XV ENCONTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DO NORTE E NORDESTE e PRÉ-ALAS BRASIL. 04 a 07 de setembro de 2012, UFPI, Teresina-PI. Grupo de Trabalho: Ciências Sociais e Esporte: conjugando abordagens e perspectivas em um campo de pesquisa plural e interdisciplinar - GT 02 FUTEBOL E RAÇA NO BRASIL: A VITÓRIA DO VASCO DA GAMA NO CARIOCA DE 1923 Arthur Silveira Guimarães Aluno do Programa de Pós-Graduação em Sociologia pela UFPB ([email protected]) Ana Ligia Muniz Rodrigues Aluna do Programa de Pós-Graduação em Sociologia pela UFPB ([email protected]) INTRODUÇÃO A questão racial é um dos temas mais discutidos na contemporaneidade. Se hoje a percepção de que a abolição da escravatura não aboliu o racismo se tornou frequente na agenda de órgãos internacionais assim como na comunidade acadêmica 1 (algo denunciado há muitos anos pelo movimento negro), durante muitos anos o reconhecimento da existência de tensões entre brancos, pardos e negros permaneceu camuflado por uma identidade nacional baseada na cordialidade entre as raças e como um problema secundário diante da luta de classes (GUIMARÃES, 2002). De acordo com Ortiz (1994) toda identidade se define a algo que lhe é exterior, ou seja, ao outro. Sendo assim, a problemática da cultura brasileira alude a uma questão política e está ligada a uma reinterpretação do popular pelos grupos sociais e à própria construção do Estado brasileiro. Essa prerrogativa nos faz observar que não existe uma identidade autêntica, mas várias identidades construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos. São diversas fases e olhares sobre uma mesma discussão. Pensar a autoimagem do Brasil, portanto implica em refletir sobre os vínculos entre a questão racial e de símbolos nacionais como o futebol. Durante a era Vargas o futebol realmente se firma como produto nacional, como símbolo de identidade brasileira. A revolução de 1930 é marcada pela agência do Estado brasileiro as ações da sociedade civil. Getulio Vargas através de sua política de caráter populista necessitava de símbolos eficientes a mobilização das massas e os dirigentes do país perceberam no futebol um elemento ideal para este processo. Eram promovidas partidas de futebol e o rádio, elemento importante à difusão da ideologia do Estado Novo, era vetor de propulsão do futebol por todo território nacional. Por exemplo, em 1938 a Copa do Mundo daquele ano fora transmitida pela primeira vez ao vivo. 1 Esta perspectiva se reflete nos novos olhares sobre essa temática e nos intensos debates acerca da implementação de políticas de reconhecimento, de redistribuição e de valorização da cultura negra no país. Segundo Hilário Franco Junior, todo este processo foi primordial a política varguista sendo o futebol uma das principais facetas de seu populismo. O processo que incorporava os torcedores ao universo do futebol brasileiro, estabelecendo um alargamento de sua base social, era o mesmo que incluía as camadas subalternas urbanas no jogo político nacional. E também nesse aspecto o rádio desempenhou papel decisivo [...] não por acaso, os estádios de São Januario e do Pacaembu foram palcos escolhidos para os desfiles e as comemorações do Primeiro de Maio, Dia do Trabalho, deixando definitivamente de ser enormes salões para encontros de uma elite portando chapéu e paletó, como em anos passados. O mesmo rádio que agrupava os ouvintes num corpo único de torcedores de determinados times ou no corpo maior da seleção brasileira também procurava criar o corpo cívico da nação em comunhão com seu líder máximo. Paixão política e paixão futebolística eram estimuladas de forma semelhante. Enquanto as bandeiras com as cores dos clubes eram desfraldadas nos estádios, as bandeiras regionais eram queimadas, e no lugar delas era içada a bandeira nacional (FRANCO JUNIOR. 2007. P.79/80). A figura dos atletas de futebol, em menor proporção é claro, tornam-se ao lado da figura do presidente Vargas símbolos do heroísmo e força brasileira. A “voz do Brasil”2 divulgava o quanto o populismo de Vargas era benéfico à nação que só “crescia e se desenvolvia” ao mesmo tempo em que os locutores populares como Ari Barroso e Mario Filho exaltavam, a força dos novos heróis populares, o jogador de futebol, capaz, através de seu talento, ascender socialmente. Estamos diante de quadro, no qual os meios de comunicação de massa (o rádio e o jornal principalmente) abrem espaço para transformação de certas manifestações populares em bens da indústria cultural (BRUHNS. 2000. p.66). Assim, Vargas através de uma política centralizadora e autoritária forja um sentimento nacionalista difundido pela guerra e potencializado pelo futebol (FRANCO JUNIOR. 