas do século XX. (BIZELLO, 2006, p. 68) Sob o viés apresentado pela autora, é possível considerar que, neste contexto de indivíduos que apresentam uma identidade oposta aos esquemas tradicionais, Caio integra o conjunto de escritores que produzem ficção urbana, de vertente intimista. A literatura urbana é concedida por representar personagens e temáticas ligadas aos grandes centros. Costa (2008) atribui à evolução tecnológica e industrial um caráter capitalista, ocasionando, assim, uma sociedade com indivíduos desequilibrados, isolados e voltados somente para si. Nessa perspectiva, ela afirma que a literatura intimista reflete acerca desse processo, apresentando uma ótica centrada na interioridade dos personagens e na psicologia individual, cujo procedimento narrativo principal é a introspecção. Nas palavras de Costa (2008): “Esse recurso é explorado nos textos de Caio, onde muitas vezes ocorre o monólogo 54 interior e o fluxo de consciência, a narrativa em primeira pessoa, o discurso direto livre, o aspecto onírico.” (p. 10) Nesse sentido, os personagens de Pedras de Calcutá e Morangos Mofados fixam-se predominantemente em centros urbanos, enquanto na obra escrita anteriormente, O Ovo Apunhalado, os personagens encontram-se nos territórios urbanos ou em deslocamento das pequenas cidades com destino às grandes metrópoles. Ao estar inserido nestas temáticas, Caio distancia-se dos costumeiros eixos da literatura sul-riograndense, em que centram seus debates em torno do regional. Para Cardoso (2007), o afastamento desses temas decorre de uma reação ao arbitrário regime militar e pelo seu engajamento frente a realidade que o circunda. O contexto em que Caio Fernando Abreu está inserido auxilia nesse aspecto, já que as suas obras refletem o posicionamento do autor em relação ao ser humano e à realidade dos indivíduos em um contexto social e histórico marcado por adversidades. Sob essa perspectiva, as abordagens foram registradas na literatura do escritor através de uma linguagem que, segundo Rezende e Tartáglia (2010), “se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma marca própria, justamente com uma linguagem fora dos padrões tradicionais vigentes” (p. 32). A ideia das autoras pode ser confirmada através de alguns elementos formais que evidenciam uma tendência do escritor em romper com os padrões tradicionais em suas narrativas, tais como a ausência de pontuação, narrativas fragmentadas e a alternância da posição do narrador sem a devida marcação para o leitor. São com essas características formais e linguísticas que Caio publica, no decênio de 1980, a novela Triângulo das Águas. A obra é marcada pelas temáticas da solidão, de personagens que representam almas perdidas em busca de algo, pela presença da astrologia e o tom confessional desesperado. Triângulo das Águas é composta por três novelas: “Pela Noite”, “O Marinheiro” e “Dodecaedro”, e, sobre essas narrativas, Porto (2010) advoga que o simbolismo pode ser identificado nelas. Na primeira, de acordo com a estudiosa, ocorre uma insatisfação e um desencantamento dos personagens principais: Pérsio e Santiago: “diante de um mundo circundante e duas buscas de refúgio para a realização de seus desejos e amar.” (2010, p. 24). Já em “O Marinheiro” Porto (2010) ressalta outras características que assolam os personagens: “a angústia e o sentimento de escuridão assolam o personagem e fazem-no superar adversidades e encontrar o 55 cosmos paradisíaco desejado.” (2010, p. 25) E por fim em “Dodecaedro” ocorre uma síntese das trajetórias de personagens esboçados em outras obras. Na década de 1980, Caio publica o livro de contos Os Dragões não conhecem o Paraíso, em que são apresentados personagens excluídos como nas obras anteriores, entretanto, em especial, nessa ocorre a predominância em grupos como de marginais, homossexuais, alienados, solitários, e todos estes giram em torno de um mundo que está em transformação. De acordo com Cardoso (2007), a obra gira basicamente em torno das relações afetivas: “A obra, segunda prefácio do escritor, funciona como um romance-móbile, em que uma peça esclarece, amplia, contempla a outra para que, no todo, constituam uma unidade.” (2007, p. 74) Na sequência cronológica, o escritor gaúcho publica o romance Onde Andará Dulce Veiga? O pesquisador Anselmo Peres Alós (2007), em sua tese de Doutorado, A letra, o corpo e o desejo: uma leitura comparada de Puig, Abreu e Bayly, serve-se de pressupostos de teorias feministas, estudos narratológicos e a perspectiva queer para a realização de uma leitura crítica acerca de três romances, um argentino de 1976, um peruano de 1994 e Onde andará Dulce Veiga?, publicado em 1990. A perspectiva de Alós é importante nesse estudo, pois analisa o romance. O estudioso cita Caio como sendo reconhecido pela crítica literária por seus contos, romances e demais produções textuais. Mesmo não subvertendo as convenções formais da narrativa, o olhar singular de Caio sobre a existência sexual ocorre no sentido de desestabilizar as categorias identitárias polarizadas em torno da homossexualidade e heterossexualidade. Nas palavras de Alós (2007): “negando uma ‘gênese’ ou ‘origem’ para o comportamento homossexual.” (p. 19) Os personagens que Caio constrói em suas narrativas exemplificam a afirmação de Alós, uma vez que não estão calcados na origem biológica de sua sexualidade, mas, sim, no encontro de almas, isto é, independente de ser mulher ou homem, o que Caio enfatiza em seus textos é que o amor não está relacionado ao sexo. Desse modo, as relações afetivas podem ocorrer entre dois homens, ou duas mulheres, pois o que interessa é o encontro de almas entre duas pessoas. A perspectiva de Alós (2007) sobre o romance de Caio também pode ser estendida aos contos do escritor. Em “Terça-Feira Gorda”, conto do livro Morangos mofados, em linhas gerais, a temática homoerótica é o eixo central dessa narrativa, em que os personagens mantêm abertamente relações, opção que é condenada por 56 outras personagens que não aceitam essa situação. Os personagens principais se conhecem em um baile de carnaval e após demonstrar a sua opção sexual são brutalmente agredidos pelas pessoas. O narrador-personagem frisa a expressão “por acaso”, afirmando, assim, que o encontro de dois homens seria o encontro de duas almas e não gêneros ligados à sexualidade, reafirmando desse modo, a perspectiva de Alós (2007) acerca das categorias identitárias. Sobre o romance de Caio, Onde Andará Dulce Veiga? que conta a história de uma jornalista que busca encontrar Dulce Veiga, uma cantora desaparecida há anos, Alós (2007) afirma que uma das vertentes críticas com maior interpretação é aquela que explora as relações entre o texto e os primeiros impactos na sociedade acerca da epidemia da AIDS que atingiu escalas planetárias no final do século XX. Esse é um dos motivos que, para Alós (2007), estão atrelados aos estudos que levaram vários pensadores, como Severino Albuquerque, a se questionarem sobre a doença e seus reflexos na literatura do escritor gaúcho: Na esteira dos estudos sobre literatura e AIDS, Severino Albuquerque dedica um pequeno capítulo de seu livro (intitulado Tentative Transgressions: Homessexuality, AIDS and Theather in Brazil) para analisar a dramaturgia de Caio Fernando Abreu. Em breve nota, assinala também a pertinência de se enfocar o tema da AIDS na leitura do romance Onde Andará Dulce Veiga?. (ALÓS, 2007, p. 90) Acompanhando as ideias propostas por Alós, pode-se dizer que as narrativas de Caio, mesmo que apontem para uma possível interpretação de temas que fazem parte do cotidiano do autor, apresentam como perspectiva-chave a forma com que o escritor gaúcho se utiliza de temas cotidianos para chamar a atenção dos seus leitores, representando-os em seus textos. No tocante à representação da sociedade, Costa (2008) declara sobre essa particularidade nas obras, Triângulo das Águas, Os Dragões não conhecem o Paraíso e Onde andará Dulce Veiga?: O escritor retoma o desencanto diante da realidade manifesto nas obras anteriores, só que encarado exclusivamente pela ótica interna: a realidade “por dentro” do homem, urbano e moderno, em especial daquele que se nega a submissão, a censura, a qualquer tipo de restrição e que busca a afirmação e aceitação de sua própria identidade e individualidade, assumindo seus próprios valores e dirigindo-se para sua realização pessoal, em geral vivendo à margem da sociedade convencional (p. 20) 57 No raciocínio proposto por Costa (2008), as temáticas de Caio remetem ao contexto do cotidiano, e os episódios da vida estão representados em suas narrativas através de aspectos como a busca por uma identidade, solidão, introspecção, opressão das grandes cidades, desumanização, busca de dignidade. Ainda com relação à produção literária de Caio, em 1995, ao ser patrono da Feira do Livro em Porto Alegre, ele publicou a antologia Ovelhas Negras. Essa antologia é uma espécie de biografia ficcional, já que recolhe as particularidades de suas principais obras. Nela, há um agrupamento de contos nunca publicados em livros anteriormente, as narrativas estão organizadas em ordem cronológica pelo próprio autor. No que tange ao gênero contos, Bizello (2006) afirma que, de um lado, Caio atende ao modelo tradicional de composição e, por outro, opta por uma escrita que rompe com esse paradigma, acentuando a fragmentação forma das narrativas. Ao escrever, segundo a autora, Caio ainda enfatiza a introspecção: Através da diluição do enredo, aprofundamento da investigação introspectiva, da exploração dos estados oníricos, da fragmentação e da desconstrução da ilusão realista. Dessa forma o escritor manifesta via estrutura narrativa a experiência do individuo excluído que busca, em si mesmo, o refúgio para os problemas da vida moderna. (p.70-71) Com um modo peculiar de escrever as narrativas, os ambientes de seus contos também são diferenciados. Os espaços são condensados e, nessa perspectiva, Costa (2008) assegura que a ação transcorre em alguns momentos, dias e em espaços fechados, como quartos, apartamentos. Desse modo, o ambiente externo fica secundário. Já com relação aos personagens das narrativas de Caio, são poucos e suas histórias são contadas através de uma narrativa geralmente escrita em primeira pessoa. Já a temática dos contos representa e problematiza questões sociais, através de personagens que são marcados pela solidão, carências, loucuras, isolamentos, marginalidade, mas sempre em busca do amor. Nesse sentido, Gomes (2008) corrobora essa percepção sobre os textos de Caio ao afirmar que a questão amorosa nos textos do escritor é apontada como forma de resolução de conflitos individuais e coletivos. Além disso, o amor está ligado também à reflexão sobre um sujeito aprisionador de subjetividades, elaborando uma crítica à busca incessante sobre a idealização do amor romântico. Por esse sentido, a sua narrativa faz uma crítica à busca desse amor. 58 Em torno de narrativas que estão calcadas no discurso sobre a identidade de personagens e com o extenso currículo de publicações de obras, os textos de Caio Fernando Abreu vêm ganhando destaque tanto na área acadêmica - com a produção de dissertações, teses e estudos em artigos, quanto na área artística através de reproduções cinematográficas, adaptação de textos em peças de teatros e interesse de autores pela biografia do escritor. Segundo a pesquisadora Gomes (2008), essa visitação recorrente ao universo ficcional de Caio demonstra que a sua produção ultrapassou as questões geracionais a que estava sujeita. Nas palavras da autora: ... Se inscrevendo num entre-lugar bastante contemporâneo, lidando de maneira eficaz e poética com os temas da incomunicabilidade urbana, do preconceito, da solidão dos grandes centros urbanos, da busca de um diálogo crítico e uma reinterpretação da cultura pop, campe de massa, da problematização das identidades sexuais, bem como da incorporação e rediscussão do mito do grande amor. (GOMES, 2008, s/d) Os temas a que a autora chama atenção viabilizam um primeiro conjunto de observações sobre as temáticas mais recorrentes na obra de Caio. A solidão e a incomunicabilidade voltam-se com maior ênfase para os grandes centros, já a reinterpretação da cultura pop, preconceito e a problematização das identidades sexuais estão presentes tanto no contexto urbano com um maior aglomerado de pessoas, tais como as grandes cidades, quanto nos centros menores. Ela relata ainda, em sua tese, que, através de estudos realizados para a sua dissertação em 2001, levantou dados acerca de diferentes concepções sobre outros temas que são recorrentes nas narrativas de Caio Fernando Abreu: a loucura e a homossexualidade. De acordo com a estudiosa, Caio privilegia a multiplicidade e o caráter questionador. Nas palavras de Gomes (2008): Percebi que, ao optar pelas configurações da loucura como um lugar de libertação e vivência dos desejos mais íntimos dos indivíduos, e da homossexualidade como uma paisagem diversa e multiforme para desejos, experiências e comportamentos sexuais, CFA apontava para espaços de questionamentos e singularizações dessas experiências, elegendo paisagens fragmentadas e saídas precárias, momentâneas, para os conflitos entre os indivíduos e a ordem social. Suas intervenções, à maneira foucaultiana, terminam por não centralizar o debate, abrindo mão de noções fixas para as representações. (s/d) Além dos conflitos entre os indivíduos e as ordens sociais, Caio pode ser considerado como um escritor mergulhado nos dramas do século XX, e, nesse 59 sentido, o clima de denúncia e a construção de um mundo interior e exterior aos personagens denotam ainda mais o seu engajamento com o social. Por outro lado, mesmo com seu engajamento, Costa (2008) alerta para o fato de que, após descobrir sua doença, a figura principal das críticas e notícias passou a ser ele, em vez de seus textos. Nesse sentido, o caráter autobiográfico começou a incidir em seus textos. Através do espaço que Caio possuía em jornais para publicações de suas crônicas, ele compartilhava com os leitores os dramas que eram seus também. O texto do escritor é permeado por elementos textuais, que demonstram a sua sensibilidade frente à realidade. Além disso, uma de suas principais peculiaridades é a capacidade de reflexão, por isso suas crônicas, mesmo sendo escritas na década de 1990, com temáticas específicas, parecem atemporais. Sob esse viés, a próxima seção analisa algumas crônicas do autor que estão permeadas pelo seu contexto de produção e características particulares ao gênero, tais como a linguagem coloquial, o humor e a ironia, a subjetividade, a alusão a outros textos e a busca pelo diálogo com o leitor. 2.2. A crônica de Caio A crônica de Caio apresenta muitos traços importantes para serem considerados no processo de leitura e interpretação desse gênero narrativo. O autor mostra neste gênero uma narrativa em que o caráter autobiográfico dilui-se em meio a temas de representação social. No tocante ao caráter autobiográfico das crônicas brasileiras em especial, Simon (2008) argumenta que está relacionado à matiz memorialista, uma vez que, ao contar um fato ou explorar assuntos do cotidiano, o escritor precisa buscar em sua memória como ocorre a constituição deles: Se é possível admitir a matiz memorialista nas crônicas e no seu conjunto, é também necessário conviver com o falseamento daqueles e de outros escritos que não se submetem à condição de reproduções fiéis dos fatos e sensações ali expostos. (SIMON, 2008, p. 57) 19 19 É importante considerar sobre o caráter autobiográfico as reflexões de Roland Barthes, já que o estudioso procurou conduzir os exercícios da análise literária para longe do biografismo, para outros rumos a que o texto se afirmasse como principal objeto a ser focalizado. “Em breve, vulgarizou-se e retomou força a noção de que o autor deveria ser afastado das preocupações analíticas, criando espaço para distinções essenciais entre autor e narrador, quando se tratava de romances e contos, e entre poeta e sujeito lírico, quando os textos em questão são poemas.” (SIMON, 2008, p. 59) A percepção de Barthes torna-se importante para que as análises dos textos literários não se limitem a 60 Além da presença do signo autobiográfico, atrelado à memória, as crônicas de Caio, com um toque de lirismo, também formam um diálogo aberto e explícito entre escritor, leitor e sociedade. O autor ainda explora em seus textos uma linguagem de aproximação com o leitor, para chegar aos que leem, como se estivessem em uma conversa diária, que aborda distintos temas, desde política, música, violência, cinema, histórias íntimas até televisão e novelas, dentre outros. A linguagem da sua crônica ainda se mostra uma linguagem paradoxal, que vai do nível culto ao coloquial, da escrita simples à redação mais exigente. No que confere peculiaridades à linguagem, características formais, como simplicidade, qualidade textual, caráter urgente e sintético, coloquialismo elaborado e o caráter de atemporalidade - o que torna a memória como parte constitutiva do gênero -, estão presentes nas crônicas de Caio. As suas narrativas, de forma geral, apresentam uma tônica voltada ao social e, com as crônicas, essa premissa não é diferente. Caio utilizava seu espírito crítico, por vezes até mesmo sendo autocrítico, para abordar temas que cercavam a sua geração. Considerando seu espírito crítico, induzindo o leitor à reflexão e a temas que remetem ao cotidiano, escolhemos para compor o corpus desta pesquisa a obra A Vida Gritando nos Cantos. A obra reúne crônicas publicadas por Caio no “Caderno 2” do jornal O Estado de São Paulo, em diferentes períodos. Nesse livro, as crônicas estão separadas por três partes e em sequência cronológica: a primeira é composta pelas que foram produzidas de 1986 a 1988, a segunda compreende os anos de 1993 a 1996, e a terceira são aquelas sem data. Para contextualizar o perfil das crônicas dessa obra, identificando as suas linhas temáticas, seus traços formais, perfis humanos representados, foram construídos quadros que procuram apresentar, de forma sintética, características que singularizam as narrativas de Caio publicadas no jornal O Estado de São Paulo. Estes quadros não pretendem ser exaustivos nem indicar todos os elementos das crônicas, mas sim constituírem-se como um guia de leitura para a compreensão e contextualização das crônicas do autor. Em termos didáticos, para facilitar a visualização dos traços das crônicas numa perspectiva diacrônica, os quadros foram divididos em décadas: as crônicas dos anos 1980, as dos anos 1990 e as sem data. aspectos formais de narrador/autor, poeta/sujeito lírico, mas sim, tenha maior riqueza com a intenção em outros aspectos. 61 QUADRO 1 - Crônicas de Caio Fernando Abreu - Década de 1980 PERÍODO 1980-1989 Crônicas Tema Recorrente Linguagem das narrativas Estrutura do texto Perfis humanos representados Cenário das narrativas Linha de apoio Para machuchar os corações Música e os sentimentos que podem gerar nas pessoas Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo Estrutura fragmentada Geração de 1972 Cidades grandes/São Paulo Presente Diálogo com leitor, citação, intertexto, humor, ironia, introspecção Meus amigos são um barato Histórias de quatro amigos do narrador Linguagem coloquial. Subjetivismo Estrutura linear Quatro amigos: o superfeliz, a moderna, o "subircom-esforço na vida" e a " ex-atriz, ex-cantora, extraficante". Cidades grandes Presente Intertextualidade, humor, ironia, diálogo com leitor Meu Deus, são estrelas demais! As estrelas: as dos céu e artistas Linguagem coloquail e culta. Estrutura fragmentada Artistas que são estrelas em suas vidas Ah, bossa-nova, newbossa... Música, em especial do LP de Elisete Negreiros. Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear A vida é uma brasa, mora? O caos da vida Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Descrição do próprio narrador e ses comportamentos Metrópole, possivelmente São Paulo Presente Citação, intertextualidade, subjetivismo, diálogo com leitor Cola-chata-dasanguinha As gírias de Porto Alegre Coloquial Estrutura linear Na maior parte são os gaúchos, mas o narrador cita, darks, punks, néos, pós, seitas. Cidades gaúchas Presente Humor, diálogo com leitor, citação Eu existo! Existo? Os documentos do narrador que foram roubados e recuperados Coloquial Estrutura linear Descrição do próprio narrador Pinheiros - São Paulo Presente Humor, diálogo com leitor Amizade telefônica Os amigos telefônicos Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador A cidade do Presente narrador, São Paulo Humor, diálogo com leitor, subjetivismo, citação Meu amigo Cláudia Descrição do amigo (a) Cláudia Coloquial Estrutura linear Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Humor, citação, diálogo com leitor Um remédio que dá alegria Música, em especial, João Gilberto e Caetano Veloso Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Humor, diálogo com leitor, citação, intertextualidade Diário de bordo Um diário da vida do narrador de segunda a domingo Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Melancolia, subjetividade, citação, intertextualidade Por falar em estrelas... Astrologia Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador Sâo Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, citação, intertextualidade Uma semanaFassibinder Filme de Fassbinder Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Melancolia, diálogo com leitor, citação, intertextualidade Em nome dos dragões Sonhos Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, citação Fragmentos de um domingo Há várias temáticas: o que Mescla de linguagem culta ocorre em um domingo a com coloquial. noite, a gripe e os sonhos Subjetivismo. do narrador A cidade de Gramado-RS, o céu Diálogo com leitor, citação, Presente do Rio Grande do humor Sul, a praia Metrópole, parece A representação da vida do ser São Paulo, que é narrador através das Presente onde vive o músicas e cantores. narrador. Estrutura fragmentada Descrição do próprio narrador Recursos estéticos São Paulo, também cita o morre de Santa Tereza no Rio Presente de Janeiro, onde foi a última vez que viu uma amiga. Citação, intertextualidade, subjetivismo Diálogo com leitor, subjetivismo, citação, intertextualidade Um sonho regado a gim O romance de uma escritora estadunidense Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear A representação é de Zelda Sayure e seu marido Francis Scott Cidade estadunidense Montgomery Presente Diálogo com leitor, subjetivismo, citação, intertextualidade Lamúrias com chantili Resposta a uma carta de leitor Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação, intertextualidade Então vamos continuar dançando Músicas, filmes, livros Culta, coloquial, subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, subjetivismo, citação, intertextualidade Bye-bye, 10ª mostra 10ª mostra do cinema Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada As representações centramse nos são paulinos que participaram da Mostra de Cinema São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação, intertextualidade Sexo: mais ou menos? Estatística acerca da nova geração, se transam menos Coloquial Estrutura linear Nova geração de jovens São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação 62 Estrutura fragmentada As pessoas em geral, já que o narrador está remetendo a todos que irão ficar velhos e o que são jovens São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação, intertextualidade Temáticas que podem ser Mescla de linguagem culta escritas em uma crônica de com coloquial. domingo Subjetivismo. Estrutura fragmentada. . Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação, intertextualidade Mescla de linguagem culta O movimento do tempo O velho/antigo, novo/jovem com coloquial. Subjetivismo. Palavras ao vento Caetano, caetanagem Filme de Caetano Veloso Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Caetano Veloso e outros artisitas São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação, intertextualidade O girassol e a greve Girassol Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada A representação da planta em meio ao caos do dia-adia São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação, intertextualidade Gente deve ser bom Colega de redação do narrador, Marion Frank Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear A representação de Marion Frank Dezenas de obrigados Os melhores do ano Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. A crônica é autobiográfica, narrador descreve a sua Estrutura linear vida e daqueles (os melhores) que fizeram parte dela, ao longo do ano São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação, intertextualidade Com afeto e mau humor O ano novo (1987) Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Leitores São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação, intertextualidade São Paulo, 40 graus O mar Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Amentes do mar Nem só de Aurelião... Glossário de palavras com expressões Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear "Moçada urbana" São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, citação Onde andará Lyris Castellani? Lyris Castellani Culta, coloquial, subjetivismo. Estrutura linear Lyris Castellani São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Beta, beta, Bethânia O amor do narrador por Maria Bethânia Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Maria Bethânia São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Um prato de lentilhas O Brasil Desigual Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Todos os brasileiros que Estrutura linear clamam pela justiça a que o narrador cita Brasil Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Anjos da barra pesada O Brasil Desigual Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Brasileiros afoitos por justiça São Paulo/Rio de Janeiro/Brasil Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Palestra em uma Universidade Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Descrição do próprio narrador Uberaba/São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Um diário da vida do narrador de segunda a domingo Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação A dificuldade em escrever crônicas Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação As três coisas boas que ocorreram com o narrador Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Descrição do próprio narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação A reflexão sobre a vida, velhice Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Representação da vida, desde jovens, velhos. São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Suspiros de domingo Um final de semana cultural No coração do Brasil Diário de bordo II Querem acabar comigo Doris, Antonio e Vera Nos trilhos do tempo Diálogo com leitor, humor, A redação do citação (cita artistas), Caderno 2 de O Presente melancolia, memória acerca Estado de São Paulo de seu tempo, senso crítico São Paulo e Rio de Diálogo com leitor, humor, Presente Janeiro ironia, subjetivismo, citação 63 As férias do narrador e algumas crônicas (anti) sociais que ele deixa aos leitores Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Diversas representações, já que são ao total de quinze lides São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Cenas na beira de um abismo A representação do Brasil Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Os brasileiros de 1987 Rio de Janeiro/São Paulo Presente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Me leva pro céu, Luni! Música Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear A banda Luni São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Verão de julho A representação da vida com os verões no meio do ano Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Os paulistanos São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Representação de temas São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Pílulas calientes Estrutura linear Crônica autobiográfica, a representação é o narrador São Paulo que se intitula como "desempregado" A novela da novela Telenovela Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Para embalar John Cheever Livros, músicas Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Temas que poderiam ser recorrentes a uma crônica Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Caleidoscópio Rita Rita Lee Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Rita Lee São Paulo Adeus, agosto. Alô, setembro O mês de Agosto e Setembro Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Compositores, cantores e escritores São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Cenários em ruínas Memórias de uma noite que passou Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura fragmentada Um homem sem nome, que é descrito pelo narrador. São Paulo Não é possível identificar se é o próprio narrador Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Safra de abobrinhas A apresentação que o narrador verá de Luni, um glossário com significados, astrologia Mescla de linguagem culta com coloquial. Estrutura linear Subjetivismo. Diversas representações, a do narrador, de pessoas São Paulo ou Rio de que se enquadram no Janeiro glossário Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Felizes para sempre Um romance Mescla de linguagem culta Estrutura com coloquial. fragmentada Subjetivismo. Representação de Yann Andréa e Marguerite Cenário indefinido Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Que depois de me ler Se eu quiser falar com O cenário de miséria vivo Deus pelo Brasil Um cantinho, um violão, uma Narinha Música: Nara Leão Mistura de assuntos: o Ninguém merece Jânio então presidente Jânio Quadros Quadros, cultura, as cartas dos leitores, suas obras Música com a Vamo comer Caetano? predominância de Caetano Veloso Estrutura linear Descrição do próprio narrador Estrutura linear Brasileiros que vivem na miséria São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Nara Leão e sua projeção no narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Brasil que possui como Presidente Jânio Quadros, São Paulo os leitores de suas crônicas Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem culta Estrutura com coloquial. fragmentada Subjetivismo. Perfis humanos representados através de músicas São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura fragmentada Crônica autobiográfica, quem está representado são os sentimentos do narrador São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura fragmentada O amor Sem via de acesso Sentimentos do narrador Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura fragmentada Crônica autobiográfica, novamente os sentimentos melancólicos de São Paulo introspecção do narrador estão representados Novas significados de palavras Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Seus amigos gaúchos e outros que criam os São Paulo significados para os termos Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Crônica autobiográfica, sentimentos do narrador Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura fragmentada Despedida provisória Sentimentos do narrador Nós amávamos tanto Mistura de assuntos: poemas, músicas manifestações, sentimentos do narrador Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Ao som de Suzane Vega Vamos tirar o rodenir? Presente Descrição do próprio narrador e da geração oprimida Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Rio de Janeiro/São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mas que tempo é esse? Filme Mescla de linguagem culta com coloquial. Estrutura linear Subjetivismo. Representação de 60, 70 e São Paulo também da década de 1980 Bancarrota blues A realidade de São Paulo Mescla de linguagem culta com coloquial. Estrutura linear Subjetivismo. São Paulo nos anos 1980 São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Anotações depois do Anotações do narrador Carnaval após o carnaval Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura fragmentada Descrição do próprio narrador e da geração oprimida São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Descrição do próprio narrador e da geração oprimida São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Em todas as direções Tarde de domingo Cine Brasil: sonho e romance Música e cinema Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Ana Carolina e Sérgio Bianchini São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação Venha ver os dragões Literatura Mescla de linguagem culta com coloquial. Subjetivismo. Estrutura linear Escritores brasileiros São Paulo Presente Diálogo com leitor, humor, ironia, subjetivismo, citação 64 Como é possível perceber no quadro, as crônicas da década de 1980 possuem vários elementos em comum. Quanto aos recursos estéticos, são adotados na maioria o diálogo com o leitor, as citações, os intertextos. O humor e a ironia também são recursos recorrentes. Isso porque Caio ao reproduzir temas cotidianos, viabilizava através destes elementos um diálogo constante com o meio com o qual estava inserido. As crônicas refletem, em sua maioria, acerca de temas comuns, não apresentando algo complexo ao leitor; no entanto, a forma com que o escritor gaúcho utiliza as estratégias textuais transforma suas narrativas em matéria-prima literária. Notamos, ainda, os títulos das crônicas, os quais não se apresentam de forma clara ao leitor o tema. Podemos tomar como exemplo a primeira crônica da obra, “Para machucar corações”, uma vez que, ao nos deparar com esse título, podemos pensar em muitos temas para essa narrativa, desde sentimentos que se referem ao coração, até mesmo, àqueles que circundam em torno de problemas familiares, doenças. Em linhas gerais, a crônica aborda os sentimentos que as músicas podem gerar nas pessoas. Ao ler o texto, entendemos que “Para machucar corações” está denotando os sentimentos melancólicos, introspectivos que determinadas canções podem nos proporcionar, contudo, somente tendo contato com esse título a impressão tornava-se mais abrangente. De maneira análoga, ao ler “Cola-chata-dasanguinha”, qual é a impressão que isso nos causa? Em um primeiro momento, poderíamos pensar ser uma crônica para nos explicar o que esses vocábulos separados por hifens querem dizer, todavia, a crônica aborda as gírias portoalegrenses. O narrador cultua uma experiência que denota ser a sua, isso porque Caio é gaúcho e conta um pouco mais sobre os leitores acerca da sua terra natal. Ainda observamos outras peculiaridades das crônicas de 1980, como a fragmentação, a reprodução de mesmos assuntos os quais são continuados em alguns textos. Em outros ainda, o narrador utiliza seu espaço para responder aos leitores cartas enviadas ou perguntas feitas, como ocorre em “Meu amigo Cláudia” e “Um remédio que dá alegria”. Na primeira, o narrador conta como seu (sua) amiga (o) Cláudia, descrevendo-o (a) com alguém que está no limiar de ser homem ou mulher. Na outra crônica, o narrador retoma a anterior, comentando sobre Deus (utilizando a intertextualidade da música de Caetano Veloso) e mistura ao assunto anterior um de seus preferidos: a música e elementos culturais. São recursos que também aparecem nas crônicas da década seguinte. 65 QUADRO 2 - Crônicas de Caio Fernando Abreu - Década de 1990 PERÍODO 1990-1996 Linguagem das narrativas Estrutura do texto Perfis humanos representados Cenário das narrativas Música Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Rita Lee São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Reflexões à porta de um canil Novos significados de palavras Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Representações de artistas/músicos/compos itores/ que se enquadram nas "cadelas" São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Samba-enredo para um Carnaval de horror Violência nas metrópoles brasileiras Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Brasileiros que sofrem com a violência São Paulo/Porto Alegre/Rio de Janeiro Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Crônicas Tema Recorrente À nossa mais completa tradução Linha de apoio Recursos estéticos Adivinhem quem vem para roubar Política Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear O político que não é nomeado São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Um presente lindaço para São Paulo Cinema Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Paulistanos São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Os homossexuais São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Madonna São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Os japonoses Diversos países que a carta do amigo do narrador passou até chegar nele: Tóquio, Ausente Alemanha, Holanda, Paris até em chegar em São Paulo, no Brasil Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação São Paulo Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Tese de mestrado à Holandesa Homossexualismo Na cama por causa de Madonna Música: Madonna Levantando a cortina de papel vegetal Sugestão para cair na real...e depois sair Livro Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Teatro Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Descrição do próprio narrador Ausente Subjetividade, citação (cita elementos culturais), intertextualidade (reproduz fragmento de música), humor, ironia, diálogo com leitor, memória acerca de seu tempo, elementos sociais. Subjetividade, citação (cita elementos culturais), intertextualidade (reproduz fragmento de música), humor, ironia, diálogo com leitor, memória acerca de seu tempo, elementos sociais. 1994: um ano para a literatura Literatura Coloquial, culta. Subjetivismo Estrutura linear Os escritores brasileiros São Paulo, também cita outros países Ausente Marina Lima enfrenta o BrasilBarbie Música Coloquial, culta. Subjetivismo Estrutura linear Marina Lima São Paulo Ausente Para Dulcineia, que nunca foi del Toboso Travestis Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Os travestis São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Filmes Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Os filmes e o Brasil São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Viva o império das coroas magníficas! Música e telenovela Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Alcione e a telenovela, Fera Ferida (juntamente com os atores, autores que compõe a novela) São Paulo, mas narrador escreve de Ausente Paris, e também cita a cidade Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação De laços, seis, sábados e tormentas Mistura de temas, cotidiano em Paris, canibalismo em Olinda, saudades Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura fragmentada. Quando narrador está melancolico, as frases são curtas, assuntos variados. Negro amor ao som de Bruce Springssteen História de um brasileiro em Paris Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Confissões de um lusófobo enfurecido Portugal, a morte de Airton Senna, amor não correspondido Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Pra cima com a câmera, moçada! Viagem por Entre a Frau do mal e "Jente" do diferentes paises e bem suas particularidades Afinal, quem era mesmo Lolita Torres? Apresentando Álvaro Caldas, escritor Coloquial, culta. Subjetivismo Estrutura fragmentada Estrutura linear O Brasil, através do canibalismo em Olinda, a saudade dessa terra e Olinda, Paris o cotidiano do narrador em Paris Representação de homossexuais, do racismo, da AIDS Paris Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Descrição do próprio narrador Portugal Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Descrição do próprio narrador Diversos países que a carta do amigo do narrador passou até chegar nele: Tóquio, Ausente Alemanha, Holanda, Paris até em chegar em São Paulo, no Brasil Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Filmes Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Lolita Torres e Tâinia Prigarina Países que as duas viveram e foram mencionados pelo narrador Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Livro Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Escritores brasileiros São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação 66 Lolita, Lisboa y otras cositas Respostas a cartas más dos leitores Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Leitores das crônicas São Paulo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Na trilha dos mistérios de Clarice Clarice Lispector Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Clarice Lispector, suas Estrutura linear cartas, romances, a sua São Paulo forma de ver a vida Delírio eleitoral à beira do ridículo Eleições Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Os onze sexos de um anjo terapeuta A quantia de sexos que existem, o carinho e amor de um médico a seu paciente Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo O médico, a percepção do narrador diante dos Estrutura linear sexos que podem existir São Paulo e do carinho deste médico Presente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Para Rita Lee, com amor e irritação Rita Lee Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Rita Lee São Paulo Presente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Ney Matogrosso São Paulo Presente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Teatro e filhos Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Natália e os filhos do Estrutura linear narrador que poderiam estar vivos Rio de Janeiro Ausente Uma fã que assombra o escritor Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo A fã que não lhe deixa Estrutura linear em paz, nem quando estava no hospital Porto Alegre Ausente Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear As três obras literárias e seus autores São Paulo Ney Matogrosso, muito além do Música: Ney bustiê Matogrosso Feliz em conhecê-la, Natália Lage Reza forte para um egum maldespachado Vamos voltar a falar em poesia? Livros Mudança de nome Betty Crawford, Ph.D. em Najice de Caio F, e a Comparada primeira dama Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Os brasileiros que irão votar Primeira Dama, Ruth Cardoso Porto Alegre Porto Alegre De volta ao avesso do avesso do avesso São Paulo Estrutura linear A cidade de São Paulo e suas lembranças São Paulo Cidade de Santa Inútil pranto por Santa Tereza Tereza Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear As lembranças acerca de Santa Tereza Tentativa de sitiar uma esquisitice Picadinho para aquecer o inverno Os sentimentos do narrador Diversos assuntos Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo A vaia consagradora de Denis Stoklos Peça de Teatro Duas mães do Para mãe Sonia de Oxum Apará narrador Entrevisão do trem que deve Anoitecer/amanhec passar er A cara do Brasil em Terra Estrangeira Tirando o pó do velho 1995 Estrutura linear Estrutura fragmentada Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Filmes Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Diversos assuntos Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura fragmentada Descrição do próprio narrador Representação dos assuntos Ausente Presente Porto Alegre Presente Porto Alegre Ausente Rio de Janeiro Ausente Ausente Ausente Porto Alegre Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Ausente A representação Estrutura linear recorrente é a de filmes, cineastas Porto Alegre Representação dos assuntos Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação O jogo de luzes que se formam no céu Porto Alegre Estrutura fragmentada Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Ausente Rio de Janeiro Representação da atriz Denise Stoklos e outros artistas que já foram vaiados Porto Alegre Descrição do próprio narrador Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação 67 As crônicas das décadas de 1980 e 1990 possuem muitas coordenadas em comum: os títulos não tem linguagem clara, são sugestivos, os temas se repetem e circundam em torno de elementos culturais, a alusão a elementos externos é observada em praticamente todas as narrativas, a presença do humor e ironia, diálogo com leitor e com elementos sociológicos, além uma constante busca pela reflexão dos leitores. No entanto, podemos ressaltar a presença de uma distinção: ao contrário das crônicas da década de 1980, a linguagem das crônicas de 1990 é predominantemente linear. Notamos que, nas narrativas produzidas na década de oitenta, há maior vazão para a crônica fragmentada, o que sugere uma busca pela renovação da escrita e experimentação da linguagem em um contexto sócio-político marcado pelo rompimento com convenções artísticas. Outra peculiaridade que distingue as crônicas publicadas em cada década, é que, em oitenta, Caio publicou mais, e os temas das crônicas da década de 1990 foram mais voltados a livros, filmes, músicas, teatro, viagens e política. Nesse sentido, outra diferença com relação às crônicas de 1980 é que, nas da década de 1990, a linha de apoio ficou mais restrita, o que indica que, de uma década para outra, o leitor adquiriu maior visibilidade, passando a ser mais insistentemente chamado pelo narrador para construir sentido ao texto. Podemos citar a presença clara do narrador na crônica “Tirando o pó do velho 1995”, em que este afirma que, com o ano novo que irá chegar (1996), é preciso deixar os assuntos com os leitores em dia. Por isso, utiliza o espaço destinado às crônicas semanais para responder aos leitores o que estava devendo a eles, para que, no ano seguinte, 1996, possam começar novos assuntos. O narrador então responde aos vários leitores que lhe escreveram, solicitando o número de telefone da mãe Sonia, essa que ele contou aos leitores na crônica intitulada “Para mãe Sonia de Oxum Apará”, quando ele comenta que existem duas mães, uma biológica e a outra mãe era a Sonia, então, os leitores se interessam sobre ela e lhe pedem o número de telefone para que possam entrar em contato com essa que é ligada ao Candomblé. Ainda na crônica “Tirando o pó do velho 1995”, o narrador conta aos seus leitores, como se fossem amigos íntimos, que como ele passou muito no hospital, não havia conseguido cuidar de seu jardim, e por fim, faz um pedido, que não lhe enviem mais originais inéditos para rascunhar sugestões. Sob o viés das temáticas e das referências das crônicas, percebemos a inserção do social e o diálogo entre narrador e leitor. 68 QUADRO 3 - Crônicas de Caio Fernando Abreu - Sem definição de data SEM DEFINIÇÃO DE DATA Crônicas Tema Recorrente Linguagem das narrativas Estrutura do texto Perfis humanos representados Cenário das narrativas Linha de apoio Estrutura linear Marianne Faithfull Cinema Presente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Recursos estéticos Cor-de-rosa, uma ova! Música Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Muito além do bordô Porto Alegre Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear ________ Porto Alegre Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Clarice Lispector ress... Clarice Lispector Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Clarice Lispector São Paulo Presente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Por aquelas escadas subiu feito uma diva A morte de uma amiga Mescla de linguagem coloquial e culta. Subjetivismo Estrutura linear Ausente Diálogo com leitor, ironia, subjetivismo, citação Ana C e sua amizade com São Paulo/Rio de o narrador Janeiro As crônicas sem datas trazem como temas a música, a cidade de Porto Alegre, a escritora Clarice e a morte de uma amiga. A primeira narrativa, “Cor-derosa, uma ova!”, descreve a artista musical Marianne Faithfull, “Muito além do bordô” apresenta uma diversidade temática e o narrador inicia comentando sobre sua vida em Porto Alegre e passa a descrever sobre música, cinema, seus amigos, palavras com significados diversos e finaliza avisando aos leitores que ele adora lhes decifrar. A surpresa e a satisfação de receber uma carta de Clarice Lispector estão inseridas em “Clarice Lispector ress”, em que o narrador compartilha com os leitores a carta da escritora. Já a melancolia ficou por conta de “Por aquelas escadas subi feito uma diva”, a morte de uma amiga deixa o narrador introspectivo e nostálgico com as recordações. Através das descrições dos temas, podemos perceber a forma com que Caio utiliza suas narrativas para se aproximar dos leitores, ele transforma assuntos comuns, como a carta que recebeu de uma amiga, em matéria-prima literária. Propomo-nos a elaborar esse quadro para melhor dimensionar a produção textual, no que tange às crônicas do escritor gaúcho. Ao analisar as narrativas nas seções, não daríamos conta de demonstrar a complexidade e a forma com que Caio utiliza para abordar suas temáticas, então com esses quadros é possível perceber a interação do jornalismo e da literatura, a utilização das estratégias textuais como, humor, ironia, diálogo com leitor, utilização de memórias, alusão a elementos externos e a utilização da linguagem oral. Então, nas próximas seções, crônicas da obra A Vida Gritando nos Cantos são analisadas para identificar traços, formas e estilos deste gênero na produção do 69 autor. Outras particularidades são ressaltadas, como a linguagem coloquial, a busca pelo diálogo com o leitor, a subjetividade, a alusão a outros textos e o humor. Ao caracterizar as crônicas de Caio, também elaboramos uma reflexão sobre a (in)suficiência das teorias da crônica para compreender esse gênero nos escritos do autor. Iniciamos a abordagem dos traços da crônica de Caio pela linguagem que está presente nas crônicas, para demonstrar qual é o sentido do seu emprego nas narrativas do escritor gaúcho. 2.2.2 A linguagem coloquial de suas crônicas Uma das particularidades das crônicas, como já fora citado, é a linguagem. Em termos linguísticos, também se nota a presença da oralidade e da objetividade. Essa última, de acordo com Costa (2010), é exigida em função do seu destinatário – o leitor do jornal – pelo ambiente da escrita através da imprensa periódica e pela exiguidade de espaço, o que obriga a síntese. Nesse sentido, quando se considera a objetividade da crônica, em termos teóricos, esta se associa a uma pequena extensão. Entretanto, na leitura da crônica de Caio, a objetividade ganha outra dimensão, pois, em termos de tamanho textual, a crônica do escritor gaúcho obedece à objetividade, mas em termos de linguagem, esta cede espaço a uma expressão mais subjetiva, carregada de impressões pessoais, como será demonstrado na análise dos textos do autor. Já com relação à oralidade, Sá (1999) ressalta que também é presença constante nas páginas de jornais e, consequentemente, nas crônicas, o que facilita o diálogo com o leitor. Vale notar, ainda, que as marcas da oralidade incorrem pela transcrição das falas do cotidiano para a escrita, nas crônicas de Caio em especial, esse aspecto fica evidente pelo fato de o narrador transcrever ações que ocorrem na vida social e pela narrativa estar concentrada em situações corriqueiras. Nesse sentido, Correa (2010) corrobora essa perspectiva, afirmando que, “a transcrição consiste em passar o texto oral para o texto escrito, com todas as suas características, inadequações gramaticais e semânticas.” (p. 45). Desse modo, entendemos que Caio utiliza as expressões das falas do dia a dia, gírias, fragmentos de livros e músicas, para sinalizar o diálogo com os aspectos cotidianos do leitor, contribuindo, assim, para a 70 identificação com a sua narrativa. É oportuno observar que a transcrição das falas do dia a dia, garantem também a oralidade e as marcas da linguagem simples20. A perspectiva da linguagem familiar aos seus leitores, juntamente com o conceito de coloquialismo elaborado, está calcada neste estudo sob o viés de Costa (2010). A linguagem familiar “tem a ver com o caráter da dicção aparentemente desestruturada, que se assemelha a uma conversa cúmplice entre narrador e leitor, sem transformar a linguagem em simples reprodução da fala.” (COSTA, 2010, p. 190). Para elucidar a forma como Caio utiliza esses aspectos em suas narrativas, a crônica “Meus amigos são um barato” é tomada como exemplo. Nesta narrativa, publicada no dia oito de abril de 1986, o narrador conta a história de quatro de seus amigos, apontando as particularidades de cada um. Para verificar o traço do coloquialismo elaborado proposto por Costa (2010), analisamos o seguinte fragmento: A verdade que não conheço ninguém mais moderno (ou pós, nos dois sentidos: o do depois e o das carreiras) que minha amiga Kate. Coberta de negro, cabelo raspado para o lado, vezenquando uma peruca rosa de náilon. Naturalmente é performática. E faz cursos sen-sa-cio-nais: o último foi de vídeo-performance – um arraso. Minha amiga Kate acha tudo meio antigo, mas concede ir ao Satã, ao Rose Bom-Bom, dá umas bandas pelo Ritz e não pisa nem morta no Pirandello. Acha que tudo é uma questão de pique-e-pá-e-crã, sabe como? Fico numas que só... (ABREU, 2012, p. 20) (grifos da autora deste trabalho) Como se pode observar nas expressões que foram grifadas, “vezenquando”, “sen-sa-cio-nais”, “dá uma bandas”, “de pique-e-pá-e-crã”, “sabe como? Fico numas que só...”, são termos permeados pela oralidade. Para melhor compreender a forma com que as expressões estão em consonância com a fala do dia a dia, observemos cada uma delas. “Vezenquando” é a abreviação da expressão: de vez em quando, isto é, para sinalizar a proposição de que não é sempre ou todos os dias que Kate utiliza a sua peruca, contudo, como o narrador está descrevendo isso através de uma linguagem totalmente familiar e impregnada pela transição das falas, a utilização da abreviatura torna-se um componente da sua narrativa para atrair a atenção do leitor. Pelo mesmo viés, “dá umas bandas” é uma expressão típica de diálogos entre sujeitos próximos e, por fim, a marca da hifenização representa, do 20 A simplicidade com relação às crônicas incorrem no sentido como o autor aborda os assuntos, já com relação aos temas, e a inserção de elementos externos ao texto, estes denotam a subjetividade e a sensibilidade de Caio, tornando-as assim, com o caráter de complexidade. 