Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º. Seminário
Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop, 2009. ISBN: 978-85288-0061-6
Os cristãos e as esquerdas nos anos 1960: uma historiografia da Ação Popular
Wagner da Silva Teixeira1
O Brasil durantes os anos 1960 vivenciou experiências dramáticas e contraditórias, de
uma enorme euforia no início daquela década, passando pelas certezas e mobilizações que
culminaram no golpe preventivo de 1964, o desencanto provocado pelo governo militar, as
agitações de 1968, o fechamento do regime com o AI-5, a luta armada e o início do “milagre”
nos anos 1969 e 1970.
Uma década que marcou profundamente a história do país. As transformações
ocorridas naquele contexto demonstraram tanto a capacidade de organização política das
classes populares, como o potencial criativo de uma nova geração de grupos políticos. Por
outro lado, demonstrou também o poder de reação das classes dominantes brasileiras, que
diante de uma inusitada e ameaçadora mobilização política preferiu abrir mão daquela
“experiência” democrática e incentivar uma intervenção militar que levou o país a amargar 21
longos anos de ditadura.
Para contribuir com os estudos sobre o processo político brasileiro naquele período,
iremos abordar a origem e a trajetória da Ação Popular (AP) até o golpe de 1964. A Ação
Popular foi o principal grupo político de origem católica no âmbito das esquerdas. Nesse
sentido, os objetivos principais deste texto são: 1) examinar o processo de mudanças no
interior da Juventude Universitária Católica (JUC) que culminou na formação da AP e, 2)
analisar diferentes abordagens realizadas pela historiografia sobre as origens da organização.
Para entender o surgimento da Ação Popular no início da década de 1960 é
fundamental estudar primeiro as mudanças que ocorriam no interior da Igreja Católica no
Brasil de forma mais geral, e mais particularmente as mudanças ocorridas no interior da
Juventude Universitária Católica (JUC). Estes dois fatores conjugados, em grande medida
foram responsáveis pelo surgimento da Ação Popular.
Por sua vez, a origem da JUC está na Ação Católica, movimento organizado no Brasil
desde os anos 1920. A Ação Católica buscava, de um lado, abrir maior espaço de atuação dos
leigos no interior da Igreja e, de outro, aumentar a influência da Igreja na sociedade. Dos anos
1930, quando foi organizada, até os anos 1950 a JUC seguiu fiel a esses objetivos. O contexto
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Professor do CEFET-MG (Campus VIII – Varginha), Doutor em História Social pela UFF.
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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º. Seminário
Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop, 2009. ISBN: 978-85288-0061-6
de transformações no interior da própria Igreja iria mudar a postura dos universitários
católicos.
A partir do início dos anos 1950 uma série de reflexões sociais da Igreja deu origem a
uma nova maneira, não só dos católicos enxergarem a realidade, mas, sobretudo, de interferir
nela. De forma geral a idéia era de que a Igreja fazia parte do mundo de sobre ele ela deveria
atuar. Nesse sentido, diversas ações começaram a delinear essa nova postura da Igreja ainda
nos anos 1950: A formação de Círculos Operários na Diocese de Volta Redonda-RJ; a carta
de Dom Inocêncio Engelke defendendo a Reforma Agrária em 1950; A denúncia da situação
social do Nordeste em 1951 por três bispos do Nordeste; o texto de 1952 “A Igreja e o Vale
do São Francisco”; a carta pastoral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
de 1954 na qual defendia que “as exigências de justiça social, são do próprio desenvolvimento
do país” (MAINWARING, 1989: 73). Em 1958 a denúncia era ainda mais clara: “Angustianos a evidência de que as estruturas econômicas de nosso mundo dos negócios e das
industrias ainda continuam a ser, tantas vezes, fontes de injustiças sociais”.
