II Encontro da Sociedade Brasileira de Sociologia da Região Norte 13 a 15 de setembro de 2010 -, Belém (PA) Grupo de Trabalho: GT 12 - Sociabilidades, práticas e identidade ribeirinhas em espaços urbanos Título do Trabalho: Elos entre o rural e o urbano em Belém Jakson Silva da Silva Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) 1 Elos entre o rural e o urbano em Belém Jakson Silva da Silva1 Resumo O trabalho visa refletir criticamente sobre o ethos dos grupos sociais que ocupam espaços ribeirinhos urbanos na cidade de Belém, como portos públicos - Porto da Palha e do Açaí e, territórios situados às margens do Igarapé Tucunduba. Buscou-se identificar as principais características, divergências e as convergências entre estes e outros grupos sociais urbanos e revelar até que ponto há a manutenção da cultura rural coexistindo na vida desses grupos urbanos. O lócus da pesquisa apresenta um mosaico rico de atividades como: feiras livres, mercados, locais de residências, áreas de lazer. Considerou-se a história de ocupação de cada lugar, uma vez que esses espaços abrangem bairros periféricos como: Guamá, Terra Firme e Jurunas e a origem das pessoas, já que muitas migraram dos interiores do Pará para a capital, trazendo consigo culturas ribeirinhas típicas. Buscou-se ainda reconhecer traços identitários do modo de vida ribeirinho na cidade em fazeres como: práticas religiosas, econômicas, culturais e sociais, a fim de categorizar essas realidades sociais como “urbano-ribeirinhas”. A adaptação dos migrantes na cidade permitiu a coexistência de culturas, intercâmbios e vínculos, moldando, dentro desses espaços urbanos periféricos, lugares típicos, onde é possível garantir a reprodução de um modo de vida rural, ainda que fortemente influenciado pelos tempos velozes que caracterizam a economia de mercado na grande cidade. Entrevistou-se moradores e usuários desses espaços e buscamos construir com eles interpretações sobre a especificidade do urbano em contraste com o ambiente rural que deixaram para trás. Contudo, ao lado de rupturas, procuramos demonstrar a existência de um “continuum” entre o rural e o urbano. Palavras-Chaves: Elos entre o rural e o urbano, espaços ribeirinhos na cidade, identidades ribeirinhas no cotidiano urbano dos migrantes. 1 Bolsista do Programa de Capacitação Institucional (PCI), no Museu Paraense Emílio Goeldi (MEPG). Contato: [email protected] 2 Introdução O presente artigo analisa a construção sócio/histórica de certas realidades do bairro do Guamá, especialmente as realidades construídas às margens do Igarapé Tucunduba, feiras livres, mercados e portos públicos, como o Porto da Palha e do Açaí, destacando as articulações entre o rural e o urbano. Esse estudo é resultado de atividades de pesquisa desenvolvidas dentro do projeto: “Elos entre o rural e o urbano em Belém”, o qual está vinculado ao projeto: “Identidade e Institucionalização: a construção de espaços territoriais no Pará”, coordenado pelo pesquisador Rodrigo Peixoto, do Museu Paraense Emílio Goeldi – MPEG. Os sujeitos da pesquisa são migrantes de municípios e ilhas próximas de Belém, como Muaná, Acará e Cumbú, muitos de origem ribeirinha, oriundos dos interiores das regiões do rio Guamá, do rio Acará e do baixo Tocantins, que alcançaram Belém através da rede fluvial, o mais antigo meio de transporte na Amazônia. Esse grande contingente humano ocupou locais situados às margens dos rios e baia da área metropolitana de Belém, devido a semelhança geográfica aos seus locais de origem e por serem consideradas áreas mais acessíveis às condições socioeconômicas dos migrantes por serem pouco valorizadas pelo mercado imobiliário. A ocupação de áreas de baixada, próximas a cursos d‟água, estão na origem da criação de alguns dos bairros populares de Belém, como o Jurunas, Terra Firme e Guamá. Segundo pesquisa realizada pelo Núcleo de Meio Ambiente da UFPA e o Núcleo de Ação para o Desenvolvimento Sustentável (Poema) sobre violência urbana em Belém, solicitada pelo Governo do Estado, a migração do campo para a cidade é uma das características do desenvolvimento da região Norte nos últimos 50 anos e justifica o expressivo crescimento de sua população urbana. Belém registrou um crescimento populacional acentuado entre 1960 e 1980, com incremento populacional de 134%, alcançando, ao final dos anos 80, a marca de 1 milhão de habitantes. O êxodo rural de microrregiões vizinhas, como Bragantina, Baixo Tocantins, Marajó, Salgado, entre outras, contribuiu para o aumento populacional e para a crescente demanda por emprego, ocupação e renda, o que sobrecarregou a economia da capital. 3 O cenário comum aos espaços que abrigam os sujeitos da pesquisa é marcado pela exclusão social e a criação do “não cidadão” devido a ausência do Estado percebida pela falta de serviços urbanos básicos como saneamento, pela falta d‟água, acúmulo de lixo a céu aberto, além da violência crescente. Soma-se a isso a surdez e o desprezo do poder público às reivindicações dos movimentos populares locais. Dessa forma, as condições de vida dos moradores “urbanos ribeirinhos” mostra a negação à vida cidadã e ao acesso aos direitos constitucionais a esses brasileiros, trabalhadores e residentes em áreas de portos e feiras livres. Apesar desse processo de desumanização e indignidade, esses grupos sociais permanecem residindo e desenvolvendo suas atividades por isso a pesquisa procurou respostas, ouvindo os próprios moradores, sobre as motivações capazes de, apesar de tudo, atrair as pessoas do ambiente rural para esse contexto urbano pobre. O aporte teórico permitiu