Spin Momento magnético e spin do elétron O experimento de Stern-Gerlach demonstra que o elétron possui um momento magnético intrı́nseco µ ~ , cuja projeção sobre uma direção qualquer pode tomar apenas dois valores. Este ~ chamomento magnético é interpretado como associado a um momentum angular intrı́nseco S, mado spin, cujas projeções também podem assumir dois valores. Especificamente, podemos escrever ~ S (1) µ ~ = −gS µB . h̄ Nesta expressão, µB é o magnéton de Bohr, unidade natural de momento magnético atômico definida como eh̄ µB = (2) , 2m onde e é o valor absoluto da carga do elétron e m a massa do elétron. O fator adimensional gS em (1) é chamado “razão giromagética”. Para o momento magnético associado ao movimento orbital de uma carga, este fator é 1 mas, no caso do spin, a teoria quântica relativı́stica de Dirac mostra que gS = 2. Os dois valores possı́veis da projeção do spin numa direção qualquer ~n são ±h̄/2. Por “valor possı́vel”, entende-se um valor que pode ser obtido como resultado de uma medida : h̄ ~ medida ~n · S −→ = ± . 2 (3) Sabemos que, na mecãnica quântica, não podemos em geral atribuir valores bem definidos a todos os observáveis. Podemos anticipar a mesma limitação no que diz respeito às projeções do spin. Em geral, poderemos apenas especificar probabilidades de obter numa medição um ou outro dos possı́veis resultados. Estados e observáveis de spin O estado de uma partı́cula sobre uma linha é especificado por uma função complexa da posição da partı́cula. Ou seja, a cada valor da variável, associa-se um número complexo. Analogamente, no caso de uma variável “discreta”, associa-se um número complexo a cada valor da variável. No caso de uma componente do spin, digamos Sz , há dois valores possı́veis, e portanto um estado Ψ é representado por dois números complexos que podem ser convenientemente arranjados num “vetor coluna” : a Ψ= . (4) b Denotamos por Z± os vetores que representam estados nos quais a componente Sz possui valor ±h̄/2, com probabilidade 100%. Escolhemos por convenção 1 0 Z+ = ; Z− = . (5) 0 1 Podemos então escrever o estado geral (4) na forma de uma combinação linear dos estados (5) : Ψ = aZ+ + bZ− . (6) Na mecânica ondulatória de uma partı́cula, um observável é representado por uma operação atuando sobre a função de onda Ψ(x, t). Por exemplo, a posição é representada pela simples ∂ multiplicação por x. Já o momentum linear é representado pela operação diferencial h̄i ∂x . Semelhantemente, os observáveis de spin são representados por operações atuando sobre o vetor Ψ. No caso, a operação adequada é a multiplicação matricial e um observável de spin O é representado por uma matriz : α β O= , (7) γ δ onde α...δ são números complexos. 1 Para enxergar como calcular o valor esperado do observável O, lembramos a receita para o cálculo do valor esperado do momentum linear de uma partı́cula :1 Z ∞ h̄ ∂ hpi = Ψ(x)∗ Ψ(x)dx . (8) i ∂x −∞ A expressão análoga para o observável de spin O é hOi = Ψ† OΨ , (9) Ψ† = (a∗ b∗ ) . (10) onde Nota-se que a integral presente em (8) é substituida pelas somas sobre ı́ndices implicitas nos produtos matriciais. Vê-se também que a operação representada por † envolve, além da conjugação complexa, a transformação do vetor coluna num vetor linha. Isto é necessário para que o resultado do cálculo seja um simples número. O valor esperado