O bardo e o demiurgo: o tempo vétero-testamentário em Beowulf
GESNER LAS CASAS BRITO FILHO∗
1. O poema, o manuscrito, paganismo e cristianismo.
O poema Beowulf é a porção de maior tamanho e destaque do conjunto de
escritos do manuscrito conhecido como Nowell Codex, que integram junto com outros
manuscritos de origem diferentes o chamado Cotton Vitellius A.xv, conservado hoje na
British Library em Londres. Todos os textos do manuscrito estão na chamada língua
anglo-saxã. Costuma-se chamar a língua falada e escrita na Inglaterra anglo-saxônica e
seus diversos dialetos do o século VI até o século XI como inglês antigo (Old English)
ou anglo-saxão (PAGE, 1999: 343-344).
A datação do poema é alvo de discussões que acontecem até hoje, de certa
forma. Apesar de algumas divergências mais polêmicas, (vide FULK, BJÖRK &
NILES, 2008: xxv-xxxv) há certo consenso de que sua criação teria ocorrido entre
séculos VII a X e seu registro em um único exemplar escrito haveria ocorrido por volta
do ano 1.000. Vide também: (LIUZZA, 2000: 281-302), (MITCHELL & ROBINSON,
1998: 03-13) e (MEDEIROS, 2006: 17-38).
A ideia de estudar Beowulf como um poema pagão, artificialmente cristianizado
por um monge copista, que o teria adulterado, corrente entre diversos pesquisadores que
já se debruçaram sobre o poema, revela-se hoje como esvaziado em argumentos.
Embora alguns estudos busquem conectá-lo com escritos celtas (JONES, 1972) ou
pagãos germânicos, como veremos abaixo, as conecções diretas mais seguras são com o
cristianismo ocidental alto-medieval, continental ou “carolíngio”, mesmo que Cristo não
seja citado em nenhum dos versos do poema.
É inegável que haja em vários níveis institucionais e culturais considerável
influência formativa “germânica”
1
de origem continental na sociedade anglo-saxônica
Mestrando em História Social pela Universidade de São Paulo-USP - orientadora: Profª. Drª. Ana Paula
Tavares Magalhães Tacconi.
1
Sobre os usos do termo germânico, recomendamos o seguinte artigo, disponível on-line, que, além de
demonstrar a artificialidade do termo, faz um balanço histórico da fluidez de significados deste termo:
∗
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
2
por uma razão de origem étnico-linguística. A aparição de elementos germânicos neste
poema cristão deve-se ao fato que a sociedade que o produziu possuía estes elementos
“germânicos” em sua teia de relações sociais. Porém, a oposição frequente entre cultura
“germânica” e cultura “cristã” nos estudos que se debruçam sobre o poema é uma
construção anacrônica que busca separar realidades que estvam mescladas na sociedade
anglo-saxã.
A imiscuidade de elementos “pagãos” e cristãos é uma característica existente
desde os primórdios da cristianização dos anglo-saxões. Ela estará presente inclusive no
próprio discurso eclesiástico de “conversão” dos futuros “ingleses”, por exemplo, nos
escritos instrutivos do papa Gregório Magno ao orientar que os santuários pagãos não
deveriam ser destruídos na Britânia.
Outros fatos demonstram a coexistência dos elementos locais neste cristianismo,
como a aceitação do idioma anglo-saxão no nome das festividades cristãs como a
Páscoa (Eoster em anglo-saxão), na escritura das leis (BROWN, 2003: 346), e na
existência de versões tanto em prosa, quanto parafráses em verso de episódios bíblicos
no idioma anglo-saxão, algo que é único na cristandade Ocidental do período2. A
produção de textos, tanto no idioma local quanto em latim demonstram como, apesar
destas particularidades, a Inglaterra anglo-saxônica está inserida no universo da
circulação de escritos cristãos da Europa Ocidental neste período.
O fato de que uma imensa Bíblia de mais de 500 fólios, como o Codex
Amiatinus foi produzida no mosteiro de Wearkmouth-Jarrow pelas ordens do abade
Ceolfrith (688-716), demonstra que a circulação de escritos era expressiva. Conforme
narrado por Beda, a Bíblia foi feita para ser entregue pelo próprio Ceolfrith diretamente
às mãos do papa. O abade morreu no caminho, não finalizando sua missão. Mas o
Fruscione, D. - On “Germanic”, In: The Heroic Age- A Jornal of Early Medieval Northwestern
Europe- Issue 14 (November 2010).
