UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA INSTITUTO DE CIÊNCIA DA SAÚDE ANA PAULA QUEIROZ BASTOS FANTASIA PERVERSA NA HISTERIA FEMININA RIO DE JANEIRO 2013 ANA PAULA QUEIROZ BASTOS UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA INSTITUTO DE CIÊNCIA DA SAÚDE FANTASIA PERVERSA NA HISTERIA FEMININA Dissertação Final de curso de Mestrado em psicanálise, do Instituto de Ciências da Saúde, da Universidade Veiga de Almeida, em cumprimento às exigências para a obtenção do grau de Mestre. Orientadora: Profª. Dra. Vera Pollo RIO DE JANEIRO 2013 DEDICATÓRIA O vento toca o meu rosto, Me lembrando que o tempo vai com ele Levando em suas asas os meus dias, Desta vida passageira Minhas certezas, meus conceitos, Minhas virtudes, meus defeitos. Nada pode detê-lo O tempo se vai Mas algo sempre guardarei O teu amor, que um dia eu encontrei. Os meus sonhos, o vento não pode levar, A esperança encontrei no Teu olhar Os meus sonhos, a areia não vai enterrar. Porque a vida recebi ao Te encontrar... Nos teus braços não importa o tempo Só existe o momento de sonhar E o medo que está sempre à porta Quando estou com Você Ele não pode entrar... O tempo se vai Mas algo sempre guardarei O teu amor, que um dia eu encontrei. Oficina G3 A meu marido e filhos, da minha poesia os atilhos! AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por mais essa conquista, pois que me concedeu saúde, tranquilidade, amor, paz e perseverança para que atingisse mais esse patamar da vida. Aos meus pais e familiares, dos quais sem a graça e o amor de conceberme a luz da vida, jamais completaria essa alegria. Ao meu marido Eliezer Bastos e filhos Danilo e Pedro − que por vezes abriram mão de momentos em comum, pois em muitos deles estava às voltas com a Dissertação − que sempre me auxiliaram nesta caminhada, seja fazendo, seja simplesmente com olhares apoiadores que me bafejavam força para prosseguir. Para vocês não basta dizer obrigado, mas sim que vocês fazem parte dessa vitória e conquista. Aos amigos de longe, de perto, antigos e novos que pude cultivar com palavras e atitudes. Em especial às amigas: Laura Junqueira, Martha Ribeiro, Danielle Lamarca e ao amigo Venícius Schneider, que por vezes me confortaram e me encorajaram a prosseguir. Aos mestres que me ensinaram muito mais do que conhecimento teórico sobre uma ciência, mas sim, como respeitá-la, admirá-la e entendê-la, para construir meu caminho na clínica psicanalítica. Em especial à professora Sonia Borges, pelo seu apoio nos momentos em que cogitei a desistência. À minha orientadora da Dissertação, Professora Vera Pollo, guia ímpar. E, por fim, à vida, que não respeitando meus limites e medos, me inundou com possibilidades, vezes simples vezes complexas e improváveis, mas sempre possibilidades que me impulsionaram. RESUMO Este trabalho buscou elaborar os fatores que determinam a relação entre o sujeito e a fantasia a partir do referencial teórico-clínico da psicanálise. Mais especificamente, priorizamos a função da fantasia em um caso de histeria feminina, no intuito de investigar e discutir questões acerca da posição subjetiva da mulher frente à mãe, primeiro objeto de amor de toda criança. Com este objetivo, exploramos os conceitos de sexualidade, neurose, feminina e feminilidade na obra de Freud e no ensino de Lacan. Para tanto, indagamos como se dá a escolha da neurose e a construção da fantasia na histeria feminina. O tema da fantasia perversa nos levou à questão sobre a existência da perversão nas mulheres, questão esta que pretendemos desenvolver em estudos posteriores. Palavras chave: Histeria; Feminino; Feminilidade; Fantasia; perversão. ABSTRACT This study sought to elaborate on factors that determine the relationship between subject and fantasy within a theoretical and clinical framework of pschyoanalysis. More specifically, we prioritized the function of fantasy in the case of female hysteria, in order to investigate and discuss issues involving the subjective position of a woman and mother, the first object of affection and love of all children. With this goal, we explore the concepts of sexuality, neurosis, women and femininity within the works of Freud and the teachings of Lacan. For both, we ask how the choice is made regarding neurosis and fantasy construction in female hysteria. The theme of perverse fantasy led us to the issue of the existence of perversion in women, an issue we intend to develop in later studies. Keywords: Hysteria, Female, Femininity; Fantasy; perversion. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................... 8 CASO CLÍNICO................................................................................................ 12 SEXUALIDADE ................................................................................................ 22 1.1 COMPLEXOS DE ÉDIPO ................................................................... 27 1.2 AFINIDADES E DIFERENÇA ENTRE O ÓRGÃO PENIANO E O SIGNIFICANTE FALO .................................................................................. 37 1.3 A CASTRAÇÃO FEMININA COMO MARCO DA DIFERENÇA .......... 40 1.4 A NEUROSE ....................................................................................... 42 FANTASIA: O TRAÇO PERVERSO DA NEUROSE ........................................ 52 1.5 FANTASIA PERVERSA E PERVERSÃO: UMA INTRODUÇÃO......... 60 CONCLUSÃO................................................................................................... 64 REFERÊNCIAS ................................................................................................ 67 ÍNDICE REMISSIVO ........................................................................................ 71 ANEXO: Minicurso em psicanálise ................................................................... 72 8 INTRODUÇÃO Para o senso comum fantasiar diz respeito a construir ficções, histórias, contos que fogem à realidade. Para a psicanálise, contudo, cada sujeito tem sua própria ficção e deixa-se aprisionar por Eros em sua relação com o objeto de amor, que é dado a partir da fantasia. Para Freud a fantasia é algo diferente da assim dita realidade da vida cotidiana. Para ele essa remete a uma “realidade psíquica” construída com elementos do cotidiano. Foi com a clínica que ele descobriu que a realidade do sujeito se articula a partir de elementos das experiências em família. Dessas pesquisas surgiu o conceito cerne da teoria do inconsciente: a fantasia. As elaborações de Freud mostram que existem diferentes formas de reação frente à castração. A saber, no menino a visão dos órgãos femininos introduz o complexo de castração, tendo como consequência a saída do Édipo, o desinvestimento da mãe e a criação do superego, sendo que um dos resíduos do complexo de castração será sua depreciação da mulher enquanto ser castrado. Já a menina reconhece sua castração e a superioridade do menino, mas protesta contra este estado, restando-lhe três saídas: renunciar à sexualidade, reivindicar o pênis ou aceitar a feminilidade, como diferentes formas de se relacionar com a fantasia. Dessa forma, apresenta a fantasia nos modelos neurótico e perverso, apontando as suas especificidades e evidenciando ainda a existência de fantasias ditas perversas nas neuroses. A fantasia torna-se fundamental para o sujeito, pois serve de filtro que, por sua vez, possibilita sua relação com o mundo. Sem ela não existe sujeito, pois é a construção da fantasia, ou seja, do mito individual, que propicia amenizar a angústia que a falta de objeto instaura. Na tentativa de completude, o ser humano busca no Outro a metade que lhe falta. E essa relação amorosa está condicionada à posição subjetiva do sujeito em relação ao Outro e, fundamentalmente, frente ao vazio fundante. No artigo sobre a “Feminilidade” (1932), retomando seus escritos anteriores “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” [1925] e “Sexualidade feminina” [1931], Freud revê suas posições sobre o 9 desenvolvimento psicossexual da mulher, salientando ainda mais o papel do complexo de castração. Nesse texto ele levanta o problema da bissexualidade, pois anatomicamente um indivíduo não é totalmente macho nem totalmente fêmeo, somente os produtos sexuais são unívocos: espermatozoide e óvulo. As regras sociais e sua própria constituição forçaram as mulheres a reprimir suas pulsões agressivas, daí as formações de tendências fortemente masoquistas voltadas para dirigir para si mesmas as erotizações: o masoquismo é, portanto, essencialmente feminino. Assim, Freud se pergunta: como este ser bissexual que é menina torna-se mulher? No início da fase fálica, não há diferença entre a menina e o menino, ambos desconhecem a vagina, e a masturbação fálica é a mesma para ambos, sendo o clitóris comparado a um pequeno pênis1. A mudança de zona erógena faz-se necessária para o caminho da feminilidade: o clitóris deverá ceder lugar à vagina. Mas esta mudança de zona erógena acompanha uma mudança objetal: a menina abandona sua ligação primária com a mãe e toma o pai como objeto, sempre levando em conta que a fase pré-edipiana desempenha um importante papel para o desenvolvimento da menina, nas fases que ela atravessa: oral, anal, fálica, ativa, passiva. Este período caracteriza-se por forte ambivalência. Na fase fálica, a menina deseja fazer um filho na mãe e ter um dela, é aí que se situa o ponto de fixação na menina. A partir desta fase, desenvolve-se na menina um ódio intenso pela mãe, que a fez imaginariamente castrada como ela o é. A menina odeia a mãe por não lhe ter dado um pênis: a “Penisneid” que persistirá por toda a vida, ainda que possa ser sublimada, como pela escolha de uma profissão que lhe permita satisfazer, mesmo que parcialmente suas pulsões. A descoberta da castração, para Freud, é determinante na menina: seja em direção à neurose, seja em direção a um problema de complexo de virilidade ou em direção à sexualidade normal. Determinará também seu afastamento da mãe, pois seu amor era dirigido a uma mãe fálica, não a uma castrada. Esta 1 FREUD, S. (1932). Feminilidade v. XXII. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969, p. 146. 10 descoberta leva a menina à renúncia da masturbação clitoriana e da atividade fálica; liga-se então ao pai, primeiro desejando um pênis daquele que o possui; depois se estabelece a situação edipiana normal, passando a desejar um filho substituto do pênis. É nesse momento que podemos identificar o enigma do feminino, que se caracteriza na dissolução apenas parcial do complexo edípico na mulher e, se podemos afirmar, o efeito mais prejudicial que se constitui é uma má formação do supereu. Decerto que a mulher imiscui-se nas mais diversas áreas, inclusive a acadêmica, pois ela vê-se incluída nas formas de expressão cultural que problematizam as eternas questões humanas, por um lado, e oferecem, por outro, a ilusão de amor que a mulher solicita. No texto sobre a feminilidade (1931), Freud desfaz a equivalência proposta no texto “Três ensaios sobre a sexualidade” que feminino = passivo e masculino = ativo, pois percebeu que existem mulheres cuja posição é ativa e homens cuja sua posição é passiva, dependendo do modo como o sujeito se posiciona frente à castração, conceito que será também desenvolvido neste estudo. Nesse mesmo texto, Freud se pergunta sobre o Édipo feminino e a incidência do complexo de castração, que, na menina, leva a abandonar o primeiro objeto amoroso “a mãe”, diferentemente do menino que a mantém como objeto de amor por toda sua vida. Segundo ele, todo o problema da sexualidade feminina emerge da passagem da mãe ao pai. A resposta da menina ao complexo de castração se evidencia na falta-a-ter, culpabilizando a mãe por essa desvantagem, que tem origem diante da visão dos órgãos genitais do outro sexo. Assim, sente-se lesada, sucumbindo à inveja do pênis “Penisneid”, o que, segundo Lacan, seria a nostalgia de algo que ela jamais tivera “falta-a-ter”, o que leva a menina a entrar no Édipo. Sendo assim, o que a faz sair? E como ela constrói o seu mito individual? Este trabalho pretende elaborar, via revisão da literatura (referencial teórico-clínico da psicanálise) e de um estudo de caso, quais fatores determinam a relação entre o sujeito e sua fantasia. Mais concretamente, analisar-se-á a fantasia em um caso de histeria feminina, com intuito de investigar e discutir questões acerca da posição subjetiva da mulher frente à mãe, o primeiro objeto de amor da criança. Com esse objetivo, exploramos os conceitos de Sexualidade, e feminilidade na obra de Freud e no ensino de Lacan, dando ênfase à sua 11 função para o psiquismo humano, bem como à sua dinâmica na escolha da neurose e na construção da fantasia na histeria feminina. O primeiro capítulo traz a construção de um caso clínico, causa motora dessa dissertação. O segundo capítulo expõe a sexualidade humana como tema principal discutido por Freud em (1905), no texto intitulado “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” destacando dois conceitos que se relacionam: “Bissexualidade” e “perverso polimorfo”. A disposição à "bissexualidade" do sujeito só é possível devido a esse momento perverso, no qual a criança goza em todos os orifícios do corpo. Sendo assim, Freud é levado a concluir que a "disposição para as perversões de toda espécie é uma característica humana geral e fundamental"2. Nesse mesmo texto, ele diz: “Nenhuma pessoa sadia, ao que parece, pode deixar de adicionar alguma coisa capaz de ser chamada de perversa ao objetivo sexual normal [...] se, em suma, uma perversão tem as características de exclusividade e fixação − então estaremos, via de regra, justificados em considerá-la um sintoma patológico3. O terceiro e último capítulo discorre sobre o tema da fantasia para assim articulá-lo com o caso clínico. Freud diz que essa educação, que intervém no psiquismo inibindo as pulsões, tem como finalidade aplacá-las, para então canalizar para uma genitalidade. Assim sendo, conclui que a fantasia constitui um recurso utilizado pela criança com o intuito de dar sentido à própria sexualidade. Lacan introduz o ma tema $ ◊ a que se lê “sujeito barrado punção de a minúsculo”, o que significa dizer: sujeito desejo de objeto. Segundo Fink (1998), em O Sujeito Lacaniano, é na relação complexa do sujeito com o objeto causa de desejo que ele atinge uma sensação fantasística de satisfação e bem-estar, amenizando assim o mal-estar que é inerente à sua condição, justamente pelo fato de ser um sujeito dividido, barrado, marcado pela falta originária. 2 FREUD, S. “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). In: Obras completas de Sigmund Freud. Ed. Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 196. 3 Idem, p. 163. 12 CASO CLÍNICO Em suas pesquisas sobre a sexualidade Freud percebe que o complexo de Édipo é o núcleo da neurose, e mais, essa experiência psíquica é vivida de diferentes modos pela menina e pelo menino. Freud constatou que o menino sai do complexo de Édipo frente à castração, já a menina entra no Édipo pela inveja do pênis a “penisneid”. No texto sobre a “sexualidade feminina” (1931) Freud diz “talvez pareça que devêramos retratar-nos da universalidade da tese segundo a qual o Complexo de Édipo é o núcleo das neuroses”4; é neste texto que ele aponta um dos pontos principais da sexualidade feminina. Para Freud a fase pré-edipiana nas mulheres é de suma importância, pois essa fase comporta todas as fixações e recalque para a escolha da neurose. De posse dessa descoberta, Freud pode afirmar que “a bissexualidade, presente, conforme acreditamos, é uma disposição inata dos seres humanos, e que nas mulheres pode-se observar esse fato mais claramente”5. Dessa forma, podemos destacar o complicador do Édipo feminino, pois encontra-se justamente no desvio do investimento libidinal da menina, ou seja, para entrar no Édipo, a menina precisa mudar seu objeto sexual e também de zona erógena. Fato é que a sexualidade feminina, para Freud, constituiu-se em um verdadeiro “continente negro”, o que o impulsionou à elaboração do texto “Uma criança é espancada” (1919). Nesse texto, Freud se pergunta sobre a gênese das perversões, em particular do masoquismo, e quais as consequências da diferença sexual na escolha da estrutura. Para falar sobre a sexualidade feminina, Lacan lança mão de um caso clínico freudiano, a saber, o caso da jovem homossexual. Seguindo os passos lacanianos, buscarei elaborar um caso de minha clínica. Suzana, uma mulher de 55 anos, veio em busca de análise com um diagnóstico psiquiátrico de “Síndrome do Pânico”. Demanda da analista que esta lhe faça caminhar na rua. Ela fala do que disparou seu pânico, sem se dar 4 FREUD, S. “sexualidade feminina” (1931). In: Obras completas de Sigmund Freud. Ed. Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 234. 5 Ibidem nota 4, p. 236. 13 conta dos significantes que o determinaram. A irmã mais nova, a provedora da casa, havia ficado desempregada. Para a psiquiatria, de acordo com o DSM-4, síndrome do pânico significa um ataque que representado por um período distinto no qual há um período súbito de intensa apreensão, temor ou terror, frequentemente associado com sentimentos de catástrofes iminentes. Durante esses ataques estão presentes sintomas tais como falta de ar, palpitações, dor ou desconforto torácico, sensação de sufocamento e medo de ficar louco ou de perder o controle. No plano psicanalítico, deve-se ampliar esse olhar para além das concepções biológicas e empíricas da vertente psiquiátrica contemporânea. Reportando-se a Freud, é possível observar que a temática do pânico não é estranha na evolução de sua Teoria da angústia, a sintomatologia dos denominados ataques de angústia muito se assemelha ao período de pânico descrito no DSM-4. Suzana tem um único surto de pânico em uma encruzilhada do metrô, e depois não se autoriza mais a sair à rua. Logo nas primeiras entrevistas a paciente se mostra um sujeito dividido entre dois significantes, a saber, da casa e da rua. Os ditos maternos apontavam para uma figura feminina da casa, a “Santa”, e os ditos paternos para uma figura feminina da rua, a “Puta”. Já os homens, em suas descrições, eram uns “imprestáveis”, que só davam valor a mulheres de rua. Em sua função a mãe transmite à menina os objetos metonímicos que escondem o corpo da mesma enquanto mulher na relação mãe e filha, os sapatos, as bijuterias, as roupas. Estes funcionam como objetos fetiches, desmentindo a castração, justamente para que a mulher pareça ser um falo e atraia um homem. Esses objetos ditos femininos fazem parte do jogo de semblantes em que consiste a atração homem–mulher. Na devastação, esta transmissão fracassa e o corpo permanece desfalicizado, o sujeito desprovido do seu lugar, as palavras já não podem significar. Este não-lugar no desejo do Outro não pode ser apaziguado pela função paterna, já que o pai está ele mesmo submetido aos caprichos do Outro materno. 14 Em seu discurso Suzana traz a questão “sou homem ou sou mulher?” típica da histeria. E, enquanto histérica, banca o homem para indagar o que é uma mulher. Em casa, está sempre consertando a descarga, as rodinhas do carrinho de feira, mas no plano da identidade sexual, parecia ter escolhido a posição masculina: vestia-se e portava-se como um homem. Fala e adora os adornos femininos na mãe e na irmã e, na transferência, na analista. Contava que a irmã, mesmo sem dinheiro para comprar roupas, passeava nas lojas apenas para experimentá-las; já ela sentava em um banquinho e olhava o entre e sai dos provadores. Achava lindas as unhas pintadas da analista, mas nela, de acordo com suas palavras, os adornos femininos não exerciam seu poder, pois ela tinha “unhas de gavião”. O que faz pensar que sua abjeção pelos adornos femininos era apenas uma forma de negação do real do sexo. Tudo que se referia à rua para ela era conotado por sujeiras e imundíces, salvo a rua de seu passado. Ela diz: “A rua, antigamente, era mais suja que agora, mas aquela época é que era boa”. É interessante ressaltar que, embora Suzana ache a rua uma imundice, paradoxalmente ela se refere à rua de seu passado como algo ainda mais sujo, mas para ela aquela época era mais prazerosa do que a atual. As suas sujeiras da rua eram deixadas do lado de fora da casa com medidas excessivas de limpeza, mas infelizmente seu pai trazia nos pés as sujeiras e imundices da rua para dentro de casa. Falava sobre as sujeiras do pai, mas ela não tinha nada pra falar dela mesma. Parecia um ser assexuado, de sua vida erótica lembrava-se apenas de um homem que se interessou por ela, mas ele era um “imprestável”. Importa destacar que é nas relações familiares que a criança constrói sua fantasia como resposta ao enigma do desejo do Outro. Cada indivíduo se sujeita aos significantes aos quais ele se alienou no Outro e são esses que podem falar de sua novela familiar, pois é com eles que ele pode construir uma história de vida. Assim, para Suzana, o pai nunca foi presente, pois vivia na rua. Um homem “bonito” e trabalhador, mas também um “boêmio”, “safado”, “mulherengo” que não sabia respeitar as mulheres. Traía sua mãe com mulheres de rua. A mãe, um exemplo de mulher “casada”, “religiosa”, mas também da “boba” que sempre cuidou da casa, dos filhos e do pai. 15 Suzana, a filha do meio de três irmãos. A irmã, uma mulher perua com todos os apetrechos femininos possíveis. O irmão faz parte da classe dos homens “imprestáveis”, que não sabem como cuidar de uma mulher. A família morava em uma casa grande, construída pelo próprio pai em um lugar residencial, afastado do centro. O pai também ajudou todos os seus familiares a construírem em terrenos próximos. A mãe não tinha autoridade sobre nada em sua própria casa, os familiares entravam em sua casa, comiam e bebiam sem precisar de permissão. Quando se davam conta, já estavam seus primos e tios dentro de casa, tomando conta da vida deles. Lembra que nos finais de semana o pai saía na sexta-feira à noite e voltava para casa no domingo de madrugada. Entrava em casa com os pés sujos da rua, deixando suas pegadas marcadas no chão encerado da casa. Suzana fala sobre um carnaval em que o pai só voltou na quarta-feira de cinzas, e apareceu em uma reportagem da TV sambando com uma mulher. Ao chegar em casa sempre negava tudo, e a mãe aceitava. Ao falar de sua infância, diz não lembrar-se de quase nada, o que lhe vem à memória é um episódio em que tinha 9 ou 10 anos e estava dormindo na mesma cama com uma amiga. O pai foi atrás dela enfurecido, pois não queria que ela dormisse na casa dessa amiga. Anos depois, essa amiga se declarou para a irmã da paciente como “sapatão”. Era também com essa amiga que ela “zanzava” e “zoava” pelas ruas na volta da escola. Mas, segundo a paciente, ela nunca desconfiou das escolhas de objeto amoroso da amiga. Lembra-se também dos vestidos que usava nas festas juninas, quando tinha 6 ou 7 anos, pois eram feitos por sua mãe. Aos 18 anos aconteceu a mudança de endereço da família. Conta que convenceu a mãe de que precisavam se mudar. Assim, minha paciente identificada ao lugar de esposa do pai, vai com ele escolher o novo endereço da família. Depois de ver muitos prédios, escolheram um apartamento localizado ao lado de uma igreja e na Rua do Metrô. Assim, Suzana materializa e condensa dois significantes que a determinam enquanto sujeito “rua e igreja”. Tal mudança trouxe um estilo de vida diferente, pois agora, identificada ao pai, trabalha e sai à noite para farras com amigas e frequenta os mesmos bares que ele. Frequentemente ela o via com outra mulher, corria a dizer, talvez à 16 mãe, que ela Suzana teria melhores condições de sustentar um gozo masculino com uma mulher do que seu pai. Contava tudo que viu, mas o pai negava tudo e a mãe não acreditava. Nesses episódios o pai a chamava de “mulher de zona”. Um belo dia, ao chegar para trabalhar, recebeu a notícia da falência da empresa. Segundo ela, culpa do diretor que só queria saber de mulher. Seu desemprego culminou com uma doença gravíssima da mãe. A Irmã, uma engenheira que estava trabalhando, e o irmão um engenheiro também trabalhando, não poderiam cuidar da mãe e, pelo pai, a mãe seria internada em um hospital psiquiátrico. É nesse momento que Suzana vê-se forçada a cuidar da mãe. Assim, assume o lugar da mãe, retira a libido investida na rua e investe totalmente na mãe e na casa. A vida boêmia que vivia cede lugar a uma vida em função da mãe. Com os cuidados da filha, a mãe se recupera da doença, mas mesmo assim Suzana fala e age como se estivesse imobilizada diante da mãe, como se esta fosse um Outro absoluto e fálico. Na ocasião da análise sua mãe encontrava-se com a idade de 82 anos, mas mesmo assim, em certa sessão, fala das pernas da mãe como “mais bonitas do que as pernas de uma menina de 15 anos”, sugerindo que ela ocupava um lugar de “ideal do eu”. Essa erotização das pernas na transferência mostra-se forte pois em várias sessões elogia as saias e as pernas da analista. O caso de Suzana levanta questões intrigantes, tais como: o que faz um sujeito com 55 anos falar da mãe como um ser completo, sem falta? Que posição ocupa Suzana na partilha dos sexos? O que fez Suzana perverter sua libido? Seria ela um sujeito perverso? Existe perversão no feminino? Em suas pesquisas Freud aborda a constituição da perversão a partir da resolução do Édipo. A fantasia perversa é um elemento da neurose e Para Lacan “Existe aí como que uma redução simbólica, que eliminou progressivamente toda a estrutura subjetiva da situação para deixar subsistir apenas um resíduo inteiramente dessubjetivado”6. Para melhor exemplificar a teoria, Lacan inscreve o caso freudiano da jovem homossexual conceituando 6 LACAN, J. O Seminário Livro 4 A relação de objeto”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999.cit,. p156. 17 uma relação cruzada do sujeito e o Outro, como uma “fantasia perversa que se faz necessária para uma significação simbólica, mas é na interposição imaginária que o sujeito encontra sua estrutura de objeto, na relação egôica com os objetos atraentes para tal, que são os correspondentes ao seu desejo, que o sujeito segue o caminho imaginário que formam suas fixações libidinais”.7 No caso em questão Lacan fala de uma “perversão constituída tardiamente”. Em um primeiro momento, em sua puberdade, a jovem cuidava de crianças, o que a mostrava orientada à vocação típica da mulher, a da maternidade. Mediante esse fato percebe-se que algo ocorreu para uma espécie de inversão “levando-a a interessar-se por objetos de amor marcados pelo signo da feminilidade”. Tanto para Freud quanto para Lacan, o que está em jogo e se faz necessário é algo que se faça de presença e ausência. A questão que está em jogo aí é o falo. No caso de Suzana, aparecem os mesmos elementos do caso da jovem homossexual: o pai, a mãe e a dama, aparentemente ela seguia para uma saída do Édipo onde teria uma escolha de objeto amoroso heterossexual, pois identificada à mãe quando morava afastada do centro da cidade cuidava da casa. Quando muda de residência, muda para o centro da cidade e muda também o seu comportamento, agora identificado ao pai, vive uma vida boêmia junto com sua amiga de infância. A dupla frustação sofrida pelo desemprego causada pelo patrão e pela desvalorização da mãe causada pelo pai a levaram a perverter toda a sua libido para a mãe. A pergunta que me faço nesse caso é: Existe estrutura perversa no feminino? A mulher pode ser fetichista? O texto “A função do véu”, no mesmo seminário, traz uma colocação importante para pensarmos esse caso clínico. Lacan caracteriza o fetiche como “a mulher se dá, na medida em que deve ser assim simbolicamente, a saber, que ela deve dar alguma coisa em troca daquilo que recebe, isto, o falo simbólico”. Nesse mesmo texto, Lacan coloca que o fetiche será próprio do menino, se toda experiência edípica se desse no plano da diferença entre os dois sexos, mas, afirma, “Ora, não é nada disso!”.8 O “Fetichismo 7 Ibidem 6, p. 157 8 Ibidem 7,. p. 156. 18 excessivamente raro na mulher, no sentido próprio e individualizado em que ele se encarna num objeto que podemos considerar como respondendo, de uma maneira simbólica, ao falo como ausente”.9 Como Lacan, vamos deixar a questão da perversão na mulher para outra ocasião e vamos nos deter no caso clínico. A relação do sujeito com um objeto que realmente não é um objeto caracteriza-se em um símbolo que é o fetiche. É Lacan que iguala esse movimento ao sintoma. O véu tem a função de tampar a falta, mas seu valor está justamente em ser a tela na qual o sujeito imagina a ausência “A cortina é, se podemos dizêlo, o ídolo da ausência”.10 Assim, parece que o sujeito guarda certa ilusão em todas as relações tecidas por seu desejo. No caso em questão, a paciente comporta-se de modo que faz parecer que ela está negando a castração. O horror que recai sobre ela, frente à impotência, ao perder o emprego, e à doença da mãe, parece ter sido insuportável. Ela usa a mãe como fetiche para aplacar a angústia de castração. Daí surge o questionamento: Como uma mulher de estrutura histérica comporta-se de forma a negar a castração? nesse mesmo Seminário Lacan diferencia um sujeito de estrutura perversa de um sujeito de comportamento fetichista, e diz que o sujeito de estrutura perversa se utiliza do fetiche no lugar do véu, já o sujeito com um comportamento fetichista utiliza-se do fetiche de forma a localizá-lo atrás do véu, ou seja, no lugar da mãe, onde adere a uma posição de identificação. Assim, enquanto se utiliza do fetiche, ela também o é. No caminhar de sua análise, Suzana se permitiu ver e falar sobre um significante importante em sua fantasia. Ela se vê como a “muleta da mãe”. Um puro objeto utilizado pela mãe, o qual ela pode devorar e, no limite, destruir. Sua identificação com o falo imaginário a impedia de caminhar sozinha pela rua. Mas Suzana precisava de um álibi para ficar em casa. E ela o encontrou nos cuidados da mãe. Agora, com a irmã desempregada, como poderia sair à rua? O desemprego da irmã lhe faz reviver o seu próprio desemprego e lhe remete a uma “encruzilhada”. 9 Ibidem 8,. p. . 10 Ibidem 9,. p. . 19 Quando chegou para análise, Suzana passava seus dias em meio a intrigas histéricas e “bancando o homem” em casa. Não esboçava interesse em sair nem em se divertir. Mas nem sempre foi assim, pois quando ela trabalhava em uma empresa multinacional, saía e se divertia com amigos sobre os quais não quis mencionar nada. Tinha bom relacionamento com todos. Mas, e sua vida erótica? Sobre esse assunto mantinha-se em posição de defesa, não dizia nada. Apenas mencionava que os homens não prestavam. Contra o que ela estava se defendendo? No texto sobre “o fetichismo” (1927), Freud diz que o fetichismo é uma defesa contra a homossexualidade. Ao se utilizar de um fetiche, o sujeito se protege e mantém um triunfo sobre a castração, pois o fetiche transforma a mulher em um objeto sexual. O significado do fetiche não é conhecido por outras pessoas, de modo que não é retirado do fetichista; é facilmente acessível e pode prontamente conseguir a satisfação sexual ligada a ele. Aquilo pelo qual os outros homens têm de implorar e se esforçar, pode ser obtido pelo fetichista sem qualquer dificuldade. Provavelmente a nenhum indivíduo humano do sexo masculino é poupado o susto da castração à vista de um órgão genital feminino. Por que algumas pessoas se tornam homossexuais em consequência dessa impressão, ao passo que outras a desviam pela criação de um fetiche, e a grande maioria a supera, francamente não somos capazes de explicar. É possível que, entre todos os fatores em jogo, ainda não conheçamos os decisivos para os raros resultados patológicos. Temos de nos contentar se pudermos explicar o que aconteceu, e deixar atualmente de lado a tarefa de explicar por que algo não aconteceu. 11 O caso em questão chamou-me a atenção para um sintoma singular que põe o sujeito numa relação eletiva com o fetiche. O que coloco para análise é um caso clínico de uma paciente com estrutura histérica, mas com um comportamento fetichista. O que nos parece é que a paciente tomou a mãe como fetiche no momento de uma dupla frustação: com o pai, quando esse desvaloriza 11 FREUD, S. “O Fetichismo” (1927). In: Obras completas de Sigmund Freud. Ed. Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 97. 