71 mesmo modo que nas expressões anteriores, a transcrição da oralidade para escrita, ratificando com a presença dos hifens, as pausas da fala. Já com relação ao conceito exposto por Costa (2010) acerca do coloquialismo elaborado, é possível inferir que, mesmo com as marcas da oralidade, o discurso proposto por Caio em sua narrativa se assemelha mais a uma conversa cúmplice com seu leitor do que a uma tentativa de transformar a linguagem em simples reprodução da fala. Nesse âmbito, a linguagem coloquial exposta através dos vocábulos grifados reproduz a familiaridade do narrador com leitor, pois a utilização da oralidade e do coloquialismo elaborado, deve-se à maior aproximação do tema proposto com a realidade, já que o emprego das expressões, tais como estão assinaladas, é presença fiel em rodas de conversas. Além da utilização das estratégias textuais da oralidade e coloquialismo elaborado, é possível perceber a presença de outro traço na crônica de Caio: o diálogo que suprime a presença do narrador. Há um rompimento de convenção do discurso, as falas são marcadas por expressões sem a pontuação correta prevista pela gramática normativa. Essa premissa fica evidente quando o narrador indaga: “Acha que tudo é uma questão de pique-e-pá-e-crã, sabe como?”. Ao questionar “sabe como?”, ele dirige-se diretamente ao leitor, enunciando-o no próprio corpo do texto e com ele mantém um diálogo aberto. É sob essa ótica que Sá (1999) entende o coloquialismo, não como a transcrição exata de uma frase ouvida na rua, mas a elaboração do diálogo entre cronista e leitor, “a partir do qual a aparência simplória ganha sua dimensão exata.” (p. 11). Os elementos que são necessários para melhor compreender a crônica e que elucidam a sua aparente sensibilidade se constituem em externos e internos. Os primeiros estão compreendidos pela inserção social, já os segundos pelas estratégias textuais. Desse modo, é possível referenciar que Caio, ao fazer uso da aparente simplicidade, está atribuindo valor semântico e social as suas crônicas. A crônica em questão, que conta, a partir das músicas de cantores como Nara Leão e Nirlando Beirão, a história dos quatro amigos, possui outras marcas que denotam a presença da linguagem voltada à oralidade e ao coloquialismo elaborado. As marcas dessas características podem ser comprovadas em trechos da narrativa: Se Nara Leão, naquele velho disco, também achava – por que não poderia eu também achá-lo? E se o Nirlando Beirão, tão chique, tem um vizinho yuppie – por que não posso ter coisas semelhantes em minha vida de 72 retinas fatigadas? E confessá-lo de público – atente na expressão – assim: meus amigos são um barato. Um baratão. (ABREU, 2012, p. 19) As expressões “tão chique”, “coisa”, “baratão” explicitam outra ideia que está inerente às crônicas de Caio: a informalidade. Sobre esse signo, Laurito (1993) afirma que não transforma em fator negativo para que a crônica perca sua essência, que é estar permeada com o comprometimento social, pelo contrário: “é o talento do autor que vai dar a estrutura maior a um gênero comumente considerado um modo menor de ficção.” (p. 27-28). São sob esses aspectos que as crônicas de Caio podem ser analisadas, através de sua aparente simplicidade, no entanto, seu engajamento com o social, exatamente como ocorre com a narrativa de “Meus amigos são um barato”. No tocante ao engajamento social, é preciso observar alguns aspectos. À primeira vista, na crônica supracitada, é possível entender que o narrador está somente nomeando quatro de seus amigos, entretanto, ao expor características peculiares deles, não somente descreve quem são essas pessoas próximas, mas sim os atribui outra particularidade da crônica – que também acontece com distintos gêneros literários: a representação. O primeiro amigo descrito na narrativa é Pedro, ele é “superfeliz”, mora com seus pais, apesar de ter trinta anos, em um apartamento de andar inteiro de frente para a praia no Rio de Janeiro. Além disso, Pedro é rico, mas, como relata o narrador da crônica, “anda sempre de camisetinha zurrapa e sandália havaiana.” (ABREU, 2012, p. 19) Pedro tem certeza de que um dia todos irão viver em paz e ser felizes. Já a Kate despreza Pedro, ela é do estilo supermoderna. Betinho, o terceiro amigo a ser nominado, é “radicalmente o oposto.” (ABREU, 2012, p. 20) Ele acha que para ascender socialmente é preciso muito esforço e dedicação, e, por fim, a Joana é a ex, “ex-atriz, ex-cantora, ex-traficante” (ABREU, 2012, p. 20), está em Florianópolis, vivendo através de meditações. Com o relato acerca das feições dos quatro amigos, percebemos que existem diversos segmentos sociais, entre eles: o rico, a supermoderna, o esforçado e aquela que busca seu arrependimento por suas atitudes na vida através da religião. No início da crônica, o narrador ainda alerta aos leitores: “qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.” (ABREU, 2012, p. 19) Tais referências permitem inferir a ideia de que Caio, assim como outros cronistas, possui habilidade que Sá (1999) ressalta, que é de captar com intensidade os sinais da vida, isto é, 73 através da representação de quatro amigos, o narrador inclui uma grande parcela de jovens em sua narrativa. A importância da representação para as crônicas ocorre na medida em que o leitor passa a se identificar com o objeto narrado. Outro fator que contribui para realçar o critério da identificação é o meio de difusão das crônicas ser um jornal. Como Caio escrevia toda semana para O Estado de São Paulo, era necessário criar uma periodicidade de leitura, assim, para que isso se concretizasse de forma satisfatória, o narrador impunha estratégias para que o leitor pudesse continuar a comprar o jornal e ler semanalmente suas crônicas. E nesse sentido é que a representação está inserida para que os leitores pudessem se identificar com as crônicas e passassem a comprá-las toda semana. Voltando aos aspectos das crônicas, no que tange a simplicidade, Sá (1999) ressalta que ela só é valorizada quando o leitor utiliza o senso crítico para ler, como ocorre na crônica, em que, ao utilizar atributos da personalidade de cada um dos amigos, o narrador não o faz com o intuito de ser generalista, em sentido oposto, ele está transportando os jovens para serem representados, através do relato pessoal sobre amigos. Ainda sob esse aspecto, a reflexão proposta pela narrativa que tem como elementos singulares a oralidade e o coloquialismo elaborado incorre na premissa de Laurito (1993) acerca de não nomear essas particularidades do gênero como negativas, pelo contrário, elas são utilizadas para aproximar narrador e leitor. No entanto, mesmo com a simplicidade, oralidade e coloquialismo elaborado, a construção de raciocínio proposta por Costa (2010), de que as crônicas não dispensam e nem ignoram os recursos de toda linguagem literária, são perfeitamente aceitáveis nas crônicas de Caio. No tocante à linguagem literária, ela pode ser verificada na medida em que apresenta a escrita figurativa e a construção acerca de personagens, que, mesmo sem espaço de aprofundamento, são delineados para expor a sua natureza ao leitor. (COSTA, 2010) Ainda com relação à concepção da linguagem, é oportuno ressaltar que ela está relacionada à estrutura das crônicas. Nesse sentido, observamos que todas as crônicas da obra A Vida Gritando nos Cantos possuem narrador em primeira pessoa, o que equivale a afirmar que os textos em primeira pessoa intensificam um maior impacto social e acentuam maior envolvimento com a narrativa. Pellegrini (2008) corrobora essa visão sobre a narrativa em primeira pessoa, afirmando: Nas narrativas em primeira pessoa, a brutalidade da situação é transmitida pela brutalidade de seu agente (personagem), ao qual se identifica a voz 74 narrativa, que assim descarta qualquer interrupção ou contraste crítico entre narrador e matéria narrada. (p. 138-39) Já com relação às narrativas em terceira pessoa, a estudiosa ressalta que a identificação do narrador com o personagem acaba por ser impedida por motivos sociais. Nas palavras da autora: O desejo de preservar a distância social levava o escritor, malgrado a simpatia literária, a definir sua posição superior, tratando de maneira paternalista a linguagem e os temas do povo. Por isso se encastelava na terceira pessoa. (p. 138-39) Desse modo, narrar em primeira pessoa é uma forma de intensificar a relação entre literatura e o meio social, já que o narrador está envolvendo, de maneira notória, o leitor através de sua narrativa. Os textos de Caio podem ser analisados à luz da experiência social, além disso, ele utiliza as estratégias textuais para se aproximar do leitor e do meio em que está inserido. Dentre as estratégias, podemos ressaltar a linguagem atrelada à humanização, já que, para Candido (1989), as crônicas possuem essa peculiaridade: “Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão certa profundidade de significado e certo acabamento de forma.” (s./p.) Além disso, outra forma de aproximar narrador e leitor são a presença do humor e da ironia que se estabelecem entre as narrativas. Caio está calcado nessa premissa, por isso na próxima seção reúnem-se exemplos de como essas duas prerrogativas são recorrentes em sua narrativa. 2.2.3. O humor e a ironia nas crônicas de Caio Para melhor refletir acerca da presença do humor e da ironia nos textos de Caio, é preciso manifestar a sua conceituação e a forma com que serão entendidos nesse estudo. O conceito de ironia começa a se desdobrar com Lukács, na obra A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. O estudioso reflete acerca de sua conceituação ser recorrente dos primeiros teóricos do romance, os estetas do primeiro Romantismo. Sobre esses, o autor cita como exemplo a obra de Friedrich Schlegal, Kritische Ausgabe de 1967: “Para Friedrich 75 Schlegal, por exemplo, entre suas inúmeras definições a ironia é a contínua alternância entre autocriação e autoaniquilição.” (LUKÁCS, 2000, p. 74) De acordo com essa primeira conceituação da ironia através do gênero romance, Silva Filho (2012) ressalta que o conceito se desdobra através de um movimento duplo: “como exigência normativo-composicional e como radicalização subjetiva que excede a normatividade.” Isso posto, podemos entender que a ironia foi se modificando ao longo dos anos. Moisés (2004) acrescenta o seu percurso, desde a comédia grega, passando pela ironia dramática ou ironia trágica, até chegar ao conceito moderno em que pauta-se no indeciso contorno dos pensamentos da palavra, conforme indica o autor: De modo genérico, e segundo a tradição que remonta a Quintiliano, a ironia consiste em dizer o contrário do que se pensa, mas dando-o a entender. Ou nas palavras do autor da Institutio Oratoria (VIII, 6, 54; IX, 2, 44) a ironia é uma ilusão, envolvendo uma figura e um tropo, por meio da qual entendemos alguma coisa que é o oposto do que realmente foi dito. Estabelece-se um contraste entre o modo de enunciar o pensamento e seu conteúdo. A ironia funciona pois, como um processo de aproximação de dois pensamentos, e situa-se no limite entre duas realidades, e é precisamente a noção de balanço, de sustentação, num limiar estável, a sua característica básica do ponto de vista da estrutura. (MOISÉS, 2004, p. 247) Pode-se observar, ainda, que a ironia é uma forma de humor, ou desencadeia-se deste: “acompanhada de um sorriso; o sarcasmo induz ao cômico e ao riso, quando não a gargalhada.” (MOISÉS, 2004, p. 247) Ademais, para que as características ressaltadas acerca da ironia se concretizem, ela precisa estar inserida em um contexto, ao passo que fora dele, o seu efeito torna-se obscuro. Com vistas à conceituação do humor, que está atrelado à ironia, podemos entender como um conceito promulgado por Jan Bremmer e Herman Roodenburg (2000) na obra Uma História Cultural do Humor, é apreendido em seu sentido mais genérico, isto é, desde a troca de palavras, trotes aos trocadilhos, da farsa à sandice. Nas palavras dos autores: Entendemos o humor como qualquer mensagem – expressa por atos, palavras, escritos, imagens ou músicas – cuja intenção é a de provocar o riso ou um sorriso. Esta definição não só nos permite estender as investigações à Antiguidade Média, à Idade Média e ao início do período moderno, mas também fazer perguntas de interesse dos historiadores culturais: como o humor é transmitido e por quem, para quem, onde e quando? (BREMMER, ROODENBURG, 2000, p. 13) 76 Por essa linha de raciocínio, os autores entendem que a noção de humor é relativamente nova. Em seu significado moderno, a primeira vez que foi registrada ocorreu na Inglaterra em 1962, pois, antes disso, Bremmer e Roodenburg (2000) afirmam que significava “disposição mental ou temperamento.” (p. 14) Considerando as distintas concepções acerca da conceituação do riso, os estudiosos reconhecem a sua difícil conceituação: “até agora foi impossível estabelecer a coerência entre as várias palavras, conceitos e práticas do riso.” (BREMMER, ROODENBURG, 2000, p. 15). Com vistas ao humor, Barbosa (2010), após descrever os percursos do conceito desde a Grécia Antiga até a Comédia Clássica, compreendeu que o cômico está atrelado a fazer rir, enquanto o humorista faz rir e pensar: Ainda mais: enquanto a comicidade mostra, de diferentes maneiras, as contradições, o humorismo, além de mostrar essas contradições, trata de sentir dialeticamente, ao mesmo tempo, cada um dos elementos dessa contradição, a fim de compreendê-la. Assim, concluímos que o humorismo está relacionado a todos os métodos da comicidade, porém acrescentando um componente crítico. (BARBOSA, 2010, p. 46) No que tange o humor atrelado ao componente crítico, e a ironia cujo significado, de acordo com as acepções dos autores supracitados, consiste basicamente em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando uma distância entre aquilo que realmente existe e o que se pensa ser verdade, podemos entender que essa é a forma com que Caio utiliza a ironia e o humor em seus textos. Na crônica publicada em 31 de outubro de 1993, “Tese de mestrado à Holandesa”, o narrador descreve os tipos de gays que existem no Brasil. Desde o título, é possível perceber a presença do humor e da ironia. Em linhas gerais, o narrador relata a sua experiência ao ajudar um amigo holandês a preparar sua tese de mestrado. Sappe Grootendorst viveu algum tempo no Brasil, por isso o tema de seu trabalho era intitulado como “Homossexualismo na Literatura Brasileira”: Nas noites de inverno de Amsterdã, com os canais cobertos de gelo, eu tentava ajudá-lo a compreender o que, para uma cabeça holandesa, é tão complexo que mais parece título de outra tese: ambiguidade do comportamento sexual brasileiro. (ABREU, 2012, p. 165) A partir deste excerto em que o narrador traduz a temática do trabalho do amigo holandês, é possível considerar a perspectiva crítico-social que é abordada pelo autor sobre como ocorre o comportamento sexual brasileiro. Para explicar essa 77 ambiguidade, Caio aponta a literatura: [a ambiguidade] “ultrapassa a literatura, mas, naturalmente, tem reflexos nela. Tanto que uma das maiores personagens da nossa literatura (a/o Diadorim de Guimarães Rosa, em Grande Sertão) é um travesti.” (ABREU, 2012, p. 165) A ambiguidade citada pelo autor aparece em “o/a”, seria o Diadorim ou a Diadorim? Sob essa perspectiva, o escritor, para ajudar seu amigo, subdivide os gays brasileiros em quatro tipos básicos. O contexto em que os homossexuais são representados nesse primeiro momento da crônica assemelha-se não a um grupo de pessoas, mas sim a objetos, que são relacionados ironicamente a (sub)divisões. Nessa esteira, Alvarece (2009) explicita a sua construção de raciocínio acerca da ironia. Para a autora, o conceito pode ser melhor entendido através de um exemplo: A frase “Sorria você está sendo filmado”, encontrada há alguns anos em inúmeros centros comerciais espalhados por todo Brasil. Na verdade, deparando com esse enunciado, somos convidados não a esboçar um sorriso, como se sugere literalmente, mas, sim, somos avisados de que estamos submetidos a uma câmera e, sendo assim, caso ajamos ilicitamente, seremos identificados. Esse é, pois, um caso em que a ironia se faz presente no cotidiano, sem oferecer dificuldades maiores de interpretação. (ALVARECE, 2009, p. 24) O exemplo de Alvarece (2009) acerca de como a ironia pode ser compreendida em uma situação simples do cotidiano, que está deixando uma distância entre aquilo que realmente existe e o que se pensa em ser verdade, também pode ser inserida na crônica de Caio. Ao mencionar que os gays foram postos em classes diferentes, o narrador está indicando, de forma irônica, que eles são vistos em sua forma geral e não através de peculiaridades que lhes são únicas. Nessa perspectiva, Miskolci (2009) apresenta o conceito de heteronormatividade, como pressuposto de algo que é fundamento da sociedade: A heteronormatividade expressa as expectativas, as demandas e as obrigações sociais que derivam do pressuposto da heterossexualidade como natural e, portanto, fundamento da sociedade (CHAMBERS, 2003; COHEN, 2005, p.24) Muito mais do que o aperçu de que a heterossexualidade é compulsória, a heteronormatividade é um conjunto de prescrições que fundamenta processos sociais de regulação e controle, até mesmo aqueles que não se relacionam com pessoas do sexo oposto. Assim, ela não se refere apenas aos sujeitos legítimos e normalizados, mas é uma denominação contemporânea para o dispositivo histórico da sexualidade que evidencia seu objetivo: formar todos para serem heterossexuais ou organizarem suas vidas a partir do modelo supostamente coerente, superior e “natural” da heterossexualidade. (MISKOLCI, 2009, p. 156-157) 78 Através do conceito de heteronormatividade, em que a sociedade se determina a moldar os sujeitos para escolherem pessoas de sexo oposto para se relacionar, é imperioso considerar que essa é a representação que o narrador está determinando ao subdividir os gays em grupos. O narrador então explica quais as características que fazem um gay ser uma Jacira. Essas, de acordo com a sua divisão, são aquelas que todo mundo sabe que ela é, e ela mesma não se dá o trabalho de esconder que é mesmo. “Ao contrário, até gosta de exibir isso chamando atenção em público com gritinhos e gestos afeminados. O que talvez seja uma grande esperteza, pois a Jacira sabe também que, em sua hipocrisia, o Brasil aceita, aprova e até aplaude a caricatura.” (ABREU, 2012, p. 165) Já a Irma é mais complexa: a Irma é aquela que todos acham que ela é (dá a maior pinta), menos ela mesma. Frequentemente Irmas são casadas, ou têm noivas e namoradas, às vezes até filhos. Gente maldosa costuma chamá-las de “bichas com álibi”, mas a verdade é que, em se tratando de uma Irma, ninguém poderá provar jamais absolutamente nada.... (ABREU, 2012, p. 165) A terceira, intitulada como Telma é parecida com Irma, nega de pés juntos a sua opção sexual. Mas, ao contrário da primeira, Telma não “dá pinta.” (ABREU, 2012, p. 165) O problema, segundo Caio, “é que, depois do terceiro uísque, Telmas fazem coisas que deixariam até uma Jacira ruborizada. E na manhã seguinte, lógico, não lembram de nada.” (ABREU, 2012, p. 165) Telma ainda possui outra característica, leva a vida duplamente: “uma, contidíssima, como Telma propriamente dita; outra quando sai fora de si, como a mais louca das Jaciras.” (ABREU, 2012, p. 165) Ao contrário das três, a última, Irene, faz o estilo mais equilibrada, sensata: “Como não esconde nada, também não precisa se preocupar em ser ou não descoberta. Em geral é culta, viajada, analisada. De todas as formas, procura o equilíbrio, aceita seus desejos e até milita pela causa.” (ABREU, 2012, p. 166) De acordo com a construção de raciocínio proposta por Caio acerca dos quatro “tipos” de gays que a sociedade brasileira possui, é possível afirmar que, de forma totalmente irônica, isto é, deixando uma distância entre aquilo que realmente existe e o que se pensa ser verdade, a reflexão do autor pauta-se em uma exclusão social deste grupo. Todas elas se relacionam a “dar pinta”, a observar o que os 79 outros pensam, tentar fingir em ser o que não são. Mesmo a Irene, que é a mais equilibrada, está preocupada com a posição social que a sua opção sexual irá lhe trazer e milita pela causa. E, se isso ocorre, é porque ela está ciente dos tipos de exclusões que a sua opção lhe traz. Camargo (2010) explicita uma reflexão sobre o preconceito, de acordo com o autor, este é geralmente expresso por meio de ofensas que ferem os outros, “como, por exemplo, classificar, nomear um homossexual de ‘bicha’, de ‘viado’, de ‘gay’ ou de ‘mulherzinha’, entre outros adjetivos pejorativos, que denigrem a imagem e a identidade sociocultural de um determinado grupo ou indivíduo.” (CAMARGO, 2010, p. 04) Se fossem aceitas as premissas de que o narrador não estaria sendo irônico nesta crônica, a narrativa pautar-se-ia numa imagem de que ser gay é estar afrontando uma sociedade que é sedimentada em valores arcaicos, uma cultura conservadora e calcada na heteronormatividade. No entanto, Dip (2009) explica qual foi a intenção do narrador ao criar estes gêneros: Não contente com essa quantidade de gírias, Caio ainda inventava outras, hilárias, no seu típico humor gay, ou queer, que vinha com a liberação sexual em todos os cantos do mundo. (...) assim ele cria uma lenda de que quatro irmãs seriam os protótipos definitivos do gay masculino. (p. 70) A autora da biografia de Caio continua relatando que ele gostava de criar expressões: “ele vivia criando ou adotando expressões que se encaixavam em seu léxico desbocado.” (DIP, 2009, p. 70) O escritor gaúcho criava esses termos que só seus amigos entendiam, e Dip (2009) cita outros exemplos: com o tempo essas criações caíram na boca de toda uma geração, tais como: saia justa, para definir uma situação difícil; lasanha para homem gostoso; rodenir, que significa aborrecido; naja, que é pessoa venenosa; a Betty Faria e o Reginaldo (Farias) para se referir a um homem bonito e que ele adoraria transar; laika, a cadela russa que foi para o espaço, que significava pobrezinha, coitada; bambi, que queria dizer suave, aviadado; bagaceira, gíria gaúcha que ele trouxe para São Paulo e que significava de baixo nível; bolacha; nome meio para sapatão; do bem, para definir uma pessoa ou coisa legal (antônimo: do mal)... (DIP, 2009, p. 71) No tocante às divisões propostas por Caio na crônica, os quatro tipos, que foram intitulados com nomes femininos, apresentam alguns elementos em sua forma de representação. A Jacira, “chama atenção com gritinhos e gestos afeminados.” Os “gritinhos” e “gestos afeminados” a que o autor se refere são relacionados a pessoas 80 que têm interesses sexuais por outras do mesmo sexo. Sobre a Irma, Caio menciona que todos acham que ela é, mas “não dá pinta”, e ainda chama-a de “bicha álibi”, a relação entre não dar pinta e os gritinhos afeminados é direta. Não dar pinta significa que a Irma não tem esses gritinhos (no sentido diminutivo para indicar que se assemelham a um tom fino, mais aproximado com a voz feminina). Já “bicha álibi” é um termo ofensivo para chamar os homossexuais, e, de acordo com o Dicionário Aurélio, há vinte e duas significações para este termo, dentre elas, “relativo à homossexualidade masculina, que tem determinadas características que se atribuem à homossexualidade masculina.” (FERREIRA, 1988, p. 214) Com relação a Telma e Irene, a primeira nega sua opção sexual, entretanto, após estar sob efeito de bebidas com teor alcoólico, “ela se revela”, e, por fim, a Irene não se preocupa em ser descoberta, pois até mesmo ela milita em favor dos homossexuais. Mesmo que de forma indireta, as duas últimas apresentam conotações pejorativas, haja vista que a primeira precisa de bebidas alcoólicas para se revelar e a segunda participa de manifestações, o que nos permite inferir que elas “obedecem” à sociedade que não aceita pessoas que fogem da regra quanto à sexualidade. Outra reflexão acerca da crônica são os nomes que o autor escolheu para intitular os quatros tipos de gays. Jacira, Irma, Telma e Irene se relacionam