Disponível em: http://www.mun.ca/mst/heroicage/issues/14/fruscione.php (acessado em 15/05/2012).
Porém, para fins de inteligibilidade, o sentido adotado doravante aqui em nosso artigo, para
“germânico” significará estes povos de origem continental que ocuparam as Ilhas Britânicas entre os
séculos V a VIII advindos dos territórios dos seguintes países nos dias de hoje: as atuais Alemanha e
Dinamarca. Segundo alguns estudos e relatos dos séculos posteriores, como o de Beda, o venerável, estes
povos seriam os anglos, saxões e jutos, chamados tradicionalmente pela historiografia de anglo-saxões.
2
Vide por exemplo, os poemas do Codex Junius 11. Imagens e informações sobre o manuscrito
disponíveis no site da Bodleian Library da Oxford University.
URL: http://image.ox.ac.uk/show?collection=bodleian&manuscript=msjunius11 (acessado em 13/06/2012).
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
3
enorme Códice ainda por volta desta época chegou até península itálica, onde se
encontra até os dias de hoje, mais precisamente em Florença. (GAMESON, 1996: 98).
Todos estes elementos contribuiram para criar um universo cultural próprio na
sociedade anglo-saxônica já cristianizada. Não é possível saber extamente se estes
elementos nomeados como pagãos hoje, o eram assim enxergados pela sociedade anglosaxã. Alcuíno, por exemplo, ao advertir aos monges britânicos contra a disseminação
das “lendas” e superstições pagãs, pergunta: “Quid enim Hinieldus cum Christo?”- “O
que Ingeld tem em comum com Cristo?”, advertindo contra a preferência por “lendas
pagãs” por eclesiásticos. (BENSON, 2000: 281-302). Porém, parece-nos que diante das
escassez de outros escritos de mesmo teor neste período, esta posição expressa muito
mais uma visão de uma ortodoxia de Alcuíno, que está inserido num contexto de
delimitação do cristianismo no continente, oriundo de um pensamento que visava a
centralidade da monarquia carolíngia neste processo. Sua rseposta ao questionamento
do bispo parece muito mais expressar a visão de alguém que está muito distante do
cotidiano anglo-saxão, e denuncia que estas lendas “pagãs” eram apreciadas e
divulgadas pelos próprios eclesiásisticos. Porém, lembrando que esta nomenclatura de
“pagão” é sempre uma visão externa, pois os nomeados como“pagãos” provavelmente
não se nomeavam a si próprios com este termo.
A presença do wyrd (destino), dos funerais crematórios nos barcos e outros
elementos com características pré-cristãs no poema poderiam ser na realidade elementos
mais “laicos” do que “pagãos” aos olhos da época. O “wyrd”, e outras fórmulas textuais
“germânicas”, presentes em diversas outras composições poéticas de origem oral desta
sociedade não podem ser desprezadas, pois são perceptíveis na confrontação com outras
obras da mesma época (FENTRESS & WICKHAM, 1992: 61).
É impossível traçar todo o percurso que liga Beowulf ao Antigo Testamento.
Mas, podemos analisar alguns aspectos que apontam como o texto bíblico está
apropriado dentro do poema, independentemente da forma como este texto chegou a
compor parte da construção da narrativa do poema. E verificando como ele está inserido
na narrativa do poema, verificarmos como o texto vetero-testamentário era lido pela
sociedade anglo-saxônica.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
4
2. O “scop”3 contou como o Todo-Poderoso criou à Terra
A construção do palácio por Hrothgar acontece no presente da narrativa, e sua
criação funciona como uma analogia à própria criação do mundo por Deus. Heorot, o
nome do palácio do rei Hrothgar deu origem no inglês moderno à “heart”, que significa
em anglo-saxão, dentre outras conotações, coração, alma ou “espírito” humano. O rei,
ao beber junto com seus guerreiros e doar riqueza (os anéis) no salão é uma partilha
ritual do poder num local sagrado. É a construção de um mundo, de uma nova
sociedade. Uma atitude tanto digna de um rei germânico, quanto de um rei do Antigo
Testamento. São atitudes opostas aos atos dos três vilões da narrativa, que causam
destruição e não construção, criação.