2007). Neste período o futebol é alçado à imagem de símbolo nacional e expressão do sentimento de identidade nacional. 2 Programa radiofônico oficial do Governo Federal. Em meados da década de 30, com o desenvolvimento industrial e a busca pela consolidação do estado-nação brasileiro, uma identidade baseada na inferioridade racial foi perdendo cada vez mais espaço. As teorias de Gilberto Freyre tornaram-se uma nova chave de leitura sobre a realidade nacional dando condições para o surgimento de um paradigma culturalista que tornava a miscigenação algo positivo e principalmente caro à identidade nacional, elevando o que antes eram elementos da cultura negra à elementos da cultura nacional. O samba e o futebol são uns dos melhores exemplos desse fenômeno (ORTIZ, 1994). O futebol brasileiro em sua gênese refletiu tais estruturas e nasceu extremamente discriminatório e elitista. Classe social e cor da pele eram prérequisitos básicos para se associar a clubes e praticar o esporte. Neste sentido, tentaremos demonstrar neste artigo, como a vitória do Vasco da Gama no campeonato carioca de 1923 representou, mesmo que no campo esportivo uma flexibilização nas relações raciais no Brasil. RAÇA E IDENTIDADE NACIONAL Os primeiros estudos acerca do que é nacional foram produzidos no final do século XIX e no início do século XX, apresentando uma explicação raciológica para uma suposta deficiência na composição étnica do país. Explicações culturalistas a partir de 1930 ganham espaço refutando o ideal de hierarquias biológicas entre as raças. É preciso fazer um breve retrospecto dessas concepções para obtermos a compreensão do processo de construção da auto-imagem do país. A sociedade brasileira torna-se objeto de estudo dos precursores das ciências sociais no país durante o final do século XIX. Nina Rodrigues, Silvio Romero e Euclides da Cunha são exemplos deste grupo de estudiosos que produziram um discurso científico sobre a composição étnica/racial dos brasileiros e seu modo de vida. Para Schwarcz (1993) estes autores foram bastante influenciados pelo positivismo Comteano, o darwinismo social, o evolucionismo de Spencer, em geral, pelas ciências européias do período que se baseavam em estudos anatômicos e craniológicos para alcançar explicações racionais que legitimassem tais teorias. Ao produzir hipóteses que tratavam da evolução histórica dos povos a intelectualidade brasileira encontrava-se no seguinte dilema: visto que o Brasil não se enquadrava nos parâmetros de “civilização” propostos pelas teorias européias, como compreender essa “deficiência” e elaborar a ideia de nação no país? A solução apresentada pela elite intelectual consistiu em completar a teoria evolucionista com alguns argumentos que justifiquem o atraso do caso brasileiro: o meio e a raça. Esses fatores passaram a explicar os fenômenos econômicos, políticos e sociais do país ressaltando as particularidades nacionais, porém de forma determinista e extremamente preconceituosa. Ortiz (1994) discorre: Meio e raça traduzem, portanto, dois elementos imprescindíveis para a construção de uma identidade brasileira: o nacional e o popular. A noção de povo se identificando à problemática étnica, isto é, ao problema da constituição de um povo no interior de fronteiras delimitadas pela geografia nacional (ORTIZ 1994, p.17). Para eles os ventos alísios eram responsáveis pelo estado de barbárie que o Brasil se encontrava onde a natureza suplanta o homem, e o meio determina o grau de capacidade da população. Ainda que o parâmetro raça fosse de caráter discriminatório ele possibilitou pela primeira vez a discussão sobre o cruzamento inter-racial visto que, no período escravocrata, essa problemática era completamente ignorada. Somente com a abolição o negro é considerado um cidadão (ainda que de segunda categoria) participante da dinâmica social e econômica do país possuindo maior importância que o índio, passando ser novamente analisado pelos intelectuais e produtores de cultura. É preciso ressaltar que o momento de produção das teorias evolucionistas foi anterior ao período de consumo destas no país. A elite intelectual brasileira buscava no fim do século construir uma identidade nacional e consolidar o Estado, entretanto diante da abolição (em 1888), da intensa imigração estrangeira, de modificações na economia e emergência da classe média, as teorias européias passam a ser absorvidas com o intuito de contribuir para a resolução do dilema da construção nacional. É na virada do século que surgirá o mito das