GREVE Advogado avalia papel do A recente disputa entre os empregados e a direção da Caixa Federal em torno da legalidade ou não do desconto dos dias parados na greve de 2008, monopolizou o debate na categoria. No Rio Grande so Sul, a Federação dos Bancários ingressou com diversas ações judiciais até garantir a devolução dos valores descontados dos empregados. Nesta entrevista, o assessor da FEEB/RS e da ABU, advogado Milton Fagundes, mostra as armas que foram utilizadas neste confronto e avalia em que momentos a luta sindical pode se transferir para o Judiciário. 2ª Via - Qual foi a justificativa da Caixa para efetuar o desconto? Milton Fagundes - A Caixa faz uma curiosa interpretação sobre o que está escrito na cláusula da Convenção, que tratou sobre os dias de greve. Ela diz que “não deverá haver desconto nos salários” e que “haverá compensação até o dia 15 de dezembro”. Para a Caixa é como se estivesse escrito que “não deverá haver desconto nos salários”, desde que haja integral compensação dos dias de greve. Porém, não é isso que está escrito no Acordo. O equívoco desta interpretação é tão gritante, que abre a possibilidade de se pensar que o que a empresa queria, efetivamente, era punir os grevistas. 2ª Via - Qual a tese defendida pela Federação? Fagundes - O que a Federação sustentou no Tribunal – e foi a tese acolhida pelo Mandado de Segurança – é que o princípio é o não-desconto. Isto está escrito na Convenção de forma que não deixa muita margem para dúvida. 2ª Via - Quais os instrumentos judiciais utilizados no processo? | 2 | FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 Fagundes - Em novembro, ajuizamos uma ação na 17ª Vara do Trabalho de Porto Alegre, com validade para todo o Estado, pedindo “liminar” para impedir que a Caixa concretizasse o que já estava escrito na CI 107, isto é, descontar dos salários os dias não compensados. Como a juíza do processo não considerou urgente o nosso pedido, a Federação foi obrigada a impetrar um Mandado de Segurança no TRT e, no apagar das luzes do dia 19 de janeiro, foi deferida a liminar mandando a Caixa não efetuar o desconto. Embora a empresa tenha sido notificada na mesma noite do dia 19, ainda assim o desconto foi efetuado e, quase uma semana depois, o dinheiro não havia sido devolvido aos empregados. Por isso, voltamos à 17ª Vara do Trabalho e pedimos que a juíza determinasse uma multa diária no valor de R$ 1 mil por empregado atingido, caso não houvesse a devolução dos descontos em 48 horas. Com esta determinação judicial, a Caixa foi “sensibilizada” a devolver os descontos indevidamente efetuados nos salários dos grevistas. 2ª Via - Na sociedade dividida em classes, existe uma disputa permanente entre os interesses dos Judiciário na luta sindical trabalhadores e o dos patrões. Para ter mais força na mesa de negociações, os trabalhadores se organizam em sindicatos. Assim, coletivamente, podem utilizar diversas ferramentas de pressão, como greves, denúncias e ações judiciais. Nos últimos anos, porém, os sindicatos têm priorizado o Judiciário na solução de conflitos trabalhistas. Por que isso está ocorrendo? Fagundes - A utilização cada vez mais freqüente do Judiciário na luta sindical tem uma razão concreta. Estamos passando por um período muito difícil da organização dos trabalhadores para a conquista de direitos. O empregado e a empregada vivem o seguinte dilema: ouvir o chamado do Sindicato e participar da luta pela conquista de direitos ou ficar “na sua” para não correr riscos de perder o emprego, esperando que o seu desempenho pessoal seja reconhecido pela chefia. O representante do patrão sempre tem uma oportuna vantagenzinha a oferecer para quem não adere à luta sindical. Enquanto o movimento sindical procura alternativas para este dilema, a ação dos sindicatos corre o risco de desfigurar... Neste sentido, um passo importante para todo o sindicalismo seria a luta pela regulamentação da Convenção 158 da OIT, que não permite a demissão de empregados, sem que haja um motivo justo. Esta é uma boa causa, que pode unir todos os sindicatos brasileiros. Do contrário, continuaremos com lutas massivas apenas nos bancos públicos. “O Judiciário deve ser utilizado para assegurar direitos já existentes. A conquista de novos direitos depende da luta sindical.” 