Esta ligação com o início da criação é confirmada na festa de comemoração da
construção de Heorot, quando um “scop” (bardo ou escaldo) canta a criação do mundo
por Deus e dizer que todos viveram por muito tempo, alegres, felizes e abençoadas até
que Grendel seus crimes perpetrasse:
“swutol sang scopes
frumsceaft fíra
sægde sé þe cúþe
feorran reccan
cwæð þæt se ælmihtiga
wlitebeorhtne wang
eorðan worhte
swá wæter bebúgeð
gesette sigehréþig
sunnan ond mónan
léoman tó léohte
land-búendum
ond gefrætwade
foldan scéatas
leomum ond léafum
cynna gehwylcum
þára ðe cwice hwyrfaþ
Swá ðá drihtguman
éadiglice
líf éac gesceóp
dréamum lifdon
oð ðæt án ongan
fyrene fremman
féond on helle
wæs se grimma gaést
Grendel háten” (Beowulf, vv. 90 – 103)4
Tradução:
3
Utilizamos a palavra “bardo”, de origem francesa, ao invés da mais correta etimologicamente que seria
“escaldo”, por uma questão de inteligibilidade. A palavra em anglo-saxão: “scop” está etimologicamente,
e talvez em sentido, mais ligada ao nórdico antigo “skald”. Embora ambas sejam aproximações
tradutórias que não dão conta do sentido do termo original em anglo-saxão. Estas informações
provenientes dos dicionários e gramáticas do idioma anglo-saxão citadas na bibliografia.
4
As citações do poema Beowulf e seus versos são do original em Anglo-saxão (Old English) transcrito do
manuscrito em FULK & BJÖRK & NILES: 2008. Todas as traduções para o português são nossas.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
5
Doce melodia do bardo a remota
que dizia o que sabia sobre
criação dos homens.
Ele contou como o Todo-poderoso
criou à Terra -
belíssimo campo -
cercado de água.
Criou, triunfantes,
ao Sol e à Lua -
luzeiros brilhantes E adornou
aos cantos da Terra
com galhos e folhas.
cada espécie
para os moradores da Terra.
Ele criou a vida, também,
que vive e que se move.
Então, os nobres homens
felizes,
viviam em alegria,
até ele atacar,
perpetrar sua fúria.
O inimigo do inferno,
era o selvagem estrangeiro
conhecido por Grendel.
A imiscuidade entre o tempo atual e o tempo da criação vetero-testamentária
(Gn 1; 2)
5
não é somente temática. A construção do palácio de Heorot é
propositalmente análoga à criação bíblica, pois ambas servem para contar fatos de um
tempo mítico e heróico. Ainda dentro desta chave do “tempo antes dos tempos”, o
poema narra a genealogia dos reis daneses, desde o mitológico Shield Shefing, até
Hrothgar.
3. Os gigantes e a descendência de Caim
A espada encontrada na gruta dos monstros funciona também como elemento de
conexão entre tempo da saga e este passado da criação, pois ela continha sua origem
gravada em letras rúnicas as lutas dos tempos iniciais do mundo, pois foi feita por
gigantes (BEOWULF, vv. 1557-1564 e 1686-1693).
Os gigantes são caracterizados como antepassados, como um povo antigo
habilidoso, existentes no início dos tempos. Conectado diretamente ou não a estes
elementos da narrativa épica, há registros em outros documentos em Old English, que
demonstram que muitos anglo-saxões acreditavam que as ruínas romanas presentes no
território inglês eram obras de gigantes. Há o registro, por exemplo, no Exeter Book, no
poema “A ruína”, de que as construções romanas em ruínas eram consideradas como
5
Todas as citações bíblicas são da Bíblia de Jerusalém, 2008.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
6
“antigo trabalho de gigantes” (BLAIR, 1999, 396-398): “Wrætlic is þes wealsta/ wyrde
gebræcon/burgstede burston, brosnað enta geweorc” (CHADWICK, 1922:51-57).
Tradução: “maravilhosa é esta construção,/ O destino quebrou-a / Seus pavimentos
destruídos / O trabalho dos gigantes deteriora-se”.