identificar e analisar os elos entre o rural e o urbano, reconhecendo traços característicos dos interiores do Pará convivendo nesses espaços urbanos. A existência desse mosaico cultural revela múltiplas identidades e sociabilidade ribeirinha coexistindo entre si e com os padrões e valores urbanos. A antropologia e a história foram ferramentas teóricas fundamentais para apoiar as interpretações dos dados coletados, o que evidenciou as relações entre o rural e o urbano, interior e capital, na perspectiva amazônida. A abordagem teórica de Michel Pollak (1992) sobre estudos orais favorece a análise do fenômeno, em foco, uma vez que possibilita articular a memória social e a identidade de grupos sociais a partir de histórias de vida. Nesse sentido, a pesquisa oral possibilitou apreender nas entrevistas com moradores, trabalhadores e lideranças comunitárias, suas histórias, vínculos, estratégias de sobrevivência, ambientes, sonhos e frustrações, buscando reconstruir o ethos que permeia a vida ribeirinha urbana nos locais de moradia, trabalho e lazer. Com esse suporte teórico foi possível agrupar os fazeres e as manifestações dos sujeitos da pesquisa em lócus e categorias: religiosas, econômicas, sociais e culturais, que revelaram significados e valores do 4 universo simbólico dos migrantes ribeirinhos urbanos, possibilitando visualizar vínculos identitários de seu antigo modo de vida. Devido a fase dessa pesquisa abordaremos, inicialmente, algumas questões teóricas que trataram rigorosamente da relação entre sociedades rurais e sociedades urbanas e, em especial, os estudos que construíram o conceito de um “continuum” entre o rural e o urbano. O conceito de um “continuum” entre o rural e o urbano: em algumas abordagens teóricas. Dessa forma, aceitou-se o desafio em reconstituir historicamente a trajetória do conceito de um “continuum” entre o rural e o urbano, nas diferentes ciências humanas, ressaltando a Antropológica. Os primeiros estudos realizados sobre sociedades rurais e urbanas que se utilizaram da perspectiva de um “continuum” foram os pesquisadores da Escola de Chicago, por volta da década de 1930. Neste contexto, eles buscaram repensar o papel da Antropologia urbana, devido às novas problemáticas que a cidade apresentava aos Antropólogos, como a industrialização e a divisão social do trabalho. A intenção era construir “uma Antropologia na cidade do que da cidade, já que a preocupação seria „estudar situações que ocorrem em cidades sem que tenhamos, forçosamente, de explicá-las pelo fato de estarem ocorrendo naquele quadro especial‟” (Oliven, 1985, p. 13). De modo geral, esses antropólogos não relacionavam o objeto de estudo com o contexto social, isto é, analisavam o objeto em si, não se preocuparam em historicizar no tempo e no espaço. O Antropólogo Rubem Oliven (1985) destacou que entre as teorias construídas pelos pesquisadores da Escola de Chicago, os estudos de Luís Wirth sobre como “o urbanismo como modo de vida” contribuiu para ampliar o entendimento sobre o tema. “O estabelecimento de cidades implicaria no aparecimento de uma nova forma de cultura caracterizada por papéis sociais altamente fragmentados, predominância de contatos secundários sobre os primeiros isolamentos, superficialidade, anonimato, relações sociais transitórias e com fins instrumentais, inexistência de um controle social direto, diversidade e 5 fugacidade dos envolvimentos sociais, afrouxamento dos laços famílias e competição individual” (Wirth apud Oliven, 1985, p. 14). Nessa perspectiva a cidade é pensada como um centro de fragmentação de culturas, que destrói identidades coletivas e laços familiares, em detrimento da imposição do modo de vida urbano em comunidades rurais. O ponto central dessa teoria é o urbanismo e a cidade. Segundo Oliven (1985), as formulações teóricas de Wirth estão ligadas às reflexões do antropólogo norte-americano Robert Redfield. Na visão de Oliven, “ele acreditava que existiam variações contínuas entre sociedade de tipo folk e sociedades urbanas crescendo ou diminuindo de um extremo para o outro” (idem, p.15), em decorrência de pesquisa realizada no México. Essa teoria destacou a existência de um “continuum” entre o rural e o urbano e serviu de base teórica para a formulação do modelo folk-urbano. O modelo folk-urbano foi reformulado pelos pesquisadores da década de 1940, uma vez que na sua formulação inicial não foi relacionando elementos históricos e sociais, como a pobreza e a violência. Essa revisão teórica considerou o contexto histórico-social das comunidades rurais. Contudo, essas “novas” abordagens enfatizavam a perspectiva de um “continuum” entre sociedades rurais e urbanas. Dentre os pesquisadores deste tema, a abordagem do antropólogo Oscar Lewis, foi bastante polêmica. Oscar Lewis (1951), também, realizou pesquisas na vila mexicana de Tepoztlán, onde dezessete anos antes Redfield tinha formulado inicialmente seu modelo folk-urbano (e posteriormente re-trabalhado na península de Yucatan). Neste estudo, Lewis afirmou que migrantes rurais quando chegam à cidade, não perdem seus valores anteriores. Destacando que não há uma destruição completa da identidade anterior do migrante, mas hábitos e costumes rurais sofrem mutações e adaptações, no contexto urbano. “Lewis sugeriu que „ o „continuum‟ flok-urbano era um modelo teórico inadequado para o estudo da mudança „cultural‟ e que caracterizações como folk, rural e urbano „confundem as questões dos estudos de mudanças a curto prazo, nunca tendo sido provado seu valor heurístico, como instrumento de pesquisa” (idem, p. 17). Essa revisão