A formação do professor universitário da área de ciências sociais aplicadas Márcio Luiz Bernardim (UNICENTRO, Campus Guarapuava) Wanda Terezinha Pacheco dos Santos (UNICENTRO, Campus Irati) Adriane Madureira Padilha Bernardim (FACULDADES GUARAPUAVA) Resumo Este estudo focaliza a formação do professor universitário da área das ciências sociais aplicadas, mediante pesquisa teórica, para contextualizar e apreender os termos, e pesquisa de campo exploratória, visando enriquecer a análise com subsídios da realidade empírica. Os dados primários foram obtidos junto a docentes de instituições de ensino superior do município de Guarapuava, PR. Um questionário buscou prospectar o perfil docente e colher informações como sobre sua percepção a respeito dos alunos e do seu papel enquanto docente, e permitiu a aproximação com o universo dos sujeitos que, em muitos casos, tornaram-se docentes sem para isso ter planejado ou se preparado. Conclui-se que, além da lacuna histórica na formação docente para a universidade em geral, nas sociais aplicadas essa carência é ainda mais evidente, haja vista a não existência de espaços e instâncias apropriadas para a formação docente. Ainda assim, há indicativos de que os professores valorizam as disciplinas de didática e metodologia de ensino e se esforçam para desempenhar o trabalho docente no limite da compreensão que dele têm. Palavras-chave: formação docente, ciências sociais aplicadas, professor universitário. Introdução Este relato de pesquisa situa-se no âmbito dos estudos da educação, abordando mais especificamente a atividade docente de nível superior do modo como está posta nos documentos oficiais e na efetividade empírica no âmbito das instituições brasileiras de ensino superior. Para tanto é necessário situar a atuação docente no contexto da educação em geral e no seu condicionante externo, ou seja, as relações sociais decorrentes do modo hegemônico de produção. É preciso compreender a educação no contexto de um mundo globalizado, onde o capitalismo monopolista determina novas formas de produção da existência e aprofunda os mecanismos de condicionamento estrutural da sociedade. Discorrendo sobre a lógica especulativa do sistema capitalista de produção, Harvey (2008, p. 307) esclarece que “o capital é um processo de reprodução da vida social por meio da produção de mercadorias em que todas as pessoas do mundo capitalista avançado estão profundamente implicadas”. Logo, por ser expansionista e imperialista, a vida cultural vai se pautando pelo nexo monetário e da circulação do capital. Esse fenômeno mais recente de aprofundamento do capitalismo apresenta duas realidades antagônicas no campo da educação: de um lado a “superescolarização”, que não necessariamente se traduz em melhores condições de vida, a começar pela crescente taxa de desemprego que atinge inclusive o estrato social mais elevado da sociedade; de outro a “subescolarização”, que implica na marginalização socioeconômica e cultural de parcela significativa da população, que assim se vê alijada das melhores oportunidades, ou mesmo de “qualquer” oportunidade de trabalho. A organização produtiva em torno do trabalho assalariado, na sua forma mais estreita, permite compreender as causas da dificuldade de inserção ou de permanência nesse mercado altamente competitivo. O nexo monetário do sistema produtivo mercantiliza as relações, vulnerabilizando social e economicamente determinados segmentos sociais. Em suma, sem escolarização não há chance de se inserir; com escolarização as poucas chances de inserção se dão “por baixo”, através das mais variadas formas de precariedade (informalidade, estágio com status de emprego, subemprego pela via da terceirização etc.). Um mecanismo de acomodação das políticas públicas em relação a esses fenômenos é a desqualificação da educação escolar, via esvaziamento de conteúdos, aligeiramento de etapas e estreitamento de objetivos escolares, de modo que o ganho em quantidade (mais escolarização) fica prejudicado pela perda em qualidade. Quando a lógica é de valorização do capital, o processo de formação também vai se restringindo ao atendimento das demandas imediatas do mercado. O que se requer, para enfrentar o problema, segundo Ferretti (1988), é uma orientação formadora, que migre da socialização para a politização, e da aprendizagem das formas de fazer face ao sistema que controla a vida das pessoas para o gerenciamento dos sistemas. A falta de investimento na educação superior, justificada pela necessidade de atendimento prioritário à educação básica implica, também, no empobrecimento da formação docente em geral, e do professor universitário em particular. Não