2ª Via - Quando, na sua opinião, é indispensável a intervenção do Judiciário? Fagundes - O momento em que o Judiciário é indispensável depende da situação específica. Porém, um critério me parece ser fundamental: a Justiça deve entrar em cena para ser um instrumento auxiliar da luta, e não o centro. Um exemplo é quando os bancos utilizam subterfúgios, como os interditos proibitórios, para impedir que seus empregados exerçam o direito de greve. Aí então o Judiciário tem que entrar em cena. Outro caso é quando o empregador dá uma interpretação esdrúxula a um direito previsto na Lei ou em Acordo Coletivo, como ocorreu com os descontos salariais da Caixa . Também aí é razoável chamar o Judiciário para que interprete o que está escrito. Em síntese, considero que o Judiciário deve ser utilizado para assegurar direitos já existentes. A conquista de novos direitos depende da luta sindical. FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 | 3 | MUNDO DO TRABALHO Em defesa dos empregos e direitos doria e manutenção A fusão dos bancos dos direitos, obserItaú e Unibanco é mais vando as condições uma ameaça de demismais vantajosas. A sões na categoria. Os resposta dos banpresidentes dos dois queiros foi lacônica. bancos se negam a forAssumiram o commalizar suas promessas promisso de criar um de que o processo de centro de realocação fusão não implicará na para funcionários exeliminação de postos cedentes de áreas em de trabalho. que haja sobreUma Campanha Naposição de funções. cional de Proteção ao Eles também acenaEmprego, lançada pela ram positivamente Confederação Nacional para a proposta de dos Trabalhadores no criação de um proRamo Financeiro grama de antecipa(Contraf/CUT), denuncia o impacto das fusões na categoria. sado, o movimento sindical apresentou ção de aposentadorias. O programa funEm São Paulo, cerca de 400 emprega- um conjunto de reivindicações. Entre cionaria na forma de incentivos para trados dos centros administrativos do elas, a aplicação da Convenção 158 balhadores que estejam próximos da Santander e do Real foram demitidos da Organização Internacional do Traba- aposentadoria, abrindo espaço para ouneste início de ano. O HSBC cortou 100 lho, o fim imediato das demissões e das tros bancários. Ressaltaram, porém, que postos de trabalho e o Unibanco já co- horas-extras, a manutenção das agên- não existe nenhum estudo sobre o memeçou a dispensar trabalhadores que cias, a ampliação do quadro de funcio- lhor formato e impacto da medida na retornam da licença-saúde. nários, plano de incentivo à aposenta- manutenção de postos de trabalho. Mas nenhum compromisso foi forO mais absurdo é ver os banmalizado no papel. queiros usando a crise internaA fusão entre Itaú e cional para justificar as demisConvenção 158 é proteção Unibanco criou a maior instituisões. “Os bancos brasileiros não para todos os trabalhadores ção financeira do Brasil e do Hesofreram nenhum impacto com misfério Sul, e uma das 20 maia crise. Pelo contrário, continuA Convenção 158 da Organização Internacional do Traores do planeta, segundo dados am com os lucros astronômicos balho (OIT) é um tratado internacional para coibir a disdivulgados pelos dois bancos. O e com grande liquidez, foram pensa imotivada. Nos países signatários, as empresas pretotal de ativos combinado é de beneficiados pela liberação dos cisam demonstrar o motivo da demissão. Quando a motimais de R$ 575 bilhões, ultracompulsórios, mantêm a covação for econômica, tecnológica ou estrutural, a empresa passando o Banco do Brasil (R$ brança dos maiores juros do plaé obrigada a negociar previamente com os sindicatos a 403,5 bilhões) segundo dados neta, aumentaram os spreads e realocação do pessoal. Se os procedimentos previstos na do Banco Central, em junho. cobrem com folga a folha de paConvenção não forem observados, o trabalhador pode pleiNão é possível que uma gamentos com a cobrança de tear sua reintegração na Justiça do Trabalho. união lucrativa e decidida de cotarifas”, critica Miguel Pereira, A Convenção 158 já vigorou no Brasil entre janeiro de 1996 e novembro de 1997, quando foi denunciada pelo mum acordo entre as empresas dirigente da Contraf/CUT. governo FHC. A luta pela revogação da denúncia é uma resulte em prejuízos para seus Em negociação com o Itaú e das prioridades da CUT e da Contraf. funcionários. Unibanco, no final do ano pas- EXPEDIENTE Informativo da Associação dos Bancários Unificados das Regiões de Novo Hamburgo e Vale do Caí. Reúne sindicatos filiados à CUT. Rua João Antônio da Silveira, 