ao gênero feminino, mas por que, se o substantivo “gay” está relacionado ao masculino? No que tange ao assunto em questão, Alós (2010) acentua o fato de poder haver a separação entre gênero e sexualidade: O Gênero e sexualidade, embora categorias distintas, não devem ser completamente desarticuladas, visto que se corre o risco do completo apagamento das relações de poder estabelecidas sob o signo da diferença de gênero. Se por um lado gays e lésbicas sofrem os efeitos do discurso heteronormativo, por outro a pertença ao gênero feminino transforma radicalmente a experiência das lésbicas, diferenciando assim a socialização e, consequentemente, a textualização dos significantes ‘gay’ e ‘lésbica’ na literatura. (p. 857) Além da presença de nomes femininos para denotar os gays, o narrador argumenta em sua crônica que nem mesmo elas se aceitam: Os quatro tipos têm relações conflituosas. Só as Irmas, muito tolerantes, parecem aceitar as outras três. As Jaciras, por exemplo, super-radicais, acham que Irmas e principalmente Telmas não passam de “umas enrustidas”, enquanto as Irenes para elas são “umas falsas”. Já as Telmas, 81 quando sóbrias, detestam Jaciras, demasiado explícitas, mas admiram a discrição das Irmas e desconfiam das Irenes. Estas, democráticas, tentam aceitar a todas, mas têm o irritante hábito de recomendar psicanálise às Irmas e Telmas, e consideram as Jaciras “umas folclóricas”. (ABREU, 2012, p. 166) Na medida em que o narrador demonstra a relação conflituosa que existe entre esse grupo, está afirmando o seu engajamento contra o preconceito existente na sociedade. A forma irônica de tratar o assunto torna-se premeditada para demonstrar que indivíduos são excluídos por uma opção que lhes é pessoal. A exclusão, nesse caso, pode ser entendida de acordo com a reflexão proposta por Porto (2000), como uma categoria na qual os atores sociais vivenciam essa prática decorrente “de processos sociais fragmentados, diferenciados e plurais.” A exclusão dessa minoria é acentuada através dos relatos do narrador no restante da crônica: Quando passei a relação para Karvin Von Schweder-Schreiner, a tradutora alemã de Rubem Fonseca, ela não só me garantiu que as quatro categorias eram internacionais, como imediatamente localizou uma quinta – a Renata. Que é aquela que, como a Irma, também tem um álibi, mas em lugares públicos sempre dá um jeitinho de ir a banheiros dos homens, onde presta muita, muita atenção. Pedro Paulo de Sena Madureira também localizou outra – a Ondina. Aquela que, ao entrar num ambiente mais descontraído (sauna, bar, discoteca, por exemplo), instintivamente começa a ondular feito uma Jacira. (ABREU, 2012, p. 166) Fica evidente o olhar do narrador sobre as divisões e o seu posicionamento quanto a esse grupo de minorias. O narrador termina a crônica, contando que seu amigo Sappe, através dessa divisão, não somente entendeu como são os gays brasileiros, que até mesmo os identifica: “Irmas e Telmas no metrô. Jacira era mais difícil: ela é mais comum nos trópicos, mas não se dá bem com a severidade europeia e precisa de calor para soltar toda sua jacirice.” (ABREU, 2012, p. 165) O contexto a que a ironia está relacionada na crônica fica ainda mais claro quando o autor menciona a tese de seu amigo, “quanto à tese – bem, por carta Sappe me informa que está pronta. Chama-se, juro, ‘Literatura Bambi no Brasil’.” (ABREU, 2012, p. 165) “Bambi”, de acordo com a afirmação de Dip (2009) foi outra expressão criada por Caio, cunhada no humor, o que acentua uma perspectiva da crônica de, ao mesmo tempo, usar a comicidade para fazer alusão à comunidade homossexual através da expressão “Bambi” e também de sinalizar uma crítica social ao apontar 82 que os gays são sujeitos “guetificados”, excluídos socialmente e cujos rótulos são percebidos através Jacyras, Telmas, Irmas e Irenes. Esse traço, ao mesmo tempo cômico e crítico de “Tese de mestrado à holandesa”, permite compreender que a crônica de Caio serve-se do humor segundo a perspectiva de Barbosa (2010). Além deste, a crônica do autor apresenta outros traços, como, a subjetividade e a alusão a elementos externos ao texto. Sobre essas prerrogativas que a próxima seção irá tratar. 2.2.4. A subjetividade e o trabalho de citação nas crônicas O tom íntimo e coloquial utilizado por Caio nas crônicas é uma de suas marcas na escrita desse gênero. Contudo, há também várias referências a autores e obras que sinalizam um intenso trabalho de citação nas crônicas do escritor. Nesse contexto, o leitor possui uma importante tarefa: estar preparado para a compreensão dos elementos externos ao texto que são citados pelo autor. Acerca destes elementos externos, entendemos que Caio utiliza em suas narrativas o que Antoine Compagnon, na obra O trabalho da citação, compreende como citação. Para o estudioso, a citação pode ser comparada ao processo arcaico e lúdico de recortar e colar, do mesmo modo que essa brincadeira é feita, o escritor utiliza os elementos que “recorta” em seus textos. É nesse sentido que o autor afirma: “a citação trabalha o texto, o texto trabalha a citação.” (COMPAGNON, 2007, p. 46) Além disso, o contexto também deve ser analisado nesse processo: “A citação não tem sentido em si, porque ela só se realiza em um trabalho, que a desloca e que a faz agir.” (COMPAGNON, 2007, p. 47) Com vistas à perspectiva segundo a qual ocorre um cruzamento de vozes na construção literária, o diálogo incorre na medida em que a obra e a sociedade fazem parte dessa ótica, justamente o que pode ser verificado em Caio. O autor utiliza elementos de citação em seu texto que estão inseridos sob o viés de um contexto externo, que precisa ser compreendido pelo leitor. Por esse processo de compreensão, Compagnon (2007) entende que há quatro figuras distintas para o processo de leitura: ablação, grifo, acomodação e solicitação. A primeira estaria relacionada a extrair uma parte importante do texto, o 83 grifo é um processo que coloca marcas ao texto, conforme relata o estudioso: “o grifo na leitura é a prova preliminar da citação (e da escrita), uma localização visual, material que institui o direito do meu olhar sobre o texto. Tal como o reconhecimento militar o grifo coloca marcas.” (COMPAGNON, 2007, p. 19) No tocante à acomodação, o autor a transpõe para um lugar de reconhecimento, já que se refere a uma marca de leitura: Dentre as numerosas definições em torno da citação, proporemos esta: a citação é um lugar de acomodação previamente situado no texto. Ela integra em um conjunto ou em uma rede de textos, em uma tipologia das competências requeridas para a leitura; ela é reconhecida e não compreendida, ou reconhecida antes de ser compreendida. (COMPAGNON, 2007, p. 22) Após retirar a parte importante do texto, grifar e marcar, a solicitação é compreendida como o retalhamento das narrativas. O autor explica: Ela [solicitação] limitar-se-ia ao namoro, deixaria de excitar, de retalhar o texto. Seria, sem dúvida, uma interpretação, assim como uma única leitura concebível da enunciação. A solicitação é o correspondente, em leitura, da enunciação, um acomodamento, uma conciliação do enunciado. E as marcas da solicitação no texto são as excitações, os grifos, os desmembramentos: sinais sempre aproximativos e insatisfatórios, mas presunções de uma verdade que foi, instantaneamente, a da minha leitura. (COMPAGNON, 2007, p. 26) Com vistas à aproximação que esses quatro processos possuem, Compagnon (2007) elucida que não necessariamente se sucedem, mas sim podem realizar-se uns nos outros: Todavia, há entre elas uma degradação latente, uma ordem teórica, inversa daquela em que foram descritas e que, partindo da mutilação, penetrava até o intratável da paixão pela leitura, onde se perdia. Elas partem do objeto total em que é para mim o texto que me encanta na solicitação, passam pela acomodação num lugar reconhecido de satisfação, pelo grifo que aprisiona esse lugar, e alcançam o objeto parcial que destaco do texto na ablação. Trata-se através desses quatro momentos, de uma aproximação cada vez mais fina, de um quadriculado estratégico. Mas esse não tem nada a ver com a significação. (COMPAGNON, 2007, p. 27) Por significação o autor compreende como sendo o quinto processo a que a leitura está relacionada: “Eu recorro ao sentindo como a um último recurso, agarrome a ele por não poder encontrar a paixão, na ilusão desesperada de que um esforço sobre a significação prender-me-ia ao texto, que pela solicitação, não me 84 prendeu.” (COMPAGNON, 2007, p. 28) A solicitação, nesse contexto, faz parte ao valor que é atribuído ao texto. E após a ela, o estudioso cita a excitação visto que destaca o sentido da solicitação. Na esteira entre a solicitação e a excitação, encontra-se a citação. Compagnon (2007) esclarece que a citação, Está no princípio de toda leitura, pelo menos daquela que, impotente, prende-se exclusivamente à significação. A citação tenta reproduzir na escrita uma paixão pela leitura, reencontrar a fulguração instantânea da solicitação, pois é a leitura, solicitadora e excitante, que produz a citação. A citação repete, faz com que a leitura ressoe na escrita: é que, na verdade, leitura e escrita são a mesma coisa, a prática do texto que é prática do papel. A citação é a forma original de todas as práticas do papel, o recortarcolar, e é um jogo de criança. (COMPAGNON, 2007, p. 29) O estudioso distingue várias “modalidades” de citação e defende a ideia de que estas por si só, são provocativas para o leitor, oferecem pistas de como realizar a leitura: “Ela marca um encontro, convida para leitura, solicita, provoca como uma psicadela: é sempre a perspectiva do olho que se acomoda, do olho que se supõe na linha de fuga da perspectiva.” (COMPAGNON, 2007, p. 23) Com efeito, quando o autor cita, os leitores são levados a outros lugares, ampliando, assim, a visão de leitura acerca das obras. Além disso, o autor destaca ser necessário não apenas identificar o trabalho de citação em um texto, mas especialmente identificar o sentido que essa citação confere ao texto escrito. Conforme o viés apresentado acerca do conceito de citação, é possível inferir que o leitor precisa compreender que os elementos externos aos textos auxiliam na melhor compreensão das obras. Nesse sentido, Compagnon (2007) destaca que o trabalho de citação no ato de leitura exige uma competência leitora: A citação é um operador trivial de intertextualidade. Ela apela para a competência do leitor, estimula a máquina da leitura, que deve produzir no trabalho, já que, numa citação, se fazem presente dois textos cuja relação não é de equivalência, nem de redundância. Mas esse trabalho depende um fenômeno imanente ao sentido conduzindo a leitura, porque há um desvio, ativação de sentido: um furo, uma diferença de potencial, um curto-circuito. O fenômeno é a diferença, o sentido é a sua resolução. (COMPAGNON, 2007, p. 58-59) Por esse prisma, somente um leitor preparado entenderá o processo de citação, assim, a figura do leitor passa a ser considerada como destaque. O estudioso Umberto Eco parte da premissa de que o processo interpretativo se compõe de uma tríade que é formada entre autor-texto-leitor. Nessa esteira, será o 85 leitor quem deverá fazer um recorte sobre as estratégias textuais que o autor coloca em seus textos. Assim, o leitor, chamado de ideal/modelo, vê a necessidade do reconhecimento de sua interpretação como elemento importante para fazer uma boa leitura. Tais perspectivas estão atreladas nas crônicas de Caio em diferentes formas: em “Beta, beta, Bethânia”, por exemplo, sem o conhecimento prévio das citações, não é possível compreender a mensagem do narrador. Nesta crônica, que foi publicada em 11 de fevereiro de 1987, o narrador explicita a sua afinidade com relação às músicas de Maria Bethânia. Podemos apontar a presença dos elementos externos ao texto através do fragmento: Os muito darks que me perdoem, mas Maria Bethânia é fundamental. Sei, vocês vão dizer que ela é brega, careta, exagerada, melodramática. Pode ser. Mas essa coisa chamada vida, onde estamos metidos até o pescoço, às vezes também não é brega, careta, melodramática? A vida é mais Nelson Rodrigues ou mais Clarice Lispector? Mais Augusto dos Anjos ou Emily Dickinson? Fassbinder ou Jacques Demy? Philip Glass ou Dead Kennedys? Mias Sex Pistols ou mais Cecília Meireles? Bukowsi ou Bergman? (ABREU, 2012, p. 78) A primeira frase desse excerto apresenta uma alusão a um dos versos da poesia, Receita de Mulher, de Vinicius de Moraes, quando este poeta declara que “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. A citação indireta desse verso na crônica de Caio se manifesta em dois níveis: o primeiro é linguístico, já que a sintaxe do texto original é mantida; e o segundo é conteudístico, pois, assim como o sujeito-lírico de Moraes defende a beleza mesmo sabendo da existência de mulheres feias, o narrador da crônica de Caio defende a música de Maria Bethânia mesmo sabendo que um tipo especial de público, os darks, não se identificam com o estilo musical da cantora. Esse reconhecimento da citação só é possível na medida em que o leitor da crônica de Caio mobiliza seu conhecimento prévio e se propõe a refletir sobre o sentido que tal citação acarreta ao texto. Além disso, é possível destacar que, na medida em que o narrador cita desde cantores até escritores, eles possuem um sentido para estar em seu texto, isto é, estão atrelados a diferentes momentos de sua vida. Essa premissa pode ser verificada no trecho: Tudo isso, sim, e muito mais. O engarrafamento às seis da tarde de uma sexta-feira de chuva, na marginal do Tietê, pode ser uma emoção-Titãs (tipo 86 “Bichos escrotos”). Transar com a garota prostituta da rua Augusta, de minissaia de couro e correntinha no tornozelo, pode ser uma emoção-Dalton Trevisan. Dar um espirro bem na hora de dizer eu-te-amo pode ser uma emoção-Woody Allen. Assim por diante, cada coisa sendo por cada um é tão particular que, mesmo lugar-comum ou já cantado em prosa e verso, é para sempre também único. Infinitiva e indivizivelmente subjetivo. (ABREU, 2012, p. 78) O fragmento viabiliza um primeiro conjunto de observações. Um primeiro ponto diz respeito à forma com que Compagnon (2007) reconhece as citações. Para o estudioso, a citação por excelência é a epígrafe, e, além desta, há a citação por aspas e a bibliografia. A recorrência das citações na narrativa de Caio se dá com a utilização da bibliografia e das aspas, e um exemplo de como incorre o emprego da primeira é a menção do fragmento supracitado que remete as músicas e cantores. O crítico explica esse recurso da seguinte forma: Assim como uma cidade (mais urbana que celeste: uma pessoal moral), o texto é cercado por todos os lados. Ao pé da muralha, um fosso reduplica e acentua a fronteira; ele é sinalizado com postes e marcos; barreiras policiais vigiam as entradas: são as referências exibidas, as notas de rodapé – footnotes, em inglês. A todo instante elas trazem à lembrança aquilo sobre o que o texto se apoia, muletas ou estacas, aduelas: o texto é uma ponte lançada no vazio, do que tem horror; ele teme a queda. Entre seus pilares, [estão] a epígrafe e a bibliografia. (COMPAGNON, 2007, p. 124) Por essas vias, entendemos a bibliografia – como a metáfora utilizada pelo estudioso – o pé de uma montanha que é sinalizado por postes e marcos, então esses seriam os elementos externos, que se incorporam ao texto, proporcionando a sua sustentação, exatamente como a inclusão da bibliografia na narrativa de Caio é utilizada. Nesse sentido, a referência à música dos Titãs, na crônica “Beta, beta, Bethânia”, configura-se como uma bibliografia, isto é, um elemento externo que é citado ao texto. Para que o leitor entenda o que está sendo exposto pelo narrador, ele precisa ter conhecimento que a música “Bichos escrotos” do Titãs fala sobre baratas, ratos e lixos. Além disso, é preciso saber que a marginal Tietê é uma avenida da cidade de São Paulo que passa ao lado do rio Tietê. Este rio tornou-se conhecido em todo país pelas constantes divulgações na mídia acerca de sua poluição e sujeira. Por isso, o narrador, ao citar a música, está fazendo menção de que, em dias de chuva, a sujeira se intensifica e, nesse ambiente de sujeira, putrefação e decomposição de matéria-orgânica, todos decorrentes dos resíduos, acarretam ainda mais um ambiente favorável para a proliferação de animais, que se 87 utilizam dos entulhos que se formam nos rios para construir seu habitat. Outros elementos externos ao texto são citados através da presença de Dalton Trevisan e Woody Allen. Sobre o primeiro, Soerense et al (2012), afirmam: Dalton Trevisan é um dos maiores contistas brasileiros. O autor utiliza o conto, que faz parte do gênero de narrar, para trazer à tona a reflexão sobre o cotidiano. É uma sequência de fatos corriqueiros que se caracteriza pela presença de ações, pela ocorrência de personagens prosaicas e por se referir a acontecimentos ordenados, na maioria das vezes, cronologicamente. (p. 207) Ao reconhecer acerca do que as autoras explanam sobre Dalton Trevisan, é possível verificar qual a interação entre a citação do narrador, quando diz “transar com a garota prostituta da rua Augusta, de minissaia de couro e correntinha no tornozelo, pode ser uma emoção-Dalton Trevisan” (ABREU, 2012, p. 78). O narrador está referindo às temáticas utilizadas pelo autor paranaense, já que este se dedica ao fazer literário sem concessões às distrações da vida pessoal e social e, nesse sentido, podemos afirmar que, sem o conhecimento prévio acerca das temáticas utilizadas por Trevisan, não seria possível compreender a citação do narrador. Em sentido análogo ocorre a referência a Woody Allen, que é o nome artístico de Allan Stewart Königsberg, um cineasta, roteirista, escritor, ator e músico estadunidense, que no excerto é relacionado pelo narrador a sua forma de fazer cinema. Ainda nesse aspecto, é possível inferir que os elementos supracitados, que são encontrados no texto de Caio, estão relacionados ao processo produtivo do escritor. Esse trabalho da escrita realizado pelo narrador pode ser melhor compreendido com base na explicação de Compagnon (2007): O trabalho da escrita é uma reescrita já que se trata de converter elementos separados e descontínuos em um todo contínuo e coerente, de juntá-los, de compreendê-los (de tomá-los juntos), isto é, de lê-los: não é sempre assim? Reescrever, reproduzir um texto a partir de suas iscas, é organizá-las ou associá-las, fazer as ligações ou transcrições que se impõem entre os elementos postos em presença um do outro: toda escrita é colagem e glosa, citação e comentário. (p. 39) Nesse sentido, o estudioso afirma que escrever é sempre um ato de reescrever, visto que, os elementos externos ao texto – as citações – diluem-se em meio as ideias de quem está nesse ato de escrita, construindo assim, um novo texto que mescla essas diferentes alusões. Voltando a crônica, além deste trabalho de 88 recriação por parte do narrador, identificamos outros signos: a melancolia, subjetividade e introspecção, todos eles ligados à citação tanto da música (referenciada na crônica por Titãs), Literatura (Dalton Trevisan) e cinema (Woody Allen): Darks, pós-modernos, minimalistas, gliters, apocalípticos, concretistas, skinheads, me perdoem. Na noite de sábado, caminhando sozinho pela avenida Paulista, o quarto-crescente brilhando sobre a torre da TV Globo, uma vontade desesperada de ter alguém – as únicas canções que me vieram à mente para cantar baixinho foram canções de Bethânia. Doía fundo estar perdido na grande cidade, era completamente sem remédio ser só uma pessoazinha machucada. Mas brotou então um orgulho tão grande de ser ainda capaz de sentir o coração cheio de emoções-Bethânia que era quase como uma felicidade. Sangrada, do avesso – que importa? Era real, era vivo. Isso é muito, e Bethânia canta. (ABREU, 2012, p. 79) O narrador novamente faz menção ao excerto de Vinícius de Moraes, Receita de Mulher, ao afirmar que os “Darks, pós-modernos, minimalistas, gliters, apocalípticos, concretistas, skinheads, me perdoem”. (ABREU, 2012, p. 79) Nesse sentido, o leitor precisa estar preparado para entender o trabalho desta citação. À medida que o narrador cita esses grupos sociais, está fazendo menção que nenhum destes tem preferência musical por Maria Bethânia, e esse é um dos motivos pelos quais está se desculpando e já os avisa que irá cantar. Nessa esteira, o leitor precisa também ter conhecimento prévio sobre Maria Bethânia, isso porque é através do seu estilo musical - mais romântico e introspectivo - que o narrador se utiliza para preencher a sua “quase felicidade”, e denotar seu estado de espírito. Já em outras crônicas, como a “Por falar em estrelas”, publicada em 14 de agosto de 1986, a figura do leitor também não é de passividade com relação à interpretação dos intertextos, contudo, o narrador deixa essas citações de forma clara, o que corrobora para que o contexto não tenha tanta relevância, quanto na crônica anterior. A narrativa da crônica citada, de forma geral fala sobre a paixão do narrador pela astrologia. Para confirmar que é uma ciência séria, ele cita algumas fontes, como por exemplo: O que seria, então? Bom, se a astrologia fosse pura idiotice, você acha que Fernando Pessoa teria sido astrólogo? Aliás, a chave – ou uma das – para a compreensão de seus heterônimos está justamente nos mapas astrais que o danado levantou dos próprios. Para quem entende do negócio, faz muito sentido saber que Ricardo Reis tinha Mercúrio, Urano, Lua e Júpiter na casa 8 – a casa das transformações, da transcendência. Ainda nessa linha: Anais Nin, escritora brilhante, também era astróloga (e psicóloga). E Milan Kundera, veja só, é outro. (ABREU, 2012, p. 39) 89 Como podemos perceber, a presença de elementos externos torna-se como na primeira crônica, evidente. No entanto, os escritores/astrólogos, Fernando Pessoa, Anais Nin e Milan Kundera não implicam a determinação da interpretação do leitor acerca da crônica. Mesmo sem conhecer as suas biografias, o leitor tem informações no texto de Caio para que eles sejam reconhecidos e entendidos. Esses aspectos podem ser melhor explorados, com o excerto da narrativa em que o narrador explica a diferença entre astrologia e horóscopo de jornal: O problema é que as pessoas confundem astrologia com horóscopo de jornal. E não há nada mais pessoal que uma mapa astral, o retrato do céu no momento em que nascemos. O horóscopo de jornal considera apenas a posição em que estava o Sol, ou o ascendente (a constelação do Zodíaco que subia no horizonte no momento do nascimento) e isso é vago demais. Em certos casos – como no horóscopo do Caderno 2, o de Hollander, na Folha, ou o de Pedro Tornaghi, no Around – as informações mais sérias. E mesmo assim, vagas. Para fazer uma previsão astrológica, é preciso considerar trânsitos, progressões, revoluções, direções. (ABREU, 2012, p. 39) Mesmo sem ter o conhecimento prévio do Caderno 2, Hollander ou de Pedro Tornaghi do Around, o leitor pode entender que o narrador está citando elementos externos ao texto para explicar a diferença entre um horóscopo e o zodíaco. Além desse tipo de citação - a bibliográfica - nesta crônica há a ocorrência da utilização das aspas: E para quem quiser ficar atento, deixo de saideira este trecho (citado de memória) de Doris Lessing, em Shikasta: “Todos nós fazemos parte das estrelas. Elas nos fazem, nós as fazemos. Somos parte de uma estranha coreografia da qual nunca, de maneira alguma, podemos pensar em nos separar.” (ABREU, 2012, p. 40) Com a utilização das aspas, o narrador está mencionando de forma direta um elemento estranho ao seu texto, esse elemento é a citação por aspas. Compagnon (2007) a define como: O que as aspas dizem é que a palavra dada a um outro, que o autor renuncia a enunciação em benefício de um outro, as aspas designam uma re-enunciação, ou uma renúncia a um direito de autor. Elas operam uma sutil divisão entre os sujeitos e assinalam lugar em que a silhueta do sujeito da citação se mostra em retirada, como uma sombra chinesa. (p. 52) Desse modo, citando, o narrador faz com que um extratexto interfira na escrita, perfazendo uma nova enunciação que se mistura a ideia de outrem às 90 explicações do novo texto, conduzindo assim o leitor a um mundo mais extenso. Com esteio nas ideias apresentadas, é oportuno ressaltar que, mesmo com as diferenças que foram expostas, as crônicas possuem uma coordenada em comum: o leitor é figura ativa. Através das narrativas pode-se refletir sobre o Leitor-Modelo que Caio espera de seus textos. Com base em seu estilo de linguagem e a forma com que conduz suas narrativas, podemos inferir que o Leitor-Modelo21 de Caio deve ter conhecimentos sobre elementos que contenham significação fora de seus textos. Nesse contexto, o narrador precisa da colaboração do leitor, no sentido, do primeiro deixar pistas para serem apreendidas, o que estiver implícito precisa ficar claro para o leitor. Por exemplo, quando lemos, “o filho de dona Matilde tornou-se médico”, o que está implícito, que o autor deixa pistas para o leitor, é que dona Matilde é a mãe, e que o filho dela é um homem, um ser vivo, que respira, etc. Nessa perspectiva de leitura, podemos entender que Eco volta-se para a reflexão de que ler vai além da perspectiva de compreender o que o texto diz, mas sim ler é observar as implicaturas, aquilo que não está dito no texto: “O trabalho do leitor é duplo: ao mesmo tempo que deve expandir certos termos, deve reduzir outros: amplia algumas propriedades, ao mesmo tempo que mantém outras sob narcose.” (ECO, 1979, p. 91) Nessa esteira, percebemos que a atribuição de sentido a um texto ocorre na medida em que as hipóteses interpretativas são realizadas pelo Leitor-modelo. Esse leitor pode até não existir, mas o autor, de acordo com Eco, precisa trabalhar seu texto para construí-lo. Por si, o texto é visto como um sistema isolado, enquanto não estiver inserido, correlacionado a um objeto, perderá o sentido. Mesmo com a utilização de um dicionário para identificar o significado das palavras, não solucionará a questão, pois sempre há propriedades semânticas que permanecem implícitas. Outro fator que contribui para essas características citadas pelo autor é que a comunicação de um texto não ocorre frente a frente entre leitor e autor, de forma a obter perguntas/respostas, e, com vistas a isso, é que o leitor precisa cooperar: “O texto é um produto cujo destino interpretativo deve fazer parte do próprio mecanismo gerativo.” (ECO, 1979, p. 39) Expressão que foi idealizada por Umberto Eco. O estudioso, em sua obra, “Lector de uma Fábula” admite que ao produzir um texto, o autor imagina como o leitor irá definir suas prerrogativas, contudo, ele não sabe ao certo como será interpretado, de como será esse leitor. E é neste contexto de produção e recepção que Eco cria a concepção de Leitor-Modelo. 