Essas mudanças não ocorriam somente na Igreja Católica no Brasil, o início do
pontificado de João XXIII em 1958 também marcou uma importante mudança na condução
da Igreja Católica no mundo. As Encíclicas Mater et Magistra de 1961 e Pacem in Terris de
1963 “desenvolveram uma nova concepção de Igreja, mais em sintonia com o mundo secular
moderno, comprometida em melhorar o destino dos seres humanos na Terra e em promover a
justiça social”. O Concílio Vaticano II (1962 – 1965) foi, nas palavras de Dom José Maria
Pires, o “motor” de toda aquela mudança no interior da Igreja. Entre outras coisas, o concílio
enfatizou a missão social da Igreja, a partir daí os leigos e padres que já haviam assumido a
atitude em favor dos oprimidos, puderam tornar essa postura oficial e agir de forma mais
sistemática na defesa das classes populares.
Foi nesse contexto de fortes e profundas transformações no interior da Igreja que a
JUC deu início a sua “virada” à esquerda. Em janeiro de 1956 a entidade realizou em Porto
Alegre o seu V Conselho Nacional, naquele momento as intervenções de três delegações já
demonstraram o sopro de mudança: A de São Paulo apresentou o trabalho A universidade
como privilégio de classe; a do Pará sobre política universitária nacional e a UNE; a de
Pernambuco sobre a participação dos jucistas na política universitária. Apesar de todo um
esforço de reflexão sobre a realidade, a missão da JUC era ainda apresentada pela equipe
nacional de uma forma tradicional, “a Ação Católica é o apostolado organizado dos leigos que
recebe um mandato da Hierarquia, portanto um apostolado oficial da Igreja. Assim, a missão
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da JUC – como da Ação Católica em geral – é a própria missão da Igreja: A evangelização...”
(SOUZA, 1984:123).
Ainda em 1956 teve início um debate sobre a participação de militantes da JUC no
“sindicalismo estudantil”, a questão central era quanto a orientação ideológica, ou mais
exatamente ao lado de quem a JUC deveria participar, da direita no poder na União Nacional
dos Estudantes (UNE) entre 1950 e 1956, ou das esquerdas, que reuniam nacionalistas,
socialistas e comunistas. A aliança com os comunistas era problemática para os jucistas
resultando uma forte tensão entre “uma posição de princípios ainda rígida e uma prática
concreta que se dirigia em outra direção e que, pouco a pouco, se imporia”.
A cada encontro as discussões no interior da JUC foram revelando uma postura
política e ideológica engajada, o “ideal histórico” da JUC elaborado no Conselho de Belo
Horizonte, realizado em julho de 1959 demonstrava que “o movimento ia-se tornando mais
homogêneo, a política universitária era considerada uma atividade normal, e mesmo
fundamental e a JUC se abria aos diversos temas sociais, sensível a realidade do operário e do
camponês”.
Mas foi no Congresso Nacional da JUC em 1960 que ocorreu definitivamente a
“virada”, no texto Algumas diretrizes de um ideal histórico cristão para o povo brasileiro,
apresentado pelo grupo jucista de Belo Horizonte e inserido no documento final do encontro,
há uma clara condenação do capitalismo, “o que devemos dizer, sem tergiversões, é que o
capitalismo, realizado historicamente, só pode merecer a tranqüila condenação da consciência
cristão”; os argumentos para essa condenação são claros: “redução do trabalho humano à
categoria de mercadoria; ditadura da propriedade privada, não submetida às exigências do
bem comum; abuso do poder econômico de toda sorte, de outro; a motivação central no
espírito do lucro; criação e sustentação da condição proletária, etc” (LIMA, 1979).
O envolvimento de um número cada vez maior de quadros da JUC no movimento
estudantil, foi sem dúvida, um passo fundamental para a radicalização do movimento e a
desconfiança crescente da hierarquia católica mais conservadora, que não concordava com a
aproximação da JUC com outros grupos de esquerda, notadamente os comunistas
(SEMERARO, 1994: 53).
Os militantes da JUC estavam cada vez mais envolvidos com as atividades do
movimento estudantil, em 1960 lançaram Herbert de Souza como pré-candidato à presidência
da UNE, que retirou sua candidatura para apoiar um nome indicado pela União da Juventude
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Comunista (UJC), Oliveiros Guanais, que saiu candidato pelo “grupão”, nome dado à aliança
entre grupos nacionalistas, comunistas e jucistas para a disputa da direção da UNE.