três raças (embrião da ideologia de Brasil-cadinho tão difundida no século XX): o branco, o negro e o índio. A teoria da superioridade ariana concebe o branco como superior aos demais em vista da suas “características civilizadas” e civilizadoras; já os negros eram tidos como seres irracionais, com enorme deficiência intelectual; e os índios considerados seres com ausência moral. Juntos os dois últimos eram analisados como entraves ao processo civilizatório que o país necessitava. A busca por uma identidade nacional colocou a mestiçagem como um problema em destaque nas produções, científicas, acarretando uma perspectiva pessimista sobre o futuro do país e a aderência nas teses de branqueamento como solução para o impasse racial. (SKIDIMORE, 1976). O mestiço, enquanto produto do cruzamento entre raças desiguais, encerra, para os autores da época, os defeitos e taras transmitidos pela herança biológica. A apatia, a imprevidência, o desequilíbrio moral e intelectual, a inconsistência seriam dessa forma qualidades naturais do elemento brasileiro. A mestiçagem simbólica traduz, assim, a realidade inferiorizada do elemento mestiço concreto. Dentro dessa perspectiva a miscigenação moral, intelectual e racial do povo brasileiro só pode existir enquanto possibilidade. O ideal nacional é na verdade uma utopia a ser realizada no futuro, ou seja, no processo de branqueamento da sociedade brasileira (ORTIZ 1994, p.21). As teorias sociais produzidas no final do século XIX refletem as próprias contradições que a sociedade brasileira passava, por estar sofrendo um processo de formação de identidade e unidade nacional. Em vistas das intensas mudanças econômicas (passagem de um sistema escravagista para um sistema capitalista) e políticas (de uma monarquia para uma república) o ideal de três raças ainda se encontrava como linguagem e não prática na realidade social. Somente no próximo século é que essas compreensões iriam permear o imaginário da comunidade brasileira e se propagar por todo o país. O futebol, enquanto elemento da cultura europeia, surge no Brasil como mais um espaço de manifestação dessas tensões em busca desse ideal de “civilização” almejado pelas elites brasileiras e neste sentido excluí o negro dessa prática esportiva. O PROFISSIONALISMO NO FUTEBOL BRASILEIRO O surgimento do futebol coincide com o domínio imperialista britânico. Logo, além de produtos industriais, as tradições e fenômenos culturais ingleses também eram disseminados mundo afora. É interessante o argumento de Franco Junior (2007) sobre este processo, pois, para ele, não era premeditado esta expansão cultural, porém, unicamente por serem fenômenos de origem britânica eram absorvidos por outras nações, pelo glamour de se parecer civilizado. Este fenômeno globalizado acaba também chegando ao Brasil. Os britânicos mantinham variados negócios com as elites brasileiras, principalmente a paulista, estas relações comerciais resultam na imigração de algumas famílias de origem britânica ao centro-sul do país. De acordo com a história oficial do futebol brasileiro dentre estas famílias de imigrantes encontrava-se a de Charles William Miller, o precursor do futebol por terras tupiniquins. Charles Miller nasceu no ano de 1874, na cidade de São Paulo. Filho de John Miller, funcionário da San Paolo (brazillian) Railway Company, Limited, era um garoto de bons recursos financeiros e por esta característica não “escapou” da tradição daquelas famílias de imigrantes que enviavam seus filhos adolescentes para receber a educação “a moda inglesa” nas mais renomadas public schools britânicas. Assim, Miller aos nove anos de idade fora matriculado no Banister Court School, em Southampton (GUTERMAN, 2009). Foi nesta cidade inglesa que Miller aprendeu a jogar o footballl association. Ao retornar ao Brasil no ano de 1894, Charles Miller trazia consigo duas bolas, dois uniformes completos, uma bomba de ar e uma agulha, entretanto mais do que isso, como destaca Mauricio Murad (1996) ele carregava um espírito bandeirante, pois, abriria todos os caminhos para implantação daquele esporte no Brasil. Miller ensinava as regras, arbitrava os jogos, organizava as pelejas, além de ser um exímio jogador de ataque. Aliás, foi ele que em abril de 1885, organizou a primeira partida oficial de futebol no Brasil. Esta partida envolveu funcionários de empresas inglesas que atuavam em São Paulo. O São Paulo Railway venceu a companhia Gazz Team pelo placar de 4 a 2, para um público de dezoito espectadores (FREITAS, 2006). Fixar-se na origem das equipes é primordial para se entender a sociogênese do futebol