Beowulf encontra na gruta subterrânea onde viviam Grendel e sua mãe, uma
espada feita pelos gíganta cyn - pelo povo dos gigantes (BEOWULF: v.1688) em
tempos primordiais. Os gigantes estão presentes na mitologia germânica, mas também
estão presentes no texto vetero-testamentário (Gn 6, 1-5; Nm 13, 33; DT 2, 10, 11).
O primeiro grande opositor do herói que aparece na narrativa principal do poema
é o monstro Grendel. No desenrolar da narrativa, o herói Beowulf enfrenta a vingança
da mãe de Grendel. Os dois seres habitam o pântano desde tempos imemoriais e são
descendentes de Caim, uma das figuras de maldição primordial da narrativa bíblica, pois
é o primeiro criminoso:
siþðan him scyppend
in Caines cynne
éce drihten
forscrifen hæfde
þone cwealm gewræc
þæs þe hé Ábel slóg
ne gefeah hé þaére faéhðe
metod for þý máne
ac hé hine feor forwræc
mancynne fram
þanon untýdras
ealle onwócon
eotenas ond ylfe
ond orcnéäs
swylce gígantas
þá wið gode wunnon
lange þráge
hé him ðæs léan forgeald. (Beowulf: vv. 106– 114).
Tradução:
Assim como a ele [Grendel], o Criador
à toda estirpe de Caim
pelo Senhor Eterno,
condenou ao banimento
por causa do vingativo assassinato,
pois ele matou Abel.
Nenhuma alegria [obteve] desta vingança
o Senhor Deus, pelo crime
Deste modo os monstros,
ogros e elfos
mas, baniu-o para longe
contra a humanidade.
todos surgiram:
e orcs.
A todos os gigantes
que lutam contra Deus
desde muito tempo,
Ele retribuiu-os seus atos com esta pena.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
7
Um dos fatores que explica a força descomunal dos dois monstros é a ligação
dos mesmos com os primórdios da criação. Grendel e sua mãe só poderiam ser
derrotados através de algo com um poder e origem equivalentes à deles: a espada feita
pelos gigantes do início dos tempos da criação. Este topos se repetirá na velhice do
herói ao enfrentar ao dragão. Grendel e sua mãe são humanos, pois são descendentes de
Caim. São componentes de uma tipologia do mundo enquadrada numa ordenação cristã
do mundo (BROWN, 2003:483-485).
A figura do monstro associa-se, assim, a comportamentos e ações inaceitáveis
por esta sociedade. A nomeação de gaest - estrangeiro ou alienígena, que é utilizada
diversas vezes para nomear Grendel - abarca tudo que é estranho àquela sociedade.
Porém, como o próprio poema nos conta, o casal de monstros habitava aqueles pântanos
desde tempo “imemoriais”. Grendel não é identificado no poema com Satanás, com o
oponente de Deus, mas com o primeiro humano criminoso, o primeiro traidor, o
primeiro fratricida, o primeiro “amaldiçoado” pela “ira de Deus”: Caim. Sua figura
apresenta-se, portanto, como um homem, que se desumanizou pelos seus maus atos e
pela conseqüente maldição divina. Portanto, Grendel e sua mãe como monstros físicos,
animalescos e, sobretudo antropomórficos. Não são demônios, seres espirituais, com
poderes sobrenaturais, embora diversas vezes as palavras empregadas para nomeá-los
também possuam ao mesmo tempo sentido de demônios espirituais: aéglaéca
(BEOWULF: vv. 159, 433 e 816) ou gaest (BEOWULF: vv. 86, 102, 1349 e 1617).
Grendel é “godes yrre bær” - aquele que carrega o ódio de Deus (BEOWULF: v.
711) e “godes andsacan” - adversário de Deus (BEOWULF: v. 786) - e possui hábitos
selvagens e monstruosos como o canibalismo (BEOWULF: vv. 742-745).
Tantos daneses quanto geatas são (no momento da narração) cristãos e ao
mesmo tempo respeitam às leis germânicas, como o wergeld, que não é respeitado pelos
dois monstros.
wið manna hwone
feorhbealo feorran,
né þaér naénig witena
beorhtre bóte
mægenes Deniga,
féa þingian
wénan þorfte
tó banan folmum (BEOWULF: vv. 155-158)
Tradução:
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
8
De qualquer homem
das tropas dinamarquesas
não renunciou às mortes violentas,
Nenhum dos conselheiros
à nobre recompensa,
nem a [pagar]
esperava
das mãos do assassino.