teórica do conceito de um “continuum” entre rural e o urbano realizada por Lewis proporcionou novas interpretação para o processo 6 de urbanização das comunidades rurais, como enfatiza a citação acima. Por outro lado, essas idéias chegaram ao Brasil por volta da segunda metade do século XX. Entre os pensadores brasileiros, destacamos o geógrafo Milton Santos (2008), que analisou rigorosamente o processo de globalização e seus “efeitos colaterais” relacionando-os com o desenvolvimento do meio técnico-científico. Para o autor, o modelo de globalização que a sociedade ocidental vive atualmente, é perverso uma vez que provoca a marginalização, exclusão e destruição das camadas mais pobres da sociedade. Nessa perspectiva, a cidade é tomada como um centro territorial de poder em relação à parcela territorial rural, porque “é na cidade que as sementes políticas germinam” (SANTOS, 2000, p. 56). Para este autor, as metrópoles sofreram um processo de “involução urbana” com as práticas das populações rurais nelas residentes, mas com a adoção pelas sociedades da economia de mercado há uma alteração no dinamismo urbano. Assim, o autor propõe a noção de involução metropolitana na qual a perspectiva de crescimento econômico assume a centralidade do fenômeno “(...) A noção de „involução urbana‟, a partir do que era chamado de ruralização da cidade, isto é, a invasão de práxis rurais no meio urbano, em virtude das numerosas e brutais correntes migratórias provenientes do campo. Hoje, porém, talvez se possa falar em uma involução metropolitana, mas em outro sentido, na medida em que o grande número de pobres urbanos cria o caldo cultural para que, nas grandes cidades, sobretudo nelas, vicejam formas econômicas menos modernas, dotadas de menor dinamismo e com menor peso na contabilidade estatística do crescimento econômico” (Santos, 2008, p. 144,). Depreende-se que o fenômeno chamado de involução urbana é decorrente do crescimento de regiões de periferias urbanas, cujas atividades de sobrevivência dos migrantes na metrópole era similar a desenvolvida no campo. Na atualidade, o fenômeno observado nas regiões urbanas é o da involução metropolitana gerado pelo grande contingente de pobres urbanos, sem a antiga distinção entre campo e cidade, que não conseguem acompanhar o ritmo frenético e formas econômicas adotadas não contribuindo para o crescimento econômico na medida desejada. As definições sobre involução urbana e metropolitana não são antagônicas, mas complementares e auxiliam no entendimento sobre as 7 relações estabelecidas entre os grupos sociais de periferia de origem rural entre si e o poder público nas grandes cidades. Essa pesquisa registrou aspectos identitários do antigo modo de vida dos migrantes ribeirinhos urbanos e, também, o desenvolvimento das formas econômicas anacrônicas, e sem o dinamismo exigido pela economia de mercado, não seria incorreto afirmar que resida nesta última característica a razão do descaso do poder público para com essa população uma vez que não é significativa sua contribuição para o crescimento econômico. A partir de agora analisaremos primeiramente a realidade sócio/histórica construída pelos ribeirinhos urbanos no bairro do Guamá e nos territórios às margens do Igarapé Tucunduba. Posteriormente, trabalharemos especificamente com o Porto da Palha e o Porto do Açaí. Uma história de exclusão: o bairro do Guamá e o Igarapé Tucunduba, identidades rurais em contexto urbano. O bairro do Guamá é uma das ocupações urbanas mais antigas da cidade de Belém, nascido ainda durante a Intendência de Antônio Lemos, no final do século XIX. Entre os pesquisadores que têm como objeto de observação o Guamá, destacamos a visão de Peixoto & Alves (2009), principalmente quando argumentam do ponto de vista histórico territorial sobre a condição marginal que se constituiu o Guamá. “Desde sempre o Guamá e a Terra Firme são tomados como lugar para a descarga de dejeito. O Guamá está marginalmente colado à dinâmica da cidade desde fins do século XIX como sede de leprosário e cemitérios. A cidade se livrava também dos seus alienados mentais e mendigos enviando-os para essa periferia e, em 1959, instalou-se no bairro um hospital para doenças infecciosas, o Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB)”. Nesse contexto de abrigo ao descarte de pessoas indesejáveis no centro da cidade de Belém: mendigos, mestiços, ex-escravos e hansenianos, destacase a várzea do rio Tucunduba, que no final do XIX, recebeu o Hospício dos Lázaros do Tucunduba, com o objetivo de abrigar os indesejáveis da cidade. O conjunto de narrativas produzidas nesta pesquisa possibilitou, a priori, identificar algumas dessas motivações, em decorrência das carências geradas pela pobreza do mundo rural como a inexistência de: serviço público de saúde; 8 saneamento básico, perspectivas de inserção no mundo de trabalho; baixa circulação de riquezas. A crença compartilhada pela maioria dos sujeitos ouvidos revelam pontos convergentes com a esperança em obter progresso material e humano, mudando suas condições básicas de sobrevivência na cidade, era possível pela proximidade aos serviços públicos melhores condições do que em seu local de origem. A escolha do espaço urbano situado em proximidade ou sobre rios e baia é justificada, sobretudo pela aproximação às imagens familiares como a paisagem igual a do interior, com rios e igarapés. Além disso, a desvalorização imobiliária da região permitia a existência de espaços desocupados e, aparentemente sem donos o que facilitou a fixação das famílias e a construção de casas e vendas. No bairro do