Em junho de 1960 o Diretório Central dos Estudantes da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (DCE-PUC/RJ), presidido pelo jucista Aldo Arantes, lançou o
Manifesto do DCE. O texto além de denunciar a propriedade capitalista, afirma uma postura
política nacionalista e em favor das classes populares:“temos consciência de que a promoção
das classes operário-urbanas e campesino-rurais se coloca, neste momento, dentro da
perspectiva cristã, como o passo mais largo que a história exige das vanguardas atuantes no
sentido da humanização do mundo” (SOUZA, 1984: p.175).
Os embates com a hierarquia foram inevitáveis, para Souza um dos momentos cruciais
dessa tensão entre JUC e clero ocorreu nos debates em relação à aprovação da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Enquanto a JUC defendia “a rejeição total e veto ao
atual projeto de Diretrizes e Bases”, a Igreja fazia todos os esforços possíveis para sua
aprovação. “Os meios católicos tradicionais não perdoariam que uma força cristã e,
proveniente de um movimento oficial da Igreja, tomasse uma posição contrária a tantos
interesses dos educandários religiosos”.
As tensões continuaram e atingiram seu auge em 1961. Em julho no Conselho da JUC
realizado em Natal, foi apresentado o documento O Evangelho, fonte da revolução brasileira,
nele se debatiam os problemas do “subdesenvolvimento e da revolução” e até mesmo
“medidas políticas revolucionárias para o Brasil” que partiam da necessidade de superar as
contradições da sociedade brasileira, os cristãos deveriam “fazer uma opção revolucionária,
que em geral se identificaria com o que se conhece como posição de esquerda”. O Arcebispo
de Natal, Dom Eugênio Sales ordenou a retirada da bancada potiguar antes do encerramento
do Conselho, deixando claro seu descontentamento com os rumos do movimento. Quando o
Conselho de Natal estava terminando, teve início em Niterói o Congresso da UNE, no qual
Aldo Arantes foi eleito para a presidência da entidade. Naquele ano a JUC conseguiu
hegemonizar o “grupão” e indicou o candidato vitorioso nas eleições da UNE.
As posturas dos militantes da JUC dentro da UNE e, sobretudo, a composição com os
comunistas na chapa vencedora, mobilizaram os setores conservadores da Igreja Católica.
Aldo Arantes foi intimado pelo Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jayme Câmara a optar entre a
JUC e UNE. A escolha de Arantes em permanecer à frente da UNE fez com que as relações
entre hierarquia e jucistas ficassem ainda mais estremecidas. Como resposta a CNBB
elaborou uma série de documentos que restringiam a ação dos militantes da JUC. A idéia da
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hierarquia era mesmo forçar uma escolha entre a JUC e o movimento estudantil, numa
tentativa de impedir a dupla militância e obviamente combater as posições que a JUC vinha
tomando. O documento Diretrizes da comissão episcopal da ACB e do Apostolado dos leigos
para a JUC nacional determinava que a partir do ano seguinte (1962) “nenhum dirigente
jucista poderá concorrer a cargos eletivos em organismos de política estudantil, nacionais ou
internacionais, sem deixar os seus postos de direção da JUC” (SEMERARO, 1994: 55).
Almery Bezerra, assessor da JUC em Pernambuco, apontava a preocupação central da
hierarquia, “a orientação esquerdista que o movimento estaria tomando e a impregnação que
se estaria processando dentro dele de uma filosofia marxista, ou pelo menos, de uma
terminologia ambígua e portanto suspeita” (SOUZA, 1984: 191).
A partir do final de 1961 a ala mais à esquerda da JUC começou a debater a
necessidade de um novo movimento de esquerda, no qual os cristãos pudessem participar. Em
Belo Horizonte, no início de 1962 se reuniram três diferentes grupos que deram origem a AP.
O grupo de BH ligado ao jornal Ação Popular, o grupo da PUC/RJ ligado ao Padre Henrique
Vaz e a Aldo Arantes, e outros representantes da JUC de outros estados, como São Paulo e
Pernambuco. O encontro contou com cerca de uma centena de militantes, sendo marcado,
sobretudo pela necessidade de criar um organismo independente da hierarquia católica. Um
movimento que possibilitasse aos militantes cristãos uma maior liberdade de ação política,
visando a transformação radical da sociedade brasileira através da atuação em diversos setores
da sociedade brasileira.
