XIV Encontro Nacional da ABET – 2015 – Campinas
GT 2 - Desenvolvimento, Territórios e Trabalho
O NOVO MUNDO DO TRABALHO FRENTE AO CONTEXTO DOS PARQUES
TECNOLÓGICOS
Marcos Roberto Mesquita
UFSCar
Doutor em Ciências Sociais
Neila Conceição Viana da Cunha
UFSCar
Doutor em Administração
William Mathiazzi Graciano
UFSCar
Graduando em Administração
O NOVO MUNDO DO TRABALHO FRENTE AO CONTEXTO DOS PARQUES
TECNOLÓGICOS
Resumo
O artigo busca discutir as transformações ocorridas no mundo do trabalho na última década e
busca-se entender como os parques tecnológicos conseguem gerar novos negócios, postos de
trabalho e desenvolvimento local. Dentro do parque tecnológico são instalados outros
empreendimentos de apoio às empresas como bancos, restaurantes e incubadoras.
Atualmente, os parques tecnológicos abrigam empresas nascentes, instaladas em incubadoras
de empresas e também empresas consolidadas. O estudo é do tipo exploratório (TRIVIÑOS,
1997) e de caráter qualitativo (MORESI, 2003). Trata-se de um ensaio teórico com base na
literatura sobre empreendedorismo e parques tecnológicos. Os resultados mostram que os
parques tecnológicos são instrumentos importantes para o desenvolvimento de novos
negócios que trazem novos empregos e geram renda para a região onde estão inseridos,
apresentando uma nova abordagem para o novo mundo do trabalho.
Palavras chaves: Parques Tecnológicos; novo mundo do trabalho; desenvolvimento
econômico; emprego e desenvolvimento; Políticas de Ciência e Tecnologia.
Abstract
The paper discusses the transformations occurred in the labor market over the past decade
and seeks to understand how the technology parks can generate new business, jobs and local
development. Within the technology park are installed other projects to support companies
like banks, restaurants and incubators. Currently, the technology parks are house to startups
installed in business incubators as well as consolidated companies. The study is exploratory
(TRIVIÑOS, 1997) and qualitative (MORESI, 2003). This is a theoretical essay based on the
literature of entrepreneurship and technology parks. The results show that the technology
parks are important tools for the development of new businesses that bring new jobs and
generate income for the region where they are installed. They represent a new approach to
the new world of work.
Introdução
O artigo busca discutir as transformações ocorridas no mundo do trabalho na última
década e busca-se entender como o empreendedorismo estimulado por parques tecnológicos
consegue gerar novos negócios, postos de trabalho e desenvolvimento para as localidades que
decidem investir em parques tecnológicos.
As mudanças no mundo do trabalho ao mesmo tempo que ampliaram as exigências
para se ter um emprego levaram também ao crescimento do desemprego, o que torna
necessário ações governamentais e não governamentais para diminuir os impactos
econômicos e sociais do desemprego. Uma das ações possíveis é o investimento em parques
tecnológicos, que ao gerar novos negócios e novas empresas pode diminuir o desemprego,
gerando novas oportunidades de emprego e de trabalho, sobretudo para trabalhadores
altamente qualificados. E ao mesmo tempo pode-se estimular a economia da localidade onde
se instalou um parque tecnológico.
2 - O novo mundo do trabalho
O modo de produzir bens e serviços sofreu profunda alteração nas últimas décadas,
notadamente a partir da década de 1960 e com maior intensidade na década de 1980,
sobretudo com a queda do Muro de Berlim em 1989. Dada estas mudanças, ocorreram em
todo o mundo, neste espaço de tempo, processos de "reengenharias" de toda ordem, que
alteraram não só a forma de produzir como a de organizar o próprio negócio. Percebe-se
assim que o perfil das empresas se alterou, visando tornar-se mais eficiente e eficaz, fato que
passou a ser relacionado com a diminuição do tamanho das empresas, o que implicou a
redução do número de empregos.
Segundo Harvey (1999), Ford apontava que, para reduzir os custos, a produção
deveria ser realizada em massa, ou seja, com tecnologia capaz de desenvolver ao máximo a
produtividade por operário. Assim, o trabalho também deveria ser especializado, onde cada
trabalhador realizaria uma específica e determinada tarefa. E, para que o operário tivesse boa
produtividade, deveria ser bem remunerado e ter uma jornada de trabalho menor. Tais
princípios foram amplamente difundidos, tornando-se uma das bases da indústria moderna no
século XX.