de uma grandeza fı́sica deve ser um número real : hOi = hOi∗ . (11) hOi∗ = Ψ† O† Ψ , (12) Mas de (9), tem-se que onde O† é a matriz conjugada de O, dada por ∗ α † O = β∗ γ∗ δ∗ (13) . Comparando (12) a (9), vê-se que para que uma matriz represente um observável, ela deve satisfazer a condição O† = O , (14) ou ainda α∗ β∗ γ∗ δ∗ = α γ β δ . Assim, a matriz associada a um observável deve assumir a forma α β O= com α, δ reais. β∗ δ (15) (16) Para que a receita (8) forneça corretamente o valor médio do momentum, é necessário que a função de onda satisfaça a condição de normalização Z ∞ (17) Ψ(x)∗ Ψ(x)dx = 1 . −∞ Esta condição apenas expressa o fato que a partı́cula sempre se encontra em algum lugar e permite calcular probabilidades e valores esperados pela regra de Born. Semelhantemente, para que a receita (9) seja válida, é necessário que o vetor representando o estado de spin satisfaça a condição Ψ† Ψ = 1 , (18) ou seja, |a|2 + |b|2 = 1 . (19) A interpretação desta condição é que, se medirmos Sz , sempre obteremos um dos dois resultados possı́veis e as probabilidades associadas devem somar-se para dar a unidade. Assim, estamos atribuindo às componentes do vetor ‘Ψ a seguinte interpretação : estando o spin no estado Ψ, a probabilidade de obter o resultado +h̄/2 numa medida de Sz é |a|2 . A probabilidade de obter o resultado −h̄/2 nesta medida é |b|2 = 1 − |a|2 . 1 Para simplificar, omitimos a dependência temporal. 2 Matrizes de Pauli Na mecânica ondulatória num espaço unidimensional, uma onda plana representa uma partı́cula cujo momentum é conhecido com precisão. A aplicação do operador momentum linear a tal função de onda reproduz a própria função, multiplicada pelo valor correspondente do momentum : h̄ ∂ i(kx−ωt) (20) e = h̄k ei(kx−ωt) = p ei(kx−ωt) . i ∂x Semelhantemente, a matriz que representa Sz , quando aplicada aos vetores representando os estados Z+ e Z− , deve reproduzir estes mesmos vetores, multiplicados por +h̄/2 e −h̄/2, respectivamente : h̄ h̄ (21) Sz Z+ = + Z+ ; Sz Z− = − Z− . 2 2 É fácil convencer-se de que a matriz adequada é h̄ h̄ h̄/2 0 1 0 = σz , Sz = = 0 −h̄/2 0 −1 2 2 (22) onde σz é a (terceira) matriz de Pauli σz = 1 0 0 −1 . (23) Vale notar que σz2 = 1 0 0 1 ≡I, (24) a matriz identidade. Isto era de se esperar, pois o observável Sz2 sempre vale (h̄/2)2 . Um observável que assume o mesmo valor em qualquer estado deve ser representado por uma matriz proporcional à matriz identidade, pois esta é a matriz que, quando aplicada a qualquer vetor, reproduz este vetor identicamente. Assim, devemos ter h̄ Sz2 = ( )2 I . 2 (25) Isto é consistente com (22) e (24). O mesmo argumento vale para as outras componentes do spin. Portanto h̄ Sx2 = Sy2 = ( )2 I . (26) 2 Procuramos agora as matrizes que representam as outras componentes do spin, Sx e Sy . Não podemos esperar que estas componentes possuam valores bem definidos nos estados Z± . Apenas poderemos atribuir probabilidades aos dois valores possı́veis (±h̄/2) e calcular valores esperados. Em analogia com (22), é conveniente escrever Sx = h̄ h̄ σ x ; Sy = σ y , 2 2 (27) onde σx e σy são as outras duas matrizes de Pauli, cujas formas vamos estabelecer. De (26), já sabemos que σx2 = σy2 = I . (28) Pela isotropia do espaço, não haveria porque o valor +h̄/2 ser obtido com mais (ou menos) freqüência que o valor −h̄/2 numa medida de Sx no estado Z+ . Portanto, o valor médio de Sx neste estado deve ser nulo, ou seja, aplicando-se a regra (9) : ou ainda, usando (27) † Z+ Sx Z+ = 0 , (29) † Z+ σx Z+ = 0 . (30) Escrevendo σx na forma (16), σx = α β∗ 3 β δ , (31) deduzimos de (30) que α = 0. Pelo mesmo argumento, devemos ter † Z− σx Z− = 0 , (32) o que leva a δ = 0. Assim, (31) reduz-se a σx = 0 β∗ β 0 . A condição (28) requer |β|2 = 1. Por simplicidade, escolhemos β = 1 e acabamos com 0 1 σx = . 