MÓDULO III EQUILÍBRIO QUÍMICO 1. Equilíbrio Químico 2. Equilíbrio Ácido-Base 3. Equilíbrio de Solubilidade ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 1 1. EQUILÍBRIO QUÍMICO OBJECTIVOS: • Identificar a terminologia utilizada; • Caracterizar sistema aberto, sistema fechado e sistema isolado; • Diferenciar reacções reversíveis e reacções irreversíveis; • Definir meio homogéneo e meio heterogéneo; • Explicar o conceito equilíbrio químico; • Analisar a importância da constante de equilíbrio; • Interpretar representações gráficas de concentração em função do tempo para sistemas químicos; • Calcular constantes de equilíbrio em sistemas homogéneos e heterogéneos; • Relacionar as constantes de equilíbrio Kc e Kp; • Interpretar o conceito de quociente de reacção; • Enunciar o Princípio de Le Chatelier; • Avaliar os factores que afectam o equilíbrio químico; • Definir catalisador e reconhecer a influência exercida sobre um sistema químico; O conceito de equilíbrio é amplamente utilizado na linguagem corrente e, consoante o contexto em que se insere, a sua interpretação é diferente; por exemplo, o equilíbrio de um copo em cima da cabeça de uma pessoa é distinto do equilíbrio entre o número de espécies num sistema ecológico. Em Química, esta designação também deve ser entendida dentro do contexto apropriado e, para enquadrar esta nova noção, é necessário abordar um conjunto de conceitos novos. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 2 1.1. Sistemas Abertos, Fechados e Isolados Define-se sistema, como a zona espacial limitada onde se situa o objecto de estudo, e toda a zona que está para além do sistema é considerada a vizinhança. Podemos ainda definir condições para as quais ocorrem trocas de matéria ou energia entre o sistema e a vizinhança. Imagine um balão de vidro onde ocorre uma reacção química; neste caso, o interior do balão é o sistema e a vizinhança é tudo o que está fora do balão. Consideremos agora três situações distintas: 1. o balão não se encontra tapado, e pode haver troca de matéria (p.ex. vapores ou poeiras) ou troca de energia (p.ex. diferentes temperaturas) entre o balão e a vizinhança ou vice-versa. Neste caso, diz-se que estamos em presença de um sistema aberto, ou seja, um sistema que permite trocas de matéria e de energia com a vizinhança; 2. o balão encontra-se fechado, e portanto permite apenas trocas de energia entre o sistema e a vizinhança. Este sistema é designado por sistema fechado, ou seja, apenas permite trocas de energia com a vizinhança; 3. o balão encontra-se hermeticamente fechado, não permitindo trocas de matéria ou de energia com a vizinhança. Este sistema tem o nome de sistema isolado. Um exemplo que se aproxima desta definição são as chamadas garrafas termos, que possuem tampas bem vedadas que não permitem trocas de matéria e são concebidas de modo a não permitir transferências de calor com o exterior. 1.2. Reacções Químicas Irreversíveis e Reacções Químicas Reversíveis Existem reacções químicas que ocorrem numa determinada direcção mas que, empiricamente, se sabe ser impossível reverter o processo para reaver os reagentes iniciais – um exemplo é a reacção de combustão do carvão com a formação de cinza. Este tipo de reacção, em que não é possível inverter o decurso da mesma, reavendo os reagentes, diz-se uma reacção química irreversível. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 3 No entanto, são poucas as reacções químicas que se dão apenas num sentido. Na grande maioria dos processos químicos que se conhecem há uma regeneração dos reagentes. Estas reacções têm o nome de reacção química reversível. Um exemplo é a decomposição química da água, traduzida por: H2 O → H 2 + O 2 e a partir dos produtos de reacção é possível a regeneração do reagente, a água: H2 + O 2 → H2 O ou seja, trata-se de uma reacção reversível, e é representada por: H2 O H 2 + O2 A noção de reversibilidade é particularmente importante quando se estuda um processo químico que admite, em simultâneo, a ocorrência da reacção directa e inversa. 1.3. Meio Homogéneo e Meio Heterogéneo Quando todos os reagentes e produtos de uma reacção química se encontram na mesma fase (mesmo estado físico) e apresentam uma total miscibilidade, diz-se que a reacção química ocorre em meio homogéneo. Entende-se como total miscibilidade, a mistura completa das substâncias, não se visualizando qualquer distinção entre elas. Um exemplo de uma reacção em meio homogéneo é a produção de gás amoníaco a partir da reacção entre o gás hidrogénio e o gás azoto; todos os componentes estão no estado gasoso e completamente misturados: N2 (g) + H2 (g) → NH3 (g) As reacções em meio heterogéneo são, pois, aquelas que englobam substâncias em diferentes estados físicos ou que, apesar de se encontrarem no mesmo estado físico, apresentam imiscibilidade. Por exemplo, uma reacção que envolva um óleo e água, ocorrerá num meio heterogéneo uma vez que o óleo não se dissolve na água. Outro exemplo, é a combustão de carbono sólido com produção de dióxido de carbono gasoso. