XV ENCONTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DO
NORTE E NORDESTE e PRÉ-ALAS BRASIL. 04 a
07 de setembro de 2012, UFPI, Teresina-PI.
Grupo de Trabalho: Ciências Sociais e Esporte: conjugando
abordagens e perspectivas em um campo de pesquisa plural e
interdisciplinar - GT 02
FUTEBOL E RAÇA NO BRASIL: A VITÓRIA DO VASCO DA GAMA NO
CARIOCA DE 1923
Arthur Silveira Guimarães
Aluno do Programa de Pós-Graduação em Sociologia pela UFPB
([email protected])
Ana Ligia Muniz Rodrigues
Aluna do Programa de Pós-Graduação em Sociologia pela UFPB
([email protected])
INTRODUÇÃO
A
questão
racial
é
um
dos
temas
mais
discutidos
na
contemporaneidade. Se hoje a percepção de que a abolição da escravatura
não aboliu o racismo se tornou frequente na agenda de órgãos internacionais
assim como na comunidade acadêmica 1 (algo denunciado há muitos anos pelo
movimento negro), durante muitos anos o reconhecimento da existência de
tensões entre brancos, pardos e negros permaneceu camuflado por uma
identidade nacional baseada na cordialidade entre as raças e como um
problema secundário diante da luta de classes (GUIMARÃES, 2002).
De acordo com Ortiz (1994) toda identidade se define a algo que lhe é
exterior, ou seja, ao outro. Sendo assim, a problemática da cultura brasileira
alude a uma questão política e está ligada a uma reinterpretação do popular
pelos grupos sociais e à própria construção do Estado brasileiro. Essa
prerrogativa nos faz observar que não existe uma identidade autêntica, mas
várias identidades construídas por diferentes grupos sociais em diferentes
momentos históricos. São diversas fases e olhares sobre uma mesma
discussão.
Pensar a autoimagem do Brasil, portanto implica em refletir sobre os
vínculos entre a questão racial e de símbolos nacionais como o futebol.
Durante a era Vargas o futebol realmente se firma como produto nacional,
como símbolo de identidade brasileira. A revolução de 1930 é marcada pela
agência do Estado brasileiro as ações da sociedade civil. Getulio Vargas
através de sua política de caráter populista necessitava de símbolos eficientes
a mobilização das massas e os dirigentes do país perceberam no futebol um
elemento ideal para este processo.
Eram promovidas partidas de futebol e o rádio, elemento importante à
difusão da ideologia do Estado Novo, era vetor de propulsão do futebol por
todo território nacional. Por exemplo, em 1938 a Copa do Mundo daquele ano
fora transmitida pela primeira vez ao vivo.
1
Esta perspectiva se reflete nos novos olhares sobre essa temática e nos intensos debates
acerca da implementação de políticas de reconhecimento, de redistribuição e de valorização da
cultura negra no país.
Segundo Hilário Franco Junior, todo este processo foi primordial a
política varguista sendo o futebol uma das principais facetas de seu populismo.
O processo que incorporava os torcedores ao universo do
futebol brasileiro, estabelecendo um alargamento de sua base
social, era o mesmo que incluía as camadas subalternas
urbanas no jogo político nacional. E também nesse aspecto o
rádio desempenhou papel decisivo [...] não por acaso, os
estádios de São Januario e do Pacaembu foram palcos
escolhidos para os desfiles e as comemorações do Primeiro de
Maio, Dia do Trabalho, deixando definitivamente de ser
enormes salões para encontros de uma elite portando chapéu
e paletó, como em anos passados. O mesmo rádio que
agrupava os ouvintes num corpo único de torcedores de
determinados times ou no corpo maior da seleção brasileira
também procurava criar o corpo cívico da nação em comunhão
com seu líder máximo. Paixão política e paixão futebolística
eram estimuladas de forma semelhante. Enquanto as
bandeiras com as cores dos clubes eram desfraldadas nos
estádios, as bandeiras regionais eram queimadas, e no lugar
delas era içada a bandeira nacional (FRANCO JUNIOR. 2007.