1 0 (33) (34) Sera útil ter ao nosso dispor os vetores que representam os estados X± nos quais Sx possui um valor bem definido. Em analogia com (21), estes vetores devem satisfazer as condições h̄ h̄ Sx X + = + X + ; Sx X − = − X − , 2 2 (35) ou ainda, σ x X+ σ x X− = + X+ ; = − X− . (36) (37) Se escrevermos X+ na forma (4) X+ = a b , (38) deduzimos de (36) √ que b = a. Escolhendo valores reais e impondo a condição (19), acabamos com a = b = 1/ 2, e 1 1 X+ = √ . (39) 1 2 Analogamente, se escrevermos X− na forma (4) a X− = , b (40) deduzimos de (37) que b = √ −a. Escolhendo de novo valores reais e impondo a condição (19), acabamos com a = −b = 1/ 2, e 1 1 √ X− = . (41) −1 2 Passamos agora a considerar o observável Sy , ou equivalentemente, σy . Os argumentos que levaram à forma (33) para σx valem para σy também, e podemos escrever 0 β σy = (42) , β∗ 0 com |β|2 = 1. Adicionalmente, o argumento que levou a (30) e (32) pode ser repetido, com σx substituido por σy e Z+ (respectivamente, Z− ) sustituido por X+ (respectivamente, X− ). Temos então as condições adicionais X+† σy X+ = 0, (43) X−† σy X− = 0. (44) Cálculos simples utilizando a forma (42) e as expressões (39) e (41) mostram que estas condições serão satisfeitas desde que β ∗ = −β. Junto com a condição |β|2 = 1, isto nos leva a β = ±i. A escolha usual é β = −i. Com isto, chegamos a 0 −i (45) σy = . i 0 4 Para completar esta discussão, ainda vamos construir os vetores que representam os estados Y± nos quais Sy possui um valor bem definido. Em analogia com (21) e (35), estes vetores devem satisfazer as condições h̄ h̄ (46) Sy Y + = + Y + ; Sy Y − = − Y − , 2 2 ou ainda, σy Y+ σy Y− = + Y+ ; = − Y− . (47) (48) Se escrevermos Y+ na forma (4) Y+ = a b , (49) deduzimos de (47) √ √ que b = ia. Escolhendo a real e impondo a condição (19), acabamos com a = 1/ 2, b = i/ 2, e 1 1 (50) Y+ = √ , i 2 Analogamente, se escrevermos Y− na forma (4) a Y− = , b (51) deduzimos √ de (48) que b√= −ia. Escolhendo de novo a real e impondo a condição (19), acabamos com a = 1/ 2, b = −i/ 2, e 1 1 Y− = √ (52) . −i 2 5 Medida do spin numa direção arbitrária A componente do spin numa direção arbitrária, especificada pelo vetor unitário ~n, é um observável descrito pela matriz ~ = h̄ ~n · ~σ . (53) ~n · S 2 com (54) ~n · ~σ = nx σx + ny σy + nz σz . Usando as expressões (23), (34) e (45) das matrizes de Pauli, obtemos 0 1 0 −i 1 0 ~n · ~σ = nx + ny + nz 1 0 i 0 0 −1 nz nx − iny = . nx + iny −nz (55) Usando coordenadas angulares (θ, ϕ) para especificar a direção ~n, ou seja, ~n = (senθ cosϕ, senθ senϕ, cosθ), podemos re-escrever (55) na forma cosθ senθ e−iϕ ~n · ~σ = . (56) senθ eiϕ −cosθ Os estados nos quais esta projeção do spin possui um valor bem definido são descritos por vetores N+ e N− satisfazendo as condições ~ + = + h̄ N+ ; ~n · SN ~ − = − h̄ N− , ~n · SN 2 2 (57) ou ainda, ~n · ~σ N+ ~n · ~σ N− = + N+ ; = − N− . (58) (59) Se escrevermos N+ na forma (4) N+ = a b , (60) = a; = b. (61) (62) obtemos de (58) as condições a cosθ + b senθ e−iϕ a senθ eiϕ − b cosθ Usando as relações trigonométricas senθ 1 + cosθ 1 − cosθ θ θ 2 sen cos ; 2 2 θ = 2 cos2 ; 2 θ = 2 sen2 , 2 = (63) (64) (65) verifica-se facilmente que as condições (61) e (62) são ambas equivalentes a θ b = a tan eiϕ . 