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 4 No vaso reaccional é possível identificar as duas fases distintas: o carbono sólido no fundo do recipiente e os gases de dióxido de carbono: C (s) + O2 (g) → CO2 (g) 1.4. Equilíbrio Químico Até agora, as reacções químicas têm sido abordadas sob a perspectiva de que se tratam de processos que se iniciam nos reagentes e finalizam na formação de produtos de reacção. No entanto, verifica-se que, na maioria dos casos, logo que se formam algumas moléculas de produtos, começa a dar-se o processo inverso, ou seja, a regeneração de reagentes. Quando a velocidade destes dois processos é igual e quando a concentração, quer dos produtos quer dos reagentes, não varia com o tempo diz-se que se atingiu o estado de equilíbrio químico. Esta noção pode ser ilustrada se pensarmos numa sala com varanda onde está a decorrer uma festa. Quando os convidados chegam, entram todos para a sala (início da reacção). À medida que o tempo passa os convidados conhecem-se e dirigem-se para a varanda (a reacção directa a decorrer); a partir de certa altura o número de convidados na varanda torna-se demasiado grande e alguns dos convidados vêem-se obrigados a retornar à sala (início da ocorrência da reacção inversa). Ao fim de algum tempo, verifica-se que, sempre que um par de convidados vai para a varanda, há um outro par que sai (equilíbrio químico), atingindo-se desta forma a situação de equilíbrio dinâmico uma vez que o sistema se encontra em mudança contínua nos dois sentidos, mudança esta que ocorre à mesma velocidade. Pretende-se, com este exemplo, fornecer uma imagem mais sólida e directa de uma situação que ocorre a um nível microscópico e normalmente imperceptível ao olhar humano. A figura 1.1. ilustra a variação da concentração em função do tempo, para a reacção de formação do amoníaco, NH3 : ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 N2 (g) + H2 (g) NH3 (g) 5 Concentração Reagentes Zona de Equilíbrio 1 3 4 2 Tempo Produtos Figura 1.1 - Diagrama de uma reacção química a progredir para a situação de equilíbrio químico. O ramo 1 representa a variação da concentração dos reagentes, sendo visível o seu desgaste inicial; o ramo 2 traduz a variação da concentração do produto de reacção, que no início é zero. O ponto a partir do qual a quantidade de reagente e de produto de reacção não se altera, define o equilíbrio químico dinâmico (ramo 3 e 4). Obviamente que o equilíbrio químico pode ser atingido, quando apenas uma pequena quantidade de reagente é transformado em produto, dizendo-se em tais casos que a reacção é pouco extensa; inversamente, podemos ter um sistema em que o equilíbrio só é atingido, quando quase todo o reagente já se transformou em produto de reacção, tratando-se neste caso de uma reacção muito extensa. A extensão de uma reacção química pode ser interpretada como uma medida do grau de transformação dos reagentes nos produtos de reacção. Analisemos, agora, a seguinte reacção reversível: N2O4 (g) 2NO2 (g) Esta reacção pode ser facilmente controlada pois o gás tetróxido de diazoto (N2O4) é incolor, enquanto o dióxido de azoto (NO2) é castanho escuro. Experimentalmente, verifica-se que é possível atingir o estado de equilíbrio em três situações diferentes e que são representadas na Figura 1.2. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 6 Concentração N2O4 NO2 a) No início só há NO2 Concentração Tempo N2O4 b) No início só há N2O4 NO2 Concentração Temp N2O4 c) No início há uma mistura de NO2 N2O4 e NO2 Tempo Figura 1.2 – Variação das concentrações de N2O4 e NO2 ao longo do tempo, em três situações diferentes. 1.5. Constante de Equilíbrio Químico, Kc Para uma maior facilidade na manipulação de sistemas em equilíbrio químico, é de toda a conveniência definir um valor numérico que permita, por análise imediata, inferir quanto à extensão da reacção considerada. Assim, para uma dada temperatura e pressão, é possível definir um parâmetro que se designa por constante de equilíbrio químico, simbolizado pela letra K. A constante de equilíbrio associada a uma dada reacção química é a razão entre a quantidade de produtos em equilíbrio e a quantidade de reagentes que permanece ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 7 também em equilíbrio. Este valor, pode ser expresso através da concentração, em equilíbrio, dos diversos participantes (reagentes e produtos), elevada ao respectivo coeficiente estequiométrico. Neste caso, a constante de equilíbrio é representada por Kc , onde a letra c indica que estamos a trabalhar em unidades de concentração. Imagine a reacção química genérica representada por: αA+βB γC+δD onde A e B são os reagentes, C e D os produtos de reacção e α, β, γ e δ são os respectivos coeficientes estequiométricos. No equilíbrio, as concentrações são expressas