P.79/80).
A figura dos atletas de futebol, em menor proporção é claro, tornam-se
ao lado da figura do presidente Vargas símbolos do heroísmo e força brasileira.
A “voz do Brasil”2 divulgava o quanto o populismo de Vargas era benéfico à
nação que só “crescia e se desenvolvia” ao mesmo tempo em que os locutores
populares como Ari Barroso e Mario Filho exaltavam, a força dos novos heróis
populares, o jogador de futebol, capaz, através de seu talento, ascender
socialmente.
Estamos diante de quadro, no qual os meios de comunicação
de massa (o rádio e o jornal principalmente) abrem espaço
para transformação de certas manifestações populares em
bens da indústria cultural (BRUHNS. 2000. p.66).
Assim, Vargas através de uma política centralizadora e autoritária forja
um sentimento nacionalista difundido pela guerra e potencializado pelo futebol
(FRANCO JUNIOR. 2007). Neste período o futebol é alçado à imagem de
símbolo nacional e expressão do sentimento de identidade nacional.
2
Programa radiofônico oficial do Governo Federal.
Em meados da década de 30, com o desenvolvimento industrial e a
busca pela consolidação do estado-nação brasileiro, uma identidade baseada
na inferioridade racial foi perdendo cada vez mais espaço. As teorias de
Gilberto Freyre tornaram-se uma nova chave de leitura sobre a realidade
nacional dando condições para o surgimento de um paradigma culturalista que
tornava a miscigenação algo positivo e principalmente caro à identidade
nacional, elevando o que antes eram elementos da cultura negra à elementos
da cultura nacional. O samba e o futebol são uns dos melhores exemplos
desse fenômeno (ORTIZ, 1994).
O futebol brasileiro em sua gênese refletiu tais estruturas e nasceu
extremamente discriminatório e elitista. Classe social e cor da pele eram prérequisitos básicos para se associar a clubes e praticar o esporte. Neste sentido,
tentaremos demonstrar neste artigo, como a vitória do Vasco da Gama no
campeonato carioca de 1923 representou, mesmo que no campo esportivo
uma flexibilização nas relações raciais no Brasil.
RAÇA E IDENTIDADE NACIONAL
Os primeiros estudos acerca do que é nacional foram produzidos no final
do século XIX e no início do século XX, apresentando uma explicação
raciológica para uma suposta deficiência na composição étnica do país.
Explicações culturalistas a partir de 1930 ganham espaço refutando o ideal de
hierarquias biológicas entre as raças. É preciso fazer um breve retrospecto
dessas concepções para obtermos a compreensão do processo de construção
da auto-imagem do país.
A sociedade brasileira torna-se objeto de estudo dos precursores das
ciências sociais no país durante o final do século XIX. Nina Rodrigues, Silvio
Romero e Euclides da Cunha são exemplos deste grupo de estudiosos que
produziram um discurso científico sobre a composição étnica/racial dos
brasileiros e seu modo de vida. Para Schwarcz (1993) estes autores foram
bastante influenciados pelo positivismo Comteano, o darwinismo social, o
evolucionismo de Spencer, em geral, pelas ciências européias do período que
se baseavam em estudos anatômicos e craniológicos para alcançar
explicações racionais que legitimassem tais teorias.
Ao produzir hipóteses que tratavam da evolução histórica dos povos a
intelectualidade brasileira encontrava-se no seguinte dilema: visto que o Brasil
não se enquadrava nos parâmetros de “civilização” propostos pelas teorias
européias, como compreender essa “deficiência” e elaborar a ideia de nação no
país?