é incomum que, no caso da graduação em geral, sejam selecionados para atuar como docentes pessoas recém-concluintes de mestrados, doutorados, quando não apenas da graduação, ou que já são experientes no mercado de trabalho, mas que se ressentem de uma formação pedagógica mais consistente. Tanto em um como em outro caso, tais professores caracterizam-se pela falta da práxis que torne mais efetivo o trabalho pedagógico. A respeito dessa categoria, Vázquez (1977, p. 155) esclarece que “toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis”, o que significa dizer que a atividade precisa ir além da simples ação, devendo ser realizada por um sujeito consciente, livre e determinado, ou seja, “portador” e “articulador” da teoria. Assim, estudar a formação docente é um desafio que permanentemente se impõe a todos aqueles que pretendem contribuir para a compreensão da escola como mediadora no processo de produção e reprodução da vida em sociedade. Este relato é o resultado de um esforço de pesquisa no interesse da formação e atuação docente na área das ciências sociais aplicadas, a partir da problematização explicitada e dos encaminhamentos metodológicos a seguir apresentados. Justificativa e procedimentos metodológicos Pensar a educação a partir de sua relação com o mundo do trabalho é uma necessidade para que a realização do trabalho pedagógico escolar se efetive na sua plenitude. Não é a escola que produz as condições de vida, mas o trabalho, na forma em que se configura sob determinado modo de produção, valendo-se da educação como mediadora na construção e transformação da sociedade. Assim, compreender o trabalho e a educação no contexto da sociedade contemporânea é o primeiro desafio para quem pretende atuar na interface desses dois mundos (do trabalho e da educação), que na prática abarcam uma única realidade. Estudar a educação e a prática docente, portanto, significa debruçar-se sobre um tema que interessa a todos, tendo em vista o papel que a escola desempenha na sociedade. A formação para a prática docente deve ser gestada ao longo da formação escolar, mas também ao longo da vida do futuro professor, e a sua práxis deve ser o resultado de uma profunda reflexão sobre a sua responsabilidade social. Logo, a formação e a prática docentes requerem formação e reflexão contínuas, ao longo da vida e da carreira do professor. Dessa forma, entende-se que o estudo do tema é importante e oportuno para a busca de respostas para a prática docente na área das sociais aplicadas, em especial quando a abertura de novos cursos e a ampliação de vagas aumenta a demanda para a docência universitária. É preciso pensar na formação desses professores, originalmente preparados para o trabalho caracteristicamente não-escolar, mas que se encaminham para a docência, nem sempre por opção, mas por necessidade de inserção profissional e de geração de renda. Se eles são trabalhadores de tempo parcial ou integral, com formação em nível de pós-graduação lato ou stricto sensu, se cursaram as disciplinas que lecionam, se têm habilidades e preparo adequado para a especificidade do trabalho docente, são todas questões que, embora determinantes do resultado da atividade docente, acabam recebendo pouca importância. Assim, entende-se que essa temática é relevante, é oportuna no atual contexto de descaso com a formação docente e tem influência direta sobre a realidade e a prática social. Para a consecução da investigação, optou-se pela realização de um estudo bibliográfico e de uma pesquisa de campo exploratória qualitativa, aleatória e intencional, com professores universitários de duas instituições de ensino superior localizadas em Guarapuava, PR., uma pública e outra particular. Tais docentes, com formação na área das Ciências Sociais Aplicadas, foram convidados a responder um questionário composto de duas partes, uma voltada à sua caracterização profissional e outra com treze questões abertas, relacionadas ao percurso dos sujeitos enquanto profissionais e professores, sua prática docente e sua percepção a respeito dos alunos e do universo escolar. A associação da pesquisa teórica com a pesquisa de campo foi rica para aprofundar a discussão do tema no âmbito da educação escolar e a partir da realidade empírica do magistério docente universitário. As discussões são apresentadas no corpo deste artigo e permitiram a apresentação de pistas para reflexão daqueles que se interessam pela formação docente. Condicionamento histórico recente da educação escolar O projeto desenvolvimentista do governo brasileiro, mais conhecido como “substituição de importações”, gestado e colocado em prática no final da década de 1940 e início