2 (66) A outra condição a ser satisfeita pelas componentes do vetor é a condição de normalização (19) que, usando (66), fica θ |a|2 (1 + tan2 ) = 1 , (67) 2 ou θ (68) |a| = |cos | . 2 6 Dois vetores que diferem apenas por uma fase representam o mesmo estado fı́sico. Portanto, a fase do número complexo a pode ser escolhida arbitrariamente. É conveniente2 escolher θ a = cos e−iϕ/2 . 2 (69) θ b = sen eiϕ/2 , 2 (70) Temos então, por (66), e chegamos a N+ = cos θ2 e−iϕ/2 sen θ2 eiϕ/2 (71) . Semelhantemente, se escrevermos N− na forma (4) a N− = , b (72) obtemos de (59) as condições a cosθ + b senθ e−iϕ a senθ eiϕ − b cosθ = −a ; = −b . (73) (74) Usando as relações trigonométricas (63)-(65), verifica-se facilmente que as condições (73) e (74) são ambas equivalentes a θ b = − a cotan eiϕ . (75) 2 Com isto, a condição de normalização (19) fica θ |a|2 (1 + cotan2 ) = 1 , 2 (76) θ |a| = |sen | . 2 (77) θ a = −sen e−iϕ/2 . 2 (78) θ b = cos eiϕ/2 , 2 (79) ou É conveniente2 escolher Temos então, por (75), e chegamos a N− = 2 Esta −sen θ2 e−iϕ/2 cos θ2 eiϕ/2 escolha leva a expressões bem simétricas, veja (71) e (80) 7 . (80) Filtros de spin Um aparato de Stern-Gerlach cujo gradiente do campo magnético está orientado na direção ~n decompõe um feixe de partı́culas de spin 1/2 em dois. Na saida, cada um dos dois feixes ~ Se, na saida do aparato, colocarmos um absorvedor corresponde a um valor bem definido de ~n · S. ~ temos um filtro de Stern-Gerlach, que elimina o feixe que corresponde ao valor negativo de ~n · S, que representamos esquematicamente como ............................. ~n · S ~ ....+ ........................ − Um experimento tı́pico é realizado por uma sucessão de dois filtros, como representado abaixo : .....I....0.................... ~n · S ~ 1 ....+ ...................I....2. ....+ ..........................I....1....... ~n · S ~ 2 − − Antes da entrada no primeiro filtro, os átomos estão em estados desconhecidos e em geral diferentes. Por exemplo, se os átomos estão saindo de um forno, todos os estados de spin são igualmente prováveis. O primeiro filtro “prepara” os átomos num determinado estado, qual seja, ~ possui o valor bem definido +h̄/2. Este filtro é usualmente o estado no qual o observável ~n1 · S ~ Este chamado polarizador. O segundo aparato realiza então uma medida do observável ~n2 · S. aparato é usualmente chamado analisador. Como o estado antes da entrada neste aparato é conhecido, a mecânica quântica permite calcular as probabilidades associadas aos possı́veis resultados desta medida. Como há apenas dois valores possı́veis e a soma das probabilidades deve ser 1, há apenas uma probabilidade independente, por exemplo a de obter o resultado +h̄/2. Se este segundo aparato também atua como filtro, deixando passar apenas os átomos para os quais o resultado da medida é positivo (como representado na figura), a razão I2 /I1 das intensidades do feixe depois e antes da passagem pelo analisador fornecerá a probabilidade desejada. Consideramos a seguir alguns exemplos simples a) .....I....0.................... ....