A solução apresentada pela elite intelectual consistiu em completar a
teoria evolucionista com alguns argumentos que justifiquem o atraso do caso
brasileiro: o meio e a raça. Esses fatores passaram a explicar os fenômenos
econômicos, políticos e sociais do país ressaltando as particularidades
nacionais, porém de forma determinista e extremamente preconceituosa. Ortiz
(1994) discorre:
Meio e raça traduzem, portanto, dois elementos
imprescindíveis para a construção de uma identidade brasileira:
o nacional e o popular. A noção de povo se identificando à
problemática étnica, isto é, ao problema da constituição de um
povo no interior de fronteiras delimitadas pela geografia
nacional (ORTIZ 1994, p.17).
Para eles os ventos alísios eram responsáveis pelo estado de barbárie
que o Brasil se encontrava onde a natureza suplanta o homem, e o meio
determina o grau de capacidade da população. Ainda que o parâmetro raça
fosse de caráter discriminatório ele possibilitou pela primeira vez a discussão
sobre o cruzamento inter-racial visto que, no período escravocrata, essa
problemática era completamente ignorada. Somente com a abolição o negro é
considerado um cidadão (ainda que de segunda categoria) participante da
dinâmica social e econômica do país possuindo maior importância que o índio,
passando ser novamente analisado pelos intelectuais e produtores de cultura.
É preciso ressaltar que o momento de produção das teorias
evolucionistas foi anterior ao período de consumo destas no país. A elite
intelectual brasileira buscava no fim do século construir uma identidade
nacional e consolidar o Estado, entretanto diante da abolição (em 1888), da
intensa imigração estrangeira, de modificações na economia e emergência da
classe média, as teorias européias passam a ser absorvidas com o intuito de
contribuir para a resolução do dilema da construção nacional.
É na virada do século que surgirá o mito das três raças (embrião da
ideologia de Brasil-cadinho tão difundida no século XX): o branco, o negro e o
índio. A teoria da superioridade ariana concebe o branco como superior aos
demais em vista da suas “características civilizadas” e civilizadoras; já os
negros eram tidos como seres irracionais, com enorme deficiência intelectual; e
os índios considerados seres com ausência moral. Juntos os dois últimos eram
analisados como entraves ao processo civilizatório que o país necessitava.
A busca por uma identidade nacional colocou a mestiçagem como um
problema
em
destaque
nas
produções,
científicas,
acarretando
uma
perspectiva pessimista sobre o futuro do país e a aderência nas teses de
branqueamento como solução para o impasse racial. (SKIDIMORE, 1976).
O mestiço, enquanto produto do cruzamento entre raças
desiguais, encerra, para os autores da época, os defeitos e
taras transmitidos pela herança biológica. A apatia, a
imprevidência, o desequilíbrio moral e intelectual, a
inconsistência seriam dessa forma qualidades naturais do
elemento brasileiro. A mestiçagem simbólica traduz, assim, a
realidade inferiorizada do elemento mestiço concreto. Dentro
dessa perspectiva a miscigenação moral, intelectual e racial do
povo brasileiro só pode existir enquanto possibilidade. O ideal
nacional é na verdade uma utopia a ser realizada no futuro, ou
seja, no processo de branqueamento da sociedade brasileira
(ORTIZ 1994, p.21).
As teorias sociais produzidas no final do século XIX refletem as próprias
contradições que a sociedade brasileira passava, por estar sofrendo um
processo de formação de identidade e unidade nacional. Em vistas das
intensas mudanças econômicas (passagem de um sistema escravagista para
um sistema capitalista) e políticas (de uma monarquia para uma república) o
ideal de três raças ainda se encontrava como linguagem e não prática na
realidade social. Somente no próximo século é que essas compreensões iriam
permear o imaginário da comunidade brasileira e se propagar por todo o país.
O futebol, enquanto elemento da cultura europeia, surge no Brasil como
mais um espaço de manifestação dessas tensões em busca desse ideal de
“civilização” almejado pelas elites brasileiras e neste sentido excluí o negro
dessa prática esportiva.
O PROFISSIONALISMO NO FUTEBOL BRASILEIRO
O surgimento do futebol coincide com o domínio imperialista britânico.