O wergeld - o “preço de um homem” - era o pagamento feito à família do morto
pelo assassino. O wergeld variava em função da posição social da vítima e normalmente
era pago como uma compensação aos parentes do morto (ou ferido) de acordo com os
costumes e depois de acordo com valores estabelecidos pelas legislações escritas
(LOYN, 1962: 205).
Assim, o inimigo estrangeiro traz a esta sociedade anglo-saxã do período prédominação normanda, que é múltipla e fragmentada (cultural, social, religiosa e
politicamente), uma união artificial. Os dois primeiros grandes inimigos de Beowulf são
estrangeiros que já moravam nas terras danesas desde muito tempo. O herói Beowulf é
um geata que vem salvar aos daneses. E a conexão dos inimigos com o mal primordial
do Antigo Testamento, por oposição, une os daneses e geatas acima de qualquer
desavença que possa acontecer. As palavras de Unferth contra Beowulf perdem o
sentido diante do enfrentamento e vitória contra este mal.
Os monstros representam um mal “estrangeiro” que paradoxalmente habita a
periferia, os pântanos da mesma terra em que vivem estes bons homens. Os daneses de
Hrothgar seriam, então, invasores ou novos ocupantes destas terras? Seria o reino danês,
a terra prometida deste novo Israel? Grendel e sua mãe habitam aquelas terras antes dos
daneses, porém, são os estrangeiros. São estrangeiros porque não constrõem nada e são
os causadores de destruição.
5.O dragão da ganância e a luta contra o mal
Diferentemente do casal de monstros antropomórficos que Grendel e sua mãe
representam, o dragão (BEOWULF, vv. 2212-2220) pende a narrativa do poema para o
lado mitológico. E talvez a aproximação do dragão com o sobrenatural seja aquilo que
torna possível que ele, embora vencido, consiga matar Beowulf. Em diversas outras
sagas medievais também surgem mitos de batalha contra os dragões. Na Mitologia
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
9
nórdico-germânica os dragões aparecem em diversos episódios (BORGES, 1978). No
texto bíblico o dragão é a serpente, representante do pecado original. Na Bíblia
encontramos algo equivalente à figura física do monstro de tamanho descomunal, no
Antigo Testamento, nas descrições do Leviatã e Benemot (JÓ 40,15). Há várias
aparições de dragões tanto no Antigo Testamento, quanto no Novo, especialmente no
Apocalipse. Porém, o poema não deixa tão claro como no caso de Grendel e sua mãe, a
ligação direta deste dragão com quaisquer textos bíblicos.
Independente das dimensões físicas, focando-se na moral “cristã”, o dragão de
Beowulf traz um simbolismo às avessas de pecado. O tesouro acumulado na caverna,
que ele toma posse, vai contra a tradição anglo-saxã (exaltada diversas vezes como
virtude dos governantes no próprio poema Beowulf) de doação e compartilhamento da
riqueza. No poema os bons soberanos são “doadores de anéis”, pois compartilham a
riqueza e o poder com seus nobres súditos (ANDERSSON, 1984: 493-508). O poema
narra, lamentando o ato deplorável, que aquele que perpetrara o roubo terminou seus
dias triste e solitário (BEOWULF, vv. 2221-2226). A riqueza obtida sem a luta heróica
e guerreira não tem sentido algum nesta sociedade. O tesouro anteriormente acumulado
e guardado agora pelo dragão carrega a ideia de solidão, fúria, ódio, monstruosidade e
ganância.
Mais uma vez, o mal que habita a terra antes da instalação da sociedade atual (a
comunidade do rei Beowulf, desta vez), se faz presente na forma do Dragão. Mas desta
vez o mal é despertado pela ganância de um de seus súditos. Tanto a caverna de Grendel
e sua mãe, quanto a caverna do dragão no fim do poema são os locais de morte e
renascimento da eterna luta do bem contra o mal. E por isso representam o mal que está
presente permanentemente nesta sociedade.