885 - Centro/NH. Fone (51) 3594-5418 (Novo Hamburgo) e (51) 3632-5055 (Montenegro) - www.bancariosunificados.org.br [email protected]. Coletivo de Comunicação: Cláudio Tenório, Everson Gross e Joey Farias. Editora Verdeperto. Edição: Zaira Machado (RJP 7812). Diagramação e Ilustrações: Mario Guerreiro. | 4 | FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 Histórico de fusões é motivo de preocupação O histórico do Itaú é de tirar o sono dos trabalhadores. Em processos anteriores de fusão ou compra de outras instituições, o banco foi extremamente agressivo nas demissões e retirada de direitos. O maior exemplo foi o seu papel na privatização de bancos estaduais. Entre 1997 e 2001, o Itaú comprou o Banerj, Bemge, Banestado e BEG, sempre com a promessa de que os empregos seriam mantidos. Mas a realidade foi muito diferente. Em 1996, o Itaú tinha 31,3 mil empregados e, em 2003, depois de comprar quatro instituições, que somavam 27,7 mil funcionários, o Itaú tinha apenas 11,2 mil empregados a mais. Na compra da operação do BankBoston no Brasil, o problema foi a perda de direitos, como a gratuidade do plano saúde e sua abrangência. A fusão entre Unibanco e Banco Nacional, em 1995, também resultou na eliminação de postos de trabalho. Entre 1994 e 1995, o quadro de funcionários do Unibanco pulou de 17 mil para 28 mil. Nos anos seguintes, esse número caiu até alcançar os mesmo 17 mil trabalhadores de antes da fusão: uma redução de 39%. BB/BV Bom pra quem? “É como se eu vendesse minhas dívidas para o Banco do Brasil, mas continuasse decidindo, todo o final de mês, o que fazer com o meu salário”, ironiza o diretor de Comunicação da Associação dos Bancários Unificados, Joey de Farias. Ele se refere à aquisição de 49,99% do capital votante e 50,01 das ações preferenciais do Banco Votorantim pelo Banco do Brasil. O BV é o terceiro maior banco privado do País e sétimo em volume de ativos. O negócio, envolvendo R$ 4,2 bilhões, obrigou o BB a emitir dívida no mercado financeiro para restabelecer um patamar confortável de capital que dê suporte à expansão de sua carteira de crédito. Formalmente, ele ganharia com a ampliação do crédito para empresas e pessoas físicas, sobretudo financiamentos de veículos. Na prática, porém, a transação faz cair ainda mais o chamado Índice de Basiléia (indicador da solvência dos bancos), que encerrou o ano em 12,5%, próximo ao mínimo legal, fixado em 11%. Votorantim compra Aracruz com ajuda do BNDES O controle da papeleira Aracruz Celulose agora está nas mãos do grupo Votorantim. Após um investimento de R$ 5,4 bilhões, a Aracruz será incorporada à Votorantim Papel e Celulose (VCP). A compra só foi possível devido à ajuda dada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O banco fará um subsídio de R$ 2,4 bilhões para a VCP, o que corresponde a mais de 40% do valor do negócio. Esta é a segunda grande ajuda, com recursos públicos, que o grupo Votorantim recebe este ano. O primeiro foi a compra de pouco menos de 50% de suas ações pelo Banco do Brasil. Agora, o BNDES, que já detinha 12,5% do capital votante da Aracruz e uma pequena participação na VCP, irá integrar o bloco controlador da empresa, com 26% do seu capital total. O grupo Votorantim terá pouco mais de 29% das ações. Com a compra, a VCP se torna a maior fabricante mundial de celulose de fibra curta, obtida a partir do eucalipto. Esta notícia movimentou a Bolsa de Valores em São Paulo, fazendo com que as ações ordinárias da Aracruz subissem mais de 100%. Fonte: Radioagência NP SETOR FINANCEIRO Crise já fechou 280 mil vagas no mundo Perda dos bancos que apostaram na especulação financeira já chega a 1,1 trilhões de dólares. Socorro trilionário dos governos às instituições tenta evitar o colopso da economia mundial, mas não garante a manutenção dos postos de trabalho. Em consequência da crise, 280 mil vagas foram fechadas no setor nos últimos meses. Mesmo instituições sólidas de países que, acreditava-se, estavam imunes às oscilações do mercado, foram arrastadas para o fundo do poço. É o caso do UBS, banco suíço que apresentou o maior rombo da história corporativa daquele país. Mesmo sem saber o tamanho do rombo, quando ou como a crise será debelada, alguns bancos já anunciam lucro para 2009. Sobre a reativação dos postos de trabalho, porém, nem banqueiros nem governos arriscam comentar. FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 | 