+ .......................I....1....... Sx ... Sz ....+ ....................I....2. − − Na saida do polarizador, os átomos estão no estado (39), que pode ser escrito na forma 1 1 1 1 1 0 X+ = √ +√ = √ Z+ + √ Z− . (81) 0 1 2 2 2 2 A probabilidade de obter o resultado +h̄/2 numa medida de Sz neste estado é dada pelo módulo quadrado do coeficiente de Z+ na expressão acima [Veja a discussão seguindo a equação (19)], ou seja I2 1 1 = | √ |2 = . (82) I1 2 2 Evidentemente, este resultado era esperado dada a simetria da situação, que aliás já foi explorada para montar as matrizes que representam as componentes do spin. Generalizando este exemplo, podemos estipular o procedimento a ser seguido em geral : expandir o vetor que representa o estado preparado como uma combinação linear dos vetores associados aos possı́veis resultados da medida. Nesta expansão, o módulo quadrado do coeficiente que multiplica o vetor que representa o estado selecionado pelo analisador fornece a probabilidade de passagem do átomo pelo analisador. 8 b) .....I....0.................... Sx ....+ ..........................I....1....... + Sz ....− ....................I....2. − Este caso é semelhante ao anterior. Na saida do polarizador, os átomos estão no estado (81). A probabilidade de obter o resultado −h̄/2 numa medida de Sz neste estado é dada pelo módulo quadrado do coeficiente de Z− na expressão (81), ou seja 1 I2 1 = | √ |2 = . I1 2 2 (83) De novo, este resultado era esperado. c) .....I....0.................... Sz ....+ ..........................I....1....... Sx ....+ ....................I....2. − − Este caso difere de (a) apenas pela troca x ⇔ z, portanto também deve levar ao mesmo resultado. Na saida do polarizador, os átomos estão no estado Z+ [veja (5)]. Para calcular probabilidades, precisamos expandir este vetor em termos daqueles que descrevem estados com valores bem definidos da quantidade medida pelo analisador. Estes vetores são X+ e X− . Escrevemos portanto 1 1 1 1 1 1 1 1 1 Z+ = =√ ×√ +√ ×√ = √ X+ + √ X − . (84) 0 1 −1 2 2 2 2 2 2 A probabilidade de obter o resultado +h̄/2 numa medida de Sx neste estado é dada pelo módulo quadrado do coeficiente de X+ na expressão acima, ou seja I2 1 1 = | √ |2 = . I1 2 2 d) .....I....0.................... Sz ....+ .........................I....1....... (85) ... ... .. ....+ .......................I....2........... Sx ... ... ... .. .. − + Sz ....− ...................I....3. − Este caso é meramente a combinação dos casos (c) e (b). Portanto, usando os resultados relativos a estes casos, obtemos I3 I3 I2 1 1 1 = × = × = . (86) I1 I2 I1 2 2 4 e) .....I....0.................... Sz ....+ .........................I....1....... + Sz − ....− ....................I....3. Este caso difere do anterior pela remoção do filtro intermediário. Na saida do polarizador, os átomos estão no estado Z+ . Os vetores que descrevem estados com valores bem definidos da quantidade medida pelo analisador são Z+ e Z− . Escrevemos portanto trivialmente Z+ = 1 Z+ + 0 Z− . (87) A probabilidade de obter o resultado −h̄/2 numa medida de Sz neste estado é dada pelo módulo quadrado do coeficiente de Z− nesta expressão, o qual é nulo ; portanto I3 =0. I1 9 (88) Assim, a remoção do filtro intermediário não resultou numa maior probabilidade de passagem dos átomos pelo dispositivo. Pelo contrário, na ausência do filtro, a passagem é impossı́vel, mas com o filtro intermediário adicional, ela se torna possı́vel. Embora este comportamento contradiz a ideia usual de filtro de partı́culas, ele é semelhante ao dos filtros polaróide utilizados para fabricar óculos de sol. Aliás, a descrição matemática do spin 1/2 é essencialmente idêntica à da polarização da luz. .....I....0.................... ~n · S ~ f) ....