por [A]e e [B]e , no caso dos reagentes e por [C]e e [D]e no caso dos produtos. Para esta reacção genérica, a constante de equilíbrio, expressa em função de valores de concentração, Kc, é : [ C] e γ × [ D] e δ Kc = [ A] e α × [ B] e β 1 onde os expoentes são os coeficientes estequiométricos (cf. equação química). Como se pode verificar, a constante de equilíbrio Kc é calculada através da razão entre o produto matemático dos valores das concentração dos produtos de reacção e o produto matemático dos valores de concentração dos reagentes, não esquecendo que, a concentração é sempre afectada, em expoente, pelo respectivo coeficiente estequiométrico. Vejamos, por exemplo, a reacção de formação do iodeto de hidrogénio gasoso, HI, a partir da reacção entre o gás hidrogénio, H2, e o gás iodo, I2: H2 (g) + I2 (g) 2 HI (g) a constante de equilíbrio em termos de concentração é: [ HI ] e 2 Kc = [ H2 ]e × [ I 2 ]e ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 2 8 Considere, agora, a reacção de formação do gás amoníaco, NH3, a partir da reacção entre o gás hidrogénio, H2, e o gás azoto, N2: N2 (g) + 3H2 (g) 2NH3 (g) a constante de equilíbrio é dada por: [ NH 3 ] e 2 Kc = [ N 2 ] e × [H 2 ] e 3 3 Dos exemplos anteriores fica claro que, para o cálculo da constante de equilíbrio Kc, é apenas necessário conhecer os valores das concentrações de todos os intervenientes, na situação de equilíbrio. Exercício: Considere o seguinte sistema em equilíbrio: C2H6 (g) + O2 (g) CO2 (g) + H2O (g) Sabendo que, a uma dada temperatura, a concentração de equilíbrio do oxigénio é 0,05M, do etano é 0,04M, do dióxido de carbono é de 0,03M e da água é de 0,006M, determine a constante de equilíbrio deste sistema. Resolução: Em primeiro lugar, é fundamental verificar se a reacção química se encontra devidamente acertada. Neste caso tal não se verifica (o número de carbonos nos reagentes é diferente do número de carbonos nos produtos de reacção); assim, é necessário introduzir os coeficientes estequiométricos adequados de modo a que a reacção fique devidamente acertada: 2 C2H6 (g) + 7 O2 (g) 4 CO2 (g) + 6 H2O (g) O valor da constante de equilíbrio será então, dado por: [ CO2 ] e 4 × [ H 2 O] e 6 Kc = [ C 2 H 6 ] e 2 × [ O2 ] e 7 As concentrações de equilíbrio são fornecidas no enunciado do problema e, por substituição, obtém-se: ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 9 4 6 0,03] × [0,006] [ Kc = [0,05] 2 × [0,05] 7 Kc ≅ 1,9 × 10 −8 A constante de equilíbrio, aparece como uma grandeza adimensional, apesar de ser uma razão entre valores dimensionais (concentrações) elevados a diferentes expoentes. A justificação está na definição termodinâmica da constante de equilíbrio, onde, em vez de concentrações, é usada a grandeza adimensional actividade; a actividade, é então definida como a razão entre a concentração de uma substância e a unidade de concentração. Este procedimento elimina as unidades mas não altera o valor numérico da constante de equilíbrio. Exercício: Considere o seguinte sistema em equilíbrio: 2 NH3 (g) 3 H2 (g) + N2 (g) Sabendo que a uma dada temperatura a constante de equilíbrio é 0,04 e que a concentração de equilíbrio do hidrogénio é 0,05M e de azoto é 0,1M, determine a concentração de equilíbrio do amoníaco. Resolução: A equação encontra-se devidamente acertada e, portanto, a constante de equilíbrio é dada por: [ N 2 ] e × [H 2 ] e 3 Kc = [ NH 3 ] e 2 Como é pedido o cálculo da concentração de amoníaco no equilíbrio, esta expressão pode ser rearranjada de modo a: [ NH 3 ] e = [ N 2 ] e × [H 2 ] e 3 Kc e por substituição dos valores: ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 10 3 [NH 3 ]e = [0,1] × [0,05] 0,04 [NH 3 ]e ≅ 0,018 M A concentração de amoníaco no equilíbrio é de 0,018M. Experimentalmente, verifica-se que a constante de equilíbrio de um dado sistema, varia com a variação da temperatura, pelo que os valores da constante de equilíbrio para um determinado sistema, só são constantes para a temperatura explicitada. A partir da expressão da constante de equilíbrio é também possível determinar concentrações de equilíbrio (de reagentes e produtos), se conhecermos apenas as concentrações iniciais dos reagentes, já que no início da reacção é assumido que não existem ainda produtos de reacção. Consideremos, por exemplo, um vaso de reacção com um volume total de 1dm3 onde são inicialmente introduzidos 3 mol de CO2, e 5 mol de H2. A reacção é descrita pela seguinte equação química: CO2 (g) + H2 (g) CO (g) + H2O (g) e a constante de equilíbrio, para a temperatura de 1070 K é 0,9. Pretende-se calcular as concentrações de equilíbrio de todas as substâncias envolvidas no processo. Para calcular as concentrações de equilíbrio é necessário calcular as concentrações iniciais. De acordo com o enunciado, são introduzidas 3 mol de CO2 num vaso de 1dm3, logo a concentração de CO2 é 3M; para o hidrogénio o raciocínio é análogo, ou seja a concentração