21 91 Por interpretação, Eco (1979) entende que a sua noção, “sempre envolve uma dialética entre estratégia do autor e resposta do Leitor-Modelo.” (p. 43) O autor advoga ainda que a interpretação pressupõe um recorte, que são determinadas pelas estratégias textuais entre autor, texto e Leitor-Modelo, assim, a interpretação deve ser vista como um processo aberto e cooperativo pela tríade autor-texto-leitor. É com base nas inter-relações formadas por autor e leitor que os diálogos nas crônicas de Caio estão pautadas, haja vista também o intenso trabalho de citação que é perceptível nas crônicas do autor e que mobilizam o conhecimento prévio do leitor na construção de sentido para as crônicas. É sobre a busca pelo diálogo com o leitor que a próxima seção trata. 2.2.5. A busca pelo diálogo com o leitor Uma particularidade da crônica que lhe confere importância está calcada no processo que busca a manifestação da oralidade na escrita, isto é, deixa de ser um comentário argumentativo ou expositivo para se tornar uma espécie de conversa entre narrador e leitor. No que tange ao leitor, é importante ressaltar que o leitor de jornal não é uma unidade abstrata, visto que o meio impresso se dirige a um públicoalvo, dessa forma, o jornalista/cronista, sabe – de forma generalista, mas não abstrata – a quem está escrevendo e quais os interesses destes leitores22. Nesse sentido, torna-se mais fácil para o narrador manter uma espécie de diálogo com os seus leitores. E é sobre esse processo de diálogo entre narrador/leitor que observaremos nas crônicas de Caio. A crônica publicada em seis de abril de 1986 “Para machucar corações” está atrelada a um dos assuntos preferidos do escritor gaúcho em suas crônicas: a música. Com vias a comentar o disco do músico John Lennon, o narrador mescla reflexões do dia a dia em uma cidade movimentada: “Aquela fadiga que se insinua, persistente, entre o ruído das buzinas e das descargas nos engarrafamentos de trânsito, todo dia.” (ABREU, 2012, p. 17) A música, no contexto de cidade grande, pode ser entendida como uma fuga dos motoristas que precisam enfrentar os problemas citados pelo narrador. 22 Para melhor avaliar as condições de mercado em que o jornal estará inserido, uma estratégia que é utilizada, principalmente em grandes jornais, é a pesquisa de opinião pública. Esta apresenta resultados importantes, no que tange ao público-alvo, desde idade, classe social, dentre outros. Desse modo os jornalistas têm maior conhecimento a quem estão escrevendo. 92 Além do assunto principal – música –, o diálogo com o leitor é frequente em toda crônica, como pode ser observado, na linha de apoio23 da crônica: “Para quem tem mais de trinta, trinta e cinco anos, este disco pode ser uma tortura. Não, não é que seja um mau disco. Eu explico. Ou melhor tento.” (ABREU, 2012, p. 17) Este fragmento constitui uma espécie de orientação de leitura que apresenta pistas ao leitor sobre o conteúdo da crônica. Podemos relacionar a linha de apoio ao hibridismo que as crônicas possuem com a literatura e o jornalismo, já que esse elemento está presente em grande parte das 109 crônicas que estão reunidas na obra escolhida para compor o corpus dessa pesquisa, A Vida Gritando nos Cantos. Além da presença dessa orientação de leitura, a opinião do narrador fica evidente. Sobre esse aspecto, Simon (2008) explica que, nas crônicas, o espaço do que o “eu” enxerga está atrelado à condição de narrador: A crônica que funde acontecimento e comentário do acontecimento é propícia como espaço para aquilo que o “eu” vê, para o que o “eu”, desdobrando-se em seguida para a expressão dos sentimentos, comentários e reflexões face ao que foi – às vezes, muito brevemente narrado. (p. 62) Tomando como referência a proposição do autor, o narrador reproduz na crônica a sua visão acerca do que o disco de John Lennon acarreta no meio social. Nesse sentido, o narrador intui a busca por um diálogo, já a marca do discurso pode ser observada em fragmentos: “É que fatalmente eu/tu/ele/nós vamos lembrar.” (ABREU, 2012, p. 17) O narrador inclui dessa forma o leitor, deixando-o como parte integrante da situação que é construída por ele (o narrador): “Eu não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou se seria boas, lembradas hoje, você me entende?” (ABREU, 2012, p. 17) Mesmo sem possuir as marcas do narrador e o rompimento da convenção do discurso com relação à marcação das falas por aspas ou travessões, quando o narrador afirma “você me entende?”, percebemos a presença de uma espécie de diálogo. Em leitura análoga, uma das premissas presentes nas crônicas de Caio é o diálogo que suprime a presença do narrador. Há um rompimento de convenção do discurso, as falas são marcadas por expressões, sem a pontuação correta e sem a 23 Linha de apoio é uma expressão com cunho jornalístico. Representa, como o nome propõe, a linha colocada abaixo do título, para explicar o que o título deixou implícito. A linha de apoio pode também ser entendida como uma sucessora do lide, isto é, do primeiro parágrafo em que as principais informações da notícia/reportagem devem ser expostas. 93 marcação para o leitor da mudança de quem fala. Essa observação pode ser exemplificada através do fragmento: Ele foi gravado ao vivo, no Madison Square Garden, em 30 de agosto de 1972. Há quase, portanto, catorze anos. Você tinha quantos – quinze, vinte, vinte e cinco? E provavelmente também imaginava que, um dia, pudesse não haver mais guerras, nem países, nem ódio entre as pessoas. Um mundo novo, não é isso? (ABREU, 2012, p. 17-18) Ao contextualizar os leitores da crônica acerca do período em que o disco de John Lennon foi produzido, o narrador, em formato de indagações, reporta-se aos leitores, observando um possível questionamento àqueles que estão lendo a crônica. O rompimento da convenção de discurso fica evidente neste diálogo, haja vista que, ao mesmo tempo em que o narrador pergunta, já coloca supostas respostas que os leitores lhe poderiam inferir. Essas afirmações ficam evidentes quando o narrador questiona: “Você tinha quantos – quinze, vinte, vinte e cinco?” E após, ainda, faz uma reflexão do meio social, denotando, que, com essa idade, as pessoas sonham com um mundo melhor. Nesse sentido, entendemos, além do rompimento da convenção de discurso, um cuidado especial para inserir o leitor em uma espécie de diálogo. Essas mesmas marcas podem ser notadas em outras crônicas de Caio, como em “Inútil pranto por Santa Tereza”, em que o narrador conta, em formato autobiográfico, a sua história com a cidade de Santa Tereza. Nessa crônica, o diálogo com o leitor está explicitando a incorporação de representar a violência que está ocorrendo nas cidades. Os tons de diálogos são mais reflexivos e menos diretos que em “Para machucar corações”. A marca desta premissa pode ser verificada no trecho a seguir: Nos fundos do apartamento, um abismo de bananeiras, flores tropicais e selvagens que ninguém sabe o nome. Vezenquando alguma sobra atravessa a rua, bem natural. E nós tão hippies, mas tão hippies que volta e meia, geralmente nos sábados à tarde, o pintor Luiz Jasmin (onde andará?), que morava ao lado, colocava as caixas de som na janela e a trilha sonora de Hair bem alto, só para nós. Os acordes de Aquaris ou Let the sunshine in eram uma declaração de simpatia ao mesmo tempo explícita e delicada. Se éramos felizes? Não sei, éramos jovens. (ABREU, 2012, p. 217) A indagação sugestiona a introspecção do narrador através de lembranças íntimas com o morro de Santa Tereza. Já a representação do real pode ser 94 observada no último parágrafo, em que o narrador finaliza sua narrativa, após descrever as recordações sobre a cidade de Santa Tereza: Agora acabou. O que leio nos jornais e vejo na TV nas últimas semanas me deixa doente. Ainda mais doente. Santa Tereza sangra, transformada em Sarayejo tropical, em Chechênia invadida, estuprada. As pessoas abandonam as casas e fogem para qualquer lugar, escondendo o rosto. Balas perdidas cruzam o ar. Não, não sei se é suficiente chorar o que se perdeu e rezar pelo que ficou. Sei que, por conta disso, acabei achando um pouco ridículo FHC todo sorridente ao lado da rainha da Inglaterra e todas essas comemorações do fim da Segunda Guerra, enquanto Santa Tereza agoniza, desamparada e bela, no alto daquele morro. Quem pode fazer alguma coisa, que faça. E quem pode? (ABREU, 2012, p. 218) Esse fragmento, mesmo sem a marca incisiva do diálogo, como foi demonstrado em outros trechos das narrativas de Caio, demonstra de forma clara que o recurso do diálogo, inclusive, presta-se para reforçar a ideia de que, mesmo sem as marcas discursivas, o narrador apresenta suas ideologias, suas interpretações frente ao leitor que passa a comungar de seus sentimentos. Ainda é oportuno ressaltar que, através dessa descrição que envolve até mesmo FHC (Fernando Henrique Cardoso, que era atual Presidente do Brasil na época em que a crônica foi escrita), sugestiona como se Caio questionasse os leitores sobre suas ideologias acerca da violência: como Santa Tereza, um lugar, que de acordo com suas descrições na crônica, transparecia ser tão calmo, e foi se transformando? Seu último questionamento, “e quem pode?” denota a sua preocupação com o social, não somente com Santa Tereza, mas sim com a violência em geral. Nesse sentido, podemos relacionar até mesmo o título da crônica: Inútil por Santa Tereza, desde a empregabilidade destes termos, identificamos uma perspectiva melancólica e pessimista sobre esse espaço urbano a qual é compartilhada com os leitores. Assim como na crônica anterior em que quatro amigos são utilizados para representar os jovens como em um todo, Santa Tereza é empregada como um dos exemplos sobre a violência que atinge a sociedade brasileira. Ademais, o contexto externo utilizado pelo narrador que é sinalizado através de Sarayevo e Chechênia – duas regiões onde ocorrem conflitos armados –, estão introduzidos na narrativa para provocar a reflexão acerca do meio social. Caio estava atento à realidade externa e às semelhanças desta com o contexto local, e isso pode ser evidenciado na medida em que o narrador da crônica demonstra que considerava inadequado, diante de um Brasil sangrento, haver a imagem de um 95 Presidente sorridente, que indica despreocupação e até indiferença com a triste realidade brasileira, exemplificada através de Santa Tereza. A relação de hibridismo que a crônica possui com a literatura e o jornalismo elucida a forma com que Caio se utiliza do espaço que lhe é concedido no segmento editorial dos jornais para escrever suas crônicas. A forma com que dialoga com o leitor deixa explícito o papel da literatura; por outro lado, a confabulação com os temas sociais fica sob o signo do jornalismo, que é marcado pelas pautas de assuntos cotidianos, tais como o ressaltado na crônica “Inútil pranto por Santa Tereza”, sobre a violência, um assunto corriqueiro nos jornais. Nesse sentido, a proposição de Candido (1989) é bastante elucidativa quanto ao tratamento que a crônica possui acerca dos assuntos: Deixando de ser comentário mais ou menos argumentativo e expositivo, para virar uma conversa aparentemente fiada, foi como se a crônica pusesse de lado qualquer seriedade no tratamento de problemas. (CANDIDO, 1989, s/d) É imperioso considerar que o excerto de Candido corrobora a compreensão acerca da crônica de Caio. Isso porque, ao mesmo tempo que as narrativas do escritor gaúcho possuem como particularidades a oralidade e percepção de assuntos cotidiano, também estão inseridas em um profundo significado dos atos e sentimentos humanos, estabelecendo, assim, uma crítica social a partir de diálogos com o leitor, haja vista que, quando o narrador incita o seu leitor a questionamentos, este fica passível de refletir sobre as prerrogativas que estão sendo propostas. No contexto em que Caio escreve para jornais e, de certa forma, dialoga com outros profissionais da área, é importante observar o que Arrigucci (1999) explicita sobre a influência que os jornalistas possuem sobre a opinião pública: Aí temos uma porção de aspectos. Primeiro que, de fato, as coisas a que o grande jornalista tem acesso, a importância que o jornal tem na formação da opinião pública, são de tal ordem que dão uma força, um poder extremo ao jornalista. Ele pode manipular a opinião pública. Isso não é pouco, é uma coisa enorme. E está tematizada lá, inclusive, no encontro do Sadat com industrias paulistas, em que os industriais não estão entendendo nada e o sujeito é que está canalizando os capitais da propaganda do sistema. Por outro lado, ele convive com as classes dominantes mesmo, exatamente porque ele tem uma parcela de poder nas mãos. Não um intelectual como 96 Hugo Mann, que aspira a isso, que convive com essa gente, mas na verdade não está nessa posição. (ARRIGUCCI, 1999, p. 86)24 É oportuno lembrar que Caio não é jornalista no sentido de repórter que escreve notícias e reportagens, mas, a partir do momento em que escreve suas crônicas, transporta-se a esse mundo e exerce influência sobre seus leitores, tornando-se narrador-repórter para usar uma expressão de Sá (199) ao definir o perfil dos escritores de crônica. Com base nas premissas que circundam as crônicas analisadas nestas seções, é possível perceber que elas possuem muitas coordenadas em comum no que tange especialmente a sua relação entre jornalismo e literatura: trazem à tona diversos fatos do cotidiano que não interessam ao jornal como objeto jornalístico, pois não se constituem de sua essencial matéria-prima: a informação. A crônica, através de assuntos e da linguagem, aproxima-se de seus leitores. Se comparada aos jornais, ela possui o aspecto de maior subjetividade, que pode ser ressaltado pela linguagem e as reflexões utilizadas por Caio. Outro aspecto significativo nas crônicas do escritor gaúcho é que este vai de um assunto a outro, levando o leitor a variados temas, contudo, é singular na seleção de seus assuntos, baseia-se em um diálogo com o que está ocorrendo no social, mas transforma os assuntos de acordo com a sua visão, muitas vezes irônica e melancólica. Com um tom íntimo e coloquial, Caio se expõe ao leitor, são textos com ironia, um pouco de humor, mas carregados de introspecção, subjetividade, alusão a outros textos. Justamente por utilizar a sua visão para compreender o social, não possui uma teoria que dê conta de analisar as suas crônicas, já que estas vão muito além da linguagem coloquial, humor e ironia, subjetividade e diálogo com leitor. Nessa esteira, ao utilizar a sua visão para escrever as crônicas, Caio pauta-se em uma relação entre a literatura e o social. Com vistas às relações que o escritor gaúcho transpõe através do gênero crônica com o leitor e a sociedade, o terceiro capítulo, “Literatura, Sociedade e Memória na crônica de Caio”, aborda como esses aspectos estão inseridos na narrativa do escritor gaúcho e a forma com que as narrativas refletem acerca da realidade social. 24 Fragmento retirado do livro Outros Achados e Perdidos, de uma seção de debates com Davi Arrigucci Jr., Carlos Vogt, Flávio Aguiar, Lúcia Teixeira Wisnik e João Luiz Lafetá. 97 3. LITERATURA, SOCIEDADE E MEMÓRIA NA CRÔNICA DE CAIO FERNANDO ABREU 3.1. Diálogos entre literatura e sociedade A literatura, como forma de expressão artística, é social e dialoga com a sociedade. Nesse sentido, ao estudar as complexas relações entre o processo histórico-social e as manifestações artísticas na literatura, procuramos discutir como a produção literária, com suas peculiaridades, pode fornecer elementos e subsídios para o conhecimento da relação dinâmica que ocorre entre sociedade e literatura, em especial, recorrendo para isso a um aparato teórico para compreender como os diálogos entre texto artístico e sociedade se constroem na crônica de Caio. Para melhor refletir acerca da literatura e sociedade, o olhar de Antonio Candido é essencial para comprovar a incidência desses dois fatores no processo de compreensão e produção de uma obra. Nessa perspectiva, convém destacar a contribuição desse estudioso, seguindo o comentário de Lajolo (1992), que atribui a Candido uma importante tarefa social: “Mestre de tantas gerações, a contribuição de Antonio Candido à educação brasileira parece, no entanto ultrapassar sua prática no ofício de professor”. (p. 118) Ao fazer uso de suas atribuições como professor, Candido ultrapassou as fronteiras da lousa e do giz, discutindo propostas relevantes sob a ótica das relações dos indivíduos com o social. A obra de Candido Literatura e Sociedade, cuja primeira edição é datada de 1965, procura focalizar vários níveis da correlação à função da produção literária, como uma constante no que se refere à estrutura da sociedade. Para melhor entender como essas relações foram se estreitando, o autor faz um panorama em diferentes séculos. A analogia entre a obra e seu condicionamento social, no século XIX, chegou a ser vista como chave para compreendê-la; no entanto, essa ideia se tornou secundária. Nessa esteira, o autor pondera: “Estamos avaliando melhor o vínculo entre a obra e o ambiente, depois de termos chegado à conclusão de que a análise estética precede considerações de outra ordem”. (CANDIDO, 2000, p. 05). Para explicar como essas distintas acepções foram ocorrendo, o estudioso aponta que antes se procurava mostrar que o significado e valor de uma obra dependiam de exprimir ou não aspectos da realidade, assim, esses aspectos acabavam por 98 caracterizar o que ela tinha de essencial. Posterior a essas constatações, Candido (2000) alude ideia oposta a essas prerrogativas, ou seja, procurava-se mostrar que a matéria de uma obra é secundária e que a sua importância advém das operações formais, atribuindo, desse modo, uma especificidade que torna essa obra de arte independente de quaisquer condicionamentos, sobretudo, o social. Em conformidade com as ponderações de como a relação entre o social com a literatura foi sofrendo ao longo dos períodos, Candido (2000) argumenta: Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo. Sabemos, ainda, que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno. (p. 5-6) No que tange ao fator externo, o autor menciona a palavra como legítima, quando confere o seu tratamento a sociologia da literatura, visto que esta não propõe o valor da obra, mas, sim, por tudo que diz respeito aos condicionamentos sociais. Candido (2000) a cita ainda como uma disciplina de cunho científico, sem orientação estética assumida pela crítica. O problema, nesse sentido, é apresentado pelo pesquisador, pois a crítica literária visa a analisar o íntimo das obras, aqueles fatores que atuam na organização interna. Sobre o fator social, o pesquisador considera: Tomando o fator social, procuraríamos determinar se ele fornece apenas matéria (ambiente, costumes, traços grupais, idéias), que serve de veículo para conduzir a corrente criadora (nos termos de Lukács, se apenas possibilita a realização do valor estético); ou se, além disso, é elemento que atua na constituição do que há de essencial na obra enquanto obra de arte (nos termos de Lukács, se é determinante do valor estético). (CANDIDO, 2000, p. 06) Assim, o estudioso procura observar os fatores sociais e psíquicos como agentes da estrutura e não como matéria registrada pelo trabalho de quem a produz. Já a análise crítica rege-se acerca dos elementos de aspecto e significado da obra, que, unidos, formam o todo em indissolúvel. Ainda no que diz respeito ao fragmento que cita Lukács, a sua presença incorre para exemplificar como as relações de literatura e sociedade ficaram permeadas. Nesse contexto, Lima (1992) cita os 99 prefácios das primeiras obras de Lukács, em que o elemento social da literatura era dotado como a forma: A forma faz com que a experiência vivida pelo poeta se comunique aos outros, ao público; e só através desta comunicação “formada” e daí, através da possibilidade de exercer influência e a influência efetiva que realiza essa possibilidade, a arte assume um significado social. (LIMA, apud G. LUKÁS, 1912, p. 76) Então, desde Lukács, a interação entre o “poeta” e o público transforma a escrita, e o contexto social era o motivador de uma forma que enquanto estética não tinha história. Sobre Lukács, que também é citado por Lima (1992), este afirma que há sintonia entre Lukács e Antonio Candido, visto que ambos não se contentam com as equações: elemento sociológico: fator externo: elemento estético: fator interno. Mas sim, para eles, a ocorrência deveria ser o externo se tornar interno e a crítica ao invés de sociológica, ser apenas crítica. No entanto, ao se firmarem nessa equação, estão também acarretando alguns embaraços, como cita Lima (1992): Como se havia notado, a fusão, proposta por Lukács, entre o sociólogo e o estético esbarrava na estabilidade a-histórica da forma. Em sua defesa, poder-se-ia dizer que Lukács tivera o cuidado de não dissolver a história interna da literatura ante mudanças externas; mesmo que isso seja válido, não basta para tornar inatacável sua posição. É também verdade que Candido não cai explicitamente na mesma armadilha, isto é, que não há nenhum enunciado declarador da a-historicidade da forma. Nem por isso ela está menos presente. (p. 157) Com base nas prerrogativas propostas pelos autores sobre a estrutura interna e externa das obras, Candido cita, como exemplo, o livro Senhora, de José de Alencar. As indicações do social estão presentes em referências a lugares, manifestações de atitudes de grupos ou classes, modas, usos e expressões de um conceito de vida burguês e patriarcal. No entanto, para o autor, somente essas peculiaridades não bastam para denotar a definição do seu caráter sociológico. Nas palavras do autor: Mas acontece que, além disso, o próprio assunto repousa sobre condições sociais que é preciso compreender e indicar, a fim de penetrar no significado. Trata-se da compra de um marido; e teremos dado um passo adiante se refletirmos que essa compra tem um sentido social simbólico, pois é ao mesmo tempo representação e desmascaramento de costumes vigentes na época, como o casamento por dinheiro. Ao inventar a situação crua do esposo que se vende em contrato, mediante pagamento estipulado, o romancista desnuda as raízes da relação, isto é, faz uma análise 100 socialmente radical, reduzindo o ato ao seu aspecto essencial de compra e venda. Mas, ao vermos isto, ainda não estamos nas camadas mais fundas da análise, — o que só ocorre quando este traço social constatado é visto funcionando para formar a estrutura do livro. (CANDIDO, 2000, p. 07) Sob essa perspectiva, entendemos que, se ocorre a transposição do plano do livro, de aspectos que refletem a realidade, estaremos falando em termos sociológicos. Sobretudo, é necessário lembrar que apresentar formatos que permeiam o social não faz de uma obra literária a sua interação com esse meio. Candido (2000) ratifica essas prerrogativas: Quando fazemos uma análise deste tipo, podemos dizer que levamos em conta o elemento social, não exteriormente, como referência que permite identificar, na matéria do livro, a expressão de uma certa época ou de uma sociedade determinada; nem como enquadramento, que permite situá-lo historicamente; mas como fator da própria construção artística, estudado no nível explicativo e não ilustrativo. (p. 08) O que equivale a afirmar que, situar socialmente e enquadrar em termos que a sociedade está constituída não transforma nenhuma obra em caráter sociológico. Por outro lado, buscar aspectos que compreendam tanto períodos históricos atuais quanto do passado, transpassar a obra e poder fazer com que o leitor possa refletir em torno dos temas abordados, isso tudo denota a dimensão social como fator de arte. A reflexão a partir dos temas que são abordados pelo artista inclui elementos psicológicos, religiosos, linguísticos, dentre outros. Todos esses constituem-se elementos externos e internos, visto que se diluem, transformando-se em aspectos que visam à maior interação do social com o literário. No entanto, a interação do social e literário sugere a formulação de outras questões que vão além da confluência do interno/externo, tais como as propostas por Candido (2000): “qual a influência exercida pelo meio social sobre a obra de arte? Digamos que deve ser imediatamente completada por outra: qual a influência exercida pela obra de arte sobre o meio?” (p. 18) Para responder a essas indagações, o autor ressalta que a primeira pergunta refere-se em que medida a arte é expressão da sociedade, já a segunda, consiste em avaliar o seu interesse nos problemas sociais. Além dessas, outra tendência é citada pelo estudioso: A segunda tendência é a de analisar o conteúdo social das obras, geralmente com base em motivos de ordem moral ou política, redundando praticamente em afirmar ou deixar implícito que a arte deve ter um conteúdo deste tipo, e que esta é a medida do seu valor. (CANDIDO, 2000, p. 19) 101 Ambas as tendências demonstram a arte e o social com a preocupação em modificar a concepção de mundo dos leitores, avigorando ainda mais os sentimentos de valores sociais. Outras reflexões, para responder as perguntas propostas por Candido, sinalizam uma organização quanto às influências dos fatores socioculturais, uma vez que, nesse sentido, estão inseridos a posição social do