O bardo e o demiurgo: o tempo vétero-testamentário em Beowulf GESNER LAS CASAS BRITO FILHO∗ 1. O poema, o manuscrito, paganismo e cristianismo. O poema Beowulf é a porção de maior tamanho e destaque do conjunto de escritos do manuscrito conhecido como Nowell Codex, que integram junto com outros manuscritos de origem diferentes o chamado Cotton Vitellius A.xv, conservado hoje na British Library em Londres. Todos os textos do manuscrito estão na chamada língua anglo-saxã. Costuma-se chamar a língua falada e escrita na Inglaterra anglo-saxônica e seus diversos dialetos do o século VI até o século XI como inglês antigo (Old English) ou anglo-saxão (PAGE, 1999: 343-344). A datação do poema é alvo de discussões que acontecem até hoje, de certa forma. Apesar de algumas divergências mais polêmicas, (vide FULK, BJÖRK & NILES, 2008: xxv-xxxv) há certo consenso de que sua criação teria ocorrido entre séculos VII a X e seu registro em um único exemplar escrito haveria ocorrido por volta do ano 1.000. Vide também: (LIUZZA, 2000: 281-302), (MITCHELL & ROBINSON, 1998: 03-13) e (MEDEIROS, 2006: 17-38). A ideia de estudar Beowulf como um poema pagão, artificialmente cristianizado por um monge copista, que o teria adulterado, corrente entre diversos pesquisadores que já se debruçaram sobre o poema, revela-se hoje como esvaziado em argumentos. Embora alguns estudos busquem conectá-lo com escritos celtas (JONES, 1972) ou pagãos germânicos, como veremos abaixo, as conecções diretas mais seguras são com o cristianismo ocidental alto-medieval, continental ou “carolíngio”, mesmo que Cristo não seja citado em nenhum dos versos do poema. É inegável que haja em vários níveis institucionais e culturais considerável influência formativa “germânica” 1 de origem continental na sociedade anglo-saxônica Mestrando em História Social pela Universidade de São Paulo-USP - orientadora: Profª. Drª. Ana Paula Tavares Magalhães Tacconi. 1 Sobre os usos do termo germânico, recomendamos o seguinte artigo, disponível on-line, que, além de demonstrar a artificialidade do termo, faz um balanço histórico da fluidez de significados deste termo: ∗ Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 2 por uma razão de origem étnico-linguística. A aparição de elementos germânicos neste poema cristão deve-se ao fato que a sociedade que o produziu possuía estes elementos “germânicos” em sua teia de relações sociais. Porém, a oposição frequente entre cultura “germânica” e cultura “cristã” nos estudos que se debruçam sobre o poema é uma construção anacrônica que busca separar realidades que estvam mescladas na sociedade anglo-saxã. A imiscuidade de elementos “pagãos” e cristãos é uma característica existente desde os primórdios da cristianização dos anglo-saxões. Ela estará presente inclusive no próprio discurso eclesiástico de “conversão” dos futuros “ingleses”, por exemplo, nos escritos instrutivos do papa Gregório Magno ao orientar que os santuários pagãos não deveriam ser destruídos na Britânia. Outros fatos demonstram a coexistência dos elementos locais neste cristianismo, como a aceitação do idioma anglo-saxão no nome das festividades cristãs como a Páscoa (Eoster em anglo-saxão), na escritura das leis (BROWN, 2003: 346), e na existência de versões tanto em prosa, quanto parafráses em verso de episódios bíblicos no idioma anglo-saxão, algo que é único na cristandade Ocidental do período2. A produção de textos, tanto no idioma local quanto em latim demonstram como, apesar destas particularidades, a Inglaterra anglo-saxônica está inserida no universo da circulação de escritos cristãos da Europa Ocidental neste período. O fato de que uma imensa Bíblia de mais de 500 fólios, como o Codex Amiatinus foi produzida no mosteiro de Wearkmouth-Jarrow pelas ordens do abade Ceolfrith (688-716), demonstra que a circulação de escritos era expressiva. Conforme narrado por Beda, a Bíblia foi feita para ser entregue pelo próprio Ceolfrith diretamente às mãos do papa. O abade morreu no caminho, não finalizando sua missão. Mas o Fruscione, D. - On “Germanic”, In: The Heroic Age- A Jornal of Early Medieval Northwestern Europe- Issue 14 (November 2010). Disponível em: http://www.mun.ca/mst/heroicage/issues/14/fruscione.php (acessado em 15/05/2012). Porém, para fins de inteligibilidade, o sentido adotado doravante aqui em nosso artigo, para “germânico” significará estes povos de origem continental que ocuparam as Ilhas Britânicas entre os séculos V a VIII advindos dos territórios dos seguintes países nos dias de hoje: as atuais Alemanha e Dinamarca. Segundo alguns estudos e relatos dos séculos posteriores, como o de Beda, o venerável, estes povos seriam os anglos, saxões e jutos, chamados tradicionalmente pela historiografia de anglo-saxões. 