20 a mãe e quer interná-la, e com o patrão, que deixou uma empresa multinacional ir à falência, deixando-a desempregada. Na instauração de um comportamento fetichista podemos destacar os elementos: sujeito, objeto e o nada. Esses se relacionam com sentimentos de amor ou de frustração. A diferença consiste no fato de que uma relação do objeto de amor acontece através de uma metáfora, o amor se transfere ao desejo que se apega ao objeto como ilusório. Já a relação do sujeito com o objeto através da frustação, acontece através de metonímia. Neste texto, Lacan se pergunta: “Quais são as causas da instauração fetichista?” Para responder a seus questionamentos, partimos da relação entre a criança real e a mãe simbólica e o falo da mãe que para a criança é imaginário. Nessa relação a moeda principal é o falo, esse sintoma singular põe o sujeito numa relação eletiva com um fetiche, o objeto fascinante inscrito sobre o véu, em torno do qual gravita a sua vida erótica. Na releitura do caso clínico da jovem homossexual, Lacan pôde identificar vários pontos necessários para se falar como disse ele de um “sintoma singular”. São as Lembranças encobridoras, que fixam a interrupção na “barra da saia da mãe”. No caso de Suzana, nas pernas da mãe. “A relação ambígua do sujeito com o fetiche, relação de ilusão, vivida como tal e como tal proferida. A função particularmente satisfatória de um objeto inerte, plenamente a mercê do sujeito para a manobra de suas relações eróticas”12. “O recurso ao fetiche se dobra, se extenua, se desgasta ou simplesmente se furta. O comportamento amoroso do sujeito se resume numa defesa”13. Para Freud, o fetichismo é uma defesa contra o homossexualismo. Já Lacan declara que o Sujeito com um comportamento fetichista tem uma alternância de identificações, o sujeito identifica-se com a mulher confrontada com o pênis destruidor ou com o falo imaginário. O desemprego da irmã revive o seu próprio desemprego, provocando o sintoma e a angústia. Ela vem em busca de análise e, através da transferência, coloca a analista no lugar de Outro absoluto e fálico. “Os autores já há algum 12 LACAN, J. O Seminário Livro 4 A relação de objeto”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999.cit,. p. 162. 13 Ibidem, nota 8. 21 tempo estão bastante embaraçados. Por um lado, não podemos perder o contato com a noção de que a gênese do fetichismo está essencialmente articulada ao complexo de castração. Por outro lado, é nas relações préedipianas, e em nenhum outro lugar, que aparece mais assegurado que a mãe fálica é o elemento central, a mola decisiva”.14 14 LACAN, J. O Seminário Livro 4 A relação de objeto”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999.cit,. p. 161. 22 SEXUALIDADE No começo de seus postulados no texto: “Três Ensaios sobre a teoria da Sexualidade” (1905) Freud identifica como naturais componentes rotulados como aberrações na sexualidade entendida como normal pela sociedade. Diz ele: A experiência cotidiana mostrou que a maioria dessas transgressões, no mínimo as menos graves dentre elas, são um componente que raramente falta na vida sexual das pessoas sadias e que é por elas julgada como qualquer outra intimidade. Quando as circunstâncias são favoráveis, também as pessoas normais podem substituir durante um bom tempo o alvo sexual normal por uma dessas perversões, ou 15 arranjar-lhe um lugar ao lado dele. Para contextualizar a palavra transgressões precisa-se lembrar de que para Freud essa palavra diz respeito, além da homossexualidade, a todos os casos em que o objeto ou o fim sexual sejam incompatíveis com a procriação, pois em sua época a procriação é afirmada como parâmetro de normalidade. A genitalidade representa o ápice de um processo de unificação pulsional a ser atingido, que ele denomina pulsão genital propriamente dita. A sexualidade humana em sua origem é perverso-polimorfa. Essa afirmação freudiana aponta que a criança goza em seus diferentes orifícios corporais. Tais pulsões são caracterizadas pelo simbólico, como uma transgressão da pulsão dita normal que visa à procriação. O que aprendemos com Freud sobre a pulsão é que: Toda pulsão comporta sempre quatro elementos: a fonte somática, a força ou pressão, o trajeto e o objeto, e que tais pulsões devem sofrer uma convergência ao primado da pulsão genital. A fonte da pulsão se localiza, precisamente, nas zonas mucosas próximas aos orifícios do corpo, que constituem assim as diferentes ‘zonas erógenas’. O termo transgressão supõe uma norma, uma regra; uma interdição que se suspende nos casos de perversão, permitindo assim o livre acesso ao objeto e fim pulsional originais. É nesse sentido que se pode afirmar que a sexuali15 FREUD, S. “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). In: Obras completas de Sigmund Freud. Ed. Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 196. 23 dade tem um viés, uma vertente perversa, que contraria a norma da procriação, mas que permanece presente e atuante, como coadjuvante na satisfação sexual. Em nenhuma pessoa sadia falta algum acréscimo ao alvo sexual normal que se possa chamar de perverso, e essa universalidade basta, por si só, para mostrar quão imprópria é a utilização reprobatória da palavra perversão. Justamente no campo da vida sexual é que se tropeça com dificuldades peculiares e realmente insolúveis, no momento, quando se quer traçar uma fronteira nítida entre o que é mera variação dentro da amplitude do fisiológico e o que constitui sintomas patológicos.” (Ibidem) Isso posto, subentende-se que a sexualidade deve estar submetida a certo regramento que iniba (pudor, repugnância e moral – primeiras barreiras) as pulsões parciais que prejudicariam a realização da sexualidade para a procriação. Temos assim um sujeito dividido entre a realização de seus desejos e os ideais sociais que esse conflito provoca, a angústia que o sujeito vivencia frente ao desejo do Outro. A tentativa do sujeito de apaziguar esse conflito é concretizada no recalque, mas esse volta transformado em sintoma, dentro de uma fantasia. Segundo Vera Pollo “Em termos psíquicos, o sintoma da criança responde ao que há de sintomático no casal parental. Nos casos mais graves, ela dá corpo ao objeto da fantasia materna, que, a partir de então, é encontrado no real”.16 Seria este, então, o objetivo fundamental da educação, normatizar a pulsão para assim incluir esse sujeito na sociedade. Freud já pensava nos três produtos impossíveis da civilização – Educar, governar e psicanalisar. A pulsão é acéfala, conclui ele, e os mecanismos da civilização não dão conta de adestrar o gozo todo. Além disso, a partir da releitura feita por Lacan, entendemos que o gozo sexual é essencialmente fálico, funciona a partir do registro da castração, visando, em última instância, à satisfação do desejo. Ou seja, Culturalmente a biologia determina o masculino e o feminino, mas a subjetividade de cada sujeito comprova que existe um ordenador psíquico que não coaduna com os ideais sociais. 16 Vera Pollo, texto: “A interpretação psicanalítica da sexualidade”. 24 A complexidade da sexualidade humana aparece no conflito originário de um desejo familiar pela criança, nas exigências de identificações sociais e nos acontecimentos naturais da vida, tais como o nascimento de um irmão, a morte, a doença e a falta de um dos representantes paternos. Além de tais circunstâncias, com Freud sabemos que a pulsão não visa apenas a genital idade, aliás, há sujeitos que chegam a dispensar o ato genital na vida adulta. É o que se observa, por exemplo, em alguns casos de fetichismo, nos quais o sujeito encontra prazer e gozo com uma simples peça do vestuário feminino, senão com uma imagem, com uma voz ou, até mesmo, com um apetrecho qualquer. Aliás, não se teve que esperar o advento da psicanálise para que os homens tomassem conhecimento da enorme distância que separa o sexo biológico e reprodutor do que chamamos, em psicanálise, de “o gozo sexual do ser falante”. Em “O mal estar na civilização”, texto de (1930), Freud discorre sobre as três fontes de sofrimento pela qual o sujeito é afetado na busca por felicidade, a saber: a natureza, o corpo e o relacionamento com o outro, colocando o processo civilizatório como fonte de conflito para o ser humano que resulta em neurose. Descobriu-se que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe, a serviço de seus ideais culturais, inferindo-se disso que a abolição ou redução dessas 17 exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade. Fato é que a evolução da ciência e da tecnologia nas áreas de exigências da civilização, tais como: a beleza, a limpeza e a ordem, trouxeram ao sujeito bem-estar e proteção, mas a busca por felicidade não coaduna com o resultado da cultura, mas sim com a subjetividade de cada indivíduo, no que tange a suas reivindicações pessoais e às culturais de seu grupo. Em toda civilização é necessária uma renúncia ao pulsional, para assim haver a convivência social entre os sujeitos. 17 FREUD, S. (1930-1929). “O mal-estar na civilização” in: Obras Completas de Sigmund Freud, cit., p. 94. 25 Em “Totem e Tabu” (1912) Freud diz que na sociedade totêmica o pai detinha todo o poder, mas com o assassinato desse pai arbitrário e gozador, os filhos inauguraram o grupo. A sociedade não mais seria regida por um totem, mas pelo tabu que orientou a construção das leis com seus direitos e deveres. A descoberta pelos filhos que unidos seriam mais fortes do que separados culminou em uma necessidade externa de trabalho e também a necessidade de um objeto sexual. A mulher necessitava de uma parte que lhe faltava, o filho. E foi pela força de Eros e Ananke, ou seja, amor e necessidade, que a civilização teve seu desenvolvimento. Dentro de uma lógica pessoal de princípios de prazer e desprazer o sujeito constrói sua fantasia com as impressões que apreende do mundo, formando uma cadeia de significantes. Mas essa conciliação entre pulsão e cultura traz, como vimos acima, três tipos de sofrimento: a natureza, o corpo e os relacionamentos. Lacan, no seminário XVII, formula os matemas dos quatro discursos que compõe a civilização. Os quatro discursos, segundo ele, vão nos explicar acerca desse mal-estar, pois a entrada do sujeito na cultura implica uma renúncia ao gozo. Quinet, no livro “Os Outros em Lacan” (2012), coloca O eu está para o outro assim como o sujeito está para o Outro. O sujeito é determinado pelos significantes do Outro. A identidade − que é imaginária – do eu vem do outro; mas o sujeito é sem identidade. [...] Mas há alguns significantes do Outro que têm uma força de determinação e se impõem como se fossem uma obrigação que o sujeito deveria acatar para se definir. Estes se apresentam como um “Tu és...”, mortificando o sujeito. São significantes que etiquetam o sujeito e aos quais ele se identifica, como por exemplo: Tu és feia, forte, garanhão, um verme, traidora, sempre bela etc. [...] Para todo ser humano, o Outro é o tesouro dos significantes e, como tal, é 18 prévio ao sujeito, é anterior ao nascimento. A cultura, com seus valores e preconceitos, tipifica o Outro para o ser humano. A mãe encarna esse primeiro grande Outro, alienando a criança aos seus significantes. Mas para se tornar um sujeito a criança necessita separarse dos significantes maternos para assim desejar. 18 Quinet, Antonio, “Os Outros em Lacan”, (2012) p. 22−27. 26 No Seminário 5 “As formações do inconsciente” Lacan constrói a teoria do significante Nome-do-Pai como aquele que representa o Outro, aquele que inscreve a Lei no inconsciente. Esse Outro é entendido como tesouro do significante é onde se deposita todas as exigências da sociedade. Para o sujeito esse Outro é completo e consistente. Ou seja, o cerne da função do pai é a questão do Édipo; o pai, desta forma, é visto como o pai simbólico, ou seja, como uma metáfora, cuja função no complexo de Édipo é substituir o primeiro significante (o materno) pela simbolização cultural. O Édipo conceito elaborado por Freud e elevado por Lacan a uma metáfora paterna na qual o nome do pai barra o desejo da mãe, ao qual a criança identifica-se como sendo ela objeto de gozo. A lei simbólica, uma vez instaurada, faz um furo no gozo. É sobre esse tema que nos deteremos no próximo capítulo. 27 1.1 COMPLEXOS DE ÉDIPO Mito de Édipo Utilizando um mito clássico na História da Filosofia, a tragédia Édipo rei de Sófocles, Freud eleva o mito do Édipo a um complexo que constitui um conflito nodal da teoria e da clínica psicanalítica. O complexo de Édipo constitui o sujeito. Com Freud percebemos que, além do complexo edípico ser um “complexo nuclear” das neuroses, ele também é de suma importância na partilha dos sexos, e de seu posicionamento frente à angústia. O mito conta a história de um rei da cidade de Tebas, que é casado com Jocasta, que foi advertido pelo oráculo de que não poderia gerar filhos e, se esse mandamento fosse desobedecido, o mesmo seria morto pelo próprio filho, que se casaria com a mãe. O rei de Tebas, chamado Laio, não acreditou e teve um filho com Jocasta. Arrependendo-se do que havia feito, abandona a criança numa montanha com os tornozelos furados para que ela lá morresse de inanição ou devorada por alguma fera. É essa ferida que nomeia o menino Édipo, que significa pés inchados. Pastores que caminhavam pela montanha encontram o menino. Eles o levaram a Polibo, rei de Corinto, que o criou como filho legítimo. Já adulto Édipo vai consultar o oráculo de Delfos para saber o seu destino. O oráculo desvela que o seu destino era matar o pai e se casar com a mãe. Atordoado com seu destino, Édipo deixou Corinto e partiu em direção a Tebas. No meio do caminho encontrou-se com Laio, o rei de Tebas, que lhe manda sair do caminho para que ele, o rei, pudesse passar. Édipo não atendeu ao pedido do rei e lutou com ele até matá-lo. Sem saber que havia matado o próprio pai, Édipo prosseguiu sua viagem para Tebas. No caminho, encontrou-se com a Esfinge, um monstro metade leão, metade mulher, que atormentava o povo tebano, pois lançava enigmas e devorava quem não os decifrasse. O enigma proposto pela esfinge era o seguinte: Qual é o animal que de manhã tem quatro pés, dois ao meio dia e três à tarde? Ele respondeu que era o homem, pois na manhã da vida (infância) engatinha com pés e mãos, ao meio-dia (idade adulta) anda sobre dois pés e à 28 tarde (velhice) precisa das duas pernas e de uma bengala. Furiosa por ter sido decifrada a Esfinge se matou. O povo de Tebas saudou Édipo como seu novo rei, e entregou-lhe Jocasta como esposa. Livre da esfinge o povo conheceu um tempo de bonança, mas depois sobreveio uma violenta peste na cidade. Édipo mandou consultar o oráculo, que respondeu que a peste não teria fim enquanto o assassino de Laio não fosse castigado. Ao longo das investigações, a verdade foi esclarecida. Édipo cegou-se e Jocasta enforcou-se. O mito se diferencia da tragédia no que tange a razão de existir, pois o mito vem agir como uma forma de apaziguamento dos conflitos, já a tragédia é uma retomada do mito a partir dos impasses desse saber, numa tentativa de ruptura de valores, pois o mito que deveria sustentar o sujeito não dá conta. Na tragédia figuram-se todas as agruras do ser humano, contadas de uma forma dramática, mas ao mesmo tempo palatável ao sujeito, onde é possível depararmos com a falta, o furo, as impossibilidades do ser humano de uma forma mais palatável ao sujeito. Segundo Denise Maurano no texto: “A Face Oculta do Amor ou Lacan: trágico em cena” coloca: “A relação entre a psicanálise e a arte trágica. Estes dois campos, embora não constituam nenhuma visão totalizante do mundo, levantam reflexões fundamentais acerca da condição humana, as quais evidenciam uma proximidade estrutural importante entre eles. Resolvi, então, buscar, na obra de Freud e de Lacan, elementos para a construção de uma concepção psicanalítica de trágico que pudesse servir à elucidação da ética da intervenção analítica, tanto no que diz respeito à clínica, quanto no que se refere à intervenção do pensamento psicanalítico na cultura. Tal pensamento, longe de se encaminhar para a apologia do homem e de seus feitos, revela o pathos, o espanto que surge na confrontação com o limite humano, confrontação com o limite do que pode ser visto ou sabido acerca da condição humana, ponto que pode ser designado pelo termo grego Ate. Esse termo, segundo Lacan, designa o móbil da verdadeira ação trágica, que aponta para uma certa calamidade fundamental, frente à qual o herói, movido pelo desejo, não se detém, malgrado o risco que sua ultrapassagem comporta. Não se trata, para a psicanálise, de abordar esse limite enquanto um erro, um equívoco removível, como pensava Aristóteles. Trata-se de algo bem mais radical que isto, que intervém tanto na tragédia, quanto na psicanálise. 