6.Considerações finais
Segundo Fowler o conselho de Hrothgar sobre os males do orgulho arrogante e a
conquista da glória e da nobreza na morte (BEOWULF: vv. 1761-1768), mostraria uma
influência do Moralia Job de Gregório Magno (FOWLER, 1976: 121). Ainda que seja
uma influência possível, ela poderia vir tanto do texto de Gregório quanto diretamente
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
10
da passagem bíblica do livro de Jó do Antigo Testamento (JÓ 39,23). Configurando-se,
quaisquer que sejam os caminhos de apropriação, uma influência veto-testamentária
não tao evidente, mas possível.
A inserção dos anglos-saxões na cristandade é feita, assim como na Europa
Continental, pela construção, avanço e consolidação do cristianismo nas instituições
sociais. Numa confluência de impulso inicialmente celta (irlandês) e posteriormente
ligando-se à cristandade Continental, e mais tarde diretamente à Roma, a “conversão”
das populações anglo-saxãs se dá neste movimento que conjuga expansão e construção:
“Nessa perspectiva, obrigar os povos batizados a viver de novo sob a Lei,
restabelecendo as observâncias vétero-testamentárias, pode parecer, paradoxalmente,
um progresso espiritual”. (VAUCHEZ, 1995: 13)
Dessa forma, pode-se ver através destes diversos elementos aqui destacados
como esta preferência pelo texto do Antigo Testamento demonstra que o texto do
poema Beowulf, apesar de não citar o nome de Cristo em nenhum momento, insere-se
profundamente no contexto social e cultural de sua época e espaço.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
11
BIBLIOGRAFIA:
1. Fontes:
ALEXANDER, M. - Beowulf. Penguin Books: London, 1995.
BÍBLIA DE JERUSALÉM (vários editores). Paulus: São Paulo, 2008.
CHICKERING Jr., H. D - Beowulf - A dual-language edition. Doubleday: New York,
1989.
FULK, R.D. & BJÖRK, R. E. & NILES, J. D. - Klaeber’s Beowulf. 4th Edition. University
of Toronto Press: Toronto, 2008.
GORDON, R. K. - Beowulf. Dover Publications Inc.: New York, 1992.
HEANEY, S. - Beowulf – A New Verse Translation – Bilingual Editon. W.W. Norton &
Company: Nova York, 2000.
LIUZZA, R. M. - Beowulf – A new verse translation. Broadview Press Ltd.: Toronto:
2000.
MILLER, T. - Bede´s Ecclesiastical History of the English in OE. In Parenthesis
Publications: Cambridge (CA), 1999.
MITCHELL, B. & ROBINSON, F.C. - Beowulf. Blackwell Publishing: Oxford, 1998.
WRIGHT, D. - Beowulf – A Prose translation. Penguin Books: New York, 1957.
ZUPITZA, J. - ‘Beowulf: Autotypes of the Unique Cotton MS Vitellius A. XV in the British
Museum, with a Transliteration and Notes’ - In: Early English Text Society 77, Oxford
University Press: London, 1882.
2. Gramática e dicionários de anglo-saxão ou “Old English”:
BAKER, P. S. - Introduction to Old English. Blackwell: Oxford (UK), 2003.
CASSIDY, F.G. & RINGLER, R. - Bright’s Old English Grammar & Reader, 3rd
Edition. Holt, Rinehart and Winston, INC: New York, 1971.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
12
DIAMOND, R. E. - Old English. Grammar & reader. Wayne State University Press:
Detroit,1989.
HALL, J. R. C.- A concise Anglo-Saxon Dictionary, Cambridge University Press:
Cambridge (UK), 1960.
4. Bibliografia Geral:
ANDERSSON, T. M. - The Thief in Beowulf. In: Speculum, Vol. 59, No. 3. pp. 493-508.
Medieval Academy of America: Cambridge (USA), 1984.
BENSON, L. D. ‘The Pagan Coloring of Beowulf’. In: BAKER, P. S (ed.) - The Beowulf
Reader. Routledge: New York, 2000. Pp. 281-302.
BJORK, R. E. & NILES, J. D. - A Beowulf Handbook, University of Nebraska Press:
Lincoln, NE (USA), 1998.