artista que está produzindo a obra de arte, a configuração do grupo de receptores destas obras, a forma e o conteúdo que será exposto e por fim a transmissão do produto final. Nesse sentido, Candido (2000) declara que essas etapas marcam os quatro momentos da produção: “pois: a) o artista, sob o impulso de uma necessidade interior, orienta-o segundo os padrões da sua época, b) escolhe certos temas, c) usa certas formas e d) a síntese resultante age sobre o meio”. (p. 20) Nessa esteira, entendemos que não é possível separar a repercussão da obra com quem a fez. A comunicação leva a esses quatro importantes processos, que podem ser resumidos em: o comunicante (nesse caso o escritor), comunicado (a obra), comunicando (o público) e após isso o efeito que produz esse comunicando, isto é, a quem a obra se dirige. É, então, com a afirmação de que “a posição social é um aspecto da estrutura da sociedade” (CANDIDO, 2000, p. 22), que o estudioso atenta sobre três aspectos: a) como a sociedade define a posição e o papel do artista do artista; b) como a obra depende dos recursos técnicos para incorporar os valores propostos e c) como se configuram os públicos. A importância dessas três prerrogativas configura-se na medida em que o artista, com sua atividade, estimula diferentes grupos, assim como a criação de obras modifica os recursos de comunicação expressiva e, por fim, as obras organizam e delimitam seus públicos. (CANDIDO, 2000) Dentre esses três aspectos, a posição do artista é que a primeiro se acentua nesse processo. Com efeito, Candido (2000) inicia lembrando o percurso com que essa posição foi tomando ao longo dos séculos. A primeira impressão configurava-se como uma criação concebida de forma coletiva. Contudo, o estudioso advoga que atualmente a obra exige necessariamente a presença do artista criador: “O que chamamos arte coletiva é a arte criada pelo individuo a tal ponto identificado às aspirações e valores do seu tempo, que parece dissolver-se nele”. (CANDIDO, p. 23, 2000) Desse modo, entendemos que o coletivo e o individual não mais são 102 arquitetados separados, mas sim, em uma ligação, visto que, são as forças sociais que condicionam os artistas, determinando a ocasião em que a obra é produzida, julgando a sua necessidade e se será um bem coletivo. Em relação à coletividade de uma obra, esta será definida a partir então, dos elementos individuais. Em termos gerais, entendemos que, em primeiro lugar, o agente individual cria a obra, após, a sociedade (o coletivo, nesse caso) precisa reconhecer essa obra e o seu criador; já a forma com que será recepcionada também depende de quem a produz, de qual é o seu reconhecimento com o social e em que circunstâncias foi criada; por fim, a obra passa a ser marcada pela sociedade como veículo individual do artista, mas que obteve o reconhecimento do coletivo. Nessa esteira, Candido (2000), complementa: “Se a obra é fruto da iniciativa individual ou de condições sociais, quando na verdade ela surge da confluência de ambas, indissoluvelmente ligadas”. (p. 23-24) Além da implicação do individual e coletivo, no que concerne à forma com que as obras são executadas pelo artista, passamos a configuração desta. Candido (2000) abarca a proposição que a obra depende do artista e das condições sociais que irão determinar a sua posição. Ademais, o autor cita outras peculiaridades que conferem a inserção do social às obras: Quanto à obra, focalizemos o influxo exercido pelos valores sociais, ideologias e sistemas de comunicação, que nela se transmudam em conteúdo e forma, discerníveis apenas logicamente, pois na realidade decorrem do impulso criador como unidade inseparável. Aceita, porém, a divisão, lembremos que os valores e ideologias contribuem principalmente para o conteúdo, enquanto as modalidades de comunicação influem mais na forma. (CANDIDO, 2000, p. 27) Para exemplificar a forma com que os valores e ideologias contribuem para o conteúdo, o autor cita como exemplo a influência decisiva do jornal sobre a literatura, no que atribui a criação de novos gêneros, tais como a chamada crônica, ou folhetim romanesco, que após um século, veio a influir sobre a arte do cinema. Nesse sentido, entendemos a crônica como a atuação individual do artista/autor que a compõe, regado pelas influências coletivas, através do social, em temas que são ressaltados no texto e que possuem os seus valores e ideologias nas narrativas. Retomamos, então, os processos pelos quais a obra perpassa: a sua criação é vista como um processo que sofre as interferências do coletivo e individual, já a 103 posição do artista/narrador abarca o social e as ideologias que contribuem para o conteúdo dessa obra, e por fim, temos a interação do público. Acerca desse último elemento, não menos importante, Candido (2000) afirma que, da mesma forma com que os dois anteriores, as influências sociais deixam suas marcas. O autor faz um apanhado geral de quais eram as influências do público desde as sociedades primitivas. Nestas, é menos nítida a separação de artistas e receptores. No entanto, à medida que as sociedades se diferenciam, arista e público começam a se definir nitidamente. Nesse sentido, o autor afirma: “Elas [as pessoas] aumentam e se fragmentam à medida que cresce a complexidade da estrutura social, tendo como denominador comum apenas o interesse estético”. (p. 31) É por isso que surgem os grupos e dentre estes os subgrupos para diferenciar os gostos por determinados gêneros. Estes grupos estarão unidos por interesses e gostos pessoais. No que se refere às particularidades que influenciam o público, Candido (2000) cita ainda os fatores socioculturais – a técnica sobre a formação, caracterização do público e a influência social, isto é, “a dos valores, que se manifestam sob várias designações — gosto, moda, voga — e sempre exprimem as expectativas sociais, que tendem a cristalizar-se em rotina”. (CANDIDO, 2000, p. 32) Com efeito, a sociedade interfere de forma sistemática e com valores sobre os gostos do público. Para melhor exemplificar como essa interferência ocorre, Candido (2000) explana sobre um concerto, em 1837 em Paris, em que se anunciava uma peça de Bethoven e outra de Pixis, que era considerado obscuro compositor. Porém, os nomes foram trocados, atribuindo a um a obra de outro, assim, quando Pixis se apresentou como se fosse Bethoven, ele foi aclamado pelo público. Esse fato ilustra, como afiança Candido (2000), “que mesmo quando pensamos ser nós mesmos, somos público, pertencemos a uma massa cujas reações obedecem a condicionantes do momento e do meio”. (p. 32) O episódio que ocorreu ainda no século XIX demonstra que o público está impregnado pelas normas sociais e se deixa conduzir pelos seus julgamentos. Ainda nesse viés, a posição do artista, a configuração da obra e o público demonstram de que maneira os fatores sociais atuam no literário. Candido (2000) aponta de forma resumida a forma com a arte é concebida: Na medida em que a arte é — como foi apresentada aqui — um sistema simbólico de comunicação inter-humana, ela pressupõe o jogo permanente de relações entre os três, que formam uma tríade indissolúvel. O público dá 104 sentido e realidade à obra, e sem ele o autor não se realiza, pois ele é de certo modo o espelho que reflete a sua imagem enquanto criador. Os artistas incompreendidos, ou desconhecidos em seu tempo, passam realmente a viver quando a posteridade define afinal o seu valor. Deste modo, o público é fator de ligação entre o autor e a sua própria obra. A obra, por sua vez, vincula o autor ao público, pois o interesse deste é inicialmente por ela, só se estendendo à personalidade que a produziu depois de estabelecido aquele contacto indispensável. Assim, à série autor-públicoobra, junta-se outra: autor-obra-público. Mas o autor, do seu lado, é intermediário entre a obra, que criou, e o público, a que se dirige; é o agente que desencadeia o processo, definindo uma terceira série interativa: obraautor-público. (p. 33-34) Por outra vertente, além da influência a que Candido ressalta entre autor-obrapúblico e após, obra-autor-público, Ianni (1999) ressalta que o diálogo entre a sociologia e a literatura envolve vários enigmas: texto e contexto, sociologia e ficção, literatura e conhecimento, estilos de pensamento e visões de mundo. Esses são enigmas que implicam o que podemos entender entre “sociologia” e “literatura”, que “permitem desenvolver a reflexão sobre essas formas narrativas, como expressões do mundo da cultura.” (p. 38) Narrar, nesse âmbito relaciona-se a todos os processos, ou seja, é uma dimensão geral tanto do processo de elaboração e produção, quanto aos indivíduos que compõe a sociedade. É sob essa perspectiva, que na próxima seção abordamos como o ato de narrar de Caio sofreu as influências da conexão entre a literatura e a sociedade, à medida que o autor propiciou aos leitores a reflexão de temas pertinentes ao social. 3.2. A representação da sociedade na crônica de Caio Ao abordar temas e questões que vão desde o universal ao particular, Caio denota seu estilo, o que nos permite, com instrumentais teóricos e metodológicos, refletir acerca das relações possíveis entre a literatura e a sociedade. Nem mesmo a pluralidade de assuntos e as variadas formas de tratamento que o autor gaúcho confere a estes limita o caráter e diálogo do meio social com a literatura. A interação do social com o literário pode ser observada em todas as crônicas que compreendem o corpus dessa pesquisa. Uma das temáticas mais recorrentes nas narrativas de Caio são os aspectos culturais, que compreendem a alusão a músicas, cinema, literatura e tudo que esteja imbuído de termos que condizem à cultura. Para entender a presença constante desses temas, é preciso, também, fazer referência ao momento vivido por Caio, já que, como visto, o social influência de 105 forma direta e precisa as narrativas. Nesse sentido é que Franco (1999) pondera sobre a geração do final dos anos 1960, esta que é contemporânea ao escritor gaúcho: Tocadas por uma dupla determinação – o fim de um ciclo e a tendência para o constante endurecimento político da ditadura militar que, cada vez mais, adotava atitudes truculentas e repressivas – a vida cultural experimentou uma situação até então inusitada: cinema, teatro e música popular puderam compor um processo cultural integrado, raro em nossa história. (FRANCO, 1999, p. 144) A partir da afirmação do estudioso é possível compreender o percurso das narrativas de Caio. O autor é contemporâneo da década de 1960, e, sendo assim, transpassar sua experiência social para as narrativas torna-se mais compreensível e até mesmo adquire um caráter de memória sobre o contexto em que está inserido. Sob a ótica do momento social, é oportuno ressaltar que as características do processo histórico em que Caio está inserido influenciam a forma com que ele expõe suas ideologias nas crônicas. Isso pode ser melhor compreendido quando avaliamos que das 109 crônicas que fazem parte do corpus dessa pesquisa, praticamente todas possuem pelo menos uma alusão a música. Sobretudo, em setenta e quatro delas, o narrador envolve toda crônica com elementos culturais, como música, cinema, literatura. Ainda com vistas à relação do contexto nas relações sociais, Prado Jr. (1992), confirma essa visão, explicitando: “É preciso consultar, no passado, para melhor diagnosticar o comportamento do subsolo de nossa experiência atual da literatura e sociedade.” (p. 11) Nessa esteira, é imperioso considerar que o fator social é invocado em Caio para explicar a estrutura da obra e seu teor de ideias, fornecendo elementos para determinar a sua validade e o seu efeito sobre os leitores. Para identificar os elementos linguísticos e conteudísticos – internos e externos – ao texto e que possuem a interferência dos condicionamentos sociais, observemos como ocorre esse processo nas crônicas do autor. A alusão ao passado, como propôs Padro Jr. (1992), é ratificada na crônica de dezoito de fevereiro de mil novecentos e oitenta e sete, “Um prato de lentilhas”. Da mesma forma que praticamente todas as narrativas da década de 1980, a linha de apoio nos auxilia para melhor compreender o do que se trata a crônica: “Queremos nossos direitos, nossos futuros, nossos sonhos. Nosso ridículo votinho...” (ABREU, 106 2012, p. 80) Através dessa orientação de leitura, é perceptível que a narrativa é o desabafo de um brasileiro que vive em um país tão desigual. Com relação à proposição de Prado Jr. (1992) de consultar o passado para observar a experiência atual, o narrador explica ao final do texto, expressando sua vontade de não sofrer mais censura, como os jovens da década de 1960, pois ele queria ter direito de escolher seu presidente. “QUERO escolher meu presidente. Exijo. Não fui eu nem ninguém quem escolheu esses senhores que estão aí em cima arrebentando a vida da gente”. (ABREU, 2012, p. 81) O narrador segue afirmando que está falando não por si, mas por todos que residem no país. “E falo no plural porque sou só um brasileirinho igual a milhões de outros – certamente eu sei – com muito mais privilégios do que a desgraçada maioria. Com ou sem privilégio, quero meus direitos. Quero meu futuro”. (ABREU, 2012, p. 81) Após essas afirmações de representação de todos, ele prossegue: “Quero pelo menos meu ridículo votinho. Quero, não; queremos. Quem me dá? Pra quem – desde que roubaram a minha juventude, em 1964 – eu posso reclamar?” (ABREU, 2012, p. 81) Da forma como o narrador conduz sua narrativa, fica evidente que as suas ideologias diluem-se em meio ao texto. Como já dito, Caio é contemporâneo aos jovens da década de 1960, período em que ocorreu o golpe militar no Brasil e a proibição do voto direto pra Presidente da República, tirando assim dos brasileiros, o direito exercer a cidadania e a democracia. A geração de 1960 sofreu ainda com a censura, as emissoras de rádio e televisão foram fechadas e tudo no país deveria passar pelo crivo da censura. Com base nesses fatos históricos, fica clara a imposição de alguém que sofreu com a falta de democracia, o que é transpassado para a crônica. Além destes aspectos conteudísticos da narrativa, os elementos sociológicos e a interação da literatura com a sociedade fica evidenciada através dos traços linguísticos: “Seu Zé Sarney, senhores poderosos – sempre tive nojo de política, de poder e de economia.” (ABREU, 2012, p. 80) Nessa esteira, Zé Sarney refere-se a José Sarney, o político que assumiu a presidência do país logo após a morte de Tancredo Neves, na década de 1980. Os vocábulos “nojo”, “política”, “poder” e “economia” estão permeados pelos elementos sociológicos, visto que são palavraschave e demonstram a interação entre o posicionamento que o narrador toma frente à sociedade, isto é, um sentido de repulsa frente aos fatos que está descrevendo. A crônica continua com a descrição da indignação tanto pela política, quanto 107 pelo poder e pela economia, e o narrador segue demonstrando seu estado de espírito pelo Brasil: “Mas senhores comandantes desta coisa pobre, louca, doente e suja que nem sei mais se posso chamar ‘Brasil’, vossas excelências sabem o que anda acontecendo nesta terra?” (ABREU, 2012, p. 80) Com efeito, as indicações do social estão presentes em referências, como ressalta Candido (2000), a atitudes e palavras – que se encontram no nível linguístico, no entanto, o conteúdo da crônica indica o seu repulso pelas condições sociais, fazendo com o leitor reflita sobre o sentido social simbólico, pois é, ao mesmo tempo, representação e desmascaramento das pessoas que estão à frente do Brasil. As indagações que o narrador faz ao longo texto são exemplo da interação com o social: “Vossas Excelências sabem o que anda acontecendo nesta terra? Parece que não. Os senhores nunca andam nas ruas? Não veem a cara das pessoas?” (ABREU, 2012, p. 80) Com esses questionamentos, o leitor é remetido à reflexão do que está ocorrendo com a realidade, é como se o narrador estivesse conversando com aquele a que o texto é destinado e lhe dissesse para abrir os olhos que, se os políticos não tomam providências, eles precisam tomar. Além do leitor, o narrador também de certa forma dialoga com os representantes do povo, mostrando que a realidade precisa ser ajustada e que ele, como cidadão, está representando uma maioria descontente. Por esse prisma, a interação das crônicas de Caio volta-se ao social, fazendo uso dos termos linguísticos e de conteúdo, mas também porque estão inseridas dentro do quarto poder25, pois é assim que a mídia é denotada, justamente por sua abrangência e pelo domínio que exerce sobre as pessoas. Ao citar o nome de José Sarney e do Ministro da época, Celso Furtado, o narrador incita também essas pessoas a refletirem, isso porque o meio de difusão da crônica é o jornal, e este serve como formador de opinião. Sobre essa peculiaridade do meio, Azevedo (2006) ressalta que o jornal se caracteriza como formador de opinião, sendo assim, é o responsável por produzir agendas, isto é, formata questões para influenciar percepções e comportamentos tanto no âmbito político-governamental quanto no público em geral, “este último através dos líderes de opinião ou através da 25 Sobre a titulação de quarto poder a que a mídia possui, Alexandre e Fernandes (2006), consideram: “A imprensa passou a ser um instrumento nas mãos do poder e ganhou muito com isso, tanto que hoje, nas democracias liberais, ostenta o título de quarto poder – autônomo, logo após do Executivo, Judiciário e do Legislativo, exercido em favor do povo, que através dos anos elegeu a imprensa como seus olhos para fiscalizar aqueles que comandam a sociedade.” (p. 24) 108 repercussão da pauta dos jornais”. (p. 29) Para melhor exemplificar como a mídia influência os aspectos sociais, e a sua atuação nas agendas, Azevedo (2006) cita as eleições de 1989 e a de 1994: A imprensa assumiu um papel de protagonista no episódio do impeachment do Collor. Sem dúvida, a crise do governo Collor foi um divisor de águas para a mídia (em especial para o jornalismo político), do ponto de vista da sua relação com o sistema político na nova quadra democrática, pois a grande imprensa, durante todo episódio, não só agendou o debate político como se transformou num dos principais atores da crise, denunciando o governo, mobilizando a opinião pública e colocando em pauta o impeachment. Nessa dinâmica marcada basicamente pelo jornalismo investigativo, a mídia brasileira mimetizou a função clássica do cão de guarda (watchdog) da teoria liberal do jornalismo, assumindo o papel de vigia e fiscalizador do sistema político. (p. 40) É imperioso considerar com o excerto exposto pelo estudioso que do mesmo modo, Caio utiliza as crônicas com um agendamento social que pode ocorrer em dois níveis: a) pautar os assuntos que estão sendo discutidos e refleti-los nas crônicas; b) faz com que esses assuntos sejam difundidos entre os leitores e estes por sua vez, disseminam as informações em seus cotidianos. Ao mencionar assuntos de teor social, Caio passa a atuar como expõe Azevedo (2006) em assumir “o papel de vigia e fiscalizador do sistema político,” (p. 40). Nesse sentido, ao exibir suas ideologias acerca dos problemas sociais e, ao citar o nome dos políticos envolvidos, o narrador assume publicamente o papel de vigia, fato que toma maiores proporções, visto que o narrador assume a posição de uma maioria e passa a representá-los. As mesmas reflexões presentes na crônica “Um prato de lentilhas” seguiramse na narrativa posterior, publicada em vinte e cinco de fevereiro de mil novecentos e oitenta e sete, intitulada “Anjos da barra pesada”. O narrador continua a se questionar, dessa vez, em uma viagem ao Rio de Janeiro, refletindo acerca das mesmas perguntas sobre o Brasil: Semana passada fui ao Rio. Estava exausto, sem energia. Tempos atrás, quando você andava assim (exausto; sem energia), ia ao Rio. Costumava dar certo. Desta vez, não deu. Chovia, não tinha sol. Pior, e mais insidioso que isso, havia pelo ar esse mesmo tipo de medo e desemparo que deixam ainda mais cinza o ar de São Paulo. O que está havendo com esse país? – continuei a perguntar lá, como pergunto aqui. E todos respondiam, lá, o mesmo que respondem aqui: dengue, meningite, aids, caos econômico, falta de amor, falta de esperança, falta de futuro. (ABREU, 2012, p. 82) 109 Como fica claro no fragmento, o estado de espírito do narrador está condizente com os problemas do Brasil. Ele associa até mesmo a falta de sol, denotando assim a escuridão – falta de luz e esperança, aos problemas que estão assolando o país. Para dar respaldo a suas opiniões, o narrador cita as ideias de outras pessoas que moram em outro Estado e conclui que, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, a opinião é unânime: falta tudo no Brasil. A crônica continua com as alusões a elementos culturais: músicas, filmes, livros e teatro. Para finalizar a narrativa, volta o questionamento: Continuei a me perguntar: O que está havendo com este país? E todos respondem, como esse desinteresse trágico que também ando sentido: Ora, dengue, meningite, aids, caos econômico, falta de amor, falta de esperança, falta de futuro. Se alguém acrescentar “normal”, eu grito. (ABREU, 2012, p. 83) A referência ao vocábulo “normal” indica que, ao repetir as ideias iniciais da crônica, o narrador está afirmando acerca das anormalidades da sociedade brasileira. A interação com o social dessa proposição, assim como na crônica anterior, refere-se aos termos linguísticos, mas também à forma de tratamento dado ao conteúdo dos problemas expostos pelo narrador. Em complementaridade às ideias acerca da interação entre a literatura e o social, Ianni (1999) acentua essas proposições: A literatura e a sociologia aproximam-se bastante, no que se refere à construção de tipologias. Ambas as narrativas estão repletas de tipos e tipologias elaboradas literária ou sociologicamente. São notáveis os tipos ideias que povoam a literatura: Hamlet, Don Quixote, Robinson Crusoé, Don Juan, Fasto, Pai Goriot, Madame Bovary, Martin Fierro, O Senhor Presidente, Pedro Paramo, Macunaíma e outros. Assim como são notáveis os tipos ideais povoando a sociologia: o burguês, o operário, o camponês, o tirano, o príncipe, o demagogo, o carismático, o revolucionário, o intelectual e outros. (p. 12) Com essa citação, o autor entende que há uma relação mútua com as duas áreas, pois, ao mesmo tempo que a literatura se utiliza das representações, a sociedade faz uso também de dramas. O autor cita ainda como exemplo a presença da política e a revelação dos tempos modernos em O Pequeno Príncipe, de Maquiavel. De maneira análoga, a crônica de Caio utiliza esses mesmos temas para demostrar ao leitor aspectos da sociedade e, ao citar a política, como nas duas 110 crônicas “Um prato de lentilhas” e “Anjos da barra pesada”, o narrador desnuda as relações sociais, através de representações, como na primeira, que cita os nomes de políticos brasileiros, confirmando assim, uma forma de chamar a atenção dos leitores para os problemas vividos no Brasil e propor uma mudança de ordem social. Com vistas aos elementos utilizados nas crônicas de Caio para exprimir as relações entre a literatura e a sociedade, Lima (1992) menciona a ideia de que a atividade crítica-literária se enraíza em pelo menos dois eixos: “Forma o primeiro a questão da especificidade da linguagem literária, o segundo, a relação da linguagem literária com a sociedade”. (p. 153). No entanto, é preciso atentar que somente a relação da linguagem literária não é possível para estabelecer o vínculo com o social. É necessário, nesse sentido, buscar entre a arte e o social uma preocupação em modificar a concepção de mundo dos leitores, exatamente como ocorre nas duas crônicas supracitadas. Se a reflexão dos leitores acerca do social sinaliza a maior interação entre e a literatura e a sociedade, a crônica publicada no dia doze de agosto de mil novecentos e oitenta e sete, “Que depois de me ler”, é um exemplo dos recursos adotados pelo narrador para facilitar essa interação. O tom íntimo, coloquial e de conversa com o leitor permeia toda narrativa, que inicia com o narrador contando ao leitor o que pretende com o texto: Hoje quero escrever qualquer coisa tão iluminada e otimista que, logo depois de ler, você sinta como uma descarga de adrenalina por todo o corpo, uma urgência inadiável de ser feliz. Ser feliz agora, já, imediatamente. E saia correndo para dar aquele telefonema, marcar um encontro, armar um jantar, quem sabe um beijo; para comprar aquela passagem de avião, embarcar hoje mesmo para Nova York, Paris, Hononulu. Tão revigorado e seguro – depois de me ler – que nada, absolutamente nada, dará errado: ela (ou ele) atenderá com prazer (em todos os sentidos) ao seu chamado, haverá saldo no banco para a passagem e muitos dólares. (ABREU, 2012, p. 109) Todas as situações enumeradas pelo narrador estão situadas na esfera social, mas elas não denotam a presença de elementos com que interfiram e demonstrem o grau que a literatura e a sociedade exercem uma sobre a outra. Essa prerrogativa poderá ser exemplificada à medida em que o narrador continua explicitando que, além dessas percepções de alegria, também poderia exprimir algo terrivelmente melancólico e triste: Por falar em “destinos do País”, posso tentar, quem sabe, uma coisa mais 111 social, tão social quanto comício com a Lucélia Santos. Descrever com minúcias odiosas famílias inteiras morando embaixo das marquises do Conjunto Nacional. Falar naquele mendigo com que cruzei ontem na cidade e, sem querer, vi remexendo nos sacos de lixo da calçada, enfiando as mãos de unhas imundas em restos de arroz azedo. Seria esse um texto cheio de piedade e ira, de náusea e revolta. Que depois de ler, você ficasse tanto com os olhos marejados de lágrimas quanto com o coração fervilhante de ódio. E saísse correndo para fazer alguma coisa (tão abstrato “fazer alguma coisa”). Pegar em armas, por exemplo. Dar seu dinheiro (você tem algum? Parabéns) para A Causa do Povo. (ABREU, 2012, p. 109-110) Ao citar os problemas sociais que poderiam ser explanados na