5 | CRI Capitalismo finan Críticos incondicionais da intervenção regulamentadora do Estado na economia, bancos dev PARA ENTENDER A CRISE Primeiro, as instituições financeiras emprestaram dinheiro para quem não podia pagar. Depois, venderam títulos rastreados por “pacotes” da dívida, sem levar em conta o risco de inadimplência. Quanto o calote veio, a maior economia do mundo entrou em pânico, obrigando o governo a injetar bilhões de dólares na tentativa de impedir que todo o sistema desmorone Pessoas que não têm renda, garantias ou história de crédito para provar confiabilidade e receber financiamento. | 6 | FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 PASSO-A-PASSO MENOS INFLAÇÃO, MENOS JUROS, MENOS LUCRO - As políticas monetárias da década 80 causaram uma séria recessão na economia estadunidense e, com ela, uma grande queda na inflação. A inflação baixa, fez com que o banco central (Federal Reserve) mantivesse, durante os anos 90, taxas de juros básicas também baixas. Os juros baixos, por sua vez, reduziram os ganhos das instituições financeiras nas aplicações tradicionais. MAIS RISCOS, MAIS LUCROS - Com a desregulamentação financeira e a globalização, a competição se intensificou. Os bancos e financeiras passaram a buscar novos mercados que prometessem mais lucros, ainda que mais arriscados. FILÃO DOS EMERGENTES - Nos anos 90, emprestar dinheiro a países emergentes parecia um bom negócio, mas uma sucessão de crises mostrou que esses mercados não são suficientemente grandes para sustentar a lucratividade de um enorme sistema financeiro como o norte-americano. MERCADO PROMISSOR - Muito mais promissor era o mercado de financiamento imobiliário dos próprios Estados Unidos, onde o estoque de hipotecas chega perto dos 10 trilhões de dólares, sendo a metade com suporte de empresas paraestatais. DINHEIRO PARA TODOS - Mas como o mercado imobiliário tem um crescimento lento, as instituições financeiras foram em busca de novas fronteiras. Assim, os empréstimos foram abertos aos tomadores chamados de sub-prime. Mesmo em um país desenvolvido, como os Estados Unidos, essas pessoas são, potencialmente, um enorme mercado, e mui- to mais lucrativo, já que, oferencendo mais “risco”, teriam de pagar juros maiores. ECONOMIA ESTÁVEL - Do final dos anos 80 até 2006, a economia dos Estados Unidos permaneceu estável e o emprego crescente ou estabilizado na maior parte do tempo. Mesmo quem não tinha emprego fixo e que, no passado, era considerado de “alto risco”, aparecia nas estatísticas com uma renda estável. Para disfarçar o risco que as hipotecas subprime representavam, foi usado um processo chamado de securitização. CANTO DA SEREIA - Para convencer pessoas sem renda fixa a se endividar, as financeiras usaram muito artifícios, como cobrar juros baixos no começo e aumentá-los drasticamente depois de algum tempo. Foi exatamente isso que começou a acontecer. CALOTE INEVITÁVEL - No final de 2006, quando os juros começaram a ser reajustados, a economia dos Estados Unidos entrou em declínio, com reflexos diretos na renda de quem dependia do trabalho informal. O calote se tornou inevitável, mostrando que os empréstimos haviam sido feitos com base numa visão otimista demais da capacidade de pagamento do segmento subprime. CRISE (1ª PARTE) - Quando os tomadores de empréstimo pararam de pagar as hipotecas, os investidores que haviam comprado títulos lastreados por elas perceberam que era preciso passálas adiante o quanto antes. Como todos queriam vender, o preço despencou. Resultado: Os títulos ficaram sem liquidez, valendo menos do que quando foram comprados. CRISE (2ª PARTE) - A crise se encaminhou para o pior cenário. Quem comprou ISE nceiro é insaciável voram o dinheiro público e continuam naufragando. títulos lastreados em hipotecas percebeu que não só não receberia os “dividendos” como sequer conseguiria revender os papéis sem um pesado prejuízo. Quanto mais tentavam vender, mais eles se desvalorizavam, contagiando outras aplicações. CRISE (3ª parte) - Em cadeia, todos os títulos começaram a desabar, provocando uma “crise patrimonial” nos bancos e financeiras, que haviam comprado pa- péis lastreados em hipotecas subprime. Com a desvalorização destes títulos, os passivos (obrigações a pagar) se tornaram maiores do que os ativos (créditos a receber). E como quase todas as instituições financeiras norte-americanas fizeram esse tipo de