2 Vide por exemplo, os poemas do Codex Junius 11. Imagens e informações sobre o manuscrito disponíveis no site da Bodleian Library da Oxford University. URL: http://image.ox.ac.uk/show?collection=bodleian&manuscript=msjunius11 (acessado em 13/06/2012). Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 3 enorme Códice ainda por volta desta época chegou até península itálica, onde se encontra até os dias de hoje, mais precisamente em Florença. (GAMESON, 1996: 98). Todos estes elementos contribuiram para criar um universo cultural próprio na sociedade anglo-saxônica já cristianizada. Não é possível saber extamente se estes elementos nomeados como pagãos hoje, o eram assim enxergados pela sociedade anglosaxã. Alcuíno, por exemplo, ao advertir aos monges britânicos contra a disseminação das “lendas” e superstições pagãs, pergunta: “Quid enim Hinieldus cum Christo?”- “O que Ingeld tem em comum com Cristo?”, advertindo contra a preferência por “lendas pagãs” por eclesiásticos. (BENSON, 2000: 281-302). Porém, parece-nos que diante das escassez de outros escritos de mesmo teor neste período, esta posição expressa muito mais uma visão de uma ortodoxia de Alcuíno, que está inserido num contexto de delimitação do cristianismo no continente, oriundo de um pensamento que visava a centralidade da monarquia carolíngia neste processo. Sua rseposta ao questionamento do bispo parece muito mais expressar a visão de alguém que está muito distante do cotidiano anglo-saxão, e denuncia que estas lendas “pagãs” eram apreciadas e divulgadas pelos próprios eclesiásisticos. Porém, lembrando que esta nomenclatura de “pagão” é sempre uma visão externa, pois os nomeados como“pagãos” provavelmente não se nomeavam a si próprios com este termo. A presença do wyrd (destino), dos funerais crematórios nos barcos e outros elementos com características pré-cristãs no poema poderiam ser na realidade elementos mais “laicos” do que “pagãos” aos olhos da época. O “wyrd”, e outras fórmulas textuais “germânicas”, presentes em diversas outras composições poéticas de origem oral desta sociedade não podem ser desprezadas, pois são perceptíveis na confrontação com outras obras da mesma época (FENTRESS & WICKHAM, 1992: 61). É impossível traçar todo o percurso que liga Beowulf ao Antigo Testamento. Mas, podemos analisar alguns aspectos que apontam como o texto bíblico está apropriado dentro do poema, independentemente da forma como este texto chegou a compor parte da construção da narrativa do poema. E verificando como ele está inserido na narrativa do poema, verificarmos como o texto vetero-testamentário era lido pela sociedade anglo-saxônica. Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 4 2. O “scop”3 contou como o Todo-Poderoso criou à Terra A construção do palácio por Hrothgar acontece no presente da narrativa, e sua criação funciona como uma analogia à própria criação do mundo por Deus. Heorot, o nome do palácio do rei Hrothgar deu origem no inglês moderno à “heart”, que significa em anglo-saxão, dentre outras conotações, coração, alma ou “espírito” humano. O rei, ao beber junto com seus guerreiros e doar riqueza (os anéis) no salão é uma partilha ritual do poder num local sagrado. É a construção de um mundo, de uma nova sociedade. Uma atitude tanto digna de um rei germânico, quanto de um rei do Antigo Testamento. São atitudes opostas aos atos dos três vilões da narrativa, que causam destruição e não construção, criação. Esta ligação com o início da criação é confirmada na festa de comemoração da construção de Heorot, quando um “scop” (bardo ou escaldo) canta a criação do mundo por Deus e dizer que todos viveram por muito tempo, alegres, felizes e abençoadas até que Grendel seus crimes perpetrasse: “swutol sang scopes frumsceaft fíra sægde sé þe cúþe feorran reccan cwæð þæt se ælmihtiga wlitebeorhtne wang eorðan worhte swá wæter bebúgeð gesette sigehréþig sunnan ond mónan