+ ..........................I....1....... + ....+ ...................I....2.. − ....− ...................I....2.. Sz − Aqui, o analisador não atua como filtro, apenas separa o feixe em duas partes, cada uma delas correspondendo a um valor bem definido de Sz . Podemos utilizar este dispositivo para investigar o valor médio de Sz no estado preparado pelo polarizador. Este valor médio é dado em termos das intensidades medidas por hSz i = + h̄ I2− h̄ I2+ − . 2 I1 2 I1 (89) O estado preparado pelo polarizador é N+ , dado por (71), cuja expansão em termos dos vetores associados à medida realizada pelo analisador é θ θ N+ = cos e−iϕ/2 Z+ + sen eiϕ/2 Z− . 2 2 A regra geral para o cálculo das probabilidades fornece então I2+ I1 I2− I1 = |cos θ2 e−iϕ/2 |2 = |sen θ2 eiϕ/2 |2 (90) θ ; 2 θ = sen2 , 2 = cos2 (91) (92) e obtemos h̄ h̄ θ h̄ θ hSz i = + cos2 − sen2 = cosθ . (93) 2 2 2 2 2 Um procedimento alternativo seria de utilizar a regra (9) para calcular diretamente o valor esperado, sem passar pelo cálculo das probabilidades : 1 0 h̄ cos θ2 e−iϕ/2 † θ iϕ/2 θ −iϕ/2 N + Sz N + = cos 2 e sen 2 e 0 −1 sen θ2 eiϕ/2 2 h̄ cos θ2 e−iϕ/2 = cos θ2 eiϕ/2 sen θ2 e−iϕ/2 −sen θ2 eiϕ/2 2 h̄ h̄ θ θ = (cos2 − sen2 ) = cosθ . (94) 2 2 2 2 Os valores esperados das outras componentes do spin podem ser analisadas de maneira análoga. Explicitamente : 0 1 h̄ cos θ2 e−iϕ/2 † θ iϕ/2 θ −iϕ/2 N + Sx N + = cos 2 e sen 2 e 1 0 sen θ2 eiϕ/2 2 h̄ sen θ2 eiϕ/2 = cos θ2 eiϕ/2 sen θ2 e−iϕ/2 cos θ2 e−iϕ/2 2 h̄ θ θ h̄ = sen cos (eiϕ + e−iϕ ) = sinθ cosϕ . (95) 2 2 2 2 N+† Sy N+ = = = cos θ2 e−iϕ/2 e e sen θ2 eiϕ/2 −i sen θ eiϕ/2 h̄ θ iϕ/2 θ −iϕ/2 2 cos 2 e sen 2 e i cos θ2 e−iϕ/2 2 θ θ h̄ h̄ sen cos (−ieiϕ + ie−iϕ ) = sinθ senϕ . 2 2 2 2 h̄ 2 cos θ2 iϕ/2 sen θ2 10 −iϕ/2 0 −i i 0 (96) Vê-se de (95), (96) e (94) que os valores médios das componentes do spin no estado no qual a projeção do spin sobre a direção ~n possui o valor bem definido +h̄/2 são iguais às componentes de um vetor de módulo h̄/2 orientado na direção ~n. Evolução do estado de um spin Como sabemos, a evolução da função de onda de uma partı́cula obedece à equação de Schrödinger dependente do tempo que, no caso de uma partı́cula num potencial V (x), num espaço unidimensional, pode ser escrita na forma ih̄ ∂ Ψ(x, t) = HΨ(x, t) , ∂t (97) onde h̄2 ∂ 2 + V (x) (98) 2m ∂x2 é a representação operatorial da energia total. Este observável é usualmente chamado “Hamiltoniano”, reservando-se a palavra “energia” para um possı́vel valor numérico obtido como resultado da sua medida. Na verdade, a equação de Schrödinger dependente do tempo descreve a evolução temporal do estado de qualquer sistema quântico, bastando adaptar o modo de especificar o estado Ψ e o Hamiltoniano H ao caso particular considerado. No caso de um spin 1/2, o estado Ψ é especificado por um vetor coluna de dois elementos e o Hamiltoniano H por