investimento, a crise se generalizou. Em insolvência, muitas faliram ou chegaram bem perto disso. PÉ ATRÁS - A situação das instituições financeiras aumentou a desconfiança e o medo com relação a todas, pois em uma situação de crise generalizada ninguém pode prever qual será a bola da vez. Mesmo as instituições sobreviventes se retraíram, reduzindo os financiamentos para consumo e para o setor produtivo. Sem crédito, os consumidores deixaram de comprar e sem capital de giro as empresas começaram a produzir menos. A economia real desacelerou, o desemprego cresceu e o risco de recessão se instalou. TODO MUNDO EM PÂNICO - Nem a euforia que acompanhou a posse de Barak Obama aumentou a confiança da sociedade. A economia estadunidense continua descendo a ladeira. Além disso, a percepção de que a crise é muito mais grave do que se imaginava vem se espalhando pelo mundo. O objetivo é deter o pânico, para, então, adotar medidas mais duráveis, que coíbam no futuro os excessos da liberalização financeira que dominou os anos 80. ALARME, PÂNICO E LOUCURA Tudo como antes no quartel de Abrantes No final do século 19, foi publicado um livro na Inglaterra chamado Lombard Street, em que se discutiu pela primeira vez o que fazer no caso de crises bancárias. Seu autor, Walter Bagehot, previu que uma crise como essa passa por três fases: o alarme, quando o público percebe que uma ou outra instituição está fragilizada e pode quebrar, o pânico, quando se desconfia que todo ou quase todo o sistema financeiro pode estar abalado, e a loucura, quando cada um se convence que não há mais saída e é o salvese quem puder. Nesse esquema, os Estados Unidos, e, a partir dali, o mundo todo, podem estar no limiar entre o pânico e a loucura. Há muito tempo não se vivia uma situação tão perigosa e de desdobramento tão incerto. Para saber mais Contratos de hipotecas são agrupados e vendidos para fundos de investimento, bancos, empresas, investidores privados etc. Quem compra não sabe exatamente o que está comprando. O passo-a-passo da crise foi baseado no artigo Pequeno Guia Para Entender a Crise Financeira, de Fernando Cardim de Carvalho, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicado no saite do Ibase e reproduzido na nossa página. Leia o texto, na íntegra, acessando www.bancariosunificados.org.br. FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 | 7 | A crise é * *Letra da Música “Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)”, de Gonzaguinha “Pelo que dizem os economistas, o trabalho é o único preço que não muda nas coisas. Entretanto, nada é mais ocasional e nem está sujeito a maiores flutuações do que o preço do trabalho. Assim como a divisão do trabalho aumenta a produtividade, a riqueza e o requinte da sociedade, ele empobrece o trabalhador e transforma-o em máquina. Mesmo que o trabalho provoque a acumulação A primeira leitura da crise é desvendar suas causas e não se confundir com as conseqüências. A insolvência dos papéis derivados do crédito imobiliário estadunidense foi o estopim da crise, mas não necessariamente sua causa. Institutos de pesquisa econômica dos EUA já apresentavam indícios de recessão no final de 2007, embora poucos tivessem interesse em abordar o assunto às vésperas das eleições. Muitos economistas avaliam que a crise é apenas financeira. Será? Quem reinaugurou o liberalismo para o mundo foi a primeira ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, no fim dos anos 70. As principais teses defendidas pelos liberais são o Estado mínimo, a desregulamentação do mercado e a flexibilização do trabalho. No Brasil, o novo liberalismo aportou no início dos anos 90, impondo uma série de prejuízos aos trabalhadores e enfraquecendo as instituições nacionais. Basta verificar as privatizações que abocanharam setores estratégicos do País, como a siderurgia, as telecomunicações, as estradas e o sistema financeiro. A desregulamentação do mercado deixou a passagem livre para a especulação financeira, transitando globalmente sem o menor pudor e fiscalização. Para não ficar sem exemplos, lembremos do Sr. Bernard Madoff, figurão das bolsas de valores, intocável em sua reputação, que enganou algumas centenas de milionários pelo mundo a fora com o golpe do investimento tipo pirâmide. É uma prova de que o setor privado é competente e honesto apenas na aparência. A flexibilização no mundo do trabalho está na ordem do dia. É um processo