Guamá existe o Igarapé do Tucunduba, que ultrapassa os limites territoriais do próprio bairro. Segundo a pesquisadora Solange Costa, “o igarapé apresenta-se como um forte elemento no imaginário dos “ocupantes”, especialmente aqueles que têm origem no interior” (2002: 63) do Pará. Às margens do igarapé foram ocupadas, em especial, por migrantes ribeirinhos e caboclos nas décadas de 1980 e 1990, e, em conseqüência surgiu a Comunidade do Pantanal (1994) e do Riacho Doce (1990). A descrição da antropóloga Carmem Izabel (2008), sobre o caboclo é reveladora: “de quem olha do interior, e vê o outro como espelho – ao mesmo tempo em que se vê pelos olhos do outro – o caboclo é que deseja ser o outro de si mesmo” (p. 292). O historiador Jacque Le Goff (2003), assim como Michael Pollak (1992), afirmam que memória e identidade têm uma estreita relação. Corrobora para isso as respostas obtidas em entrevistas com os representantes e lideranças dos movimentos sociais do Guamá. São as histórias de vida, em especial de Luiz e do Raimundo Oliveira – um dos organizadores do Coletivo de Movimentos Sociais Resistência Guamâzonica –, 2 que relatam sobre a infância, adolescência e vida atual no bairro. Essas narrações permitem 2 O Coletivo de Movimentos Sociais Resistência Guamazônia foi formado para participar do Fórum Social Mundial, em Belém, em 2009, pelas diversas entidades populares do Guamá, como o Centro Comunitário Sebastião Mearim, Associação de Moradores Raimundo Ferreira Lima (o Gringo) e José Piau, dentre outras. 9 reconstruir a vida num bairro periférico como o Guamá, onde a maioria das famílias são humildes e pobres, cuja maior dificuldade era enfrentada pelos jovens. Não obstante, registra-se total integração entre homem e natureza nas narrações sobre o Igarapé Tucunduba, considerado como espaço de lazer para eles, que ali tomavam banho e brincavam. Como diz Luiz: “a gente brincava com inocência e sem maldade”. Atualmente, essa simplicidade se perdeu, assim como ocorreu a naturalização da violência ligada à pobreza e a consequente estigmatização dos pobres. Os relatos abordam a violência como causadora de angústia entre os próprios moradores do Tucunduba. Percebe-se que eles se reconhecem como pobres, mas há existência de uma identidade dual, ao que se refere à condição de pobreza. De um lado, o olhar dos moradores de outros bairros mais urbanizados que associam esta pobreza e à violência e, de outro a concepção da maioria dos moradores, que entende haver dignidade na pobreza. Percebeu-se, também que o reconhecimento do estado de pobreza não significa resignação, mas um fator união entre os moradores que se organizam em torno da luta por cidadania. A pesquisa nos permitiu verificar que o sonho de progresso humano e material dos ribeirinhos ainda não se concretizou, pois eles continuam pobres, num contexto de crescente violência de todo dia e a desigualdade gritante que a cidade revela estabelece um agudo contraste entre a vida rural e a vida na cidade. Os relatos permitiram identificar, também, a presença da cultura ribeirinha em espaço urbano. A entrevista do ex-coordenador da Comissão dos Bairros de Belém (CBB), Genival Carvalho, morador do Guamá e amante da Teologia da Libertação, permitiu reconstrução do cenário da várzea do Tucunduba antes e depois da ocupação. “Era por sinal muito bonito (...) tinha área disponível, dava para pessoa pescar, dava para pessoa até tomar banho no Tucunduba. A água era limpa. (...) Então é nessa data 1978 que começa a ocupação do Tucunduba. Essa senhora que se chama Maria de Nazaré e mora na José Chaves foi uma das primeiras moradoras a chegar nessa região. Ela estava me contando que eram três pessoas que tinha na margem do Tucunduba. (...) Então nós tivemos um fluxo muito grande de pessoas que vieram de áreas interioranas, do outro lado do rio, aqui próximo, como o Acará. (...) Eu dizia pra eles: olha, vai alagar tudo quando a água do igarapé subir. Mas eles não tinham pra onde ir, onde morar, e ali eles criavam filho, criavam porco, galinha, criavam tudo. A enchente não era problema pra eles porque eles já eram ribeirinhos.” (Entrevista com Genival, 15/09/2008) 10 As práticas rurais de criação de animais e cultivo de ervas medicinas nos quintais dos moradores do Tucunduba garantem a manutenção da cultura ribeirinha e a sobrevivência da família em espaço urbano. Uma parte ribeirinha da urbe: a Comunidade do Riacho Doce. A vida ribeirinha e seus elementos de sociabilidade são reproduzidos na grande cidade, hábitos, valores, experiências, religiões e conhecimentos tradicionais foram trazidos dos locais de origens das famílias como o conteúdo cultural. A noção de que esses espaços ribeirinhos, em contextos urbanos, representam uma “extensão do interior” é tanto de pesquisadores como moradores e trabalhadores. Sobre isso a Antropóloga Carmem Izabel (2008), diz que existem espaços urbanos que indicam a reprodução de um tempo ribeirinho baseado na natureza, típico das comunidades tradicionais, em contraste com o tempo veloz, vivido na cidade. Segundo Charles Souza (2006), “o Riacho Doce consegue criar um espaço diferenciado, construindo a sua própria identidade, criando representações que têm história e significado também comum às localidades de origem. Neste aspecto, a presença do igarapé contribui sobremaneira para a reprodução de um tempo amazônico menos moderno, seja pela influência da maré, pelos movimentos dos berços, ou seja, pelas lembranças de uma vida rural e ribeirinha” (p. 34). David Harvey (2006) amplia o sentido do tempo: “o tempo é memorizado não como fluxo, mas como