Harvey (1999) sustenta, então, que o capital precisava mudar para sobreviver.
Precisava deixar de ser apenas “moderno” (fordista), para ser algo mais, algo “pós-moderno”,
pós-fordista, ou algo que caminhou na direção do que se denominou acumulação flexível, que
vai levar a uma especialização flexível.
Vê-se, então, que a especialização flexível se constitui num paradigma alternativo
para a produção e é embasada em elementos de produção artesanal estruturados em pequenos
lotes, com tecnologia múltipla ancorada em trabalhadores mais qualificados e dotados de
capacidade de modificar constantemente o mix da produção com baixos custos de
reconversão, em oposição ao paradigma da produção em massa, base do fordismo.
Analisando esta situação, Harvey (1999) pondera que se está testemunhando um
acontecimento histórico que passou a exigir muito mais em termos de conhecimento,
capacidade de decisão, de adaptação dos trabalhadores ao novo movimento de produção e de
acumulação. Com todo este panorama em mente, Harvey (1999) sustenta, ainda, que o
próprio uso dos termos organizado e desorganizado para caracterizar essa transição, acentua
ainda mais a desintegração do que a coerência do capitalismo contemporâneo, evitando,
assim, o enfrentamento da possibilidade de uma transição no regime de acumulação. Como a
nova realidade pós-moderna da acumulação flexível implica que os operários sejam capazes
de realizar tarefas múltiplas, esse (o novo operário) gera a necessidade de transformação
também do modelo educacional vigente, em que o novo sistema educacional deve formar os
indivíduos para sobreviver neste novo capitalismo.
Como destaca Castel (1998), os indivíduos são identificados e distinguidos, até certo
ponto, pelo lugar que ocupam no mundo do trabalho. Por tais razões, na carência de
empregos, os trabalhadores tendem a perder sua autoestima, chegando em alguns casos a não
se sentir mais membros da sociedade.
A Terceira Revolução Industrial rompe a relação entre crescimento da produção e
ampliação do emprego. “Entre 1960 e 1990, a produção de bens manufaturados de todos os
tipos continuou a crescer, mas o número de empregos necessários para criar esse fluxo de
produção caiu pela metade” (RIFKIN, 1995, p. 115).
Conforme Singer (1996), todas as revoluções industriais causaram acentuado aumento
da produtividade do trabalho, e dessa forma, causaram desemprego tecnológico. Mas, a
Terceira Revolução Industrial é singular em relação as anteriores, gerando acelerado aumento
da produtividade do trabalho tanto na indústria quanto nos outros setores da economia.
Como afirma Castel (1998), o reaparecimento de um perfil de trabalhadores sem
trabalho faz com que eles ocupem o lugar de supranumerários, de inúteis para o mundo.
Castel ainda destaca que o desemprego não é um risco como outros, pois se ele se generalizar,
haverá dificuldades no financiamento dos outros riscos (doenças ocupacionais, por exemplo)
e na possibilidade de existirem recursos para superar o desemprego.
De acordo com Castel (1998), o desemprego é muito grave, pois caso se generalize
acabará com as possibilidades de financiamento de outros riscos, e, deste modo, com a
possibilidade de cobrir a si mesmo. Nas sociedades capitalistas há a ideia de que desemprego
é algo passageiro, caracterizado como um breve período entre dois empregos. Contudo, no
período atual nem sempre o desemprego é um período pequeno, visto que há desempregados
que permanecem anos sem conseguir um lugar no mercado de trabalho. O que gera um
círculo vicioso porque quanto maior o tempo que o indivíduo permanece desempregado mais
difícil se torna conseguir um novo posto de trabalho. “A precarização do emprego e o
aumento do desemprego são a manifestação de um déficit de lugares ocupáveis na estrutura
social” (CASTEL, 1998, p. 325).
Castells (1999) também discute a influência da Globalização no mundo do trabalho e
por isso argumenta que crescem a importância do papel da informação e do conhecimento nos
trabalhos que essas sociedades geram. Assim, aumenta o trabalho que necessita de mais
conhecimento e qualificação, ao mesmo tempo que se expande o desemprego, a informalidade
e a precarização. Contudo, Castells demonstra que o trabalho deixa de ser visto como
elemento fundamental de identificação das pessoas e nascem outras formas de identidade,
como as locais, étnicas, de gênero, entre outras.