Logo, além de produtos industriais, as tradições e fenômenos culturais ingleses
também eram disseminados mundo afora. É interessante o argumento de
Franco Junior (2007) sobre este processo, pois, para ele, não era premeditado
esta expansão cultural, porém, unicamente por serem fenômenos de origem
britânica eram absorvidos por outras nações, pelo glamour de se parecer
civilizado.
Este fenômeno globalizado acaba também chegando ao Brasil. Os
britânicos
mantinham
variados
negócios
com
as
elites
brasileiras,
principalmente a paulista, estas relações comerciais resultam na imigração de
algumas famílias de origem britânica ao centro-sul do país.
De acordo com a história oficial do futebol brasileiro dentre estas famílias
de imigrantes encontrava-se a de Charles William Miller, o precursor do futebol
por terras tupiniquins. Charles Miller nasceu no ano de 1874, na cidade de São
Paulo. Filho de John Miller, funcionário da San Paolo (brazillian) Railway
Company, Limited, era um garoto de bons recursos financeiros e por esta
característica não “escapou” da tradição daquelas famílias de imigrantes que
enviavam seus filhos adolescentes para receber a educação “a moda inglesa”
nas mais renomadas public schools britânicas. Assim, Miller aos nove anos de
idade
fora
matriculado
no
Banister
Court
School,
em Southampton
(GUTERMAN, 2009). Foi nesta cidade inglesa que Miller aprendeu a jogar o
footballl association.
Ao retornar ao Brasil no ano de 1894, Charles Miller trazia consigo duas
bolas, dois uniformes completos, uma bomba de ar e uma agulha, entretanto
mais do que isso, como destaca Mauricio Murad (1996) ele carregava um
espírito bandeirante, pois, abriria todos os caminhos para implantação daquele
esporte no Brasil. Miller ensinava as regras, arbitrava os jogos, organizava as
pelejas, além de ser um exímio jogador de ataque.
Aliás, foi ele que em abril de 1885, organizou a primeira partida oficial de
futebol no Brasil. Esta partida envolveu funcionários de empresas inglesas que
atuavam em São Paulo. O São Paulo Railway venceu a companhia Gazz Team
pelo placar de 4 a 2, para um público de dezoito espectadores (FREITAS,
2006). Fixar-se na origem das equipes é primordial para se entender a
sociogênese do futebol brasileiro.
Assim como em sua origem britânica o futebol ao ser introduzido no
Brasil carregava em si a ideologia do ethos amador. Nas primeiras décadas de
futebol no país, só os brancos e filhos das elites econômicas atuavam em
clubes e participavam, por conseguinte das ligas oficiais.
Entretanto, muitos eram aqueles que pertenciam a classes sociais
menos abastardas que imediatamente se apaixonaram por aquele esporte tão
envolvente. Negros, operários e imigrantes pobres começaram, ”ao seu jeito”, a
jogar o futebol. A elite social que praticava o esporte sabia como jogar,
conheciam as regras, as jogadas, tinham as bolas e os uniformes. Já os pobres
não possuíam conhecimento técnico algum e jogavam a partir de sua
percepção daquele jogo. Brincavam nas ruas, com bolas de meias, tentando
relembrar as posições de cada jogador. Segundo relato do jornalista Mário
Filho em O negro no futebol brasileiro (2003) era imitando que operários pobres
e negros começavam a desenvolver suas próprias jogadas deturpando o que
viam nos nobres gramados.
Apesar da segregação imposta pelas ligas oficiais um fato balizaria o
campo esportivo do futebol brasileiro, a emergência do elemento operário. Era
cada vez mais crescente a industrialização nas incipientes metrópoles
brasileiras e concomitantemente a este desenvolvimento emergem diversos
clubes formados por jogadores provenientes das fábricas. The Bangu Atlhetic
Club (1904), no Rio de Janeiro, é o maior expoente deste período.