lembranças de lugares e espaços vividos, (...) como material fundamental de expressão social” (p. 201). A expressão social a que se refere o autor foi percebida nos relatos colhidos entre os moradores do Tucunduba, práticas e saberes ribeirinhos são revividos por meio da memória social de ribeirinhos transformados em citadinos urbanos. Percebeu-se que o tempo e a memória são matrizes propulsoras das experiências adquiridas no interior, moldando na cidade um estilo de vida, “ribeirinho/urbano”. Nas palavras do Walter Benjamim, interpretando Proust, “imagine, caro leitor, ontem eu mergulhei um bolinho numa xícara de chá, e então me lembrei que tinha morado no campo, quando criança” (Benjamin, 1994, pág. 39). A 11 memória reveste o espaço com práticas, detalhes e costumes rurais. Há dentro das casas, nas redes familiares, nos espaços de lazer e trabalho, uma sociabilidade ribeirinha, uma identidade básica constituída de detalhes, vestígios e traços religiosos. Portanto, a cidade sente a pulsão da vida do interior, isto é, de uma vida ribeirinha que quer transbordar as franjas da modernidade. Esse tempo amazônico considerado por autores como “menos moderno” remete a reflexões sobre a involução metropolitana de Milton Santos e o ribeirinho/urbano confrontado por um mundo dominado pela economia de mercado “... formas econômicas menos modernas, dotadas de menor dinamismo e com menor peso na contabilidade estatística do crescimento econômico”. Romantizando a exclusão dos urbanos ribeirinhos não é o caminho mais adequado para o estabelecimento da justiça social que só se estabelece pela organização popular e movimentos reivindicatórios. Movimentos populares urbanos com raízes rurais A história social recente de formação do espaço urbano de Belém, foi marcado pelo surgimento de um “novo” ator social, isto é, os moradores das periferias urbanas. O caráter popular da história de Belém escreveu-se principalmente nos bairros pobres da cidade e, entre eles, o bairro do Guamá. O bairro do Guamá e no Tucunduba há diversas organizações e entidades populares que, hoje, atuam no interior do bairro informando a população sobre seus direitos à cidadania. Essas organizações populares, resguardadas suas singularidades, não são totalmente desconhecidas dessas populações periféricas uma vez que a zona rural vivenciou muitos conflitos e luta em defesa da terra. Os nomes atribuídos a alguns espaços físicos que abrigam os movimentos populares urbanos revelam o grau de conexão com a ruralidade ribeirinha dos moradores dos bairros estudados. São nomes como: Casa Açaí, Associação de Pais Moanará (que em nhengatu significa liberdade), Centro Comunitário Raimundo Ferreira Lima (o Gringo), Associação de Moradores Sebastião Mearim e Associação de Moradores José Piau, como demonstra a imagem a abaixo. 12 A fotografia revela a precariedade dos espaços físicos dos movimentos populares do Tucunduba e a herança da cultura política rural. O nome desta entidade foi colocado em homenagem a José Piau, liderança rural que foi assassinada no interior do Pará, possivelmente a mando de grades latifundiários. É possível também que exista alguma entidade externa que influenciou na escolha do nome dessa entidade popular, como sindicados, Igreja Católica ou Partidos Políticos de esquerda. Fonte: Arquivo do Centro de Estudo e Prática Popular (CEPEPO), no bairro do Guamá. Assim como José Piau, Raimundo Ferreira Lima (o Gringo) e Sebastião Mearim foram assassinados nos interiores do Pará e tornaram-se mártires rurais e, hoje, servem como os nomes para as entidades populares do Tucunduda. Mas o fato é que a memória parece dá outra vida aos heróis mortos de outrora. Na entrevista com o feirante e líder comunitário da Associação dos Moradores Sebastião Mearim, João Vale – o Dinho –, ele lembrou e falou com muito orgulho da trajetória de vida dessa liderança rural. “Sebastião Mearim foi um lutador, uma grande liderança dentro do Estado do Pará. Ele defendia muito os posseiros no sul do Pará. Um companheiro imbatível. Pra ele não tinha barreiras. Pra defender os posseiros. Pra defender contra os latifundiários. Por esse motivo ele foi assassinado, foi tombado no campo. Por defender os posseiros, por defender os companheiros que lutavam pela posse da terra no campo. Então qual foi o preço que ele pagou, pagou com sua própria vida. Mas, hoje, muitos companheiros nossos trazem ainda o espírito do Sebastião Mearim dentro de si e defende com unhas e dentes as injustiças sociais”. (Entrevista realizada no dia 25/11/2008). No contexto da cidade, o Guamá é conhecido por ser um bairro populoso e muito violento, pelo tráfico de drogas, pelos bandidos e pela pobreza do local. Em outras palavras, a imagem construída é a de que o bairro violenta a cidade. Entretanto, os movimentos populares têm a percepção de que não é o bairro que violenta a cidade, na verdade, o poder público que violenta o Guamá, pela falta de água potável, pela falta de espaço para lazer, pela falta de segurança, dentre outras carências. Em linhas gerais, parece que as instituições públicas paraenses ignoram a presença de pessoas nessa favela urbana, chamada Tucunduba. 13 Mas o fato é que os migrantes lutam pelo reconhecimento social de sua identidade, reivindicado seus direitos à cidadania, à cidade. É significativo informar que nessa caminhada a Igreja Católica progressista desenvolveu um papel fundamental na organização dos movimentos populares, interagindo, no interior dos bairros com a população local através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), na metade do século XX. A atuação da Igreja progressista no Guamá: um elo político/religioso entre o rural e o urbano. Foi baseada na doutrina da Teologia da Libertação que surgiu a Paróquia da Santa Maria Gorret, no bairro Guamá, com o padre Italiano Savino Mombelli que, hoje, atua numa periferia de Belém. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são espaços políticos tradicionalmente do meio rural, entretanto, agora, encontramos esses espaços no ambiente urbano. Há um “continuum” das lutas camponesas nos movimentos populares urbanos, isto é, as lutas refletem umas nas outras, rompendo com fronteiras culturais e espaciais do rural e do urbano. Na fala de Genival Carvalho, foi possível identificar as origens dos moradores, ao mesmo tempo, observamos também as raízes culturais dos movimentos populares do Tucunduba, a relação entre o rural o urbano veio à tona. “Essa região de onde eles são oriundos é uma região onde os chaverianos tinham muita atuação. Eles tinham experiências com as Comunidades Eclesiais de Base – as CEBs –. Assim que eram chamadas lá no interior. Nessa ocasião, era o padre, que hoje é professor do curso de direito [da UFPA], o Jerônimo Tercane. Ele foi padre que atua nessa região de Boa Vista do Acará. Muitas pessoas vieram do Acará e acabaram chegando aqui, no Tucunduba”. (Entrevista com Genival Carvalho, no dia 15/09/2008). Os ribeirinhos trouxeram suas experiências políticas adquiridas no interior para a cidade, transformando-a em um palco de mobilizações políticas que reivindicavam, nas décadas de 1980 e 1990, especialmente o direito à moradia. Nas entrevistas com as lideranças comunitárias do bairro, percebeu-se que no processo de mobilizações políticas os ribeirinhos urbanos tiveram uma ampla participação nos movimentos populares dos bairros pobres. 14 No Guamá, foi produzido pelo CEPEPO (Centro de Estudos e Práticas de Educação Popular), um vídeo chamado “O Grito do Guamá”, em 1985. A intenção era chamar a atenção das autoridades para a histórica falta da água potável no bairro, principalmente no Tucunduba. Será que as autoridades ouviram? Hoje, mais de duas décadas se passaram e quase na nada mudou no cotidiano dos moradores desse lugar de sociabilidade “ribeirinha-urbana”. As mobilizações denominadas gritos têm suas origens nos “Gritos da Terra Brasil”, organizados pela Igreja progressista, representada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). O objetivo era mobilizar e levar milhões de trabalhadores rurais, as capitais do país, a fim de sensibilizar as autoridades para o problema da terra. Em outras palavras, as experiências políticas adquiridas no campo servem de base para as mobilizações populares na cidade, havendo assim um continuum entre as lutas no campo e as lutas na cidade. Moradias no Tucunduba Segundo Duarte Cardoso e Ferreira Lima (2006), “o nativo, habituado a „resolver‟ a habitação a partir da natureza, transferiu para a cidade sua tecnologia construtiva (palafitas), embora sem dispor de expedientes para viabilizar o crescimento harmônico das aglomerações com o meio ambiente amazônico” (2006: p. 90). Mas fato é que viver numa palafita é já uma violência à condição humana, numa realidade urbana precária, uma vez que essas habitações não têm água potável dentro de casa, não contam com esgoto sanitário e são situadas em áreas alagáveis. Essa é uma condição típica que a cidade impõe aos caboclos ribeirinhos tornados caboclos citadinos. No contexto urbano, entre lutas e adaptações, persistem elementos da origem rural e ribeirinha. Eles estão representados no imaginário e nas práticas sociais dos moradores. Segundo Solange Costa (2002), no Riacho Doce, as casas são exemplos da herança ribeirinha dos moradores, como demonstra a citação baixo. “No caso concreto de Belém e especificamente nas „ocupações espontâneas‟ pode-se perceber que as casas estão „afetadas‟ pelas práticas culturais próprias dos locais de 15 origem de seus moradores e podem ser reflexos do processo econômico da cidade.” (...) “Os detalhes, a forma e o uso contemplativo lembram as embarcações confeccionadas em madeira existentes na Amazônia e muito comum nos interiores ribeirinhos do Pará” (idem: 74/82). Visando melhorar a situação desses habitantes urbanos, na maioria caboclos ribeirinhos que vieram morar às margens do igarapé, a gestão do prefeito Edmilson Rodrigues, em 1997, colocou em prática um projeto de Macrodrenagem da bacia do Tucunduba. Esse projeto previa urbanizar a área, retirando os moradores de cima do igarapé, que se encontrava bastante poluído. Uma vez que o projeto foi encaminhado mediante ampla participação e debate com a população interessada, justamente um dos aspectos que mais geraram discussão foi sobre os efeitos da intervenção do poder público sobre a liberdade que se verifica no interior, onde “cada um faz sua casa do jeito que quer, como ele gosta, não é só de um tipo”. A reurbanização de parte do Tucunduba previa construir 609 novas casas, “todas em alvenaria e padronizadas, para atender a necessidade de remanejamento de famílias”. Muitos moradores do Riacho Doce não gostaram, por que ia ser tudo igual (Costa, 2002: 76/77). Do ponto de vista histórico, o povo do Tucunduba parece está vivendo no século XVIII, porque suas casas apresentam características das moradias dos operários da época da Revolução Industrial, na Inglaterra, descritas pelo historiador E. P. Thompson (1987). “No final do século 18, havia muitos trabalhadores agrícolas que viviam com suas famílias em habitações de um único cômodo, úmidas e abaixo do nível do solo. (...) Porém, na medida em que as novas cidades industriais envelheciam, multiplicavam-se os problemas de abastecimento de água, saneamento, superpopulação, além dos gerados pelo uso das casas para serviços industriais, culminando com as estarrecedoras condições reveladas pelas investigações sanitárias, na década de 1984” (p.184/185). Essas são as condições sociais que os ribeirinhos urbanos do Tucunduba enfrentam na cidade, a precariedade, presente tanto no local de destino como no local de origem. De fato, a pobreza estabelece um “continuum” entre o rural e o urbano. A história do Guamá é uma marcada pela exclusão, assim como a história do campo, dois contextos com um “continuum”, a exclusão social, tanto no ambiente de origem como no ambiente de destino. 