Na visão de Mattoso (1999), o progresso tecnológico ajudou na aceleração das
modificações qualitativas do trabalho (mudanças da divisão técnica do trabalho, da
organização do trabalho e das qualificações) assim como da distribuição setorial dos postos de
trabalho. Portanto, para determinação do nível de emprego é importante a diferença entre o
crescimento da produção e o crescimento da produtividade. Para Mattoso (1999), a
reconfiguração do mundo do trabalho, sob a influência da mundialização do capital, é
percebida como uma desordem do trabalho.
Desta forma, Gorz (2003) argumenta que a revolução microeletrônica das últimas
décadas acarretou economias de trabalho cada vez maiores, não sendo mais preciso que todos
trabalhem em período integral. Portanto, a diminuição do tempo de trabalho por meio de
inovações tecnológicas e organizacionais determina uma redução do emprego à medida que é
mantida a quantidade de horas trabalhadas por pessoa.
Em 2004, Gorz aborda a questão dos efeitos da globalização sobre a força de trabalho.
Para ele, a globalização, aliada à intensificação da concorrência em todos os mercados de
todos os países levou ao aumento do desemprego, à precarização do trabalho e à deterioração
das condições de trabalho (GORZ, 2004).
Ianni (1994) argumenta que desde o fim do século XX o mundo do trabalho se tornou
global. Ele cria o conceito de fábrica global, que se caracteriza pela transição do Fordismo
para o Toyotismo e a busca de vender para o mercado internacional, o que só foi possível com
a utilização de recursos informacionais, como a automação e a robótica. As decisões tomadas
pelos gestores de empresas transnacionais podem afetar radicalmente as condições de trabalho
dos indivíduos, visto que se dá no mundo de trabalho global um processo de piora das
condições de trabalho, inclusive com o não acesso dos trabalhadores a certos direitos
trabalhistas.
Teixeira e Larajeira (2007) discutem o novo tipo de trabalhador exigido pelas
empresas:
Assim, as exigências por um novo trabalhador, flexível, polivalente e moldado para
a competitividade, encontram-se intimamente relacionadas ao processo de
globalização da economia e às mudanças dos processos de trabalho e das formas de
sua organização e gestão. Vale observar, que esse padrão de acumulação flexível
está marcado pela brutal redução dos postos de trabalho tornando o desemprego uma
tendência que parece ser irreversível a persistir o atual modelo em que os
investimentos geram poucos postos, sobretudo nos setores mais dinâmicos que, por
seu turno, substituem sistematicamente a força de trabalho por tecnologia, numa
lógica de competitividade e sobrevivência das grandes empresas no âmbito da
internacionalização (TEIXEIRA e LARANJEIRA, 2007, p. 7).
Antunes e Alves (2004) assinalam que o novo mundo do trabalho vai ser marcado pela
expansão do emprego no setor de serviço, tal como se destaca a seguir:
É perceptível também, particularmente nas últimas décadas do século XX, uma
significativa expansão dos assalariados médios no “setor de serviços”, que
inicialmente incorporou parcelas significativas de trabalhadores expulsos do mundo
produtivo industrial, como resultado do amplo processo de reestruturação produtiva,
das políticas neoliberais e do cenário de desindustrialização e privatização. (p. 338).
Além disso, Antunes e Alves (2004) argumentam que o atual mundo do trabalho vem
excluindo os jovens do acesso ao emprego, levando este grupo social a ter as maiores taxas de
desemprego. Os autores demonstram também que o mundo do trabalho vem excluindo dos
empregos os indivíduos com idade superior a 40 anos, além de recusar os trabalhadores
herdeiros da cultura fordista de trabalho e em busca dos trabalhadores polivalentes exigidos
pelo Toyotismo.
Um aspecto importante a ser considerado, é o proposto por Oliveira e Campos. O avanço da
tecnologia leva os indivíduos a estabelecerem novas relações de trabalho e entre colegas de
trabalho. O trabalho remoto e virtual passa a ser uma realidade para a sociedade
contemporânea. Segundo estes autores,
O avanço das tecnologias da informação e a presença da convergência
midiática
vêm
causando
mudanças
significativas
na
sociedade
contemporânea, na medida em que os indivíduos vivem um momento
inédito nos processos de interação e relacionamento sociais. Assistimos ao
processo por meio do qual a sociedade percebe e se percebe a partir da
lógica da mídia, que agora se expande para além dos dispositivos
tecnológicos tradicionais (OLIVEIRA e CAMPOS, 2013, p. 42).
Os mesmos autores consideram o fenômeno denominado Web 2.0 como uma evidência do
processo de midiatização da sociedade e do ambiente empresarial, inaugurando a
potencialização dos processos interativos tendo a Internet como plataforma (OLIVEIRA e
CAMPOS, 2013).