uma matriz Hermitiana 2 × 2. A equação pode ser escrita d (99) ih̄ Ψ = HΨ , dt onde a operação presente do lado direito é a multiplicação matricial. Não há necessidade de utilizar uma derivada parcial, já que o tempo é a única variável contı́nua na equação. Como a equação de evolução é uma equação diferencial de primeira ordem no tempo, bastará especificar o vetor de estado num instante dado (por exemplo, t = 0) para poder calcular o estado do sistema em qualquer tempo ulterior (ou anterior). Vale ressaltar que a equação de Schrödinger descreve a evolução dinâmica do sistema entre medidas. Tipicamente, uma medida será realizada para preparar o sistema num determinado estado inicial Ψ(0). A equação de Schrödinger será então integrada para obter o estado Ψ(t) num instante t qualquer. Este estado será utilizado para calcular probabilidades de obter cada um dos possı́veis valores numa medida de um dado observável, realizada no instante t. ~ uniComo ilustração, consideraremos a evolução de um spin 1/2 num campo magnético B ~ forme e constante. Como vimos, ao spin S está associado um momento magnético µ ~ pela relação H=− ~, µ ~ = γS (100) onde o fator γ depende do tipo de partı́cula considerada. Para o elétron, γe = −2 µB . h̄ (101) Para o próton, o sinal é positivo e o magnéton de Bohr é sustituido pelo magnéton nuclear, µN = eh̄ , 2mp (102) onde mp é a massa do próton. Além disto, há um fator extra devido ao fato de o próton não ser uma partı́cula elementar. Este fator deve ser determinado fenomenologicamente, ou deduzido de algum modelo da estrutura do próton (tal como o modelo de quarks). Contudo, γp = 2 µN × 2, 793 . h̄ (103) Apesar de não possuir carga elétrica, o nêutron também possui momento magético oriundo da sua estrutura interna. No caso, µN γn = −2 × 1, 913 . (104) h̄ 11 A energia de interação de um momento magnético com um campo uniforme e constante é dada por ~ . (105) E = −~ µ·B O Hamiltoniano quântico é obtido desta expressão substituindo-se o momento magnético clássico por seu homólogo quântico. Usando (100), temos então ~ ·B ~ . H = −γ S (106) É conveniente escolher o eixo Oz alinhado com o campo magnético, de maneira que H = −γ B Sz = ω Sz , (107) onde B é o módulo do campo e introduzimos ω = −γ B . (108) Vale notar que esta quantidade possui unidade de inverso de tempo, ou seja, freqüência. Escrevendo o vetor de estado na forma (4), com a e b funções do tempo, e usando (107) e (22), a equação (99) toma a forma h̄ω h̄ω d 0 a a a 2 2 ih̄ = . = (109) b b 0 − h̄ω − h̄ω dt 2 2 b Isto resulta em duas equações separadas, uma para cada componente do vetor : d h̄ω a = a; dt 2 d h̄ω ih̄ b = − b . dt 2 (110) ih̄ (111) A integração é imediata : a = a0 e−iωt/2 ; b = b0 eiωt/2 , (112) (113) onde as constantes de integração a0 , b0 são as componentes do vetor de estado inicial : a0 Ψ(0) = . b0 (114) Chegamos então a Ψ(t) = a0 e−iωt/2 b0 eiωt/2 . (115) Inserindo as soluções (112)-(113) na expansão geral (6), podemos também escrever no vetor de estado no instante t na forma Ψ(t) = a0 e−iωt/2 Z+ + b0 eiωt/2 Z− . (116) Desta expressão, vê-se que se Ψ(0) = Z+ , então Ψ(t) = e−iE+ t/h̄ Z+ , (117) com E+ = h̄ω/2. Semelhantemente, se Ψ(0) = Z− , então Ψ(t) = e−iE− t/h̄ Z− , (118) com E− = −h̄ω/2. Por analogia com a discussão das soluções da equação de Schrödinger para o movimento de uma partı́cula no espaço unidimensional, vê-se que (117) e (118) são os estados estacionários do sistema, com E+ e E− os dois possı́veis valores da energia, que são iguais aos possı́veis valores de Sz , multiplicados por ω. Dada a forma (107) do observável associado à energia, isto era de se esperar. 