Era inicio da década de 1920 e o Brasil, próximo das comemorações de
seu primeiro centenário da independência, passava por um processo de
reavaliação político, social e econômico. Conflitos gerados pelos avanços do
mundo moderno sobre uma sociedade ainda muito marcada por características
“arcaicas” influenciavam nas relações dentro do campo esportivo brasileiro.
Como argumenta Pierre Bourdieu (2004) o espaço do esporte não está
fechado como um universo em si mesmo, mas encontram-se imerso num
universo de consumo e de práticas, eles próprios estruturados e constituídos
como sistemas. De tal modo, o futebol brasileiro inicia a segunda década do
século passado marcado pelas mesmas contradições e conflitos daquele
período.
O futebol já se tornara o esporte mais difundido no Brasil em
todos os segmentos sociais. Elas [criticas e discussões acerca
do futebol] sintetizam as mais importantes questões e
contradições brasileiras, presente no futebol por esse ser o
verdadeiro microcosmo da sociedade, ao mesmo tempo
espelho e ingrediente dinâmico das transformações em curso
nos tumultuados anos 1920 (FRANCO JUNIOR, 2007, p.70).
Neste clima de tensões e conflitos sociais e políticos algumas ligas
oficiais de futebol se desfazem. Isto, pois, para alguns clubes tradicionais o
esporte era universal e seus membros entendiam que não deveriam existir
barreiras sociais na prática desportiva, porém eram muito fortes os clubes que
preconizavam o contrário. A liga paulista de futebol, por exemplo, foi esvaziada
por clubes campeões e tradicionais como o Mackenzie e o Paulistano que não
aceitavam jogar contra clubes populares como o Sport Clube Corinthians
Paulista. As equipes elitistas de São Paulo contrárias a democratização do
futebol e defensoras do ethos amador formaram a Associação Paulista de
Esportes Atléticos, o mesmo ocorreu por onde se praticavam futebol
oficialmente no Brasil (GUTERMAN, 2009).
Porém, o processo de espetacularização do futebol no Brasil tomava
proporções incontroláveis, sobretudo, através das ondas do rádio que se
expandia. A midiatização expande o futebol por todo o território nacional. É o
período caracterizado pela era do rádio que expôs os craques brasileiros
decorrendo daí a criação de novos “heróis nacionais”.
Além de Friedenreich e Domingos da Guia, nomes como os de
Romeu Pelliciari, Luizinho, Fausto, Servilio, Zizinho, Heleno de
Freitas, Brandão, Jair da Rosa Pinto, Tim, Peracio, Patesko e
Ademir de Menezes eram objeto de culto pela comunhão de
fies de seus respectivos clubes. E representavam uma
possibilidade concreta de ascensão de membros dos grupos
subalternos da sociedade brasileira (FRANCO JUNIOR, 2007,
p.81).
Em meio a esta conjuntura de espetacularização, ainda era tenso o
conflito entre o amadorismo e o profissionalismo. Esta querela tem na vitória do
Vasco da Gama, no campeonato carioca de 1923, sua faceta mais marcante no
redirecionamento do desenvolvimento deste esporte no Brasil. Pela primeira
vez no futebol brasileiro, um time composto exclusivamente por negros e
operários, remunerados para dedicação exclusiva ao futebol, conquista uma
taça sob a égide de uma liga oficial. Era um sinal dos tempos?
Para Mario Filho (2003), entusiasta da miscigenação do futebol
brasileiro, sim. Ele entendia que este campeonato balizaria um processo de
derrubada da autonomia dos clubes formados por jogadores brancos.
A ilusão durou pouco, os clubes da sociedade, como se diziam,
estavam diante de um fato consumado. Não se ganhava
campeonato só com times de brancos. Um time de brancos.
Um time de brancos, mulatos e pretos era campeão da cidade.