3 - Os Parques tecnológicos e o mundo do trabalho
O parque tecnológico tem relevante papel social, pois estimula o desenvolvimento
local, gera trabalho e renda e proporciona maiores oportunidades para grupos que estão
excluídos do mercado de trabalho ou mesmo para aqueles que possuem perfil empreendedor.
Segundo Cooper (1971) o conceito de parque tecnológico surgiu nos Estados Unidos
em Stanford, Califórnia na década de 50.
Historicamente os parques tecnológicos surgiram próximos a universidades. O quadro
1 mostra os anos de surgimento de parques tecnológicos em diferentes países do mundo:
Quadro 1 - Surgimento dos parques tecnológicos no mundo
País
Ano de Surgimento
Nome do Parque
Estados Unidos
1951
Stanford Research Park
Reino Unido
1970
Cambridge Science Park
França
1972
Sophia Antipolis
China
1988
Zhongguancun Science Park
1986
Kanagawa Science Park
Japão
Fonte: Elaborado pelos autores
O parque tecnológico constitui-se numa área física delimitada, convenientemente
urbanizada, destinada às empresas intensivas em tecnologia que se estabelecem próximas às
universidades, com o objetivo de aproveitarem a capacidade científica e técnica dos
pesquisadores e seus laboratórios. Para as universidades, o parque representa a oportunidade
de obtenção de financiamento, melhorias, feedback das empresas e um campo de atuação para
os pesquisadores (SOLLEIRO, 1993). Dentro do parque tecnológico são instalados outros
empreendimentos de apoio às empresas como bancos, restaurantes e incubadoras.
Para Bakouros, Mardas e Varsakelis (2002) os parques tecnológicos são importantes
instrumentos para o desenvolvimento de ambientes inovadores por colocarem a disposição de
diferentes instituições uma infraestrutura técnica, logística e administrativa.
Bellavista e Sanz (2009) ressaltam que as instituições que podem obter grande
benefício desse ambiente propiciado pelos parques tecnológicos são universidades, empresas
inovadoras, startups de base tecnológica, centros tecnológicos e institutos de pesquisa.
Segundo análise realizada pela ANPROTEC (2007), o estado de São Paulo possui
cinco parques em operação, dois parques em fase de implantação e dez projetos de parques
tecnológicos, sendo o estado brasileiro com o maior número de parques no total. As cidades
sede dos parques são Campinas, São Carlos e São José dos Campos, municípios conhecidos
pelos seus centros de pesquisa avançados e universidades públicas conceituadas.
Deste modo, afirma-se que um parque tecnológico pode alavancar a economia de uma
cidade ou região, além de proporcionar oportunidades de trabalho e renda para várias pessoas
e, ainda, pode acompanhar o desenvolvimento de novas empresas e evitar que certos erros
aconteçam.
Manella (2009) afirma que os parques tecnológicos se destacam por serem
mecanismos que aceleram a inovação e o desenvolvimento regional, além de serem
alternativas para a instalação de empresas de base tecnológica. Pode-se assim entender que os
parques tecnológicos são formas de atração de investimentos, o que levará a novos negócios e
a geração de postos de trabalho.
Zammar, Kovaleski e Zanetti (2010) entendem que os parques tecnológicos são
ambientes de inovação que são instalados para agregar conhecimento e dinamizar as
economias regionais e nacionais, tornando-as competitivas no cenário internacional, além de
gerar empregos para mão-de-obra qualificada e consequente uma maior arrecadação de
tributos e bem estar social.
Segundo MDIC (2015) os parques tecnológicos têm como objetivo fornecer estrutura
e estimular as atividades de pesquisa científica, tecnológica e de inovação com a finalidade de
criar um ambiente de cooperação entre instituições de pesquisa e empresas com o apoio das
diferentes esferas do governo, do setor privado e da comunidade local.
Em uma esfera global, os parques tecnológicos apresentam diversos formatos,
contudo, segundo Spolidoro e Audy (2008, p.49) possuem alguns elementos essenciais:
­
Base Física: é formada pela área utilizada pelo parque, incluindo imóveis, terrenos e infraestruturas.
­
Base de Viabilidade: é formada pelo conjunto de condições que asseguram a viabilidade
institucional, política, técnica, ambiental e econômico-financeira do parque.
­
Base Funcional: é formada seu conjunto dos objetivos, filosofias, estratégias e procedimentos
operacionais do parque, bem como pela sua Governança (Gestão Operacional e Gestão
Estratégica).