doloroso para classe trabalhadora, porque a flexibilização não ocorre apenas no âmbito institucional da regulação, mas também nas relações nos locais de trabalho. Aqui te- | 8 | FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 mos que pormenorizar. Nos últimos vinte anos, as relações de trabalho se alteraram consideravelmente. Nos anos 90, foram preparadas as condições que consolidaram a hegemonia do pensamento neoliberal. Foi uma década de resistência dos trabalhadores organizados que lutavam para sobreviver a um tsunami reacionário, que arrasou o mundo após a queda do muro de Berlim. Perdia-se ali a simbologia e o paradigma do socialismo, bem ou mal, único fator de constrangimento da voracidade do capital. Escancararam-se as portas para ideólogos e pseudo-intelectuais que apregoaram o fim da luta de classes e da centralidade do trabalho em nossa sociedade. Enfim, era o monopólio ideológico, o pensamento único. Nela, o Deus mercado era a única salvação. O crescimento gigantesco da produtividade global não está associado apenas ao avanço tecnológico e ao grande crescimento da força de trabalho em todo o mundo, notadamente nos chamados “tigres asiáticos”. O trabalho excessivo e não remunerado tornou-se, também, um fator de acumulação do capitalismo. de quem? do capital e, deste modo, o crescente progresso da sociedade, ele torna o trabalhador cada vez mais dependente do capitalista, expõe-no à maior concorrência e arrasta-o para a corrida da surperprodução, seguida pela correspondente crise econômica.” Manuscritos Econômicos e Filosóficos - Karl Marx (Ed. Martin Claret) O estigma do desemprego e a ilusão da liberdade e da democracia burguesas foram muito difundidos nesse período de pensamento único. Novamente como colaboradores, vimos nossos direitos históricos, conquistados por muitas gerações de trabalhadores, diluindo-se. Podemos usar o exemplo dos bancários, que têm garantida a jornada de trabalho de seis horas diárias, mas, na prática, trabalham muito mais. Vários são os expedientes encontrados pelos banqueiros para quebrar essa regra. No ramo plástico, operadores de máquinas que produzem 100 pares de solado por hora, são forçados a produzir 120. Como um operário pode cumprir essa meta? Muito simples: Fazendo horas-extras não remuneradas. Para citar todos os exemplos de abuso nas relações de trabalho precisaríamos mais papel do que a Aracruz pode produzir. O prejuízo para os trabalhadores também pode ser contabilizado no INSS, com o crescente número de benefícios concedidos – e muitos injustamente negados – relativos às doen- ças do trabalho. Tudo isso é resultado do ritmo alucinante de trabalho. A produção mundial chegou num limite insuportável. O planeta não agüenta mais. Aquecimento global e as catástrofes ambientais mostram que é preciso romper, urgentemente, com o modelo de produção capitalista. Hoje, aqueles que sustentavam o modelo do “Estado mínimo” e da “não-intervenção do Estado na economia” são os defensores da transferência de recursos públicos para o setor privado. Únicos responsáveis pela crise mundial, eles exigem que a sociedade pague a conta, através da injeção de dinheiro público nas empresas falidas, aumento do crédito para produção e consumo, redução da jornada e dos salários e programas de aceleração da Economia, como o PAC. Porta-voz dos capitalistas, a grande mídia age com esquizofrenia, ora criticando o papel regulador do Estado na economia, ora exigindo que ele impeça o naufrágio da economia capitalista. É hora de agirmos. A classe trabalhadora não pode deixar de ter atitude. Precisamos construir um projeto de ruptura com o modelo capitalista. Olhar para lugares como Cuba, que, décadas depois do embargo econômico dos Estados Unidos, continua viva. Mais do que nunca, é imprescindível fortalecer o Estado, reconhecendo o seu papel regulador do mercado e fomentador de desenvolvimento e de justiça social. Também é fundamental valorizar o trabalho, mas não o trabalho precarizado, que consome homens, mulheres e até crianças, tratando-os como mercadorias. Mas, sim, o trabalho que humaniza e gratifica, que promove a dignidade das pessoas e o respeito pela natureza. Contribuição: Joey Farias, diretor de Comunicação da Associação dos Bancários Unificados (ABU) FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 | 9 | Santander NH descumpre recomendação da Polícia Federal A segurança bancária no Brasil