16 . Analisaremos abaixo a beira do rio Guamá, tendo pano de fundo os portos da Palha e do Açaí, localizados ao longo da Avenida Bernardo Sayão, que corta o bairro do Jurunas, Guamá e Condor. A beira do rio Guamá: o projeto Portal da Amazônia, os Portos da Palha e do Açaí e seus movimentos sociais reivindicatórios. Segundo Carmem Izabel (20008), “Belém possui uma estrutura formidável de portos, empresas e empresasportos, estatais e privados, que tiveram uma importância crucial na dinâmica econômico-espacial da cidade e na vida de moradores (...) Existem mais de quarentas portos comerciais na orla do rio Guamá, metade dos quais se localiza no bairro do Jurunas, entre os quais destaca-se os portos do Açaí, da Casa Silva, Bom Jesus, Líder, Custódia, Pureza, Comercial, Antero, Boa Viagem, Diniz, São Benedito e Mundurucus” (p. 78/79). De fato, constituiu-se ao longo da Avenida Bernardo Sayão (antiga Estrada Nova) uma vida voltada aos portos, uma vida ribeirinha. Há, em toda a extensão da Bernardo Sayão, mercados, lojas de motores para barcos, restaurantes, hotéis, galpões de cargas, instituições públicas (CTBEL) e moradias. É sobre essa realidade que será construído o projeto Portal da Amazônia com mais de 6.250 metros de extensão ao longo da Av. Bernardo Sayão, entre o complexo do Mangal das Graças até a Universidade Federal do Pará (UFPA). Este empreendimento foi projetado pela Prefeitura Municipal de Belém (PMB) e será executado pela construtora Andrade Gutierrez S.A, com o financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O portal é composto de dois grandes projetos: a macrodrenagem da Estrada Nova e a Orla de Belém. Segundo a prefeitura a obra irá beneficiar e mudar, para a melhor, a vida de mais de 30 mil pessoas que moram em condições precárias no bairro do Jurunas, Guamá e Condor. (http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=555947). O discurso oficial diz que Belém cresceu de costa para rio, esquecendo sua origem – os rios e igarapés amazônicos –, o portal vem, portanto, não só para melhorar a vida da população, mas também resgatar a identidade 17 ribeirinha da cidade. O objetivo do projeto é abrir portas e janelas para o rio Guamá, servindo como espaço turístico. Na medida em que os bairros pobres se modernizam seus moradores vão sendo empurrando para outras favelas urbanas de Belém. Essa dinâmica urbana faz com que, haja uma valorização do espaço antes desvalorizado, integrando-o a economia de mercado global, como afirmou Milton Santos. Em entrevista com Félix Silva, coordenador geral da Associação dos Trabalhadores do Porto do Açaí, tomou-se conhecimento sobre a existência de movimentos que reivindicam direito à participação na elaboração do projeto Portal da Amazônia. “Eu comecei a participar do movimento em 2003, mas já existia antes. Veio, justamente, devido à tentativa de acabar com os portos. Transferir os trabalhadores de lá pra outras feiras. Porque no Porto do Açaí se você conferir os boxes são trinta e cinco. A maioria dos trabalhadores são pessoas que ficam no meio, são as pessoas que não tem boxes, são os ribeirinhos, são os carregadores. O movimento [é composto por] agentes sociais tanto do Porto do Açaí, como do Porto da Palha e os feirantes representantes de outras feiras aqui de Belém, que vestiram a camisa desse movimento. Também fazem parte pesquisadores da Unamaz, Iágua e outros colaboradores, como os professores e alunos da UFPA [Universidade Federal do Pará]” (Entrevista com Félix Silva dos Santos, dia 27/06/2010). O Movimento em Defesa dos Portos Públicos luta para mantê-los nos seus locais tradicionais, ao mesmo tempo, tenta dialogar com a prefeitura de Belém, que para sua frustração pouca resposta tem dito do prefeito Duciomar Costa, principalmente em relação ao projeto Portal da Amazônia. O Porto da Palha No Porto da Palha, antiga feira de São Matheus, existe a Associação Beneficente do Porto da Palha, desde 1983, uma entidade sem fins lucrativos, que sobrevive apenas com as mensalidades dos seus associados. As mensalidades variam de vinte sete a quarenta reais, depende do número de dependente do associado diz a administradora Guaracyaba – filha do seu Sarmento fundador da Associação. O objetivo da entidade é atender as pessoas de baixa renda, como os trabalhadores do porto, os feirantes, os ribeirinhos das ilhas próximas e os moradores dos bairros pobres. Na Associação são disponibilizados cinco serviços aos associados, clínico geral, auxilio funeral, odontologia, pediatria e ginecologista. Segundo 18 Guaracyaba a entidade tem uns 500 associados, sendo que cada associado tem o direito de colocar treze a catorze pessoas, isto equivale a umas seis mil pessoas. Na entrevista Guaracyaba disse que: “Muita gente depende diretamente dos serviços daqui. Muitas pessoas que não eram necessariamente feirantes e nem tão pouco morador daqui da feira, começaram