Contra esse time, os times de brancos não tinham podido fazer
nada [...] Desaparecera a vantagem de ser de boa família, de
ser estudante, de ser branco. O rapaz de boa família, o
estudante, o branco, tinha de competir, em igualdade de
condições, com o pé-rapado, quase analfabeto, o mulato e o
preto para ver quem jogava melhor. Era uma verdadeira
revolução que se operava no futebol brasileiro. (FILHO, 2003,
p. 126).
Cria-se um mito? Segundo Teixeira (2010) alguns autores como Jorge
Soares entendem que sim, pois Mario Filho em suas abordagens sobre o negro
e futebol reflete o ideário da democracia racial. Essa valorização da
contribuição dos negros para a constituição da nação e a elevação da cultura
negra à cultura nacional origina-se da obra de Gilberto Freyre.
Segundo Freyre (2003) o Brasil no início do século XX sofria
transformações profundas. O processo de urbanização e de industrialização 3
possibilitou o desenvolvimento de uma classe média e com a chamada
Revolução de 30 o Estado passou a orientar politicamente tais mudanças na
busca pelo desenvolvimento social. Com essas transformações nas relações
entre cultura e Estado e o desenvolvimento de um projeto de nação as teorias
raciológicas, pessimistas em sua essência, perdiam cada vez mais espaço na
academia e no imaginário da sociedade brasileira.
Produção sintomática desse período é o livro Casa Grande & Senzala
(2003). O Gilberto Freyre produz um ensaio sobre a identidade nacional de
modo a entender o Brasil como uma nação mestiça composta por elementos
africanos, portugueses e indígenas. Influenciado pelo paradigma culturalista de
Franz Boas, Freyre descreve a importância do negro na constituição da
sociedade brasileira destacando a sua superioridade organizacional frente às
outras raças e como ele foi inserido num sistema irresponsável, articulado
pelos brancos colonizadores.
Ao evidenciar que o negro nos aparece deformado pela escravidão o
autor assinala que a população de cor só deve ser julgada pela atividade
desenvolvida em sua própria cultura, pois “não era o negro, portanto, o
libertino: mas o escravo a serviço do interesse econômico e da ociosidade
voluptuosa dos senhores. Não era a raça inferior fonte de corrupção, mas o
abuso de uma raça por outra” (FREYRE, 2003, p.375).
A ambiguidade de Freyre consiste na sua visão de senhor de engenho
sob as relações escravocratas, pois apesar de reconhecer a violência do
sistema ele acredita que diante do complexo casa-grande e senzala haveria no
Brasil uma convivência menos conflituosa entre senhores e escravos, um misto
de relações afetivas que tornaram a escravidão brasileira mais “adocicada” que
a de outros países:
3
O surgimento de um proletariado urbano e de novas tecnologias como o cinema, o telégrafo e
o avião marcaram este período.
Não que no brasileiro subsistam, como no anglo-americano,
duas metades inimigas: a branca e a preta; o ex-senhor e o exescravo. De modo nenhum. Somos duas metades
confraternizantes que se vêm mutuamente enriquecendo de
valores e experiências diversas; quando nos completamos num
todo, não será com o sacrifício de um elemento ao outro
(FREYRE, 2003, p. 390).
Apesar de fornecer uma explicação presa a uma identidade nacional
indivisa, o que impede a tematização de interesses divergentes, não se pode
negar a autenticidade de sua teoria que concebe o negro como um
componente da sociedade nacional e não mais uma patologia; e que toma a
experiência brasileira como um processo formado por aspectos positivos e
negativos e não como um desvio do modelo europeu.
Portanto, essas teorias não significaram uma ruptura com as teorias
raciológicas e sim uma reinterpretação da mesma problemática que, ao
direcionar o olhar sobre os costumes, transformara a negatividade do mestiço
em positividade. O desenvolvimento do mito das três raças a partir desse
período se faz ritual (ORTIZ, 1994) e a ideologia da mestiçagem torna-se senso
comum: o carnaval e o futebol são elevados a cultura brasileira e “o que era
mestiço torna-se nacional”.