da década de 1950, determinou um desarticulado processo de industrialização e urbanização da sociedade. Um grande contingente de pessoas, oriundas da área rural, passou a se inserir mais diretamente no processo de mercantilização do trabalho. Não bastava mais trabalhar para viver, como antes, mas era preciso encontrar quem estivesse interessado em “comprar” seu trabalho. Daí a necessidade de desenvolver as habilidades e competências exigidas pelos compradores-capitalistas. As demandas mais recentes do mercado, ainda que não pela via das necessidades de formação, mas pela via da restrição no processo de seleção de trabalhadores, somadas à indução de organismos internacionais (Organização das Nações Unidas – ONU e Banco Mundial, para citar apenas dois) e à pressão das camadas mais progressistas da sociedade, influenciaram na implementação de uma reforma educacional que permitiu a ampliação das condições de acesso à educação escolar, verificando-se na última década um aumento considerável nas matrículas escolares em todos os níveis (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas em Educação – INEP, 2009). No caso da educação superior, ainda que a oferta de vagas públicas não avance na mesma proporção do aumento na educação básica, a ampliação da demanda vai sendo atendida pela rede privada. Trata-se de jovens e adultos trabalhadores que, no caso da área das ciências sociais aplicadas, buscam melhorar sua empregabilidade visando à inserção ou reinserção em um mercado de trabalho altamente competitivo e violentamente precarizado. Essa realidade nova para o sistema educacional exige um preparo ainda maior da escola e dos educadores. É que a “educação bancária”, cunhada por Freire (1977) para indicar a educação passiva, que leva o educando à alienação e incapacidade de ver o mundo criticamente, uma prática ainda presente na escola, passa a ser questionada por um aluno que já tem uma razoável experiência profissional. De outro lado, esse mesmo aluno-trabalhador se ressente de um senso crítico mais elaborado, posto que sua consciência foi moldada pela inserção precoce no sistema de produção capitalista. Ele julga saber o que “é útil” e o que “não é” em termos de conhecimentos, habilidades e competências necessários ao trabalho urbano, assalariado, estreito, mas não em função de uma educação que emancipa e que liberta. Nesse momento a educação escolar perde uma oportunidade ímpar no processo de formação da população, porque as instituições de nível superior nem sempre estão preparadas para receber tais alunos. Ainda que haja espaço e aparelhamento escolar, a atividade de ensino, que é um dos elementos que compõem o tripé sobre o qual se assenta a atividade universitária, fica prejudicada, deixando de realizar um trabalho de qualidade, efetivo, responsável, principalmente devido ao descaso e às falhas no processo de formação do professor universitário. Romper com esse modelo implica em melhor compreensão do papel da escola e das especificidades relacionadas às atividades educacionais no meio universitário. Dentre outras tantas questões é preciso refletir: Como as aulas são concebidas, planejadas, elaboradas e executadas? Que práticas são desenvolvidas? Como se dá a transposição didática? Que relação há entre a aula, o currículo e o projeto pedagógico do curso? Lima (apud VEIGA; CASTANHO, 2000, p. 153) entende que a aula é “uma vivência de múltiplos olhares sobre o conhecimento em situações interativas de ensino e pesquisa”. Sem dúvida, a aula é um espaço privilegiado de encontro de diversos saberes. Mas é importante esclarecer que a aula universitária precisa deixar de ser: um espaço apenas de transmissão mecânica e fragmentada de conhecimentos científicos e profissionais para se instaurar como um lugar que possibilita ao aluno uma compreensão genuína em seu campo de atuação, que o torna capaz de aplicar conhecimentos, destrezas e saberes a situações novas e imprevisíveis, ao longo de sua carreira profissional (ISAIA, 2006, p. 70-71). Segundo Freire (1996), não há motivo para que o professor se envergonhe de desconhecer algo e de testemunhar a abertura aos outros, ao diálogo, à procura de explicações e soluções para suas práticas. Logo, o fundamento da eficácia pedagógica está na abertura, na disposição e no empenho para fazer melhor. Assim, a contribuição deste estudo está no levantamento teórico e na discussão de um problema que compromete a efetividade do trabalho escolar, em especial à formação e atuação do professor universitário das ciências sociais aplicadas, buscando-se pistas para o desenvolvimento de uma indispensável formação pedagógica universitária. Mais do que conhecer e