29 Instalado no universo estruturalmente errante da linguagem, desalojado das determinações cerradas do mundo natural, onde a codificação genética delimita a eficiência das ações no atendimento das necessidades, o homem busca, por meio do desejo, transpor a fenda cavada pelo corte com o natural. Na emergência do desejo, Freud localiza a fundação do psiquismo, e, correlativo a este, a invenção do sentido. Desta forma, para o homem, as coisas não são o que são, mas o que representam. Desabrigado do campo das determinações naturais, e presa do universo da linguagem, o homem é nele atraído pela imantação do desejo do Outro, que lá estava. Tomando o Outro como referência na constituição de seu próprio desejo, paga com o assujeitamento o preço de seu ingresso no campo da linguagem, campo humano por excelência. Assim, passa a chamar-se sujeito, ou seja, subjectum, posto debaixo. 19 O que Freud toma para sua teoria do mito de Édipo, no final do século e no início do século XIX, é o pensamento de que entre a criança e seus pais existem desejos amorosos e hostis inconscientes. E a criança os experimenta em relação aos pais, o que gera conflitos insuportáveis ao sujeito: é esse o momento de suma importância para formar um sujeito desejante. Em sua forma positiva, o complexo é semelhante à história do mito, ou seja, desejo da morte do rival, que é a pessoa do mesmo sexo, e desejo sexual pela personagem do sexo oposto. Em sua forma negativa, apresenta-se de forma inversa, ou seja, raiva do sexo oposto e amor pelo mesmo sexo. Em (1897) Freud enviou uma carta ao amigo Wilhelm Fliess, em meio à sua autoanálise, onde estabelece, a partir do seu próprio exemplo, a validade universal da tragédia grega como uma importante chave para a compreensão das vicissitudes do psiquismo humano: Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, a paixão pela mãe e o ciúme do pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância (...) Sendo assim, podemos entender a força avassaladora de Oedipus Rex (...) a lenda grega capta uma compulsão que toda pessoa reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. Cada pessoa da plateia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização do sonho aqui transposto para a realidade, com toda a 19 A FACE OCULTA DO AMOR A tragédia à luz da psicanálise. Texto on line 30 carga de recalcamento que separa seu estado infantil do seu estado atual. (Freud, 1897/1996, p. 316) Nesse começo das formulações freudianas o mito de Édipo, apresentase como uma simetria na primeira infância, pois tanto os meninos quanto as meninas se sentiriam naturalmente atraídos pelo progenitor do sexo oposto, repudiando o progenitor do mesmo sexo. Dessas relações surgem os conflitos relacionados à sexualidade, as formulações freudianas vem constatar o complexo de Édipo como um elemento central e estruturante da sexualidade humana, a saber, a sedução, a castração e a cena originária constituem o conflito que engloba a relação do filho com seus pais, e também uma história anterior a ele, que caracteriza os desejos materno e paterno. No texto “Sobre o Narcisismo: uma introdução” Freud coloca: Descobrimos, de modo especialmente claro, em pessoas cujo desenvolvimento libidinal sofreu alguma perturbação, tais como pervertidos e homossexuais, que em sua escolha ulterior dos objetos amorosos elas adotaram como modelo não sua mãe, mas seus próprios eus. Procuram inequivocamente a si mesmas como um objeto amoroso, e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado “narcisista (...) Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais – ele próprio e a mulher que cuida dele – e ao fazê-lo estamos postulando a existência de um narcisismo primário em todos, o qual, em alguns casos, pode manifestar-se de 20 forma dominante em sua escolha objeta”. [...] Existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma ligação da libido a uma pessoa 21 particular. Já em (1921) No texto “Psicologia das massas e Análise do Eu”, Freud traz de volta o tema do Édipo, mas com uma estrutura diferente. Nesse texto ele coloca o processo de identificação na esfera de um “laço emocional”22, destaca ainda a importância desses na formação do complexo de Édipo, pois é destas relações que o sujeito responde. Freud percebeu que nem toda vivência 20 FREUD, S. “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 94−95. 21 Ibdem 11 p. 254-255. 22 FREUD, S. “Psicologia de grupo e análise do ego” (1921). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 115. 31 do Édipo segue os enamoramentos ditos normais e que esse poderia ser vivido com contornos e desfechos diferentes. O menino, em tal caso, ao invés de se identificar com o pai, assumiria uma posição feminina, elegendo o genitor do sexo masculino como objeto sexual, ou seja, o pai como primeiro objeto de identificação e a mãe como primeiro objeto de amor. Existe ainda segundo Freud uma terceira possibilidade, seria um tipo de identificação egóica sem qualquer relação objetal mais íntima com a pessoa copiada, mas resultante de alguma qualidade partilhada. Neste contexto, quanto mais importante(s) o(s) atributo(s) em comum, mais poderosa a identificação. A elaboração freudiana sobre o complexo de Édipo prossegue no texto “A Dissolução do Complexo de Édipo” (1924), onde ele coloca a necessidade da destruição de tais relações edípicas, que resultam em ocorrência de desapontamentos ou experiências de frustração amorosa. Como também assegura que o Édipo ocorre na infância, período que se pensava em anjos em forma de criança, mas Freud caracteriza essa fase como sendo a qual a criança dá maior importância aos órgãos sexuais, em particular o masculino. Essa valorização do pênis pela criança seria acompanhada da sua manipulação por parte do menino. Rapidamente a criança descobriria a desaprovação destes comportamentos por parte dos seus cuidadores, a possível ameaça de castração lhes faz saber. Segundo Freud a destruição da organização fálica do garoto se efetiva na visão da genitália feminina. Esta sim causaria no menino um verdadeiro terror, resultando no chamado “complexo de castração” e na fase de “latência”. Conclui Freud, no texto de 1924, que a menina afastase do pai por não ter seu desejo de ter um filho realizado. A menina não teme a castração, por já ser castrada. Enquanto no menino o Supereu se forma pela introjeção da autoridade paterna, na menina são fatores externos que lhe impulsionam, tais como a educação e o temor de não ser mais amada. Até esse momento da teoria, em suas elaborações, Freud via relativa igualdade desses conflitos no menino e na menina. Mas ao despender uma maior ênfase na relação entre o Édipo e a sexualidade feminina, percebeu que no caso da menina os conflitos ocorreriam de maneira diversa. 32 Isto posto, a partir desse momento é sobre a sexualidade feminina que este trabalho se debruçará. Inicialmente, na sexualidade feminina o clitóris desempenharia a função de um pênis. Contudo, a diferença de tamanho evidenciada pela comparação com um colega a conduziria a um sentimento de injustiça e inferioridade, mal-estar cujo consolo residiria na esperança de, algum dia, também alcançar um órgão semelhante. Para Freud, o complexo feminino se diferencia do masculino, pois, diferentemente do menino, a menina não associaria a sua falta de pênis a uma castração no corpo, mas sim a uma castração imaginária. “Algumas Consequências Psíquicas da Distinção Anatômica entre os Sexos” (1925), foi o texto em que Freud retomou as questões sobre o Édipo feminino, e estabeleceu um novo domínio extremamente importante, principalmente para a sexualidade das meninas. Para elas o complexo de Édipo é apenas uma formação secundária. Antes de chegar ao complexo de Édipo positivo (amor pelo pai), há a fase pré-edipiana, extremamente importante na questão da feminilidade, que se caracteriza pelo princípio do Édipo negativo nas meninas; durante a fase de ligação com a mãe (Édipo negativo), o pai é considerado um rival, mesmo que elas não o hostilizem tanto quanto os meninos. Em 1931, Freud se debruça especificamente sobre a sexualidade da menina e, no texto “Sexualidade feminina”, elabora sobre sua mais nova descoberta. Antes da ligação da menina com o pai, afirma uma importância significativa à ligação pré-edipiana da menina à mãe. Faz um longo exame do elemento ativo na atitude da menina com a mãe e na feminilidade em geral. Observa que antes de surgir a ligação da menina com o pai existia uma forte ligação desta com a mãe, sendo que, em muitos casos, esta persiste para além dos quatro ou cinco anos: “Tínhamos de levar em conta a possibilidade de um certo número de mulheres permanecerem detidas em sua ligação original à mãe e nunca alcançarem uma verdadeira mudança em direção aos homens”23. E postula uma dessimetria entre o Édipo feminino e o Édipo masculino. No menino, a visão dos órgãos femininos introduz o complexo de castração, tendo como consequências a destruição do Édipo, o desinvestimento da 23 FREUD, S. “sexualidade feminina” (1931). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 260. 33 mãe e a criação do superego, sendo que um dos resíduos do complexo de castração será sua depreciação da mulher enquanto ser castrado. A menina reconhece sua castração e a superioridade do menino, mas protesta contra este estado, restando-lhe três saídas: renunciar à sexualidade, reivindicar o pênis ou aceitar a feminilidade. Freud se questiona nesse texto: “O que exige a menina da mãe?”24 No ano seguinte retoma a sexualidade da menina no texto “Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise” (1932). Nesse texto levanta o problema da bissexualidade, pois anatomicamente um indivíduo não é totalmente macho nem totalmente fêmeo, somente os produtos sexuais são unívocos: espermatozoide e óvulo. Freud nos adverte a não cairmos no engodo de colocarmos a sexualidade humana dentro dos parâmetros sociais, pois os ideais sociais são os responsáveis por as mulheres reprimirem suas pulsões agressivas, daí as formações de tendências fortemente masoquistas voltadas para dirigir para si mesma as erotizações: o masoquismo é, portanto, essencialmente feminino, mas na clínica Freud identificou o masoquismo feminino em homens. No texto “O problema econômico do masoquismo” (1924) Freud coloca-o sob três formas: 1. Condição imposta à excitação sexual o masoquismo erógeno. 2. Expressão da natureza feminina o masoquismo feminino. 3. Como norma de comportamento o masoquismo moral. Segundo Freud o masoquismo encontra-se na base do psiquismo humano, mas em um determinado momento, à medida que novos elementos aliam-se a ele, esse mecanismo simples do psiquismo torna-se um problema. Um exemplo dessa dinâmica é o masoquismo moral, que aliado às exigências externas transforma-se em um sentimento de culpa que se pode observar na clínica como um mecanismo inconsciente. Podemos observar também o masoquismo feminino que na clínica é o mais observável e o menos problemático. Freud encontrou o masoquismo feminino nos homens, e diz que as fantasias nesses sujeitos “se concluem por um ato de masturbação ou represen24 Ibidem 12, p. 270. 34 tam uma satisfação sexual em si própria”. 25 A vida sexual de homens com a forma de masoquismo feminino transforma-se em “desempenhos levados a cabo como um fim em si próprio, quer sirvam para induzir potência e conduzir ao ato sexual. Em ambos os casos pois os desempenhos são, no fim das contas, apenas uma execução das fantasias em jogo. O conteúdo manifesto é de ser amordaçado, amarrado, dolorosamente, espancado, acoitado de alguma maneira maltratado, forçado à obediência incondicional, sujado e aviltado”.26 O que a clínica nos ensina é que o homem masoquista em suas fantasias deseja permanecer como uma criança pequena e desamparada “mas particularmente como uma criança travessa.”27 “[...] As fantasias masoquistas foram de modo especial, ricamente elaboradas, de imediato se descobre que elas colocam o indivíduo numa situação caracteristicamente feminina; elas significam, assim, ser castrado, ou ser copulado, ou dar à luz um bebê.” 28 Essas fantasias infantis de ser castrado ou ser cegado, deixa um elemento de negatividade de si próprio nas fantasias onde a necessidade de punição que a culpa acarreta é a expressão de exigências internas mais a externa, ou seja, o masoquismo moral. Esse se fortalece na masturbação infantil. O masoquismo erógeno é um resto ao qual o sujeito não consegue expelir e, portanto tornou-se elemento da libido. “Esse masoquismo seria assim prova e remanescente da fase de desenvolvimento em que a coalescência (tão importante para a vida entre a pulsão de morte) e Eros se efetuou. Não ficaremos surpresos em escutar que, em certas circunstancias o sadismo, ou pulsão de destruição, antes dirigido para fora, projetado, pode ser mais uma vez introjetado, voltado para dentro, regredindo assim à sua situação anterior. Se tal acontece, produz-se um masoquismo secundário, que é acrescentado ao masoquismo original. O masoquismo erógeno acompanha a libido por todas as suas fases de desenvolvimento e delas deriva seus revestimentos psíquicos cambiantes. O medo de ser devorado pelo animal totêmico (o pai) origina-se da organização 25 FREUD, S. “O Problema econômico do masoquismo” (1924). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 179. 26 Ibdem 24, p.179. 27 Ibidem 25, p.180. 28 Ibidem 26, p.180. 35 oral primitiva; o desejo de ser espancado pelo pai provém da fase anal-sádica que a segue; a castração, embora seja posteriormente rejeitada, ingressa no conteúdo das fantasias masoquistas como um precipitado do estádio ou organização fálica e da organização genital final surgem, naturalmente, as situações de ser copulado e de dar nascimento, que são características da feminilidade.”29 Já no masoquismo moral a dinâmica que ocorre é um afrouxamento das ligações com a sexualidade. Assim faz-se necessário que a condição de necessidade de punição que surge da pessoa amada e sejam tolerados pela mesma seja destruído, sendo o próprio sujeito o sofredor e o autor da punição. “O verdadeiro masoquista sempre oferece a face onde quer que tenha oportunidade de receber um golpe.”30 O masoquista não considera a libido para fora, mas sim volta-se novamente para dentro e se rebela contra o eu. “O sofrimento acarretado pelas neuroses é exatamente o fator que as torna valiosas para a tendência masoquista.”31 No texto “Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise” (1932) Freud coloca outra questão na elucidação da sexualidade da menina: como este ser bissexual que é menina torna-se mulher? Parece-nos que na fase fálica, a menina é um homenzinho, não há diferença entre a menina e o menino, inexiste a vagina, e a masturbação fálica é a mesma para ambos, sendo o clitóris comparado a um pequeno pênis32. Daí a importância da mudança de zona erógena para a sexualidade feminina: do clitóris, para a vagina como fonte de prazer, e outra mudança se faz necessária, a mudança de objeto: a menina abandona sua ligação primária com a mãe e toma o pai como objeto, sempre levando em conta que a fase pré-edipiana desempenha um importante papel para o desenvolvimento da menina, nas fases que ela atravessa: oral, anal, fálica, ativa, passiva. Este período caracteriza-se por forte ambivalência. Essa fase é marcada também pelo desejo da menina em fazer um filho na mãe e ter um dela. Como não consegue realizar seu desejo, a menina cria um ódio intenso pela mãe, que a fez castra29 Ibidem 27, p. 182. 30 Ibidem 28, p. 183. 31 Ibidem 29, p. 183. 32 FREUD, S. “Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise” (1932). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 146. 