crônica, o narrador faz uso da sua interação com o social, uma vez que, além de citar os aspectos sociais, como no primeiro fragmento, nesse segundo trecho que exemplifica a narrativa, o narrador também reflete acerca do meio em que vive. Se ele está citando mendigos, pessoas sem casa, e finaliza observando que os problemas sociais estão ligados a sentimentos, relações interpessoais, mas também são o reflexo da falta de recursos para viver, essas que advém do dinheiro ou a falta dele. “Dar seu dinheiro (você tem algum? Parabéns)” (ABREU, 2012, p. 110), esse contexto, sinaliza que o narrador está dialogando com o leitor, afirmando com esse excerto, que quem tem dinheiro, parabéns, essas pessoas são uma ínfima minoria. Ainda nessa perspectiva de relação entre texto e meio social, Facina (2004) declara: “Também os escritores são produtos de sua época e de sua sociedade. Desse modo mesmo o artista mais consagrado, (...) é sempre um indivíduo de carne e osso, sujeito a condicionamentos (...) que o processo histórico do qual é parte lhe impõe.” (p. 10) Com efeito, entendemos que toda criação literária é um produto histórico, e essa ideia pode confirmada quando o narrador diz “falar naquele mendigo com que cruzei ontem na cidade e, sem querer, vi remexendo nos sacos de lixo da calçada.” (ABREU, 2012, p. 110) O mendigo faz parte da realidade em que o narrador está inserido, são através de suas ideologias, visões acerca da realidade, que o leitor é convidado a refletir sobre a sociedade. De maneira similar, “pegar as armas” significa que alguém precisa fazer algo para mudar a realidade dessas pessoas que tanto sofrem, assim como, ao refutar a proposição de dar dinheiro, e indagar, “você tem algum?”, refere-se ao período histórico que o Brasil está vivenciando, isto é, um país com desigualdades, em que o dinheiro fica preso a uma minoria de pessoas. Por fim, “a causa do povo” faz referência ao período em que essa crônica foi escrita, pois 1987 foi um dos primeiros anos em que a inflação se tornou um dos piores problemas do Brasil. No tocante a esse período histórico, 112 Flores (2005), cita os problemas a que o governo Sarney (presidente desta época) sofreu: Assim, as duas heranças do governo Sarney, a economia deteriorada e as relações sem avanço nenhum com os países hegemônicos, que desprezavam verdadeiramente o Brasil, foram um fardo pesado para os governantes seguintes, (...) A colheita de impasses, de decepções e fracassos na economia interna, que chegou a passar dos 1.000% de inflação ao fim do governo Sarney, com a carga política inerente, não deixou de sugerir que, a despeito das ações concretas de integração internacional efetivamente promovidas, muito do desejado e planejado se limitou ao plano discursivo, acenando a certa altura, para uma configuração mítica, quando se juntam as partes dos discursos. O principal que se destaca é a perfeição de uma ação externa frente à imperfeição de uma política interna de todo modo malconduzida. (p. 55) Cabe destacar que, através do panorama histórico proposto pelo autor, as articulações feitas entre o embasamento sociológico do narrador e o texto literário convergem para uma mesma linha de raciocínio: a sua inserção com a sociedade. As prerrogativas das três crônicas sinalizam a forma como ocorrem essas relações, o narrador não somente cita os problemas, mas dilui as suas visões dessa realidade em torno da narrativa, fazendo, assim, com que os leitores possam refletir acerca da sociedade exposta nos textos. Além disso, a interação das crônicas com o social se reforça com a utilização de elementos externos e internos ao texto, na medida em que o traço social é visto funcionando para formar a estrutura das crônicas e exemplificar a forma com que a interação entre literatura e social se constitui. Em tal perspectiva, vale fazer referência à proposição de Candido (2000) segundo a qual somente situar socialmente e enquadrar em termos que a sociedade está constituída não transforma nenhuma obra em caráter sociológico. Por outro lado, ao fazer o leitor refletir os temas abordados e que giram em torno de problemas sociais, denota a dimensão social como fator de arte. Nessa esteira, o narrador, ao utilizar as suas vivências para transpor ao texto os problemas sociais e a relação da literatura com o social, a memória é realçada nesse processo, visto que, ao refutar para o texto as suas ideologias, o narrador está recorrendo aos processos históricos e consequentemente a memória. Será sobre esse último aspecto que iremos abordar na próxima seção. 113 3.3. Relações entre literatura e memória O conceito de memória vem sendo tema de estudos filosóficos há séculos. O termo se modificou ao longo dos anos, adequando-se à sociedade de acordo com suas utilizações e importância. Em cada época, o conceito foi denotado de diferentes formas, girando em torno de conhecimentos que caracterizavam momentos históricos também distintos. (CARVALHAL, 2006) O significado de ter uma lembrança está na origem da memória com os filósofos Platão e Aristóteles. Ricouer (2007) assinala que, para os estudiosos, não era questão prévia saber de quem se lembra, já que a “atribuição a alguém suscetível de dizer ‘eu’ ou ‘nós’ permanecia implícita à conjugação dos verbos de memória e de esquecimento a pessoas gramaticais e à tempos verbais diferentes.” (p. 106). Dessa forma, Platão e Aristóteles não conferiam importância às pessoas gramaticais “eu” e “nós”, mas, sim, o que realmente lhes interessava era a busca por uma recordação. Nesse sentido, a relação entre a recordação e a memória ocorre na medida em que a primeira é a sobrevivência do passado: “O passado, conservando-se no espírito de cada ser humano, aflora à consciência na forma de imagens-lembranças.” (BOSI, 2001, p. 53) No tocante ao assunto em apreço, as memórias são experiências que ficam armazenadas no formato das lembranças, e essas, por sua vez, são adquiridas através do contato social com outros indivíduos que poderão contribuir para rememorá-las. Iziquierdo (1989) corrobora este contexto, atribuindo, assim, um caráter social a memória, uma vez que ela depende deste meio para adquirir as experiências que irão contribuir para o processo rememorativo: Quando se diz a palavra memória, a primeira que salta à evocação não é a memória das molas, dos discos ou dos computadores; é a memória das experiências individuais dos homens e dos animais, aquela que de alguma maneira se armazena no cérebro. Desde um ponto de vista prático, a memória dos homens e dos animais é o armazenamento e evocação de informação adquirida através de experiências. (IZIQUIERDO, 1989, s/p) Contudo, a concepção do estudioso acerca da memória como sendo o armazenamento de informações adquiridas por experiências sofreu transformações ao longo dos anos. O interesse por reflexões em torno do conceito de memória ocorreu em 1970, com a historiografia francesa, em especial quando a história das 114 mentalidades se propagaram. No que tange essa raciocínio, Carvalhal (2006) pontua: A memória já se encontrava implícita naquele momento, principalmente porque os estudos voltados para a área em questão procuravam abordar aspectos da cultura popular, da vida em família, dos hábitos e costumes de uma localidade, da religiosidade, entre outros, que são, sem dúvida, pontos que remetem à constituição social da memória. (s/d) Considerando esse processo histórico ao qual o termo está relacionado, um dos primeiros trabalhos a adentrar no tema da memória foi o de Philippe Ariès, “ao reivindicar atenção sobre o papel dos monumentos e comemorações relacionados aos personagens políticos reconhecidos do século XIX, durante a formação dos Estados-Nação” (CARVALHAL apud FERREIRA, 2002, p.141-52). Com vistas a Philippe Ariès, Cardoso e Vainfas (2012) pontuam que este destacou o papel dos rituais comemorativos com a função de fortalecer os laços familiares no final do século XVIII e início do século XIX, nas palavras dos autores: “Ariés chamava atenção também para o papel dos monumentos, das comemorações em torno das figuras políticas ilustres ao longo do século XIX, e para com eles se relacionavam com a emergência dos Estados nacionais.” (p. 175). Os autores destacam ainda que com Ariès surgiu um novo gênero na historiografia da década de 1980, a história das políticas de comemoração, “cujo pioneiro Foi Maurice Agulhon, que analisou a imagem da República na França (1789-1879) em sua obra Marianne au combat (1979).” (p. 175) É neste contexto de formulação teórica acerca da memória e no esforço de pensar esse conceito que Maurice Halbwachs tornou-se fundamental na elaboração da Sociologia da Memória Coletiva, acentuando, assim, a relação entre a memória e o seu empreendimento em torno de aspectos sociais. A questão central na obra do estudioso consiste em afirmar que a memória individual se forma a partir da memória coletiva, haja vista que as lembranças são constituídas através de grupos sociais. Nessa esteira, Halbwachs inicia o primeiro capítulo de seu livro A Memória Coletiva, afirmando que é preciso recorrer a testemunhas para reforçar ou enfraquecer, “o que sabemos de um evento sobre o qual temos algumas informações, embora muitas circunstâncias a ele relativas permaneçam obscuras para nós.” (HALBWACHS, 2006, p. 29). Todavia, o estudioso atenta que, para obter essas informações, não são necessários testemunhos, no 115 sentido literal da palavra, mas sim um fato pode ser (re)contado por um grupo de pessoas. Nas palavras do autor: Uma ou muitas pessoas juntando suas lembranças conseguem descrever com muita exatidão fatos ou objetos que vimos ao mesmo tempo em que elas, e conseguem até reconstituir toda a sequência de nossos atos e nossas palavras em circunstâncias definidas, sem que nos lembremos de nada de tudo isso. Examinemos, por exemplo, um fato cuja realidade é indiscutível. Alguém nos traz provas seguras de que tal evento ocorreu, de que estivemos presentes e dele participamos ativamente. Não obstante, a cena continua estranha para nós, como se outra pessoas houvesse desempenhado nosso papel nesta situação. (HALBWACHS, 2006, p. 31) Desempenhar um papel que não é daquele que está rememorando o fato consiste em incluir a memória a uma coletividade. Por isso, Halbwachs se refere à estrutura social desta, relacionando-a à memória coletiva em grupos (família, grupos religiosos, classe social, dentre outros). Nesse contexto, Bosi (2001) afirma que a memória está relacionada também aos grupos sociais: A memória do indivíduo depende do seu relacionamento com a família, com a classe social, com a escola, com a Igreja, com a profissão; enfim, com os grupos de convívio e os grupos de referência peculiares a esse indivíduo. (BOSI, 2001, p. 54) Com vistas às reflexões propostas por Bosi (2001) acerca de a memória estar atrelada a grupos sociais, para Halbwachs, esse aspecto é determinante na elaboração de uma teoria proposta acerca da influência com meio social. Além destas formas, Janet (1928) cita ainda a linguagem como forma de integrar a memória ao meio social. Sobre a linguagem, Le Goff (2003) a entende como uma das possibilidades de armazenamento da memória: Deste modo, Henri Atlan, estudando os sistemas auto-organizadores, aproxima linguagens e memórias. A atualização de uma linguagem falada, depois escrita, é de fato uma extensão fundamental das possibilidade de armazenamento da nossa memória que, graças a isso, pode sair dos limites físicos do nosso corpo para se interpor quer nos outros, quer nas bibliotecas. Isto significa que, antes de ser falada ou escrita, existe uma certa linguagem sob a forma de armazenamento de informações na nossa memória. (LE GOFF, apud Florès 1972, p. 461) Ainda nesta perspectiva acerca da linguagem, os estudiosos se aproximam neste estudo, na medida em que reconhecem o caráter social da memória, tendo a linguagem como suporte. Bosi (2001) corrobora nesse sentido, afirmando que “o 116 instrumento decisivamente no mesmo espaço socializador da memória é a linguagem.” (p. 56) As reflexões propostas pelos autores conduzem a ideia de que é através da linguagem que os indivíduos empregam a comunicação e trocam experiências utilizando o meio social para constituir suas lembranças. Ainda neste contexto, além da contribuição da linguagem acerca do aspecto rememorativo e socializador da memória, outras vertentes teóricas incluindo muitos campos do conhecimento, tiveram grande impulso no século XX. Sobre essas, Braga (2000) cita primordialmente o social, engajado na perspectiva direta com os processos da memória: Questionamos, em nosso texto, o enfoque reducionista de algumas teorias nas neurociências e na psicologia que se atêm aos aspectos biológicos da recordação. Tendo clareza quanto aos limites de nosso trabalho, tentamos mostrar algumas noções presentes em estudos sobre aspectos neurológicos e psicológicos da memória, bem como pressupostos e direções que as norteiam, destacando que, algumas vezes, o que os autores privilegiam traz problemas para a compreensão do funcionamento especificamente humano. Como é possível considerar somente o funcionamento cerebral/mental como responsável pelo processo, com repercussões comportamentais, se o desenvolvimento do homem é essencialmente social? (BRAGA, 2000, p. 17) Mesmo com proposições que relacionem a memória a aspectos biológicos, a pergunta que Braga (2000) refere soa como um tom reflexivo a estudos que visam a desconsiderar a memória imbuída em seu lado social. Braga (2000) cita ainda outros estudiosos que compravam a sua reflexão acerca do social, tais como Marx e Engels (1982), que há sessenta anos, redimensionaram a questão da memória, “considerando-a enquanto processo intrinsecamente relacionado à natureza social do homem, às suas formas de vida, às organizações e práticas grupais e institucionais.” (BRAGA, 2000, p. 19) Tais estudos voltam-se para memória enquanto fenômeno social, contudo analisando as influências sobre as recordações individuais. Em contrapartida, Braga (2000) cita ainda as reflexões cuja predominância incorre em estudos sociais, como a de Bartlett. Este observa, além das especificidades sociais, quais as condições que a recordação possui. Nesse contexto, o autor define: De uma maneira geral, as análises dos dados mostraram que vários fatores que influenciaram os sujeitos eram sociais em origem e natureza. Muitas transformações que ocorreram na recordação dos sujeitos eram marcadas pela influência das convenções sociais e crenças correntes nos grupos aos 117 quais pertenciam. Bartlett afirma que, na “vida real”, os aspectos observados se acentuam, uma vez que a importância dos fatores sociais é grandemente intensificada. Ele adverte mais de uma vez, que “[...] a recordação exata é a exceção e não a regra. (BRAGA, 2006, p. 42) Desse modo entendemos que a recordação, juntamente com a memória são marcadas por influências sociais, sobretudo o conteúdo e o modo da recordação, haja vista que os grupos sociais estão, de alguma forma, organizados. Assim, o engajamento da experiência social reflete na semelhança da estrutura de como está determinada a sociedade. No que tange ainda ao caráter social da memória, este aspecto é reafirmado por outro autor, Bosi (2001), que abarca a questão grupal nas reflexões em torno da memória: Goethe já observava, em Verdade e poesia: Quando queremos lembrar o que aconteceu nos primeiros tempos da infância, confundimos muitas vezes o que se ouviu dizer aos outros com as próprias lembranças. Daí o caráter não só o pessoal, mas familiar, grupal, social da memória. (BOSI, 2001, p. 59) Além das definições mencionadas pelos estudiosos acerca da memória, neste estudo, consideramos ainda a presença de outro tipo de memória: a cultural. Por essa ser constituída em heranças simbólicas que são materializadas em ritos, monumentos, celebrações, escritura sagradas e outros objetos mnemônicos, como os textos, consideramos a aproximação deste tipo de memória às narrativas de Caio, isso porque o escritor gaúcho materializa as memórias culturais em seus textos. Nesse âmbito, para melhor compreender a definição dessa memória, Costa (2010) sugere que ela esteja ligada ao passado: “A memória cultural está ligada ao passado longínquo. Esse passado se releva por meio de figuras simbólicas.” (p. 5758) Além dessas, outras peculiaridades da memória cultural são ressaltadas por Costa (2010): a) os acontecimentos estão ligados a um passado absoluto; b) alto grau de cristalização da forma, comunicação cerimonial, rituais; e c) representantes especializados em tradições. Em suma, “a memória cultural é a memória do passado primordial.” (COSTA, 2010, p. 58) Outra prerrogativa apontada pela autora é a de que a memória cultural faz parte do conhecimento que é partilhado entre membros de uma sociedade, nesse sentindo, entendemos que assim como a memória coletiva ou individual, a memória cultural está estreitamente relacionada à sociedade. Desse modo, individual, coletiva ou cultural, a memória é um dos princípios fundamentais da sociedade, tal como pondera Le Goff (2003): “A memória é um 118 elemento essencial do que se costuma chamar de identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.” (p. 469) A importância da memória ocorre, então, na medida em que ela se torna parte integrante da sociedade e se constitui como primordial para as relações entre os indivíduos, e, para demonstrar como incide a presença da memória, especialmente a cultural nas crônicas de Caio, a próxima seção analisa crônicas do autor em associação à perspectiva da construção da memória. 3.4. A construção da memória na crônica de Caio Neste estudo, a memória está sendo concebida através do seu caráter sóciocultural. Assim, erigindo referenciais da seção anterior, vamos observar como ocorre a construção da memória nas crônicas de Caio. Para melhor exemplificar essas relações, a narrativa “Ninguém merece Jânio Quadros”, de vinte e oito de outubro de mil novecentos e oitenta e sete, sinaliza a interação de como ocorre essa construção. Com essa narrativa, observamos a presença da memória individual de um tempo histórico, marcado pela prática de governos autoritários que não estão preocupados em resolver os problemas do povo: Semana passada, me deu uma vergonha tão grande de morar numa cidade que tem como prefeito essa figura lamentável do sr. Jânio Quadros, que até pensei: bom, no domingo sento e escrevo sobre isso. Uma crônica/carta irada, reclamando da sujeira das ruas, da violência solta, do barulho, da poluição, do lixo. Uma carta raivosa, cheia de cobranças. Lamentando a burrice deste povo que elegeu o sr. Jânio como prefeito e é bem capaz de, nas próximas (cadê?) eleições diretas para presidente, votar naquele outro senhor — o João Baptista Figueiredo. Uma carta sugerindo o internamento imediato do sr. Jânio (como ele fez com a própria filha) para uma boa — digamos — faxina mental. Com muito detergente. (ABREU, 2012, p. 127) Com esse fragmento, é possível observar a repulsa do narrador com relação a Jânio Quadros. Identificamos, assim, uma herança simbólica de indignação ao político que é materializada no texto, o que equivale a afirmar que a memória individual sobrepõe-se, isso porque é a impressão do narrador sobre a sociedade em que está inserido, que é ressaltada ao leitor. Por ser uma memória materializada no texto, há ainda a presença da memória cultural. 119 Ao relatar as suas impressões acerca do cenário político, o narrador entende que o antídoto que irá amenizar esse problema, são as questões culturais, tais como: Aquele filme irresistível chamado Down by law; os trabalhos da família Boyle, na Bienal; o show de Os Mulheres Negras (que seria ainda melhor se eles parassem com as abobrinhas pueris e investissem na música mesmo); um bilhete de Nara Leão; a A-Z com Paulinha Toller na capa de um artigo de Bivar sobre Dadá; certa tarde no Ritz quase vazio, com a voz de Gal Costa, de repente cantando “Todo amor que houver nessa vida”, de Cazuza (Axé?); esse livro atrevido chamado Maria Ruth, de Ruth Escobar; um telefonema de Hilda Hilts; Paula Dip voltando de Londres; Nelson Beissac Peixotto me trazendo uma maquetezinha de papelão de Nova Iorque, com King Kong e tudo; um sonho com Fanny Abramovich; um chá com Jaqueline Cantore e Hugo Prata. Tanta coisa boa, bonita, gostosa, que pensei: não, o leitor o não merece Jânio Quadros. (ABREU, 2012, p. 127) A alusão a elementos externos ao texto mostra como as tendências sociais influenciam o processo rememorativo na percepção do narrador. Através da linguagem, é possível perceber como a utilização do meio social sinaliza a construção das lembranças do narrador. O filme Down by law, uma comédia estadunidense lançada em 1986, em linhas gerais, é uma obra que mostra seres que vivem nos limites da sociedade, longe dos ideias em que estão inseridos. Da mesma forma com que o filme representa a expressão da década de oitenta, os outros elementos citados pelo narrador se constituem em uma memória cultural da época em que a crônica foi publicada. A memória, nesse sentido, pode ser entendida como um fenômeno social, isto é, está ligada à geração de 1980, no entanto, consideramos nesse processo, também, as influências sobre as recordações individuais do narrador, já que são as suas percepções em torno de traços sociais (filme, show, revista), mas que estão inseridos na sua individualidade. Por esse viés, as recordações podem ter conotação social, mas o processo mnemônico é peculiar a si, individual. As recordações individuais que se sobrepõem ao coletivo podem ser ressaltadas ainda na crônica “Adeus, agosto. Alô, setembro”, de dois de setembro de mil novecentos e oitenta e sete. Em sentido análogo a “Ninguém merece Jânio Quadros”, a primeira também demonstra a presença da memória, isso porque o narrador ressalta o momento que o Brasil estava passando, e o que precisava ser feito para suportar e refletir as adversidades da época. A linha de apoio prenuncia a reflexão proposta pelo narrador: “Mesmo aqui no País Bandido, agosto sempre vai embora. E setembro sempre volta, sim.” (ABREU, 2012, p. 113) Com esse excerto, 120 percebemos que a presença da memória coletiva e cultural é grifada pelo narrador. A memória coletiva está presente quando o autor refere que agosto sempre vai embora, já setembro sempre volta, ou seja, com o mês de setembro, predominam acontecimentos de teor positivo, ao contrário de agosto, e, nesse contexto, é importante ressaltar que a proposição de que agosto é um mês ruim não foi concebida pelo narrador, mas vem sendo disseminada há séculos, o que denota a presença da memória coletiva. Além desta, a menção do narrador possui, ainda, o caráter da memória cultural, que pode ser apreendida na medida em que citamos as lendas que circundam o mês de agosto. Para melhor compreender a presença de memória coletiva (po r estar relacionada ao mês de agosto ser apreendido por proposições de teor negativo) e a memória cultural (referindo-se as lendas que circundam esse mês), passamos a observar como essas características foram permeadas pelos mitos que envolvem o mês de agosto. A etimologia de como surgiu o nome “agosto” está calcada no império romano. Whitrow (1993) afirma que foram os romanos que denotaram a forma do nosso calendário e as convenções do registro do tempo: Nosso calendário atual é uma modificação do calendário introduzido por Júlio César em 1º de janeiro de 45 a.C., e que tem o seu nome. Anteriormente, os romanos tinham tentado contabilizar seu calendário civil – que, como muitos calendários antigos, baseava-se na Lua – com o ano astronômico baseado no Sol, mediante a um sistema que envolvia um mês adicional ou intercalar de dois em dois anos. Como a duração desse mês não era determinada por qualquer regra precisa, os governantes podiam arbitrá-la como quisessem, e frequentemente abusavam desse poder para fins políticos. Manipulando o número de dias do mês intercalar, podiam prolongar um mandato ou apressar uma eleição, e o resulto foi que, na época de Júlio César, o ano civil estava defasado em cerca de três meses em relação ao ano astronômico, de tal modo que os messes do inverno caíam no outono e o equinócio da primavera ocorria no inverno. (p. 82) Seguindo as informações cronológicas, Whitrow (1993) relata que César, para corrigir essas anomalias do tempo, decretou que o ano 46 a.C. seria prolongado a 445 dias, baseando-se em um calendário totalmente solar. Desse modo, fixou o ano verdadeiro em 365 dias e ¼ e introduziu o ano bissexto de 366 dias de quatro em quatro anos, já o ano civil comum iria se compor em 365 dias: Estabeleceu que janeiro, março, maio, julho, setembro e novembro teriam todos 31 dias e os demais 30, exceto fevereiro, que normalmente teria 29 dias e, nos anos bissextos, 30. Lamentavelmente, em 7 a.C. esse bem-feito arranjo sofreu uma interferência: em homenagem a Augusto (que o 121 considerava seu mês de sorte), deu-se seu nome ao mês Sextilis, atribuindo-lhe o mesmo número de dias do mês precedente, que fora renomeado por Marco Antônio em honra ao seu tio-avô assassinado. Assim, um dia foi tirado de fevereiro e transferido para agosto. Para evitar a ocorrência sucessiva de três meses de 31 dias, setembro e novembro foram ambos reduzidos a 30 dias, e outubro e dezembro passaram a ter 31. Assim, em homenagem ao primeiro dos imperadores romanos, um arranjo ordenado foi reduzido a uma mixórdia ilógica que muitas pessoas têm dificuldade em memorizar, mas que, no curso de 2.000 anos, foi imposta com sucesso à maior parte do mundo. (p. 82) Além dos romanos instituírem a agosto este nome, foi com esse povo que o mês ficou conhecido como negativo, pois eles acreditavam que era nesse período que uma criatura horripilante cruzava os céus da cidade, expelindo fogo. As lendas que abarcam esse mês vão além das que o povo romano acreditava, pois Lacerda (2004) associou agosto ao mês do desgosto, e, por esse prisma, Pinto (2000) afirma que, além de agosto ser o mês do desgosto, é também o mês do cachorro louco. Nessa esteira, outra consideração acerca desse mês deve ser ressaltada, dia 24 de agosto é comemorado o dia de São