é de 5M. À medida que o processo progride, os reagentes vão ser consumidos e os produtos formados, até que se atinja o equilíbrio químico, onde as quantidades de cada uma das substâncias permanecerá constante. Com base na equação que traduz a reacção química, devidamente acertada, podemos elaborar o seguinte quadro: ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 11 CO2 (g) 1. início + H2 (g) CO (g) + H2O (g) 3 mol 5 mol 0 mol 0 mol 2. variação –y –y +y +y 3. equilíbrio 3–y 5–y y y Repare que: • em 1. são representadas as concentrações iniciais, de acordo com os dados fornecidos; • em 2. aparece a variação da quantidade de cada uma das substâncias envolvidas, simbolizada pela incógnita y; os reagentes (que são consumidos) aparecem com o sinal menos (–) enquanto os produtos de reacção aparecem com o sinal mais ( + ) para indicar exactamente que se formam; • em 3. é representada a situação de equilíbrio, que resulta da adição algébrica de 1. e 2.. A constante de equilíbrio Kc é expressa por: Kc = [CO]e × [ H2 O]e [CO2 ]e × [ H2 ]e substituindo pelos valores de concentração (ver quadro) obtemos: 0,9 = y2 ( 3 − y ) × (5 − y ) resolvendo o produto em denominador, e rearranjando a equação: 0,9 × (15 – 8 × y + y 2 ) = y 2 0,1 × y 2 + 7,2 × y – 13,5 = 0 Esta é uma equação matemática do 2º grau, em que as duas soluções possíveis são obtidas através da fórmula resolvente. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 12 Relembre que a forma genérica de uma equação matemática de 2º grau é: a × x2 + b × x + c = 0 e a sua resolução é feita por aplicação da fórmula resolvente. As raízes da equação são dadas pela seguinte fórmula: x= −b ± b 2 − 4 × a × c 2×a Assim, por aplicação da fórmula e por substituição dos valores: y= −7,2 ± 7.2 2 − 4 × 0,1 × ( −13,5) 2 × 0,1 de onde se obtêm duas raízes: y ≅ 1,83 ∨ y ≅ −73,8 Estas são as duas soluções da equação de 2º grau. No entanto, só uma tem significado físico, ou seja, a solução válida é aquela que por um lado não conduz a valores de concentração negativos e por outro não conduz a valores de concentração, na situação de equilíbrio, superiores aos valores iniciais. Neste caso a solução válida é dada pela raiz y ≅ 1,83. Assim, substituindo a incógnita y pelo valor 1,83 (quantidade de reagente consumido que, neste caso, é igual à quantidade de produto formado) obtemos o seguinte quadro: CO2 (g) 1. início + H2 (g) CO (g) + H2O (g) 3M 5M 0M 0M 2. variação – 1,83 – 1,83 + 1,83 +1,83 3. equilíbrio 1,17M 3,17M 1,83M 1,83M Ou seja, as concentrações de equilíbrio, de cada um dos componentes envolvidos na reacção, são: [CO 2 ]e = 1,17 M [H2 ]e = 3,17 M ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 [CO]e = 1,83M [H2 O]e = 1,83M 13 1.5.1. Constante de Equilíbrio Químico da Reacção Inversa Quando se pensa num sistema em equilíbrio, concebe-se uma reacção com os reagentes em equilíbrio com os produtos de reacção. Contudo, a partir do momento em que o equilíbrio se estabelece, a noção de reagente e produto torna-se um pouco ambígua, uma vez que a reacção ocorre nos dois sentidos: no sentido directo e no sentido inverso. Consideremos o seguinte processo em equilíbrio: 2NO2 (g) N2O4 (g) A reacção directa é a transformação de dióxido de azoto, NO2 (gás de cor castanha) em tetróxido de azoto, N2O4 (gás incolor), e a reacção inversa é a transformação de tetróxido de azoto, N2O4, em dióxido de azoto, NO2. A constante de equilíbrio desta reacção química, é dada por: Kc = [ N 2 O4 ]e [ NO2 ]e 2 4. Contudo, esta constante Kc é definida para a reacção directa, ou seja, o reagente é o NO2 e o produto de reacção é o N2O4. Se pensarmos na reacção inversa: 2NO2 (g) ← N2O4 (g) então a constante de equilíbrio, simbolizada por Kc′ , será expressa por: Kc ' 2 NO2 ] e [ = [ N 2 O4 ]e 5. Repare que as duas constantes de equilíbrio, da reacção directa (Kc) e da reacção inversa (Kc′), estão relacionadas através da expressão: Kc = 1 Kc ' 6. Desta forma, mesmo que apenas seja conhecido o valor da constante de equilíbrio de uma reacção e pretenda estudar o sistema inverso, pode determinar o valor da constante de equilíbrio do sistema inverso, através do inverso matemático. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 14 Exercício: A reacção de formação do monóxido de azoto gasoso, a partir da reacção entre o gás azoto e o gás oxigénio, apresenta, a uma dada temperatura, a constante de equilíbrio de 0,002. a) Escreva a equação química referente à reacção descrita. b) Determine o valor da constante de equilíbrio da reacção inversa. Resolução: a) A equação química é: N2 (g) + O2 (g) 2NO (g) cuja constante de equilíbrio, a uma dada temperatura, é Kc = 0,002 b) A reacção inversa é: 2NO (g) → N2 (g) + O2 (g) Note que, apesar de se tratar de uma situação de equilíbrio, há um deslocamento do processo no sentido inverso, tal como é indicado pela seta maior. A constante da reacção inversa é calculada por: Kc ' = 1 = 500 Kc A partir dos valores de constante de equilíbrio de ambas as reacções, directa e inversa, podemos concluir que, nestas condições de temperatura, a reacção de formação do monóxido de azoto (reacção directa) é uma reacção muito menos extensa do que a correspondente à sua decomposição (reacção inversa). Relembre que a constante de equilíbrio, pode ser uma medida da extensão de uma reacção: quanto mais extensa for a reacção química, maior será o correspondente valor da constante de equilíbrio. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 15 1.6. Constante de Equilíbrio Químico, Kp Na secção anterior definimos a constante de equilíbrio Kc, cujo valor depende dos valores da concentração das substâncias envolvidas. Contudo, para sistemas em que todos os componentes se encontram no estado gasoso é frequente usar valores de pressão em vez de valores de concentração. Note que, para sistemas gasosos, a medida de pressão é mais directa e mais fácil do que determinações de concentração. De acordo com a lei dos gases ideais (cf. cap.7.5): P ×V = n × R× T ou seja, P= n× R×T V onde P é o valor de pressão do gás em estudo, n o número de moles do mesmo, R a constante dos gases ideais, T a temperatura absoluta a que o ensaio decorre e V o volume do vaso de reacção. Deste modo, e considerando novamente a reacção de formação do gás monóxido de azoto, NO, num volume V à temperatura T: N2 (g) + O2 (g) NO (g) a constante de equilíbrio Kc é expressa por: NO]e 2 [ Kc = [ N 2 ]e × [ O2 ]e 7. As substâncias envolvidas encontram-se no estado gasoso e, por aplicação da lei dos gases ideais e da lei de Dalton, podemos calcular a pressão parcial de cada componente no equilíbrio. A pressão parcial do componente Z é definida como: ( PZ ) e = nZ × R × T V 8. sabemos ainda que: ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 16 [ Z ]e = nZ V e por substituição vem: ( PZ ) e = [ Z ]e × R × T 9. Então, para os vários componentes envolvidos temos: (PNO )e = [NO]e × R × T [ NO]e = (PN )e = [N 2 ]e × R × T [ N 2 ]e = (PO )e = [O2 ]2 × R × T [ O2 ]e = 2 2 ( PNO ) e RT (P ) N2 e 10. RT (P ) O2 e RT Substituindo, na equação de Kc (equação 11.7), a concentração dos vários componentes pelas expressões anteriormente deduzidas, obtemos uma equação em função dos valores da pressão parcial dos vários componentes, e que é designada por Kp: (PNO )e R×T PN 2 e PO2 e × R × T R × T 2 Kp = ( ) ( ) o que, por simplificação se traduz em: Kp = ( PNO ) e 2 11. (P ) × (P ) N2 e O2 e Esta é a constante de equilíbrio, obtida em função das pressões parciais dos vários componentes. Esta expressão, perfeitamente análoga à obtida para a constante de equilíbrio em função da concentração, é igual à razão entre o produto matemático das pressões parciais dos produtos de reacção, ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 elevadas aos respectivos coeficientes 17 estequiométricos, e o produto matemático das pressões parciais dos reagentes, também elevados aos respectivos coeficientes estequiométricos. Exercício: Considere a seguinte reacção química NOCl (g) NO (g) + Cl2 (g) Escreva a expressão para o cálculo de Kp. Resolução: A equação que traduz a reacção química, devidamente acertada, é: 2 NOCl (g) 2 NO (g) + Cl2 (g) e a constante de equilíbrio, em termos das pressões parciais, é: ( PNO ) e 2 × ( PCl ) e Kp = ( PNOCl ) e 2 2 1.7. Equilíbrio Heterogéneo Até agora temos considerado apenas sistemas em que todas as espécies envolvidas (reagentes e produtos) se encontram na mesma fase, ou seja sistemas em equilíbrio homogéneo. Vejamos o que acontece quando estamos em presença de um sistema em equilíbrio heterogéneo, ou seja, sistemas em que os reagentes e os produtos se encontram em fases diferentes. Consideremos a reacção de decomposição térmica do carbonato de cálcio, CaCO3, com formação de óxido de cálcio e de dióxido de carbono. CaCO3 (s) CaO (s) + CO2 (g) De acordo com a equação química, existem três fases diferentes, que são: carbonato de cálcio (reagente sólido CaCO3 ), óxido de cálcio (produto de reacção sólido CaO) e o dióxido de carbono (produto de reacção gasoso CO2 ). No equilíbrio, a constante é definida como: ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 18 Kc * = [ CaO]e × [ CO2 ]e [ CaCO3 ]e 12. No entanto, tanto o carbonato de cálcio como o óxido de cálcio são sólidos, e a concentração molar de um sólido puro (ou de um líquido puro) é constante a uma determinada temperatura, ou seja, não depende da quantidade de substância presente. Assim, podemos escrever a equação anterior, como: Kc * × [CaCO3 ]e = [CO2 ]e [CaO]e 13. onde todos os termos do lado esquerdo são constantes, e portanto, a constante de equilíbrio é dada por: Kc = [ CO2 ] e 14. expressa apenas em termos da concentração de CO2 gasoso e independente das quantidades de CaCO3 e CaO presentes, desde que ambas as espécies estejam presentes no equilíbrio. Neste caso, e como uma das fases é uma substância no estado gasoso, CO2, podemos, ainda, exprimir a constante de equilíbrio em função da pressão: Kp = P( CO2 ) e 15. Todo o raciocínio desenvolvido para sólidos é igualmente válido para líquidos, isto é: se um reagente ou produto de reacção é um líquido puro, então a sua concentração molar é considerada, aproximadamente, constante e, consequentemente, não faz parte da expressão da constante de equilíbrio. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 19 1.8. Relação entre Kc e Kp De uma maneira geral as constantes de equilíbrio Kc e Kp, não são numericamente iguais pois as pressões parciais não são iguais às concentrações expressas em mol/dm3. No entanto, é possível deduzir uma relação simples entre estas duas constantes de equilíbrio, Kc e Kp. Consideremos a seguinte reacção genérica: αA+βB γC+δD em que a constante Kc é dada por: γ δ [ C ]e × [D ]e Kc = [A]eα × [B ]e β 16. e a constante Kp, é expressa por: Kp = γ δ α β P( C ) e × P( D ) e P( A) e × P( B ) e 17. A partir da equação dos gases ideais, sabemos que: PAe = [ A]e × R × T PCe = [C ]e × R × T PBe = [B ]e × R × T PDe = [D ]e × R × T e por substituição na expressão de Kp,obtém-se: ([ D] Kp = ([ A] e e ) × ([C] R T ) × ([ B] RT δ e α e ) R T) RT γ β o que é equivalente a : ([C] ) × ([D] ) Kp = ([ A] ) × ([B] ) γ e δ e γ α e γ e β γ δ R T) × (R T) ( × ( R T )α × ( R T ) β Simplificando: ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 20 γ +δ R T) ( Kp = Kc × ( R T )α + β ou seja, onde: Kp = Kc × ( R × T ) ∆n 18. ∆n = (γ + δ ) – (α + β ) 19. Exercício: A constante de equilíbrio, Kc da reacção de formação do dióxido de azoto: N2O4 (g) 2 NO2 (g) é 4,63 × 10–3 a 25°C. Qual o valor de Kp a esta temperatura? Resolução: Uma vez que a reacção química está devidamente acertada basta apenas recorrer à expressão: Kp = Kc × ( R × T ) ∆n com ∆n = (γ + δ ) – (α + β ) Identificando os respectivos coeficientes estequiométricos como: = 1 e = 2, por substituição temos: Kp = Kc × ( R × T ) ( 2 –1) Kp = Kc × ( R × T ) Kp = 4,63 × 10 – 3 × (0,0821 × (273,15 + 25)) Kp = 0,113 Note que Kc e Kp são grandezas adimensionais e apesar de representarem constantes de equilíbrio para a mesma reacção exibem valores muito diferentes. De acordo com as secções anteriores podemos agora enunciar algumas regras que devem ser seguidas na escrita das constantes de equilíbrio: ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 21 • A constante de equilíbrio refere-se a uma equação química que traduz uma reacção química; • Ao especificar o valor da constante de equilíbrio devemos especificar a equação química e a temperatura para a qual esse valor é calculado; • Em sistemas homogéneos, e no caso de estarmos em presença de fases condensadas, as concentrações das espécies intervenientes são expressas em mol/l, e a constante de equilíbrio é identificada como Kc; • Em sistemas homogéneos, e no caso de estarmos em presença de fases gasosas, as concentrações são, de um modo geral, ser expressas em atm, e a constante de equilíbrio é identificada como Kp; • A relação entre a constante de equilíbrio Kc e a constante de equilíbrio Kp é a representada na expressão 8.; • As concentrações de sólidos ou líquidos puros (equilíbrio heterogéneo) não são consideradas na expressão da constante de equilíbrio; • As constantes de equilíbrio Kc e Kp são tratadas como grandezas adimensionais. 11.9. Quociente de Reacção Ao estudar um sistema químico, é frequentemente necessário seguir a evolução desse sistema, ou seja, saber se já atingiu o equilíbrio ou qual o sentido em que a reacção prossegue. Nestes casos, recorremos à grandeza quociente da reacção, χ. Para a reacção genérica αA+βB γC+δD o quociente da reacção é definido por: ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 22 γ δ [ C ] × [D ] χ= α [A] × [B ]β 20. ou seja, função das concentrações (ou pressões parciais) verificadas no instante t e não no equilíbrio. Podemos então observar três situações distintas: • χ < Kc, isto é, a reacção ainda não atingiu o equilíbrio e progride no sentido directo – os valores de concentração dos reagentes são superiores às concentrações dos produtos; • χ > Kc, isto é, a concentração dos reagentes é inferior à concentração dos produtos e portanto a reacção progride no sentido inverso; • χ = Kc o que traduz a situação de equilíbrio. Exercício: A tabela seguinte, refere-se à reacção de decomposição do iodeto de hidrogénio em iodo e hidrogénio gasosos, à temperatura T. Os valores de concentração tabelados são em mol/dm3. 