36 da como ela o é. A menina reprova a mãe por não lhe ter dado um pênis: nasce a inveja do pênis (Penisneid). Essa inveja aparece em três sentidos: 1) Quer que o clitóris seja um pênis; 2) Deseja o pênis do pai; 3) Espera ter um filho do pai. Sentimento esse que persistirá por toda a vida, podendo ser sublimado, como na escolha de uma profissão que lhe permita satisfazer, mesmo que parcialmente, este desejo reprimido. Esse momento de descobrir-se castrada para a menina é determinante, pois conduzirá a menina ao abandono da mãe, desfalicizada. Esta descoberta leva a menina à renúncia da masturbação clitoriana e da atividade fálica; ligase então ao pai, primeiro desejando um pênis daquele que o possui; depois se estabelece a situação edipiana normal, passando a desejar um filho, substituto do pênis. Depois, a inveja do pênis é satisfeita pelo nascimento de uma criança, sobretudo se for do sexo masculino. O que é interessante abordar nesse momento da teoria, é que o complexo de castração na menina a insere no Édipo, ou seja, ela toma o pai como objeto de desejo. O Édipo é, então, um “refúgio” para a menina, por conta desse movimento da menina Freud pode perceber que muitas mulheres nunca saem do Édipo. Isto posto, nos deparamos com o enigma do feminino, a dissolução do complexo de Édipo é apenas parcial na menina. Essa dificuldade na dissolução do Édipo reflete como prejuízo na formação do supereu. 37 1.2 AFINIDADES E DIFERENÇA ENTRE O ÓRGÃO PENIANO E O SIGNIFICANTE FALO Em seu texto de 1923 Freud ilumina a característica principal da “‘organização genital infantil’. Ela consiste no fato de, para ambos os sexos, entrar em consideração apenas um órgão genital, ou seja, o masculino. O que está presente, portanto, não é a primazia dos órgãos genitais, mas a primazia do falo”.33 Para entendermos a primazia do falo se faz necessário designar a representação que evoca esse símbolo. Ao pensarmos no falo o definimos como algo masculino. Segundo Freud “[...] nesse estágio da organização genital infantil, sobre a qual agora temos conhecimento, existe masculinidade, mas não feminilidade. A antítese aqui é entre possuir um órgão genital masculino e ser castrado”.34 Em verdade nenhum dos dois sexos biológicos tem o que o pênis encarna, e a criança sabe disso, pois ela mesma já encarnou esse símbolo para sua mãe. É Lacan, no “Seminário 5: As formações do inconsciente” (19571958/1999), que eleva o falo de objeto para o significante do desejo. A menina apresenta-se no complexo de Édipo, inicialmente, em sua relação com a mãe, e é o fracasso dessa relação com a mãe que lhe descortina a relação com o pai, com o que depois será normatizado pela equivalência entre o pênis, que ela jamais possuirá, e o filho que 35 ela de fato poderá ter, e que poderá dar em seu lugar.” Não é do pênis que se trata, mas do falo, do significante, que como os demais, encontra espaço no discurso do Outro. É o significante da falta, significante da diferença entre a demanda do sujeito e seu desejo, e este desejo, tem referência fálica. 33 FREUD, S. “organização genital infantil” (1923). In: Obras completas de Sigmund Freud,cit., p. 158. 34 Idem Nota 20, p. 161. 35 LACAN, J. O Seminário, Livro 5, as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar Ed.,1999. cit., p. 288. Jorge 38 “[...] ele [o falo] só é concebível se implicado desde logo como sendo o significante da falta, o significante da distância entre a demanda do sujeito e seu desejo. Para que se chegue a esse desejo, é sempre preciso fazer certa dedução da entrada necessária no ciclo 36 significante.” No texto “A significação do falo” (1958), Lacan nega a possibilidade do falo ser um efeito imaginário, ele não é um objeto parcial, interno, bom ou mau, tampouco é um órgão, pênis ou clitóris, que ele simboliza. E não foi sem razão que Freud extraiu-lhe a referência do simulacro que ele era para os antigos. Pois o falo é um significante.37 “O falo como significante dá a razão do desejo (na acepção em que esse termo é empregado como ‘média e razão extrema’ da divisão harmônica).”.38 A função significante do falo compreende na divisão do sujeito frente ao desejo do outro, para onde ele aponta. Nesse sentido podemos entender, como diz Lacan, que essa experiência traz um conflito no qual o sujeito se pergunta se ele tem ou não tem o falo, já que a mãe não o tem, inscrevendo assim a marca do desejo, com a ameaça ou a nostalgia da falta-a-ter. Digamos que essas relações girarão em torno de um ser e de um ter que, por se reportarem a um significante, o falo tem o efeito contrário de, por um lado, dar realidade ao sujeito nesse significante e, por 39 outro, irrealizar as relações a serem significadas. Freud coloca uma equivalência inconsciente entre os excrementos, dinheiro, filho e pênis. A menina vai equacionar simbolicamente pênis e filho. Quando a mulher põe o filho no lugar da falta, o faz desde o valor que este tem enquanto equivalente do falo. O falo, com seus equivalentes, é algo separável do corpo, algo que se pode ter e que se pode perder. Como vimos, o falo é um ordenador do inconsciente que opera como uma barra. A metáfora paterna vem introduzir a ordem simbólica. Essa simboli36 Idem 22, cit,. p. 296. 37 LACAN, J. “A significação do falo“ in: O Seminário Livro 5 as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999.cit,. p. 696−697 38 Idem 24, cit,. p. 700. 39 Idem 24, cit,. p. 701. 39 zação ficará incompleta se a mãe puser o filho no lugar do que lhe falta, porque a mãe torna-se completa, toda, na norma fálica, e o filho encarna esse significante para satisfazer o desejo materno. É nessa trama que o corpo da criança se erotiza, e tem valor de falo para mãe. Assim podemos concluir que o falo está no lugar do desejo. O pai se revela como aquele que o tem e que poderá transmiti-lo à criança, como uma promessa. A criança não tem o falo hoje, mas poderá assumir uma posição de ter o falo, se renunciar a sê-lo. É nessa fase que se estabelece a identificação com o pai, que permite a formação do Ideal do eu. É por intervir como aquele que tem o falo que o pai é internalizado no sujeito como Ideal do eu, e a partir daí o complexo de Édipo declina. A criança detém consigo todas as condições das quais pode se servir no futuro. Diz Lacan: O pai acha-se numa posição metafórica, na medida e unicamente na medida em que a mãe faz dele aquele que sanciona, por sua presença, a existência como tal do lugar da lei. Uma imensa amplitude, portanto, é deixada aos meios e modos como isso pode se realizar razão por que é compatível com diversas configurações concretas. É nessa medida que o terceiro tempo do complexo de Édipo pode ser transposto, isto é, a etapa da identificação, na qual se trata de o menino se identificar com o pai como possuidor do pênis, e 40 de a menina reconhecer o homem como aquele que o possui.” 40 Ibdem, p. 202−203. 40 1.3 A CASTRAÇÃO FEMININA COMO MARCO DA DIFERENÇA No texto de 1925 “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” Freud traz os elementos sobre a sexualidade feminina e começa com uma questão: “Em ambos os casos, a mãe é o objeto original, e não constitui causa de surpresa que os meninos retenham esse objeto no complexo de Édipo. Como ocorre então que as meninas o abandonem e, ao invés, tomem o pai como objeto? Para Freud a menina se comporta diferentemente frente à castração “Ela o viu, sabe que não o tem e quer tê-lo”.41 Essa construção constitui o complexo de masculinidade, que se faz necessário à menina, que por sua vez precisa superá-lo para assim ascender à feminilidade. Se a menina não consegue superar esse complexo, surge então o processo de rejeição, no qual a menina recusa o fato de ser castrada e coloca-se numa posição masculinizada. O importante à menina é a compreensão da diferença sexual enquanto universal, pela qual se produz uma cicatriz, um sentimento de inferioridade, que se traduz em ciúme, que tem como consequência a inveja do pênis, o que promove o afrouxamento da ligação mãe-filha. Pois a menina culpabiliza a mãe por não ter o pênis, e a odeia por preferir outra criança. A inveja do pênis promove também a intolerância da menina à masturbação clitoriana, pois essa é uma atividade masculina e a eliminação desta constitui precondição necessária para o desenvolvimento da feminilidade. Longe de ser uma influência educacional, Freud a coloca como uma onda repressora que extinguirá parte da sexualidade masculina na menina. Condição para que a menina siga o caminho da feminilidade. Não pode ser outra coisa, se não seu sentimento narcísico de humilhação ligado à inveja do pênis, o lembrete de que afinal de contas, esse é um ponto no qual ela não pode competir com os meninos, e que assim seria melhor para ela abandonar a ideia de fazê-lo. Seu reconhecimento da distinção 41 FREUD, S. “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 281. 41 anatômica entre os sexos força-a a afastar-se da masculinidade e da masturbação masculina, para novas linhas que conduzem à feminilidade. Importa saber que o Édipo na menina é uma formação secundária, onde a libido de um desejo de pênis desliza para um desejo de filho. Tomando o pai como objeto de amor, a mãe torna-se objeto de seu ciúme. Ligação essa que também se faz necessária à dissolução, já que a sua permanência pode ceder lugar a uma identificação com ele, ocorrendo um retorno ao complexo de masculinidade. A entrada e a saída do complexo de Édipo deixam efeitos sobre o sujeito. No menino o choque da ameaça da castração faz em pedaços o Édipo, assim sua libido em parte é sublimada e seus objetos são incorporados ao ego, onde formam o núcleo do superego. “Em casos normais, ou melhor, em casos ideais, o complexo de Édipo não existe mais, nem mesmo no inconsciente, o superego se tornou seu herdeiro.”42 Na menina existe já de início uma diferença, o complexo de castração já ocorreu, e o que a faz entrar no Édipo é a inveja do pênis, o ciúme. E o que a faz sair? O que observamos em casos clínicos é que a menina pode lentamente abandoná-lo ou conviver com a repressão onde seus efeitos podem persistir com bastante ênfase na vida mental normal da menina. Fato é que a formação do supereu de meninos e meninas é diferente e que todos os indivíduos humanos, como resultado da disposição à bissexualidade e da: “herança cruzada, combinam em si características tanto masculina quanto femininas, de maneira que a masculinidade e a feminilidade puras permanecem sendo construções teóricas de conteúdo incerto.” 43 A sexualidade da menina tem papel importante na formação da cultura e da sociedade, pois ela mostra que a realidade psíquica não pode ser universalizada, ela se caracteriza pela diferença. 42 FREUD, S. “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 285. 43 Ibdem 23, p. 286. 42 1.4 A NEUROSE A neurose é o resultado de uma defesa natural do sujeito, momento em que o sujeito recalca os elementos psíquicos desagradáveis à consciência, elementos esses provenientes do complexo de castração e do Édipo, e é sobre eles que o sujeito constrói sua fantasia, tendo como saída o sintoma, “como é o caso das ideias sexuais”.44 Para explicar tal recalcamento Freud, em uma carta escrita a Fliess, coloca como causa a vergonha e a moralidade. “A experiência diária nos mostra que, quando a libido alcança um nível suficiente, a repulsa é sentida e a moralidade é suplantada; penso que o aparecimento da vergonha se relaciona, por meio de ligações mais profundas, com a experiência sexual”.45 Freud subdivide em psiconeuroses como: 1. Histérica 2. Obsessiva 3. Paranoica Esses três tipos possuem elementos em comum, mas cada um guarda em si suas particularidades. A histeria expressa no corpo seus conflitos, a obsessão sofre dos pensamentos com as autocensuras, a paranoia tem o que de mortificação e o Luto uma amência alucinatória aguda. Esses elementos trazem um prejuízo para o eu, mas é no caso a caso que a neurose sai do normal para o patológico. Normalmente o recalque segue o caminho citado por Freud: 44 FREUD, S. “Rascunho k” (1896). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 268. 45 Ibidem 36. p. 269. 43 1. A experiência sexual é traumática e deve ser recalcada; 2. A formação de um sintoma primário; 3. A defesa; 4. As ideias recalcadas voltam formando um novo sintoma. É no retorno do recalcado que as neuroses se diferenciam na maneira como os sintomas se formam e no destino da doença. Para classificarmos uma neurose faz-se importante na vida do sujeito haver uma predominância da realidade. No texto: “A perda da realidade na neurose e na psicose” (1924) Freud coloca como diferença fundamental entre a neurose e a psicose a questão da realidade, o que caracteriza uma psicose é a perda da realidade, mas salienta que na neurose de alguma forma existe uma perturbação da realidade. (...) servindo-lhe de um meio de se afastar da realidade... O afrouxamento da relação com a realidade é uma consequência desse segundo passo na formação de uma neurose, e não deveríamos surpreender-nos que um exame pormenorizado demonstre que a perda da realidade afeta exatamente aquele fragmento de realidade, cujas exigências resultaram na repressão pulsional ocorrida.46 Nesse mesmo texto Freud lança mão do caso clínico de Elisabeth von R. sobre o qual relata que: A jovem de pé ao lado da cama da irmã moribunda, tem o seguinte pensamento: “Agora ele está livre e pode se casar comigo.” Essa cena foi ligeiramente esquecida pelo mecanismo do recalque, sendo esse o momento do começo de seu sofrimento histérico. Essa é a forma que a neurose tenta solucionar os conflitos. A jovem, diz Freud, se afastou do valor da mudança que ocorrera na realidade, reprimindo a exigência pulsional que havia surgido, isto é, seu amor pelo cunhado. A neurose é a marca da “rebelião por parte do eu contra o mundo externo de sua incapacidade a adaptar-se as exigências da realidade.”47 46 FREUD, S. “A perda da realidade na neurose e na psicose” (1924). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 205. 47 Ibidem 38. P.206 44 De um modo geral a neurose consiste em uma dinâmica que comporta um sentimento de ansiedade proveniente da pulsão recalcada e da satisfação que na neurose é sempre parcial, nunca completa, ou seja, a neurose evita fragmentos de realidade para proteger-se. Ambas, neurose e psicose, fazem a tentativa de abandonar elementos da realidade desagradável por elementos agradáveis. Esse mecanismo psíquico só se faz possível pela existência de um “mundo de fantasias” algo que o sujeito guardou das investidas do mundo externo. O texto freudiano: “Inibição sintoma e angústia” (1926) compreende considerações importantes a respeito da neurose. O que constata Freud é uma ocorrência de um conflito traumático, onde o que está no núcleo do trauma é o desamparo sentido pelo “eu” diante de uma estimulação, onde a origem pode ser do mundo externo ou do mundo interno do sujeito. A importância dada por Freud a esse mecanismo advém de compreendermos que com esse conflito que é produzido o sujeito não consegue conviver. A ansiedade nesse conflito tem um papel de sinalizar para o sujeito que ele está diante de “perigos internos”, que dizem respeito e envolvem a separação ou a perda de um objeto amado ou de seu amor. Esse movimento do “eu” produz um acúmulo de desejos insatisfeitos, onde o sujeito é levado a conflitos relacionados ao desamparo. O complexo de Édipo é um dos conflitos que exercem grande poder sobre a criança, consequentemente faz uma devastação no sujeito. Sem sombra de dúvidas o conceito freudiano sobre a ansiedade recobre o perigo da perda do amor do objeto amado, com consequências significativas que se relacionam com a sexualidade feminina. Nesse momento das elaborações Freud sentiu a necessidade de colocar as diferenças entre a inibição e o sintoma, pelo fato de: “encontrarmos moléstias nas quais observamos a presença de inibições, mas não de sintoma.”48 Nesse sentido nos mostra que a inibição está no campo da função, sem a implicação patológica, pois a inibição nada mais é que uma restrição normal da função. Já o sintoma para Freud conota um processo patológico, onde uma função passou por modificações ou quando uma nova manifestação surgiu 48 FREUD, S. “Inibição sintoma e Angustia” (1926). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 91. 