discutir, o objetivo maior é sempre de fomentar a reflexão e a ação, observando o pressuposto marxiano de que mais importante que produzir conhecimentos que permitam conhecer a realidade, é preciso pesquisar sempre na perspectiva de transformação dessa realidade (MARX, 2004). Contribuições para a discussão teórica Em qualquer esfera e grau de ensino, o professor desempenha um papel demasiado importante para ser visto apenas como mais uma especialidade na divisão sóciotécnica do trabalho. É ele que conduz, no interior da escola, o processo de formação durante um importante período da vida das pessoas. Em estudo sobre a formação de adolescentes, jovens e adultos, Ciavatta assim se manifesta: Como formação humana, o que se busca é garantir ao adolescente, ao jovem e ao adulto trabalhador o direito a uma formação completa para a leitura do mundo e para a atuação como cidadão pertencente a um país, integrado dignamente à sua sociedade política. (Ciavatta, 2005, p. 85). Apesar dessa importante contribuição do professor para a formação humana, e a enorme responsabilidade que recai sobre a educação escolar, é fato que a questão da formação do educador nunca foi suficientemente equacionada no sistema educacional brasileiro, em especial a educação do professor universitário. O sistema educacional está organizado de tal forma que os cursos de licenciatura visam à formação de professores para a educação básica, enquanto os bacharelados se voltam à formação profissional para o mercado de trabalho. Nem a licenciatura e muito menos o bacharelado se voltam ao magistério de nível superior. A respeito da formação de professores, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDBEN (CARNEIRO, 1998, p. 136), em seu art. 66, estabelece que “a preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós-graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado.” A prática verificada nas universidades, todavia, permite constatar que os programas de pós-graduação, além de não atenderem à demanda, se voltam para a formação de pesquisadores em seus campos específicos, não se concentrando na formação pedagógica de professores. A Resolução 03/99 do Conselho Nacional de Educação (CNE, 1999), no parágrafo 1º do artigo 5º assim estabelece: § 1º Quanto se tratar de curso destinado à qualificação de docentes para o magistério superior do Sistema Federal de Ensino, deve-se assegurar, na carga horária, além do conteúdo específico do curso, o indispensável enfoque pedagógico. Logo, não está suficientemente claro como seria operacionalizado esse “enfoque pedagógico”. Além disso, impera o senso comum universitário que tanto os professores mais jovens, em função da titulação em nível de mestrado ou doutorado, quanto os mais antigos, em função da experiência, não precisam dessa formação específica para a docência universitária. Devido ao crescimento da oferta e ampliação do quadro de professores, as instituições de nível superior selecionam a cada dia, mediante testes e concursos públicos, um número significativo de profissionais das mais diversas áreas do conhecimento. Masetto (1998a) entende que tais profissionais, mesmo possuindo experiência significativa e anos de estudos nas áreas específicas, não estão preparados e demonstram até uma falta de conhecimento científico do que seja o processo ensino e aprendizagem. Assim, o ingresso na carreira docente universitária tem sido marcado pela desnecessidade de formação pedagógica. Pior que isso, eventuais tentativas de investimento na capacitação docente em nível superior têm apresentado resultados que deixam muito a desejar. No entendimento de Onofre (2008), além do silêncio com relação à formação do professor universitário, pouco tem se investido nas discussões, em especial da sua formação didático-pedagógica. Apesar disso, a criação de grupos de estudo, a organização de seminários e disseminação da produção teórica voltada à questão permitem dizer que aos poucos vai havendo um interesse pelo tema. Nesse sentido, Chamlian (2003, p. 42) entende que “a questão da formação do professor universitário vem saindo dos bastidores para ocupar a cena pública”. Em sua dissertação de mestrado, Maria Helena R. Pinto (2007, p. 119; p. 125), relata duas possibilidades: a) de Gatti, da PUC-SP, defendendo um ciclo básico para a formação de bacharéis; b) de Brzezinski, relatando a experiência da Universidade Federal de Goiás, que dispõe de um curso de docência Universitária para todos os professores, tratando do domínio do conteúdo, saber culto-transversal, saber pedagógico e saber político. Um aspecto que precisa ser retomado é a questão relacionada à identidade do professor, entendida