12 A preparação do estado inicial pode ser realizada utilizando-se um polarizador com o gradiente do seu campo orientado numa direção ~n. Se o polarizador atua como filtro, selecionando o valor +h̄/2, o estado inicial é cos θ2 e−iϕ/2 (119) , Ψ(0) = N+ = sen θ2 eiϕ/2 e, por (115), o estado no istante t é Ψ(t) = cos θ2 e−i(ϕ+ωt)/2 sen θ2 ei(ϕ+ωt)/2 (120) . Este estado difere do estado inicial pela substituição ϕ → ϕ + ωt. Fazendo a mesma substituição em (95), (96) e (94), podemos escrever os valores médios das componentes do spin neste estado na forma hSx i = hSy i = hSz i = h̄ senθ cos(ϕ + ωt) ; 2 h̄ senθ sen(ϕ + ωt) ; 2 h̄ cosθ . 2 (121) (122) (123) Vê-se que o valor médio do spin realiza um movimento de precessão em torno da direção do campo magnético – escolhida com eixo Oz – com velocidade angular ω. Isto é a realização quântica da precessão de Larmor, bem conhecida na eletrodinâmica clássica. Um processo quântico tı́pico envolve basicamente três etapas : 1. a preparação do sistema num determinado estado inicial ; 2. a evolução do sistema sob a sua dinâmica própria ; 3. a medida de um observável. A mecânica quântica permite calcular as probabilidades de obter cada um dos resultados possı́veis na medida final. Como ilustração, consideramos o sistema representado abaixo. .....I....0................... v Sy ....+ ...............................I....1............. ...................... − B Sx ....+ ....................I....2. − L Supomos que os átomos do feixe possuem velocidade v. Na região entre o polarizador e o analisador, há um campo uniforme e constante orientado paralelamente ao feixe, cuja direção de propagação escolhemos como eixo Oz. O polarizador está orientado na direção Oy e seleciona átomos com Sy = h̄/2. O analisador está orientado na direção Ox e também atua como filtro, deixando passar os átomos com Sx = h̄/2. A distância entre o polarizador e o analisador é L. Escolhemos como t = 0 o instante de saida do átomo do polarizador. Temos então [veja (50)] 1 1 Ψ(0) = Y+ = √ . (124) i 2 Seja t o instante de entrada do átomo no analisador, dado por t = L/v. Por (115), com o estado inicial dado por (124), o estado em t é −iωt/2 1 e Ψ(t) = √ . (125) ieiωt/2 2 Precisamos expandir este vetor em termos dos vetores associados aos possı́veis resultados da medida realizada pelo analisador, quais sejam X+ e X− , dados por (39) e (41), respectivamente. É facil verificar que 1 −iωt/2 1 1 1 1 1 (e + ieiωt/2 ) √ + (e−iωt/2 − ieiωt/2 ) √ Ψ(t) = 1 −1 2 2 2 2 1 −iωt/2 1 = (e + ieiωt/2 )X+ + (e−iωt/2 − ieiωt/2 )X− . (126) 2 2 13 A probabilidade de passagem do átomo pelo analisador é dada pelo módulo quadrado do coeficiente de X+ nesta espansão ; portanto 1 1 I2 = | (e−iωt/2 + ieiωt/2 )|2 = ( 1 − senωt ) . I1 2 2 (127) Lembramos que γBL . (128) v Do resultado (127), podemos ver que haverá transmissão completa do feixe pelo analisador se os parâmetros do sistema forem tais que ωt = − γBL π = + 2πn, com n inteiro . v 2 (129) O feixe será inteiramente cortado pelo analisador caso γBL 3π = + 2πn, com n inteiro . v 2 14 (130)