45 desta. Importa aqui ressaltar a ligação da inibição com a função. Assim vamos examinar as várias funções do eu, para tanto é mister saber a forma que os conflitos relacionados à função assumem em cada uma das afecções neuróticas. Para tal pesquisa Freud escolheu utilizar as funções sexuais, a de comer, da locomoção e do trabalho. 1. A função sexual: Os conflitos que advêm dessa função aparecem como uma inibição simples, que são nomeadas como uma impotência psíquica. Para Freud, ter uma função sexual dita normal é algo difícil, pois a qualquer momento podem aparecer distúrbios. “A partir da função sexual, surgem outras perturbações que se tornam dependentes de condições especiais de natureza pervertida ou fetichista”49. Claramente notamos que existe uma ligação entre a inibição e a ansiedade, pois algumas inibições retratam “o abandono de uma função porque sua prática produziria ansiedade”50. 2. A função de locomoção: Essa função é inibida por uma fraqueza para caminhar. 3. A função de nutrição: É a retirada da libido que proporciona uma falta de vontade de comer. Seu contrário também é algo comum, a compulsão a comer conota um medo de morrer de fome. A ansiedade nessa função provoca uma recusa a comer. O sintoma de vômitos é uma defesa histérica contra o comer. 4. A função do trabalho: O sujeito sente-se incapaz de realizar bem o seu trabalho, se numa falta de compreensão é obrigado a prosseguir, o sujeito sente-se fadigado, com enjoo ou tonturas. Se for histérico aparecerão paralisias orgânicas e funcionais. Se for 49 Ibidem 41, p. 92. 50 Ibidem 42, p. 92. 46 obsessiva, a distração fará parte de seu trabalho, ou ele perderá tempo com longas repetições. “Digamos que a inibição e a expressão de uma restrição de uma função do eu.”51 Para Freud os órgãos do corpo que estão em jogo na inibição neurótica são órgãos extremamente erotizados, e esses se tornam prejudicados na sua significação sexual. Logo que o escrever, que faz com que o líquido flua de um tubo para um pedaço de papel branco, assume o significado da copulação, ou logo que o andar se torna um substituto simbólico do pisotear o corpo da mãe terra, tanto o escrever como o andar são paralisados, porque representam a realização de um ato sexual proibido. O eu renuncia a essas funções, que se acham dentro de sua esfera, a fim de não ter de adotar novas medidas de recalque – a fim de evitar entrar em 52 conflito com o id. A autopunição é uma função que se utiliza de inibições para impedir a plena realização dessa função, pois não permite ao eu que tenha êxito e lucro, porque essas coisas são proibidas pelo Superego. Desta forma o eu desiste, para assim evitar entrar em conflito com o supereu. No tocante as inibições podemos então dizer, em conclusão que são restrições da função do eu que foram ou impostas como medida de precaução ou acarretadas como resultado de um empobrecimento de energia; e podemos ver sem dificuldades em que sentido uma inibição difere de um sintoma, porquanto um sintoma não pode mais ser descrito como um processo que ocorre dentro do eu ou que atua 53 sobre ele. Diante dessa conclusão podemos afirmar que: “Um sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente; é uma consequência do processo de recalque”54. 51 Ibidem 42, p. 93. 52 Ibidem 44, p. 93. 53 Ibidem 45, p. 94. 54 Ibidem 46, p. 95. 47 Em um processo de análise verificamos que no recalque a ideia principal persiste como uma formação do inconsciente. Na função da consciência podemos observar que o sujeito recebe estímulos do meio externo e do meio interno, estímulos estes que promovem sensações de prazer e desprazer. Esse mecanismo nada mais é do que uma tentativa da consciência em seguir o caminho do prazer, mas segundo Freud: “Estamos muito inclinados a pensar o eu como impotente contra o id. Mas, quando se opõe a um processo pulsional no id, ele tem apenas de dar um sinal de desprazer a fim de alcançar seu objetivo com a ajuda daquela instituição quase onipotente, o princípio do prazer”55. Os questionamentos freudianos o levaram a mais uma pergunta: “De onde provem a energia empregada para transmitir o sinal de desprazer?” O mecanismo de defesa reage de igual modo para com os estímulos externos e internos. No caso de perigos externos o sujeito utiliza-se da fuga para assim sentir prazer. Para tanto, primeiramente esse sujeito tira a percepção de objeto perigoso; depois percebe que existe outra forma de realizar esta fuga, com movimentos musculares de tal forma que a percepção do objeto torne-se algo perigoso e impossível. “O recalque é um equivalente a essa tentativa de fuga”56. E também a colocar a ideia de que o eu é a sede real da ansiedade, e deixa os constructos de que a energia catexial do impulso recalcado é “automaticamente transformada em ansiedade.” 57 Outra questão surge nesse momento: “como é possível, de um ponto de vista econômico, que um mero processo de retirada e descarga, como a retirada de uma catexia do eu pré-consciente, produza desprazer ou ansiedade, visto que, de acordo com nossas suposições, o desprazer e a ansiedade podem surgir somente como resultado de um aumento de catexia?”58. O que podemos apreender até este momento é que esse mecanismo não há fatores econômicos. O recalque é formado para obtenção de um pareamento com a imagem mnêmica já existente. 55 Ibidem 47, p. 96. 56 Ibidem 48, p. 96. 57 Ibidem 49, p. 97. 58 Ibidem 50, p. 97. 48 “Os estados afetivos têm-se incorporado na mente como precipitado de experiências traumáticas primárias, e quando ocorre uma situação semelhante são revividos como símbolos mnêmicos.” 59 De fato, na neurose o recalque se constitui como tal, pois o eu é uma organização e o id não, na realidade os dois compõe uma sociedade onde o eu é a parte pensante do id. O fato de conseguir isolar um estímulo demonstra a força que o eu possui, mas o eu também se mostra impotente contra os impulsos pulsionais do id, pois mesmo o eu recalcando os conteúdos insuportáveis à consciência, esse volta através do sintoma. Isso mostra a força do Id. “Nessa luta defensiva secundária o eu apresenta duas faces com expressões contraditórias. A única linha de comportamento que ele adota decorre do fato de que sua própria natureza o obriga a fazer o que deve ser considerado como uma tentativa de restauração ou de reconciliação. O eu é uma organização. Baseia-se na manutenção do livre intercâmbio e da possibilidade de influência recíproca entre todas as suas partes.”60 59 Ibidem 51, p. 97. 60 Ibidem 52, p. 101. 49 Neurose histérica A partir de 1900, sabemos por Freud que a histeria – como os outros tipos clínicos da neurose – está relacionada à angústia de castração, pois é neste momento que se coloca em jogo a possibilidade de um dano narcísico bastante significativo. Assim, a possibilidade que o sujeito tem de encontrar-se frente à angústia será decisiva para a estruturação da neurose. A angústia de castração inconsciente leva à construção de uma fantasia. A investigação freudiana da etiologia da histeria teve como base a interrogação “o que quer uma mulher?”, dando seus primeiros passos rumo à fundação da Psicanálise. A partir de suas experiências clínicas Freud pôde abdicar de noções e métodos ineficazes para o tratamento do corpo histérico, antecipando a necessidade de fazer um diagnóstico (se a doença era de ordem orgânica ou psíquica) para aplicar ao doente a terapêutica adequada. Em 1889 Freud já considerava, contrariamente a Charcot, que a etiologia da histeria deveria ser procurada nos fatores sexuais. Esse foi o ano em que teve seu primeiro contato com Emmy von N., caso que lhe indicou a importância da fala, da associação livre e da conceituação da histeria como uma neurose com sintomas particulares. Em 1891 Freud tratou de Elizabeth, que tinha em sua história consecutivos conflitos. Freud percebeu que sua paciente era dotada de um saber não sabido de suas afecções e que desse modo aquilo que sabia sobre sua doença estava localizado em outra instância que não a consciência. Por causa desse saber não sabido, Freud pôde renunciar à hipnose. O que Freud ressaltou aqui foi a natureza da relação entre Elizabeth e seu pai, que a considerava como um filho, prevendo que sua personalidade atrevida colocaria empecilhos para que arranjasse um marido. Para Freud, Elizabeth ganhava em termos intelectuais, mas afastava-se da imagem ideal que devia ter uma mulher. Considerava-se pouco conformada com seu sexo e revoltava-se com a ideia de se casar, sacrificando suas inclinações, sua liberdade de julgamento e seus projetos ambiciosos. Dora cujo nome verdadeiro era Ilda Bauer e cujo o caso corresponde ao texto “Fragmentos da analise de um caso de histeria”(1905) foi um marco para 50 a Psicanálise, levando Freud a importantes avanços: descoberta da fantasia como materialidade psíquica, estudo e interpretação dos sonhos e à questão da transferência. Ao mesmo tempo, levou-o a refletir, a partir do fracasso, sobre a impossibilidade de que o analista pudesse atuar apoiado apenas no saber teórico. Postulou, então, que ele deveria partir de um ponto onde o saber não é dado a priori, pois diz respeito a uma verdade do sujeito que se produz no âmbito da transferência, no decorrer do tratamento. Na primeira teoria do aparelho psíquico, chamada primeira tópica, recusando a ideia de um inatismo na histeria, Freud dá a ela uma explicação econômica. A histeria seria decorrente de um ‘a mais’ de excitação que não encontrou outra forma de satisfação senão nos sintomas conversivos, que é a transformação de uma excitação psíquica em excitação somática. Sob este olhar, é a teoria do trauma que está vigorando, ou seja, a representação no psiquismo de um afeto intolerável e que traria como consequência, de um lado o recalcamento da representação e de outro a conversão do afeto dela desprendido em sintoma somático. Freud logo percebeu que o trauma de que se tratava não era decorrente de um fato real de sedução, como havia pensado primeiramente, mesmo assim não abandonou o aspecto econômico desta teoria, mas acrescentou a ela a teoria da fantasia. Pode-se pensar que o que é traumático é a confrontação com o desamparo radical do animal humano que, buscando se encontrar se perde no campo da linguagem, na fenda que se abre entre a Natureza e a Cultura. O desejo é o que move o psiquismo na busca desse objeto que enquanto perdido jamais pode ser encontrado, apenas substituído pela sua fantasia. O resultado é a eterna insatisfação entre a satisfação esperada e a encontrada. Mas é essa insatisfação que garante a posição desejante do sujeito, que só tira do objeto sua causa, não seu fim. Lacan resgata em Freud o limite imposto a Eros por Thanatos. Desta forma, o apelo à união, à harmonização é barrado não pelas contingências da vida, mas porque a atividade psíquica é movida por uma falta radical que é causa mesma do desejo, o que as histéricas denunciam todo o tempo. E o desejo, embora sendo em último termo desejo de morte, desejo de matar o desejo, prolonga a vida no desvio de se fazer desejo, de ser o desejo do Outro. 51 A histérica se deixa fisgar pelo que se lhe apresenta como desejo do Outro. No enigma de ser, ela busca alojar seu ser no corpo tornado objeto para servir ao Outro, desta forma captura-lhe o desejo e elimina com isso a própria alteridade. Ela substitui o desejar pelo ter de agradar, defendendo-se assim do trauma, do buraco irremediável entre o sujeito e o Outro. Esse desejo a histérica o encarna, o dramatiza: se faz porta voz dele e o exibe como pode, sobretudo via seus sintomas. Segundo Vera Pollo no livro (2013) “Mulheres histéricas” a primeira geração de histéricas levou Freud à descoberta de uma causalidade inédita para as chamadas “doenças mentais” e a segunda pode ser considerada responsável pela construção de seus “textos sociais”, porque o levou à elaboração do conceito psicanalítico de identificação. Esse traço do objeto, que pode ocupar o lugar do ideal do eu, torna os sujeitos iguais uns aos outros ou identificados em seus eus. Sobre essa semelhança exercem-se os diferentes fenômenos de massa: as ligações homossexuais, o prejuízo da atividade intelectual com correlata tendência a atos insensatos, enfim, os fenômenos classicamente denominados histéricos: sugestionabilidade e tendência à simulação, à imitação e à impulsividade. Segundo Lacan, a sociedade “canaliza” o gozo para laços sociais, ou seja, formas possíveis de gozo ao neurótico. O que realmente interessa ao sujeito é manter acesa a chama do desejo desse falo − inatingível em sua realidade −, pois o apagamento do desejo mata o sentido da vida e faz prevalecer o gozo fora da linguagem. Constituir-se sujeito desejante é um movimento difícil e doloroso, pois primeiro a criança necessita se alienar aos significantes desse Outro que cuida dela para depois separar-se deles, visto que é a falta do objeto que promove o desejo. O bebezinho chora para ter o seu desejo atendido, porém é a mãe quem interpreta se esse desejo refere-se à fome, à sede etc. Na verdade, o que a criança busca é aquele momento mítico, alucinado na primeira sensação de satisfação. E desse só ela tem registro. Essa reivindicação torna-se aquilo que movimenta o sujeito à vida. 52 FANTASIA: O TRAÇO PERVERSO DA NEUROSE Em suas elaborações, Freud colocou a fantasia como tema central em relação com o sintoma e os ataques histéricos. No texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), busca entender a gênese das perversões definindo num primeiro momento a pulsão como o representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui continuamente. Por pulsão entende-se um conceito de delimitação entre o anímico e o físico. Constatando assim que a pulsão é sempre parcial. O que se faz importante ressaltar nesse texto é a condição humana que necessita harmonizar o recalque sexual enquanto conflito interno com as exigências externas da sociedade enquanto restrição da liberdade para com seu objeto sexual formando a neurose. “Dessa natureza são as pulsões do prazer de olhar e de exibir, bem como a de crueldade, que aparecem com certa independência das zonas erógenas e só mais tarde entram em relações estreitas com a vida sexual”61 A contrapartida dessa inclinação tida como perversa a curiosidade de ver a genitália de outras pessoas- provavelmente se torna manifesta um pouco mais tarde na infância, quando o obstáculo do sentimento de vergonha já atingiu certo desenvolvimento. Sob a influência da sedução a perversão de ver pode alcançar grande importância na 62 vida sexual da criança. Com seus estudos Freud conclui que a “extraordinária difusão das perversões” é uma constituição do sujeito e que a criança é seduzida e erotizada com os cuidados maternos referentes à higiene e à alimentação. Para Freud a criança é um sujeito “perverso polimorfo”, ou seja, a criança sente prazer com todos os buracos do corpo e de todas as formas. A descoberta de uma sexualidade infantil sem destino aparente leva Freud, já em 1919, no texto “Uma criança é espancada”, a questionar-se sobre o que ouvia em seu consultório. O que percebe nos relatos feitos por seus pa- 61 FREUD, S. “três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). In: Obras completas de Sigmund Freud, cit., p. 180. 62 Idem 32. p. 181. 