Em junho de 1962, novamente em Belo Horizonte, um novo encontro com
representantes de 14 estados. O resultado final do encontro foi o texto Esboço do Estatuto
Ideológico do Grupo, de forma geral o documento defendia o socialismo democrático e a
revolução brasileira. Mas foi no início de 1963 em Salvador que a AP foi oficialmente
fundada, o I Congresso da AP aprovou o seu Documento Base que serviu de orientação
política para a organização. Fica claro no texto que “as idéias marxistas mesclavam-se à
inspiração cristã” do movimento. Um humanismo profundamente identificado com o
cristianismo de um lado, e uma postura política crítica e radical na defesa do caráter socialista
da revolução brasileira, de outro. A AP se coloca como um movimento de ação revolucionária
optando, “por uma política de preparação revolucionária, consistindo numa mobilização do
povo, na base de desenvolvimento de seus níveis de consciência e organização, firmando esta
mobilização numa luta contra a dupla dominação capitalista (internacional e nacional) e
feudal”.
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Para Ridenti o surgimento da Ação Popular se deu nas “condições de radicalização das
lutas políticas nos anos 60, particularmente no meio universitário, o cristianismo já não servia
para expressar a vontade de transformação de parte dos jovens da JUC, que constituíram a
AP. Impunha-se a superação dos estreitos limites institucionais da Igreja Católica”
(RIDENTI, 2001: 257). De acordo com Beozzo o ano de 1961 foi crucial, “muitos
acontecimentos se precipitaram e de certa forma apressam o processo de formação da AP”
(BEOZZO, 1984: 111). Após a criação da AP a JUC sofreu um processo de esvaziamento,
sem suas principais lideranças se enfraqueceu paulatinamente.
A Ação Popular conheceu um rápido e importante crescimento, atingindo mais de três
mil militantes em pouco mais de dois anos de atividade, crescimento somente interrompido
em conseqüência do golpe militar de 1964. Além do movimento estudantil, a AP passou a
atuar também no sindicalismo rural e nos movimentos de educação e cultura popular, como
no Movimento de Cultura Popular (MCP) em Pernambuco, no Movimento de Educação de
Base (MEB) no Nordeste e nos Centros Populares de Cultura (CPCs) espalhados pelo país.
Scott Mainwaring cita a Ação Popular como um exemplo de movimento que mesmo fora da
Igreja a influenciou e foi um dos elementos inspiradores da Teologia da Libertação que
surgiria anos mais tarde.
Após a golpe civil/militar de 1964 a AP radicalizou ainda mais seu discurso, bem
como sua prática. Partindo para a clandestinidade foi se distanciando de suas bases sociais e
aderiu a luta armada. Sem suas principais lideranças, que estavam presas ou exiladas, a AP
acabou por se reduzindo a um pequeno número de militantes. No início dos anos 1970 passou
a se denominar Ação Popular Maxista-Leninista (APML), que em 1973, após inúmeros
debates decidiu pela entrada no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Um grupo de
militantes não concordando com a entrada no PCdoB continuou a reivindicar-se APML, esse
grupo no início dos anos 1980 participou da formação do Partido dos Trabalhadores (PT),
chegava ao fim a Ação Popular.
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Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º. Seminário
Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop, 2009. ISBN: 978-85288-0061-6
Referências Bibliográficas
BEOZZO, José Oscar. Cristãos na Universidade e na Política. Petrópolis: Vozes, 1984.
LIMA, Luiz Gonzaga Souza. Evolução Política dos católicos e da Igreja no Brasil.
Petrópolis: Vozes, 1979.
MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo:
Brasilense, 1989.
RIDENTI, Marcelo. Ação Popular: cristianismo e marxismo. In. MORAES, João Quartim de.
(Org.). História do Marxismo no Brasil. Campinas: Edunicamp, 2001.
SEMERARO, Giovanni. A primavera dos anos 60: A geração de Betinho. São Paulo: Loyola,
1994.
SOUZA, Luiz Alberto Gómez de. A JUC: Os Estudantes Católicos e a Política. Petrópolis:
Vozes, 1984.
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