Baseados nos conceitos introduzidos por Magacho (2010) e Spolidoro e Audy (2008),
os parques tecnológicos podem ser classificados conforme quadro 2 abaixo:
Quadro 2 – Tipos de Parques Tecnológicos
Classificação
Descrição
Foco Prioritário
Oferecer imóveis e infra-estrutura de elevada qualidade
Parques
Científicos
(Science Park)
Normalmente são de tamanho e serviços de suporte, no âmbito do parque, a empresas
médio, diretamente ligados às intensivas em conhecimento, centros de P&D e
universidades e não vinculados instituições de ensino e promover a sinergia das
às atividades manufatureiras.
entidades residentes e demais atores da inovação no
parque e em outros locais.
Podem ser de médio ou grande
Parques
porte, e tem como característica Promover intensa sinergia das empresas intensivas em
Tecnológicos
a disponibilidade de terras para conhecimento, centros de P&D, instituições de ensino e
(Technology Park) venda e aluguel e a produção outros atores da inovação no parque e em outros locais.
intensiva.
Ampliar as perspectivas dos estudantes da universidade
São relacionados com uma ou
Parques de
mais universidades, promovem
Pesquisa (Research pesquisa
Park)
e
desenvolvimento
por meio da parceria entre
universidade e indústria.
e contribuir para que o conhecimento nela gerado seja
útil à sociedade, em especial mediante a sua
transformação em inovações tecnológicas. Para tanto,
oferece condições para uma intensa sinergia da
universidade e empresas intensivas em conhecimentos,
centro de P&D e outros atores da inovação no parque e
em outros locais.
Fonte: elaborado pelos autores a partir de Magacho (2010) e Spolidoro e Audy (2008)
A Partir da criação das agências de fomento CNPq “Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico” em 1951 e a FINEP “Financiadora de Estudos e Projetos” em
1967, iniciou-se no Brasil a criação de um sistema de pesquisa cientíca. Os primeiros projetos
de parques tecnológicos originaram às primeiras incubadoras no Brasil, porém esse
movimento cresceu rapidamente no Brasil como alternativa para promoção do
desenvolvimento tecnológico, econômico e social. Segundo o levantamento realizado pela
ANPROTEC (2013) atualmente existem mais de 400 incubadoras de empresas distribuidas
em todo país, que envolvem mais de 6000 empresas a partir de incubadoras, universidades e
centros de pesquisa.
O crescimento acentuado do número de projetos de parques no país deve-se,
essencialmente, a um conjunto de fatores que atuam de forma integrada (ANPROTEC-ABDI,
2007, p. 7) :
­
Fortalecimento da consciência dos atores de governo acerca da importância da
inovação para o desenvolvimento sustentável e crescimento econômico do
país;
­
Aumento significativo do número de empresas interessadas em se instalar em
Parques Tecnológicos - empresas geradas ou graduadas em incubadoras,
empresas multinacionais de tecnologia e empresas nacionais determinadas a
fortalecer suas unidades de P&D;
­
Experiência bem sucedida de outros países como Espanha, Finlândia, França,
Estados Unidos, Coréia, Taiwan, entre outros, que estão investindo de forma
consistente neste mecanismo;
­
Necessidade de governos estaduais e municipais identificarem novas
estratégias de estimular o crescimento e direcionar o desenvolvimento de suas
regiões.
Pensando a partir de Touraine pode-se entender que os parques tecnológicos são mecanismos
que podem ajudar as sociedades a superar as crises econômicas e sociais e assim criar uma rota de
desenvolvimento econômico. Sobre a crise vivenciada pelas diversas economias, tanto de países
desenvolvidos quanto de subdesenvolvidos, Touraine (2011) argumenta que ela cria obstáculos à
formação de uma nova sociedade, bem como de novos atores econômicos, além de ser uma espécie
de ‘pane’ da sociedade capitalista e que coloca em risco o próprio funcionamento da sociedade, além
de gerar uma separação entre o mundo econômico e o mundo social. “Uma crise tão grave quanto
esta que enfrentamos não pode ser desvinculada da análise das transformações econômicas que
introduziram desequilíbrios, enfraquecendo alguns e enriquecendo outros. (TOURAINE, 2011, p.
98).