53 cientes é que o sujeito constrói uma fantasia que se fundamenta em traços perversos, e que em sua imaginação a criança obtém uma satisfação masturbatória, de onde advém sentimentos de culpa e de vergonha, pois nelas a criança é punida e disciplinada por suas curiosidades e comportamentos, que lhe traziam um prazer de satisfação auto erótica. Freud percebeu que as exigências sociais e morais que eram exigidas na escola e em casa produziam na criança um sentimento peculiarmente excitado, que era provavelmente de caráter misto e no qual a repugnância tinha larga parcela. O processo de análise nos mostra que a fantasia de espancamento tem um desenvolvimento histórico que não é, de modo algum, simples, e no decorrer do qual são mais de uma vez modificados em muitos aspectos, o qual diz respeito ao autor da fantasia e quanto ao seu objeto, conteúdo e significante. A fantasia consiste em um traço primário de perversão, um componente da função sexual que se desenvolveu primeiro que os outros se tornando independente, elemento onde a criança se fixa. A fantasia se elabora em três tempos, mas no decorrer de seu desenrolar este é submetido ao recalque, onde esse elemento perverso é substituído por uma formação reativa ou sofre sublimação. Se por algum motivo esses processos não ocorrem, a perversão persiste até a maturidade. O que podemos destacar em uma primeira fase diz respeito a um momento primitivo da infância no qual alguns elementos permanecem indiferentes, talvez pelo fato da amnésia infantil camuflar as informações. Mas observamos que a criança que é espancada não é a mesma que cria a fantasia, dessa forma não há relação constante entre o sexo da criança que cria e a que está sendo espancada. Sendo assim, constatamos que esse primeiro tempo da fantasia não tem o caráter masoquista nem sádico, pois a criança que cria não é a mesma que bate. Apenas sabemos que o espancador é o pai. A frase que formulamos nesta fase é “O meu pai está batendo na criança”. Entre a primeira e a segunda fase encontramos uma modificação, a pessoa que bate continua ser o pai, mas já se pode identificar a criança que apanha sendo a mesma que produz a fantasia com um alto grau de prazer. Deste ponto a fantasia toma outro sentido que se expressa pela frase “Estou sendo espancada pelo meu pai”. Fantasia essa que é de caráter masoquista. 54 A segunda fase é a mais importante e a mais significativa de todas, mas é também a que é esquecida pelas lembranças encobridoras, essa fase jamais conseguiu tornar-se consciente. A segunda fase é uma construção em análise, e conserva o caráter masoquista. Sua frase é “Estou sendo espancada pelo meu pai”. A terceira fase da fantasia conserva características da primeira, a pessoa que bate é deixada indeterminada, ou se transforma no substituto do pai, por exemplo, um professor. A diferença encontra-se no fato de ao invés de ter apenas uma criança, existirem várias desconhecidas e do sexo masculino sendo espancadas enquanto o autor da fantasia apenas olha. Esta fase tem caráter sádico e se expressa na frase “Estou olhando”. A cena de espancamento pode passar por diversas elaborações e alterações, pois qualquer humilhação de outra natureza pode substituir o próprio espancamento. A fantasia ligada a uma forte excitação sexual é o caminho para a satisfação masturbatória. Com a clínica observamos que essa fantasia diz respeito às elaborações do complexo de Édipo, onde a menina devota todo seu amor ao pai. Esta relação promove atitudes de rancor e rivalidade da menina para com a mãe, sem deixar de lado a dependência afetiva da própria. Essa dependência vai se tornando cada vez mais clara ao sujeito, ou se petrifica dando lugar a uma atitude excessiva de dedicação à mãe. A construção da fantasia perversa tem seu significado quando se entende que ela nada mais é do que uma privação de amor e uma humilhação. Pois a criança que é espancada no primeiro tempo da fantasia é aquela que tirou a criança autora da fantasia de sua onipotência imaginária, ocasião em que é abalada a afeição dos pais para com este último. A ideia do pai batendo nessa criança odiosa, portanto, é agradável e se expressa nessa frase “O meu pai não ama essa criança, ama apenas a mim”. Na verdade a fantasia gratifica a criança em seu ciúme e reforça seus interesses egoístas. Em O seminário, livro 4 “A relação de objeto” (1956–1957), Lacan trabalha o caso da jovem homossexual para nos mostrar o que de perverso encontra-se na fantasia primordial. Para Lacan a cena traumática descrita em bate-se demonstra um esquema da relação cruzada do sujeito com o Outro, onde o 55 sujeito estabelece a significação simbólica, ou seja, estrutura de objeto “que são os correspondentes a seu desejo, na medida em que ele se engaja nos trilhos imaginários que formam o que se chama de suas fixações libidinais”.63 Na releitura que faz do texto freudiano, logo na primeira fase Lacan identifica três personagens da fantasia: o sujeito, o agente da punição e o que se submete. É Lacan quem conclama o sujeito na fantasia, por isso muda o título freudiano de “Uma criança é espancada” para “Bate-se numa criança” e coloca o sujeito nesse primeiro tempo como um terceiro. O que causa ao sujeito sentimentos de ciúme e inveja, provavelmente causados pelo nascimento de um irmão. A segunda fase é exclusiva do sujeito onde ele encontra-se numa posição de troca com o outro espancador, uma dualidade. Nessa segunda fase a cena de espancamento é para o sujeito o símbolo do amor do pai, onde ele ocupa o lugar de objeto causa do desejo do Outro Meu pai me bate corresponde à fantasia fundamental do sujeito. O terceiro tempo é um reviver da primeira fase onde o sujeito sofre uma dessubjetivação tornando-se puro observador ou puro olho. Lacan salienta que “Bate-se numa criança marca claramente que o problema da constituição de toda perversão deve ser abordado a partir do Édipo, através dos avatares, da aventura, da revolução do Édipo”.64 Não é de hoje que a elaboração freudiana “A neurose é o negativo da perversão” chama atenção, pois o que de diferente podemos ressaltar na neurose e na perversão? Segundo Freud a fantasia é inconsciente na neurose, e na perversão a fantasia é consciente, mas as histéricas lhe mostraram que na neurose também as fantasias podem se tornar conscientes e até mesmo se realizar em ato. Elaborando sobre as vias perversas do desejo, Lacan vai identificar o molde da perversão como sendo “a valorização da imagem”, mas não qualquer imagem “a testemunha privilegiada de algo que no inconsciente deve ser articulado, e reposta em jogo na dialética da transferência”.65 Ou seja, a perversão é uma posição subjetiva. 63 LACAN, J. O Seminário Livro 4 A relação de objeto”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999.cit,. p. 123. 64 Idem 34. p. 122 65 LACAN, J. O Seminário Livro 4 A relação de objeto”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999.cit,. p. 121. 56 A fantasia então é uma cena imaginária, construída como resposta para tentar responder ao “che Vuoi” (Que queres?) ou seja, o que o Outro quer de mim. Assim para Lacan o matema da fantasia na neurose é $<>a (sujeito dividido em todas as suas relações possíveis com o objeto). No caso em questão Lacan coloca a escolha de objeto como uma perversão, e uma perversão tardia, pois a jovem em um primeiro momento seguia o caminho da maternidade, que implica na substituição de ter um pênis, pelo desejo de receber um filho do pai, depois ocorre uma espécie de inversão, levando-a a interessar-se por objetos de amor marcados pelo signo da feminilidade. Mas o que acontece para a instauração dessa perversão? Para Lacan o primeiro tempo se estabelece no enamoramento entre a jovem e a dama, onde a dama porta-se como um verdadeiro cavalheiro. A escolha de objeto se realiza na fase fálica, onde temos a fase genital propriamente dita, mas não se tem a plena realização da função genital estruturada e organizada. O que realmente existe para a criança nessa fase imaginária é um elemento fantástico que é a prevalência do falo, mediante o que há para o sujeito apenas dois tipos de seres, aqueles que têm o falo, e os que não têm o falo. Isto é, que são castrados. É pertinente destacar que nessa fase o falo é um elemento imaginário que introduz o sujeito na ordem simbólica do dom e na maturação genital, duas condições diferentes, mas que se encontram ligadas na condição humana real “As regras instauradas pela lei quanto ao exercício das funções genitais, na medida em que estas entrem efetivamente em jogo na troca inter-humana... Mas para o sujeito isso não tem nenhuma coerência interna, biológica, individual. Verifica-se, em contra partida, que a fantasia do falo, no nível genital, assume seu valor no interior da simbólica do dom”.66 De fato o que é importante é a diferença que existe na simbolização do falo entre a criança do sexo masculino e a criança do sexo feminino, pois um realmente possui o falo e o outro não. A existência de um falo imaginário marca a diferença entre os sexos, e impulsiona a saída do Édipo pelo menino e a entrada do Édipo pela menina. Diferença essa que transforma o que o menino 66 Ibidem 32, p. 124 57 tem em dom, já a menina vai buscar aquilo que ela não tem. Esse movimento só se faz possível na dialética entre um elemento imaginário com um simbólico, onde a menina já entra com um sinal de menos e o menino com um sinal de mais. “Resta que é necessário haver alguma coisa para se poder colocar mais ou menos, presença ou ausência. “O que está em questão aí é o falo. Aí está, nos diz Freud, qual a mola da entrada da menina no complexo de Édipo”.67 Tanto para Freud quanto para Lacan a elaboração do Édipo se torna mais difícil para a menina, pois “o pênis que ela deseja é a criança que ela espera receber do pai, à maneira de um substituto”.68 No caso da jovem homossexual, nos diz Lacan, ocorreu num primeiro momento a estruturação clássica, a saber, a equivalência pênis imaginário criança, o que a coloca na posição de mãe imaginária “como referência a este mais além que o pai, intervindo como função simbólica, isto é, como aquele que pode dar o falo. A potência do pai é então inconsciente”.69 E é nesse momento que a mãe da jovem engravida do pai, desconstruindo todo percurso até então feito pela jovem, o que a leva a um segundo tempo, onde o pai real frustra a criança que ela é, fazendo a seguir um caminho diferente com os elementos pai imaginário, a dama, o pênis simbólico. “Por uma espécie de inversão, a relação do sujeito com seu pai, que se situava na ordem simbólica, passa no sentido da relação imaginária. Ou, se quiserem, há projeção da fórmula inconsciente, a de seu primeiro equilíbrio, numa relação perversa entre aspas, uma relação imaginária, a saber, sua relação com a dama. Sendo este o terceiro tempo”. 70 A jovem relata a Freud um sonho em que se encontra um pretendente a cônjuge e filhos, para Lacan isso se apresenta como uma formulação do inconsciente, referido ao significante. A libido desviada na origem traz sua própria mensagem vinda do pai sob uma forma invertida do Você é minha mulher, você é meu mestre, você vai ter um filho meu. Isto ocorre na entrada do Édipo ou enquanto ele não está resolvido. 67 Ibidem 33, p.125. 68 Ibidem 34, p.126. 69 Ibidem. 70 Ibidem. 58 Lacan observa que o caso da jovem homossexual se entrelaça com outro caso de Freud, a saber, o caso Dora, e que os dois casos são a prova formal da teoria freudiana que a “perversão é o negativo da neurose”, a saber, nos dois casos existe uma confusão da posição simbólica com a posição imaginária. Analisando o caso Dora podemos observar os mesmos elementos encontrados no caso da jovem: um pai, uma filha e também uma dama. Também encontramos todo o cerne dos conflitos em torno da dama. Neste caso a mãe está totalmente ausente, o que não acontece no caso da jovem, pois nesse a mãe é a responsável por introduzir o objeto da frustração, que possibilitou a formação da constelação perversa. Em Dora vemos o pai introduzindo a dama, já no caso da jovem ela mesma a introduz. À medida que o caso se desenrola fica claro que Dora tem uma ligação especial com a dama e que ela é o objeto real do seu desejo. Segundo Lacan “A situação do quarteto, com efeito, só se compreende na medida em que o eu (moi) e somente o eu de Dora fez uma identificação com um personagem viril, que ela, o Sr. K, e os homens trazem só para ela outras tantas cristalizações possíveis de seu eu. Em outros termos, é por intermédio do Sr. K, e na medida em que ela o Sr. K. no ponto imaginário constituído pela personalidade do Sr. K. que Dora está ligada ao personagem da Sr. ͣ K”. É importante ressaltar que o pai de Dora se mostrava um pai impotente, e que até o momento o Édipo de nossa histérica encontrava-se muito mal resolvido. Dito isto colocamos a questão lacaniana “Qual pode ser a função do pai como doador”. Decerto que existe o objeto em que a criança é frustrada, e que a mãe dá ou não dá, mas na medida em que esse dom é signo de amor. O pai entra como aquele que dá o objeto faltoso, no caso das meninas o filhofalo. No caso de Dora o pai não dá porque não tem. Nesses termos Lacan se pergunta: Em algum caso é o objeto que realmente é dado? Está aí a questão. E Dora nos mostra uma saída, que é exemplar. A ligação de Dora com o pai permanece forte, tanto que sua história começa na idade que se encontrava saindo do Édipo, com toda uma série de acidentes claramente ligados a manifestações de amor por este pai, sem o dom viril e marcado como um pai ferido e doente. O que realmente está em jogo 59 nesse caso, é o que é demandado enquanto objeto faltoso. O que entra no jogo é um signo de amor, apenas um dom, segundo Lacan “não existe maior dom possível, maior signo de amor que o dom daquilo que não se tem”. “O que estabelece, a relação de amor é que o dom é dado, se podemos dizê-lo, em troca de nada. O nada por nada, o princípio da troca. [...] o que faz o dom é que o sujeito sacrifica para além daquilo que tem”. Assim sendo podemos crer que Dora ama seu pai, ela o ama por aquilo que ele não tem. A Sr. ͣ. K vem demonstrar algo que seu pai pode amar para além da dama. Dora se apega ao que é amado por seu pai em outra, na medida em que ela não sabe o que é. “Isso está em conformidade com o que é suposto por toda a teoria do objeto fálico, a saber, que o sujeito feminino só pode entrar na dialética da ordem simbólica pelo dom do falo”. “[...] O desejo visa ao falo na medida em que este deve ser recebido como um dom”. Nesse movimento de elaboração, essencialmente problemático para a menina, que ela é colocada à frente de certa superação simbólica. Onde se pergunta: O que é uma mulher? Já que a dama encarna a função feminina, sendo esta toda questão de Dora. A dama é o que é amado por todos. “O que é amado num ser está para além daquilo que ele é, a saber, afinal de contas, o que lhe falta”. O pai impotente supre, por meio do dom simbólico, sua falta, através de dons materiais que reparte entre a amante e a filha. Fazendo Dora situar-se nessa posição simbólica, entre os dois. Neste momento de suas elaborações Lacan introduz o Sr. K e levanta a possibilidade de se fechar um triângulo, mas numa posição invertida. A relação de Dora com o Sr. K, segundo Lacan, é a forma que ela normatiza essa posição que ela ocupa, tentando reintegrar no circuito o elemento masculino. Ao escutar do Sr. K que a dama não significava nada para ele, Dora não aceita mais sustentar essa posição, onde precipita toda transformação da situação, já que Dora queria ser amada para além da Dama. A mulher amada por Dora não está no circuito para o Sr. K. A partir desse desenlace Dora não pode mais suportá-lo. “Se ela mesma não renunciou a alguma coisa, isto, precisamente ao falo paterno concebido como objeto do dom, ela não pode de modo algum conceber, subjetivamente falando, que receba outras, isto é, de 60 outro homem. Na medida em que está excluída da primeira instituição do dom e da lei na relação direta do dom do amor, ela só pode viver essa situação sentindo-se reduzida, pura e simplesmente ao estado de objeto”. 1.5 FANTASIA PERVERSA E PERVERSÃO: UMA INTRODUÇÃO Observa-se que a fantasia, como Freud coloca, diz respeito às elaborações do complexo de Édipo, já a construção da fantasia perversa está na origem de satisfações sádicas e masoquistas de sujeitos neuróticos. Ela significa inconscientemente uma prova de amor do pai: “Meu pai me bate, ou seja, ele me ama”. Na verdade a fantasia gratifica a criança em seu ciúme e reforça seus interesses egoístas. O tema da perversão passou por significativas alterações nos estudos de Freud, nos quais destacamos três momentos distintos: • É o axioma freudiano da neurose enquanto o negativo da perversão; • Tem como base a teoria do complexo de Édipo, núcleo das neuroses e também das perversões; • Define o desmentido da castração como mecanismo essencial da perversão. A perversão, tal como Freud elabora, não se mostra como um desvio em relação a uma norma social, mas sim um comportamento psíquico na busca de obter prazer, ou seja, uma estrutura. No texto freudiano “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) observamos que a sexualidade infantil é perversa polimorfa, e que a mulher não se perverte, pelo menos nos moldes do homem. A perversão feminina ainda nos é um enigma e um questionamento, pois o feminino é a causa da perversão. A castração que o menino visualiza rompe com um gozo da mãe, quando percebe que sua mãe não tem o pênis o menino teme ser castrado. 