brasileiro. Assim como em sua origem britânica o futebol ao ser introduzido no Brasil carregava em si a ideologia do ethos amador. Nas primeiras décadas de futebol no país, só os brancos e filhos das elites econômicas atuavam em clubes e participavam, por conseguinte das ligas oficiais. Entretanto, muitos eram aqueles que pertenciam a classes sociais menos abastardas que imediatamente se apaixonaram por aquele esporte tão envolvente. Negros, operários e imigrantes pobres começaram, ”ao seu jeito”, a jogar o futebol. A elite social que praticava o esporte sabia como jogar, conheciam as regras, as jogadas, tinham as bolas e os uniformes. Já os pobres não possuíam conhecimento técnico algum e jogavam a partir de sua percepção daquele jogo. Brincavam nas ruas, com bolas de meias, tentando relembrar as posições de cada jogador. Segundo relato do jornalista Mário Filho em O negro no futebol brasileiro (2003) era imitando que operários pobres e negros começavam a desenvolver suas próprias jogadas deturpando o que viam nos nobres gramados. Apesar da segregação imposta pelas ligas oficiais um fato balizaria o campo esportivo do futebol brasileiro, a emergência do elemento operário. Era cada vez mais crescente a industrialização nas incipientes metrópoles brasileiras e concomitantemente a este desenvolvimento emergem diversos clubes formados por jogadores provenientes das fábricas. The Bangu Atlhetic Club (1904), no Rio de Janeiro, é o maior expoente deste período. Era inicio da década de 1920 e o Brasil, próximo das comemorações de seu primeiro centenário da independência, passava por um processo de reavaliação político, social e econômico. Conflitos gerados pelos avanços do mundo moderno sobre uma sociedade ainda muito marcada por características “arcaicas” influenciavam nas relações dentro do campo esportivo brasileiro. Como argumenta Pierre Bourdieu (2004) o espaço do esporte não está fechado como um universo em si mesmo, mas encontram-se imerso num universo de consumo e de práticas, eles próprios estruturados e constituídos como sistemas. De tal modo, o futebol brasileiro inicia a segunda década do século passado marcado pelas mesmas contradições e conflitos daquele período. O futebol já se tornara o esporte mais difundido no Brasil em todos os segmentos sociais. Elas [criticas e discussões acerca do futebol] sintetizam as mais importantes questões e contradições brasileiras, presente no futebol por esse ser o verdadeiro microcosmo da sociedade, ao mesmo tempo espelho e ingrediente dinâmico das transformações em curso nos tumultuados anos 1920 (FRANCO JUNIOR, 2007, p.70). Neste clima de tensões e conflitos sociais e políticos algumas ligas oficiais de futebol se desfazem. Isto, pois, para alguns clubes tradicionais o esporte era universal e seus membros entendiam que não deveriam existir barreiras sociais na prática desportiva, porém eram muito fortes os clubes que preconizavam o contrário. A liga paulista de futebol, por exemplo, foi esvaziada por clubes campeões e tradicionais como o Mackenzie e o Paulistano que não aceitavam jogar contra clubes populares como o Sport Clube Corinthians Paulista. As equipes elitistas de São Paulo contrárias a democratização do futebol e defensoras do ethos amador formaram a Associação Paulista de Esportes Atléticos, o mesmo ocorreu por onde se praticavam futebol oficialmente no Brasil (GUTERMAN, 2009). Porém, o processo de espetacularização do futebol no Brasil tomava proporções incontroláveis, sobretudo, através das ondas do rádio que se expandia. A midiatização expande o futebol por todo o território nacional. É o período caracterizado pela era do rádio que expôs os craques brasileiros decorrendo daí a criação de novos “heróis nacionais”. Além de Friedenreich e Domingos da Guia, nomes como os de Romeu Pelliciari, Luizinho, Fausto, Servilio, Zizinho, Heleno de Freitas, Brandão, Jair da Rosa Pinto, Tim, Peracio, Patesko e Ademir de Menezes eram objeto de culto pela comunhão de fies de seus respectivos clubes. E representavam uma possibilidade concreta de ascensão de membros dos grupos subalternos da sociedade brasileira (FRANCO JUNIOR, 2007, p.81). Em meio a esta conjuntura de espetacularização, ainda era tenso o conflito entre o amadorismo e o profissionalismo. Esta querela tem na vitória do Vasco da Gama, no campeonato carioca de 1923, sua faceta mais marcante no redirecionamento do desenvolvimento deste esporte no Brasil. Pela primeira vez no futebol brasileiro, um time composto exclusivamente por negros e operários, remunerados para dedicação exclusiva ao futebol, conquista uma taça sob a égide de uma