E esta crise do mundo contemporâneo tem como um dos seus efeitos mais cruéis o aumento
significativo do desemprego, assim pode-se refletir que incubadoras e parques tecnológicos podem
gerar novos negócios, novas empresas, novos empregos e consequentemente diminuir os efeitos da
crise econômica em que o Brasil e outros países estão inseridos. Sobre este momento de crise,
Touraine ainda afirma que: “Pela primeira vez na história, o mundo da produção, dos bancos e das
tecnologias é separado do mundo dos atores. Estes não podem mais, portanto, ser definidos por suas
funções ou por seus status na vida econômica.” (TOURAINE, 2011, p. 121).
Outro elemento relevante é que pela análise de Touraine a superação da crise pode se dar pela
criação de uma nova vida social que estabeleça formas novas de organizar a sociedade, menos
voltadas para o lucro e o curto prazo e mais voltadas para mais direitos e a valorização de projetos de
longo prazo. Os parques tecnológicos, por exemplo, podem ser um dos mecanismos criados em
novos projetos governamentais de longo prazo, que vão criar um novo tipo de vida econômica e
social sem que se espere os dias para a catástrofe final. “Não se trata de optar entre o presente e o
passado, mas entre uma série de crises e um projeto de construção de novas relações sociais e novas
instituições” (TOURAINE, 2011, p. 196).
Não se pode deixar de mencionar que os parques tecnológicos são ferramentas fundamentais
para o desenvolvimento econômico e social e cabe ao Poder Público, estabelecer mecanismos para a
criação, a ampliação e o aperfeiçoamento dos parques.
Na discussão sobre parques tecnológicos é interessante pensar que ela pode criar uma outra
ordem econômica e social, além de uma lógica de longo prazo, diferente daquela manifestada no
mundo atual baseada no curto prazo através do capital financeiro. Para isto, vale se basear na teoria
de Touraine (2011), em um recente livro “Após a crise: a decomposição da vida social e o
surgimento de atores não sociais”. Touraine argumenta que vivemos um momento histórico em que
os atores sociais perdem sua importância em um mundo em que a economia produtiva é suplantada
pela economia especulativa, que tem relação com o processo de crise intensificado na Europa e nos
EUA a partir de 2008. Ele ainda menciona que há uma separação da economia do restante da
sociedade, além da vitória do capital financeiro sobre a economia real. Mas este desdobramento pode
fazer surgir atores sociais que possam enfrentar esta crise e criar um projeto de longo prazo. Pode-se
dizer que os parques tecnológicos e os empreendedores por elas acompanhados podem ser estes
novos atores que podem criar uma outra cultura econômica e um novo projeto de desenvolvimento
para a sociedade. Duas interessantes reflexões de Touraine (2011) sobre isto:
A situação de crise que no início do século XXI domina a economia mundial, e que em grande
medida é devida ao desenvolvimento descontrolado do capitalismo financeiro, é bastante
desfavorável ao desabrochar de um novo modelo de sociedade. [...] Neste contexto, a reconstrução
social, que deve facilitar a primazia da ação de novos atores, é de fato bloqueada pela crise e pela
diminuição massiva dos recursos. A crise em si mesma não facilita a modernização do campo
político e social; é o inverso que é verdadeiro (p. 123-124).
Para entrar no novo mundo, urge dar vida àqueles atores que, por um lado, determinam a
consciência coletiva de ser parte integrante do mesmo momento histórico, e por outro, sublinham a
vontade de cada indivíduo de defender sua identidade própria, sua diferença (p. 66).
Diante deste contexto, as contribuições dos parques tecnológicos para a construção de
um novo mundo do trabalho torna-se um tema importante para ser analisado.
4 - Método
O estudo é do tipo exploratório (TRIVIÑOS, 1997) e de caráter qualitativo (MORESI,
2003). Trata-se de um ensaio teórico com base na literatura sobre mundo do trabalho e
parques tecnológicos. O estudo exploratório permite ao investigador aumentar sua experiência
em torno de determinado problema. O pesquisador parte de uma hipótese e aprofunda seu
estudo nos limites de uma realidade específica, buscando antecedentes, maiores
conhecimentos para, em seguida, planejar uma pesquisa descritiva ou de tipo experimental
(TRIVIÑOS, 1987, p. 109).
Segundo Moresi (2003) a pesquisa qualitativa é frequentemente usada quando há
necessidade de se analisar dados não numéricos sobre determinado tema. Esse tipo de
pesquisa é particularmente usado para determinar o que é realmente útil e importante para a
composição de um estudo. É usado também para identificar a extensão total de respostas ou
opiniões que existem em um mercado ou uma população.
O estudo exploratório teve por finalidade identificar ações que demonstrem as
contribuições dos parques tecnológicos para uma nova configuração do mundo do trabalho e
consequente desenvolvimento econômico.