é insuficiente, mal organizada e está aquém dos padrões internacionais. Mesmo assim, nem o número mínimo de vigilantes recomendado pela Polícia Federal é cumprido: dois por agência e mais um no auto-atendimento. Recentemente, o nosso Sindicato procurou as administrações das agências do Santander Centro de Novo Hamburgo e Hamburgo Velho. Ambas mantinham apenas dois vigilantes e foram advertidas para a necessidade de se adequar à exigência legal. A agência Hamburgo Velho equacionou o problema em apenas três dias, mas a agência Centro, até o fechamento desta edição, continuava em situação irregular. O que está acontecendo? Nada justifica – a não ser o descaso - que um banco do porte do Santander leve tanto tempo para cumprir uma norma básica de segurança. Isso explica por que o número de assaltos e a violência com que são cometidos cresce a cada dia. CURTAS Banrisul tem lucro de R$ 590,9 milhões O lucro líquido do Banrisul alcançou R$ 590,9 milhões em 2008, um crescimento de aproximadamente 30% em relação ao ano anterior. O resultado positivo foi atribuído às receitas de crédito, provenientes do acréscimo do volume de operações, bem como do resultado de tesouraria. Seguro-desemprego pode ser maior nos setores mais afetados pela crise Segundo o ministro do Trabalho Carlos Lupi, o seguro-desemprego será ampliado em mais dois meses para os trabalhadores demitidos dos setores mais afetados pela crise econômica. A medida já foi aprovada pelo Codefat (Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador). Hoje, o benefício varia de três a cinco meses, dependendo do tempo em que o trabalhador ficou no emprego. O valor varia de R$ 465 a R$ 870, sendo em média de R$ 595,20. Entre os setores beneficiados, devem estar os de siderurgia e mineração, que dependem mais das exportações. “Spread” bancário no Brasil é 11 vezes o dos países ricos O “spread” (diferença entre os juros pagos pelos bancos na captação de recursos e a taxa aplicada por eles nos empréstimos que concedem) no Brasil é o maior do mundo: Onze vezes o dos países desenvolvidos. Na média do ano passado, isso significa 34,88 pontos percentuais contra 3,16 pontos, de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) a pedido da Folha. No ranking global, o Brasil é seguido por Madagáscar, Paraguai, Peru e Quirguistão. A média simples da taxa das 62 nações em desenvolvimento que integram o relatório do Iedi ficou em 6,55 pontos no ano passado. A comparação foi obtida a partir de dados sobre o custo do capital para os bancos de 86 países e os juros que cobram, informados pelos governos ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Pela metodologia do BC brasileiro, a média do “spread”, em 2008, ficou em 26,54 pontos. NOVOS CONVÊNIOS PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL RESTAURANTE Sheila Lauffer Glaser Desconto de 30% na consulta particular. Lucas de Oliveira, 49, sala 601, Novo Hamburgo Contato: (51) 3527-4965/9128-3047 [email protected] - www.pontopsi.com.br Restaurante e Rodapizza Girassol Buffet livre: R$ 10,50 (c/suco, água ou refrigerante garrafa) e R$ 9,00 (s/bebida). Por quilo: preço da bebida é diferenciado. Rodízio pizza: 10% de desconto. 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Rua Lucas de Oliveira, 49, sala 601, Novo Hamburgo Contato: (51) 3527-4965/9988-6392 E-mail: [email protected] www.pontopsi.com.br JUSTIÇA Bancária aposentada por invalidez após sequestro ganha indenização A 9ª Turma do TRT3 (Minas Gerais) manteve a condenação por danos morais e materiais imposta a um banco em razão de sua conduta negligente, que contribuiu para o agravamento da situação de estresse de uma funcionária, culminando com a sua aposentadoria precoce por invalidez. A bancária, que era gerente de uma agência, foi vítima de sequestro, mas não recebeu assistência médica e psicológica por parte do banco. Ao contrário, ela foi impedida de sair em férias e ainda sofreu insinuações sobre a sua participação no sequestro. A empregada ficou sob a mira de ladrões armados, sofrendo ameaças no cativeiro durante toda a noite. Simultaneamente, também foram rendidos o seu marido, o filho de quatro anos e um outro gerente do banco, juntamente com sua esposa e dois fi- lhos. Todos passaram a noite em um quarto, onde a reclamante foi agredida moral e fisicamente pelos bandidos. No dia seguinte, os sequestradores deram uma sacola à reclamante e a obrigaram a