liga oficial. Era um sinal dos tempos? Para Mario Filho (2003), entusiasta da miscigenação do futebol brasileiro, sim. Ele entendia que este campeonato balizaria um processo de derrubada da autonomia dos clubes formados por jogadores brancos. A ilusão durou pouco, os clubes da sociedade, como se diziam, estavam diante de um fato consumado. Não se ganhava campeonato só com times de brancos. Um time de brancos. Um time de brancos, mulatos e pretos era campeão da cidade. Contra esse time, os times de brancos não tinham podido fazer nada [...] Desaparecera a vantagem de ser de boa família, de ser estudante, de ser branco. O rapaz de boa família, o estudante, o branco, tinha de competir, em igualdade de condições, com o pé-rapado, quase analfabeto, o mulato e o preto para ver quem jogava melhor. Era uma verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro. (FILHO, 2003, p. 126). Cria-se um mito? Segundo Teixeira (2010) alguns autores como Jorge Soares entendem que sim, pois Mario Filho em suas abordagens sobre o negro e futebol reflete o ideário da democracia racial. Essa valorização da contribuição dos negros para a constituição da nação e a elevação da cultura negra à cultura nacional origina-se da obra de Gilberto Freyre. Segundo Freyre (2003) o Brasil no início do século XX sofria transformações profundas. O processo de urbanização e de industrialização 3 possibilitou o desenvolvimento de uma classe média e com a chamada Revolução de 30 o Estado passou a orientar politicamente tais mudanças na busca pelo desenvolvimento social. Com essas transformações nas relações entre cultura e Estado e o desenvolvimento de um projeto de nação as teorias raciológicas, pessimistas em sua essência, perdiam cada vez mais espaço na academia e no imaginário da sociedade brasileira. Produção sintomática desse período é o livro Casa Grande & Senzala (2003). O Gilberto Freyre produz um ensaio sobre a identidade nacional de modo a entender o Brasil como uma nação mestiça composta por elementos africanos, portugueses e indígenas. Influenciado pelo paradigma culturalista de Franz Boas, Freyre descreve a importância do negro na constituição da sociedade brasileira destacando a sua superioridade organizacional frente às outras raças e como ele foi inserido num sistema irresponsável, articulado pelos brancos colonizadores. Ao evidenciar que o negro nos aparece deformado pela escravidão o autor assinala que a população de cor só deve ser julgada pela atividade desenvolvida em sua própria cultura, pois “não era o negro, portanto, o libertino: mas o escravo a serviço do interesse econômico e da ociosidade voluptuosa dos senhores. Não era a raça inferior fonte de corrupção, mas o abuso de uma raça por outra” (FREYRE, 2003, p.375). A ambiguidade de Freyre consiste na sua visão de senhor de engenho sob as relações escravocratas, pois apesar de reconhecer a violência do sistema ele acredita que diante do complexo casa-grande e senzala haveria no Brasil uma convivência menos conflituosa entre senhores e escravos, um misto de relações afetivas que tornaram a escravidão brasileira mais “adocicada” que a de outros países: 3 O surgimento de um proletariado urbano e de novas tecnologias como o cinema, o telégrafo e o avião marcaram este período. Não que no brasileiro subsistam, como no anglo-americano, duas metades inimigas: a branca e a preta; o ex-senhor e o exescravo. De modo nenhum. Somos duas metades confraternizantes que se vêm mutuamente enriquecendo de valores e experiências diversas; quando nos completamos num todo, não será com o sacrifício de um elemento ao outro (FREYRE, 2003, p. 390). Apesar de fornecer uma explicação presa a uma identidade nacional indivisa, o que impede a tematização de interesses divergentes, não se pode negar a autenticidade de sua teoria que concebe o negro como um componente da sociedade nacional e não mais uma patologia; e que toma a experiência brasileira como um processo formado por aspectos positivos e negativos e não como um desvio do modelo europeu. Portanto, essas teorias não significaram uma ruptura com as teorias raciológicas e sim uma reinterpretação da mesma problemática que, ao direcionar o olhar sobre os costumes, transformara a negatividade do mestiço em positividade. O desenvolvimento do mito das três raças a partir desse período se faz ritual (ORTIZ, 1994) e a ideologia da mestiçagem torna-se senso comum: o carnaval e o futebol são elevados a cultura brasileira e “o que era mestiço torna-se nacional”. A crença na constituição de uma nova comunidade com sua origem na mescla entre as três raças e com um destino marcado