como um espaço de construção e identificação profissional. Enquanto sujeito que se nega na prática profissional, o professor que não recebe formação adequada acaba reforçando as políticas de desvalorização da atividade pedagógica. Logo, a formação para a docência acaba desprestigiada frente à preocupação com a pesquisa e outras atividades que são hoje largamente utilizadas na avaliação docente. A esse respeito, Chamlian (2003, p. 55-56) diz que “a prática cotidiana da vida acadêmica tem seu rumo previamente traçado: pesquisar, escrever e publicar. Trata-se de uma verdadeira lei de sobrevivência para aqueles que querem perseguir a carreira universitária”. Assim, a universidade produz conhecimento, mas nem sempre a dimensão do ensino é devidamente valorizada no sentido de sua disseminação. Sabe-se que pesquisar e ensinar não são as únicas tarefas do professor universitário, uma vez que outras tantas atividades fazem parte do seu trabalho. Orientação e avaliação de alunos, organização de eventos, participação de bancas, apresentação de trabalhos, envolvimento nas decisões acadêmicas e administrativas são apenas alguns exemplos de atividades que normalmente não são contempladas na formação docente. Diante desse quadro, é importante refletir sobre as ações necessárias à valorização da formação pedagógica. Uma primeira pista estaria na alteração do modo como as questões pedagógicas são entendidas e tratadas no âmbito universitário. Mesmo no bacharelado, a docência requer mais do que simplesmente experiência profissional no campo específico, conhecimento e transmissão do conteúdo de forma eficiente ou proficiência em pesquisa. Além desses aspectos, Pachane (2005) enfatiza que a formação pedagógica não pode se limitar ao desenvolvimento dos aspectos práticos (didáticos ou metodológicos) do fazer docente, mas deve considerar dimensões relativas às questões éticas, afetivas e políticosociais envolvidas na docência. Essa mudança de percepção e de atuação esbarra, todavia, na cultura da negação da necessidade de formação pedagógica para a atuação docente no ensino superior. É preciso considerar que “a formação permanente, para se consolidar, precisa ser entendida como um processo organizado, sistemático e intencional, a partir do grupo de professores, das instituições e das políticas educativas de nível superior” (ISAIA, 2006, p. 67). Ainda é comum a ideia de que a docência universitária requer apenas o domínio de conhecimentos específicos – pesquisa ou exercício profissional no campo. Esse senso comum é resquício do pensamento funcionalista que imperou até a década 1970. Masetto (1998b) recorda que nessa época “praticamente exigia-se do candidato a professor de ensino superior o bacharelado e o exercício competente de sua profissão”, expressando a crença de que “quem sabe, sabe ensinar”. De acordo com Ens, Sousa e Nogueira (2008, p. 11543), “existe ainda uma grande distância entre o discurso e a prática, porque os professores ainda realizam uma prática bastante reprodutiva e sem nenhuma conexão com a realidade e a transformação social”. Mais recentemente percebe-se certo afastamento desse modelo de raciocínio mais estreito sobre a atividade de ensino. Em seu lugar, todavia, surge outra visão que carrega limitações: a exigência de titulação acadêmica em nível de pós-graduação stricto sensu como solução para o problema da formação pedagógica. Será que a titulação, por si só, tem poder de contribuir para a melhoria da atividade de ensino nas instituições de nível superior? No entendimento de Pachane (2005, p. 14) isso é “questionável”. A formação, segundo a pesquisadora, tem estado restrita ao conhecimento aprofundado do conteúdo – conhecimento prático - sendo resultado do exercício profissional ou conhecimento teórico/epistemológico decorrente do exercício acadêmico, mas muito pouco tem sido exigido em termos pedagógicos. É comum que os professores reconheçam a necessidade de múltiplos saberes para o exercício da profissão, mas segundo Cunha (2006, p. 262), ao mesmo tempo não assumem a falta de formação inicial para o magistério. Assim, alegam que aprendem fazendo, já que na maioria dos casos não viveram processos de formação específica para a docência. Nesse sentido, embora a fragilidade esteja na dimensão pedagógica, reforçam o conhecimento específico como principal suporte da sua prática docente. Criticando essa visão estreita e fragmentada do papel do professor, Kuenzer (2008) esclarece que essa visão reflete a situação de falta de compromisso com a educação, principalmente porque se nega a ela o estatuto epistemológico de ciência, passando-se assim a evidenciar o trabalho docente na sua dimensão