léoman tó léohte land-búendum ond gefrætwade foldan scéatas leomum ond léafum cynna gehwylcum þára ðe cwice hwyrfaþ Swá ðá drihtguman éadiglice líf éac gesceóp dréamum lifdon oð ðæt án ongan fyrene fremman féond on helle wæs se grimma gaést Grendel háten” (Beowulf, vv. 90 – 103)4 Tradução: 3 Utilizamos a palavra “bardo”, de origem francesa, ao invés da mais correta etimologicamente que seria “escaldo”, por uma questão de inteligibilidade. A palavra em anglo-saxão: “scop” está etimologicamente, e talvez em sentido, mais ligada ao nórdico antigo “skald”. Embora ambas sejam aproximações tradutórias que não dão conta do sentido do termo original em anglo-saxão. Estas informações provenientes dos dicionários e gramáticas do idioma anglo-saxão citadas na bibliografia. 4 As citações do poema Beowulf e seus versos são do original em Anglo-saxão (Old English) transcrito do manuscrito em FULK & BJÖRK & NILES: 2008. Todas as traduções para o português são nossas. Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 5 Doce melodia do bardo a remota que dizia o que sabia sobre criação dos homens. Ele contou como o Todo-poderoso criou à Terra - belíssimo campo - cercado de água. Criou, triunfantes, ao Sol e à Lua - luzeiros brilhantes E adornou aos cantos da Terra com galhos e folhas. cada espécie para os moradores da Terra. Ele criou a vida, também, que vive e que se move. Então, os nobres homens felizes, viviam em alegria, até ele atacar, perpetrar sua fúria. O inimigo do inferno, era o selvagem estrangeiro conhecido por Grendel. A imiscuidade entre o tempo atual e o tempo da criação vetero-testamentária (Gn 1; 2) 5 não é somente temática. A construção do palácio de Heorot é propositalmente análoga à criação bíblica, pois ambas servem para contar fatos de um tempo mítico e heróico. Ainda dentro desta chave do “tempo antes dos tempos”, o poema narra a genealogia dos reis daneses, desde o mitológico Shield Shefing, até Hrothgar. 3. Os gigantes e a descendência de Caim A espada encontrada na gruta dos monstros funciona também como elemento de conexão entre tempo da saga e este passado da criação, pois ela continha sua origem gravada em letras rúnicas as lutas dos tempos iniciais do mundo, pois foi feita por gigantes (BEOWULF, vv. 1557-1564 e 1686-1693). Os gigantes são caracterizados como antepassados, como um povo antigo habilidoso, existentes no início dos tempos. Conectado diretamente ou não a estes elementos da narrativa épica, há registros em outros documentos em Old English, que demonstram que muitos anglo-saxões acreditavam que as ruínas romanas presentes no território inglês eram obras de gigantes. Há o registro, por exemplo, no Exeter Book, no poema “A ruína”, de que as construções romanas em ruínas eram consideradas como 5 Todas as citações bíblicas são da Bíblia de Jerusalém, 2008. Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 6 “antigo trabalho de gigantes” (BLAIR, 1999, 396-398): “Wrætlic is þes wealsta/ wyrde gebræcon/burgstede burston, brosnað enta geweorc” (CHADWICK, 1922:51-57). Tradução: “maravilhosa é esta construção,/ O destino quebrou-a / Seus pavimentos destruídos / O trabalho dos gigantes deteriora-se”. Beowulf encontra na gruta subterrânea onde viviam Grendel e sua mãe, uma espada feita pelos gíganta cyn - pelo povo dos gigantes (BEOWULF: v.1688) em tempos primordiais. Os gigantes estão presentes na mitologia germânica, mas também estão presentes no texto vetero-testamentário (Gn 6, 1-5; Nm 13, 33; DT 2, 10, 11). O primeiro grande opositor do herói que aparece na narrativa principal do poema é o monstro Grendel. No desenrolar da narrativa, o herói Beowulf enfrenta a vingança da mãe de Grendel. Os dois seres habitam o pântano desde tempos imemoriais e são descendentes de Caim, uma das figuras de maldição primordial da narrativa bíblica, pois é o primeiro criminoso: siþðan him scyppend in Caines cynne éce drihten forscrifen hæfde þone cwealm gewræc þæs þe hé Ábel slóg ne gefeah hé þaére faéhðe metod for þý máne ac hé hine feor forwræc mancynne fram þanon untýdras ealle onwócon eotenas ond ylfe ond orcnéäs swylce gígantas þá wið gode wunnon lange þráge hé him ðæs léan forgeald. (Beowulf: vv. 106– 114). Tradução: Assim como a ele [Grendel], o Criador à toda estirpe de Caim pelo Senhor Eterno, condenou ao banimento por causa do vingativo assassinato, pois ele matou Abel. Nenhuma alegria [obteve] desta vingança o Senhor Deus, pelo crime Deste modo os monstros, ogros e elfos mas, baniu-o para longe contra a humanidade. todos surgiram: e orcs. A todos os gigantes que lutam contra Deus desde muito tempo, Ele retribuiu-os seus atos com esta pena. Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 7 Um dos fatores que explica a força descomunal dos dois monstros é a ligação dos mesmos com os primórdios da criação. Grendel e sua mãe só poderiam ser derrotados através de algo com um poder e origem equivalentes à deles: a espada feita pelos gigantes do início dos tempos da criação. Este topos se repetirá na velhice do herói ao enfrentar ao dragão. Grendel e sua mãe são humanos, pois são descendentes de Caim. São componentes de uma tipologia do mundo enquadrada numa ordenação cristã do mundo (BROWN, 2003:483-485). A figura do monstro associa-se, assim, a comportamentos e ações inaceitáveis por esta sociedade. A nomeação de gaest - estrangeiro ou alienígena, que é utilizada diversas vezes para nomear Grendel - abarca tudo que é estranho àquela sociedade. Porém, como o próprio poema nos conta, o casal de monstros habitava aqueles pântanos desde tempo “imemoriais”. Grendel não é identificado no poema com Satanás, com o oponente de Deus, mas com o primeiro humano criminoso, o primeiro traidor, o primeiro fratricida, o primeiro “amaldiçoado” pela “ira de Deus”: Caim. Sua figura apresenta-se, portanto, como um homem, que se desumanizou pelos seus maus atos e pela conseqüente maldição divina. Portanto, Grendel e sua mãe como monstros físicos, animalescos e, sobretudo antropomórficos. Não são demônios, seres espirituais, com poderes sobrenaturais, embora diversas vezes as palavras empregadas para nomeá-los também possuam ao mesmo tempo sentido de demônios espirituais: aéglaéca (BEOWULF: vv. 159, 433 e 816) ou gaest (BEOWULF: vv. 86, 102, 1349 e 1617). Grendel é “godes yrre bær” - aquele que carrega o ódio de Deus (BEOWULF: v. 711) e “godes andsacan” - adversário de Deus (BEOWULF: v. 786) - e possui hábitos selvagens e monstruosos como o canibalismo (BEOWULF: vv. 742-745). Tantos daneses quanto geatas são (no momento da narração) cristãos e ao mesmo tempo respeitam às leis germânicas, como o wergeld, que não é respeitado pelos dois monstros. wið manna hwone feorhbealo feorran, né þaér naénig witena beorhtre bóte mægenes Deniga, féa þingian wénan þorfte tó banan folmum (BEOWULF: vv. 155-158) Tradução: Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 8 De qualquer homem das tropas dinamarquesas não renunciou às mortes violentas, Nenhum dos conselheiros à nobre recompensa, nem a [pagar] esperava das mãos do assassino. O wergeld - o “preço de um homem” - era o pagamento feito à família do morto pelo assassino. O wergeld variava em função da posição social da vítima e normalmente era pago como uma compensação aos parentes do morto (ou ferido) de acordo com os costumes e depois de acordo com valores estabelecidos pelas legislações escritas (LOYN, 1962: 205). Assim, o inimigo estrangeiro traz a esta sociedade anglo-saxã do período prédominação normanda, que é múltipla e fragmentada (cultural, social, religiosa e politicamente), uma união artificial. Os dois primeiros grandes inimigos de Beowulf são estrangeiros que já moravam nas terras danesas desde muito tempo. O herói Beowulf é um geata que vem salvar aos daneses. E a conexão dos inimigos com o mal primordial do Antigo Testamento, por oposição, une os daneses e geatas acima de qualquer desavença que possa acontecer. As palavras de Unferth contra Beowulf perdem o sentido diante do enfrentamento e vitória contra este mal. Os monstros representam um mal “estrangeiro” que paradoxalmente habita a periferia, os pântanos da mesma terra em que vivem estes bons homens. Os daneses de Hrothgar seriam, então, invasores ou novos ocupantes destas terras? Seria o reino danês, a terra prometida deste novo Israel? Grendel e sua mãe habitam aquelas terras antes dos daneses, porém, são os estrangeiros. São estrangeiros porque não constrõem nada e são os causadores de destruição. 