recolher todo o dinheiro da agência, ameaçando matar sua família caso não fosse cumprida a missão. Os reféns só foram libertados à tarde, depois de consumado o assalto, com a entrega de considerável quantia de dinheiro aos bandidos. Muito abalada com o acontecimento e sem condições de trabalhar, a reclamante requereu férias, pois tinha dois períodos vencidos. O pedido foi negado pela empresa. De acordo com relatos das testemunhas, a inspetoria do banco chegou a insinuar que a vítima teria planejado o seu próprio sequestro e o assalto, em conluio com Flávia Stein Severo Desconto 20% à vista, no valor das consultas particulares, conforme tabela vigente. Rua Ramiro Barcelos, 1545, sala 207, Montenegro Contato: (51) 9733-0934/(54) 9942-2280. VESTUÁRIO Ana Beatriz Carvalho Waldman Desconto de 20% nas compras à vista e parceladas, exceto em promoções específicas. Rua Ramiro Barcelos, 1545, sala 102, Centro – Montenegro. Confecções Benites e Benites Desconto de 20% nas compras à vista e nas compras acima de R$ 200,00, com cinco vezes no cheque ou 10% de desconto nas compras em duas vezes no cartão ou cheque. Ramiro Barcelos, 1545, sala 108, Montenegro. os bandidos. O inspetor do banco teria dito, inclusive, que a reclamante não deveria ter entregado o dinheiro aos sequestradores, pois estes não matariam seus familiares. Para redator do recurso, desembargador Antônio Guimarães, ainda que o reclamado não tenha culpa em relação ao acontecido, seu comportamento displicente em relação à saúde física e mental da trabalhadora já é suficiente para ensejar a reparação moral. A Turma manteve a sentença que condenou o banco a pagar à reclamante uma indenização fixada em R$ 100 mil, a título de danos morais, além de benefícios, 13º salário, férias e uma pensão mensal vitalícia correspondente ao valor do seu último salário. Fonte: TRT3 Instituição Evangélica de Novo Hamburgo Desconto de 20% para bancários sindicalizados e dependentes nos seguintes cursos: técnicos em informática, logística, marketing e vendas, designer de móveis, comércio exterior, magistério (noturno), técnico em administração e curso de línguas (alemão, inglês e espanhol), além do curso superior de bacharel em administração de empresas. Em breve: tecnólogo em meio ambiente. Rua Frederico Mentz, 526, Hamburgo Velho Novo Hamburgo Fone/Fax: (51) 3594.3022 Internet: [email protected] FEVEREIRO 2009 | 2ª VIA nº 247 | 11 | PARA GOSTAR DE LER ABU vai promover oficinas dramatizadas de literatura para os bancários e seus familiares A Associação dos Bancários Unificados (ABU) está lançando uma campanha de divulgação da Biblioteca Graciliano Ramos, instalada no andar térreo da sede de Novo Hamburgo. O objetivo da campanha é estimular o gosto pela leitura, através da disponibilização de um acervo com mais de duas mil obras. A ABU também vai promover oficinas dramatizadas, com a artista de teatro Bárbara Catarina Ribeiro Camargo. Contadora de histórias oficial da Feira do Livro de Porto Alegre, ela também é protagonista das peças publicitárias. O conteúdo das oficinas, dirigidas tanto ao público adulto como infantil, inclui diversos gêneros literários: de fábulas a contos folclóricos. Entre os autores de referência estão Italo Calvino, os Irmãos Grimm e Ana Maria Machado. Para divulgar as obras que compõem o acervo da Biblioteca, foram criados marca-páginas temáticos, estimulando o interesse do leitor pelos diversos gêneros literários: romance, drama, aventura, ficção científica e suspense. Também serão afixados cartazes nas agências no formato de marca-páginas gigantes. PROGRAMAÇÃO Os próprios bancários poderão opinar sobre o melhor dia da semana para realização das oficinas, ligando para (51) 3594-5418, enviando uma mensagem para [email protected] ou falando diretamente com o diretor do Sindicato no local de trabalho. FEVEREIRO FEVEREIRO SETEMBRO I 2009 I 2008 I NI N247 245 I TODO MUNDO EM PÂNICO A crise imobiliária nos Estados Unidos começou a ser produzida na década de 80, com a adoção das políticas ultraliberalizantes do governo Reagan. Hoje, nem a ajuda bilionária às instituições financeiras e nem a euforia que marca este início da Era Obama conseguem conter o pânico na economia. No mundo inteiro, a classe trabalhadora é convocada a pagar mais esta conta. Crise bate na porta Crise iniciada nos Estados Unidos interrompe anos de expansão econômica na América Latina e no Brasil. Páginas 4 a 6