mais operacional, do professor enquanto tarefeiro, e alargando o senso comum de que qualquer profissional pode ser professor. Tal situação encontra explicação na corrente neotecnicista, que segundo Saviani (2008, p. 437), refuncionaliza a Teoria do Capital Humano, da década de 1960, impondo o utilitarismo e o imediatismo da cotidianidade como fatores a serem cultuados e perseguidos para a obtenção da racionalidade no âmbito escolar. Assim, se a escola se assemelha a uma empresa qualquer, e se as empresas em geral se valem da educação escolar como ponto de partida e dos treinamentos e programas instrucionais internos como ponto de aproximação entre a disponibilidade e perfil da mão-deobra e as necessidades de produção, parte-se para a solução mais barata de selecionar no trabalho, treinando para tirar o máximo proveito do recurso humano. Logo, o educador acaba sendo de fato um trabalhador qualquer, que vale o quanto rende em termos de ampliação máxima da produtividade e redução dos conflitos ao mínimo possível. Análise da realidade empírica da docência nas ciências sociais aplicadas Conforme já descrito em tópico anterior, a aproximação com a prática da docência na área das sociais aplicadas, mediante a abordagem de professores, teve como objetivo conhecer essa realidade e reunir elementos de discussão da efetividade da formação e do trabalho docente no meio universitário. Assim, a pesquisa de campo caracterizou-se como exploratória. Segundo Marconi e Lakatos (1999, p. 22) “o estudo exploratório enfatiza a descoberta de idéias e discernimentos”. No aspecto temporal, configura-se como pesquisa de tipo ocasional único, pois há uma amostra de respondentes e as informações foram obtidas somente uma vez no tempo – no mês de março de 2010 - e visaram atender a um determinado objetivo. Os professores pesquisados, oriundos de duas instituições de ensino superior de Guarapuava, representam uma “amostragem não-probabilística por escolha deliberada” (BÊRNI, 2002) e foram contatados mediante remessa de um questionário, via correio eletrônico ou entrega pessoal, com um prazo de até dez dias para preenchimento e devolução. Não havia necessidade de identificação, de forma que os docentes que assim o desejassem, poderiam depositar os questionários preenchidos em um local previamente determinado. Não obstante essa possibilidade, poucos se utilizaram desse mecanismo, optando mesmo pela entrega pessoal ou remessa pelo correio eletrônico. Do total de quarenta professores contatados, vinte voluntariamente participaram da pesquisa, o que não deixa de ser um índice satisfatório, considerando o meio utilizado e o prazo concedido. Apesar disso, fica ressalvada a limitação metodológica quantitativa, uma vez que o número de participantes é insuficiente para generalizações, restringindo-se a análise e interpretação dos resultados à amostra intencional selecionada, abrindo possibilidades para estudos comparativos em outras realidades e ou aprofundamento em estudos de caso específicos. O quadro a seguir apresenta uma síntese que caracteriza o grupo de participantes da pesquisa: Quadro 1 – Caracterização dos docentes da área de sociais aplicadas pesquisados Aspecto Distribuição Faixa etária Cinco com até 35 anos, onze entre 35 e 50 anos e quatro acima de 50 anos. Titulação acadêmica Quinze mestres e cinco especialistas. Tempo de docência Três até 5 anos; onze de 5 a 10 anos; quatro de 10 a 15 anos; dois acima de 15 anos. Experiência prévia Seis tiveram experiência na educação básica; quatro foram estagiários pedagógicos com docência escolar voluntários; um fez estágio docente durante mestrado. Desempenho de outra Oito respondentes. atividade simultânea FONTE: Pesquisa dos Autores (2010). Os dados apresentam o grupo como razoavelmente experiente, tanto em relação à faixa etária quanto ao tempo de docência. O relativo engajamento e profissionalização para a carreira também se configura quando se descobre que a maioria já possui titulação de mestrado, normalmente não valorizada pelo mercado de trabalho extrauniversidade. Chama a atenção o fato de que aproximadamente um terço do grupo teve experiência docente escolar no ensino fundamental em período anterior ao ingresso na docência universitária, demonstrando genuíno interesse pela docência e experiência docente acumulada antes mesmo do ingresso na docência universitária. O respondente 1 enfatiza que a docência fez parte “de um planejamento de carreira”. Como já era licenciado em Geografia, informa que fez “Administração com o propósito de ser professor”. Assim, além daqueles que optaram deliberadamente pela carreira docente, há os que despertaram para a docência