2 HI (g) H2 (g) + I2 (g) início 10 0 0 instante t1 8 1 1 instante t2 6 2 2 instante t3 4 3 3 instante t4 4 3 3 instante t5 4 3 3 a) Calcule a constante Kc b) Prove que, no instante t2, o sistema ainda não se encontra em equilíbrio químico e diga em que sentido progride a reacção. Resolução: a) Por análise da tabela pode concluir-se que apenas a partir do instante t3, as concentrações não se alteram, isto é, atinge-se o equilíbrio químico. Assim, a constante de equilíbrio, Kc, ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 23 só pode ser calculada através dos valores de concentração correspondentes aos instantes t3, t4 ou t5 : Kc = [ H 2 ]e × [ I2 ]e [ HI ]e 2 logo, Kc = 3× 3 42 Kc ≅ 0,56 b) O quociente da reacção χ é dado pela expressão: χ= [H 2 ] × [I 2 ] [HI ]2 substituindo os valores de concentração correspondentes ao instante t2: χ= 2× 2 42 χ ≅ 0,11 Como (χ ≅ 0,11) < (Kc ≅ 0,56), então o sistema não se encontra em equilíbrio, e podemos dizer que a reacção progride no sentido directo, ou seja, no sentido da formação dos produtos. 1.10. Factores que afectam o equilíbrio No início deste capítulo referimos que o conceito de equilíbrio é amplamente utilizado na linguagem corrente e, consoante o contexto em que se integra, a sua interpretação pode ser distinta. No entanto, uma característica comum a qualquer situação de equilíbrio, é o facto de se tratar de um estado delicado e eventualmente precário. Vejamos alguns exemplos de maior ou menor fragilidade de algumas situações, distintas, de equilíbrio: • o equilíbrio de um copo em cima da cabeça de uma pessoa é uma situação altamente delicada e que é destruído pela mais pequena perturbação; ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 24 • o equilíbrio de um sistema ecológico pode ser alterado quer por variação no número de espécies que o constituem quer por variação do meio circundante; • o equilíbrio nutricional poder ser afectado, por exemplo, por situações patológicas que levem à depleção de elementos essenciais ao funcionamento do indivíduo. Tal como nos exemplos anteriores, o equilíbrio químico, resultado de um balanço entre as reacções directa e inversa, é uma situação delicada e pode ser afectado por perturbações várias, nomeadamente variações das condições experimentais. As perturbações exteriores, que podem ser experimentalmente controladas, são: • concentração – variação da quantidade de uma ou mais substâncias envolvidas; • pressão e volume; • temperatura a que ocorre o ensaio. O Princípio de Le Chatelier diz que quando um sistema em equilíbrio sofre uma perturbação externa, reage de modo a minimizar a acção da mesma. Por outras palavras, este princípio permite-nos prever qual o sentido em que o equilíbrio se desloca quando sujeito a uma variação, nomeadamente de concentração, pressão, volume ou temperatura. Vamos, seguidamente, analisar como é que cada um destes factores afecta o equilíbrio químico. CONCENTRAÇÃO Neste, caso a perturbação introduzida ao sistema é a variação de concentração dos produtos ou reagentes. Se a um sistema em equilíbrio, retirarmos uma dada quantidade de um ou mais produtos de reacção, o sistema evolui no sentido de compensar o que se retirou, ou seja, evolui de forma a gastar mais reagente para repor o produto retirado, até que se ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 25 atinja de novo o estado de equilíbrio; diz-se, então, que o sistema irá progredir no sentido directo. Quando, por outro lado, se retira uma quantidade de reagente a um sistema em equilíbrio, este reage no sentido de regenerar com maior velocidade o reagente retirado, progredindo assim no sentido inverso, até se restabelecer o estado de equilíbrio químico. O mesmo raciocínio é aplicado quando, ao invés de se retirar, se adiciona ao sistema, por exemplo, reagente. Aumentando a quantidade de reagente o equilíbrio desloca-se no sentido directo (formação de mais produto) até se atingir um novo estado de equilíbrio. Por outro lado, o aumento da quantidade de produto leva a que a reacção progrida no sentido inverso (formação de reagente). PRESSÃO E VOLUME Este efeito de variação de pressão e/ou volume é essencialmente sentido no caso de substâncias no estado gasoso, já que os líquidos e sólidos são virtualmente incompressíveis. De acordo com a equação dos gases ideais, PV = nRT , as grandezas pressão e volume são inversamente proporcionais, isto é, quanto maior a pressão menor o volume e viceversa. Um aumento de pressão (equivalente a uma diminuição de volume), favorece o sentido em que há uma diminuição do número total de moles. Consideremos a reacção genérica: A (g) + B (g) AB (g) Segundo este esquema químico 2 partículas, A e B, reagem entre si para formar 1 só partícula AB. Logo, um aumento de pressão vai fazer com que o sistema se desloque no sentido de diminuir o número total de partículas, o que, neste caso, é o sentido directo – formação de produto de reacção. Por outro lado, uma diminuição de pressão (ou aumento de volume), vai favorecer a reacção no sentido que conduza a um aumento do número total de partículas; neste caso, vai favorecer o sentido inverso. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 26 No caso de reacções em que não há variação do número de moles, entre os reagentes e os produtos, a variação de pressão (ou volume) não tem qualquer efeito no equilíbrio químico. TEMPERATURA As variações anteriormente estudadas – concentração, pressão e volume – podem alterar as posições do equilíbrio mas não alteram o valor da constante de equilíbrio. Contudo, uma variação na temperatura pode alterar significativamente o valor de constante Kc para um dado sistema. Esta alteração depende directamente do facto da reacção em estudo ser endotérmica, exotérmica ou atérmica. No caso da reacção ser atérmica, isto é, não há nem absorção nem libertação de calor, a variação da temperatura a que ocorre o ensaio, não provoca qualquer alteração do valor da constante de equilíbrio. Para uma reacção exotérmica (onde há libertação de calor), um aumento de temperatura vai dificultar a libertação de calor para o exterior e, portanto, é favorecido o sentido inverso e o valor da constante de equilíbrio, Kc, diminui. Inversamente, uma diminuição da temperatura, facilita a libertação de calor decorrente do processo químico em estudo e favorece a reacção inversa, provocando um aumento em Kc. No caso das reacções endotérmicas (reacções acompanhadas pela absorção de calor), a variação de temperatura impõe evoluções opostas às observadas para as reacções exotérmicas; o aumento da temperatura favorece a reacção directa com o consequente aumento de Kc, e a diminuição da temperatura favorece a reacção inversa com a consequente diminuição do valor da constante de equilíbrio. É importante não esquecer que num sistema em equilíbrio, se, por exemplo, a reacção directa é endotérmica então a reacção inversa é necessariamente exotérmica e viceversa. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 27 1.10.1. Adição de Catalisadores Um outro factor que, apesar de não ser uma perturbação das condições experimentais, pode afectar o equilíbrio químico é a adição de um catalisador. Um catalisador é uma substância que aumenta a velocidade de uma reacção química, sem ser consumida nessa reacção. No estudo de reacções químicas em equilíbrio, é por vezes necessário recorrer ao uso destas substâncias como, por exemplo, quando as reacções se processam de uma forma muito lenta, podendo mesmo levar alguns dias até atingir o estado de equilíbrio. A adição de um catalisador a uma mistura reaccional, que não esteja no equilíbrio, vai aumentar as velocidades do processo directo e do processo inverso, de tal forma, que se atinge o equilíbrio mais rapidamente. Assim, a adição de um catalisador não tem qualquer efeito no valor da constante de equilíbrio de uma reacção. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 28 Exercícios 1 - Considere o seguinte sistema em equilíbrio: N2 (g) + O2 (g) NO (g) Sabendo que a uma dada temperatura a constante de equilíbrio é 0,002 e que a concentração de equilíbrio do oxigénio é 0,3M e de azoto é 0,4M, determine a concentração de equilíbrio do monóxido de azoto. 2 - A constante de equilíbrio da seguinte reacção em fase gasosa CO (g) + H2O (g) O2 (g) + H2 (g) é Kp = 0,63 (P em atm) a 986oC. Calcule a pressão parcial de H2 no equilíbrio a essa temperatura, sabendo que no vaso reaccional foram introduzidas 0,35atm de CO e 0,15atm de H2O. 3 - Considere a seguinte equação química: NOCl (g) NO (g) + Cl (g) À temperatura de 796ºC, as concentrações de equilíbrio são: [NOCl]e = 1,8 mol/dm3 [NO]e = 0,02 mol/dm3 e [Cl2]e = 0,03 mol/dm3 Calcule a constante de equilíbrio da reacção, em termos da concentração, Kc, e em termos da pressão, Kp. 4 - Considere a reacção em meio gasoso CO2 (g) + H2 (g) CO (g) + H2O (g) A 1070K a constante de equilíbrio é Kc=0,9. a) Justifique a seguinte afirmação: O sistema constituído por 1,0 mol de CO2, 2,0 mol de H2, 0,5 mol de CO e 1,0 mol de H2O, não está em equilíbrio e evolui no sentido de formação de CO e H2O; ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 29 b) Designando por y, o número adicional de moles de CO que se formam até o equilíbrio ser atingido, calcule a composição do sistema nesse estado. 5 - Colocaram-se 20,0 g de carbonato de cálcio num recipiente fechado de capacidade igual a 10 dm3. Este sistema foi aquecido a 800oC e o esquema que traduz a reacção química observada é: CaCO3 (s) CaO (s) + CO2 (g) Sabendo que o valor de Kp a esta temperatura é 1,16 (com P em atm), calcule a percentagem de CaCO3 que permaneceu sem se decompor, quando se atinge o equilíbrio. 6 - Considere a seguinte equação no equilíbrio: 2 HI (g) H2 (g) + I2 (g) Sabendo que as concentrações de equilíbrio, à temperatura de 458ºC, são: [H2] = 0,0224 mol/dm3 [I2] = 0,0224 mol/dm3 [HI] = 0,155 mol/dm3 a) Determine a constante de equilíbrio Kc, para esta reacção. b) Qual o valor da constante de equilíbrio para a reacção inversa ? c) Sabendo que nas mesmas condições as pressões de equilíbrio são de: PH2 = 1,3atm PI2 = 1,3 atm PHI = 9,3 atm Determine a constante de equilíbrio Kp. d) Um equilíbrio químico, pode ser encarado como uma situação estática ou dinâmica? Justifique. ©Carla Padrel de Oliveira, Universidade Aberta, 2005 30