BLAIR, J. - ‘Roman Remains’. In: LAPIDGE, M.; BLAIR, J.; KEYNES, S. & SCRAGG, D.
(ed.), The Blackwell Encyclopaedia of Anglo-Saxon England, Oxford, 1999. P. 396-398.
BLAIR, P. H. - An introduction to Anglo-Saxon England. Cambridge Press: Cambridge
(UK), 1959.
BORGES, J. L. - Literaturas germánicas medievales. Alianza Editorial: Madrid, 1978.
BROWN, P. - The Rise of Western Christendom: triumphy and diversity, A.D. 2001000, 2nd Edition. Blackwell Publishing: Oxford, 2003.
CAMPBELL, J. (ed.) - The Anglo Saxons. Penguin Books: London, 1991.
CHADWICK, N. K. - Anglo-Saxon and Norse poems, Cambridge: The University Press,
1922.
CLEMOES, P. (ed.) - Anglo-Saxon England. Cambridge University Press: Cambridge,
1972.
FENTRESS, J. & WICKHAM, C. - Memória Social - Nova Perspectivas sobre o
Passado. Trad.: T. Costa. Editorial Teorema: Lisboa, 1992.
FOWLER, D. - The Bible in Early English Literature. University of Washington Press.
Seattle & London: 1976.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
13
GAMESON, R. - The Early Medieval Bible, Cambridge University Press: Cambridge,
1996.
GODDEN, M. & LAPIDGE, M. (ed.) - The Cambridge Companion to Old English
Literature. Cambridge University Press: Cambridge (UK), 1994
GONZALEZ, M. C. E. - El proposito de La poesia en La sociedad anglosajona, IN:
Estudios Ingleses de La Universidade Complutense. Servicio de Publicaciones UCM:
Madrid (ESP), 1996.
JACKSON, W. T. H. - The Hero and the King: An Epic Theme. Columbia University.
Press: New York (USA) 1982.
JACOBS, N. - Anglo-Danish Relations, Poetic Archaism and the Date of Beowulf: A 8
Reconsideration of the Evidence. In: Poetica 08. Shubun International Co. Ltd.: Tokyo,
1977. Pp. 23-43.
JONES, G. - Kings, Beasts and heroes. Oxford University Express: Oxford (UK), 1972.
JOHNSON, D. & TREHARNE, E. (ed.) - Readings in medieval texts: interpreting Old
and Middle English Literature. Oxford University Press: Oxford (UK), 2005.
KIERNAN, K. S. - Beowulf and the Beowulf Manuscript, Rutgers University Press: New
Jersey (USA), 1981.
LOYN, H. R. (Org.), - Anglo-Saxon England and the Norman Conquest. Longmans,
Green and Co. Ltd.: Oxford (UK), 1962.
LIUZZA, R. M. - On the Dating of Beowulf. In: BAKER, P. S (ed.) - The Beowulf Reader.
Routledge: New York, 2000. pp. 281-302.
MEDEIROS, E. O. S. - O rei, o guerreiro e o herói: Beowulf e sua representação no
mundo germânico. Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de História –
FFLCH-USP em 2006.
OMAN, C.W.C. - England Before the Norman Conquest. Methuen & Go Ltd:
London, 1949.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
14
ORCHARD, A. - A Critical Companion to Beowulf. Cambridge University Press:
Cambridge,UK, 2003.
PAGE, R. I. - ‘Old English’. In: LAPIDGE, M.; BLAIR, J.; KEYNES, S. & SCRAGG, D.
(ed.), - The Blackwell Encyclopaedia of Anglo-Saxon England. Blackwell: Oxford (UK),
1999: 343-344
STENTON, F. - Anglo-Saxon England, Oxford University Press: Oxford, 1989.
TOLKIEN, J. R. R. - Finn and Hengest: The fragment and the episode. Harper and
Collins: London (UK), 1982.
_______________ - The Monsters and the critics. Harper and Collins: London (UK),
1982.
VAUCHEZ, A. - A espiritualidade na Idade Média Ocidental (Séculos VIII a XIII).
Tradução: Lucy Magalhães. Editoria Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1995.
WHITELOCK, D. - The beginnings of English Society. Penguin Books/Aylesbury:
London (UK), 1956.
Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.
Download

Gesner Las Casas Brito Filho