depois de ingressarem no mestrado e ou participarem de estágio pedagógico voluntário, e ainda os que simplesmente vieram para a docência por que foram “convidados” pelos colegas ou pela instituição de ensino. Quanto questionados sobre a missão do professor de ensino superior, o respondente 2 foi franco ao dizer que a missão do professor universitário é de contribuir para a “formação profissional, colaborando de maneira efetiva com o mercado de trabalho”. O respondente 13 acompanha esse raciocínio, dizendo ser missão do professor universitário “formar profissionais [...] que possam ocupar funções de liderança e corresponder às exigências que lhe são feitas”. Invariavelmente os respondentes dizem que é função da docência universitária “repassar o conhecimento”, “facilitar o aprendizado”, “qualificar” etc., mas há manifestações sobre a missão de “desenvolver o senso crítico” (respondente 12) e despertar nos alunos a capacidade de análise “em relação ao mundo no qual estão inseridos” (respondente 4). Interessante a declaração dos pesquisados quanto à importância dos exemplos de professores que tiveram durante sua vida estudantil. Receberam destaques como fatores positivos presentes em professores que serviram de modelo: domínio de conteúdo, habilidade didático-pedagógica, humildade, dedicação, exigência, motivação, exemplo de vida, integridade como pessoa, bom relacionamento. Destacam-se as seguintes falas em relação aos professores que marcaram positivamente: “ainda que alguns tenham sido gentis e até „bonzinhos‟, guardo melhores lembranças daqueles que lecionavam demonstrando conhecimento de causa” (respondente 8); “além de conhecer a matéria, de passar muito bem isso para o aluno, ele era „gente‟, era simples, humilde, dedicado e muito atencioso, por isso sempre o admirei” (respondente 11). Quanto aos professores que marcaram negativamente, destacaram-se os seguintes fatores: falta de motivação, falta de comprometimento com a docência e arrogância. Esclarecedora é a fala do respondente 5: “também houve professor que marcou negativamente, que utilizou de seu poder em sala de aula para humilhar os alunos, desmotivando e reprovando 80% da turma”. Constata-se, com essa questão, que os professores se lembram mais dos bons professores e conseguem apresentar mais adjetivos para estes do que para aqueles que marcaram de forma negativa. Questionados sobre as maiores dificuldades encontradas pelo professor universitário hoje, os respondentes elencaram: heterogeneidade das turmas em termos de faixa etária; baixo grau de interesse e atenção devido serem alunos-trabalhadores; falta de „educação‟ [respeito] generalizada; falta de base para avançar no conteúdo [deficiência da escola básica]. Só dois respondentes apontaram questões relacionadas à infra-estrutura, como deficiência na biblioteca e laboratórios e excesso de alunos por turma. Assim, a percepção da maioria dos respondentes em relação aos aspectos inibidores de um melhor desempenho da atividade de ensino na universidade, repousa mais sobre questões atitudinais ligadas aos alunos do que sobre a escola e professores. Uma das questões da pesquisa visava inventariar as técnicas e recursos didático-pedagógicos utilizados pelos professores. Os resultados são apresentados no gráfico a seguir: Gráfico 1 - Recursos didáticos mais utilizados pelos professores universitários da área das sociais aplicadas, em ordem de importância e ocorrência de múltipla resposta FONTE: Pesquisa dos Autores (2010). A utilização de recursos didático-pedagógicos tem relação com o processo pedagógico da transposição didática e o desenvolvimento de habilidades específicas do trabalho de ensino em sala de aula. Exceto dois professores, todos os demais responderam que as disciplinas de didática e metodologia de ensino, entre outras de conteúdo pedagógico, são importantes para a formação do professor do ensino superior, em especial porque “os professores de ensino técnico têm dificuldades metodológicas e didáticas, ferramentas [...] que poderiam ampliar as possibilidades e estilos de ministrar as aulas” (respondente 3). A ressalva fica por conta das seguintes manifestações: a) os “professores da área de Educação, quando ministram aulas para [...] profissionais das Sociais Aplicadas na maioria das vezes não adéquam seus métodos” a essa área (respondente 5); b) “creio que o magistério é um dom e, como tal, ou se tem ou não. Creio que alguns professores talvez precisem realmente de uma ajuda em alguns momentos, mas não que as disciplinas citadas possam vir a tornar alguém professor” (respondente 15). Os resultados obtidos com os questionários são muito ricos e permitem uma interessante