pela ascensão social faz com que Freyre veja, também no futebol um espaço para ascensão social e reconhecimento do negro: Sublimando tanto do que é mais primitivo, mais jovem, mais elementar, em nossa cultura, era natural que o futebol, no Brasil, ao engrandecer-se em instituição nacional, engrandecesse também o negro, o descendente de negro, o mulato, o cafuzo, o mestiço. E entre os meios mais recentesisto é, dos últimos vinte ou trinta anos – de ascensão social do negro ou do mulato ou do cafuzo no Brasil, nenhum excede, em importância, ao futebol (FILHO, 2003, p.25). Desse modo, podemos observar que Mário Filho é mais um exemplo da reprodução da ideologia da democracia racial no Brasil. Segundo Soares (apud Texeira, 2010), no livro O negro no futebol brasileiro o renomado jornalista esportivo retrata a vitória do Vasco da Gama em 1923 tecendo uma narrativa nacional pautada no heroísmo dos negros e mestiços no seu processo de inserção no futebol sem levar em conta a permanência das desigualdades raciais no país bem como as tensões entre amadorismo e profissionalização dessa prática esportiva. O que tentamos demonstrar é que a “heróica” trajetória do Vasco na luta contra o racismo na década de 20 é uma tradição inventada, é uma história de identidade (Hobsbawm, 1998). Sua origem está em Mário Filho, e a continuidade dessa tradição está na boca dos aficionados pelo Vasco, na imprensa e nos textos acadêmicos que tratam a referida história. Os recortes, as ênfases, os esquecimentos são reveladores dos mecanismos de construção da memória coletiva e da identidade. Os limites entre a história social, a história das mentalidades e a história de identidade são confusos e interpenetram-se. Mas isto não significa que uma mentalidade ou identidade informe exatamente o que se passou em um determinado evento ou trama específica (SOARES apud TEXEIRA, 2010, p. 38). CONSIDERAÇÕES FINAIS Desta forma, inferimos que o surgimento do futebol no Brasil refletiu as tensões de um país que começara a entrar na modernidade e que desenvolvera uma autoimagem pautada na contribuição das três raças e na aptidão dos negros para a prática desse esporte. A Vitória do Vasco da Gama no Campeonato Carioca de 1923 foi sem dúvida um elemento precursor de uma flexibilização das tensões raciais típicas da sociedade brasileira, ainda que no campo esportivo. A maioria dos negros do Brasil não ocupavam posições nem exerciam profissões de destaque na sociedade e o futebol, portanto, se tornou uma esfera de atuação profissional, reconhecimento e fonte de renda. Entretanto, é preciso levar em conta que essa inserção do negro no futebol não diluiu, como previa Freyre, as tensões raciais presentes na realidade brasileira. Se por um lado possibilitou à população negra e mestiça um espaço de reconhecimento e afirmação por outro culminou em uma narrativa nacional pautada numa cordialidade e fraternidade entre as raças para além da esfera esportiva. Segundo José Jairo Vieira (2002) está relação está longe de ser igualitária. Brancos e pardos encontram-se em vantagem sobre os negros em que consiste no número de atletas, grau de escolaridade dos pais e dos mesmos e principalmente em relação aos salários. Pode-se afirmar então, diante desses apontamentos, que o futebol não promove como é pintada na mídia esportiva a democracia racial nem a vendida ascensão social facilitada. Pelo contrário, assinala para outra forma de opressão e racismo reproduzindo a sociedade como todo. REFERÊNCIAS BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas / Pierre Bourdieu; tradução: Cássia R. da Silveira e Denise Moreno Pegorim; revisão técnica: Paula Monteiro.- São Paulo: Brasiliense, 2004. BRUHNS, Heloisa Turini. Futebol, carnaval e capoeira: entre as gingas do corpo brasileiro. Campinas: Papirus, 2000. FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Maud, 2003. FRANCO JUNIOR, Hilário. A dança dos Deuses – futebol, sociedade, cultura. São Paulo: Companhia das letras, 2007, 448. FREITAS. Armando. O que é futebol? / Amando Freitas, Silvia Vieira; ilustrações Mariana Newlands. – rio de janeiro : casa da palavra : COB, 2006. FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala, Global Editora, 48º edição, São Paulo, 2003. _____________ “Prefácio à 1? edição”. In: FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. 4ª ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Classes, raças e democracia. São Paulo: ed.34, 2002.GUTTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil: uma historia da maior expressão popular do país. 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