a se interessar pelo serviço, como os ribeirinhos aqui da área, pessoas que moram no bairro do Condor, Cremação e Jurunas. Essas áreas bem próximas começaram a se interessar pelo serviço. O que acontece, aqui, a gente acaba se tornando uma alternativa para o atendimento a saúde, pra essas pessoas que procuram o posto de saúde e não são atendidas [ou que não tem] condição de pagar um plano de saúde, como Unimed ou Hapvida. O associado aqui, o perfil sócio-econômico deles são pessoas de baixa renda, geralmente pessoas que ganham até um salário mínimo. Existem associados que trabalham por conta própria, uma banca de bombom, uma banca de pipoca, costureira, comércio na sua casa. Tem os associados idosos que são aposentados”. (entrevista com Guaracyaba, dia 05/08/2010). Além de prestar esses serviços às comunidades carentes, a Associação realiza duas vezes ao ano a Ação Cidadania, em parceira com a SESMA e o SESC. O objetivo da Ação é promover um diálogo com a população, utilizando o próprio espaço da feira do Porto, com palestras que tratam temas como sexualidade e a condição dos idosos, na família de baixa renda. 3 Entre as necessidades que a entidade tem enfrentado está o trânsito desorganizado, o acúmulo de lixo na feira e a luta pela permanência do Porto da Palha. Uma realidade que não é só do Porto da Palha, mas também do Porto do Açaí. Procurou-se nesta entrevista saber se o porto tem alguma relação com a prefeitura de Belém, já que o Portal passará pela localidade do Porto. Não! O poder público não dá nem uma ajuda aqui. Até porque meu pai, sempre trabalhou com a noção de que nós temos que ser alto sustentável. Só que esse ano, como eu falei, a gente tem esse projeto trabalhar a longo prazo com o associado. A gente precisa do apoio do governo. Não tem como a gente viver sem esse apoio, devido os recursos que não são suficientes pra trabalha. Eu soube que nós podemos ganhar um título de utilidade pública. A partir desse título talvez a gente consiga alguma coisa de projetos. O nosso foco é trabalhar idosos e crianças. A gente quer trabalhar com os idosos, devido à conversa que a gente tem aqui com idosos. A conversa que a gente tem aqui com filhos de idosos, eles vivem aqui sem fazer nada o dia todo, isso acaba gerando uma depressão, não tem uma ocupação. Pensando nisso, a gente quer ser a primeira entidade aqui de bairro, trabalhar com essas pessoas, não só associado, mas 3 A Ação Cidadania é feita duas vezes ao ano. A primeira já ocorreu no início do ano, na Praça Princesa Izabel, no bairro do Condor. A segunda será realizada em dezembro, no espaço da feira, diz Guaracyaba. É importante ressalta que a entrevista enfatizou a necessidade de fazer um trabalho com os idosos dos bairros pobres e das ilhas ribeirinhas, ela diz que, às vezes, servem até de psicólogas para esses idosos que freqüentam a Associação, vendo essa necessidade a entidade vai realizar no dia do idoso um passeio fluvial pelo rio Guamá, com o objetivo que visitar os principais pontos turísticos da cidade. 19 também quem não é associado, mas o foco principal é para os associados. (entrevista com Guaracyaba, dia 05/08/2010). De maneira geral, os Portos da Palha e do Açaí são esquecidos pelo poder público, os problemas históricos enfrentados neles nunca foram resolvidos, violência, acúmulo de lixo, desorganização no trânsito, prostituição de menores e saneamento básico são os mais gritantes. Percebeu-se também que nos portos há uma fluxo de jovens, adultos e idosos ribeirinhos que vem a cidade estudar, trabalhar ou busca atendimento médicos. Portanto, há uma destruição da velha noção dicotômica entre rural e urbano, hoje, o rural e o urbano têm que ser percebido como partes de uma mesma sociedade. Conclusão Compreendeu-se que a urbe guarda múltiplas histórias, com diversos sentidos e significados, construindo identidades e estabelecendo elos entre o rural e o urbano. A história do Guamá é uma história de exclusão social. Entretanto, existem movimentos populares que tentam mudar essa realidade. Diferente da visão do Estado, os movimentos têm a percepção de que não é o bairro que violenta a cidade, é o poder público que violenta o bairro. Identificou-se que grande parte dos moradores dos territórios às margens do Tucunduba são de origem rural e ribeirinha, oriundos dos interiores do Pará, que alcançaram Belém através da rede fluvial, a mais antiga da Amazônia. Na cidade, os migrantes ribeirinhos urbano não perdem por completo sua identidade anterior, eles trouxeram consigo hábitos e costumes rurais como conteúdo cultural. No local de destino, eles moldam ambientes urbanos, adaptam os hábitos e reproduzem elementos de sua ruralidade em espaço urbano, criando “continuuns” entre o rural e o urbano, em espaços urbanos. Portanto, há, na cidade de Belém, espaços urbanos onde a cultura ribeirinha reproduz-se, como nos Portos da Palha e do Açaí, ambos esquecidos pelo poder público. Percebeu-se que a prefeitura nega-se em estabelecer contato com os movimentos sociais dos portos, impondo O Portal da Amazônia goela abaixo, isto é, há uma negação à vida cidadã e ao acesso aos direitos constitucionais a esses trabalhadores e residentes em áreas de portos e feiras 20 livres. Portanto, realidades como a dos portos, das feiras, dos mercados e dos territórios às margens do Igarapé Tucunduba, no bairro do Guamá, refletem sociabilidade da vida ribeirinha dos interiores do Pará, pois são verdadeiros espaços “urbanos-ribeirinhos”, em ambiente urbano. Bibliografias BENJAMIN, Walter. “A imagem de Proust”. 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