5.O dragão da ganância e a luta contra o mal Diferentemente do casal de monstros antropomórficos que Grendel e sua mãe representam, o dragão (BEOWULF, vv. 2212-2220) pende a narrativa do poema para o lado mitológico. E talvez a aproximação do dragão com o sobrenatural seja aquilo que torna possível que ele, embora vencido, consiga matar Beowulf. Em diversas outras sagas medievais também surgem mitos de batalha contra os dragões. Na Mitologia Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 9 nórdico-germânica os dragões aparecem em diversos episódios (BORGES, 1978). No texto bíblico o dragão é a serpente, representante do pecado original. Na Bíblia encontramos algo equivalente à figura física do monstro de tamanho descomunal, no Antigo Testamento, nas descrições do Leviatã e Benemot (JÓ 40,15). Há várias aparições de dragões tanto no Antigo Testamento, quanto no Novo, especialmente no Apocalipse. Porém, o poema não deixa tão claro como no caso de Grendel e sua mãe, a ligação direta deste dragão com quaisquer textos bíblicos. Independente das dimensões físicas, focando-se na moral “cristã”, o dragão de Beowulf traz um simbolismo às avessas de pecado. O tesouro acumulado na caverna, que ele toma posse, vai contra a tradição anglo-saxã (exaltada diversas vezes como virtude dos governantes no próprio poema Beowulf) de doação e compartilhamento da riqueza. No poema os bons soberanos são “doadores de anéis”, pois compartilham a riqueza e o poder com seus nobres súditos (ANDERSSON, 1984: 493-508). O poema narra, lamentando o ato deplorável, que aquele que perpetrara o roubo terminou seus dias triste e solitário (BEOWULF, vv. 2221-2226). A riqueza obtida sem a luta heróica e guerreira não tem sentido algum nesta sociedade. O tesouro anteriormente acumulado e guardado agora pelo dragão carrega a ideia de solidão, fúria, ódio, monstruosidade e ganância. Mais uma vez, o mal que habita a terra antes da instalação da sociedade atual (a comunidade do rei Beowulf, desta vez), se faz presente na forma do Dragão. Mas desta vez o mal é despertado pela ganância de um de seus súditos. Tanto a caverna de Grendel e sua mãe, quanto a caverna do dragão no fim do poema são os locais de morte e renascimento da eterna luta do bem contra o mal. E por isso representam o mal que está presente permanentemente nesta sociedade. 6.Considerações finais Segundo Fowler o conselho de Hrothgar sobre os males do orgulho arrogante e a conquista da glória e da nobreza na morte (BEOWULF: vv. 1761-1768), mostraria uma influência do Moralia Job de Gregório Magno (FOWLER, 1976: 121). Ainda que seja uma influência possível, ela poderia vir tanto do texto de Gregório quanto diretamente Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 10 da passagem bíblica do livro de Jó do Antigo Testamento (JÓ 39,23). Configurando-se, quaisquer que sejam os caminhos de apropriação, uma influência veto-testamentária não tao evidente, mas possível. A inserção dos anglos-saxões na cristandade é feita, assim como na Europa Continental, pela construção, avanço e consolidação do cristianismo nas instituições sociais. Numa confluência de impulso inicialmente celta (irlandês) e posteriormente ligando-se à cristandade Continental, e mais tarde diretamente à Roma, a “conversão” das populações anglo-saxãs se dá neste movimento que conjuga expansão e construção: “Nessa perspectiva, obrigar os povos batizados a viver de novo sob a Lei, restabelecendo as observâncias vétero-testamentárias, pode parecer, paradoxalmente, um progresso espiritual”. (VAUCHEZ, 1995: 13) Dessa forma, pode-se ver através destes diversos elementos aqui destacados como esta preferência pelo texto do Antigo Testamento demonstra que o texto do poema Beowulf, apesar de não citar o nome de Cristo em nenhum momento, insere-se profundamente no contexto social e cultural de sua época e espaço. Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012. 11 BIBLIOGRAFIA: 1. Fontes: ALEXANDER, M. - Beowulf. Penguin Books: London, 1995. BÍBLIA DE JERUSALÉM (vários editores). Paulus: São Paulo, 2008. CHICKERING Jr., H. D - Beowulf - A dual-language edition. Doubleday: New York, 1989. FULK, R.D. & BJÖRK, R. E. & NILES, J. D. - Klaeber’s Beowulf. 4th Edition. University of Toronto Press: Toronto, 2008. GORDON, R. K. - Beowulf. Dover Publications Inc.: New York, 1992. HEANEY, S. - Beowulf – A New Verse Translation – Bilingual Editon. W.W. Norton & Company: Nova York, 2000. LIUZZA, R. M. - Beowulf – A new verse translation. 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