Bartolomeu, este santo promoveu muitas conversões ao Cristianismo, o que provocou inveja, então, ele foi executado em 51 d.C, anos depois, no mesmo dia, aconteceu um massacre na França, além disso, 24 de agosto é datado como o dia do Diabo. Newton Junior (1999) afirma que na crença popular nordestina, o dia 24 é o dia em que o diabo anda solto pelo mundo: É o mesmo dia, por exemplo, do nascimento do Boi Mandingueiro. Sobre esta data, afirmou Idelette Muzart: “Seja originado no martírio de São Bartolomeu ou na sangrenta lembrança da História da França, este medo supersticioso ficou ainda reforçado quando, em 1954, o Presidente Getúlio Vargas suicidou-se no dia 24 de agosto”. (p. 115) De acordo com todas as conotações que inferem ao negativismo que agosto possui, é que percebemos no excerto do narrador da crônica uma memória cultural. As lembranças foram, nesse sentido, objetivadas e institucionalizadas – os indivíduos relacionam a agosto um distanciamento dos efeitos positivos, essas informações foram armazenadas, repassadas e reincorporadas ao longo das gerações. É por esse caráter ser passado de geração a geração, que o narrador da crônica “Adeus agosto. Alô setembro” inicia a narrativa afirmando: Agosto, todo mundo sabe, nunca foi fácil. Este que nos deixou à meia-noite de ontem e pareceu durar uns seis meses, cumpriu a tradição. Levou Drummond, levou John Huston, Gilberto Freyre. O mais patético: levou Pixote. Ao saber do assassinato (é as-sas-si-na-to mesmo que eu quero 122 dizer) dele, além de sentir uma vergonha viscosa de ser brasileiro, fiquei pensando assim – Deus, o que é que está acontecendo com este país? Imagino a praça de guerra (Líbano perde) em que se transformou o Rio de Janeiro e, na trilha sonora, ficou ouvindo Lobão berrar “vida, vida, vida bandida”. Em 1987, Lobão tornou-se a mais perfeita tradução de Brasil. Um país invadido pela corrupção, pela barbárie, pela violência policial, pela bandidagem. Você vai até a esquina comprar cigarros e não sabe se volta vivo. (ABREU, 2012, p. 113) (grifos nossos) A ideia de memória cultural ser constituída por heranças simbólicas materializadas em textos que funcionam para incorporar significados ao que passou é perfeitamente aceitável neste primeiro parágrafo da crônica. O narrador cita os motivos de agosto ser considerado um mês que “não é fácil”, e ainda relaciona os problemas vividos pelo Brasil na época em que a crônica foi escrita estarem associados a agosto. Como na narrativa anterior, o antídoto para amenizar os sentimentos ruins é a música. Nesse sentido, o narrador cita “Vida Bandida”, cuja autoria é do cantor e compositor Lobão. Essa canção faz parte do terceiro álbum do cantor e foi lançada em 1987. Os temas que compõe esse álbum, a exemplo da música citada pelo narrador, são de teor introspectivo e dramático, porque representam um período da vida de Lobão em que esteve na prisão. “Vida Bandida” representa uma sociedade tal como o nome propõe: “bandida”, isto é, sem condições mínimas para viver, o que cabe no raciocínio proposto de um país invadido por conotações negativas: corrupção, barbárie, violência policial, bandidagem. Além da música, o narrador cita o teatro e faz comentários positivos para que os leitores possam ir ver a peça que seus amigos de Porto Alegre irão encenar em São Paulo. Ao falar sobre música e teatro na crônica, entendemos que o narrador faz alusão a esses elementos como uma forma de fuga frente a uma realidade hostil. A memória, então, entendida enquanto fenômeno social, sobretudo, quando analisamos as influências sobre as recordações individuais, pode ser sinalizada em outra narrativa, a crônica de dois de outubro de mil novecentos e noventa e quatro “Delírio eleitoral à beira do ridículo”. A narrativa representa, como nas duas anteriores, a memória individual do narrador imbuída de processos sociológicos. Na crônica em questão, o leitor é apresentado a uma série de estratégias para não votar em determinadas personalidades políticas. A narrativa foi escrita em vias da eleição, então, o narrador quer conscientizar seus leitores através de sua opinião, uma memória individual que interfere na concepção social e individual de cada um, ou seja o voto: 123 Assumi o pensamento quando vi Eliakin & Leila no SBT revelando que o mesmo temor atacou também Caetano Veloso, injuriado porque Enéas Carneiro ultrapassou Brizola nas pesquisas. Mais seguro, revelo para vocês aqui e agora o meu maior e mais ridículo medo pré-eleitoral – e se... o Enéas ganhar? (ABREU, 2012, p. 199) Após a indagação, há a descrição na crônica de uma longa pausa, o que indica que a posição individual da memória do narrador está centrada em um aspecto negativo a que Enéas está relacionado. Além deste, o narrador cita outros políticos cuja denotação negativa fica explícita: Décadas atrás, o povo chegou a eleger o rinoceronte Cacareco (lembro da marchinha de carnaval: “eu-encontrei-o-Cacareco-tomando-chope-comsalsicha-e-rabanada”); houve também um certo macaco Tião. Houve até – credo em cruz! – Fernando Collor. Por que não Enéas Carneiro? Assim, de sarro. Ou de amargura, porque depois de tanta bobagem, feiúra, denúncias, golpes, cinismos, arrivismo, falsidade (alô, alô FHC), o eleitor poderia muito bem se decidir por aquela opinião que De Gaulle tinha sobre o Brasil – a célebre c’est pás un pays serieux. Oswald de Andrade, ou seu espírito, adoraria. Chacrinha talvez reencarnasse para ser, digamos, ministro da Fazenda. E Mazzaropi ou Oscarito para a Saúde, que tal? Uau, enfim, uma República Palhaça! Assumida, descarada. (ABREU, 2012, p. 200) Cabe destacar que, através da ironia, a crônica firma-se como um exemplo de como a memória individual influencia sua concepção de como está calcada a sociedade em termos políticos. Nesse sentido, a memória individual é sinalizada por ser entendida como a que é guardada por um indivíduo, nesse caso, o narrador, e refere-se as suas vivências e experiências. No entanto, os aspectos do grupo social também estão presentes na memória individual, visto que, ele recorda-se de marchinhas de carnaval, programas televisivos que se encontram a nível coletivo. A presença desses elementos exerce a mediação produzida no compartilhamento dos sentidos como matéria-prima constitutiva da memória social. Nessa esteira, é importante ressaltar que as relações entre memória individual e social ocorrem na medida em que entendemos que a memória social, quando adquirida em determinados contextos, desenvolve-se em interação e com práticas, experiências e códigos simbólicos partilhados, é estruturada pela linguagem e é parte do processo de reprodução social. Para melhor conduzir as reflexões acerca da memória individual e coletiva, Ricouer (2007) propõe a ideia de que três traços podem ser ressaltados em favor do 124 caráter essencialmente privado da memória. O primeiro relaciona-se à memória ser radicalmente singular: “minhas lembranças não são as suas. Não se pode transferir as lembranças de um para a memória de outro. Enquanto minha, a memória é um modelo de minhadade, de possessão privada.” (p. 107) Um segundo ponto diz respeito ao vínculo da memória residir no passado. Assim, nas palavras do estudioso: “a memória é passado, esse passado é o de minhas impressões; nesse sentido, esse passado é meu passado. É por esse traço que a memória garante a continuidade temporal da pessoa”. (RICOUER, 2007, p. 107) E finalmente, em terceiro, É à memória que está vinculado o sentido da orientação na passagem do tempo; orientação em mão dupla, do passado para o futuro, de trás para frente, por assim dizer, segundo a flecha do tempo da mudança, mas também do futuro para o passado, segundo o movimento inverso de trânsito da expectativa à lembrança, através do presente vivo. (RICOUER, 2007, p. 108) A proposição da individualidade da memória está calcada em Santo Agostinho, após este vieram John Locke e Husserl, posterior a ele, está Maurice Halbwachs, para quem a memória está diretamente ligada a uma entidade coletiva, que ele denomina, grupo ou sociedade, o estudioso afirma que para lembrar-se é preciso dos outros. Em tal contexto, Ricouer (2007), esclarece que “é a partir de uma análise sutil da experiência individual de pertencer a um grupo, e na base do ensino recebido de outros, que a memória individual toma posse de si mesma”. (p. 130) Com efeito, é no caminho da recordação e da lembrança que nos deparamos com a memória dos outros. A recorrência da memória individual está presente na narrativa, pois as lembranças, tanto de programas de televisão, quanto do mal que algumas personalidades políticas fizeram ao país, estão em nível de “minhadade”, como denomina Ricouer (2007), ou seja, elas são processos mnemônicos que possuem exclusivamente as lembranças do narrador. No entanto, essa experiência de caráter individual está relacionada a um grupo social, tanto é que o narrador cita os fenômenos de ordem sociológica, além disso, entendemos essa memória como social e coletiva, pois se baseia na cultura de um agrupamento social e em códigos que foram apreendidos em processos de socialização. Em tal perspectiva, percebemos a presença tanto da memória individual, quanto da social. 125 Os códigos de processos sociais estão sinalizados pelos motivos aos quais o narrador não quer que os leitores votem em Enéas. O narrador recorda-se de uma situação com o político: Piada? Espero mesmo que não passe disso. Seria perigoso demais, por trás da imbecilidade aparente, Enéas parece tão fascista quanto o porco Berlusconi. Sei o que digo. Eu o conheci no final de 1990, no Aeroanta, quando Grace Giannoukas, Angela Dip e Marcelo Mansfield (na época o grupo Harpias & Ogros) ofereceram a ele um dos troféus “Créme de la Créme”. Encarregado por Martha Góes de fazer a cobertura para esse mesmo Caderno 2, dividi uma mesa com a poeta Ledusha, a atriz Maria de Moraes e, voilá, o tal Enéas. Este, levando a sério o puro deboche. Constrangedor. E me pergunto, seria tão patética assim a desilusão do povo brasileiro a ponto de cometer esse abasurdo? Razões não faltam, sei. Eu mesmo endureci muito após o affair Ibsen Pinheiro... (ABREU, 2012, p. 200) Com o excerto, podemos atentar para o caráter dinâmico da memória: ao ser evocada no presente (narrador expõe motivos concretos por sua desilusão com Enéas), remete ao passado (as recordações que envolveram o nome do político), mas sempre tendo em vista o futuro, ou seja, que Eneás não seja eleito. O final da crônica é em sentido de despedida e de alerta aos leitores: Peço então en-ca-re-ci-da-men-te: amanhã votem em quem quiserem, mas NUNCA em Enéas. A comédia pode virar tragédia, gente. Já pensou quatro anos de meu-nome-é – etc, perseguição às minorias e defesa da célulamater? Posto isso, parto para Frankfurt dia 4. Terei que ler em alguma língua estrangeira sobre o que rolou por aqui. Caso essas minhas torpes fantasias se realizem, juro que nem volto: vou direto morar em Saravejo. Anyway, da estrada, mando notícias. E juízo amanhã, hein? (ABREU, 2012, p. 200) O vocábulo “en-ca-re-ci-da-men-te” está permeado por marcas da oralidade, a presença dos hifens denota a pausa na fala do narrador para que a expressão seja ressaltada aos leitores. Nessa perspectiva, além da presença da memória individual, coletiva e social, observamos a memória como construção no que tange a reflexão acerca do social. O narrador não está somente representando a sua opinião que interfere no social, ele propõe também que os leitores saibam refletir sobre seu voto e mostra o quanto essa decisão possui importância. A reflexão sobre temas sociais caracteriza as crônicas de Caio. As narrativas possuem um peso especial no que se relaciona ao compromisso com o cotidiano e ao tempo, ligam-se, então, a um fato ou acontecimento temporal. Por esse viés do tempo, a memória insere-se, pois cabe ao cronista buscar em suas recordações individuais, coletivas e sociais, a reprodução das narrativas. Em especial, nas 126 crônicas analisadas de Caio, podemos ressaltar a presença da memória individual, coletiva, cultural e social. A memória individual está presente, pois Caio expõe as suas posições ideológicas nas crônicas, e a memória coletiva é entendida enquanto fenômeno social, analisando as influências sobre as recordações individuais, a memória cultural está imbricada de lembranças objetivadas e institucionalizadas que são armazenadas, repassadas aos leitores e materializadas através de textos e, por fim, a memória social, com vistas a ser parte integrante do processo de reprodução social. Ao fazer referência a presença das diferentes memórias nas crônicas de Caio, entendemos que suas narrativas contribuem para relacionar o aspecto literário e jornalístico de suas crônicas, a forma com que as narrativas dialogam com a sociedade e, por fim, que essas características constituem crônicas que, mesmo escritas nas décadas de oitenta e noventa, são denominadas atemporais, pois permitem ao leitor a reflexão de temas que circundam a sociedade atual. 127 CRÔNICAS DE CAIO: RELATOS DE UM NARRADOR-REPÓRTER A leitura de crônicas de A Vida Gritando nos Cantos permite várias reflexões. A primeira delas relaciona-se ao título que constitui uma espécie de síntese das narrativas. Como procuramos demonstrar, as crônicas de Caio abordam o cotidiano, tratam da vida. Assim, temos a explicitação do termo “a vida” no título. O senso crítico das crônicas de Caio remete à imagem de grito que faz parte do título e “nos cantos” faz alusão ao meio em que as crônicas foram veiculadas: em um jornal que chega a muitos espaços e leitores. Enfim, A Vida Gritando nos Cantos é um recurso de alerta aos leitores sobre temas delicados da vida social, mostrando o quanto a arte pode atentar para problemas sociais, fazendo os leitores compreenderem o meio do qual fazem parte. Nessa obra, os textos de Caio trazem uma visão singular na forma de conceber essas narrativas. A interação da literatura com a sociedade nessas narrativas sinaliza a forma com que o escritor conduz seus textos, fazendo com que o leitor sinta-se em meio a eles e possa refletir sobre os temas ali registrados. Nesse sentido, podemos destacar ainda que Caio foi um leitor de seu tempo, o que nos permite associar sua visão de cronista a uma expressão citada por Sá (1999), “narrador-repórter”. As crônicas de Caio mostram o quanto ele foi um “narradorrepórter”, pois entendemos que é essa a relação que o escritor gaúcho estabelece com as crônicas: um narrador-repórter por transformar fatos cotidianos em matéria literária. Além desse traço, convém destacar que Caio explorou vários recursos estéticos ao construir suas narrativas no gênero crônica. Para melhor exemplificar a forma como as suas crônicas transpõem fatos corriqueiros em uma linguagem imbuída de subjetividade, introspecção, alusão a elementos externos, ironia, humor, diálogo com leitor, interação da literatura com a sociedade e a memória acerca dos fatos que estão inseridos nas narrativas, demonstramos como todos esses elementos se relacionam, pontuando as principais considerações desta pesquisa. Para tanto, refazemos o percurso proposto neste trabalho com a divisão em três capítulos e apontamos dentre estes as principais peculiaridades que podem ser evidenciadas nas crônicas do escritor gaúcho, e por fim, mostramos alguns desdobramentos que esse estudo pode adquirir. 128 Os objetivos a que nos propomos ao estudar a obra A Vida Gritando nos Cantos consistem em reconhecer as características da crônica enquanto gênero literário, identificar os traços singulares da narrativa de Caio, mostrar as relações entre literatura e sociedade, qual a expressão dessa ligação para a crônica do escritor gaúcho, e ainda, como incorre a construção da memória nas crônicas. Para dar conta desses objetivos, separamos as reflexões em três momentos. O primeiro capítulo evidenciou a teoria que envolve a crônica, o hibridismo que circunda os campos da literatura e do jornalismo e, por fim, mostramos um pequeno esboço da crônica brasileira em distintos autores. É importante ressaltar que o limiar do jornalismo com a literatura foi fator primordial para a escolha das crônicas como objeto central deste estudo, justamente por ser um gênero que aborda aspectos da realidade, estabelecendo, assim, um diálogo entre sociedade e contexto jornalístico, mas também utilizando a subjetividade e elementos que se voltam para a interação com a literatura. Com efeito, a proposição de Candido (1989), acerca do fato de a comunhão que o texto literário estabelece com o social ocorrer pela pretensão de humanizar, é perfeitamente aceitável para compreender as crônicas de Caio, uma vez que o engajamento com relação ao social, a representação e a tentativa de melhor compreensão do mundo em que estava inserido estão em consonância com as crônicas do escritor gaúcho. Ademais, entre as particularidades que aproximam a crônica da literatura e do jornalismo e estão presentes nas narrativa de Caio, podemos citar ainda a busca pela subjetividade, o uso de linguagem mais livre e descompromissada, as qualidades estéticas e a literalidade. No que tange a essa primeira parte de reflexões que envolvem a teoria da crônica, após percorrer o caminho de como o gênero foi sendo concebido por distintos estudiosos ao longo dos séculos, entendemos que as características expostas sobre esse gênero nos serviram para erigir referenciais teóricos por evidenciar que os traços que pertencem a crônica de Caio não podem ficar restritos as reflexões da crônica enquanto gênero tal como proposto pelos estudiosos, por isso, podemos afirmar que os apontamentos da teoria da crônica não são suficientes para o estudo da crônica de Caio, pois, por exemplo, a objetividade propagada pela teoria da crônica como um traço singular desse gênero não é percebida na crônica de Caio no sentido de que este autor usa uma linguagem objetiva em termos de extensão, mas subjetiva em termos de construção e conteúdo. O que fizemos, foi 129 utilizar as características predominantes do gênero crônica e transportá-las para as narrativas de Caio, presentes na obra A Vida Gritando nos Cantos. Ao eleger a linguagem coloquial, o humor e ironia, a subjetividade e o trabalho de citação e a busca pelo diálogo com leitor, fixamos nossas análises em algumas das características que são pontuadas pelos estudiosos da crônica. Elegemos esses elementos, pois observamos que a maior parte das narrativas que estavam na obra que compreende nosso corpus atendiam a essas particularidades. Ao observar a presença dos elementos já citados que compreendem as análises do segundo capítulo, observamos que as narrativas formam um diálogo aberto e explícito entre escritor, leitor e sociedade. O autor ainda explora em seus textos uma linguagem de aproximação com o leitor, para chegar aos que leem, como se estivessem em uma conversa cotidiana, e, nesse contexto, distintos temas são abordados, no entanto, a preferência de Caio nas crônicas são os assuntos que envolvem elementos externos. Ao falar sobre política, Caio cita música (cantores, compositores, álbuns de artistas), cultura, (relaciona ao cinema, peças de tetro, televisão) e, é claro, literatura (livros, autores consagrados), ao falar sobre violência, histórias íntimas, viagens, tudo está permeado pela presença constante de citações à elementos externos. Outra importante característica que está inerente à crônica do escritor são os aspectos sociais, seu espírito crítico e até mesmo autocrítico, os quais induzem o leitor a temas que remetem ao cotidiano e à reflexão. Com as suas crônicas, não é possível falar em linguagem simples, a qual, segundo a teoria da crônica é uma das maiores particularidades do gênero. Isso porque, mesmo com a linguagem simples ou com um fato corriqueiro, as narrativas do escritor gaúcho transformam-se, imprimindo um grau maior de complexidade, e isso deve-se à composição que tanto a linguagem coloquial, humor e ironia, subjetividade e trabalho de citação e diálogo com leitor formam nas crônicas do escritor gaúcho. São através desses quatro elementos (que se desdobram em si) que podemos resumir as principais e especiais qualidades da crônica de Caio. Por esse motivo, eles foram escolhidos para referenciar o capítulo dois e possuem importância nesse estudo, pois estão presentes em todas as crônicas que o corpus dessa pesquisa compreende. As relações que se estreitam entre literatura e sociedade, a presença dos elementos observados nas crônicas do escritor gaúcho e que foram exemplificadas no segundo capítulo, auxiliam-nos para melhor compreender como ocorre a 130 construção da memória nas crônicas de Caio. No tocante à memória e à interação da literatura e sociedade é que o terceiro capítulo foi construído. O envolvimento da literatura com a sociedade foi pontuado e exemplificado nos textos e, à medida que essa relação se compõe não somente pela alusão a elementos sociológicos, mas, sim, pela construção que Caio utiliza em suas narrativas, isto é, temas que denotam a reflexão, estratégias textuais que remetem a indagação e que estão permeados por elementos sociológicos sinalizam a interação das crônicas com o meio social. Vale ressaltar a importância que a interação do literário com o social possui nesta pesquisa, isso porque, da mesma forma com que os elementos pontuados no segundo capítulo, todas as crônicas que compreendem o corpus dessa pesquisa apresentam a presença da relação entre literatura e sociedade. Para nortear o percurso metodológico dessas reflexões, as prerrogativas propostas por Antonio Candido foram utilizadas. O estudioso atenta que as indicações sociais estão presentes em referências a atitudes e palavras, mas também ao conteúdo das crônicas para que, assim, o leitor possa refletir sobre o sentido social simbólico. Por esse prisma, as crônicas de Caio voltam-se ao social, fazendo uso dos termos linguísticos e de conteúdo, mas também porque estão inseridas em um jornal, e este é parte atuante do poder que a mídia possui frente à sociedade, justamente por sua abrangência e pelo domínio que exerce sobre as pessoas. Por esse viés, a mídia exerce, segundo Azevedo (2006), papel de vigia e fiscalização, e, em sentido análogo, Caio também denota essa interação nas suas crônicas, já que, ao exibir suas ideologias em torno dos problemas sociais, o narrador das crônicas passa a assumir publicamente o papel de vigia. Além disso, através de relatos pessoais, o narrador remete os leitores a reflexão acerca da atuação de políticos brasileiros e ainda cita o nome dessas pessoas nos textos, demonstrando o que precisa ser transformado frente à realidade. Ao utilizar essas estratégias, as crônicas estão imbricadas de um viés sociológico que abrange a representação da sociedade e permite ao leitor refletir sobre os problemas explanados nas narrativas, correspondendo, assim, ao papel da interação da literatura com o meio social que é sinalizado por Candido (2000). Nessa esteira, o narrador, ao utilizar as suas vivências para transpor ao texto os problemas sociais e a relação da literatura com o social, a memória é realçada nesse processo, visto que, ao incorporar no texto as suas ideologias, o narrador está recorrendo aos processos históricos e consequentemente à memória. No que tange 131 à memória, podemos destacar que as crônicas de Caio estudadas evidenciam uma forma de construção de registro de um tempo social e histórico em que não foram ignorados temas da cultura e da política brasileira e mundial. Ao contrário, Caio soube captar dados do cotidiano e fatos relevantes no cenário social para transformar em conteúdo literário, fazendo com que suas crônicas possam ser lidas como uma forma de pensar o Brasil, a atuação de políticos e artistas, a perspectiva dos escritores, entre outros temas. Nesse sentido, cabe ainda registrar que Caio, em suas crônicas, manifestou uma perspectiva melancólica e até pessimista em relação à situação do Brasil, como fica evidente nos textos “Ninguém merece Jânio Quadros” e “Inútil pranto por Santa Tereza”. Enfim, podemos dizer que as crônicas de Caio são um registro de seu tempo e, por isso, constroem uma memória sóciocultural de seu contexto de produção. Ao realizar este trabalho, ainda é oportuno registrar que estudar as crônicas de Caio foi uma forma de compreender narrativas de sua autoria que não são tão requeridas quanto objeto de análise no meio acadêmico haja vista a escassez de pesquisas sobre sua crônica. Traços desse gênero em sua produção foram identificados na tentativa de buscar compreender melhor sua escrita cronística. No entanto, o estudo de sua crônica não está esgotado. Ao desenvolver este trabalho, surgiram algumas possibilidades de desdobramentos para pensar a crônica sobre outros vieses, tais como refletir sobre o lugar que a crônica de Caio possui na literatura do Brasil e a situação da crônica contemporânea em nossa literatura. Nessa perspectiva, um questionamento merece ser respondido: em comparação com outros escritores cronistas contemporâneos a Caio, que traços singularizam a crônica do período e qual o lugar de Caio nesse contexto? Nesse sentido, referindose ao cânone, outras perguntas nos parecem relevantes: como avaliar as suas crônicas? Elas estão inseridas em um rol mediano, bom ou as suas narrativas não se encontram nesses padrões de conceituação/valoração? Além disso, outra possibilidade é discutir os traços da crônica de Caio e verificar se esses são exclusivos de sua literatura ou se são recorrentes em outros cronistas e obras. Enfim, são caminhos de leitura a se fazer. Que outros trabalhos contribuam para desvendar as histórias desse singular narrador-repórter26. 26 A expressão “narrador-repórter” é emprega nesta seção final do trabalho no sentido de que Caio contou histórias, explorando recursos estético-literários diversos, o que o aproxima do mundo da literatura, o que permite a adoção do termo “narrador” que alude mais diretamente à capacidade criativa. O termo “repórter” é 132 REFERÊNCIAS ABREU, Caio Fernando. A vida gritando nos cantos: crônicas inéditas em livro (1986-1996). 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