discussão a respeito dos condicionamentos da atividade docente na universidade e as percepções que os docentes têm a respeito da sua função, do alunado, das condições de trabalho e dos desafios implícitos ao magistério. Como este relato também está condicionado à limitação de espaço e teve o objetivo de introduzir a temática da docência universitária na área das ciências sociais aplicadas, remete-se o aprofundamento para outro artigo, que dê continuidade e explore as inúmeras possibilidades de abordagem do assunto. Considerações finais A busca de inserção profissional pela via da docência é um direito genuíno de qualquer cidadão. Trabalhar como professor em uma perspectiva emancipatória é um desafio que realiza pessoal e profissionalmente. A formação docente é um dos papéis das instituições de nível superior que implica investimento de tempo e de recursos financeiros em um projeto de longo prazo, que objetiva a construção de cidadãos críticos, éticos e responsáveis. Este estudo objetivou discutir a formação de educadores destinados aos cursos das ciências sociais aplicadas. De caráter introdutório, apresentou a problemática do ingresso de profissionais sem formação especificamente pedagógica na carreira docente de tais cursos, com reflexos prejudiciais à formação de parcela significativa da população, haja vista a grande quantidade de formados pelas universidades todos os anos. Apresentou subsídios para a discussão a partir de pesquisa qualitativa realizada com docentes universitários de Guarapuava, município do interior do Paraná. Também discutiu, mediante contribuições de pesquisa bibliográfica e ainda que de forma genérica, as implicações da falta de formação apropriada e pistas de solução. Esta pesquisa terá cumprido o seu intento se contribuir minimamente para despertar o interesse pelo tema e se provocar a busca de alternativas. Em entrevista à Revista Nova Escola (2009, p. 38), abordando a importância da educação contextualizada e voltada aos interesses da coletividade, Howard Gardner diz que “o planeta não vai ser salvo por quem tira notas altas nas provas, mas por aqueles que se importam com ele”. Se a universidade desempenha papel fundamental na produção e disseminação do conhecimento científico, é preciso que desenvolva o seu trabalho pedagógico dando um primeiro e importante passo: formar cidadãos críticos, éticos e emancipados a partir de uma formação sistemática e continuada dos seus próprios educadores. Para isso, é necessário primeiramente haver mudanças na concepção dos professores já atuantes sobre a necessidade da formação pedagógica no ensino superior, visto que é por intermédio do corpo docente atual que novos professores serão formados. A experiência do Grupo de Estudos e Pesquisa em Formação de Professores, Proformar, da Universidade Estadual do Centro Oeste, Campus de Irati, está propiciando novos olhares para os desafios enfrentados enquanto docentes universitários. Para Santos e Lima (2008) “reunir professores e acadêmicos para pensar sobre o magistério superior é um passo importante para a melhoria da qualidade de ensino no contexto universitário”. Acreditase também, como Bastos et al (2007), que o grupo de estudos sobre formação pedagógica possa desempenhar um importante papel na revitalização do ensino na universidade, na valorização do trabalho docente na graduação e na sensibilização para a função social da universidade. Por fim, entende-se que a formação do educador é a base da formação humana em geral no interesse de uma nova sociedade. Referências BASTOS, C. C. B. C. et al. Formação de professores para o ensino superior e a importância da dimensão pedagógica: experiência do grupo de estudos com docentes da área de saúde. Anais do Seminário Interdisciplinar com Experiências Educativas. Francisco Beltrão, Unioeste, 2007, p. 419-425. BÊRNI, D. A. (coord.). Técnicas de pesquisa em economia. São Paulo: Saraiva, 2002. CARNEIRO, M. A. LDB fácil – leitura crítico-compreensiva artigo a artigo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. CHAMLIAN, H. C. Docência na universidade: professores inovadores na USP. In: Cadernos de Pesquisa, n. 118, p.41-64, mar. 2003. CIAVATTA, M. A formação integrada: a escola e o trabalho como lugares de memória e identidade. In: FRIGOTTO, G.; CIAVATTA, M.; RAMOS, M. (orgs.). Ensino médio integrado – concepção e contradições. São Paulo: Cortez, 2005. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução n.º 3 da Câmara de Educação Superior. Fixa condições de validade dos certificados de cursos presenciais de especialização. Brasília: 5 out. 1999 CUNHA, M. I. da. 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