5 - Resultados encontrados
A partir do panorama apresentado para o novo mundo do trabalho e dos dados
apontados pelos relatórios do MCTI, CDT/UnB e ANPROTEC foram estabelecidas algumas
comparações e reflexões sobre o papel dos parques tecnológicos na construção de um novo
mundo do trabalho.
Percebe-se que o cenário de políticas públicas voltadas para a inovação e que incentiva
o empreendedorismo torna-se um ambiente favorável para a criação de novos parques
tecnológicos, bem como incubadoras de empresas e outras iniciativas voltadas para a geração
de novos negócios.
Os parques tecnológicos (...) têm demonstrado eficiência na transferência de
conhecimento de instituições de ciência e tecnologia para o setor
empresarial. São as principais fontes qualificadoras e geradoras de empresas
de base tecnológica, que se caracterizam pela forte agregação de tecnologia e
inovação nos seus produtos, processos e serviços (MCT&I e CDT, 2013,
p.3)
Em pesquisa realizada pelo Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico – CDT
e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, foi realizado um levantamento do
panorama dos parques tecnológicos no Brasil. Do total de 98 iniciativas de parques
conhecidas no Brasil, 80 responderam à pesquisa. Os dados estão apresentados na tabela 1.
Parques Tecnológicos em números
Nº de parques em operação
28
Nº de parques em implantação
28
Projetos de novos parques
24
Nº de empresas instaladas nos parques
939
Empregos gerados por todo o conjunto de parques em operação
32.237
Empregos gerados para a equipe de gestão dos parques
531
Investimento público federal
1,22 bilhões
Investimento estadual/municipal
2,43 bilhões
Investimento privado
2,11 bilhões
Tabela 1 – Panorama de Parques Tecnológicos no Brasil
Fonte: MCT&I e CDT (2013, p. 9).
Os dados da tabela 2 mostram que o número parques em implantação dobrou o
número de parques em operação e mostra a perspectiva de novos parques, considerando os
projetos já existentes. Percebe-se, também, um investimento das esferas estaduais e
municipais em praticamente o dobro dos investimentos federais. Fato este que demonstra uma
visão dos governos estaduais e municipais da importância dos parques tecnológicos como
geradores de renda e de novos postos de trabalho.
Região
Número de Parques
Norte
5
Nordeste
7
Centro-Oeste
8
Sudeste
39
Sul
35
80
Total
Tabela 2 – Distribuição de Parques por região
Fonte: MCT&I e CDT (2014, p. 47)
Do total de 80 parques estudados, percebe-se uma concentração de iniciativas nas
regiões sul e sudeste. Ao considerar-se que os elementos que dinamizam um parque
tecnológico são as universidades e as empresas, entende-se porque o número de parques é
maior nas regiões sul e sudeste. Cabe ressaltar que o número de iniciativas nas regiões norte,
nordeste e centro-oeste menores é devido a concentração também menor de instituições de
ciência e tecnologia e que tais iniciativas estão próximas das grandes universidades destas
regiões.
As quantidades de iniciativas e de investimentos públicos e privados em parques
tecnológicos mostram que estes mecanismos são fundamentais para que o conhecimento das
universidades seja absorvido pelo mercado e que estes investimentos realmente têm potencial
para a geração de emprego e renda. Na tabela 3, é possível observa que as empresas que
compõem o parque empregam um número significativo de mestres e doutores que,
normalmente, ficariam nas universidades, desenvolvendo suas pesquisas intramuros.
Categoria dos empregos gerados pelas empresas instaladas nos parques
doutores
mestres
especialistas
empregados de nível superior
empregados de nível médio
empregados de nível fundamental
Total de empregos gerados pelas empresas instaladas nos parques pesquisados
Tabela 3 – Empregos gerados nas empresas instaladas em parques
Quantidade
1098
2.950
2364
17.630
5323
544
29.909
Fonte: MCT&I e CDT (2013, p. 9)
Os dados da tabela 3 mostram um número predominante de empregos gerados para
categoria de nível superior e pós-graduação. Estes dados evidenciam que a mão de obra
empregada nestes parques possui competência diferenciada e com potencial para a geração de
massa crítica que pode vir a gerar ou contribuir para a geração de novas tecnologias.