A crença na constituição de uma nova comunidade com sua origem na
mescla entre as três raças e com um destino marcado pela ascensão social faz
com que Freyre veja, também no futebol um espaço para ascensão social e
reconhecimento do negro:
Sublimando tanto do que é mais primitivo, mais jovem, mais
elementar, em nossa cultura, era natural que o futebol, no
Brasil,
ao
engrandecer-se
em
instituição
nacional,
engrandecesse também o negro, o descendente de negro, o
mulato, o cafuzo, o mestiço. E entre os meios mais recentesisto é, dos últimos vinte ou trinta anos – de ascensão social do
negro ou do mulato ou do cafuzo no Brasil, nenhum excede,
em importância, ao futebol (FILHO, 2003, p.25).
Desse modo, podemos observar que Mário Filho é mais um exemplo da
reprodução da ideologia da democracia racial no Brasil. Segundo Soares (apud
Texeira, 2010), no livro O negro no futebol brasileiro o renomado jornalista
esportivo retrata a vitória do Vasco da Gama em 1923 tecendo uma narrativa
nacional pautada no heroísmo dos negros e mestiços no seu processo de
inserção no futebol sem levar em conta a permanência das desigualdades
raciais no país bem como as tensões entre amadorismo e profissionalização
dessa prática esportiva.
O que tentamos demonstrar é que a “heróica” trajetória do
Vasco na luta contra o racismo na década de 20 é uma
tradição inventada, é uma história de identidade (Hobsbawm,
1998). Sua origem está em Mário Filho, e a continuidade dessa
tradição está na boca dos aficionados pelo Vasco, na imprensa
e nos textos acadêmicos que tratam a referida história. Os
recortes, as ênfases, os esquecimentos são reveladores dos
mecanismos de construção da memória coletiva e da identidade. Os limites entre a história social, a história das
mentalidades e a história de identidade são confusos e
interpenetram-se. Mas isto não significa que uma mentalidade
ou identidade informe exatamente o que se passou em um
determinado evento ou trama específica (SOARES apud
TEXEIRA, 2010, p. 38).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desta forma, inferimos que o surgimento do futebol no Brasil refletiu as
tensões de um país que começara a entrar na modernidade e que
desenvolvera uma autoimagem pautada na contribuição das três raças e na
aptidão dos negros para a prática desse esporte.
A Vitória do Vasco da Gama no Campeonato Carioca de 1923 foi sem
dúvida um elemento precursor de uma flexibilização das tensões raciais típicas
da sociedade brasileira, ainda que no campo esportivo. A maioria dos negros
do Brasil não ocupavam posições nem exerciam profissões de destaque na
sociedade e o futebol, portanto, se tornou uma esfera de atuação profissional,
reconhecimento e fonte de renda.
Entretanto, é preciso levar em conta que essa inserção do negro no
futebol não diluiu, como previa Freyre, as tensões raciais presentes na
realidade brasileira. Se por um lado possibilitou à população negra e mestiça
um espaço de reconhecimento e afirmação por outro culminou em uma
narrativa nacional pautada numa cordialidade e fraternidade entre as raças
para além da esfera esportiva. Segundo José Jairo Vieira (2002) está relação
está longe de ser igualitária. Brancos e pardos encontram-se em vantagem
sobre os negros em que consiste no número de atletas, grau de escolaridade
dos pais e dos mesmos e principalmente em relação aos salários.
Pode-se afirmar então, diante desses apontamentos, que o futebol não
promove como é pintada na mídia esportiva a democracia racial nem a vendida
ascensão social facilitada. Pelo contrário, assinala para outra forma de
opressão e racismo reproduzindo a sociedade como todo.
REFERÊNCIAS
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Silveira e Denise Moreno Pegorim; revisão técnica: Paula Monteiro.- São
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FREITAS. Armando. O que é futebol? / Amando Freitas, Silvia Vieira;
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OUTUBRO 2011.>
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