61 Essa ausência de pênis constitui um conflito de privação de gozo que um pai impõe a seu filho. E ainda mais a castração envolve um momento de ver o amor da mãe pelo pai onde o desejo desta se orienta em direção a algo ou a alguém que representa o nome do pai, que descortina um gozo que vai além de um membro viril, “o falo é aquilo que uma mãe demanda; ele permite nomear o enigma do seu desejo, e, por esse motivo é diferente do membro viril.”71 Decerto que ser do sexo masculino ou feminina não completa essa falta estruturante. O ponto nodal tanto da teoria freudiana quanto da minha dissertação encontra-se na forma que cada sujeito vivencia o complexo de Édipo, mas para as meninas é mais complicado, já que a ameaça de castração leva o menino a sair do Édipo, enquanto a menina necessita reconhecer a ausência de algo que ela demanda esquecendo sua fantasia de que o clitóris iria crescer e virar-se ao pai com uma nova fantasia, a saber, de ter um filho do pai. Mas a questão da menina é, como já dissemos, muito mais complicada do que do menino, pois segundo Pommier: “A própria falta e o falo que responde a ela, não é, pois a causa de uma rivalidade. São, ao contrário, uma condição universal de existência, porque toda criança teve no início, ela mesma, tal falo. Se ela pode crer que sua mãe e as mulheres em geral são providas dele, é porque ela mesma encarou esse símbolo. Uma crença que lhe fosse contrária seria uma negação de sua própria existência.”72 Assim, para Pommier, a castração e a morte estão ligadas nos pensamentos ao qual uma produz efeito sobre a outra. A criança se faz de falo para a mãe por amor e é essa “identificação ao falo e é essa operação que faz da mãe uma mulher fálica. Não leva absolutamente em conta, nesse primeiro movimento, a diferença anatômica entre os sexos.” “A comparação entre o pênis e o falo permite dar um arcabouço lógico aos três destinos da feminilidade.”73 Segundo Pommier a percepção da ausência do pênis só se faz possível pela existência do falo, sendo assim, o tornar-se mulher segue a orientação 71 Pommier, G. Transmissão da psicanalise “A exceção do feminino” Rio de janeiro: Jorge Zahar. p.17 72 Ibidem 62, p. 19. 73 Ibidem 64, p. 21. 62 freudiana das três ocorrências. “quando a descoberta da ausência de pênis é seguida por uma catástrofe da vida erótica, tudo se passa como se essa falta trouxesse consigo a relação ao gozo fálico. A associação logica é, pois a seguinte: não tenho pênis, logo não tenho falo.” 74 O sentimento de falta de pênis pode tornar-se um sentimento de possuir o falo, o que leva a menina a estar numa posição masculina, e essa posição só é ameaçada na presença do pênis. Assim, a presença do pênis conota para a menina, já que tenho o falo, então tenho o pênis. O falo nesse sentido iguala-se ao pênis. Mas fato é que a ausência do pênis não significa para a menina a ausência de um gozo fálico, bem como também de uma atividade. “A tenacidade inextricável desse laco entre uma menina e sua mãe está ligada a esse nó que permite denegar a castração sem grandes inconvenientes, sem fetiches, sem transgressão ruidosa, sem todo o instrumental exigido pela perversão masculina. Esse apego filial, mais tarde deslocado entre uma mulher e outra mulher, tece um modo particular de relacionamento que pode evocar a homossexualidade.”75 No texto sobre “O Fetichismo” (1927) Freud aduz sobre o objeto fetiche, colocando-o como objeto utilizado pelo sujeito para negar a angústia de castração no momento em que se dá conta da castração materna. Sendo assim, o sujeito substitui esse pênis imaginário feminino por outro objeto substituto. No mesmo texto fica claro que o significado do fetiche só é conhecido pelo fetichista, o qual supõe a mulher como um objeto sexual e objeto fetiche. Então, existe nessa situação um par: o perverso e o feminino. Sendo que na castração a menina não tem um pênis para salvar, portanto, não existe ameaça, colocando-se então no lugar de objeto de gozo do outro. Toda essa pesquisa levou-me a responder à questão referente ao feminino, a saber: A mulher pode ser fetichizada, mas não fetichista? É Lacan que elabora sobre o fetiche na mulher, e no seminário 4 “A relação de objeto” faz a diferença entre uma estrutura perversa de um comportamento fetichista, para tanto lança mão de um caso clínico pontuando 74 Ibidem 65, p. 21. 75 Ibidem 66, p. 22. 63 os comportamentos que classificam uma mulher com um comportamento fetichista. Assim, uma mulher pode ser fetichista se: as Lembranças encobridoras servem para fixar e interromper a vida do sujeito na “barra da saia da mãe”, “A relação ambígua do sujeito com o fetiche, relação de ilusão, vivida como tal e como tal proferida. A função particularmente satisfatória de um objeto inerte, plenamente a mercê do sujeito para a manobra de suas relações eróticas”76. “O recurso ao fetiche se dobra, se extenua, se desgasta ou simplesmente se furta. O comportamento amoroso do sujeito se resume numa defesa”77. Para Freud, o fetichismo é uma defesa contra o homossexualismo. O Sujeito com um comportamento fetichista tem uma alternância de identificações: identifica-se com a mulher confrontada com o pênis destruidor ou com o falo imaginário. 76 LACAN, J. O Seminário Livro 4 A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. cit, p. 162. 77 Ibidem nota 8. 64 CONCLUSÃO A clínica está sempre nos impulsionando a pesquisar mais e mais sobre as forças inconscientes que nos regem. Nos postulados Freudianos e Lacanianos (que ajudaram esta pesquisadora a construir um caso em sua clínica), podemos constatar como cada sujeito é único, mesmo com a mesma estrutura. Há diferentes formas de reação frente à castração, como a que relacionamos nessa Dissertação. No menino a visão dos órgãos femininos introduz o complexo de castração, tendo como consequência a saída do Édipo, o desinvestimento da mãe e a criação do superego, sendo que um dos resíduos do complexo de castração será sua depreciação da mulher enquanto ser castrado. Já a menina reconhece sua castração e a superioridade do menino, mas protesta contra este estado, restando-lhe três saídas: renunciar à sexualidade, reivindicar o pênis ou aceitar a feminilidade, como também diferentes formas de se relacionar com a fantasia. A fantasia torna-se fundamental para o sujeito, pois serve de filtro que, por sua vez, possibilita sua relação com o mundo. Sem ela não existe sujeito, pois é a construção da fantasia, ou seja, do mito individual, que propicia amenizar a angústia que a falta de objeto instaura. Mostramos também que Freud revê suas posições sobre o desenvolvimento psicossexual da mulher, salientando ainda mais o papel do complexo de castração. Levantando o problema da bissexualidade, pois anatomicamente um indivíduo não é totalmente macho nem totalmente fêmea, somente os produtos sexuais são unívocos: espermatozoide e óvulo. No início da fase fálica, não há diferença entre a menina e o menino, ambos desconhecem a vagina, e a masturbação fálica é a mesma para ambos, sendo o clitóris comparado a um pequeno pênis78. A mudança de zona erógena faz-se necessária para o caminho da feminilidade: o clitóris deverá ceder lugar à vagina. Mas esta mudança de zona erógena acompanha uma mudança objetal: a menina abandona sua liga- 78 FREUD, S. (1932). Feminilidade v. XXII. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969, p. 146. 65 ção primária com a mãe e toma o pai como objeto, sempre levando em conta que a fase pré-edipiana desempenha um importante papel para o desenvolvimento da menina, nas fases que ela atravessa: oral, anal, fálica, ativa, passiva. Este período caracteriza-se por forte ambivalência. Na fase fálica, a menina deseja fazer um filho na mãe e ter um dela, é aí que se situa o ponto de fixação na menina. A partir desta fase, desenvolve-se na menina um ódio intenso pela mãe, que a fez imaginariamente castrada como ela o é. A menina odeia a mãe por não lhe ter dado um pênis: a “Penisneid” que persistirá por toda a vida, ainda que possa ser sublimada, como pela escolha de uma profissão que lhe permita satisfazer, mesmo que parcialmente suas pulsões. A descoberta da castração, para Freud, é determinante na menina: seja em direção à neurose, seja em direção a um problema de complexo de virilidade ou em direção à sexualidade normal. Determinará também seu afastamento da mãe, pois seu amor era dirigido a uma mãe fálica, não a uma castrada. Esta descoberta leva a menina à renúncia da masturbação clitoriana e da atividade fálica; liga-se então ao pai, primeiro desejando um pênis daquele que o possui; depois se estabelece a situação edipiana normal, passando a desejar um filho substituto do pênis. Diante dessas considerações está posto o enigma do feminino, que se caracteriza na dissolução apenas parcial do complexo edípico na mulher e se podemos afirmar o efeito mais prejudicial que se constitui é uma má formação do supereu. Levando-se em consideração esses aspectos, Chegamos à conclusão que o sujeito constrói uma fantasia que se fundamenta em traços perversos, e que em sua imaginação a criança obtém uma satisfação masturbatória, de onde advém sentimentos de culpa e de vergonha, pois nelas a criança é punida e disciplinada por suas curiosidades e comportamentos que lhe proporcionavam um prazer auto erótico. Em suas pesquisas, Freud aborda a constituição da perversão a partir da resolução do Édipo. A fantasia perversa é um elemento da neurose e Para Lacan “Existe aí como que uma redução simbólica, que eliminou progressivamente toda a estrutura subjetiva da situação para deixar subsistir 66 apenas um resíduo inteiramente dessubjetivado”.79 Para melhor exemplificar a teoria, Lacan inscreve o caso freudiano da jovem homossexual conceituando uma relação cruzada do sujeito e o Outro, como uma “fantasia perversa que se faz necessária para uma significação simbólica, mas é na interposição imaginária que o sujeito encontra sua estrutura de objeto, na relação egóica com os objetos atraentes para tal, que são os correspondentes ao seu desejo, que o sujeito segue o caminho imaginário que formam suas fixações libidinais”.80 79 LACAN, J. O Seminário Livro 4 A relação de objeto”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999.cit,. p. 156. 80 Ibidem 6, p. 157. 67 REFERÊNCIAS FINK, Bruce. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. FREUD, S. (1896) “Rascunho K”. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. Vol I. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1900) “A Interpretação dos sonhos”. v. IX. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1976) “Romances familiares”. v. IX. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1893). “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: Comunicação Preliminar”. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume II. Rio de Janeiro, Imago, 1996. FREUD, S. (1905-1901). “Fragmento da análise de um caso de histeria”. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume VII. Rio de Janeiro, Imago, 1996. FREUD, S. (1905) “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” Edição tandard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1908) “As teorias sexuais infantis”. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1912) “Totem e Tabu”. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. 68 FREUD, S. (1914) Artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. v. XIV. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1920) “Alem do princípio do prazer”.Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1921) “Psicologia de grupo e análise do ego”.Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1923). “O Ego e o Id”. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1996. FREUD, S. (1923). “A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade”. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1996. FREUD, S. (1924). “A dissolução do complexo de Édipo”. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1996. FREUD, S. (1925). “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos”. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1996. FREUD, S. (1926). “A questão da analise Leiga”. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1996. FREUD, S. (1930-1929). “O mal-estar na civilização”. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1996. FREUD, S. (1931). Sexualidade Feminina v. XXI. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. 69 FREUD, S. (1932) Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise. v. XXI. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. (1933). Feminilidade v. XXII. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. POMMIER, G. (1985). “A exceção do feminino- os impasses do gozo”.Rio de Janeiro: Jorge zahar Editora. LACAN, J – (1955-1956). O Seminário livro III. As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1995. LACAN, J – (1956-1957). O Seminário livro IV. A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1995. LACAN, J. O Seminário Livro V as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999. LACAN, J. O Seminário Livro XI os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1985. LACAN, J.(1958) “A significação do falo”. In:___. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. LACAN, J.(1960) “Posição do Inconsciente”. in:___. Escritos, Rio de Janeiro Jorge Zahar Ed. 1998. LACAN, J.(1972) “O Seminário, Livro 20: Mais, ainda”. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. MAURANO, DENISE, - “A face oculta do Amor a tragédia a luz da psicanalise” in livro POLLO, VERA, - Mulheres Histéricas - Rio de Janeiro: Contra Capa Ed.2003. POLLO, VERA, - A interpretação psicanalítica da sexualidade- texto on line QUINET, ANTONIO, – A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 70 QUINET, ANTONIO, – As 4 + 1 condições da análise. – 10.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. 71 ÍNDICE REMISSIVO castração, 23, 49, 51 Freud, 9, 11, 12, 19, 22, 23, 24, 25, Édipo, 26, 37, 39 30, 32, 34, 35, 37, 38, 40, 41, 42, falo, 23, 37, 38, 39, 51 43, 49, 50, 52, 64, 67, 68, 69 Lacan, 23, 25, 37, 38, 39, 50, 51 Quinet, 25 72 ANEXO: Minicurso em psicanálise Minicurso em psicanálise: “Perversão e Histeria” Objetivo: Qualificar os profissionais para atuar na clínica com os postulados freudianos e lacanianos. Qualificar profissionais em Psicologia, propiciando conhecimentos teóricos para a prática do exercício da Psicologia na clínica e em Instituições de Saúde, assim como desenvolver habilidade para a pesquisa e construção teórica. Ementa do curso: Abordaremos especificamente sobre a diferença sexual, ponto teórico de suma importância na construção psíquica do sujeito desejante. A castração do ponto de vista do menino e da menina tal como a inveja do pênis “Penisneid”. Para tanto introduziremos os alunos nas estruturas clinicas. Com esse embasamento entraremos no tema da perversão enquanto traço estruturante do sujeito, como também no tema do fetiche e do comportamento fetichista. Não temos a intenção de esgotar um tema tão complexo e extenso. Carga Horária 48 horas. Público-alvo: O Programa do curso visa aprimorar a formação profissional alunos do curso de graduação em: Psicologia Metodologia: 73 Aulas expositivas, debates, seminários. A partir das teorias freudianas e lacanianas e casos clínicos. Programa: 1. Pulsão x Instinto: tipos de pulsão: Oral Anal Escópica (do olhar) Invocante (da voz) 2. Complexo de Édipo e castração. 3. Três defesas para o sujeito: Estruturas clínica: Neurose-obsessiva e histérica (Recalque) Psicose (Foraclusão) Perversão (Desmentido) 4. Feminino e feminilidade 5. Fantasia Perversa: “Bate-se numa criança” 6. Fetiche 7. Objeto fetiche 8. Escolha de objeto de amor x caráter sexual 9. Filho como fetiche 10. Diferenças de uma estrutura perversa e um comportamento fetichista Bibliografia: 74 Obras completas freudianas da imago: textos: “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) “Bate-se numa criança” (1919) “O Fetichismo” (1927) “Sexualidade feminina” (1931) “Feminilidade” (1932) Seminário Lacaniano livro 4: “A relação de objeto”