De acordo com os resultados da pesquisa,
uma vez em operação, os recursos alocados pela iniciativa privada são
largamente superiores aos investimentos realizados com recursos federais,
demonstrando que as empresas estão identificando esses habitats como uma
excelente oportunidade para desenvolver soluções inovadoras (MCT&I e
CDT, 2013, p.6)
As quantidades de iniciativas e de investimentos públicos e privados em parques
tecnológicos mostram que estes mecanismos são fundamentais para que o conhecimento das
universidades seja absorvido pelo mercado e que estes investimentos realmente têm potencial
para a geração de emprego e renda. Empresas que compõem o parque empregam um número
significativo de mestres e doutores que, normalmente, ficariam nas universidades,
desenvolvendo suas pesquisas intramuros (MCT&I e CDT, 2013, p. 9).
O mesmo estudo mostra que as iniciativas existentes dentro dos parques geraram
32.237 empregos, distribuídos entre institutos de pesquisa (1.797), gestão das próprias
estruturas (531) e iniciativa privada (29.909).
O estudo do MCT&I e CDT (2013) analisou 80 parques tecnológicos, sendo que 84%
se encontram nas regiões Sul (34) e Sudeste (33), em diversas fases de desenvolvimento
(projeto, implantação e operação). O Nordeste tem quatro em operação e dois em
implantação. Já, as regiões Norte e Centro-Oeste possuem juntas, sete parques tecnológicos,
porém nenhum destes encontra-se em operação (Figura 2).
Figura 2 – Distribuição dos parques tecnológicos no Brasil
Fonte: MCT&I e CDT (2013, p. 14 )
Estes resultados mostram que os parques tecnológicos abrem um novo campo de
atuação para mestres e doutores que, até então, tinham como principal mercado de atuação a
academia. Com o incentivo a criação de parques tecnológicos, aliado a Lei de Inovação
(BRASIL, 2004), um novo campo de atuação se abre para o pesquisador e ele pode dar
continuidade a sua pesquisa, criar um protótipo e desenvolver um novo negócio.
Para o desenvolvimento do projeto, implantação e operação dos parques tecnológicos
é necessário um esforço conjunto entre o governo federal, governo municipal, governo
estadual e iniciativa privada, contudo a contribuição de cada fonte varia de acordo com a fase
de instalação dos parques. Durante a fase de projeto o governo federal investiu 54% do total.
No período de implantação, os governos estaduais e municipais se responsabilizaram por
aproximadamente 92% dos recursos financeiro. Entretanto, quando os parques tecnológicos
entraram em operação, 55% dos recursos são advindos da iniciativa privada.
Estes investimentos evidenciam o incentivo dos governos federal e estadual, através de
suas políticas de ciência, tecnologia e inovação, para a criação de novos habitats de inovação
que vão proporcionar um ambiente diferenciado de trabalho, estimulando a geração de novas
tecnologias e estabelecendo uma nova configuração de mercado de trabalho mais
especializado e voltado para áreas de alta tecnologia, onde o conhecimento é o capital
essencial.
Dentre as principais áreas de atuação dos parques tecnológicos em implantação e
operação (Figura 3), destacam-se a área de Tecnologia de Informação (36), Setor de
Biotecnologia (27) e o Setor de Petróleo e Gás Natural (26).
Figura 3 – Principais Áreas de atuação dos Parques Tecnológicos.
Fonte: ANPROTEC (2013, p. 22)
Dos 29.909 empregos gerados pelas empresas instaladas nos parques, 1.098 são profissionais com Doutorado, 2.950 profissionais com Mestrado, 2.364 profissionais com cursos
de especialização e 17.630 possuem nível superior, evidenciando a contratação de
profissionais altamente qualificados.
Os dados apontam um direcionamento dos investimentos destinados aos parques
tecnológicos para áreas consideradas de alta tecnologia. O perfil do profissional que atua
nestas áreas possui, em geral, uma competência diferenciada. Pode-se considerar que o
incentivo a criação e manutenção de parques tecnológicos abre espaço para um mercado de
trabalho que exige uma mão de obra também diferenciada, caracterizada pela criatividade e
empreendedorismo.
O relatório do MCT&I e CDT (2013, p. 34) enfatiza a necessidade de promover o
surgimento de “habitats de inovação em áreas menos desenvolvidas, para explorar suas
vantagens competitivas e apoiar setores da economia com maior valor agregado”. Diante
disso, editais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq/MCTI) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep/MCTI) direcionam 30% dos
recursos para Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Diante disso, os resultados mostram que os parques tecnológicos são instrumentos
importantes para o desenvolvimento de novos negócios que trazem novos empregos e geram
renda para a região onde estão inseridos, apresentando uma nova abordagem para o novo
mundo do trabalho.
6 - Referências bibliográficas
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